Intersetorialidade e Direitos da Deficiência
Intersetorialidade e Direitos da Deficiência
Comissão Científica
Acir de Matos Gomes - UNIFRAN
Adriana Giaqueto - UNESP
Aline Papin Roedas da Silva – Pref. Municipal Bauru
Cristiany de Castro – FEAPAES-SP; Uni-FACEF
Darcísio Hortelan Antônio - UNIP
Denise Gisele Silva Costa - UEMG; UNIAPAE-SP
Ernestina Assunção Cintra – FEAPAES-SP
Flávia Catanante – FEAPAES-SP; UNR
Joice Sousa Costa - UNIFEB
Luis Fernando Zuin - APAE Matão; UFSCAR
Priscila Gimenes – UFU
Simone Cristina Chiodi Prestes – UNIP /Bauru
Vanessa Oliveira – APAE Cordeirópolis; UNIMEP
Viviane Vaz – APAE Franca; UNIFRAN
CDD 610
CDU 61
4
PREFÁCIO
A educação transforma. E foi com essa convicção que eu, ao lado de toda a diretoria da
FEAPAES-SP que esteve à frente da entidade de 2018 a 2020, nos dedicamos a criar o
UNIAPAE-SP, o braço educacional da FEAPAES-SP. Um esforço para oferecer para o
movimento apaeano paulista capacitação focada em suas demandas.
Em recente censo realizado pela FEAPAES-SP, detectou-se que das 251 APAES que
responderam à pesquisa na área da gestão, há 3.025 profissionais com especialização em
educação especial e áreas afins, 6.285 profissionais que fazem parte da equipe técnica, e contam
com uma equipe de 12.038 profissionais contratados ou cedidos. Nota-se que já temos na nossa
rede, pessoas que se capacitam e que entendem a importância da busca constante do
conhecimento. Nesse sentido, o UNIAPAE-SP agrega como uma nova opção, moderna e
acessível.
O UNIAPAE-SP tem o intuito de difundir o conhecimento entre os profissionais da
assistência social, educação, saúde e gestão, bem como as demais áreas que se interessam pela
questão da pessoa com deficiência e do terceiro setor de maneira geral, buscando oferecer
treinamento e capacitação além de fomentar estudos e pesquisas científicas que impactarão
positivamente a vida das pessoas com deficiência.
Desta forma em 2020 realizamos o I Congresso Científico Online da Federação das
APAEs do Estado de São Paulo com o objetivo de propiciar um espaço de intercâmbio de
saberes e práticas sobre a questão da pessoa com deficiência intelectual e/ou múltipla,
considerando o desafio constante da garantia e efetivação de direitos dessa população.
Este manuscrito contempla os melhores artigos apresentados no Congresso nas
seguintes temáticas: A Política de Assistência Social no atendimento à Pessoa com deficiência;
Defesa e garantia de direitos da Pessoa com deficiência e Política Educacional, Processos
Educacionais voltados à Pessoa com deficiência intelectual e/ou múltipla. Tais temáticas se
mostram extremamente relevantes ao oportunizar a reflexão e o diálogo a partir de múltiplos
olhares sobre a deficiência
Boa leitura!
Cristiany de Castro
Presidente da FEAPAES-SP
5
SUMÁRIO
Grupo de intervenção para jovens com deficiência intelectual em situação de risco: ações
multidisciplinares de assistência social e terapia ocupacional .................................................20
O panorama das APAES do Estado de São Paulo na prestação dos serviços socioassistenciais
...................................................................................................................................................31
Articulação entre saúde e educação no atendimento integral de jovens e adultos com paralisia
cerebral e deficiência intelectual ..............................................................................................62
Educação especial na pandemia: políticas públicas do estado de Minas Gerais, Brasil, voltadas
à pessoa com deficiência no período de isolamento social ......................................................91
Ensino estruturado aplicado nos atendimentos de educação física voltado para indivíduos com
transtorno do espectro do autismo ...........................................................................................96
Inclusão de pessoas com deficiência em instituições de ensino superior: uma associação entre
mobilidade urbana e acessibilidade ........................................................................................165
Inovações no direito das famílias em face da Lei Brasileira de Inclusão: a garantia existencial
das pessoas com deficiência ...................................................................................................169
O uso da educação em saúde como dispositivo de fortalecimento dos direitos da pessoa com
deficiência ..............................................................................................................................193
EIXO TEMÁTICO
AMBROSIO, Leticia
Terapeuta Ocupacional. Mestra e Doutoranda em Terapia Ocupacional pelo Programa de Pós-
Graduação em Terapia Ocupacional, Universidade Federal de São Carlos
[email protected]
RESUMO
1-INTRODUÇÃO
9
[...] toda forma de distinção, restrição ou exclusão, por ação ou omissão, que tenha o
propósito ou o efeito de prejudicar, impedir ou anular o reconhecimento ou o exercício
dos direitos e das liberdades fundamentais de pessoa com deficiência, incluindo a
recusa de adaptações razoáveis e de fornecimento de tecnologias assistivas (BRASIL,
2015, p. 12).
2- METODOLOGIA
Trata-se de um relato de experiência decorrente da identificação do racismo enquanto
problema para as relações interpessoais dentro da instituição. Foram planejadas e realizadas
duas estratégias: (a) “Oficinas de Atividades Práticas e Corporais”, com os usuários; e (b)
11
3-RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para a apresentação dos resultados, foram formulados eixos de análise e discussão que
visam apresentar o raciocínio terapêutico ocupacional diante das demandas sociais apresentadas
pelos usuários a partir de reflexões afro-referenciadas na Terapia Ocupacional.
Durante a apresentação dos resultados, iremos pautar um pensamento crítico frente a
inserção da terapeuta ocupacional nas ações de Assistência Social dentro de uma Apae. Dessa
forma, tentaremos destacar as limitações significativa de participação, autonomia e
protagonismo dos jovens, em suas atividades cotidianas, seja por restrição, proibição,
impedimento ou segregação, pautadas na compreensão da injustiça ocupacional (TOWNSEND;
MARVAL, 2013).
12
De acordo com Galheigo (2020), a maioria da população brasileira vive, hoje, com seu o
cotidiano atravessado por experiências de privação, sofrimento e vulnerabilidade. Segundo a
autora, é compromisso ético e político da Terapia Ocupacional promover transformações
sociais por de ações que consideram os micros e macroprocessos envolvidos na vida cotidiana
de pessoas, coletivos e sociedade (GALHEIGO, 2012, 2020).
Almeida et al (2016) apontam que, dentro de Serviços de Assistência Social, terapeutas
ocupacionais enfrentam o desafio de, no contexto da prática, não realizarem ações que resultem
em impedimentos ou dificuldades na realizam de atividades significativas, que possam ser
somadas a vulnerabilidade social e a violação de direitos.
Nesse sentido, podemos compreender que a discriminação racial dentro da instituição
contribui para um processo de segregação e vulnerabilidade dos jovens, inclusive já marcados
pela deficiência intelectual (ou múltipla) e, em sua maioria, pela classe socioeconômica. Assim,
cabe a terapeuta ocupacional fazer uma análise crítica do cotidiano da instituição no
enfrentamento das ações que promovem discriminação e segregação.
A conversa sobre preconceitos produziu para os jovens um território de compartilhamento
e empatia, no qual puderam falar sobre os preconceitos que vivenciavam no dia-a-dia, dentro e
fora da instituição. Esse território de compartilhamento e empatia proporcionou aos jovens
momentos de reflexões sobre os preconceitos que vivenciam diariamente, principalmente em
decorrência da deficiência intelectual.
A Oficina “Conversas sobre preconceito e auto estima” possibilitou aos jovens
refletirem sobre as formas de violência que enfrentavam e reproduziam uns com os outros,
permitindo-lhes, de forma mais concreta, reavaliar como se davam as relações entre si. Alguns
jovens, conseguiram manifestar-se com relação às situações de racismo que já tinham
vivenciado dentro da instituição por parte de colegas.
Assim, de maneira sensível e respeitosa, pudemos aprender sobre como essas violências
do dia-a-dia podem impactar na vida de cada um, gerando isolamento, entristecimento e
podendo causar, em nível mais profundos, depressão.
13
A relação entre brancos e negros, na história brasileira, é marcada por tensões, rupturas e
resistências. Nesse sentido, Quijano (1992) nos apresenta o conceito de colonialidade, cuja ideia
central é refletir sobre os intensos processos de dominação dos povos pretos pelos brancos,
gerando o que ele denomina de colonialidades do ser, saber e poder.
Compreendendo o intenso processo de colonização e exploração dos povos negros,
podemos apontar para a colonização dos corpos (do ser), a desqualificação dos conhecimentos
e o apagamento das culturas (do saber), e a marginalização socioeconômica das comunidades
negras (do poder).
De acordo com Beatriz Nascimento (ÔRI, 1989), o corpo das pessoas negras, no Brasil,
sente-se desterritorializado de comunidade, cultura e saber, e exercer a prática de resgate das
memórias africanas é oferecer ao corpo negro territorialidade.
[...] a autora propõe “Ôrí” como uma forma de produção identitária para os negros em
diáspora uma relação entre intelecto e memória, entre cabeça e corpo, entre pessoa e
terra. Para a autora, essa construção será capaz de retornar ao negro a dignidade e a
humanidade roubadas e dilaceradas no processo de colonização, escravização
e, posteriormente, de subalternização advinda do racismo (REIS, 2020, p. 15)
1
Religião de matriz africana bastante praticada no Brasil. Os cantos do Candomblé costumam ser compostos por
um conjunto de tambores, e por isso, a associação imediata dos jovens.
14
Essa oficina foi logo em seguida da conversa sobre preconceitos, o que facilitou a
sensibilização dos jovens para o que estava ocorrendo. Assim, pudemos apontar com
tranquilidade que dizer que uma religião que não conhecemos é ruim, é uma prática de
preconceito. Explicamos a eles que macumba é um instrumento de africano de percussão, e que
macumbeiro é quem toca a macumba. Sendo um instrumento de percussão, a macumba é usada
nos cantos do Candomblé, e é daí que originam os termos “macumba” e “macumbeiro”.
Percebendo que macumba não era a representação de qualquer coisa ruim, a maioria dos
jovens permitiu-se experimentar a dança. No decorrer da oficina, observamos que muitos jovens
expressavam uma memória corporal ancestral, assim como nos aponta Beatriz Nascimento.
Observando a prática e colhendo os relatos de alguns jovens, podemos afirmar o quanto
a prática foi positiva e aproximou ainda mais os jovens negros de suas identidades e culturas,
realçando o valor que essas identidades e culturas tem para a construção da nossa sociedade.
4-CONSIDERAÇÕES FINAIS
O racismo existe como parte estruturante em nossa sociedade e é reproduzido nos âmbitos
público e privados, individuais e coletivos, e institucionais. Enquanto terapeutas ocupacionais,
é nosso compromisso ético e político promover práticas que rompam com as lógicas racistas,
patriarcais, capacitistas e capitalistas, a fim de possibilitar às pessoas e grupos exercício de
cidadania, exercício da vida.
Percebemos, com a realização de práticas que valorizam as diversidades, não só a racial,
o fomento de espaços de reflexão, empatia e respeito mútuo, que se reflete positivamente nas
relações entre os usuários, entre profissionais e entre usuários e profissionais.
Apontamos a consonância com as Políticas de Assistência Social no que tange a proteção
dos jovens diante de possíveis discriminações raciais, bem como a defesa ao acesso dos direitos
básicos de identidade, cultura e memória.
Esse relato tem como intenção final, apresentar possibilidades simples e efetivas no que
tange as práticas de terapia ocupacional nas Apaes junto a usuários com deficiência intelectual.
As atividades apresentadas se mostraram adaptáveis frente as dificuldades decorrentes do grau
de deficiência de cada jovem, e mais do que isso, apresentaram resultados positivos e imediatos
por sua concretude e vivência corpórea, simbólica, cultural e identitária.
Por fim, ressalta-se a importância e a urgência de práticas dentro da assistência social que
reflitam sobre as intersecções das violências motivadas pela deficiência e pela raça/etnia.
Principalmente as práticas que promovam autonomia e emancipação dos sujeitos.
REFERÊNCIAS
LEPRI, C. Viajantes inesperados. Notas sobre a inclusão social das pessoas com deficiência.
Campinas: Saberes Editora, 2012.
ONU, Organização das Nações Unidas. Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas
as Formas de Discriminação Racial, 1968. Disponível em:
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/convDiscrimina.pdf. Acesso em julho 2020.
ÔRÍ. Direção de Raquel Gerber. Ôrí. Brasil: Estelar Produções Cinematográficas e Culturais
Ltda, 1989, vídeo (131 min), colorido. Relançado em 2009, em formato digital. Disponível em:
https://www.facebook.com/uniaodetodasasnacoes/videos/1878768139068550/. Acesso em
março de 2020.
PINO MORÁN, J. A. & TISEYRA, M. V. Encuentro entre la perspectiva decolonial y los
estudios de la discapacidad. Revista Colombiana de Ciencias Sociales, 10(2), 497-521, 2019.
Disponível em: https://doi.org/10.21501/22161201.2893. Acesso em julho de 2020.
QUIJANO, A. Colonialidad y modernidad/racionalidade. Perú Indígena, Lima, v. 13, n. 29,p.
11-20, 1992.
REIS, R. ÔRÍ E MEMÓRIA: O PENSAMENTO DE BEATRIZ NASCIMENTO. Sankofa
(São Paulo), v. 12, n. 23, p. 9 - 24, 8 ago. 2019.
SURJUS, L. T. L. S. Terapia ocupacional, trabalho e deficiência intelectual: subsídios para a
atuação no Sistema Único da Assistência Social. Cad. Bras. Ter. Ocup., São Carlos, v. 25, n.
4, p. 899-907, 2017. Disponível em: http://dx.doi.org/10.4322/2526-8910.ctoEN0872. Acesso
em julho de 2020.
TOWSEND, E.; MARVAL, R. Profissionais podem realmente promover justiça ocupacional?.
Cadernos de Terapia Ocupacional da UFSCar, v. 21, n. 2, 229-242, 2013. Disponível em:
https://doi.org/10.4322/cto.2013.025. Acesso em julho de 2020.
20
AMBROSIO, Leticia
Terapeuta ocupacional. Mestra e Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Terapia
Ocupacional, Universidade Federal de São Carlos.
[email protected]
RESUMO
A Política de Assistência Social tem a finalidade de garantir o acesso a recursos mínimos e
prover condições para enfrentamento das desigualdades sociais e promover a universalização
do acesso aos direitos sociais. A Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais, de 2014,
prevê que pessoas com deficiências possam ser assistidas, individualmente e seus familiares,
em diferentes fases da vida, a fim de garantir proteção social ao longo da vida frente as
dificuldades relacionadas à deficiência e a fatores socioeconômicos que possam se somar. Para
o serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, em consonância com a Política
Nacional dede Assistência Social, a APAE de Limeira prevê intervenções que tenham como
finalidade promover autonomia, inclusão social e melhoria da qualidade de vida. Diante das
desigualdades sociais e econômicas enfrentadas por alguns jovens usuários, a equipe identificou
a necessidade de realizar atendimentos específicos para um grupo de usuários que se
encontravam em maior vulnerabilidade social. Este trabalho tem como objetivo relatar a
experiência da realização de atendimentos grupais com os usuários em maior risco psicossocial,
a partir da parceria entre assistente social e terapeuta ocupacional. Os grupos aconteceram de
outubro de 2019 a março de 2020, sendo realizados quatro encontros com a participação de um
número flutuante de jovens, variável entre 12 e 5 jovens. As temáticas abordadas fizeram parte
de eixos temáticos a partir de demandas levantadas pela equipe e pelos jovens: uso de álcool e
outras drogas; violência intrafamiliar; violência nas ruas; namoro e práticas sexuais; depressão
e tristeza; lazer; e trabalho. No decorrer do grupo, percebemos a construção de vínculos afetivos
com os usuários que fortaleceram as relações entre usuários e profissionais. Com as relações
fortalecidas, os usuários permitiram-se compartilhar experiências cotidianas que afetavam
humores, comportamentos e condutas, dentro e fora da organização. Foi possível compreender
melhor as dinâmicas familiares e acolher os jovens que estavam em processos de fragilização
e de ruptura familiares.
Palavras-chave: Deficiência Intelectual. Vulnerabilidade Social. Vínculo. Relações
Familiares. Prática Profissional.
21
1-INTRODUÇÃO
parceria pela terapeuta ocupacional e pela assistente social, com usuários que apresentavam
demandas de vulnerabilidade e risco social.
2- METODOLOGIA
O grupo para os usuários em risco social, inicialmente, era composto por 12 jovens
participantes, com diagnóstico deficiência intelectual leve ou moderada, inseridos em uma das
etapas do Programa de Profissionalização, com idades entre 15 e 22 anos, sendo cinco mulheres,
seis homens e um jovem cuja identidade de gênero estava questionada. Do total de jovens, seis
estavam inseridos nos atendimentos da Proteção Social Especial de Média Complexidade.
Em um segundo momento, após alguns desligamentos de usuários por causas diversas
(inserção no mercado de trabalho; desinteresse em continuar no programa; desinteresse em
continuar no grupo), passamos a atender 11 jovens, sendo seis homens 2 e cinco mulheres. Neste
momento, avaliamos que algumas questões precisariam de uma atenção mais específica, e
optamos por separar o grupo em dois, de acordo com a identidade de gênero. Do total de jovens,
apenas três estavam inseridos na Proteção Especial.
Esses usuários foram indicados e selecionados durante discussões em reunião de equipe
a partir da identificação de comportamentos, condutas e hábitos compreendidos como de risco.
A participação no grupo foi sugerida, porém não obrigatória, compreendendo que o espaço
deveria promover autonomia, liberdade de expressão, empoderamento e emancipação dos
jovens, a partir da participação ativa e da construção colaborativa das discussões e das
dinâmicas propostas.
Entre os fatores que influenciaram a seleção dos jovens podemos elencar: (i) uso de álcool
e outras drogas; (ii) presença de conflito ou violência intrafamiliar; (iii) fragilização dos
vínculos familiares (iv) comportamento violento com colegas e profissionais dentro da
instituição; (v) práticas sexuais com um ou vários parceiros sem proteção; (vi) desinteresse e/ou
desmotivação expressiva para com as atividades na instituição; (vii) desinteresse e/ou
desmotivação para a inserção no trabalho; (viii) vulnerabilidade econômica da família. Os
usuários selecionados poderiam apresentar um ou vários destes fatores.
Os encontros foram realizados entre outubro de 2019 e março de 2020. Estavam previstos
para acontecer quinzenalmente, às sextas-feiras, com 1 hora e 30 minutos de duração.
2
Neste momento, o jovem que anteriormente tinha a identidade de gênero questionada, assumiu a identidade para
o gênero masculino, e foi inserido junto com os outros homens do grupo.
23
3- RESULTADOS E DISCUSSÕES
Nesta seção, apresentaremos os resultados mais relevantes para cada um dos encontros.
Para isso, dividiremos a seção em quatro partes: (1) Primeiro encontro: vínculos, confiança,
liberdade e diversão; (2) Resolução de problemas e trabalho colaborativo; (3) Caixa de histórias
e sentimentos; e (4) Estradas da vida: dificuldades e facilitadores.
O primeiro encontro teve a participação de oito dos 12 usuários selecionados. Os que não
participaram, não haviam comparecido à instituição durante todo dia para nenhuma atividade.
Preparamos dinâmicas de jogos e brincadeiras que pudessem atuar como “quebra-gelo” e
fossem facilitadores na criação de vínculos.
Iniciamos as atividades na Sala de Expressão Corporal, um espaço que fica
geograficamente mais afastado do prédio onde eles realizam as outras atividades e, por isso,
oferece maior sensação de conforto e segurança para que questões pessoais possam ser
compartilhadas.
Além disso, o espaço conta com uma estrutura bastante diferente das salas de aula e das
salas de oficinas formativas, sendo uma sala ampla, com colchonetes, tatames, caixa de som,
espelhos grandes em uma das paredes, e outros materiais para práticas artísticas corporais.
24
Proporcionando um espaço bastante diferente do que o que eles estão acostumados no cotidiano
da instituição.
Começamos propondo uma brincadeira musical de apresentação para a qual, inicialmente,
eles apresentaram resistências. À medida que a terapeuta ocupacional e a assistente social
começaram a brincar, o grupo achou graça, e pouco a pouco, alguns começaram a participar.
O grupo funcionou enquanto uma caixa de ressonância 3: nossas ações afetaram os jovens
um a um, e uns afetaram aos outros, até que quase todos estavam participando da dinâmica. Um
dos jovens, embora não tivesse se recusado a participar do encontro, preferiu ficar no canto e
não participar ativamente. Em alguns momentos, ele fingia ir dormir, deitava de bruços com o
rosto escondido entre os braços, e nos espiava vez ou outra com um olho só.
Conforme os jovens foram se soltando, a sala, apesar de ampla, começou a ficar pequena
demais para o grupo. Por sugestão dos próprios jovens, nos dirigimos para a área externa da
instituição e sugerimos um jogo de “pega-pega” colaborativo. Vendo a agitação e divertimento
dos colegas, o jovem que não havia participado de nenhum jogo até então, se juntou ao grupo
para o “pega-pega”.
Ao final das dinâmicas, reunimos o grupo para conversar rapidamente e obter um retorno
sobre encontro. Percebemos que a postura deles, com relação a nós, profissionais, já havia
mudado. Eles apresentavam uma postura mais leve e mais aberta para o diálogo.
Alguns jovens apontaram que gostaram de participar de um encontro mais descontraído
e sem obrigações, no qual eles puderam falar sobre qualquer assunto sem serem julgados, e
puderam se divertir. Outros apontaram a importância de trabalhar coletivamente e com respeito
pelos colegas para conseguir completar cada dinâmica, e concluíram, sozinhos, que a
colaboração e o respeito mútuo era positivo para todos do grupo.
3
O conceito de “caixa de ressonância” é trabalhado por Maximino (1997) para refletir sobre o impacto de
intervenções terapêuticas ocupacionais grupais. O efeito “caixa de ressonância” acontece quando a ação de um
membro do grupo influencia as ações dos outros. Aqui, usamos para nos referir a esse momento em que nossas
ações afetam um jovem, que afeta outro, até que todos estejam harmonicamente desenvolvendo a atividade.
25
Percebemos, neste encontro, que os jovens iniciaram o encontro mais disponíveis para a
realização das atividades propostas, e houve pouca resistência para a realização das atividades.
A dinâmica central preparada para o dia envolvia a resolução de um problema, o qual só poderia
ser solucionado se houvesse a colaboração de todo o grupo.
Em fila, em pé, cada um sobre um pedaço de papel, eles precisavam se imaginar enquanto
um navio. A frente deles, um espaço vazio que precisaria ser atravessado por todo o grupo, até
a plataforma, representada por um tatame. Os papéis não podiam ser arrastados para frente com
os pés e quem caísse para fora do seu papel, estaria eliminado do jogo. Essas foram as únicas
regras dadas a eles.
Para resolver os problemas, o último da fila deveria dividir o espaço do papel com o
participante a sua frente, pegar o seu papel e passar de mão em mão, até chegar ao primeiro da
fila, que deveria colocar o papel no chão, a sua frente. Estando o papel livre à sua frente, ele
deveria pular para o espaço livre, e todos da fila deveriam acompanhar esse movimento. Essa
tarefa precisaria ser repetida até que todos pudessem atravessar a ponte.
Todos se empenharam apresentando ideias para solução do problema, e com a ajuda das
profissionais, eles conseguiram se articular para completar a dinâmica. Quando estavam no
meio do caminho para chegar ao final, um dos jovens desistiu, e saiu. Com ele, outros dois
jovens também desistiram (efeito caixa de ressonância).
Os outros quatro, optaram por ir até o fim da dinâmica, e no final, sentamos em roda para
conversar. Os jovens que finalizaram a atividade, demonstravam um misto de contentamento,
por terem concluído a tarefa, e descontentamento, por não terem tido a colaboração dos colegas
desistentes.
Essas constatações, feitas pelos próprios jovens, ajudou na construção de um diálogo mais
horizontal, à medida que as profissionais se colocaram como mediadoras da situação, sem
assumir uma posição hierárquica para cobrar a participação deles.
Assim, os jovens puderam argumentar e defender seus pontos de vistas, tanto os que
finalizaram, quanto os que desistiram. Eles puderam partilhar sentimentos frente aos
enfrentamentos de desafios, e associar com situações cotidianas.
Por fim, o encontro gerou aproximação e empatia entre os usuários, que compreenderam
as dificuldades individuais de cada um, bem como o reconhecimento das potencialidades
individuais. Reconhecendo, inclusive, as ajudas verbais que um dos participantes desistentes
dava mesmo já estando de fora da brincadeira.
26
O nível de reflexão e abertura para o diálogo já estava bem maior entre os jovens e as
profissionais, e isso possibilitou que eles começassem a trazer experiências mais pessoais da
vida cotidiana fora da instituição, demonstrando que as dinâmicas e a condução do grupo mais
horizontal contribuem para aproximação, vinculação e confiança dos usuários.
As reflexões trazidas por eles mostraram que a realização de dinâmicas para
representação concreta de algumas situações, contribui para a compreensão das discussões,
principalmente para aqueles que têm maiores dificuldades de abstração.
Tendo percebido uma maior abertura com os usuários, para o terceiro encontro
programamos uma dinâmica mais reflexiva que trouxesse a luz as vivências cotidianas.
Selecionamos palavras-chaves e imagens que pudessem ser disparadores de discussões. As
palavras foram: cuidado; casa; violência; diversão; família; briga; rua; e amigos. E as imagens
foram: um emoji representando choro; uma foto de jovens em roda numa praça; um desenho de
uma mulher com um coração partido; um grupo de jovens fazendo poses e no fundo uma favela;
um desenho de um par de mãos segurando um coração; o desenho de uma casa; e o desenho de
um homem agredindo uma mulher. As imagens foram impressas e colocadas dentro de uma
caixa, a caixa possuía uma abertura circular em uma das laterais.
Sentados em roda, o grupo ia passando a caixa, de um por um, e sorteando um papel. A
partir da imagem ou palavra sorteada, cada jovem poderia compartilhar e comentar uma
situação vivida que relacionasse com o símbolo. Os outros poderiam comentar e compartilhar
com outras experiências.
A partir da figura da casa, por exemplo, foi o que mais gerou compartilhamentos e
discussões entre os usuários. Todos os presentes residem na casa de familiares (mãe, pai,
irmãos, tios, avós, etc), e foi apontado como um sonho comum entre eles alcançar a
independência financeira, constituir uma família e ter a própria casa. A partir desses
compartilhamentos, pudemos discutir quais fatores influenciavam para que eles quisessem sair
de suas atuais residências, quais fatores poderiam auxiliá-los nesse processo de saída, entre
outras questões que foram levantadas.
Outra imagem bastante discutida foi a fotografia de jovens reunidos na praça, que gerou
reconhecimento e pertencimento com a maioria dos presentes. Para os jovens do grupo, passar
um tempo com os amigos na praça é uma forma comum de lazer. Ao mesmo tempo que a
27
imagem da praça trouxe bastante experiências e sentimentos positivos, eles também trouxeram
essa atividade cotidiana como uma atividade de risco.
A partir dessa constatação feita por eles, pudemos conversar de forma aberta, a partir da
perspectiva da Redução de Danos 4, sobre os usos prejudiciais e de lazer, principalmente, da
maconha e do álcool, as duas substâncias mais usadas entre o grupo. Muitos deles referiram o
uso da maconha como estratégias para enfrentar as dificuldades em casa, para enfrentar os
momentos de tristezas e mágoas não suportáveis, como forma de busca de momentos de
felicidade e diversão, mesmo sabendo que essas buscas e enfrentamentos serão momentâneos.
Em debates como esse, pudemos perceber a importância de que este espaço seja seguro e
de acolhimento, e não de punição. Em outros espaços, esses usuários não se sentiriam livres,
confortáveis e confiantes para falar abertamente sobre assuntos tão delicados. Tendo essa
abertura, pudemos acolher as demandas e as angústias, e orientá-los frente a situações de risco,
mas sem desconsiderar as necessidades básicas e os sofrimentos reais pelos quais eles passam.
Por demandas da instituição, este foi o último encontro do ano de 2019 que conseguimos
realizar com o grupo.
Este último encontro aconteceu no início de março de 2020, no processo de retomada das
atividades da instituição e o grupo teve algumas mudanças. Optamos por dividi-los em dois
subgrupos, a partir da identidade de gênero, para que pudéssemos aprofundar as discussões a
partir das temáticas da violência e da sexualidade. Inclusive, para dar conta de demandas
trazidas pelos usuários em atendimentos individuais com as profissionais.
O planejamento para o semestre era realizar encontros semanais alternados, uma semana
com as meninas e outra semana com os meninos, e o foco do trabalho seria pensar em
planejamentos e projetos de vida. Em decorrência da pandemia pela COVID-19, apenas o
primeiro encontro com o grupo de meninos aconteceu, sendo que de cinco, quatro
compareceram. Destes, três já faziam parte do grupo no ano anterior, e percebemos que, apesar
do intervalo das férias, o vínculo com eles se manteve, produzindo confiança até mesmo para
o recém-chegado no grupo.
A dinâmica para este encontro chamava-se “Estradas”, e compreendia um cartaz, em
tamanho A2, que no centro havia a descrição “eu”, e a partir desta descrição, saíam caminhos.
Alguns caminhos não chegavam em lugar nenhum na representação na folha, e outros
4
Referente a Política Pública de Redução de Danos para usuários de álcool e outras drogas.
28
4- CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
RESUMO
O presente ensaio aqui elucidado vem traçar uma breve trajetória das legislações que regem a
Política de Assistência Social materializada por meio dos serviços, programa e projetos,
sobretudo, aqueles realizados pelas 305 APAEs do Estado de São Paulo às pessoas com
deficiência e suas famílias. Objetivando compreender as ações executadas pelas instituições, se
faz necessário percorrer um processo histórico/social da defesa dos direitos das pessoas com
deficiência especialmente frente à Política de Assistência Social. Desse modo, visando tal
elucidação, o artigo fomentará através do estudo em normativas, bibliografias e dados coletados
na pesquisa – denominada Censo do Movimento Apaeano, realizada pela Federação das APAEs
do Estado de São Paulo – Feapaes/SP no recorte temporal de 2018 à 2019. Destarte, o presente
estudo almeja contribuir para futuras pesquisas e discussões que enfatizam o tema aqui
elucidado.
