INSTITUTO MÉDIO POLITÉCNICO MESSALO- PEMBA
CURSO DE ENFERMAGEM SAÚDE MATERNO INFANTIL
PRÉ-ECLÂMPSIA
Pemba, Fevereiro de 2025
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INSTITUTO MÉDIO POLITÉCNICO MESSALO- PEMBA
CURSO DE ENFERMAGEM SAÚDE MATERNO INFANTIL
PRÉ-ECLÂMPSIA
Formandas
Trabalho de carácter avaliativo do Módulo
de Obstetrícia Patológica, Ministrada no
Instituto Médio Politécnico Messalo, a ser
avaliado pelos formadores:
Pemba, Fevereiro de 2025
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Índice
Introdução.........................................................................................................................................1
1. Conceito clínico e contextualização histórica da Pré-eclâmpsia..........................................2
2. Critérios diagnósticos de Pré-eclâmpsia...............................................................................3
2.1. Hipertensão arterial..............................................................................................................3
2.3. Fisiopatologia.......................................................................................................................6
4.1. Durante o trabalho de parto e o próprio parto....................................................................11
6. Diagnóstico do bem-estar fetal...........................................................................................12
7. Prevenção da Pré-eclâmpsia...............................................................................................13
7.1. Prevenção primária.............................................................................................................13
Conclusão.......................................................................................................................................14
Referências bibliográficas..............................................................................................................15
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Introdução
O presente trabalho tem como tema Pré-eclâmpsia. Parte-se do princípio de que a Pré-eclâmpsia
é uma das principais causas de morbi-mortalidade materna e perinatal no mundo e a identificação
de factores de risco ao seu desenvolvimento pode auxiliar na prevenção e diagnóstico precoce do
início clínico da doença.
Apesar dos avanços na prática clínica, a Pré-eclâmpsia continua sendo um desafio significativo
para os profissionais de saúde, exigindo uma abordagem multidisciplinar para a sua prevenção,
diagnóstico precoce e tratamento adequado. Para a realização desse trabalho foi traçado o
seguinte objectivo geral: analisar os factores determinantes e os mecanismos fisiopatológicos
associados à Pré-eclâmpsia. Para atingir esse objectivo, foram traçados os seguintes objectivos
específicos:
(i) Identificar os factores de risco e os marcadores clínicos e laboratoriais associados à Pré-
eclâmpsia; (ii) descrever as práticas de monitorização e intervenção terapêutica empregadas na
assistência a gestantes com risco de desenvolver Pré-eclâmpsia; e por último, (iii) avaliar o
impacto das políticas de saúde pública na redução da incidência e complicações decorrentes da
Pré-eclâmpsia.
A metodologia adoptada para a elaboração deste trabalho envolve uma abordagem bibliográfica,
isto é, envolve a análise e interpretação de obras e documentos já publicados sobre um
determinado tema e permite uma compreensão abrangente e aprofundada do fenómeno,
possibilitando a formulação de recomendações que podem contribuir para a melhoria dos
cuidados de saúde materno-infantil.
Quanto a sua organização, o trabalho obedece a seguinte estrutura: a presente Introducao onde se
faz uma breve contextualização do tema, apontando os objectivos do trabalho e a metodologia
adoptada; o desenvolvimento onde se traz vários aspectos relacionados com o tema em
abordagem para uma melhor compreensão, a conclusão e a sua respectiva referencia
bibliográfica, onde se apresenta a lista final de todos os autores citados no corpo do trabalho.
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1. Conceito clínico e contextualização histórica da Pré-eclâmpsia
Segundo REDMAN (1991), os primeiros registos sobre a síndrome eram meramente descritivos,
sem um entendimento claro dos mecanismos subjacentes, e os tratamentos eram, na maioria das
vezes, empíricos. Com o avanço das pesquisas em fisiologia e imunologia, a compreensão da
doença passou por transformações significativas, o que permitiu o desenvolvimento de estratégias
preventivas e terapêuticas mais eficazes. Em outras palavras, o conhecimento sobre a Pré-
eclâmpsia evoluiu de descrições observacionais para uma abordagem baseada em evidências
científicas, possibilitando intervenções que melhoram os desfechos maternos e neonatais.
