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Antropologia Indígena e Cuidados Corporais

O documento resenha o livro 'O mundo em mim' de João Paulo Lima Barreto, que propõe uma antropologia indígena a partir da perspectiva dos povos Tukano no Alto Rio Negro. O autor discute a importância dos conhecimentos nativos e a prática do cuidado com o corpo, desafiando preconceitos e buscando a descolonização do saber. A obra é um convite à reflexão sobre a epistemologia indígena e a valorização das práticas de saúde tradicionais.

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Antropologia Indígena e Cuidados Corporais

O documento resenha o livro 'O mundo em mim' de João Paulo Lima Barreto, que propõe uma antropologia indígena a partir da perspectiva dos povos Tukano no Alto Rio Negro. O autor discute a importância dos conhecimentos nativos e a prática do cuidado com o corpo, desafiando preconceitos e buscando a descolonização do saber. A obra é um convite à reflexão sobre a epistemologia indígena e a valorização das práticas de saúde tradicionais.

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A CANOA DA TRANSFORMAÇÃO

YEPAMAHSÃ ( TUKANO):
POSSIBILIDADES
PARA CONHECER UMA
ANTROPOLOGIA INDÍGENA*

RESENHA
ALEXANDRO DA SILVA NHANDEWA**, RILANE SILVA REVERDITO GEMINIANO***

Goiânia, v. 21, n.1, p. 254-257, jan./jul. 2023.


BARRETO, João Paulo Lima. O mundo em mim: uma teoria indígena e os cuidados
sobre o corpo no Alto Rio Negro. Brasília: Mil Folhas, 2022. 260p.

DOI 10.18224/hab.v21i1.13215
upuri-ʉremiri-sararo-buberaporã (João Paulo Lima Barreto), da unidade social Ye-
Y pamahsã (Tukano) -, mais conhecido como Tukano - é um filósofo, etnógrafo e antro-
pólogo indígena que embarca na Cobra Canoa para uma reflexão profunda acerca dos
conhecimentos nativos a partir das teorias advindas das perspectivas dos povos origi-
nários. Trata-se de considerar, culturalmente, nas rodas de conversa, o ato de pensar o
pensamento nativo, para aprender junto com os especialistas do Alto Rio Negro/AM
que cuidam da saúde e da vida em sociedade, em relação às epistemologias, às onto-
logias, às cosmologias, às categorias, aos conceitos, isto é, as teorias indígenas a partir
de suas visões de mundo e dos conhecimentos Pamurimahsã (especialistas do Alto Rio
Negro) para fazer uma Antropologia sob o olhar de um pesquisador indígena).

* Recebido em: 01.03.2023. Aprovado em: 15.07.2023.


** Guarani. Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina. Professor de Sociolo-
gia, Filosofia e História. Atualmente na direção do Colégio estadual indígenas Nimboeaty Mborowitxa
Awa Tirope, aldeia Ywy Porã. E-mail: [email protected]
*** Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia em Rede Nacional (ProfSocio) na Univer-
sidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Campus de Marília - SP (2019). Atualmente é
doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais na Universidade Estadual Paulista
Júlio de Mesquita Filho, Campus de Marília (2020-2024) com apoio da Coordenação de Aperfei-
çoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. E-mail:
254 [email protected]
João Paulo Lima Barreto embarca na Canoa da Transformação/Cobra Canoa,
em busca de uma retomada do seu mundo para a escrita do livro O mundo em mim,
superando e desconstruindo imaginários errôneos sobre os conhecimentos dos deten-
tores dos saberes, que sempre foram negados e endemoniados pelas demais sociedades/
colonizadoras não ameríndias. Por conseguinte, é na busca pela prática da reflexibilida-
de que os conhecimentos nativos são propostos de forma mais simétrica ou “cruzada”,
como escreve o primeiro doutor antropólogo indígena da UFAM. “Assim foi necessá-
rio voltar para meu ‘mundo’ para sistematizar minimamente os conceitos yepamahsã”
(BARRETO, 2013, apud BARRETO, 2022, p. 51).
Nesse sentido, no âmbito de uma construção de uma escrita antropológica indí-
gena sobre os cuidados com o corpo humano, João Paulo vai além do ofício etnográfico e
observador participante. No entanto, o referido autor busca ser o interlocutor juntamente
com os kumuã no Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, na cidade de Manaus.
Vale destacar, sobre a localidade em questão, que se trata de um hospital in-
dígena pioneiro nacionalmente, que nasce a partir de embates ao lado de experiências
dolorosas em relação a meios preconceituosos e racistas como, por exemplo, na luta pela
não amputação do pé da sobrinha picada por cobra venenosa, a ponto de os especia-
listas indígenas - kumuã - serem afrontados pela equipe médica hospitalar. Na qual o
chefe da junta médica afronta diretamente o senhor Olívio - kumuã, pai de João Paulo

