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Alta Idade Média: Formação Feudal e Cultura

O documento aborda a formação, apogeu e crise do sistema feudal na Idade Média, destacando a transição do feudalismo e a revalorização do período a partir do século XIX. A Alta Idade Média é caracterizada pela formação de reinos germânicos e a consolidação do cristianismo, enquanto a Baixa Idade Média testemunha a decadência do feudalismo e o surgimento de novas dinâmicas políticas e sociais. O texto também menciona a importância de figuras como Carlos Magno e o impacto das invasões que levaram à fragmentação do poder político na Europa.

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Alta Idade Média: Formação Feudal e Cultura

O documento aborda a formação, apogeu e crise do sistema feudal na Idade Média, destacando a transição do feudalismo e a revalorização do período a partir do século XIX. A Alta Idade Média é caracterizada pela formação de reinos germânicos e a consolidação do cristianismo, enquanto a Baixa Idade Média testemunha a decadência do feudalismo e o surgimento de novas dinâmicas políticas e sociais. O texto também menciona a importância de figuras como Carlos Magno e o impacto das invasões que levaram à fragmentação do poder político na Europa.

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HISTÓRIA

Formação, apogeu e crise do


sistema feudal
CRONOLOGIA A partir do século XIX, no entanto, a Idade Média passou a ser
revalorizada e revista. Foram os românticos – que se
opunham ao Racionalismo Moderno – quem resgataram os
Tradicionalmente, a Idade Média é caracterizada como o
medievais e os consideraram os formadores das
período que se estende do século V, mais precisamente da
nacionalidades europeias. Um dos ápices do resgate
queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C., até os
medieval ocorreu durante as invasões napoleônicas do
séculos XV e XVI. Ainda de acordo com essa divisão, o
século XIX, já que, diante da expansão francesa, as nações
Período Medieval pode ser separado em Alta Idade Média,
oprimidas exacerbaram o seu discurso nacionalista.
dos séculos V ao IX, e Baixa Idade Média, dos séculos X ao XV.
No período da Alta Idade Média, ocorreu a formação do Os historiadores do século XX, por sua vez, passaram a
feudalismo, e, ao longo da Baixa Idade Média, assistiu-se à perceber o Período Medieval a partir de suas especificidades.
consolidação e à decadência do mundo feudal. Sabe-se hoje que o desenvolvimento técnico, como na área
Para alguns autores, no entanto, esse período não teria da agricultura, foi significativo no período. Já na Filosofia,
tido o seu fim antes do século XVIII. De acordo com o Santo Agostinho e São Tomás de Aquino são exemplos da
historiador Jacques Le Goff, a Idade Média chegou ao fim com sofisticação do pensamento medieval. A arte e a arquitetura
a Revolução Industrial e com a Revolução Francesa, quando também são valorizadas e as catedrais medievais são
ocorreram a consolidação do capitalismo e a crise do Antigo símbolos da grandeza artística do período.
Regime. Segundo essa visão, foi somente nesse período
que os valores de origem medieval teriam chegado ao fim.
ALTA IDADE MÉDIA
CONCEITO DE IDADE MÉDIA O período compreendido entre a queda do Império Romano
do Ocidente e uma segunda onda de invasões ocorrida nos
O mundo medieval foi, durante muito tempo, tratado de séculos IX e X é conhecido como Alta Idade Média. Naquele
maneira preconceituosa. O termo Idade Média, por exemplo, momento, a ocupação dos povos germânicos nas regiões do
é fruto dessa visão, visto que esse longo período antigo Império provocou a formação de uma série de reinos.
correspondia a um estágio intermediário entre a grandeza
Pode-se dizer que, entre os séculos V e X, ocorreram
da Antiguidade Clássica e o Mundo Moderno. Essa
transformações que levaram à consolidação do mundo
percepção surgiu durante o início da Idade Moderna, com a
crescente valorização dos ideais humanistas no contexto do feudal, mundo esse marcado pela combinação de
Renascimento. Para o homem renascentista, que valorizava instituições de origem romana e outras oriundas dos reinos
a razão, a Idade Média, marcada pela intensa religiosidade e germânicos, chamados de bárbaros pelos romanos.
pelo predomínio da Igreja, foi um período de obscuridade e
ignorância. A partir desse momento, termos como Idade das
Trevas ou a Longa Noite dos Mil Anos foram comuns para Nesse período, foi registrada uma retração populacional,
designar tal sociedade. O italiano Petrarca, ainda no século que já existia desde a crise romana. Assim, é possível
XV, utilizou o termo Tenebrae para se referir a esse perceber que a presença dos povos germânicos não
momento da História.
representou aumento da população; estima-se que estes
De acordo com essa visão, na Idade Média, não teriam constituíam apenas 5% da população na antiga área do
ocorrido avanços nas áreas da ciência, das artes e da Filosofia, Império. Concomitantemente a este processo, o êxodo
acreditando-se que o desenvolvimento humano teria sido contido urbano se manteve, o que não significa que a vida urbana
e só seria retomado a partir da Idade Moderna. A arte medieval foi
tenha sido completamente abandonada. É importante
considerada pelos homens renascentistas como grosseira e pobre.
ressaltar, ainda, que, paradoxalmente, a ruralização europeia
Rafael Sanzio, pintor do Renascimento italiano, incorporou esse
não acarretou uma prosperidade produtiva, já que a Alta
preconceito utilizando a expressão “gótica” (originária do termo
Idade Média foi marcada pela expansão da fome e das
godos, um dos povos denominados bárbaros) para se referir à
arte do período. epidemias.
Os povos germânicos formaram uma série de reinos na Territórios herdados
Europa Ocidental. O antigo Império havia se fragmentado, por Carlos Magno, 771
Territórios conquistados
dando origem às chamadas monarquias germânicas, como MAR DO por Carlos Magno
NORTE
demonstrado no mapa a seguir:

Saxônia
Celtas Jutas
Frisões
Saxões Aachen
Bretões
OCEANO Eslavos
ATLÂNTICO Turíngios Australásia
Hunos
Baviera
Bretões Paris Lombardos OCEANO Nêustria
ATLÂNTICO Caríntia
Gépidas
Borgonha
io
Da
núb PONTO EUXINO Lombardia
Aquitânia
Roma Armênios

