Realismo Jurídico e Justiça no Direito
Realismo Jurídico e Justiça no Direito
- Jurista: “Jurista é, simplesmente, o homem de direito, o homem que sabe o direito. Também
se diz com frequência que é o homem de leis. Essa segunda expressão, homem de leis, é mais
compreensível para os não-especialistas, e não são poucos os juristas convictos de que é a
melhor. Esses juristas são ditos normativistas, porque afirmam que o direito é a lei (também
chamada norma, de onde vem normativismo). Nas páginas seguintes, veremos que a lei e o
direito não são a mesma coisa, mas o normativismo é a concepção do direito dominante”. (p.
4)
- Um dos pontos centrais do realismo é mostrar que o direito não se confunde com a lei
(sistema de normas).
- “Ciência prática e arte são a mesma coisa; é arte toda ciência prática, e não apenas as
chamadas Belas-Artes”. (p. 9)
- “O que é, pois, uma arte ou ciência prática? É saber fazer as diversas coisas”. (p. 9)
- “E o que sabe o jurista de prático? Sabe algo tão fundamental e tão importante para as
relações sociais quanto o justo. O jurista dedica-se a desvelar o que é justo nas relações
sociais, na sociedade; é, por assim dizer, o técnico da justiça, o que sabe do justo e do
injusto”. (p. 10)
2
- Nesta afirmação de que o jurista é quem sabe o justo não entra, como Hervada explica, uma
concepção idealizada de justiça. O justo é o direito. Desse modo, dizer o justo é nomear o
direito. Já o injusto, consequentemente, é a lesão do direito.
- Por que existe uma arte (ou ciência prática)? “Toda arte responde a uma necessidade”. (p.
12). A arte da arquitetura, por exemplo, é uma decorrência da necessidade de abrigo.
- Por que existe a arte do direito? Dito de outro modo: “Qual é a necessidade que a arte do
direito satisfaz? A arte do direito é uma decorrência da necessidade de se indicar (descobrir) a
coisa devida a cada um (isto é, o seu, o justo e o direito, que são, simplesmente, três modos
diferentes de designar a mesma coisa).
- Por que existe o direito? O direito (isto é, o seu, o justo ou a coisa devida) existe porque as
coisas estão repartidas (nem tudo é de todos).
- Por que as coisas estão repartidas? “O seu, a atribuição das coisas – o direito – não deriva da
escassez dos bens, e sim de outra coisa diferente: o homem transita nas dimensões de
quantidade e de espaço, e o mesmo ocorre com as coisas das quais se serve. Em outros
termos, o homem é finito e a sociedade humana implica uma divisão de funções e tarefas
(nem todos podem ser ao mesmo tempo Chefe de Estado, governador, coronel, juiz, padeiro,
encanador etc.). A vida humana exige que as coisas – bens, funções, obrigações etc. – estejam
repartidas e, consequentemente, atribuídas a diferentes sujeitos, é de onde nasce o meu, o seu,
o dele”. (p. 17)
- “Quando o direito é tomado como lei, o princípio não é o da repartição das coisas, mas o da
ordenação das condutas. O fato originário não é a repartição, e sim a ordem do atuar humano;
pois, efetivamente, a lei tem por função própria ordenar racionalmente as condutas humanas.
Mas não se deve esquecer que ordenar ou regular a vida social de acordo com critérios
racionais não é próprio do jurista, e sim do governante. Por isso, as leis não são feitas pelos
órgãos judiciais, mas pelos órgãos políticos: o Parlamento, o Governo ou o próprio povo, por
costume ou por plebiscito ou referendo. Fazer leis é uma arte que corresponde aos políticos; é
parte da arte da política, que é quem tem que construir a sociedade conforme a justiça, a
liberdade e a solidariedade”. (p. 20)
- A arte do direito (própria do jurista) é diferente da arte da política (própria dos políticos). Ao
jurista corresponde a tarefa de descobrir o direito, ao político corresponde a tarefa de produzir
leis (isto é, de ordenar racionalmente as condutas humanas).
- “Se o jurista diz qual a conduta social é ordenada, faz isso sempre em relação à ordem
estabelecida pela natureza ou pela política, e enquanto essa conduta é a justa, isto é, pertence
ao campo da liberdade ou do dever de alguém (...). Ordenar condutas sociais é, propriamente,
arte política. Por isso é preciso insistir que o conceito-chave da arte do direito é o da
repartição, não o da ordem. Mas, caberia objetar, não se diz que a finalidade da arte do direito
é a ordem social justa? Sim, de fato, a finalidade da arte do jurista é a ordem social justa. No
entanto, o que se quer dar a entender com ordem social justa? É claro que não as utopias ou as
3
práticas políticas, mas aquele estado da sociedade em que cada qual tem o seu e o usa sem
interferências. Mas aqui o conceito-chave continua sendo o da repartição”. (p. 21)
- O que é a justiça? “A justiça não é originariamente um efeito da norma, não nasce da lei, e,
por isso, não é uma dimensão originária – nascida – da política. À política e, portanto, à lei, é
dada a justiça. E é dada pelo direito (as coisas justas). Não é algo disposto originalmente pela
lei e pela política. Por isso, fazer todo direito derivar da lei impede entender a justiça. Por que
a justiça depende do direito e, portanto, apenas quando se admite algum direito preexistente à
lei e à arte da política, pode-se introduzir a justiça na lei e na política”. (p. 21)
- Justiça é dar a cada um o que é seu, isto é, dar a cada um o seu direito.
- “Apesar de algumas incompreensões, a justiça – dar a cada um o que é seu – é tão prática
quanto o cotidiano trabalho dos juízes e dos demais juristas; é realista o suficiente para ser
acessível a todo homem de boa vontade”. (p. 22)
- “Se para alguns de nossos contemporâneos parece pouco prática, pouco realista ou vazia de
conteúdo, é porque, para conjugar a simplicidade de sua fórmula com os resultados tão
importantes que lhe são atribuídos, é necessário estar de posse de um segredo. A fórmula tem
seu truque. Esse segredo estava em posse de Aristóteles, dos juristas romanos e dos juristas
em geral, até que no século XIX apareceram os positivistas, ou seja, aqueles que negam que o
homem tenha direitos inerentes a sua condição de pessoa. Porque esse é o segredo, uma
verdade patente, que foi transformada em oculta por aqueles que puseram sobre a ciência
jurídica o véu da escuridão positivista (o positivismo é uma das mais sutis formas de estar
voluntariamente cego à luz). Sim, o segredo é o direito natural, (...) direito natural é todo
direito que o homem tem em virtude de sua natureza – de sua condição de pessoa -, ou seja,
aquele conjunto de coisas suas, de direitos, que o homem tem por si mesmo e não por
concessão dos Parlamentos, dos Governos ou da sociedade: sua vida, sua integridade física e
moral, suas liberdades naturais etc.” (p. 23-24)
- “O segredo ou truque da fórmula da justiça está no direito natural, porque sem o direito
natural restam apenas os direitos dados pelas leis determinadas pelos homens. Então, a justiça
– consistindo em dar a cada um o seu direito – estaria reduzida a dar ao ser humanos esses
direitos. E isso ninguém tolera. São tão evidentes as insuficiências e as injustiças observadas
em tantas leis humanas, que ninguém pode admitir – salvo os marxistas, para os quais a
justiça é um produto burguês – que a justiça se reduza a isso. O direito natural é o segredo,
porque a insuficiência e a injustiça de uma lei são medidas por sua adequação ao direito
natural, que é um direito tão concreto quanto o direito positivo (aquele que deve sua origem à
concessão da sociedade); portanto, todo possível conteúdo da justiça é concreto, prático e
realista. Por outro lado, se o direito natural for esquecido ou rejeitado, o que a justiça
representa em relação a ele torna-se vazio ou transforma-se em ideais pouco concretos e
relativos; a fórmula da justiça terá perdido sua praticidade e seu realismo”. (p. 24-25)
- Após deixar estabelecido que a justiça é a virtude de dar a cada um o que é seu, Hervada
passa a considerar alguns aspectos relacionadas à justiça:
(1) A justiça sucede ao direito. A justiça é posterior ao direito. Onde não há um direito
existente, não é possível existir a justiça.
