Alta Idade Média: Formação Feudal e Cultura
Alta Idade Média: Formação Feudal e Cultura
Saxônia
Celtas Jutas
Frisões
Saxões Aachen
Bretões
OCEANO Eslavos
ATLÂNTICO Turíngios Australásia
Hunos
Baviera
Bretões Paris Lombardos OCEANO Nêustria
ATLÂNTICO Caríntia
Gépidas
Borgonha
io
Da
núb PONTO EUXINO Lombardia
Aquitânia
Roma Armênios
HISTÓRIA
feudalismo teve sua origem na França, nos séculos IX e X,
e deram origem às relações de vassalagem e suserania.
e seu desaparecimento deu-se ao longo dos séculos XV e
XVI. De acordo com o historiador Marc Bloch, o feudalismo Como já foi dito, o reinado de Carlos Magno colaborou para
pode ser resumido em: a expansão dessas relações, visto que, naquele contexto,
o monarca distribuía lotes de terra (condados e as marcas)
entre os guerreiros que o auxiliavam nas conquistas de novos
Um campesinato mantido em sujeição; uso generalizado territórios. Aqueles que passavam a deter direitos sobre
do serviço foreiro (isto é, o feudo) em vez de salário [...]; a essas faixas de terra passavam a ser condes e marqueses,
supremacia de uma classe de guerreiros especializados; formando-se, desse modo, uma nobreza fundiária.
vínculos de obediência e proteção que ligam homem a
homem e, dentro da classe guerreira, assumem a forma
específi ca denominada vassalagem; fragmentação da Os laços feudo-vassálicos eram estabelecidos por três
autoridade [...] atos, que correspondiam às necessidades recíprocas
BLOCH, Marc. A sociedade feudal. Lisboa: Edições 70, 1987. que justifi cavam sua existência. O primeiro era a
homenagem, o ato de um indivíduo tornar-se “homem”
A estrutura feudal clássica predominou na Europa Ocidental, de outro. O segundo era a fi delidade, juramento feito
principalmente em sua porção central, e deve ser sobre a Bíblia ou sobre relíquias de santos e muitas
compreendida em suas diversas manifestações, sejam elas vezes selado por um beijo entre as partes. O terceiro era
políticas, econômicas, culturais ou religiosas.
a investidura, pela qual o indivíduo que se tornava
senhor feudal entregava ao outro, agora vassalo, um
objeto (punhado de terra, folhas, ramo de árvore, etc.)
Política simbolizador do feudo que lhe concedia.
Em geral, a política feudal foi caracterizada pela FRANCO JÚNIOR, Hilário. Idade Medieval. A Idade Média:
fragmentação do poder, afi nal, as constantes guerras e
invasões, bem como as relações de vassalagem e suserania, nascimento do Ocidente. São Paulo: Editora Brasiliense, 2001.
colaboraram para o enfraquecimento do poder real.
Apesar da isolada ação do Império Carolíngio, Após o juramento de fi delidade, constituía-se um laço
a descentralização teve sua origem no declínio do Império contratual que unia dois homens livres: o suserano, que
Romano, quando, gradativamente, o Estado foi concedendo contaria com a prestação de serviços militares por tempo
atribuições estatais aos grandes proprietários de terra.
determinado, e o vassalo, que recebia o feudo e devia
A grande extensão do Império levou à implantação dessa
situação, mantida após as migrações dos povos germânicos. lealdade ao senhor. Aquele que cedia os direitos perdia parte
A diversidade desses povos e os constantes conflitos de seu poder político, que era transferido para o vassalo, e,
impediram o retorno à unidade. em troca, recebia proteção no caso de guerras.
