Famiília Precisadecuidados
Famiília Precisadecuidados
4.1.
Família: a que cuida
Léon Tolstoi
melhor conhecer esse fenômeno tão familiar e tão diverso em nosso dia a dia”,
como sustentam Freitas et al
161
(2010). E assim, buscar compreendê-la nas suas distinções como pertencentes
a categorias sociais diferenciadas. Apesar disso, não obstante as transformações
que ocorrem nos seus desenhos na moderna sociedade brasileira, sempre fica
parecendo que ao nos dirigirmos a família, seja com que propósito for, deriva de
um dado modelo de família composto por pai, mãe e filhos. E, apesar do
reconhecimento de novos arranjos familiares, hoje persiste a dificuldade de
compreendê-los e de reconhecê-los como família.
Por considerá-la uma construção sócio-histórica, Saraceno162 (1992)
sustenta que existem equívocos não só na sua nomenclatura como na sua
definição, assim, para a autora: “é um indicador da multiplicidade de discursos
que definem o que é uma família: discursos religiosos, morais, legais, das
tradições culturais, das políticas sociais, até a específica tradição de cada família
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161
Freitas, R. de C. S. et al. Famílias e Serviço Social – algumas reflexões para o debate. In:
Família & Famílias: Práticas sociais e conversações contemporâneas. Duarte, M. J de O. et al.
(Orgs.). Editora Lumen Juris. RJ. 2010, p. 21.
162
Saraceno, C. Introdução: discursos de família. In: Sociologia da família. Editora Estampa.
Lisboa, pp. 11-16. 1992.
163
Giddens, A. Sociologia. Fundação Gulbenkian. Lisboa. 1997, p. 879.
164
Carvalho, M. do C. B de. Políticas públicas voltadas para a família: tendências e desafios. In: O
social em questão. Revista do Programa de Pós-graduação em Serviço Social da PUC-Rio Volume
14 – Número 14. 2005, p. 46.
74
165
Leme, L. E. G & Silva, P. S. C. P. da. O idoso e a família. In: Gerontologia. Papaléo-Netto.
(Org.). Editora Atheneu. SP. 1996, p. 93.
166
Sarti, C. A. A família como espelho: um estudo sobre a moral dos pobres. 2ª edição. Cortez
Editora. 2003, p. 70.
167
Idem, contracapa.
75
168
Mioto, R. C. T. Família e Serviço Social: contribuições para o debate. In: Revista Serviço Social
e Sociedade. Nº 55. Cortez Editora. SP. 1997, p. 120.
169
Prado, D. O que é família? Editora Brasiliense. SP. 1991.
170
Berger, P. L. & Luckmann, T. A construção social da realidade. 5ª edição. Editora Vozes.
Petrópolis. 1983.
171
Idem, p. 72.
76
172
“natureza humana”” , mas, não é objetivo deste estudo aprofundar essas
questões.
Em nossa compreensão contribuem para as transformações da família uma
multiplicidade de fatores como as funções que são exercidas por ela na sociedade;
os novos modos de reprodução; as políticas econômicas e as mudanças de
paradigmas importantes do ponto de vista da sexualidade, que trazem
modificações no formato, na ancoragem de relações flexíveis ou consistentes, que
faz com que, não só a família procure estratégias para sua sobrevivência, como
toda sociedade a estude para dar conta do volume de variáveis, que nominamos
família.
Novos papéis, lugares e direitos tanto dos filhos, quanto das mulheres e dos
homens foram se produzindo, nas novas configurações familiares. Na família
173
nuclear burguesa conforme aponta Ariès (1981) o papel social dos filhos e
filhas teve seu desenvolvimento ordenado por meio da obediência aos valores dos
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172
Idem.
173
Ariès, P. A história social da criança e da família. 2ª edição. Tradução de Dora Flaksman. LTC
Editora. RJ. 1981.
174
Reis, J. R. T. Família, emoção ideologia. In: Psicologia Social: o homem em movimento. Lane,
S. & Codo, W. (Orgs.). 3ª edição, pp. 99-124. Editora Brasiliense. SP. 1985.
175
Freitas, R. de C. S. et al. Famílias e Serviço Social – Algumas reflexões para o debate. In:
Família & Famílias: Práticas Sociais e Conversações Contemporâneas. Duarte, M. J. de O. &
Alencar, M. M. T. (Orgs.). Lumen Juris Editora. RJ. 2010, p. 19.
