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PROSTITUIÇÃO

O artigo analisa a prostituição sob a perspectiva do direito e da moral, argumentando que a prostituição voluntária de adultos não é considerada crime segundo o código penal angolano, apesar de ser frequentemente sujeita a discriminação e injustiça. A discussão busca separar as esferas do direito e da moral, enfatizando que o direito não deve ser um mero reflexo das normas morais. O texto também critica a criminalização de comportamentos que não ferem bens jurídicos fundamentais, propondo uma reflexão sobre a regulação da prostituição e os direitos dos trabalhadores do sexo.
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PROSTITUIÇÃO

O artigo analisa a prostituição sob a perspectiva do direito e da moral, argumentando que a prostituição voluntária de adultos não é considerada crime segundo o código penal angolano, apesar de ser frequentemente sujeita a discriminação e injustiça. A discussão busca separar as esferas do direito e da moral, enfatizando que o direito não deve ser um mero reflexo das normas morais. O texto também critica a criminalização de comportamentos que não ferem bens jurídicos fundamentais, propondo uma reflexão sobre a regulação da prostituição e os direitos dos trabalhadores do sexo.
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PROSTITUIÇÃO, DIREITO E MORAL: UMA REFLEXÃO JURÍDICO-

PENAL.
Berlinda DINIS, Estudante do 4ª Ano do Curso de Direito da
Universidade Independente de Angola
Nota Introdutória
O presente artigo tem como epicentro da sua abordagem, a
necessidade de se refletir profundamente sobre a questão da
prostituição e a moral, num paralelo entre a actividade das
prostitutas e as exigências éticas e morais, num Estado Democrático
de Direito, cientes de que a temática, para muitos configura ainda um
tabú em função de convicções religiosas e princípios conservadores,
sendo mesmo visto como um não assunto pelas razões
avançadas. Neste artigo, nos referimos a prostituição voluntaria, de
pessoa maior de idade e em pleno gozo das suas faculdades mentais,
que desempenha tal actividade de forma reiterada e profissional,
como meio de sustento e trabalho, também conhecidas/os como
“profissionais de sexo”. A abordagem é meramente académica e visa
abrir caminho a uma discussão seria sobre os direitos pertencentes as
mulheres e homens que desempenham tal actividade, bem como a
sua regulação.
Este artigo, surgiu sobretudo da necessidade de se clarificar se a
actividade, como apresentada supra, configura ou não um facto
ilícito, isto é, um crime. A resposta que nos propusemos depois de
consultado o código penal Angolano é negativa, porém, na prática,
tem se verificado uma espécie de justiça arbitraria por parte dos
agentes da polícia e uma discriminação acentuada em função da
cultura moral comum, camuflada pelo véu da hipocrisia. A
prostituição existe e colide com a moral, porém não é crime. Este é o
nosso desafio, explicar como isso se processa do ponto de vista
prático. Assim como considerávamos excessiva a criminalização do
adultério à luz do código penal de ora revogado, um código colonial,
também julgamos ser necessária a expurgação do código penal
vigente de tipos legais de crimes que apenas ferem a ética e a moral,
sem necessariamente ferir um bem jurídico fundamental
individualizável, falamos do aborto e de outros tipos legais de crime,
afinal, o Direito não é um servo fiel da moral, nem a moral é
necessariamente jurídica, podendo mesmo o Direito ser imoral. Para o
contexto de analise sobre o trabalho de sexo, entendido aqui como
prostituição, tentaremos fazer uma análise jurídica, baseada em
dados e experiências que existem no nosso contexto, nos
socorreremos também ao estudo efectuado pela SCARJOV[1],
intitulado “Estudo das condições sociais e do quadro legal das
trabalhadoras de sexo em Angola”, publicado em Setembro de 2015.
Com esta abordagem, não se pretende elaborar um juízo valorativo
sobre a actividade prostitucional em si, isto é, se é boa ou má, certa
ou errada, mas sim pretendemos reforçar as garantias do princípio da
legalidade, do Estado Democrático de Direito e da própria dogmática
jurídico-penal, num claro exercício pratico de separação dos campos
de actuação do Direito e da Moral. Tendo legitima atenção ao artigo
189º do código penal, destarte, podemos adiantar desde já, que em
Angola, a prostituição como definimos aqui neste trabalho de
pesquisa, não é crime e nada tem haver com o lenocínio, sendo este
último, um crime, previsto e punível pelo código penal Angolano.
1. A Natureza Social do Homem
A natureza humana é eminentemente social. E, desta sociabilidade
intrínseca ao homem, surge a necessidade de existirem normas e
regras de conduta que possam regular a conduta do homem em
sociedade, caso contrário, a vida social como a conhecemos hoje não
seria possível. Já dizia Aristóteles […] uma cidade não é uma
comunidade de residência cujo fim seja apenas evitar a injustiça
mútua e facilitar as trocas comerciais. Todas estas condições devem
estar presente para que a cidade exista; mas a sua presença não é
suficiente para a constituir. O que constitui uma cidade é uma
comunidade de lares e de famílias com a finalidade da vida boa e a
garantia de uma existência perfeita e autónoma. (Política, Liv. III,
1280b 30).

