JÜRGEN HABERMAS E A NOVA
MUDANÇA ESTRUTURAL DA
ESFERA PÚBLICA
uma resenha da obra “Ein neuer Strukturwandel
der Öffentlichkeit und die deliberative Politik”,
de Jürgen Habermas
https://doi.org/10.26512/rfmc.v11i3.53615
Bruno Pimentel Franceschi Baraldo*
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
http://lattes.cnpq.br/6454495423409247
https://orcid.org/0000-0002-9606-8768
[email protected]
* Possui Licenciatura em Matemática (2009), Bacharelado em Filosofia (2016)
e Mestrado em Filosofia (2021), sempre pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS). É doutorando pelo PPGFIL-UFRGS..
Bruno Baraldo
145
Resumo
Passados mais de 60 anos da publicação de Mudança estrutural da esfe-
ra pública: uma investigação sobre uma categoria da sociedade burgue-
sa, publicado originalmente no ano de 1962, Jürgen Habermas volta ao
tema e publica Uma nova mudança estrutural da esfera pública e a po-
lítica deliberativa [Ein neuer Strukturwandel der Öffentlichkeit und die
deliberative Politik]. As novas reflexões, de 2023, pretendem dar con-
ta das novas e profundas mudanças que a esfera pública vem sofrendo
no contexto do acelerado processo de digitalização das comunicações e
do novo regime informacional que vem se estabelecendo com cada vez
maior fortalecimento das plataformas de mídias sociais.
Palavras-chave: Habermas. Esfera Pública. Plataformas digitais. De-
mocracia..
REVISTA DE FILOSOFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA
Volume 11, número 03, setembro - dezembro, 2023
ISSN 2317-9570
146
***
Em um “mundo” de fake news (difícil de imaginar) que não
poderiam mais ser identificadas como tais, ou seja, distin-
guidas das informações verdadeiras, nenhuma criança seria
capaz de crescer sem desenvolver sintomas clínicos. Portanto,
não se trata de uma decisão política sobre qual direção tomar,
mas sim de um imperativo constitucional manter uma es-
trutura midiática que possibilite o caráter inclusivo da esfera
pública e um caráter deliberativo na formação pública da opi-
nião e da vontade.
(Habermas, 2022, p. 80)
Passados mais de 60 anos da publicação de Mudança estrutural da es-
fera pública: uma investigação sobre uma categoria da sociedade burguesa
[Strukturwandel der Öffentlichkeit. Untersuchungen zu einer Kategorie der
bürgerlichen Gesellschaft], publicado originalmente no ano de 1962, Jür-
gen Habermas volta ao tema e publica, em 2023, Uma nova mudança es-
trutural da esfera pública e a política deliberativa [Ein neuer Strukturwandel
der Öffentlichkeit und die deliberative Politik]. A obra de 1962 tornou-se
um clássico do pensamento filosófico e sociológico da segunda metade
do século passado, e suas influências são ainda sentidas em uma gran-
de quantidade de pensadores e pesquisadores das mais diferentes áreas
de pesquisas histórico-sociológicas e de tradições intelectuais variadas.
As novas reflexões, de 2023 – precisamente o ano em que o histórico
Institut für Sozialforschung, de Frankfurt, comemorou 100 anos de sua
fundação –, pretendem dar conta das profundas mudanças que a esfera
pública vem sofrendo no contexto do acelerado processo de digitaliza-
ção das comunicações e do novo regime informacional que vem se es-
tabelecendo com o cada vez maior fortalecimento das plataformas de
mídias sociais. Sendo assim, segundo Habermas, estamos assistindo a
um novo capítulo da história das transformações da esfera pública, cujas
origens, apogeu e decadência de sua forma original já haviam sido nar-
rados na obra de 1962.