Palavras-Chave: Assistência Social. APAEs. Pessoas com deficiência e suas famílias.
1-INTRODUÇÃO
“Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la!”
(Bertolt Brecht)
A luta em prol dos direitos das pessoas com deficiência se deu forma participativa por
meio dos movimentos sociais frente aos órgãos do governo, o que contribuiu para a
promulgação de normativas tais como, a Constituição Federal de 1988 que enfatiza direitos
constitucionais específicos no âmbito do trabalho, saúde, assistência social, previdência social,
educação, acessibilidade arquitetônica e transporte; a Lei nº 7.853/1989; Decreto nº 32398/1999
– que institui a Política Nacional de Integração da pessoa com deficiência; Decreto nº
5.296/2004 que regulamenta leis de acessibilidade e prioridade de atendimento; a Convenção
dos Direitos das pessoas com deficiência da ONU (2006) e Lei Brasileira de Inclusão (LBI- Lei
nº 13.146/2015).
Assim no mesmo processo histórico de luta, a Política de Assistência Social reconhecida
como política de direito com promulgação da Carta Magna, teve sua materialização em suas
32
Deste modo, para a execução dos serviços tipificados pela Política de Assistência Social,
temos a NOB-RH, NOB-RH/SUAS, e em junho de 2011, o Conselho Nacional de Assistência
Social – CNAS promulgou ainda a Resolução nº 17 e a Resolução 9 de 2014 que definem e
reconhecem os profissionais de nível superior, médio e fundamental para atender as
especificidades dos serviços socioassistenciais e das funções essenciais de gestão do Sistema
Único de Assistência Social – SUAS.
Sendo assim, conforme as normativas, o SUAS fundamenta-se com principais
pressupostos a territorialidade, a descentralização e a intersetorialidade, prevê ainda um sistema
unificado com partilha de responsabilidades entre os entes federados e as instâncias do sistema
de informação, monitoramento e avaliação, além de preconizar uma lógica orçamentária que
garante cofinanciamento com repasse automático de recursos fundo a fundo, objetivando desse
modo, a garantia socioassistencial aos usuários da política.
5
A nova redação da Lei Orgânica de Assistência Social, Lei nº 12.435 de 2011, considera entidades e organizações
de Assistência Social aquelas sem fins lucrativos que, isolada ou cumulativamente, prestam atendimento e
assessoramento aos beneficiários abrangidos por esta Lei, bem como as que atuam na defesa e garantia de direito
(BRASIL, 2011, p.9).
34
Assim, conforme as normativas que regem os princípios para a atuação das instituições
conforme a Resolução do CNAS nº 27/2011, a Feapaes/SP realiza atividades em defesa dos
direitos das pessoas com deficiência e o assessoramento as 305 APAEs a qual representa, tendo
como respaldo legal para a execução de suas ações, a Política Nacional da Assistência Social
(PNAS) nº 8.742/93, Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), Sistema Único da Assistência
Social (SUAS) redigido pela Lei nº 12.435/2011, Certificado das Entidades de Assistência
Social (CEBAS) Lei nº 12.101/2009, Resolução nº 27/2011 (CNAS), Resolução nº 34/2011, a
Lei nº 13.146 /2015, que instituiu a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI)
e demais legislações pertinentes que contribua para o fortalecimento dos serviços e
consequentemente para a garantia e luta dos direitos das pessoas com deficiência.
Destarte, uma de suas atividades realizadas as 305 APAES é o Programa APAE
Excelência 7 que objetiva em seu segundo Ciclo, estruturado em três etapas, sendo elas, o
7
O Programa APAE Excelência em seu primeiro Ciclo teve como metodologia de trabalho, primeiramente, a
aplicação do Checklist nas áreas da Assistência Social, Educação, Gestão e Saúde no período de 2012 a 2014; em
sua segunda etapa, 2014, foram realizadas as Orientações Técnicas nas quatro áreas de atuação das APAEs; em
seu terceiro momento, 2016, foram realizados 22 Whorkshops nos 22 Conselhos Regionais do estado, trabalhando
ainda com as 305 instituições filiadas o Relatório de Implantação de Melhorias (RIM); e em sua quarta etapa,
iniciada em 2017, pautou-se por visitas in loco de assessoramento da Equipe da Qualidade. O Programa tem como
objetivo geral compreender a realidade de atuação das 305 APAE e assim buscar estratégias de trabalho para a
melhoria continua dos serviços executados para as pessoas com deficiência e suas famílias. (Relatório de
Atividades – Feapaes/SP, 2018, p. 10).
35
3.1- O panorama das APAEs do Estado de São Paulo: defesa e garantia de direitos das
pessoas com deficiência e suas famílias
É somente na compreensão da conjuntura social em que o sujeito está inserido, que há
possibilidade de um pensar da realidade como um todo, o que segundo Yolanda Guerra (2012)
36
“não se trata de qualquer prática, nem de qualquer teoria, mas daquela que encerra em seu
movimento a dimensão transformadora da realidade social”.
Considerando que para buscar alternativas de intervenção em uma determinada
realidade, se faz necessário a realização de pesquisa visando o aprofundamento do estudo e a
compreensão da dialética e conjuntura social, e somente a partir daí, que se poderá construir
conjuntamente com todos os atores sociais ações para o fortalecimento dos serviços executados
aos usuários da Política de Assistência Social.
Pensando nesta perspectiva, a Federação das APAEs do Estado de São Paulo construiu
conjuntamente com os profissionais da equipe da qualidade 8 e coordenadores estaduais 9, um
questionário denominado “Censo do Movimento Apaeano”, por área de atuação sendo elas,
assistência social, educação, gestão e saúde, objetivando dessa forma visualizar os serviços
executados pelas 305 APAEs do Estado.
Destarte, a metodologia utilizada para a realização da pesquisa foi à formulação do
questionário; o registro do Censo no sistema da Feapaes (acesso restrito da APAE) 10; envio do
formulário (Censo) em PDF para as 305 APAEs por e-mail; respostas registradas pelas APAEs
e quando houve a necessidade de orientações de como proceder para o registro das respostas,
as APAEs entraram em contato com os técnicos da Federação que orientaram frente as
demandas solicitadas.
Assim, o presente ensaio irá destacar o censo da assistência social que teve como
respaldo para a sua formulação, as normativas que regem a Política, sendo elas, Tipificação
Nacional de Serviços Socioassistenciais - Resolução nº 109 de 2009 do CNAS; NOB/RH –
SUAS Resolução nº 269 de 2006; Resolução do CNAS nº 17/2011 que ratifica a equipe de
referência definida pela NOB-RH/SUAS (profissionais de nível superior); Resolução nº 9 de
2014 do CNAS que ratifica e reconhece as ocupações (profissionais do ensino médio e
fundamental).
Portanto, o questionário pautou-se em questões como, a equipe do serviço
socioassistencial da APAE; quantidade de usuários atendidos no Serviço da Proteção Social
Especial para pessoas com deficiência, idosas e suas famílias; ações/atividades realizadas,
Serviço da Proteção Social Especial – Alta Complexidade (Residência Inclusiva);
8
São profissionais que prestam assessoramento nas áreas de atuação da assistência social, educação, gestão e
saúde.
9
São representantes de profissionais que atuam nas APAEs, sendo na área da assistência social as seguintes
coordenações: Assistência Social, Autogestão e Autodefensoria, Defesa e Mobilização de Direitos e família.
10
A Federação das APAEs do Estado de São Paulo, possui um sistema específico para acesso das APAEs para
solicitarem assessoramento, consultas em materiais de apoio (documentos) e pesquisas do Movimento Apaeano.
37
11
É válido destacar que na Tipificação Nacional de Serviços Socioassistencia – Resolução nº 109 de 2009,
sobretudo no Serviço da Proteção Social Especial para pessoas com deficiência, idosas e suas famílias não está
estabelecido à faixa etária das/os usuárias/os. Entretanto, considerando o processo histórico de caracterização do
serviço da assistência social e a definição da Secretaria Estadual de Assistência Social de 2016, ainda utilizamos
“acima de 30 anos”. Contudo, tal dado, é necessário para o fortalecimento de pesquisa e debates relacionados ao
processo de envelhecimento da pessoa com deficiência. (grifo meu).
12
O Programa de Autogestão e Autodefensoria ocorre por meio da representatividade de usuárias/os das APAEs
que eleitos conforme o Estatuto Padrão representa as/os demais usuárias/os. A participação social dos
autodefensores também está em consonância com a Política de Assistência Social, sobretudo, a PNAS
13
Serviço para a oferta de atendimento especializado a famílias com pessoas com deficiência e idosos com algum
grau de dependência, que tiveram suas limitações agravadas por violações de direitos, tais como: exploração da
imagem, isolamento, confinamento, atitudes discriminatórias e preconceituosas no seio da família, falta de
38
cuidados adequados por parte do cuidador, alto grau de estresse do cuidador, desvalorização da
potencialidade/capacidade da pessoa, dentre outras que agravam a dependência e comprometem o
desenvolvimento da autonomia. O serviço tem a finalidade de promover a autonomia, a inclusão social e a melhoria
da qualidade de vida das pessoas participantes. Deve contar com equipe específica e habilitada para a prestação de
serviços especializados a pessoas em situação de dependência que requeiram cuidados permanentes ou
temporários. A ação da equipe será sempre pautada no reconhecimento do potencial da família e do cuidador, na
aceitação e valorização da diversidade e na redução da sobrecarga do cuidador, decorrente da prestação de cuidados
diários prolongados. (JACCOUD, 2013, p.37).
39
Outro dado relevante enfatizado pelo Censo foi à participação social das/os usuários por
meio do Programa de Autogestão e Autodefensoria que tem a finalidade de contribuir na defesa
e garantia dos direitos das pessoas com deficiência, favorecendo o desenvolvimento social do
sujeito coletivo, e assim, proporcionar a pessoa com deficiência condições de luta seus direitos,
atuando no convívio familiar, escolar e comunitário. Assim, das 282 APAEs que responderam
à pesquisa, 197 possuem o Programa da Autodefensoria.
Destarte, a Política de Assistência Social por meio da materialização de seus princípios
por meio dos serviços, projetos, programas e da participação ativa das/os usuárias/os vem
buscando romper com os preconceitos, assistencialismos e estereótipos envoltos ao público
atendido pela política, e assim parafraseando Karl Marx “Ser radical é agarrar as coisas pela
raiz, e a raiz para o homem é próprio homem.”.
Destarte, pode-se considerar que os serviços executados pelas APAEs do Estado vêm
buscando estratégias para o fortalecimento das ações feitas e a defesa e garantia dos direitos das
pessoas com deficiência e suas famílias.
4-CONSIDERAÇÕES FINAIS
Vemos que a luta em prol dos direitos das pessoas com deficiência teve muitos avanços,
contudo, ainda há um longo caminho a percorrer para de fato haja a garantia dos direitos sociais
destes sujeitos coletivos, sejam eles realizados pela Política de Assistência Social por meio da
execução de seus serviços, projetos e programas.
Assim, o presente ensaio ora aqui elucidado, veio descrever um breve panorama da
caracterização dos serviços executados pelas 305 APAEs do Estado de São Paulo, além de
fomentar a relevância de pesquisas envoltas ao tema da pessoa com deficiência e do Sistema
Único de Assistência Social.
Destarte, os dados do Censo do Movimento Apaeano ressaltaram que as APAEs por
meio da execução dos serviços conforme as normativas da Política de Assistência Social,
trabalham na perspectiva de defesa de atendimento e serviços para as pessoas com deficiência,
buscando viabilizar o desenvolvimento de suas habilidades com autonomia e oportunizar a sua
participação social perante a sociedade.
40
REFERÊNCIAS
EIXO TEMÁTICO
RESUMO
A deficiência intelectual (D.I) possui etiologia múltipla, ou seja, não depende unicamente de
um fator, podendo ser causada por questões genéticas, ambientais e perinatais, sendo definida
como uma dificuldade nas funções adaptativas como leitura, escrita, raciocínio lógico e
matemático. Em pesquisa realizada no Brasil 0,9% da população até 14 anos apresentam algum
tipo de deficiência intelectual. De acordo com a legislação brasileira é dever do Estado, da
família e da sociedade como um todo, a oferta de um ensino qualificado, inclusivo e acessível
à todas as pessoas com deficiência. A abordagem educacional deve priorizar atender as
especificidades e potencialidades do aluno. Com o objetivo de refletir em como a neurociência
pode colaborar para o processo de inclusão escolar de tais pessoas, esse artigo se deu por meio
de uma pesquisa sistemática da literatura recente a fim de observar um panorama geral sobre o
tema. Conclui-se que apesar de muito abordado, o tema “inclusão escolar da pessoa com
deficiência intelectual” ainda é pouco explorada pelos cursos de formação de educadores, que
não possuem, em sua grande parte, em sua grade curricular disciplinas voltadas para as
diferenças individuais e como maneja-las, como, por exemplo a “neurociência”, sabendo-se que
tal matéria traz consigo o entendimento de que é possível, não somente entender o processo de
aprendizagem, como também acessar todos os indivíduos, de acordo com suas potencialidades
e especificidades, e que a partir do momento em que temos um espaço em que podemos refletir
sobre as deficiências, desenvolvemos maior capacidade de construir uma educação que seja tão
inclusiva dentro das escolas quanto é na legislação.
1-INTRODUÇÃO
3-FORMAÇÃO ACADÊMICA
professor – cabe a este desenvolver atividades ricas em estímulos, promovendo assim a ativação
de novas sinapses no educando, modificando química, anatômica e fisiologicamente o cérebro
(CUNHA, 2015; MORA 2004 apud. CARVALHO, 2011), sendo a responsabilidade pelo
desenvolvimento cognitivo da pessoa com deficiência, não só o profissional da saúde (como
médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais), como também o professor
(SOUZA E GOMES, 2015).
Segundo Carvalho (2011) é papel inerente ao educador buscar constantemente novas
técnicas para ajudar a desenvolver no aluno a capacidade de inteligência, em detrimento de uma
simples memorização. Tal modelo, focado unicamente na memorização mecânica de conteúdo,
segundo Carvalho e Vilas-Boas (2016), está defasada, visto ser a educação uma ciência que
precisa sempre se reciclar a fim de acompanhar o desenvolvimento humano e econômico do
país – se antes a educação formava operários, hoje é necessária uma mudança de paradigma
onde se leve em conta os avanços tecnológicos e de comunicação.
Para isso, é necessário a inclusão na base curricular comum as chamadas softs skills,
onde também estão inseridas disciplinas como foco nas habilidades naturais individuais,
comunicação, criatividade entre outras (HECKMAN; KAUTZ, 2012 apud. CARVALHO E
VILAS-BOAS, 2016), ou seja, uma nova reconfiguração pedagógica que, estimulando as
potencialidades de cada aluno, melhorará seu desemprenho individual, resultando em uma
maior inclusão na sociedade como um todo (CARVALHO, 2011).
A formação docente deve, portanto, ser consolidada em diferentes bases teóricas,
focando seu caráter interdisciplinar (DEMO, 2005 apud. CARVALHO, 2015) inclusive da
neurociência, que dá ao educador a oportunidade de conhecer os processos cerebrais que
resultam, tanto na aprendizagem em si como também na motivação para a mesma.
Pensando nos benefícios de se pensar a neurociência atrelada a educação, a Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, 2008) desenvolveu o Centro para
Pesquisa em Educação e Inovação para se discutir novas políticas de educação ligada aos
estudos neurológicos.
Visto todo o explanado acima, entende-se a neurociência como a possibilidade de atrelar
a ciência para melhor compreensão do processo de aprendizagem, sendo uma oportunidade de
acessar os mais diferentes tipos de alunos, independentemente de suas especificidades, se
aprofundando cada vez mais em suas capacidades (CARVALHO, 2015), tirando assim o foco
em processos avaliativos e diagnósticos normativos, que tendem a um olhar rígido sobre as
diferenças individuais.
46
4-NEUROCIÊNCIA
com os demais sistemas dos quais se relaciona, sendo constantemente exercitadas a medida com
que se trabalha com elas. (CUNHA, 2015; CARVALHO, 2011).
Como aponta Grossi (2015):
Então, o processo de aprendizagem é realizado por meio da
estimulação das conexões neurais que são responsáveis pelo
desenvolvimento e a reorganização da estrutura cerebral,
resultando em novos comportamentos que podem ser
fortalecidos quando ocorre uma efetiva intervenção pedagógica.
Grossi, 2015, p. 125.
Porém, como ressalta Cunha (2015) para que o professor faça uso de técnicas de
estimulação cognitiva, o mesmo precisa ter um conhecido a priori sobre neurociência.
5-OBJETIVOS
6-METODOLOGIA
7-CONSIDERAÇÕES FINAIS
Podemos concluir da leitura do presente artigo que o estudo sobre deficiência intelectual
é amplo, pois, ao acometer o indivíduo em diferentes graus também o limita em diferentes
esferas da vida, especialmente da vida social e acadêmica. Sabe-se que, independente do grau
de limitação, tais pessoas possuem direitos que devem ser defendidos tanto pelo Estado quanto
pelas famílias e pela sociedade como um todo.
Dentre tais direitos está o de uma educação acessível, qualificada e inclusiva que tem
por objetivo acessar um desenvolvimento pleno de talentos e habilidades a fim de que sua
funcionalidade seja cada vez mais estimulada, sendo possível a pessoa se tornar um protagonista
social, ou seja, se tornar alguém ativo na sociedade, mesmo com todas suas limitações.
48
fim de capacitar o professor como um mediador, de fato, entre seus alunos e o mundo que os
cerca.
A partir do momento em que temos um espaço em que podemos discutir e refletir sobre
as diferenças temos mais aportes para lidar com as deficiências na prática, para criar novas
formas de fazer uma educação que seja tão inclusiva dentro das escolas quanto é na legislação.
REFERÊNCIAS
CARVALHO, Maria Raquel S., MARTINS, Aline Aparecida Silva, SALAZAR, Gabriela,
HAASE, Vitor Geraldi. Genética e genômica da deficiência intelectual. In SALLES, Jerusa
Fumagalli., HAASE, Vitor Geraldi., MALLOY-DINIZ, Leandro F. (Orgs.) Neuropsicologia
do desenvolvimento: infância e adolescência. Porto Alegre: Artmed, 2016.
GROSSI, Márcia Goretti Ribeiro, LOPES, Aline Moraes; COUTO, Pablo Alves.
Neurociência na formação de professores: um estudo da realidade brasileira. Revista da
FAEEBA: Educação e Contemporaneidade, Salvador, 2014.
50
HECKMAN, James Heckman; KAUTZ, Tim. Hard evidence on soft skills. Labour
Economics, 2012.
SOUZA, Marlene Cabral de; GOMES, Claudia. Neurociência e o déficit intelectual: aportes
para a ação pedagógica. Rev. Psicopedagogia, 2015.
51
CAVALIERI, Cibele
Pedagoga
Especialização em Educação Especial – Deficiência Intelectual Atendimento Educacional
Especializado – AEE
[email protected]
RESUMO
Este trabalho abordará um pouco sobre a pessoa com Síndrome de Down, sua história, sua
causa, suas características, deficiência intelectual, a importância dos jogos, brinquedos e
brincadeiras e a valorização do lúdico como estratégia de ensino, a partir da qual podemos
selecionar jogos, brinquedos e brincadeiras que desenvolvem a ludicidade e seja um facilitador
da aprendizagem para essas crianças. A pergunta seria: Como utilizar estratégias lúdicas no
processo educacional de alunos com Síndrome de Down? Tendo como objetivo refletir, formas
e estratégias de se trabalhar com crianças com Síndrome de Down, valorizando por meio do
lúdico as diversas formas de se trabalhar com jogos, brinquedos e brincadeiras. A metodologia
utilizada é a revisão de literatura cotejando-a com a análise de minha experiência como
professora na APAE de Pederneiras-SP. O problema que guiou essa pesquisa foi se seria
possível, aproveitar os ensinamentos oferecidos pela possibilidade lúdica no processo
educacional de alunos com Síndrome de Down, seja na APAE ou na escola regular. Assim,
esta é uma pesquisa bibliográfica, na qual foi realizada leituras dos temas relacionados ao
lúdico, ao brincar e, especialmente, ao tema da Síndrome de Down. Nos dias atuais fala-se
muito em inclusão como possibilidade de modificar a sociedade, na qual pessoas com
deficiências possam buscar seus desenvolvimentos e exercer sua cidadania. A utilização dos
jogos, brinquedos e brincadeiras é de fundamental importância para o desenvolvimento e
participação prazerosa no trabalho de estimulação, apesar da criança com Síndrome de Down
brincar como uma criança sem deficiência, ela tende a ser menos manipulativa e explorativa,
devido a ter menor habilidade motora. Poderemos ver também o papel do professor e da família
junto do aluno com Síndrome de Down. Para que a criança com Síndrome de Down se
desenvolva adequadamente ela necessita o máximo possível de estimulo, seja eles, cognitivo,
afetivo, emocional, para isso ela necessita do apoio familiar, equipe escolar e dos atendimentos
especializados.
1-INTRODUÇÃO
O interesse pelo tema “A importância de estratégias lúdicas no processo educacional de
crianças com Síndrome de Down”, é fruto do trabalho que venho desenvolvendo desde 2005
52
como professora na Escola Educação Especial “Orlando Silva” APAE 14 Pederneiras – SP com
alunos com deficiência seja ela, “Deficiências Múltiplas”, “Deficiência Intelectual” e
“Síndrome de Down”, pois, é uma área que gosto muito e tenho muita curiosidade em buscar
aprender cada dia mais.
A Síndrome de Down é causada por um acidente genético que provoca um atraso no
desenvolvimento global da criança. Apesar de ter sido diagnosticado há mais de um século,
somente nas últimas décadas houve um avanço significativo em suas pesquisas. A observação
de pessoas com essa síndrome permitiu constatar grande dificuldade no desenvolvimento
motor, físico, cognitivo e sócio afetivo, muitas vezes esses indivíduos possuem cardiopatias
congênitas e inúmeros problemas relacionados a sua estrutura corporal, sendo proveniente do
cromossomo 21, ou seja, Trissomia 21 (PUESCHEL, apud SILVA JUNIOR et al, 2007).
Ao brincar, a criança é autora de suas ações, elas se tornam ativas e criativas, ou seja, a
criança demonstra seus interesses e necessidades. Para que isso ocorra, deve haver riqueza e
diversidade nas brincadeiras oferecidas a elas. Também é preciso que a criança tenha certa
independência para escolher seus companheiros e o papel a ser assumido durante a brincadeira
(BRINCAR. s.n.t). Sendo assim, em todo brincar, em toda brincadeira, está presente a dimensão
lúdica.
Nós professores devemos ser capazes de não só desenvolver atividades, mas
principalmente, tornar essas atividades lúdicas de forma que ela seja um meio de se estabelecer
relações e interações e aprendizagens entre alunos com e sem deficiência, ou seja, deve-se
buscar formas e estratégias para se trabalhar com crianças com síndrome se Down, valorizando
por meio do lúdico as diversas formas de se trabalhar com jogos, brinquedos e brincadeiras.
2- METODOLOGIA
Esta é uma pesquisa bibliográfica, na qual foi realizada muitas leituras em livros e sites
dos temas relacionados ao lúdico, ao brincar e, em especialmente, ao tema da criança com
Síndrome de Down, sendo utilizada a abordagem qualitativa.
O trabalho passou por várias etapas de pesquisa, necessitando irem busca de várias
fontes. Foram retirados muitos artigos de revistas e sites e muita leitura de livros para que
pudesse obter as informações necessárias, além de algumas informações que já tinha
conhecimento por trabalhar com a educação especial, professora titular de sala de aula
multisseriada.
14
APAE: Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais
53
4- LUDICIDADE
Conforme estudos realizados, todo comportamento pertence a três domínios: cognitivo,
afetivo-social e motor. Do domínio cognitivo fazem parte as operações mentais, como a
descoberta ou reconhecimento de informações.
Ao brincar, a criança desperta comportamentos de alegria, sorrisos, prazer, tornando-a
mais produtiva para o desenvolvimento, não apenas motor, mas integral das crianças, pois é
importante lembrar que embora os comportamentos humanos são divididos em três, eles não se
56
cultural, ou seja, ela é capaz de construir sua marca pessoal e sua personalidade (FALCÃO;
RAMOS, 2002).
Em minha prática de ensino com esses alunos não é diferente, eles interagem, vivem o
momento sempre tem uma nova descoberta. As vezes eles ficam bravos, se irritam quando não
conseguem realizar ou não sai conforme planejado por eles. As estratégias lúdicas têm trazido
grandes resultados para os alunos, pois, eles aprendem brincando, sendo esse fator de
fundamental importância para a aprendizagem e desenvolvimento desses alunos seja no aspecto
afetivo, motor ou social.
A criança ao brincar é autora de suas ações, elas se tornam ativas e criativas, ou seja, a
criança demonstra seus interesses e necessidades. Para que isso ocorra, deve haver riqueza e
diversidade nas brincadeiras oferecidas a elas. Também é preciso que a criança tenha certa
independência para escolher seus companheiros e o papel a ser assumido durante a brincadeira
(BRINCAR. s.n.t). Sendo assim, em todo brincar, em toda brincadeira, está presente a dimensão
lúdica
4.1- Importância dos jogos, brinquedos e brincadeiras para crianças com Síndrome de
Down.
O brincar além de ser essencial para o processo de ensino-aprendizagem, proporciona à
criança com deficiência, vivências positivas por ser significativo, já que, ligado à satisfação e
ao êxito, desperta sentimentos de autoestima, autoconhecimento, satisfação e êxito. Os
brinquedos utilizados na estimulação das crianças com Síndrome de Down devem ser
adequados as suas necessidades e ao seu nível de desenvolvimento, a fim de proporcionar
experiências positivas, fortalecendo assim, seu autoconceito (SANTOS; OLIVEIRA, s.d.).
Segundo Vygotsky (1989, apud FALCÃO; RAMOS, 2002) o brincar propicia o
desenvolvimento de aspectos específicos de personalidade, como:
a) afetividade: são utilizados brinquedos como bonecas e ursinhos que favorecem a
dramatização de situações da vida adulta, ou seja, a criança transmiti seus problemas afetivos;
b) motricidade: com a utilização de brincadeiras e utilização de brinquedos como bolas,
chocalhos, jogos de encaixe, é possível desenvolver a motricidade grossa e fina da criança;
c) inteligência: para o desenvolvimento do raciocínio lógico- abstrato utiliza-se de jogos
tipo quebra – cabeça, construção, estratégia etc;
d) sociabilidade: através dos brinquedos, a criança aprende a se comunicar, interagir e
situar-se entre as outras;
58
é comum à arte, ou seja, trata-se de uma atividade social, humana, que supõe contextos
sociais e culturais, a partir dos quais a criança recria a realidade através da utilização
de sistemas simbólicos próprios.
Portanto, o papel dos jogos e das brincadeiras é a construção dos processos psicológicos
da criança, ou seja, esses processos são constituídos em processos mediados em que a criança
deve ser orientada a resolver problemas de forma autônoma e se possível sem a ajuda de pessoas
mais experientes, para que esse indivíduo entre com contato com conceitos culturais mais
avançados, necessários para o processo de resolução de problemas e com isso adquira sua
própria autonomia.
5-CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao término da minha pesquisa pude concluir que a Síndrome de Down é apenas uma
diferença genética que as pessoas que a possui podem se desenvolver socialmente como
qualquer outra pessoa, desde que seja respeitada pela sua diferença e, com isso, seja estimulado
desde bebê com dedicação e responsabilidade.
Crianças com Síndrome de Down têm mais dificuldade para aprender a ler, escrever,
fazer operações matemáticas e demoram mais para andar e falar, ou seja, as pessoas acreditem
que eles também são sujeitos que possuem conhecimento e por isso, tem muito a nos ensinar.
Através dos estímulos recebidos, uma criança com Síndrome de Down poderá estudar
trabalhar e ter uma vida familiar. Contudo, não podemos desconsiderar suas limitações, como
se sabe ela se desenvolve mais lentamente, mas nada a impede de ter uma vida plena e um
convívio na sociedade, afinal, diferenças e limitações todos temos em algum aspecto de nossa
vida afetiva-emocional, cognitiva ou motora.
Desde a fase da estimulação, fase primeira na qual os bebês iniciam na instituição
APAE, o professor desenvolve esse papel na instituição. Desde então eu aprendo a cada dia,
não só com as crianças e colegas de trabalho.
Quando o professor utiliza do lúdico em suas aulas, ele torna um facilitador do
aprendizado, pois o lúdico assim como o ambiente é uma ferramenta importante para o
desenvolvimento da criança com Síndrome de Down.
Através da brincadeira e do lúdico, percebemos que pode-se obter resultados bastante
significativos no desenvolvimento das crianças com “SD”. O importante é encarar seu
desenvolvimento de forma global, mesmo que exista necessidade de diferentes especialistas na
APAE. Por sinal, esta é uma oportunidade de trabalharmos juntos, professores e crianças, assim
como ensina a ideia de interdisciplinaridade (BRASIL, 1998).
60
REFERÊNCIAS
BRINCAR, s.n.t.
FERNANDES, Lucimara
Pedagoga. Mestre em Educação Especial pelo Programa de Pós-Graduação em Educação
Especial da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar.
[email protected]
RESUMO
As políticas públicas nacionais direcionadas para a promoção da qualidade de vida das pessoas
com paralisia cerebral e deficiência intelectual, apontam a necessidade da atuação integrada de
profissionais da educação e saúde. Este relato de experiência tem como objetivo contribuir com
conhecimento sobre a importância da atuação entre profissionais da área da saúde e da educação
especial, no atendimento especializado de jovens e adultos. Foram atendidos, segundo o modelo
interdisciplinar, dezoito usuários com paralisia cerebral e deficiência intelectual, com idade
entre 22 a 50 anos, matriculados na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais do
município de São Carlos, interior do estado de São Paulo. Os encontros ocorreram nos períodos
de fevereiro a junho e de agosto a dezembro de 2019. A equipe técnica foi composta por
pedagogo, terapeuta ocupacional, psicólogo, assistente social, fonoaudiólogo, fisioterapeuta,
nutricionista e enfermeiro. Para o planejamento das atividades foram aplicados instrumentos
como o Sistema de Classificação da Função Motora Grossa (Gross Motor Function
Classification System - GMFCS) para verificar as limitações funcionais, a necessidade de
dispositivos manuais para mobilidade e qualidade do movimento; e a Classificação
Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) com o objetivo de descrever
aspectos da funcionalidade e fatores contextuais relacionados às condições de saúde do
atendido. Os procedimentos foram anotados pelo pedagogo em um caderno de registros. Com
base nas observações, foi possível constatar que a articulação entre os profissionais
proporcionou condições mais adequadas para a realização das atividades pedagógicas, as quais
contribuíram para o desenvolvimento das habilidades perceptivas, socioafetivas e funcionais
dos usuários.