PERAÇOLI et al. (2019) afirmam que a Pré-eclâmpsia (PE) é uma doença específica da gestação
que possui como principal característica a elevação dos valores pressóricos e a presença de
proteinúria após a 20ª semana. Considera-se também tal diagnóstico em gestantes que possuem
níveis pressóricos elevados sem proteinúria, mas que apresentam algum sinal de acometimento
sistémico como, por exemplo, alterações hepáticas, renais e de células sanguíneas, além de
distúrbios visuais ou cerebrais.
Segundo SIBAI (2005, p. 71), a Pré-eclâmpsia “é uma condição multifatorial que se manifesta
por alterações na pressão arterial e na função renal, levando a complicações que podem ameaçar
a vida materna e fetal. Esse conceito ressalta que a identificação precoce dos sinais clínicos é
crucial para a intervenção e o manejo adequado da doença. Assim, o entendimento actual destaca
que a Pré-eclâmpsia é uma desordem que, ao comprometer o equilíbrio hemodinâmico e a função
dos rins, exige vigilância contínua e intervenção oportuna.
Para a organização Mundial de Saúde (2011), a Pré-eclâmpsia (PE) é doença específica da
gravidez definida pela presença da hipertensão arterial, com ou sem proteinúria, após a 20ª
semana de gestação em mulheres previamente normotensas. As desordens hipertensivas são
responsáveis por aproximadamente 26% dos casos de mortes maternas. A prevalência da PE é
estimada em 3-5% das gestações.
Dos conceitos acima apresentados fica evidente que a Pré-eclâmpsia é uma síndrome hipertensiva
que se manifesta após a 20ª semana de gestação, caracterizada pela elevação da pressão arterial e
a presença de proteinúria, e que representa um sério risco à saúde materna e fetal. Diversos
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autores convergem na ideia de que essa condição resulta de uma disfunção endotelial e de
anomalias no desenvolvimento placentário, que desencadeiam uma resposta inflamatória
sistémica, comprometendo a perfusão dos órgãos e aumentando a complexidade do quadro
clínico.
Converge-se, por exemplo, na ideia de que essa síndrome hipertensiva, manifestada após a 20ª
semana de gestação, resulta de uma disfunção endotelial e de problemas no desenvolvimento
placentário, o que desencadeia uma resposta inflamatória sistémica e compromete a saúde tanto
da mãe quanto do feto. O Acredita-se que esse entendimento integrado — que une factores
genéticos, imunológicos e ambientais — é fundamental para o diagnóstico precoce e para a
elaboração de estratégias terapêuticas que possam mitigar os riscos associados à Pré-eclâmpsia,
conforme apontam os autores citados.
Em síntese, a Pré-eclâmpsia é entendida como uma doença multifatorial, onde factores genéticos,
imunológicos e ambientais se inter-relacionam, exigindo um diagnóstico precoce e uma
abordagem terapêutica rigorosa para mitigar suas consequências adversas.
2. Critérios diagnósticos de Pré-eclâmpsia
Os critérios diagnósticos vêm sendo aprimorados ao longo dos anos, integrando evidências
clínicas e laboratoriais que permitem identificar precocemente a condição e, assim, intervir antes
que ocorram complicações graves.
Nestes casos, conforme defendem CHAIWORAPONGSA et al., (2014), a pré-eclâmpsia é
manifestada pelo aumento da pressão arterial associada à alterações sistémicas, como níveis
aumentados das transaminases hepáticas, insuficiência renal, trombocitopenia, edema pulmonar e
distúrbios visuais ou cerebrais. Os critérios de diagnóstico são:
2.1. Hipertensão arterial
Pressão arterial Sistólica (PAS) ≥140mmHg ou Pressão arterial Diastólica (PAD) ≥ 90mmHg em
mais de duas ocasiões, com intervalo de pelo menos 4 horas após 20 semanas de gestação, em
mulheres com pressão arterial normal previamente. E PAS ≥ 160 mmHg ou PAD ≥ 110 mmHg,
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caracterizando hipertensão arterial severa. A pressão arterial igual ou superior a 140/90 mmHg
em pelo menos duas ocasiões, medidas com um intervalo mínimo de quatro horas, após a 20ª
semana de gestação.
2.2. Proteinúria
A presença de proteinúria tem sido tradicionalmente rastreada por meio de teste de fita reagente e
confirmada por testes laboratoriais adicionais usando urina de 24 horas ou, mais recentemente,
amostras pontuais de urina. A avaliação de triagem com teste de fita reagente é melhor feita com
um dispositivo de leitura de tira reagente automatizado em vez de análise visual.
