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setembro de 2020
Folha em branco
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Agradecimentos
Catalunha de paixão como designo entre amigos esta dissertação, foi um duplo desafio
para quem como eu se encontra na terceira fase de uma vida profissional intensa e
diversificada. Desafio maior foi voltar à universidade trinta anos depois de ter passado
pela vetusta faculdade de Direito da universidade de Coimbra.
Agradeço aos meus professores, Liliana Reis, Bruno Costa, José Carlos Venâncio, A.
Couto, Mário Raposo, Brigída e Samuel Pires, a forma carinhosa como me receberam no
Departamento de Sociologia, aos colegas com quem partilhei convívios vidas e
conhecimento, e sobretudo à minha querida Ritinha que me aturou e ajudou a enfrentar e
ultrapassar as minhas dúvidas durante todo o processo, entre as fraldas e as mamadas do
Júnior.
Grata também à minha família, especialmente aos meus filhos, que incrédulos desde o
início sempre me incentivaram a ultrapassar esta última etapa, e especialmente à Amélia,
à Guida, à Isabel e à Inês pela disponibilidade com que partilharam comigo as desventuras
Catalãs.
Finalmente um agradecimento que faço como George Orwell à minha cidade preferida
…Obrigada Catalunha!
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Resumo
Palavras-chave
Identidade;nacionalismo;Estado-nação;independentismo;autodeterminação;referendo.
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Abstract
The Catalan independence movement brings to the International System several debates
about how separatist movements depend on various issues to stand out as independent. In
addition to popular will and the identity element that allegedly underlies the movement,,
there is the international recognition position, as well as, in the case of Catalonia, the
recognition by the European Union, and the negotiation/rupture with the Spanish state.
This dissertation aims to document the historical, legal and political framework of the
Catalonia region vis-à-vis the Kingdom of Spain and its Constitution, and the causes
underlying the return of Catalonia's independence movement, which resulted in a
referendum held in the region in 2017, in favor of the secession of Catalonia from the
nation-state to which it belongs, and how this movement raises international debates.
The Catalan referendum, its nature and context, the way it was carried out and the impact
it has had on Spain, is an object of study for its uniqueness and scope and the legal-
political consequences for the territorial structure of Spain, since the referendum that the
country is experiencing great political instability and the elections for both the National
and Regional Parliament and the Europeans have made clear the polarization in society
regarding the future of the autonomic state, aggravated by the economic crisis resulting
from the pandemic.
The referendum was corollary to reaffirm popular support for the separatist cause and
bring to light, the debate about Catalan independence mainly in the framework of the new
political patidos, and the future of Catalonia as an integral or not part of an EU rule of law,
and to leave open the tension manifested between Catalan and Spanish nationalism.
Keywords
Identity; nationalism; Nation-state; independentism; self-determination; referendum.
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Folha em branco
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Índice
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Folha em branco
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Lista de Figuras
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Folha em branco
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Lista de Acrónimos
UE União Europeia
ONU Organização das Nações Unidas
BOE Boletín Oficial del Estado
VAB Valor Acrescentado Bruto
PIB Produto Interno Bruto
AICEP Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal
CEE Comunidade Económica Europeia
ERC Esquerda Republicana da Catalunha
PDECAT Partido Democrata Europeu Catalão
CUP Candidatura de Unidade Popular
INE Instituto Nacional de Pesquisa da Espanha
POUM Partido Operário de Unificação Marxista
PP Partido Popular
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Folha em branco
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“O problema catalão é um problema que não pode ser resolvido, mas apenas tolerado, e é
um problema perpétuo; sempre o foi, ainda antes da unidade peninsular, e vai persistir
enquanto subsistir a Nação Espanhola”
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Introdução
O referendo levado a efeito pelo governo da comunidade autonómica da Catalunha, no dia
um de outubro de dois mil e dezassete com vista à independência da região abalou os
alicerces da Nação Espanhola e colocou em confronto os nacionalismos Catalão e
Espanhol. O “renascer” do independentismo Catalão acontece num tempo em que noutras
regiões da Europa e no mundo crescem os fantasmas separatistas e os nacionalismos, por
razões políticas, étnicas, religiosas e socioeconómicas, agitando os respetivos governos e a
estabilidade das fronteiras.
O referendo de independência da Catalunha, realizado em outubro de dois mil e dezassete,
será, pois, o objeto principal deste estudo. A questão da Catalunha, embora seja um
assunto de política interna da Espanha, deixa a União Europeia expectante, pois perante
um grupo separatista que consiga atingir a sua secessão, dentro de um estado membro da
União Europeia, o exemplo poderá abrir uma caixa de pandora nos nacionalismos
europeus, fragilizando o fator unificação, e a sua posição como ator na cena internacional,
numa conjuntura em que a União Europeia busca o seu aprofundamento e entreajuda, no
sentido da criação de uma entidade supranacional, agregadora do mosaico europeu de
identidades sonhada por Jean Monet que pensou e concebeu as raízes da União Europeia,
em 1943, quando durante uma reunião do Comité Francês de Libertação Nacional em 5 de
agosto de 1943 declarou que não haveria paz na Europa se os estados fossem
reconstituídos com base na soberania nacional, por serem demasiado pequenos para
garantir aos seus povos a prosperidade e o desenvolvimento social necessários; para ele os
estados europeus deviam constituir-se numa federação.
O referendo foi o culminar de várias manifestações realizadas na Catalunha, após a recusa
do governo de Madrid em aprovar a revisão do Estatuto de Autonomia da região proposta
em dois mil e seis, que enviada ao Tribunal Constitucional foi ali chumbado por decisão
daquele órgão em dois mil e dez, resultando numa crise jurídico política sem fim à vista na
data em que iniciámos este trabalho em dois mil e dezoito, e que se agravou com a
situação de emergência sanitária dramática que se vive em toda a Espanha com especial
incidência na região, decorrente da covid-19.
A crise económico-financeira de 2008, os casos de corrupção dentro dos partidos políticos
que governaram o país nos últimos trinta anos após implementação do modelo
democrático liberal, e as disfuncionalidades do sistema de autonomias abalaram a
confiança dos cidadãos pondo em causa a legitimação das instituições, e o modelo de
representação e organização territorial, tornando-se terreno fértil para a contestação, e
alimentaram a agenda independentista Catalã há muito latente.
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Que vias de resolução podem evitar a “reabertura da caixa de pandora” de outros
nacionalismos-separatistas, adormecidos na Espanha plural, (veja-se o separatismo Basco,
Galego e Andaluz), e também noutros estados da Europa, com vista a evitar a
instabilidade, promover a segurança e a busca da Paz Perpétua numa Europa que teima
em esquecer um passado de guerras e perdas humanas? Tais vias de resolução não devem
descurar o pensamento de Kant (1989: 40-41) ao afirmar: “A razão [...] condena
absolutamente a guerra como procedimento de direito e torna, ao contrário, o estado de
paz um dever imediato, que, porém, não pode ser instituído ou assegurado sem um
contrato dos povos entre si.”
Assim tomamos como questão de partida, as razões históricas e socioculturais, com ênfase
em fatores identitários, que subjazem ao movimento independentista da Catalunha, que
culminou no referendo de 2017, e definimos os seguintes objetivos:
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Catalunha, e ao modelo de organização/divisão do Estado Espanhol enquanto estado de
direito.
Dado o contexto atual do objeto deste trabalho, foi escolhido o estudo de caso como
procedimento de pesquisa tendo em vista o propósito de explicar as variáveis causais de
determinado fenómeno em situações muito complexas - como o referendo - e que não
possibilitam a utilização de levantamentos e experimentos como afirma Gil (2002:54).
Além de que o estudo de caso permite produzir conhecimento relevante pelo recurso ao
paradigma positivista e interpretativo e ser usado com ferramenta de exploração
permitindo uma compreensão e interpretação dos acontecimentos como salienta Coller
(2005:21).
Neste estudo far-se-á a revisão da literatura existente, e será de abordagem metodológica
de caráter dedutivo com base na análise qualitativa. A revisão da literatura tem por base a
análise do referendo, a partir do ponto de vista constitucional, e a análise histórica e de
reflexão com enquadramento teórico dado na perspetiva construtivista das Relações
Internacionais, ao analisar o contexto da sociedade espanhola plural.
O enquadramento concetual deste estudo tem por base a Teoria do Construtivismo, dentro
das Relações Internacionais, enquanto variável causal de perspetiva de compreensão da
(re)construção do nacionalismo que veio a culminar num plebiscito que desafiou a ordem
jurídica espanhola.
Temos o estudo de caso como uma estratégia de pesquisa baseada na investigação
empírica de um ou vários fenómenos, a fim de explorar a configuração de cada caso, e
elucidar caraterísticas de uma classe maior de fenómenos (semelhantes) desenvolvendo e
avaliando explicações teóricas (Ragin in Della Porta & Keating, 2008:226)
Para tal veremos como o conceito de construção da identidade, resulta da construção da
realidade social que no caso, se estende ao âmbito internacional em análise neste trabalho,
conforme a Teoria do Construtivismo defende, através do teórico Wendt (1999).
Desta forma temos um estudo de caso interpretativo o qual “usa estruturas teóricas para
fornecer uma explicação de casos específicos que podem levar bem a uma avaliação e
refinamento de teorias” (Della Porta & Keating, 2008:227).
Se numa primeira abordagem, somos tentados a ver o referendo como um instrumento
legal que os independentistas usaram num puro desafio ao governo e às normas
constitucionais, ao analisar o contexto e as circunstancias que antecederam a sua
realização no Capitulo II, verificamos que o fenómeno é muito mais complexo, e foi
resultado de um processo de construção socio-politico suportado pelo sentimento de
insatisfação crescente da população da Catalunha. Daí o enquadramento deste trabalho de
pesquisa como um estudo de caso, por se tratar de um processo de natureza social,
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específico ou excecional, pela forma como se desenrolou naquela região específica,
inesperado e contemporâneo, pelo que foi desenhado como um estudo exploratório.
No que toca à estrutura, organizamos o relatório em dois capítulos. No primeiro capítulo -
a tensão entre Espanholismo e Catalanismo, como um processo sócio histórico e jurídico-
político na perspetiva de uma tensão latente - pretende-se compreender o modo como os
movimentos separatistas vêem eclodindo na União Europeia (sec. XX e XXI), em
Espanha, e na Catalunha em particular. Por esse facto, estruturamos o capítulo em três
pontos: no primeiro ponto desenvolveremos a reflexão sobre o crescimento dos
nacionalismos na Europa e em Espanha; no segundo ponto abordaremos o crescimento do
nacionalismo Catalão, e no terceiro analisamos o Catalanismo, enquanto “rutura
constitucional materializada no referendo” ou, dito de outro modo, explicitaremos de que
modo o referendo pode ser percebido como o culminar da tensão política em Espanha.
No segundo capítulo, analisaremos a contribuição da Teoria Construtivista em Relações
Internacionais, e sob a ótica desta enquanto ramo de estudo das ciências sociais e no
âmbito da política internacional, o caso singular do referendo da Catalunha procurando
discutir como se evoluiu de uma tensão política latente, para uma tensão manifestada na
forma de referendo, e que implicações trará esse facto para a democracia espanhola e para
a Catalunha em particular, enquanto parte de um estado nação com mais de quinhentos
anos de fronteiras estáveis na península ibérica, e enquanto estado membro da União
Europeia.
