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Famiília Precisadecuidados

O documento explora o papel das famílias no cuidado de idosos que perderam autonomia, destacando a complexidade e diversidade das configurações familiares na sociedade moderna. Discute a importância do cuidado familiar e as relações sociais que influenciam essa dinâmica, além de abordar a evolução histórica e as transformações nos papéis familiares. A análise enfatiza a necessidade de compreender a família como uma construção social e histórica, refletindo sobre suas funções e desafios contemporâneos.

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Famiília Precisadecuidados

O documento explora o papel das famílias no cuidado de idosos que perderam autonomia, destacando a complexidade e diversidade das configurações familiares na sociedade moderna. Discute a importância do cuidado familiar e as relações sociais que influenciam essa dinâmica, além de abordar a evolução histórica e as transformações nos papéis familiares. A análise enfatiza a necessidade de compreender a família como uma construção social e histórica, refletindo sobre suas funções e desafios contemporâneos.

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4

Família: a que cuida e precisa de cuidados

4.1.
Família: a que cuida

As famílias felizes parecem-se todas;


as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.

Léon Tolstoi

A construção que iniciamos tem como objetivo dar continuidade ao item


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anterior e também produzir clareza ao tema do cuidado executado pelas famílias


quando da ocorrência da perda da autonomia e da independência da pessoa idosa.
Trata esse eixo do estudo, portanto, do desenvolvimento do encargo e da
ocupação da família em responder pelas necessidades de cuidado advindas dessa
circunstância na qual essa pessoa se encontra, além dos modos encontrados pelas
famílias para dar conta dessa tarefa com pouca ou quase nenhuma ajuda do poder
público. Trata também de outro tema bastante instigador, especialmente para os
que tomam as relações humanas e sociais para seus estudos e prática cotidiana,
que é a família, por isso a pergunta: existe algo mais familiar, especialmente para
os assistentes sociais que a família?
O tema do cuidado dispensado pelas famílias tem sido motivo de
preocupação daqueles que desenvolvem estudos, pesquisas e trabalhos, e em
especial das próprias famílias que têm se debruçado a discuti-lo com vistas à
solução ou mesmo disposição de resolução, do que se pode titular de “problema”,
tendo em vista as inúmeras exterioridades que o cuidado familiar envolve como
sugerem Silveira (2000) e Caldas (2006).
Tomar o tema da família requer também muitos cuidados, visto que ao
estudá-la é preciso se ater às suas várias possibilidades de configurações e modos
de organizações, e ao mesmo tempo “desnaturalizar essas relações, tentando
73

melhor conhecer esse fenômeno tão familiar e tão diverso em nosso dia a dia”,
como sustentam Freitas et al
161
(2010). E assim, buscar compreendê-la nas suas distinções como pertencentes
a categorias sociais diferenciadas. Apesar disso, não obstante as transformações
que ocorrem nos seus desenhos na moderna sociedade brasileira, sempre fica
parecendo que ao nos dirigirmos a família, seja com que propósito for, deriva de
um dado modelo de família composto por pai, mãe e filhos. E, apesar do
reconhecimento de novos arranjos familiares, hoje persiste a dificuldade de
compreendê-los e de reconhecê-los como família.
Por considerá-la uma construção sócio-histórica, Saraceno162 (1992)
sustenta que existem equívocos não só na sua nomenclatura como na sua
definição, assim, para a autora: “é um indicador da multiplicidade de discursos
que definem o que é uma família: discursos religiosos, morais, legais, das
tradições culturais, das políticas sociais, até a específica tradição de cada família
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de cada indivíduo”. Embora concordemos com a afirmativa, também é verdade


que diversas são as tentativas por conceituá-la ou mesmo produzir alguma
novidade que tenha relação com o tema da família, alguns autores foram além da
tentativa e tiveram sucesso, além de se aproximarem bastante do que se poderia
apresentar como sendo uma família.
Tomamos Giddens163 (1997), que na sua acepção considera que família seja
“um grupo de indivíduos ligados entre si por laços de sangue, casamento ou
adoção, que formam uma unidade econômica, sendo que os membros adultos são
responsáveis pela educação das crianças”.
Carvalho164 (2005) ao defini-la fala de outras exterioridades da família, e
esclarece que não ambiciona determiná-la enquanto “grupo familiar” nos padrões
clássicos habituais, mas significá-la dentro de uma contemporaneidade, qual seja:

161
Freitas, R. de C. S. et al. Famílias e Serviço Social – algumas reflexões para o debate. In:
Família & Famílias: Práticas sociais e conversações contemporâneas. Duarte, M. J de O. et al.
(Orgs.). Editora Lumen Juris. RJ. 2010, p. 21.
162
Saraceno, C. Introdução: discursos de família. In: Sociologia da família. Editora Estampa.
Lisboa, pp. 11-16. 1992.
163
Giddens, A. Sociologia. Fundação Gulbenkian. Lisboa. 1997, p. 879.
164
Carvalho, M. do C. B de. Políticas públicas voltadas para a família: tendências e desafios. In: O
social em questão. Revista do Programa de Pós-graduação em Serviço Social da PUC-Rio Volume
14 – Número 14. 2005, p. 46.
74

A família como expressão máxima da vida privada é lugar da intimidade,


construção de sentidos e expressão de sentimentos, onde se expõe o sofrimento
psíquico que a vida de todos nós põe e repõe. A família é percebida como nicho
afetivo e de relações necessárias à socialização dos indivíduos, que assim
desenvolvem o sentido de pertença a um campo relacional iniciador de relações
includentes na própria vida em sociedade. É um campo de mediação
imprescindível.

Desenvolver o tema da intimidade é assumir uma das maiores expressões


privadas do homem, visto que “intimidade é o que no ser humano o define como
pessoa. É o ambiente interno, onde ao tomar decisões livres e íntimas eu escrevo
minha história de vida, única e irrepetível, onde defino minha biografia, que junto
à minha biologia caracterizar-me-ão como pessoa”, como apontam Leme e
Silva165 (1996).
É na intimidade da família que somos nós mesmos, sem títulos, sem
defeitos, com apelidos só compreendidos pelos membros da família, é nessa
intimidade que, tanto se coloca como uma das exterioridades que identificam uma
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família, que seus membros se tornam afetuosos e respeitosos, ao mesmo tempo


solidários conforme a situação e sem compromisso dependendo do problema. E,
embora se reconheça que a família seja um espaço privilegiado de convivência, do
mesmo modo se reconhece a existência de conflito no seu interior, no entanto,
ainda é na intimidade da família que ele melhor se define.
Sarti166 (2003) aponta que certas famílias, “coloca-nos em contato com a
realidade cotidiana e as formas de pensar dos pobres” e, nós julgamos que
contempla com exterioridades importantes relacionadas às famílias com essas
características.
E prossegue a autora: “essa rede que constitui a família pobre, através da
qual as relações familiares se atualizam, permite relativizar o sentido do papel
central das mulheres na família, reiteradamente destacado na literatura sociológica
e antropológica sobre as famílias pobres no Brasil” 167.

165
Leme, L. E. G & Silva, P. S. C. P. da. O idoso e a família. In: Gerontologia. Papaléo-Netto.
(Org.). Editora Atheneu. SP. 1996, p. 93.
166
Sarti, C. A. A família como espelho: um estudo sobre a moral dos pobres. 2ª edição. Cortez
Editora. 2003, p. 70.
167
Idem, contracapa.
75

Enquanto para Mioto168 (1997) a família vai ser compreendida exatamente


como um núcleo que também tem tarefas a serem desempenhadas e
responsabilidades a serem cumpridas, e entre estas se encontram o cuidado e a
proteção. Assim, para a autora família é entendida como:

Um núcleo de pessoas que convivem em determinado lugar, durante um lapso de


tempo mais ou menos longo e que se acham unidas (ou não) por laços
consanguíneos. Ele tem como tarefa primordial o cuidado e a proteção de seus
membros, e se encontra dialeticamente articulado com a estrutura social na qual
está inserida.

O que se apreende é que se conectadas, por não encontrar palavra que


melhor signifique, suas construções permitiriam se atingir um conceito bastante
consistente de família, no sentido de sua completude e complexidade.
Prado169 (1991) chama a atenção para o fato de que nenhuma sociedade teria
vivido à margem ao longo da história, de certa configuração de instituição
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familiar, de algum formato de institucionalização das relações entre seus


membros. Mesmo assim, a família não é algo biológico, algo pronto ou natural,
mas resultado de dessemelhantes configurações históricas de organização entre
pessoas humanas que, aos poucos, se institucionalizaram no desenho de arranjos
familiares.
170
Entretanto, conforme Berger & Luckmann (1983), pressionados por
exigências do mundo da vida, entre elas as materiais, de produção e de reprodução
imperativas à sobrevivência da espécie humana, as pessoas criaram distintos
modos de relação entre si e com a própria natureza. Ainda são Berger &
Luckmann 171 (1983), que apontam que “embora seja possível dizer que o homem
tem uma natureza, é mais significativo dizer que o homem constrói sua própria
natureza, ou, mais simplesmente, que o homem se produz a si mesmo”.
Mas, ao mesmo tempo lembram que “há uma dicotomia fundamental entre a
concepção do homem como um ser que se produz a si mesmo e a concepção da

168
Mioto, R. C. T. Família e Serviço Social: contribuições para o debate. In: Revista Serviço Social
e Sociedade. Nº 55. Cortez Editora. SP. 1997, p. 120.
169
Prado, D. O que é família? Editora Brasiliense. SP. 1991.
170
Berger, P. L. & Luckmann, T. A construção social da realidade. 5ª edição. Editora Vozes.
Petrópolis. 1983.
171
Idem, p. 72.
76

172
“natureza humana”” , mas, não é objetivo deste estudo aprofundar essas
questões.
Em nossa compreensão contribuem para as transformações da família uma
multiplicidade de fatores como as funções que são exercidas por ela na sociedade;
os novos modos de reprodução; as políticas econômicas e as mudanças de
paradigmas importantes do ponto de vista da sexualidade, que trazem
modificações no formato, na ancoragem de relações flexíveis ou consistentes, que
faz com que, não só a família procure estratégias para sua sobrevivência, como
toda sociedade a estude para dar conta do volume de variáveis, que nominamos
família.
Novos papéis, lugares e direitos tanto dos filhos, quanto das mulheres e dos
homens foram se produzindo, nas novas configurações familiares. Na família
173
nuclear burguesa conforme aponta Ariès (1981) o papel social dos filhos e
filhas teve seu desenvolvimento ordenado por meio da obediência aos valores dos
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pais, e em seguida, dos professores. O homem perde o seu lugar de proprietário da


família e passa a ocupar o lugar de pai, de provedor e de mantenedor da família.
Com isso, a mulher deixa para trás a figura de possessão do marido e passa a
tomar o lugar de mãe, de educadora e de protetora dos filhos, além de cuidadora
do marido e das coisas da casa, como sugere Reis (1985).
174
Ainda é Reis (1985) que diz que sob o escudo do liberalismo o
casamento perdeu seu caráter econômico de antes para se instituir em lugar de
materialização do amor poético, em pacto afetuoso e sexual entre sujeitos ‘livres’.