77
176
Sarti, C. A. Família e individualidade: um problema moderno. Seminário: a família
contemporânea em debate. Instituto de Estudos Especiais. PUC-SP, outubro de 1993 (Mímeo).
177
Idem.
178
Mioto, R. C. T. Família e Serviço Social: contribuições para o debate. In: Serviço Social e
Sociedade. Nº 55. Cortez Editora. 1997, p. 116.
78
praticamente a toda sociedade, persistindo até nossos dias. Dentro dessa nova
ordem as crianças foram retiradas da vida comum bem como de grande parte do
tempo e das preocupações dos adultos.
179
Pelo exposto, Ariès (1981) pode ser citado como um dos autores que
estudou e aprofundou as questões referentes às transformações ocorridas na
família. Para isso, em sua obra “História social da criança e da família” o autor
refaz a trajetória da família partindo da Família Medieval indo até a Família
Moderna, possibilitando uma compreensão desse movimento.
Deixando de lado o estímulo às fantasias parafraseando Berger e Luckmann
(1983), esse foi o modo como aprendemos a compreender família, assim:
179
Ariès, P. História social da criança e da família. Tradução de Dora Flaksman. 2ª edição. LTC
Editora. RJ. 1981.
180
Freitas, R. de C. S. et al. Famílias e Serviço Social – algumas reflexões para o debate. In:
Família & Famílias: Práticas sociais e conversações contemporâneas. Duarte, M. J de O. et al.
(Orgs.). Editora Lumen Juris. RJ. 2010, p. 21.
181
Simionato, M. A. W.; Oliveira, R. G. Funções e transformações da família ao longo da história.
I Encontro Paranaense de Psicopedagogia – ABPppr. Novembro de 2003, p. 59.
79
182
Amaral, C. G. C. Família às avessas: gênero nas relações familiares de adolescentes. UFC
Editora, Fortaleza- CE. 2001.
183
Donzelot, J. A polícia das famílias. Tradução de M. T. da C. Albuquerque. 3ª edição. Graal
Editora, RJ. 2001.
184
Idem.
185
Idem.
80
variados existe um consenso que é aquele que se refere à união de seus membros,
quer com laços consanguíneos, quer sem eles, que se dá a partir da intimidade
existente, do respeito mútuo desenvolvido a partir da solidariedade, da amizade
que se constrói a partir das afinidades, e das trocas a partir das necessidades
vividas no âmbito da família.
Na intenção de contextualizar família, mencionamos o século XX como um
dos cenários mais importantes das transformações na estrutura da família, no
entanto, notamos até os dias de hoje determinados sinais que foram deixados por
suas ascendências.
Finalizamos com o que consideramos o mais apropriado para os estudos e
prática dos assistentes sociais no que diz respeito às famílias. Desse modo,
Lefaucheur (1991, p. 479) apud Freitas et al 187 (2010) recomenda:
186
Simionato, M. A. E. et al. Funções e transformações da família ao longo da história. I Encontro
de Paranaense de Psicopedagogia – ABPppr. Novembro/2003, p. 58. Capturado em: 26.01.2011.
Disponível em: www.din.uem.br/~ulpeneto/outros/.../pdf/a07Simionato03.pdf.
187
Freitas, R. de C. S. et al. Famílias e Serviço Social – algumas reflexões para o debate. In:
Família & Famílias: Práticas sociais e conversações contemporâneas. Duarte, M. J de O. et al.
(Orgs.). Editora Lumen Juris. RJ. 2010, p. 21.
81
188
Sarti, C. A. Famílias enredadas. In: Família: redes, laços e políticas públicas. Acosta, A. R. &
Vitale, M. A. F. (Orgs.).2ª edição. Cortez Editora. SP. 2002, p. 23.
82
4.2.
Cuidar, verbo que se conjuga no feminino
189
Couto, C. B. do. O paciente oculto: revelando as consequências que o cuidar de um paciente
portador de ELA promove na vida do cuidador familiar. Tese de Doutorado. UERJ/CFCH/IP.
2004, p. 87.
190
Camarano, A. A. As novas mulheres brasileiras. Artigo. In: Desafios. Novembro de 2007, p.
27.
83
194
Idem.
195
Idem.
