Bà[roauçao A0 — HILTON FERREIRA JAPIASSU | |
nsamento Epistemoldgico |
(Preparada 'pelo Centro de Catalogagfio-na-fonte do
Sindicato Nacional dos Editores de Livros,
RJ)
| * Japiassu, Hilton Fererira,
J39% ntroducio a0 pensamento ep 1934 —
Rio de Janeiro, F Alv istemolégico.
es, 1975,
112p. ilust, 2lcm.
Bibliografia
1. Teoria do conhecimento
, I, Titulo.
50138. — ) — 121
Ls : o0U — 165
CD
O QUE É A EPISTEMOLOGIA
Devemos dizer, de inicio, que da epistemologia '
sabemos muito
sobre aquilo que ela não é, e pouco sobre aquilo
que é ou se torna,
',iº uma vez que se trata de uma disciplina rece
nte-e cuja construção
¢, por 1ss0 mesmo, lenta. Seu estatuto está longe
de poder ser bem
defi nido, tanto em relação as ciéncias, entre as quais pretende
ins-
talar-se como disciplina auténoma, quanto em relação à filos
ofia, de
que insiste em separar-se sem se dar conta de que uma de.suas
razões de ser é postuld-la como uma das exigéncias fundamentais de
qualquer olhar critico e reflexivo sobre as ciéncias que se vém criando
e transformando o mundo através dos produtos que não cessam de
langar em nossa cultura. Por isso, definir o estatuto da epistemologia
atual é tarefa delicada, pois os limites do domfnio de investigagdo
dessa disciplina são muito flutuantes. Além disso, não existe sequer
um acordo quanto à natureza dos problemas que ela deve abordar.
Seu campo de pesquisa é imenso, supondo grande intimidade com as
ciéncias, cujos principios e resultados ela deveria estar em condições
de criticar. Donde a variedade de conceitos de epistemologia. '
Comecemos pela noção mais simples. “Epistemologia” significa,
- etimologicamente, digcurso«(logos) sob;ve_ .a ciência (episteme). Ape-
sar de parecer um termo antigo, sua criação é recente, pois surgiu
a partir do século XIX no vocabulário filosófico. Daí um primeiro
problema: se aquilo que está por baixo desse termo (seu conteúdo)
só apareceu no século passado, a que condições novas, na história
das ciências e da filosofia, corresponde este aparecimento? Será que
este termo surgiu tardiamente para designar uma antiga forma de
conhecimento, contemporânea da prática dos-primeiros sábios e fi-
lósofos? Em outros termos: teria a epistemologia começado com a
filosofia clássica (com Platão, por exemplo), ou somente depois
dela? : -
Colocando a questão mestes termos; p_odemos confinar a episte-
mologia, desde o início, nos limites d'o dlscurs_o filosófico, fazensio
dela uma parte deste discurso. Foi assim que flzerfim todas as epis-
das ciéncias ou de teo-
temologias tradicionais, chamadas de filosofia
ria do conhecimento. Todavia, colocando dê outra forma a questdo,
"caracterizaremos a epistemologia como um discurso segundo o qual
o discurso primeiro da ciéncia deveria ser refletido. Assim o esta.
tuto do discurso epistemolégico, como duplo, é ambíguo: discurso
sistemático que encontraria na filosofia seus princípios e na Ciência
seu objeto. Seria um discurso dividido entre duas formas de discurso
racional. Por esta dupla pertença ou filiação, a epistemologia teria
por função resolver o problema geral das relações entre filosofia e
ciências. Trata-se de saber se tal problema é verdadeiro, ou se a
epistemologia não deve ir procurar suas funções, seus métodos e seu
conteúdo fora da perspectiva filosófica.
Tradicionalmente, a epistemologia é considerada
como
ciplina especial no interior da filosofia. Eram os filósofos queuma dis-
as pesquisas em epistemologia. Esta era “para” a ciência
faziam
ou “sobre”
a ciência, mas não era obra dos próprios cientistas. Todas as
filoso-
fias desenvolveram espontaneamente uma teoria do conhecimento
e
uma filosofia das ciências tendo por objetivo, quer evidenciar os
meios
do conhecimento cientifico, quer elucidar os objetos
aos quais tal ço-
nhecimento se aplica, quer fundar a validade deste conhecimento.
