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Filosofia - 3 12

O documento explora a natureza do ser humano, destacando a capacidade de pensamento e autodeterminação como características distintivas em relação aos animais. Através de exemplos como as meninas-lobo, discute-se como a socialização e a cultura moldam a humanidade. Além disso, aborda a liberdade humana em contraste com o determinismo animal, enfatizando que o ser humano é tanto criatura quanto criador de seu ambiente.

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Filosofia - 3 12

O documento explora a natureza do ser humano, destacando a capacidade de pensamento e autodeterminação como características distintivas em relação aos animais. Através de exemplos como as meninas-lobo, discute-se como a socialização e a cultura moldam a humanidade. Além disso, aborda a liberdade humana em contraste com o determinismo animal, enfatizando que o ser humano é tanto criatura quanto criador de seu ambiente.

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SGSESSLSSSDLSSSLDILLLLLLDEDADDEADLEELECECEPErTra

FILOSOFIA MÓDULO

O que é o ser humano? 01


A busca pelo conhecimento

O SER HUMANO: Muitos pensadores, ao longo dos séculos, buscaram definir


a natureza humana, diferenciando-a da dos demais animais.
O filósofo espanhol Jaime Balmes foi um desses pensadores.
UMA SÍNTESE ENTRE A esse respeito, ele afirma:

NATUREZA E CULTURA Somente a inteligência examina a si mesma. A pedra cai

sem tomar conhecimento de sua queda; [...] a flor nada


sabe de sua encantadora beleza; o animal bruto segue seus
O que é o ser humano? instintos, sem perguntar a razão de tê-los, apenas o ser

humano, na frágil organização que aparece um momento


sobre a terra para desfazer-se em pó, abriga um espírito que
depois de abarcar o mundo, anseia por compreender-se,
doe es
E sn ts mtem do recolhendo-se em si mesmo [...].
BALMES, 1. Filosofia fundamental. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 17 out. 2012
(Tradução nossa).

De acordo com a definição do filósofo, a marca distintiva


entre os seres humanos e os demais animais é a capacidade
que os humanos têm de pensar. No entanto, podemos
questionar essa definição e nos perguntarmos se o que
distingue a natureza humana é o pensamento.

O animal humano
Existem relatos de crianças que teriam crescido fora
do convívio humano e que, portanto, não teriam passado
pelo processo de adaptação necessário para desenvolver
habilidades e características próprias de sua espécie.
Um caso interessante é o das meninas-lobo, Amala e Kamala.
Leonardo da Vinci

Embora não possa ser considerado um relato verídico, esse


caso ilustra a capacidade adaptativa do ser humano ao meio
social. Diz-se que, em 1920, na Índia, foram encontradas
Homem Vitruviano. duas crianças, Amala (1 ano e meio) e Kamala (8 anos),
vivendo em meio a uma família de lobos. Segundo relatos,
Para começar a compreender a Filosofia, precisamos antes
elas se comportavam como animais, caminhavam de quatro,
conhecer aquele que a exercita, ou seja, o ser humano. apoiando-se sobre os joelhos e cotovelos, alimentavam-se de
Quando nos perguntamos “o que é o ser humano?”, carne crua ou podre, não possuíam características humanas
começamos nossa investigação filosófica, que tem como e nunca riam ou choravam. Após serem recolhidas por
fundamento o seguinte problema filosófico: o que há de uma instituição, Amala viveu por mais um ano e Kamala,
especial no ser humano que lhe permite buscar respostas por mais nove. Nesse período, Kamala foi se humanizando
sobre a origem e o funcionamento do Universo e sobre a lentamente, tendo aprendido a andar e a falar, embora com
sua própria natureza? um vocabulário bem restrito.

Editora Bernoulli | 3
Módulo 01
Esse relato instiga a discussão sobre o que distingue o O ser humano é o único animal que não possui nenhuma
ser humano dos outros animais. Levando esse caso em característica física especial que o capacite a lidar com os
consideração, é possível afirmar que o ser humano não nasce desafios das forças da natureza, sendo um dos animais mais
com características culturais e sociais, tipicamente humanas, frágeis e um dos únicos desprovidos de aparatos naturais
mas as adquire devido ao processo de socialização decorrente
que garantam sua sobrevivência. No entanto, devido à sua
de sua integração em uma cultura. De acordo com o relato,
capacidade de pensar, o ser humano consegue criar mecanismos
essas crianças, por terem sido privadas do contato humano
que lhe permitem superar as suas limitações físicas.
desde o seu nascimento, não realizavam ações como chorar,
sorrir e falar, e seu processo de humanização ocorreu apenas
quando elas foram levadas para o convívio social, o que lhes
Na história evolucionária, relativamente curta, documentada
permitiu desenvolver algumas características, afastando-se,
pelos restos fósseis, o homem não aperfeiçoou seu
assim, do mundo desumanizado no qual estavam inseridas.
equipamento hereditário por meio de modificações corporais
perceptíveis em seu esqueleto. Não obstante, pôde ajustar-
se a um número maior de ambientes do que qualquer outra
criatura, multiplicar-se infinitamente mais depressa do que
qualquer parente próximo entre os mamíferos superiores,
e derrotar o urso polar, a lebre, o gavião, o tigre, em seus
recursos especiais. Pelo controle do fogo e pela habilidade
de fazer roupas e casas, o homem pode viver, e vive e viceja,
desde o Círculo Ártico até o Equador. Nos trens e carros
que constrói, pode superar a mais rápida lebre ou avestruz.
Nos aviões, pode subir mais alto que a águia, e, com os
Creative Commons

telescópios, ver mais longe que o gavião. Com armas de


fogo, pode derrubar animais que nem o tigre ousa atacar.
Mas fogo, roupas, casas, trens, aviões, telescópios e
Rômulo e Remo, segundo a mitologia romana, foram os revólveres não são, devemos repetir, parte do corpo do
fundadores de Roma e teriam sido amamentados por uma homem. Pode colocá-los de lado à sua vontade. Eles não
loba.
são herdados no sentido biológico, mas o conhecimento
necessário para sua produção e uso é parte do nosso legado
Liberdade e determinismo social, resultado de uma tradição acumulada por muitas
gerações e transmitida, não pelo sangue, mas por meio da
Com exceção do ser humano, os demais animais vivem
fala e da escrita.
em harmonia com sua natureza, agindo de acordo com seus
instintos, o que torna possível prever seu comportamento CHILDE, V. Gordon. 4 evolução cultural do homem.
em diferentes situações. Por esse motivo, dizemos que os Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1966. p. 40-41.

