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A História da Beltraneja

O livro 'A Beltraneja' de Almudena de Arteaga explora a história de Joana de Castela, também conhecida como a Beltraneja, e os segredos obscuros que cercam sua linhagem e a paternidade. A narrativa se desenrola em um contexto histórico rico, envolvendo intrigas da corte, rivalidades familiares e questões de legitimidade. A obra é uma reflexão sobre os desafios enfrentados por mulheres em posições de poder na história da Espanha.

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carlosfafonso
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A História da Beltraneja

O livro 'A Beltraneja' de Almudena de Arteaga explora a história de Joana de Castela, também conhecida como a Beltraneja, e os segredos obscuros que cercam sua linhagem e a paternidade. A narrativa se desenrola em um contexto histórico rico, envolvendo intrigas da corte, rivalidades familiares e questões de legitimidade. A obra é uma reflexão sobre os desafios enfrentados por mulheres em posições de poder na história da Espanha.

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Almudena de Arteaga

A BELTRANEJA
[OU A EXCELENTE SENHORA]

O Pecado Oculto de Isabel, a Católica

TRADUÇÃO DE JOÃO COSTA

GUIMARÃES EDITORES
LISBOA
Título original:
La Beltraneja : El pecado oculto de Isabel la Católica

© Almudena de Arteaga de Alcázar, 2001


© La Esfera de los Libros, S.L., 2001
© Fotografia da Autora: Bie Peeters

© Guimarães Editores Lda., 2002


Todos os direitos reservados para a edição portuguesa
Editor: Francisco G. Cunha Leão

Rua da Misericórdia 68
1200-273 LISBOA

Telef. 21 324 31 20 – Fax. 21 324 31 29


email: [email protected]
web: www.guimaraes-ed.pt
À minha avó Rafa
Árvore genealógica de Joana de Castela, a Beltraneja
Casa Real de Aragão

Casa Real de Portugal

(2) (1)
Isabel de Portugal O João II de Castela O Maria de Aragão
(2)
João II O Joana Henriques
(2) (1)
Joana de Portugal O Henrique IV O Branca
(1440-1475) o Impotente de Navarra
(1425-1474)
(2) (1)
Afonso V de Portugal O Joana a Beltraneja O Duque de Guyena
(1432-1481) [A Excelente Senhora]
(1462-1530)

Fernando o O Isabel a Católica Afonso


Católico (1451-1504) (1453-1468)
(1451-1504)

(1) primeiro casamento


(2) segundo casamento
Isabel João Maria Catarina
irmãos
Joana O Filipe o Formoso
a Louca

Carlos I de Espanha, V de Alemanha


Dramatis personae

Henrique IV (1425-1474): Rei de Castela e Leão, antepe-


núltimo membro da dinastia dos Trastâmara a ocupar o trono,
irmão mais velho de Isabel a Católica. Para os inimigos, um
fraco de espírito; para os amigos, um rei magnânimo. Aprecia a
caça e rodeia-se de mouros e judeus.
Joana de Portugal (1440-1475): irmã do rei Afonso V de
Portugal e segunda mulher de Henrique IV. Morena, esbelta,
frívola, a sua conduta corre o risco de provocar o mais grave
dano que uma mãe pode causar a uma herdeira ao trono,
pondo em causa a sua própria reputação.
Joana de Castela (1462-1530): Princesa das Astúrias, filha
da rainha Joana de Portugal e, supostamente, do seu marido, o
rei. A atribuição da sua paternidade a Beltran de la Cueva, favo-
rito do rei e amigo da rainha, fará com que alguns ousem cha-
mar-lhe a Beltraneja.
Mécia de Lemos: Dama que acompanha Joana de Portugal
a Castela; amante e mãe dos dois filhos do futuro cardeal
Mendonça. Leal e veemente. É uma pequena força da natureza.
A par de todas as intimidades da corte. Narradora da história.
João Pacheco, marquês de Vilhena: Entrou na corte ao
serviço de Henrique quando ambos eram crianças. É inteli-
gente e activo, astuto e matreiro. Conhece o carácter do rei
como poucos, e serve-se disso com o fim de converter-se no
chefe de linhagem mais rico e importante de Castela.
Beltran de la Cueva: Começou a carreira como pajem de
lança ao serviço do rei. É atraente e hábil caçador. Henrique
sente por ele um afecto especial. É o rival por antonomásia do
marquês de Vilhena. Por concessão régia, acabará por pertencer
à família dos Mendonça e receberá os títulos de duque de
Albuquerque e conde de Ledesma.

