Sumário
INTRODUÇÃO................................................... 5
A filosofia surgiu na Grécia Antiga, em torno do
século VI a.C. O seu aparecimento não deve ser
entendido como fruto exclusivo do gênio do povo
grego, mas como resultado de uma aglutinação
de fatores que a tornaram possível. O gênio
grego encontrou ambiente favorável para
superar a visão puramente mítica do mundo e
introduzir o logos (a razão) como meio de
compreensão da realidade. ............................... 9
2. As Póleis Gregas ....................................... 11
3. Homero, Hesíodo e as Religiões dos
Mistérios. ....................................................... 17
V ...................................................................... 70
FILOSOFIA ANTIGA ........................................ 70
VI ................................................................... 78
PERÍODO PRÉ-SOCRÁTICOS ..................... 78
VII .................................................................. 83
PERÍODO CLÁSSICO DO PENSAMENTO
GREGO ......................................................... 83
VIII ................................................................. 95
FILOSOFIA NO PERÍODO HELENÍSTICO ... 95
IX ............................................................... 102
PENSAMENTO FILOSÓFICO CRISTÃO .. 102
1. A Patrística .............................................. 102
2. Metafísica .............................................. 106
3. A Escolástica ........................................... 109
X .................................................................. 112
PENSAMENTO FILOSÓFICO NO PERÍODO
MODERNO .................................................. 112
5. O Existencialismo .................................. 142
8. O Institucionismo ................................... 152
XII ................................................................ 157
EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA FILOSOFIA NO
BRASIL ........................................................ 157
BIBLIOGRAFIA ............................................ 224
Bibliologia ...................................................... 225
INTRODUÇÃO
A palavra filosofia vem do grego “Philosofia”
e pode ser interpretada como o amor à ciência,
ao saber e ao conhecimento. A filosofia, pois,
começa quando algo desperta nossa admiração,
espanta-nos, capta nossa atenção (que é isso?
Por que é assim? Como é possível que seja
assim?); interroga-nos insistentemente, exige
uma explicação.
Espantar-se diante das coisas, interrogá-las,
é próprio da condição humana. Qualquer cultura,
por mais primitiva que seja, tem, desde sempre,
seu arsenal de respostas e explicações às
questões que normalmente são postas. No caso
de questões originárias (como surgiu o mundo,
como surgiu aquele determinado povo, de onde
vem a chuva ou o trovão ou o fogo, como foram
introduzidas técnicas ou as regras sociais), é
comum que as respostas estejam contidas em
mitos.
Quando estudamos teologia, encontramos
também essas perguntas; a Bíblia, a Palavra de
Deus, apresenta significativas respostas. E se,
por um lado, é normal ao ser humano espantar-
se, interrogar, é por outro lado normal que não
se espante nem se interrogue muito. Sendo a
maioria das pessoas pouco exigente, as
explicações dadas pelo mito, ou quaisquer
outras explicações prontas de uma cultura,
bastam para quebrar o espanto nascente, e
assim sendo, a filosofia não acontece. Aliás, é
comum também que as questões mais
fundamentais nem cheguem a ser postas – um
ser humano pode crescer, assimilando com
naturalidade as explicações dadas pela sua
cultura sobre o mundo que o circunda, quer se
trate do mundo físico, quer do social.
As regras de conduta e o sistema de
organização social muitas vezes não chegam a
espantar ninguém. As pessoas crescem
aceitando sem discutir os papéis sociais que lhes
são atribuídos, sem jamais questionar seu valor
e seu porquê, como se tudo fosse parte da
ordem natural e inevitável das coisas. Ora, a
filosofia grega parece ter surgido quando, por
uma série de fatores complexos, que não
podemos aqui desenvolver, as respostas dadas
pelo mito a certas questões não satisfazem mais
a certas mentes particularmente exigentes de um
povo particularmente curioso e passível de se
espantar – e as questões continuaram assim,
com sua força de questão e de espanto, a exigir
uma resposta que fosse além das convencionais.
Na história da filosofia, num despertar de
cada época, surgiam então os filósofos, nas mais
intrigantes idéias, porém, com seus valores, suas
verdades essenciais, buscando discutir a razão,
o ser, a verdade e tudo que desperta a
admiração do homem. O objetivo da matéria é
abordar os temas da filosofia, os períodos e os
pensadores até a evolução histórica da filosofia
no Brasil.
I
FILOSOFIA ANTIGA
1. O Surgimento da Filosofia
A filosofia surgiu na Grécia Antiga, em torno
do século VI a.C. O seu aparecimento não deve
ser entendido como fruto exclusivo do gênio do
povo grego, mas como resultado de uma
aglutinação de fatores que a tornaram possível.
O gênio grego encontrou ambiente favorável
para superar a visão puramente mítica do mundo
e introduzir o logos (a razão) como meio de
compreensão da realidade.
Se retornarmos ao Século IX a.C., nesse
ambiente, que mais tarde será denominado de
mundo helênico (grego), predominava a
organização tribal (génos). Nos gene, a leitura do
mundo era feita através dos mitos. Alimentava-
se o temor aos deuses, compreendia-se a
realidade a partir da sua ação e, sobretudo,
acreditava-se no destino inexorável: a Moira
determinava a existência dos homens. Ela era a
personificação do destino, do “quinhão” que cabe
a cada um.
O herói era o modelo. Sua virtude não residia
na bondade moral ou no sentido de justiça
efusiva, mas na coragem. Encarnava o ideal do
guerreiro belo e bom. Bom porque ouvia aos
deuses e aceitava sem hesitar o seu destino.
Os mitos afirmavam-se como verdades
inquestionáveis garantidas pela tradição de cada
povo. A verdade estava na palavra do sacerdote
(hiereús) ou do adivinho e não podia ser
contestada.
2. As Póleis Gregas
Num determinado momento, o predomínio
absoluto dos mitos deixou de ocorrer. A
superação da visão puramente mítica da
realidade deveu-se, particularmente, ao
aparecimento das póleis (cidades-estados), a
partir do século VIII a.C.
Nesse período, a Grécia sofreu uma
transformação socioeconômica considerável: a
atividade predominantemente agrícola foi sendo
substituída pela atividade artesanal e pelo
comércio, daí a necessidade de fundar centros
de distribuição comercial. Tais centros
apareceram, inicialmente, nas colônias gregas,
especialmente na Jônia, e, posteriormente, em
outros lugares e foram os germes das póleis.
O surgimento das póleis trouxe consigo
muitas inovações na forma de pensar e de agir
do homem grego. Dentre elas, podem ser
destacadas:
a) A Valorização da Palavra – A palavra
transformou-se no instrumento mais
importante do poder, a chave de toda
autoridade e o meio de comando e do
domínio sobre o outro. Não se tratava mais
da palavra mágica do ritual, da fórmula justa
e adequada à invocação dos deuses, mas da
palavra polêmica do debate. O público ou o
juiz, a quem dirigia a palavra, passou a
decidir sobre a sua força de convencimento;
não era mais a palavra das invocações que
espera por uma resposta dos deuses.
b) A Publicidade – As manifestações mais
importantes da vida social adquiriram caráter
público. Estabeleceu-se uma diferenciação
entre a esfera privada. Aquilo que era
secreto e favorecia a manutenção do poder
por parte do governante (basileús) tornou-se,
ao menos em parte, conhecido de todos.
c) A Escrita - inventada pelos fenícios e
cultivada até como conhecimento esotérico,
acessível a alguns poucos privilegiados, na
polis, a escrita tornou-se esotérica. Uma vez
pública, seu emprego foi sendo, cada vez
mais, difundido em meio ao povo (demos).
d) Os Códigos de Leis – Aos poucos, a
vida na polis foi eliminando a idéia de que a
lei se origina da vontade exclusiva do
governante guiada pela vontade dos deuses.
A lei passou a ser escrita e, com isso, tornou-
se humana, já que comum a todos, ainda
que, superior a todos, ficando sujeita à
discussão e alterável somente por decreto.
Foram redigidos códigos de leis, alguns
famosos, como o de Drácon (fins do séc.
VII), o de Sólon (início do séc. VI), e o de
Clístenes (510).
e) Isonomia – Com a valorização da
palavra e a comunhão da lei, criou-se o
sentimento de igualdade entre os cidadãos.
Por mais diferentes que fossem as origens
ou as atividades exercidas, o cidadão foi
adquirindo o sentimento, primeiramente, de
semelhança (homoíosis), e, em seguida, de
igualdade (isonomia – ísos/igual e nómos/lei)
perante a lei e a amizade (philía) foi à
conseqüência natural.
3. Homero, Hesíodo e as Religiões dos
Mistérios.
Aliados ao surgimento das póleis, devem ainda
ser considerados dois outros aspectos
importantes para a entrada em cena do logos: a
organização da mitologia por partes de Homero
e Hesíodo e o desenvolvimento das religiões dos
mistérios.
Homero (séc. IX a.C.), na Ilíada e na
Odisséia, e Hesíodo (meados do séc. VIII), em
Os trabalhos e os dias e na Teogonia,
introduziram alguns elementos que marcaram o
pensamento filosófico originário. Ao abandonar a
descrição do monstruoso e do disforme Homero
apresentou um sentido de harmonia e proporção
tão caro à filosofia. Além disso, nos escritos
homéricos há uma abordagem da realidade na
perspectiva de totalidade que não deixa de ser
uma categoria também filosófica, pois, os
filósofos se preocuparam em tratar da realidade
como um todo: a natureza, o homem, os deuses
e os valores em geral.
Hesíodo, particularmente em sua Teogonia,
ao narrar a origem dos deuses, acabou por dar
uma explicação mítica da origem de todas as
coisas. Os filósofos também estarão
preocupados em explicitar a origem de todas as
coisas, substituindo os conteúdos míticos por
elementos de ordem racional. A teogonia
(surgimento dos deuses) e a cosmogonia
(surgimento do universo) serão substituídas, na
filosofia, pela cosmologia.
Também as regiões dos mistérios
desempenham um papel importante no
desenrolar do pensamento filosófico,
particularmente no de Pitágoras, de Sócrates de
Platão. Insatisfeitos com a religião pública, que
se caracterizava pelo antropomorfismo, pela
sacralização da natureza e pelo excessivo
fatalismo, alguns homens desenvolveram suar
crenças particulares, em círculos fechados
(esoterismo). Tais crenças denominaram-se
religiões dos mistérios, tendo-se notabilizado
pelos rituais de iniciação, pela não divulgação
escrita de suas crenças e conhecimentos e pela
observância rígida de certas normas de conduta
moral. Dentre as religiões dos mistérios, a que
mais teve repercussão na filosofia foi o orfismo
(v. texto complementar adiante), particularmente
por três motivos: o reconhecimento de um
elemento divino no homem, a crença na
imortalidade e na reencarnação da alma e a
convicção de que a alma, ligada ao corpo por
algum pecado, pode ser libertada, desde que
observados todos os passos prescritos pelo
regulamento órfico.
Nesse contesto, revestida do caráter
polêmico da palavra, surgiu a filosofia. Não tinha
mais como fundamento a tradição mítica, já que
seus argumentos passaram a ser elaborados a
partir dos esforços da razão. A garantia daquilo
que afirmava não se assentava nos deuses, mas
nas provas racionais. A esse respeito diz o
mestre francês Francis Wolff: “Com o surgimento
da razão, o homem passa a viver em um mundo
incerto. Ao contrário do passado religioso,
nenhum mestre garante mais a verdade: há
várias verdades, pois todos, pois todos têm
acesso à razão”.
O mérito dos primeiros filósofos consistiu,
sobretudo, nas perguntas que formularam. As
questões sobre o mundo, a polis e o homem
(ânthoropos) foram permeadas pelo logos. Com
isso, convidaram os homens a pensar de uma
forma nova. Contudo, o surgimento da filosofia
não significou o fim dos mitos, já que a atividade
racional se colocou ao lado da atividade
fabuladora. A filosofia é um modo diferente de
pensar o mundo, não o único.
4. Orfismo
Dentre a chamadas religiões dos mistérios da
Antiga Grécia, o orfismo pode ser destacada
com a mais conhecida e a importante. A sua
designação tem origens na figura mítica de
Orfeu.
SOBRE ORFEU – Segundo a versão mais
aceita, Orfeu era filho do rei Eagro e de Calíope,
a mais famosa das Nove Musas. Em algumas
versões, por motivos político-religiosos, o rei
Eagro é substituído por Apolo. De origem trácia,
a figura de Orfeu sempre foi associada à música
e à poesia. Tangia a cítara e cantava com tal
destreza e suavidade que, diante de sua música
e de seu canto, os animais selvagens o seguiam,
as árvores inclinavam sua copadas e os homens
mais violentos tornavam-se dóceis. Acrescentou
à cítara mais duas cordas, assim, ao invés de
sete, em homenagem às Nove Musas, a cítara
passou a ter nove cordas. Além disso, atribui-se
a Orfeu a criação da teologia pagã.
Depois da expedição dos Argonautas, casou-
se com a ninfa Eurídice, por quem era
completamente apaixonado. Segundo Vergílio,
em As Geórgicas, certa vez o apicultor Aristeu
tentou violar a esposa de Orfeu. Esta, ao fugir de
seu perseguidor, pisou numa serpente que a
picou, causando-lhe a morte. Inconsolável com a
perda da esposa, Orfeu decidiu ir até o Hades
para buscá-la. Empregando os recursos de sua
música e de seu canto, Orfeu encantou o mundo
ctônio: a roda de Exíon parou de girar, o rochedo
de S´sifo parou de oscilr, as Danaides
descansaram de sua faina e Tântalo esqueceu a
fome e a sede. Comovidos pelo amor de Orfeu,
Plutão e Perséfone concordaram em lhe
devolver a esposa, mas impuseram-lhe uma
condição: enquanto estivesse caminhando nas
trevas infernais, ouvisse o que ouvisse,
pensasse o que pensasse, Orfeu não poderia
olhar para trás. Num certo momento, porém,
levado pela impaciência, pela incerteza, pela
carência e pela desconfiança de que tivesse
sendo enganado pelos deuses infernais, Orfeu
olhou para trás, e viu Eurídice que se esvaiu,
morrendo pela segunda vez. Orfeu ainda tentou
retornar, mas Caronte não lhe permitiu.
Retornando a Trácia, Orfeu não conseguia
esquecer a esposa, sendo-lhe de tal modo fiel
que passou a refletir todas as outras mulheres.
Existem três versões mais conhecidas para a
morte de Orfeu. A primeira atribui-a às Mênades,
que provocadas pela fidelidade de Orfeu a
Eurídice, esquartejaram-no. A segunda diz que
Orfeu depois do retorno da Hades instituiu, na
Tráscia, mistérios proibidos às mulheres. Os
homens liderados por Orfeu, reuniam-se em
determinados lugares, deixando as suas armas à
porta. Uma noite, enfurecidas pelo veto de
participarem de tais reuniões, as mulheres
tomaram das armas e mataram Orfeu, e seus
seguidores. A terceira versão conta que Calíope,
mãe de Orfeu, serviu de árbitro na disputa entre
Afrodite e Perséfone por Adônis. Calíope decidiu
que Adônis passaria durante uma parte do ano
com uma e, durante a outra parte, com outra.
Afrodite, irritada com a decisão de Calíope,
resolveu vingar-se. Não podendo fazer nada
contra a musa, resolveu vingar-se em seu filho.
Despertou nas mulheres Trácias uma tal paixão
por Orfeu que de tanto quere-lo para si,
acabaram por esquarteja-lo, lançando seus
restos no rio Hebro. Ao rolar pelo rio abaixo, os
seus lábios pronunciavam o nome de Eurídice,
que era repetido pelo eco nas duas margens do
rio.
Indignados pelo crime cometido pelas
mulheres trácias, os deuses devastaram o país
com uma grande peste. O oráculo, consultando
sobre como poderia ser acalmada a ira dos
deuses, respondeu que único modo de faze-lo
seria encontrar a cabeça de Orfeu e prestar-lhe
as devidas honras fúnebres. Depois de
prolongadas buscas, um pescador finalmente
encontrou-a na embocadura do rio meles na
Jônia, em perfeito estado de conservação. Ali
mesmo foi erguido um templo em homenagem a
Orfeu, sendo nele proibida a entrada de
mulheres. A cabeça do cantor passou a servir de
oráculo. Sua lira foi para a ilha de Lesbos, berço
da poesia lírica grega e sua psiché foi para os
Campos Elísios, onde canta para os imortais.
Sobre o orfismo – Ainda que se discuta a
data precisa em que a figura de Orfeu tenha
aparecido na mitologia grega e,
conseqüentemente, o momento exato em surgiu
o orfismo, é seguro que no século VI a. C. este
movimento já encontrava ampla difusão na
Hélade. Trata-se de poetas místicos, que tinham
Orfeu por patrono e chamavam de orfismo a
doutrina que professavam. Organizava,-se com
comunidades para ouvir a doutrina, realizar
rituais de iniciação e prestar homenagens a seu
patrono.