Nesse pressuposto, organizamos também o capítulo em pontos, analisando no primeiro
ponto a constituição espanhola enquanto lei fundamental da nação, e o referendo
enquanto exercício e expressão de democracia direta dos cidadãos. No segundo ponto
faremos uma síntese dos argumentos a favor e contra esta decisão - visando desocultar as
diferentes posições e respetivos argumentos relativamente ao uso do referendo e da
oportunidade da sua realização.
No terceiro ponto abordaremos as principais implicações - político jurídicas e
constitucionais, e a polarizaçã0 pós-referendo, e como veio demostrar as fragilidades e
complexidade da organização do estado Espanhol enquanto estado/nação quarenta e dois
anos após a aprovação da sua constituição da república, e ainda as dificuldades e
limitações deste estudo.
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Capítulo I - Espanholismo e Catalanismo: um
processo sócio histórico, jurídico-
constitucional e identitário na perspetiva de
uma tensão latente
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há determinadas comunidades e coletivos com experiências de vida compartilhada,
características étnicas (como, por exemplo, a língua, costumes, etc.) mais ou menos
comuns e uma experiência de autogoverno ou de unidade territorial desde pelo menos a
Idade Média (por exemplo, a Catalunha), mas que não são nações já construídas, mas sim
o que alguns autores designam por etnicidade, isto é, grupos étnicos ou coletivos de
população que ao entrarem na idade contemporânea, apresentavam fatores propícios ao
desenvolvimento de um nacionalismo moderno.
Como assinala Hobsbawn (1990: 101-102), o conceito de estado moderno, saído da
Revolução Francesa, era definido como um território mais ou menos contínuo, dominando
a totalidade dos seus habitantes, e separado de outros territórios semelhantes por
fronteiras claramente definidas. Para ele poderia ser definido como uma comunidade
imaginária, “o nós imaginário”, em oposição ao “eles simbólico, e defendia que no final do
séc. XX os movimentos nacionalistas eram separatistas, insistindo nas diferenças étnicas e
linguísticas, dos indivíduos contra o centralismo dos estados, sendo o nacionalismo, um
substituto para os sonhos perdidos de uma determinada comunidade, como defende o
autor.
Já Gellner (1983) enfatizava que quando os ocupantes de um território delimitado
reconheciam certos direitos e deveres mútuos, em virtude da sua participação
compartilhada, encontramos a ideia de nação, a ideia de pertença a uma comunidade
política imaginada, porque os seus membros jamais conhecerão ou ouvirão falar da
maioria dos seus companheiros, embora tenham em mente a imagem viva da comunhão
entre eles.
Para Anderson (2006:30), contrariamente, o conceito de nação advém de um
comportamento coletivo: “Uma nação existe, quando pessoas em número significativo de
uma dada comunidade se consideram ou comportam como se fossem uma nação. A
fraternidade imaginada tornou possível que nos últimos dois séculos, tantos milhões de
pessoas não se tenham matado entre si, mas sobretudo, que tenham morrido por essa
criação imaginária limitada”.
No pensamento de Smith (1997) a identidade nacional é a forma de identificação coletiva,
e está enraizada em sentimentos e laços étnicos anteriores ao nascimento do mundo
moderno. Segundo o mesmo autor, a identidade nacional e o nacionalismo influenciaram
comunidades étnicas e populações de todas as classes, géneros e religiões como nações,
comunidades territoriais de cidadãos, cultural e historicamente aparentados num mundo
de nações livres e iguais.
Como diz Cravinho (1998: 53) “uma nação é um grupo social que desenvolveu uma
consciência identitária, em função de um processo histórico, que pode conter elementos
de natureza linguística, cultural, religiosa ou política. A nação pretende obter ou preservar
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a autodeterminação através do espaço-nação”. Neste sentido, Guibernau (1997: 56-57)
define nação “como um grupo humano consciente de formar uma comunidade,
partilhando uma cultura comum, ligado a um território claramente demarcado, tendo um
passado e um projeto comuns para o futuro e exigindo o direito de se governar.” Após o
século XIX, o Estado-nação tornou-se a norma de associação política em quase todo o
mundo - o estado nação visto como guardião da identidade nacional - procurando a
legitimidade no seu território cultura e história, pelo que deste ponto de vista, as nações
com Estados próprios podiam sentir-se seguras, autónomas e reconhecidas como tal entre
as outras nações. A ideia de nação também suporta o uso deste conceito, para legitimar a
ideia de nacionalismo.
Os movimentos nacionalistas contam com fatores que impulsionam as ideias de pertença e
a vontade destes de serem independentes, como defende Chagas (2014: 756):
Em geral, o aspeto comum dos movimentos nacionalistas, que fazem com que minorias
No dicionário Polis (1986), a Nação é descrita como uma comunidade de indivíduos, com
uma estrutura complexa relativamente homogénea e de formação histórica e progressiva
que se desenvolve num território contiguo ou não, com a consciência da sua
individualidade; e o Estado a comunidade (povo) que com vista a realizar os seus ideais de
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segurança, bem-estar e justiça num território determinado, nele institui por autoridade
própria o conjunto de órgãos e normas da vida em comunidade.
O conceito de Estado-Nação resultaria assim de três fatores essenciais: território, nação e
Estado, sendo este uma unidade política territorial com soberania. Porém a construção
clássica com fundamento naqueles três fatores, já não é suficiente para explicar e
apreender o seu conteúdo, pois Max Weber assinalava que o povo de uma nação não
deverá coincidir com o povo de um estado, e Maluf que distingue a nação como realidade
sociológica e o estado como realidade jurídica, conforme citado em Dias (2012:55).
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“todos os povos têm o direito à autodeterminação e em virtude desse direito, determinar
livremente o seu estatuto político e prosseguir livremente o seu desenvolvimento
económico, social e cultural.” Apesar de a Declaração da ONU, ter sido aprovada no
contexto histórico do direito às colónias - e do passado histórico da Espanha como grande
império colonial - o princípio de autodeterminação dos povos tem sido utilizado pelos
movimentos separatistas na atualidade, tal como no caso da Catalunha objeto de análise
deste trabalho.
A integração regional resultante da criação da União Europeia, a partir do século XX, não
foi obstáculo ao crescimento dos movimentos regionais nacionalistas, principalmente os
de natureza independentista pois o sucesso da integração económica e política, não foi
suficiente para que cidadãos dos diversos estados membros compartilhem de maneira
linear de uma identidade europeia. Muito embora o reconhecimento de uma identidade
regional europeia - que ultrapassa as apropriações estatais -onde “os indivíduos podem
sentir-se envolvidos em pertenças múltiplas: ser português e europeu; basco espanhol e
europeu; sami, finlandês e europeu” conforme Ribeiro (2004: 91) afirma, verifica-se um
aumento de movimentos nacionalistas separatistas dentro da União Europeia que
surgiram ou ressurgiram com mais força após a crise económica de 2008, em sentido
contrário à integração. Para o autor são movimentos conservadores que defendem valores
contrários às políticas da União Europeia - como a livre circulação de pessoas e bens,
globalização económica - para legitimar a soberania nacional face à integração europeia e
justificar discursos nacionalistas de natureza separatista.
Segundo Romão há uma modificação nesses discursos nacionalistas de natureza
separatista, com fundamento em fatores materiais e não apenas em identidades e
simbologias:
debate em torno das conquistas materiais dos Estados sociais e da forma como estas
Um dos fatores que tem sido entrave a esses movimentos independentistas e ao seu
avanço é a ameaça de a União Europeia não reconsiderar, dentro do seu seio, a
permanência de um possível novo país que se tenha separado de um Estado membro
europeu. Esse foi o caso da Escócia, que conforme Galinari afirma (2018), votou pela
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possibilidade de se separar do Reino Unido no referendo de 2014, porém teve grande
influência na decisão dos eleitores, a possível não continuidade da Escócia dentro da
União Europeia, como veio a verificar-se, pois 55,3% da população acabou por votar em
sentido contrário à separação.
A União Europeia surgiu como um projeto de integração da diversidade, com objetivos
claros de uma instituição inclusiva, de desenvolvimento social e económico. Além disso
o moderno europeísmo político e económico nasceu assim do claro desígnio de ultrapassar
a incapacidade do sistema de Estados europeus de fazer face à concorrência externa e de
assegurar a estabilidade política interna que permitisse entrar nela e vencê-la. (da Cruz,
1992: 827).
No entanto, perante o crescimento de movimentos nacionalistas, que objetivam o
separatismo, a União Europeia passa por uma movimentação paradoxal, pois enquanto
realiza ações características da globalização diante do sistema internacional, também
enfrenta o crescimento dos nacionalismos no seu seio. A União Europeia tem estado a
acompanhar com preocupação as movimentações da região da Catalunha quando em
busca da independência da Espanha, mas não tomou uma posição.
Por outro lado, não está clara a maneira como a União Europeia tratará as nações sem
Estado. Gibernau (1997) defende que a Europa é uma entidade problemática, cujas
fronteiras físicas e culturais não são claras, mas que partilha uma civilização comum. Além
disso, “[...] as discussões sobre o processo de unificação europeia, entre um número
limitado de Estados não incluíram um controle das aspirações e reivindicações de
minorias nacionais”, conclui a autora (cit. em Chagas, 2014: 759).
A preocupação principal portanto, é de que as reivindicações separatistas da Catalunha
sirvam de modelo a ser seguido por outros movimentos separatistas, e reabrir uma caixa
de pandora de desintegração de territórios, parte dos Estados membros da União
Europeia, territórios como Tirol do Sul, Córsega, Flandres, respetivamente como parte da
Alemanha, França, Bélgica, além dos Bascos na Espanha, etc., poderiam seguir o mesmo
processo de secessão.
Para Guibernau (2003:4), o nacionalismo é “o sentimento de pertencer a uma
comunidade cujos membros se identificam com um conjunto de símbolos, crenças e
modos de vida, e têm a vontade de decidir sobre seu destino político comum”, ao trazer o
sentimento de pertença como central à identidade de determinada nação. Podemos
verificar que os nacionalismos, também culminam numa crescente expansão das forças
independentistas na União Europeia, como é o caso da Catalunha, do país Basco, Escócia e
Irlanda do Norte. Todos esses territórios são autónomos em determinados aspetos, no
entanto, não são considerados Estados, por não terem total acesso aos recursos
económicos ou aos direitos políticos que legitimam poder a um Estado.
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Comparando o movimento Catalão com o comportamento dos eleitores no Reino Unido
através do referendo realizado em 2016, face ao Brexit, verificamos que 52% dos eleitores
votaram a favor de sua saída da União Europeia, com 17,4 milhões de votos, contra 48,1%
dos eleitores, o equivalente a 16,14 milhões, que desejavam a permanência na EU, e o
Brexit foi aprovado (Comissão Eleitoral do Reino Unido, 2016). Este resultado contrariou
a vontade da Escócia e da Irlanda do Norte de permanecerem na União Europeia. Perante
a aprovação do Brexit, a Escócia e Irlanda do Norte devem para retornar à União
Europeia, considerar a sua independência primeiramente face ao Reino Unido. No caso da
Irlanda do Norte, que se separou da República da Irlanda, no acordo de paz de Belfast em
10 de abril de 1998, e esta fazendo parte da União Europeia, poderá vir a ocorrer uma
possível reunificação de ambas as Irlandas num futuro próximo. (Charleaux, 2020).