4
- Neste ponto, Hervada chama a atenção para a distinção entre aspirações e direitos. “As
aspirações não são questões de justiça, e sim de política”. (p. 26).
- “Mas podemos nos perguntar: não há aspirações dos homens que sejam justas em sentido
próprio? Pode ser que haja, mas em tal caso trata-se de verdadeiros direitos. Determiná-los é
função do jurista e, na hipótese de não serem respeitados, o juiz pode e deve intervir”.
(ATENÇÃO: no livro, a palavra não – aqui destacada em negrito – foi equivocadamente
omitida).
(2) Igualdade: “Qual é a igualdade própria da justiça? É aquela contida em sua fórmula: dar a
cada um o que é seu. Todos são tratados igualmente porque a todos é dado o que lhes
corresponde”. (p. 29)
- “Aqui aparece o pequeno detalhe de dar seu direito a cada um. Evidentemente que a justiça
visa à sociedade inteira. (...). Mas a justiça – que tende a edificar a sociedade – dá seu direito
a cada um, pessoa por pessoa, indivíduo por indivíduo, coletividade por coletividade. É como
esse grandes pintores capazes de fazer quadros gigantescos, mas não a grandes pinceladas, e
sim detalhe por detalhe, ponto por ponto. É, digamos assim, uma virtude minuciosa; não se
conforma com os grandes traços, não se conforma com o povo ou a classe social ou o grupo:
edifica a sociedade indivíduo por indivíduo, pessoa por pessoa. Em cada homem vê a
dignidade humana, em cada homem contempla o ser exigente dotado de direitos – a imagem e
semelhança de Deus – e atende cada homem. Por isso a justiça pede paciência, e a injustiça é
o vício dos impacientes”. (p. 33-34)
(4) Justiça e divisão: “se a justiça consiste em dar a cada um seu direito e o direito preexiste à
justiça, como dar algo a quem já tem?”(p. 35)
- “De fato, a justiça não consiste em criar ou outorgar direitos, mas em dar o que cabe a eles
– isto é, devolver, restituir, compensar – quando foram afetados ou lesados”. (p. 35-36)
5
- “O ato de criar ou outorgar o direito – o que pressupões sua inexistência anterior – não é de
justiça, mas de domínio ou de poder. Esse ato criador ou constituinte de um direito é – em
relação à justiça – um ato primário e, anterior, o originário do direito. Por outro lado, a
justiça, como diz Pieper, é um ato secundário, porque pressupõe o ato primário que constitui
o direito. (...).
Esse ponto de que estamos tratando tem relação com o fato básico ao qual o direito
responde: as coisas estão repartidas. A justiça atua em relação à divisão já feita, mas fazer a
divisão – atribuir coisas aos diferentes sujeitos – não é próprio da justiça: a justiça não
reparte originariamente as coisas. Essa afirmação também é evidente por si só, pois está
contida na própria noção de justiça. Porém, pode surpreender, porque percebemos
perfeitamente – é tão notório – que há coisas que estão mal repartidas, injustamente
distribuídas e, portanto, almejamos coerentemente que se faça uma divisão justa. Certo, é
verdade, mas vamos retomar o que foi dito: se a atual divisão de bens tem aspectos injustos,
isso se deve ao fato de que nós, seres humanos, dividimos as coisas contrariando alguns
direitos preexistentes: os que compõem o direito natural. Isso supõe que, no que cabe ao
direito natural, há coisas que já estão repartidas por natureza. Logo, a nova divisão não será
uma redistribuição primeira, mas segunda. Essa nova repartição, essa redistribuição, será obra
da justiça na medida em que existem direitos naturais, e nesse caso se tratará de um ato
secundário”. (p. 37-38)
- “A justiça por si só não reparte as coisas, mas pressupõe uma divisão já estabelecida pela
natureza, por lei humana ou por pacto”. (p. 39)
- “A justiça não consiste em dar a cada qual o que necessita, nem o que leva à felicidade, nem
ao desenvolvimento, nem a... A justiça dá a cada qual o que é seu, e nada mais. Nem menos,
porque isso seria injustiça.
A conclusão que daí se tira é que não se observa, por nenhum lado, que a “sociedade
justa” seja um ideal de sociedade, nem que a justiça possa ser a almejada meta que traga a
felicidade aos homens. Vamos entender bem: sem a justiça a sociedade desmorona. Certo, por
isso é preciso lutar para que a sociedade seja justa. E entre os meios dessa luta está a arte do
direito, e quem mais pode e deve fazer com que a justiça seja implantada são – sem se os
únicos – os juristas. Mas uma sociedade somente justa é uma sociedade insuportável. Se à
pessoa só é dado o que é justo, não haverá amizade, nem carinho, nem liberalidade, nem
ajuda, nem solidariedade, nem nada de quanto permite o desenvolvimento normal e adequado
da vida social. Por isso, a sociedade justa, a justiça, são pontos de partida, não metas políticas;
são princípios ou base, não ideal.
A justiça é para a sociedade o que a estrutura de concreto ou de aço é para os edifícios.
Sem a estrutura, o edifício não se manteria, mas só com a estrutura seria inabitável. A
sociedade, sem a justiça, se destrói, mas apenas com a justiça, é insuportável”. (p. 40)
- “A justiça é o mínimo a que todos estamos obrigados nas relações entre homens. E o
mínimo não pode ser um ideal”. (p. 41)
Capítulo IV – O direito
- “O direito subjetivo é uma faculdade de fazer ou omitir algo. Sobretudo, diz-se, é uma
faculdade de exigir. Para muitos juristas – desde o século XIX até nossos dias -, o direito não
seria a coisa justa – o que seria o objeto do direito - , mas a faculdade sobre a coisa ou em
relação a ela. Assim, por exemplo, o direito de propriedade sobre uma casa seria um conjunto
de faculdades: de exigir sua devolução se for ilegalmente confiscada, de vendê-la, de derrubá-
la para construir uma nova casa, de viver nela etc. Pois bem, essas faculdades existem?
Indubitavelmente existem; mas, do ponto de vista do direito, não formam uma categoria
própria – como quiseram tantos juristas a partir do século XIX – , não são uma nova forma de
direito e muito menos substituem a coisa justa como direito. São direito porque essas
faculdades são coisas justas, o que é do titular enquanto derivações do fato principal,
constituído por ser – seguindo o exemplo dado – a coisa propriedade – um tipo de direito –
desse titular. Em outras palavras, o direito subjetivo não é direito de modo diferente de como
é a coisa justa”. (p. 44-45)
- “O direito subjetivo (...) é uma armadilha construída pelo individualismo do século XIX
para adormecer a consciência dos poderosos diante dos desprovidos. De fato, se o direito de
uma pessoa é, radicalmente, o direito subjetivo, existe o direito à medida que se tem a
faculdade moral, independentemente de que na realidade se tenham ou não coisas sobre
as quais exercê-las. Por exemplo, é reconhecida a todo trabalhador liberdade para negociar.
No entanto, o fato de esse trabalhador se encontrar em situação de inferioridade perante o
patrão para discutir o salário – como ocorria no final do século XVIII e XIX – pela
necessidade de trabalhar e pela escassez de oportunidades, de modo que tenha que aceitar o
salário de fome oferecido, é indiferente em relação ao direito. Como o direito consiste na
liberdade formal (isto é, na simples faculdade moral), desde que as leis não imponham um
salário nem se exerça sobre o trabalhador uma coação física, é reconhecida a liberdade dele de
negociar”. (...).
O realismo jurídico rejeita tal concepção do direito como falsa e injusta. Como o
direito não é primariamente a faculdade moral, mas sim a coisa enquanto for devida, é
reconhecida ao trabalhador e ao patrão liberdade de negociar quando são colocados em
situação de discutir os termos do contrato em um real pé de igualdade e sem coações (...).
