a fim de verificar se se justifica a perspectiva que respeitáveis aos estudantes tradicionalmente mo-
tivados a respeitar de modo solene o título de
adotam. São elas:
a) o processo de desenvolvimento implica diferen- doutor, o cultivo de humanidades ou a elevação
ciação do mercado de trabalho, por meio do surgi- de status propiciada pela aquisição do diploma
.mento de novas ocupações ou especializações pro- escolar em si;
físsíonaís associadas ao progresso tecnológico. d) assím, os padrões culturais que norteiam a
A primeira .suposíçâo parece indiscutível; basta escolha ocupacional entram em descompasso com
que Se examinem os anúncios de emprego ao longo as exigências de mão-de-obra propiciadas pela
dos últimos 10 ou '15 anos no Brasil para se nova tecnologia e a oferta de emprego do setor
verificar a ocorrência de inúmeras ocupações no- moderno da produção demora a contar com pro-
vas;considei'em-:-se o número e o elevado nível cura suficiente, definindo uma situação de carên-
tecnológico de alguns ramos industriais e de ser- cia de mão-de-obra qualificada, o que constitui
viços instalados no mesmo período (como indústria ponto de estrangulamento do processo produtivo.
automobilística, processamento de dados, mercado A terceira suposição apresenta-se mais crítica,
de capitais, para ficarmos em alguns exemplos) e .por não reconhecer a importância das especifici-
se notará que a diferenciação ocupacional é indis- dades dó subdesenvolvimento. Num sistema eco-
nômico em que a evolução tecnológica não se dá
cutível;
b) a diferencição é acompanhada de um incre- harmoniosamente, pela incorporação progressiva
. mento líquido volumoso de novas oportunidades de invenções ao aparato predutívo, como no mo-
de emprego nos setores dinâmicos da produção delo clássico de desenvolvimento, mas aos saltos,
industrial e de serviços, capaz de absorver os não isto é, pela implantação abrupta e descontínua de
menos volumosos contingentes de jovens que a equipamentos e know-how importados, é de acei-
cada ano deixam a escola e vêm engrossar as fi- tar-se como bastante na:tural a perplexidade do
jovem em relação a inúmeras ocupações que sur-
leiras da força de trabalho.
A segunda suposição afigura-se-nos problemá- gem praticamente do dia para a noite. O perigo
tica. Ela encerra uma visão otimista da capacidade dessa suposição está no fato de ela permitir que
de absorção da força de trabalho na industriali- se exagere, na proposição seguinte, a tradição
zação brasileira, mas não está, a nosso ver, fir- cultural como responsável pela insuficiência con-
mada em levantamentos e projeções objetivas, dig- juntural (também suposta) de determinados con-
nas de crédito. Quem venha acompanhando os tingentes profissionais.
estudos de mão-de-obra e de projeção da oferta de e) ao mesmo tempo em que o sistema educacio-
empregos qualificados e conheça as dificuldades nal se expande insuficientemente nos ramos mo-
de utilização de uma metodologia eficaz de cálculo dernos, o faz em excesso nos setores humanísticos,
da procura de mão.:.de-obra6 poderá aquilatar a em razão. da expansão violenta da educação pri-
enorme imprecisão que prevalece nas estimativas mária e média, e da permanência do elevado pres-
do potencial de mercado de trabalho e do desem- tígio de algumas carreiras humanísticas (como
prego e subemprego presentes .. Como conseqüên- Direito), ou da maior valorização do trabalho de
cia, notam-se grandes discrepâncias de resultados, escritório com relação ao trabalho manual (de
ora acusando enormes carências (atuais ou futu- fábrica). Isto é, a despeito das exigências .tecno-
ras), ora denunciando a existência ou a possi- lógicas, o sistema escolar continua em forte expan-
são, agravando. sua distorção básica; ao produzir
bilidade de ocorrência de graves superavits de
pletoras de diplomas sem utilidade técníco-econõ- 93
mão-de-obra especializada, ao sabor do jogo de in-
mica, ou com utilidade secundária.