Nesta linha de entendimento, surge o Direito que acreditamos ter


nascido com a própria sociabilidade e, portanto, conatural a esta[2].
Pois, uma perspectiva antropológica sugere que o homem é um
produto inacabado, por isso, necessita de criar instituições que o
guiem e ofereçam uma segurança indispensável nas relações com os
outros homens[3]. Dai que surge o Direito como o entendemos hoje;
um sistema de normas e princípios jurídicos instituídos por autoridade
competente com a finalidade de regular a vida em sociedade.
(perspectiva positivista do Direito).
Não se trata de insuficiência, o facto é que a norma jurídica não
existe isolada na ordenação social, pois existem outras ordens
normativas para além do Direito, embora sem as especificidades
daquela (Norma jurídica), como por exemplo, a falta de coercibilidade
enquanto principal aspecto distintivo.

Estas normas são: as normas religiosas, que regulam as relações


dos crentes com a comunidade terrena seguindo os mandamentos de
um ser transcendente (Deus)., bem como doutrinas de religiões
(cristianismo, islamismo, budismo…). Normas de trato social,
aquelas que tornam a convivência humana mais amena e as normas
morais, entendidas como aquelas que sendo fruto de paradigmas e
conceitos, estabelecem princípios auto-vinculativos que orientam as
condutas humanas. É certo que em relação ao Direito existem pontos
de convergência e pontos de indiferença, pois, a moral não é jurídica
e o Direito pode ser imoral. Esta na verdade é a questão central desta
reflexão jurídico-filosófica penal.
2. Essência da Moral

A palavra ética tem origem do grego ethos, que pode significar


“carácter”, “costume” ou “modo de ser”. Na realidade, o sentido da
palavra ética se inspirou na expressão grega ethike philosophia, que
significa filosofia moral ou filosofia do modo de ser. Os romanos
traduziram o ethos grego para o latim mos (ou no plural mores), que
quer dizer costume, de onde provem a palavra moral em português.
Logo, para efeitos do presente artigo, ética e moral não diferem no
seu conteúdo.

Tanto o ethos (carácter) como o mos (costume), indicam um tipo de


comportamento que não é natural, o homem não nasce com ele como
se fosse um instinto, mas sim que é adquirido ou conquistado por
hábito. Nos ensina Adolfo Vasquez.

Portanto, a moral, pela própria etmologia, diz respeito a uma


realidade humana que é construída histórica e socialmente a partir
das relações colectivas dos seres humanos nas sociedades
específicas onde nascem e vivem, como também, em diferentes
épocas.

O professor e Advogado, Marcus Acquaviva, no seu livro intitulado


Ética Jurídica, a respeito do conceito de ética resume da seguinte
forma:

-A ética observa o comportamento humano e aponta os seus erros e


desvios

– Formula os princípios básicos a que deve subornar-se a conduta do


homem

-A par de valores genéticos e estáveis, a ética é ajustável a cada


época e circunstância.