animais são seres determinados, uma vez que herdam de


sua espécie a programação biológica que dita as regras
Enquanto os outros animais agem puramente por instinto,
de comportamento, não sendo possível que um animal,
vivendo em um mundo fechado e sem liberdade, adaptando-se
por vontade ou raciocínio, “decida” não fazer algo ou possa
à natureza e cumprindo as determinações de sua herança
agir de maneira diferente daquilo que já está predeterminado
biológica, o ser humano pode superar suas limitações naturais
por sua natureza. Nesse sentido, é possível afirmar que os
animais (a exceção do ser humano) não são livres. porque é capaz de adaptar a natureza às suas necessidades,
o que constitui o traço característico da presença humana no
Os animais não humanos já nascem com os aparatos
planeta. Ao afirmar que “toda a nossa dignidade consiste, pois,
naturais necessários para a sua sobrevivência e, portanto,
no pensamento”, o filósofo Blaise Pascal estava dizendo que o
com a possibilidade de adaptação ao meio em que vivem.
Suas ferramentas naturais, como asas, pelagem, garras, pensamento é o que torna os seres humanos especiais, pois,

dentes, além de tantas outras características, lhes permitem por meio dele, o ser humano pode encontrar respostas para
superar obstáculos e sobreviver a muitos desafios. Ainda que superar os constantes desafios de sua existência. Assim, entre

existam animais com um maior grau de “inteligência” - como todos os seres vivos, o ser humano é o único que pode escolher
os chimpanzés, os golfinhos, algumas raças de cães, entre agir de uma forma ou de outra, ou seja, se autodeterminar,
outros -, tal raciocínio é incomparável ao raciocínio humano sendo capaz, por esse motivo, de produzir cultura e de
e à sua capacidade de conhecer e de comunicar-se por meio transmiti-la aos seus descendentes por meio, principalmente,
de uma linguagem simbólica. da linguagem simbólica.

4 | Coleção Estudo
O que é o ser humano? A busca pelo conhecimento
DIIDID

O ser humano é livre


UU

“A ti, é Adão, não te temos dado, nem um lugar determinado,


nem um aspecto próprio, nem qualquer prerrogativa só tua,
ou determinado?
para que obtenhas e conserves o lugar, o aspecto e as
O conceito de liberdade, tomado no sentido antropológico, prerrogativas que desejares, segundo tua vontade e teus
não se refere ao sentido usado no senso comum, de que a motivos. A natureza limitada dos outros (seres) está contida
é livre para ir e vir, mas à possibilidade do sujeito
SSSSSSSSSGSSSSSSSSSDSDLESSDSSDIDIDDI

pessoa dentro das leis por nós prescritas. Mas tu determinarás a


de se autodeterminar, ultrapassando aquilo que lhe foi tua sem estar constrito por nenhuma barreira, conforme
ditado por sua natureza. Por outro lado, de acordo com a
DDD

teu arbítrio, a cujo poder eu te entreguei. Coloquei-te no


perspectiva do determinismo, as ações humanas, tal como meio do mundo para que, daí, tu percebesses tudo o que
a dos outros animais, estão previamente determinadas por existe no mundo. Não te fiz celeste nem terreno, mortal
condicionamentos, sejam biológicos, sociais, psicológicos, nem imortal, para que, como livre e soberano artífice, tu
políticos, entre outros, de modo que as ações podem ser mesmo te esculpisses e te plasmasses na forma que tivesses
antecipadas em uma relação de causalidade, não havendo,
escolhido. Tu poderás degenerar nas coisas inferiores, que
portanto, liberdade. Veremos como algumas posições
são brutas, e poderás, segundo o teu querer, regenerar-te
filosóficas diferentes tratam dessa questão.
nas coisas superiores, que são divinas”.

renascentista Pico della Mirandola é


O pensador ad
considerado um dos maiores representantes do humanismo
Ó suprema liberalidade de Deus, ó suma e maravilhosa
renascentista devido à sua reflexão sobre a dignidade
beatitude do homem! A ele foi dado possuir o que
humana, a qual está expressa no texto Discurso sobre
escolhesse; ser o que quisesse. Os animais, desde o nascer,
(1486). Nessa obra, Pico della
a dignidade do homem
já trazem em si, no 'ventre materno”, o que irão possuir Ea!
Mirandola defende que o ser humano é um verdadeiro
depois. [...] No homem, todavia, quando este estava por LL|
milagre, visto que, enquanto os outros seres nascem com O|
desabrochar, o Pai infundiu todo tipo de sementes, de
uma essência predeterminada, sendo ontologicamente [Can
obrigados a cumprir aquilo que a sua natureza determinou,
tal sorte que tivesse toda e qualquer variedade de vida. SE
As que cada um cultivasse, essas cresceriam e produziriam =
não por vontade própria, mas por uma vontade anterior a eles
Lo

nele os seus frutos. [...]


mesmos, o ser humano é, por sua vez, o único responsável
por si mesmo, pois é o único que pode se construir. MIRANDOLA, Pico della. A dignidade humana. Tradução
O ser humano foi colocado entre dois mundos, com uma de Luis Feracine. São Paulo: Escala. p. 39-42.

natureza não determinada e capaz de, por sua inteligência,


escolher ser o que quiser. Veja,no texto a seguir, como De acordo com a posição de Pico della Mirandola,
Mirandola expõe essa questão. apenas o ser humano é verdadeiramente livre, enquanto
os outros animais, nas palavras do filósofo, “desde o
nascer, já trazem em si, no 'ventre materno”, o que irão
possuir depois”.