Zona fronteiriça Córsega Roma


espanhola
Atenas
Cartago
Mouros Berberes N
MAR MEDITERRÂNEO 0 400 km
MAR MEDITERRÂNEO
N Alexandria Árabes
0 540 km
A expansão do Império Carolíngio acarretou o fortalecimento
Reinos anglo-saxônicos
do cristianismo nas regiões submetidas. Em troca do apoio
Reino dos ostrogodos Demais povos
Reino dos visigodos Reino dos vândalos Germânicos da Igreja, os soberanos carolíngios concederam um vasto
Reino dos francos ImpérioRomano do Oriente território na região da Península Itálica à Igreja, que ganhou
Reino dos suevos Reino dos burgúndios condições de se tornar uma potência política atuante. Além
Os reinos bárbaros no século VI. disso, reforçando o costume do pagamento do dízimo à
Igreja, os carolíngios vincularam-na definitivamente à

O reino dos francos


economia da época.
Nas áreas dominadas, Carlos Magno passou a conceder,
Entre os vários reinos formados durante a Alta Idade
ainda, terrenos àqueles chefes que o ajudaram na conquista
Média, um deles merece atenção especial, o dos francos. de territórios. A nobreza franca e a Igreja recebiam faixas
A importância dos francos está vinculada à consolidação de terra chamadas de condados e marcas e, em troca,
do cristianismo na Europa Ocidental e à generalização juravam fi delidade ao imperador. Começava-se, desse modo,
das relações de vassalagem e suserania. Esses povos, que a expansão da relação que daria origem à vassalagem e à
foram aliados dos romanos até o século V, assumiram o suserania, através da qual alguns homens criaram uma rede
domínio político da Gália sob a liderança de Clóvis I, da hierárquica de poder.
dinastia Merovíngia. A dinastia recebe esse nome, pois, No auge do Império Carolíngio, Carlos Magno foi aclamado
nessa época, os francos ainda eram pagãos e se
imperador do Império Romano do Ocidente, título concedido
consideravam descendentes de uma divindade marinha pelo papa Leão III. Durante o seu reinado, ocorreu o
nomeada Meroveu. Renascimento Carolíngio, momento de valorização da
A conversão de Clóvis ao cristianismo foi fundamental cultura de origem romana, como o latim, tendo a escola de
para o controle das populações de origem romana, em sua Aix-la-Chapelle se tornado um importante centro intelectual
maioria cristã, no interior do reino. O reino dos francos foi o europeu.
primeiro entre aqueles de origem germânica a se converter
Após a morte de Carlos Magno, vários fatores colaboraram
ao cristianismo.
para a desagregação do Império Carolíngio. As disputas entre
Após a morte de Clóvis, as disputas entre os merovíngios os netos do imperador provocaram a partilha do Império
levaram ao enfraquecimento da dinastia e à ascensão pelo Tratado de Verdun em 843. Nessa divisão, aparecia
o primeiro esboço do futuro mapa político europeu. De
dos carolíngios. Essa dinastia, que se iniciou com Carlos
acordo com Hilário Franco Júnior:
Martel, teve o seu auge com Carlos Magno. Devido à
sua força, a dinastia obteve sucesso na contenção da
expansão muçulmana em direção à Europa Central, O tratado estabeleceu dois grandes blocos territoriais,
principalmente quando venceu a Batalha de Poitiers em étnicos e linguísticos (dos quais surgiriam as futuras
732, ainda no reinado de Carlos Martel. Durante o período França e Alemanha) e uma longa faixa pluralista,
em que esteve no poder, Carlos Magno, contando com composta de uma zona de personalidade defi nida
o apoio da Igreja e com um reinado de grande vigor (Itália do Norte), zonas multilinguistas que sofreriam o
pessoal, conseguiu manter extensos domínios unifi cados e poder de atração daqueles primeiros blocos (futuras
conquistar novas áreas. Assim, enquanto nos demais reinos Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, Suíça), zonas
intermediárias, que seriam objeto de longas disputas
predominavam a fragmentação e a instabilidade política,
(Alsácia, Lorena, Trieste, Tirol).
o Império Carolíngio desfrutava de relativa unidade. O mapa FRANCO JÚNIOR, Hilário. Idade Medieval. A Idade Média:
a seguir demonstra a extensão do Império: nascimento do Ocidente. São Paulo: Editora Brasiliense, 2001.
Além dos problemas internos, novas invasões – dos vikings e Desse modo, os reis que comandavam as monarquias
magiares ou húngaros – provocaram a fragmentação do medievais viram seus poderes serem divididos em meio à
Império Carolíngio. O trecho a seguir refl ete a situação no nobreza proprietária de terras. Ainda assim, a fi gura do
Império a partir dessas invasões:
rei era revestida de caráter sagrado; a permanência da
cerimônia de sagração do monarca pela Igreja era prova
Vedes desabar sobre vós a cólera do Senhor... Só há cidades disso. Nessa cerimônia, o monarca era ungido por um
despovoadas, mosteiros em ruínas ou incendiados, campos óleo, consagrado anteriormente pela autoridade religiosa,
reduzidos ao abandono... Por toda a parte o poderoso que manifestava o elo divino entre o clero e o governo
oprime o fraco e os homens são semelhantes aos peixes do monárquico. A crença, reiterada durante considerável
mar que indistintamente se devoram uns aos outros.
período, na capacidade de cura dos monarcas, mediante
o simples toque destes, também atesta essa visão.
DEPOIMENTO dos bispos da província de Reims em 909.

