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Pressupostos e Dimensões do Processo Jurídico

O documento aborda o conceito de processo jurídico, destacando suas dimensões procedimental material e jurídico-relacional, e a interdependência entre elas. Discute os pressupostos processuais, que são requisitos para a validade e regularidade do processo, incluindo a perempção, litispendência e coisa julgada, além de pressupostos objetivos e subjetivos. O texto também menciona a importância da citação válida e da petição inicial apta como pressupostos intrínsecos de validade do processo.

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Beatriz Ferreira
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Tópicos abordados

  • justiça do caso concreto,
  • direito substancial,
  • litispendência,
  • coisa julgada,
  • ônus da prova,
  • dever de contestar,
  • convenção de arbitragem,
  • citação válida,
  • abuso do direito,
  • capacidade de estar em juízo
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Pressupostos e Dimensões do Processo Jurídico

O documento aborda o conceito de processo jurídico, destacando suas dimensões procedimental material e jurídico-relacional, e a interdependência entre elas. Discute os pressupostos processuais, que são requisitos para a validade e regularidade do processo, incluindo a perempção, litispendência e coisa julgada, além de pressupostos objetivos e subjetivos. O texto também menciona a importância da citação válida e da petição inicial apta como pressupostos intrínsecos de validade do processo.

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  • justiça do caso concreto,
  • direito substancial,
  • litispendência,
  • coisa julgada,
  • ônus da prova,
  • dever de contestar,
  • convenção de arbitragem,
  • citação válida,
  • abuso do direito,
  • capacidade de estar em juízo

PROCESSO E PRESSUPOSTOS PROCESSUAIS

O QUE É PROCESSO?

O processo constitui-se como fenômeno jurídico de natureza


complexa, cuja essência decorre da interação dinâmica entre dois
eixos fundamentais:

1. A dimensão procedimental material – ou seja, a sequência


de atos e fatos juridicamente qualificados, interligados e
ordenados cronologicamente, que convergem para a produção
de um provimento final (sentença, decisão ou acordo).
o São exemplos: a petição inicial, a citação, a contestação,
as decisões interlocutórias, a instrução probatória e o
próprio julgamento. Cada ato, em sua sucessão lógica,
obedece a ritos estabelecidos pela lei, garantindo
segurança e previsibilidade ao procedimento.
2. A dimensão jurídico-relacional – isto é, o conjunto de
situações jurídicas (direitos, obrigações, faculdades e
deveres) que emergem desses atos e fatos processuais,
moldando a relação jurídica processual entre as partes e o juízo.
o Dentre essas situações, destacam-se: o direito de
recorrer, o dever de contestar, a faculdade de produzir
provas, a obrigação de decidir (dever de julgar do
magistrado), além dos deveres anexos, como o de agir
com boa-fé.

A síntese processual reside justamente na interdependência


entre essas duas dimensões:
 O processo não se reduz a um mero procedimento, mas é
também um microcosmo de relações jurídicas que se
dinamizam à medida que os atos se sucedem. A cada etapa,
novas situações jurídicas são criadas, modificadas ou extintas,
retroalimentando o próprio desenvolvimento do procedimento.

Exemplificando: a petição inicial não é apenas um ato inaugural,


mas gera para o réu o dever de responder (sob pena de revelia) e,
para o juiz, o dever de analisar a admissibilidade da ação. Da mesma
forma, a citação válida instaura a relação processual, conferindo ao
réu o direito ao contraditório e ao exercício de defesa, enquanto
impõe ao autor o ônus de prosseguir com a ação.

Por fim, a complexidade do processo manifesta-se na tensão


dialética entre forma e substância: enquanto a sequência de atos
assegura a validade formal, as situações jurídicas garantem a
efetividade dos direitos materiais em disputa. Assim, o processo é,
simultaneamente, instrumento de jurisdição e espaço de
realização do direito substancial, harmonizando garantias
procedimentais e justiça do caso concreto.

→ Processo é por definição um substantivo coletivo (cardume:


unidade que conduz a muitos peixes; matilha: muitos cachorros,
alcateia: vários lobos). Assim, é necessariamente um substantivo
coletivo porque se referem a um conjunto de atos e fatos com mais
de uma situação jurídica.