Que o direito não fique no plano meramente formal, mas que se realize no plano real,
é uma questão jurídica, o que, em outros termos, é afirmar que se trata de uma questão de
justiça. E constitui tarefa dos juristas, entre eles os juízes. Como o direito não é simplesmente
uma faculdade moral – embora haja faculdades morais que são direito -, os juristas e, entre
eles, os juízes deve interpretar as leis em função não do direito em sentido formal, mas do
direito em sentido real (ou melhor, realista)”. (p. 46-47)
2. As coisas externas
- Coisas materiais (fazendas, casas, roupas etc.) e coisas imateriais (cargos, poderes,
faculdades etc.) podem ser direitos. “No entanto, todas elas devem ter uma característica: ser
coisas que tenham uma dimensão externa (res exteriores), que em si ou em suas
manifestações saiam da esfera íntima do sujeito. A razão é óbvia: como a justiça consiste em
dar o que corresponde ao direito, apenas se a coisa própria de alguém puder ser objeto de
atividade por parte dos demais, poderá ser objeto da justiça. O que permanece no refúgio da
consciência ou dos pensamentos da pessoa, o que se mantém dentro do segredo de sua
intimidade não entra nas relações com os outros e, consequentemente, não é objeto da virtude
da justiça”. (p. 48-49)
7
3. A razão de dívida
- “A coisa se constitui em direito por sua constituição de devida, por recair sobre ela uma
dívida em sentido estrito”. (p. 49)
- “Observe-se bem que a justiça não é a perspectiva do titular do direito diante das coisas que
lhe estão atribuídas, mas a perspectiva dos outros perante essas coisas, e perante os outros o
que aparece é a dívida de respeito, de restituição, de compensação etc.” (p. 50)
4. Variedade de direitos
- “As coisas estão atribuídas às pessoas de maneiras muito diversas. (...). Quando alguém fala
de seu apartamento, não quer dizer necessariamente que seja o proprietário; pode ter o
apartamento por aluguel. (...). Pois bem, como as coisas estão atribuídas às pessoas de
maneira muito diferente, há muitos tipos de direitos”. (p. 51)
- “A arte do direito tem por objeto dizer o direito (iuris dictio), determinar os direitos das
pessoas e sua extensão. Em outras palavras, tem por objeto determinar o título e a medida do
direito.
O título é aquilo em que o direito tem origem, ou, dito de outra maneira, é o que causa
a atribuição de uma coisa a um determinado sujeito. Há muitos tipos de títulos, porém podem
ser resumidos na natureza humana, na lei no costume e nos pactos ou contratos. (...).
A primeira coisa que se deve observar para saber se algo é direito é o título. E, como o
direito e o justo são a mesma coisa – conforme vimos repetidamente -, para saber quando algo
é justo, deve-se chegar ao título. Se não houver título, por mais que se diga que ‘isso é o
justo’, não é verdade; o termo ‘o justo’ está sendo utilizado em sentido inadequado”. (p. 52)
- “Junto com o título, o jurista deve conhecer a medida do direito. Não existe nenhum direito
ilimitado, nem todos os direitos são iguais. A propriedade compreende mais faculdades que o
usufruto ou o uso. Tanto as leis como os contratos que outorgam alguns direitos podem conter
cláusulas que lhes dêem maior ou menor amplitude”. (p. 54)
- “Com o título e a medida, o jurista descobre o que é o justo, o que corresponde ao titular do
direito, nem mais nem menos”. (p. 54)
6. O fundamento do direito
- “Uma coisa é o título e outra coisa diferente é o fundamento do direito. O titulo é o que
atribui uma coisa a um sujeito como direito. Por outro lado, o fundamento é aquilo em cuja
virtude um sujeito pode ser sujeito de direito ou de determinados direitos”. (p. 54)
- Qual é o fundamento mínimo de todo direito? O fundamento mínimo de todo o direito é que
o homem é pessoa, isto é, o homem é dono de si.
8
- “Todo animal movimenta-se por meio de forças e instintos dos quais não é dono; mais do
que dominar, é dominado. Tudo que o animal faz é uma parte do movimento do cosmo,
regido por um conjunto de forças. O animal não pertence a si mesmo – pertence ao universo –
e, por isso, nada lhe pertence, nada é propriamente seu. Entre os animais não há ladrões nem
assassinos; o que parece pertencer a um é arrebatado por outro, e tudo isso não é mais que o
jogo do conjunto de forças que movem o universo. O homem, por outro lado, domina seu
próprio ser, é dono de si, característica esta que o constitui como pessoa. O homem não se
movimenta exclusivamente por forças e instintos biológicos; em última instância, o homem é
responsável por seus atos pessoais, porque pela razão e pela vontade decide livremente. Por
isso é capaz de fazer ou não uma coisa, de escolher entre diferentes possibilidades. Domina
seu próprio ser e, por isso, é capaz de dominar seu entorno; logo, é capaz de se apropriar de
coisas que lhe são devidas. O fundamento do direito é que o homem é pessoa”. (p. 56)
- “Vários séculos antes da era cristã já se encontram testemunhos de uma tradicional divisão
do direito: o direito é em parte natural e em parte positivo. Na realidade, o adjetivo “positivo”
não foi usado até a Idade Média, mas anteriormente foram utilizados, em seu lugar, outros
adjetivos, como legal (o próprio das leis humanas); tal é o caso de Aristóteles, que distinguiu
entre o justo natural e o justo legal. (...). A partir do século XIX, propagou-se o positivismo
jurídico, conjunto de teorias para as quais só seria propriamente direito o positivo. O direito
natural, mais do que direito, seria ou moral ou valores relativos, ou estruturas lógicas ou a
natureza das coisas etc., ou simplesmente não existiria”. (p. 59)
2. O direito positivo
- “Por direito positivos entende-se todo direito cujo título e cuja medida devem sua origem à
vontade humana, seja pela lei, seja pelo costume, seja pelo contrato. Não é preciso repetir que
estamos falando do direito em seu sentido próprio – a coisa justa, o que é seu –, não das leis
ou, em geral, das normas.
O que significa a existência do direito positivo? Significa que há coisas divididas pelo
próprio homem”. (p. 60)
- “A capacidade do homem para constituir e regular direitos é ilimitada ou, pelo menos,
abrange todo o âmbito da vida humana? Em caso contrário, qual é o critério que indica os
limites? (p. 61-62)
4. O direito natural
9
- “Entendemos por direito natural todo direito cujo título não é a vontade do homem, mas sim
a natureza humana, e cuja medida é a natureza do homem ou a natureza das coisas”. (p. 65)
-“O direito natural não quer dizer outra coisa além de que, em determinadas esferas da ação
humana, há condutas racionais e condutas irracionais, há condutas condizentes com a razão e
condutas contrárias a ela”. (p. 67-68)
- “Agora, como a razão tem por ato próprio o conhecer, é evidente que, se capta coisas justas
ou injustas em si, é porque conhece algo objetivo, com realidade e consistência próprias, que
é critério objetivo do justo e do injusto, em virtude do que há condutas que respeitam ou
lesam bens não indiferentes. Esse algo objetivo é a pessoa, enquanto representa uma
individuação da natureza do homem. Em outras palavras, o que a razão capta é que a pessoa é
titular de direitos e que a natureza é fundamento e critério desses direitos”. (p. 68)
- “É direito natural o que é justo por si mesmo, o não indiferente. E como é que existem
coisas justas por natureza, isto é, o justo natural, o direito natural? Se lembrarmos a não de
direito que demos, que existe o direito natural, significa que há coisas – bens, poderes,
faculdades etc., - atribuídas ao homem não por pacto ou consenso entre os homens, mas em
virtude do natural ao homem, isto é, de fatores ou dimensões próprias de seu ser”. (p. 68)
- “Que há medidas naturais do direito não resta dúvida. Se os direitos naturais têm como título
a natureza humana, ela própria é o critério de sua extensão e de seus limites”. (p. 70)
- “Pôde-se observar que, no que corresponde à medida – não no que se refere ao título -,
usamos duas expressões: a natureza do homem e a natureza das coisas. Elas não deve ser
confundidas: ambas podem ser, conforme o caso, medida dos direitos, porém a primeira
refere-se ao ser do homem e a seus fins; a segunda, por outro lado, engloba o ser, as
qualidades, as quantidades etc. das coisas. (p. 71)
6. Os direitos mistos
- “Junto com os direitos naturais e positivos puros – aqueles cujo título e medida são naturais
ou positivos – existem os direitos mistos, ou seja, aqueles cujo título é natural e sua medida
concreta é positiva, e vice-versa. Vamos dar alguns exemplos: somos livres por natureza; o
direito de viajar por todo mundo é um direito natural. Mas as leis humanas podem regular
esse direito, impondo-lhe limites. Podem nos exigir o passaporte em dia ou o visto de entrada
em um país, (...) etc. Um direito de título natural tem uma medida de direito positivo.