As relações entre o Estado e os indivíduos foram


A partir desse evento, a confi guração do mapa europeu se substituídas por relações de dependência pessoal.
aproximava, então, da realidade feudal. A relativa
Predominavam os laços de fi delidade entre os homens,
centralização característica dos impérios outrora existentes
colaborando para o enfraquecimento das relações impessoais
daria lugar à pulverização do poder político em meio à
entre Estado e cidadão. Esses vínculos têm suas origens
nobreza feudal. A Europa se fechava, dando origem ao
feudalismo. nas tradições guerreiras dos povos germânicos. Uma delas,
o comitatus, era um acordo entre os chefes guerreiros
germânicos a respeito da fi delidade na guerra e da divisão
dos despojos após as vitórias nas batalhas. Existia também o
FEUDALISMO benefi cium, concessão da posse de um lote para remunerar
determinado serviço.
A palavra feudalismo tem sua origem em feudum, que em
latim signifi ca posse ou domínio. Para alguns autores, o Essas tradições difundiram-se pelos reinos medievais

HISTÓRIA
feudalismo teve sua origem na França, nos séculos IX e X,
e deram origem às relações de vassalagem e suserania.
e seu desaparecimento deu-se ao longo dos séculos XV e
XVI. De acordo com o historiador Marc Bloch, o feudalismo Como já foi dito, o reinado de Carlos Magno colaborou para
pode ser resumido em: a expansão dessas relações, visto que, naquele contexto,
o monarca distribuía lotes de terra (condados e as marcas)
entre os guerreiros que o auxiliavam nas conquistas de novos
Um campesinato mantido em sujeição; uso generalizado territórios. Aqueles que passavam a deter direitos sobre
do serviço foreiro (isto é, o feudo) em vez de salário [...]; a essas faixas de terra passavam a ser condes e marqueses,
supremacia de uma classe de guerreiros especializados; formando-se, desse modo, uma nobreza fundiária.
vínculos de obediência e proteção que ligam homem a
homem e, dentro da classe guerreira, assumem a forma
específi ca denominada vassalagem; fragmentação da Os laços feudo-vassálicos eram estabelecidos por três
autoridade [...] atos, que correspondiam às necessidades recíprocas
BLOCH, Marc. A sociedade feudal. Lisboa: Edições 70, 1987. que justifi cavam sua existência. O primeiro era a
homenagem, o ato de um indivíduo tornar-se “homem”
A estrutura feudal clássica predominou na Europa Ocidental, de outro. O segundo era a fi delidade, juramento feito
principalmente em sua porção central, e deve ser sobre a Bíblia ou sobre relíquias de santos e muitas
compreendida em suas diversas manifestações, sejam elas vezes selado por um beijo entre as partes. O terceiro era
políticas, econômicas, culturais ou religiosas.
a investidura, pela qual o indivíduo que se tornava
senhor feudal entregava ao outro, agora vassalo, um
objeto (punhado de terra, folhas, ramo de árvore, etc.)
Política simbolizador do feudo que lhe concedia.

Em geral, a política feudal foi caracterizada pela FRANCO JÚNIOR, Hilário. Idade Medieval. A Idade Média:
fragmentação do poder, afi nal, as constantes guerras e
invasões, bem como as relações de vassalagem e suserania, nascimento do Ocidente. São Paulo: Editora Brasiliense, 2001.
colaboraram para o enfraquecimento do poder real.
Apesar da isolada ação do Império Carolíngio, Após o juramento de fi delidade, constituía-se um laço
a descentralização teve sua origem no declínio do Império contratual que unia dois homens livres: o suserano, que
Romano, quando, gradativamente, o Estado foi concedendo contaria com a prestação de serviços militares por tempo
atribuições estatais aos grandes proprietários de terra.
determinado, e o vassalo, que recebia o feudo e devia
A grande extensão do Império levou à implantação dessa
situação, mantida após as migrações dos povos germânicos. lealdade ao senhor. Aquele que cedia os direitos perdia parte
A diversidade desses povos e os constantes conflitos de seu poder político, que era transferido para o vassalo, e,
impediram o retorno à unidade. em troca, recebia proteção no caso de guerras.
A expansão desses laços pessoais contribuiu para o Nos feudos, predominava o poder dos senhores feudais,
enfraquecimento do poder do rei, que passou a ser um nobres ou membros do clero, que impunham a
suserano, e reforçou os poderes locais. Em seu feudo, administração, aplicavam a justiça e garantiam a ordem.
portanto, o senhor poderia aplicar a justiça, garantir a Esta independência de poderes refletia-se também na
proteção e tratar da administração e da fiscalização. Esse economia, já que o sistema de pesos e medidas e as moedas,
contexto reforçou o caráter militar da nobreza medieval, ainda escassas, variavam de feudo para feudo, dificultando
constituída como um grupo dedicado às guerras. Assim, as as relações comerciais.
guerras medievais diferiam das contemporâneas, pois eram
As terras feudais eram divididas em mansos: o senhorial,
disputadas por um grupo restrito da elite, os cavaleiros.
o servil e o comunal. No manso senhorial, encontrava-se o
A fragmentação política foi característica da maior parte castelo, residência fortificada dos nobres. Nessas terras, o
da Alta Idade Média e só começou a ser superada a partir do trabalho era executado pelos servos e toda a produção era
século XI, momento em que ocorreram os primeiros passos destinada aos senhores. Os mansos servis, por sua vez,
rumo à consolidação dos Estados europeus. eram terrenos arrendados aos servos em troca de proteção
e explorados pelos próprios servos, que deviam várias
obrigações ao senhor. Já o manso comunal era formado
Economia por pastos e bosques de uso comum, ou seja, sujeito à
exploração tanto dos senhores quanto dos servos.
Até os séculos IX e X, é possível dizer que a economia
europeia passou por um período de retração e A relação de trabalho predominante nos feudos foi a
estagnação. As produções agrícola, artesanal e comercial servidão, que, como já visto, teve sua origem no colonato,
foram reduzidas, principalmente, em razão do retrocesso ainda no Império Romano. No entanto, o servo estava
demográfico percebido no período. Predominava, nesse vinculado à terra, embora, em muitos casos, esse vínculo
primeiro momento, a produção agrícola em propriedades pudesse ser rompido, e devia ao senhor uma série de
que se assemelhavam às vilas de origem romana. Nessas obrigações, pagas em forma de trabalho. Entre as várias
propriedades, existiam os lotes reservados aos senhores e obrigações, podem ser destacadas as principais, como:
aqueles destinados aos camponeses. • corveia: trabalho não remunerado nas terras
do senhor, geralmente três dias por semana, no
A produção voltada para subsistência e os constantes
cultivo ou em outros serviços, como a construção,
conflitos provocaram a diminuição das transações comerciais a manutenção e o transporte.
e do uso da moeda, sem causar, no entanto, o seu
desaparecimento. O mesmo pode ser dito em relação às • censo: uma pequena renda fixa paga em dinheiro ou
cidades: o processo de ruralização não provocou o completo em espécie.
abandono da vida urbana. As relações comerciais ocorriam • mão-morta: cobrança pela transferência hereditária,
de maneira esporádica, por exemplo, quando determinado taxa cobrada para permitir que o filho do camponês
produto não fosse comum em uma região. Mercadores permanecesse na terra.
judeus tiveram importância nessas transações, trazendo
• banalidades: taxas pelo uso do moinho, do forno e
seda, especiarias e sal de outras regiões.
de outras instalações de propriedade do senhor.
Se os primeiros anos da Idade Média foram marcados por talha: parcela paga pela produção no manso servil.