Freitas175 (2010) se referindo a importância de estudos articulados com


outros saberes para melhor compreensão sobre a família defende que:

172
Idem.
173
Ariès, P. A história social da criança e da família. 2ª edição. Tradução de Dora Flaksman. LTC
Editora. RJ. 1981.
174
Reis, J. R. T. Família, emoção ideologia. In: Psicologia Social: o homem em movimento. Lane,
S. & Codo, W. (Orgs.). 3ª edição, pp. 99-124. Editora Brasiliense. SP. 1985.
175
Freitas, R. de C. S. et al. Famílias e Serviço Social – Algumas reflexões para o debate. In:
Família & Famílias: Práticas Sociais e Conversações Contemporâneas. Duarte, M. J. de O. &
Alencar, M. M. T. (Orgs.). Lumen Juris Editora. RJ. 2010, p. 19.
77

Especialmente o recurso à antropologia é, em nosso entender, central para o


assistente social. A perspectiva de compreender a família como uma realidade em
rede e não nuclearizada deve-se em grande parte, aos estudos antropológicos como
os de Claudia Fonseca (1990 e 2002) e Cynthia Sarti (2003) – e, saindo da
antropologia, o livro clássico de Elisabeth Boot, Famílias e Redes (1976).

Feitas as reflexões anteriores pode-se apreender que na verdade o campo


familiar é uma unidade constituída de pessoas humanas ao longo de seu trajeto de
vida, cuidando de si e dos outros, sendo que os modos de cuidar vão se ajustar às
necessidades de cada pessoa e vai variar conforme os protótipos culturais,
conforme aponta Sarti 176 (1993).
Consideramos ser universal o conceito de família nuclear, porém
relacionamentos que se materializam nos dias atuais, e que são entendidos como
família perante a lei, jamais poderiam ser imaginados em épocas anteriores, do
mesmo modo, relações que se concretizam na atualidade também são apreciadas
como uma família.
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Da mesma forma podemos sustentar que a família vai equivaler à


materialização de uma maneira de viver os acontecimentos básicos da vida, se
ajustando ao parentesco, porém se distinguindo dele. O parentesco é uma
composição formal que deriva de afinidades consanguíneas entre irmãos, da
relação de descendência entre pai e filho e mãe e filho, e da relação de afinidade
que se dá por meio do casamento. Esta é uma construção genérica, e qualquer
sociedade humana se delineia da convenção destas relações, como tão bem aponta
Sarti (1993) 177.
Para se compreender as alterações percebidas no campo familiar,
especialmente em função de que essas podem ser tanto de ordem particular quanto
de ordem da relação da família com a sociedade, tomamos Mioto 178 (1997), para
quem:

A pesquisa histórica de Ariès (1978) sobre a sociedade européia mostra claramente


as diferenças na organização familiar ao longo da história. Segundo o autor, foi na
modernidade que foram estabelecidos os limites entre o familiar e o social. Nessa
época se desenvolveu a ideia de privacidade, o “sentimento da casa”, e assim o
sentimento familiar (originário da aristocracia e da burguesia) estendeu-se

176
Sarti, C. A. Família e individualidade: um problema moderno. Seminário: a família
contemporânea em debate. Instituto de Estudos Especiais. PUC-SP, outubro de 1993 (Mímeo).
177
Idem.
178
Mioto, R. C. T. Família e Serviço Social: contribuições para o debate. In: Serviço Social e
Sociedade. Nº 55. Cortez Editora. 1997, p. 116.
78

praticamente a toda sociedade, persistindo até nossos dias. Dentro dessa nova
ordem as crianças foram retiradas da vida comum bem como de grande parte do
tempo e das preocupações dos adultos.

179
Pelo exposto, Ariès (1981) pode ser citado como um dos autores que
estudou e aprofundou as questões referentes às transformações ocorridas na
família. Para isso, em sua obra “História social da criança e da família” o autor
refaz a trajetória da família partindo da Família Medieval indo até a Família
Moderna, possibilitando uma compreensão desse movimento.
Deixando de lado o estímulo às fantasias parafraseando Berger e Luckmann
(1983), esse foi o modo como aprendemos a compreender família, assim:

As relações de parentesco são resultado da combinação de três relações básicas: a


descendência entre pais e filhos; a consanguinidade entre irmãos; e a afinidade a
partir do casamento, sendo a família considerada como um grupo social por meio
do qual se realizam esses vínculos. 180
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E, embora tenhamos aprendido que família é um grupo de pessoas ligadas


por vínculos sanguíneos, que residem no mesmo domicílio e que têm relações
afetivas criadoras de solidariedade, pode-se considerar família como um grupo
social, composto por indivíduos que se relacionam cotidianamente e que gera uma
rede complexa de emoções, sem qualquer vínculo sanguíneo.
181
Não há como discordar de Simionato (2003) quando a autora após
análises importantes sobre a família revela que:

A família sofre fortes influências políticas, econômicas, sociais e culturais,


ocasionando mudanças nos papéis e nas relações em seu interior, bem como
alterando sua estrutura no que diz respeito à composição familiar. Graças a sua
grande capacidade de ajustar-se às novas exigências do meio, a família tem
conseguido sobreviver, a despeito das intensas crises sociais. Ela é ainda a matriz
mais importante do desenvolvimento humano e também a principal fonte de saúde
de seus membros.

179
Ariès, P. História social da criança e da família. Tradução de Dora Flaksman. 2ª edição. LTC
Editora. RJ. 1981.
180
Freitas, R. de C. S. et al. Famílias e Serviço Social – algumas reflexões para o debate. In:
Família & Famílias: Práticas sociais e conversações contemporâneas. Duarte, M. J de O. et al.
(Orgs.). Editora Lumen Juris. RJ. 2010, p. 21.
181
Simionato, M. A. W.; Oliveira, R. G. Funções e transformações da família ao longo da história.
I Encontro Paranaense de Psicopedagogia – ABPppr. Novembro de 2003, p. 59.
79

Em nossa compreensão pode-se considerar que família seja uma construção


social que pode variar segundo o período ou a época, porém, conservando o que
182
se poderia nominar “sentimento de família” e Amaral (2001), complementa, e,
que se desenha a partir de um emaranhado de relações e ações pessoais, familiares
e culturais, que vão terminar por “ajeitar” o mundo da família. Esse mundo
familiar é singular para cada família, porém, ao mesmo tempo, circula na
sociedade e nos intercâmbios com o círculo social em que vive.
183
Para Donzelot (2001), a família do mundo moderno, representa, em seu
vínculo interno, a relação pública. Assim, a família é, no dizer do autor, “a menor
organização política possível”. Indica um modo histórico de produção do social,
184
que Deleuze, no prefácio da obra de Donzelot (2001) denomina de “domínio
híbrido” do público e do privado.
De tal modo, que o social contém a inter-relação das duas dimensões, ou
185
seja, a pública e a privada, o que possibilita que Donzelot (2001), faça a
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seguinte reflexão: o chefe de família consiste em uma figura sócio-política que


tem como atribuição a garantia da ordem vigente no interior desse próprio núcleo,
por isso a família é uma relação política e, por assim dizer, implica em processos
de lutas e forças que produzem o social.
Desse modo, a família considerada como um âmbito privado é moldada pelo
político para atender à necessidade da ordem pública, e, compreender a
importância das interferências desse movimento nas famílias é imperativo para
qualquer estudo e trabalho, de modo especial os do Serviço Social.
Na análise das questões que interferem na dinâmica da família, considerá-la
em situação de vulnerabilidade social também é necessário e exige se perceber
que ela está sujeita a consequências de toda sorte de crise.
Concordamos com Simionato (2003) que as condições sociais e econômicas
são, ainda, os fatores que mais contribuem com a desestruturação da família, na
medida em que seus membros, sobretudo os jovens, se vêem na obrigação de
contribuir quando da ocorrência de dificuldades e de sofrimento entre os membros
da família ou no interior da família, daí seu afastamento do convívio familiar com

182
Amaral, C. G. C. Família às avessas: gênero nas relações familiares de adolescentes. UFC
Editora, Fortaleza- CE. 2001.
183
Donzelot, J. A polícia das famílias. Tradução de M. T. da C. Albuquerque. 3ª edição. Graal
Editora, RJ. 2001.
184
Idem.
185
Idem.
80

grande possibilidade de introdução de novos hábitos e de valores diferentes


daqueles apreendidos na família.
Asseguramos então a urgente necessidade de políticas públicas sociais mais
consistentes que tenham como objeto a família, visto que ainda é essa
vulnerabilidade a geradora de uma série de conflitos, quer sejam entre gerações,
entre casais, entre cuidadores.
Mas, conforme Simionato 186 (2003):

(...) A despeito das definições ou classificações que as famílias recebem, um ponto


importante a se considerar é que esta é uma realidade, que está viva, e que como
todo ser vivo necessita ter saúde para assim permanecer. Mais do que uma ideia ou
conceito, a família tem materialidade na convivência entre seus membros. Como
processo contínuo de abstração e concretude, ela é a unidade essencial do viver
humano, através da qual, ora como pano de fundo, ora como determinante
explícito, vão sendo tecidas as especificidades de seus membros.

