QUESTÃO INDÍGENA NO
BRASIL - UMA PERSPECTIVA
HISTÓRICA
AULA 5
Prof.ª Izabela de Gracia Yabe
CONVERSA INICIAL
O século XIX trouxe de maneira enfática e evidente o debate acerca das
diferentes culturas humanas, levantando conceitos relacionados ao racismo e a
uma desigualdade natural, tudo isso diretamente conectado a uma dita
superioridade da cultura ocidental, ou seja, a crença da maioria dos racistas
desse período.
Os índios sofreram com esse processo. Buscando uma maneira de
camuflar essa dor, foram criadas, em várias regiões do Brasil, durante o século
XIX, políticas de aldeamentos dos nativos. A ideia principal era "civilizar" esses
índios, fazendo com que passassem a adotar o cristianismo como religião e os
costumes ocidentais, como o casamento monogâmico. Contra isso, os índios
resistiram.
Dentro dos aldeamentos paranaenses, a título de exemplificação, é
possível a análise dos índios kaingang, que perpetuaram seus rituais
tradicionais e a segmentação social que separava os indivíduos em metades
exogâmicas: kamé e kairu.
TEMA 1 – OS GUAICURUS NA FRONTEIRA DO MATO GROSSO
A vinda da família real trouxe grandes mudanças para o Brasil Colônia,
tornando-o, então, parte do chamado Reino Unido. Entretanto, os guaicurus
utilizavam-se de uma série de táticas para não colaborar com os invasores de
suas terras, como: “1. Dissimulação; 2. Fuga; 3. Recusa ao trabalho; 4.
Sabotagem; 5. Deserção; 6. Correrias (assaltos aos campos inimigos)”
(Ferreira, 2009, p. 115-116).
No século XVIII, os guaicurus passaram a roubar cavalos, tanto dos
espanhóis como dos portugueses, e aprenderam a montá-los e criá-los.
Conforme registros presentes na própria literatura, foram denominados índios
cavaleiros, pois se aproveitaram desse meio de transporte trazido da Europa
para a América. Com os cavalos, os índios guaicurus conseguiram adentrar
territórios mais amplos, em menor tempo, se comparados com os demais
grupos indígenas.
Os guaicurus eram divididos em dois grupos:
Paiaguás, que habitavam a região identificada hoje como Paraguai.
Mbyás, que no século XIX se estabeleceram definitivamente no Brasil.
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Os principais fatores que distinguiam esses dois grupos eram as
questões linguísticas e culturais. Além disso, os guaicurus se depararam com
duas frentes de expansão:
(..) o colonialismo espanhol, que estabelecido na região de Assunção,
no Paraguai, pretendia avançar ao Norte, passando pelo Sul do Mato
Grosso; o colonialismo português que partia do litoral brasileiro,
especificamente de São Paulo, no sentido Oeste, para o Mato Grosso
e os povos indígenas que ocupavam a região desde o período pré-
colonial e que disputavam controle dos mesmos territórios. (Ferreira,
2009, p. 105).
Então, na região do Mato Grosso, onde os guaicurus estavam
localizados, assim como na fronteira com o Paraguai, apresentava-se uma
indefinição em relação a terra entre os impérios (português e espanhol). Diante
dessa indeterminação e dos conflitos originados por conta dela, os índios
participaram da Guerra de Fronteira, impondo-se como extremamente
aguerridos, o que lhes garantiu uma série de tratados inéditos se comparados
aos demais grupos indígenas da América portuguesa.
Dessa maneira, os índios estabeleceram um tratado com os portugueses
para lutar contra os espanhóis. Na guerra de fronteiras, então, os portugueses
de apropriaram do belicismo dos guaicurus para utilizá-lo contra os espanhóis,
o que lhes conferiu uma série de territórios.
Os guaicurus se caracterizavam, também, por uma fragmentação social
bastante evidente, ou seja, andavam em pequenos grupos, com bastante
nomadismo e deslocamento, bem como chefias e parentelas se reorganizando
cotidianamente. Além disso, sentiam-se etnicamente superiores aos demais
grupos indígenas da região, como os guanás, por exemplo, e também aos
portugueses e espanhóis.