O orfismo opunha-se à religião oficial das
póles gregas. Enquanto a religião oficial, de
cunho apolíneo, representava sobretudo uma
exaltação das aparências, o triunfo da força
física e da beleza exterior e atribuir aos rituais
uma importância puramente formal, i.é., o ritual
se esgotava na sua pompa e na rigorosa
observância do momento e gesto adequados, o
orfismo era voltada para a interioridade; não era
ao gesto de ressonância plástica que se dava
importância, mas o que o ritual significava em
termos de vida interior de quem o realizava.
Considerando sob este ângulo, o orfismo
exigia de seu seguidor uma verdadeira entrega
e, através dos exercícios propedêuticos, este era
preparado para uma adesão profunda aos seus
conteúdos doutrinários e às suas exigências
ritualísticas.
A doutrina órfica girava em torno da crença
na imortalidade de alma, destinada a um ciclo de
reencarnações (metempsicose). A partir desta
crença fundamental, abstinham-se de comer
carne e ovos (princípios da vida), praticavam a
ascese (meditação, devoção, mortificação) e a
catarse (purificação do corpo por meio de
cantos, hinos e litanias).
Desde seu aparecimento, o orfismo
apresentou-se como uma seita que congregava
minorias seletas.As exigências da rígida
observância de regras, além de uma mais
afinada percepção do valor da vida interior
tornaram o orfismo uma doutrina procurada por
poucos. Além disso, após o triunfo grego contra
os persas (início do séc. V) houve uma tendência
geral do espírito grego para a valorização da
forma exterior ou, no dizer, de Nilsson “para a
claridade e beleza sensível”. Nassa época, o
orfismo mergulhou nos estratos mais pobres da
população, já que respondia de alguma maneira
à sua condição de inferioridade e, propunha uma
saída da mesma através da “salvação” da alma.
As teses centrais da doutrina órfica podem
ser assim resumidas:
a) Cosmogonia – Crono gera, no éter e no caos
por ele criados, o Ovo Primordial, onde tem
origem o primeiro dos deuses, Eros. Eros gera
todos os demais deuses até Zeus. Zeus engole
todos os deuses da geração anterior, inclusive
Eros, tornando-se um deus cosmocrata. A idéia
de um deus que absorve todos os outros é
sugestiva na medida em que fornece uma
explicação para o problema da relação entre o
um e o múltiplo, tão comum no pensamento
grego de então. Zeus ao engolir tudo o que
existi1a explica a criação do múltiplo a partir da
unidade.
b) Antropogonia – A origem do homem está
ligada ao crime dos Titãs contra Zagreu, o
primeiro Dioniso. Depois de tê-lo raptado, os
Titãs esquartejaram-no, cozinharam-no num
caldeirão e o devoraram. Zeus, irritado com o
crime, fulminou os Titãs transformando-os em
cinzas; das cinzas nasceram os homens. Este
mito explica a dupla natureza do homem: ele
participa do bem (restos divinos devorados pelos
Titãs) e o mal (os próprios Titãs). No homem, há
o lado titânico, que é realçado pelos que
praticam o mal, e uma centelha divina, uma
parcela de Dióniso. O corpo humano é a prisão
desta centelha, do qual, de todas as formas,
deve procurar libertar-se.
c) Salvação – Quem vive a vida órfica, com
todas as suas práticas de purificação, põe fim ao
ciclo de reencarnações. A reencarnação resulta
de um culpa originária, cuja natureza não é
claramente explicada. Somente os iniciados são
dignos da recompensa (libertação); os não-
indicados sofrem uma punição.
5. Os Pré – Socráticos
Como vimos, a filosofia apareceu nas póleis
sendo que as primeiras dentre elas foram
fundadas nas colônias. O que hoje
denominamos Grécia Antiga era um conjunto de
cidades e povoados distribuídos em três grandes
regiões: a Grécia Continental, com as suas
diversas ilhas, a Magna Grécia, localizada na
parte sul da Itália atual, e a Jônia, onde hoje se
encontra a Turquia.
Os primeiros filósofos viveram na Jônia
(Mileto, Éfeso, Clazômenas), em seguida na
Magna Grécia (Eléia, Crotona, Agrigento) e, só
mais tarde, na Grécia Continental (Abdera,
Atenas). São chamados de pré-socráticos os
filósofos que viveram antes de Sócrates e
desenvolveram suas atividades sobretudo nas
colônias gregas.
Seus escritos praticamente desapareceram,
restando somente alguns fragmentos ou
referentes feitas por comentadores ou
historiadores antigos (doxografia). Embora as
suas reflexões estejam voltadas sobretudo para
a natureza (phýsis), desenvolvem também
algumas idéias sobre o homem, a sua natureza e
a sua alma.
6. Escola Jônica
Mileto era a mais importante cidade da Jônia,
centro de intensa atividade comercial, graças ao
seu porto. Nesta cidade, viveram os primeiros
filosóficos e formaram uma escola também
conhecida como a Escola de Mileto. Seus
principais representantes foram Tales,
Anaxímenes e Anaximandro.
7. Tales de Mileto - (fins do séc. VII a.C.).
Considerado o primeiro filósofo ocidental,
Tales levantou questões filosóficas que se
tornaram marcas distintivas de todo o período
pré-socrático.
Não aceitando mais as soluções dadas pelos
mitos, Tales formulou a questão sobre a origem
do cosmos. Investigou a natureza do princípio
primeiro (arkhé) do qual derivariam todas as
coisas. Conforme nos diz Aristóteles:
“para ele a água (hýndra) é o principio, pois
todas as coisas vivas são úmidas e vivem do
úmido” (Metafísica, A,3, 983 b 20-27).
Ainda que a temática preferencial fosse a da
natureza, duas passagens aristotélicas indicam
que Tales já abordara o problema da alma
humana:
“...disse que o imã possui uma alma (psykhé),
porque é capaz de mover” (De Anima, A2, 405 a
19ss).
Alguns pensadores sustentam que a alma se
mistura com tudo: e é por isso, talvez, que ele
sustenta que tudo é cheio de deuses” (ib., A5,
411 a 7ss). Podemos concluir duas coisas: Tales
denominou alma o princípio do movimento e a
relacionou com o princípio primeiro de todas as
coisas: a água.
8. Anaximandro de Mileto (c. 610 – 547 a.
C).
Anaximandro preocupou-se com a mesma
questão do mestre: a da origem de todas as
coisas. Parece ter sido ele a introduzir e o termo
arkhé para designar tal principio. Segundo ele, a
arkhé é o apeíron (a privativo + pêras/limite),
entendido como o infinito que não tem limites
internos ou externo. É especialmente infinito,
enquanto gera a engloba espaço sem fim, e
qualitativamente indeterminado, enquanto não
pode ser identificado com um elemento
específico, como a água de Tales.
No único fragmento conservado,
Anaximandro manifestou um certo pessimismo
quanto ao mundo em geral. O nascimento é uma
imposição, fruto de uma culpa e a morte é uma
expiação regulada por um princípio de justiça,
cuja natureza ele não explicita.
9. Anaxímenes de Mileto (c. 550 – 480 a. C).
O terceiro expoente dessa escola voltou a
apontar um elemento determinado como
princípio de todas as coisas: o ar. De todos os
elementos é o que mais se adequa ao papel de
fundamento de toda a realidade. De seus
escritos restaram dois fragmentos. O segundo
reportado por Aécio, diz:
“Assim como a nossa alma, que é ar, nos
sustenta e nos governa, assim o sopro e o ar
abraçam todo o cosmo”.
Esse fragmento sugere que a sua concepção
de alma é a de que esta também seja o princípio
vital. Como o ar (físico) é necessário para a
sobrevivência de todos os seres vivos, assim,
também a alma é princípio de vida e governo
para o homem.
10. Heráclito de Éfeso (c. 540 – 480 a. C).
Heráclito foi o mais importante filósofo da
Jônia. Diz a tradição Costumava tratar seus
concidadãos com desprezo por considera-lo
ignorantes. Escrevia de forma hermética, como
que desafiando-os a compreendê-lo, por isso,
recebeu o apelido de “O Obscuro”. As pesquisas
atuais apontam 126 fragmentos de seus escritos
como autênticos.
Seu pensamento pode ser resumido nos
seguintes itens:
a) Toda a realidade é dotada de dinamismo:
todas as coisas estão em perene movimento.
Nada é fixo, tudo se modifica. É nesse sentido
que deve ser entendida a afirmação: “O ser é e
não é ao mesmo tempo” ou fórmula: “Tudo
flui”;
b) A força dos opostos: as coisas também
estão em perene oposição entre si. Há um
eterno conflito de contrários. O conflito, porém,
é positivo. É no conflito com as outras coisas
que cada uma delas adquire realidade própria
(noite x dia, frio x quente, vida x morte): “A
guerra é mãe de todas as coisas e de todas a
rainha...” (Fragmento 53);
c) A síntese dos opostos: o conflito entre todas
as coisas revela-se, ao mesmo tempo, fonte de
harmonia. Há uma perene pacificação entre os
beligerantes.
“O que é oposição se concilia e, das coisas
diferentes, nasce a harmonia mais bela, e
tudo se gera por via do contraste” (Fr. 8);
d) O Deus de Heráclito: a harmonia dos
opostos tem um princípio que está acima
deles. Heráclito o identificou com o fogo,
elemento unificador de todas as coisas. O fogo
é o paradigma de perene mutação.
“Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz,
sociedade-fome”(Fr. 67)
No entanto, o fogo enquanto elemento “divino”,
não é dotado de inteligência no sentido de
consciência pessoal capaz de criar e organizar
intencionalmente a realidade, tal como
acontece na concepção de Deus na tradição
judaico-cristã. No célebre fragmento 41,
Heráclito parece sugerir idéia semelhante.
1. Características Gerais
O segundo período da história do
pensamento grego é o chamado período
sistemático. Com efeito, nesse período realiza-se
a sua grande e lógica sistematização,
culminando em Aristóteles, através de Sócrates
e Platão, que fixam o conceito de ciência e de
inteligível, e através também da precedente crise
cética da sofística. O interesse dos filósofos gira,
de preferência, não em torno da natureza, mas
em torno do homem e do espírito; da metafísica
passa-se à gnosiologia e à moral. Daí ser dado a
esse segundo período do pensamento grego
também o nome de antropológico, pela
importância e o lugar central destinado ao
homem e ao espírito no sistema do mundo, até
então limitado à natureza exterior.
Esse período esplêndido do pensamento
grego – depois do qual começa a decadência –
teve duração bastante curta. Abraça
substancialmente, o século IV a.C., e
compreende um número relativamente pequeno
de grandes pensadores: os sofistas e Sócrates,
daí derivando as chamadas escolas socráticas
menores, sendo principais a cínica e a cirenaica,
precursoras, respectivamente, do estoicismo e
do epicurismo do período seguinte; Platão e
Aristóteles, deles procedem a Academia e o
Liceu, que sobreviverão também no período
seguinte a além ainda, especialmente a
Academia por motivos éticos e religiosos, e em
seus desenvolvimentos neoplatônicos em
especial – apesar de o aristotelismo ter superado
logicamente o platonismo.
2. A Sofística
Após as grandes vitórias gregas, atenienses,
contra o império persa, houve um triunfo político
da democracia, como acontece todas as vezes
que o povo sente, de repente, a sua força. É
visto que o domínio pessoal, em tal regime,
depende da capacidade de conquistar o povo
pela persuasão, compreende-se a importância
que, em situação semelhante, devia ter a
oratória e, por conseguinte, os mestres de
eloqüência. Os sofistas, sequiosos de conquistar
fama e riqueza no mundo, tornaram-se mestres
de eloqüência, de retórica, ensinando aos
homens ávidos de poder político a maneira de
consegui-lo. Diversamente dos filósofos gregos
em geral, o ensinamento dos sofistas não era
ideal, desinteressado, mas sobejamente
retribuído. O conteúdo desse ensino abraçava
todo o saber, a cultura, uma enciclopédia, não
para si mesma, mas como meio para fins
práticos e empíricos e, portanto, superficial.
A época de ouro da sofística foi – pode-se
dizer – a segunda metade do século V a.C. O
centro foi Atenas, a Atenas de Péricles, capital
democrática de um grande império marítimo e
cultural. Os menores foram uma plêiade,
continuando até depois de Sócrates, embora
sem importância filosófica. Protágoras foi o maior
de todos, chefe de escola e teórico da sofística.
Nasceu em Abdera – pátria de Demócrito, cuja
escola conheceu – pelo ano 480. Viajou por toda
a Grécia, ensinando na sua cidade natal, na
Magna Grécia, e especialmente em Atenas,
onde teve grande êxito, sobretudo entre os
jovens, e foi honrado e procurado por Péricles e
Eurípides. Acusado de ateísmo teve de fugir de
Atenas, onde foi processado e condenado por
impiedade, e a sua obra sobre os deuses foi
queimada em praça pública. Refugiou-se então
na Sicília, onde morreu com setenta anos (410
a.C.), dos quais, quarenta dedicados à sua
profissão. Platão deu o nome de Protágoras a
um dos seus diálogos, e a um outro o de
Górgias. Górgias, de Leôncio, na Sicília (484-375
a.C.) – correlacionado com Empédocles –
representa a maior expressão prática da
sofística, mediante o ensinamento da retórica;
teoricamente, porém, foi um filósofo ocasional,
exagerador dos artifícios da dialética eleática.
Em 427 foi embaixador de sua pátria em Atenas,
para pedir auxílio contra os siracusanos. Ensinou
na Sicília, em Atenas, em outras cidades da
Grécia, até estabelecer-se em Larissa na
Tessália, onde teria morrido com 109 anos de
idade. Os outros dois sofistas maiores são
Hipias, de Elis, contemporâneo de Sócrates,
enciclopedista popular, criticado por Platão no
diálogo Hípias maior; e Pródicos, de Céus,
também contemporâneo de Sócrates, estimado
na vizinha Atenas, mas moralista superficial.
3. A Gnosiologia
A teoria sofística do conhecimento é,
substancialmente, relativista, subjetivista, cética.
Diz Protágoras que o homem é a medida de
todas as coisas, isto é, que as coisas são como
lhe aparecem; não, porém, como aparecem ao
homem, em geral, mas como aparecem ao
homem hic et nunc: é verdadeiro – e é bem – o
que aparece como tal a cada qual e a cada
momento. E diz Górgias que nada existe; e se
algo existisse seria incognoscível; e mesmo se
pudesse conhecer, seria incomunicável.
Compreende-se que este ceticismo importa
na ruína da ciência como valor objetivo e
universal. À ciência – que se impõe
objetivamente ao intelecto humano e, pela sua
universalidade, é naturalmente comunicável –
substituem os sofistas a retórica, isto é, a arte de
disputar, para ganhar os homens à própria idéia,
aos próprios interesses, não com meios e
motivos racionais, pois não existem, mas
mediante os artifícios da forma, a arte dos
trocadilhos, os jogos de palavras, o que
vulgarmente se chama sofisma.
No Górgias de Platão, Górgias declara que a
sua arte produz a persuasão que nos move a
crer sem saber, e não a persuasão que nos
instrui sobre as razões intrínsecas do objeto em
questão. Em suma, é mais ou menos o que
acontece com o jornalismo moderno. Para
remediar este extremo individualismo, negador
dos valores teoréticos e morais Protágoras
recorrem à convenção estatal, social, que
deveria estabelecer o que é verdadeiro e que é
bem!
III
A MORAL, O DIREITO, A RELIGIÃO
Em coerência com o ceticismo teórico,
destruidor da ciência, a sofística sustenta o
relativismo prático, destruidor da moral. Como é,
verdadeiro o que parece tal ao sentido, assim é
bem o que satisfaz ao sentimento, ao impulso, à
paixão de cada um em cada momento.Ao
sensualismo, ao empirismo gnosiológicos
correspondem o hedonismo e o utilitarismo ético:
o único bem é o prazer, a única regra de
consulta é o interesse particular. Górgias declara
plena indiferença para com todo moralismo:
ensina ele aos seus discípulos unicamente a arte
de vencer os adversários; que a causa seja justa
ou não, não lhe interessa. A moral, portanto, -
como norma universal de conduta – é concebida
pelos sofistas não como lei racional do agir
humano, isto é, como a lei que potencia
profundamente a natureza humana, mas como
um empecilho que incomoda o homem.
Desta maneira, os sofistas estabelecem uma
opção especial entre natureza e lei, quer político,
quer política, quer moral, considerando a lei
como fruto arbitrário, interessado, mortificador,
uma pura convenção, e entendendo por
natureza, não a natureza humana racional, mas
a natureza humana sensível, animal, instintiva. E
tentam criticar a vaidade desta lei, na verdade
tão mutável conforme os tempos e os lugares,
bem como a sua utilidade comumente celebrada:
não é verdade – dizem – que a submissão à lei
torne os homens felizes, pois grandes malvados,
mediante graves crimes, têm freqüentemente
conseguido grande êxito no mundo e, aliás, a
experiência ensina que para triunfar no mundo,
não é mister justiça e retidão, mas prudência e
habilidade.
