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Direitos Humanos e Trabalho Justo

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Shony Alane
Direitos autorais
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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K.

DIREITO AO TRABALHO

DIREITOS HUMANOS NO MUNDO DO TRABALHO


DIREITO AO TRABALHO E DIREITOS HUMANOS
NO ÂMBITO DO TRABALHO

“[…] só se pode fundar uma paz universal e duradoura com base na justiça social […].”
Constituição da Organização Internacional do Trabalho. 1919.
354 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

HISTÓRIA ILUSTRATIVA
Horríveis Condições de Trabalho em por isso a fábrica estava montada como
“Zonas Francas” se fosse uma prisão, onde os trabalhado-
res viviam 24 horas por dia. Todas as ja-
Xiao Shen, uma jovem que vivia numa nelas estavam gradeadas e todas as saídas
pequena povoação rural chamada Zhon- de emergência estavam bloqueadas. Os
gyuan, no centro da China, tinha uma fiscais do Estado eram subornados para
existência árdua. Tinha pouco ou quase fazerem vista grossa relativamente a estas
nenhum arroz para comer, nem perspeti- condições.
vas de um futuro melhor. Dia após dia, ti- Dia após dia, Xiao Shen vivia atrás de
nha de andar de joelhos, em águas fundas, grades, sem possibilidades de deixar o
a ajudar o pai na cultura do arroz. edifício, incapaz de levar uma vida nor-
Finalmente, um dia decidiu partir. Tinha ou- mal, sem o seu espaço próprio. Na tarde
vido falar de uma terra estrangeira melhor, de 19 de novembro de 1993, deflagrou um
bastante distante, algures por detrás das incêndio que se espalhou, com rapidez in-
montanhas proibidas. E, então, uma manhã, controlável, a todo o edifício.
antes do sol nascer, ela e mais alguns amigos Armazenados por todo o edifício, havia
que partilhavam dos seus sonhos de uma produtos químicos altamente inflamáveis,
vida melhor, saíram de casa. Após dois mil causando um inferno com proporções de
quilómetros e dias intermináveis de esforço, pesadelo. Xiao Shen e os outros tentaram,
ansiedade e lágrimas incontáveis, chegaram desesperadamente, fugir do fogo – mas
ao destino, uma cidade chamada Shenzhen, como? Todas as janelas estavam barradas
uma zona de comércio livre, no sul da China e todas as portas estavam fechadas. Du-
perto da fronteira de Hong Kong. Lá, espera- zentos homens e mulheres, muitos deles
vam encontrar trabalho, ganhar dinheiro e nem sequer tinham mais de dezasseis
realizar os seus sonhos. anos, foram literalmente cercados pelas
Xiao Shen conheceu dois homens de ne- chamas, gritando pelas próprias vidas.
gócios chamados Huang Guoguang e Lao Xiao Shen conseguiu arrombar uma das
Zhaoquan que andavam a contratar tra- janelas barradas, no segundo piso e viu-
balhadores para a sua “Fábrica de Arte- se perante a escolha de saltar ou morrer
sanato Zhili”, uma empresa que produzia queimada. Decidiu saltar, partindo os dois
brinquedos. Xiao Shen era uma dos 472 tornozelos – mas sobreviveu. No total, 87
empregados e, em pouco tempo, aper- pessoas perderam a vida, naquela tarde,
cebeu-se de que estava muito pior agora e mais de 47 ficaram gravemente feridas.
do que quando estava na sua pequena (Fonte: Adaptado de Klaus Werner and
aldeia. Desde o crepúsculo até ao nascer Hans Weiss, 2001. Schwarzbuch Marken-
do dia, ela trabalhava penosamente na fá- firmen.)
brica Zhili por um ordenado de miséria,
apenas o suficiente para sobreviver (32-
49 dólares americanos por mês!). Ambos Questões para debate
os empresários tinham medo de que os 1. Quais os direitos humanos (relaciona-
empregados roubassem as mercadorias, dos com o trabalho) que foram violados
K. DIREITO AO TRABALHO 355

nas condições em que Xiao Shen tinha ção (ZFE) e reduzem ou removem as
de trabalhar? normas sociais e laborais?
2. Que medidas podiam ser tomadas à 4. Qual a responsabilidade das empresas
escala internacional para melhorar as multinacionais que produzem bens em
perspetivas ou, pelo menos, as condi- zonas de comércio livre?
ções de trabalho dos empregados como 5. Que ações podem os consumidores de-
Xiao Shen? senvolver para mudar situações como a
3. Por que razão estabelecem os Estados que foi descrita?
Zonas Francas Industriais de Exporta-

A SABER
1. O MUNDO DO TRABALHO NO SÉCU- integrada e aqueles que não as têm. Estas
LO XXI novas desigualdades e inseguranças estão a
conduzir a tensões entre os diferentes seto-
As novas tecnologias e a autoestrada da res da sociedade.
informação global têm o potencial de A competição elevada, como resultado
transformar o mundo do trabalho mais do da liberalização do comércio e dos re-
que a Revolução Industrial. gimes financeiros, exerce forte pressão
Devido à industrialização em curso, o nas empresas para reduzirem o custo de
séc. XX presenciou o declínio do setor agrí- produção. Para atingir estes objetivos, as
cola e a importância crescente do setor de empresas podem reduzir o custo-intensi-
serviços. Com a liberalização do mundo vo do “trabalho” através da automatiza-
do trabalho e com a “revolução cibernéti- ção, tornando a mão de obra redundan-
ca”, as oportunidades na economia global te, ou transferir a produção para países
tornaram-se muito mais vastas. com salários baixos, onde os níveis de
Esta nova economia global exige trabalha- vida são muito mais baixos. Os Estados
dores especializados que têm de ser bem podem também exercer pressão sobre o
treinados, flexíveis e altamente motivados, pagamento e as condições de trabalho, de
assim como terão de estar dispostos a se modo a fazê-las baixar, para estimular o
adaptar rapidamente às atuais exigências crescimento económico, atraindo o inves-
do mercado. Os trabalhadores têm de saber timento estrangeiro uma vez que uma es-
lidar com a pressão crescente e se adaptar tratégia de crescimento orientada para as
às alterações das condições de trabalho, à exportações é frequentemente vista como
luz de uma mudança estrutural e tecnológi- a única possibilidade de aumentar o cres-
ca acelerada. Cada vez mais, as pessoas tra- cimento económico. Muitas vezes, a ex-
balham a tempo parcial, por conta própria ploração, o trabalho forçado e o trabalho
ou enfrentam condições de instabilidade no infantil são consequências de tudo isto.
trabalho. Neste ponto de vista, a globaliza- Muitos países do mundo criaram Zonas
ção abre brechas sociais entre aqueles que Económicas Francas ou Zonas Francas In-
têm formação, competências e mobilidade dustriais de Exportação (ZFE), nas quais
para prosperarem numa economia global não só são reduzidos ou removidos os im-
356 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

postos e tarifas, como também as normas manizando a economia global. Em 2002,


sociais e laborais internacionais. a Organização Internacional do Trabalho
(OIT) iniciou uma Comissão Mundial so-
“ O comércio tem o poder de criar oportuni- bre a Dimensão Social da Globalização,
dades e de suportar meios de subsistência; um órgão independente, que publicou
e tem o poder de os destruir. A produção um relatório intitulado Uma Globalização
para exportação pode gerar rendimentos, Justa: Criando Oportunidades para Todos
emprego e as trocas internacionais que os (A Fair Globalization: creating opportuni-
países pobres necessitam para o seu de- ties for all), em fevereiro de 2004 (Para
senvolvimento. Mas, também pode cau- mais informação, consultar: [Link]
sar a destruição ambiental e a perda dos [Link]/fairglobalization/lang--en/index.
meios de subsistência, ou conduzir a ní- htm).
veis inaceitáveis de exploração. O impacto
humano do comércio depende de como os Trabalho e Segurança Humana
bens são produzidos, de quem controla a
produção e o comércio, de como a riqueza O direito ao trabalho, como uma norma
gerada é distribuída e dos termos segundo dos direitos humanos, vai muito além
os quais os países comercializam. O modo da mera salvaguarda da sobrevivência
como o sistema internacional de comércio porque a satisfação das necessidades
é gerido tem uma influência crucial em básicas não é suficiente para melhorar
todas estas áreas. Assim, […] o comércio a segurança humana. O trabalho não
internacional não é inerentemente, bom deve apenas assegurar a sobrevivência
nem mau.” e o bem-estar mas também se interliga
Kevin Watkins. 1995. com a relação e participação de cada um
na sociedade. Está também intimamen-
O fenómeno da “globalização” afeta as pes- te relacionado com a autodeterminação,
soas em todo o mundo mas os seus efeitos autorrespeito, autorrealização e com a
positivos distribuem-se de forma desigual. dignidade humana. O desemprego e a
Os poderes estatais para atenuar os efeitos negação de sindicatos conduzem não só
negativos da desregulação financeira e o à insegurança pessoal e a condições de
comércio livre estão a diminuir, sobretudo, trabalho perigosas, pouco saudáveis ou
devido aos novos “atores globais”: as em- injustas, mas também são propensos a
presas multinacionais. O poder financeiro gerar inquietação, insegurança e instabi-
destes “atores globais” atualmente excede lidade numa sociedade. Por estas razões,
o de muitos Estados. Mais de metade das a promoção de padrões de trabalho de-
100 maiores entidades económicas mun- cente sem exploração é uma condição
diais são empresas multinacionais. prévia, propícia ao aumento da seguran-
A dimensão social da globalização tem ça humana.
de se tornar numa das maiores preocu-
pações das políticas internacionais. Mais “UMA RETROSPETIVA
do que nunca, é importante promover pa- HISTÓRICA”
drões sociais e direitos humanos à escala
internacional, de forma a assegurar estabi- Para se compreender como é que a dimen-
lidade social, paz e desenvolvimento, hu- são humana do trabalho se desenvolveu, é
K. DIREITO AO TRABALHO 357

