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1. Inquérito Policial - Introdução
O inquérito policial surgiu no Brasil em 1871, visando a reunião de elementos
necessários para a apuração da prática de um crime, e nesta época, vigorava o
sistema inquisitorial, onde a reunião de todos os poderes se dava em uma só
pessoa - na figura do juiz.
Muitos anos se passaram, o Brasil caminhou entre o sistema inquisitivo e
acusatório, sendo este finalmente adotado na Constituição Federal de 1988 – a
Constituição Cidadã. Em que pese não se tratar do sistema acusatório puro, a
diferença nos trâmites das ações penais – e reflexamente nos inquéritos policiais
– foi imensurável.
Em que pese o Código de Processo Penal datar de 1941, muitas alterações
foram realizadas, e a mais recente – o Pacote anticrime, inseriu o art. 3º-A onde
claramente diz “o processo penal terá estrutura acusatória”. Outra anotação
importante é que poucas alterações foram realizadas nos artigos do Código de
Processo Penal dedicados ao inquérito policial, contudo, muitos são os
doutrinadores que, em que pese ainda minoritários, tem construído uma nova
visão sobre o inquérito policial.
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2. Inquérito Policial - Introdução
O inquérito policial é um procedimento administrativo, utilizado para colher
elementos de materialidade, autoria e circunstâncias da conduta, carreando
nos autos do inquérito todo elemento de prova que comprove a ocorrência –
ou não – de uma conduta delitiva.
O delegado de polícia, autoridade policial responsável pela presidência do
inquérito policial, não instaurará um inquérito para provar puramente que
houve um crime; preliminarmente, ele colherá elementos que contem a
história daquele fato, como ocorreu, para então ser apurado se a conduta de
fato é criminosa e, em caso positivo, quem foram os autores daquela conduta.
Diante de uma conduta aparentemente criminosa, o delegado de polícia
deverá adotar algumas providências, como por exemplo, comparecer ao local
do crime, proceder ao isolamento do local para os trabalhos de perícia,
apreender objetos relacionados aos fatos, proceder a oitiva de vítimas,
testemunhas do investigado, conforme disposto no art. 6º do Código de
Processo Penal, que estudaremos mais atentamente.
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3. Inquérito Policial - Características
O inquérito policial é um procedimento administrativo, e que possui as
seguintes características:
a. Inquisitório: no inquérito policial, diferente da ação penal, o sistema
aplicado é o inquisitório, uma vez que as diligências são determinadas
pelo delegado de polícia, que inclusive é quem preside o inquérito policial,
ou seja, é ele quem determina a condução das investigações e como elas
serão realizadas, centralizando o poder decisório em suas mãos;
b. Discricionário: complementando a característica anterior, o delegado de
polícia não segue uma “receita de bolo”, pois cada inquérito, cada
investigação será conduzida da forma necessária para a elucidação dos
fatos e da autoria. Isso não significa dizer que o delegado de polícia faz
o que quiser, pois conforme os artigos 6º, 7º e 8º do Código de Processo
Penal, algumas diligências são taxativas, como a preservação do local
de crime para realização de perícia.
c. Sigiloso: diferente da ação penal, que em regra é pública, aqui é uma
exceção ao princípio da publicidade, pois não são todos que terão acesso
ao inquérito policial, limitando-se o acesso às partes e aos advogados.
Inclusive, faz-se imperioso ressaltar de que o advogado não precisa de
procuração para ter acesso aos autos, exceto quando o inquérito estiver
sob sigilo, onde é necessário a apresentação de uma petição
devidamente assinada para acesso aos autos.
d. Escrito: embora estejamos na era do inquérito eletrônico, escrito aqui
tomaremos como reduzidas a termo, as peças não poderão, por exemplo,
tomadas verbalmente, ou por meio virtual, sem que sejam reduzidas a
termo.
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e. Temporário: o inquérito policial deve respeitar prazos para a duração e
conclusão das diligências, como por exemplo, o art. 10 do Código de
Processo Penal, que diz que o inquérito policial deverá ser concluído em
10 (dez) dias se o indiciado estiver preso, ou em 30 (trinta) dias, caso o
indiciado esteja em liberdade. Há outros prazos, principalmente em leis
extravagantes, que estudaremos em momento oportuno, por ora, guarde
que, segundo o Código de Processo Penal, esta é a duração do inquérito
policial.
f. Dispensável: caso os elementos de prova, autoria e circunstância do fato
criminoso sejam todos apresentados ao Ministério Público, este poderá
ofertar a denúncia, sem que seja obrigatória a instauração de inquérito
policial (art. 39, §5º do Código de Processo Penal). Doutrina minoritária
afirma que o inquérito policial é indispensável, vez que preserva o
princípio da presunção de inocência e protege as pessoas de acusações
arbitrárias.
g. Indisponível: o Delegado de Polícia não poderá mandar arquivar os autos
de inquérito policial, conforme art. 17 do Código de Processo Penal. O
que o Delegado de Polícia poderá fazer é remeter os autos para que o
membro do Ministério Pública decida sobre o arquivamento ou
oferecimento da denúncia.
