PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE GOIÁS
2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS
RECURSO INOMINADO n. 5145585-76.2024.8.09.0051
ORIGEM: Goiânia - 1º Juizado Especial Cível
JUIZ(A) SENTENCIANTE: Dr. Rinaldo Aparecido Borges
RECORRENTE: Claudia Grande
RECORRIDOS: Banco do Brasil S.A.
RELATOR: Dr. Vitor Umbelino Soares Junior
JULGAMENTO POR EMENTA (art. 46 da Lei nº 9.099/95)
EMENTA: JUIZADO ESPECIAL CÍVEL. RECURSO INOMINADO. DIREITO DO CONSUMIDOR. AÇÃO
DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITO, REPETIÇÃO DE INDÉBITO E INDENIZAÇÃO POR DANO
MORAL. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. ILEGITIMIDADE PASSIVA DA INSTITUIÇÃO FINANCEIRA.
DESCONTOS IDENTIFICADOS COMO “CONSIGNAÇÃO, “CONSIGNAÇÃO DÉBITO COM INSS” E
“CONSIG. 83 – CONSIGNAÇÃO DÉBITO COM INSS”. RUBRICAS 203, 912 E 925. CONSIGNAÇÃO DE
DÉBITOS REALIZADA PELO PRÓPRIO INSS. SENTENÇA MANTIDA. RECURSO CONHECIDO E NÃO
PROVIDO.
1. Histórico. Trata-se de ação de declaração de inexistência de débito e de indenização por danos materiais e
moral ajuizada por Cláudia Grande em desfavor de Banco do Brasil, tendo por objeto a suspensão de
descontos que reputa indevidos em seu benefício previdenciário, a declaração de inexistência dos débitos
vinculados a qualquer contrato de empréstimo consignado com a instituição financeira promovida; a restituição
em dobro da quantia de R$ 3.528,00 (três mil quinhentos e vinte e oito reais), na forma do art. 42 do Código de
Defesa do Consumidor, e, por fim, a condenação da promovida ao pagamento de R$ 8.000,00 (oito mil reais), a
título de indenização por dano moral.
(1.1). Na sentença prolatada (evento n. 26), o juízo de origem constatou a ilegitimidade passiva da instituição
financeira, uma vez que ela não foi a responsável pelos descontos efetuados no benefício previdenciário da
autora, não sendo sua credora, pois os descontos identificados como “CONSIGNACAO DEBITO COM INSS” e
“CONSIG. 83 - CONSIGNACAO DEBITO COM INSS” ocorrem quando o INSS entende que o beneficiário
possui débito para com a autarquia e passam a cobrar automaticamente o que calcula devido. Verificou que a
discussão desses descontos demanda processo próprio contra o INSS e não em desfavor do banco,
reconhecendo sua ilegitimidade passiva e declarando extinto o processo sem resolução de mérito (art. 485,
inciso VI do CPC).
(1.2). A promovente interpôs recurso inominado (evento n. 29), asseverando a legitimidade passiva da
instituição financeira, pois coaduna com a tese firmada firmada no Pedido de Uniformização de Interpretação de
Lei n. 0500796-67.2017.4.05.8307/PE (Tema 183), de que sendo a mesma instituição financeira que firmou o
empréstimo consignado apontado como fraudulento e daquela que paga o benefício, a responsabilidade do
INSS é inexistente, figurando a instituição financeira Banco do Brasil como responsável principal. Ainda aponta
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que o banco não agiu com a cautela necessária no sentido de conferir, com rigor, os dados da segurada e da
operação para evitar situações de fraude, devendo responder pelos danos decorrentes da lesão. Destaca a
jurisprudência de casos análogos, em que se verificou a responsabilidade solidária e/ou subsidiária da
instituição financeira pelos danos decorrentes aos empréstimos indevidamente autorizados, e nunca
requisitados pelos segurados/correntistas. Pugnou a reforma da sentença para reconhecer a legitimidade
passiva do promovido e deferir todos os pedidos iniciais. O requerido apresentou contrarrazões (evento n. 36).
2. Juízo de admissibilidade. Presentes todos os pressupostos intrínsecos e extrínsecos de admissibilidade do
recurso inominado, notadamente a adequação (próprio), legitimidade, tempestividade e dispensado o preparo
recursal, posto que foram concedidos os benefícios da justiça gratuita ao recorrente (evento n. 31) conheço do
recurso (artigo 42 da Lei n. 9.099/1995).
3. Questão em discussão A questão em discussão é relativa à legitimidade passiva ad causam da instituição
financeira para compor figurara na condição de demanda na presente ação, verificando sua responsabilidade
civil sobre descontos realizados no benefício previdenciário da recorrente, que encontrariam- se vinculados a
contrato de empréstimo consignado não consentido pela consumidora.
4. Ilegitimidade passiva. A legitimidade para a causa consiste na titularidade da parte em relação ao interesse
deduzido em juízo, o que revela sua qualidade para integrar a relação processual, seja na condição de
demandante ou demandado. Esssa legitimidade das partes para o processo pressupõe a existência de um
vínculo entre o autor da ação, a pretensão controvertida em juízo e o réu, análise que deverá ser realizada in
status assertionis. Em se concluindo que o demandante é o possível titular do direito sustentado na peça de
ingresso, bem como que a instituição financeira ré deve suportar a eventual procedência da demanda, estará
consubstanciada a condição da ação relativa à legitimidade das partes em juízo. Denota-se que a recorrente
constatou descontos em seu benefício previdenciário a partir de julho de 2023, lançamentos identificados como
“CONSIGNACAO”, CONSIGNACAO DEBITO COM INSS” e “CONSIG. 83 - CONSIGNACAO DEBITO COM
INSS”, sob as rubricas 203, 912 e 925, respectivamente.