196
Rocha-Coutinho, M. L. Tecendo por trás dos panos: mulher brasileira nas relações familiares.
Editora Rocco. RJ. 1994, p. 39.
85
A segunda metade do século XIX (...) assiste a uma série de mudanças decisivas no
que toca à remodelação e saneamento do Rio de Janeiro – que só vão se completar,
porém, no início do século XX, com o Prefeito Pereira Passos – mudanças estas
que afetaram sobremaneira a vida das mulheres da classe superior urbana, trazendo
maiores oportunidades para que elas expandissem seus horizontes.
197
Idem, p. 77.
198
Idem, 92.
199
Beauvoir, S. de. O segundo sexo. 2º volume. Tradução de Sérgio Milliet. Editora Nova
Fronteira. RJ. 1980, p. 9.
86
compreender as diferenças entre homens e mulheres. Com isso Saffioti 200 (1995),
pondera:
É evidente que homens e mulheres vivem sob a mesma cultura e que esta destina a
cada gênero um papel diferente nas relações sociais sejam elas conflitivas ou de
aliança. (...) Embora não se comungue das explicações baseadas na lógica da
complementaridade, da perspectiva da falocracia, a mulher deve complementar o
homem, isto é, desempenhar os papéis sociais que ele recusa para si próprio. Em
outros termos, ela deve atingir, no máximo, a penumbra, quando não consegue se
limitar à sombra.
201
É a mesma Saffioti (1995) que dá subsídios para compreender os
fundamentos das relações sociais e, portanto das questões de gênero. Para isso, a
autora também inclui classe social e a raça/etnia como condicionantes para a
“percepção do mundo circundante” e para “o pensamento”, que atuam como se
existisse “um crivo através do qual o mundo é apreendido pelo sujeito” logo, para
a autora, “a atuação deste sujeito sobre o mundo deriva de sua maneira específica
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200
Saffioti, H. I. B et al. Violência de gênero: poder e impotência. Editora Revinter. RJ. 1995, p.
15.
201
Idem, p. 23.
202
Idem, p. 23.
203
Saffioti, H. I. B et al. Rearticulando gênero e classe social. In: Uma questão de gênero. Costa,
A. de O. & Bruschini, C. (Org.). Editora Rosa dos Tempos. 1992, p. 191.
87
204
Taub, A. et al. Dementia caregiver burden: reliability of the Brasilian version of the Zarit
caregiverr burden interview. Cadernos de Saúde Pública. v. 20, n.2, p. 373-376, mar/abr., RJ.
2004.
205
Costa, S. G. Proteção Social, maternidade transferida e lutas pela saúde reprodutiva. In: Revista
de Estudos Feministas. Ano 10. 2º semestre de 2002, p. 303.
206
Idem, 302
207
Idem.
208
Idem, pp. 303-304.
88
pertençam 211.
209
Idem, p. 304. Grifo da autora.
210
Idem.
211
Idem. Grifo da autora.
212
Idem. Grifo da autora e depois nosso.
213
Idem.
89
4.3.
A construção da violência
214
Arendt, H. Sobre a violência. Tradução de André Duarte. Editora Civilização Brasileira. RJ.
2009.
90
especial se o cuidador for uma mulher que faça parte da família, acrescida da falta
de apoio do restante da família.
Destacamos que a discussão sobre a violência, como fenômeno que ocorre
entre pessoas vem preocupando especialistas de todo o mundo pelo que afeta não
só a vítima, mas a família e todo o seu entorno afetivo, além de ir contra a todos
os preceitos dos direitos fundamentais da humanidade, onde o seu contrário
incondicional é a tolerância. Embora com focos distintos, os autores apropriados
por nós forneceram subsídios complementares o que deu sustentação a esse eixo
do estudo e permitiu novas abordagens sobre o tema, além dos dados atualizados
oferecidos pelos mesmos. Trata-se da construção de Faleiros (2004215, 2005216,
2007217) e Minayo (1994218, 2003219), além dos estudos recentes de Neri 220 (2009)
e Camarano221 (2010).
Para Neri222 (2010) exterioridades contribuem com as dificuldades
enfrentadas pelos cuidadores, e, que não estão relacionados a fatores externos à
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família ou ao seu ambiente, mas sim às relações que foram construídas ao longo
da vida e, outros, relativas à própria oferta do cuidado, às condições de saúde da
pessoa a ser cuidada, mas não deixa de contar com um fator externo como a
existência ou não de uma rede formal de proteção.