Lá, a esfera pública é compreendida como um conceito que descreve o
espaço comunicativo entre a esfera privada burguesa e o Estado, carac-
terizada pelo acesso livre e desimpedido ao público, pela publicidade
Bruno Baraldo
147
e, com isso, pela possibilidade de crítica ao Estado, e compreende um
amplo sistema de mídias – imprensa, livros, jornais, revistas, publica-
ções – que, no nascer da modernidade, constituiram-se como espaços
de troca de ideias, formulação de argumentos, crítica e debate, e que
cumpriram papeis importantes nos processos das transformações polí-
ticas que contribuíram para a construção das democracias ocidentais e
de seus princípios liberais. Historicamente, a esfera pública está ligada ao
contexto de consolidação das cidades, de desenvolvimento do comércio
e da prevalência das classes médias e da cultura burguesa, sobretudo
como produto do Iluminismo e do antigo capitalismo de pequena escala
e de concorrência. No contexto mercantilista, a imprensa desenvolve-
-se, ocorre o surgimento dos jornais semanais e, depois, dos diários. No
processo de nacionalização das economias citadinas, ocorre a constitui-
ção do Estado-nação, que atende à necessidade de uma administração
permanente que deve garantir a continuidade dos negócios e que vem
acompanhada do estabelecimento de um exército permanente e de um
intercâmbio continuado de informações. Habermas enfatiza a relação
entre a troca de informações e a mercantilização crescente: “A troca de
informações desenvolve-se não só em relação às necessidades do inter-
câmbio de mercadorias: as próprias notícias se tornam mercadorias”,
escreve “Por isso, o processo de informação profissional está sujeito às
mesmas leis do mercado, a cujo surgimento elas devem, sobretudo, a
sua existência” (2014, p. 35) . Trata-se do estabelecimento da esfera do
poder público, objetivado em instituições. Em contraposição a ele, toma
forma a sociedade civil burguesa que, através dos espaços criados no in-
terior da esfera pública, afirma sua exigência por direitos e por participa-
ção nas deliberações e tomadas de decisão de âmbito público e estatal.
Os juízos são chamados de ‘públicos’ em vista de uma
esfera pública que, indubitavelmente, tinha sido consi-
derada uma esfera do poder público, mas que agora se
dissociava deste como o fórum para onde se dirigiam
as pessoas privadas a fim de obrigar o poder público
a se legitimar perante a opinião pública (Habermas,
2014, p. 40).
Em Mudança estrutural, Habermas busca narrar e descrever as suas ra-
ízes históricas e apontar como, depois de uma fase de expansão e con-
REVISTA DE FILOSOFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA
Volume 11, número 03, setembro - dezembro, 2023
ISSN 2317-9570
148
solidação ao longo dos séculos XVII e XVIII, a esfera pública burguesa
passa a enfrentar um processo de decadência que acompanha, no século
XX, a decadência do liberalismo clássico com sua ideia de raciocínio
livre orientado para a verdade. Já em crise desde a metade do século
XIX, essas esferas públicas decompuseram-se progressivamente. A polí-
tica comercial liberal é substituída por novos protecionismos: grandes
trustes, carteis, grandes organizações sindicais e partidos trabalhistas.
A mudança para um contexto de democracias de massas sob as condi-
ções da propaganda política em lugar do discurso racional entre iguais,
na sociedade de massas, torna a esfera pública progressivamente sujeita à
lógica do poder econômico. Como consequência, assiste-se a substitui-
ção da política pela lógica da publicidade e pelas estratégias de propa-
ganda sociopsicologicamente calculadas. O público passa de pensador a
consumidor de cultura, a esfera do tempo livre ocupa o lugar da esfera
pública literária, os produtos da indústria cultural invadem a esfera pri-
vada e a discussão aberta é substituída pelas campanhas de propaganda.
Em Uma nova mudança estrutural da esfera pública e a política deliberati-
va, de 2023, Habermas volta ao tema em face das rápidas e complexas
mudanças que vêm ocorrendo no âmbito dos meios de comunicação
de massa, nas últimas décadas, debruçando-se, mais uma vez, sobre os
impactos das mudanças tecnológicas nas dinâmicas políticas das demo-
cracias ocidentais. Suas principais ideias estão expostas no texto prin-
cipal do volume, cujo título é “Reflexões e hipóteses sobre uma renovada
mudança estrutural da esfera pública política”, subdividido em seis seções:
Teoria normativa e Teoria empírica; Processo democrático e política
deliberativa; Condições improváveis de estabilidade da democracia; O
Plattformcharakter da nova mídia; Novas e velhas mídias; Comunicação
semipública e deformação da percepção da esfera pública política. Com-
pletam o volume, ainda, os textos “Democracia deliberativa – Uma entre-
vista”, versão resumida de uma entrevista dada para o Oxford Handbook
on Deliberative Democracy, e “O que quer dizer ‘democracia deliberativa’?