11
Marquês de Santilhana: Chefe da poderosa família dos
Mendonça; ligado, metade por interesse, metade por convic-
ção, à dinastia dos Trastâmara, é, em princípio, o principal
valido da nobreza para que Joana de Castela seja reconhecida
herdeira de Henrique; grande adversário de Vilhena.
Pedro Gonzalez de Mendonça: Irmão do anterior, bispo
de Calahorra, e futuro cardeal. O mais inteligente do seu clã.
Conselheiro do rei e amante de D. Mécia de Lemos. Muito
diplomático e humanista, não descura os contactos com a influ-
ente e determinante cúria romana.
Infante D. Afonso (1453-1468) e Infanta D. Isabel
(1451-1504): Irmãos mais novos do rei, filhos do segundo
matrimónio do pai e, portanto, sucessores da coroa de Castela.
Isabel, futura rainha, chamada a Católica, foi a madrinha de
baptismo da sua sobrinha Joana e sua eterna rival.
Mestre Samaya: Médico judeu de Henrique, herdeiro da
grande tradição oriental da arte de curar baseada na experiên-
cia. Encarregado de encontrar um método de fecundação alter-
nativo ao natural. Numa carta ao rei escreveu: «Aposto a minha
cabeça em como a rainha ficará grávida.»
Cardeal Carrilho; condes de Alba, Medinaceli, Sepúlveda,
etc. Opositores, conforme as conveniências e as circunstâncias,
de Henrique, e seguidores do pequeno infante D. Afonso, a
quem coroarão rei para manobrarem na sombra.
Beatriz de Bobadilha: Dama de companhia da infanta
Isabel, leal à sua senhora ao ponto de se tornar suspeita de ser a
introdutora de certos envenenamentos que favorecem o cami-
nho da sua ama para o trono.
André de Cabrera: Marido da anterior, de origens contro-
versas, alcaide do castelo de Segóvia e suposto partidário do rei,
desempenhará um papel fundamental na morte de Henrique,
para que Isabel se faça proclamar rainha de Castela.

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CAPÍTULO I

De la pérdida de España
fue aqui funesto principio
una mujer ventura
y un hombre de amor rendido

Do Romanceiro de D. Rodrigo
Da perda de Espanha / foi aqui funesto princípio / uma
mulher sem ventura / e um homem de amor rendido.
B astou-me a pergunta da princesa Joana para recordar
como aquela infâmia tinha começado.
D. Henrique caiu na cama ao lado da mulher. Os
auxiliares do médico observavam as coxas desnudadas da
rainha de Castela sem o mínimo recato.
Nua da cintura para baixo, as suas partes íntimas
ficavam a descoberto.
A rainha pegou-me na mão e apertou-a com força pe-
dindo-me que lhe pusesse um lenço fino na cara. Assim,
pelo menos, não veriam o seu rubor. A sua cabeleira
escura contrastava com o cabelo ruivo do rei de Castela.
Começou então a penosa operação.
Os auxiliares do mestre Samaya abriram um estojo
de madeira e veludo. O médico judeu pegou no instru-
mento que ele continha com tão grande cuidado que
parecia que manipulava algo sagrado. Tratava-se de uma
cânula de ouro.
A rainha fitou-o, endireitando-se, e fechou os olhos
com força. Não era a primeira vez que se submetia a
semelhante vexame. Desde que o rei a informara das
artes de Samaya, cada mês que a presença próxima de
D. Henrique o consentia, tinha vivido a mesma humi-
lhação. E, como das outras vezes, a rainha tudo suportava
rezando orações atrás uma das outras, até ficar com a
boca seca, suplicando um milagre parecido com o da
concepção da Virgem Maria.