A partir dessas reflexões, embora os significados de família sejam os mais


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variados existe um consenso que é aquele que se refere à união de seus membros,
quer com laços consanguíneos, quer sem eles, que se dá a partir da intimidade
existente, do respeito mútuo desenvolvido a partir da solidariedade, da amizade
que se constrói a partir das afinidades, e das trocas a partir das necessidades
vividas no âmbito da família.
Na intenção de contextualizar família, mencionamos o século XX como um
dos cenários mais importantes das transformações na estrutura da família, no
entanto, notamos até os dias de hoje determinados sinais que foram deixados por
suas ascendências.
Finalizamos com o que consideramos o mais apropriado para os estudos e
prática dos assistentes sociais no que diz respeito às famílias. Desse modo,
Lefaucheur (1991, p. 479) apud Freitas et al 187 (2010) recomenda:

É no meio dessa diversidade que trabalhamos. Dessa forma, é a partir dessas


leituras que vamos definir família enquanto um processo de articulação de
diferentes trajetórias de vida, onde se entrecruzam as relações de classe, gênero,
etnia e geração. Além do lugar de reprodução biológica – e também social e afetiva

186
Simionato, M. A. E. et al. Funções e transformações da família ao longo da história. I Encontro
de Paranaense de Psicopedagogia – ABPppr. Novembro/2003, p. 58. Capturado em: 26.01.2011.
Disponível em: www.din.uem.br/~ulpeneto/outros/.../pdf/a07Simionato03.pdf.
187
Freitas, R. de C. S. et al. Famílias e Serviço Social – algumas reflexões para o debate. In:
Família & Famílias: Práticas sociais e conversações contemporâneas. Duarte, M. J de O. et al.
(Orgs.). Editora Lumen Juris. RJ. 2010, p. 21.
81

– é “o lugar onde se entrecruzam as relações sociais fundadas na diferença dos


sexos e nas relações de filiação, de aliança e coabitação”.

Os assistentes sociais, ao longo de sua vida profissional vão se deparar com


uma variedade enorme de concepções de família, contudo, ao mesmo tempo, são
profissionais que necessitam defini-las quando da sua inserção em certos
programas ou na concessão de benefícios, daí o valor da materialização da
compreensão de família por esses profissionais, sem esquecer que, não há como
fugir de elementos fundamentais para a sua explicitação. Por isso, para concluir
este eixo do estudo e com a intenção de contribuir com essas reflexões,
empregamos Sarti 188 (2002) que nos convoca a pensar que:

As mudanças são particularmente difíceis, uma vez que as experiências vividas e


simbolizadas na família têm como referência, a respeito desta, definições
cristalizadas que são socialmente instituídas pelos dispositivos jurídicos, médicos,
psicológicos, religiosos e pedagógicos, enfim, pelos dispositivos disciplinares
existentes em nossa sociedade, os quais têm nos meios de comunicação um veículo
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fundamental, além de suas instituições específicas. Essas referências constituem os


“modelos” do que é e como deve ser a família, ancorados numa visão que a
considera como uma unidade biológica constituída segundo leis a “natureza”,
poderosa força simbólica.

Ingressamos no século XXI com a família pluralista ou pós-moderna como


especialistas como Saraceno (1992), Brant (1995) e Sarti (2003) a tem titulado,
em razão de alternativas de convívio que a família tem apresentado. No entanto,
mesmo que novas relações se formem, ainda que novas configurações se
apresentem, apesar de novos arranjos surgirem, mesmo que a inserção absoluta e
sem limites da mulher no mundo do trabalho, da política ou qualquer outra
dimensão do mundo da vida possa suceder, apesar de todas essas exterioridades,
ainda é a família que cuida dos seus componentes, sejam estes, crianças, adultos
adoecidos ou idosos dependentes. Em especial as mulheres, essas mesmas
mulheres as quais nos referíamos antes e que foram introduzidas em um mundo
sócio ocupacional que lhes impede de ofertar cuidados com a qualidade que o
outro precisa, têm direito e elas gostariam de proporcionar.

188
Sarti, C. A. Famílias enredadas. In: Família: redes, laços e políticas públicas. Acosta, A. R. &
Vitale, M. A. F. (Orgs.).2ª edição. Cortez Editora. SP. 2002, p. 23.
82

4.2.
Cuidar, verbo que se conjuga no feminino

Há um grande contingente de mulheres, silenciosas, no anonimato e na invisibilidade da


vida privada e familiar, que por este mundo afora tem a responsabilidade de concentrar sua
dedicação, sacrificar seu tempo e seus projetos de vida para dar conforto a algum membro
da família que não pode prover sozinho sua existência, em virtude da tenra ou avançada
idade, ou de uma deficiência ou doença crônica. São elas que normalmente cuidam, por
herança que remonta aos primeiros grupos e comunidade humana.

Claudia Couto 189

É proposital a apropriação da citação acima para a abertura deste eixo do


trabalho, visto que a construção que segue tem como objetivo tematizar o modo
como se construiu o cuidado a partir da figura feminina.
Repetindo, historicamente a família é reconhecida como responsável por
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cuidar de seus membros, e que a mulher definitivamente assumiu esse cuidado no


Brasil desde os tempos coloniais, passando pelo império, atravessando a república
até os dias atuais e, em função desse reconhecimento, a convivência, o parentesco,
a família e gênero são dimensões frequentemente empregadas para prenunciar
qual pessoa da família irá ofertar o cuidado necessário nas diferentes
circunstâncias que incidem na vida de uma família. O que é o mesmo que dizer
qual será a pessoa do sexo feminino que assumirá integralmente pelas atividades
de supervisionar, orientar, acompanhar e cuidar da pessoa carente de cuidados,
efetivando desse modo, a maior parte das ocupações a ela recomendada.
É consenso que são as mulheres que assumem o papel de cuidador principal,
e na existência de outra pessoa do sexo feminino na família também será ela que
assumirá o papel de cuidador secundário, passando ambas, a acumular esse
190
encargo com as tarefas domésticas. Sobre a mulher que cuida, Camarano
(2007) aponta que: “ela hoje, está assumindo novos papéis sociais, mas ainda
mantém os tradicionais”, incluímos nestes, o cuidado com as coisas da casa, com

189
Couto, C. B. do. O paciente oculto: revelando as consequências que o cuidar de um paciente
portador de ELA promove na vida do cuidador familiar. Tese de Doutorado. UERJ/CFCH/IP.
2004, p. 87.
190
Camarano, A. A. As novas mulheres brasileiras. Artigo. In: Desafios. Novembro de 2007, p.
27.
83

as crianças, com os adultos adoecidos e com as pessoas idosas da família quando


estas se tornam vulneráveis ou dependentes.
Para compreender a participação da mulher na oferta “incondicional” de
cuidado empregamos Donzelot (2001) por entender que o autor descreve com
clareza o início da história da participação feminina nos cuidados em geral. E, em
seguida Rocha-Coutinho (1994) pelos fundamentos acerca da alteração do papel
social da mulher nas sociedades ocidentais modernas. Além de revelar os
fundamentos das desigualdades entre homens e mulheres e as lutas que têm sido
travadas em busca da sua superação. Para ela “os novos pesquisadores enfatizam
os elementos culturais, sociais, políticos e econômicos que influenciam o
comportamento social e criam padrões de relações entre os homens e mulheres”
191
.
A mesma autora revela sua compreensão acerca das várias contribuições das
ciências sociais e humanas sobre as desigualdades e o modo de caminhar a vida
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dos homens e das mulheres, interferindo e contribuindo com a manutenção de um


“modelo de família”. A autora revela sua concepção sobre os estudos com
perspectiva antropológica:

Na antropologia, a análise de sistemas de categorias e imagens constitutivas da


experiência feminina em diferentes grupos e culturas vem possibilitando que se
pense agora não apenas a mulher, mas também o homem, como categorias
socialmente construídas. Questionando a existência de uma essência feminina, a
antropologia abre caminho para a visão de que não existe, na verdade, a Mulher,
enquanto gênero universal, mas sim uma pluralidade de mulheres. 192

Para Donzelot (2001): “no interior mesmo da família, a aliança privilegiada


entre o médico e a mãe terá por função reproduzir a distância, de origem
hospitalar, entre o homem de saber e o nível de execução dos preceitos, atribuído
à mulher” 193.
Ainda é Donzelot em sua obra “Polícia das famílias” que ilustra o quanto
se relaciona a questão feminina com o cuidado, ilustrando que o higienista
Foussagrives no ano de 1876 apresentou seu “Dicionário da Saúde”, onde além
de fazer advertências quanto ao seu uso, propõe ensinar às mulheres a “arte de
191
Rocha-Coutinho, M. L. Tecendo por trás dos panos: mulher brasileira nas relações familiares.
Editora Rocco. RJ. 1994, p. 14.
192
Idem, p. 15.
193
Donzelot, J. A polícia das famílias. Trad. M. T. C. Albuquerque. 3ª edição. Graal Editor, RJ.
2001, p. 23.
84

enfermagem doméstica”. Em seu dicionário, o higienista completou: “Tenho a


ambição de fazer da mulher uma guardiã completa para o doente, capaz de
compreender tudo e, sobretudo, que é este o seu papel, e que ele é tão elevado
quanto caridoso” 194.
Pode-se avaliar a responsabilidade feminina não só no cuidado, mas em
relação à qualidade que era necessária imprimir ao mesmo. Foussagrives
apropriado por Donzelot (2001) finaliza: “os papéis da mãe e o do médico são e
devem permanecer nitidamente distintos. Um prepara e facilita o outro, eles se
complementam, ou melhor, deveriam se complementar no interesse do doente. O
médico prescreve, a mãe executa” 195.
Para Rocha-Coutinho196 (1994) as incumbências femininas pelas coisas da
casa e entre estas o cuidado com seus membros, parece fazer parte de
configurações fundamentadas na crença em relação à condição “insubstituível” da
mulher no processo de cuidar e no da mãe de se responsabilizar pelo
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desenvolvimento dos filhos e que estes têm fundamento na construção histórica


dos papéis a serem desempenhados socialmente pelos homens e pelas mulheres.
Percebe-se que a categoria de gênero pode ser compreendida para além dos
papéis socialmente estabelecidos e desempenhados por pessoas que representam o
sexo masculino e o feminino. Refere-se muito mais a um conjunto de crenças
instituídas como “o filho é sempre da mãe” ou de que não se pode substituir a mãe
quando a matéria é a criação dos filhos, ou mesmo, que aos homens cabe sustentar
a casa e à mulher cabe o cuidado, o trabalho doméstico, a educação dos filhos, ou
melhor, à mulher cabem as coisas da casa.
Sendo assim, a mulher tendo o lar por seu domínio, especialmente a
brasileira, cuida de reproduzir as coisas da casa, de proteger sua família, de
resolver os problemas internos, de mediar os conflitos entre pais e filhos,
restabelecendo assim a paz e o equilíbrio da casa. Essas são atividades
instituidoras de dependência tanto dos homens quanto dos filhos em relação à
mulher, que passa a ser imprescindível para a continuidade da vida de todos, o que
lhe impõe uma condição de poder especialmente particular. Contudo, esta, não é

194
Idem.
195
Idem.
196
Rocha-Coutinho, M. L. Tecendo por trás dos panos: mulher brasileira nas relações familiares.
Editora Rocco. RJ. 1994, p. 39.
85

por si só, condição de libertação feminina, ao contrário, permanece a submissão


da mulher pela figura masculina, não importando se marido ou pai.
Para complementar, Rocha-Coutinho 197 (1994) aponta que especificamente:

A segunda metade do século XIX (...) assiste a uma série de mudanças decisivas no
que toca à remodelação e saneamento do Rio de Janeiro – que só vão se completar,
porém, no início do século XX, com o Prefeito Pereira Passos – mudanças estas
que afetaram sobremaneira a vida das mulheres da classe superior urbana, trazendo
maiores oportunidades para que elas expandissem seus horizontes.