Então a realização da humanidade perfeita,
segundo o ideal dos sofistas, não está na ação
ética a ascética, no domínio de si mesmo, na
justiça para com os outros, mas no
engrandecimento ilimitado da própria
personalidade, no prazer e no domínio violento
dos hímens. Esse domínio violento é necessário
para possuir e gozar os bens terrenos visto estes
bens serem limitados e ambicionados por outros
homens. É esta, aliás, a única forma de vida
social possível num mundo em que estão em
jogo unicamente forças brutas, materiais. Seria,
portanto, um prejuízo a igualdade moral entre os
fortes e fracos, pois a verdadeira justiça
conforme à natureza material, exige que o forte,
o poderoso, oprima o fraco em seu proveito.
Quanto ao direito e à religião, a posição da
sofística é extremista também, naturalmente,
como na gnosiologia e na moral. A sofística
move uma justiça crítica, contra o direito positivo,
muitas vezes arbitrário, contingente, tirânico, em
nome do direito natural. Mas este direito natural
– bem como a moral natural – segundo os
sofistas, não é o direito fundado sobre a
natureza racional do homem, e sim sobre a sua
natureza animal, instintiva, passional. Então, o
direito natural é o direito do mais poderoso, pois
em uma sociedade em que estão em jogo
apenas forças brutas, a força e a violência
podem ser o único elemento organizador, o
sistema jurídico admissível.
A respeito da religião e da divindade, os
sofistas não só trilham a mesma senda dos
filósofos racionalistas gregos do período
precedente e posterior, mas – de harmonia com
o ceticismo deles – chegam até o extremo, até o
ateísmo, pelo menos praticamente. Os sofistas,
pois, servem-se da injustiça e do muito mal que
existe no mundo, para negar que o mundo seja
governado por uma providência divina.
IV
SÓCRATES
1. A Vida
Quem valorizou a descoberta do homem feita
pelos sofistas, orientando-a para os valores
universais, segundo a via real do pensamento
grego, foi Sócrates. Nasceu Sócrates em 470 ou
469 a.C., em Atenas, filho de Sofrônico, escultor,
e de Fenáreta, parteira. Aprendeu a arte paterna,
mas dedicou-se inteiramente à meditação e ao
ensino filosófico, sem recompensa alguma, não
obstante sua pobreza. Formou a sua instrução,
sobretudo através da reflexão pessoal, na
moldura da alta cultura ateniense da época, em
contato com o que de mais ilustre houve na
idade de Péricles.
Inteiramente absorvido pela sua vocação,
não se deixou distrair pelas preocupações
domésticas nem pelos interesses políticos.
Quanto à família, podemos dizer que Sócrates
não teve, por certo, uma mulher ideal na quérula
Xantipa; mas também ela não teve um marido
ideal no filósofo, ocupado com outros cuidados
que não os domésticos.
Quanto à política, foi ele valoroso soldado e
rígido magistrado. Mas, em geral, conservou-se
afastado da vida pública e da política
contemporânea, que contrastavam com o seu
temperamento crítico e com o seu reto juízo.
Julgava que devia servir a pátria conforme suas
atitudes, vivendo justamente e formando
cidadãos sábios, honestos, temperados –
diversamente dos sofistas, que agiam para o
próprio proveito e formavam grandes egoístas,
capazes unicamente de se acometerem uns
contra os outros e escravizar o próximo.
Entretanto, a sua atitude crítica, irônica e a
conseqüente educação por ele ministrada,
criaram descontentamento geral, honestidade
popular, inimizades pessoais, apesar de sua
probidade. Diante da tirania popular, bem como
de certos elementos reacionários, aparecia
Sócrates como chefe de uma aristocracia
intelectual. Esse estado de ânimo hostil a
Sócrates concretizou-se, tomou forma jurídica,
na acusação movida contra ele por Mileto, Anito
e Licon: de corromper a mocidade e negar os
deuses da pátria introduzindo outros. Sócrates
desdenhou defender-se diante dos juízes e da
justiça humana, humilhando-se e desculpando-
se mais ou menos. Tinha ele diante dos olhos da
alma não uma solução empírica para a vida
terrena, e sim o juízo eterno da razão, para a
imortalidade. E preferiu a morte. Declarado
culpado por uma pequena minoria, assentou-se
com indômita fortaleza de ânimo diante do
tribunal, que o condenou à pena capital com o
voto da maioria.
Tendo que esperar mais de um mês a morte
no cárcere – pois uma lei vedava as execuções
durante a viagem votiva de um navio a Delos – o
discípulo Criton preparou e propôs a fuga ao
Mestre. Sócrates, porém, recusou, declarando
não querer absolutamente desobedecer às leis
da pátria. E passou o tempo preparando-se para
o passo extremo em palestras espirituais com os
amigos. Especialmente famoso é o diálogo sobre
a imortalidade da alma – que se teria realizado
pouco antes da morte e foi descrito por Platão no
Fédon com arte incomparável. Suas últimas
palavras dirigidas aos discípulos, depois de ter
sorvido tranqüilamente a cicuta, foram:
“Devemos um galo a Esculápio”. É que o deus
da medicina tinha-o livrado do mal da vida com o
dom da morte. Morreu Sócrates em 399 a.C.
com 71 anos de idade.
A introspecção é o característico da filosofia
de Sócrates. E exprime-se no famoso lema
conhece-te a ti mesmo – isto é, torna-te
consciente de tua ignorância – como sendo o
ápice da sabedoria, que é o desejo da ciência
mediante a virtude. E alcançava em Sócrates
intensidade e profundidade tais, que se
concretizava, se personificava na voz interior
divina do gênio ou demônio.
Como é sabido, Sócrates não deixou nada
escrito. As notícias que temos de sua vida e do
seu pensamento devemo-las especialmente aos
seus dois discípulos Xenofonte e Platão, de
feição intelectual muito diferente. Xenelofonte,
autor da Anábase, em seus Ditos Memoráveis,
legou-nos de preferência o aspecto prático e
moral da doutrina do mestre. Xenofonte, de estilo
simples e harmonioso, mas sem profundidade,
não obstante a sua devoção para com o mestre
e a exatidão das notícias, não entendeu o
pensamento filosófico de Sócrates, sendo mais
homem de ação do que pensador. Platão, pelo
contrário, foi filósofo grande demais para nos dar
o preciso retrato histórico de Sócrates; nem
sempre é fácil discernir o fundo socrático das
especulações acrescentadas por ele. Seja como
for, cabe-lhe a glória e o privilégio de ter sido o
grande historiador do pensamento de Sócrates,
bem como o seu biógrafo genial. Com efeito,
pode-se dizer que Sócrates é o protagonista de
todas as obras platônicas embora Platão
conhecesse Sócrates já com mais de sessenta
anos de idade.
2. A Gnosiologia
O interesse filosófico de Sócrates volta-se
para o mundo humano espiritual, com finalidade
práticas, morais. Como os sofistas, ele é cético a
respeito da cosmologia e, em geral, a respeito da
metafísica; trata-se, porém, de um ceticismo de
fato, não de direito, dada a sua revalidação da
ciência. A única ciência possível e útil é a ciência
da prática, mas dirigida para os valores
universais, não particulares. Vale dizer que o agir
humano – bem como o conhecer humano – se
baseia em normas objetivas e transcendentes à
experiência. O fim da filosofia é a moral; no
entanto, para realizar o próprio fim, é mister
conhece-lo; para construir uma ética é
necessária uma teoria; no dizer de Sócrates, a
gnosiologia deve preceder logicamente a moral.
Mais, se o fim da filosofia é prático, o prático
depende, por sua vez, totalmente, do teorético,
no sentido de que o homem tanto opera quanto
conhecer: virtuoso é o sábio, malvado, o
ignorante. O moralismo sacrático é equilibrado
pelo mais radical intelectualismo, racionalismo,
que está contra todo voluntarismo,
sentimentalismo, pragmatismo ativismo.
A filosofia socrática, portanto, limita-se à
gnosiologia e à ética, sem metafísica. A
gnosiologia de Sócrates, que se concretizava no
seu ensino dialógico, donde é preciso extraí-la,
pode-se esquematicamente resumir nestes
pontos fundamentais: ironia, maiêutica,
introspecção, ignorância, introdução, definição.
Antes de tudo, cumpre desembaraçar o espírito
dos conhecimentos errados, dos preconceitos,
opiniões; é este o momento da ironia, isto é, da
crítica. Sócrates, de par com os sofistas, ainda
que com finalidade diversa, reivindica a
independência da autoridade e da tradição, a
favor da reflexão livre e da convicção racional. A
seguir será possível realizar o conhecimento
verdadeiro, a ciência, mediante a razão. Isto
quer dizer que a instrução não deve consistir na
imposição extrínseca de uma doutrina ao
discente, mas o mestre deve tira-la da mente do
discípulo, pela razão imanente e constitutiva do
espírito humano, a qual é um valor universal. É a
famosa maiêutica de Sócrates, que declara
auxiliar os partos do espírito, como sua mãe
auxiliava os partos do corpo.
V
FILOSOFIA ANTIGA
1. As Características Fundamentais do
Pensamento Indiano
A característica que mais impressiona e
maior valor tem no pensamento indiano, é o
sentido profundo do problema da vida e do mal,
e a conseqüente desvalorização do mundo
empírico em que domina o sofrimento e a morte.
Compreende-se, portanto, a desvalorização
indiana da moderna civilização política,
econômica e comercial ao império inglês; e
compreende-se também a sua desestima da
moderna ciência técnica voltada para o domínio
do mundo e para o bem estar material, sem se
preocupar com a solução dos grandes e eternos
problemas do espírito, moral e religioso. Por
isso, a Índia se escandaliza com a idolatria que o
mundo contemporâneo manifesta para com a
força bruta, tampouco conciliável com o
cristianismo.
Resumidamente, as características do
pensamento indiano são: o senso profundo do
problema da vida e do mal, e a desvalorização
da moderna civilização oriental. A filosofia
indiana não resolveu, porém, o problema da
vida, devido à sua deficiência metafísica. A
solução racional do problema do mundo e da
vida será oferecida pela filosofia helênico-cristã.
Cabe-lhe, no entanto, o mérito de os ter
concebido e de ter praticado a renúncia, a
ascética, para a salvação do homem.
2. Os Períodos do Pensamento Indiano
A filosofia indiana abraça, mais ou menos, o
longo período de tempo que vai do ano 1000
a.C. até o ano 1000 d.C. Dividimos esta longa
história do pensamento filosófico indiano em três
períodos ou correntes: o pensamento bramânico,
os sistemas heterodoxos e os sistemas
ortodoxos. Depois do ano 1000 d.C., a filosofia
indiana cessa de ser vital, triunfando o
sincretismo neo-bramânico e hinduísta.
3. A Religião Védica
A religião mais antiga da Índia é a védica,
assim denominada por causa dos livros
sagrados em que é exposta: os Vedas. O
elemento central não consiste na adoração da
divindade, mas no sacrifício. Este gesto ou
fórmula ritual é eficaz por si só, é infalível, tem
valor mágico. Tudo depende do sacrifício. As
divindades indianas são naturalistas.
4. Jainismo
O nome jainismo deriva de jona, que
significa vencedor. Jaina é o apelido atribuído a
uma série de profetas que deram origem ao
jainismo. O grande reformador do jainismo foi
Vardhamâna (V séc. a.C.). O jainismo, ainda em
vigor na Índia dos nossos dias, representa uma
sabedoria, uma moral e uma ascética de tipo
estóico. A metafísica jainista é atéia e dualista,
pois admite a matéria (corpo) e o espírito (alma).
A moral jainista é baseada num ascetismo
rigoroso, necessário para libertar o espírito da
matéria, alcançando-se destarte o nirvana.
5. Budismo
O fundador do budismo é Gautama ou
Siddhârta, o Buda (o iluminado). Nasceu no ano
560 a.C.; após seu casamento, abandonou a
família para viver à vida ascética mendicante.
Assim descobriu a via da libertação e se tornou o
iluminado, dedicando o resto da vida a iluminar
os homens. Faleceu pelo ano 480 a.C.
O budismo nega a realidade do eu e do
não-eu, dissolvendo ambos em elementos
fenomênicos; não o ser é real, mas o ato. Esse
ato determina a nossa personalidade empírica
mediante o desejo e a vontade de viver. Loucura
é, portanto, apegar-se à vida; a sabedoria
consiste em libertar-se da vida. A libertação
depende radicalmente do conhecimento, e a
escravidão depende da ignorância. Logo, é
mediante o conhecimento que se alcança a
libertação e se resolve o problema da vida. A
respeito do absoluto, o budismo é agnóstico,
pois, nada se pode saber em torno dele.
A doutrina complexa do budismo é
sintetizada nas quatro famosas e santas
verdades da prédica de Benares: a vida é
sofrimento – a causa do sofrimento é o desejo –
é mister suprimir o desejo para libertar-se do
sofrimento – para suprimir o desejo é preciso
praticar “a óctuplo via da libertação”. Chegando
ao fim dessa via, o sábio se torna santo e entra
no nirvana, na felicidade, que se realiza, porém,
inteiramente, só depois da morte.
VI
PERÍODO PRÉ-SOCRÁTICOS
1. Escola Jônica
O fundador da Escola Jônica é
considerado Tales de Mileto (624-562 a.C.);
sustentava ele ser a água a substância de todas
as coisas, por condensação ou rarefação. A
pesquisa desta escola, a mais antiga escola
grega da filosofia, e está destinada a dar
expressão filosófica ao problema da existência
de uma causa suprema de tudo. O princípio
aparece, portanto, caracterizado geralmente por
um elemento natural ou material: água, ar, fogo
etc.
Para Anaximandro de Mileto (610-547
a.C.), matemático e astrônomo, que vai além de
Tales, e coloca como princípio primeiro algo de
indeterminado (apeiron). Seu eterno movimento
determina na matéria, por separação, os
apostos. Anaxímenes de Mileto (585-528 a.C.),
discípulo de Anaximandro, julga que o elemento
primordial das coisas é o ar, eterno e em
contínuo movimento.
2. Escola Pitagórica
Pitágoras, fundador da escola pitagórica,
nasceu em Samos (571 a.C.), mas foi em
seguida para a Itália meridional, onde fundou a
sua escola filosófica, com tendência também
religiosa e política, antes em Crotona e depois
em Metaponto, aí morrendo em 497 a.C.,
provavelmente. Segundo o pitagorismo, a
essência, o princípio primordial da realidade é
representado pelo número, isto é, pelas relações
matemáticas. Para explicar a multiplicidade e o
vir-a-ser, o pitagorismo recorre à luta dos
opostos, pares e ímpares. Essa antítese é,
porém, reconduzida à unidade pela harmonia
matemática, que governa o mundo todo, material
e moral.
3. Escola Eleática
O fundador da assim chamada escola
eleática, do lugar onde ela surgiu (Eléia, na
Magna Grécia), é Xenófanes, nascido em
Cólofon, na Ásia Menor, pelos anos 580-76 a.C.
O maior expoente desta escola é Parmênides
que disse que a única realidade é o ser;
nenhuma outra realidade é possível, nem o vir-a-
ser, como afirmava Heráclito. De fato, uma coisa
é ou não é. Se for, não pode vir-a-ser porque já
é. Se não é, não pode vir-a-ser, porque do nada
não se pode extrair senão o nada. De tal modo
era ressaltada a correlação entre o ser e o
pensamento. Outro expoente desta escola foi
Zenão, discípulo de Parmênides, que viveu
provavelmente entre 490 e 430 a.C., tornando-se
famoso pelas suas argumentações dialéticas
contra a multiplicidade e, sobretudo, contra o
movimento que Parmênides afirmou ser ilusório.
4. Escola Atomística
A escola atomística tem seu fundador
Demócrito, natural de Abdera na Trácia (460-
370). Demócrito sustentava tanto a imutabilidade
do ser quanto a realidade do vir-a-ser. O ser é
constituído por átomos, que são partículas
indivisíveis e imutáveis, mergulhadas no vazio.
Do movimento dos átomos derivam todas as
coisas, segundo um determinismo mecânico.
Estas partículas não possuem nenhuma
qualidade, exceto a impenetrabilidade; diferem
entre si apenas pela figura e dimensões. A alma
humana é constituída por átomos leves e sutis,
de caráter ígneo.
VII
PERÍODO CLÁSSICO DO PENSAMENTO
GREGO
O período clássico acontece nos séculos V
e IV a.C. e dele faz parte, além de Sócrates, seu
discípulo Platão, que por sua vez foi o mestre de
Aristóteles. Os sofistas são contemporâneos de
Sócrates, e foram por eles duramente criticados.
Os primeiros filósofos pré-socráticos
preocupavam-se, sobretudo com a natureza, e
as explicações cosmológicas se desenvolvem
em torno da natureza em procura da (arché),
princípio de todas as coisas. Entre os primeiros
filósofos não há texto referente à política. São os
sofistas que irão proceder a passagem para a
reflexão propriamente antropológica, centrando
suas atenções na questão moral e política.
Elaboram teórica e legitimamente o ideal
democrático da nova classe em ascensão, a dos
comerciantes enriquecidos.
