Cadernos de Sociomuseologia, Nº 19-2022 (vol.
63) 39
Paulo Freire, docência em museologia e os museus: um
caminhar de descobertas, aprendizagem e amorosidade
Maria Célia Teixeira Moura Santos1
Paulo Freire, teaching museology and museums: a journey of discovery,
learning and love
O importante é que a fala seja tomada como um desafio a ser
desvendado, e nunca como um canal de transferência de
conhecimento. (Freire, 1986)
Introdução
Em setembro de 2020, recebi o convite das colegas Judite Primo, Moana Soto e Sara
Freitas para participar de uma “roda de conversa”, última de uma série organizada pelo grupo
Sociomuseologia+Paulo Freire, com o objetivo de discutir seu legado e suas influências sobre
nosso campo de atuação, no ano em que o mestre estaria completando 99 anos.
Ao receber o convite para fazer parte desta edição comemorativa fiz um exercício no
sentido de dar continuidade à nossa prosa-conversação, ampliando as reflexões ali
apresentadas a partir da aproximação feita sobre a obra do mestre Paulo Freire com nosso
caminhar, nos campos da Pedagogia e da Museologia, o que foi um grande desafio. Mesmo
tendo Paulo Freire ao meu lado ao longo dos anos, dei-me conta de minha pequenez, em
relação ao seu legado. Durante este ansioso processo de busca do caminho a ser percorrido,
lembrei-me de uma narrativa feita por Ana Maria Saul2, quando atuou, com Paulo Freire em
um dos seminários no Curso de Pós-Graduação da PUC/SP. Ela narra que, certo dia, uma aluna,
ao expor, em uma aula, um texto de sua dissertação, disse ao mestre: “Olhe Paulo, às vezes eu
tenho uma sensação de que aquilo que escrevi não vale muito a pena e tenho vontade de rasgar
tudo e jogar no lixo”, ao que Paulo Freire respondeu, em um tom bem humorado: “Não faça
isto, veja bem, eu também estou escrevendo um livro, eu vou dizer para você que ele até pode
ser um livro rasgável; não sei ainda.” Continuando a narração, Ana Maria registra que nos dias
seguintes os alunos pediam ao professor notícias do “livro rasgável”; alguns dias depois,Paulo
1
Doutora e Mestre em Educação, Professora aposentada da Universidade Federal da Bahia – Curso de
Museologia, Museóloga,– Maria Célia Teixeira Moura Santos é professora aposentada da Universidade
Federal da Bahia, aluna da primeira turma do Curso de Museologia da UFBA, Mestre e Doutora em
Educação. Professora, Consultora nas áreas da Museologia, da Educação e da Gestão e Organização de
Museus
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0276-8094 | E-mail: [email protected]
---------------------
Artigo recebido: 30/07/2021
Aprovado para publicação: 31/03/2022
2
Ana Maria Saul é Mestre e Doutora em Educação, pela Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo.Professora titular da PUC/SP - Programas de Pós-Graduação em Educação.
40 Maria Célia Teixeira Moura Santos
Freire comunicou à classe que havia concluído o “livro rasgável”. Busquei, então, o ânimo
necessário nesta narrativa e na reflexão apresentada a seguir:
Educar e educar-se, na prática da liberdade é tarefa daqueles que sabem quepouco sabem – por
isto sabem que sabem algo e podem assim chegar a sabermais – em diálogo com aqueles que quase
sempre, pensam que nada sabem,para que estes, transformando seu pensar que nada sabem em saber
que pouco sabem, possam igualmente saber mais. (Freire,1977, p.25).
Essa lição do mestre fez-me refletir sobre a necessidade de ser educador, por inteiro,
expondoe experimentando, na troca com o outro, nossas inseguranças, nossas certezas, que
também podem ser consideradas como incertezas, buscando ser criativas e tendo a coragem
de ousar.E, é ainda o mestre Paulo Freire que nos adverte, sobre a necessidade de ousar:
É preciso ousar, no sentido pleno desta palavra, para falar em amor sem
temer ser chamado de piegas, de meloso, de a-científico, senão de anticientífico. É
preciso ousar para dizer cientificamente que estudamos, aprendemos, ensinamos,
conhecemos com nosso corpo por inteiro. Com sentimentos, com as emoções, com
os desejos, com os medos, com as dúvidas, com a paixão e também com a razão
crítica. Jamais com esta apenas. É preciso ousar para jamais dicotomizar o cognitivo
do emocional. (Freire,1993, p.10).
Assim, percebendo que pouco sei e que a partir de um olhar contemporâneo reflexivo
sobre as ações de pesquisa, ensino e extensão e sobre os vários projetos realizados fora do
âmbito da Universidade, ao longo dos anos, posso saber mais e ao mesmo tempo, motivar-nos
para novas ações-reflexões, me encorajei. Senti uma potência criadora, que proporcionou
alegria e inspiração para identificar nos textos de Freire e nos de minha autoria, temas
geradores dos universos freiriano e da museologia, cujas referências utilizadas por mim, a partir
de sua obra,foram alicerces importantes para o desenvolvimento de um olhar crítico sobre meu
caminharcomo museóloga-educadora-educanda. Busquei, então, uma aproximação entre os
mesmos, alimentando, assim, as reflexões que aqui serão apresentadas.
Ao recorrer aos textos de minha autoria, já publicados, tive a intenção de fazer uma
releitura, buscando identificar nas reflexões já realizadas, ao longo dos anos, a presença de
Paulo Freire em minha história de vida, pessoal e profissional – estes dois aspectos estão
imbricados – fatoque contribuiu para que pudesse trazê-las para o presente, permitindo-me
algumas atualizações, com um olhar freiriano, tarefa que sempre desejei fazer e que foi adiada
pela presença de outras demandas. Por outro lado, penso que as referências aos textos já
publicados, têm, também, o objetivo de ampliar o acesso a alguns conteúdos abordados,
instigando novas reflexões, visto que algumas edições dessas publicações já estão esgotadas.
Optei por desenvolver nossa prosa-conversação situando, inicialmente, os contextos, as
diferentes realidades concretas, nas quais estive imersa, e com as quais fui construindo meu
compromisso social, com olhar crítico e transformador e, gradualmente, me aproximando da
obra do Mestre. Em seguida, a partir deste olhar crítico, busco problematizar a realidade dos
museus, quando do meu ingresso no mundo da museologia, analisando os limites, os silênciose
o tecnicismo. Em seguida, analiso nossa prática docente na Universidade Federal da Bahia e
na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa, em especial, as açõesde
pesquisa, ensino e extensão, construídas e reconstruídas por meio de ações dialógicas e
colaborativas, desenvolvidas com o envolvimento de muitos atores sociais, à luz dos
ensinamentos de Paulo Freire e do conhecimento construído no Campo da Museologia.
Continuo nossa prosa-conversação buscando uma aproximação com os universos freirianos e
da Museologia, a partir das experiências vividas em diferentes tempos, lugares e contextos,
que nos permitiram repensar a Pedagogia, a Museologia e os Museus, e a avançar em relação
ás reflexões sobre as práticas museais, enriquecidas na dinâmica do processo social, sugerindoa
inclusão de novas ações ao processo de musealização e a redefinição do conceito de fato
museal, apresentando, em seguida, as considerações finais.
Por conseguinte, as reflexões aqui apresentadas foram formuladas e estão amparadas
em umaprodução de conhecimento construído de forma colaborativa, enriquecido na dinâmica
Cadernos de Sociomuseologia, Nº 19-2022 (vol. 63) 41
da vida e pela vida, impregnado de desejos, sonhos, afetos e amorosidades, portanto, com
objetividadee subjetividade.
Assim, reconhecendo minha pequenez e meus limites, não posso deixar de expressar
minha expectativa de que as narrativas e as análises aqui apresentadas venham tornar-se um
desafio a ser desvendado por todos e todas, que sejam realimentadas por novas
questionamentos, aspirações, sonhos e esperança, que não sejam uma mera transferência de
conhecimento, como registra Paulo Freire na epígrafe apresentada no início de nosso texto.
