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Opusculo Charles Astor

O documento homenageia Achiles Hypolito Garcia, conhecido como Charles Astor, um pioneiro do paraquedismo e da ginástica acrobática no Brasil, destacando sua contribuição significativa para a Força Aérea Brasileira e seu papel como educador e instrutor. Charles Astor, que nasceu na Argélia e se naturalizou brasileiro, foi um polivalente artista e desportista, conhecido por suas acrobacias aéreas e por formar gerações de paraquedistas. O texto enfatiza seu legado de coragem, determinação e a importância de ensinar, refletindo sobre a imortalidade do conhecimento transmitido aos alunos.

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Opusculo Charles Astor

O documento homenageia Achiles Hypolito Garcia, conhecido como Charles Astor, um pioneiro do paraquedismo e da ginástica acrobática no Brasil, destacando sua contribuição significativa para a Força Aérea Brasileira e seu papel como educador e instrutor. Charles Astor, que nasceu na Argélia e se naturalizou brasileiro, foi um polivalente artista e desportista, conhecido por suas acrobacias aéreas e por formar gerações de paraquedistas. O texto enfatiza seu legado de coragem, determinação e a importância de ensinar, refletindo sobre a imortalidade do conhecimento transmitido aos alunos.

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TESTE

t
Achiles Hypolito Garcia
CHARLES ASTOR
Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática
no Brasil

INSTITUTO HISTÓRICO-CULTURAL DA AERONÁUTICA


Rio de Janeiro
2015
FICHA TÉCNICA

Achiles Hypolito Garcia


CHARLES ASTOR
Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática
no Brasil

Edição
Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica

Editor Responsável
Maj Brig Ar R/1 José Roberto Scheer

Organizadora
2º Ten QOCon His Bruna Melo dos Santos

Colaboradores
1º Ten QCOA His Tiago Starling de Mendonça
Historiador Mauro Vicente Sales

Projeto Gráfico e Capa


Seção de Tecnologia da Informação

Impressão
INGRAFOTO

Rio de Janeiro
2015
Apresentação
O reconhecimento é uma demonstração de gratidão, por mérito de algo que foi feito
ou apenas tentado ser feito, por alguém ou por alguma organização, em prol de ações
que venham a trazer benefícios a serem usufruídos.
Neste presente caso, o preito de agradecimento a um destemido idealista,
inquieto e perseverante amante da aventura e da vida e, fundamentalmente, humilde,
comprometido e dedicado instrutor, reveste-se do prazer de perenizar a memória de
quem fez acontecer e tanto contribuiu para a história da Força Aérea Brasileira e, até
mesmo, em abrir horizontes do emprego militar universal.
Escritor, artista de circo, paraquedista, professor, esportista, atleta de cama elástica
e guerreiro da Legião Estrangeira, o argelino Achiles Hypolito Garcia, o nosso Charles
Astor, brasileiro naturalizado e de coração, é homenageado neste trabalho, que retrata
um resumo de sua agitada, diversificada e profícua vida, participando, dividindo
experiências e ensinando aos mais jovens, mais do que ricas e preciosas lições, mas o
domínio do desconhecido, a confiança em si próprio e a fé intransigente na capacidade
de se fazer algo para o crescimento interior e da coletividade.
Homem de larga visão, que vislumbrava horizontes ilimitados, com inconformada
aversão ao pessimismo e à mesmice, o “fantasma do ar”, o “diabo do ar” ou mesmo
o “águia”, carinhosos apelidos que ganhou dos seus admiradores, ensinou tudo o que
aprendeu, desenvolvendo nos jovens a auto-estima e a capacidade para transpor os
obstáculos da vida, a fim de que, cada qual, pudesse melhor encontrar o seu caminho.
Carismático e contagiante na arte de transmitir ensinamentos, foi exemplo de
abnegação e de determinação, e, mercê da crença em seus princípios, transformou em
homens os jovens alunos e cadetes do ar.
Desde 17 de agosto de 1986, Charles Astor empresta o seu nome ao Ginásio de
Esportes da Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR), em Barbacena.
Acredito que, ao parafrasear o escritor e educador Rubem Alves, no seu livro “A Alegria
de Ensinar”, possa sintetizar o legado deixado por Charles Astor às gerações futuras:
“Ensinar é um exercício de imortalidade.
De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o
mundo pela magia da nossa palavra.
O professor, assim, não morre jamais...”

Maj Brig Ar R/1 José Roberto Scheer


Subdiretor de Cultura do INCAER
BRANCO
Achiles Hypolito Garcia

Charles Astor
Pioneiro do Paraquedismo
e da Ginástica Acrobática no Brasil
2º Ten QOCon His Bruna Melo dos Santos

Charles Astor, brasileiro adotado


por nossa Pátria, foi um homem de
vários talentos. Em seu livro de con-
tos chamado “Estórias Rudes” – uma
espécie de memória de sua vida ro-
manceada, contada em alguns casos
na primeira pessoa – foi assim prefa-
ciado pelo crítico literário e tradutor
Paulo Ronái:

“Charles Astor é o nome verda-


deiro de um indivíduo proteifor-
me, para quem a literatura é apenas
mais uma no rol de suas inúmeras
atividades, todas exercidas com
Charles Astor
igual fervor. [...] Esse grande aven-
tureiro que é, na vida de todos os
Achiles Hypolito Garcia, conheci- dias, um homem puro, modesto e
do por Charles Astor, nasceu em 24 de bom” (ASTOR, 1965).
agosto de 1900, em Castinglion, Argélia,
na época, uma colônia francesa no norte
africano. Filho de Salvador Garcia, re- Uma vida de aventureiro, que se
nomado fotógrafo espanhol radicado na aposentou como Chefe da Seção de
França, e de Helena Barthie Astor, fale- Obras Raras da Livraria Civilização
cida pouco tempo depois do nascimento Brasileira, no Rio de Janeiro, é, no
do menino Charles, que foi desde então mínimo, desconcertante para aqueles
criado por uma tia-avó (CDA, 1974). que costumam criar dicotomias entre

Charles Astor - Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática no Brasil 5


o corpo e a mente. Entretanto, Charles Varlô, Sgt Assaeda e Sgt Rufino. Em 1963,
Astor mostrou-se um grande professor criou-se a 1ª Esquadrilha Aeroterrestre de
de vários esportes, aos quais se dedicou a Salvamento, origem do atual PARA-SAR,
vida inteira, como a acrobacia, o paraque- formado por parte do efetivo da Base
dismo, a cama elástica, o boxe, o rugby, o Aérea dos Afonsos e da Escola de Ae-
jiu-jitsu e o futebol, que costumava jogar ronáutica.1
com os amigos, no Campo dos Afonsos.
Foi desportista, romancista, infante da O fantasma do ar, o diabo do ar,
Legião Estrangeira, instrutor civil e mili- o águia ou simplesmente:
tar de paraquedismo, atuando na Escola Charles Astor
de Aeronáutica (Campo dos Afonsos)
desde 1941, quando foi convidado pelo Em 1927, os “Deux Astors”, dupla
então Ministro Salgado Filho a instruir os composta pelos acrobatas Charles As-
cadetes. Na vida civil, formou centenas tor e Antonio Pisápia, fizeram inúmeras
de paraquedistas e seu trabalho pioneiro apresentações pela França, pelos Estados
certamente fez do paraquedismo também Unidos e pela América do Sul, onde se
um esporte, além de uma técnica de sal- apresentaram por quatro meses no Cas-
vamento. sino de Buenos Aires, e, depois, seguiram
O Esquadrão Aeroterrestre de Sal- para o Brasil. Ao desembarcarem no Rio
vamento – EAS (PARA-SAR) – deve a de Janeiro, a dupla recebeu uma propos-
Charles Astor parte importante de sua ta de se apresentar no Cine Central (na
existência, pois este, por ocasião de um Cinelândia) por um mês, no qual fizeram
congresso da Federação Aeronáutica In- enorme sucesso.
ternacional (FAI), realizado em Petrópo- Logo em seguida, a dupla passou a se
lis - RJ em 1947, apresentou um plano de apresentar por diversos circos e cinemas
organização de paraquedistas para salva- nacionais. Charles foi também parceiro
mento e resgate. A ideia mereceu menção de acrobacias do palhaço Fuzarca, que
honrosa e inspirou a criação dos Serviços fez sucesso na TV nos idos da década de
de Salvamento ao redor do mundo. sessenta, além do famoso palhaço Care-
Assim, se deu a inspiração da trajetória quinha, que foi seu aluno de acrobacias
embrionária do PARA-SAR, iniciada em (CDA, 1974).
1959, através da primeira turma de para- Charles Astor fez inúmeras apresenta-
quedistas militares da Aeronáutica, for- ções acrobáticas pelo Brasil, muitas delas
mada pelos Ten Santos, Ten Guaranys, com ampla cobertura pelos diversos jor-
Ten Sérgio, Sgt Mello, Sgt Raimundo, Sgt nais da época. O Correio da Manhã, jornal