necessário fazer uma retrospetiva histórica. Século XIX: A Revolução Industrial levou
Justiça social e condições de trabalho jus- ao surgimento da classe trabalhadora, um
tas são componentes indispensáveis na grupo social dependente do trabalho assa-
promoção da paz e do desenvolvimen- lariado, devido à falta de meios de produ-
to. As injustiças relacionadas com o tra- ção. Os trabalhadores eram explorados e
balho, bem como as dificuldades finan- sujeitos a condições de trabalho perigosas
ceiras e o desemprego são consideradas em fábricas, em tecelagens ou em minas.
como estando diretamente relacionadas O empobrecimento dos trabalhadores ge-
com a instabilidade social e com revol- rou um sentimento de solidariedade en-
tas do proletariado, em determinados tre estes, que começaram a organizar-se
momentos históricos. O reconhecimento (Karl Marx em “Trabalhadores do mundo,
de que um trabalho adequado é condição uni-vos”).
prévia da dignidade humana é, predomi- Passo a passo, a voz dos trabalhadores fa-
nantemente, o resultado de tais revoltas zia-se ouvir mais alto e a sua situação era
em que os trabalhadores lutaram pelo cada vez mais divulgada. Devido à pressão
reconhecimento estatal desses direitos exercida pelos primeiros sindicatos, foram
que consideram ser inalteráveis e inalie- aprovadas, em vários países, leis de refor-
náveis. A nível internacional, os direitos ma relativas à melhoria do número de ho-
dos trabalhadores foram incorporados na ras e das condições de trabalho. Todavia,
legislação do trabalho da OIT, desde 1919, a contínua agitação laboral pressionou os
e no processo de elaboração de normas industriais e os governos a considerarem a
empreendido pela ONU, após a Segunda criação de outras medidas.
Guerra Mundial.
Século XX: Alguns industriais propuse-
Século XVIII: A ideia de que o trabalho ram o estabelecimento de normas interna-
é um direito fundamental de todos os cionais comuns a fim de evitar vantagens
membros da sociedade foi uma pretensão comparativas das nações que não respei-
inicialmente avançada na Revolução Fran- tavam as normas laborais e, em 1905 e
cesa. Charles Fourier, um filósofo social 1906, foram adotadas as primeiras duas
utópico, foi o primeiro a utilizar a expres- convenções sobre o trabalho. Contudo, as
são “direito ao trabalho” e enfatizou a im- iniciativas para elaborar e adotar outras
portância do trabalho, não só para o bem- convenções foram interrompidas pela I
estar social como também psicológico do Guerra Mundial.
indivíduo. Ele considerava que os Estados O Tratado de Versalhes, que pôs fim à I
tinham a obrigação de fornecer oportuni- Guerra Mundial, reconheceu, formalmen-
dades equivalentes e concluiu que a reali- te, a interdependência entre as condições
zação deste direito iria requerer uma com- de trabalho, a justiça social e a paz mun-
pleta reorganização da sociedade. dial à escala universal, dando origem à
Esta perspetiva sobre o direito ao trabalho OIT como um mecanismo para a fixação
emergiu, de novo, nas teorias socialistas; de normas internacionais no âmbito do
mais tarde, os governos comunistas tam- trabalho e dos trabalhadores.
bém a promoveram. Assim, pode ser dito Entre 1919 e 1933, a OIT elaborou quarenta
que o direito ao trabalho tem uma certa convenções relativas a inúmeras questões
“tradição socialista”. no âmbito do trabalho. Porém, a quebra
358 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

da bolsa de valores, em 1929, conhecida


como “Sexta-Feira Negra”, resultou num 2. DEFINIÇÃO
grave retrocesso. O descalabro financeiro E DESENVOLVIMENTO DA QUESTÃO
das economias ocidentais foi acompanha-
do por uma alta taxa de desemprego. Se- Exemplos de violação dos direitos hu-
guiram-se manifestações e distúrbios cau- manos no contexto do trabalho vão des-
sados por trabalhadores desempregados. de o trabalho de crianças em minas de
Na Alemanha, a crise económica mundial carvão e sindicalistas que são presos,
foi seguida por uma grave crise política a uma escravatura moderna, tal como
que contribuiu para a ascensão de Adolf a servidão ou a exploração comercial
Hitler e, por fim, conduzindo à II Guerra e sexual de crianças. A implementação
Mundial. prática de direitos humanos relaciona-
dos com o trabalho opera no sentido de
Depois da II Guerra Mundial: A Organi- reverter más condições de trabalho, tais
zação das Nações Unidas incluíu preocu- como um ambiente de trabalho insalu-
pações económicas e sociais nos seus ob- bre ou perigoso ou horas de trabalho
jetivos e programas para uma nova ordem exploradoras. Também se preocupa em
mundial, para prevenir que uma situação proteger grupos particularmente vulne-
semelhante voltasse a acontecer. ráveis no mundo do trabalho, como por
A ligação entre trabalho e dignidade hu- exemplo, as mulheres ou os migrantes.
mana surge destacada na Declaração Re- Mais importante, os direitos humanos
lativa aos Fins e Objetivos da Organiza- relacionados com o trabalho desempe-
ção Internacional do Trabalho, adotada nham um papel crucial na preservação
em Filadélfia em 1944 (conhecida como da ligação entre a dignidade humana, a
a “Declaração de Filadélfia”, incorporada segurança humana e condições decen-
na Constituição da OIT em 1946), que es- tes de trabalho.
tabelece que “o trabalho não é uma mer- A seguir, os dois mecanismos internacio-
cadoria” e que “todos os seres humanos nais mais importantes na proteção do di-
têm o direito de efetuar o seu progresso reito ao trabalho e dos direitos dos traba-
material e o seu desenvolvimento espiritu- lhadores, o sistema da OIT, por um lado, e
al, em liberdade e com dignidade, com se- a Carta Internacional dos Direitos Huma-
gurança económica e com oportunidades nos (DUDH, PIDCP e PIDESC), por outro,
iguais.” serão analisados.
Isto surge, também, claramente explicado
na Encíclica papal “Laborem Exercens”, A Organização Internacional
de 1981, que realçou a posição dos traba- do Trabalho (OIT)
lhadores como sujeitos e não objetos, dos A Organização Internacional do Trabalho
pontos de vista filosófico e religioso. foi criada em 1919, tendo a sua sede em
Muito tem sido feito para melhorar a situ- Genebra, na Suíça. Foi desenvolvida prin-
ação dos trabalhadores em todo o mundo, cipalmente para dar expressão à preocupa-
tanto pela OIT como pela ONU. Hoje, to- ção crescente das reformas sociais, após a
davia, à luz da economia globalizada, no- Primeira Guerra Mundial. Baseada na forte
vos desafios e novas inseguranças exigem convicção de que a pobreza é um perigo
novas e mais complexas soluções. para a prosperidade e segurança, em qual-
K. DIREITO AO TRABALHO 359

quer parte, a OIT tem como objetivo me- x Estabelece normas internacionais
lhorar as condições dos trabalhadores em (convenções e recomendações) nestas
todo o mundo sem discriminação de etnia, áreas e monitoriza a sua implementa-
género ou origem social. ção nacional;
Em 1947, a OIT tornou-se uma agência
especializada das Nações Unidas e, em x Desenvolve um extenso programa de
1969, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da cooperação técnica para ajudar os
Paz pelo seu trabalho. Entre as agências da países a tornar eficazes as suas po-
ONU, a OIT é única porque goza de uma líticas.
estrutura tripartida, pela qual as decisões
dos seus órgãos representam os pontos de A OIT elaborou cerca de 190 convenções,
vista dos empregadores, dos trabalhado- estabelecendo padrões em matérias como
res, assim como dos governos. as condições de trabalho, segurança e saú-
de ocupacionais, segurança social, política
de emprego e formação vocacional e pro-
A OIT porcionando a proteção das mulheres, dos
migrantes e das pessoas indígenas. Con-
x Formula políticas e programas para tudo, apenas algumas das convenções da
promover os direitos humanos bási- OIT são usualmente referidas como con-
cos, para promover as condições de venções fundamentais de direitos huma-
trabalho e de vida e melhorar as opor- nos. Estas oito convenções e as respetivas
tunidades de emprego; ratificações estão listadas infra:

As mais importantes convenções da OIT

Número
Princípio Convenções de Ratificações
(janeiro de 2012)
Liberdade sindical e a proteção do direi- Convenção 87 (1948) 150
to de organização e negociação coletiva Convenção 98 (1949) 160
Idade mínima de admissão ao emprego e
Convenção 138 (1973) 161
proibição das piores formas de trabalho
Convenção 182 (1999) 174
infantil
Convenção 29 (1930) 175
Proibição do trabalho forçado
Convenção 105 (1957) 169
Direito à igualdade de remuneração e
Convenção 100 (1951) 168
proibição da discriminação em matéria
Convenção 111 (1958) 169
de emprego e profissão
(Fonte: ILO: [Link])
360 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

Como resposta aos novos desafios coloca- Apenas três Estados (República das Mal-
dos pela globalização, no dia 18 de junho divas, as Ilhas Marshall e Tuvalu) não ti-
de 1998, a OIT adotou a Declaração re- nham ratificado nenhuma convenção fun-
lativa aos Princípios e Direitos Funda- damental.
mentais no Trabalho e respetivo Acom- A OIT também emite, anualmente, rela-
panhamento. Define, com precisão, que tórios globais sobre o progresso feito, por
princípios e direitos dos trabalhadores são todos os Estados Partes, na implementação
fundamentais, nomeadamente, as princi- dos princípios fundamentais, de quatro em
pais convenções da OIT acima referidas. quatro anos, e que servem como base de
Este é um primeiro passo para uma imple- avaliação da eficácia das medidas tomadas
mentação prática correta para a adesão às durante o período precedente.
Convenções da OIT, a nível nacional, as-
sim como para adicionar ao diálogo inter- A Declaração Universal
nacional os direitos humanos relacionados dos Direitos Humanos (DUDH)
com o trabalho. Reflete o compromisso A Declaração Universal dos Direitos Hu-
dos Estados perante um conjunto comum manos contém um vasto leque de direitos
de valores expressos num certo número humanos relacionados com o trabalho. To-
de regras que constituem um “mínimo so- dos estes direitos são desenvolvidos, com
cial”. mais detalhe, nos dois Pactos da ONU,
que os tornam vinculativos para os seus
Hoje em dia, o trabalho adequado é uma Estados Partes. Infra, encontra-se um ex-
exigência global, com a qual se depara a trato da DUDH com a lista dos direitos em
liderança política e empresarial, em todo o questão.
mundo. Muito do nosso futuro comum de-
pende da forma como respondemos a este
“Ninguém será mantido em escravatura
desafio.”
ou em servidão […]. Toda a pessoa tem
Organização Internacional do Trabalho. 1999.
direito à liberdade de reunião e de asso-
ciação pacíficas […]. Toda a pessoa tem
A Declaração afirma que todos os mem-
direito ao trabalho, à livre escolha do tra-
bros da OIT, independentemente da rati-
balho, a condições equitativas e satisfa-
ficação das convenções em questão, são
tórias de trabalho e à proteção contra o
obrigados a respeitar, promover e pôr em
desemprego. Todos têm direito, sem dis-
prática os direitos fundamentais previstos
criminação alguma, a salário igual por
nas convenções. Os Estados que não te-
trabalho igual. Quem trabalha tem direi-
nham ratificado as convenções principais
to a uma remuneração equitativa e satis-
têm de apresentar relatórios anuais sobre
fatória, que lhe permita e à sua família
o progresso feito na implementação dos
uma existência conforme com a dignida-
princípios inscritos na Declaração. Como
de humana, e completada, se possível,
resultado desta iniciativa, a Declaração
por todos os outros meios de proteção so-
contribuiu para um aumento significativo
cial. Toda a pessoa tem o direito de fun-
de ratificações das convenções fundamen-
dar com outras pessoas sindicatos e de
tais dos direitos humanos. A 3 de janeiro
se filiar em sindicatos para a defesa dos
de 2012, 135 dos 183 membros da OIT ti-
seus interesses. Toda a pessoa tem direito
nham ratificado todas as oito convenções.
K. DIREITO AO TRABALHO 361