instabilidades sociais, a partir do século XI, observa-se o
• champart (de campi pars, “parte da colheita”): devida
aumento demográfico na Europa Ocidental. Esse aumento pelo camponês e proporcional ao resultado da colheita
ocorreu, entre outros fatores, devido ao fim das invasões e nas terras servis.
dos conflitos, bem como em razão das limitações da guerra
medieval, que nem sempre fazia um grande número de dízimo: taxa devida à Igreja.

vítimas e caracterizava-se pelas interrupções constantes
relacionadas às obrigações entre vassalos e suseranos. Apesar de realizar um trabalho compulsório e, em muitos
O desenvolvimento das técnicas agrícolas e a expansão das casos, não poder abandonar a terra, o servo não pode ser
áreas cultivadas também colaboraram para o aumento da considerado como escravo. Esta diferença é relevante, pois o
produção e para o consequente crescimento populacional. servo não era considerado uma propriedade, por mais que,
em alguns casos, tenha sido comprado ou vendido. Além
Uma das inovações apresentadas foi a utilização do disso, o servo podia trabalhar para o seu próprio sustento e
sistema trienal (o que permitia que uma faixa de terra deveria ser protegido pelos senhores. Por outro lado, o servo
descansasse enquanto outras duas eram cultivadas, também não era um trabalhador livre, já que estava
possibilitando o resgate da produtividade agrícola), submetido pelos senhores feudais ao trabalho e ao
da charrua (instrumento puxado por cavalos – animais de pagamento em serviços de forma obrigatória.
maior robustez – capaz de perfurar em maior profundidade
o subsolo, preparando adequadamente o solo para ser
cultivado), da força motriz animal, do adubo mineral e dos
moinhos de água e de vento. EXPANSÃO DO FEUDALISMO
Concomitantemente ao aumento da população europeia, O crescimento demográfico, agrícola e comercial, a partir do
observou-se a expansão dos feudos, unidades básicas século XI, provocou alterações no panorama europeu. Por
de subsistência e provedoras de toda a sobrevivência do um lado, o feudalismo atingiu seu apogeu na Europa nesse
mundo feudal. Além da produção agrícola, o artesanato e período, mas, por outro, as mesmas transformações que
a manufatura eram atividades praticadas nesse período. levaram o sistema feudal a uma estabilização colaboraram
Os artesãos produziam armas, tecidos, móveis e ferramentas para a desarticulação do mundo feudal e para a formação
destinados ao consumo restrito. dos Estados Modernos.
As cidades, à medida que se expandiam, aceleravam o No mundo urbano, os habitantes desfrutavam de maior
processo de crise do modelo feudal, pois permitiam que liberdade, vendo-se desvinculados de alguns laços feudais.
uma nova camada social, os comerciantes, progredisse em Era comum, em algumas regiões, que servos para lá
termos fi nanceiros. Esse fator atraía cada vez mais fugissem, tornando-se livres. Caso após um dado período os
descontentes que buscavam tentar a sorte nas cidades, senhores não conseguissem recuperá-los e levá-los de volta
estimulando-os a romper com o modelo feudal ainda em ao feudo, essa liberdade seria então defi nitiva. Com tal
curso. É fundamental, assim, o estudo da expansão estratégia, arrebanhava-se mão de obra para os centros
urbano-comercial estimulada pelas Cruzadas, bem como o urbanos em expansão.
da crise do século XIV, para se compreender as
Por se situarem em propriedades de senhores feudais,
transformações que levaram à consolidação de novas
no entanto, os citadinos ainda estavam submetidos ao
formas de organização política no interior da Europa. pagamento de tributos e à prestação de serviços ao senhor,
embora possuíssem autonomia administrativa para gerir os
centros urbanos. O documento a seguir apresenta algumas
Expansão comercial e urbana das reivindicações dos citadinos:

O crescimento demográfico verificado na Europa


a partir do século XI provocou a revitalização urbana
e comercial. É importante lembrar que as cidades e o No ano de Nosso Senhor de 1301, quando o rei Filipe
comércio nunca desapareceram por completo durante o entrou em Gand, o povo saiu ao seu encontro exigindo
Período Medieval, mas permaneceram como locais das em altos brados que o libertasse de um pesado
sedes administrativas da Igreja, da realização de feiras e imposto que havia em Gand e em Bruges sobre os
para onde, muitas vezes, prosseguiam grupos de romeiros. artigos de consumo, especialmente a cerveja [...]
Na medida em que o excedente agrícola era ampliado, LE GOFF, Jacques. O apogeu da cidade medieval.
realizavam-se trocas cada vez mais frequentes dentro São Paulo: Martins Fontes, 1993.
dos feudos, dinamização essa que passou a se alimentar
do espaço urbano, rico em mercado de consumo e com
diversificada oferta de matéria-prima e mercadorias.
Em muitos momentos, desejando se ver livres desse

HISTÓRIA
Nesse contexto, novas técnicas de produção foram
domínio, os habitantes das cidades organizaram movimentos
aperfeiçoadas, colaborando para que houvesse nítido
comunais, que resultaram na conquista da autonomia política
avanço comercial.
para a cidade, inclusive subordinando os senhores, o que
Surgiram, dessa forma, os primeiros núcleos urbanos nas fortaleceu os laços de solidariedade entre os citadinos,
rompendo com a dominação feudal. Apesar desses confl
principais rotas comerciais. Entre 1150 e 1330, o mundo
itos, os habitantes das cidades e os senhores possuíam
urbano medieval viveu seu apogeu. De acordo com Jacques
forte interdependência, já que, em alguns casos, as cidades
Le Goff, historiador que se destaca como referência nas
necessitavam da proteção que só os nobres poderiam
pesquisas sobre a Idade Média:
proporcionar.