A expansão desses laços pessoais contribuiu para o Nos feudos, predominava o poder dos senhores feudais,
enfraquecimento do poder do rei, que passou a ser um nobres ou membros do clero, que impunham a
suserano, e reforçou os poderes locais. Em seu feudo, administração, aplicavam a justiça e garantiam a ordem.
portanto, o senhor poderia aplicar a justiça, garantir a Esta independência de poderes refletia-se também na
proteção e tratar da administração e da fiscalização. Esse economia, já que o sistema de pesos e medidas e as moedas,
contexto reforçou o caráter militar da nobreza medieval, ainda escassas, variavam de feudo para feudo, dificultando
constituída como um grupo dedicado às guerras. Assim, as as relações comerciais.
guerras medievais diferiam das contemporâneas, pois eram
As terras feudais eram divididas em mansos: o senhorial,
disputadas por um grupo restrito da elite, os cavaleiros.
o servil e o comunal. No manso senhorial, encontrava-se o
A fragmentação política foi característica da maior parte castelo, residência fortificada dos nobres. Nessas terras, o
da Alta Idade Média e só começou a ser superada a partir do trabalho era executado pelos servos e toda a produção era
século XI, momento em que ocorreram os primeiros passos destinada aos senhores. Os mansos servis, por sua vez,
rumo à consolidação dos Estados europeus. eram terrenos arrendados aos servos em troca de proteção
e explorados pelos próprios servos, que deviam várias
obrigações ao senhor. Já o manso comunal era formado
Economia por pastos e bosques de uso comum, ou seja, sujeito à
exploração tanto dos senhores quanto dos servos.
Até os séculos IX e X, é possível dizer que a economia
europeia passou por um período de retração e A relação de trabalho predominante nos feudos foi a
estagnação. As produções agrícola, artesanal e comercial servidão, que, como já visto, teve sua origem no colonato,
foram reduzidas, principalmente, em razão do retrocesso ainda no Império Romano. No entanto, o servo estava
demográfico percebido no período. Predominava, nesse vinculado à terra, embora, em muitos casos, esse vínculo
primeiro momento, a produção agrícola em propriedades pudesse ser rompido, e devia ao senhor uma série de
que se assemelhavam às vilas de origem romana. Nessas obrigações, pagas em forma de trabalho. Entre as várias
propriedades, existiam os lotes reservados aos senhores e obrigações, podem ser destacadas as principais, como:
aqueles destinados aos camponeses. • corveia: trabalho não remunerado nas terras
do senhor, geralmente três dias por semana, no
A produção voltada para subsistência e os constantes
cultivo ou em outros serviços, como a construção,
conflitos provocaram a diminuição das transações comerciais a manutenção e o transporte.
e do uso da moeda, sem causar, no entanto, o seu
desaparecimento. O mesmo pode ser dito em relação às • censo: uma pequena renda fixa paga em dinheiro ou
cidades: o processo de ruralização não provocou o completo em espécie.
abandono da vida urbana. As relações comerciais ocorriam • mão-morta: cobrança pela transferência hereditária,
de maneira esporádica, por exemplo, quando determinado taxa cobrada para permitir que o filho do camponês
produto não fosse comum em uma região. Mercadores permanecesse na terra.
judeus tiveram importância nessas transações, trazendo
• banalidades: taxas pelo uso do moinho, do forno e
seda, especiarias e sal de outras regiões.
de outras instalações de propriedade do senhor.
Se os primeiros anos da Idade Média foram marcados por talha: parcela paga pela produção no manso servil.
•
instabilidades sociais, a partir do século XI, observa-se o
• champart (de campi pars, “parte da colheita”): devida
aumento demográfico na Europa Ocidental. Esse aumento pelo camponês e proporcional ao resultado da colheita
ocorreu, entre outros fatores, devido ao fim das invasões e nas terras servis.
dos conflitos, bem como em razão das limitações da guerra
medieval, que nem sempre fazia um grande número de dízimo: taxa devida à Igreja.
•
vítimas e caracterizava-se pelas interrupções constantes
relacionadas às obrigações entre vassalos e suseranos. Apesar de realizar um trabalho compulsório e, em muitos
O desenvolvimento das técnicas agrícolas e a expansão das casos, não poder abandonar a terra, o servo não pode ser
áreas cultivadas também colaboraram para o aumento da considerado como escravo. Esta diferença é relevante, pois o
produção e para o consequente crescimento populacional. servo não era considerado uma propriedade, por mais que,
em alguns casos, tenha sido comprado ou vendido. Além
Uma das inovações apresentadas foi a utilização do disso, o servo podia trabalhar para o seu próprio sustento e
sistema trienal (o que permitia que uma faixa de terra deveria ser protegido pelos senhores. Por outro lado, o servo
descansasse enquanto outras duas eram cultivadas, também não era um trabalhador livre, já que estava
possibilitando o resgate da produtividade agrícola), submetido pelos senhores feudais ao trabalho e ao
da charrua (instrumento puxado por cavalos – animais de pagamento em serviços de forma obrigatória.