x desumanizado, tratado como uma mer-


ao repouso e aos lazeres e, especialmen- cadoria ou comprado e vendido como
te, a uma limitação razoável da duração uma propriedade;
do trabalho […]. Toda a pessoa tem di- x limitado fisicamente ou com restrições
reito a um nível de vida suficiente para na sua liberdade de movimento”.
lhe assegurar e à sua família a saúde e o (Fonte: Anti-Slavery [Link] is
bem-estar […] e tem direito à segurança Modern Slavery?)
no desemprego, na doença, na invalidez
[…] ou noutros casos de perda de meios Que tipos de escravidão existem hoje?
de subsistência […]” x O trabalho em regime de servidão por
Declaração Universal dos Direitos Hu- dívidas afeta milhões de pessoas no
manos: Artos 4º, 20º, 23º, 24º e 25º. mundo. As pessoas tornam-se trabalha-
dores em regime de servidão por terem
pedido ou terem sido levadas a pedir
O Pacto Internacional um empréstimo por tão pouco como o
sobre os Direitos Civis preço de um medicamento para um fi-
e Políticos (PIDCP) lho doente. Para pagar a dívida, muitas
são forçadas a trabalhar longas horas,
Proibição da Escravatura sete dias por semana, 365 dias por ano.
“Ninguém será mantido em servidão […] Recebem alimentação básica e abrigo
Ninguém será constrangido a realizar como “pagamento” pelo seu trabalho,
trabalho forçado ou obrigatório […].” porém, podem nunca conseguir pagar
PIDCP, artº 8º o empréstimo, que pode passar para as
gerações seguintes.
Embora universalmente condenadas, a x O casamento precoce e o casamento
escravatura e as práticas de trabalho for- forçado afetam mulheres e meninas
çado, ainda persistem, hoje em dia, sob que se casam sem terem escolha e que
várias formas. Muitas vezes, estão pro- são forçadas a vidas de servidão, acom-
fundamente enraizadas quer em conside- panhadas, frequentemente, por abuso e
rações ideológicas, quer em heranças cul- violência física e sexual.
turais tradicionais. De acordo com a OIT, x O trabalho forçado afeta pessoas que
há uma aparente ligação a estruturas não são recrutadas ilegalmente por indiví-
democráticas. Milhões de homens, mulhe- duos, governos ou partidos políticos e
res e crianças, por todo o mundo, são for- que são forçadas a trabalhar, normal-
çados a viver a sua vida como escravos. mente, sob a ameaça da violência ou de
Embora esta exploração não seja, muitas outras sanções.
vezes, apelidada de escravatura, as condi- x A escravidão pelo ascendente dá-se
ções são as mesmas. “Um escravo é: quando as pessoas nascem no seio de
x forçado a trabalhar – através de amea- uma “classe escrava” ou pertencem
ças mentais ou físicas; a um grupo que a sociedade vê como
x propriedade ou controlado por um “pa- apto a ser usado como trabalhadores
trão”, normalmente, através de abuso escravos.
mental ou físico ou ameaça de maus x O tráfico envolve o transporte e/ou o
tratos; comércio de seres humanos, normal-
362 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

mente mulheres e crianças, para ganhos para efeitos de exploração laboral e sexual
económicos, através do uso da força ou e também a adoção de planos nacionais
do engano. Muitas vezes, as mulheres de ação em muitos países. Vários países
migrantes são enganadas e forçadas ao foram ao ponto de criar e formar unida-
trabalho doméstico ou à prostituição. des especiais para identificação de casos
x As piores formas de trabalho infantil de trabalho forçado e libertar as vítimas.
referem-se a crianças que trabalham em
condições de exploração ou de perigo. O Pacto Internacional sobre
Milhões de crianças em todo o mundo os Direitos Económicos,
trabalham a tempo inteiro, privadas de Sociais e Culturais (PIDESC)
educação e de diversão cruciais para o
seu desenvolvimento pessoal e social. O Direito ao Trabalho
(Fonte: Anti-Slavery International. What is “Os Estados Partes no presente Pacto
Modern Slavery?) reconhecem o direito ao trabalho, que
compreende o direito que têm todas as
De acordo com o Relatório Global de 2005 pessoas de assegurar a possibilidade de
da OIT, “Uma Aliança contra o Trabalho ganhar a sua vida por meio de um tra-
Forçado”, pelo menos 12.3 milhões de pes- balho livremente escolhido ou aceite […]
soas são vítimas de trabalho forçado em As medidas que cada um dos Estados
todo o mundo. Destes, 9.8 milhões são ex- Partes […] tomará com vista a assegurar
plorados por agentes privados, incluindo o pleno exercício deste direito devem in-
mais de 2.4 milhões em trabalho forçado, cluir programas de orientação técnica e
como resultado do tráfico humano. Outros profissional […]”
2.5 milhões são forçados a trabalhar, obri-
gados pelos Estados ou por grupos milita- PIDESC, artº 6º
res rebeldes. O Relatório Global sobre Tra-
balho Forçado da OIT, de 2009, intitulado O Trabalho: Direito ou Obrigação?
“O Custo da Coerção”, não atualiza estes A correlação entre o conceito de trabalho
dados que se baseavam em extrapolações enquanto dever que requer esforço físico
de casos reais de trabalho forçado relata- ou mental e o conceito do direito ao traba-
dos durante um período de 10 anos. Ao in- lho, por vezes, provoca confusão quanto à
vés, o relatório analisou de um modo mais utilidade prática de tal direito. O trabalho,
aprofundado o custo financeiro que repre- contudo, está intimamente relacionado
sentava para os trabalhadores, afetados com a dignidade humana e com a partici-
em termos de salários não pagos, horas ex- pação da pessoa na sociedade, enquanto o
traordinárias não remuneradas, deduções desemprego pode conduzir a uma severa
a salários e taxas, uma estimativa de cerca frustração e, mesmo, depressão. O traba-
de 20 biliões de dólares americanos. A OIT lho também pode ser um meio de reali-
está atualmente a tentar reunir fundamen- zação pessoal e contribuir positivamente
tos para estimativas por países, mais fiá- para o desenvolvimento pessoal.
veis. Apesar dos vários hiatos e desafios, O direito ao trabalho pretende garantir que
o relatório de 2009 apresenta algumas ten- ninguém é excluído do mundo do trabalho,
dências positivas: novas leis, particular- ao tratar predominantemente do acesso ao
mente, contra o tráfico de seres humanos trabalho, mas também incluindo proteção
K. DIREITO AO TRABALHO 363

relativa a despedimentos injustos. O direito sua escolha […], com vista a favorecer e
ao trabalho, contudo, não inclui a garantia proteger os seus interesses económicos e
de que cada pessoa tenha emprego; de fac- sociais; […]; o direito de greve […]”
to, o desemprego existe em todos os Esta-
dos. Os governos, porém, têm de agir, por PIDESC, artº 8º
todos os meios apropriados, de modo a as-
segurar progressivamente o pleno exercício Unir-se em organizações foi sempre uma
deste direito (artº 2º PIDESC), principal- forma de as pessoas melhorarem a sua se-
mente, através da adoção e implementação gurança, quer no local de trabalho, quer
de políticas nacionais de emprego. dentro das respetivas comunidades e na-
ções.
O Direito a Condições de Trabalho Justas O artº 8º do PIDESC está estreitamente li-
e Favoráveis gado à liberdade de associação. O direito
à negociação coletiva torna a liberdade de
“Os Estados Partes […] reconhecem o associação efetiva no mundo do trabalho.
direito de todas as pessoas de gozar de Estes direitos são considerados importan-
condições de trabalho justas e favoráveis, tes porque através deles se abre, muitas
que assegurem […] um salário equitativo vezes, o caminho para a concretização
e uma remuneração igual para um tra- de outros direitos fundamentais e direitos
balho de valor igual, sem nenhuma dis- no trabalho. Contudo, nem sempre têm o
tinção […]; uma existência decente […]; mesmo reconhecimento ou compromisso
condições de trabalho seguras e higiéni- públicos, como por exemplo, o combate
cas; iguais oportunidades para todos de ao trabalho infantil.
promoção […]; repouso, lazer e limitação
razoável das horas de trabalho[…]” Direitos Relativos à Igualdade
PIDESC, artº 7º de Tratamento
e à Não Discriminação
Este artigo, inter alia, estabelece a exis- Quando se discutem direitos no âmbito do
tência de uma remuneração mínima, ga- trabalho, não se pode deixar de considerar
rantindo uma vida decente, assim como as normas relativas aos princípios da não
condições de trabalho justas e favoráveis. discriminação e da igualdade de tratamen-
Está intimamente ligado a um vasto núme- to. No seu Relatório Global de 2011, inti-
ro de convenções adotadas pela OIT e que tulado “Igualdade no Trabalho: o Desafio
também são utilizadas pelo Comité dos Contínuo” (Equality at Work: The conti-
Direitos Económicos, Sociais e Culturais nuing Challenge), a OIT debateu uma sé-
para que os Estados ponham em prática as rie de tendências positivas, já que são im-
obrigações decorrentes desta disposição. plementadas em todo o mundo cada vez
mais leis e iniciativas institucionais e há
O Direito de Formar Sindicados e de Se uma crescente consciencialização sobre a
Sindicalizar necessidade de superar a discriminação no
trabalho. Contudo, novos desafios emergi-
“Os Estados Partes (reconhecem) o direi- ram com a recente crise global financei-
to de todas as pessoas de formarem sin- ra. O relatório adverte para a tendência,
dicatos e de se filiarem no sindicato da durante recessões económicas, de mar-
364 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

ginalizar políticas antidiscriminação e os discriminação relacionada com a gravidez e