À virtude (araté) de uma aristocracia
guerreira opõe-se a virtude do cidadão: A maior
das virtudes é a justiça, e todos, desde que
cidadãos da pólis, devem ter direito ao exercício
do poder. Enquanto na aristocracia predomina a
ética, para o cidadão ela é política e mais
objetiva que a anterior, pois o critério do justo e
do injusto se acha na lei escrita.
Através da Paidéia, os gregos elaboram a
nova educação capaz de satisfazer os ideais do
homem pólis, e não mais do aristocrata,
superando, assim, os privilégios da antiga
educação, para qual a virtude só era acessível
aos que pertenciam a uma linhagem de origem
divina.
A exigência que os sofistas vem satisfazer
não é apenas de ordem teórica, mas também
prática, voltada para a vida. Segundo Jaeger,
historiador da filosofia, exercem por isso uma
influência muito forte, vinculando-se à tradição
educativa dos poetas Homero e Hesíodo. Os
sofistas são os mestres da nova arté-políca; e o
instrumento desse processo será a retórica, ou
seja, a arte de bem falar, de utilizar linguagem
em um discurso persuasivo.
1. Escola Sofista
Os sofistas levantaram pela primeira vez a
questão de se o homem tinha ou não a
capacidade de conhecer a íntima natureza das
coisas e a lei moral absoluta. Sua resposta foi a
de que o homem não as pode conhecer, porque
a realidade e a lei natural estão acima da
capacidade cognoscitiva do homem. Portanto,
tudo aquilo que o homem conhece em filosofia e
em ética é de sua própria elaboração. Daí a
famosa expressão dos sofistas: “o homem é a
medida de todas as coisas”. Com efeito, não é
possível um conhecimento verdadeiro, mas
apenas provável; não há uma lei moral absoluta,
mas somente leis convencionais. Nesta
dimensão empírica do conhecimento humano, o
prazer se coloca como única meta para o
homem. Os maiores expoentes desta escola
foram Protágoras, de Abdera (485-411 a.C.);
Górgias de Leôncio, na Sicília (484-375 a.C.);
Híppias, de Elis, e ainda Trasímalo, Pródico,
Hipódamos e outros.
Tal como ocorreu com os Pré-socráticos,
dos sofistas só restam fragmentos de suas
obras, além de referências, tendenciosas, feitas
por filósofos posteriores.
2. Escola Socrática
O fundador desta escola foi Sócrates (469-
399 a.C.) que tinha a convicção fundamental que
são dados valores absolutos, na ordem
gnosiológica, na metafísica e na ética. Nisto ele
se opõe aos sofistas, os quais sustentavam que
tudo é relativo: as opiniões mudam de indivíduo
para indivíduo, os costumes de cidade para
cidade, de povo para o povo. Ao contrário,
segundo Sócrates, existem princípios absolutos,
verdades eternas, leis morais imutáveis e iguais
para todos. A seu ver, a vida humana merece e
deve ser vivida em obediência a tais valores
éticos e metafísicos, embora isto possa exigir
enormes sacrifícios, pois o homem está
destinado a alcançar sua plena realização
somente depois da morte, no momento em que a
alma se liberta do peso do corpo.
Sócrates fundou uma grande escola, de
modo que dele depende, direta ou indiretamente,
toda a especulação grega que seguiu, a qual,
mediante o pensamento socrático, aperfeiçoa o
pensamento dos pré-socráticos em sistemas e
desenvolvimento variados e originais. Isto
patenteia-se imediatamente nas escolas
socráticas. Elas, ainda que se diferenciem não
pouco entre si, concordam todas pelo menos na
característica doutrina socrática, maior é a
platônica; as escolas socráticas menores são a
de Migara, de Elis, a cínica e a cirenaica. Pelas
suas doutrinas específicas – a virtude na
filosofia, a escola cínica – cujo famoso expoente
é Diógenes, e a cirenaica representam
respectivamente o germe do estoicismo e do
epicurismo.
3. Escola Platônica
Platão (427-347 a.C.), fundador desta escola,
tinha a característica dominante o dualismo. Ele
considerava o mundo material como um mundo
decaído e alienado, uma reprodução imperfeita,
uma imitação malfeita, uma participação limitada
de um mundo ideal, perfeito, eterno,
incorruptível, divino, o mundo das idéias. Esse
dualismo reflete-se em todos os setores da
filosofia: na lógica, onde segue-se o
procedimento dialético; na gnosiologia, que
desvaloriza o conhecimento sensitivo, reduzindo-
o à função de reavivar a lembrança das idéias
(teoria da reminiscência); na psicologia, com a
identificação do homem a uma só alma,
espiritual e imortal, considerando o corpo uma
prisão e um obstáculo às atividades da alma; na
ética, onde se ordena um rígido controle ou
antes a completa supressão dos instintos e das
paixões, o que torna possível à separação da
alma da prisão do corpo, e a contemplação das
Idéias; na estética, com a desvalorização da
comédia, da tragédia e das artes figurativas, pois
não favorecem a elevação do espírito; na
política, com a divisão da sociedade em classes
e a atribuição do governo ao filósofo-rei.
4. Escola Aristotélica
A visão filosófica de Aristóteles (384-322
a.C.) caracteriza-se pelo esforço em captar a
realidade de modo unitário (contra o dualismo de
Platão) e, ao mesmo tempo, pela tentativa de
restituir as causas últimas de tudo àquilo que é
mutável e contingente a um princípio único
transcendente. Com tal propósito, Aristóteles
postula quatro causas fundamentais: a matéria e
a forma (para explicar a estrutura intrínseca das
realidades corpóreas), o agente e a finalidade
(para explicar a origem das coisas e seu
dinamismo). Vale-se desses princípios para
resolver todos os grandes problemas: problema
cosmológico (composição hilmórfica de todas as
coisas, ou seja, todas elas são constituídas de
matéria e forma, as quais se encontram na
relação de potência e ato; teleologia: o
dinamismo das coisas e o seu devir são
provocados pelo Primeiro Motor Imóvel, o que é
seu fim último); problema antropológico (o
homem não é apenas alma, como afirmava
Platão, mas é o resultado da união substancial
de alma e corpo, a primeira concebida como
forma e o segundo como matéria; entretanto, a
alma compreende um elemento espiritual, divino
e imortal); problema gnosiológico (o
conhecimento intelectivo funda-se no sensitivo,
enquanto as idéias são extraídas das sensações,
por meio do procedimento abstrativo); problema
metafísico (a metafísica é o saber mais
importante e elevado, pois estuda o ser em si
mesmo e tem em vista a descoberta das causas
últimas das coisas); problema ético (a perfeita
felicidade e plena realização do próprio ser, pelo
homem, não podem consistir só na
contemplação das idéias, mas exige também
uma adequada satisfação dos sentidos, pois o
homem é essencialmente constituído de corpo
além do espírito); problema teológico (existe um
Ser supremo, que é a causa última de todo devir
na qualidade de Motor Imóvel).
VIII
FILOSOFIA NO PERÍODO HELENÍSTICO
1. O Estoicismo
O Estoicismo é o movimento filosófico mais
original do período helenístico e, ao mesmo
tempo, é também aquele que perdurou por mais
tempo: fundado no fim do século IV a.C. continua
a florescer até além do século III d.C. O fundador
deste movimento foi Zenão, de Citium, na ilha de
Chipre (334-262) a.C. Aos vinte e dois anos foi
para Atenas, aí se dedicando à filosofia, e pelo
ano 300 funda a sua famosa escola, que se
chamou estóica, do costume de ensinar num dos
pórticos – em grego, stóa – da cidade.
O estoicismo é principalmente uma
doutrina moral, que faz consistir a felicidade e,
portanto, o fim último do homem, na prática da
virtude e na recusa de qualquer concessão aos
sentimentos e às paixões. Mas compreende
também algumas importantes doutrinas sobre o
conhecimento e a estrutura do cosmos.
2. O Epicurismo
Epicuro, fundador da escola que dele
tomou o nome, nasceu em Atenas em 341 a.C.
O epicurismo sempre teve seguidores, sobretudo
no mundo romano, com Lucrécio e Horácio, e no
mundo renascentista com Valle e Montaigne.
Ante os grandes problemas filosóficos, o
epicurismo assume uma posição de nítido
contraste com o estoicismo, refutando-lhe o
rigorismo ético e o espiritualismo antropológico e
metafísico. O epicurismo desenvolve, portanto,
uma concepção materialista no que diz respeito
aos princípios primeiros das coisas (todas as
coisas, inclusive os deuses e as almas são
constituídas por átomos e vácuo); mecanicista
com respeito aos fenômenos da natureza, os
quais são restritos exclusivamente ao movimento
e à sua lei; sensorial, pelo problema do
conhecimento, que é todo deduzido das
faculdades sensitivas, enquanto o conceito
aparece considerado como simples antecipação
do futuro; hedonista, no que respeita ao
problema moral: a felicidade, o bem supremo do
homem consiste no prazer.
3. Ceticismo
Mais coerente do que as escolas
precedentes, especialmente do que o
estoicismo, com os fins práticos de uma filosofia
da renúncia, é o ceticismo: Visa alcançar a paz
almejada negando não apenas a ação, mas
também o pensamento que implica na pesquisa,
na escolha, na responsabilidade, na perturbação.
O ceticismo clássico começa com Pirro de Ellis
(362-275 a.C.); encarna-se, a seguir, na média
academia com Carnéades; e, enfim, ressurge na
forma pirroneana com Sexto Empírico, a
princípios da era vulgar. O ceticismo tenta
demolir criticamente o conhecimento sensível,
bem como o conhecimento intelectual e o da
opinião.
4. Ecletismo
Entende-se por ecletismo a atitude
filosófica para a qual a procura da verdade não
se esgota em apenas uma forma sistemática, e
dedica-se por isso a coordenar e harmonizar
entre si elementos de verdade escolhidos em
diversos sistemas. O ecletismo desenvolve-se
durante o período alexandrino como reação ao
ceptismo.
Diante do desacordo cada vez mais grave
e profundo entre os filósofos, os cépticos, como
vimos, tinham perdido totalmente a confiança na
capacidade da razão humana de atingir a
verdade. Já os ecléticos, diante da mesma
situação, não julgam correto perder o ânimo,
porque, segundo eles, o desacordo é sinal de
incapacidade da razão não para atingir a
verdade, mas para abranger a verdade com um
único olhar. Para eles, o desacordo dos filósofos
deve-se ao fato de que, não podendo a fraca
mente humana abarcar toda a verdade com um
só olhar, um filósofo limita a sua investigação a
um aspecto e outro filósofo a outro aspecto.
Assim, estudando aspectos diferentes da
realidade, é natural que cheguem a conclusões
diferentes. Por isso, para se chegar a uma
compreensão adequada das coisas, não se deve
confiar em um só filósofo, mas é necessário
reunir as conclusões das pesquisas dos
melhores entre eles. É o que procuraram fazer
os ecléticos do período helenístico: para
organizar um sistema filosófico mais completo,
reúnem os melhores aspectos das doutrinas de
Platão, Aristóteles, Epicuro e Zenão.
IX
PENSAMENTO FILOSÓFICO CRISTÃO
1. A Patrística
Com o nome de patrística entende-se o
período do pensamento cristão que se seguiu à
época neotestamentária, e chegou até o começo
da escolástica; isto é, dos séculos II a VIII da era
vulgar. Este período da cultura cristã é
designado com o nome Patrística, porquanto
representa o pensamento dos pais da igreja, os
construtores da teologia, guias, mestres da
doutrina cristã.
Portanto, se a patrística interessa
sumamente à história do dogma, interessa assaz
menos à história da filosofia, em que terá
importância fundamental a escolástica.
A Patrística é contemporânea do último
período do pensamento grego, o período
religioso, com o qual tem fecundo contato,
entretanto, dele diferenciando-se profundamente,
sobretudo como o teísmo se diferencia do
panteísmo. É também contemporâneo do
império romano, depois de Constantino. Dada a
grandeza de Agostinho, dividimos a patrística em
três períodos: Antes de Agostinho, chamados de
apologistas e os pais alexandrinos; Agostinho,
que merece um desenvolvimento à parte, por ser
o maior dos pais; depois de Agostinho vem o
período que, logo após a sistematização,
representa a decadência da patrística.
Com Agostinho, a patrística atinge o seu
apogeu; depois dele, vai decaindo juntamente
com a cultura; decai, antes de tudo, por motivos
interiores: sobre a linha teológica da patrística,
isto é, da razão aplicada ao mistério, já não era
possível um desenvolvimento fecundo.
A patrística parou nesta posição devido à
poderosa personalidade de Agostinho, que
dominou durante quase um milênio até São
Tomás de Aquino. Os motivos exteriores do
declínio da patrística são da cultura em geral,
são conhecidas: A decadência do império
romano, a divisão do império romano em oriental
e ocidental, a queda do segundo pelas invasões
bárbaras ao norte (Germanos), e a lenta agonia
do primeiro pelas arremetidas dos bárbaros ao
meio-dia (Muçulmanos). Depois da queda do
império romano, a igreja romana passa a guardiã
e herdeira única da cultura; pairam também
sobre a igreja. Apesar desta ruína cultural, algum
nome ilustre ainda aparece, particularmente
entre os séculos V e VI.
2. Metafísica
A metafísica, do grego metá tá physiká =
depois da física; também chamada filosofia
primeira, tem por objeto o estudo da essência
das coisas.
E relação com esta gnosiologia, e em
dependência dela, a existência de Deus é
provada, fundamentalmente, a priori, enquanto
no espírito humano haveria uma particular
presença de Deus.
Segundo Agostinho, esta presença
compreendia a verdade de Deus, no verbo de
Deus que ilumina e torna verdadeiros os nossos
conhecimentos. Quanto à natureza de Deus,
Agostinho tem uma idéia perfeitamente exata:
Deus é poder racional infinito, eterno, imutável,
espírito, pessoa.
Sendo, pois, Deus também a trindade do
pai, verbo e Espírito Santo, Agostinho esforça-se
por descobrir filosoficamente as imagens a
Trindade em todo o mundo; toda a criação seria,
essencialmente, ser, saber, vontade.
Também a psicologia Agostiana está em
harmonia com o platonismo cristão. Certamente
o corpo não é essencialmente mal, visto que é
uma criatura de Deus que fez boas todas as
coisas. Mas a união da alma e do corpo é, de
certo modo, extrínseca, acidental. A alma e o
corpo não formam a unidade metafísica,
substancial, como na concepção aristotélico-
tomista, graças à doutrina da forma e da matéria.
Entre as faculdades da alma, a vontade tem a
primazia, e não o intelecto.
Quanto à cosmologia, mencionamos a
famosa doutrina agostiana das Rationes
Seminales – Germes racionais. Segundo esta
doutrina, Deus, na criação originária e
simultânea das coisas, teria criado apenas as
causas necessárias para produzi-las,
predispondo estas causas de maneira que
dessem, mais tarde, desenvolvimento às coisas.
3. A Escolástica
A Escolástica é a filosofia cristã que se
desenvolve desde o século IX, tem o seu apogeu
no século XIII e começo do século XIX, quando
entra em decadência.
Continua a aliança entre razão e fé,
aquela sempre considerada a “serva da
teologia”. Com freqüência as disputas terminam
com apelo ao princípio da autoridade, que
consiste na recomendação da humildade, para
se consultar os intérpretes autorizados pela
igreja. No entanto, a partir do século XI, com o
renascimento urbano, começam a surgir
ameaças de ruptura da unidade da igreja, e as
heresias anunciam o novo tempo de constelação
e debates em que a razão busca sua autonomia.
Inúmeras universidades aparecem por toda a
Europa e são indicativas do gosto pelo racional,
tornando-se focos por excelência de
fermentação intelectual.
Durante muito tempo predomina na idade
média a influência da filosofia de Platão,
considerada mais adaptável aos ideais cristãos.
O pensamento de Aristóteles era visto com
desconfiança, porque os árabes fizeram
interpretações tidas como perigosas para a fé.
A partir do século XIII, São Tomás utiliza
as traduções feitas diretamente do grego e faz a
síntese mais fecunda da escolástica, conhecida
como filosofia aristotélico-tomista. Daí pra a
frente a influência de Aristóteles se fará sentir de
maneira forte, sobretudo pela ação dos padres
dominicanos; e, mais tarde, dos jesuítas, que
desde o renascimento, por vários séculos,
mostraram-se empenhados na formação dos
jovens.
Se por um momento a recuperação do
aristotelismo constitui um recurso fecundo para
Tomás de Aquino, já no período final da
escolástica torna-se um entrave para o
desenvolvimento da ciência. Basta lembrar a
crítica de Descartes e a luta de Galileu contra o
saber petrificado da escolástica decadente.