(4.1). A rubrica 203 refere-se a débitos identificados pelo INSS como pagamentos indevidos ou cumulativos; a
rubrica 912 indica consignação de débito com o INSS, sendo usada em diversas situações de ajuste de
benefício; e a rubrica 925 simboliza débito com o INSS sobre o décimo terceiro salário, conforme consulta nos
anexos da Portaria n. 992/2022 do INSS, disponibilizada no site: [Link] Ou seja, estes
lançamentos estão vinculados à própria autarquia, e não à instituição financeira. A propósito, eventual
empréstimo consignado celebrado com instituições financeiras, costuma ser identificado no Histórico de
Créditos por alguma de suas modalidades mais habituais, como as rubricas 216, 217 ou 322, sob descrição
“Consignação Empréstimo Bancário”, “Empréstimo sobre a RMC” e “Reserva de Margem Consignável (RMC)”,
respectivamente.
(4.2). A recorrente insiste que o INSS não detém responsabilidade civil por empréstimo consignado concedido
mediante fraude, quando a instituição financeira credora é a mesma responsável pelo pagamento do benefício
previdenciário, indicando o Histórico de Empréstimo Consignado como prova. Mas este arquivo não foi juntado
e não há nenhuma comprovação, ou mesmo indício, de que o recorrido tenha efetuado alguma operação
consignada no benefício previdenciário da autora.
5. Ônus da prova. É ônus da parte autora reunir todos os fatos constitutivos do direito pleiteado em juízo e, em
contrapartida, incumbe à parte promovida a prova de existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do
direito do autor (artigo 373 do Código de Processo Civil). Não se pode admitir o banco recorrido como credor,
quando nenhuma modalidade de empréstimo consignado foi comprovada e os descontos questionados se
referem a cobrança de débitos junto ao INSS.
(5.1). Nesse sentido, pertinente incluir a jurisprudência dos Tribunais Regionais Federais de casos
semelhantes, verificando a responsabilidade do INSS em descontos de rubrica 203 e 912:
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EMENTA: PREVIDENCIÁRIO. DESCONTOS INDEVIDOS EM PENSÃO POR MORTE. RUBRICAS 912 E 203.
CONSIGNAÇÃO DE DÉBITOS NÃO EXPLICADAS PELO INSS. RESTITUIÇÃO DOS VALORES
DESCONTADOS. DANO MORAL CONFIGURADO. SENTENÇA MANTIDA. A responsabilidade pelo ônus de
demonstrar a legitimidade dos débitos consignados no benefício previdenciário é do INSS, conforme
previsto no art. 373, II, do CPC. No caso, verificou-se que, além da consignação relativa à rubrica 912, há
desconto sob a rubrica 203, cuja natureza e legitimidade não foram esclarecidas pelo INSS. Portanto, a
cobrança é ilegítima, sendo devida a restituição dos valores descontados indevidamente do benefício
previdenciário da parte autora. A falha na prestação de serviços pelo INSS resultou em dano moral, pois a
oneração indevida da pensão por morte das autoras causou transtornos que ultrapassam o mero
aborrecimento, justificando a condenação ao pagamento de indenização no valor de R$ 10.000,00. Sentença
mantida pelos seus próprios fundamentos. Recurso do INSS desprovido. Condenação do INSS ao pagamento
de honorários advocatícios fixados em 10% sobre o valor da condenação ou do valor da causa, nos termos do
art. 85, §§ 2º e 3º, do CPC e do art. 55 da Lei nº 9.099/95. (TRF 3ª Região, 10ª Turma Recursal da Seção
Judiciária de São Paulo, RecInoCiv - RECURSO INOMINADO CÍVEL - 0003441-75.2021.4.03.6323, Rel. Juiz
Federal CAIO MOYSES DE LIMA, Pje Publicação 11/09/2024) – Grifei.
6. RECURSO CONHECIDO E NÃO PROVIDO.
7. Parte recorrente condenada no pagamento de custas e honorários advocatícios sucumbenciais, estes fixados
no patamar de 15% (quinze por cento) sobre o valor corrigido da causa, nos termos do artigo 55 da Lei n.
9.099/1995, todavia fica suspensa a exigibilidade de sua execução em virtude da concessão dos benefícios da
assistência judiciária (artigo 98, §3º do Código de Processo Civil).
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos em sessão presencial, em que são partes aquelas
mencionadas na epígrafe, ACORDA A SEGUNDA TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS, por sua
Segunda Turma Julgadora, conhecer do recurso inominado e negar-lhe provimento, por unanimidade, nos
termos do voto do Juiz Relator, sintetizado na ementa acima redigida.
Votaram na presente sessão, além do Juiz de Direito Relator, os Excelentíssimos Juízes de Direito
Dra. Geovana Mendes Baia Moisés e Dr. Fernando Moreira Gonçalves.
Presidiu a sessão o Juiz de Direito Dr. Fernando César Rodrigues Salgado.
Goiânia-GO, 19 de março de 2025.
VITOR UMBELINO SOARES JUNIOR
Juiz Relator
(assinado digitalmente)
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