Assim, apesar de um pássaro aparentar ser livre para


voar de um lado a outro, e o ser humano ser, muitas
vezes, absorvido em suas tarefas e obrigações diárias,
o pássaro não é livre porque ele age de acordo com uma
determinação de sua natureza. Por mais que ele possa se
locomover de um lado a outro, ele não o faz porque escolhe
ou quer fazê-lo, mas tão somente porque obedece aos seus
instintos, agindo de forma mecânica. O ser humano, por
outro lado, tem a possibilidade de se autodeterminar, e,
Kyle May / Creative Commons

inclusive, de controlar seus instintos, não sendo escravo de


sua natureza. Dessa forma, para Mirandola, o ser humano
se constitui de características advindas da natureza e da
cultura, sendo, portanto, uma síntese entre os dois polos,

o que possibilita que ele transforme a natureza, mas


Ao contrário dos demais animais, que estão presos aos seus
também seja influenciado por ela, sem, no entanto, ser
instintos, o ser humano tem a capacidade de se autodeterminar
por meio de suas escolhas. determinado. É criatura e criador do mundo em que vive.

: a
Editora Bernoulli | 5
Es

Pp

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E
SODPOODEODPPPDPDPOPOPOPOPPOPOPEEEPOPEOOPCPOPPOTPPCLTÇTTL
Módulo 01
À sintese humana Alguns pensadores consideram que o ser humano tem,
além de suas necessidades físicas, instintos que direcionam
Refletindo sobre a natureza humana, o filósofo francês certas ações e que tendem a determinar alguns modos do ser
Jean-Jacques Rousseau escreveu: humano viver e agir no mundo.
EEE ESSE EEE EEE,

Como se sabe, a linguagem corrente usa a palavra


A terra abandonada à fertilidade natural e coberta por
“instinto” com muita frequência, falando sempre de ações
florestas imensas, que o machado jamais mutilou, oferece,
“instintivas”, quando se tem diante de si um comportamento
a cada passo, provisões e abrigos aos animais de qualquer
em que nem os motivos nem a finalidade são conscientes e
espécie. Os homens, dispersos em seu seio, observam,
que só foi ocasionado por uma necessidade obscura. Essa
imitam sua indústria e, assim, elevam-se até os instintos
peculiaridade já fora acentuada por um escritor inglês mais
dos animais, com a vantagem de que, se cada espécie
antigo, Thomas Reid, que diz: [...] “Por instinto, entendo um
não possui senão o seu próprio instinto, o homem, não
impulso natural cego para certas ações, sem ter em vista um
tendo talvez nenhum que lhe pertença exclusivamente,
determinado fim, sem deliberação, e muito frequentemente
apropria-se de todos, igualmente se nutre da maioria dos
sem percepção do que estamos fazendo”. [...] Se alguém
vários alimentos que os outros animais dividem entre si
topa de repente com uma serpente e é tomado de violento
e, consequentemente, encontra sua subsistência mais
pavor, este impulso pode ser considerado instinto, pois
facilmente do que qualquer deles poderá conseguir.
nada o diferencia do medo instintivo que um macaco sente
ROUSSEAU, Jean-Jaques. Discurso sobre a origem e os
diante de uma cobra. São justamente essa similaridade
fundamentos da desigualdade entre os homens.
Tradução de Lourdes Santos Machado. São Paulo: do fenômeno e a regularidade de sua recorrência que
Abril Cultural, 1978. p. 238. (Os Pensadores) constituem a propriedade mais característica do instinto,
[...] [0] medo de uma cobra trata-se de um processo
teleológico, que ocorre universalmente [...]. Assim,
Nesse trecho, Rousseau chama a atenção para a
só se deveria considerar como instintos os processos
capacidade do ser humano de aprender, o que o difere dos
inconscientes e herdados que se repetem uniformemente
demais animais. Aristóteles já dizia que o ser humano,
e com regularidade por toda parte. Ao mesmo tempo, eles
por natureza, ama as sensações, porque é por meio delas
devem possuir a marca da necessidade compulsiva, ou
que ele obtém o conhecimento. Assim, enquanto os outros
seja, um caráter reflexo [...]. No fundo, tal processo só se
animais guiam-se apenas pelos seus instintos, determinados
distingue de um reflexo meramente sensitivo-motor por
previamente pelas características naturais de sua espécie,
sua natureza bastante complicada. [...]. As qualidades que
o ser humano pode observar os outros animais e, fazendo
os instintos têm de comum com os simples reflexos são a
uso de sua inteligência, copiar aquilo que um animal fez por uniformidade, a regularidade, bem como a inconsciência
instinto para adequar-se ao ambiente no qual se encontra. de suas motivações.

A capacidade humana de aprender amplia sua rede de JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Tradução de
Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha. Petrópolis: Vozes, 1984,
possibilidades, pois o ser humano consegue ultrapassar
capítulo VI, v. VIII/2. Obras Completas. (264-266)
seus aparatos naturais. Os outros animais não podem
escolher fazer uma coisa ou outra, porque suas ações são
Jung considera que o ser humano é constituído por uma
determinadas pela herança biológica de sua espécie e,
natureza que determina alguns aspectos da vida humana,
por isso, eles não são considerados livres. O ser humano,
sobre os quais ele não tem o poder de controlar nem de
ao contrário, pode fazer uso de sua razão e escolher agir.
deliberar, tais como temer um animal que pode colocar sua
Considerando essa característica humana, muitos filósofos vida em risco. Contudo, há características humanas que
aplicaram a ideia de liberdade à condição humana. Contudo, não são determinadas instintivamente, mas são fruto de
há no ser humano fatores biológicos ditados por sua espécie sua cultura, uma vez que o ser humano é frequentemente
dos quais ele não pode se privar, tais como a necessidade capaz de adaptar suas ações de acordo com valores e ideias
de comer, dormir e beber água. Diante do fato de que o ser que lhe foram transmitidos pela cultura. Outra característica
humano tem um aspecto determinado em sua natureza e, que marca a diferença do ser humano em relação aos
por outro lado, tem a possibilidade de escolher, diversas demais animais é a sua possibilidade de se projetar ao
respostas foram fornecidas a esse problema filosófico: o ser futuro, tomando como baliza o passado e as experiências
humano é livre ou é determinado? do presente para fazer suas escolhas.