Kirsty Hughes, pesquisadora das relações entre a Escócia o Reino Unido e a Europa,
afirma (conforme citado em Charleaux, 2020) que os movimentos independentistas ou
separatistas cresceram no interior do Reino Unido como resposta ao Brexit. Esse processo
foi decidido por meio de um plebiscito realizado nos quatro países que conformam o
Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte). A maioria dos
escoceses (62%) e dos norte-irlandeses (55,8%) votaram contra o Brexit no plebiscito de
2016, mas terão de seguir a decisão tomada pela maioria (51,9% dos britânicos que
votaram “sim” à saída, porém, para os derrotados a permanência no bloco era vista como
mais vantajosa do que o Brexit. Segundo a autora, restam duas opções aos norte
Irlandeses, pois ou acompanham a retirada britânica, ou tentar desligar-se do Reino
Unido e entrar na União Europeia, pelo que é difícil prever o que pode acontecer, mas o
simples fato de iniciativas como essa voltarem à ordem do dia (os escoceses pediram
autorização para realizar um plebiscito independentista ainda em 2020) estas deveriam
preocupar o governo britânico.
No caso dos norte-irlandeses, a sensação de separação é imediata, pois como o país faz
fronteira direta com a República da Irlanda - país independente e que continua a fazer
parte da União Europeia - será necessário criar uma figura para moldar o “tratamento
especial” para o trânsito de mercadorias e pessoas na ilha. Neste caso, existe ainda o temor
de ressuscitar antigas rivalidades entre independentistas (que queriam as duas irlandas
unificadas e separadas do Reino Unido) e unionistas (que defendiam a ligação com o
Reino Unido).
Romão, ao distinguir os separatismos na Escócia e na Catalunha assinala que:
Em termos jurídico - constitucionais e políticos, o referendo Escocês e a consulta Catalã
em 2014, não poderiam estar mais distantes: enquanto no caso espanhol, um referendo
com carater legal e constitucional carece de uma revisão prévia, e obedece a normas
estruturais da Constituição de 1978, o sistema constitucional britânico (marcado pela
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ausência de uma lei fundamental formal) permitiu aos escoceses decidir acerca de uma
eventual independência. …O processo político e legal que conduziu a possibilidade de
referendar a independência da Escócia, a campanha eleitoral e o referendo em si
mesmo contribuíram para desmistificar o debate em torno das secessões na Europa.
Uma vez mais, um sistema constitucional de matriz anglo-saxónica demonstrou que é
possível canalizar um conflito nacional para vias institucionais legais, sendo as batalhas
travadas em campanhas eleitorais transparentes, em debates na imprensa e em
confrontos parlamentares. Porém, é impossível considerar este um exemplo para todos
os Estados que se confrontem com movimentos nacionalistas periféricos fortes. O
Reino Unido, em função do histórico do modelo de relacionamento entre ingleses e
escoceses e do sistema político vigente, pode levar a cabo um processo que não é
comparável às exigências constitucionais impostas, pela Constituição Espanhola.
(2016b: 59)
Guibernau (2003) considera que essas nações podem ser designadas “nações sem Estado”,
dado que têm como objetivo a independência ou uma maior autonomia, na busca da
melhoria da economia, incentivando o desenvolvimento regional e o direito de reter
riqueza gerada na sua região; uma maior qualidade de vida; liberdade relativamente a
restrições impostas pelo Estado e mesmo um aprofundamento da democracia,
favorecendo a descentralização e a autodeterminação. No entanto apesar de os
movimentos independentistas terem como principal ferramenta a “autodeterminação,”
esta carece de legitimidade, para se opor à soberania e ao conceito de território, e nação.
Assim, Lópes questiona:
não é exercício de democracia quando um modelo plural permite aos cidadãos que
vivem em regiões diferentes escolherem se querem fazer parte do todo de uma
comunidade, ou ao contrário preferem modificar as relações que mantêm com o seu
estado? Como encontrar então uma saída?
Não se trata de um problema jurídico, mas sim político, cuja solução exige medidas
e antes de tudo encontrar uma saída; política e legal. (2016:19)
Como assinala Navarro (2013) os quase quarenta anos passados desde a Transição
Espanhola vieram mostrar que a forma administrativa de estrutura de Comunidades
Autónomas, a construção da União Europeia e outras tentativas de harmonizar um
nacionalismo centralista espanhol, com um nacionalismo periférico catalão, basco e galego
não funcionaram, como o esperado por um e outro, nos primeiros compassos da Transição
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democrática. Portanto, no momento, a questão nacional na Espanha permanece uma
questão não resolvida, fazendo com que a Espanha continue a ser invertebrada.
Segundo Hobsbawn (1990), os nacionalismos de fim do sec. XX são separatistas”, não só
pela opressão de um Estado mais centralista, mas também como forma não nacionalista
de modelo de Estado desenvolvida a partir de 1945, ainda que este esquema para a
Espanha de Franco não seja válido. A ditadura de Franco (1939-1975) que se seguiu á
guerra civil espanhola, impôs os princípios e teorias do nacionalismo espanhol, isto é de
um Estado centralista, autoritário e unitário, como a chave de salvação da nação.
Verificamos assim que ao contrário dos partidos nacionais e da sua conceção nacional-
territorial, os partidos nacionalistas baseiam-se na memória histórica para sustentar as
suas reivindicações nacional-territoriais. A história, juntamente com o fator linguístico,
são os dois elementos-chave em que se baseia a consciência nacional basca e catalã. A
defesa da língua e a releitura da História para fins políticos e ideológicos, levou os
nacionalismos periféricos bascos e catalão a verem o nacionalismo espanhol como o
“outro” como o “inimigo”, sendo certo que e o nacionalismo espanhol agiu da mesma
maneira, com a defesa constitucional e o discurso "Unidade do Estado Espanhol". Este
posicionamento não ajudou a melhorar a comunicação entre nacionalismos sub-estaduais
e nacionalismo estadual. Como de fato aconteceu, desde a Transição até ao referendo o
sentimento nacionalista catalão cresceu entre a população, e ao contrário do que os líderes
nacionalistas esperavam, o sentimento espanhol manteve-se, e até também cresceu.
Porém como enfatiza Carvalho, (2016) a ideia de nação espanhola não foi aceite
totalmente pela sociedade após a Guerra de Independência de 1808, sendo apenas aceite
por parte da população mais conservadora nacional-católica. O autor afirma que
historicamente houve um incremento dos nacionalismos periféricos na Espanha:
No século XIX, o enfraquecido Estado espanhol não foi capaz de implementar processos
de nacionalização nos moldes do francês. Em 1898, com a perda de Cuba e das Filipinas, a
crise na Espanha atingiu o auge, o que contribuiu para o desenvolvimento dos
nacionalismos periféricos. Ao longo dos períodos de Primo de Rivera (1923-1930), da
Segunda República (1931-1939), da Guerra Civil (1936-1939) e do franquismo (1939-
1976), a organização territorial representará um dos principais elementos de conflito para
o país. (2016: 14)
No caso espanhol, conforme afirma Seixas:
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seus territórios, facto que, em nosso entender, se deve sobretudo mais ao próprio
Seixas (1995) diz-nos ainda que existe uma relação constante entre o desenvolvimento do
nacionalismo espanhol e o (re)nascimento e evolução dos nacionalismos periféricos, pois
os êxitos do primeiro condicionam os fracassos do segundo, e vice-versa. Em
consequência, não se pode conceber a questão nacional em Espanha como se cada
nacionalismo, ou região fosse um compartimento estanque. Percebe-se assim, que na
formação histórica espanhola, houve uma falta de identidade que unificasse a sociedade
espanhola, numa ideia de nação na sua totalidade, e a posterior divisão do território em
Comunidades autonómicas, legitimou a descentralização e fortaleceu movimentos
independentistas, como o Basco, o Galego e o Catalão. A Nação Espanhola como defendeu
Ortega, é um complexo fruto da história, uma realidade que resulta dos confrontos entre o
homem a tradição e o azar, a nação constrói-se ao longo de um imprevisível processo
histórico, como um complexo de povos que desde há quinze séculos cumprem o seu
destino, conforme citado em Cambó, 1987: 4-5)
Riba (1906) ideólogo do nacionalismo Catalão, dizia que de forma lenta e gradual mas com
firmeza a Catalunha e o Pais Basco, tentaram forçar a Espanha a tornar-se num estado
federal, porém, tal não veio a acontecer, pois o estado espanhol defendeu sempre a
unidade territorial. A identidade da Catalunha era para o autor resultado de uma
sequência de gerações unidas pela língua e tradições da região, sendo a língua o elemento
identificador do ser catalão.
Apesar de o castelhano ser a principal língua oficial de Espanha outras línguas se
mantiveram em uso no país. O Catalão como distingue Walter, (1997) era uma língua
hispânica, que incluía a zona de Rossilhão Francês e separava o reino dos Francos dos
territórios muçulmanos, é um dialeto derivado do latim. É a língua falada desde a região
de Catalunha, até Valencia, Principado de Andorra e ainda nas Ilhas Balleares, e tem uma
enorme vitalidade devido à ligação que os Catalães têm à sua língua.
O Condado de Barcelona com uma configuração idêntica à atual, era no séc. XV uma zona
comercial desenvolvida no extremo da Península Ibérica. A união do condado, com o
Reino de Aragão, favoreceu aquela região tornando-se ao tempo, a coroa de Aragão e a
cidade de Barcelona, num dos mais importantes centros do comércio da rota do
Mediterrâneo. No ano de 1469 com a união das casas reais de Aragão e Castela, pelo
15
casamento de Fernando I de Aragão e Isabel de Castela, o condado passou a incorporar o
vasto território dos reis católicos na Península Ibérica, definitivamente conquistada aos
muçulmanos, perdendo então o condado - com esta união - importância económica e
administrativa, numa época em que os monarcas católicos, instalados na capital em
Madrid, se preocupavam mais com a expansão e manutenção do seu império colonial nas
Américas (Lima, 2017).
Nos séculos seguintes, a acomodação da região da Catalunha num Estado Espanhol
unificado, onde Castela e Madrid se tornaram centrais, fez-se sob contestação latente ou
aberta e com turbulência, pois várias vezes a Catalunha tentou a sua independência,
aproveitando as circunstâncias internas espanholas e/ou internacionais.
Durante a Guerra dos Trinta Anos na Europa (1618-1648) que opôs católicos e
protestantes, motivada pelas rivalidades entre as monarquias europeias (Habsburgos e
Bourbon) pela hegemonia, os catalães revoltaram-se contra a Coroa - naquela que ficou
conhecida pela Guerra dos Segadores, (i.e. dos Ceifeiros) - e num curto período, a
Catalunha alcançou o estatuto de República Autónoma, sob proteção francesa. Conforme
Moita (2012) a guerra terminou com a paz de Vestefália, através da assinatura dos
tratados de Munster e Osnabruck em 1648, que então fixou um novo paradigma nas
relações internacionais entre os estados.