A atividade econômica, cujo centro são as cidades, chega Assim, como forma de reafirmar sua autonomia, os
ao seu mais alto nível. Sob a égide de uma Igreja [...] uma tribunais estabelecidos pelos cidadãos, que também
nova sociedade, marcada pelo cunho urbano, manifesta-se cuidavam da administração e da infraestrutura no mundo
num relativo equilíbrio entre nobreza, que participa do urbano, adotaram símbolos próprios, tradição essa de origem
movimento urbano mais do que se tem afi rmado, aristocrática, como a criação de selos com traços referentes
burguesia [...] e classes trabalhadoras, das quais uma parte – aos centros urbanos:
urbana – fornece a massa de mão de obra às cidades, e a
outra – rural – alimenta a cidade e é penetrada por seu As divisas dos primeiros selos inspiravam-se tanto em
dinamismo. A cultura, a arte e a religião têm uma fi símbolos religiosos quanto em heráldicos, em paisagens
sionomia eminentemente urbana.
da cidade com seus portões e muralhas, e
LE GOFF, Jacques. O apogeu da cidade medieval. ocasionalmente em retratos. O selo de Doullens
São Paulo: Martins Fontes, 1993. (Somme) reproduz as cabeças dos Scabini, ou
magistrados municipais, por exemplo.
Em algumas das grandes cidades europeias desse período, a
população chegava a 40 mil habitantes e, apesar de LOYN, Henry R. (Org.) Dicionário da Idade Média.
vinculada às atividades comerciais, dependia dos alimentos Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.
vindos do mundo rural. Não é correto, desse modo, associar o
crescimento da cidade ao declínio dos feudos, visto que os
Nas cidades, a atividade econômica se desenvolveu
feudos, inicialmente, colaboraram para sustentar a expansão
principalmente nos setores do comércio e do artesanato. Os
urbana mediante o abastecimento agrícola.
mercadores, chamados também de burgueses, dominavam
Nesse contexto, surgiram os chamados forisburgos (do as atividades comerciais e em muitas cidades controlavam
inglês, borough = cidade pequena e cercada de muralhas). também o poder político. A revitalização do uso da moeda
Os grandes muros eram estratégia de defesa para resguardar acompanhou a expansão comercial. Os produtos do grande
mercadorias, comércio e lucros obtidos, visando à proteção comércio eram os grãos, o vinho, o sal, os couros e as peles,
e à regularização do tráfego, assim como à organização da os tecidos, os minerais e os metais e, secundariamente, a
cobrança de impostos. madeira.
Em Douai, em 1284, um peixeiro é espancado quase até a
morte por seus concorrentes porque vende sua mercadoria
mais barato.

LE GOFF, Jacques. O apogeu da cidade medieval.


São Paulo: Martins Fontes, 1993.

O poder dos artesãos e das corporações de ofício se


fortaleceu em um contexto de gradativa valorização do
trabalho. Anteriormente visto como castigo divino e
penitência, o trabalho, no mundo urbano, passava a ser
visto como útil e valorizado.

Mercadores de Bolonha discutem preços na venda de peles de A expansão da atividade comercial reanimou o comércio
animais (1339). de longa distância. No entrecruzamento das principais
rotas comerciais, as feiras medievais se fortaleceram.
O poder dos comerciantes nas cidades aumentava
Nos séculos XII e XIII, as feiras eram os grandes centros
gradativamente, o que os levou a se associarem. Tais
de comércio europeus, sendo que algumas recebiam
associações eram denominadas guildas e tinham como
mercadores de todo o continente. Cada uma delas era
objetivo defender os interesses dos mercadores, como
realizada em dias específi cos, tornando-se grandes eventos
também garantir a isenção de certos impostos e facilitar a
que, em alguns casos, chegavam a durar semanas.
realização das atividades comerciais de seus membros,
As atividades fi nanceiras e bancárias ganharam espaço,
mediante o controle de preços previamente articulados, por
exemplo. Do mesmo modo que defendiam os negócios de viabilizando as transações financeiras nesses locais e
seus associados nas cidades, as guildas os defendiam das tornando possíveis empréstimos e notas bancárias, o que
relações comerciais empreendidas por seus associados no facilitou as trocas realizadas entre pessoas provenientes de
exterior. No mundo urbano, seu poder cresceu de tal forma diferentes partes da Europa.
que extrapolou a esfera econômica, tornando-se algumas As feiras proporcionaram a regularidade do comércio
guildas potências políticas: europeu na Baixa Idade Média, visto que garantiam o
encontro frequente entre os mercadores de várias regiões.
Na região de Champagne, na França, as feiras recebiam
Era o caso dos poderosos mercadores importadores e
mercadorias provenientes das regiões de Flandres, Gênova,
exportadores pela via fl uvial do Sena. Desde o século
Veneza e de regiões da atual Alemanha. A lã inglesa,
XII, em Paris, a guilda [...] é uma potência econômica e
as especiarias e os corantes mediterrâneos, as peles e os
política. Em Rouen [...] rege tudo quanto concerne ao
linhos alemães, os artigos espanhóis de couro eram as
porto e ao tráfi co no Sena [...] freqüentemente entra
principais mercadorias de troca. Nessa região, a duração das
em choque com o prefeito.
feiras podia chegar a cinquenta dias, conforme explicitado
LE GOFF, Jacques. O apogeu da cidade medieval. no quadro a seguir:
São Paulo: Martins Fontes, 1993.

calendário das feiras de champagne


Em determinadas cidades, havia outro foco de poder,
representado pelos artesãos. Reunidos nas corporações de cidades Meses
ofício, os artesãos estabeleciam as regras para a produção
LAGNY janeiro–fevereiro
artesanal, regulamentando a qualidade, a produção e o
recrutamento para diversos ofícios, com base nos interesses
do empregador e do artesão qualifi cado e estabelecido. BAR-S.-AUBE fevereiro–março