Também ocorre o caso contrário; vale o exemplo apresentado anteriormente.
Emprestar uma quantia é um contrato, logo os direitos e dívidas que daí nascem são positivos;
porém, se o empréstimo é gratuito, a medida da quantia a ser devolvida está determinada por
uma medida natural”. (p. 72)
aplicado sem estreita conexão com o direito natural, sem perceber que o direito positivo é
inexplicável sem o direito natural. Por que é inexplicável nesse caso? Ora, porque sem o
direito natural o direito positivo não tem o pressuposto necessário de existência.
Está ao alcance de todos compreender que é impossível um fato cultural sem que
tenha uma base natural. Tudo o que o homem faz ou inventa requer uma capacidade natural, o
que os filósofos chamam de potência. (...). É axiomático que todo fato cultural depende dos
dados naturais. Por isso se diz que o homem inventa (palavra que significa achar, encontrar
algo que já existia pelo menos em potencial) e não que cria (tira algo do nada). O homem é
inventor, não criador.
Dado o axioma enunciado, pretender que só exista o direito positivo, ou seja, que todo
o direito seja estabelecido pelo homem, contradiz o mais elementar bom senso, pois se há
algo jurídico cultural (positivo), tem que partir necessariamente de algo jurídico natural. Note-
se bem que o axioma não significa que um fato cultural é possível dada qualquer potência ou
capacidade, mas que o homem tem, precisamente, um potência da mesma ordem do fato
cultural; o ouvido, por exemplo, não é suficiente para possibilitar os fatos culturais
relacionados com a visão. Portanto, é axiomático que, se existe o fato jurídico positivo
(cultural), deve apoiar-se em uma juridicidade natural. Se nada houvesse de jurídico natural,
nada haveria de jurídico cultural. Por isso, a melhor demonstração de que existe o direito
natural é que existe o direito positivo.
Qual é o mínimo de jurídico natural que deve existir para que possa existir o direito
positivo? Se lembrarmos que direito é a coisa sua, fica evidente que o mínimo de jurídico
natural que deve existir é a condição de sujeito de direito própria do homem. Eis aí algo que é
impossível vir do direito positivo. A condição de sujeito de direito é a potência natural
necessária para que o homem possa atribuir a si mesmo ou atribuir aos outros alguma coisa
como direito seu. Dizer que a condição de sujeito de direito é dada pela lei humana é uma
afirmação vazia por sua radical impossibilidade: o homem daria a si mesmo a potência (a
capacidade para o fato cultural) e o ato (o fato cultural), o que suporia nele um poder criador
em sentido estrito (tirar algo do nada), coisa impossível.
Se existe o direito positivo, é evidente que o homem é naturalmente sujeito de direito.
(...). Note-se bem: a capacidade para ser titular de direitos positivos não é uma mera potência
(capacidade), e sim a própria titularidade dos direitos naturais. Isso não deve causar surpresa,
já que todo direito positivo é edificado sobre algum direito natural.
Esta é a irremediável aporia do positivismo: se não existe o direito natural, é
impossível que exista o direito positivo; e se existe o direito positivo, existe necessariamente
o direito natural”. (p. 76-77)
Capítulo VI – As leis
1.
Saber
sobre
leis
-‐
Saber
leis
é
conhecê-‐las
e
interpretá-‐las
corretamente.
(cf.
p.
79)
-‐
“A
dificuldade
de
interpretar
a
lei
não
se
deve
ao
fato
de
utilizar
termos
muito
raros
ou
pouco
conhecidos;
(...).
A
dificuldade
consiste
em
que
a
interpretação
das
leis
exige
uma
peculiar
prudência,
um
tipo
especial
dessa
virtude,
que
se
chama
prudência
do
direito;
em
latim,
iuris
prudentia,
(...).
11
-‐
Para
Hervada,
o
saber
interpretar
a
lei
deve
ser
chamado
jurisprudência,
e
não
ciência
jurídica
ou
ciência
do
direito.
Veja
as
razões
que
Hervada
apresenta
nesse
sentido:
-‐
“Há
muito
tempo,
é
comum
que
a
palavra
jurisprudência
seja
reservada
para
designar
a
doutrina
jurídica
que
resulta
das
sentenças
do
Supremo
Tribunal
e,
de
modo
mais
geral,
das
decisões
dos
tribunais.
O
saber
interpretar
a
lei
é
chamado
de
preferência
de
ciência
jurídica
ou
ciência
do
direito.
Isso
obedece
a
duas
razões.
Uma
consiste
em
que
se
considera
que,
mais
que
uma
virtude,
aplicar
a
lei
seria
uma
técnica,
a
técnica
jurídica.
A
outra
razão
é
que,
com
o
aparecimento
do
dogmatismo
jurídico,
pretendeu-‐se
fazer
do
direito
uma
ciência
especulativa.
Felizmente,
a
segunda
razão
quase
não
conta
hoje
em
dia.
Depois
dos
excessos
do
dogmatismo
e
do
conceptualismo
jurídicos,
e
uma
vez
falidas
também
as
não
distantes
tentativas
de
reduzir
o
raciocínio
jurídico
a
fórmulas
matemáticas,
a
praticidade
do
saber
jurídico
voltou,
cada
vez
mais,
a
recuperar
seu
lugar.
A
primeira
razão
também
não
tem
peso
suficiente,
pois
está
relacionada
à
segunda.
Técnica
evoca
a
aplicação
prática
de
um
saber
especulativo,
de
modo
que
a
técnica
jurídica
seria
a
aplicação
ao
caso
concreto
dos
conceitos
e
dogmas
especulativamente
construídos
pela
ciência
do
direito
(ciência
especulativa,
de
acordo
com
essa
opinião).
Isto
posto,
dado
que
a
ciência
do
direito,
embora
também
seja
composta
de
conhecimentos
especulativos,
é
um
saber
essencialmente
prático,
deve
consistir
em
um
hábito
–
habilidade
ou
aptidão
–
da
razão
prática
pela
qual
possa
chegar
a
conhecer
–
em
cada
caso
–
qual
é
o
direito
e
como
deve
ser
interpretada
a
lei.
Mas
acontece
que
o
hábito
intelectual
de
saber
como
se
age
corretamente
recebe
o
nome
de
virtude
da
prudência.
A
ciência
(prática)
do
direito
é
um
tipo
de
prudência”.
(p.
80-‐81)
-‐
“A
oportunidade
e
o
tino
fazem
parte
da
prudência”.
(p.
82)
2.
A
lei
-‐
“Uma
lei
é
uma
regra
obrigatória
que
tem
caráter
geral.
Com
geral
não
se
quer
dizer
que
se
refere
a
todos
os
cidadãos,
mas
que
está
destinada
a
um
conjunto
mais
ou
menos
amplo
de
pessoas,
em
contraposição
aos
preceitos
ou
ordens,
que
se
dirigem
singularmente
a
uma
pessoa
ou
a
um
determinado
grupo
que
forma
uma
unidade”.
(p.
84)
3.
Norma
social
-‐
“A
lei
regula
e
ordena
as
relações
entre
os
homens;
é,
pois,
uma
regra
social
ou
norma
da
vida
em
sociedade.
Para
compreender
sua
natureza
é
preciso
considerar
duas
coisas.
Em
primeiro
lugar,
que
é
uma
regra
obrigatória,
com
obrigação
em
sentido
próprio.
O
que
que
quer
dizer
obrigação
em
sentido
próprio?
Quer
dizer
que
não
se
trata
simplesmente
de
uma
regra
de
conduta
cujo
descumprimento
produza
uma
rejeição
social”.
(p.
85)
-‐
“Obedecer
à
lei
pertence
ao
dever.
Não
é
simplesmente
uma
coisa
conveniente,
embora
às
vezes
cumpramos
as
leis
levados
por
motivos
de
conveniência,
por
exemplo,
para
evitar
uma
multa.
As
leis
indicam
o
que
em
justiça
devemos
à
sociedade.
A
sociedade
tem
alguns
deveres
para
conosco,
os
cidadãos:
é
a
chamada
justiça
distributiva;
nós,
os
seres
humanos,
ao
fazer
parte
da
sociedade,
temos
o
estrito
direito
–
é
de
estrita
justiça
–
a
12
que
os
bens
sociais
sejam
desfrutados
por
todos
segundo
critérios
justos
e
de
acordo
com
as
regras
legitimamente
estabelecidas.