A relação entre a moral e o Direito não passou despercebida na


antiguidade clássica. Embora não se tenha elaborado um critério que
permitisse a sua distinção, não deixou de se ter a intuição de que não
são duas realidades que não se podem confundir. Constituem
exemplos significativos a afirmação de Paulus “non omne, quod licet,
honestum est” e a regula atribuída a Ulpianus “Cogitationis poenam
nemo patitur”.
Porém, foi na idade moderna que este problema adquiriu um sentido
mais vital ou pragmático na sequência dos conflitos entre a Igreja
Católica e os vários cultos protestantes e das dissensões que
dividiram os protestantes em diversas correntes. Os Estados
passaram a intervir na vida particular dos cidadãos para indagar as
suas convicções religiosas: Uns queriam que os súbditos fossem
católicos; outros, protestantes. Surgiu então, desta maneira a
necessidade de se delimitar claramente as zonas de interferência do
poder público, só possível através da distinção entre os campos
jurídico, moral e religioso. Merece uma nota de destaque, o
jurisconsulto Thomasius, que para tutelar a liberdade de pensamento
e de consciência, procurou distinguir a moral do Direito separando as
acções humanas de foro íntimo das acções humanas de foro externo.
Neste diapasão, o direito só deve interessar-se pelos aspectos da vida
de relação, isto é, acções humanas depois de exteriorizadas, ao passo
que a moral, ocupa-se do que se processa no plano do pensamento e
da consciência, que são actos internos. Porem, este critério se
mostrou insuficiente, pois, existem actos puramente internos, mas
não há acções humanas exclusivamente externas e porque o Direito
disciplina acções humanas livres, não dispensa factores internos.

3. Prostituição Versus Moral Social


A moral, é nas palavras de Cabral de Moncada, 3 constituída pelo
conjunto de preceitos, concepções e regras obrigatórias para a
consciência, pelos quais o homem se rege, antes e para além do
Direito. Algumas vezes conflituante com este.

A moral abrange um campo maior de actuação comparativamente ao


Direito por ser um imperativo de consciência. Seguindo o raciocínio
de Kant na sua obra fundamentação da metafísica dos costumes “Age
sempre de tal modo que o teu comportamento possa vir a ser
princípio de uma lei universal”. Por esta razão, alguns entendem que
o Direito deve sujeitar-se as exigências morais, chegando mesmo ao
ponto de formularem a teoria do mínimo ético, segundo a qual, o
Direito tem a função de criar as condições éticas minimamente
necessárias para existência de uma vida social pacifica e justa, dai
que muitos comportamentos são criminalizados com base em
fundamentos morais, o que ao nosso ver, configura um atropelo a
ciência jurídica e a racionalidade das leis, pois o Direito não é um
servo da moral como nos faz perecer esta teoria.

Visto que, seguindo o raciocínio de Emanuel Kant, o direito


caracteriza-se pela exteriorização, a ética pela interiorização, o direito
apresenta uma hétero-tutela ao passo que a ética constitui uma auto-
tutela. Dito isto por palavras menos técnicas, o Direito não depende
do individuo ou de costumes regionais, ao passo que a moral é
individual e depende de convicções e princípios que podem ter
origem costumeira, sendo que ter o costume enquanto fonte de
Direito, é olhar sempre pelo “retrovisor do carro”, na medida em que
ninguém sabe ao certo quando começou e quais as verdadeiras
razões deste.

Existe na realidade jurídica Angolana, alguns ilícitos penais (crimes)


que assim são designados com base em exigências morais, pois a sua
criminalização do ponto de vista da protecção de bens jurídicos,
defendem apenas moralidades, uma vez que não se verifica a
violação de um bem jurídico individualizável. Para melhor
compreensão e reflexão sobre este aspecto, devemos ter bem
assentes alguns conceitos básicos, tais como; O que é a prostituição?
E o que é um crime?
Sem querer entrar numa acesa discussão sobre juízo de
valores, frequentemente coloca-se a questão de se saber se a prática
da prostituição que por si mesma é das mais antigas do mundo, é ou
não um crime. Se a resposta fosse positiva como poderemos extrair
do artigo 189º do código penal Angolano, qual seria o bem jurídico
violado?
Prostituição: consiste no estabelecimento voluntário de relações
sexuais em troca de vantagens económicas, sendo dinheiro ou outros
bens materiais.
Crime: pode ser definido do ponto de vista formal e do ponto de vista
material. Formalmente, nos termos do artigo 1.º do Código Penal
Angolano, o crime é todo facto voluntário declarado punível por lei.
Ao passo que, o Prof. Eduardo Correia, apresenta-nos de forma
magistral uma noção material, considerando crime, todo
facto/comportamento que lesa ou põe em perigo de lesão bens
jurídicos fundamentais. Podemos constatar no extrato abaixo o crime
de lenocínio, punível pelo Código Penal Angolano.
Todas estas reflexões, argumentos e contra-argumentos, levam-nos a
um debate não só sobre o corpo da mulher como também sobre as
políticas que sobre ele recaem. É preciso uma reflexão sobre como a
sexualidade é perspetivada num contexto em que a estrutura
patriarcal reina. Perceber o patriarcado é porquanto perceber como
se limita o papel da mulher a um ser meramente reprodutor,
limitando a sua autonomia sexual. Sylvia Tamale, fala das 10 faces da
sexualidade, apontando a estrutura política, religiosa e legal como
uma das maiores restrições da sexualidade, seja em forma de
moralização sexual, seja em prol do reforço do papel reprodutor da
mulher, seja nas limitações legais que definem com quem e como
praticamos a nossa sexualidade.