Como se pode notar, este programa visa um duplo fim: em primeiro
lugar, descobrir um conhecimento positivo: de que fala o cientista?
Como fala dele? Em segundo lugar, visa ultrapassar os limites des-
sas questões, fazendo da prática científica o objeto de um juízo: o
que é uma verdade científica? Em que condições há verdade? Em
que limites podemos falar de verdade científica?
* -Esta concepção tradicional de epistemologia está registrada no
‘Vocabuldrio de Lalande. Para este, com efeito, a epistemologia é a
filosofia das ciéncias, mas com um sentido mais preciso. Ela não é,
propriamente falando, o estudo dos' métodos cientificos, os quais
pertencem à metodologia. Também não é uma sintese, ou uma ante-
cipagdo ' conjectural das leis cientificas (3 maneira do positivismo
ou do evolucionismo). Essencialmente, a epistemologia é o. estudo
critico dos principios, das hipdteses e dos resultados das diversas
ciéncias. Semelhante estudo tem por objetivo determinar a origem
16gica (ndo psicol6gica) das ciéncias, seu valor e seu alcance obje-
tivos. '
Como podemos depreender dessa concepção, a epistemologia
usaria a ciência como simples pretexto para filosofar. A filosofia teria
‘com a ciéncia uma relação puramente interesseira, explorando-a para
seus préprios fins. Isto se torna manifesto nas trés fungGes clássicas
atribuidas à filosofia das ciéncias: 1. Situar o, lugardo conhecimento
cientifico dentro do dominio do saber. Esta atividade, propriamente
tépica (topos: lugar), é dupla: de um lado; ela distingue as funções
€ 0s meios que são apropriados s outras formas de conhegimento;
o que é a epistemologia 21
do outro, ela apresenta o sistema geral de todas essas funções. Don-
de o paradoxo do discurso filosófico, que se confere a si mesmo um
lugar específico no interior deste conjunto, mas permanecendo-lhe
estranho, pois cabe-lhe designar seu esquema global. Daí a questão:
por que a filosofia tem este privilégio de distribuir em torno de si
os outros discursos? Não poderia o discurso científico descobrir por
si mesmo seu próprio lugar? Destas questões, podemos deduzir a
segunda função da filosofia das ciências. 2. Estabelecer os limites
do conhecimento científico: este não pode tudo conhecer. Tal limi-
tação se exprime numa série de oposições: ciência e sabedoria, co-
nhecer e pensar, compreender e conhecer, etc. Estas duas atividades,
de distinção e de limitação, supõem o uso de uma categoria, que éo
produto da intervenção filosófica. 3. Buscar a natureza da ciência.
Ora, a ciência não existe. Do ponto de vista da prática dos cientis-
tas, não há ciéncia em geral, mas sistermas de conhecimentos especí-
ficos, em evolução e apropriados a seus objetos. “A” ciência não
passa de uma ficção.
Ao buscar a natureza do conhecimento científico, a filosofia das
ciéncias não se dá por objeto um conhecimento em sua gênese e
estruturação progressiva, em viás de se fazer ou em processo, mas
um conhecimento “em si”, como fato. Ela sê dá um objeto ideal, e
não. esses objetos reais que são as diversas modalidades nas quais
os cientistas trabalham efetivamente, e a partir das quais eles cons-
troem, ao mesmo tempo, o edifício de suas teorias e esses elos po-
sitivos que permitem seu desenvolvimento. Portanto, trata-se de uma
modalidade de epistemologia que poderíamos chamar de “metacien-
tífica”, em oposição às epistemologias ditas “científicas”. Ela parte
de um postulado: o de que o. conhecimento é um fato que pode ser
estudado em sua natureza própria e-nas condições prévias de sua
existência. As questões colocadas por este tipo de epistemologia re-
ferem-se sobretudo à possibilidade do conhecimento. Ela não se in-
terroga sobre suas condições concretas de elaboração, de gênese, de
organização, de estruturação ou de crescimento. Daí as questões fun-
damentais: “como é possível o conheciménto”? “o que é o conheci-
mento”?