Os
bens
da
sociedade
devem
ser
distribuídos,
pelo
que
se
refere
ao
seu
uso
ou
conforme
outras
modalidades,
entre
todos
os
cidadãos.
(...).
Contudo,
somos
propensos
a
esquecer
que
nós,
cidadãos,
temos
também
deveres
de
justiça
em
relação
à
sociedade
e
ao
Estado.
A
sociedade
tem
direito
a
que
nós,
cidadãos,
assumamos
nossos
deveres
de
justiça
para
com
ela,
a
que
respeitemos
os
direitos
da
sociedade
em
relação
aos
cidadãos.
Esse
tipo
ou
classe
de
justiça
chama-‐se
justiça
legal.
Não
há,
pois,
somente
deveres
de
justiça
dos
particulares
entre
si
(justiça
que
recebe
o
nome
de
justiça
comutativa)
nem
da
sociedade
para
com
os
cidadãos
(justiça
distributiva);
também
há
deveres
de
justiça
dos
cidadãos
para
com
a
sociedade
(justiça
legal)”.
(p.
88)
-‐
“Nossos
deveres
para
com
a
sociedade
são
de
natureza
diversa:
há
os
de
justiça
e
há
os
de
outras
virtudes
(solidariedade,
por
exemplo).
Quais
são
os
deveres
de
justiça,
aqueles
que
representam
o
justo,
nem
mais
nem
menos,
que
devemos
à
sociedade
e
ao
Estado?
Devemos
à
sociedade
o
que,
sendo
próprio
da
sociedade,
depende
de
nossa
colaboração
e
participação.
A
sociedade
não
é
mais
que
a
união
de
todos
nós
em
razão
de
determinados
fins
ou
bens,
obtidos
pelo
esforço
de
todos
(fim
ou
bem
comum).
(...).
Agora,
como
a
sociedade
é
a
união
de
todos,
o
que
cada
um
deve
à
sociedade
é
–
chamemos
assim
–
sua
cota
de
participação
na
obtenção
do
bem
comum.
A
parte
que
cada
um
deve
pôr
para
que
a
sociedade
obtenha
o
bem
comum
é
o
direito
da
sociedade
e
o
dever
de
justiça
de
cada
cidadão.
Mas
cabe
nos
perguntarmos:
o
que
é
que
determina
essa
cota,
o
que
institui
esse
dever
distribuindo
entre
todos
o
esforço
comum?
Logicamente
será
o
que
regula
e
ordena
as
condutas
de
todos
os
cidadãos
em
razão
do
bem
comum.
Pois
bem,
tal
função
é
própria
das
leis.
São
elas
que
determinam
o
dever
de
cada
cidadão
ao
regular
e
ordenar
a
vida
social.
A
lei
determina
os
deveres
de
justiça
legal.
Suponho
que
a
esta
altura
já
foi
possível
adivinhar
o
motivo
pelo
qual
essa
justiça
é
chamada
de
legal:
porque
consiste
em
cumprir
as
leis.
Obedecer
às
leis
é,
pois
um
dever
de
justiça,
pertence
ao
dever,
não
ao
que
convém
fazer
para
evitar
a
rejeição
social.
A
obrigatoriedade
das
leis
baseia-‐se
na
justiça.
Sento
todos
membros
da
sociedade
e
estando
obrigados
a
fazer
o
que
nos
corresponde
para
obter
o
bem
comum,
estamos
obrigados
a
cumprir
o
que
a
lei
determina,
que
é
a
regra
de
justiça
dos
cidadão
para
com
a
sociedade”.
(p.
90)
4.
Lei
e
dever
moral
-‐
Além
dos
deveres
impostos
pelas
leis,
existem
deveres
que
não
são
impostos
pelas
leis.
Existem
deveres
morais.
(cf.
p.
91)
-‐
Entre
os
deveres
morais,
existem
alguns
que
jamais
serão
incluídos
nas
leis,
porque
não
são
da
competência
das
leis.
“Há
uma
parte
de
nosso
agir
que
está
fora
da
jurisdição
das
leis
da
sociedade;
pertence
a
nossa
intimidade
e
a
nossa
autodeterminação,
fato
pelo
qual
seria
um
abuso
que
as
leis
pretendessem
ter
acesso
a
elas.
Quando
o
Estado
se
arroga
a
função
de
penetrar
naquilo
que
pertence
a
nossa
intimidade
e
à
esfera
de
nossa
autodeterminação,
torna-‐se
totalitário.
-‐
O
dever
moral
não
é
problema
do
jurista,
mas
sim
do
moralista.
(cf.
p.
92)
13
-‐
“Não
pensemos,
contudo,
que
a
lei
faz
bons
cidadãos
como
faz
a
educação,
isto
é,
formando-‐os
moralmente,
embora
em
parte
cumpra
também
essa
função.
Uma
lei
não
é
uma
sentença
moral
nem
um
Código
é
um
tratado
de
ética.
A
lei
faz
bons
cidadão,
segundo
a
justiça,
regulando
sua
conduta
social
externa.”(p.
102)
-‐
“(...)
fazer
leis,
que
é
uma
parte
da
prudência
política,
sempre
considera
a
situação
real
da
sociedade,
parte
da
realidade
social”.
(p.
102)
2.
Interpretação
da
lei
e
realidade
social
-‐
“Faz
parte
da
prudência
jurídica
–
da
arte
do
direito
ou
jurisprudência
–
aplicar
as
leis
de
acordo
com
a
realidade
social”.
(p.
105)
-‐
“O
jurista
deve
ter
a
perspicácia
de
saber
até
onde
se
pode
chegar
na
aplicação
da
lei,
qual
é
o
coeficiente
de
acomodação
da
realidade
social
para
que,
aplicando-‐se
a
lei,
esta
seja
fator
de
ordem
e
progresso,
e
não
de
perturbação”.
(p.
105)
-‐
“A
realidade
sócia
é
regulada
pela
lei,
e,
nesse
sentido,
é
a
vida
social
que
se
adapta
à
lei;
mas,
por
outro
lado,
essa
regulação
deve
ser
feita
de
modo
que
a
vida
social
se
desenvolva
de
acordo
com
se
esta
e
suas
condições”.
(p.
107)
3.
A
lei
e
o
bem
comum
-‐
“As
leis
são
um
instrumento
da
arte
da
política,
(...)”.
(p.
108)
-‐
“(...)
as
leis
devem
se
destinar
ao
bem
comum,
devem
estabelecer
aquilo
que
é
de
interesse
geral
para
a
sociedade”.
(p.
109)
-‐
“As
leis,
como
o
Estado
e
o
governo,
existem
para
conseguir
o
bem-‐estar
geral,
a
felicidade
comum
ou,
se
preferir,
as
condições
sociais
necessárias
e
convenientes
para
que
os
cidadãos
obtenham
seu
desenvolvimento
pessoal.
Acabamos
de
mencionar
o
desenvolvimento
pessoal
para
destacar
que,
em
síntese,
o
bem
comum
e
o
interesse
geral
servem
à
pessoa;
as
leis
e
a
sociedade
não
se
desinteressam
do
bem
particular
e
pessoa.
É
verdade,
mas
sua
missão
termina
nessas
condições
sociais
necessárias
e
convenientes;
passando
disso,
é
a
pessoa,
a
família
e
as
comunidades
menores
que
devem
assumir
seu
papel
principal”.
(p.
110)
-‐
“A
lei
deve
ser
interpretada
e
aplicada
mais
em
seu
espírito
do
que
conforme
sua
letra.
Essa
forma
de
interpretar
a
lei
chama-‐se
equitativa
e
a
virtude
que
leva
e
ale
recebe
o
nome
de
equidade”.
(p.
111)
4.
Racionalidade
da
lei
-‐
“O
fundamento
da
equidade
reside
no
fato
eu
que
as
leis
devem
ser
entendidas
como
regras
razoáveis”.
(p.
111)
-‐
Voluntarismo
X
Intelectualismo
15
-‐
“Segundo
o
voluntarismo,
as
leis
expressam
a
vontade
do
legislador
e
valem
como
expressão
dessa
vontade.