300mg ou mais em urina colectada em 24 horas ou Relação proteína/creatinina de ≥ 0,3
mg/dl ou 2 + em fita reagente.
Vale referir que tradicionalmente, a proteinúria – definida como a excreção de 300 mg ou mais de
proteína em uma colecta de urina de 24 horas, ou uma relação proteína/creatinina de ≥0,3 mg/dL
– foi considerada o segundo pilar do diagnóstico. No entanto, pesquisas mais recentes
demonstraram que a ausência de proteinúria não exclui a presença de Pré-eclâmpsia, desde que
outros sinais de comprometimento de órgãos estejam presentes, como alterações nas enzimas
hepáticas, trombocitopenia, insuficiência renal ou sintomas neurológicos.
Adicionalmente, a definição actual incorpora critérios que reflectem a disfunção endotelial e a
resposta inflamatória exacerbada, aspectos centrais na fisiopatologia da Pré-eclâmpsia. Dessa
forma, o diagnóstico passa a incluir não apenas a hipertensão e a proteinúria, mas também sinais
de comprometimento sistémico. Por exemplo, a ocorrência de cefaleia persistente, distúrbios
visuais, dor epigástrica e edema severo podem ser indicativos de uma evolução para formas mais
graves da síndrome, mesmo na ausência de proteinúria significativa. Essa abordagem
multidimensional possibilita uma detecção mais precoce das complicações, permitindo a
intervenção terapêutica oportuna.
Na ausência de proteinúria, a presença de hipertensão arterial, com um dos seguintes factores
abaixos caracteriza critério diagnóstico para PE:
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a) Trombocitopenia: contagem de plaquetas < 100. 000/mm3;
b) Insuficiência renal: cretinina sérica ≥ 1,1mg/dl;
c) Disfunção hepática: elevação das transaminases hepáticas (dobro do basal);
d) Edema pulmonar;
e) Distúrbios visuais ou cerebrais: escotomas, convulsão e cefaleia de início recente, não
responsiva a medicamentos e sem associação com outras condições.
Outro aspecto importante nos critérios diagnósticos é a diferenciação entre formas leves e severas
da Pré-eclâmpsia. As formas leves se caracterizam por valores pressóricos moderados e ausência
de sinais de disfunção orgânica, enquanto as formas graves apresentam níveis de pressão mais
elevados, além de evidências de comprometimento de órgãos como fígado, rins e sistema nervoso
central. Essa classificação é essencial para orientar as condutas clínicas, uma vez que o manejo de
uma Pré-eclâmpsia grave pode exigir intervenções imediatas, como a administração de
medicamentos anti-hipertensivos, a realização de intervenções para prevenir convulsões (no caso
da eclâmpsia) ou até mesmo a indução do parto.
Os avanços na tecnologia diagnóstica e a incorporação de marcadores bioquímicos – como níveis
elevados de proteína plasmática, alterações nos níveis de angiogênios e outros factores
inflamatórios – também têm contribuído para a precisão do diagnóstico da Pré-eclâmpsia.
Esses marcadores ajudam a identificar as gestantes que estão em risco elevado de complicações,
mesmo antes do surgimento dos sinais clínicos mais evidentes. Assim, a integração de métodos
tradicionais (como a mensuração da pressão arterial e a análise de urina) com técnicas
laboratoriais avançadas proporciona uma avaliação mais completa e dinâmica da condição,
reforçando a importância de um diagnóstico precoce e acurado.
Portanto, os critérios diagnósticos de Pré-eclâmpsia envolvem a avaliação sistemática da pressão
arterial, a análise da proteinúria e a detecção de sinais de disfunção endotelial e orgânica. Essa
abordagem integrada, que distingue formas leves de graves, permite a identificação rápida de
gestantes em risco e contribui para a implementação de intervenções que visem reduzir a
morbidade e mortalidade materna e perinatal.
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2.3. Fisiopatologia
A complexa fisiopatologia da Pré-eclâmpsia justifica a dificuldade em se estabelecer modelos
eficazes de predição da doença.
Segundo AHMED et al (2014), a fisiopatologia da Pré-eclâmpsia é multifatorial e complexa,
iniciando-se com uma implantação placentária inadequada. Em uma gestação normal, as células
trofoblásticas invadem o miométrio, promovendo a remodelação das artérias espirais e garantindo
uma perfusão placentária adequada. Na Pré-eclâmpsia, essa invasão é insuficiente, resultando em
uma circulação placentária comprometida e, consequentemente, em isquemia. Essa deficiência na
vascularização estimula a liberação de mediadores inflamatórios e factores antiangiogênicos, que
provocam uma disfunção endotelial sistémica, manifestando-se clinicamente por meio da
hipertensão e da proteinúria.