direitos dos trabalhadores. Por exemplo, maternidade ainda são comuns.
as leis e instituições que atuam no sentido (Fonte: OIT. 2011. Equality at work: The
da prevenção da discriminação no local de continuing challenge. Global Report under
trabalho podem tornar-se menos efetivas the follow-up to the ILO Declaration on Fun-
quando os negócios ficam sobrecarrega- damental Principles and Rights at Work.)
dos com dívidas. Durante estes períodos,
a discriminação institucionalizada é agra- Direitos Humanos das Mulheres
vada. O relatório demonstra também que a
discriminação no local de trabalho se tor- Como referido no Relatório Global da OIT
nou mais variada e a discriminação com de 2011 sobre igualdade no trabalho, a dis-
base em causas múltiplas está a tornar-se criminação baseada na etnia (e género)
uma prática comum. é abordada pela maioria das legislações
sobre antidiscriminação no trabalho. Con-
Um importante marco no reconhecimento tudo, o racismo no trabalho ainda ocorre
de iguais direitos das mulheres, no que sob várias formas, devido à falta de aces-
diz respeito ao acesso às oportunidades so ao mercado de trabalho, intimidação
económicas, foi a adoção da Convenção (bullying) no local de trabalho, anúncios
sobre a Eliminação de Todas as Formas de trabalho discriminatórios, recusa de re-
de Discriminação contra as Mulheres conhecimento de diplomas estrangeiros,
(CEDM), um instrumento internacional etc. Os grupos mais vulneráveis são as
que também se dirige aos direitos repro- pessoas de ascendência Africana e Asiá-
dutivos das mulheres. Para prevenir a tica, as populações indígenas e as mino-
discriminação das mulheres com base no rias étnicas e, especialmente, as mulheres
casamento ou na maternidade e para lhes dentro destes grupos, que são vítimas de
assegurar o direito ao trabalho, os Estados discriminação intersectorial.
Partes devem proibir o despedimento com
base na gravidez ou em licença de mater-
Em 2009, 45% de todas as queixas re-
nidade e a discriminação fundada no casa-
lativas a discriminação no emprego
mento. Além disso, devem introduzir a li-
recebidas pelo Centro para as Oportu-
cença de maternidade com pagamento ou
nidades Iguais e Oposição ao Racismo
com regalias sociais idênticas, sem perda
na Bélgica, estavam relacionadas com
do posto de trabalho.
racismo. De modo semelhante, a Co-
Apesar de ter havido progressos signifi-
missão Australiana para os Direitos Hu-
cativos em relação à igualdade de género
manos informou que 44% das queixas
no local de trabalho em décadas recentes,
recebidas relacionadas com racismo se
a igualdade de género e o tratamento igual
referiam a emprego. Na Comissão para
não foram, de modo algum, atingidos. As
os Direitos Humanos da Nova Zelân-
mulheres ainda são vítimas de discrimina-
dia, a pergentagem era de 40%. As ta-
ção em termos de acesso ao trabalho, bene-
xas de desemprego podem ser usadas
fícios e condições de trabalho e acesso a po-
como indicadores ulteriores sobre o
sições de tomada de decisão ou de alto nível.
racismo e discriminação racial na área
Ademais, os salários das mulheres são, em
do emprego: a taxa de desemprego nos
média, 70-90% dos salários dos homens e a
K. DIREITO AO TRABALHO 365

Estados Unidos, por exemplo, entre as a baixa taxa de empregabilidade relativa


pessoas negras permanece quase o do- às mesmas.
bro da taxa relativa a brancos e o hiato
tem aumentado desde o início da crise Níveis de Obrigação
económica. Os dados na Europa são se- A eficácia máxima dos instrumentos in-
melhantes. Ademais, como salientado ternacionais é sempre contingente no que
pelo Centro Europeu para os Direitos toca às medidas adotadas pelos governos
dos Roma (European Roma Rights Centre para concretizarem as suas obrigações
– ERRC), “a discriminação racial contra legais internacionais. Os deveres dos Es-
os Roma é ainda um problema comum e tados relacionados com os direitos atrás
persistente por toda a Europa. […] Mui- mencionados incluem:
tos Romani permanecem sem educação e x A obrigação de respeitar:
estão desempregados […]”. A mais básica das obrigações dos Esta-
dos é respeitar a proibição da escrava-
tura e do trabalho forçado. Outro aspeto
Não Discriminação
importante é respeitar a liberdade de as-
Direitos das Minorias sociação, de se sindicalizar e de formar
sindicatos. Estes direitos são frequente-
Os anos 80 foram proclamados como a mente violados, já que eles têm poten-
“Década das Nações Unidas para as Pesso- cial para pressionar um Estado a imple-
as com Deficiência” pela Assembleia-Ge- mentar outros direitos importantes dos
ral. O Programa Mundial de Ação relativo trabalhadores.
às Pessoas com Deficiência foi iniciado x A obrigação de proteger:
para permitir aos governos e organiza- Os Estados Partes são obrigados a es-
ções implementar medidas para melhorar tabelecer padrões mínimos, não sendo
a vida das pessoas com deficiência por permitido que as condições de trabalho,
todo o mundo. Em 2006, foi adotada a de qualquer trabalhador, desçam abaixo
Convenção sobre os Direitos das Pessoas desses níveis. Além disso, o direito ao
com Deficiência. O artº 27º consagra o trabalho exige proteção contra despe-
“direito das pessoas com deficiência a tra- dimentos injustos e, em qualquer caso,
balhar, em condições de igualdade com as os Estados têm de assegurar proteção
demais; isto inclui o direito à oportunidade contra a discriminação no acesso ao tra-
de ganhar a vida através de um trabalho balho.
livremente escolhido ou aceite num merca- x A obrigação de promover:
do e ambiente de trabalho aberto, inclusivo No que respeita ao trabalho, esta obri-
e acessível a pessoas com deficiência.” A gação deve ser entendida como a obri-
implementação da Convenção pelos Es- gação de facilitar o acesso ao trabalho,
tados Partes é monitorizada pelo Comité providenciando orientação vocacional e
dos Direitos das Pessoas com Deficiência. facilidades de formação.
Contudo, a discriminação relacionada com x A obrigação de implementar:
o trabalho contra as pessoas com deficiên- Embora o direito ao trabalho seja, muitas
cia ainda existe para muitas das 650 mi- vezes, mal compreendido neste sentido,
lhões de pessoas com deficiência (cerca de não é exigido aos Estados a garantia de
10% da população mundial), como revela um posto de trabalho para toda a gente,
366 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

mas é-lhes requerido que prossigam po- O pescador olhou para cima, sorriu e
líticas que levem a um constante desen- respondeu, “E qual será a minha recom-
volvimento económico, social e cultural pensa?”
e a um emprego produtivo e a tempo
inteiro (ex. políticas de pleno emprego). “Bom, pode conseguir redes maiores e
apanhar mais peixe!”, foi a resposta do
turista.
3. PERSPETIVAS
INTERCULTURAIS “E depois, qual será a minha recompen-
E QUESTÕES CONTROVERSAS sa?”, perguntou o pescador, continuando
a sorrir.
Neste enquadramento jurídico internacio- O turista respondeu, “Ganhará dinhei-
nal, as atividades de implementação têm ro e poderá comprar um barco, o que
de ter em consideração as mais variadas resultará numa maior quantidade de
formas segundo as quais pessoas oriundas pescado!”
de contextos étnicos e culturais diferentes “E depois, qual será a minha recompen-
abordam e experienciam o mundo do tra- sa?” perguntou, novamente, o pescador.
balho. A bem conhecida parábola do pes-
cador é uma boa ilustração para o facto O turista começava a ficar um pouco irri-
de que o “trabalho” tem valor diferente tado com as perguntas do pescador.
em contextos culturais diferentes e, assim, “Pode comprar um barco maior e con-
as medidas que vão alterar os modelos de tratar pessoas que trabalhem para si!”,
trabalho têm de ser ponderadas com as ex- disse ele.
pectativas e afinidades culturais.
“E depois, qual será a minha recom-
pensa?”
Uma Parábola: O Pescador O turista começava a ficar zangado.
“Será que não percebe? Pode construir
Ao fim de uma manhã, um pescador es-
uma frota de barcos de pesca, velejar por
tava estendido numa linda praia, com as
todo o mundo e deixar que os seus em-
suas redes espalhadas pela areia, estava
pregados apanhem peixe por si.”
a desfrutar do calor do sol, mirando, de
vez em quando, as resplandecentes on- Mais uma vez o pescador perguntou, “E
das azuis. depois, qual será a minha recompensa?”
Por essa altura, um turista caminhava O turista estava vermelho de fúria e gri-
pela praia. Reparou no pescador sentado tou ao pescador, “Será que não percebe
na praia e decidiu descobrir por que ra- que pode ficar tão rico que nunca mais
zão estava este pescador a relaxar em vez terá de trabalhar na vida! Pode passar
de estar a trabalhar duro para ganhar o resto dos seus dias sentado na praia,
sustento para si e para a sua família. olhando o pôr do sol. Não terá uma preo-
“Dessa forma não apanhará muito pei- cupação no mundo!”
xe”, disse o turista, “devia estar a traba- O pescador, continuando a sorrir, olhou
lhar mais arduamente, em vez de estar para cima e disse, “E o que pensa que
estendido na praia!” estou a fazer neste momento?”
K. DIREITO AO TRABALHO 367

4. IMPLEMENTAÇÃO de cumprimento, desde 1967 observaram-


E MONITORIZAÇÃO se cerca de 2.000 alterações na legislação
laboral e social nacional em mais de 130
As convenções vinculam os Estados que países.
as ratificaram. Contudo, a eficácia dos Além deste mecanismo de supervisão, a
instrumentos internacionais depende da OIT possui dois procedimentos de quei-
vontade dos Estados de os fazer cumprir xa separados para a implementação de
através de leis nacionais e de acatar as normas laborais. O primeiro permite que
decisões das autoridades encarregadas empregadores ou organizações de traba-
de monitorizar a sua aplicação. Existem lhadores apresentem queixa contra um Es-
possibilidades limitadas de sanções con- tado Parte. O segundo permite que um Es-
tra um Estado que não cumpra as suas tado Parte e os delegados da Conferência
obrigações. Muitas vezes, o cumprimen- Internacional do Trabalho (delegados do
to depende da “mobilização da vergo- governo, dos trabalhadores ou dos empre-
nha”. Tais mecanismos de cumprimento gadores) apresentem queixa contra outro
fracos levaram a que se advogasse a in- Estado Parte. Depois, pode ser nomeada
terligação dos direitos humanos, e parti- uma comissão de inquérito.
cularmente dos direitos laborais, com o Convém mencionar que, além destes
comércio. Isto possibilitaria sanções co- mecanismos, um Comité especial da Li-
merciais contra os Estados que violassem berdade Sindical examina alegações de
normas internacionais. Todavia, este as- violações de direitos sindicais. As quei-
sunto é bastante controverso. As sanções xas podem ser apresentadas contra qual-
comerciais forçariam os Estados a legis- quer governo, tenha ou não ratificado
lar contra certas práticas, por exemplo, as convenções relevantes. Desde a sua
a proibição do trabalho infantil, porém, criação, em 1950, o Comité experimen-
os problemas requerem soluções muito tou sucessos desde a alteração de leis e a
mais complexas. reinserção de trabalhadores dispensados
à libertação de membros de sindicatos
Para o cumprimento das normas interna- presos.
cionais, a OIT e a ONU designaram vários O órgão da ONU que monitoriza a imple-
procedimentos de supervisão e de quei- mentação adequada do PIDESC é o Co-
xa. Os Estados Partes das convenções da mité dos Direitos Económicos, Sociais e
OIT têm de apresentar relatórios periódi- Culturais. Ao contrário dos outros órgãos
cos que são analisados e comentados pela dos tratados dos direitos humanos, não
Comissão de Peritos para Aplicação das foi estabelecido pelo correspondente ins-
Convenções e Recomendações. Os relató- trumento mas, em 1985, foi encarregado
rios desta Comissão são, depois, apresen- pelo ECOSOC da monitorização do Pac-
tados na anual Conferência Internacional to. O Comité, atualmente, funciona sob a
do Trabalho. Cada ano, a Conferência leva orientação de 18 peritos independentes.
a cabo um exercício de avaliação interpa- Em novembro de 2005, o Comité emitiu
res e emite conclusões respeitantes à apli- um Comentário Geral sobre o direito ao
cação das convenções por alguns Estados trabalho que explica e desenvolve o con-
Partes. Embora este procedimento possa teúdo deste direito e as medidas que os
parecer menos incisivo como instrumento Estados devem tomar para a sua realiza-
368 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