(...)
De
acordo
com
o
voluntarismo,
o
intérprete
da
lei
deve
se
limitar
a
captar
a
vontade
do
legislador,
sem
formular
questões
sobre
sua
razoabilidade.
Aquele
que
obedece
deve
cumprir
o
que
quis
o
legislador,
independentemente
de
ser
bom
ou
mau.
Mais
ainda,
levando
a
ideia
ao
extrema,
na
realidade
não
há
coisas
boas
ou
más
em
si
mesmas,
mas
sim
são
boas
enquanto
são
queridas
por
quem
manda
e
más
enquanto
são
rejeitadas
por
ele”.
(p.
113)
-‐
O
positivismo
jurídico
é
fruto
do
voluntarismo.
(cf.
p.
115)
-‐
“Como
no
fundo
nós,
seres
humanos,
gostamos
de
fazer
o
que
queremos,
o
voluntarismo
nunca
deixou
de
ter
adeptos,
e
em
nossos
dias
tem
uma
infinidade
deles.
Há
apenas
um
‘pequeno’
detalhe:
as
coisas
não
são
como
queremos,
e
sim
como
são”.
(p.
115)
-‐
“Pois
bem,
o
homem
é
como
é,
não
só
no
plano
físico
e
biológico,
mas
também
no
moral.
O
homem
não
é,
no
âmbito
moral,
capricho
ou
pura
liberdade.
O
homem
é
pessoa,
e
ser
pessoa
implica
uma
dignidade,
um
modo
específico
de
ser,
que
faz
com
que
haja
coisas
em
seu
agir
–
como
já
vimos
antes
–
que
sejam
boas
ou
más
em
si
mesmas,
independentemente
de
que
ele
goste
ou
não,
de
que
queira
ou
não”.
(p.
116)
-‐
“Por
isso,
o
intérprete
da
lei
não
olha
apenas
a
lei,
fixa
também
seu
olhar
na
realidade
social
e
nas
circunstâncias
do
caso
específico
e
aplica
razoavelmente
a
lei
ao
caso.
Daí
que,
quando
a
lei
produz
efeitos
nocivos
em
um
caso
específico,
recorre
à
equidade.
Os
juristas
são
pessoas
razoáveis
e
supõem
sempre
que
o
legislador
seja
também
(e
se
não
for,
procuram
torná-‐lo
razoável,
porque
o
bem
das
pessoas
e
da
sociedade
vem
antes
do
capricho
do
legislador)”.
(p.
118)
5.
Autoridade
competente
-‐
“(...)
as
leis
são
passíveis
de
obediência
quando
seu
conteúdo
é
legítimo.
Porém
a
legitimidade
das
leis
não
se
esgota
com
seu
conteúdo;
para
que
obriguem
os
cidadãos
é
necessário
que
procedam
de
uma
autoridade
competente”.
(p.
119)
-‐
“Formular
leis
corresponde
a
quem
tem
sob
sua
responsabilidade
a
direção
da
vida
social.
E
como
essa
direção
consiste
na
ordenação
para
o
bem
comum,
corresponde
à
própria
sociedade,
por
si
ou
por
meio
de
seus
órgão
de
governo”.
(p.
121)
6.
O
processo
legislativo
-‐
“As
leis
são
instituídas
–
isto
é,
começam
a
ser
leis
ou
regras
obrigatórias
–
quando
são
promulgadas;
por
isso,
o
ato
fundamental
no
processo
de
nascimento
de
uma
lei
é
a
promulgação”.
(p.
122)
Capítulo
VIII
–
As
leis
e
o
homem
1.
Premissas
16
-‐
Este
capítulo
trata
da
influência
das
leis
na
pessoa,
isto
é,
das
relações
entre
as
leis
e
a
moral.
(cf.
p.
125)
2.
Natureza
das
coisas
e
natureza
das
ciências
-‐
“Como
a
mesma
coisa
pode
ser
estudada
por
diferentes
ciências,
não
se
deve
confundir
a
natureza
das
coisas
com
a
natureza
das
ciências.
A
conduta
humana,
por
exemplo,
pode
ser
estudada
por
ciências
filosóficas,
como
a
filosofia
moral,
e
por
ciências
experimentais,
como
a
Sociologia
empírica.
Então,
a
vida
moral
–
uma
realidade
de
natureza
moral
–
pode
ser
objeto
de
ciências
de
caráter
diverso.
Nem
toda
ciência
que
estuda
a
vida
moral
será
parte
da
Filosofia
moral,
sendo
um
caso
claro
a
respeito
a
já
citada
Sociologia
empírica.
Com
isso
chegamos
a
uma
primeira
conclusão:
não
é
a
mesma
coisa
formular
a
questão
de
se
o
jurista
é
um
moralista
–
se
a
ciência
do
direito
é
uma
parte
da
Filosofia
ou
da
Teologia
morais
–
e
se
perguntar
se
o
direito
é
ou
não
uma
realidade
moral”.
(p.
128-‐129)
-‐
O
direito
é
uma
realidade
moral.
3.
A
realidade
moral
-‐
O
direito
e
as
leis
são,
da
perspectiva
do
plano
das
realidades
(não
do
plano
das
ciências),
de
natureza
moral.
(cf.
p.
129)
-‐
“O
plano
da
realidade
moral
ou
ética
é
o
plano
da
atuação
do
homem
como
pessoa.
Nesse
plano,
o
homem
age
livremente
e
suas
potências
são
habilitadas
para
agir
bem
mediante
alguns
hábitos
peculiares
chamados
virtudes,
dos
quais
uns
são
do
entendimento
e
outros
da
vontade.
Pois
bem,
essa
realidade
moral
é
objeto
–
entre
outras
–
de
três
ciências
práticas,
que
entendem
o
agir
do
homem
como
pessoa
de
acordo
com
três
perspectivas
diferentes:
a
ciência
do
direito
(jurista),
a
ciência
moral
(moralista)
e
a
ciência
política
(político).
(...)
O
direito
é
uma
parte
da
realidade
moral?
Indubitavelmente.
A
coisa
justa,
dizíamos,
é
algo
devido;
o
dever
pressupõe
a
liberdade
e,
portanto,
o
justo
ocorre
por
uma
livre
decisão
da
vontade.
De
igual
maneira,
o
delito
e
a
injustiça
pressupõem
a
liberdade
(um
demente
não
é
delinquente
nem
é
injusto).
Dar
a
cada
um
o
que
é
seu
–
o
justo
–
é
fruto
de
uma
virtude:
a
justiça.
E
saber
determinar
o
justo
e
quando
e
como
deve
ser
dado
é
outra
virtude:
a
prudência
(prudência
do
direito
ou
jurisprudência).
No
que
se
refere
ao
direito,
o
homem
age
como
pessoa;
e
mais,
o
direito
ou
coisa
justa
pressupõe
a
ordem
da
ação
livre”.
(p.
131)
4.
As
ciências
da
realidade
moral
-‐
“A
ciência
moral
–
ou
ciência
do
moralista
–
é
chamada
assim
por
antonomásia,
não
porque
ela
estude
a
realidade
moral
em
todos
os
aspectos,
mas
porque
cabe
a
ela
analisar
a
conduta
humana
em
seu
aspecto
moral
mais
fundamental:
segundo
as
exigências
que
emanam
da
condição
de
pessoa”.
(p.
133)
17
-‐
“A
ciência
jurídica
é
mais
limitada
em
seu
objeto
material;
engloba
apenas
os
atos
da
virtude
da
justiça,
pois
restringe-‐se
a
determinar
as
obras
próprias
da
justiça.
Contudo,
nem
sequer
estuda
a
virtude
da
justiça
integralmente;
limita-‐se,
como
dizíamos,
à
obra
externa
da
justiça.
Sua
perspectiva
é
o
direito
como
coisa
devida
e
sua
finalidade
consiste
em
que
cada
qual
tenha
sua
coisa.
Seu
objeto
não
consiste
em
que
o
homem
se
realize
como
pessoa
sendo
justo
–
isso
cabe
à
Moral
–,
mas
que
cada
homem
tenha
seu
direito
respeitado;
é
uma
ciência
social
ou
ciência
de
algumas
determinadas
e
específicas
relações
sociais.