1
Ficha Anual de Fatos Históricos – Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento.

6 Charles Astor
que circulou na cidade do Rio de Janeiro, Mas, certamente, o ponto alto dos fes-
de 1901 a 1974, e o Correio Paulistano, pri- tejos estava por conta da dupla de acro-
meiro diário paulista, que circulou de 1854 batas aéreos que realizaria três provas
a 1963, trouxeram em suas páginas notí- aviatórias bastantes arriscadas: o trapézio
cias sobre a sensação que Charles Astor e aéreo, a caça aos balões e o passeio pelas
os companheiros de acrobacias causavam asas do avião. Nesse último número, após
no grande público, que acompanhava tudo as acrobacias, Charles embarcava de vol-
com muita curiosidade e entusiasmo. ta no avião, vestia o paraquedas e saltava,
sempre diante de milhares de espectado-
Em agosto de 1929, os jornais noticia-
res. Ganhou diversos apelidos durante o
vam, como parte dos festejos do “Segun-
período: “fantasma do ar”, o “diabo do
do Congresso Pan Americano de Estradas ar” e o “águia”.
de Rodagem”, a participação do acrobata
Em parceria com o Capitão Holland,
Charles Astor e do ex-capitão Aviador da
bastante conhecido por ter sido um com-
Força Aérea Real – RAF, S.H. Holland.
batente da grande guerra, havia realizado
Este Congresso englobava “A Exposi- outras apresentações, tal como consta na
ção Rodoviária Internacional”, ocorrida matéria de 18 de agosto de 1929 do Correio
onde hoje está localizado o Aeroporto Paulistano: “Há tempos, no Jockey Club,
Santos-Dumont. A programação previa pilotando o seu aparelho “Month” de 85
levar ao conhecimento do público uma HP, ao lado do acrobata profissional Char-
exibição de maquinário para construção e les Astor, ele teve ocasião de exibir-se ao
conservação de estradas de rodagem e os público do Rio de Janeiro, conquistando
últimos progressos da arte rodoviária. muitos aplausos”.

Charles Astor executando acrobacia (CDA, 1974)


Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática no Brasil 7
Juntos, faziam um número de loucos
varridos, no qual Charles ficava pendura- “[...] é preciso evitar-se o exagero de
do pelas pernas, na roda do avião, e ar- considerar o paraquedista um super-
rancava, com os dentes, uma bandeirola homem, um herói, tal como aconteceu
colocada na ponta de uma vara (Visão, 16 com os nossos primeiros aviadores.
set 1960). Atividade classificada como de O paraquedista deve ter aptidões es-
alto risco, para Charles não era nada de peciais, mas que, no entanto, são nor-
extraordinário: mais em todos os homens e que, com
o exercício e treinamento, se apuram
e desenvolvem. É preciso fixar-se a
“Nada há de extraordinário numa
mentalidade de que o paraquedismo é
parada de mãos sobre as asas de um
tão normal como voar, andar de ôni-
avião em vôo, qualquer um pode fazer bus, trem ou bicicleta” (Esquadrilha,
isso, basta conhecer uns tantos princí- 1942, n.2, p.23).
pios elementares de Física, ter confian-
ça no piloto e em si mesmo e no anjo
da guarda. Um pouco de calma, segu- A larga experiência em saltos garantia-
rança e boas condições de saúde com- lhe excelentes resultados, mas também lhe
plementam os requisitos favoráveis a dava a sabedoria para cancelar um salto,
esta manobra” (CDA, 1974). quando percebia condições climáticas
pouco favoráveis, mesmo que decepcio-
nasse uma multidão de curiosos que aguar-
Ao longo da vivência no Brasil, formou davam ansiosamente pelas exibições.
outras parcerias com as quais participava
Referente à “Semana da Asa” de 1944,
de diversas comemorações, tais como: em
consta no Correio da Manhã a seguinte no-
aniversários das cidades, batismo de avião,
tícia sobre a cerimônia realizada no Ae-
tarde de aviação e, mais especificamente, na
roporto Santos Dumont, solenidade em
“Semana da Asa”. Onde houvesse exibições
que ocorreria o salto coletivo do esqua-
com aviões, era certa a presença de Charles
drão paraquedista, composto pelos alu-
Astor, sempre pronto para mais uma aven-
nos da Escola de Aeronáutica, por civis e
tura. Costumava dizer que “saltar de pára-
pelo instrutor Charles Astor:
quedas é tão fácil e seguro como saltar do
bonde andando. É preciso apenas cuidado
e treino” (Visão, 16 set 1960, p. 57). “A massa popular estava ansiosa
Charles ressaltava que, para ter sucesso por admirar os saltos. Toda gente tinha
nos saltos com paraquedas, era necessário os olhos para o céu, acompanhando a
somente dedicação e muito treino. Assim, marcha do avião, de cuja porta se des-
condenava o estereótipo de herói que co- prenderam em dado momento, dois
mumente se associava aos paraquedistas: pára-quedistas especiais, para deter-
minar a direção e velocidade do vento.
8 Charles Astor
Charles Astor em acrobacia aérea (CDA, 1974)

Como este estivesse muito forte e com na inauguração do Aeroclube do Paraná,


rajadas bruscas, o comandante dos pá- a exibição foi um “passeio sobre as asas
ra-quedistas, instrutor Charles Astor, do avião em vôo, trapézio da morte e sal-
que com eles se achava no aparelho, to de pára-quedas” realizado pela “trinca
achou prudente que a exibição não se de ases”: Charles Astor “Diabo Branco”,
efetuasse, considerando como decla- pelo piloto francês Albert Layer e pelo ca-
rou depois, que seria arriscado efetuar pitão Reinaldo Gonçalves (CDA, 1974).
a prova com um vento capaz de arro- Antes disso, porém, fez uma apresen-
jar o pára-quedista sobre o telhado dos tação, no ano de 1931, na cidade de Belo
edifícios próximos, ou de encontro ao Horizonte, em benefício ao monumento
próprio hangar do aeroporto [...] assim dos dezoito heróis do Forte de Copaca-
a exibição que estava sendo esperada bana, que seria erguido no Rio de Janeiro.
com tanta curiosidade foi adiada” (Cor- Dessa vez, estabeleceu parceria com o
reio da Manhã, 26 out 1944). aviador Tenente Perone, com quem fez
arriscadas provas aéreas.
Nos mais concorridos eventos que Como de costume, a população lotou
envolviam as atividades aeronáuticas, a o local das apresentações para ver Char-
perícia e a técnica de Charles Astor pro- les Astor executar, sobre as asas do avião
moviam um show inusitado, seja fazendo Alliança, equipamento construído inteira-
acrobacias nas asas do avião ou saltando mente em Belo Horizonte, os seguintes
de paraquedas. Em 1932, por exemplo, números: um passeio pelas asas do avião,

Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática no Brasil 9


acrobacias, equilíbrios e diversos exercí- roclube de Campinas, em benefício de
cios ginásticos no trapézio da morte. duas instituições de caridade da cidade. O
O avião decolou com facilidade, voou avião, pilotado pelo piloto civil Luiz Viei-
cerca de 600 metros e quando tentava ra de Mello, conduzia o acrobata Charles
alcançar maior altura, para que Charles Astor para fazer as costumeiras exibições,
Astor iniciasse suas acrobacias, sofreu quando, ao executar uma manobra, o equi-
uma pane no motor, obrigando o piloto pamento perdeu a direção, bateu numa ár-
a fazer uma aterrissagem forçada. O apa- vore e caiu em seguida sobre um prédio.
relho foi de encontro a um muro, sofren-
do grandes estragos. Apesar da gravidade “O avião e o edifício sofreram gran-
do acidente, Charles e o piloto sofreram des danos. Vieira de Mello e Charles
apenas pequenos ferimentos (Correio da Astor ficaram gravemente feridos. O
Manhã, 13 jan 1931). primeiro sofreu fratura do terço in-
Em outro acidente, esse bem mais gra- ferior do perônio direito e o segundo
ve, ocorrido em 1938, não teve a mesma fratura do perônio e do queixo, deslo-
sorte. Notícia publicada pelo Correio da camento do nariz, contusões nos lá-
Manhã, em 10 de maio, dava conta do ta- bios, na região frontal e no antebraço
manho do estrago: “Uma trágica tarde de direito. Foram internados no Hospital
aviação em Campinas - gravemente feri- da Beneficência Portuguesa” (Correio
dos um piloto e seu companheiro”. da Manhã, 10 mai 1938).
O acidente ocorreu durante o evento
“Tarde de Aviação”, realizado pelo Ae-

Charles Astor em manobra arriscada no


Campo dos Afonsos (CDA, 1974)

10 Charles Astor
Apesar da gravidade dos ferimentos, um show à parte que levou o público a
em pouco tempo Charles Astor estava prender a respiração por alguns instantes,
novamente nos ares, executando núme- quando, aproximando-se do solo, mante-
ros ainda mais arriscados. Na cerimônia ve o paraquedas fechado.
de batismo do avião “Pandiá Calógeras”, A audiência que lotava o edifício do
em Uberaba, acontecimento de grande Cassino dos Oficiais – bem em frente ao
repercussão que contou com a presença local escolhido para o salto contava com
do Ministro da Aeronáutica Salgado Fi- uma vista privilegiada, apesar de nem to-
lho, Charles Astor saltou da altura aproxi- dos estarem em lugar confortável, já que
mada de 500 metros, “retardando, porém, havia gente até mesmo no telhado – pôde
o funcionamento de seu pára-quedas, que presenciar este acontecimento fantástico
só se abriu depois de uma queda de cer- e inesperado, que foi descrito no Correio
ca de 100 metros”, levando ao delírio a da Manhã da seguinte forma:
multidão que acompanhava o evento e,
acometida pelo êxtase da apresentação,
“A assistência ficou tranzida com o
invadiu o campo impedindo o pouso dos
que aconteceu a um dos pára-quedis-
aviões (Correio da Manhã, 27 mai 1941).
tas. Ele havia pulado do avião e vinha
Ainda no ano de 1941, Charles empre- se aproximando do solo como um bo-
endeu um fato inédito na América do Sul, lido, sem que o pára-quedas abrisse. A
ao realizar o primeiro salto coletivo com súbita impressão que se teve, era a de
13 alunos sobre o Campo dos Afonsos. que o pára-quedas tivesse enguiçado.
Nessa mesma prova, Charles Astor deu A uns trezentos metros, porém, abriu

Charles Astor após salto de paraquedas


(CDA, 1974)

Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática no Brasil 11


Astor estabeleceu o recor-
de ao saltar do avião de uma
altura de 57,20 m do solo,
utilizando um paraquedas de
fabricação inteiramente na-
cional, evidenciando o apri-
moramento do Brasil nessa
prática.
Sobre essa performance,
declarou anos mais tarde que
talvez não a repetiria, mas, na
ocasião, precisou fazê-la para
mostrar o quão seguro era sal-
tar de paraquedas. Foi tudo
muito rápido, assim Charles a
descreve com impressionante
tranqüilidade: “o velame sol-
tou-se no ar como fumaça de
charuto e depois abriu-se [...]
fui atirado para a esquerda e
para a direita como um pên-
dulo, e caí rolando na grama.
Foi só” (CDA, 1974. Grifo
Nosso).
Charles Astor saltando de paraquedas Apesar de Charles Astor
descrever o acontecimento com tamanha
as pernas do homem, tão finas como simplicidade, acrescentando um singelo
as pernas de um mosquito, balançaram “Foi só” ao final da frase, o fato é que, en-
no ar, e a assistência sentiu um alivio. quanto a Segunda Guerra Mundial (1939-
Era Charles Astor. Fizera apenas um 1945) se desenrolava na Europa, a arroja-
número de sensação. Nada de anormal da demonstração veio consolidar a ideia
ocorreu com o pára-quedas [...]” (Cor- de que o paraquedas poderia ser utilizado
reio da Manhã, 24 out 1941). como uma extraordinária ferramenta em
tempo de guerra, possibilitando saltos em
baixa altura sobre qualquer objetivo que
Outro episódio verdadeiramente no- se pretendesse atacar.
tável do paraquedismo brasileiro ocorreu
em 06 de junho de 1943, quando Charles

12 Charles Astor
Dos Aeroclubes à Escola de
Aeronáutica: o instrutor “Será levado a efeito amanhã sobre
o campo de Gramacho o 2º salto dos
alunos pára-quedistas do Aeroclube do
A sólida experiência com a ginástica, as
Brasil, em cumprimento ao programa
acrobacias aéreas e o paraquedismo fize-
elaborado pelo instrutor Charles As-
ram de Charles Astor um homem respei-
tor, para a formação da primeira turma
tado por seu conhecimento acumulado
em anos. Iniciou na função de instrutor de pára-quedistas civis do Distrito Fe-
de paraquedas no início da década de 30, deral. O salto anterior que foi coroado
no Aeroclube de São Paulo. de pleno êxito realizou-se no domingo
passado, havendo o avião DC 3, gen-
Em 1932, formou a primeira turma de
tilmente cedido para aquele fim pelo
paraquedistas civis do Brasil. Ao todo,
comandante do 1º grupo de transporte
foram 184 alunos agraciados com bre-
soltado os 12 alunos pára-quedistas e o
vês, dentre eles Ada Rogato, a primeira
respectivo instrutor de 500 metros de
mulher brevetada paraquedista no Brasil
altitude sobre o campo de Gramacho”
(CDA, 1974). As instruções seguiram
(Correio da Manhã, 14 mai 1949).
com grande entusiasmo e êxito. Tão logo
finalizava uma turma, já abria inscrição
para novos interessados. O uso do paraquedas como ferramen-
No Rio de Janeiro, Charles Astor ta de combate se consolidou no decorrer
idealizou e dirigiu o Departamento de da Segunda Guerra. O equipamento cria-
Paraquedismo do Aeroclube do Brasil, do na China, em meados do século XIV,
sediado no Aeroporto de Manguinhos, como forma de entretenimento, possibili-
onde mais de 100 alunos concluíram o tou ao homem colocar em prática o sonho
curso. Charles Astor nunca perdeu um de Ícaro. Porém, atribui-se a Leonardo da
aluno, civil ou militar. Segundo Paulo Vinci o desenho do primeiro paraquedas,
Ronái, no prefácio do livro “Estórias que assim descreveu o projeto: “Se um
Rudes”, de 1965, republicado em 1976 dia alguém dispuser de uma peça de pano
pela Editora Civilização Brasileira, Astor impermeabilizado, tendo os poros bem
preparou mais de dois mil paraquedistas tapados com massa de amido e que tenha
em trinta anos de instrução civil e militar dez braças de lado, pode atirar-se de qual-
(ASTOR, 1965). quer altura, sem danos para si”.
Esteve à frente de vários cursos dessa Com o aprimoramento das técnicas
modalidade pelo Brasil. O êxito na for- de guerra e a real possibilidade de usá-lo
mação dos alunos paraquedistas podia ser como meio de socorro imediato aos feri-
visto nas apresentações abertas ao públi- dos, o paraquedas saiu do mundo das fá-
co e os shows nos ares mereciam desta- bulas para entrar em combate, auxiliando,
que da imprensa local. assim, as ações militares.

Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática no Brasil 13


A Força Aérea Brasileira, recém cria- compensado pelo ganho de conhecimen-
da em 1941, atenta ao cenário da guerra, to e pela experimentação de sensações
não tardou em formar os cadetes na prá- novas, grandes e muito agradáveis duran-
tica do paraquedismo, que se configurava te o período.
numa arma de ataque de máxima efici- O ótimo rendimento, em poucos dias
ência. Aproveitando o curso ministrado de curso, só foi possível graças à fibra e a
pelo instrutor Charles Astor no Aeroclu- boa vontade dos cadetes, que não medi-
be de São Paulo, “a Escola de Aeronáu- ram esforços para vencer os obstáculos,
tica enviou um grupo de 10 cadetes, que aliados ao conhecimento técnico do ins-
voluntariamente se ofereceram para rece- trutor. As impressões do Cadete Silvio
ber os ensinamentos práticos e teóricos,
Constantino de Carvalho, sobre Charles
embora com sacrifícios de alguns dias em
Astor, foram certamente compartilhadas
suas férias escolares” (Correio da Manhã,
por tantos outros, e assim registrada na
13 jan 1943).
referida revista:
O então Cadete Silvio Constantino
de Carvalho, aluno daquela 1ª turma, em
artigo publicado pela revista Esquadrilha, “[...] desde o primeiro contato reve-
relembrou a experiência que tivera duran- lou a sólida competência, inspirando
te o curso que realizou no Aeroclube de dessa maneira grande confiança a to-
São Paulo com o instrutor Charles Astor. dos e fazendo jus à escolha do Exmo.
Ressaltou que não pôde empregar as fé- Sr. Ministro, nomeando-o instrutor de
rias em descanso ou passeio, mas isso foi paraquedismo do Ministério da Aero-

Charles Astor checando o equipamento


de salto do aluno (CDA, 1974)

14 Charles Astor
náutica, matéria em que é profundo co-
nhecedor. A maneira com que recebeu
a turma, o constante interesse durante
todo o curso e a incansável abnegação
com que se empenhou para que tudo
fosse realizado sem acidentes, conquis-
tou de todos nós grande e espontânea
simpatia. Pioneiro do paraquedismo no
Brasil, muito ficará devendo a ele nossa
Pátria e já com essa 1ª turma surge o pa-
raquedismo militar, apresentando imen-
sa gratidão pela valorosa ajuda que ele
cede da maneira mais honesta possível
[...]” (Esquadrilha, 1942, n.8,9, p. 24).

No calor dos acontecimentos, não ha-


via, certamente, tempo hábil para a for-
mação dos paraquedistas, que ocorria
Charles Astor e alunos prontos para o salto
normalmente num período de seis a oito
(CDA, 1974)
semanas. Diante disso, o período de ins-
trução ficou restrito a 15 dias, fator que
não comprometeu em nada a formação Na ocasião, Charles Astor, em entre-
dos cadetes que, com muita determina- vista dada a imprensa, declarou-se muito
ção, conseguiram realizar, nesse curto satisfeito com o aproveitamento da tur-
período, trinta saltos de paraquedas, cum- ma e mostrou-se surpreso pela facilidade
prindo, dessa forma, o curso básico de com que os cadetes assimilavam as ins-
paraquedismo. truções. Assim, declarou:
O instrutor Charles Astor ressaltou
que, apesar das adversidades causadas “Estou satisfeito com a turma de
pelo mau tempo, uma vez que o curso
cadetes que vem de terminar o curso,
foi realizado no período de dezembro,
e espero continuar a receber novas tur-
em que há grande incidência de chuvas,
mas da Escola para, dentro em breve,
e agravado pelo curto espaço de tempo
formar um contingente de homens,
para formar os cadetes, tudo transcorreu
tranquilamente, sem nenhum acidente que amanhã saberão utilizar essa nova
registrado. A disciplina, a fibra militar e arma, com eficiência, mostrando assim
o espírito de corpo contribuíram para o o alto valor da nossa Aeronáutica [...]”
êxito da missão. Costumava dizer que o (Esquadrilha, 1942, n.8,9, p.23).
brasileiro é “um material excelente para o
paraquedismo”.
Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática no Brasil 15
A primeira turma brevetada paraque- Em homenagem à memória do Ca-
dista na FAB tinha como líder o Cadete dete, Charles batizou a terceira turma de
Berlinck. Aquela turma foi considerada paraquedistas do Aeroclube de São Paulo
por Charles, assim como por toda a equi- de “Grupo Cadete Berlinck”, na qual fo-
pe do Aeroclube de São Paulo, exemplo e ram alunos o próprio Berlinck e o Araujo
modelo de disciplina, arrojo e jovialidade. Figueiredo. Ao fazer essa justa homena-
Infelizmente, no ano de 1943, o Cadete gem, Charles concluiu que esperava que
Berlinck, juntamente com o Aspirante os demais alunos civis soubessem lou-
Araújo Figueiredo, também aluno da 1ª var o nome do seu patrono (Esquadrilha,
turma, sofreu um desastre aéreo, vindo a 1943, n.10, p.52).
falecer (Esquadrilha, 1943, n.14, p.38). Como se viu, foi a partir dos cursos
Em carta enviada ao então Ministério ministrados no Aeroclube de São Paulo
da Aeronáutica, Charles Astor lamentou que Charles Astor estabeleceu os primei-
o ocorrido e lembrou, na ocasião, que nas ros contatos com os cadetes da Escola de
duas semanas em que o Cadete esteve re- Aeronáutica, a quem sempre elogiava a
alizando o curso “ele ganhou duas coisas garra e disciplina. A relação se estreitou ao
que não damos com muita facilidade: a ser contratado pelo Ministro Salgado Fi-
nossa admiração e o nosso afeto”. Ressal- lho para ser instrutor da citada Escola, na
tou, ainda, que Berlinck era mais do que época sob o comando do Coronel Aviador
um bom cadete, era o “Cadete do Ar” com Henrique Raymundo Dyott Fontenelle,
tudo o que esta palavra representa de va- que, juntamente com o então Tenente Co-
lor, bom espírito, abnegação e disciplina. ronel Aviador Darío Cavalcante de Azam-

Charles Astor, ao centro, com cadetes alunos da Cama Elástica no Campo dos Afonsos (CDA, 1974)

16 Charles Astor
buja, foi o grande incentivador do para- entusiasmo, dinamismo, arrojo e conheci-
quedismo na Aeronáutica (CDA, 1974). mento técnico, sem dúvida alguma, extra-
Ao iniciar o curso na Escola de Aero- ordinários”. E concluía que, dentre as inú-
náutica, Charles pôde enfim perceber que meras qualidades do instrutor, surpreen-
a admiração era recíproca, já que, mesmo dia a capacidade de fazer com que o aluno
não sendo de freqüência obrigatória, os confiasse em si próprio e no material que
cadetes se inscreveram em massa no cur- utilizava (Esquadrilha, 1943, n.14, p.38).
so de paraquedismo. Contemporâneo de Charles Astor na
Segundo as referências do Tenente Escola de Aeronáutica, o Coronel Neri
Aviador Felino Alves de Jesus, aluno da 2ª Nascimento recorda-se com entusiasmo
turma brevetada paraquedista pelas mãos o método utilizado pelo instrutor para
de Charles, ele era realmente um homem provar aos cadetes que saltar de paraque-
“de uma modéstia excessiva, evitando pu- das era realmente seguro, sustentado pelo
blicidade em torno de seu nome, de um seguinte argumento:

Cadetes em treino na cama elástica (CDA, 1974)

Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática no Brasil 17


lidificou e criou raízes desde a Escola de
“Sobre o salto de paraquedas, Char- Aeronáutica, ainda no Campo dos Afon-
les Astor fazia o seguinte: colocava os sos, passando pela Academia da Força Aé-
cadetes em frente ao Cassino dos Ofi- rea e se eternizando na Escola Preparató-
ciais, onde se encontra o Lago do La- ria de Cadetes do Ar (EPCAR).
ché, e saltava de paraquedas, aterrizan- As instruções de Charles Astor não
do ali pertinho. Pegava o paraquedas ficaram restritas ao paraquedismo, pois
de qualquer jeito e jogava-o no lago, abarcavam também o ensino da ginásti-
recolhendo-o em seguida, sem maiores ca acrobática, assim como das acrobacias
cuidados. Então entrava no avião para na cama elástica. Destaca-se que Charles
saltar novamente, utilizando o mesmo foi o introdutor desta atividade no Bra-
equipamento. Tudo aquilo nos trans- sil. Considerava a acrobacia uma arte,
mitia muita confiança quanto à segu- algo parecido com o balé que dispensa o
rança dos saltos com paraquedas” uso da força. Afirmava que “a força não
conta: a força é uma brutalidade pura e
simples, e seu emprego ofende o espírito
A longa experiência em saltos e as virtu- humano” (CDA, 1974).
des de educador – pois “sabia como pal- Ensinava a técnica para os cadetes que
mear o coração de seus alunos, arrancan- aderiram com grande entusiasmo, partici-
do-lhes as amarras do medo, despertando- pando, inclusive, dos cursos que o instrutor
lhes a coragem para vencer” (PARA-SAR ministrava na Escola Nacional de Educa-
40 anos) – foram pontos favoráveis para a ção Física e Desportos, conforme consta
parceria entre professor e aluno, que se so- no programa da aula inaugural, publicado

Charles Astor em demonstração acrobática em São Paulo (CDA, 1974)


18 Charles Astor
em 27 de abril de 1960 pelo Correio da conferência sobre genética. Tudo isso, ele
Manhã “demonstração de acrobacias na o fará bem”, ressaltou o professor Ary da
cama elástica pela equipe de cadetes da Matta (Visão, 16 set 1960).
Escola de Aeronáutica”. Era muito mais que um simples lei-
Como instrutor paraquedista, ajudou tor. Pode-se dizer que era um bibliófilo,
a formar diversos cadetes e prepará-los a tal ponto que chegou a montar uma bi-
para o combate aéreo, proporcionando a blioteca especializada sobre paraquedas.
garantia da sobrevivência do piloto e dos Para aumentar sua biblioteca particular,
tripulantes combatentes. O entusiasmo Charles não media esforços. Relatou em
de Charles, “a personalidade carismática entrevista à revista Visão que certa vez,
e o comportamento arrojado contagiava querendo adquirir uma enciclopédia mui-
a todos” (PARA-SAR 40 anos). to cara, passou a ensaiar a noite, depois
do expediente na Livraria, para retornar
Entre a aventura dos ares com as apresentações acrobáticas, a fim
e a dos livros de arranjar o dinheiro necessário para a
referida aquisição (Visão, 16 set 1960).
Charles foi um homem de muitas ha- Charles costumava dizer que vivia
bilidades e conseguia conduzir todas ao como um selvagem entre os livros, mas,
mesmo tempo. Assim, saltava de para- pelo conjunto da obra que produziu, vê-
quedas num dia, pulava na cama elástica se que não era bem assim. Uniu as pai-
e dava aulas de jiu-jitsu no outro e, ainda, xões pela leitura e pelo esporte, particu-
encontrava fôlego para manter, como ati- larmente pelo paraquedismo, tanto que,
vidade diária, o cargo de Chefe da Seção para consolidar suas instruções, escreveu
de Livros Raros da Livraria Civilização e publicou “Técnicas do salto de pára-
Brasileira. Apesar de atividades bem dife- quedas” na Revista do Aeroclube de São
rentes, para Charles não havia incongru- Paulo, em 1943, e “Metodologia do En-
ência alguma. sino da Ginástica Acrobática”, publicada
Com a mesma facilidade, explicava pelo MEC durante o período em que foi
aos alunos as técnicas do paraquedismo contratado pela Universidade do Brasil,
ou então escrevia um conto que poderia para fins de ministrar o curso na Escola
versar desde a Legião Estrangeira até as Nacional de Educação Física e Despor-
experiências de quem viveu sob uma lona tos (CDA, 1974).
de circo. O livro “Estórias Rudes” exem- Evidenciando a intimidade com as
plifica muito bem as muitas facetas que formas literárias e a larga experiência no
compõem a figura de Charles. mundo dos esportes, Charles Astor, con-
Fascinado por livros desde menino, correndo com cerca de 400 inscritos, con-
tinha sabedoria para escrever sobre inú- quistou o 1º lugar no concurso de contos
meros assuntos: “pode escrever uma mo- esportivos lançado pelo jornal “O Glo-
nografia sobre papagaios ou fazer uma bo” no ano de 1958. Foi premiado pela
Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática no Brasil 19
apresentação do conto: “Toto, o maior do Charles, que se mostrou um leitor crítico
mundo” (CDA, 1974). de diversas obras publicadas, como pode
A intimidade que tinha com o gênero ser observado no prefácio do “Pequeno
literário foi certamente aprofundada du- Dicionário Brasileiro da Língua Portu-
rante as três décadas que trabalhou na Li- guesa”, de Aurélio Buarque de Hollanda,
vraria Civilização Brasileira. Durante esse e nos agradecimentos de Rubem Braga ao
período, acompanhou boa parte da tra- lançar a segunda edição do livro “SAINT-
jetória da Editora Civilização Brasileira, EXUPÉRY, Antoine. Terra dos homens”,
que foi criada oficialmente em 1932, mas do qual foi o tradutor:
tudo indica que a fundação foi em 1929,
pois, conforme o catálogo de publicação
“Revendo meu trabalho para a se-
da Editora, os primeiros livros foram lan-
çados em 1930. gunda edição brasileira deste livro,
devo apresentar agradecimentos a um
A controvérsia sobre a criação da Edi- leitor que fez, em carta, a crítica de mi-
tora tem origem na escassez de fontes e
nha tradução. Trata-se do Sr. Charles
nas mudanças de sede ao longo de sua
Astor, aviador francês, que vive em
existência, dificultando a reorganização do
nosso país. Acolhi quase todos os re-
material e possibilitando perdas significati-
paros de sua crítica autorizada, e mui-
vas do acervo (GALUCIO, 2009, p.119).
to lhe agradeço as lições que me deu”
É interessante notar que, a partir da (CARNEIRO, 2014, p. 226).
biografia de Charles Astor, pode-se cor-
roborar com a tese de que a Editora foi
mesmo criada antes de 1932, tendo em Charles Astor não se resumiu a um
vista que Charles pediu aposentadoria em simples leitor crítico. Ele foi também “um
1960, assim que completou trinta anos de escritor de verdade, capaz de transformar
bons serviços à casa. Desta forma, não em arte as vivências mais diversas”. Com
são necessários cálculos elaborados para essas palavras, Paulo Rónai fez a apresen-
concluir que Charles começou a trabalhar tação do livro “Estórias Rudes”. Causou
na Civilização Brasileira em 1930. surpresa a perícia que demonstrou no gê-
Na ocasião, o diretor da Editora, Ênio nero literário logo num livro de estréia.
Silveira, em entrevista concedida à revista Talvez a surpresa não seja tanta ao con-
Visão, lamentou a perda que a Livraria te- siderarmos que os contos narrados guar-
ria com a saída de Charles, relatando que dam estreita ligação com as experiências
“a decisão acarretará a extinção da Seção, de vida de Charles.
pois substituir Charles Astor implicaria Sabe-se que toda narrativa, seja históri-
no recrutamento de uma verdadeira equi- ca ou literária, é uma representação acer-
pe, coisa que tornaria o departamento an- ca da realidade. Sendo assim, é importan-
tieconômico” (Visão, 16 set 1960). te contextualizar o autor, texto, período e
Certamente, autores renomados tam- lugar em que foi produzido. A literatura é
bém lamentaram a aposentadoria de constituída a partir do mundo social e cul-
20 Charles Astor
tural, sendo uma leitura da realidade, “re- Legião Estrangeira: a história
gistra e interpreta o presente, reconstrói do Cabo Hugo Molnár, ou seria
o passado e inventa o futuro por meio de do Charles Juvé?
uma narrativa pautada no critério de ser
verossímil” (BORGES, p.99, 2010). A Legião Estrangeira foi criada na
O gênero literário guarda aproxima- França em 1831, por decreto do Rei Luis
ções com o gênero histórico, tendo em Felipe, para manter militarmente o con-
vista que todo documento é uma constru- trole das colônias francesas na África. É
ção e pelo fato de apropriar-se das fontes conhecida como uma lendária corpora-
e técnicas da História para criar o “efeito ção, cujos soldados se alistam em troca de
de realidade”, porém tem a particularida- dinheiro. Apesar de ser ligada ao Exército
de de ser “um discurso que informa do Francês, são aceitos soldados de qualquer
real, mas não pretende abonar-se nele” nacionalidade. A formação inicial abra-
(CHARTIER, 2009, p. 24-28). çou soldados profissionais, desemprega-
Não se faz literatura a partir do nada. dos após as guerras imperiais e revolucio-
As histórias narradas pelo autor podem nários de toda a Europa.
ter sido concretas e, ao produzir sua re- Muitos desses soldados estrangeiros
presentação, ele o faz por meio de sua chegaram fugidos à França e não tinham
vivência. Apresentou sete histórias de os documentos necessários para o alista-
aventuras, nas quais demonstrou sua ex- mento. A necessidade de alimentar rapi-
periência na Legião estrangeira, no boxe, damente as frentes de batalha e visando
no tênis, no circo, dentre outros. facilitar a entrada dos voluntários, que
aceitavam as regras impostas pela Legião,
fez com que o legislador autorizasse uma
simples declaração como identidade. As-
sim, permitiu que o legionário começasse
uma nova vida, dando a ele uma “segunda
chance”. É desse contexto que vem parte
do mito e dos mistérios que cercam a Le-
gião Estrangeira2 .
Os primeiros legionários desembarca-
ram na Argélia, em agosto de 1831, tendo
grande êxito na conquista do território,
onde algumas décadas mais tarde, em
Livro de autoria de Charles Astor, 1900, nasceu Achiles Hypolito Garcia,
publicado pela Civilização Brasileira que viria a ser mais um soldado a engros-
sar as fileiras do exército legionário. Atra-
2
Para maiores informações consultar o site http://www.legion-etrangere.com/

Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática no Brasil 21


ído por um grande espírito de aventura, gião e pedir a naturalização francesa, pois
em 1919, alistou-se como soldado de in- a vida militar muito lhe agradava. Mas,
fantaria na Legião Estrangeira, adotando as decepções com o “Código da Legião”
o pseudônimo de Charles Juvé (MATTA, lhe ceifaram tal vontade. Até que, duran-
1958). te a missão do Forte Sahuel, que Charles
No conto da Legião Estrangeira, nar- narra de forma instigante, fazendo com
rado no livro “Estórias Rudes”, Charles que nossos olhos não desviem de uma
contempla a missão do Cabo Hugo Mol- só palavra, o Cabo Mólnar destacou-se
nár ao Forte Sahel, em Marrocos. A ri- entre a tropa, tendo sido promovido por
queza de detalhes com que descreve as bravura a Sargento. Relutou em aceitar a
dificuldades de uma incursão nas monta- promoção, pois estava decidido a cumprir
nhas, a organização dos pelotões, as ex- apenas os cinco anos obrigatórios para o
pressões militares, os códigos, os ritos e cumprimento da missão.
as simbologias só podem ser impressões No entanto, o espírito guerreiro e o
de alguém que vivenciou intimamente a sentimento de dever cumprido, somados
experiência. às amizades conquistadas de companhei-
Inicia o conto expondo as fragilidades ros de diversas nacionalidades, dentre os
da Legião. Diferentemente do que mui- quais, um brasileiro chamado Queiroz
tos pensam, não é nada invencível. Para que, “com um baralho nas mãos, podia fa-
se alistar, é necessário muito mais do que zer milagres”, fizeram com que Mólnar, ao
coragem. O soldado deve ter um excelen- fim da missão, desejasse reengajar na Le-
te preparo para percorrer caminhos árdu- gião, então com a graduação de Sargento.
os, passar dias sem comer, beber água a São muitos os paralelos que podem ser
colherada e estar pronto para renunciar à traçados entre o conto do Cabo Molnár
verdadeira identidade. e a vida do legionário Charles Astor, que,
Este último quesito foi um ponto fa- com apenas seis meses de serviço, fez um
vorável que, provavelmente, impulsionou curso de metralhador e foi promovido a
o Cabo Mólnar, protagonista do conto, a Cabo. Em 1920, foi enviado para o Cen-
se alistar na Legião, tendo em vista que tro Regional de Educação Física – CRIP,
havia sido condenado por contrabando em Argel, tornando-se Instrutor de Edu-
na Hungria e, naquela altura, ter uma cação Física e sendo promovido a Sar-
nova identidade, não seria nada mal. Nos gento, “o mais jovem da Legião” (CDA,
primórdios da Legião, o legionário, para 1974). Na época, o Sargento Charles Juvé
ter seu crime perdoado, precisaria servir teve contato com a aviação, realizou os
por cinco anos. No conto, observa-se que primeiros voos e conheceu os segredos
faltava apenas dois meses para Mólnar fi- da acrobacia aérea.
nalizar tal saga. Como instrutor de Educação Física,
Porém, Charles narra que o Cabo Mól- lecionou em escolas públicas de Argel
nar tinha o desejo de fazer carreira na Le- e ensinou jiu-jítsu no Clube Militar. Em
22 Charles Astor
Charles Astor praticando jiu-jitsu