6 | Coleção Estudo
O que é o ser humano? A busca pelo conhecimento
LA
Heitor é considerado um herói devido ao fato de sua ação
Já ouviste falar das não ter sido, como no caso das formigas, instintiva, mas
SISSISIDILIDLLLLLLLL

Vou contar-te um caso dramático.

térmitas, essas formigas brancas que, em África, constroem deliberada. Nesse sentido, Heitor poderia ter escolhido não
defender seus companheiros para salvar sua própria vida.
formigueiros impressionantes, com vários metros de altura
Assim, o texto de Savater nos leva a pensar no fato de que
e duros como pedra. Uma vez que o corpo das térmitas é
o ser humano tem a possibilidade de escolher agir de um
mole, por não ter a couraça de quinina que protege os outros fazer
modo ou de outro, enquanto outros animais não podem
insetos, o formigueiro serve-lhes de carapaça coletiva contra
deliberações sobre aquilo que lhes foi ditado pela natureza.
certas formigas inimigas, mais bem armadas do que elas.

Mas por vezes um dos formigueiros é derrubado, por causa

duma cheia ou de um elefante (os elefantes, que havemos A NECESSIDADE DE CONHECER” |


nós de fazer, gostam de coçar os flancos nas termiteiras).
[...]a Filosofia não é a revelação feita ao ignorante
A seguir as térmitas-operário começam a trabalhar para por quem sabe tudo, mas o diálogo entre iguais que se
reconstruir a fortaleza afetada, e fazem-no com toda a fazem cúmplices em sua mútua submissão à força da
pressa. Entretanto, já as grandes formigas inimigas se razão e não à razão da força.
em defesa SAVATER, Fernando. As perguntas da vida. Tradução
lançam ao assalto. As térmitas-soldado saem
de Mônica Stahel. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 2.
da sua tribo e tentam deter as inimigas. Como nem no

nem no armamento podem competir com elas, nenhum filosofa, nem deseja tornar-
tamanho Dos deuses
penduram-se nas assaltantes tentando travar o mais se sábio, pois o é; nem se algum outro é sábio, não
filosofa. Nem, por sua vez, os ignorantes filosofam ou
A

possível o seu avanço, enquanto ferozes mandíbulas


As operárias trabalham desejam tornar-se sábios. Pois é isto mesmo que é
invasoras as vão despedaçando.
<
com toda a velocidade e esforçam-se por fechar de novo difícil com relação à ignorância: aquele que não é nem TE
belo nem bom nem sábio considera sê-lo o suficiente. Õ
a termiteira derrubada... mas fecham-na deixando de fora
Aquele que não se considera ser desprovido de algo não
o
as pobres e heroicas térmitas-soldado, que sacrificam as Õ
das restantes formigas. Não
deseja aquilo de que não acredita precisar. =
suas vidas pela segurança
PLATÃO. Banquete, 204 A 1-7.
TE
merecerão estas formigas pelo menos uma medalha? Não

A busca pelo conhecimento


será justo dizer que são valentes?
SSDISS

Mudo agora de cenário, mas não de assunto. Na Ilíada,


S

Homero conta a história de Heitor, o melhor guerreiro Sócrates disse, celebremente, que uma vida sem reflexão
de Troia, que espera a pé firme, fora das muralhas da não merece ser vivida. Queria ele dizer que uma vida vivida

sua cidade, Aquiles, o enfurecido campeão dos Aqueus, sem ponderação nem princípio é uma vida tão vulnerável ao
sabendo que Aquiles é mais forte e que ele acaso e tão dependente das escolhas e ações de terceiros
embora
para cumprir o seu que pouco valor real tem para a pessoa que a vive. Queria
provavelmente vai matá-lo. Fá-lo
ainda dizer que uma vida bem vivida é aquela que possui
dever, que consiste em defender a família e os concidadãos
DD SS ADS

objetivos e integridade, que é escolhida e orientada pelo


do terrível assaltante. Ninguém tem dúvidas: Heitor é que a vive, tanto quanto é possível a um agente humano
um herói, um homem valente como deve ser. Mas será enredado nas teias da sociedade e da História.
maneira que as
Heitor heroico e valente da mesma
Como a expressão sugere, a “vida com reflexão” é uma vida
ES

térmitas-soldado, cuja gesta milhões de vezes repetida enriquecida pelo pensamento acerca das coisas relevantes:
nenhum Homero se deu ao trabalho de contar? Não faz valores, objetivos, sociedade, as vicissitudes características

Heitor, afinal de contas, a mesma coisa que qualquer da condição humana, aspirações tanto pessoais como
uma das térmitas anônimas? Por que nos parece o públicas [...]. Não é necessário chegar a teorias apuradas
sobre todos estes assuntos, mas é preciso conceder-lhes
seu valor mais autêntico e mais difícil do que o dos
pelo menos um nadinha de reflexão [...]. Pensar sobre estes
insetos? Qual é a diferença entre um e outro caso?
assuntos é como examinar um mapa antes de começar a

SAVATER, Fernando. Ética para um jovem. viagem [...]. Uma pessoa que não pense na vida é como um
Lisboa: Presença, 1995. p. 21-22. forasteiro sem mapa numa terra estrangeira: para alguém
assim, perdido e desorientado, um desvio no caminho é tão
bom como qualquer outro e, se o rumo tomado conduzir a
Nota-se, com os exemplos de Savater, que as formigas
um local que vale a pena, terá sido meramente por acaso.
rérmitas “salvam” as outras não por escolha, mas por
GRAYLING, A. €. O significado das coisas.
instinto, enquanto o personagem de Troia fez uma Lisboa: Edições Gradiva, 2002. p. 11-12.
deliberação para defender seus concidadãos de Aquiles.