Além das alterações iniciais na placenta, ocorre uma cascata inflamatória exacerbada e um
desequilíbrio entre substâncias vasodilatadoras e vasoconstritoras, conforme abaixo vem
detalhado:
2.3.1. Mecanismos subjacentes à Pré-eclâmpsia: disfunção endotelial, inflamação e
factores imunológicos
Dentre os processos fisiopatológicos, destacam-se a disfunção endotelial, a resposta inflamatória
exacerbada e os factores imunológicos, os quais, combinados, contribuem para a manifestação e
evolução da doença. Compreender esses mecanismos é essencial para o desenvolvimento de
estratégias de prevenção e manejo, bem como para a melhoria dos desfechos materno-fetais.
a) A disfunção endotelial: tem sido apontada como um dos pilares centrais na patogênese
da Pré-eclâmpsia. Em condições normais, o endotélio exerce funções reguladoras cruciais,
como a manutenção da vascularização adequada e a modulação da pressão arterial.
Contudo, na Pré-eclâmpsia, há uma falha na adaptação placentária que resulta em uma liberação
excessiva de substâncias vasoconstritoras e pro-inflamatórias, levando à disfunção endotelial.
REDMAN (1991, p. 82) afirmam que essa anomalia endotelial compromete a capacidade dos
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vasos sanguíneos de se dilatarem de forma adequada, promovendo um ambiente de alta
resistência vascular que culmina na hipertensão e em danos aos órgãos-alvo. Em outras palavras,
a incapacidade do endotélio de exercer suas funções reguladoras de maneira eficaz é um dos
principais gatilhos para o desenvolvimento dos sinais clínicos da Pré-eclâmpsia.
b) A inflamação: desempenha um papel fundamental na patogênese desta síndrome. A
resposta inflamatória na Pré-eclâmpsia é caracterizada por uma activação excessiva do
sistema imunológico, que resulta na liberação de citocinas e mediadores inflamatórios em
níveis elevados. Essa resposta inflamatória não apenas agrava a lesão endotelial, mas
também contribui para o aumento da permeabilidade vascular e para a formação de
microtrombos, que podem comprometer a perfusão dos tecidos e levar a complicações
graves.
Estudos apontam que o equilíbrio entre mediadores inflamatórios e anti-inflamatórios é
perturbado na Pré-eclâmpsia, o que favorece um estado pro-inflamatório crónico. Assim, a
inflamação actua como um amplificador dos efeitos da disfunção endotelial, exacerbando a
hipertensão e os danos teciduais.
c) Os factores imunológicos: também são determinantes na etiologia da Pré-eclâmpsia. A
interacção entre o sistema imunológico materno e a placenta é fundamental para o
estabelecimento de uma gestação bem-sucedida. Na Pré-eclâmpsia, essa interacção é
desregulada, levando a uma resposta imune inadequada, que pode se manifestar na forma
de uma rejeição parcial da placenta pelo sistema imune materno.
Conforme Roberts e Hubel (2009) descrevem, alterações na resposta imunológica podem resultar
em uma activação excessiva de células imunológicas e na produção de auto anticorpos,
contribuindo para a lesão dos vasos e para a liberação de substâncias que agravam a inflamação e
a disfunção endotelial. Em síntese, a resposta imunológica desregulada é um factor complementar
que, em conjunto com a inflamação e a disfunção endotelial, forma o quadro clínico da Pré-
eclâmpsia.
Portanto, os mecanismos subjacentes à Pré-eclâmpsia são multifacetados e interconectados,
envolvendo a disfunção endotelial, uma resposta inflamatória exacerbada e factores imunológicos
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que contribuem para a manifestação dos sinais clínicos característicos dessa síndrome. Esses
processos patológicos interagem de forma a criar um ambiente de alta resistência vascular, que
não só promove a hipertensão materna, mas também prejudica a perfusão placentária e aumenta o
risco de complicações para a mãe e o feto. O entendimento desses mecanismos permite a
implementação de estratégias preventivas e terapêuticas mais precisas, visando a redução dos
índices de morbidade e mortalidade associadas à Pré-eclâmpsia.