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Decorreram dez minutos até o rei acabar de ser orde-
nhado. Com o seu sémen, encheram a cânula de ouro.
Introduziram-na rapidamente na vulva da rainha e en-
cheram a minha ama com aquela semente.
Deveria ficar queda durante pelo menos quatro horas
para que a semente germinasse. Desceram-lhe a camisa e
ela própria retirou o lenço do rosto. Uma lágrima perdida
deslizou-lhe pelas faces e caiu na almofada. Soltou-me a
mão dirigindo-me um olhar suplicante, sobressaltado e
imperativo. Não precisava de emitir um único som, com-
preendia perfeitamente como devia sentir-se e a minha
obrigação como sua aia era livrá-la de semelhante inquie-
tação.
Solicitei a todos que se retirassem. Apenas ficou o rei,
que decidiu cantar para ela. Fê-lo com esmero, carinho e
bom ouvido; apesar disso, a rainha franziu as sobrance-
lhas com enfado.
Convencido de que estava a proceder correctamente,
os seus dedos compridos continuaram a correr pelas cor-
das do alaúde. Encarei a minha ama. Esta, meio sentada,
voltou violentamente a cabeça para a porta e gritou:
— Rua!
D. Henrique levantou-se, beijou a rainha na testa e,
sem cochichar palavra, compungido e tímido como era
em privado, saiu do aposento cabisbaixo.
Na verdade, a débil atitude do rei perante a rainha
foi a primeira gota que caiu no fundo da escarradeira em
que, com o tempo, se convertia a sua coroa.

— D. Mécia, perguntei-vos simplesmente se credes


que sou filha de D. Henrique, rei de Castela! — excla-
mou a princesa Joana fazendo-me voltar ao presente. —

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E haveis ficado como se tivésseis visto passar um demó-
nio.
Simplesmente! A filha da rainha acabava de me per-
guntar aquilo que eu mais temera durante anos!
No passado, havia sonhado mil e uma vezes entre
pesadelos e sobressaltos que pronunciava essas malditas
palavras e que me via obrigada a dizer-lhe toda a ver-
dade. Despertava empapada em suor, aterrada, e corria a
ajoelhar-me diante do meu altarzinho para rogar a
Cristo que nunca sucedesse uma coisa assim.
Pouco fervor devo ter posto na oração porque, ao
fim de tanto tempo, os seus olhos claros, cheios de
melancolia, me impediam de continuar calada. Mas não
podia começar o meu relato com uma cena de uma tal
crueza como a que acabava de recordar!
Impaciente, a princesa atirou o almofadão ao chão e
apoiou nele os pés. Recordei-me de como, ainda menina,
pousava a cabeça no meu regaço quando eu era a aia de
sua mãe. Concentrei a vista numa encanecida mecha que
se lhe escapara do toucado. Nada restava daquela com-
prida cabeleira ruiva que eu estava encarregada de pen-
tear. Ofertou-me uma malga de chocolate, aquele man-
jar recém-chegado das Índias. Tentava descontrair-me,
que assim soltaria a língua, esclarecendo tudo o que qui-
sesse saber.
A Excelente Senhora, como era conhecida aqui em
Portugal, ou a Beltraneja, como lhe chamavam em Cas-
tela, sabia que até uma serva lhe virara as costas, mas
estava acostumada a isso desde que obtivera o uso da
razão. Talvez não confiasse de todo em mim, mas conhe-
cia quão perto estive de sua mãe nos momentos mais cru-
ciais da sua vida. Em honra a esta velha amizade, pensei
contar-lhe de uma vez por todas a verdade. Depois veria
como iria arranjar-me para, chegado o momento, relatar-

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-lhe a cena da inseminação de sua mãe sem lhe ferir a sen-
sibilidade. Por agora começaria a narrar a história desde o
princípio, que é, segundo dizem, por onde devem come-
çar a contar-se as histórias.