Com a morte de Carlos II de Habsburgo sem descendentes, no ano 1700, e como assinala
Bennassar (1989), a Espanha entra de novo em guerra - guerra da sucessão espanhola - e a
região da Catalunha, apoiou a dinastia dos Habsburgo, em oposição à dinastia dos
Bourbon, vindo a sofrer grande derrota no denominado cerco de Barcelona, em setembro
de 1714. Finda a guerra, com a vitória da Casa de Bourbon, a Catalunha foi severamente
punida, integrada no Reino de Espanha, perdeu a autonomia governativa, foi suprimido o
parlamento, e o uso da língua catalã na região. Este fato foi entendido na época, como um
rude golpe na identidade catalã, e é celebrado no dia onze de setembro como o Dia
Nacional da Catalunha, conhecido também como “Diada”.
No fim do séc. XIX, a Espanha que fora detentora de um grande império colonial, entra
em guerra com os Estados Unidos da América, e perde a favor destes, os seus territórios
no Caribe e no Pacífico. Bennassar (1989) afirma ainda que no início do século, a Espanha
que fora um grande império, defrontava-se então com graves problemas sociais e
económicos, e as divergências estruturais entre as regiões do Norte e do Sul, e entre a
cidade e o campo, contribuíram para o eclodir da agitação social.
As regiões Basca e Catalã, beneficiadas pelo contexto geográfico - ambas fazem fronteira
com França - apresentavam um desenvolvimento industrial e um proletariado em
expansão, mas confinavam com regiões com um campesinato pobre, desprovido de terras
e profundamente católico, o que então foi terreno fértil para o surgir de movimentos
16
libertários, a par do que aconteceu pela Europa, (Salvadó, 2008). O envolvimento
posterior da Espanha na guerra com Marrocos na chamada Guerra do Rife, entre 1920 e
1927 para salvar os seus territórios em África, foi o golpe final do império, com o
desaparecimento de grande parte da frota da marinha marcante espanhola, e de muitas
vidas.
Quando em 1931 foi instaurada a IIª República na Espanha, a Esquerda Republicana
da Cataluna (partido político de esquerda) estabeleceu um acordo com a classe operária
catalã e com a pequena burguesia e os ideais nacionalistas tornaram-se a força dominante
na região. Em 1932 com a pressão popular expressa num referendo o governo espanhol de
então aprovou um estatuto de autonomia que por um breve período devolveu à Catalunha
as suas liberdades e um governo independente, mas a aceitação das exigências de Catalães
e Bascos na época, foi um dos motivos que esteve na base da insurreição militar que
despoletou a guerra civil espanhola (Castells.2018).
De acordo com o Real Instituto Elcano (2019), a Espanha passou assim por um
processo turbulento nos séculos XIX e XX, com o crescimento de fortes identidades
alternativas em competição, especialmente na Catalunha e no País Basco, que nunca
foram "independentes" no sentido moderno, mas partes integrais da monarquia
Espanhola. Considera que o nacionalismo na Catalunha esteve associado à população
rural e a uma burguesia moderna, vivendo a região dois processos: industrialização,
marcado pela posição geográfica próxima à França, uma estrutura estatal espanhola com
mercado interno fraco, mas extenso, e a “renaixença” movimento refletido na expansão da
língua, literatura e cultura catalãs.
Assim se enraizaram na Catalunha os ideais libertários e de esquerda, e a região
aliou-se durante a guerra civil que se seguiu, às forças republicanas contra os
nacionalistas-falangistas, e foi um dos principais palcos da resistência antifascista, como
retrata Orwell (1938) - ele próprio que então integrou as fileiras do POUM (Partido
Operário da Unificação Marxista).
A guerra civil espanhola, que eclodiu no período 1936-1939, foi sem dúvida, um conflito
interno, mas também foi um conflito internacionalizado - como afirma Moradiellos (2016:
1-6) devido à analogia essencial entre a crise espanhola que deu origem à guerra, e a crise
europeia geral que durou durante o período entre 1919-1939, quanto à “sincronia-tempo
entre o desenvolvimento da guerra espanhola e a crise europeia final, que levou à Segunda
Guerra Mundial”. Os mitos sobre a Guerra Civil que Moradiellos (2016) apresenta, são em
essência, “duas grandes visões opostas: o mito da Guerra Civil como um ato épico e
heroico, que se deve louvar e lembrar; e o mito da Guerra Civil como loucura trágica
coletiva, que se deve lamentar e esquecer”.
17
Conforme afirma ainda Moradiellos (2016: 1-6) o mito de mobilização da guerra, no caso
de Franco, assumiu a forma de “uma batalha entre uma Espanha cristã e uma anti
Espanha ateia, sublinhando assim as dimensões nacionais e religiosas do conflito”. Já no
caso republicano, o autor afirma que “a guerra respondeu a uma luta secular entre os
proletários oprimidos e os opressores burgueses, entre democratas antifascistas e
reacionários fascistas”. Com a vitória de Franco em 1939 termina a guerra civil dando
lugar a mais de três décadas de ditadura militar, e mais uma vez, à repressão da
autonomia da cultura e língua catalãs. Milhares de opositores foram executados, e outros
milhares foram presos e torturados na Catalunha, durante o reinado ditatorial de Franco,
vigorando então um nacionalismo de caráter impositivo, e a Espanha mergulhou na
ditadura, virada para si própria, sob os ideais militaristas e corporativistas, da repressão e
da censura do nacional catolicismo, que haveria de durar até a morte do ditador em 1975.
Na região da Catalunha, para controlar mais facilmente a região, Franco impôs a divisão
da região em 4 áreas, para facilitação do seu controle diante da região, tomando as
seguintes medidas:
A violação de qualquer medida poderia acarretar em pena de morte. Além do mais, foi
imposto que nomes e sobrenomes de origem catalã fossem substituídos por nomes
castelhanos, assim como os nomes de ruas e praças. Empresas locais foram boicotadas,
e o nome “unya” passou a ser “Cataluña”, fazendo referência a letra “ñ” existente
Tavares (2017:44) afirma que houve uma evolução do movimento de secessão catalão,
iniciando-se como um movimento cultural, avançando para o âmbito político, que assim
arrasta consigo o caráter independentista:
O caso nacionalista da Catalunha remonta ao século XV, porém as ocorrências
18
ditaduras e até o surgir de novos atores, como a União Europeia, que acarretam
etnicidades diferenciais em muitos dos seus territórios, facto que se deve sobretudo
(1995: 519)
Após a morte de Franco , a transição do regime de ditadura para a democracia fez-se entre
os reformistas dentro da ditadura sem uma revolução - como aconteceu em Portugal - pelo
que permaneceram nas instituições do governo os militares e partidários do regime, que
obedeciam a Franco - porque estes ainda controlavam o poder - e Juan Carlos de Bourbon,
então exiliado em Cascais com a família, é coroado Rei por determinação testamentária de
19
Franco, e apresentou-se como Rei de todos os espanhóis, e chefe de uma monarquia
democrática.
O Reino da Espanha apresenta-se, desde a transição democrática , que ocorre no período
compreendido entre o fim do governo de Francisco Franco, em 1975 e a Constituição de
1978, como um Estado de Direito social, em que a soberania nacional reside no povo
espanhol, de quem emanam os poderes do Estado, sendo a sua forma política uma
democracia parlamentar e uma monarquia constitucional como ficou plasmado no
Boletim Oficial do Estado nº 311 de 29 de dezembro de 1978:
As Cortes aprovaram e o povo espanhol ratificou a sua constituição, pela qual a Espanha
se constituiu como um estado social e democrático de direito, que propugna como valores
superiores da sua ordem jurídica, a liberdade, a justiça, a igualdade e o pluralismo
político. A Espanha como Estado fundamenta-se na indissolúvel unidade da nação
espanhola, pátria comum e indivisível de todos os espanhóis, a qual reconhece e garante o
direito à autonomia das nacionalidades, e regiões que a integram, e a solidariedade entre
elas, sendo o castelhano a língua espanhola oficial do Estado Espanhol. As demais línguas
espanholas, serão também oficiais nas respetivas comunidades autónomas, de acordo com
os seus Estatutos. A riqueza das distintas modalidades linguísticas de Espanha, é um
património cultural objeto de especial respeito e proteção. A solução constitucional assim
encontrada em 1978, após o Franquismo, baseia-se num regime territorial descentralizado
e autonómico, na busca de “desenvolver uma complexa estratégia de equilíbrio, entre as
conservadoras chefias militares franquistas, a maioria de uma sociedade que ansiava pela
abertura política, e as aspirações de nacionalistas catalães e bascos.” (Romão, 2016ª: 60)
A divisão do território foi materializada com a constituição de dezassete Comunidades
Autónomas - entre elas a Região Autónoma da Catalunha, e duas cidades também
autónomas - Ceuta e Melila no Norte de África - cada uma delas com diferentes graus de
autonomia. O acordo de transição de regime, ficou assim aquém das expetativas de
Catalães e Bascos - as duas regiões periféricas espanholas - cuja cultura, identidade, e
desenvolvimento económico são marcadamente diferentes das restantes regiões
autónomas espanholas.
Esse sistema autonómico, conforme defende Seixas:
VIII da Constituição consagra o sistema autonómico, que constitui “um café com leite
20
para todos”, uma solução temporal recebida mais como um programa mínimo, do que
Com a transição e a divisão territorial que se seguiu, e como o salienta Romão (2013b: 68),
“poderíamos considerar que o processo de democratização territorial acabou por
constituir um jogo de soma positiva para as várias partes envolvidas”. Madrid, a capital do
Estado, ganhou porque nas últimas décadas se transformou no grande centro económico e
político do novo Estado democrático, concentrando sedes e representações de grandes
empresas nacionais e multinacionais, e ao mesmo tempo manteve o papel de capital e sede
do poder político estatal. Ganharam as diversas comunidades autónomas que
beneficiaram com a descentralização, o que permitiu aos novos órgãos regionais poderem
estabelecer-se como polos de atração, e beneficiaram as duas nacionalidades Basca e
Catalã - as principais identidades nacionais - o que acabou por se revelar muito
importante na sua consolidação e fortalecimento.
Porém, como refere o autor, os órgãos políticos das comunidades autónomas atuam no
quadro de um Estado-nação autonómico, que não assume a sua pluralidade interna,
embora reconheça a pluralidade nacional espanhola, e daí resulta um complexo sistema de
governo que se traduz em duas identidades - a espanhola - que pela dimensão e por razões
histórico-políticas, domina na política, na cultura, e na economia; e as duas identidades
particularmente fortes - a basca e a catalã.”
Romão (2012) conclui assim que o pluralismo identitário dos nacionalismos Catalão e
Basco ilustram a enorme complexidade e a importância determinante que a relação entre
Estado, nação e nacionalismo pode adquirir, e a importância que a identidade nacional
adquiriu como base do Estado. O fato de Espanha dispor de uma realidade plural,
consubstanciada na existência de diferentes nacionalismos no território da mesma
unidade política, dificultou o processo de expansão e de consolidação do Estado-nação.
Desta forma, verificamos como os nacionalismos - catalão e basco - se distinguem do
nacionalismo espanhol - ao reivindicarem uma identidade autónoma distinta da
espanhola, ganham força para a sua atuação diante da Constituição que defende a
unidade, mas ao mesmo tempo se mostra flexível, resultando numa descentralização cada
vez maior do poder do Estado frente às comunidades autonómicas. Esta descentralização
ocorreu gradualmente, com as comunidades a assumirem serviços públicos como saúde e
educação, no entanto há uma grande tensão entre o governo central e o governo das
comunidades autonómicas, desde logo porque embora algumas tenham mais autonomia,
como o país Basco e a Catalunha, e esta até dispõe das suas próprias forças policiais, a
maioria das comunidades não possuiu autonomia fiscal. Este foi um dos fatores essenciais
no crescimento na Catalunha do movimento independentista.