1922, fundou, com amigos, o Rubgy Club que Charles teria se alistado na Legião
de Argel, sendo campeão norte-africano para viajar e praticar esportes.
em 1924. Após cursar a Escola Normal Sabe-se que são muitos os motivos
de Educação Física, em Joinvile-Le-Pont, que levam os jovens, ainda hoje, ao
tomou gosto pela acrobacia e, ao final alistamento na Legião Estrangeira, dentre
do seu tempo de serviço na Legião, em outros, a oportunidade de imigração para
1926, recusou a patente de 2º Tenente a França, a mudança de vida, os bons
oferecida por seu Comandante, o lendá- salários e, até mesmo, deixar para trás
rio Coronel Rollet. um passado sombrio. Mas, para Charles,
Nesse caso, a vida não imitou a arte, os motivos foram outros. A Legião ficou
ou seja, se o Cabo Molnár voltou atrás pequena para os voos mais altos que
e decidiu continuar na Legião, o mesmo almejava. Um ano depois de ter dado
não aconteceu com Charles Astor. O de- baixa, formou o duo acrobático “Deux
sejo de ganhar o mundo parece ter falado Astors”, com Martinez, um campeão de
mais alto, fazendo-o recusar o oficialato. ginástica norte-africano, apresentando-se
Não se pode afirmar os reais motivos que em circos e clube na França.
fizeram com que não desejasse continu- A dupla teve carreira curta, devido à
ar, mas, analisando a matéria do jornal A convocação de Martinez para o serviço
Noite, de 1961, consta a informação de militar. Charles, agora conhecido como
Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática no Brasil 23
“Astor”, formou nova dupla artística enfermeira paraquedista e fazia toda sorte
com Antonio Pisápia, com o qual fez de perguntas técnicas sobre os saltos de
contato em Marselha. A dupla correu o paraquedas, aborrecendo os amigos que,
mundo. Apresentaram-se em Monte Car- no momento de lazer, a última coisa que
lo, na França, e também nos EUA. Fize- desejavam era falar de trabalho.
ram, inclusive, uma apresentação para o Oficialmente, Charles Astor não foi
rei Gustavo da Suécia. Em 1927, vieram casado, porém a devoção pela aviação de
para a América do Sul, apresentando-se uma jornalista mineira, fez com que ela o
por quatro meses no Cassino de Buenos acompanhasse em eventos, participando
Aires (CDA, 1974). ativamente de proezas aeronáuticas que,
atualmente, poderiam ser consideradas
Billy, como verdadeiras aventuras. Elgita Leite
Ribeiro, nascida em Januária, chegou ao
o “Pára-quedista de provas”
Rio de Janeiro em 1940, tendo trabalhado
no jornal Diário da Noite e sido represen-
No conto “Pára-quedista de pro-
tante desse jornal no Gabinete do Minis-
vas”, Charles narra a história de Willian
tro da Aeronáutica.
Thompsom, conhecido pelo apelido de
Billy, que realizava saltos experimentais
para o Parachute Experimental Station. A ri- Os laços da aviação uniam
queza de detalhes mostra a aproximação Charles Astor e Elgita Leite Ribeiro
do autor com o conto narrado.
Em certos trechos da narrativa, a se- Elgita Leite Ribeiro foi piloto brevetada
melhança é tanta que parece estar fazen- pelo Aeroclube do Brasil em 1946, tendo
do uma autobiografia “calma e habilidade participado de muitos eventos da aviação,
não faltava ao jovem Billy. Com 25 anos, sendo inclusive a vencedora da prova aé-
tinha passado quase metade de sua vida rea “Cruzeiro do Sul”, realizada durante
praticando vários esportes [...]”. Tal des- a “Semana da Asa”, em outubro de 1946.
crição se encaixa no perfil do jovem Char- A prova consistiu em um “circuito aéreo
les que, desde a adolescência, foi ligado entre os campos de Manguinhos, Xerém
aos esportes: dos 14 aos 18 anos praticou e Nova Iguaçu, com contagem de pon-
atletismo, boxe e rugby, sendo o “capitão” tos pelos índices técnicos das decolagens
do primeiro time da Section Atletique de Li- e aterrissagens, aproximação e segurança
moges, em 1917 e 1918 (CDA, 1974). de manobras no solo” (Correio da Manhã,
O que dizer então do trecho em que 23 out 1946).
narra os momentos de descontração de Em 1948, na mesma prova da “Semana
Billy! Sempre na companhia do amigo da Asa”, conquistou o 2º lugar. Elgita co-
Fred, saíam aos finais de semana com lecionou vitórias no campo aeronáutico.
algumas amigas para conversar. Billy se Realizou um grande feito para a mulher
enamorou por uma moça que sonhava ser brasileira quando, em janeiro de 1954,
24 Charles Astor
tornou-se a primeira aviadora brasileira Moreira Lima] executou várias mano-
a voar em avião de caça a jato da Força bras e missões que normalmente lhe
Aérea Brasileira, o TF-7. são afetas. Durante essas manobras e
Empreendeu um voo de 31 minutos missões, a aviadora se mostrou atenta a
sobre a cidade, demonstrando, assim, o todos os movimentos do Major Morei-
seu arrojo em façanhas aéreas. A aeronave ra Lima, revelando o seu interesse pela
estava a comando do Major Aviador Rui possante aeronave e revelando excep-
Moreira Lima, Comandante do 1º Grupo cional sangue frio durante as acroba-
de Aviação de Caça. Na ocasião, Elgita teve cias que foram realizadas a vinte e três
a oportunidade de assumir a pilotagem. mil pés de altura e a novecentos quilô-
metros horários. Ao descer o avião, o
piloto do aparelho e os demais oficiais
que se encontravam na Base Aérea de
Santa Cruz cumprimentaram a avia-
dora, que é, também, jornalista, pelo
seu extraordinário feito. Elgita, que se
mostrava muito satisfeita com a sua
nova proeza aérea, declarou à reporta-
gem: O meu entusiasmo foi quando o
Major Rui me entregou a direção do
aparelho” (A Noite. 30 jan 1954).

Mas, certamente, a maior vitória de


Elgita foi ter empreendido um voo su-
persônico, tornando-se a 1ª mulher sul-
americana e a 4ª no mundo a vencer a
barreira do som. A proeza foi conseguida
no dia 18 de junho de 1959, após algumas
tentativas, nas proximidades de Paris, no
Centro de Ensaios em voo da Base Aé-
rea Militar de Bretigny-sur-orge, acompa-
nhada pelo piloto Henri Suisse, no avião
Elgita Leite Ribeiro “Mystere IV-N” (Dassault) com velocida-
de de 1.250 Km por hora, numa altitude
de mais de 13.000 metros e com duração
“Elgita teve ocasião de ter, por al- de 40 minutos.
guns instantes, o comando do apare- Em 25 de junho de 1959, o Correio
lho, sendo que este [Major Aviador Rui da Manhã noticiou o acontecimento e a
Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática no Brasil 25
entrevista concedida pela aviadora, re- comprado para repousar na eternidade.
latando que não sentiu nenhuma sensa- O pedido oficial requerido por Elgita foi
ção ao atingir a marca do som, ratificada atendido pelos militares da Escola Prepa-
por meio dos registros nos aparelhos de ratória de Cadetes do Ar (EPCAR), ainda
bordo. Pela proeza, Elgita recebeu a in- que com muita tristeza.
sígnia Gros Mach (condecoração que só
é concedida a pessoas que venceram a
Charles Astor:
muralha do som) das mãos de Serge Das-
sault, com a presença de vários pilotos de um filho querido da família FAB
provas. Consagrou-se como a “Primeira
sul-americana e quarta mulher do mun- Em meados de 1962, quando sofreu
do a vencer a barreira do som” (Correio da um acidente vascular cerebral, Charles
Manhã, 25 jun 1959). Astor encontrava-se muito debilitado,
No final da década de 50, foi aluna de com perda parcial de memória e num es-
Charles Astor no curso de paraquedismo tado depressivo, internado no “Recreio
e, provavelmente nessa época, iniciou dos Anciãos”, localizado no bairro da Ti-
uma relação de amizade com o mesmo, juca, no Rio de Janeiro.
quando, no auge dos seus vinte e poucos O amigo “Tião Baumgarth”, condoí-
anos, chamava atenção por sua beleza, do com a situação de solidão e depressão
tal como relataram os amigos do jornal em que se encontrava Charles, tomou a
Diário da Noite ao noticiarem o salto de
iniciativa de levá-lo para a EPCAR, onde
uma equipe de paraquedistas realizado
pôde voltar ao convívio dos amigos e dos
em outubro de 1959, que contou com a
cadetes, recuperando-se tão rapidamente
presença de cinco jovens mulheres “en-
a ponto de retomar as instruções de cama
cantadoras brotinhos, entre elas, a nossa
elástica com os alunos.
colega Elgita Leite Ribeiro, a mascote da
turma” (Diário da Noite, 23 out 1959). A plena e rápida recuperação de Charles
pode ser constatada pela notícia divulgada
Não há referências sobre Elgita nos
pelo Correio da Manhã de 27 de maio de
textos acerca de Charles. No entanto, o
professor Sebastião de Oliveira Baum- 1964: “Charles Astor, introdutor da cama
garth, amigo íntimo do mesmo, revelou elástica do Brasil, fará uma demonstração
em entrevista que a senhora Elgita havia especial no próximo domingo, na sede do
requerido na justiça a transferência dos novo Pedra Negra Campo Clube. Cadetes
restos mortais de Charles, sepultado em da equipe especializada da Escola de Ae-
Barbacena com honras militares, apesar ronáutica tomarão parte na exibição”.
de ser civil, para o ossuário da Catedral Em agosto de 1966, Charles se en-
Metropolitana no Rio de Janeiro. volveu em missão operacional no Mato
Tal solicitação foi feita para que ficas- Grosso – a operação Caiabi – que tinha
se ao lado do nicho que a mesma havia como objetivo resgatar índios Caiabis da