As razões de tal atitude não devem ser procuradas apenas nas
doutrinas dos grandes filósofos, mas também no próprio pensamento
científico, que por muito tempo acreditou ter atingido um conjunto
de verdades definitivas, embora incompletas, permitindo que se in-
terrogasse sobre “o que é o conhecimento”. Ora, hoje em dia, o co-
nhecimento passou a ser considerado como um processo e não como
um dado adquirido uma vez por todas. Esta noção de conhecimento
foi substituída por outra, que o vê antes de tudo como um processo,
como uma história que, aos poucos e incessantemente, fazem-nos
W
22 R introdução ao Pensamento EPistem
:
Ol6gie,
captar a realidade a ser conhecida. Devemos falar hoje de
mento-processo e não mais conhecimento-estado, Se nosso Zº eci,
mento se apresenta em devir, só conhecemos realmente quan
e,
samos de um conhecimento menor a um conhieciment, 0 pag.
refa da epistemologia consiste em conhecer
este dey,
todas as etapas de sua estruturagdo, chegando
mento provisério, jamais acabado ou definitivo sempry
,
E neste sentido que podemos con
ceituá-la como essa disciplip,
cuja função essencial consiste em su bmeter a prética dos cientistyg
a uma reflexdo que, diferentemen
te da filosofia clássica do conheci-
tatuto_ geral, consiste em estabelecer
hecimento poderá ser se o con
reduzgdo a um puro registro, pelo Sujeit
o, dos dados já anteriormente
org anizados independentemente dele num mundo exterior (fisico ou
ideal), ou se o Sujeito poderá intervir ativamente no conhecimento
dos Objetos. E da tomada de posigdo rel
ativamente a este- problema,
que as epistemologias se repartem em duas categorias ou orientações
distintas. Portanto, de um lado, temos as epistemologias genéticas,
para as quais o acordo entre o Sujçito e o Objeto dever_á ser estabe
-
lecido progressivamente: o conhecimento
ado_ de um deve ser analns
- ponto de vista dinâmico
(na sua formação e em seu desenvolvimento)
ou diacrônico, quer dizer, em“sua estrutura evolutiva. Por outro lado,
temos as.epistemologias não-gen-étzcas, para as quais o acordo entre
o Sujeito e o Objeto deve ser feito desde a origem, não sendo aceita
a perspectiva histérica ou temporal: o conhecimento é estuda de
um ponto de vista estático ou sincrénico, quer dizer, em sua do
estrutu-
ra atual.
E claro que, no interior dessas duas categorias podem ser dis-
tinguidas subclasses, conformeo acordo suponha um
primado do
Objeto que se impSe-ao espirito (conhéecimento tir
um primado do Sujeito (conhecimento tir ado -do objeto),
ado do swjeito) que ante-
cede ao objeto, ou uma interação entre o Sujeito e o Objeto. E as
epistemologias contemporaneas repartem-se segundo’ confiram o pri-
mado ao Sujeito, ao Objeto.ou à Interação -entre ambgs.f Contudo,
as epistemologias atualmente. vivas e significativas, estão cen
tradas
sob
men re as int era çõe s do Suj eit o e do Obj eto : a epx ste mol og] _ª feno-
ológica, ilustrada por Hpsser.l; a º,PlStºmflº,g'ªhFºtªÉs_tfuflyista s
estunenealista; Tustrada por Then SPepque
uiolo iaaso Bivionrade
cigic
da por Bac a epi
helard; stemologia aos a por
Foucault. -
o que é a epistemologia
23
a si mesma reladivâmente Pt
É necessário qu
o
nas que lhe são mais ou menos afins. Em oufrsose Zar(:x:l;asad:asci?tlel:
i
ot £ i i
mologla_ se situa na-intersec¢do de preocupações e de discii)linaspbas-
tante .dlver_s'ízs_, tanto por seus objetivos quanto por seus métodos
É'multo -dlÍ:lCll encontrar uma lista completa e precisa dessas disci-
plinas. Ll}nltemo-nos a algumas. Trata-se, de fato, de uma divisdo
nas maneiras de abordar a epistemologia, isto é, de um conjunto de
vias de acesso a esta disciplina, cada uma com seu tipo préprio de
inteligibilidade, constituindo uma abordagem que não se impGe as
outras.