As corporações favoreciam os interesses dos artesãos


PROVINS maio–junho
das diferentes cidades ao difi cultar a concorrência, inclusive
dos produtos vindos de fora. Por isso, uma das medidas TROYES
julho–agosto
tomadas era a delimitação estrita das áreas de atuação, (“feira quente”)
de modo a evitar a sobreposição de competências. PROVINS
Procurava-se difi cultar, por exemplo, que uma ofi cina de (feira de Santo Ayoul) setembro–outubro
conserto tivesse permissão de confeccionar peças novas.
Existiam corporações para cada um dos ofícios exercidos e a TROYES (“feira fria”) novembro–dezembro
não associação poderia implicar banimento da cidade. Os laços
de solidariedade entre os associados eram reforçados, já que, O calendário das feiras de Champagne demonstra a regularidade
em alguns casos, as corporações tinham caráter assistencial. do comércio, que se estendia por todo o ano.
Os estatutos e a hierarquia eram rígidos e o não cumprimento
LORCIN, Marie-Thérèse. La France au XIII siècle. Paris:
das regras poderia levar a graves punições:
Nathan Université, 1975. p. 71.
Com o incremento do comércio à longa distância, surgiram agremiações entre os comerciantes de várias cidades, chamadas
hansas. A mais poderosa entre essas ligas foi a hanseática, que dominava o comércio no norte da Europa. Os mercadores dessa
região estabeleceram o monopólio comercial no Báltico, transportando mercadorias como peixe, madeira, cereais e peles. Da
região de Flandres, eram levados tecidos e lã, que eram revendidos por toda a Europa. No sul, as cidades mediterrâneas de
Gênova e Veneza passaram a controlar, progressivamente, o comércio de especiarias vindas do Oriente, em especial após as
Cruzadas. O mapa a seguir demonstra a vitalidade do comércio medieval a partir do século XII.

Bergen

Estocolmo
PESCADO Novgorod

CO
BETUME PELES

I
LT
PELES Pskow


MADEIRA
MAR DO R Riga CEREAIS
NORTE MA
PELES
CARVÃO PESCADO MEL Moscou
Könisberg CERA
Kiel Stralsund
Hull Rostock Gdansk
Lübeck
Bremen Hamburgo
LÃ Londres Breslau
Bruges Colônia
Leipzig Kiev ESCRAVOS
ESTANHO Sara
Bruxelas Cracóvia CEREAIS
TECIDOS MADEIRA
Paris METAIS
VINHO Viena
Augsburgo
Budapeste
Chalons Tana
OCEANO Limoges Milão Veneza
ATLÂNTICO Bordeaux
Avignon Gênova
Belgrado Feodosiva
Marselha Pisa Florença
Siena Ragusa Nish MAR
Montpellier NEG
Roma RO

HISTÓRIA
CÓRSEGA
FRUTAS SECAS Constantinopla
Barcelona Nápoles Durazzo
E CÍTRICAS Preveza
COURO Valência AZEITE DE
SARDENHA
Toledo OLIVA
MEL MAIORCA
Córdoba

Car tago SICÍLIA


Antioquia
CRETA
MA CHIPRE
R MEDI T ERR
ÂNE
O Damasco
Tiro
TAPETES Trípoli ESPECIARIAS
FRUTAS SECAS VIDROS
Alexandria
CORAIS CERÂMICAS
MARFIM AMÊNDOAS N TAPETES
AZEITE DE OLIVA 500 km

A expansão comercial provocou transformações nas estruturas da sociedade europeia que, mesmo tendo mantido o seu
caráter rural, viu surgir novas forças sociais vinculadas às cidades. Novas formas de sociabilidade surgiam no mundo urbano,
produzindo efeitos nas estruturas feudais.
A Igreja, ainda detentora de grande poder, se posicionava contra essas mudanças devido à emergência de uma nova fonte
de autoridade na sociedade. Além disso, a vida urbana estimulava laços de solidariedade fora da Igreja, entre os próprios
membros da comuna e seus simpatizantes e agregados.
A atividade comercial sofria uma forte restrição ao ser combatida pela instituição medieval mais poderosa. Para a Igreja, as
mercadorias deveriam ser vendidas pelo seu justo preço e não com a intenção do lucro. Os juros eram vistos como atividades
ilícitas, já que os seus praticantes estariam lucrando sobre o tempo, pertencente a Deus.

