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Sebenta Do Rorschach

O documento aborda as técnicas projectivas, com foco na técnica de Rorschach, utilizada para acessar a realidade psicológica de um sujeito. Ele descreve a metodologia de aplicação do teste, incluindo instruções, fases de aplicação e inquérito, além de discutir a interpretação dos cartões e seus conteúdos manifestos e latentes. O trabalho do psicólogo é destacado como essencial na atribuição de sentido às respostas do sujeito durante o teste.

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Sebenta Do Rorschach

O documento aborda as técnicas projectivas, com foco na técnica de Rorschach, utilizada para acessar a realidade psicológica de um sujeito. Ele descreve a metodologia de aplicação do teste, incluindo instruções, fases de aplicação e inquérito, além de discutir a interpretação dos cartões e seus conteúdos manifestos e latentes. O trabalho do psicólogo é destacado como essencial na atribuição de sentido às respostas do sujeito durante o teste.

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1.

O Rorschach

As técnicas projectivas procuram essencialmente aceder por aproximação à realidade


psicológica dum sujeito, realidade essa que é imutável, e cuja essência é inatingível. Usam-se
principalmente no contexto clínico mas também podem ser utilizadas em situações de
recrutamento de pessoal ou na educação.

Técnicas Projectivas

Técnicas de Manchas Técnicas Temáticas

 Rorschach
TAT – foi o 1º a aparecer,
Técnica paradigmática, pois é a serve para crianças e para
1ª a aparecer; é objecto de adultos (é a base de todas as
muitos estudos e é a técnica mais outras técnicas que lhe
utilizada na investigação sucederam)

CAT – para crianças com 4


anos

Pata Negra - crianças

Era uma vez - crianças


No contexto clínico podem ser utilizadas técnicas psicométricas e/ ou técnicas
projectivas (técnicas de Manchas ou Técnicas Temáticas). Neste contexto parte-se de um
problema, formula-se uma hipótese, e escolhe-se o instrumento a utilizar, seguindo-se a
metodologia e a conclusão (a qual permite aceder ao sentido do problema e necessita de
referenciais teóricos).

 Problema
Escolha do instrumento a utilizar
 Hipótese
 Metodologia
 Conclusão

O trabalho do psicólogo nestas técnicas é fundamentalmente o da atribuição de sentido.


As técnicas projectivas de manchas e as temáticas são complementares, pois têm
sensibilidades diferentes, a escolha entre uma e outras é feita em função do problema e das
hipóteses.
No contexto clínico pergunta-se ao sujeito “O que poderia ver aqui?”. Na resposta do
sujeito é por vezes difícil aceder-se ao mundo interno, o que acontece quando a percepção
prevalece sobre a projecção. A apreensão da realidade e a transformação entre a realidade e
o mundo interno sujeito é o chamado processo de construção (o qual é diferente para cada
indivíduo), que é transmitido ao clínico em forma de produto.
A análise do Rorschach tem o objectivo de conhecer o funcionamento mental do sujeito, o
que é possível sabendo o funcionamento do teste, o qual é possível saber pelo processo de
resposta Rorschach (o qual consiste na elaboração, construção e elaboração da imagem).
O Rorschach

Funcionamento mental Funcionamento do teste

Processo Resposta – Rorschach

 Modo de apreensão
Objecto de cotação Determinante
 Conteúdo

- Durante a aplicação do Rorschach:


 Devem utilizar-se fontes de luz unidireccionais e devem ser evitadas as passagens da
luz do dia para a luz artificial.
 O material necessário deve estar colocado em cima da mesa: o Rorschach com os dez
cartões virados para baixo, na ordem de apresentação e em posição direita; papel e
lápis/ caneta; um cronómetro discreto e de fácil acesso.
 O sujeito deve estar colocado do lado esquerdo, sensivelmente à frente (ou à direita
caso seja esquerdino).

Deve manter-se o controlo da situação - é o psicólogo que entrega o cartão e o recebe,


estando sempre atento ao comportamento, continuando sempre a entregar todos os cartões,
que é a forma de regular o ritmo de progressão (há cartões angustiantes que caso o psicólogo
não controle o tempo, podem não ser bem explorados).

- Instrução:
A instrução deve ser adequada ao sujeito e deve ser introduzida na relação. Rorschach
considera que as instruções devem ser curtas, o que vai cumprir o objectivo das técnicas
projectivas, ou seja, estimula o sujeito de forma adequada – cria um espaço de liberdade no
sujeito, onde estão presentes os dois objectivos principais das técnicas projectivas; a
instrução será: “O que é que se poderia ver aqui?” ou “O que e que isto poderia ser?”. Outros
psicólogos, como por exemplo Chebert, consideram que a instrução a dar deverá ser
diferente, contendo objectivos mais explícitos: “Vou mostrar-lhe 10 cartões e peço-lhe que
me diga tudo o que eles lhe fazem pensar e tudo o que se pode imaginar a partir de cada um
deles”.
É importante reter que todas as indicações devem ser formuladas como um pedido, assim
abre-se um espaço de liberdade que é a base das técnicas projectivas.
- 1ª Fase da Aplicação do Rorschach:
 Dar a instrução ao sujeito
 Entregar o cartão I na posição direita (pode entregar-se na mão ou colocá-lo em cima
da mesa)
 Accionar o cronómetro
 O psicólogo deve escrever tudo o que o sujeito diz na folha de anotações
 Devolução dos cartões

Apesar de a regra ser a da não intervenção, por vezes, podem fazer-se intervenções
durante a passagem dos cartões, quando o sujeito fala de algo paralelo na passagem dos
cartões pode-se intervir; na fase inicial (1º, 2º e no máximo 3º cartão), quando o sujeito está
a ter dificuldades, é útil e desejável que se faça um intervenção do tipo “Se pensar um pouco

2
O Rorschach

talvez consiga ver outras coisas”, isto, por exemplo, no caso de usar uma única imagem, ou
de não nos dar imagem nenhuma, “Porque temos tempo...”. Se o sujeito falar muito rápido
pode pedir-se para que repita a última palavra, ou fale mais lentamente.
NOTA: O uso do talvez permite que o sujeito veja, ou não veja, o que mantém a liberdade.
O trabalho do psicólogo é um trabalho de atribuição de sentido, pelo que a sua atitude
deve ser uma atitude de neutralidade: de acolhimento e de aceitação das imagens e da
resposta do sujeito.
A primeira fase termina com a Prova Complementar de Escolha:
É pedido ao sujeito que dos 10 cartões escolha os 2 dos quais gostou menos, e os dois dos
quais gostou mais, e indique os motivos que o levaram a escolher os cartões, devemos tentar
que os motivos apresentados sejam de ordem estética ou afectiva. É de notar a ordem pela
qual o sujeito nos diz os cartões apesar de não ser muito relevante.
Se os motivos de preferência forem iguais “Gostei mais dos cartões IX e X porque são
coloridos”, há que aceitar, pois isso implica conceder o espaço de liberdade ao sujeito. Há
sujeitos que escolhem apenas um cartão de cada, ou outros que escolhem 3 cartões,
devemos aceitar esta escolha, tal como devemos aceitar se o sujeito insistir que são todos os
cartões, pois cada escolha é objecto de atribuição de sentido.

- 2ª Fase – Inquérito (s):


Explorar modalidades perceptivas
O inquérito tem o essencial do processo de resposta do Rorschach, processo este que vai
ser cotado através do inquérito para que consigamos aceder ao funcionamento mental.
Os inquéritos são feitos no final para não perturbar o processo associativo, isto no caso dos
adultos. No caso das crianças muito novas o inquérito faz-se no final de cada cartão ou de
cada elaboração, porque neste caso está a favorecer-se o processo associativo (as crianças
não têm tantas defesas como os adultos).
O objectivo do inquérito é aceder ao processo de resposta Rorschach, o qual é reflectido na
cotação (e sem inquérito não é possível cotar).
No inquérito procura-se informação complementar à informação espontânea, ou seja,
retomam-se todos os cartões, um a um, e relemos as elaborações espontâneas de cada um e
pedimos para que o sujeito as explique: “ No cartão I o que é que o fez pensar numa
borboleta?”, normalmente isto é suficiente para que o sujeito diga tudo aquilo com que
relaciona a imagem:
 Localização da imagem (modo de apreensão)
 Determinante da imagem (forma/ cor movimento)
 Conteúdo

Nos cartões em que há participação da cor não temos a certeza se este elemento participa
ou não na resposta do sujeito. Para isso devemos ter uma folha A4 com os cartões diminuídos
a preto e branco para mostrar ao sujeito durante o inquérito. Exemplo: “Ainda vê aqui a
borboleta?” “Sim, sim. Veja aqui as asas recortadinhas.” Neste caso o que predomina é a
forma e não a cor.
Se o sujeito refere algo como «estranho» ou «esquisito» o psicólogo não deve deixar
escapar estes elementos, pois por aqui pode revelar-se algo mais importante do que a
imagem em si, deve saber-se porque é que há a introdução de algo desta forma. Exemplo “A
borboleta está voar mas vai perdendo bocados do corpo”.

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O Rorschach

Se o sujeito durante o inquérito diz algo diferente daquilo que disse na elaboração
espontânea, ou altera o que viu, trata-se de uma resposta adicional (R. A.), e o inquérito
deve ser feito em relação à segunda imagem.

Inquérito de Limites
Foi um inquérito introduzido por Klopper, tem uma presença mais activa por parte do
psicólogo com o objectivo de explorar modalidades perceptivas, ou conteúdos evitados pelo
sujeito.
Conduzir o sujeito para os encarnados presentes nos cartões bicolor, e perguntar se há
algo que se possa dizer sobre o vermelho. Isto só é feito quando o sujeito não interpreta o
vermelho, e só se faz no final para se poder esperar a resposta adicional.

Conteúdos mais frequentes


Normalmente estes conteúdos são chamados de banalidades pois são tão frequentes que o
seu não aparecimento leva a que nos interroguemos quanto à causa e sejamos levados a
fazer um inquérito de limites relativo a estes cartões.
Figuras humanas presentes no cartão III, onde se aplica o inquérito de limites “ Será que se
podia ver aqui uma figura humana?”. Este cartão é um cartão bissexual que favorece a
representação de si.
Cartão V: borboleta, pássaro e morcego, “Será que aqui se pode ver uma borboleta?”

2. Conteúdo Manifesto
- Dimensão Estrutural:

Os cartões diferenciam-se pelo seu carácter unitário, inteiro e maciço ou pela sua
obediência a uma configuração bilateral.

 Cartões unitários (I, IV, V, VI e IX) – reflectem a imagem do corpo humano organizado
simetricamente em torno de um eixo.

 Cartões com configuração bilateral (II, III, VII e VIII) – reflectem as representações de
relações.

 Cartões fechados (I, IV, V e VI)

 Cartões abertos (II, III, VII, VIII, IX e X)

- Dimensão Sensorial:

Os cartões diferenciam-se pelas cores e tonalidades.

 Cartões cinzento-escuros ou com contraste negro-branco – quando atingem a


sensibilidade do sujeito dão origem a manifestações da ordem da inquietude,
ansiedade e angústia mais ou menos intensas.
 A sensibilidade ao negro remete para a ansiedade, tristeza e depressão
(cartões compactos, excepto cartão I (fechado/aberto)).

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O Rorschach

 Cartões vermelhos (II e III) – a presença do vermelho solicita «afectos brutos», na


reactivação de movimentos pulsionais (emoções violentas, sexualidade, agressividade).
Estes cartões, pela sua configuração bilateral, são indutores de representações de
relações.

 Cartão VIII – configuração bilateral e uma construção oca e aberta; presença de


cinzento-claro esbatido e grande participação do branco.

 Cartões pastel – tintas pálidas e filtradas – indutores de afectos.


 Cartão VIII – estrutura clara, sendo as diferentes partes delimitadas umas
relativamente às outras, sem invasão das cores.
 Cartão IX – mistura de tintas, dando uma impressão de interpenetração,
acentuada pela presença de um branco azulado, ao centro. Situa-se
simultaneamente no registo fechado (facilitando a abordagem global),
aberto (tendo em conta o branco central) e bilateral (na parte superior).
 Cartão X – multiplicidade de cores e dispersão das manchas.

3. Conteúdo Latente
Cartão I – cartão compacto, negro, que facilita uma apreensão
global (G), baseando-se na forma (F). O estímulo tripartido
remete para a relação e interacção. Este cartão reflecte um
sentimento de identidade (quando a linha média não é vivida
como eixo do corpo mas como linha de separação entre duas
entidades, dá conta de dificuldades de diferenciação entre o
sujeito e o outro) (Chabert). A um nível menos evoluído, o
cartão reactiva a relação com a mãe pré-genital nos seus
aspectos positivos e/ou negativos, nas imagens de segurança
ou ameaça.

Cartão II – a parte central vazia reenvia para o regressivo e o luto; o vermelho reenvia para o
sangue e as pulsões. Este cartão reaviva as pulsões libidinais
e agressivas do sujeito. Se o sujeito lida mal com as pulsões
agressivas, evita o vermelho interpretando só o preto. A
problemática da castração é claramente visível, bem como a
angústia que lhe está directamente ligada e os processos
defensivos que o sujeito utiliza face a essa angústia. Quando as
personagens se apresentam em duplo pode dar conta de
problemas ao nível da identidade. Este cartão permite ao
sujeito reviver alguns dos conflitos da sua infância, revelando
uma relação simbiótica ou destruidora com a mãe.