O despertar para o olhar crítico e transformador: os contextos e a aproximação com Paulo
Freire
Se sou puro produto da determinação genética ou cultural ou de classe
ou deraça, sou irresponsável pelo que faço no mover-me no mundo e
se careço de responsabilidade, não posso falar em ética nem
tampouco em esperança. Num mundo a que faltasse a liberdade e
tudo se achasse preestabelecido, não seria possível falar em
esperança. Paulo Freire (2000)
Neste item apresento, de forma resumida, alguns aspectos relacionados com os
contextos nosquais estive inserida quando obtive as primeiras informações sobre o trabalho que
vinha sendo realizado por Paulo Freire, em especial, o Movimento de Educação Popular,
baseado no Método Paulo Freire e o de Educação de Base que, em 1961, tinha uma parceria
com o Governo Federal e com a Conferência Nacional dos Bispo-CNBB. A Ação Popular teve
sua origem na Igreja Católica, tendo havido “uma ligação efetiva” com esses dois movimentos.
Como homem de seu tempo, Paulo Freire, em seu caminhar, foi um aprendente,
enriquecendosua obra por meio da ação-reflexão, valorizando a cada momento o papel da
teoria com um olhar carregado de humanismo e afeto, sem perder de vista sua fé e inserção
na realidade. Quando publica Pedagogia do Oprimido, em 1970, ele registra:
Tenho a impressão de que este livro brotou de uma experiência longamente
vivida. Insisto sobre a esfera afetiva das coisas, sobre as dimensões humanísticas e
intuitivas do ato de conhecer. Jamais pus sentimentos e emoções entre parênteses.
Apenas os reconheço à medida que os expresso. Esse livro nasceu de um
casamento entre mim e as muitas partes do mundo onde vivi e por onde trabalhei
e ensinei com compromisso, sentimento, medo, confiança e coragem. Esse livro é
radical, no sentido etimológico do termo. Vem das profundezas de fragmentos da
história e da cultura latino- americana, especialmente do Brasil. Este livro está
saturado de tempo, história e cultura. E foi assim, creio eu, que esse livro adquiriu
a universalidade de que desfruta. (Freire,1994 a, p.128).
Ainda nos anos 70, Paulo Freire era Consultor para Educação do Conselho Ecumênico
das Igrejas, em Genebra, e Hugues de Varine 3 estava organizando uma ONG internacional
denominada Instituto Ecumênico para o Desenvolvimento dos Povos, que, segundo declaração
do próprio Varine (1995, p.17), Paulo Freire havia sido convidado para presidi-la.Do mesmo
modo, é feito por Hugues de Varine o convite a Paulo Freire para presidir a Mesa-Redonda sobre
a Importância e Desenvolvimento dos Museus no Mundo Contemporâneo, realizada em
Santiago do Chile, em 1972.
3
Hugues de Varine é arqueólogo, Historiador e Museólogo. Foi Diretor do Conselho Internacional de
Museus – ICOM, de 1965 a 1974. Atualmente é consultor independente, com atuação em diversos países,
trabalhando com temas relacionados com os desenvolvimentos cultural, social, econômico e com o
patrimônio. Curso de formação de professores, denominado, também, de Curso de Magistério.
42 Maria Célia Teixeira Moura Santos
Período de grande efervescência de manifestações artísticas e culturais, de muitos
movimentosque levavam as marcas da juventude e da intenção de provocar a desacomodação
ou a alienação, preocupações que marcaram toda uma geração: a negação de uma sociedade
capitalista e a discussão em torno do socialismo e de uma sociedade diferente que se buscava
construir (Paes, 1993, p.8). Anos de repressão, de contestação políticas com manifestações de
massa promovidas pelos estudantes, de greves operárias, de pregações indignadas de
sacerdotes católicos contra a opressão e o esfomeamento do povo (Ribeiro, 1985, p. 129).
Época de sonhos, de utopias, alimentadas por processos reflexivos realizados no grupo
de Juventude Estudantil Católica, no qual estive engajada durante os quatro anos do curso
ginasial – tínhamos um grupo de estudo permanente, sob a liderança de um padre de uma
paróquia local. As sementes do meu compromisso social e da minha militância, como
educadora e museóloga estavam então plantadas, na década da rebelião, da contestação e da
imaginação. (Santos, M.C, 2014, p.76).
No ginásio atuávamos organizando cursos, excursões, palestras, eventos diversos
envolvendo professores, alunos e familiares. Aluna engajada – com missões a cumprir –
participava da diretoria de grêmios, de projetos sociais com a comunidade da periferia da
cidade, de projeto para alfabetização de adultos utilizando o método Paulo Freire, quando
tomo o meu primeiro contato com a obra do autor e me apaixono. Seguir o Curso Normal foi
uma escolha muito consciente. Ser professora era realmente uma vocação.
Em 1970, tendo finalizado o Curso de Magistério vim para Salvador, com o objetivo de
realizar o concurso do vestibular e ingresso no Curso de Museologia da UFBA. O contexto não
favorecia o pensamento crítico, as transformações e o trabalho criativo. Vivíamos o período
mais duro da ditadura militar, implantada em 1964. A censura estava institucionalizada, a
tortura aos presos políticos corria solta e os movimentos sociais estavam desagregados. O
sistema escolar, em todos os níveis, sofre, na pele dos professores e dos estudantes, os efeitos
da repressão, bem como os artistas e intelectuais que se sentem podadosem seus direitos de
liberdade e contestação. (Habert, 1992, p. 74).
Em 1974, concluo o curso de graduação e logo após fui contratada como professora do
Curso de Museologia da Universidade Federal da Bahia para ministrar aulas da disciplina
Técnica de Museu III (Ação Educativa dos Museus) e Estágio III, cujos conteúdos abordavam as
atividades a serem desenvolvidas pelos setores educativos dos museus.
Em relação ao início da caminhada na docência em Museologia, destaco a importância
do encontro com os livros Extensão e Comunicação e Educação e Mudança de autoria de Paulo
Freire. A partir dessas duas publicações, pude me fortalecer para vencer o tecnicismo, para
transformar as ações até então desenvolvidas nos setores educativos dos museus. Penso que
um registro importante é o de termos conseguido mudar o nome da disciplina que ministrava
de Técnica de Museu III para Ação Educativa dos Museus e, posteriormente, para Ação Cultural
e Educativa dos Museus. Percebemos que era preciso transformar a extensão em ação,por meio
do diálogo, da leitura compartilhada do mundo, do patrimônio cultural de cada indivíduo e dos
acervos dos museus. Percebemos, também, que poderíamos superar as marcasdo passado em
nossas vidas. Possibilitando um novo olhar sobre a cultura e sobre o patrimôniocultural, em seu
processo de transformação, compreendendo a História como possibilidade e não como
determinação, como ressalta nosso mestre.
No campo museal, pode-se constatar que os movimentos iniciados nos anos 70, com a
Mesa- Redonda de Santiago do Chile, 1972, os encontros realizados em Quebec - I Atelier
Internacional da Nova Museologia, 1984, a Reunião de Oaxtepec, 1984, e a Reunião de Caracas,
1992, deflagraram um valioso processo de discussão, não só sobre o lugar que a sociedade
ocupava nos museus como sobre a redefinição da instituição, o papel do técnico, osentido da
preservação e o uso das coleções. Também é colocada em pauta a discussão sobrea produção
do conhecimento, decorrente da aplicação de novos processos museais, como a musealização
dos territórios, dos espaços urbanos e da dinâmica da vida.
Cadernos de Sociomuseologia, Nº 19-2022 (vol. 63) 43
Penso que compreender a Mesa Redonda de Santiago, é olhar, também, para os seus
bastidores, ou seja, para a sua preparação. Nesse sentido, me foram de extrema utilidade os
depoimentos de Hugues de Varine, quando da sua participação no Encontro sobre a
“Museologia Brasileira e o ICOM: convergências e desencontros?”, realizado em São Paulo,em
1995, quando se discutiram os documentos básicos da Museologia Contemporânea,
permitindo fazer mais uma leitura, no sentido de melhor compreender os objetivos daquele
evento. Naquele momento, como debatedora do tema apresentado por Hugues de Varine,
destaquei os seguintes aspectos:
As lições dos bastidores
• A escolha dos expositores, todos latino-americanos, cada um comprometido
com a sua realidade, demonstra, por parte dos organizadores, uma abertura, no
sentido de ouvir,de deixar aflorar as necessidades concretas daqueles que deveriam
tomar para si a responsabilidade de atuar, refletir e transformar as suas múltiplas
realidades.
• A escolha dos temas, abordando “questões-chave” do desenvolvimento:
educação, meio ambiente e urbanismo. No nosso entender, uma das maiores lições
de Santiago. Enfim, conseguíamos enxergar além dos museus, para compreender,
modificar as ações no seu interior e definir um novo conceito de museu, “levando em
consideraçãoa totalidade dos problemas da sociedade”.