No século XIX, os guaicurus se alinharam aos guanás, considerados por
eles, inicialmente, como inferiores. Essa relação se deu, justamente, com o
objetivo de aproveitamento para o ataque aos outros grupos indígenas, como:
guatós, chamacocos e guaxis, que também disputavam fronteiras e geravam
as guerras étnicas.
Na figura a seguir, é possível a constatação do Parque das Nações
Indígenas, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, cidade que homenageou
os guaicurus, os conhecidos índios cavaleiros.
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Figura 1 – Parque das Nações Indígenas – Campo Grande, Mato Grosso do
Sul
Créditos: Vinicius Bacarin/Shutterstock.
TEMA 2 – OS ÍNDIOS E A GUARDA NACIONAL
A Constituição de 1824 tornou os cidadãos plenos, contrapondo-se à
legislação anterior, ou seja, o Diretório de 1757. Dessa maneira, os índios
passaram a fazer parte da Guarda Nacional e tornaram-se, de fato, cidadãos
plenos. Quanto à Guarda Nacional, passou a exercer o chamado coronelismo
sobre os índios de Itaguaí.
Essas guardas eram voluntárias do período imperial e serviam,
sobretudo, para resguardar as fronteiras. Os coronéis da Guarda Nacional se
envolveram nos contextos regionais, participaram do Senado, tornaram-se,
também, deputados no período imperial e adentraram à República, muito
embora com a queda do título formalmente dizendo, porém adotado, ainda,
pela população em geral. Os coronéis se caracterizavam por indivíduos da
população branca, ou seja, não se apresentavam indígenas com este título.
Dessa maneira, os indígenas entraram para a Guarda Nacional com
base em uma relação extremamente desigual, se comparada com a população
branca em geral. Não cabia aos indígenas de Itaguaí, por exemplo, a
possibilidade de tomar terras devolutas, ao contrário dos demais cidadãos.
Além disso, os índios não eram remunerados. Por isso, tinham de
exercer outras atividades de subsistência, como: roçado, trabalhos para o
Governo e para particulares, assim com a venda em geral.
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Apesar de a Guarda Nacional ser uma ‘milícia cidadã’, não se deve
superestimar a participação nela como um indicativo de que os índios
de Itaguaí gozavam, no início do Império dos direitos e prerrogativas
dos cidadãos ativos e tampouco dos privilégios que o costume
reservava aos pobres, porém ‘honrados’.
[...]
Os serviços prestados à Guarda Nacional não eram remunerados,
exigindo dos praças e do oficialato a continuidade de suas atividades
econômicas e ofícios para prover a própria existência e de seus
dependentes. (Moreira, 2010, p. 135)
A aldeia de Itaguaí foi fundada no século XVIII com os índios guaranis do
sertão dos Patos. José Pires Tavares, um importante capitão que lutava pela
expansão da aldeia, neste mesmo período da história, faleceu. Ele se
caracterizou como uma figura notória da aldeia de Itaguaí, pois foi até o reino
de Portugal para tratar, junto a Dona Maria I, acerca da restituição de terras
indígenas. Elaborou, então, um ofício e conseguiu reaver as terras da fazenda
de Santa Cruz, que estavam sob zelo dos jesuítas. Em meados do século
XVIII, com a intervenção de José Pires Tavares, os jesuítas se retiraram da
fazenda de Santa Cruz, a qual se estabeleceu como posse indeterminada e foi,
na sequência, assumida pelos índios.
A partir do Império, surgiu uma visão indigenista muito significativa para
esse período histórico, defendida por José Bonifácio, considerado um dos
grandes patronos da independência brasileira (intelectual que influenciou muito
as atitudes tomadas por Dom Pedro I) – para Bonifácio, os índios eram “uma
folha em branco”. Ele defendeu o método brando de inspiração jesuítica. Com
base nessa concepção, criou uma política indigenista de catequese dos índios,
voltada, também, à execução de trabalhos relacionados a uma dinâmica
europeia de atividades, e não uma dinâmica indígena. Dessa maneira, sugeriu,
com base na retomada das práticas adotadas nos aldeamentos jesuíticos, a
noção de uma aldeia germânica na tentativa de catequizar os índios e dar uma
nova dinâmica de trabalho.