Editora Bernoulli | Z
Módulo 01

Ata AA TAS
O ser humano, único ser que pensa de forma apurada e
com avançado grau de abstração, tem uma necessidade Como é possível alcançar
intrínseca de procurar o conhecimento sobre todas as coisas,
buscando, assim, respostas para as mais diversas perguntas.
o conhecimento
Para tentar alcançar o conhecimento e responder aos
questionamentos que surgem em sua vida, o ser humano
Conhecimento intuitivo
dispõe de duas ferramentas básicas que lhe possibilitam e conhecimento demonstrativo

1,
conhecer o mundo e a si mesmo: O conhecimento intuitivo é obtido sem nenhuma
1 - Razão: Por meio dela, a pessoa é capaz de produzir interação com conceitos previamente estabelecidos.
um conhecimento elaborado e fundamentado em Esse tipo de conhecimento é imediato, ou seja, independe
argumentação sistemática, buscando o conhecimento de intermediários para que aconteça. O conhecimento
verdadeiro sobre o mundo que a cerca a partir do
intuitivo pode ser:
encadeamento de ideias e de juízos e elaborando
uma conclusão. Da razão, surgem os dois modos = — empírico: quando a pessoa se baseia em seus cinco
de conhecimento tradicionalmente conhecidos: sentidos (tato, olfato, visão, paladar e audição) para

e q
a Filosofia e a Ciência. elaborar um conhecimento sobre aquilo que percebe.
2 - Imaginação: Em geral, quando o ser humano não - — intelectual: quando a pessoa busca captar a
consegue explicar o real por meio da razão, ele usa essência de um ser por meio do pensamento. Não é
a sua imaginação, de forma a tentar explicar, por meio possível, entretanto, compreender o encadeamento
de manifestações míticas, religiosas ou artísticas,
de ideias que levou a tal pensamento, já que se
as questões para as quais ainda não encontrou respostas.
chegou a ele de forma imediata. Não se pode provar
Por meio da arte, por exemplo, o ser humano busca

fe PERES
compreender o mundo e a si mesmo, manifestando sua ou justificar o pensamento.
visão de mundo em sua própria criação. O conhecimento demonstrativo é chamado também
de discursivo. Esse tipo de conhecimento se baseia em um
O que é o conhecimento encadeamento de ideias, juízos ou conceitos gerando uma
conclusão a partir da organização do pensamento. Para
Aristóteles já dizia que é próprio do ser humano buscar
que tal conhecimento seja possível, faz-se necessária a
o conhecimento e, por isso, não há a possibilidade de o ser
linguagem, ao contrário do conhecimento intuitivo, no qual
humano se contentar em não realizar essa busca, ignorando
um problema e abdicando da tarefa de pensar. Surge, com a pessoa experimenta os seres e as coisas por meio dos
isso, a pergunta sobre como o ser humano pode obter o sentidos, formando, em sua mente, a ideia sobre aquilo que
conhecimento. foi experimentado.
eso

O filósofo italiano Nicola Abbagnano propôs uma definição


Realismo e idealismo
de conhecimento em seu Dicionário de Filosofia:

PERRRO
1 - Realismo: Segundo o realismo, o conhecimento
1- A primeira interpretação (de conhecimento) ocorre quando, na relação entre sujeito cognoscente
é a
mais comum na Filosofia ocidental. Pode, por sua e objeto conhecido, o sujeito consegue apreender,
vez, ser dividida em duas fases diferentes: pelos sentidos, a realidade do objeto em sua mente.
A) na primeira, a identidade ou a semelhança Assim, o objeto ou ser pode ser apreendido pela
com o objeto é entendida como identidade ou pessoa quando ela “traz” para sua mente as suas
semelhança dos elementos do conhecimento com
características sensitivas captadas por um dos cinco
os elementos do objeto: p. ex., dos conceitos ou
sentidos, havendo uma predominância do objeto
das representações com as coisas;
em relação ao sujeito cognoscente, uma vez que
B) na segunda fase, a identidade ou a semelhança

uy |! |
restringe-se
o objeto tem uma realidade em si. Dessa forma,
à ordem dos respectivos elementos:
nesse caso, a operação de conhecer não consiste em o conhecimento acontece quando a realidade do
reproduzir o objeto, mas as relações constitutivas objeto é impressa, tal como a imagem de um carimbo,
do próprio objeto, isto é, a ordem dos elementos. na mente humana.
Na primeira fase, o conhecimento é considerado imagem ou
2 - Idealismo: Na concepção idealista, ao contrário da
p | N | p |
retrato do objeto; na segunda fase, tem como objeto a mesma
relação que um mapa tem com a paisagem que representa. realista, há uma predominância do sujeito em relação
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Tradução de
ao objeto no processo de formação do conhecimento,
Alfredo Bosi. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 175. acreditando-se que o conhecimento do objeto é
determinado pelo sujeito cognoscente. Nesse sentido,
De acordo com o filósofo italiano Nicola Abbagnano, a realidade do objeto não é problematizada, mas
o conhecimento é alcançado quando o indivíduo pode trazer sim o que o sujeito pensa sobre ele, uma vez que o
para a sua mente a representação exata daquilo que está conhecimento consiste na ideia formulada pelo sujeito
fora dele, ou seja, do objeto que está sendo investigado. sobre o objeto. Dessa forma, não se busca saber se
Para que exista o conhecimento, é necessário, portanto, que tais características estão em si e por si no objeto
haja uma relação entre sujeito cognoscente (sujeito que
' N H! |

durante processo do conhecimento, mas sim como


conhece) e objeto cognoscível (objeto a ser conhecido).
a pessoa formula uma ideia acerca desse objeto.

8 | Coleção Estudo
Sodosdasaanaaro
Tipos de conhecimento
e a si mesmo, o ser humano A Filosofia investiga, inclusive, o próprio processo [e [o
Para buscar conhecer o mundo
conhecimento, corrente de pensamento denominada
possui duas ferramentas naturais: a razão e a imaginação.
A partir dessas ferramentas, originam-se diferentes tipos de Epistemologia. Além disso, O saber filosófico busca,
conhecimento, como o mítico ou religioso, o artístico, O ii [oso)picop por meio de uma investigação rigorosa, a origem dos
o científico e o do senso comum. Embora distintos, todos eles problemas, relacionando-os à vida humana em seus
]

buscam compreender e desvendar, cada um = Rsjt ic ate ate inúmeros aspectos.