maior robustez – capaz de perfurar em maior profundidade
o subsolo, preparando adequadamente o solo para ser
cultivado), da força motriz animal, do adubo mineral e dos
moinhos de água e de vento. EXPANSÃO DO FEUDALISMO
Concomitantemente ao aumento da população europeia, O crescimento demográfico, agrícola e comercial, a partir do
observou-se a expansão dos feudos, unidades básicas século XI, provocou alterações no panorama europeu. Por
de subsistência e provedoras de toda a sobrevivência do um lado, o feudalismo atingiu seu apogeu na Europa nesse
mundo feudal. Além da produção agrícola, o artesanato e período, mas, por outro, as mesmas transformações que
a manufatura eram atividades praticadas nesse período. levaram o sistema feudal a uma estabilização colaboraram
Os artesãos produziam armas, tecidos, móveis e ferramentas para a desarticulação do mundo feudal e para a formação
destinados ao consumo restrito. dos Estados Modernos.
As cidades, à medida que se expandiam, aceleravam o No mundo urbano, os habitantes desfrutavam de maior
processo de crise do modelo feudal, pois permitiam que liberdade, vendo-se desvinculados de alguns laços feudais.
uma nova camada social, os comerciantes, progredisse em Era comum, em algumas regiões, que servos para lá
termos fi nanceiros. Esse fator atraía cada vez mais fugissem, tornando-se livres. Caso após um dado período os
descontentes que buscavam tentar a sorte nas cidades, senhores não conseguissem recuperá-los e levá-los de volta
estimulando-os a romper com o modelo feudal ainda em ao feudo, essa liberdade seria então defi nitiva. Com tal
curso. É fundamental, assim, o estudo da expansão estratégia, arrebanhava-se mão de obra para os centros
urbano-comercial estimulada pelas Cruzadas, bem como o urbanos em expansão.
da crise do século XIV, para se compreender as
Por se situarem em propriedades de senhores feudais,
transformações que levaram à consolidação de novas
no entanto, os citadinos ainda estavam submetidos ao
formas de organização política no interior da Europa. pagamento de tributos e à prestação de serviços ao senhor,
embora possuíssem autonomia administrativa para gerir os
centros urbanos. O documento a seguir apresenta algumas
Expansão comercial e urbana das reivindicações dos citadinos:
HISTÓRIA
Nesse contexto, novas técnicas de produção foram
domínio, os habitantes das cidades organizaram movimentos
aperfeiçoadas, colaborando para que houvesse nítido
comunais, que resultaram na conquista da autonomia política
avanço comercial.
para a cidade, inclusive subordinando os senhores, o que
Surgiram, dessa forma, os primeiros núcleos urbanos nas fortaleceu os laços de solidariedade entre os citadinos,
rompendo com a dominação feudal. Apesar desses confl
principais rotas comerciais. Entre 1150 e 1330, o mundo
itos, os habitantes das cidades e os senhores possuíam
urbano medieval viveu seu apogeu. De acordo com Jacques
forte interdependência, já que, em alguns casos, as cidades
Le Goff, historiador que se destaca como referência nas
necessitavam da proteção que só os nobres poderiam
pesquisas sobre a Idade Média:
proporcionar.
A atividade econômica, cujo centro são as cidades, chega Assim, como forma de reafirmar sua autonomia, os
ao seu mais alto nível. Sob a égide de uma Igreja [...] uma tribunais estabelecidos pelos cidadãos, que também
nova sociedade, marcada pelo cunho urbano, manifesta-se cuidavam da administração e da infraestrutura no mundo
num relativo equilíbrio entre nobreza, que participa do urbano, adotaram símbolos próprios, tradição essa de origem
movimento urbano mais do que se tem afi rmado, aristocrática, como a criação de selos com traços referentes
burguesia [...] e classes trabalhadoras, das quais uma parte – aos centros urbanos:
urbana – fornece a massa de mão de obra às cidades, e a
outra – rural – alimenta a cidade e é penetrada por seu As divisas dos primeiros selos inspiravam-se tanto em
dinamismo. A cultura, a arte e a religião têm uma fi símbolos religiosos quanto em heráldicos, em paisagens
sionomia eminentemente urbana.
da cidade com seus portões e muralhas, e
LE GOFF, Jacques. O apogeu da cidade medieval. ocasionalmente em retratos. O selo de Doullens
São Paulo: Martins Fontes, 1993. (Somme) reproduz as cabeças dos Scabini, ou
magistrados municipais, por exemplo.