teresses dos grupos profissionais interessados e Finalmente, a última afirmação endossada em
de outras fontes. Em última análise, aceitamos princípio peca à medida que atribui a distor-
que a insuficiência de base para uma visão oti- ção do sistema escolar às preferência estudantis,
mista do mercado de trabalho compromete por si sem entrar na lógica das condições legais insti-
é
a importância causal atribuída ao comportamento tucionais que fazem do ensino público, muitas ve-
de estudantes e trabalhadores no preenchimento zes, um complexo de injunções políticas, e, do
das oportunidades de emprego; privado, uma próspera indústria, analisável, em
c) as ocupações ou especializações profissionais termos comerciais, como qualquer empreendimen-
assim emergentes, embora exígêneía do progresso . to lucrativo. Queremos dizer que a socíología edu-
técnico e de forte potencial de absorção, não en-· cacional criticada, à medida que tende a se
contram de imediato lugar satisfatório na distri- limitar ao estudo das "preferências da clientela"
buição do prestígio social, isto é, não são valori- e a analisar atitudes de massas de estudantes e
zadas socialmente ou demoram a se ímpor como seus referenciais de cultura, termina por perder
A· .ocfoZOgla edUC4CfonaZ bra.aetra
A sociologia educacional brasileira e sua preocupação com o estudante José Carlos Garcia Durand
de vista a escola como instituição, naquele estilo Aliás, se concentrarmos nossa atenção. nas insti-
de estudo de caso tão bem ilustrado pela mono- tuições de ensino superior e em· sua expansão a
grafia de Luiz Pereira a respeito de uma escola partir do início da década dos 60, poderemos obser-
primária na periferia da Capital. 7 var certos fatores de'distorção importantes -.Consí- .
Ao endossar todas essas suposições,os sociólogos derando que o subsistema público,·mantido pelos
da modernização admitem que há, da parte do governos estaduais e municipais, além do federal,
estudante e de sua família, como fonte de controle por força. da política de planejamento educacional,
da escolha ocupacional do jovem, um considerável está conseguindo conter a expansãoexcessiva dos
foco de resístêncías culturais às transformações cursos humanísticos em benefício dos .técnícos, po-
do sistema escolar, concentrando seus estudos em- de-se· atribuir à iniciativa privada grande parte
píricosno estabelecimento dessas resistências da responsabilidade pelo hípertrofíamento recente
culturais, isto é, na análise do comportamento es- dos ramos não técnicos. Em verdade, o subsistema
tudantil (motivação para o êxito econômico, liber- privado vem-se .expandíndo no mais perfeito lais-
dade de decisão ocupacional em relação à família, sez-faire, .concedendo-se à iniciativa particular
sustentação de preconceitos em relação a deter- licença de abertura ou expansão de' quaisquer
minadas ocupações, principalmente as manuais cursos, indiscriminadamente. A .esse respeito, em
etc.) e seus determinantes culturais; Como grande estudo que realizamos do sistema. universitário
parte das suposições iniciais originou-se de aná- paulista em 1967,9 pudemos constatar que os gru-
lises econômicas, que antecederam e condiciona- pos educacionais privados em nosso estado só che-
ram a definição da referida perspectiva socioló- gam (e quando chegaml) a enveredar nos ramos
gica, acreditamos que esta se define como resíduo técnicos, apenas após esgotar toda a faixa do ensi-
da economia política desenvolvímentísta, sem ou- no humanístico, pela criação de escolas de direito,
sar uma análise mais integradora do processo filosofia, e economia e administração. Supusemos
educativo no processo global de transformação então que a exploração inicial dos cursos de huma-
social. nidades, pela iniciativa privada, funciona como
Parece pacífico que. haja interferência da.cultura meio de acumulação de capital, que nem sempre,
na orientação da escolha ocupacional e seria mes- ou com muita demora, se traduz na abertura de
mo um absurdo supor o contrário; ninguém nega escolas técnicas. Assim, atribuir a responsabili-
que haja diferentes níveis de prestígio associado às dade da distorção ao estudante implica reconhecer
ocupações; ninguém ignora que a. escolarização que a correção do sistema só pode vir por uma
feminina é· regulada por forte sanções sociais que espécie de reversão de expectativas por 'parte da
definem os cursos considerados "próprios à mu- clientela escolar, quando o mais conveniente seria
lher", como serviço social, enfermagem e muitas defender a implementação, de um planejamento
licenciaturas de faculdades de filosofia como letras, mais firme.