A. A filosofia das ciéncias
No pano de fundo de toda abordagem epistemolégica, encon-
tramos toda uma tradição filoséfica. Todos os grandes filésofos tam-
bém foram tedricos do conhecimento, quer dizer, construiram uma
teoria do conhecimento fazendo parte integrante de seu sistema filo-
sç'yflco, Eleg se perguntaram como a ciéncia é possivel. Ao se refe-
rirem às ciéncias, tinham em vista duas coisas: quer ultrapassá-las
com métodos análogos, quer opor-se a elas determinando seus limi-
abrir, com essa crítica, outros caminhos possíveis. As
tes e tentando
uma
diversas teorias clássicas do conhecimento eram o produto de
tipos de
reflexão sobre as ciências, dizendo respeito. aos diversos fun-
saber e às suas, fontes: razão, imaginação, experiência, etc. No
condições. Procuravam-
do, a questão como vinha a significar em que para que
se, pois, as condições ou os princípios logicamente exigidos.
do co-
a ciéncia se tornasse possivel. Podemos chamar essas teorias
e tentando
nhecimento, partindo de uma reflexdo sobre as ciéncias
epistemologia
prolongé-la numa teoria geral do conhecimento, de
Sujeito e o
“metacientificas”: elas visam a estabelecer a relação que o
mas tendo em vista de-
Objeto mantém entre si no ato de conhecer,
conhecimento, a fim de
terminar o valor e os limites do préprio
mecanismo geral e seu alcance.
extrair sua natureza, s€u
as for mas - clés sica s de epi ste mol ogia estiveram sempre,
Todas : cias. No
ou de out ro, vin cul ada s ao progresso das cién
de um mo do
ve uma sol ida rie dad e da fil osofia com as çiênefas. Todos
assado, hou
ref let ira m sob re aqu ilo quê faziam. E foi assim que se
os filósofos ble ma consiste em saber como
oso fia das ciê nci as. O pro
constituiu a fil Atu almente, são os próprios
jus tif ica r-s e hoj e em dia.
ela ainda pode uma
sta s que se int ere ssa m por refletir sobre o que.fazem. De
cie nti sm o que seja de modfz im-
eles se col oca m, me
forma ou de outra, os
stõ es sob re a raz ão de ser.flos problemas, dos n}etc_)d
plícito, que Aliá s;, há toda uma tendência
a
s de sua s dis cip lin as.
e dos coriceito
introdugdo ao pensamento CPistemg i
y,
24
ão sob re a cié nci a cur var -se à disciplina cientific,,
fazer a reflex i
lmg i , gç outro, multipLlica,: e
um lado, fazendo-se ape lo à uag emª lóg lca
Isto não quer dizer que.a epistemo.
com os fatos.
do-se os contatos
com ple seu s laç os com a filosofia: ex
logia tenha cortado tamente
primeiro lugar, porque as grandes epistemologias continuam estrei.
tamente associadas a uma filosofia; em seguida, porque elas a suge. ,
rem ou a confirmam; finalmente, porque acin}a das epistemologias
“regionais” ou “internas”, há probler_na's de epistemologia geral que
ultrapassam a competéncia dos especialistas. E mesmo que possámos
colocar em dúvida a validade atual de uma epistemologia filoséfica,
não poderfamos negar a importéincia de uma teoria da histdria das
s
ciéncias. Esta teoria, muito soliddria da epistemologia, ndo perde seu
caréter filoséfico. Uma teoria das ciéncias só é epistemoldgica, por-
que a epistemologia é histérica. Assim, a historicidade é essencial
ao objeto da ciéncia sobre o qual é estabelecida uma reflexdo que
podemos chamar de “filosofia das ciéncias” ou epistemologia. E a —
histéria das ciéncias, não sendo ela prépria uma ciéncia, e ndo tendo
por isso mesmo um objeto cientifico, é uma das funções ‘principais
da epistemologia.