X
PENSAMENTO FILOSÓFICO NO PERÍODO
MODERNO
1. A Renascença
A Renascença quer ser um retorno à
concepção clássica – humanista e pagã – do
mundo e da vida. Em realidade, é a afirmação
inicial – prática e moral – do imanentismo
moderno. Porque entre o humanismo clássico e
o humanismo moderno medeia a mensagem
cristã – transcendente e ascética – e quinze
séculos da sua história. Essa afirmação
renascentista de humanismo moderno é
naturalmente confusa com elementos
tradicionais, dos quais é mister separá-la. Não
há, ao lado do renascimento pagão, um
renasciment7o cristão – como movimento
especulativo; mas, homens pagãos ao lado de
homens cristãos, e elementos humanistas e
naturalistas (estéticos, científicos, técnicos,
históricos, políticos) de valor no cristianismo.
Quando a filosofia racional já estava em
fase adiantada de restauração, os papas
apoiaram-na com todos os meios. Destacam-se,
pelo apoio dado a esse movimento filosófico: Pio
IX, Leão XIII, Pio X e os papas posteriores. O
código de direito canônico exige que o
ensinamento filosófico nos seminários e nas
universidades católicas se inspire nos princípios
sadios da filosofia tomista.
2. O Racionalismo
Descartes (1596-1650; Cartésio) é
considerado o fundador do racionalismo
moderno e da moderna filosofia, especialmente
pelo seu método crítico e subjetivo, dedutivo e
matemático.
Após a Renascença e a Reforma, o
segundo grande período na história do
pensamento moderno é representado pelo
racionalismo e pelo empirismo: duas tendências
paralelas, que abrangem os séculos XVII e XVIII.
Embora em antítese entre si, como uma
gnosiologia intelectualista está em antítese como
uma gnosiologia sensista, concordam, no fundo,
pelo fenomenismo – subjetivismo – comum, que
será sistematizado logicamente no pensamento
de kant. Ao mesmo tempo, racionalismo e
empirismo encontrarão uma composição e uma
aplicação prática no iluminismo, que é o
pressuposto lógico da revolução francesa. Dos
dois movimentos especulativos, o racionalismo
(Descartes, Spinoza, Malebranche, Leibniz,
Wolff) é originariamente francês, segundo a
clareza e a logicidade do espírito francês, ao
passo que o empirismo (Bacon, Hobbes, Locke,
Berkeley, Hume) é propriamente inglês,
correspondendo à índole positiva e prática da
mentalidade anglo-saxônica.
3. O Empirismo
O empirismo é o pensamento filosófico
que afirma ser toda a verdade derivada da
experiência.
O iniciador do empirismo é Francisco
Bacon, quando afirma e enaltece a experiência e
o método indutivo, a ponto de a razão e a
transcendência acabarem por desaparecer na
sombra, ainda que, praticamente, continue ele
afirmando-as.
O empirismo é substancialmente
fenomenista como o racionalismo. Mas todo o
nosso conhecimento é reduzido, não à razão, e
sim aos sentidos; estes sentidos, porém, nos
proporcionariam, não a realidade, mas os
fenômenos, as aparências subjetivas das coisas.
Em ordem cronológica, os maiores
representantes do empirismo, todos eles
ingleses, são Bacon, Hobbes, Locke, Berkeley,
Hume.
4. Iluminismo
O século XVIII é conhecido como “a
filosofia das luzes” ou “iluminismo”, ilustração ou
Aufklarung. Como as próprias designações
sugerem, trata-se de otimismo no poder da razão
de reorganizar o mundo humano.
Vimos que, já no renascimento, se
desenrola a luta contra o princípio da autoridade,
e a busca dos próprios poderes humanos,
através dos quais o homem tecerá próprio o seu
destino.
O racionalismo e o empirismo do século
XVII (Descartes, Locke e Hume) dão o substrato
filosófico dessa reflexão: Descartes justifica o
poder da razão de perceber o mundo através de
idéias claras e distintas; Locke valoriza os
sentidos e as experiências na elaboração do
conhecimento; Hume levantou o problema da
exterioridade das relações frente aos termos.
“Filha emancipada do cartesianismo, a filosofia
do iluminismo deve a Descarte – e a
Malebranche – o gosto do raciocínio, a busca da
evidência intelectual e, sobretudo, a audácia de
exercer livremente seu juízo, e de levar a toda
parte o espírito da dúvida metódica”. “Sou, logo
penso” seria de algum modo o cógito do filósofo
iluminista, bem próximo do cógito cartesiano.
Outra influência importante foi o advento
da ciência galileana no século XVII, cujo método
experimental fecundou outros campos de
pesquisa, fazendo nascer novas ciências. Como
essa ciência é aliada da técnica, faz surgir o
modelo de um novo homem construtor, o artífice
do futuro, que não mais se contenta em
contemplar a harmonia da natureza, mas quer
conhecê-la para dominá-la. E é uma natureza
dessacralizada, isto é, desvinculada da religião,
que reaparece em todos os campos de
discussão do homem no século XVII.
A exaltação do poder do homem decorre,
segundo Desné, do fato de que “a segurança do
filósofo é a segurança do burguês, que deve à
sua inteligência ao seu espírito de iniciativa e de
previdência, o lugar que tem na sociedade (...) a
emancipação de uma classe, a burguesia, que
atinge a maioridade”.
Neste momento se dá o fortalecimento do
sistema capitalista como modo de produção
predominante, o que se exemplifica pela
revolução industrial, marcada pelo aparecimento
da máquina a vapor em meados do século XVIII,
e que introduz o processo de mecanização das
indústrias.
Na Inglaterra, os representantes da
ilustração são, sobretudo, Newton e Reid,
herdeiros de Locke e Hume.
Na França, surgem Montesquieu,
Voltaire, Rousseau. O poder de penetração da
ilustração na França se deve, sobretudo, ao
caráter vulgarizador de produção de seus
filósofos, empenhados em “levar as luzes” a
todos os homens. Importante neste processo é a
publicação da enciclopédia, obra imensa, cujos
verbetes são confiados a diversos autores:
Voltaire, D’Alembert, Diderot, Helvetius.
5. O Iluminismo Inglês
O iluminismo nasce na Inglaterra, mas
alcança o pleno desenvolvimento na França.
Pode-se dizer que é uma reação contra o
empirismo.
O iluminismo inglês depende
substancialmente do empirismo inglês,
especialmente de Locke; entretanto, reage
contra as suas conseqüências mecanicista,
naturalista e materialista. As fases principais são
representadas pelo platonismo religioso da
escola de Cambridge; pela religião natural e pela
moral natural; pelo senso comum da escola
escocesa. Os maiores expoentes desta escola
são Tindal, Toland, Collins, Bolingbroke.
A moral iluminista é a moral natural
autônoma; seus maiores expoentes são Clarke,
da corrente intelectualista; Cooper, da corrente
sentimentalista; Norris, da corrente idealista.
6. John Locke (1632-1704)
O filósofo inglês era médico e filho de
uma família burguesa. Tornou-se conhecido pela
contribuição como teórico do liberalismo. Sua
reflexão a respeito da teoria do conhecimento
parte da leitura da obra de Descarte, e consiste
em saber “qual é a essência, qual a origem, qual
o alcance do conhecimento humano”.
Entretanto, na obra “Ensaio sobre o
entendimento humano”, Locke deixa o caminho
“lógico” percorrido por Descartes e escolhe o
“psicológico”. O professor Garcia Morente
explica: “A origem de uma idéia, como a idéia de
esfera, pode ser considerada psicologicamente
ou logicamente. Psicologicamente estudaremos
as sensações, as percepções que puderem
produzir naturalmente, biologicamente, em nós,
a ação de esfera; por exemplo, ter visto objetos
dessa forma, naturais ou artificiais”.
Mas, outro sentido da palavra origem é
esfera, originada pelo movimento de meia
circunferência girando ao redor do diâmetro.
Locke, escolhendo o caminho da
psicologia, distingue duas fontes possíveis para
nossas idéias: A sensação e a reflexão. A
sensação é o resultado da modificação feita na
mente através dos sentidos. A reflexão é a
percepção que a alma tem daquilo que nela
ocorre. Portanto, a reflexão é deduzida apenas à
experiência interna pela experiência externa
produzida pela sensação.
Locke critica as idéias inatas de
Descartes, afirmando que a alma é como uma
tábua rasa (uma tábua onde não há inscrições),
como uma cera onde não houvesse qualquer
impressão; e o conhecimento só começa após a
experiência sensível. Se houvesse idéias inatas,
as crianças já as teriam: além disso, a idéia de
Deus não se encontra em toda parte, pois há
povos sem nenhuma representação de um ser
perfeito.
7. David Hume (1711-1776)
David Hume foi uma mistura estranha,
que até um contemporâneo pensava que parecia
mais um “comedor de carne de tartaruga do que
um filósofo refinado”. Num obituário, que
escreveu para si mesmo, descreveu-se como
“homem de disposição branda, que controla seus
nervos, de disposição mental aberta, sociável e
bem humorado, capaz de tomar afetos, mas
pouco suscetível de inimizade, e de grande
moderação em todas as minhas paixões. Até
mesmo meu amor à fama literária, minha paixão
dominante, nunca chegou a amargar minha
disposição, a despeito das minhas freqüentes
decepções”. Sem dúvida, ele tinha melhores
condições para julgar do que nós no dia de hoje.
Nasceu em Edimburgo, entrou na
universidade daquela cidade com doze anos de
idade, e deixou-a dois a três anos mais tarde.
Desfrutou de uma carreira diversificada, que
incluiu a tutela de um lunático, a posição de
secretário de um general e o cargo de
bibliotecário em Edimburgo. Por algum tempo fez
parte da embaixada britânica na França, e ficou
sendo figura familiar no cenário pariense.
Ao voltar para Londres, trouxe consigo
Jean-Jacques Rousseau, que lhe compensou
com acusações de que estava pretendendo
matá-lo. Comentando Hume de modo geral,
Bertrand Russel observa que a filosofia de Hume
seja verdadeira, seja falsa, representa a falência
da razoabilidade do século XVIII. Subverte todo
o pensamento racional, para ridicularizar outros.
De acordo com as premissas dele, ele não o
direito de dizer que o fogo aquece, nem que a
água refugara. Talvez se trate de uma questão
de crença, mas não da razão. Para quem é
céptico acerca da causalidade, não pode haver
base racional para fazer um pronunciamento
acerca de coisa alguma. David Hume quase
ficou sendo o santo padroeiro dos filósofos
agnósticos contemporâneos.
8. George Berkeley (1685-1753)
Nasceu na Irlanda. Tornou-se membro do
conselho do Trinity College, Dublim, com vinte e
dois anos de idade, e Deão de Derry em 1724.
Quatro anos mais tarde, fez uma tentativa
fracassada de estabelecer um colégio
missionário nas Bermudas para a evangelização
das Américas. Subseqüentemente veio ser a
bispo de Cloyne. Quase toda sua obra filosófica
foi completada até a idade de vinte e oito anos.
É destino de Berkeley ser lembrado
principalmente por levar adiante a abordagem de
Locke. Aceitou a teoria representativa da
percepção, mas deu-lhes um jeito novo.
Concordou que aquilo que realmente percebe
não é o mundo externo das coisas materiais,
mas, sim, idéias ou percepções. A partir daí,
passou a argumentar que coisas existem à
medida que são percebidas. Mas isto não
significa que os objetos simplesmente cessam
de existir quando não há ninguém por perto para
percebê-los. Pois sempre são percebidos pela
mente infinita, Deus.
Assim, com um só acusado de mestre,
Berkeley engenhosamente negara a existência
da matéria e comprovara a existência de Deus.
Era uma novidade, e brilhante.
9. O Iluminismo Francês
A terra clássica do iluminismo é a França.
Aí o iluminismo assume um caráter extremado e
difuso, pelo qual ficará definitivamente
endividado. O aspecto específico do iluminismo
francês é o culto à razão, a deusa razão da
revolução francesa; a razão humana divinizada
deve dominar acima de tudo e de todos, déspota
absoluta. Daí a guerra contra toda atividade e
instituição que não seja meramente racional,
racionalista.
A obra literária fundamentalmente do
iluminismo francês e europeu, em geral, é a
enciclopédia, dirigida por João D’Alembert (1717-
1783) e Denis Diderot (1713-1784). Nela
colaboraram os iluministas mais famosos,
chamados por isso enciclopedistas, entre eles
Voltaire e Rousseau. A figura dominante do
iluminismo francês é Voltaire. Filosoficamente o
iluminismo francês é sensista. Bayle deu-lhe
uma orientação céptica, La Mettrie e D’Holbach
deram-lhe uma orientação francamente
materialista, e Holvetius, atéia e hedonista. Outra
figura singular do iluminismo francês é
Rousseau, suíço de origem, alma romântica e
sentimental.
XI
PENSAMENTO FILOSÓFICO NO PERÍODO
CONTEMPORÂNEO
1. Cristicismo Kantiano
O cristicismo representa a síntese
especulativa do fenomenismo racionalista e
empirista moderno, donde deriva o idealismo
moderno e, em geral, o pensamento
contemporâneo. O fundador do cristicismo é
Immanuel Kant (1724-1804), que vem a ser,
portanto, o centro da filosofia moderna. A
tendência filosófica, que se afirma com Kant,
toma o nome de cristicismo; portanto, tal
tendência filosófica institui uma investigação
preliminar a qualquer outra sobre a possibilidade
da razão; constitui uma crítica radical à
metafísica (racionalista). Kant nasceu em 1724
em Konigsberg (Prússia), onde estudou filosofia,
matemática e teologia na universidade de sua
cidade natal. Foi preceptor junto a algumas
famílias aristocráticas. Em 1755 obteve a livre
docência, e residiu até os últimos dias de sua
vida na cidade onde nasceu, deixando muitas
obras escritas para o enriquecimento da filosofia.
2. Idealismo
O termo “idealismo” é elástico, no seu
sentido mais amplo denota o ponto de vista de
que a mente e os valores espirituais são mais
fundamentais do que os materiais. Como tal
opõe-se ao naturalismo, que explica a mente e
os valores espirituais em termos de objetos e
processos materiais. O termo foi aplicado pela
primeira vez como termo técnico da filosofia no
século XVIII. E dentro em breve ficou sendo
usado para descrever o ensino de Berkeley, de
que não se podia saber que qualquer coisa
existia, e nada existia mesmo, a não ser idéias
da mente das pessoas que percebe. O próprio
Berkeley preferia chamar sua filosofia de
imaterialismo. O termo idealismo, no entanto,
pegou, e logo era aplicado a outras filosofias.
Kant o adotou, e distinguia cuidadosamente seu
próprio ensino que chamava de “idealismo
transcendental” daquele de Descartes e de
Berkeley, que chamava de idealismo
problemático e dogmático. Conforme já vimos,
Kant sustentava que era impossível obter
conhecimento do mundo mediante o
pensamento racional exclusivamente. De outro
lado, acreditava num próprio ser transcendental
e postulava a existência de Deus, da liberdade e
da mortalidade. Para muitos filósofos e teólogos
da geração anterior, o idealismo era a filosofia
moderna.
3. Espiritualismo
Ao lado da corrente idealista – Alemanha
– e da corrente positivista e sensista – França e
Inglaterra – houve também no século XIX um
poderoso movimento espiritualista,
especialmente na França e na Itália, o
positivismo, negador da realidade suprasensível,
e o idealismo, que pressupunha a relatividade do
conhecimento, levaram os espíritos para o
ceticismo, contra o qual se insurgiu a filosofia
espiritualista.
O espiritualismo no século XIX teve dois
rumos diferentes: Alguns filósofos da época
tomaram um rumo mais ou menos racionalista,
aproximando-se, aos poucos, da filosofia
clássica tradicional, são os ecléticos; outros
pensadores fizeram tentativas originais com êxito
mais ou menos efêmero para construir uma
filosofia cristã, são os tradicionalistas e os
ontologistas. Mais tarde houve a floração da
corrente neo-escolástica.
4. O Positivismo
A revolução industrial no século XVIII,
expressão do poder da burguesia em expansão,
demonstrou a eficácia do novo saber,
inaugurado pela ciência moderna no século
anterior. Ciência e técnica tornam-se aliadas,
provocando modificações no ambiente humano
jamais suspeitadas. Basta lembrar que, antes do
advento da máquina a vapor, usava-se a energia
natural (força humana, das águas, dos ventos,
dos animais). E, por mais que houvesse
diferenças de técnicas adotadas pelos diversos
povos através dos tempos, nunca houve
alterações tão cruciais como as que decorreram
da revolução industrial.
A exaltação diante desse novo saber e
novo poder leva à concepção do “cientificismo”,
segundo o qual a ciência é considerada o único
conhecimento possível, e o método das ciências
da natureza o único válido; devendo, portanto,
ser estendido a todos os campos da indagação e
atividades humanas. Nesse clima, desenvolve-se
no séc. XIX o pensamento positivista, que tem
Auguste Comte (1798-1857) como principal
representante.
O positivismo retoma, portanto, linha
desenvolvida pelo empirismo do séc. XVII.
Segue na esteira daqueles que aproveitaram a
crítica feita por kant à metafísica, no século
XVIII. Leva às últimas conseqüências o papel
reservado à razão de descobrir as relações
constantes e necessárias entre os fenômenos,
ou seja, as leis invariáveis que os regem. Deriva
daí o determinismo, no qual o reino da ciência é
o reino da necessidade. Aqui o conceito de
necessidade significa o que tem de ser e não
pode deixar de ser; nesse sentido, “necessário”
opõe-se a contingente. No mundo da
necessidade não há lugar para a liberdade.