ção. Uma vez que o direito ao trabalho se siões, o Comité identificou violações do
encontra associado ao direito a não ser Pacto e, consequentemente, pressionou
discriminado, outros Comentários Ge- os Estados a cessar a violação dos direitos
rais estão relacionados com assuntos no em questão.
âmbito do trabalho. Por exemplo, o Co- No entanto, ainda não é possível aos in-
mentário Geral sobre o direito igual de divíduos ou grupos submeterem queixas
homens e mulheres a gozar de todos os formais ao Comité sobre a violação dos
direitos económicos, sociais e culturais seus direitos. A Assembleia-Geral da ONU
inclui a obrigação de uma realização pro- adotou, a 10 de dezembro de 2008, um
gressiva de pagamento igual. Protocolo Facultativo ao Pacto. Em janeiro
Os Estados Partes do Pacto têm de apre- de 2012, apenas cinco Estados tinham ra-
sentar relatórios a cada 5 anos, especifi- tificado o Protocolo Facultativo, que ainda
cando as medidas legislativas, políticas não entrou em vigor8.
e outras, tomadas para garantir os direi-
tos económicos, sociais e culturais. Após
a análise dos relatórios pelo Comité e o 8
Nota da versão em língua portuguesa: O Protocolo
debate com os delegados dos Estados em Facultativo ao Pacto Internacional sobre os Direitos
Económicos, Sociais e Culturais entrou em vigor no
questão, o Comité emite considerações
dia 5 de Maio de 2013 tendo, nessa data, 10 Estados
nas “observações finais”. Em várias oca- Partes

CONVÉM SABER
Programa conseguiu alargar as suas ativi-
1. BOAS PRÁTICAS dades operacionais dos iniciais 6 para os
atuais 88 países, sendo que as despesas
Programa Internacional para a Elimina- anuais em projetos de cooperação técnica
ção do Trabalho Infantil (PIETI) atingiram, em 2008, mais de 61 milhões
Em 1992, a OIT desenvolveu o Programa de dólares americanos. Isto faz do PIETI o
Internacional para a Eliminação do Tra- maior programa do género no mundo.
balho Infantil (PIETI). Trabalhando em Contrariamente às tendências positivas
conjunto com governos nacionais, parcei- registadas no estudo prévio completado
ros sociais, bem como ONG, o PIETI de- em 2006, intitulado “O Fim do Trabalho
senvolve programas especiais, tendo em Infantil: um Objetivo ao Nosso Alcance”
consideração a complexidade do assunto (The End of Child Labour: Within Reach),
e a necessidade de métodos ponderados e o Relatório da OIT de 2010 “Acelerar a Ação
consistentes para solucionar o problema. contra o Trabalho Infantil”, demonstra pre-
Por exemplo, de modo a encontrar alter- ocupações crescentes relativas aos esforços
nativas ao trabalho infantil, o PIETI lan- de eliminação do (das piores formas do)
çou programas para retirar as crianças do trabalho infantil. O relatório menciona que
mundo do trabalho e dar-lhes alternativas o número global de crianças trabalhadoras
educacionais, bem como arranjar para as tem continuado a sua tendência decrescen-
famílias fontes alternativas de rendimen- te, tendo diminuído, no total, de 222 mi-
to e segurança. Desde que foi fundado, o lhões para 215 milhões entre 2004 e 2008
K. DIREITO AO TRABALHO 369

(3%). No entanto, esta diminuição abran- publicitaram, amplamente, a campanha.


dou a um ritmo preocupante. Este relató- Estima-se que 12 milhões de pessoas rece-
rio também exprime preocupações sobre beram a mensagem no Quénia e 5 milhões,
o impacto da crise económica global que na Zâmbia. Em alguns países africanos,
pode inibir o progresso no sentido de se al- como o Egito ou o Gana, o entusiasmo pela
cançar o objetivo sugerido originariamente campanha foi tão grande que esta passou
no Relatório Global sobre Trabalho Infantil a fazer parte de muitas competições de fu-
de 2006: a eliminação das piores formas tebol seguintes, nacionais ou locais, e de
de trabalho infantil até 2016. Consequen- outros eventos públicos.
temente, na Conferência Internacional do
Trabalho, em junho de 2010, o Conselho de
Sabia que…
Administração introduziu o Plano de Ação
Global que inclui uma agenda estratégica e x Globalmente, quase 306 milhões de
um plano de ação para que a OIT e o PIETI crianças, com idades compreendidas
possam prosseguir o objetivo mencionado entre os 5 e os 17, trabalham.
supra. Também inclui um Roteiro para a
Eliminação das Piores Formas de Trabalho x O número de crianças trabalhadoras
Infantil até 2016, adotado por mais de 450 (crianças que têm uma idade inferior à
delegados de 80 países na Conferência Glo- idade mínima para trabalhar ou acima
bal sobre Trabalho Infantil que decorreu em dessa idade e que desenvolvem um
Haia, em maio de 2010. trabalho que representa uma ameaça
Além disso, o Dia Mundial contra o Trabalho para a sua saúde, segurança ou moral
Infantil em 2011 chamou a atenção global ou que estão sujeitas a condições de
para o trabalho infantil perigoso e apelou à trabalho forçado) continua a diminuir
ação urgente para fazer face ao problema. mas em menor medida do que há al-
guns anos. Aproximadamente 70% de
Em parceria com a Confederação Africana todas as crianças que trabalham (ver
de Futebol e os organizadores do Campe- supra), 215 milhões no total, são clas-
onato das Nações Africanas, o PIETI rea- sificadas como trabalhadores infantis.
lizou uma enorme campanha de sensibili- x Um pouco mais da metade de todas as
zação sobre o trabalho infantil, por ocasião crianças trabalhadoras, um total de 115
do Campeonato de 2002, no Mali. Com milhões de crianças, fazem trabalhos
uma mensagem simples e direta: “Cartão perigosos. O número de crianças en-
Vermelho ao Trabalho Infantil”, uma refe- volvidas em trabalho perigoso também
rência aos cartões vermelhos dos árbitros decresceu, particularmente o número
nos jogos de futebol, a campanha utilizou daquelas com idade inferior a 15 anos.
vários meios de informação – vídeos, músi-
ca popular e material impresso, divulgados x Estima-se que 8.4 milhões de crianças
pela televisão, rádios, duas companhias aé- estejam expostas às piores formas de tra-
reas internacionais e nos próprios jogos de balho infantil, incluindo trabalho força-
futebol – para chegar a milhões de pessoas do e servidão por dívidas (5.7 milhões),
em África e não só. Foram realizadas ativi- prostituição e pornografia (1.8 milhões),
dades em 21 nações africanas e os meios conflitos armados (0.3 milhões) e ativi-
de informação nacionais de vários países dades criminosas (0.6 milhões).
370 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

x A maioria das crianças trabalhadoras pressão política à escala internacional ou,


com idades compreendidas entre os 5 simplesmente, por meio das escolhas dos
e os 17 trabalha na agricultura (60%), consumidores de não comprar determina-
cerca de 26% no setor dos serviços e dos produtos. Cada vez mais, esta pressão
7% na indústria. resulta na adoção de códigos de conduta
empresarial, incluindo direitos humanos,
x Apenas uma em cada cinco crianças normas laborais bem como preocupações
trabalhadoras desempenha um traba- ambientais.
lho remunerado, sendo que a grande Exemplos proeminentes, entre outros, são
maioria é trabalhadora familiar de for- o Código de Conduta de Vendedor da Gap
ma não remunerada. Inc. ou as Diretrizes (Global Sourcing and
x Entre as meninas, regista-se um de- Operating Guidelines) da Levi Strauss and
créscimo nos números do trabalho in- Co.. Estes códigos de conduta autoimpos-
fantil, enquanto os números relativos tos são dirigidos aos empregados e/ou par-
a meninos aumentaram ligeiramente. ceiros contratuais e fornecedores dessas
x O maior número de crianças traba- companhias. Englobam, inter alia, normas
lhadoras regista-se na região da Ásia- de segurança ocupacional e de saúde, a li-
Pacífico (113.6 milhões), seguida pela berdade de associação, os salários e bene-
África Subsaariana (65.1 milhões), fícios, o tempo de trabalho, o trabalho in-
América Latina e Caraíbas (14.1 mi- fantil, as práticas não discriminatórias de
lhões) e outras regiões (22.4 milhões). contratação, etc. Para mais exemplos ver:
No entanto, o trabalho infantil é igual- [Link]
mente comum nos países desenvolvi- [Link].
dos.
Há demonstrações evidentes de que estes
(Fonte: OIT. 2010. Accelerating Action
esforços têm um efeito positivo nas con-
against Child Labour.)
dições sociais. Porém, as normas incor-
poradas nestes códigos de conduta têm
Direitos Humanos da Criança por objetivo atingir os padrões nacionais
mais baixos, em vez dos padrões elevados
Códigos de Conduta nas Empresas relati- estabelecidos pelos instrumentos interna-
vos ao Trabalho e aos Direitos Humanos cionais dos direitos humanos. Além disso,
As empresas multinacionais já não podem não têm sistemas de monitorização efeti-
escapar à responsabilidade pelas suas ati- vos, especialmente quando nenhum con-
vidades. O seu poder (financeiro) pode ser trolo externo é estabelecido pelo código
comparado ou excede mesmo o dos Esta- de conduta da empresa. Poder-se-á dizer
dos. Os Estados já não são os únicos poten- que, deste modo, as empresas não fazem
ciais violadores dos direitos humanos. Há mais do que falar sobre normas estabele-
um crescente interesse sobre a responsa- cidas. Ou, como referido pelo Conselho
bilidade das companhias privadas de res- Internacional dos Direitos Humanos na
peitar os direitos humanos. Os consumi- sua publicação “Além do Voluntarismo:
dores e os órgãos internacionais, como as Direitos Humanos e o Desenvolvimento
ONG, têm a capacidade de mudar práticas das Obrigações Legais Internacionais das
aceites no seio destas empresas, exercendo Empresas”: “Por definição, as iniciativas
K. DIREITO AO TRABALHO 371

voluntárias aplicam-se apenas aos que as ção certa para o aumento da responsabi-
aceitam”. Todavia, são um passo na dire- lidade social.