Objeções e mal-entendidos”. Habermas analisa as alterações na estrutura
da mídia, associadas às novas condições socioeconômicas e culturais, tí-
picas das sociedades individualistas e pluralistas contemporâneas. Nes-
se novo contexto, as democracias ocidentais enfrentam novos desafios,
incluindo a crescente desigualdade social, a concentração de renda re-
Bruno Baraldo
149
corde, os amplos fenômenos migratórios e as aceleradas mudanças cli-
máticas. Diante das variadas crises, a necessidade de novas capacidades
de ação política, assim como de tomadas de decisão em nível transna-
cional, dependem de um equilíbrio improvável entre valorização do ca-
pital e justiça social. A combinação desses fatores favorece um ambiente
internacional de incertezas, sobretudo quando as democracias têm sua
estabilidade e eficácia contestadas por amplos setores de países do cen-
tro do capitalismo, exacerbando as tensões internas e externas e pro-
piciando o surgimento de novos discursos autoritários e polarizadores.
Em seu texto, Habermas elenca o que considera serem as condições de
contorno – sociais, econômicas e culturais – que precisam ser satisfeitas
para a existência de uma política deliberativa satisfatória e uma cidada-
nia ativa. Primeiro, uma cultura política que seja amplamente liberal, na
qual haja a “disposição dos cidadãos de reconhecer reciprocamente os
outros como concidadãos e colegisladores democráticos em igualdade
de direitos” (Habermas, 2022, p. 47). Todos os cidadãos devem poder
reconhecer-se na cultura política comum, baseada em um princípio de
solidariedade cidadã e em uma disposição recíproca de ajudar o outro,
orientada por algum tipo de ideal de bem comum. Segundo, é necessá-
rio um grau mínimo de igualdade social, na medida em que existe um
vínculo entre autonomia privada e autonomia pública. Os cidadãos só
creem na participação ativa na democracia e valorizam a cultura polí-
tica liberal e participativa quando acreditam que os processos eleito-
rais efetivamente contribuem para a redução das desigualdades sociais.
Quando isso não ocorre, dão-se as condições para a descrença na polí-
tica deliberativa institucionalizada, tal como assistimos contemporane-
amente com o crescente número de grupos cuja atuação política visa a
obstrução dos meios tradicionais de participação democrática. Aumen-
ta, consequentemente, o clima de temor por um declínio social decor-
rente das mudanças sociais aceleradas, incentivado por movimentos
populistas que cada vez mais são capazes de mobilizar a frustração de
descontentes que são radicalizados. Habermas escreve:
Então fica claro que esses grupos de não eleitores ra-
dicalizados não participam mais das eleições sob os
pressupostos de uma eleição democrática, mas com o
REVISTA DE FILOSOFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA
Volume 11, número 03, setembro - dezembro, 2023
ISSN 2317-9570
150
propósito de obstruí-la, como “oposição ao sistema”.
Mesmo quando esse populismo dos “colocados à mar-
gem” não possa ser explicado exclusivamente pela cres-
cente desigualdade social – pois outros estratos tam-
bém se sentem “deixados para trás”, sobrecarregados
pela necessária adaptação às mudanças tecnológicas e
sociais aceleradas –, nele se manifesta, em todo caso,
uma desintegração social crítica e a falta de uma po-
lítica compensatória bem-sucedida (Habermas, 2022,
p. 51).
Terceiro, seria necessário um equilíbrio entre imperativos funcionais
opostos, a saber, a necessidade de os Estados garantirem, de um lado,
as condições para a valorização do capital, a fim de gerar as receitas fis-
cais que garantem o seu próprio financiamento, e, de outro, serem ca-
pazes de satisfazer os interesses de amplas camadas da população, sem
o apoio das quais não pode garantir a sua legitimação política. Por isso,
seria necessário que fossem garantidas as condições tanto para a inclu-
são quanto para a deliberação. Habermas escreve:
A inclusão corresponde à exigência democrática pela
participação igualitária de todos os concernidos na
formação política da vontade, ao passo que o filtro
da deliberação leva em conta a expectativa de que os
problemas tenham soluções cognitivamente corretas e
sustentáveis e fundamenta a suposição de resultados
racionalmente aceitáveis (Habermas, 2022, p. 39).