Expulsos os mitos, a religião, as crenças
em geral e a metafísica, que papel é reservado à
filosofia? Cabe a ela a mera sistematização das
ciências, a generalização dos mais importantes
resultados da física, da química, da história
natural. Segundo Garcia Morente, o positivismo
é o suicídio da filosofia...
5. O Existencialismo
O existencialismo sofre influências de
Husserl, Jaspers e Sheler, chegando até as
obras de KierKegard (1813-1855), filósofo
dinamarquês que lançou contra filosofia
especulativa apondo-lhe a filosofia existencial na
nova atitude, o filósofo de “carne e osso” se
inclui a si mesmo no pensar, que até então se
propunha objetivo e distanciado do vivido.
Outro filósofo do existencialismo é Jean-
Paul Sartre (1905-1980), escreveu o “Ser e o
Nada”, sua principal obra filosófica, em 1943.
Mas em 1938 já havia publicado o romance “a
náusea”. Seu pensamento é muito conhecido, e
gerou, inclusive, uma “moda existencialista”,
também pelo fato de ter ser tornado famoso
romancista e teatrólogo.
Sua produção intelectual foi fortemente
marcada pela 2a Guerra Mundial e pela
ocupação nazista na França. Podemos dizer que
há um Sartre de antes da guerra e outro do pós-
guerra, tal foi o impacto da resistência francesa
sobre sua política de engajamento.
Sartre pertence à ala dos filósofos
existencialistas ateus, entre os quais se inclui
Merleau-Ponty; na ala cristã, está Gabriel
Marcel. “A existência precede a essência”, eis a
frase fundamental do existencialismo. Para
melhor compreendermos o significado dela é
preciso rever o que quer dizer “essência”. A
essência é o que faz com que uma coisa seja o
que é, e não outra coisa. No famoso texto “O
existencialismo é um humanismo”, Sartre usa
como exemplo um objeto qualquer fabricado,
como um livro ou uma espátula de cortar papel.
Quando um fabricante faz alguma coisa,
tem antes em mente o ser do objeto que será
fabricado. Da mesma forma, uma pessoa que
crê em Deus supõe que ele seja o artífice
superior e criou o homem segundo um modelo,
tal qual o artesão faz qualquer objeto. Daí deriva
a noção de que o homem teria uma natureza
humana encontrada igualmente em todos os
homens. Portanto, segundo essa concepção, “a
essência do homem precede a existência”.
6. Marxismo – Leninismo
Karl Marx (1818-1883) nasceu em Trevis,
na Alemanha; estudou direito, mas foi para
Berlim estudar filosofia e história. Finalmente
recebeu o doutorado por estudo acerca dos
filósofos gregos antigos.
O marxismo preconiza a organização da
sociedade pós-mercantil, que rejeita o capital e o
mercado e suprime a prosperidade privada dos
meios de produção. Na fase transitória de
superação do capitalismo, o socialismo deveria
passar pela ditadura do proletariado, ocasião em
que o estado exerce uma força centralizadora
que diminuiria com o tempo até sua total
extinção. Os teóricos, são de Marx e Engels, no
início do século XX, o farão também um
revolucionário, líder dos bolcheviques. Tomou o
poder em outubro de 1917 na Rússia, e a
transformou na União Soviética, com a
supressão da propriedade privada dos meios de
produção, planificação e economia, reformas
agrárias, nacionalização dos bancos e fábricas
etc. A doutrina oficial é o marxismo, confirmada
pela terceira internacional leninismo.
Lênin, e depois Stálin, elaborava o marxismo
– leninismo, que se tornou a ideologia oficial do
partido único (URSS), e de todos os partidos
europeus que aspiravam a revolução. No
entanto, a situação histórica dos diversos países
exigia dos intelectuais um esforço da adaptação
e correção da teoria marxista, de modo que
nunca foi tranqüilamente aceita a chamada
“ideologia oficial”.
Com o fechamento do regime na era
Stalinista, a perseguição aos defensores de
teorias ortodoxas costumava culminar com a
eliminação dos dissidentes, tal como ocorreu
com Bukhárim e Trótski.
7. Pragmatismo
Neste estudo concentramos nossa
atenção nas tendências filosóficas da Europa.
Devemos, no entanto, fazer alguma alusão a um
movimento que teve sua origem na América do
Norte na Segunda metade do século XIX, e que
continuou a dominar a filosofia norte-americana
até a década de 1930. O termo “pragmatismo” é
derivado da palavra grega pragmata, que
significa “atos”, “negócios”, “assuntos”. Veio a
ser associado com lemas tais como “a verdade é
aquilo que funciona”, “o verdadeiro é o que é
oportuno” e “a fé num fato ajuda a criar o fato”.
Como termo técnico filosófico, a palavra
foi cunhada por Charles Sanders Peirce (1839-
1914). Denotava uma tentativa no sentido de
elaborar uma teoria de significado, que em
conceito, ou seja, o propósito racional de uma
palavra ou outra expressão, acha-se
exclusivamente na influência que possa
concebivelmente ter sobre a conduta na vida.
Esta idéia leva à noção de que o único teste da
verdade são suas conseqüências práticas. A
verdade, portanto, é relativa. Quando aplicado à
religião, este teste significa que uma religião, ou
qualquer aspecto dela, não deve ser avaliada por
si mesma, mas, sim, estimada somente por seus
efeitos psicológicos e imorais.
O pragmatismo foi desenvolvido em
direções diferentes por William James (1842-
1910), John Dewey (1859-1952) e outros. Teve
alguma influência nos católicos liberais tais como
G. Tirrell, Barão Von Hugel na virada do século.
Os pragmatistas tinham razão quando
chamaram a atenção para o fato de que não
podemos entender um conceito sem considerar
suas conseqüências e relacionamentos com
outros conceitos. Não basta anotar o significado
de uma palavra conforme é dado num dicionário.
Devemos estudar, também, como é usada em
outro determinado contexto. Ao dizerem assim,
os pragmatistas estavam antecipando os
filósofos lingüísticos do séc. XX. Além disto,
William James estava chamando a atenção a um
aspecto importante da crença: nunca é questão
de escolha cega. A fé cristã depende de uma
percepção interior de Deus, que existe antes de
qualquer decisão a ser tomada, mas que se
aprofunda à medida que a pessoa progride em
seguir a Cristo. E, se a experiência, a história ou
a ciência fossem demonstrar que a explicação
cristã da existência está errada, a tonalidade do
conceito cristão de Deus teria que ser alijada.
William James argumenta que “se a
hipótese de Deus funciona satisfatoriamente no
sentido mais amplo da palavra, é verídica”. Em
The Will to Believe (1898) propôs a doutrina do
voluntarismo, ou seja: em certas condições, a
verdade. Há tantos casos na vida em que os
prós e os contras não podem ser aquilatados em
bases puramente intelectuais. Refrear-se de
tomar uma decisão é, na realidade, fazer uma
decisão. Devemos escolher, portanto, tomando
nossa vida em nossas próprias mãos.
8. O Institucionismo
O institucionismo é uma corrente filosófica
caracteristicamente francesa. Tem como
expoente máximo Henrique Bergson (1859-
1941), cuja idéia principal é a evolução criadora
que afirma que o genuíno conhecimento não
está nos conceitos abstratos do intelecto
(inteligência), mas na apreensão imediata, isto é,
na intuição, como resulta da experiência do
interior.
9. O Modernismo
Maurice Blondel (1861-1949) é o maior
expoente e o chefe espiritual do modernismo
filosófico. Expõe o seu pensamento em sua obra
A ação, que é a obra fundamental de toda a sua
filosofia. Blondel declara que não é possível
deixar de se considerar o problema da vida,
porquanto esse problema nos interessa
diretamente; nem é possível dar-lhe uma solução
negativa, pois toda a solução, assim chamada
negativa, implica numa positividade. O elemento
primeiro, elementar, fundamental, do qual ele
parte para resolver esse problema, é a ação
humana; esta implicaria uma volição ao infinito, a
qual não fica satisfeita senão atingindo um objeto
adequado, isto é, infinito. Este deveria ser o
Deus do cristianismo.
Por modernismo entende-se um vasto
movimento heretical do começo do século XX,
tendo na França o seu centro principal. O
modernismo visava a síntese entre o cristianismo
e o pensamento moderno; síntese
evidentemente impossível se considerar o
caráter essencialmente transcendente e ascético
do cristianismo, e o caráter essencialmente
imanentista e humanista do pensamento
moderno.
10. A Fenomenologia
É o estudo dos fenômenos. Este estudo é
concebido de maneira diferente por kant (1724-
1804), Hegel (1770-1831) e Husserl (1859-
1938), graças à sua diferente maneira de
conceber o fenômeno. Foi Husserl quem fez uma
exposição sistemática e rigorosa do método
fenomenológico com a introdução dos princípios
da epoché, da redução eidética e da redução
transcendental. O primeiro postula a colocação
entre parênteses de todo o conhecimento prévio
em torno do fenômeno estudado; o segundo
exige que se estude o objeto enquanto
conhecido (enquanto idéia); o terceiro prescreve
que se reconduza o fenômeno e a idéia à
consciência como fonte última de toda
intencionalidade. Aplicando o princípio da
epochê e o da redução eidética, “afirmamos e
fixamos numa ideação adequada as essências
puras que nos interessam. Os fatos singulares e
o caráter fictício do mundo natural desaparecem
do nosso olhar teorético, como sempre, quando
realizamos uma pesquisa eidética” (Husserl).
XII
EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA FILOSOFIA NO
BRASIL
A filosofia no Brasil não é originalmente
do pensamento filosófico brasileiro, mas é
imitação das correntes filosóficas européias.
Na evolução histórica do pensamento
brasileiro encontramos: as filosofias
espiritualistas das origens: Francisco de
Mont’Alverne (1748-1858), Manuel Maria de
Morais e Vale (1824-1886), Eduardo Ferreira
França (1809-1857), Domingos José Gonçalves
de Magalhães (1811-1882); as escolas
positivistas com Miguel Lemos (1854-1917);
Teixeira Mendes (1855-1927); Luís Pereira
Barreto (1840-1922); materialistas, José de
Araújo Ribeiro (1800-1879), Guedes Cabral
(1852-1883), e evolucionistas, Tobias Barreto
(1833-1889), Sílvio Romero (1851-1914), Estelita
Tapajoz ; a filosofia do espírito de Farias Brito; a
poderosa renascença da filosofia racional ou
neo-tomista, Jackson de Figueiredo e Alceu
Amoroso Lima; outras correntes menores na
atualidade.
No entanto, quem contribuiu
decididamente para a vitória da filosofia racional
no Brasil foi o Padre Leonel França (1893-1948);
ele escreveu Noções de história da filosofia; O
divórcio; A psicologia da fé; A Crise do Mundo
Moderno. Filósofo e teólogo profundo,
conhecedor da filosofia antiga, medieval e
moderna, filosofia da imanência, materialista e
idealista, ele defende a necessidade da
reconstrução neotomista, que se propõe
defender o valor objetivo das ciências, a razão
humana como meio supremo de conhecimento,
e reivindica a validade da filosofia clássica,
rejuvenescida pelo moderno neotomismo, cujo
papel é levar a efeito a harmonização entre a
filosofia e a ciência.
XIII
O PENSAMENTO FILOSÓFICO NO BRASIL
Todo grande povo tem a legítima ambição de
ser o autor da sua civilização. Abordam, por isso,
os pensadores brasileiros a questão da
existência de uma filosofia brasileira. Há quem
sustente que não existe uma filosofia brasileira,
houve até quem negasse à América Latina
disposições filosóficas.
Sem lisonjear as nossas ambições
nacionalistas, podemos afirmar que existe um
pensamento filosóifico brasileiro, ainda que
imperfeito. Isto é demonstrado pela nossa
história da filosofia, cuja existência ninguém
pode negar. Não quer isto dizer que seja a
filosofia brasileira inteiramente original ou possa
competir com as grandes construções
especulativas do Velho Mundo, o que
evidentemente, não é possível.
Deve-se, antes de mais nada, considerar que
somos um povo novo em comparação com as
quase bimilenárias nações européias. Ora como
é demonstrado pela história, as grandes e
originais sínteses filosóficas só aparecem depois
de longa investigação especulativa. Buda,
Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, Kant foram
o resultado de vasta especulação anterior. Nós,
povos das Américas, “somos na nossa maior
parte descendentes dos humildes que sofriam na
Europa, vimos, quase todas, da aventura que os
levou a procurar, no Novo Mundo, uma vida
nova”. As primeiras preocupações das novas
geracoes americanas e, portanto, também da
brasileira, foram necessariamente e ordem
material: dominar a natureza selvagem do
mundo que Cristóvão Colombo descobriu. Antes
existe e depois filosofar. A tendência para o
domínio do mundo material ficou como que uma
característica das grandes civilizações
americanas, que parecem, digamos assim, mais
materialistas e menos filosóficos que as
européias. Tanto assim que a própria filosofia da
América do Norte, cujo progresso material é
indiscutível , não pode, apesar dos esforços
realizados nestes últimos tempos, competir com
a filosofia européia. As correntes imigratórias
que povoaram as Américas e o Brasil foram, em
grande parte, européias: ingleses, espanhóis,
portugueses, italianos, franceses, alemães Não
é possível admitir que esses povos,enraizados
no novo continente tenham perdido a capacidade
especulativa. Assim é que o Brasil, também o
campo filosófico, tem feito notáveis progressos,
que justificam as palavras clarividentes de Alceu
Amoroso Lima: “Estou mesmo convencido de
que a primeira vez que tentarem a organização
de cursos de filosofia sistemática, para o grande
público, o êxito será surpreendente”.
O progresso de uma ciência, porem,
pressupõe o conhecimento do estado em que ela
se acha. Eis por que julgamos ser o estudo da
historia da filosofia de grande utilidade para as
grandes sínteses filosóficas do poder. É
certamente neste sentido que o Primeiro
Congresso Brasileiro de Filosofia recomendou o
estudo o estudo das filosofias estrangeiras.
Achamos, pois, convincente e justo, apreciar
os esforços, embora deficientes, dos que
lançaram as bases históricas do pensamento
filosófico brasileiro. Fizeram eles no campo
dessa disciplina do espírito o que fizeram os
primeiros bandeirantes desbravando as matas
virgens e os sertões abrasados por onde se
espalha hoje em dia uma civilização cada vez
mais poderosa e esplendida. Isto não quer dizer
que a crítica racional, justa e imparcial, recuse e
efetue obras e doutrinas que, à luz da evidência,
se demonstram erradas e imprestáveis, pois é
essa uma exigência imprescindível do progresso
filosófico.
A história da nossa filosofia apresenta já um
número notável de filósofos, se bem que o valor
teorético de seu pensamento se manifeste
cientificamente deficiente. “O erudito Padre
Leonel Franca, escreve João Cruz costa, com
louvável espírito patriótico, conseguiu encher
113 páginas da última edição do seu livro, com
nomes, biografias e sistemas de filósofos
nacionais. E pensadores estrangeiros já
dedicaram as obras inteiras ao pensamento
filosófico no Brasil”.
Examinaremos em primeiro lugar, as
correntes filosóficas espiritualistas das origens;
segundo lugar, areação, demasiadamente
enérgica e um tanto revolucionaria dos filósofos
positivistas, materialistas, evolucionistas.
Demorar-nos-emos particularmente sobre o
pensamento de Raimundo de Farias Brito, por
ser sua obra a de maior fôlego publicada entre
nós, como já reconhecera Sílvio Romero em
1909. Lugar de destaque merece a poderosa
renascença da filosofia clássica, cujo maior
expoente é Leonel Franca. Enfim,
mencionaremos as outras correntes de
pensamentos que demonstram certa vitalidade
nestes últimos tempos.
1. Filósofos Espiritualistas
Não se pode falar de uma filosofia dos índios
brasileiros, inexistente como sistematização
orgânica e científica de doutrinas, nem de uma
filosofia da raça preta da procedência africana.
Por isso, é forçoso começar pelas primeiras
tentativas realizadas pelos imigrantes europeus
ou seus descendentes brasileiros.
Sendo, no começo, a civilização brasileira a
dos imigrantes do Velho Mundo, também os
nossos primeiros filosóficos viveram todos, como
salienta Leonel Franca, o crítico da filosofia
brasileira, a reboque de doutrinas estranhas.A
filosofia do Brasil, acentua por sua paquetes da
linha da Europa. Eis por que as origens da nossa
filosofia reproduziram as correntes especulativas
que iam sucessivamente dominando o campo
filosófico de além-mar.
Quem se ocupou primeiro, no Brasil, de
obras de assunto filosófico, foi Francisco de
Monte Alverne. Nasceu no Rio de Janeiro em
1784 e pertencia a uma modesta família. Antes
de professar na Ordem Franciscana chamava-se
Francisco José de Carvalho. Entrou no convento
de Santo Antonio no Rio e destacou-se entre os
homens cultos do seu tempo como professor de
filosofia e teologia em São Paulo e no Rio.
