Semântica e Pragmática:
Conceitos-Chave e Fundamentos
1. Semântica
A semântica é a área da linguística responsável pelo estudo do significado
literal das palavras, frases e sentenças. Ela investiga como o sentido é construído
com base nas estruturas linguísticas da língua, independentemente do contexto
situacional. A semântica trata de fenômenos como a sinonímia, antonímia,
polissemia, ambiguidade, entre outros.
Exemplo: A frase "João quebrou o copo" tem um significado literal claro, baseado
na ação e nos participantes envolvidos, independentemente de quem seja João ou
qual copo está em questão.
2. Pragmática
A pragmática estuda o uso da linguagem em contextos reais de
comunicação, considerando a intenção do falante, o contexto situacional e as
inferências feitas pelos interlocutores. Ao contrário da semântica, a pragmática trata
do significado implícito ou contextualizado.
Exemplo: A frase "Você pode me passar o sal?" é literalmente uma pergunta sobre
capacidade, mas, pragmaticamente, é um pedido.
3. Deixis
A deixis refere-se às palavras ou expressões cujo sentido depende do
contexto da enunciação, como o tempo, o espaço e os participantes do discurso. Os
elementos deícticos "eu", "aqui" e "agora", por exemplo, mudam de referência
conforme quem fala, onde fala e quando fala.
Exemplo: "Estou aqui agora." – "eu", "aqui" e "agora" mudam dependendo de quem fala,
onde e em que momento.
4. Atos de Fala
Teorizados por Austin (1962) e Searle (1969), os atos de fala mostram que
falar é agir. Toda vez que usamos a linguagem, estamos realizando ações, como
fazer um pedido, prometer algo, dar uma ordem ou fazer uma pergunta.
Três níveis de análise dos atos de fala:
Ato locucionário: o ato de dizer algo.
Ato ilocucionário: a intenção por trás do que é dito.
Ato perlocucionário: o efeito causado no ouvinte.
Exemplo: "Prometo que irei amanhã." é um ato ilocucionário de promessa.
5. Implicatura Conversacional
A implicatura é um conceito desenvolvido por Grice (1975) que trata daquilo
que é comunicado indiretamente, ou seja, não está explicitamente dito, mas pode
ser inferido com base nas normas de cooperação da conversa.
Exemplo:
A: "Vai ao cinema hoje?"
B: "Tenho que acordar cedo."
→ Implicatura: provavelmente não vai.
6. Pressuposição
Pressuposição é uma informação assumida como verdadeira para que uma
frase faça sentido. Mesmo na negação da frase, a pressuposição se mantém.
Exemplo: "João parou de fumar."
Pressupõe que João fumava antes.
Palavras e expressões como "parar", "continuar", "voltar", "o irmão de", "de novo"
são gatilhos para pressuposições.
7. Contexto Discursivo
O contexto discursivo é o conjunto de condições linguísticas e
extralinguísticas que envolvem a produção e a interpretação de um enunciado. Inclui
o contexto (o que foi dito antes ou depois), os participantes, a situação comunicativa
e os conhecimentos compartilhados entre os interlocutores.
Exemplo: A frase "Isso não vai dar certo!" pode ser interpretada como alerta,
desabafo, raiva ou preocupação, dependendo do contexto.
Referências Bibliográficas
1. Semântica
LYONS, John. Linguistic Semantics: An Introduction. Cambridge: Cambridge University
Press, 1995.
SAEED, John I. Semantics. 4. ed. Chichester: Wiley-Blackwell, 2016.
2. Pragmática
KORTA, Kepa; PERRY, John. Pragmatics. Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2011.
Disponível em: [Link] Acesso em: 18 abr. 2025.
LEVINSON, Stephen C. Pragmatics. Cambridge: Cambridge University Press, 1983.
MEY, Jacob L. Pragmatics: An Introduction. 2. ed. Oxford: Blackwell Publishing, 2001.
3. Deixis
BÜHLER, Karl. Theory of Language: The Representational Function of Language.
Amsterdam: John Benjamins, 1990.
LEVINSON, Stephen C. Pragmatics. Cambridge: Cambridge University Press, 1983.
(Capítulo sobre deixis)
4. Atos de Fala
AUSTIN, John L. How to Do Things with Words. Oxford: Clarendon Press, 1962.
SEARLE, John R. Speech Acts: An Essay in the Philosophy of Language. Cambridge:
Cambridge University Press, 1969.
5. Implicatura Conversacional
GRICE, H. Paul. Logic and Conversation. In: COLE, Peter; MORGAN, Jerry L. (ed.). Syntax
and Semantics: Speech Acts. v. 3. New York: Academic Press, 1975. p. 41-58.
HORN, Laurence R. Implicature. In: HORN, Laurence R.; WARD, Gregory (ed.). The
Handbook of Pragmatics. Oxford: Blackwell Publishing, 2004. p. 3–28.
6. Pressuposição
KADMON, Nirit. Formal Pragmatics: Semantics, Pragmatics, Presupposition, and Focus.
Oxford: Wiley-Blackwell, 2001.
STALNAKER, Robert. Pragmatic Presuppositions. In: Context and Content: Essays on
Intentionality in Speech and Thought. Oxford: Oxford University Press, 1999. (Original de
1974)
STALNAKER, Robert. Presuppositions. Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2002.
Disponível em: [Link] Acesso em: 18 abr. 2025.
7. Contexto Discursivo
KOCH, Ingedore G. Villaça. Desvendando os segredos do texto: um guia para leitura e
produção. 11. ed. São Paulo: Cortez, 2011.
VAN DIJK, Teun A. Discourse Studies: A Multidisciplinary Introduction. Londres: Sage
Publications, 1997.