Daí o papel fundamental da esfera pública política: a exigência da livre
deliberação. Ocorre que a livre deliberação e a qualidade deliberativa
das opiniões dependem da capacidade daqueles que opinam de identi-
ficar os problemas relevantes com base em um eficaz e confiável fluxo
de informações, em geral veiculadas pelas grandes mídias. Então, Ha-
bermas volta a salientar – como fizera em seu estudo dos anos sessen-
ta – o papel crucial que é desempenhado pelas mídias na formação das
opiniões públicas concorrentes e na qualidade da sua formação, essen-
cial para a vida da política deliberativa. Em uma sociedade midiática,
as mídias constituem uma instância de mediação que, diante da plu-
Bruno Baraldo
151
ralidade de fatos sociais e possíveis perspectivas acerca deles, são res-
ponsáveis por formular e tornar público um núcleo de interpretação
da vida intersubjetivamente compartilhado, estabelecendo uma espécie
de imagem comum da vida cotidiana. Assim, a mídia corrente “confir-
ma, corrige e complementa a imagem cotidiana vaga de um mundo as-
sumido como objetivo, que mais ou menos todos os contemporâneos
presumem que também seja aceito por todos os demais como o mundo
“normal” ou válido” (Habermas, 2022, p. 70). No contexto atual, entre-
tanto, são as novas mídias digitais descentralizadas que passaram a atu-
ar como intermediárias na formação das opiniões, substituindo as tra-
dicionais mídias de massa, típicas do século passado. Com o surgimento
e a expansão generalizada da rede mundial de computadores, os fluxos
de comunicação se espalharam, aceleraram e conectaram muito rapi-
damente todo o planeta. As novas mídias permitem que os conteúdos
sejam acessados a qualquer momento e em qualquer lugar do mundo,
possuindo um alcance global instantâneo, enquanto as mídias tradicio-
nais estavam, muitas vezes, limitadas. “Com essa dissolução global dos
limites no espaço e no tempo”, escreve Habermas, esses fluxos “simulta-
neamente se condensaram, se desdiferenciaram e multiplicaram de acordo
com suas funções e conteúdos, e se universalizaram para além dos limi-
tes culturais e específicos de classe” (2022, p. 58).
Habermas analisa as especificidades das novas mídias investigando o
seu caráter de plataforma [Plattformcharakter]. Pergunta: o que há pro-
priamente de novo na nova mídia? Em primeiro lugar, ela não exer-
ce o papel produtivo que era exercido pelas mídias tradicionais, como
o rádio, a televisão e os jornais. Todos eles tinham a responsabilidade
de produzir o próprio conteúdo, os próprios ‘programas’. Por isso, seu
conteúdo comunicativo era produzido de maneira profissional, e aqui-
lo que vinha a ser veiculado ao público passava necessariamente por
algum tipo de filtro por uma redação. As grandes plataformas do Vale
do Silício, no entanto, são ‘formas planas’ justamente porque fornecem
uma espécie de espaço vazio – plano, não preenchido e sem a impo-
sição de barreiras – a ser preenchido pelos usuários. Nesse sentido, o
usuário é empoderado porque passa a ter controle sobre os conteúdos
que consome e que ele próprio veicula. Todos os usuários têm, em prin-
cípio, igualdade de direitos perante a ferramenta, e estão igualmente
REVISTA DE FILOSOFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA
Volume 11, número 03, setembro - dezembro, 2023
ISSN 2317-9570
152
capacitados para serem autores independentes. As plataformas incenti-
vam, assim, toda forma de interação entre usuários, incentivados a co-
mentar, compartilhar e manter discussões em tempo real, estabelecendo
uma espécie de nivelamento que constitui um novo padrão de comu-
nicação horizontalizada, bastante diverso daquele modelo vertical das
mídias dos séculos anteriores. Trata-se do que Habermas qualifica como
“caráter igualitário e não regulamentado das relações entre as partes e
a autorização simétrica dos usuários para darem suas próprias contri-
buições espontâneas”(2022, p. 61). Escreve:
As plataformas estabelecem uma conexão comunicati-
va multifacetada para a troca espontânea de possíveis
conteúdos entre potencialmente muitos usuários. Estes
não diferem uns dos outros em seus papéis por cau-
sa do medium; em vez disso, se encontram como par-
ticipantes em princípio iguais e autorresponsáveis na
troca comunicativa sobre temas escolhidos de maneira
espontânea (Habermas, 2022, p. 60).