21
A Região Autónoma da Catalunha exerce assim o seu autogoverno de acordo com a
constituição espanhola e o seu estatuto autonómico, sendo o seu sistema institucional de
organização, designado “Generalitat de Catalunya”. (Boletim Oficial do Estado nº 238,
5/10/1977), com um Parlamento eleito, cujos parlamentares elegem um governo para
dirigir a região. No caso catalão, a língua representa a expressão básica nacional - o que
explica os esforços que a região realizou desde a década de 1980, quando lhe foram
atribuídas competências em educação - e que se traduziu na "obrigatoriedade" do catalão,
tanto na esfera pública, como privada, sendo considerado a língua oficial da região (cit. in
Navarro Marcos, 2013).
Restaurado o seu estatuto autonómico, e reconhecido o catalão como língua oficial do
território em 1979, e reforçado em 2006, a Catalunha partiu para a consolidação da sua
identidade tradição e culturas únicas, beneficiando da transição democrática, do turismo,
dos Jogos Olímpicos de Barcelona (1992) e do próprio clube futebol da cidade - FC
Barcelona - para assumir com orgulho a singularidade da existência catalã e o seu desejo
de autodeterminação.
Com a crise económica internacional, a partir de 2008, verificou-se o renascimento do
movimento independentista catalão, e uma série de braços-de-ferro entre a Generalitat -
designação do governo da região da Catalunha - e o Governo de Madrid, motivados por
um lado, pela declaração de soberania do Parlamento regional em 2013, pela consulta
popular à independência em 2014, e pela adoção de uma resolução preparatória para o
projeto secessionista catalão em 2015. Segundo Subirats & Sáez (2012: 515-516) o
movimento independentista aproveitou-se da crise económica “para colocar a sua
reivindicação no meio do debate público, arrastando grande parte da elite do nacionalismo
político/catalanismo, para se posicionar, teoricamente e praticamente, em direção à
possibilidade de a Catalunha ganhar estruturas estatais.” Verificamos assim que o
enfraquecimento da soberania estatal é acompanhado pelo surgimento de outros atores
não estatais.
Nos últimos anos o movimento nacionalista catalão ganhou outra característica. Os
nacionalistas- independentistas catalães denunciam que a Catalunha está submetida a
uma exploração económica por parte do estado espanhol, principalmente no que se refere
ao déficit da balança fiscal da Catalunha, entendendo que a região recebe muito menos do
que contribui em matéria de impostos. A Catalunha reclama historicamente um maior
nível de autonomia, quer no domínio legislativo quer em matéria de poder executivo,
judicial, cultural e económico. O discurso independentista ganha força quando a crise
económica se aprofundou na Espanha a partir de 2008, em consequência da crise
económica internacional, que afetou os países europeus, principalmente a Irlanda, Grécia,
Portugal e Espanha.
22
Veremos a seguir a importância da Catalunha no contexto da economia espanhola e como
esse fator foi primordial no crescimento do movimento separatista catalão.
A região da Catalunha (dados do Instituto Nacional de Pesquisa da Espanha, INE, 2018),
compreende um território com a área de 32.114 km², e uma população de cerca de
7.619.494 habitantes (Instituto de Estadística de Cataluña, 2019) o que representa cerca
de 16,2% da população de toda a Espanha, e carateriza-se por um clima temperado
mediterrânico, com temperaturas altas no verão, e invernos húmidos. Situada no extremo
leste da Península Ibérica, a região é limitada a norte, pela Andorra e França (região dos
Pirenéus Orientais e Ocitânia), ao sul pela Comunidade Valenciana, a leste pelo mar
Mediterrâneo, e a pela província de Aragão, composta pelas províncias de Barcelona -
sendo Barcelona a capital, e a segunda maior cidade do país - Girona; Tarragona e Lérida.
A Catalunha, é a comunidade que mais contribui para o PIB de Espanha, com cerca de
19% do total, segundo dados da OCDE (Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Económico), sendo o fator económico um dos fatores principais na
motivação dos catalães para a autonomia em relação à Espanha.
Além da sua representatividade, destacam-se ainda as Comunidades de Madrid (com
contribuição de 19% do PIB), seguido pela Andaluzia (13,3%) e também, a Comunidade
Valenciana (9,3%). Estas quatro comunidades, representaram 60,6% do PIB espanhol em
2018, sendo que o peso relativo de cada Comunidade Autónoma, no conjunto da economia
espanhola, não sofreu grandes alterações nos últimos dez anos. (Instituto Nacional de
Pesquisa da Espanha, INE, 2018). Dispõe ainda de uma estrutura industrial bastante
diversificada, pelas áreas; têxtil, automóvel, plásticos, produtos químicos (grupo
petroquímico de Tarragona), setor farmacêutico, a eletrónica avançada, maquinaria e
equipamentos mecânicos, metalurgia e produtos metálicos, papel, novas indústrias de
biotecnologia, energias renováveis, e de reciclagem, mantendo ainda forte produção
agrícola, batata, azeitona, vinhos, cereais e milho. (AICEP, 2017)
Relevante é também a representatividade do turismo na Catalunha, (Generalitat de
Catalunha, 2018) que nada data representou, em receita, 20.606 milhões de euros. As
praias da costa brava e costa dourada, as estações de esqui, a gastronomia, os museus, as
suas referências culturais, os edifícios emblemáticos, a própria conceção arquitetónica da
cidade de Barcelona, já há muito, que colocaram a região como primeiro destino dos
turistas na Espanha, com um incremento entre 2017 e 2018 de 7,2% nos gastos dos
turistas na região catalã.
Conforme dados da AICEP (2017), os serviços, o comércio, a energia, transportes, as
telecomunicações e os serviços financeiros, são atividades que representam mais de 60%
do Valor Acrescentado Bruto (VAB) Catalão. Entre as atividades terciárias em crescimento
estão incluídos, os serviços de saúde e sociais, TIC, os meios de comunicação, os
23
audiovisuais, a logística, o turismo e a educação. De acordo com dados da AICEP (2017), a
Catalunha é a Comunidade Autónoma Espanhola com maior número de centros logísticos,
que cobrem mais de trezentos hectares na zona de Barcelona. Dispõe de uma extensa rede
de estradas e caminho-de-ferro, incluindo a rede de alta velocidade Barcelona - Madrid.
Apesar do peso na economia, a região não tem autonomia fiscal face ao governo central
espanhol, sendo este um dos motivos para a descentralização territorial, que como salienta
Romão
A despesa é descentralizada, mas a geração de receita é, em grande parte, centralizada.
Desta forma, controlar a despesa pública tem uma complexidade acrescida, por implicar
que o governo central tenha de forçar as quinze comunidades autónomas - que dependem
das suas transferências - a levar a cabo políticas restritivas em matérias de competência
própria (saúde e educação, entre outras). (2016ª: 60-61)
Após a crise económica internacional de 2008, o discurso independentista catalão
endurece, como anota o mesmo autor:
Madrid. O governo espanhol, primeiro com Rodríguez Zapatero e depois com Mariano
Rajoy, recusa-se a negociar este quadro e, à medida que a austeridade se vai fazendo
sentir com mais força, a dialética da secessão amplifica-se. O tabu quebra-se em 2012,
o direito que os catalães terão a decidir acerca da própria soberania Romão (2016ª: 60-
61)
24
reivindicou entre outras competências, a criação de uma agência tributária própria, e o
reconhecimento da Catalunha como nação.
Verificamos assim, como reforça Castells, que:
na condição de uma comunidade cultural organizada em torno da língua e de uma
história compartilhada, a Catalunha não representa uma entidade imaginada, mas sim
cada contexto histórico e relacionado aos seus próprios projetos políticos. (2018: 101)
25
Capítulo II - A singularidade do caso
independentista catalão: de um processo em
construção ao referendo de 2017 - uma tensão
manifesta
Neste capítulo procederemos à análise do referendo realizado na Catalunha, privilegiando
dados recolhidos em “Resultados do referendo-Governo da Catalunha”, uma vez que aqui
chegados nos confrontamos com um excesso de informação mediática, de natureza diversa
e tendenciosa relativamente à posição a favor ou contra a realização do referendo pelo que
com pouco rigor relativamente ao fenómeno em estudo. A nossa opção pretende
responder à credibilidade e fiabilidade dos dados a tratar. Para a análise de dados
recolhidos na fonte governamental mobilizamos o pensamento de autores que
enformaram o conhecimento do contexto socio-histórico e jurídico-político em que
emergiu o referendo. Subjacente ao estudo de caso do referendo está a teoria
construtivista em Relações Internacionais que descreveremos neste capítulo.
A leitura que nos propomos fazer do referendo inscreve-se numa perspetiva construtivista
das Relações Internacionais. Assim, a perspetiva construtivista pode contribuir para
explicar os problemas estruturais da organização da Espanha - dicotomia estado central e
autonomias - na medida em que como defende Wendt (1999) o que constitui os agentes
são a sua identidade e interesses. Para o autor, o tipo de identidade ditará os interesses
dos atores, e como as identidades têm diferentes graus de conteúdo cultural, os interesses
também. Como ainda sustenta Wendt (1999), as crenças que os estados mantêm entre si
determinam a política internacional - e essas ideias são construídas em grande parte por
meio de relações sociais e não de realidades materiais. O poder e os interesses são
importantes na política mundial, mas o conhecimento compartilhado determina a sua
importância para decidir se os estados optam pelo equilíbrio, pela cooperação ou pelo
conflito.
26
O construtivismo representa a lógica transformadora das ideias e das mútuas relações de
construção, e como defende Checkel (citado por Reis, 2017: 85) …“o comportamento dos
estados é formado por crenças identidades e normas sociais. Os indivíduos dentro das
coletividades formam e mudam a cultura através das ideias e práticas”. Na perspetiva
construtivista e como salienta Reis (2017: 85) as normas, ideias, identidades e interesses
podem mudar.
Os agentes e a estrutura operam na mesma relação - homem e o meio, o indivíduo e o
contexto - em que os agentes são os Estados, enquanto a estrutura é o próprio cenário
internacional. Os estados interagem de maneira constante revelando as complexidades de
cada uma das partes, com as limitações das suas esferas específicas.”
Reis sublinha que o poder é um conceito problemático no âmbito das Relações
Internacionais, e traduz a capacidade de os sujeitos (Estados) influenciarem
comportamentos através de instrumentos como trocas e recompensas, pela diplomacia ou
até pela coação, existindo uma relação de poder através do controlo, dominação, ou
imposição, sobre os recursos disponíveis.
Neste contexto, analisaremos o referendo como parâmetro para a secessão de uma região
perante o seu estado-nação, enquanto negação das normas de um estado de direito,
através da participação direta dos cidadãos. Consideraremos pela perspetiva
construtivista, que as relações sociais e identidades são construídos socialmente através de
uma conjuntura de fatores, segundo a qual e de acordo com Onuf (2013: 4) “as pessoas
fazem a sociedade e a sociedade faz as pessoas”. Segundo o autor, as regras sociais servem
de ferramenta, para que haja continuidade e reciprocidade da composição entre povos e
sociedades, sendo o objetivo geral deste trabalho, a análise de fatores endógenos que
levaram ao crescimento e evolução do nacionalismo catalão, e como através destes se
desenvolveu a construção social enfatizada na secessão da Catalunha perante a nação
espanhola.