Podemos desde modo confirmar que existe sim um conflito latente


entre a moral e a prostituição, porém, o Direito não regula tal
divergência.

4. O Crime de Lenocínio no Código Penal Angolano


Artigo 189.º
(Lenocínio)
1. Quem, com intenção de lucro, promover, favorecer ou facilitar o
exercício da prostituição ou prática reiterada de actos sexuais por
outra pessoa, aproveitando-se de situação
de necessidade económica ou particular vulnerabilidade da vítima
ou a constranger a esse exercício ou prática, usando de violência,
ameaça ou fraude, é punido com pena de prisão de 1 a 8 anos.
Artigo 195.º
(Lenocínio de menores)
1. Quem promover, incentivar, favorecer ou facilitar o exercício da
prostituição de menor de 18 anos ou a prática reiterada de actos
sexuais por menor de 18 anos é punido com pena de prisão de 3 a
12 anos. 2. Se o agente usar de violência, ameaça ou coacção,
actuar com fim lucrativo ou fizer profissão da actividade descrita
no número anterior, o menor sofrer de anomalia psíquica ou tiver
menos de 14 anos, a pena é de prisão de 5 a 15 anos.
Artigo 197.º
(Recurso a prostituição de menores)
1. Quem, sendo maior, praticar acto sexual com menor, mediante
pagamento ou outra contrapartida, é punido com pena de prisão
de até 3 anos. 2. Se houver penetração, o agente é punido com
pena de prisão de 1 a 5 anos, se pena mais grave não couber por
força de outra disposição.
Os artigos acima apresentados não se referem ao exercício voluntario
da prostituição, o que nos permite alegar sem margem para equívoco
que não configura crime a prostituição voluntaria de pessoa maior de
idade, antes pelo contrário, vezes sem conta, as prostitutas é que
tem visto os seus direitos violados a bel prazer dos agentes da polícia
e cidadãos evasivos.

5. Modelo Emergente do Direito


Penal

Diz-se paradigma ou modelo emergente porque ainda não está


consumado, mas é o que os penalistas hodiernamente defendem,
sobretudo, a escola teleológica funcional racional do Direito Penal,
representada em Portugal pelo professor Figueiredo Dias.

Os modelos tradicionais de política criminal, (modelo azul e modelo


vermelho e movimento de defesa social) faliram por diversas razões,
sendo que, uma delas, é a sobre-utilizaçao das leis penais,
criminalizando comportamentos que se quer tinham dignidade penal,
monopolizando assim o sistema sancionatório criminal, outra razão é
que os modelos tradicionais focavam demais no agente do crime. O
que gerou efeitos perversos, pois surgiram ainda mais crimes e
aumentou consideravelmente a reincidência (efeito criminogino), o
faz com que alguns autores, como Rabdluch e Hulsmann
defendessem a Extinção ou abolição do Direito penal, isto é, substitui-
lo por algo melhor por considerarem-no incapaz de combater
eficazmente o fenómeno da criminalidade.

Por seu turno, o Prof. Figueiredo Dias e Klaus Roxin, defendem uma
não intervenção ou intervenção moderada ou judiciosa do Direito
penal, restringindo a actuação dos órgãos responsáveis por combater
o crime, utilizando também e sobretudo, mecanismos de
descriminalização e diversão.

Este é o modelo emergente do Direito Penal. Pois, o Direito penal


moderno, na perspectiva do Prof. Figueiredo Dias, é um Direito que
protege bens jurídicos fundamentais e não moralidades, isto é,
aqueles que uma vez lesados, limitam as condições comunitárias
imprescindíveis ou essenciais para o livre desenvolvimento e
realização da personalidade de cada individuo. Razão para dizer que,
o Direito penal apenas deve estar legitimado a intervir quando se
verificar lesões insuportáveis de um bem jurídico fundamental, dando
lugar a ideia de descriminalização.