Tabela 1.5. Tendências globais relativas à atividade económica das crianças por re-
gião, 2004 e 2008 (grupo etário 5-14)

Taxa de atividade
População infantil Crianças no emprego
Região (%)
2004 2008 2004 2008 2004 2008
Ásia e Pacífico 660 000 651815 122300 96397 18.8 14.8
América Latina e
111000 110566 11047 10002 10.0 9.0
Caraíbas
África Subsaaria-
186800 205319 49300 58212 26.4 28.4
na
Outras regiões 258800 249154 13400 10700 5.2 4.3
Mundo 1206500 1216854 196047 176452 16.2 14.5
(Fonte: OIT. 2010. Accelerating Action against Child Labour.)

Iniciativas com Vários Intervenientes locais e ajudam a promover estratégias


As iniciativas com vários intervenientes para apoiar os trabalhadores na sua luta
contribuem, ainda mais, para se fazer pelos seus direitos, caso as intervenções e
face aos desafios sociais (e ecológicos) do a resolução com as respetivas empresas e
desenvolvimento global. Tais iniciativas autoridades públicas tenham falhado (ex.
reúnem diferentes partes interessadas, in- comunicados de imprensa, cartas de ob-
cluindo representantes governamentais, jeção, manifestações, campanhas públicas
sindicatos, empresas e a sociedade civil, para mobilizar os consumidores e ativistas
com o objetivo de encontrar soluções con- por todo o mundo). Através de avaliações,
juntas para problemas complexos. monitorização e a organização de campa-
Um exemplo proeminente, entre outros, é nhas públicas em caso de violações dos
a Campanha Roupas Limpas (Clean Clo- direitos humanos, a CCC exerce pressão
thes Campaign – CCC), uma aliança de sobre as empresas para que as mesmas
organizações em 15 países europeus, cujo dêem um verdadeiro significado a estes
objetivo é melhorar as condições de tra- códigos de conduta empresarial. A aliança
balho nas indústrias globais de vestuário considerou mais de 250 casos de violações
e vestuário de desporto. A CCC assenta de direitos dos trabalhadores, envolvendo
numa rede de parceiros de mais de 200 or- casos de discriminação contra membros
ganizações aliadas, incluindo sindicatos e de sindicatos, condições de trabalho inse-
ONG, em países produtores de vestuário. guras, violência contra trabalhadores, re-
Estas organizações identificam problemas tenção de salários, etc.
372 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

Um outro exemplo conhecido de iniciativas de produtos inclui agora café, cacau, cho-
com vários intervenientes é a Iniciativa so- colate, sumo de laranja, chá, mel, açúcar
bre Comércio Ético (Ethical Trading Initia- e bananas. A Good Weave, anteriormente
tive-ETI). A iniciativa é diferente de outras conhecida como RugMark, é o exemplo de
como a CCC, uma vez que, além de sindi- uma organização global sem fins lucrati-
catos e organizações dos direitos laborais, vos que trabalha para acabar com o traba-
também algumas empresas privadas (mais lho infantil na indústria das carpetes e dos
de 70, em 2010) fazem parte desta aliança. tapetes na Ásia do Sul. A etiqueta Good
Para além de adotarem o Código Base da Weave assegura que nenhum trabalho in-
ETI, um código modelo de prática labo- fantil ilegal foi empregado na manufatura
ral derivado das Convenções da OIT, e de da carpete ou do tapete. A Good Weave uti-
subscreverem os Princípios de Implemen- liza as vendas dos tapetes e das carpetes,
tação da ETI, as empresas membros devem bem como doações, para fornecer apoio e
desempenhar um papel ativo nos projetos educação a anteriores vítimas de práticas
da ETI, trabalhando conjuntamente com de trabalho infantil. Desde a fundação da
sindicatos e ONG. Ademais, devem sub- RugMark International, em 1995, o núme-
meter relatórios anuais à Direção da ETI, ro de crianças trabalhadoras na indústria
sendo que 20% destes resultam de visitas das carpetes e dos tapetes, diminuiu de 1
de validação aleatórias. As tendências re- milhão para 250.000.
gistadas no desempenho da empresa são
monitorizadas por um órgão independente A Fairtrade Labelling Organizations In-
e a qualidade de membro pode perder-se ternational (FLO) existe para assegurar
caso o desempenho da empresa decaia. melhores transações para produtores mar-
Uma avaliação abrangente conduzida entre ginalizados e em desvantagem de países
2004 e 2006 confirmou que as atividades em vias de desenvolvimento. A FLO atri-
dos membros da ETI contribuíram para que bui uma etiqueta, a FAIRTRADE Mark, a
os locais de trabalho fossem mais seguros, produtos que cumprem as normas inter-
para eliminar o trabalho infantil e encorajar nacionalmente reconhecidas relativas ao
os fornecedores a pagar aos empregados o comércio justo. Esta etiqueta pode ser
montante a que estes tinham direito. Con- encontrada na maioria das cadeias de su-
tudo, muitos problemas persistem. permercados europeias e substituiu as eti-
quetas individuais nacionais. Apenas nos
Etiquetagem de Artigos Estados Unidos, um dos membros da FLO
A etiquetagem de artigos produzidos em ainda usa a sua etiqueta original, sendo
conformidade com as boas práticas sociais as etiquetas “Fair Trade Certified” indica-
é um passo recente no sentido de contri- tivas do cumprimento dos parâmetros da
buir para melhores práticas sociais e para Fairtrade. A Fairtrade cresceu significativa-
a proteção dos direitos humanos. Permite mente, devido ao apoio crescente dos con-
que os consumidores influenciem práticas sumidores. Os produtos da Fairtrade são
de produção, usando o seu poder como vendidos em 70 países. Em alguns mer-
compradores para apoiar as boas práticas. cados nacionais, os produtos da Fairtrade
Hoje, existem iniciativas relativas à etique- correspondem a uma quota de mercado
tagem em muitos países, principalmente, entre os 20% e os 50%, em determinados
na Europa e na América do Norte e a gama setores.
K. DIREITO AO TRABALHO 373

O Global Compact da ONU O Global Compact é um conjunto de prin-


O Global Compact da ONU (GC) baseia-se cípios voluntário. Embora seja ampla-
numa ideia lançada pelo ex-Secretário-Geral mente reconhecido como um passo posi-
da ONU, Kofi Annan, numa declaração fei- tivo para incentivar as empresas a atuar
ta ao Fórum Económico Mundial, em 31 de de forma responsável, algumas dúvidas
janeiro de 1999, apelando à comunidade persistem relativamente à sua efetiva im-
empresarial a cumprir com valores apoiados plementação. Os críticos defendem que a
universalmente e a aproximar as empresas ausência de normas legais vinculativas e
das agências da ONU, entidades sindicais e de mecanismos independentes de contro-
da sociedade civil. Annan afirmou que a ten- lo e cumprimento, bem como a falta de
dência emergente da responsabilidade social clareza sobre o significado das próprias
das empresas não tinha uma estrutura inter- normas, são desafios colocados à eficácia
nacional para auxiliar as empresas a desen- da iniciativa.
volver e a promover uma gestão global com
base em princípios e valores. O GC preen- “Escolhamos unir os poderes do mercado
cheu esta lacuna e recebeu grande aceitação com a autoridade de princípios universais.”
pela comunidade empresarial. Kofi Annan.
O GC estabelece 10 princípios essenciais,
incluindo os direitos humanos, questões
relativas ao trabalho, ambientais e an- 2. TENDÊNCIAS
ticorrupção. Quanto ao trabalho, inclui
compromissos relativos ao cumprimento Zonas Francas Industriais de Exportação
das normas básicas sobre o trabalho esta- (ZFE)
belecidas pela OIT, que incluem: Para atrair investidores estrangeiros, cada
x liberdade de associação e reconheci- vez mais países estabelecem as chama-
mento efetivo do direito à negociação das zonas de comércio livre que oferecem
coletiva; isenções, não só de taxas/impostos, mas
x eliminação de todas as formas de traba- também da obrigação de cumprimento de
lho forçado ou obrigatório; normas internacionais laborais e ambien-
x abolição efetiva do trabalho infantil; tais. Em geral, as empresas multinacionais
x eliminação da discriminação em maté- beneficiam de custos de mão-de-obra bai-
ria de emprego e profissão. xos, todavia, muitos trabalhadores afluem
A OIT ajuda a formular medidas concre- a essas zonas porque, mesmo assim, os sa-
tas para promover e aplicar estas normas lários são mais altos do que os de trabalho
de forma eficaz. O website [Link] correspondente fora das ZFE. Em troca, as
[Link] oferece acesso fácil condições de trabalho podem ser menos
a informação sobre os princípios desta ini- satisfatórias, por exemplo, relativamente a
ciativa, incluindo uma lista das entidades questões de segurança e saúde. A descon-
participantes. Desde o seu lançamento, sideração de regras de prevenção de incên-
centenas de empresas, agências da ONU, dios, a falta de instalações para primeiros
associações empresariais, organizações socorros e a existência de maquinaria sem
laborais, organizações da sociedade civil, segurança são apenas alguns dos proble-
participantes académicos e cidades aderi- mas que podem ocorrer em ZFE. As con-
ram ao Global Compact. dições têm certamente melhorado com o
374 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