• O Convite ao Prof. Paulo Freire, um dos maiores pedagogos dos nossos
tempos, expulso do nosso país naquela época, demonstra a coragem dos
organizadores do evento, como também, a proposta de realizar um encontro daquele
teor em um país daAmérica Latina, quando os países imperialistas procuravam reagir
à onda de contestação e lutas revolucionárias dos anos 60, investindo na implantação
de ditaduras militares em nosso continente. Com a ausência de Prof. Paulo Freire,
perderam os participantes, perdeu a museologia, que, com certeza, teria sido
enriquecida com as suas reflexões. Entretanto, ressalto que, apesar da sua ausência,
ostemas mais marcantes da sua obra, ou seja: a conscientização e a mudança, que
levam o educador e todo profissional a se engajar social e politicamente,
comprometido com um projeto de sociedade diferente, estiveram e ainda estão
presentes, ou melhor, sãoo cerne das proposições de Santiago.(Santos, M.C 2002,
p.103).
Acredito que a aproximação do Campo da Museologia com Paulo Freire é iniciada a partir
do encontro de Hugues de Varine com Paulo Freire. Em nossas conversas, tivemos
oportunidade de comentar sobre este aspecto. É muito interessante constatar e refletir sobre
a abrangência eo alcance da obra de Paulo Freire, em contextos e tempos diversos. Em nosso
caso, EnquantoVarine, na Europa, aplica e reconhece a importância da obra do Mestre para o
desenvolvimento dos povos e para os temas que seriam abordados na Mesa de Santiago, uma
jovem de uma pequena cidade do interior da Bahia, no final dos anos 60, trabalha, como
voluntária, no processo de alfabetização de Adultos de Paulo Freire, indo conhecer asreflexões
sobre museus e patrimônio apresentadas por Varine, em uma publicação da EditoraSalvat, de
1979, intitulada Museus no Mundo, quando ele era, então, presidente do ICOM e eu já atuava
como docente no Curso de Museologia, na UFBA, há 6 anos. É importante registar que só
tivemos contato com o documento da Mesa Redonda de Santiago, no início dos anos 80,
quando já realizávamos trabalhos de pesquisa, ensino e extensão, buscando a integração dos
museus com as comunidades nas quais estavam inseridos, tendo como referencial as reflexões
de Paulo Freire.
Considero que os movimentos de críticas e autocríticas, assumidos pelos atores sociais,
em diferentes países, na busca da construção conjunta de uma cultura cidadã, de museus mais
inclusivos e da melhoria da qualidade de vida, a partir dos anos 80, exercidos com compromisso
44 Maria Célia Teixeira Moura Santos
social e excelência criativa, provocaram mudanças significativas no sentido dereconhecer e
incentivar a realização de práticas museológicas comprometidas com a formação de sujeitos
sociais críticos e responsáveis com a construção de um mundo mais humano e igualitário.
Destaco, aqui, em especial, o Movimento da Nova Museologia, para o qual, a mesade Santiago
foi um vetor importante, e consequentemente, as influências de Paulo Freire.
Considero, pois, que Paulo Freire influenciou e foi influenciado pelas profundezas de
fragmentos da história da cultura latino-americana e do Mundo. A aproximação com sua obra
fortaleceu os movimentos em prol de uma Museologia compromissada com o social, bem
como nosso caminhar como educadoras(es)-museólogas(os)-educandas(os), sendo para mim,
o principal suporte para o desenvolvimento de meu olhar crítico e transformador.
Problematizando a realidade dos museus: os limites, os silêncios e oTecnicismo.
Constato, não para simplesmente me adaptar, mas para mudar ou
melhorar as condições objetivas através de minha intervenção no
mundo. Paulo Freire (2000)
Percebemos, ao longo de nosso caminhar, que era necessário problematizar a prática
exercidapelos museus. Em nosso entender, este seria o primeiro passo para a avaliação e,
consequentemente, para a busca de soluções, bem como para criar oportunidades de olhar a
ação educativa dos museus de uma forma mais abrangente, buscando vencer nossas
dificuldades em operar as partes e as totalidades, na complexidade das ações museológicas.
Acreditávamos que identificar e reconhecer algumas “cegueiras museológicas” talvez
nos ajudasse a tornar a ação cultural e educativa dos museus mais verdadeira, mais atenta aos
errose à ilusão, ao invisível que é real, e, portanto, mais humana. Assim, nosso olhar crítico nos
estimulava, no sentido de apontar algumas “cegueiras” que envolviam a totalidade e as partes,
dificultando a integração entre as ações museológicas, contribuindo para que a ação educativa
fosse desvinculada do processo de construção e reconstrução do museu e da escola, bem como
do contexto onde estavam inseridos e da multiplicidade de culturas neles envolvidos. (Santos,
M.C,1996, p.21)
Encarar, pois, a avaliação de frente era necessário, não para apenas nos adaptar, como
tão bem nos adverte o Mestre Paulo Freire. Era na perspectiva de possibilidade e de
transformação darealidade, em sua dialeticidade que trazíamos alguns aspectos relacionados
com a gestão museológica, com a pesquisa, com a preservação e com a comunicação para os
quais foram lançados um olhar crítico, situando-os nos contextos das políticas culturais,
institucional, da gestão e dos problemas ocasionados por nossa formação.
A política de preservação de “pedra e cal” (monumentos arquitetônicos), adotada no
Brasil por um longo período, contribuiu para a adoção de uma visão distorcida do que seja o
nosso patrimônio, colaborando para que deixássemos de reconhecer como bem cultural toda
uma gama de bens produzidos pelas camadas populares.
Além dessa visão distorcida, que influenciava na seleção dos acervos, a preservação era
realizada de forma saudosista, romântica e exótica. Era algo relacionado a um passado
distante, sem a necessária relação com nossas realidades. A utilização do referencial do
passado, como embasamento para uma reflexão crítica e entendimento do presente,
explorando todo o seu potencial com o objetivo de provocar as mudanças necessárias, não era
uma prática utilizada. Nesse sentido, Ulpiano Meneses (1992, p. 3) chama nossa atenção para
o fato de que “A reelaboração da memória se dá no presente e para responder a solicitação do
presente. É do presente, sim, que a rememoração recebe incentivo, tanto quanto as condições
para se efetivar”. Também nosso mestre Paulo Freire, (1983, p. 31) nos chamava aatenção para
o fato de que a cultura consiste em recriar e não repetir, sendo o homem capaz de captar o
mundo e transformá-lo.
Cadernos de Sociomuseologia, Nº 19-2022 (vol. 63) 45
No que diz respeito à preservação, destacaremos três aspectos principais: a coleta, a
conservação e o registro. Apontadas pela maioria dos técnicos de museus como as ações
primeiras e primordiais, sobretudo pelo seu caráter de armazenamento e segurança de um
patrimônio, estas ações técnicas vinham sendo executadas, em sua grande maioria, como
meros passos a serem seguidos, metodicamente, sem uma análise dos objetivos e da missão
da instituição, caracterizando-se por uma completa dissociação entre meios e fins. Esse fazer
dissociado de uma reflexão crítica e contextualizada, essencial para que tenhamos uma melhor
compreensão sobre nossas ações, contribuíam para que a pesquisa e a comunicação fossem,
também, ações que se esgotavam em si mesmas.
Através da coleta, pode-se compreender toda a teia de relações que vinha influenciado
e conduzido as ações museológicas em nosso país, pois esta teia era o reflexo da política de
preservação adotada, ao longo dos anos, onde se privilegiava a produção cultural de
determinados segmentos da sociedade, notadamente as elites religiosas e a aristocracia rural.
Em geral, os critérios para seleção dos acervos eram estabelecidos tomando-se como
referência os aspectos de valor estético, antiguidade e raridade, todos eles pautados em
valores românticos, saudosistas e exóticos, que primavam por camuflar e por ignorar a
existência de uma sociedade dividida em interesses econômicos e políticos não apenas
diversos, mas conflitantes.
Outro aspecto importante a ressaltar, em relação à coleta, era a ação autoritária e
isolacionista do técnico ou do colecionador que, imbuído do argumento de autoridade,
adquirido com o status de técnico de nível superior (que detinha um determinado
conhecimento e o sacralizava), utilizava-o para manipular e adquirir os objetos a que ele
mesmo atribuía um determinado valor cultural, e de forma paternalista, em nome da
preservação, os arrancava doseu contexto sociocultural, na maioria das vezes, para deleite
de uma elite intelectual.
Caracterizava-se, assim, uma seleção imposta e inadequada dos acervos preservados,
excluindo-se a participação do cidadão.