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Pedistes-me que vos fale de vosso pai. Mas para isso
deveria começar por falar de vossa mãe. Embora useis o
mesmo nome, não posso dizer que vos reveja a vós nela,
já que não vos pareceis demasiado. Ela era morena e vós
ruiva, ela chalaceira e alegre, vós calada e nostálgica.
A vossa mãe era inocente e impulsiva: sobrecarregada de
juventude, a irmã do rei de Portugal queria abraçar o
mundo. Vós, nessa idade, quando já quase toda a gente
questionava que fôsseis filha do rei de Castela, só aspirá-
veis a não ser prejudicada pelos acontecimentos. Em
definitivo, a jovem que conheci na corte de Lisboa pouco
antes de casar com o soberano castelhano estava cheia de
esperança. E os rumores que tinham chegado até aqui
questionando a virilidade do seu futuro marido, não
logravam ofuscar as suas ilusões. Ainda que, na realidade,
essas informações não tardassem muito a fazer mossa no
seu sentir. Porque em Castela, a vossa mãe depressa have-
ria de descobrir como a verdade era ofendida pela inveja
de uns, a avidez de outros e a cobardia de todos.
Dois dias antes da nossa partida definitiva para
Andaluzia, onde se realizariam os esponsais, a vossa mãe
quis passar uma noite num acampamento nos arredores
do paço de Lisboa, que naquela Primavera do ano do
Senhor de 1455 luziam mais floridos do que nunca.
Queria despedir-se deles. Pediu que instalassem umas
tendas abrigadas por uns muros semi-derruídos. A sua

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possível melancolia de portuguesa achava-se bem oculta,
prestes como estava a cingir a sua cabeça com uma da
coroas mais importantes da cristandade.
Os cantos e risos fizeram desaparecer de imediato a
nostalgia da paisagem que nos rodeava.
Depois das danças, a futura rainha de Castela sen-
tia-se tão feliz que nem hesitou em rasgar o tecto da
tenda em que íamos dormir para contemplar as estrelas.
As doze aias que a acompanhávamos caímos cansadas à
sua volta. Algumas junto dela, no seu estrado de alcatifa,
outras em catres improvisados, as mais lerdas no próprio
solo.
A vossa mãe quebrou o silêncio.
— Pouco me contou meu irmão sobre o meu futuro
marido, mas a impaciência vence o sono e por isso creio
que esta noite seria divertido sermos sinceras e contar-
mos umas às outras o pouco que conhecemos do que
nos espera. Dado que, de momento, sou a única que vou
casar, não estais intrigadas por saber como serão esses
cavaleiros castelhanos que nos esperam?
Todas rimos. D. Henrique assinara as capitulações de
casamento e prometia fazer o possível para casar as doze
aias portuguesas que acompanhassem a sua mulher com
os melhores partidos de Castela. Mas devido a muitas de
nós termos entre catorze e quinze anos, ainda vivíamos
intensamente aquele período da vida em que não se
pensa nas consequências; não existem pesadas responsa-
bilidades e qualquer comentário mais ou menos absurdo
provoca o riso com facilidade.
Fui a primeira a quebrar o gelo.
— Segundo ouvi, o vosso futuro esposo está reunido
em Córdova, nosso ponto de destino, com todos os seus
prelados e cavaleiros do Reino. É mais velho do que vossa
alteza e já esteve casado com D. Branca de Navarra. Mas

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esta não cumpriu concebendo como é mister numa rai-
nha, pelo que o Papa anulou este casamento.
Ao contar o que vossa mãe já sabia, procurava afastar-
-me do tema que mais dera que falar no paço. Mas
D. Guiomar de Castro *, uma da aias que mais se saciara
com aqueles conselhos, não ia ser tão prudente e excla-
mou:
— Dizem que essa senhora era autoritária e carecia de
feminidade e delicadeza! A tal ponto que, ao aparecer-lhe
pela frente semelhante cabresto, D. Henrique não con-
sentia em emprenhá-la. Segundo ele, a suavidade femi-
nina é a melhor virtude de uma dama e D. Branca care-
cia dela.
Desde que ouviu falar de vós não se contém e dizem
que sacia as calenturas com diversas barregãs. Segundo
parece, o vosso futuro marido é ardente e apaixonado.
— Fica, sem dúvida, demonstrado a todos que os
comentários da solitária D. Branca acerca da virilidade
do rei são falsos — interrompi, para evitar que a víbora
da D. Guiomar arruinasse a felicidade de vossa mãe. Ela
empenha-se em desenroscar as línguas mais mordazes em
defesa da sua feminidade. Imaginai qual foi a sua firmeza
que não hesitou em propagar o boato mais denigridor
alguma vez imaginado para um homem.
Calei-me quando reparei que, na minha impulsiva
preocupação de proteger a vossa mãe das maldades de
uma invejosa, me estava a exceder ao narrar rumores pro-
vavelmente infundados, que atentavam contra o seu fu-
turo. Apesar disso, foi ela própria quem me instou a pros-
seguir aplicando-me um bom pontapé.