Ainda para Rocha-Coutinho (1994), as novas exigências de trabalho,


resultantes dessas transformações, fizeram com que as mulheres, além de
governar a casa, especialmente as casadas, recebessem novos papéis, entre eles, o
de cooperar com o desenvolvimento pessoal e profissional de seus maridos.
Rocha-Coutinho 198 (1994) sugere então, que tenha acontecido o nascimento
da nova mãe. Para a autora:
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A nova mãe nasceu como vimos de um duplo movimento histórico: de um lado a


mulher conseguiu se libertar do poder patriarcal; de outro, ela passou agora a ser
controlada pelos novos poderes, entre eles, o poder médico. A construção de uma
“natureza” feminina pela ciência da época fez com que toda mulher que
contrariasse o novo figurino de mãe construído pela sociedade para ela fosse vista
como uma mãe “desnaturada”, como alguém que estava contrariando sua
“vocação” natural.

A partir dessas reflexões, pode-se compreender a célebre e tão empregada


199
afirmação de Beauvoir (1980) que diz que “não se nasce mulher, torna-se” e,
nos consentimos complementar, a partir do exposto, que não se nasce mãe, torna-
se, visto que ser mulher e mãe é dessemelhante.
Retomando o exercício de tratar as dessemelhanças existentes entre os
sexos, mas ao mesmo tempo lembrando que convém evitar o maniqueísmo que a
todo tempo se recorre para prosseguir com a explicação dessas diferenças,
funciona, assim, como se existisse duas culturas: uma masculina e outra feminina,
como defende Saffioti (1995), e, que por isso mesmo indica que uma é perversa
enquanto a outra é virtuosa, como se existisse uma maneira exclusiva de

197
Idem, p. 77.
198
Idem, 92.
199
Beauvoir, S. de. O segundo sexo. 2º volume. Tradução de Sérgio Milliet. Editora Nova
Fronteira. RJ. 1980, p. 9.
86

compreender as diferenças entre homens e mulheres. Com isso Saffioti 200 (1995),
pondera:

É evidente que homens e mulheres vivem sob a mesma cultura e que esta destina a
cada gênero um papel diferente nas relações sociais sejam elas conflitivas ou de
aliança. (...) Embora não se comungue das explicações baseadas na lógica da
complementaridade, da perspectiva da falocracia, a mulher deve complementar o
homem, isto é, desempenhar os papéis sociais que ele recusa para si próprio. Em
outros termos, ela deve atingir, no máximo, a penumbra, quando não consegue se
limitar à sombra.

201
É a mesma Saffioti (1995) que dá subsídios para compreender os
fundamentos das relações sociais e, portanto das questões de gênero. Para isso, a
autora também inclui classe social e a raça/etnia como condicionantes para a
“percepção do mundo circundante” e para “o pensamento”, que atuam como se
existisse “um crivo através do qual o mundo é apreendido pelo sujeito” logo, para
a autora, “a atuação deste sujeito sobre o mundo deriva de sua maneira específica
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de compreendê-lo”. E para finalizar Saffioti sustenta:

Socialmente construído, o gênero corporifica a sexualidade (não o inverso), que é


exercida como uma forma de poder. Logo, as relações de gênero são atravessadas
pelo poder. Homens e mulheres são classificados pelo gênero e separados por duas
categorias: uma dominante, outra dominada, obedecendo aos requisitos impostos
pela heterossexualidade. A sexualidade, portanto, é o ponto da desigualdade de
gênero 202.

E, por concordarmos acatamos a recomendação da autora ao indicar que:

Ao lidar com as diferenças que separam os gêneros, é necessária muita cautela, a


fim de não contribuir para incrementar esta distância. O aumento das diferenças
pode obscurecer as identidades de classe, estabelecendo fissuras político-
ideológicas nestes agrupamentos verticais e, portanto, introduzir cunhas em suas
lutas. Por outro lado, tampouco se devem acentuar as semelhanças entre homens e
mulheres, para não se diluírem os efeitos da organização social de gênero que
tornam as classes agregados humanos inteiramente diferenciados (Combes e
Haicault, 1987) 203.

200
Saffioti, H. I. B et al. Violência de gênero: poder e impotência. Editora Revinter. RJ. 1995, p.
15.
201
Idem, p. 23.
202
Idem, p. 23.
203
Saffioti, H. I. B et al. Rearticulando gênero e classe social. In: Uma questão de gênero. Costa,
A. de O. & Bruschini, C. (Org.). Editora Rosa dos Tempos. 1992, p. 191.
87

Outros estudos que relacionam as categorias gênero e cuidado têm revelado


que a assertiva de que cuidar é um verbo que se conjuga no feminino é
204
verdadeira. Entre eles cita-se o estudo de Taub, Andreoli e Bertolucci feito no
Brasil no ano de 2004 com 50 cuidadores que revelou que 82% eram mulheres,
com idade variando entre 23 e 81 anos, ou seja, uma média de 56 anos, que 78%
eram casadas, 70% eram esposas e 56% eram filhas das pessoas cuidadas.
205
Com a intenção de refletir sobre este papel da mulher, Costa (2002)
lembra que: “a teoria das esferas separadas esconde as conexões entre a história
das mulheres e a política, e acoberta os significados políticos das relações de
gênero e das práticas protecionistas”. E segue enfatizando que: “recolher o
político das práticas femininas favorece sua desnaturalização e a sua dimensão
pública”.
Para Costa206 (2002) “a noção de que as relações entre os sexos são relações
sociais é subjacente ao conceito de gênero e vai possibilitar uma distinção entre o
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social e o político, refinando o conceito de dominação”.


Ainda é Costa207 (2002) que sustenta: “tais preocupações presidem a
formulação do conceito de maternidade transferida, (...) através dele, a
problematização da dicotomia público/privado ganha sensível nitidez (...)”.
“Maternidade transferida” é título do movimento ordenado pelas mulheres quando
de sua saída para o exercício de atividade exterior ao ambiente de casa, e que é
comum que elas deleguem as ocupações relacionadas aos serviços domésticos ao
comando de outras mulheres.
No caso brasileiro, conforme Costa (2002):

Essas são práticas de longa duração histórica que reafirmam a maternidade


transferida, forma de as mulheres atribuírem-se mútuas responsabilidades,
legitimada nas lutas feministas. Essa transferência atualiza desigualdades seculares
nos acessos das mulheres a direitos sociais, próprias das relações de poder e
subordinação que presidem a montagem dos sistemas protecionistas 208.

204
Taub, A. et al. Dementia caregiver burden: reliability of the Brasilian version of the Zarit
caregiverr burden interview. Cadernos de Saúde Pública. v. 20, n.2, p. 373-376, mar/abr., RJ.
2004.
205
Costa, S. G. Proteção Social, maternidade transferida e lutas pela saúde reprodutiva. In: Revista
de Estudos Feministas. Ano 10. 2º semestre de 2002, p. 303.
206
Idem, 302
207
Idem.
208
Idem, pp. 303-304.
88

Para ela a saída da mulher do espaço doméstico e a desresponsabilização


pelas coisas da casa dependeu de inúmeras variáveis que ela nomeia de impasses,
para Costa: “essa saída tem dependido da solução de impasses decorrentes da
lenta incorporação do progresso técnico no âmbito doméstico e da tardia
montagem de sistemas protecionistas em apoio à administração do mundo
doméstico” 209.
Com sua saída de casa em direção ao mundo da vida, para o estudo, para o
trabalho, para igualar-se aos homens, ou, mesmo, como sustenta Costa210 (2002),
“para a mera permanência no ócio, através da maternidade transferida de umas
para outras mulheres, marcando seguidos pactos (e guerra) domésticos” incide
que:

Na saída em direção à vida pública, as mulheres vivenciam ganhos e dilemas


políticos. Ganham espaços diversos e tomam consciência de si e do outro.
Enfrentam dificuldades quanto à garantia de atendimento de suas tradicionais
responsabilidades domésticas quaisquer que sejam as classes sociais a que
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pertençam 211.

A mesma autora analisando a saída das mulheres e a consequente delegação


a outras mulheres das suas ocupações das coisas da casa aponta:

A delegação de cuidados da casa – expressão polissêmica, referida a cuidados de


coisas e de pessoas em circunstâncias diversas – se dá porque não há alternativa.
Essas práticas protecionistas, com pouco apoio do setor público, consolidaram
extensas redes de proteção e dependências armadas na intimidade das casas212.

A noção de maternidade transferida trata de situar as mulheres no mundo da


vida atual, globalizado, com seus progressos e entraves, rupturas e continuidades,
que é o mundo das mulheres que estamos nos referindo, daquelas que ao mesmo
tempo são mães, mulheres, cuidadoras e trabalhadoras. Daí que Costa213 (2002)
assinala: “A noção de maternidade transferida dá visibilidade a nexos políticos,
econômicos e sociais de práticas do cotidiano doméstico”.
Embora o ato de cuidar, das coisas ou das pessoas, seja atravessado por uma
visão romântica, sonhadora e afetuosa, hoje, ele é objeto de infinitas reflexões,

209
Idem, p. 304. Grifo da autora.
210
Idem.
211
Idem. Grifo da autora.
212
Idem. Grifo da autora e depois nosso.
213
Idem.
89

especialmente quando ofertado pelas mesmas mulheres citadas anteriormente, e


pela complexidade em que o cuidado traz em si.
Defendemos que as reflexões desenvolvidas até o momento apontam que no
cuidado ofertado não há lugar para qualquer ato que vá contra a sua finalidade que
é a preservação da vida seguida da manutenção da dignidade da pessoa cuidada
seja em que circunstância de dependência ela se encontre, seja em que fase da
vida ela esteja e com certeza esta também é ou deveria ser a intenção daqueles que
ofertam cuidados.