O que é o mundo e o ser humano. Nesse sentido, não devemos Ciência: Buscando compreender o mundo por meio de
nos questionar sobre qual desses conhecimentos é o mais relações de causa e efeito e fazendo uso de um método
“verdadeiro”, uma vez que consistem em formas distintas de empírico de pesquisa, a Ciência empenha-se na construção de
conhecer o mundo e o ser humano e, por isso, não podem ser
um conhecimento objetivo, no qual haja pouca ou nenhuma
hierarquizados.
interferência de aspectos subjetivos do pesquisador nas
Mito ou religião: O conhecimento mítico ou religioso respostas obtidas. A Ciência caracteriza-se, ainda, por ter um
sustenta-se na fé e na confiança daqueles que o recebem e, objeto de estudo determinado, o qual busca explicar de maneira
por ser produzido pela imaginação, suas verdades não podem especifica. A Física, por exemplo, estuda o movimento dos
ser provadas nem defendidas argumentativamente. Em geral, corpos, sem se preocupar com suas características qualitativas,
diante de um fato inexplicável ou mesmo de uma manifestação mas somente com as quantitativas. Em geral, o conhecimento
característica do ser humano — como um arroubo de raiva científico propicia, entre outras coisas, a criação de novas
e ira =, o mito busca uma explicação mágica e sobrenatural tecnologias.
para a causa do acontecimento, a qual não precisa ser,
1

necessariamente, justificada ou provada de forma racional, Senso comum: Ocupando um lugar intermediário entre
A maioria das explicações míticas refere-se a deuses, forças o campo da imaginação e O da razão, o conhecimento obtido
cósmicas, predestinação e outros princípios que determinam a por meio do senso comum pode ser verdadeiro - como
natureza e a vida do ser humano. exemplo, alguns conhecimentos sobre o funcionamento
da natureza -, porém não possui fundamentação teórico-
Arte: As manifestações artísticas constituem uma forma de
racional. O conhecimento do senso comum caracteriza-se,
conhecimento na qual a interpretação do mundo se dá pela
sensibilidade do artista. Ao olhar o mundo, considerando o principalmente, pela aceitação passiva e acrítica-de afirmações,
contexto histórico e social e os mais variados acontecimentos, sem se comprometer com a' investigação das suas causas
NNE

o artista transpõe para sua obra o seu modo particular de sentir e fundamentos. É espontâneo, adquirido pela tradição ou
e de interpretar o que se passa dentro e fora de si mesmo. transmitido pelos grupos sociais de cada cultura. Por um lado, tem
A arte, muitas vezes, pode ser utilizada como enttica social ou o aspecto positivo de tornar a vida prática mais facil, e, por outro,
como representação dos sentimentos humanos, ao retratar, por apresenta um caráter negativo, pois faz com que muitas pessoas
exemplo, a tristeza e o desespero durante uma guerra. aceitem as informações passivamente, tornando-se massa de
manobra nas mãos de grupos ou pessoas mal-intencionadas.
Filosofia: O conhecimento filosófico prioriza a racionalidade,
Um exemplo disso é a reeleição de políticos corruptos, que
a fundamentação teórica e a crítica de ideias por meio de uma
da

investigação sistemática e racional, buscando compreender, conseguem retornar ao poder devido a falta de criticidade de
determinadas pessoas.
de modo profundo e totalizante, o mundo e o ser humano.
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7

SENSO
1

e COMUM
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O SD

Na busca de compreensão do mun


o ser humano encontrou várias form
explicar o mesmo evento.
Módulo 01
E possível conhecer a verdade?
Uma das principais questões filosóficas é saber se o ser
humano é capaz de conhecer a verdade, se é possível alcançar
o conhecimento da realidade própria do ser. Primeiramente,
deve-se ressaltar que, por verdade, entende-se aquilo que
corresponde à realidade do ser.
Ao longo da história da Filosofia, muitos pensadores
buscaram encontrar o princípio fundamental (conhecido
também como essência, substância ou realidade primeira) do
ser, e esse problema filosófico, ainda hoje, é considerado por

William Blades
muitos teóricos como um dos mais importantes da Filosofia.
Para buscar responder às perguntas sobre a possibilidade