Ainda segundo os preceitos de Jose Bonifácio, era necessário criar
métodos para civilizar os índios considerados “bravos”, que mantinham pouco
contato com os brasileiros e preferiam o sertão em vez das aldeias
missionárias. Dessa maneira, as ideias defendidas por Bonifácio permearam
vários aldeamentos, tal qual um projeto de assimilação, porém com métodos
“brandos”. Transparecia um projeto de civilização dos índios, termo que iria
dominar os empreendimentos do Estado na relação com os índios ao longo de
todo Império até o início da República (Marchioro, 2018).
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O racismo, evidenciado no século XIX, colocou os indígenas como
inferiores, com base na criação de uma teoria em que os índios eram
civilizados, para, assim, impor a cultura cristã e o formato de trabalho europeu.
TEMA 3 – O ALDEAMENTO DE ATALAIA, NO PARANÁ
Durante o período colonial e imperial, a Igreja é quem oficializava todas
as documentações de nascimentos, casamentos e óbitos. O batismo
funcionava, então, como uma certidão de nascimento. Esses documentos são,
hoje, fonte histórica de pesquisa e estudo, muito utilizados pelos historiadores.
Em 18 anos de catequese, o Padre Francisco das Chagas Lima realizou
cerca de 460 batismos, 160 óbitos e 55 casamentos de índios (sendo 8 de
brancos com índias). Ele veio do interior de São Paulo para formar a nova
política do Governo Imperial junto aos índios. A saída do pároco, em 1828, não
representou, ao que consta na documentação, o fim da catequese, pois, em
1840, cerca de 40 indígenas ainda viviam aldeados. Esse aldeamento teve,
então, uma perduração bem evidente. “Além disso, mesmo em menor
quantidade, os batismos, óbitos e casamentos de índios continuaram
ocorrendo por pelo menos mais de 30 anos” (Takatuzi, 2014, p. 91).
Chagas Lima realizou, ainda, a divisão dos indígenas no aldeamento. A
catequese, defendida por José Bonifácio, configurou-se como algo
extremamente importante nessa divisão. Dessa maneira, tinham-se:
Os batizados: aqueles com grau de conversão satisfatório.
Os catecúmenos: índios no processo de aceitação do cristianismo.
Os semibárbaros: aqueles com difícil disponibilidade para a catequese,
com atitudes bastante inconstantes, pois saíam do aldeamento e
entravam nele constantemente.
Os bárbaros: índios do sertão, que não aceitavam a catequização.
A relação que os índios tinham, no período imperial, com o aldeamento
era bastante inconstante, pois se configurava pela saída e entrada de vários
índios. Muitas vezes, eles adentravam o aldeamento para garantir um ambiente
seguro, com alimento disponível, sem sofrerem com as guerras e,
posteriormente, mediante a certificação de calmaria no sertão, voltavam a sair.
Dessa maneira, os índios circulavam muito no ambiente do aldeamento por
conta das seguintes questões:
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Territórios sagrados;
Guerras;
Esgotamento do solo;
Morte de lideranças importantes.
No contexto indígena, a morte, por exemplo, de um grande cacique
representava o início do deslocamento indígena para outra região, tendo em
vista de que ela podia significar um mau agouro, com a atuação de espíritos e
assombrações naquela localidade.
Os kaingangs representavam a maior composição do alongamento de
Atalaia. Apresentavam uma divisão em metades exogâmicas kamé e kairu.
(Marchioro, 2018, p. 175). Kamé implica em uma pintura corporal ligada a uma
linha comprida; já kairu são círculos fechados. Tanto dentro quanto fora do
aldeamento, permaneceram em uma situação de matrilocalidade. Dessa
maneira, quando os jovens casavam, iam para a oca da mulher. Além disso,
agiam em bloco político, dentro do aldeamento, estabelecendo a união com
integrantes do mesmo grupo e mantendo a prática do ritual do kiki.
O ritual do kiki homenageia os líderes falecidos, com base na concepção
de uma bebida fermentada dentro da árvore da araucária. Dessa maneira, é
promovida a derrubada da araucária mais velha, a qual esteja prestes a cair,
misturam, em seu interior, outros elementos retirados também da floresta e
realizam o processo de fermentação. Essa bebida é tomada ao longo do ritual
religioso para contribuir com a passagem do morto para uma nova vida.