4.3.
A construção da violência

O caráter instrumental da violência


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coloca-a ao serviço do poder, das suas estratégias e objetivos,


mas de forma alguma é suficiente para perpetuar o
próprio poder ou de legitimá-lo.

Hannah Arendt 214

Tomar a violência intrafamiliar contra a pessoa idosa como tema constitui


ao mesmo tempo refletir sobre as tarefas executadas pela família com a finalidade
de suprir as necessidades das pessoas com quem residem e convive
diuturnamente, independente da fase da vida, do problema de saúde apresentado
ou do grau de dependência, é lembrar que os cuidadores familiares não têm suas
atividades do dia a dia suprimidas em função das necessidades de oferta de
cuidado; é pensar ainda na pouca assistência que essas famílias recebem do poder
público.
Paralelo a essas circunstâncias, diferentes condições contribuem para a
criação de um espaço favorável para a manifestação da violência. São elas: a
acumulação da oferta de cuidado com o exercício de outras atividades que são
desenvolvidas pelos componentes da família, sem fazer referência à questão das
exigências e da autoridade exercidas pelos idosos sobre o seu cuidador, em

214
Arendt, H. Sobre a violência. Tradução de André Duarte. Editora Civilização Brasileira. RJ.
2009.
90

especial se o cuidador for uma mulher que faça parte da família, acrescida da falta
de apoio do restante da família.
Destacamos que a discussão sobre a violência, como fenômeno que ocorre
entre pessoas vem preocupando especialistas de todo o mundo pelo que afeta não
só a vítima, mas a família e todo o seu entorno afetivo, além de ir contra a todos
os preceitos dos direitos fundamentais da humanidade, onde o seu contrário
incondicional é a tolerância. Embora com focos distintos, os autores apropriados
por nós forneceram subsídios complementares o que deu sustentação a esse eixo
do estudo e permitiu novas abordagens sobre o tema, além dos dados atualizados
oferecidos pelos mesmos. Trata-se da construção de Faleiros (2004215, 2005216,
2007217) e Minayo (1994218, 2003219), além dos estudos recentes de Neri 220 (2009)
e Camarano221 (2010).
Para Neri222 (2010) exterioridades contribuem com as dificuldades
enfrentadas pelos cuidadores, e, que não estão relacionados a fatores externos à
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família ou ao seu ambiente, mas sim às relações que foram construídas ao longo
da vida e, outros, relativas à própria oferta do cuidado, às condições de saúde da
pessoa a ser cuidada, mas não deixa de contar com um fator externo como a
existência ou não de uma rede formal de proteção.
Estudiosos sobre violência, como Minayo (2003) e Faleiros (2007) em
específico, na velhice, se referem à questão da violência como a ponta de um
iceberg a ser pesquisado, estudado e aprofundado, visto que abrange, não somente
o tipo de violência praticado, mas também os fatores de risco para vulnerabilidade

215
Faleiros, V. de P. Violência na velhice. In: O Social em Questão. Revista do Programa de Pós-
Graduação em Serviço Social da PUC-Rio. Vol. 11. Nº 11. Ano VII. Primeiro semestre de 2004.
216
Faleiros, V. de P. A violência contra a pessoa idosa no Brasil. In: Projeto apresentado à
Secis/MCT – Pesquisa. Faleiros, V. de P. Brasília. 2005.
217
Faleiros, F. de P. Violência contra a pessoa idosa: ocorrências, vítimas e agressores. Universa
Editora. Brasília. 2007.
218
Minayo, M. C. S. A violência sobre a perspectiva da saúde pública. In: Cadernos de Saúde
Pública – 10 (suplemento), pp. 07-18. 1994.
219
Minayo, M. C. S.; Souza, E. R. Violência sob olhar da saúde: a infrapolítica da
contemporaneidade brasileira. Editora Fiocruz. RJ. 2003.
220
Neri, A. L. Desafios ao bem-estar físico e psicológico enfrentados por idosos cuidadores no
contexto da família: dados do FIBRA Campinas. In: Cuidados de longa duração a população
idosa: um novo risco social a ser assumido. Camarano, A. A. (Org.). IPEA. RJ. 2010.
221
Camarano, A. A. (Org.). Cuidados de longa duração a população idosa: um novo risco social a
ser assumido? IPEA. RJ. 2010.
222
Neri, A. L. Desafios ao bem-estar físico e psicológico enfrentados por idosos cuidadores no
contexto da família: dados do FIBRA Campinas. In: Cuidados de longa duração a população
idosa: um novo risco social a ser assumido. Camarano, A. A. (Org.). IPEA. RJ. 2010, p. 304.
91

223
e as peculiaridades de quem agride. Por isso mesmo, Minayo (2005) faz a
relação entre esse iceberg e a cultura relacional de dominação, de conflitos entre
gerações, e as negligências familiares e institucionais.
Para a relação que vem sendo feita entre cuidado e violência intrafamiliar,
Minayo224 (2003) chama a atenção para o fato de que:

Alguns pesquisadores vêm desmistificando a idéia de que os cuidadores familiares


seriam os maiores agressores e que as situações de maus-tratos e negligências
tenderiam a piorar, quanto mais o idoso fosse dependente e mais tempo exigisse de
atenção e dedicação.

Discorrendo ainda a respeito da questão da violência praticada pelo


cuidador, a autora se apropria dos estudos de Williamson & Schaffer
sistematizado no ano de 2001 sobre o mesmo tema, e que “a partir de análises
multivariadas” indicaram:
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Ser a qualidade da relação pré-enfermidade ou anterior ao estado de dependência


do idoso em relação ao cuidador que determina a forma positiva ou negativa como
este último percebe seu trabalho (como castigo ou como ato de dedicação
amorosa), sendo preditiva de estados de depressão e de possíveis comportamentos
violentos225.

Silveira, Caldas e Carneiro226 (2006) sustentam que é fundamental se


compreender a história do relacionamento familiar, especialmente da pessoa a ser
cuidada com aquela que irá ofertar o cuidado, visto que é a qualidade do
relacionamento que conduzirá a uma aceitação maior tanto na oferta quando na
recepção do cuidado.
O que desenvolvemos até o momento aponta para a existência de estudos
voltados para os cuidadores, ainda que, com pouco destaque em relação aos
estudos referentes aos idosos, e, que já dão início aos apontamentos para a
ocorrência de uma carga de sofrimento na oferta desse cuidado pelos familiares.

223
Minayo, M. C. de S. Violência contra idosos: o avesso do respeito à experiência e à sabedoria.
Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Brasília/DF. 2005.
224
Minayo, M. C. de S. Violência contra idosos: relevância para um velho problema. In: Cadernos
de Saúde Pública. 19(3), p. 783-791, maio-junho. RJ. 2003, p. 789.
225
Idem.
226
Silveira, T M. da; Caldas, C. P.; Carneiro, T. Cuidando de idosos altamente dependentes na
comunidade: um estudo sobre cuidadores familiares. In: Cadernos de Saúde Pública. v. 22. n. 8.
RJ. 2006. Disponível em:
www.scielosp.Org/scielo.php?Script=sci_arttext&pid=S0102-
311X2006000800011&lng=en&nrm=iso Capturado em: 01.03.2011.
92

Existem doenças com as quais os cuidadores irão lidar e também são as que
mais sobrecarregam os cuidadores posto que são as que vão fazer com que os
idosos necessitem de cuidados, invariavelmente, por vinte e quatro horas, e, ser
cuidado para esses idosos passa a ser uma questão de sobrevivência. Por isso,
Karsch227 (2003) menciona que os cuidados ofertados pelos familiares e que são
desenvolvidos dentro dos domicílios são:

Invisíveis aos olhos do público e ignorados pelas autoridades e pelas organizações


que poderiam se responsabilizar por uma rede de atendimento permanecem ocultos
e, por causa disso, não são amparados por quaisquer apoios, serviços externos ou
políticas e programas.

Se nos dirigirmos às origens e manifestações da violência, daremos conta


que se trata de um fenômeno sociohistórico que segue toda experiência da
humanidade, apesar desta jamais aceitá-lo como fato, como alguma coisa
inevitável à condição humana.
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Pode-se considerar então, que seja de consenso, que se trata de uma questão
social, por demandar formulação de políticas públicas específicas para a sua
prevenção e tratamento, e, embora não se trate de uma questão de saúde, torna-se
um problema para este espaço.
Cabe ainda a lembrança de que a centralidade de qualquer proposta de
reflexão sobre a violência invariavelmente se fundamentará na polissemia, na
controvérsia e na complexidade deste tema, na medida em que ele determina sobre
si mesmo uma enorme variável de hipóteses o que permite que a conclusão dos
achados sejam bastante parciais, como propõe Queiroz 228 (2009).
A violência é um termo utilizado para indicar uma ampla variação de
ocorrências, daí as dificuldades tanto na intervenção quanto na solução das
questões que envolvem atos violentos, especialmente contra as pessoas idosas,
que é o foco deste estudo.
Conforme a Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por
Acidentes e Violências (2001) se utiliza a definição que segue: “a violência
consiste em ações humanas individuais, de grupos, classes, nações, que ocasionam

227
Karsch, U. M. Cuidadores familiares de idosos: parceiros da equipe de saúde In: Serviço Social
e Sociedade. Nº 75. Editora Cortez. SP. 2003, p. 106.
228
Queiroz M. G. A violência intrafamiliar na contramão das políticas públicas de proteção ao
idoso seu significado para os idosos “vitimizados”. Dissertação de Mestrado. Mestrado
Profissional em Planejamento Políticas Públicas. Universidade Estadual do Ceará. 2009.
93

a morte de seres humanos ou afetam sua integridade física, moral, mental ou


espiritual” 229. Mas ao mesmo tempo, a violência é considerada como:

Um fenômeno pluricausal, eminentemente social. Entende-se aqui, que a violência,


pela sua natureza complexa, envolve as pessoas na sua totalidade bio-psíquica e
social. Porém o lócus de realização da violência é o contexto histórico-social, onde
as particularidades biológicas encontram as idiossincrasias de cada um e as
condições sócio-culturais para a sua manifestação 230.