63
1-INTRODUÇÃO
A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Carlos (APAE), estado de São
Paulo, foi fundada em 26 de maio de 1962. É uma entidade civil de caráter filantrópico, sem
fins lucrativos e que desenvolve projetos e prestação de serviço nas áreas da Assistência Social,
Educação e Saúde.
A proposta educacional volta-se para a possibilidade mais ampla de qualidade de vida,
bem-estar, o desenvolvimento e a formação básica do cidadão, a inclusão social, escolar e no
mercado de trabalho de seu público alvo através dos serviços oferecidos, sem qualquer ônus às
famílias ou responsáveis. Atende indivíduos com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor,
deficiência intelectual associada ou não a outras deficiências e com Transtorno do Espectro
Autista (TEA). A instituição adota como método base o Currículo Funcional e Natural, um
modelo centrado no indivíduo, com atenção a sua independência (LE BLANC, 1992).
Na área da saúde, os usuários com dezoito anos ou idade superior, diagnóstico de
paralisia cerebral e deficiência intelectual, são encaminhados para atendimento na Unidade de
Cuidados Diários (UCD).
A unidade preconiza o atendimento humanizado dos usuários com deficiência
intelectual e sensório-motora grave, associadas ao comprometimento ortopédico, respiratório,
disfagia, síndromes e anomalias congênitas importantes que requerem acompanhamento
interdisciplinar contínuo e reavaliações frequentes, constituindo-se o único serviço com estas
características na comunidade. Os profissionais do setor atuam de acordo com as Diretrizes do
Sistema Único de Saúde (SUS) que rege os princípios da universalidade, integralidade e
equidade (PAIM, 2009; MENDES, 2012).
Os usuários permanecem no serviço por um período de 4 a 8 horas diárias e participam
de atividades individualmente ou em grupo com o objetivo de promover habilidades cognitivas,
de autonomia pessoal, comunicativas, psicomotoras, sensoriais, perceptivas e socioafetivas.
Busca-se trabalhar aspectos que promovam a melhora da qualidade de vida e proporcionar
oportunidades de planejamento laboral e cuidados dos aspectos biopsicossociais aos familiares.
64
Segundo Lianza (2007) e o Ministério da Saúde (2014), a paralisia cerebral (PC) refere-
se as alterações na estrutura e na função do sistema neuromusculoesquelético ocasionadas por
lesões encefálicas não progressivas, em fase de maturação estrutural e funcional.
Além das disfunções motoras, os indivíduos com PC podem apresentar deficiência
cognitiva, crises convulsivas, dificuldades respiratórias, dificuldades da fala, disfagia,
alterações comportamentais, deficiências visuais, surdez, e por consequência, comprometem a
comunicação expressiva, receptiva e as habilidades de interação social, exploração do meio e a
realização de atividades de vida diária (ROSENBAUM et al., 2007; REBEL et al., 2010;
RETHLEFSEN, RYAN, KAY, 2010; ERASMU et al., 2012; MACLENNAN, THOMPSON,
GECZ, 2015).
Considerando que a saúde implica no estado de bem-estar físico, mental e social, além
da gravidade do quadro clínico dos usuários que recebem atendimento, torna-se fundamental
uma visão mais holística em que os profissionais devem ser capazes de organizar, planejar e
propor ações para aprimorar e nortear a conduta de acordo com a necessidade de cada indivíduo
(PAIM, 2009; RIBEIRO, ROCHA, RAMOS-JORGE, 2010).
2-OBJETIVO
3-SUJEITOS E MÉTODOS
Utilização de mobiliários
adaptados para promoção e
melhora do desempenho nas
atividades perceptivas e
psicomotoras.
Utilização e adaptação de
materiais nas atividades de
coordenação motora fina,
estimulação sensorial e
propriocepção.
67
4-RESULTADOS E DISCUSSÃO
foi desafiador, considerando que cada indivíduo é único com demandas e necessidades
diferentes.
As ações voltadas com olhar sobre os usuários em sua totalidade, implicou em mudanças
de atitudes e comportamentos da equipe técnica. O estabelecimento da articulação entre os
profissionais foi possível com a construção de um processo contínuo de adequação do trabalho,
sendo necessário fazer adaptações dos recursos disponíveis devido às limitações motoras e
cognitivas, e flexibilizar estratégias para atingir respostas mais satisfatórias.
Com base nas observações, as intervenções planejadas de forma interdisciplinar
proporcionaram maior envolvimento dos usuários durante os atendimentos, melhor adequação
postural, melhor interação nas atividades envolvendo habilidades perceptivas, funcionais e
socioafetivas, além da maior proximidade e colaboração entre os profissionais do setor.
Torna-se necessário estudos prospectivos com a perspectiva de atuação integrada
envolvendo o serviço da saúde e da educação, o emprego de entrevista semiestruturada para os
familiares e cuidadores com o objetivo de avaliar a qualidade de vida dos usuários, além de
estratificar a percepção dos profissionais envolvidos diretamente no atendimento dos mesmos.
Em relação ao aspecto motor, é importante ressaltar a utilização de um instrumento de avaliação
da função motora fina como o Sistema de Classificação da Habilidade Manual (Manual Ability
Classification System - MACS), com itens voltados ao manuseio de objetos em atividades
cotidianas, as necessidades de assistência e adaptações (ELIASSON et al., 2006).
5-CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir das observações durante os atendimentos in loco, é possível inferir que a pessoa
com paralisia cerebral e deficiência intelectual, jovem e adulta, se beneficia da intervenção
interdisciplinar, tanto nos aspectos envolvendo as habilidades perceptivas, socioafetivas e
funcionais como condições mais propícias para a realização das atividades pedagógicas em um
ambiente mais humanizado.
REFERÊNCIAS
ELIASSON AC, et al. The Manual Ability Classifi cation System (MACS) for children with
cerebral palsy: scale development and evidence of validity and reliability. Dev Med Child
Neurol 2006; 48(7): 549-54.
69
ERASMUS CE, et al. Clinical practice: swallowing problems in cerebral palsy. Eur J
Pediatr 2012; 171(3): 409-14.
MACLENNAN AH, Thompson SC, Gecz J. Cerebral palsy: Causes, pathways, and the role of
genetic variants. Am J Obstet Gynecol 2015; 213 (6):779-88.
NOVAK I, et al. A systematic review of interventions for children with cerebral palsy: state
of the evidence. Dev Med Child Neurol 2013; 55(10): 885-910.
PALISANO R, et al. Development and reliability of a system to classify gross motor function
in children with cerebral palsy. Dev Med Child Neurol 1997; 39(4): 214-23.
REBEL, MF, et al. Prognóstico motor e perspectivas atuais na paralisia cerebral. Rev Bras
Cresc Desenvolv Hum 2010; 2(20): 342-50.
RETHLEFSEN SA, Ryan DD, Kay RM. Classification systems in cerebral palsy. Orthoped
Clinic of Nort Amer, 2010; 41(4): 457-67.
ROSENBAUM P, et al. A report: The definition and classification of cerebral palsy. Dev
Med Child Neurol. 2007; 49 (2): 8-14.
70
RESUMO
Desde a sua publicação em 2008, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da
Educação Inclusiva tem sido um importante documento norteador da garantia do direito à
educação das pessoas com deficiência na escola regular. No entanto, importantes pesquisas
sobre a sua operacionalização na prática têm revelado um distanciamento entre suas diretrizes
e a realidade do cotidiano escolar. Uma parte desses desencontros tem relação com a forma
como as práticas avaliativas são concebidas neste espaço educacional, tornando-se, muitas
vezes em barreiras para a aprendizagem, sobretudo para os alunos com deficiência intelectual.
A busca pela aproximação das diretrizes inclusivas com as práticas nas salas de aula comum
estimulou diversas investigações na última década, com destaque para o Observatório Nacional
de Educação Especial (Oneesp) que conduziu estudos integrados sobre políticas e práticas
direcionadas para a questão da inclusão escolar na realidade brasileira em uma rede nacional
com 22 Universidades e 18 Programas de Pós-Graduação de 16 Estados brasileiros.
Considerando a necessidade de expandir as reflexões sobre práticas avaliativas inclusivas e
reconhecendo a abrangência e relevância que o Oneesp teve na produção científica sobre a
inclusão escolar no Brasil, este artigo analisa as contribuições das pesquisas de mestrado e
doutorado vinculadas ao Oneesp sobre a avaliação da aprendizagem dos alunos com deficiência
intelectual no Brasil. Para tanto, por meio de uma abordagem qualitativa, foi realizada uma
pesquisa bibliográfica, com coleta e análise das dissertações e teses vinculadas ao Oneesp
disponíveis no Catálogo de Teses e Dissertações da Capes. Os resultados indicaram que é
fundamental que as práticas educacionais sejam voltadas à autonomia e participação de todos,
reconhecendo as diferentes habilidades, capacidades e interesses dos alunos, e, neste sentido, a
avaliação da aprendizagem deve ser um processo contínuo que contribua para as reorganizações
necessárias no processo de ensino-aprendizagem em busca da formação integral dos alunos.
Palavras-chave: Avaliação de aprendizagem. Educação Especial. Deficiência Intelectual.
1 INTRODUÇÃO
71
como se nada tivessem a ver com o percurso ativo no processo de aprendizagem”, ou seja, o
processo de ensino e aprendizagem não é considerado como um todo, o que se valoriza é apenas
o produto final, que, neste caso, é a nota da prova ou do teste aplicado.
Muitas vezes o professor cobra do aluno exatamente aquilo que ele explicou, exatamente
da maneira que ele explicou, tirando a liberdade do aluno demonstrar o que compreendeu de
sua própria maneira, por seus próprios caminhos. Desse modo, não parece justo se o resultado
de uma avaliação for abaixo do esperado, no caso de o professor querer que o aluno responda
somente aquilo que ele esperava como resposta. Hoffmann (2012) aponta que não há um único
saber, cada um pensa como pode, porém, nesse contexto, os alunos sempre são os mais afetados
e permanecem em silêncio em meio aos conflitos de poder.
Essas práticas avaliativas podem ser influenciadas, também, pelos exames externos, em
larga escala, que são aplicados, teoricamente, para medir a qualidade do ensino desenvolvido
no Brasil. Souza (2018) aponta que o governo federal difunde e legitima a ideia de
monitoramento e avaliação externa como forma de imprimir qualidade à educação, induzindo
estados e municípios a criarem seus próprios sistemas de avaliação, baseados nos
procedimentos das avaliações externas com o intuito de mobilizarem as escolas, seus
professores e alunos para buscarem melhores resultados nas avaliações nacionais.
O mau uso dessas avaliações causa impactos sobre os sistemas de ensino, pois
influenciam negativamente os procedimentos educacionais qualitativos que poderiam ocorrer
de forma contínua, processual e inclusiva. Diante disso, considerando a necessidade de superar
os aspectos meramente seletivos e classificatórios para andar em direção às práticas escolares
que visam à formação integral, é interessante que os professores, primeiramente, compreendam
que “a avaliação da aprendizagem consubstancia-se no contexto próprio da diversidade”
(HOFFMANN, 2010, p. 80), ou seja, é importante reconhecer e valorizar as diferenças entre os
alunos e estimular a diversidade do agir, do pensar, de formas de se expressar, por meio da
variabilidade didática e uma ação pedagógica diferenciada.
Para que o professor consiga trabalhar pautado na ética utilizando instrumentos de
avaliação inclusivos, é fundamental que ele seja “um agente crítico, construtivo, competente e
dialógico, que auxilie e oportunize a eficiência do processo educacional e da construção do
conhecimento pelo sujeito aprendiz” (TEIXEIRA, 2008, p. 123). Desse modo, a avaliação deixa
de ser vista como um fim em si mesma e passa a ser uma pedagogia preocupada com a
transformação social. Nesta perspectiva, avaliar a aprendizagem significa ultrapassar as leituras
74
negativas sobre os possíveis fracassos dos alunos fazendo leituras multidimensionais dos
resultados.
3- METODOLOGIA DA PESQUISA
Por meio de uma abordagem qualitativa, foi realizada uma pesquisa bibliográfica de
caráter descritiva. Segundo Gil (2008), a pesquisa descritiva tem como principal objetivo
descrever características de determinada população ou fenômeno ou estabelecimento de
relações entre as variáveis.
Tabela 1 – Resultados quantitativos das dissertações e teses vinculadas ao Oneesp entre 2013 e 2017, disponíveis
no Catalogo de Teses e Dissertações da CAPES.
2014 14 4
2015 8 6
2016 2 2
2017 -- 2
15
O Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)
é um sistema de busca bibliográfica, que reúne registros desde 1987. Possui como referência a Portaria nº
13/2006, que instituiu a divulgação digital das teses e dissertações produzidas pelos programas de doutorado e
mestrado reconhecidos. Disponível em: https://catalogodeteses.capes.gov.br/catalogo-teses/#!/. Acesso em:
20/07/2020.
75
Total 39 16
FONTE: Elaboração própria com base nos dados do Catálogo de Teses e Dissertações da Capes.
FONTE: Elaboração própria com base nos dados do Catálogo de Teses e Dissertações da Capes.
76
4- RESULTADOS E DISCUSSÕES
se baseassem para tal procedimento. No que se refere à avaliação para o apoio e planejamento,
foi identificada uma preocupação sobre como esse planejamento de ações poderiam repercutir
na aprendizagem do aluno (SALES, 2014).
A Tese de Aguiar (2015) teve como objetivo constituir espaços de reflexões com
profissionais que atuam no Ensino Fundamental, problematizando os processos avaliativos
vividos na escola com relação aos alunos identificados com deficiência intelectual, buscando
constituir práticas pedagógicas inclusivas. Intentou, ainda, discorrer sobre esses processos para
desvelar as possibilidades e desafios presentes na avaliação de identificação, de planejamento
e de rendimento dos alunos com deficiência intelectual. Dialogou com as produções de
pesquisadores que postulam a ideia de que o processo de inclusão escolar pressupõe acesso à
escola, bem como a permanência e a garantia do direito de apropriação dos conhecimentos
socialmente produzidos.
Para o desenvolvimento do estudo, trabalhou-se com duas frentes correlacionadas: a
primeira se deu na coleta de dados da pesquisa de caráter nacional que vinha sendo
desenvolvida pelo Oneesp, envolvendo professores das Salas de Recursos Multifuncionais dos
municípios de Vitória e Serra, ambos no Espírito Santo. A segunda frente aconteceu em uma
escola de Ensino Fundamental pertencente à Rede Pública Municipal de Ensino de Serra – ES
envolvendo professores, pedagogos, dirigentes escolares, alunos matriculados da 4ª à 8ª série
do Ensino Fundamental (AGUIAR, 2015).
Os resultados apontaram a necessidade de tornar o tema avaliação presente nos trabalhos
desenvolvidos nas formações continuadas com profissionais da educação. Isso, especialmente,
em função de esta investigação ter revelado a dificuldade dos professores em lidar com a
avaliação para identificação, planejamento e avaliação do rendimento dos alunos. Segundo a
autora, esses fatores podem se configurar como elementos impeditivos para que os alunos
obtenham sucesso em sua jornada educacional. Em contrapartida, o estudo aponta que, por meio
de atitudes colaborativas e críticas, entre os profissionais da escola, foi possível articular ações
que garantam o direito de aprender do aluno com deficiência intelectual na escola de ensino
comum (AGUIAR, 2015).
A Tese de Souza (2015) analisou os processos de avaliação dos alunos PAEE com
professores que atuam nas SEM, visando uma reflexão crítica sobre as práticas avaliativas. A
autora defende a tese de que a produção do conhecimento se faz com o diálogo com o outro e
de que só pode haver mudanças na prática avaliativa quando há reflexão sobre e na prática. Para
tanto, ela adotou a abordagem histórico-cultural como princípio teórico, baseando-se nos
79
estudos de seu principal representante, Vigotski, e também nos estudos de Bakhtin para
produzir reflexões sobre a prática avaliativa que envolve sujeitos público-alvo da educação
especial, a qual, historicamente, se ancora numa perspectiva positivista e biologizante da
avaliação desses sujeitos.
O estudo partiu da premissa de que a prática avaliativa é um ato que envolve a
compreensão dos sujeitos no processo ensino-aprendizagem, os quais, em seu processo de
apropriação dos conhecimentos produzidos historicamente, precisam da interação com o outro
para mediar mecanismos de aprendizagem que desencadeiam o desenvolvimento das funções
psicológicas superiores que auxiliam na internalização dos conhecimentos. O estudo ocorreu
por meio de uma pesquisa colaborativa com professores da educação especial, no município de
Guarapari, no período de 2012 a 2015.
A análise dos dados indicou que o processo de reflexão dialógico possibilitou aos
professores de educação especial a análise sobre a prática avaliativa com alunos PAEE,
desencadeando movimentos de transformação na política pública municipal e nos cotidianos
escolares a partir da produção de um artefato que auxiliasse no desenvolvimento das práticas
avaliativas nos diferentes contextos escolares. A conclusão é que, por meio da reflexão coletiva
sobre os processos de avaliação, podem-se instituir novos movimentos que possibilitem um
caminho para a emancipação dos sujeitos PAEE.
De forma sintetizada, as dissertações de Cardoso (2013) e Sales (2014) versaram sobre
a avaliação do estudante com deficiência especificamente nas salas de recursos multifuncionais,
e a dissertação de Machado (2013) falou da avaliação do potencial de aprendizagem de alunos
com deficiência intelectual em um contexto amplo, para além do espaço escolar. Entre as teses,
a pesquisa de Souza (2015) abordou a prática avaliativa na educação especial nas salas de
recursos multifuncionais, porém sem abordar a avaliação na sala de aula comum. Já a tese de
Aguiar (2015) explorou a avaliação do aluno com deficiência intelectual no contexto da sala de
aula, indo além da avaliação nas salas de recursos multifuncionais. Todas as pesquisas
apontaram a necessidade de expandir as investigações envolvendo os alunos com Educação
Especial, sobretudo para construir estratégias de avaliação mais justas que contribuam com a
aprendizagem.
5- CONSIDERAÇÕES FINAIS
Foi verificado que a avaliação deve ser um instrumento de investigação a ser utilizado
de forma contínua e sistemática, num movimento permanente de reflexão e ação voltado à
80
integralidade da formação dos alunos. No caso dos alunos PAEE, embora existam dificuldades
na capacidade estrutural dos sistemas de ensino em colocar em prática as diretrizes da
PNEEPEI, a literatura destaca que a organização das práticas avaliativas pode ser qualificada
quando são criadas alternativas que favoreçam a elaboração e a sistematização de tarefas que
oportunizem a participação e demonstração de seus potenciais.
O uso da pesquisa bibliográfica para fazer o levantamento das pesquisas de Mestrado e
Doutorado vinculadas ao ONEESP revelou-se uma metodologia adequada na medida em que
permitiu a realização de um mapeamento das pesquisas que atendiam ao objetivo proposta pela
pesquisa. Ao mesmo tempo, essa metodologia possibilitou verificar a carência em relação à
produção científica sobre a temática da avaliação da aprendizagem dos alunos com deficiência
intelectual no ensino regular, pois, mesmo com a amplitude da rede nacional vinculada ao
Observatório, foram encontradas apenas três dissertações e duas teses que tiveram esse
importante assunto como tema principal.
Considerando a pluralidade dos sujeitos que frequentam as classes comuns do ensino
regular, incluindo os alunos com deficiência intelectual nesta diversidade, conclui-se que é
fundamental que as práticas educacionais sejam direcionadas à autonomia e participação,
reconhecendo todos como seres políticos capazes de criarem sua própria história. Para tanto, o
planejamento das ações educacionais precisa valorizar as diferentes habilidades, capacidades e
interesses dos alunos. Por fim, verificou-se que a avaliação não deve ser entendida como um
ato isolado, mas como um processo contínuo que possibilite fazer as reorganizações necessárias
no processo de ensino-aprendizagem em busca da formação integral dos alunos.
REFERÊNCIAS
______. O que sabe quem erra? Reflexões sobre avaliação e fracasso escolar. Porto Alegre:
DP&A, 2001b.
GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
TEIXEIRA, J. Avaliação escolar: da teoria à prática. Rio de Janeiro: Wak Ed, 2008.
CATANANTE, Flávia
Pedagoga. Mestranda em Educação Universitária pela Universidade Nacional de Rosário -
UNR
flá[email protected]
RESUMO
1- INTRODUÇÃO
(1994), muito se tem discutido sobre o trabalho curricular possível de ser desenvolvido com
este público.
A verdade é que nenhum de nós tem autoridade ou autonomia para definir o que este ou
aquele aluno deve aprender. A legislação aponta para o direito de todas as crianças à educação
e a educação é vinculada a marcos regulatórios baseados em convenções internacionais,
adaptadas à realidade nacional.
Sendo assim, oportunizar o acesso de toda criança cidadã ao currículo básico constante
da BNCC – Base Nacional Curricular Comum, é tarefa da educação e de todos os profissionais
por ela responsáveis.
O aluno com deficiência é cidadão, com os mesmos direitos que os demais alunos, e
alguns outros direitos a mais, que necessariamente são regulamentados por termos um olhar
excludente e de poder sobre os que pensamos menos capazes e, portanto, diferentes, sem
necessidade de aprender algo que não achemos importante para eles.
Nesse processo de querer decidir o que este ou aquele deve aprender, acabamos por
esquecer que há uma base curricular para a qual todo aluno deve ter acesso, de acordo com a
faixa etária em que se encontra.
Podemos começar as discussões sobre o currículo funcional e a BNCC, a partir deste
ensaio teórico, sob a perspectiva de uma revisão bibliográfica, estudos realizados pela autora e
análise das observações realizadas (CERETTO, GIACOBBE, 2018) nos contextos específicos
da escola de educação especial e da escola comum que recebe pessoas com deficiência e se
auto-intitula inclusiva.
Proponho tomarmos por referência um jovem com deficiência intelectual, com 14 anos,
sem ter o domínio absoluto da leitura e escrita. É jovem, em idade escolar, convivendo
socialmente com um entorno que envolve a família, vizinhos, amigos. No contexto social em
que convive, tem acesso às TICs, comunica-se, relaciona-se, expressa-se.
Façamos uma leitura da competência número 4 à luz do jovem citado: utiliza diferentes
linguagens, bem como conhecimentos de várias áreas para se expressar e partilhar, fazendo-se
entender mutuamente.
O currículo escolar poderá contemplar a habilidade EM13LP14 incluindo a produção e
análise dos textos orais, considerando o contexto da produção e os elementos relacionados à
fala e à cinestesia, com o objetivo de aperfeiçoar tais habilidades pré-existentes e melhorar a
sua competência na utilização da linguagem, no sentido de fazer-se entender de forma clara e
precisa.
Suplino(2005) aponta a necessidade de perguntarmos: “Terá alguma utilidade para sua
vida? “ e eu respondo: “Totalmente”, logo, tal habilidade faz parte do Currículo Funcional.
Cabe fazermos uma reflexão sobre o que temos ensinado aos nossos alunos com
deficiência intelectual nas escolas especiais. Alguns passam anos tentando aprender o que lhes
88
4-CONSIDERAÇÕES FINAIS
A legislação e toda a sua regulamentação em favor de que a pessoa com deficiência
tenha uma vida plena e feliz está posta. A BNCC ampliou o leque de alcance ao aluno, a partir
do momento em que unificou uma base, fundamentada na idade e desenvolvimento do
indivíduo, através de uma visão inclusiva, que celebra e respeita a diversidade em todas as
instâncias.
Ao fixar a Base Nacional Curricular Comum, a União reconhece que todo o indivíduo
deve estar na escola e ter o direito de avançar nas séries, aprendendo conteúdos comuns a toda
a nação, ensinados por profissionais que respeitam a diversidade humana e buscam estratégias
pedagógicas diferenciadas que colaboram para a acessibilidade curricular.
Há necessidade de uma ruptura paradigmática que dissemina que a pessoa com
deficiência não aprende e que cabe à educação especial definir o que ela pode aprender e até
onde pode chegar em sua trajetória escolar.
A reflexão que fica é a de que também a pessoa com deficiência deve desenvolver todas
as habilidades previstas na BNCC, ou àquelas comuns a maioria dos brasileiros, sem
delimitações ou discussões sobre o que não é possível. O discurso agora deve ser sobre a
possibilidade de acesso de todos os alunos a todas as habilidades acadêmicas desde que sejam
funcionais.
89
REFERÊNCIAS
MERCADO, Elisangela Leal de Oliveira; Fumes, Neiza de Lourdes Frederico. Base nacional
comum curricular e a educação especial no contexto da inclusão escolar. In: Anais Enfope, v.
10, n. 1, 2017. Disponível em:
https://eventos.set.edu.br/index.php/enfope/article/view/4770. Acesso em 30 jul 2020.
90
MORIN, Edgar. Los siete saberes necesarios para la educación del futuro. (Trad.
Mercedes Vallejo-Gómez). Paris: Unesco, 1999.
SILVA, Luciene Corrêa Guerra Moreira; SILVA, Taydara Valério Ernesto; SOARES, In
Silvana Soares. Currículo Funcional Natural: perspectivas metodológicas e os resultados
alcançados no processo de desenvolvimento dos educandos. Estudos Interdisciplinares em
Educação, Lorena/SP, v. 01, nº 04, 2018. Disponível em:
http://unifatea.com.br/seer3/index.php/EIE/article/view/931. Acesso em 27 jul 2020.
SUPLINO, Maryse. Currículo funcional natural: guia prático para a educação na área
autismo e deficiência mental. Brasília: Corde, 2005.
91
RESUMO
1-INTRODUÇÃO
Em março de 2020, a Organização Mundial da Saúde declarou que a COVID-19 (doença
causada pelo coronavírus) atingia o status de pandemia (WHO, 2020 apud Oliveira 2020). A
transmissão dessa enfermidade ocorre por gotículas espalhadas por uma pessoa infectada no ar
ou em superfícies e que, posteriormente, encontram com mucosas de indivíduos saudáveis
(Mcintosh, 2020), ela já atinge mais de 17,3 milhões de pessoas no mundo (JHU, 2020). Por
isso, o isolamento social tem sido amplamente recomendado como arma na diminuição do
contágio desta nova doença (Oliveira, 2020). Assim, no Brasil, o Conselho Nacional de
Educação, aprovou um parecer que autoriza os sistemas de ensino a computar atividades não
presenciais para cumprimento de carga horária (MEC, 2020).
O governo de Minas Gerais, em abril de 2020, por meio da resolução oficial
(n°4310/2020), regulamentou normas para a oferta de regime especial de atividades não
presenciais, durante o período de emergência para a rede estadual de ensino (SEE, 2020). Então,
em março de 2020, o governo de Minas Gerais declarou situação de emergência no estado em
decorrência da pandemia vigente do coronavírus. Após um período ocorreu a determinação da
volta às atividades, em regime de teletrabalho, dos profissionais da educação. Assim, foi
disponibilizado o site Estude em Casa, que tornou público o Plano de Estudos Tutorados (PET)
desenvolvido para a educação regular e especial (REANP, 2020).
Além disso, é válido ressaltar que Minas Gerais tinha, em 2019, mais de 1 milhão e 250
mil estudantes em ensino especial (INEP, 2020). Assim, devido a importância desse contingente
e de todos os processos educacionais nos quais esses alunos estão envolvidos é imprescindível
analisar qualquer política que os atinja. Por isso, este estudo objetiva analisar os PETs:
Modalidade Especial (PET:ME) disponíveis para esses estudantes e levantar, quando oportuno,
seus benefícios e defasagens.
2-DESENVOLVIMENTO
Foram analisados os documentos disponibilizados pelo governo de Minas Gerais acerca
dos planos direcionados para crianças participantes da educação especial. A metodologia
empregada para a realização deste trabalho baseia-se em uma pesquisa qualitativa de caráter
exploratório e analítico, feita a partir da investigação documental da política pública de estudos
93
tutorados para estudantes com necessidades especiais do estado de Minas Gerais, Brasil, de
acervo disponível no site da Secretaria de Educação de Minas Gerais, na plataforma Estude em
Casa (https://estudeemcasa.educacao.mg.gov.br/inicio). Ainda, por se tratar de uma pesquisa
que utiliza informações de acesso público, nos termos da Lei n° 12.527, de 18 de novembro de
2011, não precisa de prévia autorização em qualquer comitê de ética, respaldada pelo parágrafo
único do Art 1° da resolução 510/2016, resolvida pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa
- CONEP, do Conselho Nacional de Saúde – CNS.
Assim, os PETs:ME são divididos entre: Educação Infantil, Ensino Fundamental: Anos
Iniciais, Ensino Fundamental: Anos Finais e Ensino Médio. Eles apresentam orientações para
os pais ou responsáveis e para os estudantes, bem como textos, ilustrações, atividades que
envolvem leitura e interpretação e exercícios lúdicos como pinturas e músicas. O documento
direcionado para a educação infantil conta com textos de fácil interpretação, direcionados as
famílias, e com ilustrações feitas por crianças. Já os direcionados aos anos iniciais e finais do
ensino fundamental são divididos de 1° ao 5° ano (anos iniciais) e 6° ao 9° (anos finais) e cada
PET é dividido por semana de ensino e apresenta: orientações, atividades, áreas temáticas,
objetivos, habilidades, conteúdos relacionados e interdisciplinaridade(s). Além disso, os
documentos de modalidades especiais direcionados ao ensino médio apresentam os mesmos
moldes dos do ensino fundamental. Ainda, todos os documentos apresentam as disciplinas
referentes a cada ano de ensino e as orientações são para que os alunos, com auxílio da família,
façam os PETs e posteriormente os apresentem para correção docente (REANP, 2020).