Goiânia, v. 21, n.1, p. 254-257, jan./jul. 2023.


e avô da menina enferma -, situando-se na instância de uma negação de conhecimento:
“o senhor não frequentou um dia sequer a medicina” (BARRETO, 2022, p. 49).
Vale destacar que é no espaço do Bahserikowi que a pesquisa é sustentada na
escuta intensa, na memória, no diálogo, no respeito, nos encontros de saberes, nas prá-
ticas nativas complementares do cuidado com o corpo, instâncias em meio as quais o
pesquisador/interlocutor Tukano já dizia sobre a necessidade de levar a sério. “O mun-
do em mim” é um “debate sério acerca da “epistemologia rionegrina”, em que a noção
de corpo tem um lugar especial e potente” (BARRETO, 2022, p. 246) para aquele e
aqueles que embarcam na Canoa da Transformação a fim de serem transformados em
mahsã kahtiro (humano/vida). Assim, o antropólogo indígena sistematiza o estudo so-
bre a teoria do cuidado com o corpo na perspectiva de inserção de novos contrapontos
para a busca de uma antropologia indígena, onde aqueles - kumuã - que não frequen-
taram um único dia de aula na academia são seus mestres maiores para o desenvolvi-
mento da pesquisa - escrita da teoria - que resultou o livro que temos hoje ao alcance.
Os modus operandi de conhecimentos são sistematizados no livro intitulado
O mundo em mim: uma teoria indígena e os cuidados sobre o corpo no Alto Rio Negro,
com 260 páginas, no qual o autor desafia leitores e a si mesmo para a aprendizagem
do “pensar o pensamento” do seu “mundo” a partir de uma aprendizagem situada na
vivência e na memória indígena. Desse modo, a indigenização e a descolonização de
conhecimentos são postos em evidências em outros espaços, além do acadêmico.
Entretanto, a trajetória de escolarização e de pesquisa não foi nada fácil. O autor
rememora sobre a negação da sua pessoa e de seus saberes desde os primeiros contatos
com a escola colonizadora do internato, já que “eram proibidos de falar sua língua ma-
terna. O padre ameaçava colocar uma placa com a frase “sou burro” em nosso pescoço”
(BARRETO, 2022, p. 45) e no ensino médio em escola técnica não foi diferente: “Não
saberia descrever as dificuldades linguísticas e toda a discriminação que sofri nesse
período” (BARRETO, 2022, p. 46). No ensino superior também houve a negação
255 para o aprendizado dialógico, intercultural, na perspectiva da complementaridade para
o pensar a ciência indígena: “Muitas vezes eu desejava compartilhar meus saberes na
sala de aula, as formas de explicação do mundo e das coisas, do ponto dos Yepamahsã
(Tukano). Quando me esforçava para contar, os professores logo diziam que isso era
mito” (BARRETO, 2022, p. 47).
O convite para o exercício da reflexibilidade sobre a teoria do cuidado com
o corpo, vivida pelos especialistas indígenas do Alto Rio Negro está sistematizada no
livro O mundo em mim em 4 capítulos, sendo que, desde as primeiras páginas, no mo-
mento em que parafraseia Ailton Krenak, isso remete a um chamamento que o autor
vivencia com os três kumuã Tukano (seu pai, Ovídio Barreto), Tuyuka (Manoel Lima),
e Desana (Durvalino Fernandes), situando-se como interlocutor e tradutor da teoria
do corpo humano. Ao ler o livro, portanto, não só aprendemos sobre eles - Tukano,
Tuyuka e Desana – e acerca de suas ciências, mas aprendemos com eles - sobre nós
mesmos - que a vida e o planeta são comunicáveis em sete categorias: luz-vida, flores-
ta-vida, terra-vida, água-vida, animais-vida, ar-vida, vida-humana, todas indispensáveis
na formação e na transformação de um homem saudável no mundo.
Na introdução, intitulada “Trajetória da comunidade à universidade”,
João Paulo descreve os ensinamentos recebidos pelo avô Ponciano - um especialista
– acerca das dietas, do cuidado com a alimentação para não contaminar o corpo,
do zelo e da dedicação com que o avô exercia o ofício de yai (‘pajé’). Paralelamente,
Goiânia, v. 21, n.1, p. 254-257, jan./jul. 2023.