Porém, a ideia de que as plataformas são neutras em sua atuação é, se-
gundo Habermas, ingênua ou, no mínimo, incompleta. Primeiramen-
te, porque não se tratam de meros meios de comunicação, mas sim
de empresas capitalistas extremamente rentáveis devido à exploração
econômica dos dados de seus usuários, incentivando, no limite, a mer-
cantilização da totalidade da vida dos indivíduos. Com a lucrativida-
de dependente da extração da maior quantidade possível de dados dos
usuários, torna-se imperativo, para sucesso do negócio das plataformas,
o uso intensivo de recursos para capturar a atenção do público. Por
conseguinte, fortalece-se, ainda mais, o caráter de entretenimento das
mídias de massas, através da imposição de uma economia da atenção que
tem como consequência a “sobrecarga afetiva e a personalização da-
queles temas factuais que estão em jogo na esfera pública política” (Ha-
bermas, 2022, p. 71), fenômeno intimamente relacionado com a lógica
econômica neoliberal.
Vejo uma dessas razões na coincidência do surgimen-
to do Vale do Silício, ou seja, o uso comercial da rede
digital, por um lado, e a disseminação global do pro-
Bruno Baraldo
153
grama econômico neoliberal, por outro. A zona glo-
balmente expandida de fluxos de comunicação livres,
que na época foi possível pela invenção da estrutura
técnica da “rede”, se apresentou como o reflexo de um
mercado ideal. Esse mercado não precisou ser primei-
ro desregulamentado. É claro que essa imagem suges-
tiva agora é perturbada pelo controle algorítmico dos
fluxos de comunicação, a partir do qual se alimenta a
concentração do poder de mercado das grandes em-
presas de internet. A coleta e o processamento digital
de dados pessoais de clientes, os quais são intercam-
biados de forma mais ou menos imperceptível com as
informações fornecidas gratuitamente por mecanismos
de busca, portais de notícias e outros serviços, expli-
cam por que a Comissão para a Concorrência da UE
[EU-Wettbewerbskommisarin] quer regular esse mer-
cado (Habermas, 2022, p. 79).
Em segundo lugar, a atuação das plataformas tem consequências nas
atividades das mídias tradicionais que, pressionadas pela lógica de va-
lorização das novas mídias, ficam obrigadas a se adaptar, mudar seus
padrões profissionais e entrar em competição pela atenção do público
e pelas receitas publicitárias, sem as quais sua existência se torna insus-
tentável.
A digitalização da esfera pública traz novos potenciais mas também de-
safios: ao facilitar o acesso de um número cada vez maior de pessoas
aos fluxos de informação on-line, as novas mídias contribuíram para a
inclusão de amplas camadas sociais nos debates públicos, expandindo o
leque de eventos discutidos publicamente e capacitando novos usuários
para atuar como autores independentes. Em troca, gerou uma expansão
descontrolada das fontes de informações, cuja consequência mais séria
é a fragmentação da esfera pública e uma consequente ameaça à coesão
da comunidade política. Além disso, o fato de a veiculação descentra-
lizada de informações ocorrer, em geral, sem regulamentação ou me-
diação de intermediários profissionais, favorece a proliferação de notí-
cias falsas, discursos extremistas e ideologias antidemocráticas. Cresce
a desprofissionalização das atividades ligadas às diversas mídias, assim
REVISTA DE FILOSOFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA
Volume 11, número 03, setembro - dezembro, 2023
ISSN 2317-9570
154
como a ideia segundo a qual o trabalho jornalístico é um serviço des-
politizado. Torna-se cada vez mais difícil para o usuário on-line filtrar
as informações que recebe de uma grande diversidade de fontes e re-
conhecer aquelas que são confiáveis. Portanto, mesmo que a expansão
dos meios de comunicação ofereça possibilidades sem precedentes de
engajamento de grupos sociais mais amplos e de expressão democrática,
o conjunto de efeitos ambivalentes das novas mídias para a esfera públi-
ca política leva Habermas a constatar a ocorrência de uma verdadeira
regressão política:
Hoje, os sinais de regressão política são visíveis a olho
nu. [...] Embora os dados sobre o uso da mídia estejam
disponíveis, é difícil operacionalizar uma medida te-
órica como “qualidade deliberativa”, tanto para a for-
mação da opinião regulamentada por procedimentos
jurídicos em corporações específicas, como comissões,
parlamentos ou tribunais, quanto – nesse caso, ain-
da mais difícil – para os processos de comunicação
não regulamentados nas esferas pú blicas nacionais de
grande escala. Não obstante, os dados para uma com-
paração de longo prazo do uso da mídia podem for-
necer uma base para tirar conclusões sobre o nível de
reflexão da opinião pública a partir de uma avaliação
independente da qualidade dos serviços de mídia utili-
zados (Habermas, 2022, p. 56).