3. Factores de Risco na Pré-eclâmpsia
A Pré-eclâmpsia é uma doença que pode ser caracterizada por hipertensão, proteinúria e outras
alterações nos órgãos-alvo durante a gravidez. A identificação precoce dos factores de risco é
importante para reduzir o risco de Pré-eclâmpsia e suas complicações, assim, as directrizes do
Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados (NICE) de 2019 classificam uma mulher
em alto risco de Pré-eclâmpsia se houver histórico de doença hipertensiva durante uma gravidez
anterior ou uma doença materna, incluindo doença renal crónica, doenças auto-imunes, diabetes
ou hipertensão crónica.
Primiparidade
História familiar de Pré eclâmpsia
Pré-eclâmpsia em gestação pregressa
Hipertensão arterial ou doença renal preexistente
Obesidade
Diabetes mellitus
Trombofilia:
Lúpus eritematoso sistémico
Idade materna > 40 anos
Gravidez múltipla
Fertilização in vitro
Entretanto, vale referir que esses factores de risco são ecoados na maior meta-análise de factores
de risco clínicos até o momento conduzida por Bartsch que analisou mais de 25 milhões de
gestações de 92 estudos.
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GUY (2020, p. 82) afirma que a presença de um factor de alto risco, ou dois ou mais factores de
risco moderados, é usada para ajudar a orientar a profilaxia com aspirina, que é eficaz na redução
do risco de Pré-eclâmpsia se administrada antes de 16 semanas de gravidez. Existem factores
clínicos adicionais que aumentam significativamente o risco de Pré-eclâmpsia, incluindo aumento
da pressão arterial média antes de 15 semanas de gestação, síndrome dos ovários policísticos,
distúrbios respiratórios do sono e várias infecções, como doença periodontal e infecções do trato
urinário. Em termos de história obstétrica, o sangramento vaginal por pelo menos cinco dias
durante a gravidez aumenta o risco de Pré-eclâmpsia assim como o uso da doação de óvulos, que
apresenta um risco maior de Pré-eclâmpsia em comparação à fertilização in vitro (FIV) sem
doação de óvulos ou concepção natural.
Actualmente, a aspirina é a única terapia com evidências robustas que apoiam seu uso para
reduzir o risco de Pré-eclâmpsia em mulheres de alto risco. As recomendações actuais
aconselham aspirina em baixa dosagem (75–150 mg) como profilaxia a partir de 12 semanas de
gestação até o parto. Quando tomada antes de 16 semanas de gestação, a aspirina em baixa
dosagem tem um efeito modesto, mas consistente, estimado para reduzir o risco de Pré-eclâmpsia
em aproximadamente 10%. Outras intervenções, incluindo suplementos nutricionais, agentes
farmacológicos e intervenções dietéticas e de estilo de vida, foram investigadas quanto aos
efeitos protectores contra a Pré-eclâmpsia com eficácia variável. Estudos relataram que a
deficiência de vitamina D pode aumentar o risco de Pré-eclâmpsia e que a suplementação de
vitamina D pode oferecer algum benefício na redução do risco de Pré-eclâmpsia.
Portanto, embora a suplementação seja frequentemente recomendada na prática clínica, ainda são
necessárias evidências robustas de ensaios clínicos randomizados (ECR) para confirmar sua
utilidade. A suplementação dos antioxidantes vitaminas C e E não tem benefício na prevenção da
Pré-eclâmpsia apesar dos resultados promissores iniciais. Da mesma forma, o ácido fólico em
altas doses não parece ter quaisquer efeitos preventivos, embora algumas evidências sugiram que
a suplementação com 5-metil-tetra-hidrofolato, uma forma mais biodisponível de ácido fólico,
pode ser eficaz na prevenção da Pré-eclâmpsia recorrente.
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4. Recomendações da prática clínica para a prevenção e gestão da Pré-eclâmpsia
As recomendações da prática clínica para a prevenção e gestão da Pré-eclâmpsia buscam orientar
os profissionais de saúde e as gestantes na identificação precoce dos sinais de alerta, incentivando
medidas preventivas e intervenções rápidas. Essas directrizes enfatizam a importância do
monitoramento regular da pressão arterial e de exames complementares, além da promoção de
mudanças no estilo de vida que podem ajudar a reduzir os riscos.