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4. Inquérito Policial – Instauração
O inquérito policial possui diferentes formas de ser iniciado, como veremos
a seguir, a depender da ação penal das infrações penais que estão sendo
investigadas.
Nos crimes de ação penal pública (e quando o Código de Processo Penal se
refere apenas a “ação penal pública”, leia-se “ação penal pública
incondicionada), o inquérito policial será instaurado diretamente, ou seja, de
oficio, pelo Delegado de Polícia. Ademais, o membro do Ministério Público, a
autoridade judiciária ou o próprio ofendido também poderão requisitar a
instauração do inquérito para apuração dos fatos.
Quando falamos em requisição da autoridade judiciária ou do membro do
Ministério Público, em que pese não haver hierarquia entre estes e o Delegado
de Polícia, trata-se de uma determinação, que deverá ser atendida, salvo em
casos, por exemplo, quando o Delegado de Polícia não entender que se trata e
fato criminoso, ou de crime que seja processado mediante ação penal pública.
Outro fato é a requisição do ofendido ou de quem tenha qualidade para
representa-lo, que é o caso de que a parte ou quem possa representa-la, ao
invés de comparecer ao plantão policial e lavrar um boletim de ocorrência, oferta
a documentação e informação necessárias diretamente para a instauração de
inquérito policial.
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Ainda mais, ainda se tratando de crimes de ação penal pública, qualquer do
povo também pode levar os fatos ao conhecimento da autoridade policial que,
entendendo pertinentes, mandará instaurar o inquérito policial para cabal
apuração dos fatos.
ação penal pública
requisição do
ofendido,
requisição juiz /
de ofício representante
promotor
legal ou qualquer
um do povo
Já nos crimes que de ação penal pública condicionada, os inquéritos policiais
não poderão ser iniciados sem que seja ofertada a representação por parte do
ofendido ou de quem tiver qualidade para representa-lo, conforme prescreve o
art. 24 do Código de Processo Penal.
Neste caso, além de tomar conhecimento acerca do fato, por exemplo, um
boletim de ocorrência de ameaça, a autoridade policial aguardará o prazo legal
para que o ofendido ou quem o represente oferte a representação criminal para
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então, instaurar o inquérito policial. Nestes casos, por mais grave que seja a
conduta, o inquérito policial depende da representação para que seja instaurado
e para que então, dê início às investigações.
Ainda no art. 5º do Código de Processo Penal, temos a condição para
instauração de inquérito nos crimes de ação penal privada, de oferta de
requerimento, que poderá ser ofertado pelo ofendido ou por quem tenha
qualidade para representa-lo, devendo constar da petição poderes especiais
para tanto.
Para diferenciar a ação penal pública condicionada da ação penal privada,
temos que aquela não vincula as partes, ou seja, ofertada a representação, a
autoridade policial instaurará o inquérito policial, e concluídas as diligências,
remeterá os autos ao Ministério Público, titular da ação penal, que oferecerá
denúncia e prosseguirá na ação.
Já nos crimes de ação penal privada, o ofendido, neste caso denominado
querelante, é o titular da ação penal, onde o Ministério Público poderá intervir,
contudo, o andamento da ação é de responsabilidade do ofendido ou de quem
o represente. Neste caso, o Ministério Público atua como fiscal da lei, ou em
latim, a expressão “Custos Legis”.
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5. Inquérito Policial – diligências
Após tomar conhecimento sobre a prática de uma infração penal, o art. 6º do
Código de Processo Penal prescreve as ações da autoridade policial, contudo,
importante ressaltar de que, novamente, investigação e inquérito policial não são
“receitas de bolo”, logo, se uma infração penal não deixar vestígios, não há razão
para que o Delegado de Polícia requisite perícia ou que preserve o local.
Vamos imaginar novamente um crime de ameaça, não há que se falar em
preservação de local, ou às vezes, nem mesmo a apreensão de objetos, logo,
em que pese a redação do referido artigo “deverá”, isto dependerá do crime a
ser apurado.
Contudo, este artigo é muito cobrado em provas de concurso, então, sugiro
que procedam a leitura atenta deste dispositivo, e caso você se depare com uma
questão que traga a expressão “deverá”, referindo-se a providências para
apuração de uma infração penal, provavelmente a questão estará se referindo
ao art. 6º e não há motivos para “brigar” com a questão.
Ainda quanto ao rol de providências deste artigo, trata-se de um rol
exemplificativo, já que outras poderão ser adotadas, sempre a depender do caso
concreto, das circunstâncias e da infração penal apurada.
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