Já para Minayo231 et al (1994) a violência ”é um dos eternos problemas da


teoria social e da práxis política e relacional da humanidade”. E chamam a
atenção para o fato de que a violência afeta a saúde, uma vez que é capaz de
provocar doenças e alterações negativas na integridade corporal, orgânica e
emocional, além de provocar a morte tolhendo o direito do ser humano à vida.
Minayo et al 232 (2003) prosseguem advertindo que:
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A violência, em si, faz parte das grandes questões sociais, sendo o setor da saúde
um tambor de ressonância das resultantes desse fenômeno. O setor da saúde é uma
encruzilhada para onde convergem todas as lesões e traumas físicos, emocionais,
espirituais produzidos na sociedade.

É patente a força dos argumentos até aqui expostos sobre a importância de


se envolver o tema da violência com o campo da saúde, visto que estão
definitivamente imbricados. Os resultados de estudos de Faleiros (2007) e Minayo
(2005) entre outros, estão sempre sendo atualizados a partir de estudos recentes e
que têm revelado o quanto o campo da saúde está relacionado com a questão da
violência, o que remete a revisão de que a violência não se trata de uma questão
de saúde.
Esses estudos mostram ainda que, pesquisas sobre o tema da violência ainda
não são claras para causas e implicações das conjunturas consideradas.
Por isso, e pela seriedade que o tema envolve, estudos exaustivos sobre a
violência têm merecido destaque dos pesquisadores e estudiosos sobre o assunto.
Entre os estudos a que nos referimos tomamos como exemplo as obras “Violência
229
Brasil. Ministério da Saúde. Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e
Violências. Portaria nº 737 de 16 de maio de 2001. Brasília/DF. 2001.
230
Idem.
231
Minayo, M. C. S. A violência sobre a perspectiva da saúde pública. In: Cadernos de Saúde
Pública – 10 (suplemento), pp. 07-18. 1994, p. 7.
232
Minayo, M. C. S.; Souza, E. R. Violência sob olhar da saúde: a infrapolítica da
contemporaneidade brasileira. Editora Fiocruz. RJ. 2003, p. 17.
94

contra a pessoa idosa: ocorrências, vítimas e agressores” de Faleiros publicada no


ano de 2007, cuja pesquisa foi desenvolvida nas 27 capitais do Brasil e que traz
um alerta importante: os principais agressores da violência intrafamiliar são filhos
e filhas e as principais vítimas são as mulheres, e “Violência contra os idosos: o
avesso do respeito à experiência e à sabedoria” de Minayo publicada em 2005.
Faleiros 233 (2007) alerta para o fato de que:

A questão da violência contra a pessoa idosa tornou-se mais evidente nos estudos
científicos a partir dos anos 1970 quando se investigou a violência intrafamiliar,
inicialmente com a expressão utilizada por Burston em 1975 ao falar das “avós
espancadas” ou granny bashing / granny battering (apud Tortosa, 2004, p. 16;
Glendenning, 2000; Marmolejo, 2005). Já no final da década de 1970 e início dos
anos 1980, foram aprofundados os conceitos de abuso físico, emocional, sexual e
econômico contra idosos.

O autor chama a atenção ainda para os estudos como os de Pillemer e


Findelhor (1989) que foram se constituindo a partir de então. Para ele na década
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de 1980 conceituações variadas foram se construindo e revelando novas


configurações a respeito da violência, foi quando se falou pela primeira vez “sobre
234
maus-tratos e negligência contra a pessoa idosa” , quando Faleiros se
apropriando de Glendenning (2000), enfatiza a pesquisa de Pillemer e Findelhor
de 1989, que trata sobre a “prevalência de abusos contra idosos”.
O autor revela que outras tantas pesquisas foram realizadas sempre sobre o
tema da “violência na velhice” e destaca o trabalho de Decalmer e Glendenning
(2000) e cita parte de um trecho em que Glendenning, “considera que as situações
de negligência e maus-tratos aos idosos não são fenômenos novos, mas que
permanecerão submersos, como um iceberg, e afirma que “existe uma aterradora
evidência de que os idosos que vivem em instituições, em torno de 5% na
Inglaterra e EUA, tenham maior probabilidade de estar em perigo que aqueles que
vivem em suas casas”.
O que Faleiros (2007) “contesta” e “atualiza” a informação dizendo que esse
quadro foi se alterando na medida em que surgiram “evidências do grande número
de violências praticadas em domicílio de idosos por seus familiares” 235.

233
Faleiros, F. de P. Violência contra a pessoa idosa: ocorrências, vítimas e agressores. Universa
Editora. Brasília. 2007, p. 21.
234
Idem, p. 22.
235
Idem.
95

Nos estudos de Minayo236 (2003) a violência contra os idosos é considerada


o avesso dos direitos consagrados no Estatuto da Pessoa Idosa, e por assim
entender se apropria de alguns parâmetros para discutir suas considerações que
são a cidadania, a saúde pública, a promoção da saúde e a qualidade de vida.
Desse modo, segundo a autora quando a mesma se refere a violência ela está se
referindo as ações e omissões que contrariam os direitos e são passíveis de serem
superadas.
Os maus-tratos estão enquadrados nas ações e omissões a que se referiu
antes, contestando decisivamente, “o pacto do silêncio”, a autora considera que o
“maior antídoto contra a violência” é o alargamento da inclusão na cidadania
como está previsto no Estatuto do Idoso 237.
Para iluminar o tema da violência contra as pessoas idosas, empregamos
novamente Faleiros 238 (2004) para quem a violência, de um modo geral:

É um processo social relacional complexo e diverso. É complexo por envolver


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tanto o contexto social mais geral como as relações particulares entre as pessoas, e
ao mesmo tempo diverso, em suas manifestações familiares, individuais, coletivas,
no campo e na cidade, entre os diferentes grupos e segmentos, atingindo tanto o
corpo como a psique das pessoas.

Para ele a violência, é ainda: “um processo relacional, pois deve ser
entendido na estruturação da própria sociedade e das relações interpessoais,
institucionais e familiares” 239.
O autor diz que “a violência é uma expressão relacional de poder, como
forma de exercício de dominação, de imposição como de reação de quem tem seu
poder enfraquecido, como revide [...] está situada no contexto de negação da vida”
240
. Julgamos haver concordância entre as análises feitas por Faleiros sobre a
relação entre a violência e a negação da vida com aquelas elaboradas por Minayo
anteriormente.

236
Minayo, M. C. S. Violência contra idosos, relevância para um velho problema. In: Cadernos de
Saúde Pública. v. 19. n. 3, p. 783-791, Maio - Jun. RJ. 2003.
237
Brasil. Ministério da Previdência e Assistência Social. Estatuto do Idoso. Lei nº 10.741 de 12 de
outubro de 2003. Brasília/DF. 2003.
238
Faleiros, V. de P. Violência na velhice. In: O Social em Questão. Revista do Programa de Pós-
Graduação em Serviço Social da PUC-Rio. v. 11. n. 11. Ano VII. Primeiro semestre de 2004, p. 8.
239
______. Violência contra a pessoa idosa: ocorrências, vítimas e agressores. Universa Editora.
Brasília. 2007, p. 27.
240
Faleiros, V. de P. A violência contra a pessoa idosa no Brasil. In: Projeto apresentado à
Secis/MCT – Pesquisa. Faleiros, V. de P. Brasília. 2005, p. 6
96

Para Arendt (2009) que estuda a violência do ponto de vista político esta se
distingue por esse seu caráter instrumental e seus instrumentos são idealizados e
utilizados para o propósito da multiplicação do vigor natural até que, na última
fase de desenvolvimento, possam substituí-lo. Para a autora, a violência é meio,
enquanto o poder é fim. Por fim, aponta Arendt (1985): "a forma extrema de
poder é todos contra Um, a forma extrema da violência é o Um contra Todos” 241.
Mas, Arendt (2009) distingue a violência da força e do poder. Essa distinção
é fundamental visto que auxilia na eliminação de qualquer equívoco que
assemelhe violência e poder. Para ela o poder não se confina ao ‘domínio do
homem pelo homem’, contudo se firma no ‘consenso da maioria’ sem o qual o
poder deixa de existir. Com base nesses alicerces a autora revela que a
característica principal da violência é a arbitrariedade e também alerta para a falta
de grandes estudos sobre o fenômeno da violência e a consequente banalização do
conceito.
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Quanto a sua tese sobre sua crença de que a violência é gerada pela falta do
discurso no espaço público a autora aponta:

A violência pode ser justificável, mas nunca será legítima. Sua justificação perde
em plausibilidade quanto mais o fim almejado se distancia no futuro. Ninguém
questiona o uso da violência em defesa própria porque o perigo é não apenas claro,
mas também presente, e o fim que justifica os meios é imediato.242

Contudo, Arendt pondera que a violência perde esse significado quando vira
estratégia, ou um começo de ação contra todos, de modo racionalizado.
Considera-se então que a violência seja tema desafiador para o poder
público, para os estudiosos e para a sociedade em geral.
243
Sobre esta última questão, Faleiros (2007) nas considerações finais de
sua obra já citada ratifica a afirmação de que:

A relação violenta (...) está disseminada na sociedade e implica uma assimetria de


poder. Essa assimetria se manifesta na família, com o exercício do poder dos filhos
e filhas sobre pais e mães, de parentes entre si, impondo sobre as pessoas idosas
todos os tipos de violência. (...) Esta dinâmica violenta produz a exclusão, o

241
Arendt, H. Da violência. Tradução de Maria Cláudia D. Trindade. Editora Universidade de
Brasília. 1985, p. 35.
242
Idem, p. 69.
243
Faleiros, V. de P. Violência contra a pessoa idosa: ocorrências, vítimas e agressores. Universa
Editora. Brasília. 2007, p. 332.
97

sofrimento, a incerteza, a segregação. As mulheres são as maiores vítimas da


violência, e os filhos e filhas os maiores agressores (...).