Cartão III - Este cartão permite uma identificação (uma


identidade sexual) quer masculina (através do pénis) quer
feminina (através dos seios). O resultado simbólico resulta da
disposição destas silhuetas que estão muito próximas da
realidade e o sujeito vai poder exprimir a necessidade de
representação de si por um lado, e a representação de si

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O Rorschach

face ao outro, e ainda a descoberta desse outro e o tipo de relação que é procurada com
esse outro, uma relação de apoio (representação de si e representação da relação). O
clima emocional é positivo e este cartão agrada normalmente aos sujeitos. É frequentemente
escolhida como o cartão preferido. O próprio estímulo, por estar próximo da realidade
objectiva, isto é, por evocar facilmente as silhuetas humanas, também pode levantar
problemas por isso, podendo rapidamente adquirir uma tonalidade negativa se o sujeito se vê
confrontado com um outro e esse outro tem dificuldades relacionais.

Cartão IV – Este cartão está ligado à força, ao poder, à


autoridade. Alguns autores também lhe chamam o cartão do
superego. Um superego que tanto pode ser materno como
paterno. Sendo simbolicamente representativa dessa autoridade,
podem haver reacções quer positivas quer negativas, na forma
como os sujeitos se vão posicionar face a essa autoridade:
sujeitos que ou se identificam com essa autoridade ou a ela se
submetem. Os sujeitos vão exteriorizar representações de
autoridade paterna, angústia infantil e sentimentos de culpa
diante do superego, complexo de castração, transformação da agressão em depressão e
eventualmente ideias de suicídio. Há sujeitos que dão respostas que valorizam o aspecto da
força e outros que se refugiam numa atitude contrária à da força, dando respostas que dão
conta dessa inconsistência, dessa passividade e do receio à figura de autoridade Há sujeitos
que, devido ao impacto fantasmático e doloroso que a cartão lhes provoca, põem em
funcionamento o mecanismo de defesa – isolamento. Este é um mecanismo da série
neurótica e mais especificamente das personalidades obsessivas. Isola para não ter de se
confrontar com a angústia provocada pelo aspecto fantasmático do estímulo, que reenvia,
do ponto de vista simbólico, para a força, para o poder.

Cartão V - Este não é um estímulo que levante grandes


questões, pois está muito próximo da realidade objectiva (tal
como na cartão 3), surgindo com frequência respostas banais
de animais voadores.

Quanto ao valor simbólico, pelas características maciças e


unitárias deste estímulo, este cartão apela sobretudo ao
sentimento de integridade física e psicológica. É chamado o
cartão da identidade, a representação de si (ego ideal),
onde o sujeito expressa a ideia que faz de si próprio, o que
nos remete para uma integridade ao mesmo tempo psíquica e somática.

Este sentimento de integridade ao mesmo tempo física e psíquica, tem a ver com a
representação de si e, se houver uma recusa, isso é um alerta para uma eventual luta do
sujeito contra a desorganização de si, contra o caos interno. Também pode acontecer que o
sujeito fuja da representação através de respostas impessoais ou a manifeste através de uma
resposta simbólica.

Cartão VI - Do ponto de vista simbólico, é uma cartão muita


saturada em factores com implicações sexuais e/ou enérgicas-
dinâmicas. Mas nesta cartão, tal como na 4, o que está mais
facilmente implicado na análise do estímulo é muito mais a
dimensão fálica, do que a representação do corpo feminino.
6
O Rorschach

Este cartão reenvia o sujeito para a problemática sexual: angústia predominante na neurose:
angústia de castração; estados limite: angústia de perda do objecto; psicose: angústia de
fragmentação. A recusa da interpretação dos cortes é sinal de problemas sexuais.

A reacção emocional é frequentemente negativa, ao ponto de não ser invulgar que este
cartão seja recusado. Isto acontece devido ao significado simbólico deste cartão. Face ao
impacto provocado por esta mancha, pode haver respostas adaptativas, sendo a mais comum
“pele de animal”.

Cartão VII - As reacções a este estímulo são variadas,


podendo o sujeito percepcionar a figura, o fundo, ou os
dois.

Quanto ao valor simbólico, trata-se de uma cartão


feminina, materna, onde o sujeito é confrontado com a sua
primeira relação; o vazio central é vivenciado como colo
materno. Pode encontrar-se dois tipos de resposta:
Securizantes – encontram-se sentimentos de vivência, de
segurança, com cinestesias femininas. O não
aparecimento destas cinestesias, supõe uma perturbação das relações mãe/filho. A, H e obj.
Ameaçadoras ou abandónicas – quando estas imagens são percepcionadas de uma forma
negativa, surge a vivência de abandono, reflectindo a patologia da vinculação.

Cartão VIII - Os D rosas laterais são as partes da cartão


mais interpretadas e é aqui que aparecem as respostas
banais “mamíferos”, que são determinadas quase sempre
pela forma. Estes detalhes estão muito próximo da realidade
e isso permite ao sujeito evitar a integração da cor, ou seja,
evitar lidar com os afectos.

A reacção emocional é geralmente positiva, mas a


introdução da cor pode ser perturbadora para o sujeito, daí
que, a tonalidade emocional também possa ser negativa.
Neste caso as cores remetem para imagens do interior do
corpo através de anatomias, mesmo que sejam intelectualizadas; se não for esse o caso
temos imagens de corpos devorados, danificados, destruídos. As cores também podem ser
utilizadas com o branco no seu carácter esbatido. Uma resposta típica é “mármore” ou “pôr-
do-sol no gelo”.

Quando não é vista a resposta animal, vulgar, tem-se um problema análogo ao do cartão V
(sinal de debilidade patológica da ligação do sujeito à realidade). Também são significativos
os graus de agressividade atribuídos aos animais, ou à sua desvitalização sob a forma de
emblema.

Cartão IX - Este cartão apela à regressão e nem todos os


indivíduos se podem permitir tal coisa. Tem um grande
impacto emocional no sujeito e não há resposta banal para
este cartão. A solicitação para esta regressão traduz-se
numa sequência de imagens de conteúdos naturais,
frequentemente ligadas ao meio aquático, que tem a ver
com a imagem materna. Este cartão remete para uma

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O Rorschach

simbologia pré-genital, ou seja, uma temática ligada ao nascimento e nem todos os indivíduos
têm muita facilidade em lidar com esta simbólica, pelo que muitas vezes o que aparecem são
fantasias pré-genitais ligadas à gravidez/parto.

É um cartão frequentemente recusado, e, certamente, a mais difícil. Os sujeitos têm


dificuldade em interpretá-la. Os sujeitos que gostam deste cartão apresentam respostas de
cor elaboradas, isto porque vêem, na relação afectiva com o ambiente social, uma
estimulação fecunda e propícia.

Cartão X -Dadas as suas características de dispersão,


remete o sujeito para fantasmas de fragmentação. Solicita o
indivíduo para essa angústia de fragmentação, testa os
limites. Se o sujeito é sensível a esta problemática, tem
dificuldade em unir, tornando-se mais fácil detalhar a
mancha sem sentir incómodo com isso. Através do
mecanismo de isolamento, o sujeito pode apreender e
interpretar imagens numa perspectiva mais agressiva, entre
animais, ou entre animais e pessoas.

Estimula quase sempre respostas em D. Uma resposta G revela uma capacidade intelectual
organizadora de alto nível (G secundária)

Há sujeitos que se perturbam com o cartão, devido à cor (reagindo, nesse caso, como aos
cartões já interpretadas), ou devido à extrema dispersão das manchas (sentindo verdadeiro
choque ao despedaçamento).

4. A cotação
4.1. – Princípios Elementares de Cotação dos protocolos de Rorschach

Cotar um protocolo é reduzir as respostas a sinais convencionais, isto é, codificá-las.

A cotação não é mais do que um esboço cómodo que serve de quadro e de ponto de
partida para a reflexão e que facilita a comparação dos protocolos:

 Pelo seu carácter objectivante a cotação fornece um quadro às impressões e à intuição


do psicólogo;

 A cotação é o ponto de partida da reflexão, na medida em que ela é a resultante da


dinâmica instaurada entre a actividade perceptiva e a vivencia emocional e que ela
reflecte também a integração da dimensão afectiva na organização mental.

A cotação realiza-se após uma leitura atenta do conjunto do texto e depois de terem sido
anotadas as impressões que dele se destacam (tonalidade emocional, verbalização, atitude,
etc.)

A leitura do texto, a cotação e o estabelecimento do psicograma constituem um


preliminar da análise propriamente dita.

É necessário cotar todas as respostas, isto é, cada imagem ou associação ou


transformação de nova imagem, quer seja dada de forma afirmativa, negativa ou
interrogativa. É também necessário anotar os elementos qualitativos (referências pessoais,
observações de simetria, observações críticas, reacções choque, etc.) e os comentários
pessoais.
8
O Rorschach

A cotação tenta dar conta de todos os aspectos “objectivos” de uma resposta. Esta
decompõe-se em vários elementos que se podem evidenciar com a ajuda de quatro tipos de
questões que s colocam para cada uma das respostas:

 Qual a parte da mancha que é interpretada? Onde se situa a imagem dada?

 O que é que determinou a resposta ou qual (is) a (s) particularidade (s) objectiva (s) ou
subjectiva (s) do estimulo que provocou a interpretação? Porquê e Como?

 Qual o conteúdo da resposta? O quê?

 A resposta é frequente numa determinada população, isto é, banal?

Cada uma destas questões corresponde a uma série de símbolos convencionais, entre os
quais é preciso escolher aquele (s) que podem dar conta, o mais fielmente possível, da
resposta do sujeito tal como ele a viu e enunciou, sem que a subjectividade do próprio
psicólogo interfira.

É evidente que não se poderá elucidar os mecanismos em jogo, nem responder às três
primeiras questões sem se interrogar o próprio sujeito: é este o objectivo do inquérito.

Todavia, é necessário ter presente que a cotação propriamente dita se refere às respostas
dadas espontaneamente e que no inquérito é preciso distinguir entre o que corresponde a
uma simples explicitação da resposta espontânea (que serve de base à cotação) e o que
constitui uma nova abordagem ou uma reelaboração, que não deverá ser cotada, ou então só
deverá ser considerada em tendência, embora entre na análise propriamente dita.

O tempo de latência corresponde ao tempo a partir do momento que se dá o cartão ao


sujeito e ele dá uma resposta cotável.

A folha de Protocolo

Discurso
Espontâneo

Cotação

Respostas RCH (como,


porquê, etc…
O Rorschach

Símbolos

^ - Direito

ν – Inverteu

<- Rodou para a direita

> - Rodou para a esquerda

- Quando o sujeito rodou muito o cartão

Como se escreve a cotação?

G F+ A Ban

M.A. Det. Cont. Banalidade

4.2. Modos de Apreensão

O verdadeiro sentido dos modos de apreensão só se encontra se soubermos qual o


determinante e o conteúdo a eles associado.

Os modos de apreensão estão relacionados com a estratégia perceptiva que o sujeito


utiliza ao abordar a mancha, a qual se traduz na forma de como o sujeito situa ou localiza as
interpretações.

Estratégia Perceptiva Funcionamento do Teste

dão conta das relações que


o sujeito estabelece
com a realidade e com os
objectos de realidade, ou seja,
como o sujeito se situa na
realidade.

Cinco Símbolos representam os diversos modos de apreensão:

10
O Rorschach

1. G - resposta global, a qual se subdivide em G primário (que se divide ainda em


G simples e G simples adaptativo) e G secundário
2. D – resposta de detalhe frequentemente interpretada
3. DD – resposta de detalhe raramente interpretada
4. DBL – interpretação de detalhe branco
5. DO – detalhe oligofrénico

- Resposta global:
As respostas globais são respostas que compreendem a totalidade da mancha. São
respostas como: “borboleta”; “uma mancha negra de tinta-da-china”; “bailarino a rodopiar
sobre si mesmo, com duas bailarinas a apoiarem-se sobre ele, com as suas capas a esvoaçar;
“caranguejo com duas pinças”, “uma aranha com uma mosca na barriga”; etc. Os produtos
finais são semelhantes apesar do processo de resposta ser diferente.
Para uma resposta ser considerada global é necessário que o sujeito interprete a totalidade
da mancha, excepto no cartão III, onde se considera resposta global, se o sujeito considera
dois negros laterais como duas figuras humanas.

- G primário:
G simples
Um exemplo de um G simples será a resposta “borboleta” (é a imagem mais neutra), ou o
morcego, aqui existe uma clara diferenciação entre sujeito e objecto, há uma identidade
definida, o sujeito vê-se como inteiro e repara no meio envolvente. A estratégia perceptiva
utilizada é a abordagem directa e imediata da mancha, sem elaboração, destacando a figura
do fundo. Pelo facto da figura ser fechada este cartão () e outros (I, IV, V) favorecem o
aparecimento de imagens G simples.
Os G simples do ponto de vista do funcionamento mental dão conta de uma adaptação
perceptiva de base que faz pensar se o sujeito se encontra minimamente inserido na
realidade – G simples adaptativo.