26 Charles Astor
região do Rio Teles Pires para o Parque ginástica acrobática até o seu falecimento,
Nacional do Xingu. Segundo documen- em 17 de agosto de 1972 (CDA, 1974).
tos administrativos3, Charles passou lá
um mês, provavelmente com a equipe Rememoração e sepultamento
PARA-SAR escalada para a missão.
As habilidades intelectuais também es- A força vinculativa dos locais memora-
tavam em plena atividade. Em 1963, es- tivos repousa sobre uma narrativa resga-
creveu para a revista “Comentários” que, tada e levada adiante. A memória do mor-
referente aos meses de janeiro, fevereiro to, quando atrelada a um local, faz deste
e março daquele ano, contou com os tex- um lugar sagrado, instaurado pela presen-
tos dos seguintes colaboradores: “Carlos ça do morto. Este é o caso das sepultu-
Drummond de Andrade (Poemas), Gilda ras que trazem em sua lápide a fixidez da
de Mello e Souza (artigo sobre a roman- inscrição “aqui jaz”, fazendo dali o lugar
cista Clarice Lispector), Theophilo de de descanso, da mesma forma que vem
Andrade e Newton Carlos (a aliança para auxiliar no processo de rememoração.
o progresso face a realidade brasileira), Como pensar na prática rememorati-
Charles Astor (interpretação de William va, se, na sepultura, não há mais a pre-
Faulkner), Paulo Rónai (registro literá- sença do morto? Esse é o caso de Char-
rio)” (Correio da Manhã, 15 fev 1963). les Astor, que foi sepultado no Cemitério
Em 1967, mais uma vez unindo a pai- da Nossa Senhora da Boa Morte, em
xão pela literatura e o esporte, contribuiu Barbacena, e, sete anos mais tarde, teve
para o terceiro volume da série “Gol”: os restos mortais transferidos para o os-
“uma seleção de contos e narrativas de suário da Catedral Metropolitana do Rio
sentido pitoresco ou dramático, organi- de Janeiro.
zados mediante meticulosa colheita em O local, chamado de Portal da Sau-
obras hoje clássicas como também em dade, tem como missão acolher os res-
livros de autores modernos, como Ori- tos mortais dos fiéis com tranquilidade
genes Lessa, João Antonio, Homero Ho- e segurança, possuindo cerca de 25.000
mem, Edilberto Coutinho, Vasconcelos ossuários, dispostos ao redor de um altar
Maia, Silvio de Castro, Marques Rebelo, onde, toda segunda-feira, é realizada uma
Charles Astor e vários outros” (Correio da missa em intenção das almas.
Manhã, 09 dez 1967). Os nichos de Charles Astor e de Elgi-
Assim, Charles seguiu sendo produtivo, ta, falecida em 1992, estão lado a lado. El-
ministrando instruções de cama elástica e gita, desde 1977, já havia providenciado

3
Existe uma compilação de documentos da vida militar e administrativa de Charles Astor disponível
no Centro de Documentação da Aeronáutica (CENDOC).

Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática no Brasil 27


Nichos de Charles Astor e Elgita Leite Ribeiro

o local de seu repouso e do companhei- cessidade de prolongar o contato, a


ro. Os nichos estão localizados em área proximidade, o desejo de que o vín-
considerada nobre, já que é a segunda ala culo persista. Inclusive e fundamen-
mais cara do ossuário4. talmente quando o adeus é definitivo”
A prática do sepultamento e todo ritu- (SOARES, 2007, p.19).
al que a sociedade contemporânea devota
ao morto está intimamente relacionada à
questão da memória coletiva, tendo em Sabe-se que um local só conserva as
vista que somente pela coletividade se tor- lembranças quando há uma vontade co-
na possível manter viva a memória de uma letiva de mantê-las vivas. Portanto, inde-
pessoa falecida, caso contrário, a morte pendentemente do local onde estejam os
representaria seu esquecimento absoluto. restos mortais, nada pode interferir na
As representações que se fazem no mo- perpetuação da memória quando há esse
mento da perda funcionam como suporte desejo de lembrança. Destarte, o episódio
para os familiares e amigos enfrentarem da transferência de “Charles” não dimi-
o momento traumático. Além disso, fun- nuiu o desejo de homenagear a respectiva
cionam também como uma maneira de memória ainda, e para sempre, viva no
preencher o vazio deixado e, ainda, de seio da Força Aérea Brasileira.
forma mais dramática, como uma arma A família FAB, em diversas oportu-
para lutar contra a assustadora ameaça do nidades, prestou honrosas homenagens,
esquecimento. como esta que se faz aqui, a esse filho
acolhido calorosamente pelo País que es-
“a categoria fundadora da imagem colheu como Pátria, e que tanto contri-
não é a necessidade de figurar ou de buiu para o progresso acerca da prática
imitar algo que existe, mas sim, a ne- do paraquedismo.

4
Informação concedida pelo chefe do Escritório do Ossuário da Catedral Metropolitana do RJ.

28 Charles Astor
As justas homenagens • Em 1956, recebeu a Medalha Come-
feitas a Charles Astor morativa Santos Dumont;
• Em 1958, a Medalha do Mérito San-
tos Dumont;
• Em 26 de fevereiro de 1958, foi con-
decorado, pelo então Coronel Penha Bra-
sil, com a Medalha do Pacificador, por ter
prestado imensa colaboração na instrução
e orientação das atividades aéreas, junto à
tropa aeroterrestre do Exército;
• Em 1959, foi agraciado com o diplo-
ma de Honra ao Mérito do Ministério da
Educação e Cultura, pela participação no
III Estágio Internacional de Educação
Física;
• Em 1968 recebeu das mãos do Mi-
Charles Astor nistro do Trabalho Jarbas Passarinho, a
Medalha de Ordem do Mérito do Tra-
balho;
Charles Astor teve o seu trabalho reco-
nhecido ainda em vida: • Em 1969, no Campo dos Afonsos
- RJ, onde por muitos anos foi instrutor
• Em 1950, recebeu do Ministério da da Escola de Aeronáutica, Charles Astor
Aeronáutica a Medalha Militar do Atlân- recebeu a Ordem do Mérito Aeronáutico,
tico Sul; Grau Comendador; e
• Em 4 de abril de 1951, recebeu o • Em 1970, o Ministério do Exército
diploma de Paraquedista Militar pelo Mi-
concedeu uma placa ao pioneiro do para-
nistério do Exército, o único concedido
quedismo no Brasil.
a um civil;

Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática no Brasil 29


Charles Astor recebe a Medalha do Mérito Aeronáutico (CDA, 1974)

Charles Astor faleceu em 17 de agosto de 1972, em Barbacena-MG, recebendo da


Força Aérea Brasileira honras fúnebres militares, em reconhecimento de seus 30 anos
de serviços prestados ao Brasil (CDA, 1974).

Homenagem aos 40 anos de morte de Charles Astor – Barbacena (CDA, 2012)

30 Charles Astor
Paraquedista em salto (CDA, 1974)

O moderno ginásio da EPCAR recebeu o nome de Charles Astor, como a última


homenagem feita pelos alunos, a quem o instrutor considerava como verdadeiros ami-
gos. Eis abaixo a oração que a “velha águia”, como ficou conhecido, distribuía aos
jovens amigos:
“Ser jovem. A juventude não é um período da vida, é um estado d’alma, um
produto da vontade, uma qualidade da imaginação, uma vitória da coragem sobre
a timidez, do gosto pela aventura sobre o amor ao conforto. Ninguém se torna
velho por haver transposto um certo número de anos. Tornamo-nos velhos pela
deserção dos nossos ideais. Os anos enrugam a pele, a renúncia aos ideais enruga
a alma. As preocupações, as dúvidas, os temores e os desesperos são os inimigos
que, lentamente, fazem-nos pender para a terra, transformando-nos em poeira
antes da morte. Jovem é aquele que se espanta e se admira, o que pergunta como
a criança insaciável: E depois? É aquele que desafia os acontecimentos e encontra
alegria no jogo da vida. Vós sois tão jovens quanto a vossa fé, tão velhos quanto
a vossa dúvida; tão jovens quanto a vossa confiança própria e quanto a vossa
esperança, tão velhos quanto o vosso desânimo. Permanecereis jovens enquanto
fordes receptivos às mensagens da natureza, do homem e do infinito. Se um dia o
vosso coração for mordido pelo pessimismo e pelo cinismo, tenha Deus piedade
de vossa pobre alma de velho”.

A 2º Ten QOCon His Bruna Melo dos Santos pertence


ao efetivo deste Instituto e integra a equipe do SISCULT.

Pioneiro do Paraquedismo e da Ginástica Acrobática no Brasil 31


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32 Charles Astor
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