CRUZADAS
As Cruzadas foram expedições militares e religiosas que, inicialmente, tinham dois objetivos principais: a conquista da Terra
Santa, em especial da cidade sagrada de Jerusalém, e a contenção do avanço muçulmano na região do Império Bizantino. A
expulsão dos muçulmanos também era vista como forma de expansão do cristianismo, e era incentivada pela Igreja como uma
continuação do movimento de Reconquista ibérica, que também se deu com objetivos semelhantes. A luta pela retomada da
região das mãos dos mouros é considerada uma manifestação do espírito das Cruzadas.
Outro objetivo da Igreja com as Cruzadas foi a repressão aos movimentos heréticos dos cátaros no sul da França.
A perseguição às chamadas heresias demonstra que os ataques não se reservaram aos infiéis, como eram chamados os muçulmanos,
mas também atingiram os cristãos europeus que se vinculavam a práticas espirituais que não fossem o catolicismo.
Peste, fome e guerra
Além dos motivos religiosos citados, o movimento
apresentava outras motivações de natureza econômica, afi
nal, para as cidades do Mediterrâneo, como Veneza, as O século XIV foi marcado por uma série de calamidades que
Cruzadas representavam uma possibilidade de lucro nas colaboraram para acelerar as transformações no interior do
áreas que viriam a ser conquistadas em direção ao Oriente. feudalismo. Esses acontecimentos tiveram origem na
Além disso, as riquezas e as terras do Mediterrâneo Oriental própria expansão da economia feudal. O crescimento
eram cobiçadas pelos nobres da Europa Ocidental, que demográfi co e comercial observado a partir do século XI
começavam a buscar novas fontes de riqueza devido ao provocou transformações no panorama da sociedade
crescimento demográfi co. europeia, levando a novos métodos de exploração agrícola,
como a irrigação, a drenagem e o sistema de rotação de
Do ponto de vista social, as Cruzadas significavam culturas, que transformaram em terras férteis locais antes
uma possibilidade de diminuir os confl itos, cada vez mais caracterizados por pântanos e regiões muito secas.
constantes, no interior da nobreza europeia, uma vez que
a belicosidade dos nobres seria canalizada para o Oriente, A destruição de áreas fl orestais foi típica desse período,
empreendimento esse justifi cado pelos objetivos religiosos. aumentando a área cultivável em várias regiões da
A busca pela Terra Santa era, ainda, uma possibilidade para Europa. Esse processo de expansão das áreas produtivas,
o escoamento do excedente populacional, direcionado para conhecido como arroteamento, acarretou enormes impactos
a composição dessas expedições. ambientais. No início do século XIV, portanto, foi registrado
Ao todo, foram realizadas cinco grandes Cruzadas em um grave desequilíbrio climático responsável por um período
de intensas chuvas entre os anos de 1315 e 1317.
direção ao Oriente e travadas inúmeras batalhas entre
cristãos e muçulmanos. Se, para os cristãos, a guerra era Os efeitos dessas alterações foram percebidos na agricultura,
considerada justa, para seus inimigos, os cristãos eram que sofreu uma considerável retração. A consequência mais
selvagens e bárbaros. Apesar dos ataques violentos, a imediata desse fato foi a fome generalizada. A morte
conquista defi nitiva de Jerusalém, o principal objetivo causada pela falta de alimentos provocou o início da
religioso do movimento, não ocorreu. A reaproximação reversão do crescimento populacional europeu. Outra
com o Império Bizantino foi difi cultada devido aos saques decorrência da crise de produção foi o aumento da
constantes dos europeus ocidentais nessa região. exploração sobre os camponeses, já que, naquele momento,
os grandes senhores não podiam aceitar a queda de seus
Apesar de fracassar quanto aos objetivos religiosos, rendimentos. Essa população, faminta e superexplorada, não
é possível afi rmar que as Cruzadas provocaram profundas teve, desse modo, como resistir à expansão de diversas
alterações na Europa feudal. Do ponto de vista econômico, epidemias, como a Peste Negra.
o contato com os árabes dinamizou as relações entre os
europeus e o Oriente. As especiarias trazidas do mundo A Peste Negra havia sido epidêmica na Europa medieval no
oriental pelos árabes ou vindas das rotas que passavam século VI, tendo desaparecido no século VIII, mas retornou
pelo Império Bizantino eram revendidas em toda a Europa no século XIV e continuou endêmica no continente até o
pelos comerciantes das cidades de Gênova e Veneza. período posterior ao século XVII. A partir de 1340, a Peste
A propagação das culturas helênica, bizantina e árabe se alastrou pelas regiões das atuais Itália, França, Inglaterra,
colaborou, ainda, para o desenvolvimento artístico e Alemanha e Polônia, gerando grande destruição.
científi co da Europa cristã.

Em contrapartida, a participação nessas guerras A origem da Peste Negra teria sido na Ásia Central,
colaborou para o relativo enfraquecimento da nobreza transmitida por um bacilo, apenas descoberto em 1894.
feudal, visto que o envolvimento nas disputas gerava gastos Teve como vetores as pulgas transportadas pelos ratos,
e que as derrotas agravaram a situação dos nobres. Em podendo ser pneumônica ou bubônica, levando o indivíduo
muitos casos, os senhores, ao voltarem das expedições, contaminado à morte em um período de três a seis dias.
se viam obrigados a conceder a liberdade aos servos que, Acredita-se que a epidemia teria voltado à Europa com os
naquele momento, eram cada vez mais atraídos para a navios italianos que carregavam as especiarias
vida nas cidades. provenientes da Ásia. Para o homem medieval, a explicação
adquiriu caráter místico, como a ideia de um castigo divino
ou da disseminação por parte dos judeus. O não

CRISE DO FEUDALISMO
conhecimento das formas de contágio e a falta de higiene
das cidades contribuíram para a expansão da doença.

A partir do século XIV, uma série de eventos levou à crise do


mundo feudal e à organização dos Estados Modernos na
Europa Ocidental. Vale ressaltar, entretanto, que esse
processo não foi contínuo, possuindo variações regionais. Na As revoltas camponesas
França, por exemplo, os impostos de origem feudal e as O desenvolvimento comercial e a expansão da atividade
distinções baseadas no nascimento só foram extintos no urbana já vinham atraindo os camponeses europeus para a
século XVIII, durante a Revolução Francesa. Na Península vida nas cidades durante toda a Baixa Idade Média, pois, no
Itálica e na região central, os Estados se unifi caram apenas mundo urbano, os trabalhadores se viam livres dos laços
no século XIX, quando surgiram Itália e Alemanha. servis.
IGREJA MEDIEVAL
No entanto, foi o aumento da exploração no campo
– decorrente do declínio demográfi co – que fez surgir uma
série de movimentos camponeses na Europa. Essas revoltas
Para compreender a influência da Igreja no Período
tiveram papel fundamental na desagregação do feudalismo
Medieval, é necessário um pequeno histórico do
ao colocar em xeque o tradicional papel da nobreza medieval. cristianismo desde a Antiguidade. O cristianismo
Na França, os motins receberam o nome de jacqueries, expandiu-se a partir da região da Palestina pelas regiões
decorrente da expressão Jacques Bonhomme, que pode ser em torno do Mar Mediterrâneo chegando até Roma, sede
traduzida por “João Ninguém”. Na Inglaterra, as revoltas do Império Romano.
Nesse período, o cristianismo iniciou a sua penetração
de John Ball e Wat Tyler provocaram temor na nobreza. entre as classes populares, já que oferecia a possibilidade
Foram comuns, durante esses movimentos, a destruição de de salvação ao grupo social que mais sofria. Até o século IV,
propriedades e o assassinato de vários nobres. os cristãos eram perseguidos no Império por serem
monoteístas, por contestarem o militarismo da cultura
romana e por negarem o caráter divino do imperador. Com o
agravamento da crise no Império, no entanto, o cristianismo
passou a se expandir e a conquistar adeptos entre as classes
dirigentes.
Em 313 d.C., com o Edito de Milão, Constantino
concedeu liberdade de culto aos cristãos e converteu-se
ao cristianismo que, naquele momento, ainda era religião de
uma minoria. Com Teodósio, através do Edito de Tessalônica,
o cristianismo foi considerado a religião ofi cial, e, dessa
vez, os pagãos passaram a ser perseguidos. Prestigiados,
os cristãos alcançaram altos cargos no Império, e os
bispos passaram a cuidar da administração das cidades.