B. A histéria das ciéncias
Esta disciplina conheceu um grande desenvolvimento no inicio
do século XX. O grande problema que se coloca é o do conhecimento
do passado: em que medida podemos descrever uma histéria das
ciéncias sem interpretar os conhecimentos’ passados através dos co-
nhecimentos presentes? Uma histéria puramente descritiva corre o
risco de introduzir juizos de valor inoportunos sobre o que os cien-
tistas “deveriam ter feito”, sobre seus “erros”, etc. E hoje sabemos
que, fazer a histéria das ciéncias, consiste em fazer a histéria dos
conceitos e das teorias cientificas, bem como das hesitagdes do pró-
prio teérico. Trata-se de um esfor¢o para se elucidar em que medida
as noções, as atitudes ou os métodos ultrapassados foram, em sua
época, um ultrapassamento. Mais profundamente, como nos mostrou
Canguilhem, interrogar-se sobre a histéria das ciéncias consiste em
interrogar-se ao mesmo tempo sobre sua finalidade, sobre seu desti-
no, sobre seu porqué, mas também sobre aquilo pelo que ela se
interessa, de qué ela se ocupa, em conformidade com aquilo que ela
visa. Sendo assim, a epistemologia não pode deixar de interessar-se
pela histéria das ciéncias. É através da epistemologia que os filóso-
fos se interessam por ela, na medida em que esta consciéncia critica
dos métodos atuais de um saber ad’equado a seu objeto vé-se obri-
gada a celebrar o poder cllessesAm'etodos, lembrando os embaraços
que retardaram sua conquista. Assim, entre as razões apresentadas
\
o que é a epistemologia
25
por Canguilhem para se fazer histéri ianci L
seca a ciéncia, ente‘ndida comolsáªêârgâsv (extrín-
êíªzªãá Zzsáóncadf_ter
(realizada pel 0: :; mma.
do setor—da experiência), científica
são Pesc_l ulsado res e não acadêmicos), e filºsófic:n ;s;ttas ú?f.
quan}o referéncia- à e i‘t a1 .n.
importante. Porque sem
ma é a mais
toda teoria do conhecimento seria uma meditação soãsºmº ogla,
Por outro lado, sem relação à histéria das ciéncias, a e;ãt:mgªª
réplica inútil da ciência q qu e tom a como j i
curso: uma
seria objeto de dis-
do eãoritnz'a;lgá lc,oqtranamente aos_eplste.mólqgos que se reclamam
o) dc? — ggâ::)e, Pã;(rõa_os quais a história das ciências situa-se’
ligadas ao cgnhegimerrrlltcc)) g;cso%alt)g;s g:srtt:::a(ª os aênclas.empíricaES,
é profundamente solidária da histéria das ciências, devendo alimen-
tar-se a.mpla,lm'ente de seus ensinamentos. Na perspectiva positivista,
a ciência só É tomada como objeto de estudo na medida em que
existe a tltulo_de fato, isto é, como ciência presente. Contrariamen-
te a eftª_pºSlção, devemos dizer que compete à epistemologia for-
necer à história das ciências o princípio de um juízo, pois é ela que
lhe ensina a última linguagem falada por tal ciência, permitindo-lhe,
assim, recuar no tempo até o momento em que esta linguagem deixa
a
de ser inteligível. É a epistemologia que nos permite discernir
história dos conhecimentos científicos que já estão superados e a
porque atuantes e
dos que permanecem atuais (ou sancionados),
A diferença entre o
colocando em marcha o processo científico.