G simples Adaptativo

Exemplos: Esta imagem não


-Lata de sardinhas bom petisco tem carácter
adaptativo
-Maxilar com dois caninos, um deles cariado
-Borboleta no chão espalmada e morta à qual falta um bocado das asas – Aqui não há
diferenciação, o que pode fazer pensar nas dificuldades ao nível da identidade, ou da imagem
corporal.

-Resposta de detalhe frequentemente Interpretada:


Estas respostas usam partes da mancha que do ponto de vista estritamente perceptivo se
impõem, são frequentemente isoladas e frequentemente interpretadas.
Estas imagens são favorecidas ao aparecerem nos cartões bicoloridos e nos cartões pastel.
Nestas interpretações está implícita a atitude de querer explorar os objectos da realidade
interna e/ ou externa. Subjacente às respostas de detalhe existe uma função socializadora
(querer conhecer o outro).

11
O Rorschach

-Resposta de detalhe raramente Interpretada:


Nestas respostas são usadas partes da mancha que do ponto de vista perceptivo não se
impõem, assim sendo são raramente isoladas e raramente interpretadas.
Não existe nenhum cartão que favoreça o aparecimento dos DD, podendo aparecer em
qualquer um.
Os DDs podem dar conta de uma determinada problemática, porque normalmente há um
conteúdo que se repete ao longo de um protocolo em DDs, o qual é algo que angustia o
sujeito. São característicos de um pensamento minucioso e exaustivo. Quando estes se
repetem ao logo dos cartões podem demonstrar um funcionamento mental obsessivo.
Relativamente aos DDs interpretativos delirantes o critério que os analisa é o critério
estatístico.

-Interpretação de detalhe branco:


Estas são respostas em que o sujeito usa o espaço branco, situado no interior ou no
exterior da mancha, que do ponto de vista estritamente perceptivo se impõem com inversão
figura fundo.
Os cartões que favorecem o seu aparecimento são os cartões II e VII, dependendo do
cartão e conteúdo os valores interpretativos também mudam: no cartão II terá um valor
claramente defensivo, e no cartão VII considera-se o sujeito capturado pelo vazio – o que
remete para vivências de falta, ou seja, carências afectivas.

- Detalhe Oligofrénico:
Foi constatado que estas imagens surgiam em sujeitos com défices cognitivos, apesar
deste tipo de respostas não serem específicas deste tipo de sujeitos. Essencialmente
Rorschach constatou que onde sujeitos normais viam figuras inteiras, outras pessoas viam
apenas partes dessas figuras, o que atribuiu a restrições do campo perceptivo e do conteúdo
– é esperado que não ocorram estas restrições (d e db). Os conteúdos mais frequentemente
interpretados são animais (A), ou partes de animais (Ad), figuras humanas (H) ou partes de
figuras humanas (Hd), bot (botânica), obj (algo fabricado pelo homem). Os Do’s estão sempre
associados a Ad e Hd.
Exemplo: no cartão III, se mencionar a cabeça como parte de um todo será um Do.

-Modos de Apreensão Associados:


Estes modos de apreensão são o resultado de diversos momentos perceptivos. Assim
podemos referir-nos a:

-G Primário:
G barrado
Escomotizado técnico: o sujeito interpreta o todo, mas retira uma pequena parte (parte
que, do ponto de vista estritamente perceptivo não se impõe – Dd). Ao nível interpretativo,
este modo de apreensão dá-nos conta de que o sujeito evita essas partes por terem,
grande parte das vezes, um valor sexual ou agressivo. (G)

G sincréticos

12
O Rorschach

Existem três tipos de G sincréticos e todos eles nos remetem para problemas de separação
e individualização:
 G confabulados: são resultado de uma generalização abusiva a partir de um detalhe
da mancha. Podem remeter para dificuldades claras ao nível da diferenciação. Isto
porque a generalização começa a partir de uma parte da mancha que do ponto de vista
estritamente perceptivo se impõe. (DG; DdG; DblG)
 G contaminados: são o resultado de uma fusão ou sobreposição de imagens ou
associações distintas, sendo que o resultado final vai ser uma combinação
perfeitamente absurda. (D/G; Dd/G; Dbl/G)
 G informulados: são o resultado de uma enunciação dos diversos elementos
constitutivos de um todo sem, no entanto, se lhe referir (ao todo). Como se o todo
fosse constituído por partes que se colam, o que denuncia uma fragilidade muito
grande ao nível da identidade. (D(G); Dd(G))

G imprecisos
Estas são respostas associadas a formas que o sujeito não precisa e dividem-se em dois
tipos:
 G vago: o sujeito introduz o vago para não ver coisas significativas e para não ter
que se revelar, ou seja, este tipo de respostas aparece associado ao recalcamento.
(F+/-) G
 G impressionistas: o sujeito deixa impressionar-se pela cor. (C; C, E) G

-G Secundário:
Estas respostas são o resultado de uma articulação/combinação dos diversos elementos da
mancha até que o sujeito tem em conta a totalidade da mesma através de um processo de
elaboração.
Este tipo de imagem remete-nos para um pensamento rico (creativo, com capacidade de
ligar) e reflexão do sujeito. ((D)G; (Dd)G; (Dbl)G; (Do)G; G bl)

4.3. Determinantes

Determinantes são as características do estímulo responsáveis por determinadas


elaborações, e para as quais consideramos dois eixos:
 Eixo mais preceptivo onde incluímos: forma (F), Cor (C), e esbatimento específico,
textura (E)
 Eixo mais projectivo onde se incluem (K), claro ou escuro (Clob) e esbatimento
tridimensional (E)

- Forma F:
As respostas formais são determinadas pela configuração da mancha (exemplo: borboleta
é uma resposta que é determinada pela configuração da mancha).
F+ é uma forma boa ou adequada
F- é uma má forma ou forma inadequada

13
O Rorschach

F+-, neste caso, o sujeito é incapaz de precisar a forma/ imagem o que origina uma
resposta indeterminada ou imprecisa (exemplo: cartão VII, resposta de detalhe em que
isola uma parte e diz que é uma ilha).
As respostas formais relacionam-se com a leitura que o sujeito faz da realidade, por isso, a
percentagem das boas formas de Rorschach dá-nos conta da adaptação/ inserção do sujeito
na realidade.

- Cor C:
 Cromática - (C) vermelho pastel
 Acromática – (C’) negro, branco e cinzento

A sensibilidade à cor ou às cores dá conta da sensibilidade ao mundo interno e externo, às


cores ligam-se afectos, emoções... (exemplos: cartão II – “este vermelho parece-me sangue”
DC; cartão IX – “pôr-do-sol” DC)
Podem integrar um F, o qual pode ser secundário à cor (exemplos: cartão II – “mancha de
sangue” C’F ou CF; cartão VII – “nuvens cinzentas”), ou então pode a cor ser secundária à
forma, o que determina a imagem é a forma, mas a cor também contribui (exemplo: cartão V
– “morcego negro” FC’; cartão VII – “nuvem com a forma da cabeça duma mulher”).
NOTA: Quando o sujeito refere a cor apenas para a localização, a cor não entra na
determinação da resposta.
O estilo cromático vai-se modificando ao longo do Rorschach, o sujeito pode ser mais, ou
menos sensível à modificação do estímulo. Quando o sujeito não é sensível a essa mudança,
mostra que o sujeito não tem sensibilidade interna ao mundo externo (é como se os afectos e
as emoções não circulassem, o que traduz uma dificuldade em relacionar-se com os afectos);
se a cor entra como determinante da resposta está demonstrada a sensibilidade do sujeito
relativamente aos afectos. O facto de a cor estar integrada numa forma demonstra
maturidade afectiva.
 Vermelho – pulsões sexuais ou agressivas, as quais podem surgir em contextos de
castração ou separação (exemplos: cartão 2: animais que estão a brigar em com o
outro e salta sangue por todo o lado, ou dois cachorros que se lamentam porque lhes
cortaram o rabo).
 Pastel – sensibilidade ao meio, tendências ligadas à ternura, etc.
 Negro - está relacionado com afectos mais depressivos (luto, morte)
 Cinzento – está relacionado com afectos depressivos (mais ou menos negro)
 Branco – relaciona-se com afectos que dão conta da inexistência (interpretação do
branco como cor associada a temas de frio DBL), às vezes a pureza é de tal forma pura
e imaculada que no limite toca no nada e não é nada; o branco remete para vazio

-Esbatimento:
São respostas determinadas pelas diferentes tonalidades – exemplo: cartões VII, algo de
nebuloso, nevoeiro (GE), ou cartão VI, estas mudanças lembram-me lama, lodo (GE).
As respostas de esbatimento podem ser EF, quando a forma é imprecisa e secundária, ou
FE, quando o esbatimento é secundário.
Exemplos:
Cartão VII:

14
O Rorschach

- “Nevoeiro” (GE)
- “Farrapos de nuvens pela diferença de tonalidades” (EF, há uma não
definição dos limites)
- “Cabeça duma mulher desenhada numa nuvem” (FE, o sujeito precisou a
imagem)
- “Cão fofinho de peluche” (GFE)

Respostas que incluem tecido, veludo, peluche, são imagens que remetem para o toque e
para o tacto – são respostas de esbatimento.
Pele de animal pode ser Fe ou EF, há que fazer o inquérito para perceber se o esbatimento
participa ou não na resposta (exemplos cartão VI – pele de animal, vê-se muito bem a cabeça
e as quatro patas, está estendida no chão GF+; pele de animal, vê-se muito bem a cabeça, as
quatro patas e o pelo GFE, pois demonstra sensibilidade à nuance, às diferentes tonalidades e
ao esbatimento; ao longe parece uma pele de animal, é fofinha GEF)
No esbatimento estão presentes diferentes cores e tonalidades, as cores ligam-se aos
afectos, à sensibilidade ao mundo interno (pastel); por isso as respostas de tonalidade
também se referem a afectos porém não a uma afectividade franca, mas a uma subtileza,
perspicácia, a presença deste tipo de resposta (na ausência de resposta de cor) pode mostrar
uma afectividade abafada, reprimida.
Respostas de Esbatimento
1. Textura - A textura remete para uma dimensão táctil muito importante, os afectos.
Exemplo: cartão VI “O cãozinho de peluche é tão fofinho, apetece tocar!”. Afectos: nos
primeiros objectos e nas primeiras relações muitas mensagens passam pelo tacto (o
qual tem um papel fundamental). A presença deste tipo de resposta (em detrimento de
outros) dá conta da imaturidade e carências afectivas.
2. Tridimensional ou perspectiva
3. Difusão – refere-se a imagens nas quais o grau de organização é muito ténue. Estas
imagens indicam recalcamentos: o sujeito introduz algo vago para não ver coisas mais
significativas.
Exemplos: “Algo nebulosos”, “Farrapos de nuvens a dispersarem-se”, “Fumo”,
“Espirais de fumaça”

-Clob:
Para ser cotado com clob é necessário que a imagem se situe em D ou em G, é obrigatório
que haja um sentimento de perigo, ameaça ou destruição (não se pode cotar Clob sem que
exista um destes sentimentos). O que está subjacente são os medos, estes demonstram a
presença duma angústia muito intensa, há que entender a dimensão projectiva é uma
dimensão muito importante a qual se encontra aqui.
Exemplos:
Cartão IV - “Algo demoníaco, um pesadelo terrível!”
Cartão I – “Uma impressão de terror, de fim de mundo.”
Existem respostas que integram também um F, uma resposta do tipo F clob demonstra
uma angústia contida e controlada (cartão IV: “É um homem terrível!”; “O abominável
homem das neves”; “Um gigante”; cartão I “Parece uma bruxa”). Quando se verificam muitas
respostas do tipo ClobF está demonstrada uma fragilidade e que as dificuldades de contenção
e de controlo são muito maiores (exemplo: “Ih! Qualquer coisa terrível! Pegajoso, repelente,
nojento! Parece uma aranha!”. Este exemplo é claramente um ClobF porque foram os

15
O Rorschach

diversos sentimentos do sujeito que o levaram a associar a uma aranha, e não houve
sensibilidade relativamente à configuração da mancha).

- Respostas Cinestésicas:

São respostas em que há atribuição de movimento a uma forma específica.

- Conteúdo humano K K
- Conteúdo animal Kan menores

- Objecto ou fenómenos naturais Kob K


- Partes do corpo humano (Hd) ou corpo inteiro em Dd (Kp) maiores

- K:
Cota-se K quando houver atribuição de movimento a uma forma humana (uma figura
humana inteira em movimento), também se cota K se uma figura humana se uma figura
humana se encontrar com uma atitude de intenção duma relação.
Exemplos:
Cartão VII: Duas mulheres que se olham; Uma mulher a ver-se ao espelho
Cartão I: Um homem a orar aos céus K (sonhar, dormir, pensar... são cotados com K)
Um palhaço também se cota como K porque está sempre a rir, assim como uma
bailarina (está sempre associada a movimento).
EXCEPÇÂO: cartão III, os negros laterais cotam-se sempre como K sem ser necessário
que estejam associados a movimento ou a relação.

- Kan:
Cota-se Kan no caso de haver atribuição a movimento a um animal inteiro ou quando o
animal inteiro se encontra numa atitude humana.
Cartão I: uma borboleta a voar
Cartão IV: (as partes mais claras dos detalhes laterais inferiores) “Parece um cão que
está sentado a pensar na vida.”
Excepção: No cartão VIII, dois animais a subir ou a andar nas partes laterais não são
cotados como kan, mas como F+; mas se o cartão se encontrar na posição lateral cota-se
Kan.