É importante ressaltar que algumas residências não apresentam um ambiente
minimamente aos estudos. Vários fatores podem servir como distração para os alunos, processo
bastante agravado se eles apresentarem algum déficit de atenção. Assim, muitos discentes não
dispõem de um espaço adequado para o desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem
nos lares (Barreto e Rocha, 2020).
Ainda, essa problemática permeia a imposição dos responsáveis na realização das
atividades, sem o acompanhamento de profissional qualificado, e dá à família uma tarefa que
não lhe pertence nem a cabe (Coutinho e Côco, 2020). Isso evidencia uma prática que pode,
muitas vezes, fracassar, tanto no que tange as habilidades da família em manejar essas tarefas
quanto no processo de aprendizagem do estudante com deficiência. Ademais, tem sido relatado
na literatura que os alunos com deficiência intelectual e/ou deficiências múltiplas requerem
acompanhamento e atenção de um docente da educação especializada (Gomes, 2020).
94
3-CONSIDERAÇÕES FINAIS
Portanto, os PETs:ME apresentam-se como planos interessantes na medida em que
podem ser implementados sem restrições de ensino pelos estudantes e familiares. Ainda, é
evidenciado que esses planos exigem que as famílias assumam uma tarefa que não é delas e
deixam o estudante a mercê de diferentes fatores que influenciam a prática pedagógica, como
didática e espaço adequado. Além disso, se analisa que alunos portadores das necessidades
supracitadas devem receber um ensino diferenciado com o máximo de acompanhamento
profissional.
REFERÊNCIAS
BARRETO, A. C. F.; ROCHA, D. S. COVID 19 e educação: resistências, desafios e
(im)possibilidades. Revista Encantar – Educação, Cultura e Sociedade, v. 2, p. 01-11, 2020.
JHU – John Hopkins University. Center for Systems Science and Engineering. “COVID-19
Dashboard”. John Hopkins University Website [internet]. Disponível em:
<https://coronavirus.jhu.edu/map.html>. Acesso em: 31 jul. 2020.
MEC – Ministério da Educação. CNE aprova diretrizes para escolas durante a pandemia. Portal
do Ministério da Educação. MEC [internet]. 2020. Disponível em:
<http://portal.mec.gov.br/component/content/article?id=89051>. Acesso em: 31 jul. 2020.
OLIVEIRA, A. C. de et al. Como o Brasil pode deter a COVID-19. Epidemiol. Serv. Saúde
n. 29, v. 2, abr. 2020.
REANP – Regime especial de atividades não presenciais. Estude em Casa [Internet]. 2020.
Disponível em: <https://estudeemcasa.educacao.mg.gov.br/inicio>. Acesso em: 31 jul. 2020.
<http://www2.educacao.mg.gov.br/images/documentos/4310-20-r%20-%20Public.%2018-04-
20.pdf>. Acesso em: 31 jul. 2020.
96
RESUMO
Este trabalho se baseou no projeto piloto de implantação do Ensino Estruturado nos
atendimentos de Educação Física voltado para pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo
(TEA) na instituição Casa de David -unidade Atibaia, no período de fevereiro de 2019 a
fevereiro de 2020. Esse trabalho caracteriza-se pela pesquisa-ação, que é um tipo de
investigação ação, onde se aprimora a prática através da ação no campo de trabalho e a
investigação a respeito dela. Buscou-se avaliar uma mudança para a melhora da prática dos
atendimentos de Educação Física. Esse trabalho iniciou com a sondagem dos atendimentos de
Educação Física, denominados de "Atendimentos de Desenvolvimento Motor", onde buscamos
fazer um levantamento da forma como os atendimentos eram desenvolvidos à luz do Ensino
Estruturado, contando como instrumento de sondagem: Tabelas de checklist para observação
do local de atendimento, Roteiro de observação do atendimento de Educação Física
(Desenvolvimento Motor) e uma entrevista feita com um dos profissionais de Educação Física.
Os resultados da sondagem apontaram que quanto a organização da área física, programação
diária, forma de ensinar e estrutura do material houve pontos positivos e negativos através das
observações realizadas, mas no quesito de uso de rotinas incorporadas em agendas e
componentes da agenda, não foi pontuado, porque a instituição não fazia uso de nenhum Ensino
Estruturado. Em face desses resultados, ao longo de um ano, buscou-se implantar nos
atendimentos de Desenvolvimento Motor, o Ensino Estruturado como forma de ajudar na
melhor compreensão das tarefas de Educação Física por parte dos indivíduos com TEA, de
forma a ajudá-los no melhor desenvolvimento durante os atendimentos. Para isso, elaboramos
metas de trabalho que envolviam a reestruturação do ambiente de trabalho, sendo: 1)
Transformação da sala de atendimento, 2) Reformulação do método de ensino, 3) Confecção
de material próprio para atendimento que contemplasse os objetivos traçados, 4) Elaboração de
palestra informativa para outros profissionais da equipe multidisciplinar com intuito de
promover capacitação e formação continuada a longo prazo para todos os integrantes da equipe.
1-INTRODUÇÃO
idade), com impacto múltiplo e variável em áreas nobres do desenvolvimento humano como as
áreas de comunicação, interação social, aprendizado e capacidade de adaptação. É um
transtorno de base biológica inata, embora sua etiologia ainda permaneça desconhecida, mas
alguns estudos apontam uma causa multifatorial genética, epigenética e fatores não genéticos
agindo em conjunto. (ANAGNOSTOU et al., 2014; MELO E VATAVULK, 2007; TOMÉ,
2007).
O Ensino Estruturado tem sido utilizado no processo de ensino-aprendizagem de
pessoas com TEA e ele busca compensar déficits cognitivos, sensoriais, sociais, comunicativos
e comportamentais de indivíduos com TEA (FONSECA e CIOLA, 2016; LEITÃO, 2016;
THEODORO, 2016).
O Chapel Hill TEACCH Center1 da Universidade da Carolina do Norte - EUA,
menciona que um professor deve estruturar a sala de aula para ensinar efetivamente os alunos
autistas, de modo que esta organização deve contemplar a organização física, o agendamento
de horários de atividades e os métodos de ensino. Dessa forma, ao se proporcionar estrutura
e organização na sala de aula ou em qualquer outro ambiente de aprendizagem no nível de
compreensão do aluno autista, pode ajudar a aliviar ou moderar esses problemas e as situações
de aprendizagens ineficazes (FONSECA e CIOLA, 2016; LEITÃO, 2016).
Há poucos trabalhos na área da Educação Física e Autismo (SOARES, CAVALCANTE
NETO, 2015; CATELLI, D'ANTINO e BLASCOVI-ASSIS, 2016). No contexto das atividades
de Educação Física, não basta apenas organizar os conteúdos de forma a levar os alunos ao
movimento pelo movimento, é preciso que o professor utilize metodologia diferenciada; razão
pela qual, torna-se importante caracterizar o perfil motor de pessoas com TEA para planejar e
aplicar intervenções motoras e adotar metodologias e técnicas adequadas para esta população,
pois, segundo a APA (2014) a população TEA apresenta muitas comorbidades associadas ao
transtorno principal.
Diante deste cenário, a instituição Casa de David - unidade Atibaia, atende pessoas com
TEA há cinco anos e, por não dispor de um trabalho educacional específico voltado para
população TEA, buscou desenvolver um projeto piloto de Ensino Estruturado aplicado aos
atendimentos de Educação Física. A instituição contava com apenas quatro membros da equipe
técnica que tinham conhecimento do Ensino Estruturado e a partir da iniciativa deste projeto,
tínhamos como propósito desenvolver a formação continuada e capacitação dos demais
membros da equipe multidisciplinar, quer seja através de cursos, benchmarking, consultoria,
98
etc. Dessa forma, foi elaborado um projeto piloto a partir da sondagem inicial da realidade dos
atendimentos de Educação Física na instituição.
Esse trabalho caracteriza-se pela pesquisa-ação, que é um tipo de investigação ação,
onde se aprimora a prática através da ação no campo de trabalho e a investigação a respeito
dela. Buscou-se implantar o Ensino Estruturado nos atendimentos de Educação Física.
Iniciamos uma sondagem dos atendimentos de Educação Física, denominados de
"Atendimentos de Desenvolvimento Motor", onde buscamos fazer um levantamento da forma
como os atendimentos eram desenvolvidos à luz do Ensino Estruturado. Após os resultados
desse levantamento, ao longo de um ano, buscou-se implantar nos atendimentos de
Desenvolvimento Motor, o Ensino Estruturado como forma de ajudar na melhor compreensão
das tarefas de Educação Física por parte dos indivíduos com TEA, de forma a ajudá-los no
melhor desenvolvimento durante os atendimentos.
2- OBJETIVO
Implantar o Ensino Estruturado nos atendimento de Desenvolvimento Motor do setor
de Educação Física na instituição Casa de David - unidade Atibaia.
3- MÉTODO
Quanto à natureza dessa pesquisa compreende a pesquisa-ação, que é um tipo de
investigação ação. Segundo Tripp (2005), através desse método, se aprimora a prática, "planeja-
se, implementa-se, descreve-se e avalia-se uma mudança para a melhora de sua prática,
aprendendo mais, no correr do processo, tanto a respeito da prática quanto da própria
investigação" (p.446).
Figura 1 - Representação em quatro fases do ciclo básico da investigação-ação. In: Tripp (2005).
99
4-PARTICIPANTE
Para a sondagem dos atendimentos de Educação Física contamos com a colaboração de
um profissional de Educação Física funcionário da Casa de David - unidade Atibaia-SP. Este
funcionário trabalhava 40h/semanais na instituição, realizando seis tipos de atendimento na área
de Educação Física, sendo: Desenvolvimento Motor, Expressão Corporal, Condicionamento
Físico que abrange: a)Academia, b)Fortalecimento, c)Alongamento, d) Caminhada na área
externa. Para este trabalho, foi observado apenas os atendimentos de Desenvolvimento Motor.
5-EQUIPAMENTOS E TAREFAS
Foi realizado uma entrevista com doze perguntas ao profissional de Educação Física,
com intuito de verificar a experiência do profissional em relação ao manejo de pessoas com
TEA, seu conhecimento acerca do Ensino Estruturado, seu conhecimento acerca do ensino-
aprendizagem na área da Educação Física, as atividades que ele desempenhava na instituição,
como era o tipo de atendimento que ele oferecia aos autistas, quais eram os objetivos dele nos
atendimentos, como ele avaliava se os resultados foram alcançados ou não.
Outro instrumento que auxiliou na coleta de dados foi o "Roteiro de observação da aula
de Educação Física" que continha cinco itens a serem observados durante o atendimento do
profissional de Educação Física. As informações colhidas se referiam a quantidade de alunos
por atendimento, tempo de atividade, forma de apresentação das atividades para o aluno, formas
de corrigir/ instruir/ informar o desempenho do aluno e acontecimentos durante a aula.
Foi organizada cinco tabelas com checklist com base nas informações de Fonseca e
Ciola (2016), que fazem apontamentos sobre os fundamentos do Programa TEACCH e o Ensino
Estruturado para pessoas com TEA. Os quesitos observados foram: 1) Organização da área
física; 2) Programação diária e uso das rotinas incorporadas em agendas; 3) Componentes da
agenda; 4) Formas de ensinar; 5) Estrutura do material.
7- ANÁLISE DE DADOS
Os dados foram analisados com base nos resultados das respostas do roteiro de
observação, entrevista e nas tabelas de checklist. Foi feito análise qualitativa dos pontos
positivos e negativos observados e montado categorias para serem analisadas.
8-RESULTADOS
1 Observou-se que o tamanho da sala era As áreas de trabalho não estavam identificadas
adequado, com banheiro próximo, para o aluno encontrar seu próprio caminho, e
móveis disponíveis, havia lugar para o não era consistente e funcional.
aluno compreender que a tarefa foi
Havia elementos distratores na sala, os
concluída.
materiais de trabalho estavam desorganizados
O profissional tinha acesso visual a todas e não estavam marcados com instruções
as áreas de trabalho visualmente definidas. Os limites das áreas de
trabalho não estavam claros. As áreas de
armazenamento de materiais, atividades e
jogos estavam desorganizadas.
8.4-Discussão
103
Diante deste cenário, foi elaborado metas de trabalho ao longo de um ano, que
envolviam a reestruturação do ambiente de trabalho, contemplando as seguintes etapas:
1) Transformação da sala de atendimento de Desenvolvimento Motor: Foi realizada pintura nas
paredes, foi colocado insulfim escuro nos vidros das janelas, pois, os autistas paravam os
atendimentos para olhar pela janela. Foi criada uma partição para esconder os materiais das
prateleiras, para evitar dos alunos deixarem as atividades para mexerem em outros materiais;
foi sinalizado o chão da sala para demarcar os locais onde seria realizada as atividades com área
de armazenamento para o autista compreender onde inicia e termina a atividade, e onde os
materiais deveriam ser guardados. Essas mudanças objetivavam estimular a concentração,
provocar autonomia, proporcionar organização, sinalizar visualmente e antecipar instruções.
Ferreira (2016), explica que as disposições dos móveis da sala podem ajudar ou atrapalhar o
funcionamento independente do aluno, o reconhecimento e respeito pelas regras e limites. O
ambiente deve oferecer dicas e referências, ajudar a entender através de pistas visuais, deve
promover o foco de atenção e tentar garantir que cada área informe a sua função.
2) Reformulação do método de ensino - O profissional voluntário recebeu um material
apostilado sobre o Ensino Estruturado para estudar e começou a receber suporte durante os seus
atendimentos de Desenvolvimento Motor. As aulas foram reformuladas, sendo desmembrados
os atendimentos em grupo, para priorizar atendimentos individuais ou em duplas, de forma que
facilitasse para o profissional que passaria pelo processo de capacitação e para o autista que iria
iniciar os atendimentos de maneira diferenciada do que ele estava acostumado. Os atendimentos
desse profissional foram acompanhados por um psicólogo que observava os comportamentos
dos autistas e orientava a melhor forma de fazer o manejo comportamental, bem como, esse
profissional também foi assessorado por outra profissional de Educação Física que o ajudou
avaliar os autistas na área motora, avaliar os autistas na compreensão deles para serem
caracterizados em níveis de aprendizado dentro do Ensino Estruturado, e a partir daí, traçar os
objetivos para seus atendimentos. Foi reformulado os horários de atendimento desse
profissional, considerando essa fase de adaptação e formação continuada que ele estava
recebendo. Porque o Ensino Estruturado inclui a "utilização de rotina de trabalho
individualizada, para compensar os déficits cognitivos, sensoriais, sociais, comunicativos e
comportamentais presentes no TEA e interferentes no desenvolvimento" (FONSECA &
CIOLA, 2016, p.20). As atividades de Educação Física estavam pautadas para contemplar a
motivação e a produtividade, proporcionar reforçadores ao final das atividades, ter mais clareza
nos objetivos das atividades e simplificando as instruções.
105
9-CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
MELO, Ana Maria S. Ros de, VATAVULK, Marialice de Castro. Autismo: guia prático.
6.ed. São Paulo: AMA, 2007.
SOARES, Angélica Miguel & CAVALCANTE NETO, Jorge Lopes. Avaliação do
Comportamento Motor em crianças com Transtorno do Espectro do Autismo: uma revisão
sistemática. Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v.21, n.3, p.445-458, Jul.-Set., 2015.
THEODORO, Rosana L. Proposta de implantação do Programa Teacch com ênfase nos
alunos da Educação de Jovens e Adultos - EJA. in: Secretaria da Educação. Governo do
Estado do Paraná. Desafios da Escola Pública Paraense na perspectiva do professor PDE,
2016.
TOMÉ, Maycon Cleber. Educação Física como auxiliar no desenvolvimento cognitivo e
corporal de autistas. Movimento & Percepção, Espírito Santo do Pinhal, v.8, n.11, p.231-
248, jul./dez, 2007.
TRIPP, Davi. Pesquisa-ação: uma introdução metodológica. Educação e Pesquisa, São Paulo,
v.31,n3,p.443-466, set./dez. 2005.
108
RESUMO
A inclusão escolar para o público-alvo da Educação Especial é recente e requer o
desenvolvimento de pesquisas e práticas que possam contribuir para enriquecer as
possibilidades de ações pedagógicas para alunos que demandam intervenções específicas. O
presente artigo aspira colaborar com essas ações e descreve um relato de experiência que,
apoiado na literatura, pretende contribuir para a inclusão destes alunos na rede regular de
ensino. Assim, esse relato de experiência apresenta como objetivo analisar a importância do
diagnóstico para ser utilizado como um instrumento de mediação e intervenção para contribuir
com a aprendizagem do aluno com Deficiência Intelectual e/ou com Transtorno do Espectro
Autista, atendendo aos seus direitos, necessidades e potencialidades. Esta experiência foi
desenvolvida pela pedagoga da Sala de Recursos, no ano letivo de 2019, em uma escola da rede
municipal da cidade de Franca, Estado de São Paulo, com uma criança com deficiência. Os
participantes foram a professora da sala de aula comum, Fase II da Educação Infantil, um aluno
com laudo médico de Deficiência Intelectual, a monitora que o auxiliava durante todo o tempo
em que ele permanecia na escola, a mãe da criança e a autora desse relato que trabalhava na
Sala de Recursos e oferecia o AEE (Atendimento Educacional Especializado) para os alunos
público-alvo da Educação Especial matriculados naquela unidade escolar. O trabalho se
desenvolveu apor meio da observação direta em sala de aula, nos atendimentos e avaliações na
Sala de Recursos e em conversas com a professora, com a auxiliar e a família do educando.
Esta experiência profissional apontou para a importância do diagnóstico correto, bem elaborado
e multidisciplinar para a mudança de algumas práticas no intuito de que este aluno com
deficiência pudesse receber as intervenções adequadas e necessárias para o desenvolvimento
de suas habilidades e potencialidades.
1-INTRODUÇÃO
A escola é um lugar para todos e onde as diferenças devem ser respeitadas. As atuais
políticas de educação especial buscam garantir o acesso, a permanência, a participação e a
109
Ainda, em 2008, foi promulgado o Decreto nº 6.571, que dispõe sobre o Atendimento
Educacional Especializado (AEE), definindo “o conjunto de atividades, recursos de
acessibilidade e pedagógicos organizados institucionalmente, prestado de forma complementar
ou suplementar à formação dos alunos no ensino regular” (BRASIL, 2008). Através desses
documentos entendemos que a educação é direito de todos os educandos, que devem ser
atendidos em suas particularidades. Assim, os profissionais que trabalham com a educação
inclusiva tratam cada criança como única e entendem que cada uma delas necessita de
intervenções únicas para seu pleno desenvolvimento.
A neurociência nos ensina sobre a plasticidade do cérebro, então, sabemos que quanto
antes uma criança receber o diagnóstico e iniciar as intervenções adequadas, mais sucesso ela
terá em seu desenvolvimento. Um laudo não pode limitar uma pessoa. No entanto, com o
diagnóstico podemos compreender as características da criança, entender como ela aprende; o
laudo é o ponto de partida para as intervenções adequadas, permitindo, assim, que elas se
desenvolvam e superem dificuldades.
111
2- RELATO DA EXPERIÊNCIA
ano de 2020 foi realizado concurso público para professor de Educação Especial, assim, estes
profissionais assumirão as Salas de Recursos e os pedagogos continuarão com o trabalho nas
creches e com os alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem.
Esta experiência profissional aqui relatada aconteceu no ano letivo de 2019, em uma
escola da rede municipal da cidade de Franca/SP, com uma criança com diagnóstico de DI
(Deficiência Intelectual). Os envolvidos foram: um aluno com laudo médico de deficiência,
matriculado na Fase II da Educação Infantil, sua professora da sala de aula, a auxiliar/monitora
que o acompanhava durante todo o período de aula, a mãe da criança e a pedagoga (autora desse
relato), que trabalhava na Sala de Recursos da escola. Os instrumentos e procedimentos
utilizados são aqueles que fazem parte da prática profissional, que orientam o trabalho da
pedagoga conforme descrito em seu cargo e função, seguindo as orientações da Secretaria
Municipal de Educação, e que também fazem parte do AEE (Atendimento Educacional
Especializado), que são: observação em todo contexto e ambiente escolar, atendimentos e
avaliação pedagógica realizados com o aluno na Sala de Recursos, registro de conversas com a
professora e com a auxiliar/monitora, conversas com a mãe da criança e orientações para os
profissionais que trabalham com o aluno e também para a família. O trabalho foi desenvolvido
ao longo do ano, em atendimentos na Sala de Recursos Multifuncionais, duas vezes por semana,
em período contrário ao da sala de aula comum. O trabalho também contou com observação
dentro da sala de aula, nas aulas de educação física, nas aulas de música e no recreio. Foram
observadas duas aulas de educação física e duas aulas de música, no primeiro semestre, e duas
de cada disciplina no segundo semestre. As observações em sala de aula corresponderam a seis
aulas durante o ano. As observações e os contatos com o aluno eram também realizados durante
o período de recreio. Ao final de cada aula, e mesmo durante, a pedagoga foi registrando os
comportamentos do aluno e o processo de ensino e aprendizagem.
Nos primeiros atendimentos, a pedagoga já notou que o aluno não apresentava
características compatíveis com o diagnóstico de Deficiência Intelectual, pois para se
considerar uma pessoa com deficiência intelectual, é preciso que haja comprometimento na
questão cognitiva e na questão adaptativa da criança, pois se houver incapacidades em apenas
uma das questões, não se considera como deficiente intelectual, de acordo com Sassaki (1999).
Uma criança com DI apresenta dificuldades na compreensão de ordens simples, regras,
raciocínio lógico e normas, gerando assim dificuldades na aprendizagem. As principais
características apresentadas são: A falta de concentração, dificuldades na comunicação e na
interação, além de uma menor capacidade para entender a lógica de funcionamento das línguas,
113
organizado para ele, por meio do levantamento de dados das conversas com a mãe, com a
professora e com a auxiliar que atendem o aluno, além de tudo o que foi observado na avaliação
pedagógica e em sala de aula.
Diante de toda essa análise, foram encontrados itens de interesse em torno do qual as
tarefas foram organizadas, além de habilidades potenciais do aluno que foram desenvolvidas.
A postura da professora e da auxiliar passaram por algumas mudanças, a rotina foi reestruturada
e as atividades adaptadas. O aluno iniciou terapias com Terapeuta Ocupacional, Fonoaudióloga
e com a Psicóloga terapia em ABA (Análise do Comportamento), que é um método baseado
em evidências, eficaz para pessoas com autismo. Com todas essas intervenções, trabalho
interdisciplinar e parceria entre família, escola e terapeutas, a criança modificou
comportamentos que antes eram inadequados, melhorou a comunicação e interação com outras
crianças e demonstrou maior interesse em realizar as atividades propostas. Essa evolução nos
mostra o quanto é importante um diagnóstico preciso e correto para que haja uma intervenção
adequada, garantindo o direito da criança de aprender e se desenvolver.
3-CONSIDERAÇÕES FINAIS
Espera-se, assim, que o relato dessa experiência possa auxiliar na orientação das ações
e práticas pedagógicas para a inclusão dos alunos com deficiência, garantindo acesso à
educação, transpondo barreiras e mobilizando recursos para a aprendizagem dessas crianças.
REFERÊNCIAS
ARANTES, Valéria Amorim (Org.). Inclusão escolar. São Paulo: Summus, 2006.
BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei brasileira de inclusão da pessoa com
deficiência. Diário Oficial da União, Brasília, DF, p. 2, 7 jul. 2015.
CAMARGO, Síglia Pimentel Hoher; BOSA, Cleonice Alves. Competência social, inclusão
escolar e autismo: revisão crítica da literatura. Psicologia e Sociedade, v. 21, n. 1, p.65-74,
2009.
FARIA FILHO, Luciano Mendes de; GONÇALVES, Irlen Antônio; VIDAL, Daiana
Gonçalves, PAULILO, André Luiz. A cultura escolar como categoria de análise e como
campo de investigação na história da educação brasileira. Educação e Pesquisa, v. 30, n1,
p.139-159, jan-abr 2004.
GARCIA, Rosalba Maria Cardoso. Discursos políticos sobre inclusão: questões para as
políticas públicas de educação especial no Brasil. Anais Anped, 2010.
MANTOAN, Maria Teresa Égler (Org.). Caminhos pedagógicos da inclusão. Como estamos
implementando a educação (de qualidade) para todas as escolas brasileiras. São Paulo:
Memnon, 2001.
PESSOTI, Isaías. Deficiência mental: da superstição à ciência. São Paulo: EDUSP, 1984.
MINAYO, Maria Cecília. O desafio do conhecimento. São Paulo: Hucitec, 2010.
NASCIMENTO, Fabiana Ferreira; CRUZ, Mara Monteiro; BRAUN, Patrícia. Escolarização
de pessoas com transtorno do espectro do autismo a partir da análise da produção científica
disponível na Scielo. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, Tempe, v. 24, n. 125, p. 1-
25, 2017.
NEVES, Anderson Jonas. Escolarização formal e dimensões curriculares para alunos com
autismo: o estado da arte da produção acadêmica brasileira. Educação em Revista, Belo
Horizonte, v. 30, n. 12, p. 43-70, 2014.
NEVES, Libéria. Contribuições da Arte ao Atendimento Educacional Especializado e
inclusão escolar. Revista Brasileira de Educação Especial, Marília, v. 23, n. 4, p. 489-504.
out./dez. 2017.
NUNES, D. R.; AZEVEDO, M. Q. O.; SCHIMIDT, C. Inclusão educacional de pessoas com
Autismo no Brasil: uma revisão da literatura. Revista Educação Especial, Santa Maria, v. 26,
n. 47, p. 557-572, 2013.
OLIVEIRA, Juliana de; PAULA, Cristiane Silvestre de. Estado da arte sobre inclusão escolar
de alunos cm transtornos do espectro do autismo no Brasil. Cadernos de Pós-Graduação em
Distúrbios do Desenvolvimento, São Paulo, v. 12, n. 2, p. 53-65, 2012.
OMOTE, Sadao. Inclusão: da intenção à realidade. Inclusão: intenção e realidade. 2004.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção sobre os direitos das pessoas com
deficiência. Tradução Oficial/Brasil, Secretaria Especial dos Direitos Humanos,
Coordenadoria Oficial da Pessoa Portadora de Deficiência, CORDE. 2006.
RODRIGUES, David. Educação inclusiva: as boas e as más notícias. In: ______. (Org.)
Perspectivas sobre a inclusão: da Educação à Sociedade. Porto: 2001.
UNICEF. Declaração mundial sobre educação para todos e plano de ação para satisfazer
as necessidades básicas de aprendizagem. Tradução: Maria de Lourdes Menezes e outros.
Brasília: CORDE, 1990.
RESUMO
A educação insere-se no contexto social e tecnológico da sociedade da informação. Nela, a
informação é vista como matéria prima para a geração de conhecimento por meio da
disseminação da informação. Nesse contexto, as Tecnologias de Informação e Comunicação,
destacando os meios digitais, abrem um leque de possibilidades de ensino-aprendizagem no
que diz respeito à formação de cidadãos críticos e políticos na tomada de decisões. Objetiva-se,
de forma didática, contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade consciente e
participativa. Assim, o profissional da educação deve se beneficiar dos diferentes meios
tecnológicos para efetuar e efetivar suas tarefas. Acredita-se que a educação inclusiva ganha
relevância a partir do processo de desenvolvimento tecnológico em que a sociedade se insere.
A justificativa deste trabalho está em sua relevância tanto para os profissionais educadores
como para os seus alunos, que, com o aparato das tecnologias digitais têm acesso a dados que
não teriam oportunidade de conhecer se não pelas unidades escolares. Dessa forma, realizou-se
uma revisão da literatura disponível a respeito do assunto, a partir de um levantamento
bibliográfico. Como resultados pode-se dizer a utilização das tecnologias digitais apresentam
um papel efetivo na geração, criação, organização, disseminação e usos inovativos do
conhecimento, potencializando a comunicação entre alunos e professores no ambiente Web.
Logo, o processo de inclusão digital e, consequentemente, social, deve desenvolver-se
conjuntamente com o contexto organizacional interno e externo de uma unidade escolar.
1- INTRODUÇÃO
A educação insere-se contexto social e tecnológico da sociedade da informação. Nela,
a informação é vista como matéria prima para a geração de conhecimento por meio da
disseminação da informação.
Essa informação, no espaço educacional, está relacionada com o conteúdo criado
diariamente em sociedade, ou seja, para que uma pessoa possa estar incluída socialmente, ela
necessita ter acesso a esses dados. Nesse contexto, as Tecnologias de Informação e
120
[...] a estrutura educacional e o modelo de oferta têm que ser construídos de forma
bastante flexível para atender a diferentes situações no tempo e no espaço,
considerando tanto as rápidas mudanças tecnológicas e as necessidades da vida cidadã
como as tendências regionais e do mercado internacional (BERGER, 1999, p. 1).
2-DESENVOLVIMENTO
Observa-se que os meios digitais têm causado um grande impacto na sociedade pelas
suas possibilidades de comunicação sem fronteiras, intercâmbio de conhecimentos e
experiências entre pessoas, grupos e povos, fatores estes que a tornam uma alternativa para a
melhoria da qualidade de vida e bem-estar dos cidadãos. Nesse contexto, surgem iniciativas de
inclusão digital no âmbito da educação, com o objetivo de facilitar o acesso à informação em
diferentes suportes tecnológicos e efetivar a possibilidade de utilizá-las, de modo a gerar
conhecimentos (SANTOS; CARDOSO, 2009).
A inclusão digital no Brasil tem se mostrado crescente, embora ainda haja forte
disparidade entre as regiões do país e as classes sociais. O número de pessoas conectadas a um
computador e à Internet tem aumentado principalmente devido ao avanço do número de escolas
que possuem computadores e do número de pessoas que têm acesso à Internet, seja em casa, no
trabalho, nas unidades educacionais etc. No entanto, a inclusão digital não significa apenas
possibilitar o acesso de uma pessoa a um computador e à Internet, mas;
Para se tratar de inclusão digital, é necessário entender que a exclusão digital não afeta
apenas os indivíduos de nível socioeconômico mais baixo. Ao contrário, a exclusão
digital afeta todos aqueles que não tiveram oportunidade de conhecer e utilizar esses
recursos tecnológicos (VALENTE, 2005, p. 18).