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de conhecimento, muitas teorias foram formuladas ao longo Discussão noite adentro. A discussão é a “matéria-prima”
da história, destacando-se, dentre elas, por seu grau de fundamental para se fazer Filosofia.
generalidade, o ceticismo e o dogmatismo.
1 - Racionalismo: O racionalismo é uma doutrina filosófica
1 - Ceticismo: tomando o ceticismo sob uma abordagem que defende que o conhecimento somente pode ser
mais geral, de acordo com essa corrente filosófica adquirido por meio da razão (pensamento humano).
fundada pelo grego Pirro (365-275 a.C.), não é possível De acordo com essa posição, há a prevalência do
conhecer nada com segurança, sendo que tudo aquilo sujeito cognoscente em relação ao objeto pensado.
que a pessoa considera ser a verdade não passa de uma O processo do conhecimento não ocorre, assim,
ilusão, pois se fundamenta em impressões subjetivas. por meio da experiência dos sentidos, fonte de enganos,
A atitude do cético deve ser de dúvida, de investigação uma vez que duas pessoas podem perceber a mesma
de posições contrárias e da consequente suspensão realidade de formas distintas. Apenas a razão, a partir
dos juízos, uma vez que alcançar o conhecimento de um método sistematizado, permite ao ser humano
verdadeiro é impossível e não cabe ao ser humano se alcançar verdades universalmente aceitas. De acordo
dedicar a essa busca. Em linhas gerais, cético é aquele com o método racionalista, o filósofo deveria seguir
que, ao contrapor duas afirmações opostas e constatar passos bem definidos por meio de princípios lógicos
que ambas são plausíveis, não reconhece nenhuma inatos e que fundamentariam as verdades. Como
delas como verdadeira, suspendendo o seu juízo acerca exemplo, podemos citar o princípio da não contradição,
de tais afirmações. segundo o qual nenhuma proposição pode ser falsa e
verdadeira ao mesmo tempo.
2 - Dogmatismo: A corrente dogmática, ao contrário
2- Empirismo: De acordo com a posição empirista,
da cética, defende ser possível encontrar a verdade
o conhecimento verdadeiro só pode ser adquirido por
sobre os seres e as coisas. O dogmático acredita ser
meio das experiências. As impressões da realidade
capaz de conhecer o mundo já que, para isso, basta
obtidas pelos sentidos são enviadas à mente, onde o
uma atividade perceptiva. No entanto, muitas vezes,
pensamento as organiza, originando as ideias (cópias
a posição dogmática é própria do senso comum, que
das impressões e experiências que as pessoas obtêm
não percebe os problemas existentes entre o sujeito
do mundo sensível). Embora a razão atue na formação
cognoscente e o objeto conhecido. De acordo com
do conhecimento (as ideias), há um predomínio da
o dogmatismo crítico, o ser humano pode conhecer
experiência para sua formulação. Assim, o sujeito
Os seres e as coisas em sua realidade por meio do cognoscente apreende a realidade do objeto, alcançando
esforço racional e empírico, seguindo os caminhos a sua verdade à partir de seus cinco sentidos. De acordo
precisos do método científico que leva o ser humano com o empirismo, a mente humana é uma tábula rasa,
ao conhecimento da realidade. uma folha em branco em que não existe nenhuma ideia
inata, sendo as ideias “escritas” nessa folha à medida
que a pessoa experimenta o mundo e os objetos.
Os caminhos para o conhecimento:
3 - Criticismo ou apriorismo kantiano: O filósofo alemão
Epistemologia ou Teoria do conhecimento Immanuel Kant (1724-1804) realizou uma importante
revolução em relação às teorias formuladas até então
Outro problema importante da Filosofia (para alguns
sobre a possibilidade do conhecimento. Para ele,
estudiosos, o seu problema fundamental) é determinar qual é
o conhecimento começa com a experiência e termina com
o caminho correto que leva o ser humano ao conhecimento de
a razão, uma completando a outra e ambas construindo
si e do mundo. Esse conhecimento é construído pela pessoa
juntas as ideias sobre o mundo. A experiência recolhe
e, para chegar a ele, é necessário percorrer um caminho,
dos objetos seus dados sensíveis e, então, a razão
ou seja, seguir um método. Contudo, os filósofos discordam
trabalha com esses dados, levando à construção das
quanto ao melhor método para garantir que o sujeito
ideias, produzindo, com isso, o conhecimento. Com Kant,
conhecedor alcance a verdade sobre o objeto conhecido. pela primeira vez na história da Filosofia, considerou-se
Acerca desse problema, surgiram, ao longo da História da que experiência e razão trabalham juntas para que as
Filosofia, várias teorias, dentre as quais destacamos as três ideias sejam formadas, em uma posição que seria um
mais importantes: racionalismo, empirismo e criticismo.
meio-termo entre racionalismo e empirismo.

1 O | Coleção Estudo
4 DS
O que é o ser humano? A busca pelo conhecimento

O QUE É FILOSOFIA?
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Ao longo de sua história, a Filosofia ganhou diversos significados. A palavra “filosofia” originou-se do termo grego philosophia,
que significa amor à sabedoria, amizade pelo saber (philos: amor, amizade; sophia: sabedoria). De acordo com esse significado,
filósofo é aquele que ama o saber e o busca constantemente. Muitos teóricos concordam com o fato de que o grego Pitágoras
de Samos (século V a. C.) foi o primeiro a utilizar o termo “filósofos” para se referir a si e àqueles que, dentre a multidão que
assistia aos jogos olímpicos, dedicavam-se a observar tudo e todos, buscando conhecer as pessoas, os fatos e tudo que fizesse
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parte da vida humana. Partindo dessa constatação, é possível compreender a expressão pitagórica que resume a essência
da Filosofia e do ato de filosofar: “[...] a sabedoria pertence aos deuses, mas os homens podem desejá-la, tornando-se
filósofos”. De acordo com essa concepção, a Filosofia não é um conhecimento acabado transmitido por meio de lições e
exposições exatas e matematicamente formatadas, mas um modo próprio de se posicionar frente à realidade, levando a
pessoa ao questionamento constante das ideias, dos valores, dos acontecimentos, e de tudo o que constitui a vida humana.

Para entender no que consiste o pensamento filosófico, podemos partir de uma análise comparativa entre o que é eo que
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não é Filosofia.

O que diz o termo Filosofia O que não é Filosofia

1. Modo de viver ou sabedoria de vida: Entendido dessa 1. Ciência: Embora, em seu nascimento com os filósofos
forma, o termo filosofia tem um caráter pessoal, sendo a maneira pré-socráticos, a Filosofia fosse considerada uma: ciência, já com
como uma pessoa vê o mundo e se porta diante dele. Ao afirmar Sócrates a Filosofia seguiu por caminhos distintos do das ciências,
“esta é a minha filosofia de vida”, a pessoa está dizendo que é uma vez que as ciências têm seus objetos de estudo determinados,
desta ou daquela maneira que ela encara a vida e dá significado enquanto a Filosofia não. Como exemplo, os objetos de estudo da
às ideias, aos fatos e a si própria. Física são os movimentos dos corpos, no Direito são as leis e o seu
2. Pensamento ou origem das ideias: O termo filosofia é papel social. A Filosofia, por outro lado, está em busca da verdade =
tido, nesse caso, como o mero ato de pensar. Ao afirmar “estou e, nesse sentido, o pensamento filosófico perpassa todos os objetos EE
(e)
filosofando”, a pessoa quer dizer que está apenas pensando sobre de estudo das ciências, servindo como fonte questionadora e crítica
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algo. Essa concepção é muito utilizada pelo senso comum e leva para elas. Por essa razão, compreende-se por quea Filosofia era fe»
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à banalização do pensamento filosófico, pois apresenta a Filosofia