O objectivo é oferecer um cuidado mais atento e personalizado, garantindo que tanto a mãe
quanto o bebe recebam o suporte necessário para enfrentar essa condição de forma segura e
eficaz, conforme se pode ver abaixo:
Práticas recomendadas Práticas não recomendadas Implicação da prática
Suplementação de cálcio Suplementação de vitamina Forneça cálcio a todas as
durante a gravidez nas D durante a gravidez. mulheres com baixa ingestão
zonas em que a ingestão Suplementação de cálcio de cálcio e dose baixa de ácido
de cálcio é baixa (<900 durante a gravidez nas acetilsalicílico a grupos
mg/dia) zonas em que a deficiência seleccionados para a
de cálcio não está presente prevenção da PE/E. Embora a
Dose baixa de ácido Suplementação individual suplementação de vitaminas
acetilsalicílico (aspirina, ou combinada de vitamina possa ser útil para outras
75 mg) para a prevenção C e vitamina E. condições de saúde, não
da Pré-eclâmpsia em forneça vitaminas C, D ou E a
mulheres com alto risco gestantes como parte de uma
de desenvolver a estratégia para a prevenção da
condição. PE/E.
Fármacos anti- Uso de diuréticos, Administre fármacos
hipertensivos para particularmente as tiazidas, antihipertensivos, mas não
gestantes com hipertensão para a prevenção da Pré- diuréticos, em gestantes com
grave. eclâmpsia e suas hipertensão grave
complicações
Em mulheres com Pré- Para uma mulher com Pré-
eclâmpsia grave, se houver eclâmpsia grave durante a
um feto viável e a gravidez gravidez pré-termo (< 37
tiver menos de 37 semanas de semanas), os clínicos podem
gestação, a gestão expectante monitorar a mulher se: (1) a
pode ser considerada, pressão arterial dela estiver
considerando que não sob controle; (2) não houver
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ocorram problemas como sofrimento fetal; e (3) não
hipertensão materna houver sinais de disfunção
descontrolada, aumento da orgânica materna. Durante este
disfunção orgânica materna período de gestão expectante é
ou sofrimento fetal e que as necessária uma monitorização
condições possam ser contínua.
monitoradas.
Aconselhamento para Não aconselhe o repouso em
repousar em casa. casa nem a restrição dietética
Restrição da ingestão de sal na ingestão de sal para
alimentar. gestantes com a intenção de
Repouso estrito no leito para prevenir a Pré-eclâmpsia ou
gestantes com hipertensão suas complicações.
(com ou sem proteinúria).
4.1. Durante o trabalho de parto e o próprio parto
Práticas recomendadas Praticas não recomendadas
A indução do trabalho de parto em mulheres Antecipe o parto em mulheres com Pré-
com Pré-eclâmpsia grave em idade gestacional eclâmpsia grave distante do termo, quer o
quando o feto não é viável ou tem pouca feto seja ou não viável.
probabilidade de se tornar viável em uma ou
duas semanas.
Antecipar o parto em mulheres com Pré-
eclâmpsia grave a termo.
O sulfato de magnésio, em detrimento de outros O sulfato de magnésio é o anticonvulsivante
anticonvulsivante, é recomendado para a eleito para mulheres com Pré-eclâmpsia
prevenção da eclâmpsia em mulheres com Pré- grave ou eclâmpsia. Se possível, administre
eclâmpsia grave. um regime completo de sulfato de magnésio
Sulfato de magnésio, em detrimento de outros em mulheres com eclâmpsia ou Pré-
anticonvulsivante, para o tratamento de mulheres eclâmpsia grave. Se a administração de um
com eclâmpsia. regime completo não for possível, essas
O regime completo de sulfato de magnésio mulheres deverão receber a dose de ataque
administrado por via intravenosa ou de sulfato de magnésio e ser imediatamente
intramuscular para a prevenção e tratamento da transferidas para uma unidade de cuidados de
eclâmpsia. saúde de nível superior para tratamento
adicional.
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Portanto, a complexa fisiopatologia que envolve a Pré-eclâmpsia dificulta, e muito, a obtenção de
medicamentos e/ou suplementos que possam ser incorporados na prática clínica com o intuito de
se prevenir a doença. Sendo assim, há o que chamamos de exploração indevida por parte de
grupos que tentam impor protocolos que propõem a utilização de antioxidantes, anticoagulantes,
suplementos dietéticos para se prevenir a doença. Entretanto, as melhores evidências disponíveis
apontam que as únicas medicações/suplementações que devem ser recomendadas para a
prevenção da Pré-eclâmpsia são o ácido acetilsalicílico (AAS) em baixas dosagens e a
suplementação de cálcio.