Pelo que se refletiu pode-se julgar que a violência esteja presente na


condição humana como fenômeno biológico, psicológico e social, mas que não
seja inerente à natureza humana, embora se encontre registrada nos diferentes
244
contextos históricos que retratam a velhice. Conforme aponta Marra (2004)
“raramente uma pessoa se considera violenta. Violento é sempre o outro indivíduo
[...] em qualquer circunstância ela é um ato que viola a integridade do indivíduo,
transformando-o em objeto”.
245
Para Minayo (2003): “as violências contra pessoas mais velhas precisam
ser vistas sob, pelo menos, três parâmetros: demográficos, sócio-antropológicos e
epidemiológicos”. E complementa que: “embora a vitimação dos velhos seja um
fenômeno cultural de raízes seculares e suas manifestações, facilmente
reconhecidas, desde as mais antigas estatísticas epidemiológicas, esse problema
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não tem se apresentado como relevância social”.


Camarano e colaboradores (2004) com o objetivo de apreender de que modo
as famílias brasileiras têm se estruturado para enfrentar o envelhecimento da
população e suas exterioridades como o detrimento da capacidade funcional e
financeira, assim como “a maior dependência dos jovens e o enxugamento do
papel do Estado”, apresenta como hipótese que: as famílias estão sendo cada vez
mais requeridas para cuidar dos seus segmentos “vulneráveis”. Os resultados
desta obra, segundo Glauco Arbix – Presidente do IPEA – “ultrapassaram a mera
atualização daquela obra, repensando-se nesta coletânea o idoso na sociedade
dentro dessa perspectiva de vida mais longa, que ocorre de maneira diferenciada
entre os vários grupos sociais, raciais e regionais” 246.
Camarano (2004) apresenta resultados importantes para a compreensão de
como tem sido o modo de caminhar a vida dessas famílias que contam com uma
pessoa idosa no seu convívio. Assim, conforme a autora:

244
Marra, T. A. M. Sobre violência. In: Violência. Monini, I. Goiânia: Ed. da UCG, 2004. (Série
Seminário, V. VII). 2004, p. 80.
245
Minayo, M. C. de S. Violência contra idosos: relevância para um velho problema. In: Cadernos
de Saúde Pública. Vol. 19. Nº 3. RJ. 2003, p. 1.
246
Camarano, A. A. (Org.). Os novos idosos brasileiros: muito além dos 60? IPEA. RJ. 2004.
98

Entre os idosos brasileiros, apenas 8,6% encontravam-se em situação de total


dependência, sem autonomia e sem renda, sendo 2/3 desse segmento formados por
mulheres. Dessas, 93,6% foram casadas em algum momento de seu ciclo de vida.
A sua dependência em relação à falta de renda deve-se, principalmente, à sua baixa
participação no mercado de trabalho na vida adulta. Para essas mulheres, ter tido
filhos, ou seja, a construção de laços afetivos ao longo da vida são requisitos tão
importantes para o apoio na última fase da vida como a contribuição para a
seguridade social 247.

248
Concordamos com Camarano (2004) que especialmente no Brasil a co-
residência sugere uma associação a condições melhores de vida tanto para os
idosos quanto para suas famílias, e embora essa qualidade de vida influencie
diretamente no prolongamento ou mesmo na extensão da autonomia e da
independência a convivência entre gerações quase sempre vem acompanhada de
conflitos, e o lar, tido como “porto seguro”, perde essa exterioridade quando se
trata de convivência entre gerações, em especial quando as idades são bastante
díspares. Mas de que conflito se trata. É sobre aquele “marcado pela disputa por
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recursos entre os grupos etários, particularmente entre crianças e idosos?” que,


249
como Duarte et al (2010) indicam que: “é importante lembrar que nossa
capacidade para cuidar das necessidades apresentadas pelas pessoas idosas é
sempre limitada por questões econômicas”.
Ou é sobre aquele cuja marca encontra-se delineada segundo um modo de
viver exacerbando o conflito e gerando violência, sugerido por Faleiros250 (2007),
cujos fundamentos indicam que “a violência expressa por sua vez uma
desestruturação da regulação do conflito, da pactuação e das normas, das formas
como os conflitos vêm sendo “pacificados” pelas instituições e relações de
negociação, perdão, reparação, acomodação e pela mediação da Justiça e das leis”.
Ou é ainda sobre aquele cuja consequência seria presumível por aqueles que
vivem no entorno da família, pelo modo de caminhar a vida de seus membros
diante de uma sobrecarga derivada pelo cuidado extremo.

247
Idem, p. 162.
248
Idem.
249
Duarte, Y. A. de O. Como estão sendo cuidados os idosos frágeis de São Paulo? A visão
mostrada pelo estudo SABE (Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento). In: Cuidados de longa duração
para a população idosa: um novo risco social a ser assumido? Camarano, A. A. (Org.). IPEA. RJ.
2010, p. 139.
250
Faleiros, V. de P. Violência contra a pessoa idosa: ocorrências, vítimas e agressores. Editora
Universa. Brasília/DF. 2007, p. 31.
99

4.4 .
Cuidado e proteção social

O segredo é não correr atrás das borboletas...


É cuidar do jardim para que elas venham até você.

Mário Quintana

Cuidar é diferente de proteger visto que faz parte da atividade criativa dos
homens, e por ser uma atitude humana está inscrita no domínio da essencialidade
da vida, do subjetivo e do cultural das relações humanas e sociais, e que se
registra, em especial, de pessoas para pessoa, de instituições para pessoas e de
famílias para pessoas. E, é este último aspecto que nos interessa especialmente.
251
Sposati (2008) lembra que, embora proteger esteja inscrito,
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especialmente, nas situações de carência e na precisão de acolhê-las, não se


constitui em hipótese alguma em tutela, daí que a autora sustenta que:

Proteger não é tutela (...). O que, aqui se pretende é inserir a concepção social, em
um novo campo, o do investimento no futuro e na qualidade de vida pessoal e
social; é um campo relacional e, não meramente tutelar, mantenedor do status quo,
o que significaria não ter ou, restringir à mesmice, o horizonte.

Por isso, Sposati imprime um tom específico as suas reflexões,


relacionando-as ao processo de envelhecer e descreve que: “caminhar para o
envelhecimento saudável significa adotar um conjunto de práticas de proteção –
atitudes e comportamentos – cuja presença se opõe ao entendimento de uma
conduta passiva” 252.
253
Para Merhy (2007), seja qual for o processo tutelar que implique na
perda da autonomia e da liberdade, que ele chama de “expropriação dos
autocaminhares dos diferentes indivíduos ou grupos na sua dimensão enquanto
uma “máquina desejante” é, para ele, não importando se outorga ou conquista,

251
Sposati, A. Proteção social na América Latina em contexto de globalização. In: Revista Debates
Sociais do CBCISS, nº. 69-70, Ano XLIII, RJ. 2008, p. 67.
252
Idem, p. 67.
253
Merhy, E. E. O desafio da tutela e da autonomia: uma tensão permanente do ato cuidador. In:
Reforma psiquiátrica no dotidiano. Hucitec. SP. 2007, p. 1-2.
100

“castradores dos desejos e de seus movimentos em produzir percursos que


invistam no mundo, para torná-lo e tomá-lo em parte como seu”.
Pelo exposto, em função da reflexão elaborada por Merhy, em analogia às
de Sposati e Pereira (2008), a seguir explicitada, entende-se que proteção social
constitui-se no amparo do Estado aos cidadãos, o que nos dizeres das duas
autoras, não pressupõe tutela, seja ela, outorgada ou conquistada, como sugere
Merhy.
Conquista ou concessão também são duas questões centrais no campo das
políticas sociais e tem estimulado um olhar mais crítico sobre os seus escopos.
254
Pereira (2008) chama atenção para o fato de que “proteção social é um
conceito amplo” e que por isso mesmo pode reunir “a seguridade social (ou
segurança social), o asseguramento ou garantias à seguridade e políticas sociais”.
Inicialmente, a respeito do conceito amplo de seguridade social e o que ele
255
pode reunir Pereira (2008) aponta que a seguridade social estabelece “um
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sistema programático de segurança contra riscos, circunstâncias, perdas e danos


sociais cujas ocorrências afetam negativamente as condições de vida dos
cidadãos”. Sobre o asseguramento, a autora dá a entender que este “identifica-se
com as regulamentações legais que garantem ao cidadão a seguridade social como
direito”. Enquanto as políticas sociais “constituem uma espécie de política pública
que visa concretizar o direito à seguridade social, por meio de um conjunto de
medidas, instituições, profissões, benefícios, serviços e recursos programáticos e
financeiros”. Pereira256 (2008).
Dentro deste contexto tanto Pereira (2008) quanto Sposati (2008)
concordam quanto à proteção não constituir-se em tutela. A primeira autora
também assinala: “neste sentido, a proteção social não é sinônimo de tutela nem
deverá estar sujeita a arbitrariedades, assim como a política social – parte
integrante do amplo conceito de proteção – poderá também ser denominada de
política de proteção social” 257.

254
Pereira, P. A. P. Necessidades humanas: subsídios à crítica dos mínimos sociais. 5ª edição
Cortez Editora. SP. 2008, p. 16.
255
Idem.
256
Idem.
257
Idem.
101

São as políticas públicas as instâncias que darão a assistência e proteção


258
necessárias aos cidadãos, nesse contexto, Pereira (2002) lembra que ela
considera que a adoção de princípios universalistas é o que melhor observa e
estabelece a relação entre as políticas públicas e os direitos sociais sem, no
entanto, “rejeitar de modo natural” os direitos individuais, que são aqueles
referentes aos direitos civis e políticos.
Sposati (2008) ao analisar a questão da proteção social, considera que a
“condição de igualdade” deve se iniciar com a ruptura do preconceito e o
vislumbre de ser instalada a “universalidade de condição de cidadão a todos”. Para
ela “os direitos sociais universais” para serem alcançados há que se reconhecer
primeiramente os direitos humanos, do mesmo modo incondicional.
259
Sobre a esfera dos direitos, Sposati (2008), toma de novo uma questão
bastante particular, que de maneira especial nos interessa e preocupa e, que tem
relação com a questão da violência, situando que nas últimas três ou quatro
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décadas de nossas vidas, os direitos humanos têm sido transgredidos de diversas


maneiras e adverte: “a violência cujos danos às mulheres e crianças são, sem
dúvida, de alto significado ocorre, acentuadamente no interior do núcleo familiar,
espaço que deveria ser marcado pela acolhida, apoio e convivência”.
Acrescentamos a esses, os idosos como aqueles que também no mesmo espaço
sofrem o dano no interior do núcleo familiar.
260
É Pereira (2008) quem faz uma análise minuciosa da proteção social
brasileira e pontua que a proteção social brasileira “não se apoiou firmemente nas
pilastras do pleno emprego, dos serviços sociais universais, nem armou, até hoje,
uma rede de proteção impeditiva da queda e da reprodução de estratos sociais
majoritários da população na pobreza extrema”.
O que se apreende é que as políticas sociais de proteção aos cidadãos têm
avanços e retrocessos formalizados conforme a relação que se estabelece entre o a
sociedade e o Estado, ou o seu contrário, como se preferir.
No âmbito de suas reflexões a autora chama a atenção para a importância
desse tempo para a história das políticas sociais de proteção, para Pereira (2008):

258
Pereira, P. A. P. Política de assistência social: avanços e retrocessos. In: Cadernos do CEAM.
Nº 11. CEAM/UnB. Brasília/DF. 2002.
259
Sposati, A. Proteção social na América Latina em contexto de globalização. In: Debates Sociais.
Revista do CBCISS, nº. 69-70, Ano XLIII, RJ. 2008, p. 65.
260
Pereira, P. A. P. Necessidades humanas: subsídios à crítica dos mínimos sociais. 5ª edição.
Cortez Editora. SP. 2008, p. 125.
102

Data desta época a inclusão, pela primeira vez na história política do país, da
assistência social (com a sua proposta de satisfação de “mínimos sociais”) numa
Constituição Federal, na condição de componente (integral e endógeno) do Sistema
de Seguridade Social e de direito de cidadania.