Em algumas das grandes cidades europeias desse período, a
população chegava a 40 mil habitantes e, apesar de LOYN, Henry R. (Org.) Dicionário da Idade Média.
vinculada às atividades comerciais, dependia dos alimentos Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.
vindos do mundo rural. Não é correto, desse modo, associar o
crescimento da cidade ao declínio dos feudos, visto que os
Nas cidades, a atividade econômica se desenvolveu
feudos, inicialmente, colaboraram para sustentar a expansão
principalmente nos setores do comércio e do artesanato. Os
urbana mediante o abastecimento agrícola.
mercadores, chamados também de burgueses, dominavam
Nesse contexto, surgiram os chamados forisburgos (do as atividades comerciais e em muitas cidades controlavam
inglês, borough = cidade pequena e cercada de muralhas). também o poder político. A revitalização do uso da moeda
Os grandes muros eram estratégia de defesa para resguardar acompanhou a expansão comercial. Os produtos do grande
mercadorias, comércio e lucros obtidos, visando à proteção comércio eram os grãos, o vinho, o sal, os couros e as peles,
e à regularização do tráfego, assim como à organização da os tecidos, os minerais e os metais e, secundariamente, a
cobrança de impostos. madeira.
Em Douai, em 1284, um peixeiro é espancado quase até a
morte por seus concorrentes porque vende sua mercadoria
mais barato.
Mercadores de Bolonha discutem preços na venda de peles de A expansão da atividade comercial reanimou o comércio
animais (1339). de longa distância. No entrecruzamento das principais
rotas comerciais, as feiras medievais se fortaleceram.
O poder dos comerciantes nas cidades aumentava
Nos séculos XII e XIII, as feiras eram os grandes centros
gradativamente, o que os levou a se associarem. Tais
de comércio europeus, sendo que algumas recebiam
associações eram denominadas guildas e tinham como
mercadores de todo o continente. Cada uma delas era
objetivo defender os interesses dos mercadores, como
realizada em dias específi cos, tornando-se grandes eventos
também garantir a isenção de certos impostos e facilitar a
que, em alguns casos, chegavam a durar semanas.
realização das atividades comerciais de seus membros,
As atividades fi nanceiras e bancárias ganharam espaço,
mediante o controle de preços previamente articulados, por
exemplo. Do mesmo modo que defendiam os negócios de viabilizando as transações financeiras nesses locais e
seus associados nas cidades, as guildas os defendiam das tornando possíveis empréstimos e notas bancárias, o que
relações comerciais empreendidas por seus associados no facilitou as trocas realizadas entre pessoas provenientes de
exterior. No mundo urbano, seu poder cresceu de tal forma diferentes partes da Europa.
que extrapolou a esfera econômica, tornando-se algumas As feiras proporcionaram a regularidade do comércio
guildas potências políticas: europeu na Baixa Idade Média, visto que garantiam o
encontro frequente entre os mercadores de várias regiões.
Na região de Champagne, na França, as feiras recebiam
Era o caso dos poderosos mercadores importadores e
mercadorias provenientes das regiões de Flandres, Gênova,
exportadores pela via fl uvial do Sena. Desde o século
Veneza e de regiões da atual Alemanha. A lã inglesa,
XII, em Paris, a guilda [...] é uma potência econômica e
as especiarias e os corantes mediterrâneos, as peles e os
política. Em Rouen [...] rege tudo quanto concerne ao
linhos alemães, os artigos espanhóis de couro eram as
porto e ao tráfi co no Sena [...] freqüentemente entra
principais mercadorias de troca. Nessa região, a duração das
em choque com o prefeito.
feiras podia chegar a cinquenta dias, conforme explicitado
LE GOFF, Jacques. O apogeu da cidade medieval. no quadro a seguir:
São Paulo: Martins Fontes, 1993.