Gozou de grande fama como orador, sendo
nomeado pregador régio em 1816. Cego desde
1837, O filósofo orador subiu ao pubibito mais
uma vez em 1854, a pedido do imperador Dom
Pedro II que desejava ouvi-lo, e pronunciou o
célebre panegírico de São Pedro de Alcântara.
Faleceu em Niterói, quatro anos depois, em
1858.
Quer como filósofo, quer como orador,
manifestou Monte Alverne bastante vaidade. A
única obra de filosofia que nos legou é o
compêndio de Filosofia, escrito em 1833, mas
publicada no Rio um ano após sua morte. No
pensamento do filósofo franciscano nota-se a
influência de Condilac e de Cousin. No começo
tentou conciliar as teses do espiritualismo cristão
com as doutrinas sensista então dominantes.
Apercebeu-se Monte Alverne de que era
empresa impossível, e, por isso, saudou com
entusiasmo a chegada da filosofia eclética
francesa, que pretendia restaurar o
espiritualismo cristão pelo ecletismo, chamou
Cousin um gênio nascido para revelar prodígios
da razão humana. A passagem da filosofia
sensualista para o ecletismo espiritualista foi um
progresso. Nesta evolução cifra-se toda a
história do pensamento de Monte Alverne.
Educado na escola sensualista de Condilac,
deixou-se mais tarde por Cousin, tornando-se
assim mais espiritualista, sem conseguir, porém,
desembaraçar-se de todo das antigas teorias.
Não simpatizou com a filosofia escolástica,
chamando-a de filosofia bárbara, demonstrando,
porem, não a conhecer suficientemente. Silvio
Romero julgou com severa ironia Monte Alverne:
A figura do celebre brasileiro torna-se tão
pequena (através do compêndio) que quase nos
escapa das mãos. Jônatas Serrano diz: Quase
não Vale a pena citar Mont’Alverne entre
filósofos. Apesar das críticas severas que Leonel
Franca faz a Mont’Alverne é justa e merecida
esta sua apreciação: “... nos domínios da
filosofia, o ilustre franciscano exerceu, entre nós,
salutar influencia. O prestígio seu nome, a forca
do dizer e, sobretudo, a ação direta do seu
magistério despertaram entre os jovens da nova
geração o amor dos estudos especulativos e o
entusiasmo pelas idéias elevadas do
espiritualismo”.
A importância de Mont’Alverne é mais
histórica do que teórica.
Adepto do sensualismo e do ecletismo da
época é Manuel Maria de Morais e Vale (1824-
1886). Nasceu no Rio de Janeiro, onde lecionou
e foi diretor da Faculdade de Medicina. Publicou
em dois volumes um Compêndio de Filosofia
(1851), cuja finalidade principal era facilitar os
exames aos alunos que deviam ingressar nas
faculdades. O autor não expõe nenhuma idéia
nova e seu pensamento inspira-se no
sensualimismo e no ecletismo. Franca é muito
severo em apreciar o compêndio: Não merece
ser lido, sem por curiosidade. Perde-se tempo.
Dedicou-se especialmente aos problemas
psicológicos o médico baiano Eduardo Ferreira
França (1809-1857). Nasceu na Bahia, formou-
se pela Faculdade de Medicina em Paris e foi
professor na faculdade de medicina do seu
Estado natal. Na sua tese de doutorado – Essai
sur l’influence dês aliments et dês boissons sur
lê moral de l’homme, Paris, 1834 – defendeu as
idéias materialistas de Gabanis. No entanto, o
pensamento de Maine de Biran, Royer-Collard,
Galluppi, Reid e Cousin o converteram, em
seguida, ao espiritualismo, ficando, todavia, bem
inferior aos seus mestres.
Sua obra principal é: Investigações de
psicologia (1854), em dois volumes. No seu
estudo estende-se o Autor em análises
psicológicas, por vezes finais e engenhosas,
mas geralmente destituídos de sólidos
fundamentos metafísicos... O estilo da obra é, m
geral, claro e corrente, apesar de algum tanto
derramado.
Sofreram a influência do idealismo e do
ontologismo italiano Gonçalves de Magalhães,
Gregório Lipparoni, Patrício Muniz.
Domingos José Gonçalves de Magalhães
(1811-1882), Visconde de Araguaia, nasce no
Rio de Janeiro. Foi aluno do seminário São José
e formou-se em medicina pela Faculdade de
Coimbra. Professor de filosofia no colégio Dom
Pedro II, trocou a cátedra pela carreira
diplomática, desempenhando papel notável junto
à Santa Sé como ministro plenipotenciário do
Brasil. Tratou diretamente com o Pio IX a
momentosa questão religiosa. Faleceu em
Roma.
Suas obras principais são: Fatos do Espírito
Humano (1858), escrito em Nápoles e publicado
em Paris: a Alma e o Cérebro (1876); as
conhecidas teorias frenologicas de Gall. A sua
obra principal é Fatos do Espírito Humano, em
que se encontram, sucessivamente, as doutrinas
do ecletismo francês, do idealismo e do
ontologismo italiano. Durante suas estadas na
Itália teve certamente a oportunidade de
conhecer o ontologismo, escreve Jônatas
serrano, prestou um bom serviço refutando o
materialismo e de modo particular o sensualismo
de Condilac.
De Gregório Lipparomi (segunda metade do
século XIX) sacerdote italiano brasileiro, sabe-se
que lecionou filosofia no Seminário de
Pernambuco e, em seguida, italiano no Colégio
Dom Pedro II no Rio de Janeiro. Propagou entre
nós a filosofia rosminiana lecionando e
publicando A Filosofia, conforme a mente de S.
Tomás d’Aquino, exposta por Antonio Rosmini
em harmonia com a ciência e com a religião
(1880).
Patrício Muniz (1820-1871), também
sacerdote católico, nasceu em Funchal, na ilha
da Madeira. Depois de ter estudado em Paris e
Roma, ainda jovem veio para o Brasil onde se
naturalizou e ficou até à morte. No “Ateneu
Fluminense” do Rio de Janeiro foi professor de
retórica e poético de Sílvio Romero que guardou
do mestre “saudosas reminiscências”, tendo
influído “assaz no meu pensamento” e fazendo-o
“divisar, ao longe, os sistemas filosóficos”.
Em 1863 publicou a Teoria da Afirmação
Pura, cuja finalidade era combater o ponteismo
transcendental alemão e o ecletismo francês
mediante uma escolástica, digamos assim,
progressista. Mas a obra de Patrício Muniz é um
documento da sua miserável confusão filosófica.
É absolutamente impossível entender e expor o
pensamento de Muniz. Sílvio Romero e Leonel
Franca fizeram uma crítica arrasadora do autor
da Teoria da Afirmação Pura.
Entre os filósofos escolásticos encontramos
D. José Afonso de Morais Torres, Soriano de
Sousa, Vicente Gândido Figueiredo de Sabóia.
J. A de Morais Torres (1805-1865) nasceu no
Rio de Janeiro e foi bispo do Pará. Publicou um
Compendido de filosofia Racional (1852) em dois
pequenos volumes, pretendendo expor
resumidamente uma doutrina pura e expur’gada
do ecletismo “. A Obra tem escasso valor e foi
extraída das Institutiones logicae et metaphiscae
do Jesuíta Sigismundo Storchenau, publicadas
em Viena no Século XVIII”.
José Soriano de Sousa (1833-1895) nasceu
na Paraíba, formou-se em medicina no Rio de
Janeiro e em filosofia em Lovaina. Lecionou
direito no Ginásio do Recife tendo conquistado
em concurso a cadeira que também Tobias
Barreto pretendia. Teve, outrossim, notável
atuação política sendo eleito deputado por
Pernambuco de 1886 a 1889.
Publicou: Princípios Sociais e Políticos de S.
Agostinho (1886); Princípios Sociais e Políticos
de S. Tomás d’Aquino (1886); Compêndio de
Filosofia (1867); Lições de Filosofia Elementar
Racional e Moral (1867); Considerações sobre a
Igreja e o Estado (1874); Elementos de Filosofia
do Direito (1880).
Soriano de Sousa não é um tomista original,
mas demonstrou conhecer bem o pensamento
escolástico e a filosofia espiritualista da sua
época.
Leonel Franca defende o filósofo paraibano
contra as críticas injustas de Sílvio Romero.
Soriano, diz o crítico da filosofia brasileira,
consagrou o magistério e a pena à divulgação da
escolástica rejuvenescida. Seus escritos não são
trabalhos originais... Escolheu, porém, com
acerto entre os escolásticos modernos os que
melhor interpretaram o pensamento antigo e
mais contribuíram para a sua reabilitação.
Vicente Cândido Figueiredo de Sabóia (1835-
1909), ilustre professor na Faculdade de
Medicina no Rio de Janeiro, foi julgado maior
cirurgião da sua época no Brasil. Estudou as
questões filosóficas especialmente em relação
com a sua atividade profissional. Depois de
aposentado, dedicou o seu tempo à filosofia,
escrevendo A Vida Psíquica do Homem (1903).
O Visconde Sabóia demonstra nessa obra
como as escolas materialistas, quaisquer que
seja a feição, não resolvem os grandes
problemas do espírito humano mais
cientificamente do que a filosofia espiritualista
tradicional. Bom conhecedor dos melhores
filósofos de sua época e das doutrinas
materialistas que ele combate percorre todos os
pontos controversos, o patrimônio mais precioso
da razão humana. São, porém, os problemas de
psicologia racional os que mais o atraem. A Vida
Psíquica do Homem, apesar de não ser obra
feita propriamente do ponto de vista escolástico,
merece um dos primeiros lugares na galeria das
obras filosóficas brasileiras.
2. Positivistas, Materialistas e
Evolucionistas.
Filósofos Positivistas
Noutra parte desta história da filosofia já se
falou demoradamente sobre o positivismo, o
materialismo e o evolucionismo, expondo as
linhas fundamentais desses sistemas. Nem é
possível, devido à natureza desta obra, examinar
pormenorizadamente a influência que o
positivismo exerceu sobre a cultura e a cultura e
a política brasileira. Limitar-nos-emos a falar dos
maiores representantes do positivismo entre nós,
deixando de lado as desavenças dos nossos
positivistas no campo cultural e político.
Salientamos, entretanto, que também no Brasil,
como na França, o positivismo teve duas
correntes antagônicas, as ortodoxa e a
dissidente. A primeiro aceitou o positivismo de
Comte na íntegra; a segunda só admitiu da
doutrina do mestre a parte filosófica, recusando
a político-religiosa.
Em qualquer parte do mundo civilizado,
escreveu recentemente Euríalo Ganabrava,
poderia parecer absurda ou extemporânea a
ativa preocupação com o Positivismo. A filosofia
de augusto Comte já está definitivamente
superada, tornando-se uma espécie de relíquia
histórica abandonada no vasto museu do
pensamento especulativo que pertence
integralmente ao passo. No Brasil, porém, tudo
que diz respeito ao Positivismo, interessa a um
círculo bastante considerável de idolatras do
criador do culto da humanidade. Ainda subsiste,
entre nós, em reduzido grupo de primários e de
pessoas pouco informadas a respeito do
movimento de idéias, a ingênua convicção de
que filosofia é sinônimo de Positivismo.
Benjamim Constant (1833-1891) foi um dos
fundadores da Sociedade Positivistas (1876).
Matemático, professor, homem político de
grande projeção cujo nome está ligado para
sempre à proclamação da República em 1889,
não escreveu nenhuma obra de filosofia
positivista e Teixeira Mendes diz que foi um
positivista incompleto. Benjamin Constant foi um
positivista de ação e neste sentido contribuiu
grandemente para a difusão do positivismo. Não
tendo deixado obras escritas ‘’é muito difícil
avaliar e criticar a sua contribuição teórica à
filosofia positivista brasileira.
Miguel Lemos (1854-1917), natural de
Niterói, dedicou a vida inteira ao apostolado
positivista no Brasil. Por causa de um violento
artigo contra o Visconde do Rio Branco, então
diretor da Escola Politinética, Lemos foi expulso
da mesma em 1877 e seguiu para Paris,
fazendo, nessa cidade, juramento ao tumulo de
Comte, de dedicar a vida à pregação positivista.
Em 1880 recebia a Lafitte, sucessor de Comte
no pontificado supremo da Humanidade, o
sacramento da Destinação, como aspirante ao
sacerdócio da Humanidade. De volta ao Brasil
no ano seguinte, transformou a Sociedade
Positivista em Apostolado Positivista, rompendo,
em seguida com Lafitte a quem chamou de
impostor e sofista. Deixada à chefia do
apostolado positivista a Teixeira Mendes em
1903, Lemos, já doente, viveu longe de todo
bulício da vida, falecendo em Pretópolis.
Escreveu entre outras obras: Pequenos
Ensaios Positivistas (1877); Nossa Iniciação No
Positivismo (1889); Epítome da Vida e dos
Escritos de Augusto Comte (1898).
Tinha tudo para ser um perfeito chefe de
movimento religioso, escreve João Camilo de
Oliveira Torres. Em outras circunstâncias talvez
fosse um fundador de ordem religiosa bem
apreciável... Nunca foi um intelectual ou um
místico como Teixeira Mendes... O lado social e
de organização interessava-lhe mais do que a
teologia ou o culto.
Entre os positivistas menores a figura de
mais destaque e a de Luis Pereira Barreto (1840-
1922), pertencente ao assim chamado grupo
dissidente. Nasceu em Rezende, estudou em
Bruxelas e, de volta ao Brasil, dedicou-se à
medicina, às atividades rurais, ao jornalismo e à
filosofia.
Outros positivistas menores foram: Silva
Jardim (1860-1891) nascido em Capivai e
tragado pelo Vesúvio na Itália, Júlio de Castilho,
Aníbal Falcão, Davi Carneiro, Augusto e João
Perneta, este ultimo autor de Os dois Apóstolos,
biografia de Mendes Lemos.
Filósofos Materialistas
Entre os filósofos materialistas encontramos:
José de Araújo Ribeiro e Domingos Guedes
Cabral.
José de Araújo Ribeiro (1800-1879),
Visconde do Rio Grande, nasceu em Porto
Alegre, estudou em Coimbra, foi diplomata e
faleceu no Rio de Janeiro, como senador do
Império.
Escreveu: O fim da Criação ou A Natureza
Interpretada pelo Senso Comum (1875). Foi
publicada sem nome do autor, mas ninguém
duvidou que fosse o Visconde do Rio Grande. O
seu trabalho interessa mais aos naturalistas do
que aos filósofos.
O objetivo que se propõe o autor é mostrar
que a terra é dotada de uma vida própria e se
nutre como os indivíduos organizados. Para esse
fim julga suficiente demonstrar que o nosso
planeta cresce por um fenômeno de nutrição.
Não somente o mundo material, vegetal e
sensível contribui fatalmente para a finalidade da
criação, isto é, para o crescimento da terra, mas
também o mundo inteligente – o homem. O fim
para o qual a natureza dotou o animal de
inteligência foi para fazer dele mais vigoroso
instrumento de condensação dos fluidos aéreos,
missão que ele preenche admiravelmente... Pelo
que respeita à espécie humana, também, os
seus indivíduos nascem e crescem para
morrerem e engrossarem as camadas de
terrenos quaternários.
Outro materialista Domingos Guedes Cabral
(1852-1883), natural da Bahia, formado em
medicina pela Faculdade de sua cidade natal.
Publicou: Função do Cérebro (1876). Era a
sua tese de doutorando apresentada à
Faculdade, mas por ela rejeitada antes mesmo
de ser defendida, o que sucitou os protestos do
autor. Guedes Cabral pretendia provar que o
pensamento se explica mecanicamente: é
simples forma de movimento e o homem é
apenas um macaco aperfeiçoado. Para o médico
baiano não se sabe o que é livre arbítrio, e as
leis morais são puras convenções sociais; o
homem não passa de um macaco aperfeiçoado
e tem como irmãos... 1o, os catarrinianos; 2o, os
platirrinianos; 3o, os artopitecos; 4o, os
lemurianos. Sílvio Romero diz que a obra de
Guedes Cabral foi um brado da ciência
emancipada ecoado no recinto de uma das
nossas tristes academias de medicina. Bem
diferente é o juízo de Leonel franca. Depois de
criar as próprias palavras do autor e critica-las
rigorosamente, concluir com algumas linhas
severas que se devem subscrever: Tudo isto é
imperdoável mesmo num doutorando de
medicina que se arvora em filósofo materialista.
Não! não convinha protestar. Lida a tese de
Guedes Cabral, não podemos deixar de
subscrever o ato da Faculdade que a rejeitou.
Não foi atentado contra a liberdade do
pensamento foi zelo da sua dignidade. Livros
assim não merecem vir à luz.
Filósofos Evolucionistas
Simpatizaram com o positivismo, mas
enveredarm pela senda do monismo
evolucionista, por não terem tido a ousadia de
abraçar abertamente o materialismo, Tobias
Barreto e Sílvio Romero, pálidos satélites de
Spencer, como os chamou, numa feliz
expressão, Luiz Washington. Defendeu também
o monismo evolucionista, Estelita Tapajoz.