aumento da sua publicidade, todavia, os aumentar devido às disparidades no de-


problemas persistem. senvolvimento económico e industrial.
Estimativas do Banco Mundial (2008) Em 2010, havia um total de 214 milhões de
apontam para a existência de 3000 zonas migrantes internacionais, perfazendo 3%
em 135 países e para o facto de as em- da população mundial. Quase 50% dos
presas ali estabelecidas empregarem 68 mesmos são mulheres. A maioria das pes-
milhões de pessoas. soas que deixa o seu país migra por razões
de trabalho. Os trabalhadores migrantes e
Declínio dos Sindicatos as suas famílias correspondem a cerca de
Em alguns países desenvolvidos, o núme- 90% da migração internacional total. De
ro de membros de sindicatos atingiu um acordo com os dados da OIT de 2010, apro-
mínimo sem precedentes. Nos EUA, por ximadamente 105 milhões dos migrantes
exemplo, apenas cerca de 11,4% dos tra- eram economicamente ativos. A contribui-
balhadores (2010) são membros de um sin- ção destes trabalhadores migrantes para a
dicato. Ademais, os sindicatos perderam economia mundial é enorme. Porém, mui-
muito do seu poder no mundo desenvol- tos são obrigados a trabalhar em condi-
vido, principalmente, devido ao aumento ções terríveis. Demasiadas vezes, os traba-
do poder político detido pelas empresas lhadores migrantes são sujeitos a todos os
multinacionais. Na maioria dos países em tipos de discriminação e exploração, não
vias de desenvolvimento, a liberdade de têm acesso a proteção social e são-lhes ne-
associação dos sindicatos é quase inexis- gados os seus direitos laborais.
tente. Obstáculos de vários tipos existem Além disso, os trabalhadores migrantes,
na organização de trabalhadores e, em cer- entre outros grupos vulneráveis, são parti-
tos países, a violência, tortura, homicídios cularmente afetados pelos abrandamentos
arbitrários e detenções arbitrárias são, co- económicos. Estão frequentemente empre-
mummente, usados para impedir que os gados nos setores da construção e turis-
trabalhadores se unam para reclamar os mo, que são os primeiros a ser afetados
seus direitos. em tempos de crise.
De acordo com o Inquérito Anual de 2011
da Confederação Sindical Internacional, As relevantes Convenções da OIT sobre
no ano de 2010, 90 pessoas foram assas- Trabalhadores Migrantes (Convenções
sinadas devido ao seu envolvimento em nº 97 e nº 143), infelizmente, tiveram
atividades sindicais, 75 sindicalistas rece- poucas ratificações uma vez que os Esta-
beram ameaças de morte, cerca de 2500 dos temem o escrutínio internacional das
foram detidos e 5000 despedidos. Estima- suas políticas de imigração.
se que o número de casos não relatados Um desenvolvimento positivo é a Conven-
seja muito superior. ção das Nações Unidas sobre a Proteção
dos Direitos de todos os Trabalhadores
Crescente Mobilidade Internacional: Migrantes e dos Membros das suas Fa-
Trabalhadores Migrantes mílias, que entrou em vigor a 1 de julho
Hoje, a pobreza e a violência são razões de 2003. O Comité para os Trabalhadores
trágicas que levam milhões de pessoas Migrantes monitoriza a implementação da
a deixar os seus países em busca de um Convenção. Um outro desenvolvimento é
futuro melhor. Esta situação tem vindo a o Quadro Multilateral sobre Migração La-
K. DIREITO AO TRABALHO 375

boral, como parte do plano de ação para das à procura de trabalho durante 12
os trabalhadores migrantes, adotado em meses ou mais é muito superior para
2004, pela Conferência Internacional do os jovens do que para os adultos. Na
Trabalho. Grécia, Itália, Eslováquia e no Reino
Unido, a probabilidade de os jovens
Desemprego dos Jovens ficarem desempregados durante um
Um dos problemas mais preocupantes longo período de tempo era duas a três
com que se deparam, tanto os países de- vezes superior à percentagem relativa
senvolvidos como os países em vias de aos adultos;
desenvolvimento, é o largo e crescente x Entre 2007 e 2010, as taxas de trabalho a
número de jovens desempregados. O ní- tempo parcial para os jovens cresceram
vel de incerteza entre jovens, homens em todas as economias desenvolvidas,
e mulheres, relativamente à procura de exceto na Alemanha.
um trabalho decente é alto, tendo a crise
económica exposto ainda mais a fragi- “Os jovens perfazem mais de 40% do total
lidade da juventude no mundo do tra- mundial de desempregados. Estima-se que
balho, tal como apontou o Relatório da existam, atualmente, 66 milhões de jovens
OIT de 2010 “Tendências Globais sobre desempregados no mundo – o que repre-
Emprego para a Juventude: edição espe- senta um acréscimo de, aproximadamen-
cial sobre o impacto da crise económica te, 10 milhões desde 1965. O subemprego
global na juventude”. A atualização des- é, também, outra crescente preocupação.
te estudo, em 2011, apresenta a infeliz A maioria dos novos empregos são mal
conclusão de que, no contexto atual de remunerados e instáveis. Cada vez mais,
instabilidade económica, a situação não os jovens estão a recorrer ao setor informal
tende a melhorar e as perspetivas futuras para conseguirem subsistir, com pouca ou
não são muito boas. De acordo com este nenhuma proteção laboral, benefícios ou
relatório: perspetivas para o futuro.”
x 75.1 milhões de jovens em todo o mun- Kofi Annan. 2001
do estavam desempregados, mais 4.6
milhões do que em 2007; O desemprego de longa duração, em
x Entre 2008 e 2009, o número global de determinados setores da população, sabe-
jovens desempregados cresceu 4.5 mi- se, afeta a coesão e estabilidade sociais,
lhões [a média de crescimento durante assim como contribui para acentuar as
o período anterior à crise (1997-2007) disparidades económicas e sociais nas
era inferior a 100.000 pessoas por ano]; sociedades. O desemprego dos jovens está,
x A taxa de desemprego jovem cresceu muitas vezes, relacionado com problemas
drasticamente durante a crise, de 11.6% sociais sérios, como a violência, a
a 12.7%; criminalidade, o suicídio e o abuso de
x Por exemplo, no final de 2011, a taxa de drogas e álcool e, dessa forma, o círculo
desemprego jovem, na UE, era de 21%, vicioso perpetua-se.
sendo que, em Espanha, era de quase Quaisquer políticas ou programas dirigidos
50%; ao combate efetivo do desemprego
x Na maioria das economias desenvolvi- jovem devem dirigir-se às causas sociais,
das, a parcela de pessoas desemprega- culturais e económicas desta questão e
376 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

devem também focar-se nas diferentes Em 2001, a OIT adotou um Código de


capacidades e necessidades dos jovens Conduta sobre VIH/SIDA e o Mundo
desempregados dessa sociedade. A do Trabalho, que constitui um quadro
ONU, a OIT e o Banco Mundial criaram para ajudar a prevenir a difusão do VIH/
a Youth Employment Network para tentar SIDA, mitigando também os seus efeitos
solucionar este problema a nível global. no local de trabalho, a nível local e na-
(Fonte: OIT. The Youth Employment cional. Entre os princípios deste Código
Network,[Link] destacam-se a não discriminação no em-
english/employment/yen/) prego, igualdade de género, ambiente de
trabalho saudável, a proibição de testes
VIH/SIDA e o Mundo do Trabalho de VIH para efeitos de emprego, confi-
O problema do VIH/SIDA é uma questão dencialidade e a continuação da relação
que afeta a maioria dos setores da socie- laboral.
dade e, em particular, tem um impacto sig- Em 2010, a Conferência Internacional do
nificativo no mundo do trabalho. De acor- Trabalho adotou o primeiro parâmetro la-
do com a UNAIDS, o crescimento total da boral internacional em matéria de VIH e
epidemia global da SIDA estabilizou, uma SIDA: a Recomendação sobre VIH e SIDA
vez que o número de novas infeções pelo e o Mundo do Trabalho (nº 200). A Reco-
VIH decresceu constantemente, desde os mendação contém, inter alia, a proteção
finais dos anos 90. A taxa de mortalida- contra a discriminação tanto no recruta-
de também reduziu significativamente e, mento, como nos termos e condições de
atualmente, cada vez mais pessoas vivem emprego e proibe o despedimento com
com o VIH, maioritariamente, devido a um base numa infeção pelo VIH real ou sus-
melhor acesso a tratamento médico. Esti- peita.
ma-se que, no final de 2010, 34 milhões de (Fonte: OIT. ILO Programme on HIV/AIDS
pessoas viviam com o VIH; a maioria das and the world of work, [Link]
mesmas estava empregada (90%). org/public/english/protection/trav/aids.)
Tendo presentes estas estatísticas, é cla-
ro que o VIH/SIDA é um assunto que diz 3. CRONOLOGIA
respeito ao local de trabalho não só porque
1919 Fundação da OIT, como parte do
afeta a capacidade de trabalho, a assiduida-
Tratado de Versalhes, que pôs fim
de e a produtividade, mas também porque
à Primeira Guerra Mundial
o local de trabalho tem um papel vital a de-
sempenhar na luta mais abrangente para li- 1930 Convenção da OIT sobre Trabalho
mitar a propagação e os efeitos económicos Forçado
e sociais da epidemia. O VIH/SIDA ameaça 1948 Convenção da OIT sobre a Liber-
a subsistência de muitos trabalhadores e dade Sindical e Proteção do Direito
dos que destes dependem – famílias, co- Sindical
munidades e empresas. A discriminação
1949 Convenção da OIT sobre o Direito
e a estigmatização de mulheres e homens
de Organização e de Negociação
com VIH ameaçam princípios e direitos
Coletiva
fundamentais relacionados com o trabalho
e limitam os esforços para a prevenção e 1951 Convenção da OIT sobre Igualdade
cuidado. de Remuneração
K. DIREITO AO TRABALHO 377

1957 Covenção da OIT sobre Abolição 1992 Criação do Programa Internacional


do Trabalho Forçado para a Eliminação do Trabalho In-
1958 Convenção da OIT sobre Discrimi- fantil (PIETI)
nação (emprego e profissão) 1998 Declaração da OIT sobre os Prin-
1966 Pacto Internacional sobre os Direi- cípios e Direitos Fundamentais no
tos Económicos, Sociais e Cultu- Trabalho
rais (PIDESC), artos 6º, 7º e 8º 1999 Convenção da OIT sobre a Interdi-
1966 Pacto Internacional sobre os Direi- ção das Piores Formas de Trabalho
tos Civis e Políticos (PIDCP), artº8 das Crianças
1969 A OIT foi premiada com o Prémio 2001 Criação do Programa Especial de
Nobel da Paz Ação para Combater o Trabalho
Forçado pelo Conselho de Admi-
1973 Convenção da OIT sobre a Idade nistração da OIT
Mínima de Admissão ao Emprego
2008 Protocolo Facultativo ao Pacto In-
1979 Convenção sobre a Eliminação de ternacional sobre os Direitos Eco-
Todas as Formas de Discriminação nómicos, Sociais e Culturais (PI-
contra as Mulheres (CEDM) DESC)
1989 Convenção sobre os Direitos das 2010 Conferência Global sobre Trabalho
Crianças Infantil, em Haia, adoção do “Ro-
1990 Convenção Internacional sobre teiro para a Eliminação das Piores
a Proteção dos Direitos de Todos Formas de Trabalho Infantil até
os Trabalhadores Migrantes e dos 2016”
Membros das suas Famílias (en-
trou em vigor em 2003)