Sendo assim, a OMS recomenda a prescrição de AAS (AAS 100 mg/dia) e cálcio (carbonato de
cálcio 1,5 g/dia) para as gestantes consideradas de risco para desenvolver Pré-eclâmpsia, sendo
que a utilização de cálcio se torna ainda mais importante para populações com baixa ingestão
desse.
5. Diagnóstico Clínico laboratorial da Pré-eclâmpsia: Propedêutica Pré eclâmpsia
Hemograma com plaquetas Pesquisa de esquizócitos em sangue periférico;
Proteinúria 24h/RPC;
Ácido úrico;
Ureia e creatinina Bilirrubinas e fracções;
AST, ALT DHL;
Fibrinogênio.
6. Diagnóstico do bem-estar fetal
Ecografia: rastrear crescimento fetal restrito;
Cardiotocografia;
Volume do líquido amniótico;
Dopplervelocimetria.
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7. Prevenção da Pré-eclâmpsia
Uso de aspirina na dose de 100mg/dia (60-150mg/dia) a partir da 12-16 sem até o parto para
pacientes de risco:
Hipertensão crónica;
Pré-eclâmpsia (eclampsia, síndrome HELLP, DPP) com resultado adverso prévio;
História familiar de Pré-eclâmpsia;
Gravidez múltipla;
Doença renal;
Doença auto-imune;
Diabetes;
Crescimento restrito sem causa;
Prematuridade anterior 60-80mg/dia final do 1ºtrimestre 75-100mg/dia com 16 sem de
gestação.
7.1. Prevenção primária
Suplementação de Cálcio elementar 1,5-2,0g/dia em populações com baixa ingestão de
cálcio. Início com 20 semanas até o final gestação Deficiência: ingesta < 600mg/dia
(ACOG, 2013);
Evita a Pré-eclâmpsia, eclâmpsia, o nascimento prematuro e o risco de a mulher morrer
ou ter sérios problemas relacionados à pressão arterial elevada na gravidez.
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Conclusão
O trabalho pretendeu analisar os factores determinantes e os mecanismos fisiopatológicos
associados à Pré-eclâmpsia. Nesse sentido, a pesquisa bibliográfica desenvolvida em torno do
tema mostrou-nos que a Pré-eclâmpsia é uma condição de grande preocupação na saúde materna
e fetal, caracterizando-se pelo aumento da pressão arterial e pela presença de proteínas na urina
após a 20ª semana de gestação.
De igual modo, o grupo observou-se que a Pré-eclâmpsia tem uma incidência variável em
diferentes regiões do mundo, sendo mais prevalente em países em desenvolvimento, como o caso
de Moçambique, onde o acesso limitado a cuidados médicos adequados contribui para a
gravidade da doença. Seu impacto na saúde materna e perinatal é significativo, podendo levar a
complicações graves, como restrição do crescimento fetal, parto prematuro e até mesmo a morte
da mãe ou do bebé.
No que diz respeito aos mecanismos subjacentes, destaca-se a disfunção endotelial, a resposta
inflamatória exacerbada e a interacção inadequada entre o sistema imunológico materno e a
placenta. Esses factores contribuem para a má adaptação dos vasos sanguíneos da placenta,
resultando em uma irrigação sanguínea deficiente para o feto. Além disso, os factores de risco
incluem histórico familiar da doença, primeira gestação, obesidade, diabetes e hipertensão
crónica, o que reforça a necessidade de um acompanhamento pré-natal rigoroso.
Os critérios diagnósticos abordam a monitorização da pressão arterial, exames laboratoriais e a
avaliação de sinais clínicos para uma identificação precoce da doença. A prevenção e o manejo
clínico incluem o uso de medicamentos anti-hipertensivos, suplementação com cálcio e aspirina
em gestantes de alto risco, além do acompanhamento médico contínuo. Em casos mais graves, a
única solução definitiva é a antecipação do parto para evitar complicações fatais.
Portanto, a terminar, conclui-se que a Pré-eclâmpsia é um desafio para a saúde pública, exigindo
estratégias eficazes de prevenção, diagnóstico e tratamento. A ampliação do acesso aos serviços
de saúde e a conscientização sobre os sinais da doença são fundamentais para reduzir sua
incidência e garantir melhores desfechos para mães e bebés.
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Referências bibliográficas
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