CAPÍTULO X - O PACTO
Tudo começou com um simples clique. Uma propaganda na internet, algo que deveria ser
irrelevante, mas que parecia ter sido colocada ali especialmente para mim. O título chamava a
atenção, prometia conhecimento, poder, respostas que poucos ousariam buscar. Eu hesitei por um
instante, mas algo dentro de mim me impulsionou a seguir em frente.
A página carregou lentamente, como se estivesse testando minha paciência, e, quando finalmente
apareceu diante dos meus olhos, senti um arrepio percorrer minha espinha. Não era um site
qualquer. Era algo diferente, algo vivo. Linhas e símbolos desconhecidos pareciam se mover
levemente, como se respirassem. E as palavras... As palavras tinham um peso que eu não
conseguia ignorar.
Comecei a ler, e quanto mais eu lia, mais algo dentro de mim se agitava. Não era medo. Era um
tipo de fascínio perigoso, uma sensação de estar diante de algo proibido, mas irresistível. E então
veio o convite: um oráculo com o chefe daquela casa luciferiana. A curiosidade já havia me vencido.
Eu aceitei.
O oráculo não foi apenas uma consulta; foi um portal. As palavras dele tinham uma força hipnótica,
e antes que eu percebesse, estava sendo conduzido para algo maior. Um pacto. Não era um mero
compromisso simbólico, mas um contrato ritualístico que duraria três horas. O tempo parecia não
existir dentro daquela cerimônia.
A sala estava mergulhada em penumbra, iluminada apenas pela luz trêmula das velas. O ar tinha
um peso estranho, quase sólido. O contrato foi colocado diante de mim - uma folha que parecia
pulsar com algo que eu não conseguia compreender. Cada palavra escrita ali carregava um
significado além do papel. Eu assinei. E então veio o momento crucial: queimar o contrato na palma
da minha mão. A dor foi imediata, mas passageira, substituída por uma sensação de algo muito
maior tomando conta de mim.
Naquela noite, tudo mudou.
Passei a trabalhar diretamente com entidades luciferianas. O ritual era sempre o mesmo: duas
cadeiras, uma mesa de magista. Todas as noites, sem exceção, a presença se manifestava. Ela
chegava voando, silenciosa, envolta em um manto de névoa que escondia seu corpo da cintura
para baixo. Mas acima disso, eu via claramente. A calça era de seda verde, e os sapatos, pretos e
brilhantes. Seus olhos carregavam algo que eu não conseguia definir - nem humano, nem divino.
No início, parecia que tudo estava funcionando. O dinheiro veio rápido, como se o mundo tivesse,
de repente, se alinhado ao meu favor. As portas se abriram sem esforço. O impossível tornou-se
banal.
Mas então, algo começou a mudar.
Sem aviso, a maré virou. O que antes era uma ascensão meteórica tornou-se estagnação. E
depois, a queda. Tudo começou a desmoronar de uma forma que eu não podia controlar.
Pequenos infortúnios se tornaram desastres. Até que, no ápice da destruição, o fogo consumiu
minha casa. Perdi tudo.
Foi nesse momento que compreendi. Eu havia feito um contrato com algo que não cumpria acordos
como os humanos. E, se eu queria sair daquela espiral, teria que encontrar um caminho de volta.
A única saída era refazer o pacto - ao contrário. Se a outra parte não cumpriu sua promessa, eu
deveria quebrar o laço da mesma forma que o criei. Com o mesmo ritual, o mesmo papel, e o
mesmo fogo.
Queimei o contrato.
Mas isso não bastava. As marcas ainda estavam em mim, e eu sabia que precisaria de algo mais
forte para apagá-las completamente. Foi então que procurei as ordens iniciáticas. Não revelarei
seus nomes, por respeito e pela natureza sigilosa de seus ensinamentos, mas foram elas que me
guiaram para fora daquela sombra.
A magia que me atraiu para o abismo foi a mesma que me trouxe de volta. E agora, ao olhar para
trás, percebo que cada escolha me trouxe até aqui. Mas o que eu vi, o que eu vivi, jamais poderá
ser esquecido. Porque uma vez que você atravessa o véu, ele nunca mais se fecha
completamente.
E algumas presenças nunca realmente vão embora.