como um pensamento não sistemático, um “viajar” desconectado
conhecida na Antiguidade Grega como “a ciência das ciências”. ==
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da realidade e do mundo. Segundo essa concepção, a Filosofia seria 2. Religião: Embora a Filosofia seja uma forma de
um pensamento que “sai de nenhum lugar e leva a lugar nenhum”, questionamento sobre as explicações religiosas e suas origens,
contrariando o percurso que é próprio à Filosofia.
levando a pessoa a olhar criticamente para as diversas formas de
3. Busca da verdade e fundamentação teórica sobre o manifestação religiosa, o pensamento filosófico baseia-se princi-
ser humano e o mundo: O termo filosofia, visto aqui como um palmente na razão, enquanto a religião baseia-se na fé. Logo, não
conceito mais próximo à sua concepção originária, é um modo de é correto associar a Filosofia à religião, pois, embora ambas sejam
pensar o mundo, buscando, por meio da análise, do questionamento
formas legítimas de tentar explicar o ser humano e o mundo, seus
e da reflexão, a verdade sobre o ser humano, a sociedade e o
fundamentos são distintos.
pensamento, ou seja, tudo o que pode ser pensado e que diz respeito
à vida humana e à sua cultura. Nesse sentido, a Filosofia ocupa um 3. Pensamento vazio: A Filosofia não trabalha com um
lugar privilegiado no conhecimento humano, já que, desde o seu pensamento sem objetivos e sem critérios. Pelo contrário,
nascimento até os nossos dias, consiste em uma atitude diante do
o pensamento filosófico é sistemático, possui começo, meio e fim e
mundo, na busca de compreendê-lo racionalmente. A Filosofia é,
busca fundamentar a realidade de forma racional e compreensível,
nessa concepção, a busca incessante pelo conhecimento verdadeiro,
utilizando-se, para isso, de argumentos que defendam suas
que, embora frequentemente transitório, deve ser constantemente

Rafael Resende
buscado e ressignificado. conclusões que sejam inteligíveis a todos.

radical, pois busca as raízes do processo, em um conhecimento profundo, rejeitando o conhecimento


superficial.

rigoroso, uma vez que busca formular um encadeamento de ideias que levam a conclusões
A Filosofia é um pensamento
coerentes, rejeitando contradições e ambiguidades.

de conjunto, pois busca um conhecimento que não fragmenta o real, proporcionando uma visão
total da realidade em suas explicações e teorias.

Desse modo, a Filosofia não se confunde com nenhuma outra forma de ser e de compreender a realidade e o ser humano.
Ao contrário, ao questionar o que é o ser humano e a própria realidade, a Filosofia vai além de todas as formas de conhecimento.

Editora Bernoulli |
11
BS ócuo:

PRRPLTTÇTLL
À atitude filosófica: O desafio da Filosofia é, portanto, desenvolver a atitude
filosófica a partir dos seguintes questionamentos:
questionar sempre
Ao longo de sua vida, o ser humano recebe
informações por meio de diferentes fontes. A família, a escola,
diversas For que as coisas são como são?

os meios de comunicação, os vizinhos e todos aqueles que as ideias


participam do crescimento e do desenvolvimento
criança contribuem, cada um a seu modo, para a formação de
de uma O que
os fatos são?
valores, ideias, preconceitos e tudo aquilo que faz parte de sua
formação individual, moral e social. Esse processo, que é natural
e acontece com todas as pessoas, é chamado de educação.
Como os valores

Em determinado momento da existência humana,


é necessário que tais ideias e valores, até então recebidos Quais as consequências disso em nossas vidas?

Rafael Resende
passivamente pela pessoa (do exterior para o seu interior)

REP PEEEEPEPEPPEPREPPPRERO A)
se individualizem. Nesse momento, a pessoa, já amadurecida
intelectual e moralmente, deve encontrar um sentido próprio Embora, em um primeiro momento, pareça difícil adotar
para o que ela apreendeu, até então, de forma acrítica. Esse uma atitude filosófica, ela pode ser praticada por todas as
processo de crítica e de busca do sentido dos valores, ideias pessoas, bastando, para isso, passar por dois momentos
e preconceitos, é chamado de atitude filosófica, e é ele que culminarão em uma conclusão filosófica:
que leva a pessoa a questionar tudo aquilo que considerava 1º — Negação: Nesse primeiro momento, o sujeito nega
natural.
a ideia, valor ou preconceito, afastando-se dele.

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Muitas vezes, por acreditar que as coisas são exatamente y
como aprendeu, a pessoa não as questiona, assumindo, “Essa ideia não é minha, pois não fui eu quem a
assim, uma postura passiva diante do conhecimento. pensou. Eu simplesmente a recebi e aceitei de forma
Por exemplo, uma pessoa acredita que a Terra gira em torno passiva e acrítica.”
do Sol, pois foi assim que lhe ensinaram na escola. Porém,
2º -Questionamento: Nesse segundo momento,
nem sempre esse conhecimento foi tido como verdadeiro.
o indivíduo se questiona, critica e investiga essa
Durante cerca de 1 000 anos, as pessoas acreditaram que
ideia, buscando sua fundamentação teórica e lógica.
era o Sol que girava em torno da Terra, e essa crença só
U
veio abaixo após as descobertas científicas do astrônomo
“O que, como e por que essa ideia, valor, preconceito
e sacerdote católico Nicolau Copérnico (1473-1543), que
é como é?”
afirmou que a Terra não era o centro do Universo. Essa
mudança de pensamento só foi possível porque uma pessoa Resultado do processo filosófico: Consequência dos
questionou as crenças e verdades tidas até então como dois momentos anteriores, o resultado é obtido quando a

/
únicas e com as quais os sujeitos haviam se acostumado. pessoa alcança a conclusão, que pode confirmar ou negar
É nesse questionamento das crenças estabelecidas que se a ideia, valor ou preconceito original, devendo proporcionar
encontra a atitude filosófica, que consiste em refletir sobre um sentido individual e lógico para aquela ideia.
tudo em todas as circunstâncias, buscando a fundamentação
teórica dos fatos, das ideias e dos valores, procurando,
sobretudo, o entendimento correto e o conhecimento
verdadeiro sobre as coisas e os fatos.
Embora a atitude filosófica devesse assumir um papel
fundamental na vida das pessoas, isso nem sempre ocorre,
já que muitas não têm disposição para questionar e buscar
a verdade, o que consiste, afinal, em uma tarefa difícil,
inquietante e que desafia aquilo que é tido como “normal”.
Devido a essa dificuldade, a maioria das pessoas se acostuma
com aquilo que todos pensam, adotando, assim, o chamado
senso comum, caracterizado como um conhecimento
superficial, acrítico, aceito passivamente, baseado em
Rembrandt

superstições ou em crenças, sem se preocupar com a


verdade ou uma fundamentação teórica das afirmações.
O filósofo em meditação.

12 | Coleção Estudo

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