- Kob:
A cotação Kob refere-se a objectos vistos em movimento ou a fenómenos naturais em
movimento, sendo que a força impulsionadora do movimento tem de se encontrar no interior
do objecto.
Exemplos:
Cartão II: Um foguetão a subir, vê-se o fogo da propulsão (KobC)

16
O Rorschach

Cartão X: Fogo-de-artifício (KobC)


Cartão VI: (posição invertida) explosão duma bomba atómica (é sensível às diferentes
tonalidades e ao fumo - KobE)
Cartão IX: (posição invertida) erupção vulcânica, vê-se muito bem a lava incandescente.

- Kp:
Refere-se a partes do corpo humano vistas em movimento ou o corpo humano em
movimento visto em DD
Exemplos:
Cartão VII: Um homem que balança, hesita em atirar-se ou não.
Cartão IV: dois olhos que me perseguem
Cartão IX: Uma cabeça está escondida por trás duma moita a espreitar.
4.4. Conteúdos

Resposta à questão o quê?

A categoria de conteúdos a que pertence a resposta é indicada por uma abreviatura.

As 15 categorias geralmente admitidas não esgotam a riqueza das respostas, apenas


constituem um inventário de imagens correntes. É possível um reagrupamento posterior por
grandes temas. Sendo artificial querer fazer entrar algumas respostas num grupo, é melhor
deixá-las tal como aparecem, por exemplo, “máscara”, “explosão”.

Entre as respostas humanas ou animais, cota-se (H) ou (Hd) e (A) ou (Ad) aquelas que
pertencem ao domínio do irreal, do sobrenatural ou da lenda (mas não as da História). Por
exemplo: “ogre”, “dragão”, “duende”.

“Palhaços” são cotados H e as respostas “pele de animal” são cotadas A por


convenção.

- Conteúdos mais frequentes que surgem na aplicação do Rorschach:

H - Figura humana inteira, personagens históricas, palhaço

Hd - Partes de figura humana

(H) - Figuras humanas irreais, sobrenaturais, de lendas

A - Figuras animais inteiras, peles de animais

Ad - Partes de figuras animais

(A) - Figuras animais irreais

Obj - Objecto

Art - Arte (pinturas abstractas, desenhos)

Elem - Elementos fundamentais (ar, água, fogo...)

Anat - Interior do corpo (tripas, rins)

Alim - Alimentos

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O Rorschach

Sg - Sangue

Sx - Referências sexuais explícitas

Nat -Fenómenos da natureza (nuvens…)

Frag - Bocados de qualquer coisa inumana

Geo - Geografia (ilha, mar)

Bot - Botânica

Másc - Máscara

Geol - Geologia (gruta, buraco na terra)

Abs - Abstracto (Primavera...)

Arq - Arquitectura (Torre Eiffel)

Emb - Emblema (águia do Benfica)

4.5. Banalidades

São os conteúdos que aparecem 1 em cada 6 numa determinada população, numa


mesma localização.

A banalidade refere-se, assim, à frequência de uma certa localização com um


determinado conteúdo, isto é, ao reconhecimento perceptivo de uma certa realidade,
qualquer que seja a eventual elaboração do próprio conteúdo.

Estas respostas são designadas pela menção Ban após o conteúdo.

O determinante formal é, por definição, dominante e em F+ (FC+, K+, etc.), releva de


uma confrontação de resultados que não foram verificados estatisticamente e de uma
geração a outra verificam-se alterações, pelo que se justificaria a realização de trabalhos
estatísticos sobre esses dados.

- Lista Francesa de Banalidades ao Rorschach:

Cartão Modo de Banalidade


Apreensão

I- G - Pássaro, morcego, borboleta

II - D negros - Duas cabeças de animais ou 2 animais

III - G - Homens, personagens

D. verm. Médio - Borboleta, laço

IV - G - Pele de animal

V- G - Pássaro, morcego, borboleta

VI - G ou D inf. - Pele de animal

VII - Não há

18
O Rorschach

VIII - D. rosa lat. - 2 animais (excepto peixes ou


pássaros)

IX - D. rosa - Cabeça de homem, de bebé

X- D. azul lateral - Caranguejo, polvo, aranha

D. verde médio - Cabeça de Coelho

D. cinzento sup. - 2 animais

4.6. Outros Factores

Recusa – Há recusa sempre que o sujeito devolve o cartão sem ter dado uma resposta
cotável. Não há assim nem tempo de latência nem tempo total.

Tempo de Latência – tempo que decorre entre a apresentação do cartão ao sujeito e a


primeira resposta cotável.

Tempo total por cartão – tempo que decorre entre a apresentação do cartão ao sujeito a
fim das associações dadas nesse cartão.

Elementos Qualitativos

Choque ou Equivalente de Choque – Trata-se de perturbações do processo associativo que se


referem a diferentes elementos e mais especificamente a factores temporais, à sequência dos
modos de apreensão e à qualidade formal dos determinantes.

Segundo a intensidade da perturbação e a maneira de dela se defender, distingue-se:

 Choque Manifesto – que se exprime verbalmente de uma forma directa (“Oh! Que
horror!”, “É horroroso!”), ou através do silêncio ou da recusa.

 Equivalente de choque – que são objectivava de diferentes maneiras: numerosas


manipulações, alongamento do tempo de latência (o tempo mais longo ou claramente
superior ao tempo médio), comentários verbais, críticas objectivas e subjectivas,
redução ou aumento espectacular do número de respostas, brusco empobrecimento da
qualidade das respostas, em síntese, qualquer modificação importante na reactividade.

 Os fenómenos de choque mais correntemente descritos são:

 Choque Cor (cores pastel e vermelho)

 Choque Clob, também designado por choque negro

Há outras características do material que podem provocar reacções de choque.

Preservação – quando uma resposta formalmente adequada num cartão se repete duas
vezes de forma arbitrária (F-) nos cartões seguintes.

Observação Cor – observação subjectiva de prazer ou de desprazer sobre as cores.

Observações de Simetria – presença de observações sobre a simetria das manchas. A


indicar como Sim.

Crítica Subjectiva – crítica de si, da sua eficácia ou dificuldade.


19
O Rorschach

Crítica de Objecto – crítica às características do estímulo.

É obvio que a cotação é redutora e não consegue dar conta de toda a riqueza e
complexidade dos protocolos.

Nem a cotação, nem o psicograma têm sentido tomados isoladamente, é indispensável


proceder a uma análise qualitativa que integre todos os dados com o objectivo de uma
síntese clínica.

4.7. O Psicograma

A análise quantitativa é realizada pela elaboração do Psicograma. O psicograma é a


recapitulação dos dados obtidos. Uma vez terminada a cotação, agrupam-se todas as
categorias de respostas numa folha de modo a que se possam comparar com os valores
normativos, tornando-se evidentes os traços salientes (tudo o que se afasta da norma). A
interpretação do protocolo do sujeito irá incidir sobre esses traços salientes.

Na primeira coluna anota-se o número de respostas, as recusas e os diferentes tempos


observados.

R - número de respostas total (cerca de 20 a 30).

Recusa - número de recusas e quais os cartões recusados.

TT - soma dos tempos totais em cada cartão. È exprimido em minutos e segundos (20 a 30
minutos).

T/R - é dada pela soma do tempo total a dividir pelo número de respostas (40 a 60 segundos).

T/Lm - é dado pela soma dos tempos de latência a dividir pelo número de cartões
interpretados. É exprimido em segundos.

Localizações = N x 100

R
Na segunda coluna faz-se a reorganização dos modos de apreensão.

20% a
G
30%

60% a
D
80%

Dd 6% a 10%

Dbl 3%

Do

Na terceira coluna anota-se o número total de cada determinante. No caso de os


determinantes serem duplos, cada determinante é recenseado na sua categoria, por

20
O Rorschach

exemplo, um KC é, em geral, decomposto em K e FC, enquanto um kobC é, em geral,


decomposto em kob e C ou CF.

Na quarta coluna anota-se o número total de conteúdos do protocolo. Os H e os A


devem ser destacados.

Os conteúdos não previstos na folha do psicograma devem ser acrescentados. É


evidente que a soma de cada coluna deve ser igual ao número de respostas (excepto nos
determinantes quando há determinantes duplos, pelo que se deve proceder a essa
verificação.

Na quinta coluna anota-se as percentagens dos vários tipos de F, A e H e o número de


banalidades.

A percentagem de F está relacionada com o recurso ao formal, ao intelectual ou ao


socializado. Em princípio menos afectivo, a-conflitual. Se os valores dos F se situarem abaixo
da norma há uma perturbação do funcionamento cognitivo. Se, pelo contrário, se situarem
acima da norma há facilidade do funcionamento cognitivo.

A normalidade da percentagem de A revela uma boa participação no pensamento


colectivo.

O número de banalidades de um protocolo não se expressa em termos de percentagem,


uma vez que o seu número varia em função de R. As banalidades são 12 e só devem aparecer
uma vez numa localização. Se o sujeito só expressa banalidades dá conta duma socialização
de superfície, o que significa que o sujeito dá pouco de si. Regra geral, a normalidade é de 5 a
7 banalidades. Contudo, é variável consoante o número total de respostas do sujeito.

F% = Número total dos F x 100  (50% a 70%, mas situa-se a 60%)


R

F+% = Número de (F+) + ½ (F±) x 100  (80% a 85%; não é muito válido quando o
número total de F é baixo)
Número total de F

A% = A+ Ad x 100  (35% a 50%)


R

H% = H+ Hd x 100  (12% a 18% ≈ 16% )


R

-Sucessão:
- rígida – ordenada – relaxada – incoerente
Refere-se à ordem perceptiva das respostas num cartão, a qual deverá ir sempre do geral
para o particular. Se esta ordem for igual em todos os cartões trata-se duma sucessão rígida;
se for sistemática ao longo de 7/ 8 cartões, é uma sucessão ordenada; se a ordem for
sistemática ao longo de 3/ 4 cartões, estamos perante uma sucessão relaxada ou frouxa; se
esta ordem variar sistematicamente designa-se por incoerente. Nos dois primeiros casos
existe controlo sobre os processos cognitivos.

-Tipo de Apreensão:

21
O Rorschach

Anotam-se as localizações apresentadas no protocolo segundo a ordem convencional (G-


D-Dd-Dbl-Do); sublinham-se aquelas cujas percentagens são superiores à norma e
sobrelinham-se as que são inferiores à norma.

G D Dd Dbl

20 a 23%  G 60 a 68%  D 6 a 10%  Dd 3%  Dbl

30 a 45%  G 68 a 80%  D 10 a 15%  Dd 3 a 6%  Dbl

45 a 60%  G 86 a 90%  D 15 a 25%  Dd 6 a 12%  Dbl

+ de 60%  G + de 90%  D + de 25%  Dd + de 12% 


Dbl

- Tipo de Ressonância Íntima (T.R.I.):

É a comparação entre o número de cinestesias maiores (K) e a soma ponderada das


respostas cor (C)

As respostas são ponderadas da seguinte forma:


T.R.I. = K / ΣC
1 Ponto – cada cinestesia

Será o sujeito orientado para a 0,5 Pontos – cada FC ou FC’


estimulação exterior (extratensivo), 1 Ponto – cada CF ou CF’
interior (intratensivo) ou misto?
1,5 Pontos – cada C ou C’

Do ponto de vista patológico, a perturbação histérica domina para os estímulos


externos e o autismo é a patologia máxima associada à introversão.

O T.R.I. permite aceder ao mundo interno/externo, ou seja, da atitude que o sujeito tem
para consigo próprio e para com o mundo. O mundo (externo ou interno) é enriquecido pelo
outro, e o T.R.I. vai permitir perceber se o sujeito investe mais no externo ou no interno.
Dependendo desta relação, Rorschach distingue 4 tipos de ressonância íntima, distinguindo-
os segundo a sua frequência de aparecimento entre indivíduos normais e, sobretudo, em
doentes mentais, e apresenta as variáveis psicológicas do teste que acompanham esses
tipos. É, portanto, em termos de dados do teste que o TRI é definido, e não em função do
processo psicológico.

- Tipo Extratensivo:

É puro ou misto, conforme o pólo K seja nulo ou não.

Os tipos extratensivos são dominados por cargas afectivas ou uma excitabilidade cuja
utilização é frequentemente inadequada. Falta-lhes perspectiva na apreciação da realidade
objectiva, mas podem ser espontâneos nas suas reacções. Sendo impulsivos, podem, no

22
O Rorschach

limite, ser instáveis. Estas respostas mais emotivas do que pensadas aparecem atenuadas no
tipo extratensivo misto.
A instabilidade torna-os muito maleáveis; o objecto, a realidade exterior, domina-os com
facilidade, mas o relaxamento das funções cognitivas e do controle produz efeitos de
regressão, uma regressão salutar ao serviço do Ego.