Por
causa
de
sua
perspectiva,
a
ciência
do
direito
não
é
uma
parte
da
Moral,
e
o
jurista
não
é
um
moralista.
Ambos,
jurista
e
moralista,
estudam
a
justiça,
mas
suas
perspectivas
são
diferentes:
ao
moralista
interessa
que
os
empréstimos
não
sejam
usurários,
para
que
os
homens
se
comportem
como
pessoas
e
não
cometam
pecado
(ofensa
a
Deus
por
violar
sua
lei);
ao
jurista
interessa
a
mesma
coisa
em
relação
aos
empréstimos,
porém
por
outro
motivo:
para
que
os
direitos
de
cada
um
sejam
respeitados,
para
que
cada
qual
receba
o
que
lhe
cabe
e
haja,
assim
uma
ordem
social
justa”.
(p.
134-‐135)
-‐
“Moral
e
ciência
jurídica
são
ciências
autônomas,
isto
é,
uma
não
é
parte
da
outra
porque
têm
um
objeto
formal,
uma
perspectiva
ou
ponto
de
vista
diferente”.
(p.
135)
-‐
“Por
sua
vez,
a
ciência
política
estuda
a
conduta
humana
da
perspectiva
do
bem
comum
da
sociedade,
e
não
–
como
é
próprio
da
Moral
–
do
ponto
de
vista
do
bem
total
da
pessoa
(...),
mas
da
perspectiva
da
ordem
social
ou
ordenação
da
sociedade
para
o
bem
comum.
A
política
se
circunscreve
ao
bom
funcionamento
da
sociedade,
às
condições
gerais
e
específicas
convenientes
para
o
desenvolvimento
e
progresso
da
comunidade
humana”.
(p.
135-‐136)
-‐
“As
leis
regem
a
conduta
moral
(ou
seja,
a
própria
pessoa
como
ser
livre
e
responsável)
do
cidadão,
embora
se
reduzam
àquilo
que
tem
relação
direta
e
imediata
com
o
bem
comum,
sem
ultrapassar
esses
limites.
Isso
tem
uma
série
de
consequências,
que
vamos
resumir
(...):
a)
Como
as
leis
regem
a
conduta
moral,
embora
apenas
no
aspecto
de
sua
ordenação
ao
bem
comum,
são
regras
de
moralidade
e,
consequentemente,
obrigam
com
consciência.
Em
que
sentido
obrigam
com
consciência?
Obrigam
com
consciência
enquanto
são
regra
ou
medida,
legitimamente
estabelecidas,
de
atos
de
algumas
virtudes.
Toda
virtude
obriga
com
consciência,
e
também
a
justiça
legal;
(...).
b)
A
arte
da
política
direciona-‐se,
em
último
termo,
para
fazer
bons
cidadãos,
o
que
é
inseparável
das
virtudes.
Consequentemente,
as
leis
devem
se
direcionar
para
promover
e
facilitar
as
virtudes
morais,
o
que
implica
que
as
leis
devem
se
fundamentar
na
ordem
moral
objetiva”.
(p.
137-‐138)
c)
As
leis
devem
se
acomodar
à
realidade
social,
isso
significa
que
as
leis
podem
não
exigir
todas
as
virtudes
em
toda
sua
força
e
podem,
ainda,
tolerar
algumas
condutas
não
virtuosas
(leis
tolerantes).
5.
Lei
e
comportamento
moral
-‐
“As
leis,
ao
agirmos
de
acordo
com
elas,
criam
hábitos
e
costumes.
Por
causa
desse
efeito,
não
se
circunscrevem
a
fazer
bons
cidadãos
do
ponto
de
vista
da
conduta
externa;
também
influem
na
moralidade
do
homem
ao
contribuir
para
a
conformação
de
suas
virtudes.
Como
a
maioria
das
virtudes
não
é
inata,
mas
adquirida
pela
repetição
de
atos,
18
as
leis,
compelindo
a
agir
segundo
uma
virtude,
acabam
conseguindo
que
quem
as
obedece
adquira
as
virtudes
correspondentes”.
(p.
140)
-‐
Cindir
a
legalidade
da
moralidade,
como
se
fossem
dois
mundos
separados
e
sem
relação
mútua,
supõe
uma
concepção
adulterada
das
leis,
essa
concepção
que
Thomasius
introduziu
na
política
(nas
leis)
–
no
direito,
segundo
ele
–
e
que
seguem
aqueles
que
aspiram
a
essa
utopia
do
Estado
moralmente
neutro.
As
leis,
por
sua
própria
natureza,
não
são
nem
podem
ser
neutras
em
relação
à
moral.
(...).
Não
é
preciso
complicar
as
coisas
claras:
a
política
e
as
leis
afetam
a
ordem
humana
da
liberdade
e,
nessa
ordem,
o
homem
se
inclina
a
agir
por
virtudes
e
vícios;
não
existe
alternativa.
Pretender
uma
política
e
umas
leis
que
não
envolvam
as
virtudes
ou
os
vícios
é
cair
na
mais
pura
irrealidade”.
(p.
140-‐141)
Capítulo
IX
–
A
lei
natural
e
a
lei
positiva
1.
Introdução
-‐
“Posto
que
existem,
como
vimos,
direitos
naturais,
existe
necessariamente
a
lei
jurídica
natural,
em
uma
tripla
faceta.
Em
primeiro
lugar,
os
direitos
naturais
têm,
obviamente,
não
só
um
título
natural,
mas
também
uma
medida
natural,
como
já
indicamos.
Essa
media
ou
regra
natural
de
direito
é
a
lei
natural,
visto
que
a
regra
de
direito
é
a
lei.
Por
outro
lado,
a
existência
de
direitos
naturais
gera
regras
do
agir,
também
naturais,
em
relação
a
eles:
‘não
matar’,
‘não
roubar’,
‘medicar
o
doente’,
e
outras
mais
complicadas.
E,
por
último,
a
natureza
dessas
relações
e
instituições
sociais
acarreta
algumas
regras
de
justiça
comutativa,
distributiva
ou
legal,
conforme
o
caso,
que
são
naturais;
v.g.,
os
alimentos
devem
ser
distribuídos
de
modo
que
sejam
suficientes
para
todos.
Esse
conjunto
de
regras
de
direito
constitui
o
aspecto
jurídico
da
lei
natural
ou
lei
jurídica
natural”.
(p.
145-‐146)
2.
Verdade
e
opinião
-‐
“A
realidade
moral
–
dissemos-‐
consiste
na
esfera
de
ação
livre
do
homem.
Pois
bem,
a
liberdade
encontra
seu
primeiro
princípio
de
desenvolvimento
e
sua
primeira
regra
de
ação
no
próprio
ser
do
homem,
do
qual
a
liberdade
é
uma
característica.
A
liberdade
não
faz
o
homem,
não
lhe
dá
o
ser;
ao
contrário,
existe
e
se
desenvolve
pelo
homem
e
no
seu
ser.
Em
outras
palavras,
o
ser
do
homem
é
livre,
contém
a
liberdade,
e
seria
falso
dizer
que
a
liberdade
fabrica
o
ser
do
homem.
O
homem
tem
uma
natureza
livre,
e,
portanto,
a
liberdade
repousa
em
uma
natureza,
intocável
pela
liberdade,
porque
é
seu
pressuposto
(sem
natureza
não
haveria
liberdade).
Propriamente
falando,
essa
natureza
é
regra
da
liberdade,
o
que
equivale
a
dizer
que
a
liberdade
encontra
seu
sentido
e
seu
caminho
no
desenvolvimento
segundo
a
natureza,
porque
assim
realiza
o
homem
e
o
aperfeiçoa.
Em
outras
palavras,
a
natureza
do
homem
é
normativa
para
a
atuação
livre
do
homem.
Isto
posto,
a
razão
humana,
conhecendo
a
natureza
do
homem,
capta
o
normativo
dela
e
emite
ditames
imperativos:
deve-‐se
fazer
tal
coisa,
não
se
deve
fazer
outra.
O
conjunto
desses
ditames
ou
regras
imperativas
da
razão
humana,
que
manda,
proíbe
ou
permite
algumas
condutas
por
sua
conformidade
ou
19
desconformidade
com
a
natureza
do
homem
(seu
ser
e
seus
fins
naturais),
recebe
o
nome
de
lei
natural”.
(p.
150)
3.