Estudiosos sobre violência, como Minayo (2003) e Faleiros (2007) em
específico, na velhice, se referem à questão da violência como a ponta de um
iceberg a ser pesquisado, estudado e aprofundado, visto que abrange, não somente
o tipo de violência praticado, mas também os fatores de risco para vulnerabilidade
215
Faleiros, V. de P. Violência na velhice. In: O Social em Questão. Revista do Programa de Pós-
Graduação em Serviço Social da PUC-Rio. Vol. 11. Nº 11. Ano VII. Primeiro semestre de 2004.
216
Faleiros, V. de P. A violência contra a pessoa idosa no Brasil. In: Projeto apresentado à
Secis/MCT – Pesquisa. Faleiros, V. de P. Brasília. 2005.
217
Faleiros, F. de P. Violência contra a pessoa idosa: ocorrências, vítimas e agressores. Universa
Editora. Brasília. 2007.
218
Minayo, M. C. S. A violência sobre a perspectiva da saúde pública. In: Cadernos de Saúde
Pública – 10 (suplemento), pp. 07-18. 1994.
219
Minayo, M. C. S.; Souza, E. R. Violência sob olhar da saúde: a infrapolítica da
contemporaneidade brasileira. Editora Fiocruz. RJ. 2003.
220
Neri, A. L. Desafios ao bem-estar físico e psicológico enfrentados por idosos cuidadores no
contexto da família: dados do FIBRA Campinas. In: Cuidados de longa duração a população
idosa: um novo risco social a ser assumido. Camarano, A. A. (Org.). IPEA. RJ. 2010.
221
Camarano, A. A. (Org.). Cuidados de longa duração a população idosa: um novo risco social a
ser assumido? IPEA. RJ. 2010.
222
Neri, A. L. Desafios ao bem-estar físico e psicológico enfrentados por idosos cuidadores no
contexto da família: dados do FIBRA Campinas. In: Cuidados de longa duração a população
idosa: um novo risco social a ser assumido. Camarano, A. A. (Org.). IPEA. RJ. 2010, p. 304.
91
223
e as peculiaridades de quem agride. Por isso mesmo, Minayo (2005) faz a
relação entre esse iceberg e a cultura relacional de dominação, de conflitos entre
gerações, e as negligências familiares e institucionais.
Para a relação que vem sendo feita entre cuidado e violência intrafamiliar,
Minayo224 (2003) chama a atenção para o fato de que:
223
Minayo, M. C. de S. Violência contra idosos: o avesso do respeito à experiência e à sabedoria.
Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Brasília/DF. 2005.
224
Minayo, M. C. de S. Violência contra idosos: relevância para um velho problema. In: Cadernos
de Saúde Pública. 19(3), p. 783-791, maio-junho. RJ. 2003, p. 789.
225
Idem.
226
Silveira, T M. da; Caldas, C. P.; Carneiro, T. Cuidando de idosos altamente dependentes na
comunidade: um estudo sobre cuidadores familiares. In: Cadernos de Saúde Pública. v. 22. n. 8.
RJ. 2006. Disponível em:
www.scielosp.Org/scielo.php?Script=sci_arttext&pid=S0102-
311X2006000800011&lng=en&nrm=iso Capturado em: 01.03.2011.
92
Existem doenças com as quais os cuidadores irão lidar e também são as que
mais sobrecarregam os cuidadores posto que são as que vão fazer com que os
idosos necessitem de cuidados, invariavelmente, por vinte e quatro horas, e, ser
cuidado para esses idosos passa a ser uma questão de sobrevivência. Por isso,
Karsch227 (2003) menciona que os cuidados ofertados pelos familiares e que são
desenvolvidos dentro dos domicílios são:
Pode-se considerar então, que seja de consenso, que se trata de uma questão
social, por demandar formulação de políticas públicas específicas para a sua
prevenção e tratamento, e, embora não se trate de uma questão de saúde, torna-se
um problema para este espaço.
Cabe ainda a lembrança de que a centralidade de qualquer proposta de
reflexão sobre a violência invariavelmente se fundamentará na polissemia, na
controvérsia e na complexidade deste tema, na medida em que ele determina sobre
si mesmo uma enorme variável de hipóteses o que permite que a conclusão dos
achados sejam bastante parciais, como propõe Queiroz 228 (2009).