Tobias Barreto de Menezes nasceu em
Campos, pequena vila de Sergipe, em 19839.
Seu pai era escrivão de órfãos, mestiço, tipo
folgazão e liberal-jacobino. Sua mãe exerceu
notável influência cristã sobre o filho, que depois
de uma vida praticamente atéia e boemia,
morreu assistido por um padre e reconciliado
com a Igreja. Em estância, studou latim com
Domingos Quirino, futuro bispo de Goiás. Tobias,
em 1861, foi para a Bahia eentrou no seminário,
mas logo desistiu. Na capital baiana freqüentou
as aulas de filosofia do célebre Frei Itaparica. Em
1864 matriculou-se na Faqculdade de
Pernambuco onde se bacharelou e estudou
alemão. Depois de alguns anos muitos tristes em
que pensou até no suicídio, retirou-separa a
Escada onde exerceu advocacia e continuou a
estudar alemão, até que, amargurado e
desgostoso também com os habitantes daquela
cidade do interior, mudou-se para o Recife. Sua
mudança para o Recife, a entrada para a
congregação da Faculdade colocam-no
integralmente na esfera de sus preferências, no
campo das idéias filosofcas, das idéias gerais.
No entanto, Tobias Barreto não se deu bem no
Recife.
No pensamento de Tobias Barretos não se
encontram doutrinas verdadeiramente originais.
O que ele disse a respeito de Deus, do homem,
da religião, da alma, do direito natural já se
encontra nos famosos fundadores europeus do
materialismo e do monismo evolucionista. O seu
temperameto irrequieto e polêmico não lhe
prmitiu analisar orgânica e profndamente
questão alguma, e suas obras são mais o
resultado de teses, artigos, polêmicas, opúsculos
reunidos em volumes do que investigações
sistemáticas em volta de uma questão. Eis
porque o valor teoretico do seu pensamento foi
rapidamente esquecido.
O homem, porém, foi mais feliz (do que o
filósofo). Tobias acabou bem. E dizemos com
tanto maior prazer quanto mais sensível nos foi o
desgosto de lhe criticarmos quase todas as
idéias a bem da verdade. De todos os atos de
sua vida o mais belo foi incontestavelmente o
último e este retratou e destruiu moralmente todo
o seu passado intelectual.
É mais fácil negar a alma do que destruí-la.
Na última hora, nesse moento em que se
desanuviam as paixões do tempo e a verdade se
banha de novos calores nos arrebóis da
eternidade, Tobias achou de novo sua alm cristã
para entregá-la a Deus.
Também Estelita Tapajoz é um partidário do
monismo evolucionista. Publicou um 1908 os
Ensaios de Filosofia e Ciência. Tapajoz não faz
uma exposição sistemática do monismo, mas
serve-se dessa doutrina especialmente para fins
sociológicos como:
1) Tratar da condição social da mulher, cuja
inferioridade moral e intelectual é de vida à
fatalidade das leis evolutivas; é, portanto,
empresa deseperada querer modificar a
condição social da mulher, visto que a
ciência com a sua inflexível lógica é a
primeira a condenar a mulher à sua
inferioridade.
2) Defender a antropologia criminal vista
através da fomosa teoria lombrosiana sobre
o crime, em virtude da qual o criminoso não
é mais um culpado e sim um doente e que,
portanto, é preciso tratar e não punir.
3) Sustentar a evolução da espécie humana
que biológica, social e morlmente esta sob o
império ds mesmos princípios e das mesmas
leis.
XIV
RELAÇÃO ENTRE TEOLOGIA E FILOSOFIA
Em todas as uestoes relativas ao problema
“fé e ciência” Duns Escoto permanece fiel à
tradição. Mas nem por isso a sua solução deixa
de retratar os rasgos típicos de seu esp’’irito.
Passaram-se os tempos da indiscutida harmonia
entre fé e ciência. Embora refutado, em princípio,
por S. Tomás, o averroísmo latino não fora
superado definitivamente na universidade de
Paris. Por esta razão Duns Escoto torna a
examinar, com rigor inexorável, as várias
posições, acrescentando ao otimismo
intelectualista de S. Tomás e de outros
pensadores as correções que se lhe afiguram
necessárias.
I. A Necessidade da Revelação
Eis o problema inicial formulado por Duns
Escoto: Será necessária ao homem, no seu
estado presente, uma doutrina
sobrenaturalmente revelada e inatingível à luz
natural do seu intelecto? Em primeiro lugar,
verifica a ausência de uniformidade nas opnioes
dos filósofos e dos teólogos: “Et tenent
philosophi perfectionem naturae, et negant
perfectionem supernaturalem: theologi vero
cognoscunt delem”. Após cuidadosa a curada
ponderação dos argumentos e contra-
argumentos, conci que em nosso estado
presente necessitamos de um tal auxílio
sobrenatural:
1) Por não possuirmos um conhecimento
distinto de nosso verdadeiro fim.
Importa que a atividade humana
seja determinada pelo conhecimento
do fim. Ora, a história que os filósofos
erraram na determinação do fim
derradeiro do homem, ou, pelo menos,
permaneceram em dúvida e relação a
ele. Mas isto é apenas o índicio de uma
impossibilidade radical; pois em nossa
experiência presente nada
encontramos que nos permita concluir
que a visão beatifica é nosso fim, ou
que ela pode convir eternamente ao
homem enquanto tal: “Istas igitur et
símiles condiciones finis necessarium
est nosse ad efficaciter inquirendum
finem, et tamen ad eas non sufficit ratio
naturlis; requiritur supernaturaliter
tradita”.
2) Por desconhecermos as três condições
necessárias para a consecução deste fim.
Para podermos atingir o nosso fim é
mister saber o modo de chegarmos a
ele, quais os meios que a ele nos
conduzem, e, enfim, se estes meios são
realmente suficientes. Ora, a razão
natural abandonada a si mesma é
imcapaz de tal conhecimento, porquanto
a aceitação livre e gratuita das nssas
boas obras Deus é uma condição
contingente, e, portanto indemonstrável
pela razão natural. Os filósofos
chegaram a negar até mesmo a
existência de todo ato contingente – isto
é, livre – em Deus: “Istud non est
naturaliter scibile, ut videtur, quia hic
etiam errabant philosophi, ponentes
omnia quae sunt a Deo immediate esse
ab eo necessaro...”.
3) Pela impossibilidade de atingirmos,
com a razão natural, o conhecimento do que
há de mais valioso e necessário, a saver, de
certas notas essenciasis do mundo espiritual
e da própria divindade.
Nosso conhecimento principia pela
experiência sensível, como bem notou o
Filosofo. Por isso o conhecimento humano
não pode atingir senão aquelas
propriedades das substancias espirituais
que de algum modo lhes são comuns com
o mundo sensível, ou que podem ser
eruidas a partir dos efeitos. Ora, os efeitos
deixam a razão na d’’úvida, ou mesmo a
induzem em erro. Por exemplo, o fato de a
natureza divina ser comunicável a três
Pessoas não pode ser eruído dos efeitos
de Deus; o que não é de estranhar, visto
que as criaturas não faram produzidas por
Deus precisamente enquanto trino. O
mesmo ocorre em relação às
propriedades essenciais das outras
substancias espirituais. Como se vê pelas
falsas doutrinas dos filósofos, os efeitos
nos levam antes à eternidade e
necessidade destas substancias
espirituais não-divinas, do que à sua
contingência e vir-a-ser. Demais, os
filósofos parecem supor uma
correspondência numérica etre as
substancias espirituais e as esferas
clestes; e, além disso, elas seriam
naturalmente bem-aventuradas e
impecáveis: “Quae omnia sunt absurda”.
Cumpre entender corretamente a atitude de
Duns Escoto em face deste árduo problema. Ele
está longe de ser um cético ou um pessimista
quanto ao valor da natureza humana, e
paticularmente quato às forças da razão natural.
Todavia, enquanto teólogo, recusa-se a ver na
condição atual da nossa natureza e do nosso
conhecimento o único estado possível. Admite,
integralmente, tudo quanto os filósofos dizem,
com razão, ser atingível à inteligência humana.
Mas enm por isso deixa de insistir nas limitações
de nossa capacidade cognoscitiva. E não
obstante, Duns Escoto vai mais longe que os
próprios filósofos, em atribuindo à natureza
humana o que eles jamais ousaram atribui-lhe, a
saber, apossibilidade ou a acapacidade de
elevar-se a uma perfeição superior: “Et ultra, dico
aliam eminentioram posse recipi naturaliter. Igitur
in hoc magis dignificatur natura, quam si
suprema sibi possibilis poneretur illa naturalis;
nec est mirum quod ad maiorem perfectionem sit
capacitas passiva in aliqua natura quam eius
casualisas activa se extendat”.
II. Teologia e Metafísica.
Para melhor eludicao do que foi dito,
estabeleçamos um confronto entre aquilo que a
metafísica nos têm a dizer sobre Deus.
1) A Teologia.
Duns Escoto distingue “entre uma teologia
em si” e uma “teologia em nós”.
Explicando, o Doutor Sutil faz notar
que é preciso discriminar, de modo
geral, entre um conhecimento em si e
um conhecimento em nós.
“Conhecimento em si” é aquele que
atinge o seu objeto na medida exata em
que estes manifestar-se a um
entendimento proporcionado.
“Conhecimento em nós” é que pode ser
alcançado por nosso entendimento.
Teologia em si é, pois, o conhecimento
atingível por um intelecto proporcionado
ao objetivo teológico, ao passo que a
nossa teologia é o conhecimento
acessível ao nosso intelecto limitado.
Duns Escoto distingue, além disso, a teologia
das verdades necessárias da teologia das
verdades contigentes. A primeira abrange as
verdades relativas a Deus considerado em si
mesmos; a segunda trata das verdades relativas
a Deus em sua relação ao mundo.
O conceito supremo da teologia em si,
referente às verdades necessárias, é Deus,
enquanto conhecido como esta essência
concreta. Um tal saber nos e denegado. O
conceito supremo da nossa teologia, ao
contrário, é o do ser infinito.
2) A Metaf’ísica
Duns Escoto chama a atenção para as
divergências que reinam entre os filósofos
quanto ao objeto supremo da metafisica.
Segundo Avicena este objeto é o ser, segundo
Averrós, ao invés, tal objeto é Deus. Duns opta
pela posição de Avicena: Dico quod Avicena –
cui contradixit Commentator – home dixit, et
Commentator male. Qual a razão desta
preferência? E que Avicena, enquanto teólogo e
enquanto metafísico, lhe parece mais satisfatório
que Avicena, enquanto teólogo e enquanto
metafísico, lhe parece mais satisfatório que
Averróis. Duas são razões principais que militam
em favor de Avicena e que se situam dentro das
fronteiras da filosofia aristotélica:
Primeiro: se Deus fosse objeto supremo da
metafísica, ou, no presente cãs, o sujeito, cujas
propriedades lhe cumpre demonstrar, seria
necessário que a existência deste objeto fosse
provada por outra ciência, posto que nenhuma
ciência demonstra a existência do seu próprio
objeto.
Segundo: A metafísica é muito mais
competende para demonstrar a existência de
Deus do que a física ou filosofia da natureza.
Esta nos conduz a uma primeiro motor imóvel a
partir da análise do movimento. A metafísica, ao
contrario, principia pela análise do ser e de seus
atributos, para elevar-se a um ser necessário e
primeiro. E assim a metafísica não só demonstra
algo mais sobre Deus do que a física, mas algo
mais perfeito.
É obvio que tal posição satisfaz o teólogo.
Pois a metafísica avizinha-se mais daquele
conceito supremo em que o teológico cristão
deve basear seus enuciados sobre Deus: Item
perfectior conceptus de Deo possibilis Physico et
primum movens, possibilis autem Metaphysico
est primum ens; secundus est perfectior, tum
quia absolutus, tum quia requirit perfectionem
infinitam: nam primum perfectissimum. Sed si
enti on repugnet infinitas, non est
perfectissimum, quod non es infinitum…
3) A distância entre o conhecimento teológico
e metafísicos de Deus.
Para esclarecer a diferença entre estes dois
conhecimentos, faz-se mister recordar as
distinções supremencionadas.
Em primeiro lugar, há uma demarcação
absoluta entre a teologia em si por um lado, e a
nossa teologia juntamente com a metafísica por
outro. Aquela trata de Deus em sua
singularidade absoluta, isto é, desta essência
concreta: a nossa teologia e a metafísica, porém,
tratam de Deus mediante conceitos comuns; em
outros termos, o mesmo Deus é apreendido
“confusamente”.
Entre a nossa teologia e a metafisica há esta
diferença: a nossa teologia trata de Deus
enquanto ser infinito, que é a noçao mais perfeita
de Deus que podemos atingir; a metafisica trata
do ser como tal, para elevar-se ao conceito do
ser primeiro, que encerra o conceito do ser
infinito. Nesta altura, porém, a metafísica tem
que deter-se, cedendo à teologia a tarefa de
preencher o conceito assim obtido com a
plenitude das verdades reveladas sobre Deus.
Com esta demarcação rigorosa entre o
conhecimento metafísico e o conhecimento
teológico de Deus, Duns Escoto visa,
obviamentte, o averroísmo. Eis algumas das
proposições condenadas em 1277. Do ponto de
vista histórico, a posição de Dus Escoto deve ser
interpretada como uma tentativa energética para
persuadir os filósofos de sua própria
insulficiencia, para atalhar os excessos do
arevoísmo e assegurar à fé e à teologia o lugar
que um racionalismo exagerado lhes contestava.
De forma que a atitude crítica de Duns Escoto se
justifica pela preocupação de represar a
penetração descomedida do elemento
racionalista, inclusivamente no domínio
teológico, e de defender os direitos da teologia
positiva – isto é, da “Theologia contingentium”, -
cuja aceitação deve basear-se na palavra de
Deus. Sua filosofia é mais crítica, porque sua
teologia é mais bíblica.
4) A Metafísica cristã.
O que ficou exposto permite compreender o
porque da composição do De Primo principio.
Inicialmente, Duns Escosto enumera uma longa
série de verdades que se subtraem ao alcance
da razão, tais como a onipotência, a imensidade
e a onipresença de Deus; igualmente a verdade,
a justiça, a misericórdia e a providencia divinas.
A discusão destes problemas pertence a
outro tratado. São verdades de fé. O objetivo do
De primo principio, ao contrário, é uma reflexão
sobre verdades da razão. Quererá isto dizer que
ali se trata de um conhecimento metafísico
puramente natural? No presente caso, Duns
Escoto procede exatamente como S. Anselmo,
cujaq obra evidentimente lhe serviu de modelo.
Como Anselmo, Duns Escoto principia o seu
trabalho como uma oração, pedindo a Deus que
lhe dê forças para compreender aquilo que já
aceita pela fé. Trata-se, pois, de uma meditação
metafísica sobre o conteúdo da nossa fé.
Escoto tenciona averiguar a força da razão
em face, e determinar até que ponto ela é capaz
de penetrar no domínio desta mesma fé, que
sabemos ser inexaurível pelos meios da razão,
visto que o “verum esse” de Deus lhe permanece
oculto.
l
De forma que o tratado pressupõe a fé, não,
é claro, como princípio de dedução, mas como
objeto de investigação.
CONCLUSÃO
Na história da filosofia, vários pensadores
encantaram-se com ela a ponto de ir além da
mera postura acadêmica (profissional),
incorporando-a em suas vidas, a ponto de não
existir diferença entre o homem e o filósofo.
Sócrates, Platão, Agostinho, Bacon, Nietzsche e
Marx seriam alguns exemplos de verdadeiros
encantados pela filosofia, ainda que ela, às
vezes, lhes tenha sido portadora de alguns
aborrecimentos.
A filosofia nunca teve como objetivo
solucionar os problemas da humanidade, mas
apontá-los, investigá-los e mostrar o porquê da
existência desses problemas. Ela se propõe, por
sua vez, descobrir a razão das coisas com a
finalidade de apresentar a questão central
através de seus fundamentos.
A filosofia busca sempre a verdade a partir
da razão, do conhecimento, que é a
conformidade da mente, isto é, do conhecimento
à realidade. Não há dúvida de que a verdade é
um valor fundamental, pois ela constitui o
objetivo principal numa ordem, a fim de seguir
outras ordens para chegar numa definição
concreta e objetiva. Os filósofos se ocuparam da
verdade desde sempre, quer para definir sua
essência, quer para descobrir os caminhos, a fim
de alcançá-la ou para determinar os critérios
para identificá-la. Portanto, a filosofia, em sua
história, continuou a reproduzir-se na busca da
verdade; entender a vida na sua totalidade.
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Teologia Sistemática - Bíblica e Histórica Robert D.
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Teologia Sistemática de Norman Geisler (1º volume)
Norman L. Geisler - Edição 1 2016 - Editora: CPAD
Teologia Sistemática Sturz Richard Julius Sturz -Edição 1
2012 - Edições Vida Nova
Teologia Sistemática de Franklin e Myatt - Uma análise
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