- Tipo Introversivo:

Também pode ser puro e misto, conforme as reacções cor C estejam ou não expressas
nele.
No caso do tipo puro a adaptação feita mais pelo pensamento do que pelo afecto. São
sujeitos bastante virados para si próprios. Preocupam-se com a sua própria personalidade. Os
indivíduos observam o objecto, reflectem, são capazes de protelar a acção e a gratificação, e
parecem ter um carácter reservado. Neste sentido, podem ter um bom conhecimento de si
mesmos, talvez estejam conscientes das suas dificuldades, mas podem absorver-se na sua
contemplação imaginária e o seu mundo interior prevalece sobre a realidade exterior.
A reacção do tipo misto é mais impulsiva, sendo os indivíduos muito centrados em si
mesmo mas capazes de incidentes explosivos.
A sintomatologia dos tipos introversivos será, sobretudo, ideacional e só ocasionalmente
comportará descargas afectivas. Encontram-se, portanto, os introversivos nas neuroses
obsessivas e fóbicas, nos estados esquizóides e certas esquizofrenias paranóides.

- Fórmula Complementar (F.C.):

É a comparação entre o número de cinestesias menores (kan, kob e kp) e a soma


ponderada das respostas esbatimento (E)

As respostas são ponderadas da seguinte forma:


F.C. = (kan+kob+kp) / ΣE
0,5 pontos – cada FE

1 ponto – cada EF
Ao calcular a FC, vamos verificar se ela Consciente
confirma ou informa o TRI. Quando o TRI 1,5épontos – cada E
contraditório com a FC, isso indica que há uma K TRI C
parte inconsciente (recalcada) do sujeito que K FC C
tende a ir contra o consciente.

Inconsciente
- Reactividade Cor (R.C.%):

Percentagem das respostas dadas nos três últimos cartões em relação com o número
total de respostas.

Dá-nos conta do potencial afectivo do sujeito. É importante que algumas destas


respostas integrem a cor como determinante, pois são elas que dão conta da mobilização dos
afectos. Há outros cartões que também nos dão conta dos afectos (II, III), pelo que se deve
fazer a ligação disto com aqueles cartões e perceber se houve respostas determinantes com
a cor vermelha ou não.

R.C.% = Número de respostas ao VIII, IX e X x 100  (30 a 40%)


R
23
O Rorschach

- Índice de Angústia (I.A.%):

Há autores que usam o IA; normalmente é igual a 16%.

I.A.% = Anat + Sg + Sexo + Hd x 100


R

5. O Rorschach na prática Clínica


O objectivo do Rorschach é apreender a realidade psicológica do sujeito, isto é, a sua
subjectividade (o que é, como se vê a si próprio na relação consigo e com o mundo, a
natureza dos conflitos) e tentar descobrir as modalidades de funcionamento mental
dominantes.
 Os mecanismos de defesa;
 A angústia presente;
 Identidade (o que sou eu? – a nível da consciência como humano);
 Identificação (ao nível do género);
 Limites do corpo;
 Relação de objecto.

Identificar o tipo de estrutura mental (diagnóstico psicológico):


 Psicótica
 Neurótica
 Estados-limite

Podemos admitir a situação de teste Rorschach como um triângulo, onde vão aparecer
vários aspectos. Por um lado, num dos vértices, teremos a problemática do testador. Esta
não é anódina, há sempre algo de intrusividade; pode ser um estilo mais directo ou
autoritário, mas há sempre um estilo. No outro vértice poderemos pôr a comunicação da
dinâmica interpessoal na interpretação, isto é, os aspectos transferenciais e contra-
transferenciais. Há um interpenetração de dinâmicas de uma parte e de outra: o que o
sujeito vê em mim e que se repercute na forma como se relaciona com o teste e, por outro
lado, a forma como eu o vejo a ele e que se repercute na forma de eu interpretar os
protocolos. Finalmente, num terceiro vértice temos a dinâmica do teste, isto é, o
regressivo e progressivo no próprio teste.
Quer isto dizer que o Teste Rorschach é feito de movimentos progredientes, ou regras. O
que nós assistimos às vezes é a melhores níveis de funcionamento nuns cartões do que
noutros. Por exemplo, um sujeito pode dar 3 ou 4 respostas perante um mesmo estímulo,
começando por uma resposta de boa qualidade que se vai degradando. Por outro lado, pode
suceder o inverso. Portanto, pode haver uma degradação da resposta ou um melhoramento
da resposta inicial.

24
O Rorschach

Quando há uma degradação da resposta, o sujeito tentou fazer face àquele estímulo,
mas os mecanismos de defesa que utilizou não foram suficientemente sólidos para que ele se
aguentasse e daí surgir a queda na qualidade da resposta. São movimentos regredientes.

Há indivíduos que ficam perturbados inicialmente, e depois são capazes de mobilizar


mecanismos de defesa adequados para aguentar e melhorar o nível da resposta. São
movimentos progredientes. Em termos de prognóstico e diagnóstico, é muito melhor um
indivíduo que é capaz de encontrar recursos em si, do que um indivíduo que acaba por
mergulhar pela fantasmática que está em jogo e que não tem capacidade de distinguir o
fantasma da realidade.

São, pois, três vértices de uma mesma questão que estão sempre em jogo nesta questão
da avaliação psíquica através do uso das técnicas projectivas. Produz-se, antes de mais, num
contexto, segundo numa interacção e finalmente numa intersubjectividade.
É redutor pensarmos que as respostas produzidas pelo sujeito são produto unicamente do
confronto entre o sujeito e a mancha, de onde estaria evacuado todo o olhar e a presença do
próprio examinador. Esta interacção, esta intersubjectividade, tem expressão no próprio
comportamento e na própria forma do indivíduo se expressar.

- A análise do protocolo tem duas vertentes:

Modelos quantitativos e explicativos


Medida psicológica e demonstração a partir de certos princípios psicométricos e
estatísticos. É uma medida objectiva e é expressa no psicograma.

Modelos Interpretativos Hermenêuticos


Análise subjectiva das respostas, expressa em três eixos:

 Expressão dos aspectos intelectuais;


 Dinâmica afectiva;
 Socialização.

Estão ligados à significação, relação entre teoria, teste e psicopatologia.

O conhecimento objectivo é fundado no real e nos sinais exteriores (atribuição de nota); o


conhecimento intersubjectivo tenta perceber o processo que levou à resposta, em vez de a
avaliar. A objectividade pura esconde os fenómenos - os instrumentos de medida não devem
passar de auxiliares de observação que revelam dados cujo valor se apura na análise e
interpretação, que têm de estar submetidos a uma teoria, modelos e métodos, para os
descodificar.

- Processo-resposta Rorschach:
O Rorschach é um instrumento para conhecer o que o seu uso provoca; permite revelar
os processos mentais que fundam a relação de objecto e do sujeito com ele próprio, a
representação do objecto e a representação da relação. Permite conhecer as suas
capacidades criativas e de recriação (liga interno e externo e vai criar um novo objecto, uma
criação sua).

A realidade interna é única em cada sujeito, não é partilhável; a realidade externa é


partilhável, mas é interpretada pela realidade interna. É na interacção e inter-relação destas
duas realidades que reside o ponto fulcral do Rorschach.

25
O Rorschach

A partir desta conceptualização, o sujeito formulará o processo-resposta Rorschach –


ligação, transformação e criação entre o mundo interno e o externo (subordinado pela
intersubjectividade). A reposta é um novo objecto resultante desta confrontação, tentando
dar sentido ao que não tem sentido – revela a natureza dos objectos internos (foram
mobilizados pelos objectos externos porquê?).

Chegamos assim à natureza do Eu → mais importante que prestar atenção à resposta


do sujeito é tentar perceber esse processo associativo, que vai desde a percepção do
estímulo até à resposta final.

A partir de um protocolo de Rorschach bem sucedido, podemos saber qual o modo de


funcionamento mental dominante (e conflitos dominantes) do sujeito noutras situações.

É através da simbolização que podemos explicitar o processo-resposta Rorschach. A


simbolização é fundamental dado que lidamos com material verbal, que veicula uma imagem,
um conceito e um símbolo (susceptível de interpretação).
A resposta Rorschach (símbolo) é permitida por:

 Contexto;
 Relação interpessoal;
 Características do próprio estímulo;
 Instrução dada ao sujeito.

Revela a forma do sujeito pensar, como articula as ideias entre si. Esta actividade de
pensar faz-se através do processo de ligação e transformação de diversos universos
psíquicos, recriação e criação. A resposta final é a recriação do objecto (produto entre o
interno e o externo). Tem um conteúdo explícito e um conteúdo latente.

- Projecção:
A projecção é utilizada para apreender o real, e pode ser de natureza:
 Avaliativa – atribuição de significados e valores.
Ou

 Evacuativa – mecanismo patológico (pertence à serie psicótica, em particular à


paranóia) - é um mecanismo de defesa psicótico que consiste na atribuição ao exterior
das coisas que o sujeito rejeita em si próprio.

A percepção e a projecção estreitamente relacionadas, sendo que uma não existe sem a
outra, permitem a delimitação entre mundo interno e mundo externo e também a
representação do mundo interno e externo.

No Rorschach, o estímulo é a mancha, o qual tem características perceptivas bem


precisas, apesar de ambíguas. A ambiguidade e as características da mancha vão levar o
sujeito a usar a projecção, para lhe dar um sentido:

 Atribuindo a imagens ambíguas o estatuto de imagens bem definidas;


 Articulando o imaginário com a realidade ambígua que lhe é próxima e transformando
essa realidade;

Está presente quando os sujeitos utilizam estratégias defensivas e pode ser associada a
uma situação de conflito. A ambiguidade do estímulo leva à mobilização da imaginação por
26
O Rorschach

parte do sujeito de uma forma activa, o que provoca, numa mesma resposta, a conciliação
entre forças inconscientes e conscientes, tendo em conta a realidade interna e externa; O
sujeito articula o imaginário com a realidade ambígua que lhe é próxima e transforma a
realidade noutra realidade. A resposta global vai ter de levar em conta a fantasia.
O processo projectivo leva a que só sejam acolhidas e investidas pelo sujeito as
percepções e as representações que reactivam traços mnésicos individuais ou que integram
essas reacções num sistema prévio.

Na situação projectiva o sujeito tem de se mobilizar para ordenar as percepções internas e


externas, ver o estímulo, sentir e pensar o estímulo, e conciliar estas duas coisas numa só
resposta; por isso se vão operar oscilações entre a realidade interna e a externa.

Real Externo ↔ Pressão Interna

A resposta final desejada deverá conter as duas realidades, conciliando as duas


pressões; deve mostrar que o sujeito tem a capacidade de regredir, dando uma resposta
secundarizada, perceptível e inteligente (deve conter elementos reais propostos pela
situação, que sejam coloridos pelos afectos) - a situação projectiva pode ser assimilada a uma
situação de conflito, porque as características ambíguas dos estímulos levam o sujeito a ter
de mobilizar activamente a imaginação e o sujeito vai ter de, num mesmo movimento, numa
mesma resposta, conciliar imperativos inconscientes e imperativos conscientes; vai ter de ter
em atenção a sua realidade interna e a realidade externa, desta forma a resposta final vai ter
de ter em conta a realidade e a fantasia. A boa distância permite que a resposta, mantendo
presente a realidade, mostre igualmente as ressonâncias fantasmáticas, ou seja as produções
do sujeito deverão conter os elementos reais que são propostos, mas coloridos pelo afecto,
isto é, com ressonância afectiva e fantasmática e sendo os afectos emoções, há-os mais
emotivos ou menos emotivos (Se o sujeito diz “Estão aqui dois homens (ou duas mulheres) a
dançar numa festa com borboletas a esvoaçar à volta”, a imagem “Seres humanos” proposta
pela pessoa, coaduna-se com a realidade mas está colorida pelo afecto; as percepções estão
sempre ligadas a representações. Há um encadeamento de percepção, representação e
afecto e o sujeito durante o encadeamento associa sempre um afecto a essa representação
que lhe surge no espírito).

Percepção Representação Afecto

(Retroacção)

Cada cartão tem características precisas (embora ambíguas) que se centram em dois
eixos:

1. Eixo da Representação de Si

2. Eixo da Representação da Relação

O conteúdo latente dos cartões pode perturbar o sujeito de tal forma (pressões
fantasmáticas) que ele se refugia no imaginário e perde o contacto com o princípio da
realidade (quase delirante); o contrário também acontece – agarra-se à realidade e revela um
funcionamento mental muito empobrecido.