Em relação à conservação, o seu objetivo era o de guardar, armazenar. Costumávamos
dizer que atuávamos nos museus, em relação à conservação, como se estivéssemos
construindo “silos”. O conservar era algo destinado à elite que, às vezes, chega ao êxtase da
“apreciação”.E, assim como o técnico, que coletava de forma compartimentada, o conservador
protege, restaura e cura das doenças de um cliente que, ao ter a vida restabelecida, não se
sente engajado, participante de uma sociedade, porque é um mero objeto,
descontextualizado, que não era usado como referencial para a construção de uma nova
realidade. Notava-se, assim, oimpério da técnica que era utilizada, dentro da mais “moderna
tecnologia”, para que este objeto “sem vida comunicada” saísse do laboratório como alguém
que foi congelado, para serreincorporado à sociedade, fora do seu tempo. O conservador, na
maioria das vezes, agia como o “messias”, tão bem caracterizado por Chagas (1990, p.42),
“pronto para salvar os objetos, crente de que suas ações estavam esterilizadas, do ponto de
vista político e científico”.
O registro, por outro lado, se caracterizava como o momento “supremo do museólogo”,
no sentido de se afirmar, demonstrando o conhecimento que adquiriu para ser depositado em
alguém que nada sabe e que vai continuar sem saber, porque não domina os mesmos códigos,
uma vez que estes estavam permeados pela erudição tão necessária para impor autoridade. O
que se observava, portanto, era a construção de bancos de dados, na maioria das vezes
inadequados, para a compreensão da construção do processo histórico, no passado e no
presente, pois eram constituídos de uma mera descrição física dos objetos, como se estes não
fossem o resultado de um processo cultural, em um determinado contexto.
A pesquisa museológica nos museus brasileiros, infelizmente, vinha sendo relegada a
segundoplano. O que se observava era uma total falta de compromisso com a construção do
conhecimento. Se olharmos com atenção para os diversos aspectos acima abordados, talvez
possamos afirmar que eles sejam o fruto de uma “prática pela prática” ou uma prática
46 Maria Célia Teixeira Moura Santos
embasada em uma ciência positivista. A criatividade, a inquietação, a reflexão, o respeito ao
diferente, o dissenso não tinha tido lugar nas diversas ações dos nossos museus. Imperava a
linearidade. Por outro lado, observa-se algumas tendências em considerar o museu como um
centro de pesquisa, onde obtinham-se, como resultado, a produção de belos relatórios para
deleite dos nossos pares que, com orgulho, os enclausuravam nos âmbitos da instituição ou da
academia.
Após esta análise, talvez possamos inferir que, em vez de comunicar, dávamos
comunicados. O conhecimento produzido e comunicado pelos museus era acrítico,
interpretando a realidade com base nas primeiras e primárias impressões que atingem o
sistema receptor do sujeito do conhecimento; o objeto é enfocado como se existisse isolado,
dissociado de um conjunto de relações. A mensagem transmitida era denotativa - diretamente
relacionada ao objeto referidoou às suas qualidades - resultado de coleta, de conservação e de
registro que não forneciam as bases necessárias para que o processo comunicativo fosse
efetivado. (Santos, M.C. 1993 a, p.93).
Assim como a preservação não vinha sendo realizada com o objetivo de transformar a
realidade, a partir das reflexões dos dados do passado, a educação, em geral, também era
conduzida para o conformismo, para a condução de currículos impostos de cima para baixo,
com conteúdos dissociados dos contextos nos quais as escolas estavam inseridas, praticando-
se a “erudição” em aulas expositivas, nas quais o professor depositava seu conhecimento,
valorizando muito mais a memória do que a inteligência. A burocratização, cada vez mais
praticada e imposta aos educadores, fazia com que os mesmos ficassem distantes da escolha
dos conteúdos que deveriam ser ministrados, da avaliação da prática pedagógica por eles
exercida e da análise do papel que a escola exercia na sociedade. Assim, as práticas
pedagógicas inadequadas das escolas eram repetidas nas denominadas ações educativas dos
museus. (Santos, MC 1993b, p.41).
Desse modo, a aceitação passiva dos determinismos de alguns paradigmas por nós
interiorizados, como por exemplo, os critérios para seleção dos acervos a serem expostos nos
museus, tendo como referencial a racionalização da civilização ocidental, a compreensão
equivocada de que o museu é uma instituição à qual devemos nos adaptar, como se fosse uma
ilha tranquila, imune às influências das dimensões social, econômica, cultural, ambiental e
político-institucional, de que a “salvaguarda” dos acervos é a principal missão da instituição,de
que a ação educativa é um corpo de regras estabelecidas que é denominada de “metodologiada
educação patrimonial”, só para citar alguns, colaborou para o nosso conformismo cognitivo,
para a nossa ilusão racionalizadora e, consequentemente, para nossa dificuldade deolhar o
invisível, de realizar a nossa autocrítica e criar novos paradigmas.
Talvez, aqui tenhamos registrado alguns dos nossos conformismos cognitivos e
intelectual, resultado da força normalizadora, da tecno-burocratização do trabalho, que geram
bloqueios,normas, proibições e rigidez, barreiras invisíveis que nos afastam uns dos outros e
castram a nossa criatividade, a nossa capacidade de questionar o estabelecido. Finalizo
este olhar retrospectivo, deixando uma reflexão por mim apresentada em texto elaborado
para o I Encontro de Museus Universitários, realizado em Goiânia-GO, em 1992:
A crítica ao museu, como subsistema, é necessária, mas deve nos conduzir a uma análise do
sistema social global, não só para compreender, mas, sobretudo, para transformar. Neste sentido, a
técnica não deve ser aplicada de forma mecânica, em compartimentos estanques, tornando a instituição
uma mera executora de tarefas.
No próximo item refletiremos sobre alguns projetos e os esforços realizados no sentido
de criarmos novas possibilidades de ação e de transformação, utilizando as ações de ensino,
pesquisa e extensão, compreendendo que as realidades dos museus e das escolas “são histórico
cultural, humanas, criadas pelos homens e que podem ser transformadas”. (Freire,1983 p.50).
Cadernos de Sociomuseologia, Nº 19-2022 (vol. 63) 47
A docência em museologia, o patrimônio cultural e os museus: um caminhar de descobertas,
aprendizagem e amorosidade.
Quanto mais me capacito como profissional, quanto mais me utilizo
do patrimônio cultural, que é patrimônio de todos e ao qual todos
devem servir,mais aumenta minha responsabilidade com os homens.
Se o compromisso só é válido quando está carregado de humanismo,
este, por sua vez, só é consequente quando está fundado
cientificamente. O profissional deve ir ampliando seus conhecimentos
em torno do homem, de sua forma de estar no mundo, substituindo
por uma visão crítica a visão ingênua da realidade, deformada pelos
especialismos estreitos. (Freire, 1983)
Desde meu ingresso no Curso de Museologia, como professora, dediquei-me às
atividadesrelacionadas com a ação educativa dos museus. De 1974 a 1979, realizamos vários
projetos com alunos e professores das redes estadual e particular de ensino da Cidade do
Salvador, no Museu de Arte Sacra da UFBA. Posteriormente, estas ações se estenderam aos
demais museusvinculados à Universidade, todos implantados no início dos anos 80 e às escolas
situadas em diferentes bairros da cidade. As concepções de ação cultural e educativa dos
museus, alimentadas pelas reflexões de Paulo Freire, nos motivou, nos anos 70 e 80, para que
quebrássemos com os isolamentos das escolas e dos museus da UFBA, abrindo possibilidades
para a integração com o meio no qual estavam inseridos. A partir desse caminhar, tivemos a
coragem de romper com muitas barreiras e abrir as portas de um dos museus mais tradicionais
da cidade, naquele período, o Museu de Arte Sacra, buscando uma integração com seu
entorno, realizando ações museológicas pautadas no diálogo, na troca de saberes, no
compartilhamento de informações e de experiência. O que desejávamos era um museu
comprometido com o homem e com a melhoria da qualidade de vida.