HISTÓRIA
O cristianismo tornava-se, portanto, uma religião de Estado.

Mesmo diante do colapso do Império Romano, a


Igreja cristã manteve-se unida, o que favoreceu o seu
Jacqueries fortalecimento. De acordo com Hilário Franco Júnior:
Jacqueries / Crônicas de Jean Froissart. Biblioteca Nacional da
França. Manuscrito do Século XV
O cristianismo, por sua vez, foi o elemento que possibilitou
a articulação entre romanos e germanos, o elemento que
ao fazer a síntese daquelas duas sociedades forjou a
unidade espiritual, essencial para a civilização medieval.
FRANCO JÚNIOR, Hilário. Idade Medieval.
A Idade Média: nascimento do Ocidente. São Paulo:
Editora Brasiliense, 2001.

Com a conversão dos reis germânicos, iniciada com Clóvis,


do reino dos francos, a Igreja adquiriu caráter universal. Para
isso, contou com auxílio dos monarcas que, em troca,
recebiam a legitimação do seu poder. Em uma sociedade
marcada pelo medo, seja da fome, seja das guerras, o
cristianismo oferecia alívio em momentos de desespero, o
que contribuiu para a sua expansão.
Gradativamente, a Igreja tornou-se a instituição mais
poderosa do mundo medieval, tendo sido a própria educação,
em grande parte, controlada pelo clero por meio do monopólio
Morte de Wat Tyler da escrita e da leitura. Para o homem medieval, a resposta
Morte de Wat Tyler / Crônicas de Jean Froissart. Biblioteca para os questionamentos se encontrava no sagrado, e era a
Nacional da França. Manuscrito do Século XV Igreja que fornecia explicações para essas questões. A visão
medieval era marcada por essa religiosidade e os sacrifícios
A reação da aristocracia contra as revoltas foi igualmente
no mundo terreno seriam compensados após a morte, na
violenta, no entanto, o tumulto nos campos deixava clara a
vida eterna. Dessa maneira, a Igreja conseguia garantir a
difi culdade da nobreza fundiária em manter o controle
ordem e a estrutura social, alegando que os sofrimentos
diante das profundas transformações na sociedade europeia, dos trabalhadores na Terra terminariam no reino dos céus.
abrindo espaço para o fortalecimento do poder real.
A adoração aos santos e, principalmente, à Virgem Maria Na Filosofia medieval, o pensamento foi influenciado
constituía um laço que unia os homens medievais. As pelas obras de Santo Agostinho até o século XI. A partir
peregrinações e os jejuns eram ações importantes na luta desse período, as obras de São Tomás de Aquino passam
contra a suposta presença do demônio. A Igreja estava a dominar a Filosofia na Idade Média. Através da
presente nos momentos principais da vida do homem, como redescoberta das obras de Aristóteles, sua teoria
o nascimento, o matrimônio e a morte. Podia julgar questões pretendia promover a conciliação entre a fé e a razão.
Na Escolástica, forma de pensamento que predominou
relativas ao casamento e excomungar aqueles que não
na Baixa Idade Média, tentava-se promover a junção
cumprissem suas regras, tendo poder para excomungar até
entre a Teologia e a Filosofia. As universidades
um rei.
medievais foram importantes centros de difusão do
pensamento de Tomás de Aquino.
O surgimento das primeiras universidades estava
CULTURA MEDIEVAL relacionado ao desenvolvimento da vida urbana e do
comércio, afinal, a necessidade do estudo de Direito e da
Devido à sua proximidade com a Igreja, a cultura medieval formação de funcionários mais qualificados e preparados
foi durante muito tempo vista como inferior àquelas que lhe para as novas funções que surgiram nesse contexto
antecederam e sucederam. Essa visão, contudo, pode ser colaborou para a fundação dessas instituições. Inicialmente
contestada com base em uma análise de aspectos dessa controladas pela Igreja, as universidades se multiplicaram
cultura. na Baixa Idade Média por toda a Europa. A primeira delas
foi a de Bolonha, na Itália, fundada em 1088.
A cultura medieval alcançou seu apogeu na construção das
grandes catedrais, igrejas de cada diocese e normalmente A despeito dos preconceitos vinculados à Idade Média,
a residência dos bispos. Algumas delas demoraram um atualmente a cultura popular vem sendo alvo de inúmeros
século para serem construídas e, na sua construção, estudos por parte dos historiadores. A vida do camponês
era necessário o trabalho de arquitetos e pedreiros medieval era marcada por uma diversidade de manifestações
remunerados. Dos séculos X ao XII, predominou o estilo culturais, como as festas. Nelas, o camponês conseguia
românico, caracterizado pela horizontalidade e pelo caráter subverter a rígida hierarquia por um breve período.
de fortificação. O material básico utilizado era a pedra e na A Igreja e os senhores eram ridicularizados em festas
sua estrutura eram incorporadas esculturas e murais. como a do “Asno” ou a dos “Tolos”. O conhecimento
dessas manifestações revela um lado alegre e festivo do
A partir do século XII, o estilo gótico ganhou força. mundo feudal e que fugia às convenções determinadas
Sua característica principal era a verticalidade. A altura das pela Igreja. O carnaval também tem sua origem na Idade
torres apontando para o céu reforçava a grandeza da Igreja Média e representava um período de transgressão, aceito
Católica. A luz era restrita e penetrava parcialmente pelos pela própria Igreja, que antecederia a quaresma, período
vitrais coloridos que retratavam símbolos sagrados. de penitência.

A representação a seguir, do século XVI, revela esse


aspecto do cotidiano do camponês europeu. Produzida
por Pieter Brueghel, no contexto da Reforma Protestante,
a imagem ironiza o conflito entre as práticas mundanas e
religiosas, simbolizadas, respectivamente, pelo carnaval e
pela quaresma.

Pieter Brueghel
Roby / Creative Commons

O quadro, assinado por Pieter Brueghel, retrata o contraste


entre a vida religiosa, representada pela quaresma, e os
Catedral de Chartres, construída no século XII, na França. prazeres oriundos do carnaval.

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