ele discorre sobre a vida social indígena, as investidas da Igreja Católica dentro das
aldeias no texto que tem por subtítulo “Uma vida de adolescência, mudança de ro-
tação e de perspectiva”, marcada pelo afastamento dos avós e pela ida à escola com
atividades catequética contínuas até uma dedicação exclusiva à Igreja Católica no
sistema de ensino no internato Salesiano por 6 anos, no qual cursou Filosofia Semi-
narística. No ano de 2000, ele abandona o sacerdócio e vai para o curso de Filosofia
na UFAM, paralelo ao curso de Direito pela Estadual do Amazonas (UEA). Deixa,
então, o curso de Direito para o ingresso no curso de Mestrado, onde é desafiado
a pensar o pensamento indígena, tendo no curso de Antropologia sua provocação
para a reflexibilidade em diálogo com seu pai, com o orientador e com o Laborató-
rio de Ictiologia/INPA.
O autor ainda descreve o desenvolvimento da tese que descende o livro situan-
do-se como um “nativo antropólogo” que dará continuidade aos conhecimentos indí-
genas Pamurimahsã (especialistas do Alto Rio Negro) às gerações subsequentes a partir
da prática reflexiva e da partilha da cosmologia e da ontologia Yepamahsã de bahsese (os
especialistas) para conhecer o corpo humano doente, em tratamento e curado.
O capítulo I “Mahsã, ʉhpu pati: a constituição do corpo” apresenta o surgi-
mento do ser humano na terra a partir da lente dos Pamurimahsã do Alto Rio Negro.
Nesse interim, por meio desses elementos que constituem o corpo, os especialistas re-
gem a bahsese das substâncias contidas nos vegetais, nos animais, nos minerais nos
fenômenos naturais para o cuidado e equilíbrio com o ser humano.
No capítulo II, “Doatise, duhtitise e bahsese: ataques e cuidados do corpo” é
descrito o método para o doatise e duhtitise (diagnóstico), que é um processo fundamen-
tal para o uso correto de bahsese no corpo doente, como também indica o desequilíbrio
dos elementos da terra constituintes no corpo - categorias já mencionadas acima -, esses
por meio dos quais o Yepaoãku (demiurgo) foi adulterado pelo ʉmukoñeku - o avô do
mundo. Diagnosticar a doença, portanto, é primordial para utilizar o heriporã bahseke
wame no que diz respeito à reconstituição do corpo enfermo. 256
No capítulo III, “Duhkewehtise e sutiwehtise: os modos de transformação do
corpo”, é dado ênfase às transformações do corpo humano e dos animais. O autor ver-
sa sobre as quatro transformações do corpo humano, acerca da qualificação do corpo
pelo bahsese, (expressões, palavras específicas retiradas das narrativas míticas) pelo sutiro
(uma ‘corporificação’ temporária, como se fosse uma roupa), após a morte em animal
e vegetal e sobre a transformação de animais em outros animais sem a intervenção de
bahsese e de sutiro.
Por fim, no último capítulo, IV, “Uma etnografia da prática de bahsese no
Centro de Medicina Indígena Bahserikowi”, como o próprio título já evidência, a me-
todologia etnográfica é utilizada para descrever/traduzir/interpretar partindo das refle-
xões de um interlocutor do pensamento nativo com reflexibilidade em relação às prá-
ticas de bahsese nos corpos enfermos de pessoas indígenas e não indígenas, nos espaços
aldeias e fora dela, para a construção de uma vida em qualidade apresentada por uma
antropologia indígena. Conforme já mencionado por Yupuri-ʉremiri-sararo-buberapo-
rã (João Paulo Lima Barreto), a proposta teórica indígena sistematizada no livro segue
na Cobra Canoa para a tessitura de contrapontos e de novas ideias “para se chegar um
dia a uma verdadeira antropologia indígena” (BARRETO, 2022, p. 246). Desse modo,
O mundo em mim é uma teoria sob a perspectiva indígena necessária e urgente para a
sobrevivência de todos - humanos e animais - em um mundo equilibrado e saudável.

Goiânia, v. 21, n.1, p. 254-257, jan./jul. 2023.


Nota
1 Sobre o nome especialistas indígenas - os kumuã -, João Paulo escreve: “sugiro chamá-los de especia-
listas, pela falta de outro termo que possa melhor defini-los” (BARRETO, 2022, p. 32).

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