Apesar de reconhecer as dificuldades em estabelecer parâmetros para
medir com objetividade a qualidade deliberativa mencionada, Haber-
mas busca trazer elementos concretos, a partir de resultados de pesqui-
sas empíricas, que lhe permitem conjecturar, por exemplo, a ocorrên-
cia de uma diminuição da atenção média dedicada às notícias políticas
e ao processamento analítico de questões politicamente relevantes no
âmbito das novas mídias e em comparação com o consumo de jornais
e revistas cotidianas. Considera, por exemplo, que a perda da relevân-
cia da mídia impressa “indica diminuição da procura e da receptivida-
de dos cidadãos e o processamento intelectual de notícias e problemas
politicamente relevantes” (Habermas, 2022, p. 61), que vem acompanha-
da da desconfiança, cada vez maior, sobre a qualidade das mídias tradi-
Bruno Baraldo
155
cionais e da classe política. Ainda que o rádio e a televisão mantenham
um papel importante como fonte minimamente confiável de informa-
ções políticas – segundo o Eurobarômetro 2019, citado por Habermas,
81% dos entrevistados dizem usar a televisão todos os dias, enquanto
46% o rádio e 26% a imprensa (Habermas, 2022, p. 65) –, é notável uma
importante mudança nas cotas de participação das diferentes mídias
e o aumento do uso das redes sociais para a obtenção de informações
políticas. Entre outras consequências da diversidade das mídias e da
pluralidade das fontes de informação, Habermas enfatiza a crescen-
te dissonância entre as diversas vozes, intensificada pela formação das
chamadas câmaras de ressonância, caracterizadas como ilhas de comu-
nicação ocupadas por grupos de pessoas com opiniões semelhantes,
com pouca ou nenhuma diversidade de pontos de vista. Em um am-
biente onde as crenças dos indivíduos são constantemente reforçadas,
as plataformas digitais favorecem o desenvolvimento de uma cultura
de desinformação e extrema polarização. Assim sendo, as plataformas
digitais não “apenas convidam à criação espontânea de mundos pró-
prios confirmados de maneira intersubjetiva, como também, ao mesmo
tempo, parecem dar à obstinação dessas ilhas de comunicação o posto
epistêmico de esferas públicas concorrentes” (Habermas, 2022, p. 67). Des-
se modo, a formação das opiniões é negativamente influenciada pela
disseminação das câmaras de ressonância, já que essas comprometem a
qualidade dos fluxos informacionais aos quais têm acesso os indivíduos
e a partir dos quais são formuladas suas tomadas de posição e sua par-
ticipação nos debates públicos:
Com a diversidade da mídia, do lado da oferta, e um
correspondente pluralismo de opiniões, argumentos e
perspectivas de vida, do lado da demanda, são preen-
chidos pré-requisitos importantes para a formação, em
longo prazo, de opiniões críticas e imunes ao precon-
ceito; porém, são precisamente a crescente dissonância
de vozes diversas e a complexidade substantiva dos te-
mas e das tomadas de posição desafiadoras que levam
uma minoria crescente de consumidores de mídia a
usar as plataformas digitais para recuar em câmaras de
ressonância protegidas, compostas de pessoas que pen-
sam da mesma maneira (Habermas, 2022, p. 60).