Esse conjunto de atos e fatos= procedimento ou processo


propriamente dito. Sempre que se aborda sobre pressuposto
processual se refere a esse conjunto de atos e fatos.

Não devemos confundir pressuposto do processo, com pressuposto


de cada ato do processo. Por exemplo motivação é um pressuposto
da sentença, mas não é processual.

Esse conjunto de atos e fatos pode produzir diversos outros processos


(procedimentos- principal, incidental e o recursal- subconjunto de
atos e fatos) dentro dele. Por isso que existem os pressupostos de
cada um desses procedimentos.

- Incidente de suspeição: são pressupostos específicos, tanto que a


competência muda, pois não é a mesma competência para julgar a
causa.

- Pressupostos podem ser de existência dos procedimentos


como um todo; de validade dos procedimentos como um todo
e os de eficácia do procedimento como um todo- isso é
pressuposto processual. Conjunto de elementos de existência,
de validade e eficácia (citação- pressuposto que é eficaz para
o réu).
Presuspostos processuais são os requistos para que o
processo se desenvolva de modo válido e regular.

Os de existência também são conhecidos como


pressupostos de constituição válida: para que existam
juridicamente. E os de validade são aqueles que asseguram
que uma vez existentes sejam válidos e prossigam de forma
regular. Que seriam os de jurisdição e demanda.
Os negativos também são conhecidos como Pressupostos
processuais objetivos extrínsecos: mas essa corrente tende a ser
mais ampliativa das possibilidades:
perempção, litispendência, coisa julgada, convenção de
arbitragem, transação e ausência de pagamento de custas em
demanda idêntica extinta sem resolução de mérito.

01-Perempção (art. 337, V, CPC/2015)

A perempção é prevista no art. 486, §3º, do CPC/2015:

Art. 486. O pronunciamento judicial que não resolve o mérito não


obsta a que a parte proponha de novo a ação.

(…)
§ 3º Se o autor der causa, por 3 (três) vezes, a sentença
fundada em abandono da causa, não poderá propor nova ação
contra o réu com o mesmo objeto, ficando-lhe ressalvada,
entretanto, a possibilidade de alegar em defesa o seu direito.

A perempção ocorre quando o autor entra com a mesma ação e


abandona-a três vezes. Assim sendo, o autor não pode repropor a
mesma ação pela quarta vez, ainda que tenha fatos novos, pois seria
um abuso do direito de ação.

A perempção é um pressuposto objetivo extrínseco de validade.

Obs.: a perempção ocorre apenas se as três


ações abandonadas eram idênticas.

02-Litispendência (art. 337, VI, CPC/2015)

A litispendência ocorre quando há duas (ou mais) ações idênticas


tramitando ao mesmo tempo. Em resumo, duas ações são idênticas
quando há a tríplice identidade da ação, isto é, quando os três
elementos da ação (partes, pedido e causa de pedir) são iguais.

No caso de haver litispendência, prevalece a ação que foi distribuída


primeiro.

Para uma ação que foi extinta por litispendência é necessária a


correção do vício, como previsto no art. 486, §1º, do CPC/2015:

Art. 486. O pronunciamento judicial que não resolve o mérito não


obsta a que a parte proponha de novo a ação.

§ 1º No caso de extinção em razão de litispendência e nos


casos dos incisos I, IV, VI e VII do art. 485 , a propositura da
nova ação depende da correção do vício que levou à sentença
sem resolução do mérito. (grifo aposto)

A litispendência é um pressuposto objetivo extrínseco de validade.

03-Coisa Julgada (art. 337, VII, CPC/2015)

A coisa julgada é o que torna a decisão proferida indiscutível e


imutável. Pode ser:

 Formal: voltada apenas para dentro do processo, permitindo,


portanto, a repropositura de uma nova ação;
 Material: voltada para fora do processo, impedindo a
repropositura.