Inseridos nos contextos apresentados no item anterior deste texto, fomos,
gradualmente, trabalhando nos campos da Museologia e da Pedagogia, em busca da realização
de ações voltadas para a melhoria da qualidade de vida das pessoas envolvidas com os diversos
projetos, visando à construção de ações comprometidas com a conquista da autodeterminação,
reconhecendo, no patrimônio cultural, um instrumento de educação. Buscávamos colocar em
prática um rico processo de aprendizagem instrumental e dialógica apoiados em subsídios
teóricos, éticos, políticos e da busca por uma ética de confiança. Sabíamos, entretanto, que
não seria a solução de todos nossos problemas, pois as concepções, as formatações e as
decisões seriam de todos os agentes envolvidos, que são seres humanos, imersos em contextos
diferenciados e passíveis de erros e acertos. Compreendíamos que esses agentes não seriam
somente os museólogos, professores e alunos, e que, cada vez mais, a pesquisa, o ensino e a
extensão dependiam de realidades contextuais mais amplas e complexas. Entendíamos
também, desde aquele período, que trabalhar com as funções básicas da universidade de forma
contextualizada, significava estar aberto às possibilidades de criarmos comunidades de
aprendizagem, deixando em nossos currículos, espaços para o acadêmico, o prático e o
comunitário.
Não posso deixar de registar que a busca por minha capacitação como profissional, com
a realização do Mestrado, contribuiu, de modo significativo tanto para minha atuação em sala
de aula, como professora do Curso de Museologia, como pesquisadora e para as atividades de
extensão que vinha desenvolvendo. As diversas reflexões teóricas realizadas ao longo do
período em que cursei as disciplinas, bem como os trabalhos desenvolvidos nas mesmas, todos,
em sua grande maioria relacionados com a prática que desenvolvia no Curso de Museologia,
proporcionaram a oportunidade de atuar, de forma integrada, com ensino, pesquisa e
extensão, com maior segurança e fundamentação. Em relação a esse aspecto, não posso deixar
48 Maria Célia Teixeira Moura Santos
de registrar que a reflexão de Paulo Freire, apresentada como epígrafe neste tópico, foi e
continua sendo uma grande fonte de inspiração e de ânimo para continuar na caminhada.
Também, no Mestrado, tenho a oportunidade de aprofundar as discussões sobre a
educação popular, cujo suporte fundamental é a proposta educativa de Paulo Freire, bem
como sobre ainvestigação participativa, que se apresentava como alternativa para oferecer
uma nova explicação da realidade. Constato que vários autores se dedicam aos estudos da
pesquisa participante e da pesquisa/ação, especialmente nos países de Terceiro Mundo,
assumindo o compromisso do cientista social com os diversos grupos populares.
Outro aspecto que quero ressaltar, ainda relacionado à necessidade de interação entre
as diversas áreas e campos do conhecimento e do reconhecimento de que este é histórico-
socialmente condicionado, é a necessidade de abertura para o mundo, daqueles que são
responsáveis por sua produção, no sentido de transformar a extensão em ação, lição aprendida
desde cedo com Paulo Freire.
Acreditamos ser possível construir conhecimento na troca, na relação entre o formal e
o não-formal, no respeito à experiência e à criatividade dos muitos sujeitos sociais que estão
fora das academias e que podem nos indicar caminhos e soluções muitas vezes por nós
despercebidos, os quais, também, seriam enriquecidos a partir das nossas reflexões e do
conhecimento por nós produzido. Assumimos que havia possibilidade de produzir
conhecimento em todos os níveis de escolarização e que este conhecimento pode ser
construído em uma determinada ação de caráter social, reconhecendo o papel ativo dos
observadores na situação investigada e dos membros representativos dessa situação.
Nesse sentido, não posso deixar de citar a experiência que tivemos com alunos e
professores do Colégio Azevedo Fernandes, situado no Pelourinho, no Centro Histórico de
Salvador-BA,fato que nos fez avançar em relação aos processos de musealização e da prática
pedagógica. Após a montagem da exposição para a inauguração do Museu de Arqueologia e
Etnologia daUFBA preocupados em aproximar a nova instituição da comunidade do bairro,
procuramos oColégio Azevedo Fernandes, o maior situado na área, para iniciarmos uma ação de
integração.O nosso objetivo era apresentar o Museu de Arqueologia aos professores e realizar
um planejamento, com a participação dos mesmos, com o objetivo de adequar os conteúdos
das disciplinas às coleções expostas no Museu. Após o contato com os professores, fomos
expor nossas propostas para os alunos, e, para nossa surpresa, os mesmos manifestaram um
grande interesse em estudar, inicialmente, a história do bairro, registrando que, apesar de
estudarem em uma escola situada no Centro Histórico da Cidade do Salvador, jamais haviam
recebido informações sobre a sua evolução histórica. A iniciativa daquele grupo nos motivou,
a mim eaos estagiários do Curso de Museologia, a aceitar o desafio de, com a participação dos
mesmos, pesquisar e construir um trabalho colaborativo, quando os temas abordados deveriam
surgir do questionamento e do interesse do grupo. Do planejamento ao desenvolvimento das
ações experimentamos o prazer do crescimento proporcionado pela possibilidade da criação
compartilhada. A sugestão dos temas, pelos alunos foi o vetor no sentido de nos mobilizar para
realizar, pela primeira vez, no Curso de Museologia, um processo de musealização fora do
espaço do museu, ou seja, na dinâmica da vida.
No doutorado, optamos por realizar uma pesquisa-ação que tivesse como objeto de
estudo a implantação de um Museu em um colégio público da Cidade do Salvador. (Santos,
M.C., 1996). Mais uma vez, buscamos sair do espaço fechado da Universidade, evitando
construir uma tese que fosse destinada somente à academia. Assumimos que havia
possibilidade de produzir conhecimento em todos os níveis de escolarização e que este
conhecimento pode serconstruído em uma determinada ação de caráter social, reconhecendo
o papel ativo dos observadores na situação pesquisada e dos membros representativos dessa
situação. Escolhemos para desenvolver a ação proposta, o Colégio Estadual Governador
Lomanto Júnior, situado na Rua Prof. Souza Brito s/n, na Estrada do Farol, em Itapuã, em
Salvador- BA, por possuir um Curso de Magistério, pois desejávamos trabalhar com a formação
de futuros professores.
Cadernos de Sociomuseologia, Nº 19-2022 (vol. 63) 49
O Bairro de Itapuã, como área-objeto de estudo, deveu-se à necessidade de realizar um
trabalho sistemático, a partir da escola, envolvendo a comunidade local e buscando, através
das ações planejadas com os diversos agentes, a compreensão e a reflexão sobre o seu
patrimônio cultural, na dinâmica do processo social. Compreendo que essa escolha veio em
decorrência do nosso caminhar, ao longo dos anos, como educadora e museóloga. Quanto ao
acervo que foi musealizado, pudemos identificá-lo como acervo institucional e como acervo
operacional. O acervo institucional foi sendo formado, gradualmente, levando-se em
consideração os contextos sociais e históricos, que as peças documentam, levantando-se as
demais referências desses contextos, considerando-se valores modestos, anônimos, sem
relevância estética, ou de ineditismo. Foi considerada como de vital importância, nesse
sentido, toda a produção cultural que se referia ao universo do cotidiano e do trabalho. No
acervo institucional foram agregados, também, materiais arquivísticos e iconográficos,
fotografias, plantas, maquetes, depoimentos e testemunhos de várias naturezas, bem como
toda a documentação urbana disponível. Quanto ao acervo operacional, foram considerados:
a paisagem, estruturas, monumentos, equipamentos, áreas e objetos sensíveis do tecido
urbano, socialmente apropriados, percebidos não só na sua carga documental, como também
na sua capacidade de alimentar as representações urbanas, assim como temas e problemas
relacionados com as vivências dos atores envolvidos.
Dessa forma, nossas ações no Curso de Museologia da Universidade Federal da Bahia
foramrealizadas a partir de atividades docentes, em que professores, estudantes dos diversos
níveise membros de diferentes comunidades atuavam de forma integrada, tornando viável a
prática do ensino e da aprendizagem, por meio da observação e da análise de aspectos
importantes do nosso patrimônio cultural, relacionando-o com a vida, no presente,
compreendendo-o como produto do homem, sujeito da História e, portanto, como resultado
das relações sociais e políticas.
Desde o início dos anos 70, quando comecei a utilizar a obra do nosso grande educador
PauloFreire, em minha prática docente, entendi, também, que a educação que permite ao
educadore ao educando fazerem uma leitura do mundo, com olhar crítico e transformador, só
seria possível sem dissociar a prática educativa da ação cultural. Me identificava com suas
reflexões, quando fazia a crítica ao conceito de extensão, como invasão cultural, como atitude
contrária ao diálogo, que ele considerava como a base de uma educação “autêntica”. A
educação, compreendida em sua perspectiva verdadeira, que não é outra senão a de humanizar
o homem na ação consciente do que este deve fazer para transformar o mundo.