Essa necessidade de se ter uma web acessível parte das alterações do comportamento
informacional que a sociedade tem sofrido com o desenvolvimento das TIC, pois essas
dissolveram as fronteiras nacionais e propiciaram uma nova configuração social, política e
econômica ao transformar a forma como o conhecimento é adquirido, armazenado, processado,
transmitido e disseminado. Dessa forma, o conhecimento ganha centralidade no cotidiano da
sociedade, o que gera a necessidade de novas políticas de inclusão para que o indivíduo se
inclua na sociedade da informação, visando o ideal de convivência e desenvolvimento de estado
e sociedade (CUBILLOS; SILVA, 2009, p. 36).
Pensar em uma inclusão digital, não é simplesmente aprender a utilizar de ferramentas
tecnológicas, mas sim tornar o aluno potencializador frente ao uso e o desenvolvimento destas
tecnologias. Desenvolvendo suas habilidades e competências.
Dessa forma, abranger e disponibilizar o acesso aos diferentes meios informacionais
pode fazer com que as escolas sejam o centro gerador da inclusão digital. Assim, cabe ao
profissional que está inserido nesse contexto, estudar as linguagens e mídias do mundo
contemporâneo, em que o digital se mistura ao eletrônico e ao tradicional, formando uma
sociedade conectada por redes, já que “As novas tecnologias da informação estão integrando o
122
Este transtorno recebe o nome de espectro por envolver manifestações distintas, cujas
características podem se apresentar em conjunto ou isoladamente, numa gradação que vai da
mais leve à mais grave.
O Transtorno do Espectro do Autismo é caracterizado por déficits persistentes na
comunicação social, e interação social em vários contextos, incluindo déficits de
reciprocidade social, comportamentos não-verbais de comunicação utilizados para a
interação social e habilidades no desenvolvimento, manutenção e compreensão das
relações. Além disso a área da comunicação social déficits, o diagnóstico de
transtorno do espectro do autismo
Requer a presença de restritos, repetitivos padrões de comportamento, interesses ou
atividades. Como os sintomas mudam com o desenvolvimento e pode ser mascarado
por mecanismos compensatórios, os critérios de diagnóstico podem ser satisfeitos com
base em informações históricas, embora a apresentação atual deve causar significativa
prejuízo. (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders-V, 2013, p.31,
tradução nossa.)
forma, como iniciar a inserção das TIC com os alunos com TEA? Adotar jogos como meio do
processo de ensino aprendizagem é válido?
Quinteira e Ribeiro (2005) referem que:
As crianças estabelecem os primeiros contactos com os computadores através de jogos
que funcionam como que uma ligação íntima com a máquina, oferecendo-lhe o prazer
de brincar, cativando-a, advertindo-a ao mesmo tempo que aprende a mexer e também
a adquirir conceitos e regras, sem dar por isso. (QUINTEIRA;RIBEIRO, 2005, p.6)
Dada à afirmação, os jogos educativos e softwares com recursos didáticos devem sim
ser utilizados, fazendo com que o usuário aprenda de forma simples e de maneira atrativa por
conta de formatos, sons e cores encontrados.
Um dos objetivos principais da utilização das TIC é fazer com que a relação professor -
aluno seja cada vez mais consolidada dando assim ao usuário a autonomia de comunicação
necessária para que haja êxito nas esferas educacional, social e pessoal, simplificando o meio
de inclusão desse sujeito por conta das tecnologias.
Melo (2013) assegura a importância dessa interação, a fim de encontrar a união da
educação com a cibercultura, em busca de um apoderamento do conhecimento como bem
maior.
Estudos em diversas áreas do conhecimento pontuam qualitativamente o uso das TIC
como facilitador desse processo inclusivo de caráter educacional e social. “Para a maioria das
pessoas, a tecnologia torna a vida mais fácil; para a pessoa deficiente, a tecnologia torna as
coisas possíveis” (SANCHES, 1991, p. 121).
A utilização de hardwares e softwares em sujeitos caracterizados no TEA podem
apresentar vantagens e desvantagens. Como vantagens, citamos no texto acima, o uso de
softwares didáticos – jogos que podem contribuir para com o processo de aprendizagem da
criança, tanta na parte educacional, tanto pessoal, fazendo com que o mesmo passe a
compreender conceitos como regras, espaço e tempo.
Softwares para edição de texto, desenhos, vídeos e fotos também podem auxiliar e, na
maioria das vezes, esse tipo de recurso são estabelecidos pelos produtores do hardware
utilizado (Tablets e Smartphones).
Em alguns casos as TIC oferecem recursos para capacitação através de Realidade
Virtual - tipo de tecnologia avançada que pode oferecer atividades simuladas de situações reais
que podem vir a ser enfrentadas pelos portadores de necessidades especiais.
Desvantagens do uso das Tecnologias de Informação e Comunicação podem existir
quando, por exemplo, o professor não está habilitado a utiliza-las ou faz uso indevido dos
127
recursos oferecidos. Em alguns casos, a utilização demasiada de softwares didáticos pode fazer
com que o indivíduo fique excluso das demais atividades desenvolvidas em sala de aula,
causando assim isolamento social e atraso no processo de aprendizagem.
Outra desvantagem é o fato de que recursos tecnológicos ainda são oferecidos com alto
custo, tornando-se pouco acessíveis a algumas classes sociais de baixo poder aquisitivo.
Portanto, podemos concluir que apesar da inexistência de uma Tecnologia de
Informação e Comunicação (TIC) específica para o indivíduo que se enquadram no Transtorno
do Espectro do Autismo (TEA) – devida a existência de uma gama de possibilidades de
manifestação das características, a utilização de diferentes recursos tecnológicos, tanto de
hardware quanto de software pode sim contribuir para com o desenvolvimento e qualidade de
vida desses indivíduos.
3-CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
BERGER FILHO, R. L.: Educação profissional no Brasil: novos rumos OEI – Ediciones.
Revista Iberoamericana de Educación, Brasil, n. 20, ago,1999. Disponível em:
<www.rieoei.org/rie20a03.htm>. Acesso em: 27 jul. 2020.
EISENBERG, M; LOWE, C. A.; SPITZER, K. L. Information literacy: essential skills for the
information age. 2. ed. London: LibrariesUnlimited, 2004.
PIRES, Raquel Pinho. O impacto das TIC no sucesso educativo de alunos com autismo.
Tese de Doutorado, 2014, 106p.
UNICEF et al. Declaração Mundial sobre Educação para todos. Satisfação das Necessidades
Básicas de Aprendizagem. Jomtiem, 1990.
EIXO TEMÁTICO
Resumo
Historicamente expostas à lógica estrutural de sustento das desigualdades sociais e das
exclusões concretas, é certo dizer que a luta central encabeçada pelas pessoas com deficiência,
como grupo vulnerável, está vinculada à questão de seu reconhecimento enquanto sujeitos de
direitos humanos. A reversão desse status de violação permanente das garantias fundamentais
apenas se faz possível a partir da colocação em prática de iniciativas que promovam a inclusão
e o protagonismo social desses agentes. No entanto, a materialização do estado de inclusão
social necessariamente resvala na construção do sistema capitalista e em suas contradições
intrínsecas, dando origem não a uma inclusão democrática, mas a um modelo mecanicista, que
enxerga as pessoas com deficiência como parte das engrenagens capitalistas. A partir desse
problema, o presente trabalho tem por finalidade analisar a ideia de inclusão mecânica em face
das contradições naturais ao sistema capitalista, tendo como pano de fundo a questão dos
direitos humanos e do reconhecimento das pessoas com deficiência. Emprega-se o método
dedutivo, mediante uso de revisão bibliográfica. Dentre os resultados encontrados, pode-se
afirmar que a estrutura violatória que atinge os direitos das pessoas com deficiência representa
um desafio que atravessou a história do grupo e que ainda não se encerrou, de modo que é
necessário buscar a efetivação de um quadro sólido de garantias que permita o rompimento com
o modelo de inclusão mecânica, serviente ao capitalismo e que se convola em uma idealização
falseável, a fim de fundamentar os direitos de cidadania do grupo em questão. Conclui-se que
as lutas por reconhecimento representam uma categoria jurídico-social necessária para
desnudar a situação de marginalização das pessoas com deficiência no contexto capitalista, tal
como para romper com o aprofundamento das desigualdades a partir da ótica mecanicista e
transformá-la em um modelo democrático.
1-INTRODUÇÃO
Em virtude da exposição histórica a fatores de desigualdade e inacessibilidade aos seus
direitos humanos, as pessoas com deficiência são consideradas sujeitos pertencentes à categoria
dos grupos vulneráveis, por experimentarem cotidianamente, desde a antiguidade, episódios de
completa invisibilidade social, nos quais se verifica um alto grau de dependência dessas pessoas
em relação às ações integracionistas ou inclusivas promovidas pela própria sociedade. No
período contemporâneo, considerado mais progressivo em relação aos anteriores, nota-se que
132
houve um ganho em termos de afirmação dos direitos humanos dos indivíduos desse grupo, de
modo que a inclusão social passou a ser considerada uma base essencial para a materialização
do estado de cidadania plena.
Ainda que a (re)construção dos direitos humanos no cenário pós-guerra tenha fomentado
novos olhares para grupos marginalizados, certo é que o ideal de cidadania não foi alcançado.
Ao se falar nas pessoas com deficiência de forma específica, recupera-se uma série de preceitos
que se traduzem em impedimentos históricos em relação ao acesso a direitos. No âmbito deste
trabalho, parte-se da premissa de que as pessoas com deficiência estão inseridas em duas ordens
distintas de inclusão social: de um lado, tem-se a perspectiva democrática, que representa um
verdadeiro estado de inserção dessas pessoas em sociedade, acompanhadas do reconhecimento
formal e material de seus direitos humanos; de outro, vislumbra-se a inclusão mecânica, que se
vincula à lógica capitalista de produção e que reduz a pessoa com deficiência a uma condição
de mera engrenagem do sistema em questão.
Para isso, tomam-se as seguintes questões como problemas de pesquisa: a) tendo como
referencial o entendimento sobre os direitos humanos na contemporaneidade, a introdução das
pessoas com deficiência na lógica capitalista é suficiente para fomentar uma verdadeira inclusão
social?; b) a manutenção dos elementos produtores das desigualdades sociais no capitalismo
dificulta uma inclusão democrática e pautada em critérios de respeito aos direitos humanos? A
partir desses questionamentos, o objetivo deste trabalho é analisar a concepção de inclusão
mecânica em cotejo com as regras do sistema capitalista, tendo como recorte a questão dos
direitos humanos das pessoas com deficiência.
2-METODOLOGIA
O presente trabalho emprega o método dedutivo, mediante revisão bibliográfica de
caráter exploratório. A fim de atingir satisfatoriamente os objetivos traçados, a literatura
selecionada segue o recorte de teóricos que acompanham a vertente crítica dos direitos humanos
das populações vulneráveis e dos estudos da deficiência (disability studies), em campo nacional
ou internacional.
ratificar a existência da pessoa com deficiência enquanto pessoa pelo simples fato de sê-la, sem
levar em consideração seus méritos ou seu caráter (HONNETH, 2003), extirpando o modelo
corponormativo e remetendo a deficiência para segundo plano.
Adotada como rota epistemológica para as lutas contemporâneas por direitos humanos
lideradas pelas pessoas com deficiência, a proposta de reconhecê-los enquanto novos sujeitos
de direitos favorece a ascensão social desse grupo, permitindo com que saiam da esfera da
marginalização e adentrem aos meandros das garantias jurídico-sociais fundamentais, como
destinatárias e protagonistas de direitos e de sua própria inclusão social. A ausência de
reconhecimento e efetivação dos direitos humanos das pessoas com deficiência ocasiona a
lógica de opressões sociais e fundamenta a retirada da autonomia dessas pessoas, criando
embaraços frente à necessidade de acesso a posições sociais de destaque. A finalidade do
reconhecimento de direitos opera em duas direções, dissolvendo as causas culturais
responsáveis pela manutenção das desigualdades entre pessoas com e sem deficiência e
combatendo os efeitos em cascata que surgem das violações de direitos, como as discriminações
simbólicas e materiais ou as invisibilidades.
A fundamentalidade da busca por ascensão social e materialização de garantias já
formalizadas em tratados e convenções internacionais e em documentos constitucionais parte
da ideia de que os direitos humanos são parcelas de um projeto não encerrado, de uma missão
social que pesa única e negativamente para o lado das populações vulneráveis.
Contemporaneamente, constitui um importante exercício reflexivo a suspensão cética do caráter
universalista atribuído aos direitos humanos, o que permite enxergar que as condições materiais
fizeram dessas garantias uma simplória falácia, que não se concretiza em virtude do fato de que
as pessoas com deficiência, como objeto de análise adotado neste trabalho, possuem níveis de
acesso a direitos fundamentais deveras reduzidos. Assim, impende reconhecer os direitos
humanos como "formas de vida humana concreta, corporal, material, que a partir do olhar das
vítimas revela a ambiguidade da universalidade que lhes é atribuída, desmascarando sua
utilização quando empregados para legitimar o sistema" (CARVALHO; ESTÊVÃO, 2013, p.
422).
Na condição de contracultura brasileira à lógica de universalismos de fachada nos
direitos humanos, em meados da década de setenta, as pessoas com deficiência passaram a se
organizar sob a forma de movimento político e social (LANNA JÚNIOR, 2010),
compartilhando entre si valores de luta e experiências históricas de exclusões concretas, a fim
de expressar socialmente a negação de acesso a seus direitos humanos, especialmente em
135
tempos nos quais eram vigentes modelos legislativos que prezavam pela construção de normas
afetas à habilitação e reabilitação das pessoas com deficiência, em uma orientação
corponormativa.
Sob a forma de instância popular questionadora dos bolsões de desigualdade e
responsável por plantar a semente da inclusão democrática na sociedade brasileira, a
consolidação do movimento social em questão permitiu um acesso primário aos direitos
humanos por parte das pessoas com deficiência, ainda que de forma rasa e incompleta.
Certamente, a principal referência que sintetiza os primeiros resultados práticos obtidos pelas
pessoas com deficiência diz respeito à realização do I Encontro Nacional de Entidades de
Pessoas Deficientes, em 1980, concomitantemente ao início do fracasso paulatino do regime
militar brasileiro. O evento teve por finalidade discutir pioneiramente os problemas da
visibilidade do grupo e aspectos da acessibilidade universal (CRESPO, 2009), o que viria a se
concretizar no plano legislativo somente nos anos 2000.
O histórico social das lutas promovidas pelas pessoas com deficiência e em nome delas
no âmbito brasileiro ou estrangeiro se encontra intimamente vinculado à adoção de uma postura
emancipatória em direitos humanos. A participação das pessoas com deficiência enquanto um
movimento em prol da cidadania elege os direitos humanos como palavra de ordem, visando à
extrapolação da perspectiva puramente formalista, engessada em documentos jurídicos, a fim
de expressar uma filosofia social de reconhecimento das diferenças e dos direitos que se aplicam
a essas desigualdades, como meio de suplantá-las e garantir a igualdade material no caso
concreto. Em última instância, o reconhecimento da condição de sujeitos de direitos permite a
alocação das pessoas com deficiência em um estado de inclusão social democrático, de respeito
e de propostas antidiscriminatórias, com vistas a inserir essas vidas humanas no contexto das
cidadanias civil, política e socioeconômica.
legalista e contrária às propostas insurgentes, que se construiu ao redor das falhas no processo
de materialização de garantias fundamentais, trouxe à tona a necessidade de substituição do
paradigma vigente em direitos humanos, a fim de abandonar o estado de inaptidão em ofertar
respostas efetivas às novas demandas por direitos e atingir um modelo capaz de identificar e
combater as assimetrias e desigualdades, tomando a gramática dos direitos humanos como
palavra de ordem e mecanismo de resistência.
A nova formatação dos direitos humanos na contemporaneidade foi consubstanciada
por dois pressupostos, sendo o primeiro a criação de uma rígida arquitetura normativa
internacional de proteção, que contempla um nível universal e diferentes sistemas regionais, e
o segundo a superação filosófica do paradigma clássico de direitos humanos, que inseria
obstáculos e oposições à eleição dessas garantias enquanto elementos universais, ante a
dificuldade de acesso a direitos por determinados grupos marginalizados, o que deu origem a
uma perspectiva racional pós-positivista e assentada na tentativa de romper com a separação
entre teoria e prática, sobretudo (WOLKMER, 2015). A eclosão dessas premissas foi essencial
para a formatação de uma nova era de direitos humanos, conforme terminologia empregada por
Bobbio (2004), cujo mote é o respeito aos valores democráticos e pluralistas e a promoção da
inclusão social de grupos historicamente excluídos, fornecendo não apenas a possibilidade de
participação nos projetos coletivos, mas também garantindo a intitulação desses indivíduos
como sujeitos de direitos.
Dentre os agrupamentos classificados como vulneráveis, destacam-se as pessoas com
deficiência em virtude das dificuldades estruturais que enfrentam em relação aos processos de
reconhecimento e materialização de direitos (LEITE, 2012), questões que passaram a ser
observadas sob a ótica dos direitos humanos no cenário internacional e brasileiro tão somente
em meados da década de setenta, quando se operou uma mudança de paradigma da deficiência,
passando do modelo biomédico para o social 16, e houve a entrada em vigor dos primeiros
documentos relativos à tutela setorial ou integral dessas pessoas. A estruturação e a
identificação de um quadro de violações e afastamentos das pessoas com deficiência em face
de seus direitos humanos, como elemento que atravessou a história dessa população, estão
relacionadas a três fatores principais, que foram desnudados a partir da ação organizada do
16
O modelo biomédico tem como premissa a questão corponormativa, uma vez que busca estabelecer processos
de habilitação e reabilitação às pessoas com deficiência, como forma de superação de suas limitações. Assim, a
deficiência e suas decorrências são vistas somente no aspecto corporal da pessoa, não levando em consideração
outros fatores que influenciam essa equação. Por outro lado, o modelo social preza pela verificação das limitações
não na pessoa com deficiência, mas sim no ambiente, que, a depender das condições de acessibilidade, é
considerado inclusivo ou não.
137
movimento político e social das pessoas com deficiência a favor da conquista, reconhecimento
e efetivamente de direitos, dando origem ao que denominamos neste trabalho de tripé
paradigmático das violações dos direitos humanos das pessoas com deficiência. Essa tripartição
é informada pelas discriminações históricas, estruturais e recreativas; pela ausência de vontade
político em concretizar direitos; e pela heterogeneidade do grupo como um fator para a
dissipação das políticas públicas.
Em primeiro lugar, enxerga-se um processo histórico de discriminações contra as
pessoas com deficiência, fator que é denunciado pela própria análise da linha temporal do
desenvolvimento dos direitos desse grupo, que vivenciou até instantes da contemporaneidade
diferentes fases de completo apagamento social e redução da importância desses atores. O
itinerário de apresentação das conquistas das pessoas com deficiência em relação aos seus
direitos confunde, até certo ponto e apesar da inserção da trajetória do grupo como narrativa
paralela aos fatos mais relevantes, com a própria história da sociedade ocidental, uma vez que
as menções a essas pessoas se dão desde os primeiros tempos. O percurso das pessoas com
deficiência da antiguidade até a contemporaneidade, em que a ideia de direitos humanos foi
alargada, é marcado ora por trechos de exclusões concretas, ora por períodos em que se
sociedades inclusivas foram esboçadas (DINIZ, 2007; HUGHES, 2008).
Para além da exposição às discriminações materiais, responsáveis por furtar das com
deficiência o acesso aos direitos humanos, é preciso sinalizar a existência de discriminações
simbólicas, as microagressões, que se referem a menosprezos e insultos verbais que estão
presentes no cotidiano de grupos que não partilham de características estéticas, culturais ou de
gênero presentes em grupos hegemônicos (MOREIRA, 2019). Em relação às pessoas com
deficiência, uma das principais violências simbólicas diz respeito às referências jocosas, como
as diferentes formas de apelido atribuídas a esses indivíduos, refletindo percepções
socioculturais que indicam a superioridade e a inferioridade de um grupo em relação a outro,
posto em desvantagem social e, consequentemente, inacessibilidade aos direitos humanos.
Nesse sentido, a normalização de práticas preconceituosas contra pessoas com deficiência dá
origem a uma exclusão recreativa – para utilizar um jogo de palavras com a terminologia
pensada por Adilson Moreira (2019).
Em segundo plano, enxergamos uma histórica ausência de vontade (e necessidade)
política em concretizar direitos das pessoas com deficiência, enquanto uma problemática que
se estende à realidade de outros grupos vulneráveis e minoritários, como a população negra ou
as pessoas em situação de rua. Essa estrutura está tensionada em dois pontos distintos: de um
138
lado, têm-se os problemas das desigualdades do capitalismo como questões que também
atingem o âmbito político; de outro, a separação cultural entre teoria e prática dos direitos
humanos das pessoas com deficiência. Assim, as assimetrias apresentadas pelo sistema
capitalista permitiram o aprofundamento da inclusão mecanicista, que se forma em seu centro,
uma vez que, sob a justificativa da necessidade de incluir socialmente as pessoas com
deficiência, cria-se uma maquiagem para encobrir as verdadeiras intenções da inserção desses
indivíduos em diferentes espaços sociais no capitalismo, modelo em que servirão não como
sujeitos de direitos por excelência, mas como engrenagens de um modelo político-econômico,
ocasionando a dificuldade dos vieses políticos comprometidos com as demandas das
populações vulneráveis em alterar essa sistemática. Em outro viés, tem-se a mentalidade social,
jurídica e política que tende a separar a teoria e a prática e o respeito de direitos em
determinados casos e o desrespeito em outros.
Nos movemos en una bipolaridad que nos permite respetar y reconocer los derechos
en algunos casos y, por ello, presumir alegremente que somos ejemplo de
universalidad, de civilización, de progreso y de esperanza para la humanidad y,
simultáneamente justificar el incumplimiento de los derechos en otros casos o,
incluso, ignorar y desconocer la existencia de otros derechos cuando afectan a
determinados colectivos que son prescindibles por razones de estado, de seguridad,
de fuerza mayor, por motivos sexuales o por criterios de desarrollo o de
competitividad establecidos por el sistema económico y mercantil propio de nuestras
sociedades capitalistas 17. (RUBIO, 2014, p. 14)
17
Tradução livre: Nos movemos em uma bipolaridade que nos permite respeitar e reconhecer direitos em alguns
casos e, portanto, presumir alegremente que somos um exemplo de universalidade, civilização, progresso e
esperança para a humanidade e, simultaneamente, justificar a violação de direitos em outros casos ou, até, ignoram
e ignoram a existência de outros direitos quando afetam certos grupos que são dispensáveis por razões de estado,
segurança, força maior, por razões sexuais ou de acordo com critérios de desenvolvimento ou competitividade
estabelecidos pelo sistema econômico e mercantil próprio de nossas empresas capitalistas.
139
pessoas com deficiência. A inserção do sujeito em sociedade é realizada sem realmente levar
em consideração suas necessidades específicas e a orientação pluralista da inclusão, segundo
os direitos humanos. O modelo do mecanicismo inclusivo se mostra incapaz de romper com os
elementos construtores das assimetrias sociais (PINA, 2010) pelo fato de constituir a principal
fonte de introdução das pessoas com deficiência nas engrenagens capitalistas. Distanciada da
crítica, a emergência da inclusão mecânica impôs o descobrimento de uma estrutura em que
pessoas com deficiência passaram a ser enxergadas como um risco à normalidade predatória do
capitalismo, sobretudo pela incapacidade de produzirem e consumidores na mesma escala que
pessoas sem deficiência. A continuidade da dominação capitalista apenas foi possível graças à
montagem de estruturas de poder e desigualdade, responsáveis por manter as pessoas com
deficiência distantes do modelo de cidadania.
O mecanicismo inclusivo das pessoas com deficiência não intenta trazê-las para uma
verdadeira sociedade inclusiva, senão apenas inseri-las na racionalidade de mercado, como
parte de um sistema que tudo transforma em mercadoria, o que não seria diferente em relação
à força de trabalho das pessoas com deficiência, por exemplo. Ao invés de assegurar uma
sociedade materialmente igualitária e com distribuição de oportunidades, o recurso permite a
deturpação do conceito de inclusão social, fazendo com sejam camufladas as contradições e
desigualdades produzidas pelo capitalismo em face das pessoas com deficiência, enquadradas
como corpos desviantes da disciplina do capital (PINA, 2010). Em última instância, significa
dizer que a dita "sociedade inclusiva" não constitui um novo modelo de sociedade, já que não
ocorre o rompimento com os fatores de desigualdade, mas sim o surgimento de um capitalismo
menos selvagem e mais humanizado, simbolicamente preocupado com a inclusão dos grupos
vulneráveis.
Compreendemos que a superação dos falsos processos de inclusão, que terminam por
promover episódios de exclusão concreta das pessoas com deficiência, necessariamente
perpassa por dois roteiros: em primeiro lugar, tem-se o emprego da gramática de direitos
humanos como mecanismos emancipatórios para grupos considerados vulneráveis, uma vez
que a materialização de garantias formalmente previstas em documentos jurídicos representa a
expressão da nova era de direitos humanos; em segundo, destaca-se a consolidação de um
modelo de inclusão democrática, que insere as pessoas com deficiência como pares da
sociedade, fazendo com que desfrutem de uma posição igualitária em termos formais e
materiais, reconhecendo que são detentoras de direitos humanos e que sua participação nos
projetos sociais é indispensável. A inclusão democrática não apenas rompe com o modelo
141
mecanicista, desvendando suas verdadeiras finalidades ao propor uma inclusão falseável das
pessoas com deficiência, mas também evidencia a possibilidade de uma sociedade realmente
inclusiva, como aquela capaz de se adaptar e valorizar as diferenças.
Assim, a inclusão democrática implica que os grupos marginalizados e historicamente
excluídos da gramática de direitos assumam seus papeis e tomem partes centrais da ideia de
desenvolvimento social, o que, em relação às pessoas com deficiência, faz com que estejam
presentes em todos os espaços sociais, gozando de acessibilidade e níveis satisfatórios de
inclusão social, autonomia e independência. Além disso, esse paradigma inclusivo também
propulsiona as pessoas com deficiência a participarem de forma ativa na construção de políticas
públicas que lhes digam respeito, como faceta vinculada ao direito à consulta das populações
vulneráveis. Portanto, o desfazimento dos efeitos da inclusão social mecanicista leva o grupo
das pessoas com deficiência a uma posição de empoderamento e reconhecimento de seus
direitos, permitindo o desnivelamento e a concordância com práticas que, sob a retórica da
inclusividade, cria situações de exclusões concretas e vinculadas ao capitalismo.
6-CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na condição de sujeitos vulneráveis, as pessoas com deficiência se encontram
historicamente expostas a uma conjuntura de violações de direitos humanos, o que faz com que
as assimetrias entre grupos hegemônicos e subjugados sejam ainda mais densas e presentes sob
a forma de exclusões concretas e materializadas na realidade. Essa estrutura violatória constitui
um desafio ainda não superado pelo grupo em questão, apesar de seus notórios esforços no
sentido político, jurídico e social, fazendo com que se espraiasse para a vivência contemporânea
das pessoas com deficiência, cuja luta cotidiana não é estanque ao combate às discriminações,
mas também abrange o rompimento com o modelo das inclusões mecanicistas e a superação de
outros pontos presentes no tripé paradigmático.
Parte de um projeto de idealizações e falsas promoções de direitos humanos, o que
denominamos neste trabalho de "inclusão mecânica" representa verdadeira afronta a garantias
dessas natureza, na medida em que falseia a própria noção clássica de inclusão social e autoriza
a introdução das pessoas com deficiência como pontos fundamentais do sistema capitalista,
ocasionando prima facie uma falsa inclusão e, em consequência, a atribuição velada da
condição de corpos desviantes das necessidades do capital às pessoas com deficiência, por não
constituírem potencial mão de obra e consumidores. A luta social cotidiana encabeçada pelas
pessoas com deficiência, que tem por finalidade derrubar o modelo mecanicista de inclusão
142
REFERÊNCIAS
HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. Trad.
Luiz Repa. São Paulo: Editora 34, 2003.
HUGHES, Bill. Disability and body. In: BARNES, Colin; OLIVER, Mike; BARTON, Len
(Orgs.). Disability studies today. 2. ed. Cambridge: Polity Press, 2008.
LANNA JÚNIOR, Mário Cléber Martins (Comp.). História do movimento político das
pessoas com deficiência no Brasil. Brasília: Secretaria de Direitos Humanos; Secretaria
Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, 2010.
LEITE, Flávia Almeida Piva. A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência:
amplitude conceitual. Revista de Direito Brasileira, v. 3, n. 2, p. 31-53, 2012.
MOREIRA, Adilson José. Racismo recreativo. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.
PINA, Leonardo Docena. Sociedade inclusiva: a face aparente do capitalismo em uma nova
fase. Filosofia e Educação, v. 2, n. 1, p. 127-149, abr./set. 2010.
143
RUBIO, David Sánchez. Crítica a una cultura estática y anestesiada de derechos humanos: por
una recuperación de las dimensiones constituyentes de la lucha por los derechos. Revista
Derechos y Libertades, v. 33, n. 1, p. 99-133, 2015.
SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. 7. ed. Rio de
Janeiro: Editora WVA, 2006.
VIVARTA, Veet. Mídia e deficiência. Brasília: Agência de Notícias dos Direitos da Infância
e Fundação Banco do Brasil, 2003.
WOLKMER, Antônio Carlos. Introdução ao pensamento jurídico crítico. 9. ed. São Paulo:
Saraiva, 2015.
144
RESUMO
Este artigo busca desenvolver uma reflexão sobre os Sistemas Regionais de Proteção aos
Direitos Humanos e seus impactos na vida das pessoas com deficiência. Para tanto discute-se a
efetividade dos Tratados Internacionais de Direitos Humanos e o nível de desenvolvimento de
cada continente, importa ressaltar que procurou-se elencar os Tratados Regionais adotados em
especial por países lusófonos (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial,
São Tomé e Príncipe, Moçambique, Portugal e Timor Leste). É importante destacar que houve
um significativo avanço propiciado pela difusão dos Direitos Humanos e pelas Convenções e
Tratados Internacionais, impulsionado também pela luta política e social das pessoas com
deficiência. É possível apreender que a questão da pessoa com deficiência tem apresentado
avanços, em especial onde há sistemas de Direitos Humanos mais desenvolvidos e
culturalmente assimilados por seus povos. Trata-se de uma pesquisa documental e bibliográfica
de cunho qualitativo.