Para que haja a coisa julgada material, faz-se necessário o


preenchimento de três requisitos:
 Existência de uma decisão de mérito. Um processo é extinto
sem a resolução de mérito quando falta uma das condições da
ação, permitindo, assim, a repropositura da ação;
 Trânsito em julgado da decisão. A decisão torna-se definitiva,
ou seja, a decisão judicial torna-se imutável e indiscutível.
Dessa forma, não cabe outros recursos quer por esgotamento
das vias recursais quer pela perda de prazo para a interposição
de um recurso;
 Decisão proferida por meio de cognição exauriente. O juízo tem
acesso a todos os elementos de convicção, o que proporciona a
análise e a demonstração do direito líquido e certo em um juízo
de certeza. Tem como oposto a cognição sumária, na qual há
um juízo de probabilidade.

Obs.: A coisa julgada é vista majoritariamente na doutrina


como um pressuposto de validade, seguindo a interpretação
do art. 966, IV, do CPC/2015:

Art. 966. A decisão de mérito, transitada em julgado, pode ser


rescindida quando:
(…)
IV – ofender a coisa julgada;

04-Transação

A transação é sinônimo de conciliação e ocorre quando as partes, por


encontro de vontades e por meio de sacrifícios recíprocos, acordam
em pôr fim à lide. Dessa maneira, a transação é uma forma
alternativa de solução de conflitos também conhecida por equivalente
jurisdicional.

Portanto, observa-se que a transação tem dois requisitos: a existência


de um acordo bilateral entre as partes e de concessões recíprocas.

A transação é um pressuposto objetivo extrínseco de validade.

05-Convenção de arbitragem (art. 337, X, CPC/2015)

A arbitragem é um equivalente jurisdicional e ocorre quando as


partes elegem um terceiro para resolver o conflito. Não se pode
rediscutir o mérito dessa decisão, apenas o procedimento.

Cabe as ressalvas previsto no art. 337, §§ 5º e 6º, do CPC/2015


quanto às convenções de arbitragem, conforme transcrição seguinte:

Art. 337. Incumbe ao réu, antes de discutir o mérito, alegar:

(…)
§ 5º Excetuadas a convenção de arbitragem e a incompetência
relativa, o juiz conhecerá de ofício das matérias enumeradas neste
artigo.

§ 6º A ausência de alegação da existência de convenção de


arbitragem, na forma prevista neste Capítulo, implica aceitação da
jurisdição estatal e renúncia ao juízo arbitral.

A convenção de arbitragem segue os dispositivos da Lei n.º 9.307, de


23 de setembro de 1996 (Lei de Arbitragem).

06-Ausência de pagamento de custas em demanda idêntica


extinta sem resolução de mérito

A parte somente pode repropor uma ação se tiver pagado as custas


da ação anterior.

Em regra geral, paga-se custas processuais, com exceção da justiça


gratuita para os hipossuficientes, isto é, pessoa de poucos recursos
econômicos que não tem condições de arcar com as taxas e custas
judiciais, sem prejudicar o próprio sustento.

Obs.: há duas espécies de sentença: a terminativa e


a definitiva. A sentença terminativa é aquela que não contém a
resolução do mérito da causa, por outro lado, a definitiva é
aquela que contém a resolução do mérito.

Os pressupostos objetivos extrínsecos positivos: legitimidade


e interesse processual.

E os de validade positivo: são os objetivos intrínsecos:

1-Petição inicial apta (art. 330, §1º e §2º, CPC/2015)

A petição inicial é o primeiro ato processual praticado pelo autor ao


demandar. Por isso, a legislação requer que haja o preenchimento dos
requisitos formais para que petição inicial seja considerada apta.

O art. 330, §1º e §2º, do CPC/2015, transcrito a seguir, dispõe sobre a


inépcia das petições iniciais:

Art. 330. A petição inicial será indeferida quando:


I – for inepta;

(…)
§ 1º Considera-se inepta a petição inicial quando:

I – lhe faltar pedido ou causa de pedir;


II – o pedido for indeterminado, ressalvadas as hipóteses legais em
que se permite o pedido genérico;

III – da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão;

IV – contiver pedidos incompatíveis entre si (pedir a nulidade e a


execução do mesmo contrato).

§ 2º Nas ações que tenham por objeto a revisão de obrigação


decorrente de empréstimo, de financiamento ou de alienação de
bens, o autor terá de, sob pena de inépcia, discriminar na petição
inicial, dentre as obrigações contratuais, aquelas que pretende
controverter, além de quantificar o valor incontroverso do débito.