consiste em que o primeiro
historiador das ciências e o epistemólogoque o segundo toma os fatos
toma as idéias como fatos, ao passo
pensamentos. Em outras
como idéias, inserindo-os num contexto de o presente, de sorte
palavras, O primeiro procede das origens para
no passado, ao passo
que a ciência atual já está sempre anunciada pz.issado, de sorte que
o
que o segundo procede do presente para
e uma par te daq uil o que ont em era considerado como ciéncia
soment
icado cientificamente.
pode hoje ser fundado e justif
é a epi ste mol ogi a, enq uan to teoria do funQamento
Resulta que da história das mêfncla.s não
faz com que o obj eto
da ciéncia, que nci a, e .com que a história das
com O obj eto da ciê
se identifique. ia explícita do fato de as ciên-
sciênc
ciências seja uma tomada de con gressivos para 2 determinagéo da-
cias serem discursos criticos e pro
, na exp eri énc ia, dev e. ser tid o por real. E ah{da ela_que faz
quilo que eto não dado,
com que o objeto da história das ciências seja um obj
con str uíd o, um obj eto cuj o inacabamento.é essencial.
mas um objeto fil oso fic ame nte quesu_onada, sur-
das ciê nci as,
Em suma, da história outra coisa ndo é sendo uma
das
as que
ge uma filosofia das ciénci
introdugao ao pensamento ºDimm i
26 — ológ DO)
À i ral, e que constitui um
?‘iilégidades da epistem
:o à epistem geral,
ologiapróxima
ologia, às que passam pela à dag
Picolog
Ogia,
pela sociologia e pela metodologia dos conhecimentos,
C. A psicologia das ciéncias
- Esta disciplina ainda estd em seu início. Mas Seu campo de pes.
quisa é vasto. Há muitas questões epistemológicas que só são resot.
vidas através de uma psicologia qo conhecimento. ?or exemplo, a se.
guinte questão: qual é a influência dos processos simbólicos inconsci.
entes sobre a produção do pensamento lógico na pesquisa científica)
Estamos hoje em presença de todo um trabalho que certamente pode-
mos chamar de epistemologia psicológica, visando elucidar como se ar-
ticulam as diferentes etapas do conhecimento, desde a infância até a
ciência dos adultos, associando estreitamente a análise lógica à análi-
se psicológica. São as pesquisas levadas a efeito por Piaget e sua
equipe no Centro Internacional de Psicologia Genética, em Gene-
bra. Ao partirem da questão fundamental do pensamento kantiano:
“como o cohecimento é possivel?, acreditam esses autgres que a
psicologia genética foi criada para trazer-lhe uma resposta. Eles mos-
tram toda a caréncia da filosofia tradicional para solucionar este
problema, bem como as insuficiéncias, tanto das velhas certezas e
respostas do empirismo, quanto das novas solugdes propostas pelo
positivismo 16gico. E pretendem instaurar, com a psicologia genéti-
' ca, as bases sólidas de uma nova epistemologia. Esta não pode mais
- contentar-se com uma fidelidade às tradições anglo-saxônicas, que
permanecem orientadas para um associacionismo empirista, o .que
reduziria_todo conhecimento a uma aquisicdo exdgena, a partir
da
experiéncia ou das apresentagSes verbais ou audiovisuais dirigidas
pelos adultos. Por outro lado, a epistemologia .
genética tampouco
aceita a solução proposta pelo’ enmpirismo
16gico que, no Processo
de gqu_isição dos conhecimentos, continua a fazer
apelo aos fatores
de ineidade e de maturação interna. A nova
ser elaboradad a partir de epistemologia precisa
um a concepção construtivis
À ta da aquisição
dos conhec
imentos: sem pré-forma
nem endógena (ineidade), mas por ¢80, nem exógena (empir
continu o "
: ismo)
s :
elaborações sucessivas. s ultrapassam ; as
passamentos d
Ao partir de sua concepção da.psicolog; " á
. como o estudo do desenvo]viâento daspfunçõtª.gslam%gltlaéitslcal;'iae
tra que este desenvolvimento pode fornecer uma explicação %netfdndgl:s
menos, um complemento de informação quanto aog mecanismos â:s_
'sas funções mentais em seu estado acabado. Por outro lado, mostey
que podemos utilizar a psicologia genética para encontrar a solução
dos problemas psicológicos gerais e dos problemas do conhecimento,.
o que é a epistemologia
21
Em suma, é a esta epistemologia que devemos
epistemologia da psicologia à
em geral.