pedagogia, ciências sociais etc., sem falar no curso Outro dado que serve para minimizar a impor-
normal, de nível secundário - e que esses pa- tância distorcionísta atribuída à cultura é a grande
drões se mantêm em virtude deestere6tipos mais procura de cursos da' área de.ciência e tecnologia,
amplos quanto à posição .socíal e papéis socíalmen- em relação à capacídade dos mesmos. As estatís-
te esperados da mulher, na sociedade de classes; ticas. educacíonaís revelam que a demanda relati-
.todos aceitam que grande parte da enorme valo- va de cursos. técnícos, expressa na relação candí-
rização que cerca certos. cursos como medicina, datos/vagasnaP série, é muito maior. que a dos
94 direito 'e engenharia se prende à expectativa de cursos humanístícos= e que as escolas técnicas de
realizar, por meio deles, carreiras de profissionais nível médio podem padecer de tudo, menos de can-
autônomos ou liberais, ainda que essa possibili- dídatos.» Só podemos concluir que a área de ciên-
dade seja cada vez menor; todos concordam que cia e tecnologia só não se expande mais rapida-
se costuma dar maior aceitação ao trabalho não- mente por fatores 'que atuam do lado da oferta
manual. (ou de escritório) em relação ao manual, (isto é, da iniciativa. educacional. pública e priva-
mesmo qualificado, exercido diretamente na linha da) e não da procura (estudantes e suas expec-
de produção industrial. Todavia, é muito discutí- tatívas),»
vel tanto o sentido que à sociologia da moderni- Fínalízarído, admitimos que a sociologia encon-
zação procura dar a tais comportamentos (vale traria um campo mais produtivo, oportuno e fe-
dizer, 'corno manifestação de tradícíonalísmo).," cundo de análise se colocasse sua atenção na ins-
.como.consíderar esses comportamentos como fator tituição escolar; se procurasse discernir com cla-
causal das distorções do,sistema educacional, espe- reza a lógica de expansão do ensino privado, em
cialmente o de nível superíor. que se destaca o "empresário da educação" como
Revtsta de Administraç40 àeEmpresa$
-_._.----~
uma figura socíal.anôníma, porém decisiva; se exi- o progresso técnico. A tipologia foi formalmente esta-
.belecída por nós, e,' ainda .qQe'incompleta, .parece reter
gisse dos economistas' um maior amadurecimento oá atríbutos básicos dos comportamentos polares, ex-
da metodologia de cálculo de oferta e. procura de traídos do' exame de escalas. de atítúdes usadas em
mão-dê-obra qualificada .e .se resolvesse; enfim, monografias que se valem das teorias da moderní-
enfrentar com coragem a análise dos obstáculos zação. .
5 Compreendem.se na área de ciência e tecnologia os
institucionais a uma efetiva planificação da edu- cursos de Engenharia, Fisica, Qulmica,. Matemática,
cação brasileira. Geologia, Arquitetura e Urbanismo, Medicin~, Odonto-
Não lhe ficaria mal, também, se colocasse de logia, Farmácia, Veterinária, Ciências Biológicas e En-
lado sua mentalidade e seu. rigor científico e se se fermagem. Trata-se de um agregado corrente na líte-
ratura educacional contemporânea. Cf. Joly Gouveia,
propusesse' a refletir em torno da filosofia educa- Aparecida, Origem étnica e situação socíoéconõmica
cional subjacente ao prisma economicista da edu- dos universitários paulistas, Revista de Administração
cação, e do tipo de homem que um sistema assim de Empre8as, v. 12, n. 1, p. 71-80.,jan./mar. 1972.