O
conteúdo
da
lei
moral
-‐
Está
de
acordo
com
a
lei
natural
a
atividade
que
estiver
de
acordo
com
os
fins
do
homem.
“Conhecemos
esses
fins
porque
se
encontram
em
nosso
ser
em
forma
de
inclinações
naturais.
Podemos,
pois,
conhecer
a
lei
natural
conhecendo
essas
inclinações”.
(p.
151)
-‐
“a)
A
inclinação
à
conservação
do
ser,
também
chamada
instinto
de
conservação.
Em
relação
a
ela
deduzimos
que
a
vida
e
a
integridade
física
e
moral
do
homem
são
direitos
naturais
seus,
(...).
Igualmente,
são
contrários
à
lei
natural
o
que
a
elas
se
opuserem:
homicídio,
lesões,
suicídio
etc.
b)
A
inclinação
ao
casamento,
direcionado
para
a
procriação
e
a
educação
dos
filhos.
Dela
se
deduzem
os
preceitos
fundamentais
que
regem
a
instituição
matrimonial
e
a
familiar,
os
direitos
em
relação
a
ela,
o
uso
correto
da
faculdade
geradora
etc.
c)
A
inclinação
à
relação
com
Deus
ou
com
a
religiosidade,
que
origina
o
direito
de
liberdade
religiosa,
o
dever
moral
de
buscar
a
verdade
sobre
Deus
e
o
culto
que
lhe
é
devido
etc.
d)
A
tendência
ao
trabalho,
direito
do
homem
que
o
desemprego
lesa.
Da
natureza
do
trabalho
se
deduzem
os
direitos
fundamentais
sobe
o
salario,
as
relações
entre
trabalho
e
capital
etc.
d)
A
inclinação
à
sociedade
política
e
às
várias
formas
de
associação,
cujo
conhecimento
nos
leva
às
questões
sobre
as
formas
de
governo,
a
legitimidade
do
poder,
o
direito
de
associação
e
muitas
outras
coisas
mais.
f)
A
tendência
à
comunicação,
de
cuja
finalidade
se
depreende
o
dever
de
veracidade,
o
direito
de
boa
reputação
etc.
g)
Por
último,
a
inclinação
ao
conhecimento
e
às
diversas
formas
de
cultura
e
arte,
de
onde
se
depreende
o
direito
de
se
educar,
a
liberdade
de
ensinar
e
outros
direitos
e
deveres”.
(p.
151-‐152)
4.
A
índole
normativa
da
natureza
humana
-‐
Por
que
a
natureza
humana
é
normativa
e
a
natureza
dos
demais
seres
não?
-‐
“Para
o
homem,
agir
segundo
a
natureza
ou
ser
tratado
de
acordo
com
ela
é
algo
mais
que
uma
técnica.
É
uma
exigência
da
própria
natureza,
que
faz
com
que
sejam
deveres
os
comportamentos
que
levam
o
homem
a
atingir
seus
fins
naturais
e
que
sejam
proibidas
condutas
contrárias.
Antes
já
dissemos
qual
é
o
fundamento
disso:
a
natureza
racional,
pessoal,
do
homem.
Como
o
homem
é
pessoa,
sua
dignidade,
que
deriva
de
seu
ser
e
de
seus
fins,
exige
que
aja
e
seja
tratado
de
determinadas
maneiras.
Essas
regras
constituem
a
lei
natural,
que
tem
a
índole
de
verdadeira
lei”.
(p.
154)
5.
Função
da
lei
natural
-‐
Qual
é,
pois,
a
função
da
lei
natural?
Sua
função
específica
consiste
em
ser
base
ou
alicerce
da
ordenação
jurídica
e
da
ordem
política.
O
que
a
constituição
representa
no
20
sistema
de
leis
positivas
–
base
do
sistema
legal,
critério
inspirador
e
critério
de
validade
–
é
o
que
representa
a
lei
natural
em
relação
a
todo
o
sistema
de
leis”.
(p.
155)
-‐
Lei
natural
como
critério
de
validade:
Uma
lei
imoral
ou
injusta,
“não
é
uma
verdadeira
lei
que
vincule
o
homem
moralmente,
não
pertence
à
realidade
moral
humana,
mas
sim
ao
triste
campo
da
coação
e
da
violência
institucional”.
(p.
156)
6.
Quem
diz
o
que
é
lei
natural
-‐
“Quem
diz
o
que
é
direito
natural?
Aquele
que
diz
o
que
é
direito,
seja
positivo
ou
natural
(...).
Cabe
aos
juristas
dizer
o
que
é
direito
natural
–
assim
como
o
que
é
direito
positivo
–
de
duas
maneiras:
com
autoridade
jurídica
pública,
vinculatória
para
cada
caso
específico,
aos
juízes.
Com
autoridade
privada,
aos
juristas
especializados
em
direito
natural”.
(p.
158)
-‐
“E
quem
diz
o
que
é
de
lei
natural?
(...).
Dizer
o
que
é
de
lei
natural
cabe,
segundo
diversos
aspectos,
aos
moralistas,
aos
juristas
e
aos
especialistas
em
ciência
política”.
(p.
158)
7.
O
conhecimento
da
lei
natural
-‐
“O
que
acabamos
de
explicar
significa
que
apenas
os
peritos
e
especialistas
conhecem
a
lei
natural?
Indubitavelmente,
não”.
(p.
161)
-‐
“Todo
homem
tem
um
conhecimento
comum
ou
vulgar
dos
preceitos
fundamentais
e
básicos
da
lei
natural,
sabe
que
está
errado
matar
um
inocente,
(...).
A
lei
natural
é
um
preceito
da
razão,
e
no
conhecimento
pela
razão
é
possível
distinguir
dois
momentos
sucessivos
e
conexos.
Há
um
exercício
ou
uso
de
razão
comum
ou
geral
que
é
próprio
de
todo
homem
que
tenha
alcançado
o
desenvolvimento
normal
dessa
potência.
Depois
há
um
segundo
momento,
continuação
do
anterior,
que
investiga
e
chega
ao
porquê
e
ao
como
e
aprofunda
os
conhecimentos:
é
o
saber
científico”.
(p.
162-‐163)
-‐
“A
única
coisa
com
que
o
homem
nasce,
no
que
se
refere
à
lei
natural
(e
isso
é
suficiente
para
dizer
que
essa
lei
está
gravada
nele),
é
com
uma
correta
disposição
da
razão
–
o
hábito
ou
a
virtude
inata
da
sindérese
–,
pela
qual
esta
compreende
infalivelmente
que
deve
fazer
o
bem
e
evitar
o
mal,
embora,
depois,
por
ser
livre,
não
aja
consequentemente.
Da
mesma
maneira,
nasce
com
algumas
inclinações
naturais,
que
capta
como
direcionamento
para
seus
fins
naturais.
Sabe,
pois,
que
é
bom
–
portanto
deve
fazer
isso
ou
pode
fazer
isso,
conforme
o
tipo
de
inclinação
de
que
se
trate
–
agir
em
conformidade
com
essas
inclinações
e
mau
aquilo
que
as
desvia
de
seus
fins”.
(p.
163-‐164)
8.
O
“esquecimento”
da
lei
natural
-‐
Não
é
possível
o
esquecimento
dos
preceitos
fundamentais
ou
primários
da
lei
natural.
(cf.
p.
167)
9.
A
universalidade
da
lei
natural
21
-‐
“Todo
homem
nasce
com
a
retidão
de
razão
necessária
–
a
sindérese
–
para
saber
infalivelmente
os
primeiros
princípios
da
lei
natural:
faça
o
bem
e
evite
o
mal.
Tem
também
por
natureza
as
inclinações
que
lhe
são
próprias:
a
preservação
do
seu
ser,
a
tendência
ao
casamento,
a
religiosidade,
o
trabalho,
a
tendência
à
associação,
ao
saber
e
à
comunicação.
E
seu
ser
e
seus
fins
têm
a
mesma
exigência.
Por
isso
a
lei
natural
é
universal”.
(p.
168)
Referência
bibliográfica
HERVADA,
Javier.
O
que
é
o
direito?
A
moderna
resposta
do
realismo
jurídico.
Trad.
Sandra
Martha
Dolinsky.
São
Paulo:
WMF
Martins
Fontes,
2006.