O referendo relativamente à sua natureza jurídica, não é um ato de soberania é um
instrumento pelo qual o povo controla as ações dos seus representantes e para o qual são
convocados a votar todos os espanhois de todas as comunidades.
O referendo foi a materialização de várias tentativas feitas pela Generalitat da Catalunha
para forçar o governo de Madrid a aceitar as reivindicações da comunidade catalã,
designadamente na aprovação do seu estatuto de autonomia, que como Maron (2019)
assinala se operou em seis momentos chave:
Em 2010 quando da decisão do tribunal constitucional que declarou nulos 14 artigos
daquele estatuto; à qual no mesmo ano se seguiram manifestações públicas contra a
sentença de 10/07/2010 do Tribunal constitucional, sob o lema somos uma Nação; em
11/9/2012 seguiu-se uma manifestação pública convocada pela Assembleia Nacional de
27
Catalunha onde se declarou a Catalunha como um novo estado; em 2014 quando o
congresso de deputados rejeitou uma proposta de lei votada no Parlamento Catalão para
atribuição de competência a este organismo para convocar e realizar um referendo sobre o
futuro político da região; e finalmente em 2015 quando o Tribunal constitucional declarou
a inconstitucionalidade da declaração da Assembleia da Catalunha da lei de desconexão
com Espanha. Ainda que o grande motor/ator do independentismo se tenha centrado
inicialmente no governo, com o apoio dos partidos de esquerda, na verdade o apoio
popular da comunidade foi determinante na consolidação da ideia da realização do
referendo, pois em 11 de setembro de 2015, em Barcelona realizou-se uma manifestação
que encheu as ruas da cidade por vários quilómetros, e o governo catalão foi chamado a
responder por este acontecimento.
Após as eleições de 2015, a Catalunha começou a pensar na possibilidade de criar uma
república catalã, e a estudar a possibilidade de realização de um referendo vinculante para
o mês de outubro. Mariano Raroy – Primeiro-Ministro naquela data - fez então um apelo à
justiça e o tribunal proíbiu a realização do referendo por ser ilegal, assim como proíbiu
qualquer tipo de propaganda ou informação para promover aquele acontecimento.
No dia do referendo (1 de outubro de 2017) a polícia usou a violência contra os eleitores, o
que dificultou bastante a realização do referendo mas não chegou a inviabilizá-lo. Como
foi então divulgado pelo governo cerca de oitocentas pessoas ficaram feridas, mas
aproximadamente 62% da população votou e o “Sim” ganhou com 90,09%. A população
catalã e a comunidade internacional reprovam a violência com que a polícia espanhola
atuou na Catalunha. A 20 de setembro de 2017 a polícia espanhola, de modo a travar o
referendo, prendeu vários políticos independentistas do governo catalão. Depois deste
ataque ao governo catalão iniciou-se uma resposta a vários níveis, jamais sentida antes
pela Espanha. Podemos ver que a realização do referendo resultou de uma construção
pacífica da comunidade catalã ao buscar uma forma de manifestação direta da vontade
popular quanto á sua acomodação.
Considerando os princípios da teoria construtivista e conforme referimos, perspetivamos o
fator identitário, baseado nas ideias, crenças e valores as quais são fatores essenciais para
construir, consolidar e materializar as vontades sociais. Conforme salienta Castro (2012) o
construtivismo baseia-se na lógica transformadora das ideias e das mútuas relações de
construção e (co)construção tendo como validade a pertinência dos processos-meios
utilizados para tal fim. O pensamento, as ideias e os valores, possuem uma força maior
que as estruturas materiais disponíveis; as crenças intersubjetivas representam os meios
(canais) por ondem passam os fluxos de relacionamento internacional; e por fim, as ideias
fazem parte da construção dos interesses das identidades e da consciência partilhada dos
agentes internacionais. Para este autor as principais correntes teóricas centradas na
28
tradicional dicotomia realismo/liberalismo apenas mascaram velhas e revelam novas
formas, de opressão e de desigualdade entre os atores internacionais. Não existirá
verdadeiro reformismo na cena internacional, até que novas lógicas e novas práticas sejam
aplicadas nas estruturas das Relações Internacionais contemporâneas.
Ou seja, o construtivismo associa a forma de mútuas ações com o processo dinâmico
envolvendo agentes e estrutura de maneira a construir o ethos das Relações
Internacionais.
Para Wendt (1999), o mundo lá fora passa por etapas de construção social com base em
valores e ideais. Wendt é um autor estatocentrista, isto é, advoga a importância
insubstituível do Estado. O Estado é o prumo, meio e fim das ações internacionais. O
argumento central deste enquadramento concetual em que a realidade é socialmente
constituída, e as ideias têm um papel central na construção de identidades e interesses das
sociedades, e os interesses são responsáveis por ações, políticas, condutas, normas e
valores. As ideias e o diálogo compartilhados, ajudam a moldar os interesses e a
capacidade dos estados gerando tendências no sistema internacional.
Wendt considera que:
Na medida em que os interesses sejam constituídos por crenças nós podemos ter mais
externa, e até para a mudança estrutural que seriam ignorados por uma abordagem
29
uma comunidade moderna rica e multicultural que não está subjugada e até tem
autonomia governativa.
Conforme salienta Portas, (2019) 1 a questão identitária é muito complexa em Espanha.
Para ele em termos comparativos, Portugal é um Estado-nação e toda a gente se sente
portuguesa sem questionar isso. A Espanha não é um Estado-nação, nunca o foi, pois
como ele defende a Catalunha está dividida a meio: entre 45% a 50% dos catalães não se
sentem espanhóis. Isso não é coisa que se possa mudar por via judicial. Portanto, se é
verdade que o referendo foi ilegal e não cumpriu as normas mínimas democráticas, a
questão é que não se resolvem problemas políticos pela via judicial e essa é a maior
contradição neste processo.
Como reforça Verdu (2020), a frustração gerada pelo fracasso de uma via fideralizante na
divisão do território com a criação das autonomias (que não aconteceu), é a explicação -
sem negar outros fatores como a crise económica e os interesses das elites politicas e
culturais - para o salto que em poucos anos se deu de um catalanismo autonomista e
gradualista, para uma formação soberanista independentista que reclama o direito de
decidir o seu futuro enquanto comunidade. Reduzir a mudança radical da opinião pública
catalã a mera manipulação propagandista ou a uma manifestação da supremacia da região
mais rica é um engano quanto às razões e sentimentos que subjazem ao conflito. O autor
defende que o crescimento da mobilização popular foi além dos defensores do
independentismo, incluindo população que simplesmente reclama uma nova forma de
relação com o estado espanhol por considerar esgotado o modelo de estado de
autonomias. O que parece unir os cidadãos é uma reivindicação comum que apela ao
princípio democrático de reconhecimento de uma comunidade política, que reclama o
exercício do direito a decidir a sua acomodação no estado espanhol.
A questão identitária do povo catalão refere-se a um pertencimento que não interage com
o nacionalismo ou com uma identidade espanhola. E quanto às normas, mesmo que essas
sejam apena regras sociais e não legais, são essas que constituem e/ou transformam o
processo identitário, como analisa Onuf (2013)
1Portas, P. (2019). Este é o momento mais grave da história democrática espanhola. Disponível em:
[Link]
democratica-espanhola
30
um terceiro elemento; as regras, que sempre unem os outros dois elementos. As
regras sociais tornam o processo pelo qual as pessoas e a sociedade se constituem
contínuas e recíprocas. (2013: 4)
Podemos ver como o processo do referendo trouxe ações influenciadas pela vontade da
Catalunha, em reforçar a identidade catalã através da construção social que na Teoria do
Construtivismo, tem na sua base esferas de influência, que podem vir acompanhadas de
regras e diretrizes informais. Nessa linha de pensamento Miguel Iceta - independentista
do PSC - defende que “quando uma norma já não encontra eco na realidade social vigente
deixa de ser útil á sociedade”
Como assinala Mendes (2012) o fim da Guerra Fria proporcionou o desenvolvimento de
um novo pensamento no estudo das Relações Internacionais, onde a discussão sobre a
mudança e sobre o papel das ideias passou a ser central. Estas questões colocam se
relativamente à interpretação da realidade existente e às entidades que compõem o
mundo, bem como sobre quais as melhores formas de podermos explicar e compreender o
mundo. O construtivismo facilitou uma importante evolução, ao motivar o abandono do
estilo de debates bilaterais pouco comunicativos e a adoção de um novo estilo de debate
multilateral altamente comunicativo. Este novo estilo de comunicação permitiu o
surgimento de um determinado consenso relativo à assunção defensora do
desenvolvimento de uma construção teórica com base no diálogo e na criação de sínteses
evolutivas interparadigmáticas.
Durante o governo do partido popular de José Maria Aznar -1996 e 2004 - assistiu-se em
Espanha a forte confrontação entre o governo de Madrid e as suas comunidades,
sobretudo nos anos em que o PP governou com maioria absoluta, cujo eixo de governo
passou por recentralização de competências, discursos com base na unidade e coesão
territorial, interpretação rígida da constituição, ao tempo com o apoio do partido no poder
na Catalunha - CIU (Convergencia I union) - e por esta altura a Catalunha perdeu
capacidade de reivindicação da sua autonomia. (conforme citado em Borges, 2004).
No ano de 2004, com a vitória do PSOE e, com José Luiz Zapatero na liderança, os
socialistas retomam o poder em Madrid. Essa vitória representou uma modificação na
orientação política espanhola, proporcionando um maior diálogo entre os distintos
partidos, além de um discurso mais tolerante. Efetivamente com Zapatero, a reforma dos
estatutos de autonomia seguiu o seu processo, primeiro com aprovação no parlamento
31
regional da Catalunha para depois seguir para aprovação em Madrid, onde a pedido do PP
é apresentado recurso sobre a constitucionalidade de algumas normas do estatuto
Nas eleições para o parlamento da região em 2004, a CIU perdeu o poder, a ERC
(esquerda republicana da Catalunha) e o PSC foram as forças vencedoras, defendendo a
ERC uma Catalunha independentista republicana e livre, afirmando então que em 2014 a
“Catalunha seria um país no contexto europeu”, tornando assim mais complexas as
negociações com o governo.
Em 2011, com a crise económica instalada já desde 2008, o PSOE de Zapatero perdeu as
eleições e o PP foi de novo o mais votado assumindo o governo Mariano Rajoy.
Durante os dois mandatos deste, as relações entre o governo e a comunidade autónoma
Catalã agravaram-se num braço de ferro entre as duas partes, que culminou num
referendo protagonizado em um de outubro de dois mil e dezassete pelas forças
independentistas, considerado ilegal face à constituição espanhola, conforme já visto
anteriormente, tendo o referendo sido efetuado com base no apoio popular e da base
catalã no governo.
Como Romão afirma, a complexidade no sistema de partidos espanhol apresenta três
clivagens entre as formações, no parlamento Espanhol:
Desde 2015 que a maioria do Parlamento Catalão é independentista, com a coalizão dos
partidos ERC (Esquerda Republicana da Catalunha), PDECAT (Partido Democrata
Europeu Catalão) e CUP (Candidatura de Unidade Popular), o que aumentou as
perspetivas de possíveis atuações no cenário interno na busca de movimentações que
tivessem como finalidade uma possível independência Catalã.