REVISTA DE FILOSOFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA
Volume 11, número 03, setembro - dezembro, 2023
ISSN 2317-9570
156
Mais ainda, Habermas considera que a ascensão das mídias sociais e
a formação das bolhas on-line não somente alteram a percepção dos
indivíduos acerca da natureza da esfera pública política como, em últi-
ma instância, borram até a habitual distinção conceitual entre público e
privado – distinção essa que historicamente esteve na base do raciocí-
nio liberal que moldou ideologicamente as democracias ocidentais. Os
ambientes que frequentam os usuários nas plataformas, sobretudo nas
bolhas, não são, de um lado, esfera privada, sem ser também, de outro,
esfera pública, já que não satisfazem os requisitos fundamentais da plu-
ralidade de pontos de vistas e da confiabilidade dos fluxos informacio-
nais que caracterizam uma esfera pública democrática eficaz para a deli-
beração. Essas esferas semipúblicas são povoadas por usuários que atuam
como autores e que, visando preservar e afirmar as próprias identidades
em uma dinâmica de confirmação mútua, buscam chamar a atenção uns
dos outros com suas mensagens e publicações sem, no entanto, tolera-
rem a presença de vozes dissonantes. Cada bolha se constitui, efetiva-
mente, como uma esfera semipública, rival das demais. Para Habermas,
a lógica do funcionamento dessas esferas semipúblicas, que funcionam
em paralelo, tem prejudicado o funcionamento da esfera pública política
tradicional e contribui para as graves e sem precedentes crises de legiti-
midade das democracias na opinião pública ocidental. “Não é o acúmu-
lo de fake news que é significativo para uma deformação generalizada da
percepção da esfera pública política”, escreve Habermas, “mas o fato de que
as fake news não podem mais ser identificadas como tais da perspectiva
dos participantes” (2022, p. 78). Ao que complementa:
Um sistema democrático como um todo é prejudica-
do quando a infraestrutura da esfera pública não puder
mais chamar a atenção dos cidadãos para as questões
relevantes que exigem a tomada de decisão e não for
mais capaz de garantir a formação de opiniões públicas
concorrentes, ou seja, opiniões qualitativamente filtradas
(Habermas, 2022, p. 79).
Aos 94 anos de idade, Habermas se pergunta pelo futuro. Como en-
frentar o poder exacerbado dessas plataformas e minimizar os impac-
tos negativos que seus produtos e sua atuação têm causado sobre o
Bruno Baraldo
157
funcionamento da esfera pública política e, consequentemente, sobre o
funcionamento dos mecanismos necessários para o exercício da demo-
cracia deliberativa? Para ele, deve haver responsabilização jurídica das pla-
taformas digitais. Isto é, as plataformas devem ter sua atuação regulada
pela lei, passando a ser, também, responsabilizadas pelas informações e
conteúdos que seus usuários compartilham utilizando suas ferramentas,
submetidas à mesma auditoria jornalística a que são submetidos os ór-
gãos tradicionais de informação. “As plataformas também são respon-
sáveis e precisariam ser responsabilizadas [...] porque essas informações
também têm uma força para formar opiniões e mentalidades” (Haber-
mas, 2022, p. 80), ele declara. E conclui: trata-se de um “imperativo
constitucional manter uma estrutura midiática que possibilite o caráter
inclusivo da esfera pública e um caráter deliberativo na formação pública
da opinião e da vontade” (Habermas, 2022, p. 81).
REVISTA DE FILOSOFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA
Volume 11, número 03, setembro - dezembro, 2023
ISSN 2317-9570
158
REFERÊNCIAS
HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investiga-
ções quanto a uma categoria da sociedade burguesa. São Paulo: Editora
UNESP, 2014.
HABERMAS, Jürgen. Uma nova mudança estrutural da esfera pública e a
política deliberativa. São Paulo: Editora UNESP, 2022.
Recebido em 22 de abril de 2024
Aprovado em 27 de junho de 2024
Publicado em 30 de agosto de 2024
Bruno Baraldo
159
REVISTA DE FILOSOFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA
Volume 11, número 03, setembro - dezembro, 2023
ISSN 2317-9570
160