*
Guiomar de Castro, filha natural de D. Álvaro de Castro, conde de
Monsanto, morto na conquista de Arzila. Casaria em Castela com o conde de
Tervino, primeiro duque de Nájara (N.E.).

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D. Guiomar adiantou-se-me.
— Dizem que depois de treze anos de casada com o
rei, ficou como quando veio ao mundo. Não foi desflo-
rada! No seu processo de anulação alegou a incapacidade
de D. Henrique para engendrar. Segundo ela, tentou-o
mediante orações, vontade, carinho e até tomando tisa-
nas de vária índole que lhe enviavam de Itália. Não con-
seguiu engravidá-la.
Ouviram-se sussurros de surpresa vindos de todo o
lado na escuridão. Sem dúvida, não sabiam como retor-
quir àquilo, mas foi a vossa mãe a primeira que soltou
uma gargalhada e as outras acompanharam-na, como era
habitual.
Com esta reacção, a vossa mãe queria indicar que
conhecia a questão tal como o rei de Portugal. Se fora
entregue ao rei D. Henrique de Castela e Leão, estava
certa de que a patranha ficara desmentida perante o seu
país antes de tomar as capitulações.
D. Guiomar, que desde a sua chegada à corte nunca
conseguira ocultar os ciúmes de vossa mãe, não se deu
por vencida e interrompeu novamente:
— Está claro que aquela senhora não devia saber
como tratar um homem. É bem conhecido o recato
demonstrado pelas castelhanas. Tanto assim é que des-
conhecem o muito que perdem no desfrute do prazer
carnal. Tanto decoro e moderação tornam impossível a
folia com gosto e portanto procriar. É lógico, porque
para isso devemos mostrar-nos apaixonadas e com a sua
atitude fazem passar a qualquer um de são juízo a von-
tade e o deleite.
Ouviram-se murmúrios e risos. Foi a vossa mãe que
respondeu.

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— D. Guiomar, já que pareceis tão versada em jogos
amorosos deveríeis contar-nos como conseguir que a
cabeça de um homem vulgar enlouqueça por nós.
A aia levantou-se e, na sombra, fitou desafiadora-
mente a vossa mãe.
— Isso, minha senhora, aprende-se com a prática.
É impossível transmitir.
— Só espero, Guiomar, que não pratiqueis muito
quando chegarmos a Castela, pois devemos livrar-nos do
rótulo de libertinas que nos colocaram as senhoras desse
reino. Agradecer-vos-ei que vos mostreis discreta; sobre-
tudo, com os que têm par. Temos de dar bons exemplos
na corte vizinha.
D. Guiomar levantou-se indignada. Puxou o saio
para baixo a fim de ajustá-lo e o decote pôs à vista o seu
peito. Erguida e orgulhosa, fitou desafiadoramente a vossa
mãe e encaminhou-se para a saída.
Não pude conter a minha língua.
— Não vos retireis, por favor, ou ficaremos sem
professora de tentações
Todas riram.
A vossa mãe espreguiçou-se e disse:
— Queira ou não, D. Guiomar acompanhar-nos-á
a Córdova; como diz o meu irmão, é coisa justa e devida
que um rei tenha de ser casado. As leis divinas e huma-
nas assim o dispõem e mandam, para que as gerações da
linhagem passem de homem para homem e os pais revi-
vam nos filhos. E o mesmo pode aplicar-se ao cavaleiro
que desposará D. Guiomar, como D. Henrique prome-
teu nas capitulações.
Tamanha solenidade nas palavras de vossa mãe sur-
preendeu-me.

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Não nos tinha habituado a tal seriedade. Começou
de imediato a esboçar-se um sorriso imperceptível na
comissura dos seus lábios.
— Claro está que o homem a quem calhe ser o
companheiro de D. Guiomar preferiria ter nascido
eunuco. Com as artes amatórias que usa é capaz de dei-
xar exausto o mais ousado nessas lides.
Todas, agora incluindo eu, rebentámos numa gar-
galhada.
Durante todo o tempo que durou o acampamento,
e até à manhã seguinte, D. Guiomar encerrou-se num
misterioso mutismo. Dado o seu gosto pela intriga, não
dormi descansada nessa noite. Que estaria a preparar?