D. A sociologia do conhecim
ento
Também
o esta : disciplina em preende pesqui i &;
Marx, Dur.kheun, M. Weber, Manheim e muitos outr ó
do conhecimento. É evident e tos
que as tendências outros sociólogos
manifestadas por
esses autores em seus trabalhos são bem diferentes. Todavia, todos
têm em comum uma abordagem global: para eles, os conhecimentos
não são considerados como construções autônomas e individuais,
mas como atividades sociais, inseridas num determinado contexto
sociocultural. O_conhecimento científico é sempre tributário de um
pano de fundo 1dçológico ou filosófico. Também é tributário da re-
ligião, da economia, da politica e de outros fatores extracientificos.
Sendç assim, o simples fato de concebermos a ciência ou um co-
nhecimento científico como possíveis,já é um pressuposto que tem
origens filosóficas ou ideológicas. Por conseguinte, uma sociologia
do conhecimento deve ter, entre outras funções, a de estabelecer
uma ruptura entre os saberes comuns € 0 saber cientifico, interrogan-
ruptura
do-se sobre as condigdes sociais que tornam inevitdvel esta
missão de
com o conhecimento esponténeo e ideológico. Ela tem a Ora,
evidenciar ospressupostos inconscientes das tradi¢des tebricas.
as condições histéricas € sociais em que se
este fato de encontrar
já é um trabalho
realiza a prética sociolégica, para ultrapassé-las, )
específico da crítica epistemológica.
de sociologia da ciéncia.
Nas últimas décadas, fala-se também guardm_l um carét'er es-
que
Distinta da sociologia do conhecimento,
de uma determinação social do
peculativo para estudar o problema dá preferência ês pesquisas
ciência
conhecimento, a sociologia da e dos fatores ne_xo-cwnnflcos
do condicionamento social
concretas interessa so-
concernentes às “diversas descobertas científicas. Ela se
tentando levar em conta as
bretudo pelo progresso da ciência, mas as consequenflas que decs)r-
entre a ciência e a sociedade:
relações
de suas realizagbes para 2 v1qa
rem da ciéncia, de seus progressos €
social e sua organizago. Não se interessa tanto, como a'5°°'°1°g‘a
s do .cgnhecm_le_nto º_lºntlf iººiº lllkªlªª
do conhecimento, pelos sistema suas condiç ões sociais reais de trabalho.
pelos próprios cientis tas, em
s 28 introdução ao pensamento epist,
Pistemolgg;,
.
R.
que já sabemos {obr.e a “natureza” da ºPis'íºmologiª
Daquilo
podemos tirar algumas conclu.soes. . , b
1. O simples fato de ainda hesitarmos entre duas. denomina.
ções: filosofia das ciêncggs e eplsten_lologla (ahás,_há Várias qºnºmi.
nações: filosofia das ciências, teoria do conheclfnento,_ lógica da
ciências, epistemologia, etc.), já é reveladqr da impossibilidade de
estabelecermos um estatuto preciso e definitivo para a epistemologia,
Ora falamos de epistemologia (termo que tem a vantagem de apre-
sentar uma conotação mais “séria” e “científica”), ora falamos de
filosofia das ciências (termo que apresenta a desvantagem de estar
carregado de um sentido menos “sério” ou “literário”). No entanto,
essas noções são complementares: a epistemologia guarda sua au- -
tonomia relativamente à filosofia, mas permanecendo solidária a ela
numa integração profunda. A idéia salutar de autonomia não pode
degenerar em preconceito isolacionista, nefasto como todo particula-
risme ou separatismo absolutos. Por outro lado, não devemos enga-
jar-nos no sentido oposto, substituindo a autonomia indispensével
por uma heteronomia desprovida de sentido. É preciso que confi-
ramos à epistemologia uma estrutura e um desenvolvimento especi-
ficos enquanto ramo do saber, sem no entanto prescindirmos daquilo
que ela tem de comum com outras disciplinas, inclusive com a fi-
losofia.