Os cartões II e III (com vermelhos) e VIII, IX e X (cores pastel), têm características que
permitem ao sujeito situar-se diferentemente e são susceptíveis de permitir ao sujeito uma
27
O Rorschach

compreensão simbólica sentida em dois eixos: o eixo da representação de si e o eixo da


representação da relação. Basicamente, quando o indivíduo se revê, se projecta nestas
manchas de tinta, é natural que se reveja como ser humano e possa ver essas figuras
humanas em relação. É da maneira como o sujeito vai jogar com estes elementos projectivos,
que nós percebemos quais são os seus estilos relacionais.
A realidade objectiva entra em confronto com a realidade interna, sendo uma projecção. No
limite, o real não existe, apenas a realidade individual - produto da projecção do eu sobre o
exterior.
Percepção e projecção participam ambas na delimitação entre o mundo interno e o mundo
externo. Quando dizem que as figuras humanas estão a sangrar, o envelope físico não está
constituído, o processo projectivo leva também a que só sejam acolhidas, investidas pelo
sujeito as percepções, as excitações que reactivam traços mnésicos individuais.
O material que interessa ao psicólogo é o que reactivar no sujeito traços mnésicos,
lembranças que são importantes para o sujeito - em todos os sujeitos há estímulos que irão
ser integrados num sistema pessoal.
Ainda na situação projectiva, o sujeito vai ter de se mobilizar para ordenar as percepções
interna e externa, aquilo que ele observa e aquilo que ele pensa sobre o que observa. Assim,
vai oscilar entre a realidade e a fantasia, entre a realidade objectiva e subjectiva. É por isso
que vamos observar oscilações no discurso do sujeito, movimentos mais ou menos subtis
entre a realidade interna e a realidade externa, de modo a dar uma resposta que contenha
essa realidade externa e, ao mesmo tempo, a sua realidade interna.
De um lado temos o percepto, do outro a pressão interna - a boa distância será aquilo que
permite que a resposta, mantendo presente a realidade, mostre igualmente a ressonância
fantasmática do sujeito.
Podemos ter duas situações extremadas: uma pressão fantasmática pode ser de tal forma
que o sujeito deixe de poder contar com a realidade externa, por outro lado, há indivíduos
que são incapazes de se alimentarem dessa ressonância fantasmática e então só existe
realidade externa. Nesses casos, pode acontecer que só dêem uma resposta por cartão sem
interjeições nem adjectivações.

Uns deixam-se ultrapassar pela ressonância fantasmática ao ponto de ser quase delirante,
outros não conseguem sair da realidade externa, não há nada de si, só o real. A capacidade
de ler os fenómenos é mais protectora para as pessoas.

Cartão I

Mancha cinzenta escura centrada, onde existem 4 lacunas com grandes aberturas de
bordos muito irregulares. Normalmente os modos de apreensão são G, baseando-se na forma
(determinante F). O sujeito é sensível à condição tripartida do estímulo (1 central, 2 laterais).
Esta composição tripartida vai permitir pôr esses diferentes elementos que compõem o
estímulo em relação, seja essa relação entre seres humanos ou entre animais.
Exemplo: “Dois anjos a elevarem uma mulher”. Pode ser uma relação com seres
humanos ou animados, ou então uma resposta securizante ou de perigo.
Neste cartão não há grande reacção à textura (determinante sensorial), e quando isso
acontece são respostas vagas F e sem grande rigor intelectual ou estrutura definida (ex.
“Rochedos”, “Nuvens”). A partir do momento em que o sujeito precisa a sua resposta quanto
à forma, só se pode cotar F+ ou F-

28
O Rorschach

As lacunas centrais são pouco interpretadas, embora haja 4 buracos ou espaços brancos, e
que ora passam despercebidas, ora acabam por ser integradas na própria imagem, podendo
trazer consigo elementos de inquietude, desagradáveis, persecutórios (ex. “Uns olhos de um
lobo”).

A tonalidade emocional é quase sempre mais disfórica que eufórica (há pouco entusiasmo),
visto apresentar uma tonalidade depressiva, no entanto, a partir dos buracos brancos podem
também aparecer respostas securizantes, como por exemplo “as janelas da minha casa”.
Quando o sujeito refere que “É uma máscara” remete para o voyeurismo, porque permite ver
sem ser visto.

Este cartão está ligado ao desconhecido, o sujeito não sabe o que vai acontecer a seguir, é
o primeiro contacto com o psicólogo, daí que possa gerar uma certa inquietude. O sujeito
pode tomar uma atitude passiva, socializada, e como tal, dar respostas banais (G F+ ban),
ou então mobilizar as suas forças face ao desconhecido, traduzindo-se em respostas K. A
cinestesia é projectiva e como esta é criativa, há mobilização de recursos. Este cartão reenvia
para a relação com o imago (representação inconsciente) materno todo-poderoso, podendo
ter respostas a um nível mais evoluído, mais relacional, mais lúdico, ou menos evoluído, mais
perturbado, mais ameaçador.
De acordo com o que o sujeito disser podem-se levantar hipóteses quanto à relação com
esse imago interiorizado. Essas hipóteses, essas pistas, têm que ser trabalhadas e têm que
encontrar sentido na relação com o sujeito.

As duas respostas mais comuns são “animal alado” G e “personagem feminino” D central.
A ausência das mesmas levanta um problema, cuja solução só será possível considerando-se
o restante do protocolo.

O “Animal alado” ilustra como o sujeito reage de imediato às situações novas. Neste
sentido, foi possível situar um choque inicial e uma dificuldade de dar início. Uma resposta
banal é a defesa mais comum contra este tipo de choque.

Algumas respostas possuem um significado especial, a ser confirmado pelo resto do


protocolo:

G (cabeça de gato ou de outro animal)  medo do mundo exterior;

G (pássaro batendo as asas)  tendências paranóides;


D lat (perfis)  atitudes de críticas sistemáticas;

D lat (feiticeiras)  imagem materna ameaçadora;


D centr· (vestes transparentes)  tendência a adivinhar o que está por trás do personagem
vivido pelas pessoas;

(monges, figuras religiosas)  recusa a diferenciar os sexos;

(órgão feminino), visto por uma mulher  fixação incestuosa;

D sup (mãos)  ou pedido de socorro ou ameaça;

D sup (boca aberta)  agressividade oral;

Dbl centr (fantasma andando, homem invisível)  tendências paranóicas;

Dd cinza claro central (tomahawk, machado)  psicopata agressivo;

29
O Rorschach

Quanto à significação global do cartão, foram feitas as seguintes hipóteses:

 Situação do primeiro confronto: “quem és?”


 Autoridade paterna: o choque indicaria, se confirmado no cartão IV, uma perturbação
no relacionamento com a figura paterna;
 Distúrbio nas relações pré-genitais com a mãe (confirmar nas cartões VII e X) se o D
central for visto como “vestimenta, esqueleto, vaso, arquitectura”, A ou Pl (substituto
desvitalizado da mulher); “barco” G: símbolo da vida intra-uterina, dependência total
da mãe; “montanha” G: símbolo dos seios, desvalorização da imagem materna, busca
do apoio fundamental.

A diversidade de tais hipóteses é explicada por um fenómeno mais básico: o sujeito entra
em contacto com o examinador, começando a desenvolver, em relação ao mesmo e à prova,
um processo dinâmico de transferência, no sentido psicanalítico do termo.

Cartão II

Este cartão é composto por uma mancha que inclui a cor negra e vermelha, de estrutura
simétrica, que engloba um grande espaço vazio – o branco. A resposta global G, quando é
dada, é sempre como resultado da mistura das cores (ex. pintura rupestre  G impreciso). É
raramente adequada se o determinante for formal, sendo assim, será um F-. Há uma
estrutura bilateral em volta da parte central vazia, onde se insere o vermelho. Este é
importante na medida em que reaviva as pulsões libidinais e agressivas do sujeito.
Exemplo da boa integração destas pulsões através de dois elementos que lutam: “São dois
palhaços que lutam”; ou “Dois elefantes jogando à bola”. Se o sujeito lida mal com as pulsões
agressivas, evita o vermelho interpretando só o preto.
Do ponto de vista emocional, os sujeitos reagem a esta cartão porque é a primeira a incluir
a cor vermelha. A resposta global G mais frequente é: “Dois homens” ou “Dois animais” em
interacção, no entanto, a cinestesia pode ser bloqueada pela perturbação devida à cor. O
branco pode ser interpretado como um buraco, uma falha (ex. entrada para uma gruta).
Também pode ser vista como um objecto, sendo muitas vezes visto como “Um foguetão a
levantar voo num céu cheio de nuvens”. A um nível mais evoluído de respostas estas
remetem para situações de luta, de competição, e a um nível mais primário, menos
evoluído, estas remetem para situações com temáticas destrutivas, ligadas por exemplo, a
explosões e rebentamentos. A problemática da castração é claramente visível, bem como a
angústia que lhe está directamente ligada e os processos defensivos que o sujeito utiliza para
fazer face a essa angústia.

Neste cartão, assiste-se à emergência duma temática obstétrica, pré-genital (nascimento),


o sujeito revive alguns dos conflitos da sua infância, revelando uma relação simbiótica ou
destruidora com a mãe (ex. “Um feto que quer sair do corpo da sua mãe mas não consegue”;
“Um útero esvaziado”). Se mobilizado pela cor (choque cor), reage quer através da
passividade ansiosa, quer através duma explosão de agressividade (fogo, sangue), ocorrendo
tais reacções tanto em pessoas normais, como em neuróticos. O centro evoca representações
sexuais, com bastante naturalidade.

Quando o sujeito em D cinza centr sup indica “Falo” ou em D vermelho inf indica
“Vagina”, o grau de perturbação do sujeito por problemas sexuais vai ser determinado pelo
conteúdo e pelo estilo destas respostas; a perturbação é nítida, se a resposta sexual for
deslocada para o Dbl central, ou se a cartão lhe parecer suja (lama, sangue, menstruação).

30
O Rorschach

Cartão III

Este cartão tem os mesmos componentes do cartão II, nomeadamente a cor vermelha, no
entanto, difere desta numa maior abertura ao branco. O modo de apreensão em G refere-se
normalmente à relação que o sujeito estabelece entre as partes negras. A resposta global
neste cartão é tida em reacção aos negros, e ainda que o sujeito não interprete os
vermelhos cota-se G; há uma articulação das duas partes. Trata-se de uma excepção. Não
só é raro surgir uma resposta G que englobe os vermelhos, como também costuma ser
desadequada. Quando o sujeito força a resposta, o estímulo vermelho provoca muitas vezes
respostas delirantes, principalmente com o cartão invertida (ex. “É um monstro de braços
levantados, vê-se o coração”.  O sujeito reduz os personagens a imagens internas do
interior do corpo, em vez de projectar uma vivência relacional. Isto significa que a barreira
entre o que é externo e interno não está claramente estabelecida.)
O clima emocional é positivo e este cartão agrada normalmente aos sujeitos. É
frequentemente escolhida como a cartão preferida. O próprio estímulo, por estar próximo da
realidade objectiva, isto é, por evocar facilmente as silhuetas humanas, também pode
levantar problemas por isso, podendo rapidamente adquirir uma tonalidade negativa se o
sujeito se vê confrontado com um outro e esse outro tem dificuldades relacionais. O indivíduo
pode arranjar uma série de estratégias para evitar esse mal-estar, podendo passar pela
encenação de génios, de duplos, de imagens especulares, um eu e um duplo (“Está a ver-se
ao espelho”), podendo ainda passar pela coisificação, numa encenação de figuras humanas
(bonecos, manequins). Os personagens são desvitalizados, o que representa uma relação
complicada com o outro.

Este cartão permite uma identificação (uma identidade sexual) quer masculina (através do
pénis) quer feminina (através dos seios). O resultado simbólico resulta da disposição destas
silhuetas que estão muito próximas da realidade e o sujeito vai poder exprimir a necessidade
de representação de si por um lado, e a representação de si face ao outro, e ainda a
descoberta desse outro e o tipo de relação que é procurada com esse outro, uma relação de
apoio (representação de si e representação da relação).

Normalmente, se falarmos de representação de si, os sujeitos homens e mulheres vêem-se


espelhados. O sujeito encerra-se na sua identidade de género e também na relação com os
outros.

Este cartão testa muito bem as dificuldades identificatórias (registo do ser – que sou eu? a
que comunidade pertenço? animal, vegetal?) e as dificuldades mais primárias (registo do ter –
quem sou eu?). A ausência da percepção de seres humanos, confirmada pelo inquérito de
limites, faz supor uma incapacidade de identificação com outros seres humanos, que muito
provavelmente é psicótica.

A figura humana percebida sem cinestesia, a incerteza quanto ao sexo, ou o choque a este
cartão, denotam inibição referente à virilidade: o homem teme a sua virilidade, a mulher
teme o contacto com o parceiro sexual.

Os dois personagens são muitas vezes vividos inconscientemente como o par parental e,
nesse caso, o sujeito revela nas suas respostas a sua relação edipiana com os pais.

G (marionetes, bonecos mecânicos)  esquizofrénicos com ideias de influência.

Dd centr inf (maxilares que se fecham, draga mecânica)  tendências paranóides, fobia de
lugares fechados.

31
O Rorschach

Cartão IV

Este cartão é composto por uma mancha escura e densa, mais compacta, que se espalha
bastante no cartão. Este cartão é mais próximo do cartão I e é mais sombrio.
O modo de apreensão habitual é global G.

Exemplos:

“Monstro sentado num tronco de uma árvore”

“Monstro em cima de uma mota”

“Pele de animal (de urso) ” (neste caso não tem esbatimento/textura, pelo que não é E)

No entanto, há sujeitos que, devido ao impacto fantasmático e doloroso que o cartão lhes
provoca, põem em funcionamento o mecanismo de defesa – isolamento. Este é um
mecanismo da série neurótica e mais especificamente das personalidades obsessivas. Ex. o
sujeito em vez de dizer que é um gigante ou um urso, diz que é um pé ou um sapato. Isola
para não ter de se confrontar com a angústia provocada pelo aspecto fantasmático do
estímulo, que reenvia, do ponto de vista simbólico, para a força, para o poder.