Na medida em que devem ser expurgados do código penal todos os


comportamentos que não tenham dignidade penal, isto é, não
devemos combater todos os males sociais com o Direito penal, isto
faz com que o Estado se torne repressivo, como se pode certificar na
obra do professor Figueiredo Dias, “As consequências jurídicas do
crime”.

6. Limites da Moralidade no Direito Penal Democrático


A moralidade, é no entender de Peter Singer, filosofo e professor
australiano, o conjunto de regras, princípios ou maneiras de pensar
que guiam, ou chamam a si a autoridade de guiar, as acções de um
grupo em particular.
Há um adágio popular que diz que tudo tem limite, fazendo jus a este,
a moral também tem os seus, pois não faz sentido restringirmos
direitos e liberdades fundamentais com base nos fundamentos da
moral, uma vez que, a moral e o Direito actuam em campos
diferentes, embora algumas vezes coincidam, não se trata da mesma
realidade.

Existem tipos penais que se limitam a descrever formalmente


infrações penais, independentemente de sua efetiva potencialidade
lesiva, atentam contra a dignidade da pessoa humana. Nesta
dinâmica, convém lembrar o entendimento de Celso Antônio Bandeira
de Mello: “Violar um princípio é muito mais grave do que
transgredir uma norma”.
A desatenção ao princípio implica ofensa não apenas a um específico
mandamento obrigatório, mas a todo o sistema de comandos. É a
mais grave forma de ilegalidade ou inconstitucionalidade, conforme o
escalão do princípio atingido, porque representa ingerência contra
todo o sistema, subversão dos seus valores fundamentais.

Aplicar a justiça de forma plena, e não apenas formal, implica,


portanto, aliar ao ordenamento jurídico positivo a interpretação
evolutiva, calcada nos costumes e nas ordens normativas locais,
erigidas sobre padrões culturais, morais e sociais de determinado
grupo social ou que estejam ligados ao desempenho de determinada
atividade. Da dignidade humana, princípio genérico e reitor do Direito
Penal, derivam outros princípios mais específicos, os quais são
transportados dentro daquele princípio maior, tal como passageiros
de uma embarcação.

Desta forma, do Estado Democrático de Direito origina o princípio


reitor de todo o Direito Penal, que é o da dignidade humana,
adequando-o ao perfil constitucional do Estado Angolano e elevando-
o à categoria de Direito Penal Democrático. Da dignidade humana,
por sua vez, derivam outros princípios mais específicos, os quais
propiciam um controle de qualidade do tipo penal, isto é, sobre o seu
conteúdo, em inúmeras situações específicas da vida concreta. Os
mais importantes princípios penais derivados da dignidade humana,
são eles: legalidade, insignificância, alteridade, confiança,
adequação social, intervenção mínima, fragmentariedade,
proporcionalidade, humanidade, necessidade e ofensividade.

Conclusão
Após o presente trabalho de pesquisa, podemos afirmar neste artigo,
que tem sido constantemente violado os direitos das profissionais de
sexo, com argumentos e fundamento meramente moral. O que pode
configurar crime, e uma clara violação do princípio da legalidade,
patente no brocardo latino “Nullum Crimen Sine Lege” uma vez
que o direito penal não serve os caprichos da moral, o principal
objetivo do direito penal é a proteção dos direitos e bens jurídicos
fundamentais dos cidadãos e do Estado.
Entende-se do ponto de vista jurídico, que as prostitutas como
pessoas que são, carecerem de proteção legal no exercício das suas
actividades, embora esta tenha uma reprovação moral social. Se por
ventura o Estado angolano quiser sancionar a prostituição como
crime, deve este prever e estatuir na norma penal, ou seja, deve
haver um artigo no código penal angolano que configure a prática da
prostituição como sendo crime (porém, ao faze-lo, levantaria outro
problema jurídico, o da sobre – utilização do direito penal), deste
modo, as práticas de detenção que tem sido alvo as profissionais de
sexo e as suas constantes proibições são ilegais.
No geral, os clientes das prostitutas e os policiais, são os principais
autores de violência contra estas profissionais, responsáveis pela
maioria dos casos. De realçar ainda que muitas vezes, as
trabalhadoras de sexo são vítimas de transmissão sexual de doenças
de forma dolosa e intencional (este é um tema para outro momento).
Num contexto em que novas políticas foram aprovadas, no caso
concreto do novo Código Penal, podemos destacar a remoção do
número 5º do artigo 71º que era interpretado como fundamento legal
para aplicar medidas de segurança as prostitutas que sejam causa de
escândalo publico ou desobedeçam continuamente as prescrições
policiais. A inclusão de um artigo concreto para o lenocínio de
menores e outro para simplesmente lenocínio. Nesse contexto, falar
do novo código penal, é pensar novamente num contexto em que não
se criminaliza a prostituição, mas sim a sua exploração.