Bergen
Estocolmo
PESCADO Novgorod
CO
BETUME PELES
I
LT
PELES Pskow
BÁ
MADEIRA
MAR DO R Riga CEREAIS
NORTE MA
PELES
CARVÃO PESCADO MEL Moscou
Könisberg CERA
Kiel Stralsund
Hull Rostock Gdansk
Lübeck
Bremen Hamburgo
LÃ Londres Breslau
Bruges Colônia
Leipzig Kiev ESCRAVOS
ESTANHO Sara
Bruxelas Cracóvia CEREAIS
TECIDOS MADEIRA
Paris METAIS
VINHO Viena
Augsburgo
Budapeste
Chalons Tana
OCEANO Limoges Milão Veneza
ATLÂNTICO Bordeaux
Avignon Gênova
Belgrado Feodosiva
Marselha Pisa Florença
Siena Ragusa Nish MAR
Montpellier NEG
Roma RO
HISTÓRIA
CÓRSEGA
FRUTAS SECAS Constantinopla
Barcelona Nápoles Durazzo
E CÍTRICAS Preveza
COURO Valência AZEITE DE
SARDENHA
Toledo OLIVA
MEL MAIORCA
Córdoba
A expansão comercial provocou transformações nas estruturas da sociedade europeia que, mesmo tendo mantido o seu
caráter rural, viu surgir novas forças sociais vinculadas às cidades. Novas formas de sociabilidade surgiam no mundo urbano,
produzindo efeitos nas estruturas feudais.
A Igreja, ainda detentora de grande poder, se posicionava contra essas mudanças devido à emergência de uma nova fonte
de autoridade na sociedade. Além disso, a vida urbana estimulava laços de solidariedade fora da Igreja, entre os próprios
membros da comuna e seus simpatizantes e agregados.
A atividade comercial sofria uma forte restrição ao ser combatida pela instituição medieval mais poderosa. Para a Igreja, as
mercadorias deveriam ser vendidas pelo seu justo preço e não com a intenção do lucro. Os juros eram vistos como atividades
ilícitas, já que os seus praticantes estariam lucrando sobre o tempo, pertencente a Deus.
CRUZADAS
As Cruzadas foram expedições militares e religiosas que, inicialmente, tinham dois objetivos principais: a conquista da Terra
Santa, em especial da cidade sagrada de Jerusalém, e a contenção do avanço muçulmano na região do Império Bizantino. A
expulsão dos muçulmanos também era vista como forma de expansão do cristianismo, e era incentivada pela Igreja como uma
continuação do movimento de Reconquista ibérica, que também se deu com objetivos semelhantes. A luta pela retomada da
região das mãos dos mouros é considerada uma manifestação do espírito das Cruzadas.
Outro objetivo da Igreja com as Cruzadas foi a repressão aos movimentos heréticos dos cátaros no sul da França.
A perseguição às chamadas heresias demonstra que os ataques não se reservaram aos infiéis, como eram chamados os muçulmanos,
mas também atingiram os cristãos europeus que se vinculavam a práticas espirituais que não fossem o catolicismo.
Peste, fome e guerra
Além dos motivos religiosos citados, o movimento
apresentava outras motivações de natureza econômica, afi
nal, para as cidades do Mediterrâneo, como Veneza, as O século XIV foi marcado por uma série de calamidades que
Cruzadas representavam uma possibilidade de lucro nas colaboraram para acelerar as transformações no interior do
áreas que viriam a ser conquistadas em direção ao Oriente. feudalismo. Esses acontecimentos tiveram origem na
Além disso, as riquezas e as terras do Mediterrâneo Oriental própria expansão da economia feudal. O crescimento
eram cobiçadas pelos nobres da Europa Ocidental, que demográfi co e comercial observado a partir do século XI
começavam a buscar novas fontes de riqueza devido ao provocou transformações no panorama da sociedade
crescimento demográfi co. europeia, levando a novos métodos de exploração agrícola,
como a irrigação, a drenagem e o sistema de rotação de
Do ponto de vista social, as Cruzadas significavam culturas, que transformaram em terras férteis locais antes
uma possibilidade de diminuir os confl itos, cada vez mais caracterizados por pântanos e regiões muito secas.