O esbatimento remete para a necessidade de um contacto mais próximo, mais íntimo, e


nem todos os indivíduos têm necessidades dessa natureza, o que quer dizer que, sendo
assim, poderá haver aqueles que são mais sensíveis à forma. Outras vezes, os sujeitos são
sensíveis às qualidades sensoriais do estímulo e, nesse caso, praticamente não há forma.
Exemplo de uma resposta G determinante sensorial: um pesadelo - informe, absolutamente
subjectivo que parte das qualidades sombrias da mancha.

A ausência de respostas banais (ser humano ou animal para-humano - G) e os D laterais


(as botas) colocam um problema. A reacção do sujeito ao esbatimento merece ser observada,
devendo seguir-se a evolução dessa reacção nos cartões V, VI e VII.
O conjunto dos 4 cartões cinzentos constitui material reactivo à angústia (choque ao
negro), daí que a tonalidade emocional seja quase sempre disfórica, isto é, frequentemente
desagradável para o sujeito. Provoca desconforto e angústia, havendo alguns indivíduos que
ficam completamente siderados, podendo isto traduzir-se numa não resposta.
Quanto ao valor simbólico, contrariamente ao que vem escrito nalguns livros, este cartão
não é a do papá, a não ser que se defenda que o superego não é apenas paterno, havendo
portanto superego materno. Este cartão está ligado à força, ao poder, à autoridade. Alguns
autores também lhe chamam o cartão do superego. Um superego que tanto pode ser
materno como paterno.

Sendo este cartão simbolicamente representativo dessa autoridade, vamos ter reacções
quer positivas quer negativas, na forma como os sujeitos se vão posicionar face a essa
autoridade. Vão haver sujeitos que ou se identificam com essa autoridade ou a ela se
submetem.

Os sujeitos vão exteriorizar representações de autoridade paterna, angústia infantil e


sentimentos de culpa diante do superego, complexo de castração, transformação da agressão
em depressão e eventualmente ideias de suicídio. Ex. ”Dente caindo de uma árvore podre”;
“Pedaço de madeira queimado e carbonizado”; “Massa de fumaça negra”.

Perante este simbolismo, os sujeitos vão dar basicamente dois tipos de resposta:

1. Os que se identificam com esta denominação (posição activa)


2. Os que se submetem à denominação (posição passiva)
32
O Rorschach

Isto significa que há sujeitos que dão respostas que valorizam o aspecto da força e outros
que se refugiam numa atitude contrária à da força, dando respostas que dão conta dessa
inconsistência, dessa passividade e do receio à figura de autoridade (ex. resposta “pele” é
uma imagem adaptativa).
Há também um carácter de bipolaridade sexual, mas a dimensão mais explorada é a fálica
(ex. cartão virado ao contrário, D médio central  “Um castelo”; “A coroa de um rei” – retrata
a autoridade, a força, o prestígio). Nas respostas a este cartão espera-se esta identificação
com esse símbolo fálico, duma forma valorizada. Uma criança pode identificar-se com o pai e
sentir-se penetrado pela força paterna.

Pénis estruturante do pai: é a força transmitida através da identificação do filho. É obvio


que é simbólico. As crianças com pais sádicos, só têm duas escolhas possíveis: ou se
submetem e são masoquistas, ou se identificam com eles (com o agressor), e tornam-se eles
próprios agressores, quer seja na escola, com a mulher, filhos, etc.

Quando existe um pai violento, o filho ou se submete masoquistamente (porque não tem
autonomia psicológica ou de outra natureza), ou se identifica com ele e vai ser um adulto
sádico, quer com os amigos, quer com as mulheres, os filhos, etc. A crueldade de muitas
crianças que se identificam com o agressor é quase psicótica. Normalmente os violadores
foram muitas vezes maltratados e até violados.

Respostas com simbolismo sexual:

- Fálico - no D central inferior (geralmente visto como “cabeça de animal” ou “tronco de


árvore”), e no D mais externo (“serpentes; dançarinas; alface murcha”);
- Feminino – no D central superior (Pl ou cabeça).

Existe perturbação psicossexual no caso do sujeito inverter os simbolismos masculino e


feminino. Uma resposta sexual associada ao esfumaçado indicaria que o sujeito vivencia as
relações sexuais como uma troca recíproca (Klopfer).

G: “Gorila”  obsessivos, depressivos, que projectam a parte viril da sua personalidade;

D central superior: “Barco que fende a água, bomba caindo”  medo à penetração;
tendências homossexuais;

“Explosão”  psicopatas, epilépticos, alcoólatras, que procuram voltar ao equilíbrio através


de uma descarga brusca.

Cartão V

Este cartão é composto por uma mancha compacta negra, relativamente pequena, com
mais unilateralidade. A regra quase sempre é um modo de apreensão global G, por causa do
carácter maciço e unitário deste estímulo (ex. “Animal alado”, “Morcego”, “Borboleta”, “Uma
dama com uma grande capa aberta”).
No entanto, ainda que não seja muito frequente, existem excepções que podem ser por
exemplo o indivíduo dividir a cartão em duas metades, direita e esquerda (muitas vezes
vistas em oposição), e uma terceira, destacando o D central (um animal, um coelho ou lebre,

33
O Rorschach

ou uma pessoa). É muito raro quando existe inversão da relação figura-fundo (“Isto é um
buraco negro”; “A mancha tem um buraco!”).

A tonalidade emotiva é neutra, adaptativa. Este não é um estímulo que levante grandes
questões, pois está muito próximo da realidade objectiva (tal como no cartão III), surgindo
com frequência respostas banais de animais voadores. Algumas vezes este estímulo mostra-
se disfórico, mas só se apresenta como tal, quando a representação de si é difícil.

Devido ao seu carácter unitário, apela também à unidade do sujeito, pelo que quando a
unidade está posta em causa, o estímulo torna-se difícil. Há casos em que isto acontece
quando há um arrastamento da ansiedade que foi gerada pela mancha anterior.

Sempre que se verificam dificuldades no cartão V é preciso ver o que se passou no cartão
anterior.

Na euforia própria dos adolescentes e em personalidades de natureza histérica, tem-se


muitas imagens de grande valorização narcísica (“Uma borboleta cheia de colares, ela vai a
uma festa e vai divertir-se imenso”; “É uma jovem, vestida com uma capa muito elegante,
que vai à festa”  nota-se um grande investimento narcísico).

Quanto ao valor simbólico, pelas características maciças e unitárias deste estímulo, este
cartão apela sobretudo ao sentimento de integridade física e psicológica. É chamada a
cartão da identidade, a representação de si (ego ideal), onde o sujeito expressa a ideia
que faz de si próprio, o que nos remete para uma integridade ao mesmo tempo psíquica e
somática.

Testa muito bem a presença de envelope corporal e psíquico no sujeito, de películas


contentoras da psique, do pensamento, mas também do interior do corpo. Todas as respostas
que demonstram fragilidades desse envelope devem deixar-nos alerta para questões como a
psicose. Este sentimento de integridade ao mesmo tempo física e psíquica, tem a ver com a
representação de si e, se houver uma recusa, isso é um alerta para uma eventual luta do
sujeito contra a desorganização de si, contra o caos interno. Também pode acontecer que o
sujeito fuja da representação através de respostas impessoais ou a manifeste através de
numa resposta simbólica.
Em casos mais extremos, como é o de doentes esquizofrénicos, a sua incapacidade reside no
não aprofundamento da realidade externa, uma vez que este cartão está ligado ao exterior.
Há casos em que o sujeito interpreta separadamente a partir de um eixo central, as duas
partes do estímulo. Quando o sujeito em vez de dar uma resposta G, dá a resposta baseada
em duas metades (D), em que essas metades estão em rivalidade, remete para a vivência de
ambivalência por parte do sujeito e para o conflito intra-psíquico.

A ausência de respostas banais (“morcego; borboleta”) confirmadas pelo inquérito dos


limites, é sinal de debilidade patológica da ligação do sujeito à realidade. Este cartão é vista,
assim, como a da adaptação do sujeito à realidade. A cinestesia animal, mostra como o
sujeito sente o mundo exterior (planar, ameaçar, etc.).

Os depressivos quase não suportam o efeito da mancha negra (choque clob).

A percepção de “Uma borboleta muito colorida” representa uma projecção ao nível


patológico grave. Os obsessivos transpõem a sua luta pelo equilíbrio entre forças repressoras
e forças reprimidas, pela percepção de “Uma luta entre dois homens ou dois animais que se
enfrentam, que estão adormecidos ou encostados um ao outro”.

Perfis humanos são frequentemente interpretados nas margens deste cartão.

G (reduzida ao contorno): “Boca desencarnada, nada mais do que uma boca”  signo capital
de esquizofrenia.
34
O Rorschach

D lateral: “montanhas, vales, seios”  alcoólatras neuróticos.

D extremidade lateral: “goela de crocodilo”  agressividade oral.

Cartão VI

Este cartão é composto por uma mancha cinzenta onde predomina o esbatimento
(textura); atravessada por um eixo vertical, que se destaca facilmente do resto daquela
massa inferior compacta, vêem-se duas partes distintas: uma massa compacta em baixo,
atravessada por uma parte saliente.
É uma mancha que pode ser percepcionada quer na sua totalidade (respostas G  “pele de
animal”), quer na relação entre o D superior e o D inferior.

Predominam as respostas F e E (mais do que em qualquer outra cartão), favorecendo


respostas cinestésicas. Pelo que a ausência das mesmas representa um problema.
A reacção emocional é frequentemente negativa, ao ponto de não ser invulgar que este
cartão seja recusado. Isto acontece devido ao significado simbólico deste cartão. Face ao
impacto provocado por esta mancha, pode haver respostas adaptativas, sendo a mais comum
“Pele de animal”.
Os Dd neste estímulo quando aparecem são sempre muito significativos, isto é, com valor
agressivo (“unhas”; “garras”, etc.).

D e Dd sempre acompanhados de F+ são típicos dos protocolos obsessivos.

Por vezes o eixo central que trespassa a massa compacta é interpretado de acordo com
uma resposta que é mobilizadora de energia natural (“uma erupção vulcânica”  kob).

Do ponto de vista simbólico, é uma cartão muita saturada em factores com implicações
sexuais e/ou enérgicas-dinâmicas. Mas nesta cartão, tal como na 4, o que está mais
facilmente implicado na análise do estímulo é muito mais a dimensão fálica, do que a
representação do corpo feminino (o D superior evoca um símbolo fálico, e o Dd central
inferior, um símbolo vaginal).

Dada ser esta dimensão fálica a mais interpretada, pode surgir uma temática ligada a essa
questão, por exemplo “um totem”, que é uma temática mística, ligada ao poder e de
característica paterna. Há também a resposta “foguetão”.

Apesar de serem respostas dinâmicas, estes kob podem também ter um valor agressivo e
destrutivo, pois por vezes os indivíduos defendem-se dessa agressividade através de
respostas que têm o determinante sensorial E, isto é textura. Outras vezes ainda, essa
agressividade manifesta-se com piores características e o sujeito dá respostas residuais
(“lama”; “pano sujo”), de conotação passiva.

A interpretação fácil destes cortes denota uma sexualidade respectivamente masculina e


feminina. Ex. D metade inferior: “um vale lindo e rico, rodeado de colinas arredondadas”.

Este cartão reenvia o sujeito para a problemática sexual:


 Angústia predominante na neurose: angústia de castração
 Estados- limite: angústia de perda do objecto
 Psicose: angústia de fragmentação
A recusa da interpretação dos cortes é sinal de problemas sexuais.

Este cartão pode testar a angústia de castração, devido a esta conotação masculina e
feminina. Podemos aperceber-nos disto:

 Através desta dimensão actividade/passividade;

35
O Rorschach

 Através desta alternância na sequência de respostas, entre respostas de cariz mais


activo e respostas de cariz mais passivo.
 Objectos activos que se tornam objectos passivos no momento seguinte (“foguetão;
pele de animal; totem; pedra”).

Esta alternância constante de movimentos pulsionais que são recusados logo a seguir e
substituídos por outros que os desclassificam, dá-nos conta da problemática da castração.

No que diz respeito à questão da dimensão actividade/passividade, este conflito está ligado
à castração: ter ou não ter. Verifica-se através da sucessão de respostas e da associação que
o sujeito faz, quer intra-cartão, quer inter-cartão. Devemos analisar qual foi o encadeamento
das respostas dadas, ou seja, como é que o sujeito associa uma resposta a outra. E como é
que se vê esta sucessão? O sujeito pode dar uma resposta mais activa e logo a seguir uma
resposta passiva. Assim, face ao estímulo, o conflito joga-se entre actividade e passividade.

D lat inf: “Cabeça de rei”  problemas com a autoridade; nível de aspiração elevado
Linha central: “Projéctil (ou navio) cortando a terra, a água ou o ar”  tendências
paranóides ou homossexuais
Dd cinza claro: “Ninho, ovo” ou regressão a nível infantil  problemas referentes à
procriação.

Para facilitar a análise deve fazer-se a comparação da produtividade dos cartões IV e VI, II
e III, VIII, IX e X com as restantes, e ainda os cartões bilaterais (onde mais facilmente um
sujeito pode encenar uma relação) com as outras.