A violência é um termo utilizado para indicar uma ampla variação de
ocorrências, daí as dificuldades tanto na intervenção quanto na solução das
questões que envolvem atos violentos, especialmente contra as pessoas idosas,
que é o foco deste estudo.
Conforme a Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por
Acidentes e Violências (2001) se utiliza a definição que segue: “a violência
consiste em ações humanas individuais, de grupos, classes, nações, que ocasionam
227
Karsch, U. M. Cuidadores familiares de idosos: parceiros da equipe de saúde In: Serviço Social
e Sociedade. Nº 75. Editora Cortez. SP. 2003, p. 106.
228
Queiroz M. G. A violência intrafamiliar na contramão das políticas públicas de proteção ao
idoso seu significado para os idosos “vitimizados”. Dissertação de Mestrado. Mestrado
Profissional em Planejamento Políticas Públicas. Universidade Estadual do Ceará. 2009.
93
A violência, em si, faz parte das grandes questões sociais, sendo o setor da saúde
um tambor de ressonância das resultantes desse fenômeno. O setor da saúde é uma
encruzilhada para onde convergem todas as lesões e traumas físicos, emocionais,
espirituais produzidos na sociedade.
A questão da violência contra a pessoa idosa tornou-se mais evidente nos estudos
científicos a partir dos anos 1970 quando se investigou a violência intrafamiliar,
inicialmente com a expressão utilizada por Burston em 1975 ao falar das “avós
espancadas” ou granny bashing / granny battering (apud Tortosa, 2004, p. 16;
Glendenning, 2000; Marmolejo, 2005). Já no final da década de 1970 e início dos
anos 1980, foram aprofundados os conceitos de abuso físico, emocional, sexual e
econômico contra idosos.
233
Faleiros, F. de P. Violência contra a pessoa idosa: ocorrências, vítimas e agressores. Universa
Editora. Brasília. 2007, p. 21.
234
Idem, p. 22.
235
Idem.
95
tanto o contexto social mais geral como as relações particulares entre as pessoas, e
ao mesmo tempo diverso, em suas manifestações familiares, individuais, coletivas,
no campo e na cidade, entre os diferentes grupos e segmentos, atingindo tanto o
corpo como a psique das pessoas.
Para ele a violência, é ainda: “um processo relacional, pois deve ser
entendido na estruturação da própria sociedade e das relações interpessoais,
institucionais e familiares” 239.
O autor diz que “a violência é uma expressão relacional de poder, como
forma de exercício de dominação, de imposição como de reação de quem tem seu
poder enfraquecido, como revide [...] está situada no contexto de negação da vida”
240
. Julgamos haver concordância entre as análises feitas por Faleiros sobre a
relação entre a violência e a negação da vida com aquelas elaboradas por Minayo
anteriormente.
236
Minayo, M. C. S. Violência contra idosos, relevância para um velho problema. In: Cadernos de
Saúde Pública. v. 19. n. 3, p. 783-791, Maio - Jun. RJ. 2003.
237
Brasil. Ministério da Previdência e Assistência Social. Estatuto do Idoso. Lei nº 10.741 de 12 de
outubro de 2003. Brasília/DF. 2003.
238
Faleiros, V. de P. Violência na velhice. In: O Social em Questão. Revista do Programa de Pós-
Graduação em Serviço Social da PUC-Rio. v. 11. n. 11. Ano VII. Primeiro semestre de 2004, p. 8.
239
______. Violência contra a pessoa idosa: ocorrências, vítimas e agressores. Universa Editora.
Brasília. 2007, p. 27.
240
Faleiros, V. de P. A violência contra a pessoa idosa no Brasil. In: Projeto apresentado à
Secis/MCT – Pesquisa. Faleiros, V. de P. Brasília. 2005, p. 6
96
Para Arendt (2009) que estuda a violência do ponto de vista político esta se
distingue por esse seu caráter instrumental e seus instrumentos são idealizados e
utilizados para o propósito da multiplicação do vigor natural até que, na última
fase de desenvolvimento, possam substituí-lo. Para a autora, a violência é meio,
enquanto o poder é fim. Por fim, aponta Arendt (1985): "a forma extrema de
poder é todos contra Um, a forma extrema da violência é o Um contra Todos” 241.