Chegamos a 2019 de novo com o PSOE no governo - após quatro eleições - sem maioria e
com o apoio dos partidos de esquerda, com a Catalunha ainda sem o estatuto aprovado
reivindicando a sua independência de Espanha.
Constatamos que Espanha atravessa um desafio complexo no seu percurso constitucional
enquanto estado-nação, que ficou aliás espelhado nos resultados das últimas eleições
legislativas de 11 de novembro de 2019:
32
Figura 1 - Resultados das eleições legislativas de 11/2019
Verificamos que o PSOE (socialista), liderado pelo atual primeiro-ministro Pedro Sanchez,
venceu as eleições legislativas em Espanha, mas perdeu representação no Parlamento e
não conseguiu maioria para governar. Os socialistas do PSOE elegeram 120 deputados; o
PP (direita) conseguiu 88 deputados; o VOX (extrema-direita), elegeu 52 e passou a ser a
terceira maior força no parlamento espanhol. O partido Ciudadanos (direita liberal) caiu
para 10 lugares; a esquerda com a coligação Unidos Podemos (extrema-esquerda) passa
para 35 deputados. Juntando aos votos do PSOE, os dois partidos passam a ter assim 155
deputados. Serão assim os partidos de esquerda a ter a maior parte dos votos, face aos
partidos de direita, mas nenhum chega aos 175 necessários para a maioria. Os dados da
abstenção indicam que houve uma participação de 69.87%, o que revela a exaustão do
eleitorado, já que esta foi a quarta eleição legislativa, em quatro anos.
Como resulta do quadro das eleições de 11 de novembro de 2019, o PSOE, não obteve
maioria para governar, e acabou por tomar posse e constituir governo com o partido
Podemos de Pablo Iglésias e o apoio dos partidos de esquerda/ nacionalistas da Catalunha
ainda sem o estatuto aprovado e reivindicando a independência da região.
Durante quase quarenta anos como salienta (Romão, 2017) a Espanha foi governada por
cinco maiorias absolutas de um só partido – PSOE 1982, 1986, 1989; e PP 2000 e 2011 – e
por seis maiorias relativas robustas – UCD 1977 e 1979; PSOE 1993, 2004 e 2008; e PP
1996. Esta realidade proporcionou durabilidade aos respetivos executivos, porém as
eleições europeias de 2014 vieram contrariar este bipartidarismo. Nessas eleições o
Partido Popular venceu, mas perdeu votos e eleitos em relação às eleições anteriores com
menos oito eleitos em relação a 2009, e o partido Ciudadanos (centro-direita) fundado em
33
2006 na Catalunha, em oposição ao avanço das teses nacionalistas e soberanistas na
região, obteve quase meio milhão de votos e conseguiu eleger dois eurodeputados. Isto
veio demonstrar o desgaste do eleitorado à esquerda e à direita.
Verificamos assim que a Espanha alternou entre o PP (direita) e o PSOE, (socialista) num
modelo de estado unitário e comunidades autónomas cujos estatutos se mostram
desajustados face às atuais necessidades e interesses revindicados pelas diferentes
comunidades, sobretudo as que do ponto de vista económico têm maior peso na economia
espanhola. Como argumenta Wendt (1999), as ambições, medos e esperanças, conduzem a
evolução social e não as forças materiais como tais.
No pensamento de Freijedo & Corral, (2018) o designado Process (processo soberanista)
foi iniciado pelas autoridades da Catalunha - Generalitat - cuja primeira formalização
ocorreu com a «Declaração de Soberania e o direito de decidir do Povo da Catalunha»,
aprovada pelo Parlamento em 23 de janeiro de 2013 e declarada parcialmente
inconstitucional pelo Tribunal Constitucional (42/2014, 25 de março). Na sequência de
uma consulta popular organizada á margem da constituição pela Generalitat em
novembro de 2014 e após uma eleição regional como plebiscitária, o novo Parlamento
aprovou a Lei 19/2017, de 6 de setembro, sobre o referendo de autodeterminação, e a Lei
20/2017, de 8 de setembro, sobre a natureza jurídica fundacional da República, também
declarada inconstitucional respetivamente pela STC 114/2017, de 17 de outubro, e pela
STC 124/2017, de 8 Novembro. No dia um de outubro de 2017, foi realizado o plebiscito,
apesar dos alertas do Tribunal Constitucional e advertências do governo de Mariano
Rajoy, sobre a sua inconstitucionalidade. Em 10 de outubro, o presidente da Generalitat
declarou a independência da Catalunha, com a subsequente suspensão da eficácia, visando
ganhar tempo com vista a negociações com o governo. Porém dois dias depois, em 27 de
outubro, o Senado autorizou o Governo a aplicar o art. 155, da Constituição espanhola no
sentido do cumprimento das obrigações regionais e proteger o interesse geral contra um
grave atentado daquela Comunidade Autónoma. Do discurso jurídico-constitucional
presente, fica claro que o direito à secessão unilateral de uma parte do território nacional
não está contemplado no texto constitucional de 1978, nem pode ser exercido sem uma
reforma constitucional prévia, dada a sua natureza incompatível, com a imputação da
soberania ao povo espanhol e com a afirmação da unidade indissolúvel da nação
espanhola consagrada nos artigos primeiro e segundo da constituição. 247-248
Salienta ainda Freijedo & Corral (2018), que é perigoso para a validade da legalidade
constitucional democrática, que, as instituições estaduais se limitem a afirmar a falta de
abrangência constitucional para tal expectativa e a aplicar a coerção jurídica para impor o
ordenamento jurídico vigente. Pouco importa para este efeito, do ponto de vista da eficácia
do sistema constitucional de 1978, essa expectativa de identidade em algumas partes do
34
território espanhol ter uma base histórica, real, ou apenas imaginada pela cidadania que a
sustenta.
Em 2017 com o referendo denominado “referendo de autodeterminação” realizado pela
Catalunha, 2,044 milhões de pessoas votaram a favor do independentismo, representando
90,18% dos eleitores votantes. Os votos contrários representaram 7,83% dos votos, com
177.547 votos. Votos brancos e nulos representaram 64.632 votos. No entanto, a
participação dos eleitores foi de 43,3% dos eleitores registados 2. Como se revelou na data
do referendo, o governo espanhol já havia declarado a ilegalidade e inconstitucionalidade
do referendo, pois de acordo com a Constituição do país, a Espanha é uma “unidade
indissolúvel” nos termos do disposto no artigo 2º.
É importante verificar que os artigos 87 e 92 da Constituição espanhola, preveem as
iniciativas populares e os referendos consultivos, porém, o art. 87 estabelece a
impossibilidade de aprovação de qualquer tipo de lei por parte da iniciativa popular, ao
prever que:
Uma lei orgânica regulará as formas de exercício e requisitos da iniciativa popular para
reservado ao senado.
35
3. Uma lei orgânica regulará as condições e o procedimento das distintas
modalidades de referendo previstas nesta Constituição.
Por outro lado, o artigo 155 prevê os meios para atuação do Governo diante do
incumprimento por parte das comunidades autónomas das suas obrigações constituintes,
com intuito de manutenção da integridade e unidade territorial da Espanha, permitindo
ao Estado intervir nas ações independentistas da região da Catalunha, ao estabelecer que
as regiões autónomas devem cumprir com as obrigações diante da Constituição, pelo que
se uma Comunidade Autónoma não cumprir as obrigações que a Constituição ou outras
leis lhe imponham, ou atuar de forma que atente gravemente contra o interesse geral de
Espanha, o Governo com prévio requerimento ao Presidente da Comunidade Autónoma e,
no caso de não ser atendido, com a aprovação por maioria absoluta do Senado, poderá
adotar as medidas necessárias para obrigar aquela ao cumprimento forçoso das obrigações
ou para a proteção do mencionado interesse geral. A constituição prevê também no artigo
161 que ao Tribunal Constitucional compete conhecer e apreciar recursos sobre
inconstitucionalidades,
O governo espanhol nos dias que antecederam o referendo, afirmou que iria prosseguir
com as medidas necessárias aplicadas de acordo com o artigo 155 da Constituição, caso
houvesse uma declaração de independência da região da Catalunha, e pela primeira vez
como veio a acontecer, o Estado pôde então destituir as autoridades do órgão executivo do
governo autónomo catalão, dissolver o Parlamento da região autónoma, e convocar novas
eleições para a região.
Conforme afirma Abrão:
em separado. (2011: 6)
Analisando as duas forças em conflito verificamos que a tensão se agravou com o braço de
ferro do governo de Mariano Rajoy que não se mostrou disponível para negociação com o
governo da Generalitat, apesar da forte contestação na região, acabando por responder
com os meios ao seu dispôr - intervenção das forças militares e a constituição. Ao
36
revindicarem as suas ambições independentistas, os catalães provocaram o Governo
central de Madrid que respondeu com duras medidas de fortalecimento do Estado
apoiadas inclusive por grande parte da população espanhola. O referendo deu notoriedade
ao movimento independentista a nível internacional, e teve um papel essencial no debate
sobre separatismos e autonomias na política interna espanhola e dentro da União
Europeia.
Zubero (2008: 171) reforça que todas as transformações da organização territorial
espanhola a partir de 1978 foram “na realidade uma tentativa de resposta aos problemas
estruturais derivados das exigências de autogovernarão dos nacionalismos basco e catalão
e em menor medida do nacionalismo galego”. Até ao referendo de 2017, nunca tinha
ocorrido na Espanha democrática a aplicação do art.º 155 da Constituição pelo governo
central.
Fernandes (2017) assinala que a Constituição de 1978 foi realizada em democracia, após o
final da ditadura franquista, com aprovação de todos os espanhóis, na qual também
votaram os catalães, e contém o quadro jurídico fundamental do Estado espanhol,
enquadrado por princípios de respeito dos direitos humanos e das minorias e não prevê o
direito à secessão das suas comunidades autónomas, tendo por base “a unidade
indissolúvel da nação espanhola, pátria comum e indivisível de todos os espanhóis” mas
ao mesmo tempo é reconhecido e garantido “o direito à autonomia das nacionalidades e
regiões que a integram.” Assim a constituição espanhola não contém nenhuma cláusula de
secessão - entendida como direito a autodeterminação das suas comunidades - nem um
procedimento legal para alcançá-la.
Porém não o desconhecendo, os deputados do Parlamento da Catalunha enquanto
representantes da vontade dos catalães, votaram duas resoluções aprovadas pela sessão
plenária do Parlamento, respetivamente no início do X e as XI legislaturas (5 / X de 23 de
janeiro de 2013 e 1 / XI de 9 de novembro 2015, este último aprovado pelo Parlamento
constituído após as eleições do 27 de setembro do mesmo ano). Na primeira proclamaram
a Catalunha como sujeito político e jurídico soberano e o seu direito de decidir, no
contexto de uma Declaração de soberania e direito de decidir do povo da Catalunha. Na
segunda uma resolução sobre o início do processo político na Catalunha em face dos
resultados eleitorais de 27 de Setembro de 2015, onde declararam o início do processo de
criação do Estado Catalão independente na forma de uma república e ainda a abertura de
um processo para preparar as bases da futura constituição do novo estado e do processo
de separação democrática de Espanha. (Maria, 2016:567)
37
2.3. Rutura institucional e consequências pós-referendo
38
de autodeterminação dos povos só contempla situações coloniais, ou dada a prática
internacional, em situações em que uma minoria religiosa, linguística ou cultural seja
sistematicamente perseguida no interior do de um estado. Ora como o autor recorda a
região autónoma da Catalunha goza de ampla autonomia dentro do Estado Espanhol, um
Estado de direito europeu e que oferece aos cidadãos o máximo de garantias democráticas.