Compreendi, portanto, que seria essencial desenvolver a face educativa da Museologia,
para que não a transformássemos em mera acumulação de dados relacionados à
documentação, à exposição e à conservação. É interessante registrar que a prática tecnicista
comentada no itemanterior, aplicada nos museus, nos conduziu, por muito tempo, a definir as
ações de preservação como as funções básicas da instituição. Era comum os profissionais da
área destacarem a necessidade de os museus manterem um relacionamento mais próximo
com a sociedade, e, logo em seguida, se apressarem em justificar que, ao assim procederem,
os museus não estariam perdendo as suas funções básicas de preservação. Esta atitude, em
nosso entender, demostrava uma concepção de preservação que se esgota no objeto, na
coleção. Eranecessário explicar, prestar contas, “pedir perdão” por estar propondo ir além,
mesmo que fosse timidamente.
Não posso deixar de registrar, também, que encontro na pareceria iniciada com a
UniversidadeLusófona de Humanidades e Tecnologia, desde o ano de 1995, um solo fértil no
sentido de aplicar os ensinamentos de nosso mestre, nos seminários realizados com
professores de diferentes níveis de ensino, nas orientações de dissertações e teses de
doutorado e nos projetos de Intervenção no Campo. Acreditamos que, por meio de ações
colaborativas, contribuímos para repensar os museus, a Museologia, as práticas educativas e a
produção do conhecimento,com destaque para a publicação de artigos e livros. Ao longo dos
anos conseguimos formar uma ampla e criativa comunidade de aprendizagem, que vem
50 Maria Célia Teixeira Moura Santos
estimulando o movimento de muitos agentes em vários países, provocando, gradualmente,
ondas de participação que vão, devagar e sempre, transformando o ser humano e as
aplicações dos processos museais, formatando novos perfis de instituições museológicas e
dando vida a tantas outras que estavamadormecidas e protegidas por grandes redomas.
Em 2005, acompanhei, como orientadora, a dissertação de mestrado de autoria de
Marcela Tomás de Lima S. Costa, intitulada, Uma Análise do Contributo da Acção Teatral para
a Função Educativa dos Museus da Região Autónoma da Madeira, defendida na Universidade
Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Em sua pesquisa, a mestranda faz uma aproximação
entre a Pedagogia, a Museologia e o Teatro; no capítulo 3, apresenta um item intitulado O
Pensamento de Paulo Freire no Movimento da Nova Museologia, com o objetivo de
“sistematizar e clarificar alguns pontos de convergência entre as teorias pedagógicas de Paulo
Freire e os Princípios Globais da Nova Museologia”, trazendo reflexões importantes para as
aproximações que estamos realizando em nossa prosa-conversação. (Costa, M. 2005).
Da mesma forma, não posso deixar de considerar, também, que o Projeto-Piloto do Eixo
3, daPolítica Nacional de Museus, aplicado no Estado da Bahia de 2003 a 2005, a reestruturação
do Museu Sacaca do Desenvolvimento Sustentável, situado no Estado do Amapá, o diagnóstico
e a elaboração do Projeto-Museológico para o Museu Nacional da Cultura Afro- Brasileira, o
Plano Museológico do Memorial da Cultura Cearense, os programas e projetos desenvolvidos
na Diretoria de Museus do Patrimônio Artístico e Cultural do Estado da Bahia-IPAC, deixaram
claro, para mim, o quanto é rica, necessária e abrangente essa teia de relações.Os resultados
gerados ao longo dos anos, muitos dos quais por nós registrados em várias publicações,
demonstram o quanto é importante trabalhar a partir da construção de um sistemaorgânico,
com troca de informações e de conhecimento, a partir da formação de belas cirandasde vida. O
estímulo à reflexão, à aplicação e à construção do conhecimento, em diferentes contextos,
tornou possível reduzir o distanciamento entre o discurso e a prática, entre a academia, as
instituições museológicas e os atores sociais que estavam envolvidos com os fazeres museal e
pedagógico.
Este longo caminhar, no qual tive e continuo tendo Paulo Freire como mestre e
companheiro, me encantou e me encanta, sobretudo, pela possibilidade de sonhar, de
compartilhar, de aprender, de transformar e de ter esperança.
Assim, me tornei e continuo sendo museóloga-educadora-educanda.
Universo Temático, Freiriano- Universo Temático da Museologia: refletindo sobre as
aproximações
...a reflexão sobre as ações ressalta a teoria, sem a qual a ação(ou
prática) não é verdadeira
(Freire, 1983)
Como pudemos observar nas narrativas e nas reflexões apresentadas anteriormente, a
busca de um fazer museológico, mais ajustado às diversas realidades, que tem como objetivo
“humanizar o homem na ação consciente que esse deve fazer para transformar o mundo” e
que foram acontecendo gradualmente nas ações museológicas contemporâneas, com certeza,
tiveram e continuam tendo um referencial significativo na obra do Prof. Paulo Freire.
As obras do referido educador trouxeram os suportes necessários para repensarmos a
ação sociocultural e educativa dos museus e, ao mesmo tempo, nos inspiraram para refletir
sobre os aspectos teórico-metodológicos da Museologia, provocando uma potência criadora,
no sentido de lançarmos outros olhares sobre os Museus, a Educação e a Museologia. Portanto,
neste item, buscamos mais um olhar curioso, por meio da aproximação dos temas geradores
dos universos freiriano e da museologia, selecionados a partir dos registros de nosso percurso,
tentando identificar as contribuições do legado do Mestre para nosso campo de atuação, em
seus aspectos teórico-metodológicos, em especial para o processo de qualificação da prática
Cadernos de Sociomuseologia, Nº 19-2022 (vol. 63) 51
social como patrimônio cultural, para a construção e reconstrução do conceito de fato museal,
para o conceito de museu, para a ampliação e aplicação das ações museológicas com olhar
crítico e transformador.
Figura 1 Conversa comemorativa potência criadora
Figura 2 Educação e mudança
Compreendemos a cultura como integradora e integrada à totalidade da vida humana,
emparticular, às dimensões fundamentais do cotidiano e do trabalho e a consideramos como
um lastro para o desenvolvimento dos processos museais e educativos. Ao inserirmos as
narrativas biográficas e as histórias de vida nos processos de musealização, aplicados pormeio
52 Maria Célia Teixeira Moura Santos
de ações dialógicas, ampliamos as dimensões do patrimônio cultural, compreendendo-o não
como representação, mas incorporado à nossa vida, envolvendo valores cognitivos, formais,
afetivos e pragmáticos, capazes de reconhecer, na tradição, um percurso possível para a
renovação, com olhar crítico e criativo.
Figura 3 Processos museais enriquecidos na dinâmicado processo social
Figura 4 Diálogos horizontais e transversais
O diálogo pertence à natureza do ser humano, enquanto ser de comunicação.
O diálogo sela o ato de aprender, que nunca é individual, embora tenha uma dimensão
e de fato museal, a partir do processo de qualificação do fazer cultural como patrimônio cultural,
tendo como referencial a dialogicidade e a criticidade.
No decorrer dos diversos projetos fomos repensando e revisando o conceito de fato
museal, e, em nossa tese de doutorado, passamos a defini-lo como: a qualificação da cultura
Cadernos de Sociomuseologia, Nº 19-2022 (vol. 63) 53
em um processo interativo de ações de pesquisa, preservação e comunicação, objetivando a
construção de uma nova prática social. (Santos, M.C. 1995). Atualmente, revisamos esta
definição ampliando a cadeia de ações museológicas e acrescentando ao final, as expressões:
com olhar crítico e transformador. Sinalizamos, assim, para o fato de que esta nova prática
social deve estar em sintonia com a função social dos museus, com a ideia de democracia crítica
enquanto movimento social, que defende o respeito à liberdade individual, à cidadania e à
justiça social, através de um projeto emancipatório rumo à concretização de um mundo mais
justo e mais humano. (Santos, M.C. 2021 p.6). Com certeza, as marcas de nosso MestrePaulo
Freire estiveram presentes na elaboração inicial do conceito, bem como na revisão realizada
recentemente.
À medida que fomos avançando em relação às reflexões sobre a Museologia, como um
Campo de Conhecimento e sobre a função social dos museus, fomos nos aproximando,
também, da Administração de enfoque sociológico, com ênfase nos valores culturais e
políticos, contextualizados, de visão interdisciplinar, denominada Administração Dialógica,
que, segundo Sander (1995, p. 100), é uma construção heurística e praxiológica de gestão, “a
administração dialógica é uma elaboração conceitual baseada na interpretação dos conteúdos
e das contradições que caracterizam a existência humana, a sociedade e o funcionamento das
organizações.”