1-INTRODUÇÃO
A pessoa com deficiência é definida, pela Convenção dos Direitos das Pessoas com
Deficiência, como “aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, intelectual
ou sensorial os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação
plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”. É
incontestável a necessidade de pontes que concedam acesso dos integrantes desse grupo às
relações sociais fundamentais impostas pela conjuntura atual, pontes as quais deveriam ser
oferecidas pelo Estado, como ator portador de deveres em relação ao Sistema Internacional e,
principalmente, ao seu povo. (ONU, 2008)
No censo demográfico de 2010, o IBGE identificou 45,6 milhões de brasileiros com
algum tipo de deficiência, constituindo mais de 20% da população, população esta, que apesar
145
de ter alcançado avanços legislativos e formais no país, têm ainda, um longo caminho a
percorrer para que de fato tenham seus direitos garantidos.
Houve um significativo avanço propiciado pela difusão dos Direitos Humanos e pelas
Convenções e Tratados Internacionais, impulsionado também pela luta política e social das
pessoas com deficiência. No entanto, apesar dos direitos das pessoas com deficiência estarem
integrados à pauta política, verifica-se ações retrógradas que vão de encontro aos esforços
despendidos com vistas à cidadania, é o caso dos novos critérios sugeridos pelo Grupo de
Washington de Estatísticas sobre Deficiência, os quais defendem uma classificação baseada no
grau de dificuldade e relação entre as pessoas com deficiência e as barreiras existentes. Assim,
alguém com impedimento de longo prazo, mas que frequente a escola ou trabalhe, não seria
incluído nos censos: alterando de 23,9% para 6,7% da população. (IBGE, 2010) (APAE, 2019)
A alteração dos critérios estatísticos utilizados tem rebatimento direto na efetivação dos
direitos conquistados, visto que as políticas públicas são forjadas a partir de dados estatísticos,
dessa forma, a redução drástica (equívoca e falaciosa) do número de pessoas com deficiência
no Brasil trará rebatimentos diretos no financiamento de políticas e ações especializadas,
reiterando a perspectiva neoliberal posta. Ou seja, objetiva-se a redução de direitos bem como
a omissão do Estado para com seu povo.
Na escrita egípcia, a mais remota das que foram encontradas, em estudos sobre
tratamentos registrados na Escola de Anatomia da cidade de Alexandria e nos corpos
mumificados da época que apresentam limitações físicas e problemas de nutrição, são
encontrados sinais de indivíduos com deficiência e que, de alguma maneira foram integrados
às ocupações daquela sociedade. Na Grécia Antiga, as condutas variavam entre as Cidades-
Nação e até mesmo dentro de suas fronteiras: em Esparta, claramente militarista, paralelamente
aos vários casos de amputação decorridos dos muitos conflitos, as crianças nascidas com algum
tipo de deficiência eram lançadas num precipício, alegando que não seria bom nem para elas
mesmas nem para a república, pois os cidadãos deveriam se tornar guerreiros naquele contexto,
enquanto em Atenas, os deficientes eram amparados pela sociedade, por influência de
Aristóteles. (SILVA, 1987)
Outra menção feita às pessoas com deficiência foi feita no Código de Manu, a legislação
indiana de aproximadamente 1500 a.C., na qual esse grupo de pessoas não eram aceito como
146
aumentando e marginalizando ainda mais esse grupo, antes de dizimar quase metade da
população europeia da época. (SILVA, 1987)
O Renascimento promoveu o avanço da ciência e o reconhecimento do valor humano,
cultivando assim uma filosofia humanista e direitos ditos universais. A partir do século XVI,
foi admitido que as pessoas com deficiência necessitavam de atenção e assistência própria e
que não era prudente as enquadrar restritamente a uma parte da massa pobre e excluída. Nesse
período, foram construídos, em países europeus, centros de atendimento especializados no
tratamento deste grupo, um sinal e um motivador para que a sociedade passasse aos poucos, a
reconhecê-los como seres humanos, porém a discriminação não foi extinguida por completo.
(SILVA, 1987)
Nos Estados Unidos, a partir do século XIX, já são tomadas várias medidas para o
auxílio de soldados que viriam a se machucar em conflitos a adquirir limitações físicas. Tais
decisões se expandiram a fim de cobrir o grupo de pessoas com deficiência como um todo, mas
é claro que a motivação para isso foi o advento dos veteranos de guerras, os quais são
extremamente valorizados na sociedade beligerante estadunidense. O século seguinte foi
marcado pelas Guerras Mundiais que extrapolaram a quantidade de indivíduos lesionados e
urgiram providências mais efetivas em todo o mundo.
Vale destacar que o Nazismo teve seu início como um projeto estético: Hitler não
gostava de nada que não se encaixasse no padrão ariano de beleza e, portanto, as pessoas
deficientes, chamados pela doutrina de “degenerados”, foram um de seus primeiros alvos.
Foram disseminadas “pesquisas” as quais “provaram” que os deficientes eram apenas um peso
para o Estado e para os alemães “direitos”, logo providências foram tomadas: os funcionários
públicos que apresentavam algum tipo de deficiência foram demitidos, promoveram a
esterilização desse grupo e por fim, foi aprovada a Lei da Eutanásia (1941) a qual constatava
que essas pessoas não tinham “vontade de viver” e por isso, o governo estava fazendo um favor
ao matá-las. Mas as atrocidades mais chocantes foram cometidas em “experimentos científicos”
levados a cabo por médicos nazistas, como Josef Mengele. (SILVA, SPELLING 2017)
Depois da Segunda Guerra, o Welfare State surgiu e, com ele, uma nova onda de
políticas públicas promoveu importantes mudanças no âmbito social. Somado a esse novo
direcionamento, há a grande quantidade de vítimas sobreviventes dos conflitos e demanda pela
estruturação e divulgação dos Direitos Humanos, aspectos que fomentaram debates políticos e
mais tarde, ações tanto no cenário interno quanto no cenário internacional, que contava com a
proliferação de Organizações Internacionais, como a ONU. Em 1948, a Organização das
148
Nações Unidas lança a Declaração Universal dos Direitos Humanos que, mesmo sendo criticada
pela visão claramente europeia ocidental, marca um amadurecimento das civilizações e de sua
sensibilidade em relação às minorias. (GARCIA, 2012)
[...] ampliaram sua linha de atuação para além da reabilitação médica, assumindo a
educação das pessoas com deficiência. Até 1950, segundo dados oficiais, havia 40
estabelecimentos de educação especial somente para deficientes intelectuais (14 para
outras deficiências, principalmente a surdez e a cegueira) (GARCIA, 2012).
4-TRATADOS INTERNACIONAIS
150
quanto Timor-Leste não ratificaram a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com
Deficiência. Os demais se comprometeram com o documento, o qual declara
O propósito da presente Convenção é promover, proteger e assegurar o exercício
pleno e equitativo de todos os direitos humanos e liberdades 22 fundamentais por
todas as pessoas com deficiência e promover o respeito pela sua dignidade inerente.
(ONU, 2006)
O cidadão portador de deficiência goza dos mesmos direitos e está sujeito aos mesmos
deveres dos demais cidadãos, com ressalva do exercício ou do cumprimento daqueles
para os quais se encontre impossibilitado em razão da deficiência. 2) O Estado, dentro
das suas possibilidades, promove a proteção aos cidadãos portadores de deficiência,
nos termos da lei. (TIMOR-LESTE, 2002)
Mesmo que poucas instituições tenham de fato efetivado as recomendações, o país conta
com o Centro Nacional de Reabilitação de Timor-Leste e com algumas ONGs que trabalham
junto a iniciativas privadas. Somado ao número reduzido desses centros há a desinformação em
meio a população sobre os existentes, além da potencial dificuldade daqueles que moram em
áreas afastadas de chegar até eles e dos escassos recursos deslocados para tal grupo. Em termos
internacionais (a falta de um sistema regional visando amparo aos Direitos Humanos já foi
destacada), o Estado é signatário de sete acordos de Direitos Humanos que alcançam as pessoas
com deficiência, entre eles a Convenção sobre os Direitos da Criança. (OLIVEIRA, 2017)
Já Portugal, Estado-membro da União Europeia (EU), é parte na Convenção das Nações
Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CNUDPD), importante tratado que
154
entrou em vigor na União Europeia em Janeiro de 2011. A UE tem cerca de 20% de sua
população com algum tipo de deficiência, e empenha-se em melhorar a sua qualidade de vida,
buscando a melhoria da situação social e econômica deste segmento populacional, para isso
baseia suas ações a partir da Carta dos Direitos Fundamentais da EU e no Tratado sobre o
Funcionamento da UE. (COMISSÃO EUROPEIA, 2020)
Como estratégia de ação, a Comissão Europeia (CE) busca sensibilizar toda a sociedade
sobre os inúmeros desafios com que as pessoas com deficiência se deparam na sua vida
cotidiana, além do desenvolvimento de instrumentos que visem a melhoria de suas vidas.
Também presta apoio financeiro à organizações de pessoas com deficiência, ao mesmo tempo
em que essas organizações são chamadas a se pronunciar sobre o desenvolvimento da legislação
e de políticas específicas voltadas às pessoas com deficiência, buscando a cidadania e
participação das pessoas com deficiência (COMISSÃO EUROPEIA, 2020).
5-CONSIDERAÇÕES FINAIS
É possível apreender que a questão da pessoa com deficiência tem apresentado avanços,
em especial onde há sistemas de Direitos Humanos mais desenvolvidos e culturalmente
assimilados por seus povos. Destaca-se que a União Africana é recente, mas a carta de Banjul
caracteriza o início de um processo de desenvolvimento de garantia de direitos das pessoas com
deficiência naquele território, sendo o primeiro passo para a criação de um Sistema de Direitos
Humanos.
Ressalta-se que os Sistemas Regionais de Direitos Humanos apresentam suas
especificidades de acordo com aspectos sociais, econômicos, culturais e políticos de cada
território, mesmo tendo como base comum a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com
deficiência (ONU).
REFERÊNCIAS
CONTEÚDO JURÍDICO. Direitos humanos e proteção dos direitos das pessoas com
deficiência: evolução dos sistemas global e regional de proteção. Disponível em:
http://www.conteudojuridico.com.br/consulta/Artigos/41408/direitos-humanos-e-protecao-
dos-direitos-das-pessoas-com-deficiencia-evolucao-dos-sistemas-global-e-regional-de-
protecao. Acesso em: 10 jun. 2020.
EL PAÍS. Os 45 milhões de brasileiros com deficiência física são os novos párias. Disponível
em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/08/opinion/1557340319_165119.html. Acesso em:
9 jun. 2020.
FIGUEIRA, Emílio. Caminhando em Silêncio: Uma introdução à trajetória das pessoas com
deficiência na História do Brasil. 2. ed. São Paulo: Giz Editorial, 2008. p. 17-119.
ONU. Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Disponível em:
http://www.pcdlegal.com.br/convencaoonu/wp-
content/themes/convencaoonu/downloads/ONU_Cartilha.pdf. Acesso em: 8 jun. 2020.
SILVA, D.; SPELLING, G. W. Práticas e discursos aplicados pelo regime nazista sobre surdos
na Segunda Guerra Mundial: Nazi's practices and discourses about the deaf in the second world
war. RE-UNIR Revista do centro de Estudos da Linguagem da Fundação Universidade
Federal de Rondônia, Rondônia, v. 5, n. 2, p. 157-168, dez./2018. Disponível em:
https://www.periodicos.unir.br/index.php/RE-UNIR/article/view/3904. Acesso em: 11 jun.
2020.
RESUMO
Inicialmente, a pessoa com deficiência passou pelo processo de integração, que foi marcado
pelas práticas de segregação, que compreende a exclusão dos alunos com deficiência do ensino
regular, que tinham dificuldade de aprendizagem ou de adaptabilidade. Com o modelo social,
surge a inclusão, que é responsável pela inserção da pessoa com deficiência na sociedade,
independentemente de suas limitações, pois este processo está pautado pelos princípios da não-
discriminação e da igualdade, devendo, portanto, eliminar qualquer tipo de obstáculo que
impossibilite a pessoa com deficiência de exercer a cidadania. O presente trabalho tem por
objetivo explicitar o processo de inclusão, abordando o direito a educação inclusiva no ensino
regular. Este estudo utilizou-se de uma pesquisa bibliográfica e documental, por meio da análise
e organização dos dados presentes na literatura em livros, revistas, artigos eletrônicos, bem
como um estudo frente toda a legislação pertinente a matéria. Utilizou-se o método qualitativo
ao ser apresentado um estudo conceitual sobre o assunto e dedutivo pelo fato de se confrontar
os dados obtidos pela pesquisa com o que se tem já estabelecido sobre o tema. A inclusão é
responsável por ofertar a todas as pessoas no tocante à educação, uma educação de qualidade,
pautada nos princípios da não-discriminação, da democracia e da igualdade. Ao passo que a
inclusão é aceita pela sociedade, as pessoas com deficiência vão sendo reconhecidas como
sujeitos de direitos, e dentre esses direitos, aborda-se de forma mais veemente, o direito a
educação. Foi a partir do processo de inclusão que pode-se traçar um modelo de educação
universal e de qualidade, em que todas as pessoas, inclusive as pessoas com deficiência, terão
158
o direito de frequentar escolas regulares, de modo que nenhuma deficiência seja obstáculo para
que essa pessoa seja inserida na sociedade.
1-INTRODUÇÃO
sociedade deve adaptar-se às necessidades dessas pessoas, para que seja possível a inserção
destes indivíduos, independentemente de suas limitações, pois o problema está na sociedade
que impõem barreiras, e não na deficiência das pessoas, diferentemente do que era abordado
pelo modelo reabilitador, em que o aluno era quem deveria se adequar à escola (GONZAGA,
2012).
A inclusão reconhece que todas as pessoas são iguais, livres e com o direito de exercer
sua cidadania, possibilitando igualdade de oportunidades para que cada uma seja capaz de
exercer com autonomia os atos da vida civil. Ademais, na educação não é diferente, pois seu
objetivo é promover uma educação a todos sem qualquer tipo de discriminação, respeitando as
suas diferenças, em que a escola seja capaz de atender as necessidades e particularidades de
cada aluno, pois assim, se alcançará uma sociedade mais democrática, justa e solidária
(GONZAGA, 2012).
A escola deve ser um espaço de todos e para todos, sempre na busca de ferramentas que
assegurem o acesso e a permanência de todos os alunos no seu interior, pois a educação
inclusiva deve-se ajustar à realidade de cada aluno e responder aos problemas que forem
surgindo. O grande desafio é que as escolas não estão preparadas para receber as pessoas com
deficiência, pois carecem de materiais pedagógicos especializados, bem como de professores
capacitados (MANTOAN; PIETRO, 2006). Neste contexto, o presente trabalho tem por
objetivo explicitar o processo de inclusão, abordando o direito a educação inclusiva no ensino
regular.
2-DESENVOLVIMENTO
Deste modo, demonstra-se a compilação dos apanhados obtidos por meio das pesquisas,
do estudo sobre o direito à educação inclusiva, no que diz respeito a uma educação de qualidade.
Como resultados obtidos percebemos entraves e conquistas quanto a efetivação do direito à
educação inclusiva no ensino regular, embora ainda existam diversas normas que asseguram as
pessoas com deficiência o exercício pleno e igualitário de seus direitos, as instituições de ensino
por sua vez, acabam violando tais direitos (MORAES, 2016).
Reconhecer que nos dias de hoje as pessoas com deficiência vem sendo favorecidas com
algumas dessas normas, foi uma grande vitória conquistada ao longo dos tempos, já que antes
das referidas normas, as pessoas com deficiência não eram consideradas sujeitos de direitos,
mas sim, como pessoas doentes, anormais e excluídas do seio social. Essas pessoas, tidas como
deficientes, não tinham seus direitos garantidos, e assim, eram segregadas do restante das
pessoas. Seus direitos sequer eram reconhecidos, e na grande maioria o próprio estado ficava
omisso perante a violação destes (GONZAGA, 2012).
Foi na necessidade de promover e assegurar os direitos fundamentais, que estas pessoas
passaram a ter uma atenção diferenciada, quando o Estado passou a adotar medidas específicas
para garantir de forma justa e igualitária o exercício pleno dos direitos fundamentais pelas
pessoas com deficiência (BRASIL, 2015).
Ocorre que mesmo com toda a legislação brasileira prevendo os direitos fundamentais a
essas pessoas, no que concerne ao direito à educação, as instituições de ensino, tanto as públicas
como as privadas, não cumpriam com o estabelecido nas normas. Pode-se observar que algumas
instituições, até mesmo aquelas mais modernas, não possuem infraestrutura adequada para
suprir as necessidades dos educandos com deficiência. Não possuem um corpo docente
capacitado, profissionais da área da saúde, material didático específico para cada tipo de
deficiência, bem como o ensino especializado não é aplicado concomitantemente ao ensino
comum (MENDES, 2000).
Ainda que a escola regular deva se pautar numa educação inclusiva, já que as
instituições em observância à legislação brasileira são obrigadas a receber nas suas
dependências o educando com deficiência, tal inclusão não é efetivada de forma igualitária,
pois a escola não tem condições de adequação à esta nova realidade para atender as necessidades
desse aluno. Corroborando com o exposto, o grande desafio da escola para alcançar uma
educação inclusiva, é estar preparada para receber o aluno com deficiência e a falta deste
suporte poderá trazer inúmeros prejuízos para o educando com deficiência (MANTOAN,
1998).
161
Não menos importante que os outros requisitos de inclusão, a integração com os demais
alunos é indispensável para seu comportamento social, formação de personalidade colaborativa
e a formação da cidadania, contudo, a não interação com os demais colegas pode dificultar a
sua formação como ser humano e futuramente como profissional. Portanto, é importante frisar
que a escola deve estar preparada para receber estes alunos, pois a educação inclusiva parte do
pressuposto de uma educação de qualidade, onde todas as necessidades desses alunos são
atendidas de forma igualitária, afastando todo e qualquer tipo de discriminação. A escola
inclusiva, que é uma escola de todos, ensina não apenas conhecimento técnico-científico, mas
valores, princípios e atitudes. Ensina a viver junto, a conviver em ambiente de tolerância e
harmonia em meio à diversidade (RIBEIRO, 2007).
A escola que busca alcançar um processo de inclusão de forma positiva, deve
desempenhar algumas funções para se moldar nesse conceito de educação como desenvolver
culturas, políticas e práticas inclusivas, marcadas pela responsabilidade e acolhimento que
oferece a todos os que participam do processo educacional escolar; promover todas as
condições que permitam responder às necessidades educacionais especiais para a aprendizagem
de todos os alunos de sua comunidade; criar espaços dialógicos entre os professores para que,
semanalmente, possam reunir-se como grupos de estudo e de troca de experiências; criar
vínculos mais estreitos com as famílias, levando-as a participarem dos processos decisórios em
relação à instituição e a seus filhos e filhas (CARVALHO, 2004)..
Ainda como função da escola tem-se: estabelecer parcerias com a comunidade sem
intenção de usufruto de beneficiar apenas e sim para conquistar a cumplicidade de seus
membros, em relação às finalidades e objetivos educativos; acolher todos os alunos,
oferecendo-lhes as condições de aprender e participar; operacionalizar os quatro pilares
estabelecidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
(UNESCO) para a educação deste milênio: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a
viver junto e aprender a ser, tendo em conta que o verbo é aprender; respeitar as diferenças
individuais e o multiculturalismo entendendo que a diversidade é uma riqueza e que o aluno é
o melhor recurso de que o professor dispõe em qualquer cenário de aprendizagem; valorizar o
trabalho educacional escolar na diversidade (CARVALHO, 2004).
A dificuldade para garantir esses direitos ainda persiste, porém, o estado e as instituições
privadas não poderão mais se omitir na garantia desses direitos, e na falta de seu cumprimento,
na negação destes, pois tal conduta constitui crime, e os responsáveis poderão ser passíveis de
punição conforme as leis vigentes. Oportuno registrar, que todas as normas jurídicas que
162
dispõem sobre o direito da pessoa com deficiência, são progressos importantes e legítimos,
conquistados ao longo de diversos movimentos realizados pela sociedade na busca desses
direitos inclusivos. Desse modo, o reconhecimento da pessoa com deficiência como sujeito de
direitos pelo Estado, garantiu oportunidades iguais às demais pessoas, em todas as áreas das
políticas públicas, tais como: educação, saúde, emprego, moradia, justiça, entre outros, tais
fatores são importantes para a formação e desenvolvimento intelectual do indivíduo na
sociedade.
3-CONSIDERAÇÕES FINAIS
As lutas travadas ao longo da história da humanidade pelas pessoas com deficiência têm
repercutido em vários segmentos do direito, e tais lutas consistem em grandes conquistas e
avanços significativos na vida dessas pessoas. O presente trabalho abordou de forma mais
específica o direito à educação, direito este garantido pela Constituição Federal de 1988 a todos,
inclusive as pessoas com deficiência.
Esta garantia apesar de ser prevista pelo texto legal, nem sempre foi assegurada de forma
plena às pessoas com deficiência, pois nos tempos remotos as pessoas com deficiência eram
excluídas da sociedade em razão de suas deficiências, de modo que eram isoladas das demais
ou até mesmo exterminadas, não sendo dignas de conviver com as demais pessoas.
Como se observou ao longo do estudo, a inclusão vem fortalecendo-se paulatinamente
na sociedade brasileira, consistindo na construção de uma sociedade mais justa, onde as
diferenças possam ser respeitadas. A inclusão deve garantir as pessoas com deficiência um
processo de escolarização voltado a atender as suas necessidades e particularidades, bem como
ofertar o ensino padrão, de forma concomitante, suplementar.
O intuito da inclusão é permitir que as pessoas com deficiência possam conviver em
sociedade de forma mais justa e igualitária, não sendo, portanto, as suas limitações óbice à sua
inserção na sociedade, pois a sociedade é quem deve fornecer a essas pessoas todas as condições
necessárias ao exercício de sua cidadania. Com esse método, o social, pode-se chegar mais
perto de uma sociedade justa e igual para todos, onde as diferenças deverão ser respeitadas e
melhor compreendidas pelos demais cidadãos.
É importante que a inclusão seja um princípio pelo qual todos possam se comprometer,
pois o apoio de todos os cidadãos é imprescindível para se alcançar uma sociedade mais
humana, mais sensível e mais compreensível diante as diferenças existentes.
163
Ademais, o processo de inclusão requer uma certa atenção e cuidados, ao passo que se
não houver um trabalho em conjunto, terá o mesmo destino da integração escolar, ou seja,
poderá regredir e voltar ao passado, quando as pessoas com deficiência eram tratadas de forma
preconceituosa e excluídas do seio social. Portanto, o futuro da inclusão escolar ainda requer
um esforço, que acarretará a uma revisão no posicionamento dos políticos, dos familiares, dos
educadores e até mesmo dos indivíduos com deficiência, para se buscar um objetivo, que é o
de assegurar a todos os cidadãos uma educação de qualidade.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei 13.146 de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com
Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Presidência da República. . Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13146.htm. Acesso em 19
nov 2015.
CARVALHO, R. E. Educação inclusiva: com os pingos nos “is”. Porto Alegre: Mediação,
2004, p. 115.
FEITOSA, A.V. M. A relação dialógica entre a Convenção da ONU sobre os direitos das
pessoas com deficiência e o regime jurídico das incapacidades: uma aplicação aos adultos
com síndrome de down. 2014. 176 f. Monografia (Graduação em Direito) – Universidade de
Fortaleza – UNIFOR, Fortaleza, 2014.
GONZAGA, E. A. Direitos de Pessoas com Deficiência: garantia de igualdade na diversidade.
Rio de Janeiro: WVA, 2012.
MANTOAN, M.T.E; PIETRO, R.G. Inclusão Escolar: Pontos e Contrapontos. São Paulo:
Summus, 2006, p. 184.
RESUMO
De modo a amenizar o impacto causado sobre a vida das Pessoas com Deficiência — PcD ao
longo de décadas, considerando as barreiras físicas e sociais, a inclusão surge como um
instrumento de reparação social para que os mesmos possam desempenhar seu papel enquanto
cidadão e participar em meio à sociedade. Os esforços para que isso aconteça tem sido pautado
em legislações, decretos, etc., embora isso seja de grande valia ainda é ineficaz alguns dos seus
preceitos o que perpetua estigmas e estereótipos sobre esses cidadãos que muitas vezes são
referenciados pela sociedade como diferentes, anormais, portanto, incapazes. No entanto, a
diferença é a ausência de suporte que promovam o bem-estar e qualidade de vida de forma
equitativa nos ambientes as PcD. Logo o presente estudo visa o fortalecimento de debates
acerca da inclusão desses cidadãos na área educacional, entretanto com uma perspectiva
interprofissional e intersetorial, uma vez que o trabalho perpassa por políticas públicas para
além da educação. Para tanto inicialmente realizou-se um estudo através de pesquisa
bibliográfica e documental, tendo como objetivo apresentar a mobilidade urbana e
acessibilidade como fator de inclusão social para PcD em instituições de ensino superior.
Pretendendo também ressaltar o dever dessas instituições em garantir não apenas o acesso,
como também a inclusão e a permanência das PcD, fazendo com que suas práticas contribuam
para a melhoria da Qualidade de Vida dos mesmos.
1-INTRODUÇÃO
A Lei n.º 13 409 de 2016 dispôs sobre a reserva de vagas para Pessoas com Deficiência
— PcD nos cursos superiores das instituições federais de ensino, oportunizando e garantindo o
direito a aprendizagem. Entretanto, a efetiva inclusão de PcD no ambiente educacional depende
não exclusivamente da disponibilidade de vagas, como também de outras políticas públicas que
deem autonomia e assegurem a vida e permanência de PcD nos cursos de ensino superior.
2-DESENVOLVIMENTO
166
3-METODOLOGIA
Trata-se de um estudo exploratório de natureza qualitativa, sendo a primeira etapa da
pesquisa uma revisão documental e da bibliografia existente, constituída basicamente por leis,
decretos, livros, artigos científicos.
Posteriormente para continuidade da pesquisa pretende-se entrevistar acadêmicos PcD
da Universidade Federal de Mato Grosso — UFMT de Cuiabá, com intuito de analisar a
importância da mobilidade urbana e a acessibilidade na UFMT como fator de inclusão para
PcD a partir das experiências e narrativas desses sujeitos.
4-CONSIDERAÇÕES FINAIS
Uma vez que o processo educacional deve permear o sentido democrático e não
segregacionista, é preciso que as instituições educacionais repensem seu modelo de ensino e
sua estrutura física, dessa forma assumindo a responsabilidade de garantir não apenas o acesso
como também a inclusão e permanência desses educandos de forma equitativa considerando
acessibilidade, mobilidade urbana e outros. Para tanto é imprescindível a atuação de uma equipe
interprofissional junto as essas instituições garantindo não apenas o direito de ir e vir, mas que
possam fazê-lo com segurança e autonomia conforme os preceitos legislativos, assim
concedendo aos acadêmicos PcD uma qualidade de vida mais justa.
REFERÊNCIAS
BARBOSA, Adriana Silva. Mobilidade urbana para pessoas com deficiência no Brasil: um
estudo em blogs. Revista Brasileira de Gestão Urbana, São Paulo, v. 8, n. 1, p. 142-154,
jun/abr, 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/urbe/v8n1/2175-3369-urbe-2175-
3369008001AO03.pdf. Acesso em: 20 dez. 2019.
BARBOSA, Jamile de Oliveira; SILVA, Nálison Melo; SOUZA, Verônica dos Reis Mariano.
VI COLÓQUIO INTERNACIONAL: as reais condições de “inclusão e acessibilidade”, 2012,
São Cristóvão - SE/Brasil. As reais condições de “inclusão e acessibilidade” para o
deficiente físico encontradas na universidade federal de Sergipe – campus prof. José
168
BRASIL. Lei nº 13146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa
com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em: 9 jul.
2020
CAMBRUZZI, Rita de Cássia Silveira; COSTA, Maria da Piedade Resende da; DENARI,
Fátima Elisabeth. Acessibilidade de um cadeirante em uma instituição pública do ensino
superior: rotas e rotinas. Revista Educação Especial, Santa Maria, v. 26, n. 46, p. 351-366,
mai/ago. 2013. Disponível em: file:///C:/Users/aparecida/Downloads/4386-41088-1-PB.pdf.
Acesso em: 18 dez. 2019
RESUMO: O presente artigo analisa a Convenção Internacional sobre Direitos das Pessoas
com Deficiência e a Lei Brasileira de Inclusão, também conhecida como Estatuto da Pessoa
com Deficiência, e a sua ressignificação da capacidade das pessoas com deficiência sob o
prisma da dignidade da pessoa humana e como a alteração desses institutos jurídicos repercutiu
no Direito das Famílias. Utilizou-se o método dedutivo, através de ampla revisão bibliográfica
renomada. Concluiu-se que a repersonalização do Direito Privado e a garantia dos direitos
fundamentais e civis às pessoas com deficiência asseguraram o aperfeiçoamento da curatela e
do nascimento da tomada de decisão apoiada. Ademais, reforçou-se a segurança do direito à
sexualidade, à reprodução e ao planejamento familiar, e, também, à curatela compartilhada e à
convivência familiar das pessoas com deficiência. A diversidade, então, deve ser responsável
pela ampliação de direitos, assegurando o ordenamento jurídico pátrio e internacional o respeito
à dignidade do sujeito, incluindo-o plenamente na sociedade civil e política. Esse aspecto
inclusivo não exclui, necessariamente, a proteção das pessoas com deficiência, mas, sim, as
tornam pessoas cidadãs totalmente ativas, afastando-as da marginalização e do ostracismo
social. Portanto, privilegiaram-se, notadamente, com o Estatuto da Pessoa com Deficiência, os
direitos fundamentais e civis, como o voto, a formação de família, a sexualidade e a reprodução,
a autoridade parental, o consentimento prévio ao tratamento médico, a vedação à esterilização
compulsória, em síntese – à liberdade em sua amplitude. A deficiência deixa de ser vista como
um fator limitante e passa à característica humana que merece prerrogativas legais, mas cujo
objetivo é sempre da humanização por meio da vida digna, em paridade de condições, não
meramente formais, mas, especialmente, materiais e tangíveis.