O estudo da SCARJOV intitulado “Estudo das Condições Sociais e do


Quadro Jurídico-legal das Trabalhadoras de Sexo em Angola”, foi uma
das principais referências para o nosso trabalho de pesquisa, tendo
em conta o contexto de trabalho de sexo em Angola. Para além de
nos dar um enquadramento legal (na altura da lei de lenocínio e do
Código Penal de 1886), dá-nos um quadro sobre as condições sociais
do trabalho de sexo. Aliás, é assim que se referem ao trabalho de
sexo, como sendo realmente um trabalho. Segundo este estudo,
baseado nas 1266 entrevistas efectuadas nas 6 províncias entre
outubro e dezembro de 2013, 51,1% das pessoas envolvidas diz que
o trabalho de sexo não é um trabalho digno e 17,4% diz que Deus
condena a comercialização do corpo. Paula Sebastião in Contexto
do trabalho de sexo em Angola. Efectuado em 6 províncias
(Cabinda; Huíla; Huambo; Luanda; Lunda Sul, Cunene) o estudo faz
uma análise do nível de escolaridade, o ambiente familiar, os desafios
da actividade do trabalho de sexo, as questões de saúde e a relação
com a polícia. Recomendamos vivamente a leitura do mesmo. Por
fim, concluímos com a seguinte citação de Celso António Bandeira de
Mello: “Violar um princípio é muito mais grave do que
transgredir uma norma”.

[1] Um dos pontos que o estudo faz é a ligação entre a não


criminalização da prostituição no contexto Angolano. Porém, muito se
fala do trabalho de sexo como crime, dentre as várias normas que
existiam, o artigo 71º do código penal anterior, era um que no seu
número 5º reforçava a interpretação de que a prostituição voluntaria
era criminalizada, podendo mesmo aplicar-se uma medida de
segurança as prostitutas. Essa interpretação é, no entanto, posta em
causa neste estudo, que argumenta a inexistência de uma norma
legal que condene a prostituição, pois o que é criminalizado é a
exploração sexual e o exercício de promoção ou facilitação da
actividade, com o intuito de lucro. Este é o crime de lenocínio. Ou
seja, é crime quando alguém faz uma exploração do trabalho de sexo,
no entanto, isto nos leva a um debate sobre o consentimento, tendo
em conta que são muita as pessoas, (homens, mulheres e
homossexuais que consentem em realizar a prostituição. O estudo
deixa claro que na maioria dos casos não encontraram profissionais
de sexo forçadas/os a exercer a actividade, mas sim foi resultado de
condições socio-económicas. O estudo indica que 54,4% das
mulheres prostitutas apontaram dificuldades de vida como uma das
principais razões para o exercício da profissão, 14,4% indicam ter sido
o abandono escolar, 7,6% alegam que os esposos não suportam os
encargos financeiros familiares, 4,4% afirmam que a família assim
quis e 10,7% por não terem ocupação. Ou seja, a maioria responde
que foram as necessidades que as levaram a exercer a actividade.
Isto reforça a necessidade de falarmos em momento oportuno sobre a
violência económica, sobre o lugar da mulher no acesso ao emprego,
sobre a educação para a melhoria da condição económica e como a
não resposta estrutural a estas questões exige que algumas mulheres
recorram ao trabalho de sexo (prostituição) como única resposta para
alimentar os seus filhos. Paula Sebastião, in contexto do trabalho de
sexo em Angola, p. 38, Políticas Públicas.
[2] Não passam de mera ficção as teorias correntes nos séculos XVII a
XIX de que o homem começou por viver isolado num estado de
natureza que teria precedido o estado social. Referimo-nos a Hobbes
para quem o homem é um ser profundamente egoísta que a
sociedade educa e a Rousseau que vê no homem um ser
originariamente bom que a civilização corrompeu. A sociabilidade
inata do homem e as modernas investigações antropológicas
desmentem aquelas doutrinas.
[3] Vide José de Oliveira Ascensão. O direito. Introdução e Teoria
Geral, Coimbra, 2005. Miguel Teixeira de Sousa. Introdução ao
Direito, Almedina. Coimbra, 2012.

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