Uma petição inicial inepta será indeferida e, por conseguinte, a ação


será extinta pelo juízo sem resolução de mérito.

A petição inicial apta é um pressuposto objetivo intrínseco de


validade.

02-Citação válida (art. 239, CPC/2015)- se não alegar no


primeiro momento não pode alegar mais, sob pena de
preclusão.

A relação processual existe a partir da demanda por meio da petição


inicial. No entanto, somente com a citação válida do demandado a
relação jurídica torna-se completa.

O art. 239, CPC/2015, abaixo, dispõe sobre a validade do processo


pela indispensável citação do demandado:

Art. 239. Para a validade do processo é indispensável a citação do réu


ou do executado, ressalvadas as hipóteses de indeferimento da
petição inicial ou de improcedência liminar do pedido.

§ 1º O comparecimento espontâneo do réu ou do executado supre a


falta ou a nulidade da citação, fluindo a partir desta data o prazo para
apresentação de contestação ou de embargos à execução.

§ 2º Rejeitada a alegação de nulidade, tratando-se de processo de:

I – conhecimento, o réu será considerado revel;

II – execução, o feito terá seguimento.

Se, então, não houver a citação válida do demandado haverá


irregularidade procedimental. Por exemplo, citar a pessoa errada no
processo seria uma citação inválida e, nesse caso, os atos anteriores
à citação inválida são nulos. Entretanto, existem casos em que há a
extinção do processo antes da citação do réu (arts. 330 –
indeferimento da petição inicial- sentença terminativa- sem análise
de mérito e 332- improcedência liminar do pedido, CPC/2015).

Por isso, há uma discussão se a citação válida é um pressuposto de


existência ou de validade; porém, a doutrina majoritária aponta a
citação válida como um pressuposto objetivo intrínseco de
validade. Outros autores defendem que é pressuposto de existência,
pois se o réu não for citado, não haverá relação jurídica e,
consequentemente, o processo não existirá.

03-Competência: no sentido de ser a absoluta. Competência:


aptidão decorrente da lei processual para que determinado órgão do
Poder Judiciário exerça jurisdição em determinado caso concreto.

04-Capacidade de ser parte: capacidade de assumir direitos e


obrigações.

Capacidade de estar em juízo: capacidade para o exercício de


direitos. Ex: condomínio, espólio, massa falida, que não tem
capacidade civil, mas tem capacidade de estar em juízo.

→Tem uma corrente que ainda faz uma divisão no que toca aos
pressupostos subjetivos intrínsecos de validade: imparcialidade e
competência para o juiz e para as partes de capacidade processual e
capacidade postulatória. E os pressupostos objetivos intrínsecos: de
petição inicial apta e citação válida.

05-Regularidade formal

A regularidade formal é a indicação de que os atos processuais têm


uma forma solene trazida pela lei, ou seja, deve-se praticar os atos
processuais de acordo com as determinações legais. No momento em
que a forma da lei for desrespeitada, surge o vício.

Há quatro espécies de vício de regularidade formal: mera


irregularidade, nulidade relativa, nulidade
absoluta e inexistência jurídica:

 Mera irregularidade: ocorre quando a forma desrespeitada é


irrelevante; portanto, não prejudica a essência do ato praticado.
Por exemplo, rasuras sem ressalva na petição inicial;
 Nulidade relativa: ocorre quando o ato praticado visa à
proteção das partes. Portanto, não pode ser alegado pela parte
que causou o vício, nem pode ser conhecido de ofício pelo juízo
e deve ser alegado pela outra parte na primeira oportunidade
de manifestação. Por exemplo, alegar incompetência territorial.
 Nulidade absoluta: ocorre quando o ato a ser praticado visa à
proteção do interesse público. Portanto, pode ser alegado por
qualquer pessoa, inclusive aquela que causou o vício e terceiros
interessados e pode ser conhecida de ofício pelo juízo a
qualquer tempo. Por exemplo, a competência absoluta do juízo.
 Inexistência jurídica: ocorre quando o vício praticado é tão
grave que fere a própria natureza do ato e não pode ser
convalidado. Por exemplo, decisão proferida por um(a) juiz(a)
não investido(a) na jurisdição.

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