1-INTRODUÇÃO
A “Convenção de Nova York” representou uma grande força-motriz nas alterações das
leis privadas brasileiras, principalmente com o advento da Lei de Inclusão da Pessoa com
Deficiência, também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência.
Esse tratado internacional e o seu protocolo facultativo foram ratificados pelo
parlamento brasileiro e são equivalentes às emendas constitucionais, vez que cuidam de direitos
humanos e foram aprovados, em cada casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três
quintos dos votos dos respectivos membros (ROSENVALD, 2015, p. 738).
Somente essa Convenção Internacional (Decreto Legislativo nº. 186/2008) e o Tratado
de Marraqueche para facilitar o acesso às obras publicadas às pessoas cegas, com deficiência
visual ou com outras dificuldades para ter acesso ao texto impresso (Decreto Legislativo nº.
261/2015) possuem até então status de emenda constitucional, conforme o disposto no § 3º do
artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
O propósito daquela Convenção é promover, proteger e assegurar o exercício pleno e
equitativo de todos os direitos humanos e das liberdades fundamentais por todas as pessoas com
deficiência e promover o respeito pela sua dignidade inerente. Dentre os seus princípios gerais,
171
[...] a incidência da Constituição nos diversos âmbitos das relações entre particulares,
mormente nos contratos, nas propriedades e nas famílias, à luz de comandos
inafastáveis de proteção à pessoa; há, nada obstante, criativas tensões entre a aplicação
de regras (e princípios) constitucionais e o ordenamento privado codificado; como há,
sob o sistema constitucional, concepções filosóficas, o Estado liberal patrocinou o
agasalho privilegiado da racionalidade codificadora das relações interprivadas; a
ordem pública pode limitar a autonomia ou o autorregulamento dos interesses
privados, sob a vigilância das garantias fundamentais; os Códigos Civis são
reinterpretados pelas Constituições do Estado Social de Direito. (FACHIN, 2014, p.
10, 11).
172
A perspectiva pela qual era entendida a deficiência da pessoa e, ainda, as causas de sua
existência, influenciam diretamente em sua aceitação e na participação no âmbito da sociedade.
Piovesan (2010, p. 223, 224) delimita quatro estágios na construção dos direitos humanos da
pessoa com deficiência. Em apertada síntese, passa-se de um estágio de total intolerância a um
segundo estágio de invisibilidade, separadas da sociedade. Já um terceiro estágio foi o do
assistencialismo e o estágio atual, tendo como parâmetro a proteção dos direitos humanos e a
inclusão da pessoa com deficiência na sociedade. Aqui, busca-se a mudança da mentalidade da
sociedade para poder lidar com as diferenças, reflexo do princípio da dignidade da pessoa
humana, na busca da igualdade material entre as pessoas.
Desta feita, não é possível distanciar a pessoa com deficiência do princípio da dignidade
da pessoa humana. Mello (2000, p. 12, 13), ao tratar do princípio jurídico da igualdade, ensina
que:
A igualdade real exige normas com caráter transformador que visem à realização da
dignidade humana. SARLET (2008, p. 62) pontua que a dignidade humana possui caráter
positivo e negativo. Se, pelo prisma negativo, existe a obrigação de não se violar a dignidade
da pessoa, em seu prisma positivo ou prestacional, incumbe ao Estado promover a efetivação
de existência digna para todos.
É nesse contexto que o Estatuto da Pessoa com Deficiência procura assegurar a
igualdade e a dignidade da pessoa com deficiência. Mas quem é a pessoa com deficiência
abordada pela Lei Brasileira de Inclusão?
De acordo com o artigo 2º da referida legislação:
Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de
natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais
barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de
condições com as demais pessoas.
Desse modo, o Estatuto, de forma clara, não trata apenas da pessoa com deficiência
mental, mas abarca, ainda, aquelas que têm impedimento relacionado ao aspecto físico,
173
intelectual e sensorial. O impedimento que a pessoa com deficiência possui, porém, deve ter
longo prazo de duração.
Além disso, o Estatuto afirma que a deficiência só estará caracterizada se o
impedimento, em contato com alguma barreira, puder obstruir a participação plena e efetiva da
pessoa na sociedade. Entretanto, a qual barreira a legislação se refere?
O significado de obstáculo abarcado pela Lei compreende as barreiras urbanísticas,
arquitetônicas, nos transportes, nas comunicações e na informação, atitudinais e tecnológicas.
Dessa forma, pensando em igualdade real, é que a legislação novel se fundamenta no princípio
da não discriminação.
Sob essa visão de dignidade e de igualdade, a Lei Brasileira de Inclusão alterou as
relações interprivadas, mais especificamente as disposições no Código Civil, trazendo
mudanças na teoria das incapacidades, normas que se referem às pessoas absoluta e
relativamente incapazes, respectivamente.
Segundo a codificação privada, toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil,
e todo ser humano é detentor dessa capacidade de direito ou de gozo, mas nem todas as pessoas
possuem capacidade de fato ou de exercício.
Nesse contexto, a incapacidade jurídica é a falta de aptidão para os atos da vida civil.
Refere-se, portanto, à incapacidade de fato ou de exercício. Com a alteração provocada pelo
Estatuto da Pessoa com Deficiência, pode-se afirmar que, no sistema jurídico privado pátrio,
não existe pessoa, com dezesseis anos ou mais, que seja considerada absolutamente incapaz.
A partir de então, para a aferição da incapacidade absoluta, utiliza-se apenas o critério
etário e não mais o deficitário 18. Portanto, a deficiência não afeta a plena capacidade civil da
pessoa. Com as alterações trazidas pela Lei de Inclusão, as pessoas com deficiência são
consideradas, a priori, capazes para os atos da vida civil:
Todas as pessoas com deficiência que eram tratadas no comando anterior passam a
ser, em regra, plenamente capazes para o Direito Civil, o que visa a sua total inclusão
social, em prol de sua dignidade. Valorizando-se a dignidade-liberdade, deixa-se de
lado a dignidade-vulnerabilidade (TARTUCE, 2016, p. 129).
A garantia de igualdade atribui uma presunção geral de plena capacidade em favor das
pessoas com deficiência. Diante da relevante inversão da carga probatória, a incapacidade
18
O artigo 3º, do Código Civil (antes da alteração pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência), estabelecia que eram
absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil: I – os menores de dezesseis anos; II – os
que, por enfermidade ou deficiência mental, não tiverem o necessário discernimento para a prática desses atos;
e III – os que, mesmo por causa transitória, não puderem exprimir sua vontade.
174
para todos os atos; b) o curador será um representante para alguns atos e assistente para outros;
c) o curador será sempre um assistente”. Insta salientar que a curatela também pode ser exercida
de forma compartilhada, assim como a guarda de crianças e adolescentes.
Para as demais pessoas que sofrerem limitações de autodeterminação, mas se mostram
aptas a se fazer compreender, mesmo que de modo precário, pode a própria pessoa suscitar a
aplicação da Tomada de Decisão Apoiada, conforme disposição do artigo 1.783-A e seguintes
do Código Civil.
O referido instituto consiste na aplicação do artigo 12.3 da Convenção de Nova York e
se trata de instrumento em que a pessoa com deficiência tem o apoio de duas pessoas idôneas,
com vínculos e confiança, para que possam lhe auxiliar nas decisões da vida, tudo para que
continue exercendo a sua capacidade com plenitude.
Em contraste com a curatela, que é medida extremamente invasiva, posto que é
restritiva, a Tomada de Decisão Apoiada é de fato mais elástica e flexível, capaz de aprimorar
e incentivar a autodeterminação da pessoa com deficiência que se beneficia do apoio.
19
Vide o artigo 23.1 da Convenção dos Direitos da Pessoa com Deficiência.
176
Considerando-se que a pessoa com deficiência pode, diante da capacidade civil plena,
constituir matrimônio ou união estável, a mesma regra se estende à filiação – e,
177
deficiência, elidida apenas por razões fundamentalmente justificáveis, análise que incumbe ao
magistrado.
5-CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
_______. Lei nº. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o novo Código Civil. Diário Oficial
da União. Brasília. DF. 10 jan. 2002. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm. Acesso em: 29 jul. 2020.
_______. Lei nº. 13.105, de 16 de março de 2015. Institui o novo Código de Processo Civil.
Diário Oficial da União. Brasília. DF. 16 mar. 2015. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em: 29 jul.
2020.
_______. Lei nº. 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa
com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Diário Oficial da União. Brasília. DF.
179
DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias. 11. ed. São Paulo: Ed. Revista dos
Tribunais, 2011.
FACHIN, Luiz Edson. Direito civil, sentidos, transformações e fim. Rio de Janeiro: Renovar,
2014.
IBDFAM. Cartório paulista sai na frente e realiza casamento inédito de pessoa com
deficiência, depois da Lei Brasileira de Inclusão. Notícias. Disponível em:
http://ibdfam.org.br/noticias/5919/Cart%C3%B3rio+paulista+sai+na+frente+e+realiza+o+pri
meiro+casamento+de+pessoa+com+defici%C3%AAncia,+depois+da+Lei+Brasileira+de+Inc
lus%C3%A3o+. Acesso em: 29 jul. 2020.
MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Conteúdo jurídico do princípio da igualdade. 3. ed.
São Paulo, Malheiros, 2000.
NUNES, Luciana Leal; THOMÉ, Clarissa. Brasil tem 45,6 milhões de deficientes. Estadão,
São Paulo, 29 jun. 2012. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-tem-
45-6-milhoes-de-deficientes,893424. Acesso em: 29 jul. 2020.
ROSENVALD, Nelson. Curatela. In: PEREIRA, Rodrigo da Cunha. (Org.). Tratado de direito
das famílias. Belo Horizonte: IBDFAM, 2015.
RUBIO, David Sánches. Crítica a una cultura estática y anestesiada de drechos humanos. Por
una recuperación de las dimensiones constituyentes de la lucha por losderechos. Derechos y
Libertades. Numero 33, Epoca II, junio 2015. p.99-133. Disponível em: http://libros-revistas-
derecho.vlex.es/vid/critica-cultura-estatica-anestesiada. Acesso em: 29 jul. 2020.
SIMÃO, José Fernando. Estatuto da pessoa com deficiência causa perplexidade. Disponível
em: http://www.conjur.com.br/2015-ago-06/jose-simao-estatuto-pessoa-deficiencia-causa-
perplexidade. Acesso em: 29 jul. 2020.
TARTUCE, Flávio. Direito Civil 1: lei de introdução e parte geral.12. ed. Rio de Janeiro:
Forense. São Paulo: Método, 2016.
181
RESUMO
A análise histórica das sociedades ocidentais permite a verificação de um fato que se estende a
outros grupos considerados vulneráveis: as pessoas com deficiência foram expostas a uma
estrutura social de opressões e violações sistemáticas de seus direitos humanos, o que fez com
que houvesse uma integral inserção na esfera das invisibilidades, provocando a construção de
uma sociedade pautada na lógica das exclusões concretas e das inclusões abstratas. Em combate
a essas assimetrias, a reformulação dos direitos humanos no cenário pós-guerra deu ênfase à
proteção internacional e doméstica dos grupos vulneráveis e minoritários, dos quais
enfatizamos os processos de luta das pessoas com deficiência pela efetivação de direitos. Assim,
com a entrada em vigor de documentos jurídicos internacionais, deu-se destaque à
acessibilidade arquitetônica como garantia instrumental, que permite o acesso a outros direitos.
A partir desse panorama, a proposta deste artigo é analisar esse direito humano da pessoa com
deficiência em face dos direitos sociais, verificando eventuais encontros ou desencontros que
permitem afirmar que o direito à acessibilidade é parcela fundamental da gramática dos direitos
sociais. Emprega-se o método dedutivo, mediante uso de abordagem bibliográfica. Dentre os
resultados atingidos, destaca-se o fato de que, com a entrada em vigor de documentos jurídicos
internacionais que enfatizam a tutela de populações vulneráveis, a acessibilidade arquitetônica
foi destacada como direito que está diretamente vinculado a um filtro triplo, que comunga as
dimensões fática, econômica e jurídica para sua materialização. Logo, é possível afirmar que,
ao menos no campo teórico, vislumbra-se uma relação de proximidade entre direitos sociais e
acessibilidade arquitetônica, uma vez que surge como direito prestacional e que exige a reserva
de recursos econômicos para sua efetivação, característica típica dos direitos sociais. Em
conclusão, tem-se que os direitos sociais e a acessibilidade arquitetônica para pessoas com
deficiência são cânones para a superação das desigualdades estruturais e a promoção das lutas
por reconhecimento de direitos.
mereciam ser vividas 20. No entanto, a construção de um quadro de violações dos direitos
humanos das pessoas com deficiência teve início na antiguidade clássica e se estendeu por todos
os períodos históricos registrados ocidentalmente, tendo como característica comum a aposição
dessas pessoas em situação de invisibilidade, como não-sujeitos.
Nos períodos que sucederam a queda nazifascista no continente europeu e a ruptura com
os regimes de exceção na América Latina, fez-se emergente a necessidade de reestruturação e
reconstrução da teoria geral dos direitos humanos e do redirecionamento dessas garantias, em
especial para grupos e indivíduos que, em virtude de caracteres próprios de vulnerabilidades
sociais, jurídicas e culturais, ficaram mais expostos aos empreendimentos genocidas do último
século. Dessa forma, operaram-se modificações no sentido de inserir um novo tripé
paradigmático que fosse apto a sustentar as exigências sociais frente à carência dos direitos
humanos na realidade material, que estivessem conectadas com as novas reivindicações por
direitos.
Era necessário formular instrumentos práticos e teóricos que rompessem com a cultura
teórica dos direitos humanos, de mera provisão em textos legais e não correspondência no plano
material. Nesse sentido, defendemos que essa reestruturação dos direitos humanos das
populações vulneráveis na contemporaneidade se deu incisivamente a partir de três paradigmas,
frutos de construções políticas, econômicos, sociais e culturais que alteraram sensivelmente o
modo de enxergar a proteção e o fazer prático desses direitos, levando em consideração a
criação de mecanismos jurídico-sociais que visassem a inclusão social das pessoas com
deficiência, por exemplo, ou de outros grupos considerados vulnerabilizados.
Assim, como resposta aos casos de homicídios, desaparecimentos forçados, prisões
arbitrárias e desvalorização da dignidade humana, a dimensão tríplice dos direitos humanos
surge composta pelas seguintes variantes: i) internacionalização dos direitos humanos, cuja
proposta é inserir o vocabulário de direitos na condição de linguagem comum da humanidade
(ABREU, 2009) e promover a responsabilização pela violação de garantias; ii)
neoconstitucionalismo, como formato inaugurado em sociedades civilizadas contemporâneas,
fruto direto das lutas históricas por direitos, que inseriram os direitos humanos como aspectos
centrais dos documentos constitucionais e sua força normativa (CARBONELL, 2003); iii)
filosofia pós-positivista, que traz o direito para uma vertente relacionada às aspirações sociais
20
Foi nesse período em que operações científicas nazistas, como o Aktion T-4 Euthanasia Program, foram postas
em prática junto às pessoas com deficiência como um dos mecanismos aptos a garantir a esperada purificação
racial, além de tratá-las como objetos de compaixão (CARVALHO-FREITAS; MARQUES, 2007).
183
e busca responder às reivindicações por direitos, apresentando uma vinculação entre os direitos
humanos e uma nova ética jurídica (BARROSO, 2005).
Associados às novas percepções sobre o direito que se inauguraram a partir dessa tríplice
contribuição da contemporaneidade dos direitos humanos, os direitos sociais ganharam
destaque a partir das novas reivindicações por direitos postas na prática, que vinculam
diretamente os direitos à saúde, à educação, à segurança pública, à assistência social e à
moradia. Enquanto direitos essencialmente prestacionais e que dependem majoritariamente da
atuação estatal enquanto garante de preceitos dessa categoria, os direitos sociais estão sujeitos,
ainda que não se constitua regra, à provisão de recursos econômico-financeiros, permitindo o
não cumprimento dessas garantias na prática. Essa problemática é igualmente observada em
relação à materialização do direito à acessibilidade arquitetônica para pessoas com deficiência,
que depende diretamente o dispêndio financeiro por parte do sujeito responsável por sua
implementação.
Tomando como problema a dificuldade de efetivação do direito à acessibilidade
arquitetônica para pessoas com deficiência, o presente trabalho tem por finalidade abordar a
(possível) relação entre essa garantia fundamental e os direitos sociais.
2-METODOLOGIA
O presente trabalho se vale do método dedutivo, mediante revisão bibliográfica de
caráter exploratório. Com vistas a alcançar os objetivos propostos, o recorte da literatura
selecionada segue a proposta de teóricos que abordam a vertente crítica dos direitos humanos,
especialmente dos direitos sociais das populações vulneráveis, e dos estudos da deficiência
(disability studies).
direitos humanos, têm sido cada vez mais alargados para aproximar tais indivíduos da categoria
de sujeitos de direitos. Assim, o direito é novamente convocado para oferecer uma resposta que
esteja à altura das necessidades humanas fundamentais, em que, contrariamente aos usos que
teve para sustentar a ideologia dos regimes totalitários, é chamado para agir do outro lado da
história, das populações marginalizadas.
No contexto brasileiro, como expressão maior do neoconstitucionalismo no país, a
Constituição Federal de 1988 foi a principal responsável por deixar para trás um passado de
autoritarismo constitucional e de interpretações dissociadas da realidade de grupos
vulnerabilizados e da dimensão ético-moral do direito, para inserir uma nova concepção
pautada em princípios da cidadania e da primazia dos direitos fundamentais, enquanto fontes
axiológicas e mecanismos de promoção da dignidade humana. A partir desse instante, à
semelhança dos movimentos que ocorreram em toda a América Latina no período
imediatamente posterior ao fracasso dos regimes ditatoriais, introduziu-se no país a perspectiva
neoconstitucionalista e, junto dela, centelhas da filosofia pós-positivista, ainda que tardiamente,
como modelo de reflexão e prática dos direitos humanos.
A sensibilidade em relação aos direitos humanos apresentada pelo
neoconstitucionalismo brasileiro teve por condão aprimorar a ideia de cidadania inclusiva das
pessoas com deficiência, que, enquanto grupo marginalizado, está historicamente distante da
efetivação de seus direitos. Essa nova perspectiva representa aquela em que se opera o
reconhecimento das minorias e grupos vulneráveis como sujeitos de direitos e promove sua
elevação à condição de protagonista do seu próprio movimento de inclusão social, uma vez que
surge como destinatários das normas de direitos humanos. No entanto, como problema que
ainda atinge o cotidiano das pessoas com deficiência, faz-se necessário romper com as correntes
do dogmatismo e do engessamento legal para propor direitos na realidade material, como
categorias capazes de não apenas serem introduzidos nos papéis, em textos constitucionais e
documentos internacionais, mas também na vida diária. A remoção de direitos dos textos para
a colocação na realidade exige uma mudança cultural, que tenha por princípio a aceitação da
existência de uma lacuna entre os sentidos teórico e prático dos direitos humanos.
Apesar das mudanças de paradigma, a sociedade contemporânea segue presa às antigas
concepções e propostas dos direitos humanos, cuja preocupação não era exatamente a
materialização de direitos, mas sim o reconhecimento formal em documentos jurídicos, como
forma a afastar – simbolicamente – os estados violatórios. Assim, seguimos uma cultura de
185
A separação cultural entre direitos humanos nos planos teórico e prático nos leva a
levantar outra crítica válida e cara a essa problemática: embora afirmado no aspecto da teoria,
a ausência de acesso de pessoas com deficiência aos seus direitos permite com que desfaçamos
uma ideia consolidada no plano formal de que esse modelo de garantia é necessariamente
universal. Na verdade, é impossível observar fatores de universalidade naquilo que não permite
o acesso de todos, em condições de igualdade. Não seria demais afirmarmos que se encontra
em plena execução o histórico quadro de violação dos direitos humanos das pessoas com
deficiência, trazendo-os novamente e dia pós dia para a instância da invisibilidade e da condição
de grupo marginalizado, como pessoas com a existência apagada (ninguneados).
Ainda que seja possível afirmar que vivenciamos a colocação em vigor de uma nova era
em termos de direitos (BOBBIO, 2004), também é certo que, como parte da crítica à
mentalidade bifurcada em teoria-prática dos direitos humanos das pessoas com deficiência, que
não observam efetividade em suas garantias reconhecidas formalmente, não se pode aceitar de
antemão que estamos inseridos em um momento em que impera a lógica que busca assegurar
direitos na concretude. Em realidade, referenciar as pessoas com deficiência como grupos
vulneráveis e sujeitos históricos, produtores de um direito pluralista pautado em lutas sociais
que buscam a efetividade em relação aos direitos a que fazem jus, traz uma série de problemas,
que transitam sobre questões de caráter conceitual e outros que relacionam os avanços e
regressos na promoção dessas garantias.
21
Tradução livre: Por um lado, concordamos com a importância dos direitos humanos, o efeito positivo e
encantador que eles têm porque servem simbolicamente para legitimar a justiça dos estados civilizados,
constitucionais e democráticos. Discursivamente, quase todos estão convencidos do quão necessários são para que
princípios como dignidade humana, liberdade e igualdade sejam garantidos em qualquer comunidade que os
respeite. Mas, por outro lado, sabemos como é difícil cumpri-los no dia a dia, na prática, e, o que é pior, que eles
sejam garantidos em certos espaços sociais, como na esfera doméstica ou nos mundos de produção, trabalho e/ou
mercado.
186
como a adoção de recursos materiais, muitas vezes considerados escassos e que, em virtude
disso, permite-se o uso da teoria da reserva do possível 22.
Superada uma fase de expectativas iniciais frente à introdução do neoconstitucionalismo
em diversos ordenamentos jurídicos ao redor do mundo, percebe-se que a provisão de direitos
sociais, tal como de outros direitos humanos, apenas no plano formal é completamente
insuficiente para garantir a efetividade prática dessas garantias e, consequentemente, atingir um
estado de cidadania inclusiva e plural. A efetividade de direitos sociais segue a capacidade
estatal de provisão dos recursos econômicos. Em sociedades nas quais a consolidação do Estado
social foi fraca ou passageira, há uma dificuldade em prover a exequibilidade dos direitos
sociais, já que não há padrões socioeconômicos mínimos para garantir moradia, educação,
segurança pública e, para o caso do presente trabalho, adequações arquitetônicas úteis às
pessoas com deficiência.
Em que pese o extenso e decadente debate sobre a fundamentalidade ou não dos direitos
sociais – que faz uso de argumentos considerados extremamente frágeis, como o fato de que o
constituinte brasileiro da nova era de direitos não inseriu tais garantias junto daquelas previstas
no capítulo de direitos fundamentais do texto constitucional –, fato é que o
neoconstitucionalismo concebe os direitos sociais como previsões material e formalmente
constitucionais, além de exigir, enquanto mentalidade de alteração, uma atitude prática do
Estado para sua efetivação. Na verdade, as discussões contemporâneas sobre os direitos sociais
compreendem que tais garantias, além de serem consideradas pertencentes à categoria dos
direitos humanos, estão vinculadas a uma das facetas da dignidade da pessoa humana, ao
chamado mínimo existencial. Há uma rígida tendência em reconhecer o direito ao mínimo
existencial (Existenz-minimum) como a garantia fundamental a alcançar as condições materiais
minimamente exigidas para uma vida considerada digna.
Além disso, a partir de uma observação objetiva, percebe-se que as normas que
enunciam os direitos sociais estão em estreita consonância com valores éticos e
neoconstitucionais que precisam ser respeitados pela sociedade contemporânea, como a
superação das desigualdades e a construção de sociedades justas. O núcleo dos direitos sociais
abrange uma dimensão tipicamente de direitos positivos, o que faz com que sejam considerados
direitos de caráter prestacional e que permitem ao cidadão o uso do sistema de justiça como
meio de acesso a essas garantias, ou seja, para vê-las na prática. Em contrapartida, ainda que
22
A teoria da reserva do possível, de origem alemã, é definida como o limite ao poder do Estado de concretizar
efetivamente direitos sociais e fundamentais, afastando o direito constitucional de interesse privado e prezando
pelo direito da maioria.
189
pareça contraditório, os direitos sociais também adotam uma posição em que o Estado deve se
furtar de intervir na liberdade pessoal e no gozo dos direitos dessa categoria que já estão postos
na prática.
Portanto, pode-se resumir a dimensão fundamental dos direitos sociais da seguinte
forma: i) possuem uma perspectiva subjetiva, na medida em que permite ao titular do direito a
possibilidade de recorrer aos meios judiciais para garantir sua efetividade material, o que
necessariamente carrega a ideia de gastos dos recursos públicos; ii) adotam uma posição
objetiva, de que o Estado é o responsável por garantir direitos sociais a fim de eliminar as
desigualdades e demais problemáticas dessa ordem nas sociedades; iii) possuem uma dimensão
positiva, já que veiculam demandas imprescindíveis aos cidadãos; iv) por fim, também possuem
uma referência negativa, que impede a interferência estatal na causação de danos ou regressão
do estado de direitos sociais atingido. Dessa forma, a acessibilidade arquitetônica, enquanto
direito útil às pessoas com deficiência para o gozo de seus direitos em condição de igualdade
com as demais pessoas, possui relação com o provimento de espaços, bens e serviços acessíveis
para suas diversas necessidades sociais, o que a remete para um quadro de direitos sociais, uma
vez que são direitos exigíveis judicialmente, necessitam do dispêndio de recursos públicos e
que estão sujeitos à intervenção estatal para serem efetivados.
Conforme defende Sarlet (2008, p. 3):
[...] verifica-se, desde logo e na esteira do que já tem sido afirmado há algum tempo
entre nós, que também os direitos sociais (sendo, ou não, tidos como fundamentais)
abrangem tanto direitos prestacionais (positivos) quanto defensivos (negativos),
partindo-se aqui do critério da natureza da posição jurídico-subjetiva reconhecida ao
titular do direito, bem como da circunstância de que os direitos negativos
(notadamente os direitos de não-intervenção na liberdade pessoal e nos bens
fundamentais tutelados pela Constituição) apresentam uma dimensão "positiva" (já
que sua efetivação reclama uma atuação positiva da Estado e da sociedade) ao passo
que os direitos a prestações (positivos) fundamentam também posições subjetivas
"negativas", notadamente quando se cuida de sua proteção contra ingerências
indevidas por parte dos órgãos estatais, mas também por parte de organizações sociais
e de particulares.
Como afirmamos, pode-se considerar que os direitos sociais estão aptos a assumir
posições bastante claras, sendo tratado, sob o aspecto da posição jurídico-subjetiva, como
direito social positivo ou direito social negativo, conforme a atitude que o Estado deve tomar,
no sentido de fazer ou não fazer. São, portanto, a partir do reconhecimento dado, direitos que,
ao mesmo tempo em que protegem um espaço de liberdade, também se voltam à proteção de
bens jurídicos de grupos vulneráveis à ação estatal, principalmente no campo social e
econômico. Logo, partindo-se do princípio de que o direito à adaptação razoável está ligado
basicamente à atividade positiva do Estado, que deve veicular medidas que possibilitem a
190
alteração de espaços, bens e serviços para que o deficiente tenha direito a usufruir o que lhe é
oferecido, é neste sentido que se defende que, dentre os direitos sociais previstos na
Constituição Federal, se encontra o imperativo da acessibilidade.
Ajuntam-se três argumentos que permitiriam, ao menos no campo teórico, afirmar que
há uma associação entre direitos sociais e a acessibilidade arquitetônica, relativos à atuação
estatal, ao dispêndio de recursos econômicos e a vinculação dos direitos sociais aos direitos das
populações vulneráveis, respectivamente. Assim, o primeiro elemento que permite essa
conclusão é dizer que não se faz possível nem mesmo imaginar a adaptação razoável para as
pessoas com deficiência sem que haja uma intervenção estatal na forma como os produtos e
espaços chegam à vida do indivíduo. Outro fator que fomenta essa posição é justamente a
inevitabilidade do dispêndio financeiro por parte do responsável pela garantia da adaptação, de
maneira que não se pode falar em garantia da acessibilidade sem se olvidar de que essa ação
exige a presença de recursos fáticos, jurídicos e, principalmente, financeiros. O terceiro
argumento que corrobora o exposto é explicado por Sarlet (2008, p. 8), ao dizer que
Tal consideração se justifica pelo fato de que também são sociais (sendo legítimo que
assim seja considerado) direitos que asseguram e protegem um espaço de liberdade
ou mesmo dizem com a proteção de determinados bens jurídicos para determinados
segmentos da sociedade, em virtude justamente de sua maior vulnerabilidade em face
do poder estatal, mas acima de tudo social e econômico, como demonstram justamente
os direitos dos trabalhadores [...].
5-CONSIDERAÇÕES FINAIS
No âmbito da tutela jurídica dos direitos humanos na contemporaneidade, observa-se a
existência de uma segregação mental e cultural que atinge os campos teórico e prático afins a
191
essas garantias. Nesse sentido, o acesso das pessoas com deficiência ao núcleo de efetividade
do direito à acessibilidade arquitetônica está condicionado às lutas sociais promovidas pelo
grupo em questão, que, de certo modo, representam uma espécie de evolução no pensamento
social acerca da necessidade de se incluir as pessoas pertencentes a grupos vulneráveis, como
parte de projetos de sociedades mais igualitárias, inclusivas e plurais. Essa dimensão permite a
construção de um olhar crítico sobre os direitos humanos e, consequentemente, a aproximação
de tais garantias às categorias de sujeitos histórico-vulneráveis de direito.
É possível perceber que o direito à acessibilidade arquitetônica, ou a adaptação razoável
em sua dimensão de provisão de adequações físicas, ao menos de um ponto de vista
essencialmente teórico, não foge à regra geral dos direitos sociais fundamentais, ou seja,
enquanto ambos são direitos judicialmente exigíveis e que partilham de um pressuposto
analítico das possibilidades fáticas, econômicas e jurídicas para sua materialização, estão
relacionados por uma faceta dos direitos sociais que requer o dispêndio de recursos por parte
do responsável pela provisão das adequações, que deverão ser razoáveis e não trazerem
quaisquer ônus descabidos, sob pena de transgredir o critério de razoabilidade intrínseco.