Para o autor face ao Direito Internacional, o direito à autodeterminação não pode
constituir a base legal para consultar os cidadãos sobre a sua independência.
O simples fato de terem sido proibidos invalida os resultados da consulta, já que milhões
de pessoas não foram votar não por vontade de se abster (que também é uma opção
política), mas por respeito à lei e às decisões judiciais. Nessas circunstâncias, os resultados
de ambas as tentativas de referendo de independência apresentam um valor jurídico nulo
e um valor político restrito. Apesar de tudo isso a partir de 2010, as autoridades catalãs
implementaram uma estratégia de enfrentamento claro e de desafio ao estado, que acabou
por fazer uso pela primeira e única vez em mais de quarenta anos de democracia, do art.
155 após declaração de independência unilateral em outubro de 2017, bem como a
instauração de processos judiciais aos responsáveis pela promoção dos referendos que
acabaram condenados por crimes de desobediência e sedição e com a fuga á justiça do
Presidente da Generalitat Carles Puidgemont que protagonizou vários episódios jurídico
políticos na Alemanha e na Bélgica onde se refugiou.
Rius (2017) acredita que a estratégia de Mariano Rajoy relativamente ao referendo teve
apoio na tradição dos partidos da direita em Espanha, na tentação histórica por parte do
nacionalismo espanhol de não querer dialogar, mas sim derrotar as aspirações
nacionalistas: “esta é a tentação por parte da direita mais dura do Estado espanhol.” Para
este autor, apenas um quer a rendição e outra que não pode aceitá-la, a Catalunha vive há
muitos anos como um jogo de xadrez, num jogo de ação-reação. Para ele, uma sociedade
pode decidir fazer um referendo, mas há que ter consciência que esta situação é fraturante.
O autor diz que não se pode esquecer que o problema original vem do Tribunal
Constitucional - que recusou um estatuto que foi aprovado nas urnas - da não aprovação
legal de uma decisão votada pelos catalães. Um problema gerado nas urnas deve ser
resolvido nas urnas, a única solução possível é um referendo, mas um referendo que
ofereça todas as garantias democráticas.
Na verdade, após o falhanço do referendo o governo de Mariano Rajoy, aplicou o artigo
155 da constituição, suspendeu o governo da região, e os políticos independentistas que
participaram e organizaram o referendo foram acusados de rebelião e secessão.
Atendendo ao conhecimento construído observamos que os fatores identitários culturais e
linguísticos não deixaram de estar presentes enquanto motores do referendo apesar do
contexto atual se ter tornado mais incerto e da instabilidade social.
39
Considerações finais
Os resultados obtidos decorrem de uma abordagem que reconhecemos ter sido mais de
natureza exploratória. Para aceder à compreensão do caso catalão na sua complexidade,
seria necessário mobilizar outros instrumentos de recolha e de tratamento de informação
que mais se adequariam ao nosso propósito de compreensão do fenómeno de estudo, que
por dificuldades encontradas resultaram nas fragilidades e limitações dele decorrentes.
Como nos ensina Raymond Quivy (1992) as conclusões de uma investigação raramente
conduzem a aplicações práticas e indiscutíveis, o importante é verificar se a investigação
permitiu ao autor conhecer melhor o objeto/fenómeno do seu estudo, e se através da
investigação encontramos respostas para as questões colocadas, e por esse ponto de vista
podemos observar ao longo deste trabalho que os fatores identitários, culturais e a língua
continuam a ser o motor das ações do movimento independentista, quer do lado dos
atores quer do lado das instituições, não obstante os fatores de natureza económica e
sanitária, e também os políticos, se terem tornado agora mais urgentes.
Verificamos também pelo contributo da abordagem construtivista que o referendo
enquanto instrumento com vista a obter uma resolução para a secessão, representou um
falhanço, e resultou num conflito jurídico-político em que ambos os autores extremaram
posições, numa estratégia infrutífera, em que a tensão latente se transformou numa tensão
manifesta para os dois agentes, que na sua interação revelaram as suas complexidades, e
por esse prisma o fenómeno deve continuar a ser objeto de estudo, pela singularidade de
ser um processo em construção dentro da Espanha plural.
Se o movimento independentista na sua singularidade, promoveu um referendo enquanto
expressão da vontade popular e afrontou os preceitos legais do estado de direito Espanhol,
o governo usando dos mecanismos legais ao seu dispor pela primeira vez em quarenta
anos aplicou o artigo 155 da constituição, e não se considerou a possibilidade de
negociação e diálogo, quando como Wendt (1999) defende, as ideias e o diálogo ajudam a
moldar os interesses e a gerar tendências no sistema internacional, como já referimos.
A União Europeia tem estado a acompanhar com preocupação as movimentações da
região “Catalã” quando em busca da independência da Espanha, mas não tomou uma
posição, por respeito ao princípio da realpolitik, de não ingerência nos assuntos internos
dos estados membros da união, e podemos verificar que os estados membros se colocaram
ao lado do estado espanhol e não reconheceram os resultados do referendo nem a
declaração de independência, limitando-se a condenar a violência da atuação da policia no
dia do referendo e nas manifestações que se seguiram.
Questionado sobre o referendo, o comissário europeu para os Assuntos Económicos,
Pierre Moscovici, afirmou que a Catalunha "nunca será membro da União Europeia" caso
40
promova a secessão de Espanha e se torne num Estado independente (Agência Lusa,05 de
Outubro de 2017). Se através da economia a integração europeia resultou na solidariedade
e cooperação política, há um fosso entre países do norte e do sul que em tempos de crise
ameaçam a construção europeia, como salienta Costa (2019), e os resultados eleitorais de
partidos nacionalistas contrários aos ideais da União demonstram o descontentamento
face às políticas desta, como defende Solier (citado por Costa, 2019: 64) para quem a
unidade da europa é ainda uma ideia e não uma realidade.
A propósito da importância da integração de Espanha na União Europeia, Marchueta
(2000) defende o entendimento de Ortega y Gasset, de que as nações europeias só
poderiam salvar-se, se conseguissem superar-se a si próprias, como nações. Ortega y
Gasset tinha consciência crítica sobre a conjuntura política espanhola e uma preocupação
na busca de uma solução para a viabilidade futura de Espanha, dada a incapacidade de
edificar e consolidar uma só nação integradora dos diferentes povos e que desde sempre
contou com a resistência das comunidades periféricas marítimas do Norte - as
protonações catalã, basca e galega, pelo que a questão nacional da Espanha por agora, só
no quadro político interno pode encontrar uma solução.
Como também vimos neste trabalho, e do ponto de vista da teoria construtivista, nos
últimos quarenta anos, a Espanha alternou entre o PP (direita) e o PSOE, (socialista) num
modelo de estado unitário dividido em comunidades autónomas cujos estatutos se
mostram desajustados e não respondem às atuais necessidades e interesses revindicados
pelas diferentes comunidades, sobretudo as que do ponto de vista económico têm maior
peso na economia espanhola. A constituição espanhola de 1978 foi a construção possível
numa conjuntura de rutura e transição de um regime ditatorial para a democracia, sendo
atualmente a Espanha um estado de direito democrático, moderno, com uma economia de
peso e membro da EU, pelo que como referimos, e a teoria construtivista sustenta, as
pessoas fazem a sociedade e a sociedade faz as pessoas. Este é um processo contínuo e
bidirecional. […) em que as pessoas e a sociedade, sempre sendo refeitas, já estão lá e
prestes a mudar.
Uma das consequências diretas do referendo foi o resultado das eleições legislativas que
deram vitória á coligação PSOE/Podemos, e o início em Fevereiro de 2020 do diálogo
entre o Presidente do Governo Regional da Catalunha e o Primeiro-Ministro Espanhol -
Quim Torra e Pedro Sanchez, de cuja agenda de trabalhos constam entre outros pontos: a
abertura do diálogo sobre o futuro da Catalunha; o impulso da regeneração institucional e
política, e o compromisso de evitar a judicialização da política (agenda para o reencontro
Presidência do Governo, 2020), porém a crise sanitária provocada pela pandemia do
Covid19 veio adiar o decurso das negociações. Tudo leva a crer que o movimento não
desistirá da sua reivindicação fiscal, pois este é o ponto mais crítico entre Madrid e
41
Barcelona, e principal causa da tensão nos últimos anos, prejudicada ainda pelo facto de o
País Basco e Navarra já possuírem um regime fiscal especial, consagrado na constituição.
Acresce ainda o agravamento da crise económica pós referendo, naquela que como
também vimos, é uma das regiões mais rica e promissora do ponto de vista económico e
cultural de Espanha.
O referendo teve como consequência chamar a atenção para a necessidade de reforma da
constituição, pois nas palavras de Aguilar (2016), as constituições defendem- se
reformando-as.
A constituição enquanto lei fundamental num estado de direito deve impor-se à vontade
dos indivíduos?
Não deve a lei fundamental moldar-se, acompanhar as transformações e ser um espelho
da arquitetura social em cada momento histórico?
Embora a prioridade de Pedro Sanchez, Primeiro-Ministro Espanhol nesta data, seja
encontrar uma solução para a questão da Catalunha, com abertura ao diálogo e à
negociação do estatuto, já fez saber que não há espaço político para separatismo. Por outro
lado e como já verificámos, ambos os atores sabem que só à luz de uma alteração da
constituição e nesse sentido, a secessão pode acontecer, e alterações à lei fundamental
requererem uma maioria parlamentar coesa que para já não existe no senado, o que
também demonstra bem e resulta da diversidade e pluralidade da Nação Espanhola, dada
a polarização política do país, a que aludimos também neste trabalho.
No momento em que termino a revisão deste trabalho a Espanha confronta-se com um
novo abalo do modelo de estrutura e organização da nação - Monarquia Constitucional -
com um processo de investigação ao Rei Juan Carlos por corrupção, e o seu exílio no
exterior, pondo em causa a credibilidade e sobrevivência da monarquia, o que o partido
Podemos também questiona, pelo que os partidos políticos e a sociedade civil terão uma
responsabilidade acrescida no debate sobre o futuro da nação, esta como consequência
indireta do referendo.
Maquiavel (2010) dizia que quem governa deve manter canais de comunicação de mão
dupla, e possibilitar aos súbditos a manifestação das suas opiniões inclusive para verificar
se o seu projeto de governo é bem executado e bem assimilado, e ainda que a mudança dos
tempos é inevitável e os príncipes só conseguem triunfar se forem capazes de dominar a
fortuna, isto é, se eles conseguirem adaptar-se às novas circunstâncias dos tempos.
Por agora, com a crise política e económica agravada pela crise sanitária provocada pela
pandemia, e como diz Portas (2019): “Catalães e Castelhanos estarão irremediavelmente
condenados a viver juntos, não podendo amar-se terão que viver suportando-se uns aos
outros”.
42
Fukuyama enfatiza (2005: 118): “Que o estado é servo das pessoas e não tem quaisquer
perspetivas sobre o bem comum para além do que é democraticamente ratificado por
elas”.
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43
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