Desse modo, passamos a compreender a urgência no sentido de entender a gestão
museológica como um processo educativo, de ação, reflexão e de crescimento humano,
incorporada ao cotidiano dos museus, envolvendo todos os responsáveis por atingir a sua
missão. Assim comoas demais ações museológicas, entendemos o planejamento museológico
como um ato de encontro, de partilha, de relação e também de poder. Como espaço de vida, e
de conflitos, queimplica opções e decisões. Danilo Gandim, desde o início dos anos 80, já nos
apontava que “O ato de planejar é um ato educativo, é uma tarefa vital, união entre vida e
técnica”. (Gandim,1983, p.17).
Portanto, discutir a gestão museológica é discutir a Museologia e o museu que
queremos. Dessa forma, compreendemos que as ações museológicas definidas e adotadas ao
longo dos anos, quais sejam: pesquisa, preservação e comunicação não são apoiadas, somente,
na Museologia, mas na transversalidade com outras áreas e campos do conhecimento e na
relação entre o formal e o não formal, o que nos leva, hoje, a sugerir a inclusão da gestão
museológica às demais ações, ou seja: o planejamento, a organização e a avaliação dos
processos museais e dos museus, apoiados na Museologia e na Administração Dialógica, de
enfoque sociológico,com ênfase nos valores culturais e políticos, contextualizados.
Em relação às concepções adotadas, os conceitos de museus complexos, centros de
referência integrados ao meio, prestadores de serviços, instrumentos de educação e de
inclusão, funcionando como um sistema orgânico, de forma integrada e colaborativa, foram
sendo assumidos, gradualmente, em nosso percurso.
Neste contexto, constatamos, também, que o fato museal independe da existência do
museu para acontecer. Por exemplo, não foi necessário criar um museu em uma escola, em um
bairropara sua aplicação, ele antecedeu à existência objetiva do museu e poderia provocar, ou
não, sua criação. Assim, a ação-reflexão realizada a partir dos projetos desenvolvidos foram
fundamentais para que pudéssemos repensar e reconstruir, também, os conceitos de museu
54 Maria Célia Teixeira Moura Santos
Figura 5 Museus e processos museais interativos, orgânicos e complexos
Figura 6 Ações museológicas como ações educativas e de comunicação
diálogos horizontais e transversais
Por conseguinte, ao qualificar culturalmente a vida trabalhando com os acervos
institucional e operacional, para a construção de práticas museológicas comprometidas com
um saber emancipatório, ético e solidário, para os quais Paulo Freire contribuiu, de forma
significativa, avançamos, também, no sentido de compreender que todas as ações
museológicas são ações integradas entre si, aos objetivos dos diferentes projetos e às
características dos diversos grupos sociais, sendo, portanto, necessário um processo constante
de revisão, de adaptação ede renovação, o que nos instiga a sugerir que os processos museais
sejam aplicados a partir das ações de: pesquisa, gestão museológica, preservação, expografia,
socioculturais e educativas, todas compreendidas com ações educativas e de comunicação,
contribuindo parao compartilhamento de informações e experiências e para a formação de
redes de interação emusealização, favorecendo a criação de belas cirandas de vida.
Cadernos de Sociomuseologia, Nº 19-2022 (vol. 63) 55
Figura 7 Redes de musealização e interação
Assim, tentamos superar a compartimentalização, reduzimos nossas cegueiras
museológicas,buscamos a aplicação de processos museais dialógicos e transformadoras, com
olhar crítico, o que nos permite compreender, hoje, que todas as ações museológicas são ações
dialógicas,transversais e histórico-socialmente condicionadas. Não tenho dúvida de que nossos
avançosforam e continuam sendo o resultado de nossa capacitação e do nosso compromisso
social como profissionais. Neste sentido, não podemos esquecer as palavras de nosso
mestre: a primeira condição para que um ser possa assumir um ato comprometido está em
ser capazde agir e refletir. (Freire,1983, p. 17).
Considerações finais
Não há prática educativa, como de resto nenhuma prática,
que escape a limites. Limites ideológicos, epistemológicos,
políticos, econômicos, culturais. Creio que a melhor
afirmação para definir o alcance da prática educativa em
face dos limites a que se submete é a seguinte: não podendo
tudo, a prática educativa pode alguma coisa. (Freire, 1993)
Sim, nosso caminhar foi e continua sendo de descobertas, aprendizagem, amorosidade
e de conquistas. Paulo Freire foi e continua sendo um dos nossos referencias mais importantes.
Seus ensinamentos continuam nos inspirando e nos fortalecendo para a caminhada. Mais do
que nunca, é necessária uma leitura urgente, sensível, crítica e atualizada sobre seu legado e
sobre o mundo. Mesmo com todas as dificuldades que estamos passando, em especial em
nosso País, continuamos acreditando na força dos cursos de museologia, dos museólogos, dos
educadores, dos movimentos sociais e, sobretudo, nas novas gerações e no legado dos que nos
antecederam.
O que temos realizado é resultado de um processo prolongado de aprendizagem que
tem estimulado nosso crescimento, nos aspectos pessoal e profissional e que nos conduz a,
junto com o outro, construir novos questionamentos e novos percursos. Dedico, pois, esta
minha fala-reflexão a todas e todos que estiveram comigo ao longo dos anos e agradeço,
56 Maria Célia Teixeira Moura Santos
sempre, porme estimularem a repensar a educação, os museus e a museologia. Juntos com
nosso Mestre construímos este caminhar de descobertas, aprendizagem e amorosidade.
O convite para a elaboração deste texto, após nossa live-roda de conversa, permitiu que
realizasse meu sonho antigo de sistematizar, ampliar e trazer para um universo mais
abrangente, as reflexões sobre a aproximação da obra de Paulo Freire com nosso Campo de
Atuação. Talvez este seja um texto rasgável ou, quem sabe, possa contribuir, de alguma forma,
para novos projetos. Compreendo seus limites e agradeço pelo convite e pelo estímulo para
sua realização.
Finalizo nossa prosa, emocionada, contente com nosso caminhar, esperançosa e alegre
por terencontrado em meus arquivos, durante as buscas de material para a organização de
nossa conversa, uma carta dirigida a meus alunos, no penúltimo semestre que antecedeu a
minha aposentadoria. Em nossa prática docente usávamos trocar correspondências com os
estudantes, principalmente nos finais das atividades de cada unidade curricular. No conteúdo
dessa carta, que apresento a seguir, percebo o quanto Paulo Freire foi companheiro e
contribuiu, efetivamente para que me tornasse uma educadora-museóloga-educanda,
confiante em nosso papel como sujeitos da História e com esperança:
Salvador, 10 de janeiro de 1996.
Prezado (a) aluno (a),
Chegamos ao final de mais um semestre, durante o qual discutimos, refletimos, e,
conjuntamente, elaboramos uma proposta de ação cultural tomando como referencial o
patrimônio cultural, adequadamente musealizado, buscando o exercício da cidadania e a
construção de uma nova prática social. Chegar à etapa, em que nos encontramos agora, não
foi fácil. Lutamos contra o desconforto, os horários corridos, o pouco tempo para leituras, a
insegurança em relação à teoria museológica, etc. Entretanto, isso é somente um começo. É
necessária persistência para o aperfeiçoamento. O profissional se faz, a cada dia, na busca das
oportunidades, na atuação responsável, na humildade, que motiva para a busca de mais
conhecimento, e para a produção do conhecimento. Ser profissional é estar situado com o
mundo e com o movimento da História, é ser sujeito da História.
Estarei sempre à disposição de vocês para o diálogo, a troca e o crescimento conjuntos.
Commuito carinho, deixo, para vocês, uma citação do Mestre Paulo Freire:
Enquanto necessidade ontológica, a esperança precisa de prática para tornar-se
concretude histórica. É por isso que não há esperança na pura espera, nem se alcança o que se
espera na espera pura, que vira, assim, espera vã. (Paulo Freire,1994).
BIBLIOGRAFIA CITADA
CHAGAS, M. S. de (1990). A formação profissional do museólogo: sete imagens e sete perigos.
Cadernos Museológicos, Rio de Janeiro: Coordenadoria de Acervos Museológicos –
SPHAN pró-memória, 3.
COSTA, M. T. S. de Lima. (2005). Uma análise do contributo da Acção Teatral para a Função
Educativa dos Museus da Região Autónoma da Madeira. Dissertação apresentada ao
Mestrado em Museologia da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia de
Lisboa, orientada por MariaCélia T.M. Santos.