constantes, no interior da nobreza europeia, uma vez que
a belicosidade dos nobres seria canalizada para o Oriente, A destruição de áreas fl orestais foi típica desse período,
empreendimento esse justifi cado pelos objetivos religiosos. aumentando a área cultivável em várias regiões da
A busca pela Terra Santa era, ainda, uma possibilidade para Europa. Esse processo de expansão das áreas produtivas,
o escoamento do excedente populacional, direcionado para conhecido como arroteamento, acarretou enormes impactos
a composição dessas expedições. ambientais. No início do século XIV, portanto, foi registrado
Ao todo, foram realizadas cinco grandes Cruzadas em um grave desequilíbrio climático responsável por um período
de intensas chuvas entre os anos de 1315 e 1317.
direção ao Oriente e travadas inúmeras batalhas entre
cristãos e muçulmanos. Se, para os cristãos, a guerra era Os efeitos dessas alterações foram percebidos na agricultura,
considerada justa, para seus inimigos, os cristãos eram que sofreu uma considerável retração. A consequência mais
selvagens e bárbaros. Apesar dos ataques violentos, a imediata desse fato foi a fome generalizada. A morte
conquista defi nitiva de Jerusalém, o principal objetivo causada pela falta de alimentos provocou o início da
religioso do movimento, não ocorreu. A reaproximação reversão do crescimento populacional europeu. Outra
com o Império Bizantino foi difi cultada devido aos saques decorrência da crise de produção foi o aumento da
constantes dos europeus ocidentais nessa região. exploração sobre os camponeses, já que, naquele momento,
os grandes senhores não podiam aceitar a queda de seus
Apesar de fracassar quanto aos objetivos religiosos, rendimentos. Essa população, faminta e superexplorada, não
é possível afi rmar que as Cruzadas provocaram profundas teve, desse modo, como resistir à expansão de diversas
alterações na Europa feudal. Do ponto de vista econômico, epidemias, como a Peste Negra.
o contato com os árabes dinamizou as relações entre os
europeus e o Oriente. As especiarias trazidas do mundo A Peste Negra havia sido epidêmica na Europa medieval no
oriental pelos árabes ou vindas das rotas que passavam século VI, tendo desaparecido no século VIII, mas retornou
pelo Império Bizantino eram revendidas em toda a Europa no século XIV e continuou endêmica no continente até o
pelos comerciantes das cidades de Gênova e Veneza. período posterior ao século XVII. A partir de 1340, a Peste
A propagação das culturas helênica, bizantina e árabe se alastrou pelas regiões das atuais Itália, França, Inglaterra,
colaborou, ainda, para o desenvolvimento artístico e Alemanha e Polônia, gerando grande destruição.
científi co da Europa cristã.
Em contrapartida, a participação nessas guerras A origem da Peste Negra teria sido na Ásia Central,
colaborou para o relativo enfraquecimento da nobreza transmitida por um bacilo, apenas descoberto em 1894.
feudal, visto que o envolvimento nas disputas gerava gastos Teve como vetores as pulgas transportadas pelos ratos,
e que as derrotas agravaram a situação dos nobres. Em podendo ser pneumônica ou bubônica, levando o indivíduo
muitos casos, os senhores, ao voltarem das expedições, contaminado à morte em um período de três a seis dias.
se viam obrigados a conceder a liberdade aos servos que, Acredita-se que a epidemia teria voltado à Europa com os
naquele momento, eram cada vez mais atraídos para a navios italianos que carregavam as especiarias
vida nas cidades. provenientes da Ásia. Para o homem medieval, a explicação
adquiriu caráter místico, como a ideia de um castigo divino
ou da disseminação por parte dos judeus. O não
CRISE DO FEUDALISMO
conhecimento das formas de contágio e a falta de higiene
das cidades contribuíram para a expansão da doença.
HISTÓRIA
O cristianismo tornava-se, portanto, uma religião de Estado.
Pieter Brueghel
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