TEMA 4 – ALDEAMENTOS NO REINADO DE D. PEDRO II
Para a abordagem dessa temática, vamos trabalhar com um aldeamento
principal, o de São Pedro de Alcântara, o qual foi fundado em 1855 por padres
da ordem dos capuchinhos. Essa ordem de padres foi muito importante nesse
novo contexto de império, tendo em vista que os jesuítas foram expulsos no
século XVIII e não estavam mais participando das ações e decisões. A eles
coube, então, o comando dos aldeamentos.
No interior do aldeamento, congregaram-se três grupos indígenas:
kaingang, guarani-nhandevas e guarani caiouás. Nos aldeamentos, havia
índios que trabalhavam livremente para particulares, assim como ex-escravos
africanos que também alugavam seus serviços. Ou seja, nesses aldeamentos
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surgiram os africanos livres e os africanos escravos. A sociedade passou a se
configurar de uma maneira mais híbrida, com os escravos, geralmente os
negros e crioulos; e os índios, indivíduos livres, que alugavam sua mão de obra
para a sociedade imperial e os fazendeiros brancos.
Um dos principais objetivos dos aldeamentos era o de catequizar os
índios e ex-escravos africanos; o catolicismo era religião oficial do império
brasileiro. A escola instalada no aldeamento foi pouco utilizada. E, assim, os
índios se tornaram, obviamente, bastante produtivos ao beneficiarem a
sociedade pertencente com aguardente, açúcar e outros alimentos. Além disso,
dentro dos aldeamentos, apresentava-se uma hierarquia militar, a qual
relacionava os diretores.
Perceba que, quando foram inseridos nos aldeamentos, os índios tinham
à sua disposição produtos como açúcar e a aguardente. Posteriormente, uma
vez inseridos na concepção de sociedade europeia, foram orientados a
produzir esses elementos para a venda e para o próprio consumo. Lembrando
que o açúcar se tratava de algo inexistente na cultura indígena. Dessa maneira,
alterou a dinâmica e o paladar de alimentação tradicionalmente estabelecidos,
os quais se tornaram uma maneira de conquista dos indígenas (conquista pelo
paladar).
Se o paladar foi o sentido escolhido pela civilização cristã para obter a
mudança dos hábitos, a resistência das culturas indígenas haveria de
se dar no mesmo campo: durante o período focalizado observaremos
a ética alimentar tradicional dessas populações colocando sérias
restrições ao consumo de determinados itens da cultura ocidental,
oferecidos inicialmente como brindes, por exemplo, a carne de gado.
(Amoroso, 1998, p. 69)
Existia, por parte dos índios, também, a atração por meio por meio de
mercadorias fartas, como ferro, sal, mercúrio doce, tecidos, armas brancas e
de fogo e munição (Amoroso, 1998). É importante reforçar que, como no caso
do açúcar e da aguardente, no início, em sua chegada aos aldeamentos, os
índios tinham acesso a sal, rapadura e cigarros (Amoroso, 1998); depois,
deveriam trabalhar para produzir esses alimentos.
Conforme o que estabelece em sua tese, Amoroso (1998) defende,
ainda, quanto ao aldeamento de São Pedro de Alcântara, que os casamentos
interétnicos não produziam grandes modificações na estrutura da sociedade.
Os casamentos interétnicos consistiam em indivíduos de um grupo indígena
que se casavam com indivíduos de outro grupo, o que, conforme indícios
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arqueológicos, aconteceu antes mesmo da chegada dos portugueses.
Entretanto, conforme também indica Amoroso (1998), a categoria do contato
continuou estabelecendo a separação em três grupos principais: índios
aldeados, agregados e do sertão.
Em relação aos kaingans, as chefias continuaram a obedecer a uma
lógica tradicional, ou seja, da dispersão e da autonomia. Eles davam prioridade
à caça, já os caiouás davam prioridade ao roçado. Percebe-se, então, que a
cultura indígena resistiu à tentativa de modificação imposta pela sociedade
imperial.
TEMA 5 – LEGISLAÇÃO INDIGENISTA IMPERIAL
Como vem sendo trabalhado ao longo desta aula, o processo de
civilização dos índios aconteceu com a catequização e a incorporação dos
nativos na dinâmica de trabalho camponesa do século XIX. Para facilitar esse
processo, foi elaborada uma legislação indigenista principal do Império: o
Regulamento das Missões, de 1845. Além disso, criou-se o cargo de diretor
geral dos índios, nomeado pelo imperador D. Pedro II. Os diretores da aldeia
podiam ser comparados ao que temos hoje como presidente da Funai. Eles
eram escolhidos diretamente pelo imperador Dom Pedro II e, com disso,
nomeavam os diretores responsáveis de cada aldeia.