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CAPÍTULO II

Junto a la fuente que vierte,


por seis caños de oro fino,
cristal y perlas sonoras
entre espadañas y lirios,
reposaron las doncellas
buscando solaz y alivio
al fuego de la mocedad
y a los ardores del estío.

Do Romanceiro de Dom Rodrigo


Junto da fonte que verte, / por seis canos de ouro fino, / cris-
tal e pérolas sonoras / entre espadanas e lírios, / repousaram as
donzelas / buscando consolo e alívio / para o fogo da mocidade /
e para os ardores do estio.
V estimo-nos apressadamente. D. Guiomar resmun-
gava por ter sido obrigada a madrugar, ao mesmo
tempo que se enfeitava. As doze aias que acompanháva-
mos a vossa mãe a Castela deixámos o Paço Real de
Lisboa atrás dela. Encaminhámo-nos por uma travessa
rumo ao rio Tejo. Ao fundo, avistavam-se os reflexos da
água iluminada pelo sol. As gaivotas sobrevoavam-nos
lançando guinchos que se misturavam com o toque dos
clarins.
Percorremos um bom trecho a pé procurando não
tropeçar (os habitantes da cidade tinham alcatifado a
poeirenta calçada com tábuas curvas de velhas barricas).
Nos lados, a guarda real formava uma muralha que nos
salvaguardava da multidão, que nos vitoriava com efusão
e exprimia os seus melhores votos de felicidades.
De súbito, quando chegámos à margem do Tejo,
uma gaivota lançou-se num voo picado contra o toucado
de vossa mãe. O dourado do seu vértice deve ter-lhe cha-
mado a atenção.
D. Joana reagiu com fleuma e espantou a ave com
uma palmada. Mas tivemos que deter igualmente o cor-
tejo porque Marianinho, o nosso bobo, ficou completa-
mente assustado.
Todas nós, as aias, aproveitámos para trocar umas
com as outras um olhar de dúvida. Deveria tomar-se
como um mau presságio o comportamento daquele pás-

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saro? Não tivemos tempo de pensar nisso. Porque logo a
seguir embarcámos numa galeota ricamente engalanada.
Aias, alcoviteiras, donzelas e damas sacudidas pela água
começámos a sentir-nos à mercê de uma torrente fluvial
que parecia um mar. Parte do nosso séquito cavalgava e
seguia-nos ao longo da margem. O rei de Portugal acom-
panhou-nos durante três léguas para mais tarde regressar.
A música tocava e os cavaleiros que nos haviam cor-
tejado até então despediram-se para sempre das donze-
las que um dia quiseram tornar suas.
Mais perto da fronteira com Castela trocámos o
suave balanço da galeota pelo tortuoso estrépito das car-
ruagens. Avançámos em fila pelo poeirento caminho
cheias de gratas esperanças. Nenhuma de nós se recor-
dava já do ataque da gaivota e a vossa mãe menos do que
ninguém. Ela era assim despreocupada, atitude que no
futuro haveria de custar-lhe caro.
D. Joana viajava com um falcão no ombro, sabedora
do gosto pela caça do seu futuro esposo. A ave levava
dois guizos. A vossa mãe brincava com eles de tal modo
que os seus sons formavam melodias. Nós outras tínha-
mos que averiguar de qual se tratava e assim o trajecto
tornava-se mais curto.
Peguei-lhe na mão para que parasse e assinalei-lhe
uma colina nas proximidades de Badajoz. Um séquito de
uns duzentos cavaleiros encimava-a e continuava a galope
na nossa direcção; o pendão real de Castela e Leão prece-
dia-os.
Um fidalgo de semblante agradável deteve-se à
nossa frente.
— Senhora, sou o duque de Medina Sidónia. Vim
para vos guiar até ao vosso destino por ordem do rei.
Se todos os que nos iam ser destinados como maridos
fossem como ele, a viagem teria, sem dúvida, merecido a

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