FREIRE, Paulo. (1977) Extensão ou comunicação. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
FREIRE, Paulo. (1983) Educação e Mudança. Rio de janeiro: Paz e Terra.
FREIRE, Paulo. (1993) Política e Educação: ensaios. São Paulo: Editora Cortez. Col. Questões de
nossa época.
Cadernos de Sociomuseologia, Nº 19-2022 (vol. 63) 57
FREIRE, Paulo. (1994). Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido.
São Paulo:Paz e Terra.
FREIRE, Paulo. (2000). Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros ensaios. São
Paulo: UNESP
GANDIN, Danilo. (1983). Planejamento como Prática Educativa. São Paulo: Edições Loyola.
HABERT, Nadine. (1992) A década de 70: apogeu e crise da ditadura militar brasileira. São Paulo:
Ática.
MENESES, Ulpiano B. de. Cidade, práticas museológicas e qualificação cultural. [s.l.], [19--].
(Mimeografado).
. (1992). A História cativa da memória? (Mimeografado).
PAES, Helena Simões. (1993). A década de 60: rebeldia, contestação e repressão política. São
Paulo,Ed. Ática.
RIBEIRO, Darcy. (1985). Aos trancos e barrancos como o Brasil deu no que deu. Rio de Janeiro:
Guanabara.
SANDER, Benno. (1995). Gestão da educação na américa latina: construção e reconstrução do
conhecimento. Campinas: Autores associados. (Coleção Educação Contemporânea).
SANTOS, M.C. (1993). Documentação Museológica, Educação e Cidadania. In: Repensando a
Ação Cultural e Educativa dos Museus. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA. 2a
edição ampliada.
SANTOS, M.C. (1993). A escola e o museu no Brasil: uma história de confirmação dos interesses
da classe dominante. In: Repensando a Ação Cultural e Educativa dos Museus. Salvador:
Centro Editorial e Didático da UFBA. 2a edição ampliada.
SANTOS, M.C. (1995). Construindo um museu didático-comunitário, em Itapuã. Tese
apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da
Universidade Federal da Bahia para obtenção do grau de doutora, orientada por Sérgio
Coelho Borges Faria.
SANTOS, M.C. (1996). O Papel do Museu na Construção de uma “Identidade Nacional”. Anais
do Museu Histórico Nacional. 28. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional.
SANTOS, M.C. (2002). Reflexões sobre a nova museologia. IN: Cadernos de Sociomuseologia,
ISMAG/UHLT (Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias). 18(18).
SANTOS, M.C.. (2002) Museu e Educação: conceitos e métodos. Ciências e Letras – Patrimônio e
Educação. Revista da Faculdade Porto-Alegrense de Educação, Ciências e Letras, V. 31.
jan./jun.
SANTOS, M.C. (2010) Os Museus e seus Públicos invisíveis. In: Anais do I Encontro de
Educadores em Museus e Centros Culturais do Estado do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro:
Fundação Casa de Rui Barbosa.
SANTOS, M.C. (2014) Um Compromisso Social com a Museologia. In: Cadernos do CEOM /
Centro deMemória do Oeste de Santa Catarina. Chapecó: Unochapecó, 41.
SANTOS, M.C. (2021) O plano museológico como instrumento de partilha e inclusão: o
caminho se faz ao andar. In: FRAGA, Hilda Jaqueline de, et al. (Orgs.) Experimentações
do patrimônio: diversidades e resistências [recurso eletrônico] / Hilda Jaqueline de Fraga
et al. (Orgs.) -- Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2021.478p. Disponível em:
http://www.editorafi.org
58 Maria Célia Teixeira Moura Santos
VARINE, Hugues de. (1995) A Respeito da Mesa Redonda de Santiago. In: Comitê Brasileiro do
ICOM. A memória do pensamento museológico Contemporâneo. (Documentos e
depoimentos).
BIBLIOGRAFIA DE REFERÊNCIA
A Contemporaneidade do pensamento de Paulo Freire no contexto de Discussão da Escola
semPartido. Andrea Serpa Albuquerque, Dileno Dustan, Lucas de Souza, Simone da Silva
Ribe. Teias v.18 • n. 49 • 2017 (abr./jun.): Ensino de língua materna no ensino médio.
Disponível em
http://www.epublicacoes.uerj.br/index.php/revistateias/article/view/28814/20964
Acesso em 10 dejulho de 2020.
Caminhando para uma cidadania multicultural: Paulo Freire. Educação, Sociedade & Cultura.
Porto:Edições Afrontamento. 23.
FREIRE, Paulo. (1980). Conscientização Teoria e Prática da Libertação: uma introdução ao
pensamentode Paulo Freire. São Paulo: Cortez & Moraes.
FREIRE, Paulo. (1999). Paulo Freire: ética, utopia e educação / Danilo R. Syteck (0rg). Petrópolis:
Vozes.
FREIRE, Paulo.. (2001). Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São
Paulo: Paze Terra.
FREIRE, Paulo. (2006). A Educação na Cidade. / Prefácio de Moacir Gadotti e Carlos Alberto
Torres; notasde Vicente Chel. – 7, ed. - São Paulo: Cortez.
FREIRE, Paulo. (2010). Paulo Freire: vida e obra / org. por Ana Inês Souza. [et.al]. 2.ed –
São Paulo:Expressão Popular.
FREIRE, Paulo. (2014). Pedagogia da práxis. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire.
LIBÂNEO, José Carlos. As modalidades de educação: informal, não formal, formal. IN: Pedagogia
epedagogos, para quê? 7ª ed. São Paulo: Cortez, 2004.
Meneses, Ulpiano B. de. (1985) Cultura e Cidade. Revista Brasileira de História, São Paulo, n. 5.
Meneses, Ulpiano B. de.. 2000. Ulpiano Bezerra de. Educação e museus: sedução, riscos e
ilusões. Ciências e Letras - Revista da Faculdade Porto-Alegrense de Educação. [s.l.]:
Ciências e Letras, n. 27, jan./jun.
Meneses, Ulpiano B. de. 2004). Patrimônio Cultural: Dentro e Fora dos Museus. In: Seminários
de Capacitação Museológica. Anais. Belo Horizonte: Instituto Cultural Flávio Gutierrez.
MOUTINHO, M. (2014). Definição evolutiva de sociomuseologia: proposta de reflexão.
Cadernos do CEOM, 27.
PENNA, Camila. (2014). Paulo Freire no pensamento decolonial: um olhar pedagógico sobre a
teoriapós-colonial latino-americana. Revista de estudos e pesquisas sobre as Américas,
v. 8, n2, p.181-199.
QUEROL, Lorena Sancho. (2020). Novos modelos de gestão participativa em Museus:
contributos para o desvanecimento das dicotomias. Revista Interdisciplinar de gestão
Social. maio/ago. 2017 v.6n.2 p. 41 Disponível em: www.rigs.ufba.br Acesso em jun.
2020.
PRIMO, J. Pedro Pereira Leite. (2015) Olhares biográficos em Museologia: os desafios da
intersubjetividade. Cadernos de Sociomuseologia - 5 -. Lisboa: ULHT.
Cadernos de Sociomuseologia, Nº 19-2022 (vol. 63) 59
Revisitando Paulo Freire: sentidos da educação. (2001). Eunice Macedo. [et.al] Coleção
perspectivasactuais/educação. Porto: Asa Editores.
SANTOS, M.C. (2002) Reflexões museológicas: caminhos de vida. Cadernos de Sociomuseologia,
(18).Lisboa: ISMAG/UHLT.
SANTOS, M.C. (2008). Encontros Museológicos: reflexões sobre a museologia, a educação e o
museu. Riode Janeiro: Minc/IPHAN/DEMU. (Coleção Museu, Memória e Cidadania, 4).
SANTOS, M.C. (2018). Maria Célia T. Moura museóloga e educadora. In: Revista Brasileira de
Museus eMuseologia, 8. Brasília: Instituto Brasileiro de Museus. Entrevista 107-127.
VARINE, Hugues de. (1987). O Tempo Social. Rio de Janeiro: Livraria Eça Editora.
VARINE, Hugues de. (2000). Patrimônio e Educação Popular. Ciências e Letras – Revista da
Faculdade Porto-Alegrense de Educação - 31
VARINE, Hugues de As Raízes do Futuro: o patrimônio a serviço do desenvolvimento local.
Hugues de Varine;trad. Maria de Lourdes Parre Horta. - Porto Alegre: Medianiz, 2