Neste momento, os padres participam da relação de catequização, mas
não da administração temporal da aldeia no sentido governamental, ou seja,
fora do mundo espiritual. Dessa maneira, os padres só tinham incumbência
religiosa; já os funcionários do governo deveriam fiscalizar e dar subsídios ao
trabalho dos indígenas. Os capuchinhos foram a principal ordem a administrar
os aldeamentos imperiais.
Apesar de ter sido extinto em 1798, o Diretório dos Índios vigorou
informalmente até a criação do Regulamento das Missões, dando grande
autonomia às províncias até 1845.
[...] não havia, efetivamente, uma legislação indigenista única para o
Império nessas primeiras décadas. Entretanto, sob qualquer
perspectiva, não nos permite reforçar a ideia de um ‘vácuo legal’. A
ênfase na diversidade das experiências nativas pode nos permitir
contextualizar melhor a profusão de normas, decretos, leis,
regulamentos, entre outros instrumentos normativos, de abrangência
restrita ao âmbito das províncias [...]. (Sampaio, 2009, p. 186)
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NA PRÁTICA
Passo 1 – procure na internet a seguinte dissertação:
TAKATUZI, T. Águas batismais e santos óleos: uma trajetória histórica
do aldeamento de Atalaia. 155 p. Dissertação (Mestrado em História) –
Universidade de Campinas, Campinas, 2005.
Passo 2 – escolha um dos subitens do livro. Por exemplo: Os mortos e o
ritual do Kiki.
Passo 3: Elabore um plano de estudo conforme as instruções da
Secretaria de Educação do seu município, estado ou instituição federal a partir
do capítulo escolhido. Se preferir, elabore um pequeno texto comparando os
rituais mortuários indígenas com os rituais existentes na sociedade em que
você vive.
FINALIZANDO
Nesta aula, conhecemos os guaicurus e a resistência indígena por meio
de diferentes métodos, como a fuga, o uso do cavalo, a recusa ao trabalho, as
incursões devastadoras às fazendas e vilas dos brancos etc.
Evidenciamos, ainda, como os índios, inseridos na Guarda Nacional,
eram tratados de forma diferente dos demais súditos do Império que decidiam
voluntariamente fazer parte da tropa. Uma das principais prerrogativas que não
poderiam exercer era tomar terras devolutas, por exemplo.
Ficou clara a persistência dos kaingangs nos aldeamentos, observada
nos documentos analisados pela antropóloga Tatiana Takatuzi. A autora notou
que as metades exogâmicas kaingang continuavam a funcionar e também o
ritual mortuário do kiki.
Por fim, conferimos a atração pelo paladar proposta, utilizada como
instrumento de manobra e conquista indígena nos aldeamentos do Paraná
provincial e a Legislação indigenista do Império, a qual propunha a nomeação
de diretores gerais por D. Pedro II.
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REFERÊNCIAS
AMOROSO, M. R. Catequese e evasão: etnografia do aldeamento indígena
São Pedro de Alcântara, Paraná (1855-1895). Tese (Doutorado em
Antropologia Social) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 1998.
FERREIRA, A. C. Conquista colonial, resistência indígena e formação do
Estado-Nacional: os índios Guaicuru e Guana no Mato Grosso dos séculos
XVIII-XIX. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 52, n. 1, p. 97-136, jan.
2009.
MARCHIORO, M. Questão indígena no Brasil: uma perspectiva histórica.
Curitiba: InterSaberes, 2018.
MOREIRA, V. M. L. De índio a guarda nacional cidadania e direitos indígenas
no Império (Vila de Itaguaí, 1822-1836). Topoi, Rio de Janeiro, v. 11, n. 21, p.
127-142, jul./dez. 2010.
SAMPAIO, P. M. Política indigenista no Brasil imperial. In: GRINBERG, K.;
SALLES, R. (Org.). O Brasil Imperial (1808-1889). v. 1. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2009.
TAKATUZI, T. Águas batismais e santos óleos: uma trajetória histórica do
aldeamento de Atalaia. Curitiba: Samp, 2014.
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