organizado geraria. •• 6 Cf. UNESCO. Le méthodes deprojection a long ter-
1 . Cf. Pereira, Luiz. A escola numa área metropolitana. me de l'ollre et de la demande de main-d'oeuvrequali·
São Paulo, Lívraría Pioneira Editora, 1967. p. 155-66. ltée. Paris, 1965. Esse relatório discute os métodos de
Apêndice: Nota critica sobre o pensamento pedagógico - cálculo da oferta e procura de mão-de-obra qualificada,
e . permite verificar como .as estimativas a respeito
brasileiro.
2 As concepções básicas das teorias da modernização feitas no Brasil ainda estão longe de um mínímo de
estão contidas em: Hagen, E.E. On the theoT'JI01 social rigor ..
change. Homewood, Ill., The Donsey Press, 1962; 7 Pereira, op. cito
McClelland, D.C., The achieving society, Princeton, N.Y., a Muitos dos comportamentos admitidos como tradi-
D. Van Nostrand Co., Inc., 1961, e :Lerner, D., The pas. cionais ou pré-capitalistas pela sociologia da moderní-
sing 01 traditional society,. New York, The Free Press, zação são evidenciados como perfeitamente integrados
a ou decorrentes da própria' sociedade de classes.. in-
1958. clusive no seu; setor mais avançado, os chamados pai-
3 Entre os ensaios crítícos à teoria da modernização
podemos assinalar os de Gunder Frank, Andrew. soeío- ses desenvolvidos. Gunder Frank, por exemplo, no arti-
logie du developpement et sous-developpement de la so- go citado, comenta que a selecão ocupacional com base
ciologie. Cahiers Internationaux de Sociologie, P.U.F., na competência, tida como atributo típico do mundo
desenvolvido, ai não tende a se realizar: a atribuição
v. 92, 1967; Pinheiro Machado, Lia. Alcance e limites
das teorias da modernização. Revista de Administração de papéis com base no status se verifica nos E.U.A. não
só entre gerentes de alto nível como também se mani-
de Empresas, v. lO, n, 2. p. 169·92,jul./set. 1970.
festa nos papéis desprestigiados e no nível salarial mais
4 As teorias da modernização manipulam, no campo
baixo conferido ao negro na execução das mesmas ta-
educacional, dois conceitos básicos: os de estudante tra-
dicional e moderno - como tipos ideais. Tradicional refas do branco (p. 106).
seria o estudante que segue rigorosamente e sem dís- 9 Durand, J.C.G. O ensino superior no estado de São
cussão a opção acadêmica e profissional escolhida pelos Paulo .. Anuário Paulista de EducaçiJ,o 1968. Secretaria
pais ou pela familia em geral; que, em razão dísso, está da Educação do Estado de São Paulo. p. 157·88,1968.
propenso a repetir a carreira paterna e a rejeitar as 10 Cf. Durand, op. cito .
demais ocupações; que valoriza a aquisição do diploma 11 lt sabido que a rede de escolas técnícas- modelo -
como símbolo de status e não como meio de exercicio o SENAI ~ é tão procurado que restringe a admissão
de uma ocupação com eficácia. Em contraposição, mo· a seus cursos a menores já engajados na indústria.
derno seria o estudante que escolhe a profissão por 12 O único curso da área de ciência e tecnologia que
meio de uma ponderacãoracionalentre meios e fins, parece contar com número de candidatos inferior ao
ditada pela ambição pessoal de ganho monetário e número de vagas iniciais é o de enfermagem, segundo'
orientada por uma opção sem interferência familiar; constatamos no artigo supra-citado. Trata-se de um caso
que valoriza o ensino como meio de exercicio de uma· em que, a nosso ver, se pode realmente falar de resís-
profissão rendosa ainda que comportando risco e que, tência cultural prejudicando o abastecimento de mão-
enfim,estâ sensível às nova:S com de-obra a um, set()r técnico - o médico. 95
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