2. Portanto, o conceito de epistemologia não tem uma signifi-
cação rigorosa e univoca, com um conteúdo definitivo e aceito por
todos os que se interrogam como se constitui uma teoria cientifica.
Qual é o papel, na prética cientifica, do contexto social e ideolégico?
Qual é a génese das ciéncias? Qual é sua estrutura? Como crescem
os conhecimentos? Não existe um quadro comum, onde viriam ar-
ticular-se harmoniosamente todos os trabalhos dos légicos, dos psi-
cblogos, dos socidlogos, etc. Sua colaboragdo choca-se quase sempre
com obsticulos, sendo o primeiro deles o de conceituar sua disci-
plina. :
3. Não é pois inútil que cada especialista se interrogue,
de tudo, sobre a idéia que ele faz de sua disciplina. A este antes
resp eito ,
várias questões se colocam. Por exemplo, se queremos conceituar a -
epistemologia, a questão inicial é a seguinte: de que fazemos a
epistemologia? Em seguida, as outras questões: quem vai fazê-la?
Por que se faz episgerqologia? Como ela é feita? E isto porque, o
objeto de uma disciplina, não consiste apenas na matéria própria
sobre a qual se aplica seu estudo, naquilo pelo que ela se interessa
ou naquilo de que ela se ocupa, mas em sua intenção, seu desígnio
ou seu objetivo, quer dizer, em sua finalidade, em sua destinação
e em seu porquê. E sabemos que não encontramos hoje a unidade
de uma disciplina na direção de seu objeto, pois toda ciência se dá
—
É à epistemologia
29
oque
men os o seu obj eto : é a ciê nci a que constitui e constrói seu
mais O u to do, apropriando-se, assim, de seu
pe la in ve nç ão de um mé
objeto
.
domínio.
de ep is te mo lo gi a é, po is , em pregado de modo
4. O conceito se us pr essupostos filosó-
iv el . Se gu nd o os au to re s, co m
pastante flex m os paises e os costu-
ld gi co s, e em co nf or mi da de co
ficos ou ideo , quer uma teoria geral do conheci-
mes, ele serve para designar
e na tu re za ma is ou me no s filoséfica), quer estudos mais
mento (d se e a estrutura das ciéncias
rr og an do -s e so br e a gé ne
restritos inte dos conhecimentos, que;
descobrir as leis de crescimento
tentando m en ti fi ca, quer, enfim, o exame das
ca da li ng ua ge ci
uma andlise lógi co nh ec im entos cientificos. Qualquer
od ug do do s
condições reais de pr te rm o “e pi st em ol ogia”, 2 verdade
rm os ao
que seja a acepgdo que de et en de im po r dogmas aos cientistas.
ne m pr
é que ela não pode e a pri ori , do gm it ic o, ditando autorita-
stem a
Não pretende ser um si nh ec im en to ci en ti fi co . Seu papel é 0
ser O co
riamente o que deveria es tr ut ur a do s co nhecimentos cientificos.
e 2
de estudar a gémese ar pe sq ui sa r as lei s reais de produgdo
de tent
Mais precisamente, O ur a es tu da r es ta produgdo dos co-
E ela proc
desses conhecimentos. o de vi st a 16 gi co , quanto dos pontos de
pont dis-
nhecimentos, tanto do ico, ideolégico, etc. Dai seu carater de emI
oldg e€ eevoluem
vista lingiiistico, soci as ci én ci as na sc em
ar. É _com ó epistemologia
ciplina interdisciplin pem determ in ad as , ca be a
lfle;
circunstancias históricas en tr e a ci éncia e à socxedz'
existe nt es as cien-
s relagoes cas, entre as divers
perguntar-se pela ituicdes cientifi
entre a ciéncia € as inst
cias, etc.