A partir do tripé paradigmático dos direitos humanos na contemporaneidade, que
propomos como categoria de análise neste trabalho, formado pelo movimento de
internacionalização dos direitos fundamentais, pelo neoconstitucionalismo e pela inauguração
de uma filosofia pós-positivista, atuando como respostas à crise de efetividade que atinge os
direitos humanos, tem-se que o direito-dever de garantia da acessibilidade arquitetônica, além
de ser considerada um direito de caráter instrumental, que serve de mecanismo para o acesso a
outros direitos fundamentais, também pode ser teoricamente associado aos direitos sociais, por
compartilhar de algumas suas características essenciais.
Em primeiro lugar, o sentido de direito instrumental de que é dotado o direito à
acessibilidade arquitetônica se deve ao fato de que serve de vínculo para a prática de outros
direitos fundamentais por parte das pessoas com deficiência. Nesse viés, pode-se citar o
usufruto do direito à cidade, à locomoção ou à educação que apenas são possíveis diante de
uma profunda alteração no âmbito das adequações físicas dos espaços. Em segundo plano,
compreende-se que também é possível aproximar a garantia fulcral das pessoas com deficiência
aos conteúdo dos direitos sociais fundamentais, como a exigibilidade jurídica, a dimensão
econômica de que são informados tais direitos e a emergência como direitos voltados à garantia
de um núcleo de igualdade material para grupos vulneráveis, como as pessoas com deficiência.
192
REFERÊNCIAS
PIOVESAN, Flávia. Convenção da ONU sobre os direitos das pessoas com deficiência:
inovações, alcance e impacto. In: FERRAZ, Carolina Valença et al. Manual dos direitos da
pessoa com deficiência. São Paulo: Saraiva, 2012.
RUBIO, David Sánchez. Crítica a una cultura estática y anestesiada de derechos humanos: por
una recuperación de las dimensiones constituyentes de la lucha por los derechos. Revista
Derechos y Libertades, v. 33, n. 1, p. 99-133, 2015.
SARLET, Ingo Wolfgang. Os direitos sociais como direitos fundamentais: contributo para um
balanço aos vinte anos da Constituição Federal de 1988. Revista do Instituto de
Hermenêutica Jurídica, 2008.
SUNSTEIN, Cass Robert; HOLMES, Stephen. The cost of rights: why liberty depends on
taxes. Nova Iorque: W. W. Norton & Company, 2007.
193
RESUMO
O conceito de deficiência passou por modificações ao longo da história, na medida em que as
pessoas com deficiência e movimentos representativos foram conquistando visibilidade e
proteção, por meio do aparato jurídico e das lutas sociais. Acessibilidade e inclusão são bases
transformadoras da sociedade, e para que sejam garantidas, é necessário que o Estado oferte as
condições dignas em todas as esferas possíveis. Com o número significativo de pessoas com
deficiência no Brasil, é relevante que os direitos e deveres sejam cada vez mais conhecidos,
para que haja uma participação ativa dos mesmos nas melhorias dos serviços. O presente
trabalho, tem como objetivo, descrever a experiência de dois residentes em Saúde Coletiva que
desenvolveram uma ação de Educação em Saúde sobre os direitos e deveres, gerais e
específicos, para os familiares e os usuários que são atendidos no Centro Especializado em
Reabilitação tipo IV (CER IV), na cidade de Sousa/PB, apresentando para além das discussões
teóricas e práticas, as demandas e necessidades de saúde identificadas pelos próprios sujeitos,
em seus contextos de vida, possibilitando diálogo e reflexão com os referenciais que subsidiam
as ações neste campo. A ação aconteceu no mês de dezembro do ano de 2019, tendo como
público-alvo as pessoas com deficiência e familiares presentes. No total, foram 56 participantes
e o processo se deu por meio de rodas de conversas e salas de espera, utilizando-se da oratória,
da cartilha elaborada e da avaliação do serviço por aqueles que usufruem, como forma de
garantir informação sobre os direitos da pessoa com deficiência, mapear, descrever e analisar o
contexto, relações e percepções dos sujeitos. Portanto, a integração de residentes em saúde,
serviço e comunidade possibilita aprendizagem para todos os envolvidos, contribuindo, assim,
para o aprimoramento do processo de cuidado da pessoa com deficiência e fortalecimento do
Sistema Único de Saúde. O enfoque do trabalho em saúde da pessoa com deficiência deve estar
centrado na produção da autonomia e na participação efetiva dos usuários na construção de
projetos de vida pessoais e sociais.
Palavras-chave: Saúde Coletiva. Educação em Saúde. Pessoa com Deficiência. Sistema Único
de Saúde.
1-INTRODUÇÃO
A deficiência compõe um campo crescente e heterogêneo que sempre existiu, com
conceitos que foram se modificando ao longo da história. As discriminações e os preconceitos
194
Sendo assim, o presente artigo, apresenta como objetivo, descrever a experiência de dois
residentes em Saúde Coletiva que desenvolveram uma ação de Educação em Saúde sobre os
direitos e deveres, gerais e específicos, para os familiares e os usuários que são atendidos no
Centro Especializado em Reabilitação tipo IV (CER IV), na cidade de Sousa/PB. Esse trabalho
propõe ainda, no âmbito da saúde das pessoas com deficiência, apresentar para além das
discussões teóricas e práticas, as demandas e necessidades de saúde identificadas pelos próprios
sujeitos, em seus contextos de vida, possibilitando diálogo e reflexão com os referenciais que
subsidiam as ações neste campo, como a solicitação do Benefício de Prestação Continuada
(BPC).
2-METODOLOGIA
Considerando o objetivo precedente exposto, o presente trabalho descreve,
qualitativamente, um relato de experiência vivenciado por dois pós-graduandos da Residência
Multiprofissional em Saúde Coletiva, no Centro Especializado em Reabilitação do Tipo IV
(CER IV), localizado no município de Sousa, interior do estado da Paraíba.
Por meio da educação em saúde e da necessidade de empoderar e fortalecer o
reconhecimento dos direitos e deveres dos cidadãos, os residentes realizaram uma ação sobre a
Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde (BRASIL, 2011) e dos direitos fundamentais da
pessoa com deficiência (BRASIL, 2015), disponibilizados pelo Ministério da Saúde.
A ação ocorreu nos horários da manhã e da tarde, no mês de dezembro do ano de 2019,
dispondo-se da oratória, da cartilha elaborada e da avaliação do serviço por aqueles que
usufruem.
O processo foi realizado por meio de rodas de conversa, aproveitando-se também das
salas de espera, que são espaços potenciais de trocas de saberes e sentimentos. Por meio disso,
buscou-se viabilizar uma reflexão coletiva sobre a temática e realidade na qual se encontram,
para que o usuário em si reconheça ou amplie a sua função social e busque contribuir
ativamente, a fim de melhorar o serviço e trazer mais qualidade. Além disso, dúvidas sobre os
direitos foram respondidas.
O público-alvo foram 56 usuários do serviço e familiares, de forma geral, tendo como
critério de inclusão estar presente nos dias em que foi realizada a ação. Já como critério de
exclusão, os que não estiveram presentes ou não se sentiram à vontade a participar se
encaixaram nesse fator.
196
3-RESULTADO
O Centro Especializado em Reabilitação Tipo IV (CER IV) foi inaugurado em
dezembro de 2018, no município de Sousa/Paraíba, atendendo as 4 modalidades de reabilitação
(auditiva, física, intelectual, visual) e realizando diagnósticos, tratamento, concessão, adaptação
e manutenção de tecnologia assistiva em usuários de 89 municípios (BRASIL, 2019, 2020).
A presença do CER IV no sertão paraibano melhora a logística referencial de
deslocamento daqueles que necessitam dos serviços de saúde. E para que esses serviços possam
ter qualidade significativa, é necessário que os usuários reconheçam os seus direitos e deveres
como cidadão, para uma construção ativa do Sistema Único de Saúde.
A Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde foi aprovada no ano de 2009, tendo 6
princípios basilares que norteiam os ideais a serem seguidos para que os cidadãos possam ter
dignidade nos serviços de saúde, sejam públicos ou privados (BRASIL, 2011). Já o Estatuto da
Pessoa com Deficiência, foi criado em 2015 e descreve os diferentes direitos que devem ser
efetivos a partir da inclusão e acessibilidade (BRASIL, 2015).
No que concerne a ação desenvolvida, 56 pessoas estavam aptas a participarem das
rodas de conversa e salas de espera, de acordo com os critérios de inclusão e exclusão. Dos 56
que participaram, 38 foram os usuários e 18 os familiares.
A princípio, os residentes em Saúde Coletiva apresentaram uma cartilha, elaborada
pelos mesmos, sobre os princípios referentes aos direitos e deveres de todos os usuários, bem
como sobre alguns direitos conquistados, a respeito da pessoa com deficiência, nos diferentes
âmbitos: Educação, Trabalho, Saúde, Esporte, Lazer e Cultura.
Em seguida, teve-se um diálogo sobre a isenção de impostos e taxas; defesa nos crimes
contra a pessoa com deficiência; e auxílios existentes, respondendo aos questionamentos
realizados. No terceiro momento, a conversação se deu por meio de uma avaliação aberta e
escrita, de acordo com a particularidade de cada um, sobre o que poderia ser sugerido para
melhorar o serviço e quais novas conquistas os mesmos almejavam.
4-DISCUSSÃO
A deficiência é ainda um grande desafio social, sendo necessário compreender que a
mesma não é mais considerada um distanciamento da normalidade ou um atributo
exclusivamente individual, mas sim uma relação sócio-histórica determinada.
O direito universal à saúde, consolidado a partir do Sistema Único de Saúde (SUS),
possibilitou a incorporação das necessidades das Pessoas com Deficiência às políticas públicas
197
de saúde. Portanto, deve-se considerar que as necessidades da pessoa com deficiência estão
para além da saúde: direitos, cidadania, educação, transporte, lazer. Desse modo, tornam-se
indispensáveis ações intersetoriais, considerando as particularidades que a vivência da
deficiência impõe às necessidades gerais de qualquer cidadão em seu contexto sociocultural,
bem como o sentido de cada uma das proposições dentro da história de vida de cada sujeito.
Diante o exposto de todo o trabalho, deve-se ressaltar que o CER IV é um grande avanço
para o alto sertão paraibano. Os atendimentos abrangem os usuários de 89 municípios do
Estado, que concentram aproximadamente 946.314 habitantes e com estimativa de ter 254.933
pessoas com deficiência (BRASIL, 2019). Antes da inauguração, do referido centro de
reabilitação, os pacientes se deslocavam para serem atendidos fora do estado ou para a capital,
tendo como dificuldade a logística de transporte no sertão. Mesmo com o valor pago pela
prefeitura, referente ao Tratamento Fora de Domicilio (TFD), muitas famílias não conseguiam
fazer as viagens, pois a ajuda de custa só era depositada 45 dias depois do atendimento do
paciente.
A equipe multiprofissional do CER IV procura trabalhar a reabilitação da pessoa com
deficiência para torná-lo autônoma. Não é necessariamente um aparelho que vai dar
independência à pessoa com deficiência, mas a sua inclusão, o seu desenvolvimento e
capacitação. Por isso, é trabalho contínuo para ampliar e melhorar o atendimento a essas
pessoas.
Dessa maneira, este estudo pretendeu contribuir, no sentido de considerar e valorizar a
intersetorialidade em permanente movimento, em busca de autonomia para o usuário, além de
promover discussões e reflexões sobre a temática da saúde das pessoas com deficiência,
possibilitando a todos os atores reconhecer, repensar e aprimorar suas práticas, contribuindo
para transformações e inovações no campo da saúde da pessoa com deficiência.
Ações desse tipo reconhecem o usuário para além do processo saúde-doença. Sua
efetivação depende diretamente de uma atuação ético-política cotidiana, por meio de uma
prática multiprofissional e intersetorial, na qual as diferentes políticas públicas encontrem-se
em rede. Nos casos dos usuários que ainda não recebem o benefício de prestação continuada,
podem ser identificados em uma reunião da rede através da consolidação de dados dos serviços
de saúde e da assistência social.
Nesse contexto, diante do desafio da universalidade, a estratégia direciona-se na
equidade para acolher diferenças e enfrentar desigualdades, na integralidade entre os diversos
equipamentos sociais (educação, proteção social, esporte, cultura, trabalho, etc.), integrando as
198
informações sobre o diagnóstico e sobre a funcionalidade, para oferecer uma imagem mais
ampla e significativa da saúde das pessoas com deficiência.
Pelo já exposto, a composição de uma rede de proteção social envolvendo saúde,
assistência social e educação, amplia a possibilidade da quebra de paradigmas, na medida em
que estimula, articula e promove reflexão entre os diversos atores que vivenciam experiências
no cotidiano da pessoa com deficiência. Permitindo progresso de suas potencialidades,
comprometidas com o desenvolvimento, com o exercício da cidadania e com a equiparação de
oportunidades.
5-CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pessoa com deficiência apresenta, como característica, o impedimento de médio a
longo prazo, podendo ser de natureza física, mental, intelectual ou sensorial. Associado a esse
aspecto, o cidadão terá barreiras que irão complexar sua vida, dependendo do grau de
acessibilidade e condições de trabalho. Portanto, dentro do modelo social, a deficiência não
deve estar relacionada a uma debilidade ou doença, mas sim da interação limitada, consequente
as condições que dificultam o exercício de direitos equiparados na igualdade de condição
material.
As diversas modalidades de deficiência exigem do Estado uma construção de proteção
social a esses cidadãos, para que todos possam ter dignidade em suas diferentes necessidades.
No cenário brasileiro, houveram diversos avanços, porém não suficientes para assegurar
que os cidadãos tenham, de fato, a garantia de proteção social. Como forma de auxiliar no
reconhecimento e empoderamento das pessoas com deficiências e/ou familiares, foi realizada a
ação sobre direitos e deveres gerais e específicos no CER IV.
A ação, em si, configurou-se como uma estratégia de gestão para gerar reflexão sobre o
que pode ser melhorado e construído, dentro da coletividade, para que o SUS tenha legibilidade
e sentido na vida das pessoas. Ademais, os resultados foram muito positivos, em conformidade
com os elogios, esclarecimentos e sugestões, instigando novas possibilidades de
desenvolvimento da educação permanente em saúde, como dispositivo de melhoria e
horizontalidade na comunicação.
REFERÊNCIAS
especializado-em-reabilitacao-transforma-realidade-do-sertao-com-quase-15-mil-
atendimentos>. Acesso em: 21 de julho de 2020.
_______. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo 2010. 2010. Disponível
em: <https://censo2010.ibge.gov.br/resultados.html>. Acesso em: 20 de julho de 2020.
BRASIL. Ministério da Saúde. Carta dos direitos dos usuários da saúde. 3ª edição. Brasília:
Ministério da Saúde, 2011. Disponível em:
<bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cartas_direitos_usuarios_saude_3ed.pdf>. Acesso em:
20 de julho de 2020.
SANTOS, W. R. Pessoas com deficiência: nossa maior minoria. Physis: Revista de Saúde
Coletiva. Rio de Janeiro, v. 18, n. 3. 2008.
200
RESUMO: este artigo apresenta uma discussão sobre a necessidade de se construir um legado
de ações que visem a prevenção da violência e exploração sexual de crianças, com especial
atenção às crianças com deficiência. A abordagem metodológica escolhida foi a pesquisa
qualitativa e de aporte bibliográfico. Constata-se que a educação sexual de crianças contribui
não apenas para a redução de desigualdades, pobreza e miséria, mas que crianças e adolescentes
que têm algum tipo de deficiência são ainda mais suscetíveis à violação de seus direitos,
necessitando de orientação e cuidados específicos sobre como identificar e diferenciar um toque
de amor de um abuso, e assim romper com um ciclo de segredo e silêncio fomentado pelos
autores de violência. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a violência como o
uso intencional de poder ou o uso da força física sob ameaça ou através de uma prática
indesejada de uma pessoa contra a outra, ou ainda quando alguém prática violência na
comunidade, contra um grupo ou até contra si próprio. Nesse caso, estamos falando de uma
sociedade adoecida, que precisa ser estimulada via educação, para que compreenda a
importância do respeito à dignidade humana da criança ou do adolescente, além das devidas
responsabilidades das pessoas adultas sobre as menores, para que estas não sejam
culpabilizadas pelo abuso praticado. Diante disso, as políticas públicas devem tomar como
prioridade uma agenda de ações para combater todos os tipos violência, para que a criança e o
adolescente se sintam seguros e protegidos pelas suas famílias e por toda à sociedade.
1-INTRODUÇÃO
A violência sexual contra crianças e adolescentes 23 acompanha a história humana desde
as culturas primitivas, estando inserida num contexto histórico-social de raízes culturais de
dominação, opressão e/ou exploração, constituindo-se na cena contemporânea em uma das
expressões da questão social. 24 Essas ações de violação de direitos ocorrem predominantemente
23
Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990), crianças são aquelas que possuem idade até
12 anos incompletos, e adolescentes, de 12 anos a 18 anos incompletos.
24
“Questão social que, sendo desigualdade, é também rebeldia, por envolver sujeitos que vivenciam as
desigualdades e a elas resistem e se opõem. É nessa tensão entre produção de desigualdade e produção da rebeldia
e da resistência que trabalham assistentes sociais, situados nesse terreno, movidos por interesses sociais
201
no âmbito privado, porém se manifestam também no público por meio da ação ou omissão dos
familiares, da sociedade ou do Estado.
Com efeito, na esteira da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) e do Estatuto
da Criança e do Adolescente – ECA (BRASIL, 1990), foram estabelecidas garantias de direitos,
como a responsabilidade compartilhada. Logo, o poder público também tem responsabilidade
na garantia desses direitos.
A Doutrina da Situação Irregular do antigo Código de Menores (de 1927 e 1979),
substituída pela atual Doutrina da Proteção Integral (BRASIL, 1990), estabeleceu novas
metodologias para abordar e enfrentar a problemática envolvendo a violação de direitos de
crianças e adolescentes.
No entanto, em diferentes lugares do mundo, identificamos diariamente crianças
expostas e com sinais de violências, em especial a violência sexual 25 seguida da exploração
sexual. Dados do disque 100 26 (BRASIL, 2018) e da Secretaria de Vigilância e Saúde (SINAN,
2018) evidenciam que, no Brasil, entre os anos de 2011 e 2017, foram recebidas 668.707
denúncias de violência contra crianças e adolescentes. No estado de Santa Catarina, nesse
mesmo período, foram recebidas 21.265 denúncias de violência contra essa população; sendo
que os anos de 2012, 2013 e 2014 representaram 51% do total de denúncias.
Nesse contexto, evidencia-se que a violência sexual possui diversas características,
todavia há um exponencial – o silêncio, pois quando a sociedade se cala diante do ato ilícito,
este naturalmente se perpetua. O silêncio é um dos sintomas da violência psicológica, imposta
pelos autores da violência, para que o segredo não seja rompido. Santos e Dell´Aglio (2008, p.
328) apontam que esses “São momentos difíceis para a vítima porque geralmente envolve
alguém próximo da criança e apresentam reflexos no sistema familiar, como o rompimento de
distintos, dos quais não é possível abstrair ou fugir, porque tecem a vida em sociedade” (IAMAMOTO, 1998, p.
28).
25
O Ar. 7º da Lei Maria da Penha (nº 11.340, de 7 de agosto de 2006) define o que é “III - a violência sexual,
entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não
desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de
qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao
matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou
que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos;” (BRASIL, 2006, p. 2). Já exploração
sexual é quando ocorre a troca mercantil, ou seja, quando crianças e adolescentes passam a ser explorados em
troca de dinheiro, drogas, comida, presentes ou promessas. Hoje, a exploração sexual ocorre em uma diversificada
gama de âmbitos.
26
O Disque 100 é um serviço ofertado à sociedade para que se ofereçam denúncias de todas as formas de violação
de direitos da população. É um canal vinculado ao Programa Nacional de enfrentamento à violência sexual contra
a população infantojuvenil (SPDCA/SDH) e ao Poder Público, ele propicia que cada denúncia de violação de
direitos possa ser entendida e avaliada. As denúncias podem ser efetuadas pelo disque 100 ou através do aplicativo
para celular “Proteja Brasil” (BRASIL, 2018).
202
vínculo, culpabilização e suporte financeiro”. Como bem nos assegura Farinati (1993 apud
BRASIL, 1999, p. 35):
Assim, ela conservando, após a anulação de seu testemunho, para si o terrível segredo,
perderá a confiança em suas próprias palavras, ficará isolada, sem resposta ao apelo
que não foi ouvido. Isto engendrará um traumatismo suplementar com repercussões
negativas para o resto da vida.
[...] a ação que trata o ser humano não como sujeito, mas como objeto. Há violência
quando uma diferença é transformada e tratada como desigualdade. Na situação de
violência, o dominado interioriza a vontade e a ação alheia, perdendo autonomia sem,
entretanto, reconhecê-lo, por efeito da alienação. Assim, a banalização da violência
praticada contra crianças e adolescentes só é possível quando as crianças e os
adolescentes não são compreendidas como sujeitos, mas como objetos e propriedade
dos adultos.
Para assegurar que crianças e adolescentes tenham sua condição de sujeito respeitada,
esse direito foi previsto pelos marcos normativos e regulatórios. Por isso, qualquer ato de
negligência, exploração ou violência que seja caracterizado por maus-tratos é considerado
violação de direitos. A violência também é conceituada como:
[...] toda ação ou omissão que prejudique o bem-estar, a integridade física, psicológica
ou a liberdade e o direito ao pleno desenvolvimento de outro membro da família. Pode
ser cometida dentro ou fora de casa por algum membro da família, incluindo pessoas
que passam a assumir a função parental, ainda que sem laços de consanguinidade, e
em relação de poder à outra (BRASIL, 2002, p. 15).
Considerando que a maioria dos casos de violência ocorre em ambiente familiar, e que
por isso mesmo essa violência pode se apresentar de forma naturalizada, ela pode também se
perpetuar caso não haja uma mediação para educar o agressor ou os adultos que detêm o poder.
Sabe-se que a impunidade é notória em diferentes lugares do mundo, todavia onde existe maior
responsabilização do abusador, gradativamente, o número de casos diminui. Para Yves
Michaud (1989),
[...] de um lado o termo violência designa fatos e ações (agir sobre alguém ou fazê-lo
agir contra sua vontade, empregando força ou intimidação); de outro, designa uma
maneira de ser da força, de um sentimento ou de um elemento da violência — a
violência de uma paixão ou da sua natureza. No primeiro caso a violência se opõe à
paz, à ordem que ela perturba e questiona. No outro, é a força brutal e desabrida que
desrespeita as regras e passa da medida (MICHAUD, 1989, p. 8).
204
Crianças e adolescentes que apresentam algum tipo de deficiência têm mais fragilidades
e podem se tornar vítimas de violência sexual, principalmente pela condição de vulnerabilidade
da sua própria deficiência. Além disso, ao sofrerem abusos, elas também têm mais dificuldades
para denunciar os autores da violência. Já estes costumam ter plena consciência disso, e
aproveitam-se do fato.
Por isso, faz-se necessário que a didática seja adaptada e aplicada para cada tipo de
deficiência, no intuito de ensinar a criança ou o adolescente a distinguir um toque de amor,
carinho e/ou afeto de um toque de abuso ou violência sexual. Nesse sentido, é fundamental
205
instruí-las sobre como informar o ato e para quem informar. Com efeito, o papel da instituição
de apoio ou da escola é fundamental e decisivo.
A Constituição Federal de 1988 define: “Art. 23. É competência comum da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: (...) II - cuidar da saúde e assistência, da proteção
e garantia das pessoas portadoras de deficiência; (...)” (BRASIL, 1988, p. 15).
O Artigo 7º do Decreto nº 6. 949, de 25 de agosto de 2009, assegura que as crianças e
os adolescentes com deficiência têm prioridade
Entendemos que a violência sexual cometida contra crianças e adolescentes que têm
algum tipo de deficiência é ainda mais delicada de se lidar. Isso acontece porque, todas as vezes
em que o assunto for abordado, novamente toda a situação virá à tona, o que por vezes poderá
ocasionar profundas barreiras psicológicas. Conforme Maria Amélia de Souza e Silva (2002, p.
73-74, grifo nosso).
São crianças sem voz e sem vez, aprisionados em uma relação assimétrica de poder,
em que só lhes restam a submissão à vontade do outro e a renúncia ao próprio desejo.
Vivem um drama que afeta seu desenvolvimento tanto físico como emocional, o que
pode gerar indivíduos com graves dificuldades de vinculação. Além disso, como
consequências surgem sequelas imediatas ou tardias, físicas e emocionais, traduzindo
em sintomas como dificuldades escolares de relacionamento social, distúrbios
psicossomáticos, até a invalidez ou a morte por homicídio ou suicídio.
Existe uma gama diversificada de autores de violências que usam diferentes métodos.
Porém, estatisticamente, segundo o ensaio “Gênero, patriarcado e violência” (SAFFIOTI,
2015), 71,5% dos abusos incestuosos são praticados de pai biológico para filha. Destes, ainda
segundo Saffioti (2015), predominam dois tipos de criminosos: o pai amoroso e o pai brutal.
O pai amoroso, na maioria das vezes, possui maior grau de escolaridade e age de forma
carinhosa para induzir a ação de forma gradativa, com o propósito de proporcionar prazer à
vítima antes de iniciar o ato de abuso, podendo chegar à penetração. Além disso, por vezes,
oferece recompensas materiais pelos atos praticados, como forma de estímulo e de silêncio.
Esse processo gradual tem o intuito de criar laços de confidencialidade entre o agressor e a
vítima, além de incentivar rivalidade entre a mãe e a filha. Apesar do adjetivo “amoroso”, esse
tipo de indução ao abuso é o que mais causa traumas psicológicos na vítima, pois está se sente
cúmplice do ato. Já o pai brutal não se importa com o processo. Na maioria das vezes, possui
baixa escolaridade, é violento e não carrega preocupações com o sentimento da vítima. Protege-
se ameaçando constantemente a criança e, por vezes, a própria mãe. Pratica o ato por meio da
força física. Esse tipo de abuso é mais comum em famílias com menor renda, pouca
escolaridade e problemas recorrentes de alcoolismo e drogas (SAFFIOTI, 2015).
Apesar da gravidade da ação, a pena para o abuso sexual cometido contra essa população
é branda, porém com agravante para casos em que a vítima possui deficiência. Vejamos: “DOS
CRIMES SEXUAIS CONTRA VULNERÁVEL, Art. 218. Induzir alguém menor de 14
(catorze) anos a satisfazer a lascívia de outrem: Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos”
(BRASÍLIA – DF, 2009, p. 2).
Ainda segundo o já citado Boletim Epidemiológico (SINAN, 2018), dos 141.090
registros de violência sexual contra crianças e adolescentes, 84% das vítimas são meninas.
Desse total de registros, 58% estavam na faixa etária entre 6 e 14 anos. Quanto aos agressores,
74% são do sexo masculino.
Em síntese, se considerarmos a complexidade e diversidade da violência, nos
certificaremos de que esse fenômeno deve ser enfrentado a partir de uma articulação em rede,
por meio de Conselhos Tutelares, Delegacias de Polícia, Centrais de Denúncia, Poder
Judiciário, Organizações da Sociedade Civil (OSC), Conselhos de Direitos da Criança e do
Adolescente, Escolas, Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA) e
207
Equipamentos Socioassistenciais. Além disso, a questão da violência sexual deve ser tratada
como prioridade pública na agenda social.
27
De acordo com a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais, o CRAS, serviço de Proteção Básica,
atende a população que precisa de atendimento direcionado à prevenção de ocorrências de situação de
vulnerabilidade social e de risco nos territórios. O CREAS, por sua vez, é um serviço especializado de proteção
Social de Média e Alta Complexidade, voltado para o atendimento de indivíduos e famílias que estão passando
por alguma situação de risco, que pode ser pessoal, social ou por violação de direitos.
208
culpabilizar o homem adulto por envolver-se com menores. Essa cultura tem profundos
impactos subjetivos no entendimento relacional pessoal. Por isso,
Art. 70. É dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da
criança e do adolescente. Art. 70-A. A União, os Estados, o Distrito Federal e os
Municípios deverão atuar de forma articulada na elaboração de políticas públicas e na
execução de ações destinadas a coibir o uso de castigo físico ou de tratamento cruel
ou degradante e difundir formas não violentas de educação de crianças e de
adolescentes [...] (BRASIL, 1990, p. 19).
Assim, a Constituição Federal de 1988, em seu Art. 227, preconiza também que:
Com efeito, como bem nos assegura Trassi (2006, p. 17, grifo nosso), “não existe
neutralidade possível frente à violência. É necessário produzir um conhecimento solidário,
aquele que se aproxima, que está ali onde a dignidade humana está ameaçada, onde não existe
a palavra”. Diante disso, para Pereira (2008)
[...] tais políticas (notadamente a social) devem se inscrever num quadro de mudanças
que também preveja a recuperação e transformação do Estado, tendo como horizonte
uma estratégia que vá além dos direitos como postulação normativa respaldada no
seguinte lema: “que o livre desenvolvimento de cada um seja a condição do livre
desenvolvimento de todos” (PEREIRA, 2008, p. 106).
5-CONSIDERAÇÕES FINAIS
A violência sexual é um fenômeno complexo e difícil de ser conceituado. Ela pode ser
realizada por indivíduos de qualquer classe social, grupo ou nação.
Esse fenômeno não é atual ou exclusivo da contemporaneidade. Suas raízes estão nas
estruturas sociais, político-econômicas e, por que não dizer, na própria consciência individual.
A violência é sempre reforçada por uma relação de poder, e está aliada às mais diversas
209
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, W. C. de. Formas de encontro. São Paulo: Ágora, 1988.
_______. Lei nº 6.697, de 10 de outubro de 1979. Institui o Código de Menores. Diário Oficial
[da República Federativa do Brasil], Brasília, 11 out. 1979.
_______. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. “ECA”. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e
do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial [da República Federativa do Brasil],
Brasília, 16 jul. 1990.
_______. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Cria mecanismos para
coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8º do art. 226 da
210