Cartão VII

Este cartão é completamente diferente dos anteriores, na medida em que predomina o


espaço branco, ou seja, o fundo. O seu contorno é irregular. Forma de colar em tons de
cinzento claro.
A mancha permite a desagregação em 3 partes distintas. Nos inquéritos chamam-se de:
terço superior, terço médio e terço inferior.
As reacções a este estímulo são variadas, podendo o sujeito percepcionar a figura, o fundo,
ou os dois.
A reacção no que respeita à figura pode ser:
 Em relação às partes isoladas do estímulo (o sujeito tira partido da forma e da textura: “um
conjunto de ilhas” F+)
 Ou pode percepcioná-lo numa combinação bilateral (“Duas meninas a andar de baloiço” K)
O fundo também pode ser abordado de diversas maneiras, por exemplo como um objecto
(o sujeito inverte a cartão e diz: “É o chapéu do Napoleão”) ou como cor (“Um bloco de gelo”)
ou outro caso de figura, com figura e fundo ao mesmo nível, “ A entrada de um porto”.
Quando há uma grande sensibilidade ao branco, o sujeito pode dar respostas muito
distorcidas da realidade que têm a ver com o corpo humano, e que reenviam para o vazio
(“Um ventre de mulher esvaziado”).

A tonalidade emocional reflecte o carácter frágil, ou não, do estímulo, pelo que pode ser
sentido como alguma coisa inacabada, instável (“A entrada de uma gruta em ruínas”), ou,
num sentido positivo, a reacção ao estímulo é de figuras que estão em relação, imagens
lúdicas, de pessoas que gostam de competir (forma saudável de agressividade, que tem a ver
com o prazer dessa relação).

Quanto ao valor simbólico, trata-se de uma cartão feminina, materna, onde o sujeito é
confrontado com a sua primeira relação; o vazio central é vivenciado como colo materno.

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O Rorschach

Pode encontrar-se dois tipos de resposta:


1. Securizantes – encontram-se sentimentos de vivência, de segurança, com cinestesias
femininas. O não aparecimento destas cinestesias, supõe uma perturbação das relações
mãe/filho. A, H e obj.
2. Ameaçadoras ou abandónicas – quando estas imagens são percepcionadas de uma
forma negativa, surge a vivência de abandono, reflectindo a patologia da vinculação, por
exemplo respostas como “Bloco de gelo”, “Um arco em ruínas”, “Entrada para uma gruta
em ruínas”, dão conta dessa precariedade do continente materno.

Abordar as figuras em relação é funcionar num modo mais secundarizado, enquanto se o


sujeito se deixar fascinar pelo branco, pelo vazio, está a um nível muito mais primário. Podem
aparecer alguns border line, com polaridade psicótica muito activa, onde projectam respostas
de sofrimento. Devem comparar-se sistematicamente as respostas dadas neste cartão com as
do cartão II, uma vez que ambas têm caracteres semelhantes.

Um grande número de respostas brinquedos ou animais, significa desenvolvimento


social imaturo ou dificuldade de abordar as relações heterossexuais.

Simbolismo vaginal no D central inferior:


Dd cinza claro centr inf: “casa pequena”  necessidade infantil de segurança;
G: “Nuvens”  angústia flutuante, insegurança;
G: “Neve, bloco de gelo”  falta de contacto íntimo com a mãe, vivenciada com indiferença;
frigidez;
Dbl centr: “Iceberg, açude gelado”  falta de contacto com o outro, recurso ao álcool ou aos
tóxicos para obter tal contacto;
G: “Elefantes equilibrando-se sobre uma caixa”; “Rochas empilhadas sem estabilidade” 
sensação de desequilíbrio e medo de desabamento;
O D superior é frequentemente interpretado como uma cena de disputa e informa sobre a
manipulação da agressividade por parte do sujeito.

Cartão VIII

Cartão em cor pastel que se desenha em torno de um eixo médio, com muito branco. Não são
vulgares as respostas em G, e, quando aparecem, integram todas as cores (“Brasão” ou
“Pintura impressionista” F+).

Os D rosas laterais são as partes do cartão mais interpretadas e é aqui que aparecem as
respostas banais “mamíferos”, que são determinadas quase sempre pela forma. Estes
detalhes estão muito próximo da realidade e isso permite ao sujeito evitar a integração da
cor, ou seja, evitar lidar com os afectos. Excepção de cotação: ainda que o sujeito diga que os
animais que vê nestes rosas laterais estão em movimento não se cota kan, e sim DF+ uma
vez que o estímulo já induz resposta movimento. Só se cota kan quando a cartão não está
direita.
A reacção emocional é geralmente positiva, mas a introdução da cor pode ser perturbadora
para o sujeito, daí que, a tonalidade emocional também possa ser negativa. Neste caso as
cores remetem para imagens do interior do corpo através de anatomias, mesmo que sejam
intelectualizadas; se não for esse o caso temos imagens de corpos devorados, danificados,
destruídos. As cores também podem ser utilizadas com o branco no seu carácter esbatido.
Uma resposta típica é “Mármore” ou “Pôr-do-sol no gelo”.
Quando não é vista a resposta animal, vulgar, tem-se um problema análogo ao do cartão V
(sinal de debilidade patológica da ligação do sujeito à realidade).

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O Rorschach

Também são significativos os graus de agressividade atribuídos aos animais, ou à sua


desvitalização sob a forma de emblema.
Merece ser analisada (com cuidado), a reacção do sujeito à cor, independentemente do
facto de ter ou não sofrido um Choque Cor:
 Mudança de tonalidade afectiva (em comparação com os cartões anteriores);
 Respostas anatómicas ou de geografia: atitude estereotipada e artificial frente aos
estímulos afectivos; se as primeiras respostas de Anat do sujeito aparecerem neste
cartão, configura-se uma tendência e preocupações somáticas em situações de
mobilização emocional intensa. Localizadas no D ou no Dbl central, as Anat são
normais;
 Emprego arbitrário ou “forçado” das cores no conteúdo das respostas, em especial na
percepção de animais coloridos.
 Respostas de Pl; passividade diante da cor, sobretudo se se tratar de um CF na
localização de cor pastel;
 Fuga das cores vivas, procurando refúgio no cinza ou azul;
 Fuga da cor, interpretando-se o branco (é rara em pessoas normais); aparece em casos
de neurose de angústia, de histeria e de esquizofrenia (nesta última ligando-se a C’ ou
a K: “Morcego branco”, “Fantasma voando”);

Cartão IX

A estrutura deste cartão faz lembrar os cartões II e VII. É constituída por 3 terços de cores
largamente repartidas sobre um fundo esverdeado.
É um cartão considerado dos mais difíceis e a tonalidade emocional é variável, dependendo
da capacidade do sujeito aceitar ou não a regressão. Este cartão apela à regressão e nem
todos os indivíduos se podem permitir tal coisa. Tem um grande impacto emocional no sujeito
e não há resposta banal para este cartão. A solicitação para esta regressão traduz-se numa
sequência de imagens de conteúdos naturais, frequentemente ligadas ao meio aquático, que
tem a ver com a imagem materna (“Um repuxo de água” kob  resposta muito positiva; “Um
vulcão a explodir”  resposta sem contornos, mais pulsional, mais vigorosa e regressiva).

Este cartão remete para uma simbologia pré-genital, ou seja, uma temática ligada ao
nascimento e nem todos os indivíduos têm muita facilidade em lidar com esta simbólica, pelo
que muitas vezes o que aparecem são fantasias pré genitais ligadas à gravidez/parto (“ São
dois gémeos a nascerem, a sair do ventre materno”  esta é uma resposta muito funcional).

É um cartão frequentemente recusado, e, certamente, a mais difícil. Os sujeitos têm


dificuldade em a interpretar (o impacto emocional é muito intenso), e a prova disso é que não
há respostas banais.
As formas são vagas, há grandes cortes dispersos e as cores são vivas e distintas. O
esbatimento encontra-se presente, tornando os buracos centrais por vezes fascinantes.

Para chegar a organizá-la como G, é necessário integrar a maior parte dos dados, supondo-
se, (segundo a Psicanálise, estádio genital) uma inteligência superior à média e maturidade
afectiva.
A resposta explosão passou a ser comum neste cartão.
As respostas de cor não ocorrem em grande número, ou são fortemente carregadas de
emoções em geral desagradáveis. Os sujeitos que gostam deste cartão apresentam respostas
de cor elaboradas, isto porque vêem, na relação afectiva com o ambiente social, uma
estimulação fecunda e propícia.

Ao interpretar esta mancha, fica-se frente a frente consigo mesmo, na medida em que a
personalidade esteja mais ou menos bem integrada.

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O Rorschach

As respostas mais comuns são acompanhadas com frequência por esclarecimentos


pessoais significativos:
D laranja: “feiticeiras, palhaços”, porém “ameaçadores, bizarros, intoleráveis”.
D rosa: “cabeça”, mas também “cabeça de criança ou de feto”  apego a objectos de amor
infantil.
D verde: “cabeça estúpida”.

R. Schaffer mostrou que a relação transferencial do sujeito para com o examinador atinge o
seu máximo no cartão IX e que as recusas da mesma, muitas vezes, representam uma
reacção à atitude interior hostil do examinador.

Cartão X

Neste cartão predomina, para além da cor, a dispersão. Dadas estas características de
dispersão, remete o sujeito para fantasmas de fragmentação. Solicita o indivíduo para essa
angústia de fragmentação, testa os limites. Se o sujeito é sensível a esta problemática, tem
dificuldade em unir, tornando-se mais fácil detalhar a mancha sem sentir incómodo com isso.
Podem aparecer imagens mórbidas (representações de vísceras; fragmentação ao nível do
corpo).
Através do mecanismo de isolamento, o sujeito pode apreender e interpretar imagens
numa perspectiva mais agressiva, entre animais, ou entre animais e pessoas. Constitui-se a
ruptura da transferência com o examinador: alívio por ter terminado a prova e alegria infantil,
manifesta numa multiplicidade de respostas animais, ou então, cansaço neurótico e reacção
depressiva frente à perda de objecto.
Estimula quase sempre respostas em D.

Uma resposta G revela uma capacidade intelectual organizadora de alto nível (G


secundária), por exemplo, “a Torre Eiffel, ao fundo os Campos Elísios”, ou “é um castelo ao
fundo de uma avenida” (são respostas tridimensionais onde o G é altamente elaborado), sem
fuga à cor (G primária primitiva).

Este cartão favorece o maior número de respostas vulgares, por exemplo: “A paleta de um
pintor”, “Uma festa”, “Foguetes de Carnaval”, ou “Mancha de óleo que brilha ao sol”. A sua
ausência representa, por isso, um problema.
Limitados até ao momento quanto ao emprego de seus recursos, pela complexidade e
variedade do material, a maioria dos sujeitos pode então mostrar aquilo de que é capaz,
revelarem-se mais espontâneos e adaptados nas suas respostas. Interpretam os cortes uns
após outros, seja integrando bem a cor (lagarta verde, pássaro azul, veado castanho,
cachorros amarelos), seja com cinestesias adequadas (touro avançando, insectos lutando,
aranha correndo sobre a teia, etc.).

Outros, no entanto, perturbam-se com o cartão, devido à cor (reagindo, nesse caso, como
aos cartões já interpretadas), ou devido à extrema dispersão das manchas (sentindo
verdadeiro choque ao despedaçamento). Tal é a reacção dos sujeitos de nível intelectual
baixo, ou daqueles cuja inteligência sofre um sério bloqueio emocional, ou de esquizóides,
mal adaptados em termos profissionais e sociais, vagabundos, afectivamente indiferentes.

Quando se trata de epilépticos ou de quadros orgânicos, a tudo isto se acrescenta o


cansaço decorrente dos nove cartões precedentes, levando às vezes a uma recusa. Myriam
Orr relaciona o choque ao despedaçamento, ao choque do nascimento ou ao do desmame.

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O Rorschach

O Cartão X seria ainda uma imagem difusa materna (é interpretada muitas vezes como
“paisagem submarina”. Outros, consideram-na como o cartão do simbolismo familiar, devido
ao grande número de pequenos animais. Merei vê nela a cartão do espaço.
Os sujeitos com uma polaridade histérica tendem a achar este cartão muito bonito,
muito bela, onde tudo é inofensivo, onde só há coisas boas. Dominam os afectos para evitar a
representação e os afectos.

Os sujeitos com uma polaridade obsessiva fazem uma exploração minuciosa, têm
tendência a delimitar, a isolar os perceptos, interpretando com frequência os detalhes.
Privilegiam sempre o modo de apreensão em D ou Dd e até mesmo Do. Está presente uma
temática agressiva que faz com que os sujeitos privilegiem o mecanismo de defesa
isolamento.
Os sujeitos com uma polaridade psicótica têm grandes dificuldades em a interpretar.
Dão respostas muito primárias e mórbidas, dado que a cartão remete para a falta de unidade.
Fragmentação da unidade do Eu, projecção de um Self fragmentado, que não tem unidade
entre as diferentes partes: Self “ilhificado”.

Os sujeitos com uma polaridade fóbica vão invocar (à semelhança das organizações
obsessivas), uma multiplicidade de detalhes animais (D e Dd: insectos, animais, flores, etc.),
um bestiário que provoca a repulsa do sujeito.
Nos sujeitos psicossomáticos, as respostas são dadas através de substantivos (e não de
adjectivos), dado que não têm capacidade de embelezar as coisas.

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