No contexto dos direitos e da cidadania, um avanço chama a atenção que é a


promulgação da Constituição Federal do Brasil em 1988 com as características
que se apresentou, “nesta Constituição, a reformulação formal do sistema de
proteção social incorporou valores e critérios que, não obstante antigos no
estrangeiro, soaram, no Brasil como inovação semântica, conceitual e política,
como sinaliza Pereira 261 (2008).
Na expressão de Sposati – “nos deixa esperançosos” – na medida em que
revela que no campo da Assistência Social esta é a Constituição mais diferenciada
porque adota um projeto – “que se tornou revolucionário – de transformar em
direito o que sempre fora tratado como favor e de reconhecer os “desamparados”
262
como titulares ou sujeitos de direitos” conforme Pereira (1998) apud Pereira
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(2008).
São os fundamentos dessa nova política de assistência social que teria o
encargo de materializar “direitos devidos a determinados segmentos sociais”
como adolescentes, crianças, desempregados, famílias, gestantes, idosos, nutrizes,
pessoas portadoras de deficiência, todos “afetados em suas necessidades básicas,
visando a melhoria de suas condições de vida e de cidadania” 263.
Contudo, “as esperanças” tomadas anteriormente se desvaneceram, visto
264
que, conforme Pereira (2008) “esses progressos constitucionais não
frutificaram na prática”, sendo, ao contrário, alvos de uma “contra-reforma
conservadora” (Fagnani, 1996, p.86) iniciada em 1987 (...) e, reforçada a partir de
1990, nos governos Mello (1990-1992) e Cardoso (1995-2000).
Para Pereira (2008) novamente o que se vê são forças contrárias às reformas
propostas pela nova Constituição se juntarem em favor de seus interesses
particulares ou mesmo de classe, “centrar fogo” nos seus progressos e propor
mudanças importantes no mundo do trabalho, da economia, enfim, da vida.

261
Idem, p. 152.
262
Pereira, P. A. P. Necessidades humanas: subsídios à crítica dos mínimos sociais. 5ª edição.
Cortez Editora. SP. 2008, pp. 155-156.
263
Idem, p. 156.
264
Idem.
103

Esses elementos revelam a dinâmica de uma sociedade contraditória, e a


leitura que se tem desse retrocesso é uma volta às práticas assistencialistas, com
consequente retorno dos alicerces do favor em lugar do direito; do mesmo modo
ocorrem outros anacronismos, como “paralisação, descontinuidade, retrocesso,
extinção ou engavetamento de várias conquistas ou propostas reformistas; redução
orçamentária e desmonte institucional na área social; franca oposição
governamental aos avanços consitucionais” 265.
Em relação à proteção social os séculos XIX e XX são vistos como o
cenário de surgimento dos sistemas de proteção social contemporâneos, cujo
objetivo central incide na proteção pública dos indivíduos contra os diferentes
riscos originários de fatores econômicos, políticos, sociais e culturais.
Viana & Levcovitz (2005) afirmam que a efetivação da proteção social do
ponto de vista de política pública só ganha configuração com o processo de
alargamento do sistema capitalista e com o natural recrudescimento das
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266
desigualdades inerentes ao sistema. Para outros como Esping-Andersen
(1991), por exemplo, o sistema de proteção se compõe e se relaciona ao avanço
das mobilizações, lutas e correspondente conquista dos trabalhadores.
267
Entretanto, Viana e Levcovitz, (2005) defendem que a proteção social, como
sistema, se fundamenta:

(...) na ação coletiva de proteger indivíduos contra os riscos inerentes à vida


humana e/ou assistir necessidades geradas em diferentes momentos históricos e
relacionadas com múltiplas situações de dependência (...) os sistemas de proteção
social têm origem na necessidade imperativa de neutralizar ou reduzir o impacto de
determinados riscos sobre o indivíduo e a sociedade.

Pode-se compreender a indignação de Sposati (1997) diante do que se


constitui “os cortes nos gastos sociais, o desmonte dos direitos sociais, a
desqualificação das instituições de bem-estar, o questionamento do caráter público
da política, o desprezo pelos pobres, dentre outros atentados” (...), tão bem
historiados por Pereira (2008 b). Daí Sposati (1997) revelar que: “é de causar
espanto a persistência na cultura ético-política dos brasileiros da discriminação ao

265
Idem, p.158.
266
Esping-Andersen, G. The three worlds of welfare capitalism. Cambridge: Polity Press. 1990.
267
Viana, A. Levcovitz, E. Proteção social: introduzindo o debate. In: Proteção social – dilemas e
desafios. Viana, A.; Elias, E.; ibañez, n. (Org.) Hucitec. SP. 2005, p. 17.
104

direito universal à cidadania. Permanece entre nós forte resistência em aceitar a


cidadana como capacidade inerente a todo brasileiro” 268.
Por fim, tomamos a compreensão de proteção apontada por Sposati por
ocasião da Pré-Conferência Brasileira Preparatória à 33ª Conferência Global de
Bem-Estar Social do International Council on Social Welfare – ICSW, publicada
pelo CBCISS em 2008, por entendermos que se trata de pontuações relevantes e
pertinentes para o contexto deste estudo, em especial, no que se refere às famílias
que cuidam dos seus familiares idosos dependentes e que necessitam de proteção
para ofertar esses cuidados. Observamos nossa impossibilidade de síntese na
aplicação das palavras da autora, daí a extensão da citação.

O sentido de proteção (protectione do latim) supõe, antes de qualquer coisa, tomar


a defesa de algo, impedir sua destruição, sua alteração. Nesse sentido, a ideia de
proteção contém um caráter preservacionista – não da precariedade, mas da vida –
supõe apoio, guarda, socorro e amparo. Esse sentido preservacionista é que exige
tanto as noções de segurança social, como de direitos sociais. Enquanto a noção de
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amparo social tem por significado estancar a condição de deterioração, a noção de


proteção, por sua vez, impede que ocorra a destruição. A proteção é mais vigilante,
por isso, mais preservacionista, pró-ativa, desenvolvendo ações para que alguma
destruição não venha a ocorrer, enquanto o amparo/apoio já ocorre a partir de um
risco quanto à redução de danos causados. 269

Seguindo na mesma trilha de refletir sobre a questão da proteção social,


Euzéby (2004) chama a atenção para o fato de que ele concorda com D.
Kolacinski (2001, p.33) que aponta que: “justiça social quer dizer promover e
garantir o conjunto dos direitos do homem e sua indivisibilidade”. A partir dessa
concepção Euzéby relaciona proteção social com justiça social, por isso considera
que:

A proteção social aparece como um pilar da justiça social: em primeiro lugar


porque ela faz parte dos direitos econômicos, sociais e culturais (artigos 22 e 25, da
Declaração de 1948, e artigos 9 e 12 do Pacto Internacional de 1966); em seguida
porque participa diretamente do respeito aos outros direitos do homem, pois o
exercício dos direitos civis e políticos supõe um nível de vida decente.270

268
Sposati, A. de O. Mínimos sociais e seguridade social: uma revolução da consciência da
cidadania. In: Revista Serviço Social e Sociedade nº 55. Cortez Editora. 1997, p. 9.
269
Sposati, A. de O. Proteção social na América Latina e Contexto da Globalização. In: Revista
Debates Sociais – CBCISS. Nº 69-70. 2008, p. 66. Grifos da autora.
270
Euzéby, A. Proteção social, pilar da justiça social. In: Proteção social e cidadania: inclusão de
idosos e pessoas com deficiência no Brasil, França e Portugal. Sposati, A. (Org.). Cortez Editora.
SP. 2004, p. 28.
105

Relacionando com nosso interesse de estudo, concluimos com a reflexão de


Carvalho 271 (2008) que expõe que:

De fato, a família é o primeiro sujeito que referencia e totaliza a proteção e a


socialização dos indivíduos. Independentemente das múltiplas formas e desenhos
que a família contemporânea apresente, ela se constitui num canal de iniciação e
aprendizado dos afetos e das relações sociais.

Para finalizar afirmamos que na sociedade contemporânea os dispositivos


legais acolhem, de modo consensual, que os cuidados com as pessoas idosas
sejam de responsabilidade, simultânea, da família, da sociedade e do Estado, o
que nos remete à exigência de perceber a retomada da centralidade da família,
com apoio ou suporte do Estado. Daí a importância de estudos relacionados à
proteção social, notadamente relacionada à família, que ao mesmo tempo em que
se encontra na centralidade das políticas sociais é considerada “uma ilustre
desconhecida” quando o tema é a materialização dessas políticas. Essa reflexão
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nos remete ainda para a ausência de políticas públicas relacionados ao cuidado e


consequentemente ao cuidador.

271
Carvalho, M. do C. B. de. A priorização da família na agenda política social. In: Família
brasileira: a base de tudo. Kaloustian, S. M. (Org.). 8ª edição. Cortez Editora/UNICEF. SP/DF.
2008, p. 93.

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