Mas, Arendt (2009) distingue a violência da força e do poder. Essa distinção
é fundamental visto que auxilia na eliminação de qualquer equívoco que
assemelhe violência e poder. Para ela o poder não se confina ao ‘domínio do
homem pelo homem’, contudo se firma no ‘consenso da maioria’ sem o qual o
poder deixa de existir. Com base nesses alicerces a autora revela que a
característica principal da violência é a arbitrariedade e também alerta para a falta
de grandes estudos sobre o fenômeno da violência e a consequente banalização do
conceito.
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Quanto a sua tese sobre sua crença de que a violência é gerada pela falta do
discurso no espaço público a autora aponta:
A violência pode ser justificável, mas nunca será legítima. Sua justificação perde
em plausibilidade quanto mais o fim almejado se distancia no futuro. Ninguém
questiona o uso da violência em defesa própria porque o perigo é não apenas claro,
mas também presente, e o fim que justifica os meios é imediato.242
Contudo, Arendt pondera que a violência perde esse significado quando vira
estratégia, ou um começo de ação contra todos, de modo racionalizado.
Considera-se então que a violência seja tema desafiador para o poder
público, para os estudiosos e para a sociedade em geral.
243
Sobre esta última questão, Faleiros (2007) nas considerações finais de
sua obra já citada ratifica a afirmação de que:
241
Arendt, H. Da violência. Tradução de Maria Cláudia D. Trindade. Editora Universidade de
Brasília. 1985, p. 35.
242
Idem, p. 69.
243
Faleiros, V. de P. Violência contra a pessoa idosa: ocorrências, vítimas e agressores. Universa
Editora. Brasília. 2007, p. 332.
97
244
Marra, T. A. M. Sobre violência. In: Violência. Monini, I. Goiânia: Ed. da UCG, 2004. (Série
Seminário, V. VII). 2004, p. 80.
245
Minayo, M. C. de S. Violência contra idosos: relevância para um velho problema. In: Cadernos
de Saúde Pública. Vol. 19. Nº 3. RJ. 2003, p. 1.
246
Camarano, A. A. (Org.). Os novos idosos brasileiros: muito além dos 60? IPEA. RJ. 2004.
98
248
Concordamos com Camarano (2004) que especialmente no Brasil a co-
residência sugere uma associação a condições melhores de vida tanto para os
idosos quanto para suas famílias, e embora essa qualidade de vida influencie
diretamente no prolongamento ou mesmo na extensão da autonomia e da
independência a convivência entre gerações quase sempre vem acompanhada de
conflitos, e o lar, tido como “porto seguro”, perde essa exterioridade quando se
trata de convivência entre gerações, em especial quando as idades são bastante
díspares. Mas de que conflito se trata. É sobre aquele “marcado pela disputa por
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247
Idem, p. 162.
248
Idem.
249
Duarte, Y. A. de O. Como estão sendo cuidados os idosos frágeis de São Paulo? A visão
mostrada pelo estudo SABE (Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento). In: Cuidados de longa duração
para a população idosa: um novo risco social a ser assumido? Camarano, A. A. (Org.). IPEA. RJ.
2010, p. 139.
250
Faleiros, V. de P. Violência contra a pessoa idosa: ocorrências, vítimas e agressores. Editora
Universa. Brasília/DF. 2007, p. 31.
99
4.4 .
Cuidado e proteção social
Mário Quintana
Cuidar é diferente de proteger visto que faz parte da atividade criativa dos
homens, e por ser uma atitude humana está inscrita no domínio da essencialidade
da vida, do subjetivo e do cultural das relações humanas e sociais, e que se
registra, em especial, de pessoas para pessoa, de instituições para pessoas e de
famílias para pessoas. E, é este último aspecto que nos interessa especialmente.
251
Sposati (2008) lembra que, embora proteger esteja inscrito,
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Proteger não é tutela (...). O que, aqui se pretende é inserir a concepção social, em
um novo campo, o do investimento no futuro e na qualidade de vida pessoal e
social; é um campo relacional e, não meramente tutelar, mantenedor do status quo,
o que significaria não ter ou, restringir à mesmice, o horizonte.
251
Sposati, A. Proteção social na América Latina em contexto de globalização. In: Revista Debates
Sociais do CBCISS, nº. 69-70, Ano XLIII, RJ. 2008, p. 67.