ATIVIDADES SELECIONADAS

ATIVIDADE I: O SEU BEBÉ Metas e objetivos: esta dramatização pre-


OU O SEU TRABALHO! tende desenvolver conhecimentos sobre os
direitos reprodutivos das mulheres, tenta dar
Parte I: Introdução aos participantes uma ideia sobre o que se
Esta atividade envolve uma dramatização sente quando se é discriminado e promove
sobre a questão dos direitos reprodutivos a igualdade, a justiça e a responsabilidade.
das mulheres no local de trabalho. Os di- Grupo-alvo: jovens adultos e adultos
reitos reprodutivos incluem o direito de Dimensão do grupo: 15-25
optar entre ter ou não ter filhos. Duração: cerca de 90 minutos
Competências envolvidas: pensamento
Parte II: Informação Geral crítico, formação de opiniões, aptidões lin-
Tipo de atividade: dramatização guísticas e de empatia
378 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

Parte III: Informação Específica sobre a Reações:


atividade - Começar com a recolha de opiniões de
Introdução: cada grupo (como desenvolveram a dra-
“A Srª M. está desempregada há quase um matização; foi difícil?), e depois falar so-
ano e anda arduamente à procura de um novo bre as implicações e sobre o que deve
emprego. Há dez dias, foi a uma entrevista ser feito quanto a esta forma de discri-
para o seu emprego de sonho. Tudo correu bem minação.
e ofereceram-lhe o emprego. A empresa pediu- Pontos de partida para o debate:
lhe para se reunir com o Sr. W., o gestor do pes- - Alguém ficou surpreendido com a situação?
soal, para assinar o contrato. Na entrevista, ela - Que final deram os grupos à situação
já tinha falado sobre as suas funções e outros (finais realistas?; bons pontos – pontos
assuntos relativos ao trabalho, mas quando se fracos?; é melhor ser assertivo, agressivo
preparava para assinar o contrato, o Sr. W. dis- ou submisso?)
se que uma das condições impostas era que ela - Que direitos têm as mulheres no seu país?
assinasse uma declaração em como não teria (em particular, quando estão grávidas)
filhos nos próximos dois anos.” - Por que é que a empresa reagiu dessa
forma – acha justo?
Desempenho da dramatização: - Foram violados alguns direitos huma-
- Dividir o grupo em pequenos grupos nos? Se sim, quais?
(de 4-6 cada). - Se a Srª M. fosse um homem, será que
- Ler o texto e dar 20 minutos, a cada gru- situação semelhante teria acontecido?
po, para decidir sobre o fim da história - De que forma vêem os homens esta ques-
e para a adaptarem a uma dramatização. tão: de forma diferente das mulheres?
A dramatização deve começar com a - O que pode ser feito para promover e
reunião entre a Srª M. e o Sr. W. e não proteger os direitos reprodutivos das
deve durar mais de 5 minutos. mulheres?
- Convidar cada pequeno grupo a apre- Sugestões metodológicas:
sentar a sua dramatização – também se Antes de iniciar a dramatização, certificar-
pode usar os seguintes métodos, durante se de que o grupo compreendeu o signifi-
a dramatização: cado de direitos reprodutivos. Poder-se-á
- Inversão de papéis: sem avisar, parar a re- tentar formar grupos constituídos apenas
presentação, pedir aos participantes para por elementos do mesmo sexo, o que po-
trocarem de papéis e continuarem a repre- derá conduzir a finais mais polémicos.
sentação a partir daquele ponto. No final, Outras sugestões:
fazer um balanço detalhado da atividade. - Começar com dois voluntários para
- Nova dramatização: depois de uma dra- a dramatização, com o resto do grupo
matização, modificar a situação (ex: como observadores.
a Srª M. não consegue engravidar, a - Interromper a dramatização, de vez em
Srª M. já está grávida…) e pedir aos par- quando, e pedir comentários.
ticipantes para representarem, de novo, - Pedir aos observadores que troquem de
a mesma cena com estas mudanças. papéis com quem está a representar.
- Anotar os eventuais comentários dos - Acrescentar outras personagens à situa-
participantes para o balanço final sobre ção (marido, representante do sindicato,
a atividade. etc.).
K. DIREITO AO TRABALHO 379

Parte IV: Acompanhamento Parte III: Informação Específica sobre a


Pedir ao grupo para pesquisar sobre os Atividade
direitos reprodutivos da mulher no seu Introdução:
país (entrevistas, participação em peças Ficha de trabalho: T-Shirt Math - camise-
teatrais sobre os direitos humanos, em lu- ta de manga curta Matemática
gares públicos – convidar observadores a Uma camiseta de manga curta que é ven-
participar). dida por 20 dólares nos Estados Unidos é
Direitos relacionados/outras áreas a ex- manufaturada por uma empresa interna-
plorar: direitos sociais, igualdade de géne- cional numa das suas fábricas em El Sal-
ro, discriminação, xenofobia vador. Esta fábrica é um exemplo de uma
(Fonte: Adaptado de Conselho da Euro- maquiladora, que é uma fábrica de pro-
pa. 2002. Compass: A Manual on Human priedade estrangeira que monta produtos
Rights Education with Young People) para a exportação. Os trabalhadores de
El Salvador que produzem a camiseta de
ATIVIDADE II: manga curta são pagos a 0,56 dólares por
“VESTIDO JUSTAMENTE?” hora. Em média, um trabalhador é capaz
de coser, aproximadamente, 4.7 camisetas
Parte I: Introdução de manga curta por hora.
A distribuição de riqueza e poder na so- Em 1994, o governo de El Salvador calcu-
ciedade normalmente afeta as oportunida- lou que seriam necessários cerca de quatro
des das pessoas de gozarem, plenamente, salários auferidos por um trabalhador de
os direitos humanos e de terem uma vida uma maquiladora para sustentar uma fa-
com dignidade. Neste caso prático, os par- mília, num limiar mínimo de subsistência.
ticipantes analisam o conceito de “justiça/ Distribuir a ficha de trabalho e pedir aos
equidade” e refletem sobre as suas pró- participantes para calcular o seguinte (so-
prias situações. Estabelecem ligações entre zinhos ou em pares):
as suas roupas e as pessoas que as fazem. - Quanto é que um trabalhador recebe por
cada camiseta de manga curta?
Parte II: Informação Geral - Se os salários dos trabalhadores fossem
Tipo de atividade: caso prático quadruplicados, quanto é que ganha-
Metas e objetivos: esta atividade ajuda os riam por hora?
participantes a relacionarem as suas roupas - Quanto é que ganhariam por camiseta
com as pessoas que as fazem. Além disso, de manga curta?
coloca questões sobre as nossas responsa- - Se a empresa passasse este custo acres-
bilidades numa economia globalizada. cido para o consumidor, quanto custaria
Grupo-alvo: jovens adultos e adultos uma camiseta de manga curta?
Dimensão do grupo: cerca de 25 Agora imagine que os salários dos traba-
Duração: cerca de 90 minutos lhadores foram aumentados dez vezes:
Material: quadro, marcadores ou giz; - Qual seria a sua remuneração por hora?
questões para debate - Quanto é que ganhariam por cada cami-
Ficha de trabalho: T-Shirt Math seta de manga curta?
Competências envolvidas: análise, refle- - Se a empresa passasse este custo acres-
xão, aptidões linguísticas e pensamento cido para o consumidor, quanto custaria
crítico uma camiseta de manga curta?
380 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS

Instruções para o caso prático: salários que sejam suficientes para se


Pedir aos membros do grupo para verifi- manterem a si e às suas famílias?
carem as etiquetas que conseguem encon- Reações:
trar em todas as suas roupas. Depois, fazer Colocar uma questão de resumo, pergun-
uma lista (no quadro) e escrever toda a tando, por exemplo, aos participantes que
informação acerca das etiquetas e dos paí- respondam à vez:
ses onde as roupas foram feitas. Assim que - Quais os comentários que ouviram hoje
a lista estiver completa, pedir aos partici- que lembrarão como significativos?
pantes para analisarem os resultados. Em - Tentem pensar numa palavra ou frase
quase todos os casos, a maioria das peças que resuma os vossos sentimentos.
de roupa indicam que foram feitas em pa- Sugestões metodológicas
íses mais pobres. Debater com todo o gru- Os casos práticos são frequentemente
po as questões seguintes: usados para preparar debates. Neste caso
- Quem acha que fez as suas roupas, ócu- particular, é necessário criar um ambiente
los de sol, sapatos, botões, fechos, ou- de confiança e respeito para que os par-
tros acessórios, etc.? ticipantes colaborem no debate. Assim, o
- Terá sido provavelmente um homem, grupo todo deve pensar em alguns princí-
uma mulher ou uma criança? pios que considere que todos devem se-
- Quanto acha que foi pago a estes traba- guir no debate. Listar todas as sugestões e
lhadores? colocá-las onde todos as possam ver.
- Que tipo de condições de trabalho en- Outras sugestões:
frentam? Como exercício de quebra-gelo, distribuir
Colocar os resultados no quadro. etiquetas que indicam o sexo, a idade e
Avaliação do caso: quanto é que essa pessoa é paga pelo seu
Quando abordados sobre aumentar salá- trabalho (ex: 10 rebuçados por 5 minutos
rios para os trabalhadores que fazem as de trabalho; 2 rebuçados por 10 minutos de
nossas roupas, os comerciantes retalhistas, trabalho…). Pedir a todo o grupo que faça
na área do vestuário, muitas vezes, decla- um exercício (sem sentido), por ex., dese-
ram que os salários têm de ser mantidos nhar triângulos numa folha de papel, etc.
baixos para que os consumidores possam Quando a tarefa for completada, pagar a
ter produtos baratos. cada pessoa de acordo com a idade, o sexo
Debater as seguintes questões com o grupo: e como indicado nas suas etiquetas. Contar
- Estaria disposto a pagar mais por uma ca- o “dinheiro” (= rebuçados) bem alto para
miseta de manga curta? Se sim, quanto? que todos saibam quanto é que os outros
- Será que alguns direitos humanos da vão receber pelo MESMO trabalho que TO-
Declaração Universal dos Direitos Hu- DOS fizeram. Debater os sentimentos de
manos estão a ser violados? Citar artigos todos.
específicos.
- Por que é que os fabricantes vendem os Parte IV: Acompanhamento
seus produtos em países ocidentais mas Direitos relacionados/outras áreas a explo-
fazem-nos em países como El Salvador, rar: direitos sociais, políticos e económicos
Bangladesh, China? (Fonte: Adaptado de David A. Shiman.
- De quem é a responsabilidade de as- 1999. Economic and Social Justice. A Hu-
segurar que os trabalhadores recebam man Rights Perspetive.)
K. DIREITO AO TRABALHO 381

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