252
Idem, p. 67.
253
Merhy, E. E. O desafio da tutela e da autonomia: uma tensão permanente do ato cuidador. In:
Reforma psiquiátrica no dotidiano. Hucitec. SP. 2007, p. 1-2.
100
254
Pereira, P. A. P. Necessidades humanas: subsídios à crítica dos mínimos sociais. 5ª edição
Cortez Editora. SP. 2008, p. 16.
255
Idem.
256
Idem.
257
Idem.
101
258
Pereira, P. A. P. Política de assistência social: avanços e retrocessos. In: Cadernos do CEAM.
Nº 11. CEAM/UnB. Brasília/DF. 2002.
259
Sposati, A. Proteção social na América Latina em contexto de globalização. In: Debates Sociais.
Revista do CBCISS, nº. 69-70, Ano XLIII, RJ. 2008, p. 65.
260
Pereira, P. A. P. Necessidades humanas: subsídios à crítica dos mínimos sociais. 5ª edição.
Cortez Editora. SP. 2008, p. 125.
102
Data desta época a inclusão, pela primeira vez na história política do país, da
assistência social (com a sua proposta de satisfação de “mínimos sociais”) numa
Constituição Federal, na condição de componente (integral e endógeno) do Sistema
de Seguridade Social e de direito de cidadania.
(2008).
São os fundamentos dessa nova política de assistência social que teria o
encargo de materializar “direitos devidos a determinados segmentos sociais”
como adolescentes, crianças, desempregados, famílias, gestantes, idosos, nutrizes,
pessoas portadoras de deficiência, todos “afetados em suas necessidades básicas,
visando a melhoria de suas condições de vida e de cidadania” 263.
Contudo, “as esperanças” tomadas anteriormente se desvaneceram, visto
264
que, conforme Pereira (2008) “esses progressos constitucionais não
frutificaram na prática”, sendo, ao contrário, alvos de uma “contra-reforma
conservadora” (Fagnani, 1996, p.86) iniciada em 1987 (...) e, reforçada a partir de
1990, nos governos Mello (1990-1992) e Cardoso (1995-2000).
Para Pereira (2008) novamente o que se vê são forças contrárias às reformas
propostas pela nova Constituição se juntarem em favor de seus interesses
particulares ou mesmo de classe, “centrar fogo” nos seus progressos e propor
mudanças importantes no mundo do trabalho, da economia, enfim, da vida.
261
Idem, p. 152.
262
Pereira, P. A. P. Necessidades humanas: subsídios à crítica dos mínimos sociais. 5ª edição.
Cortez Editora. SP. 2008, pp. 155-156.
263
Idem, p. 156.
264
Idem.
103
266
desigualdades inerentes ao sistema. Para outros como Esping-Andersen
(1991), por exemplo, o sistema de proteção se compõe e se relaciona ao avanço
das mobilizações, lutas e correspondente conquista dos trabalhadores.
267
Entretanto, Viana e Levcovitz, (2005) defendem que a proteção social, como
sistema, se fundamenta:
265
Idem, p.158.
266
Esping-Andersen, G. The three worlds of welfare capitalism. Cambridge: Polity Press. 1990.
267
Viana, A. Levcovitz, E. Proteção social: introduzindo o debate. In: Proteção social – dilemas e
desafios. Viana, A.; Elias, E.; ibañez, n. (Org.) Hucitec. SP. 2005, p. 17.
104
268
Sposati, A. de O. Mínimos sociais e seguridade social: uma revolução da consciência da
cidadania. In: Revista Serviço Social e Sociedade nº 55. Cortez Editora. 1997, p. 9.
269
Sposati, A. de O. Proteção social na América Latina e Contexto da Globalização. In: Revista
Debates Sociais – CBCISS. Nº 69-70. 2008, p. 66. Grifos da autora.
270
Euzéby, A. Proteção social, pilar da justiça social. In: Proteção social e cidadania: inclusão de
idosos e pessoas com deficiência no Brasil, França e Portugal. Sposati, A. (Org.). Cortez Editora.
SP. 2004, p. 28.
105
271
Carvalho, M. do C. B. de. A priorização da família na agenda política social. In: Família
brasileira: a base de tudo. Kaloustian, S. M. (Org.). 8ª edição. Cortez Editora/UNICEF. SP/DF.
2008, p. 93.