O direito à proteção das minorias
linguísticas e seu reflexo no sistema
educativo de Québec
JORGE LUÍS MIALHE
Resumo: Este artigo pretende estudar alguns aspectos do direito à
proteção das minorias linguísticas na província canadense de Québec.
Optou-se pelo estudo das políticas públicas destinadas à educação das
minorias étnicas e linguísticas francófonas no modelo federativo canaden-
se. O federalismo é usado, reiteradamente, para acomodar a diversidade
nacional. Todavia, quanto mais os quebequenses francófonos almejam
uma divisão descentralizada de poderes, incluindo o direito à proteção
das minorias linguísticas e a organização do sistema educativo, mais
os canadenses anglófonos são favoráveis ao fortalecimento do governo
central. Nessa perspectiva, o desafio do Estado federal é encontrar o
equilíbrio entre centralização e descentralização na gestão distributiva
e reguladora dos recursos e dos serviços necessários ao exercício dos
direitos econômicos, sociais e culturais.
Palavras-chave: Direito das minorias linguísticas. Québec. Sistema
educativo. Federalismo canadense. Francofonia.
1. Introdução
O presente artigo tem o escopo de analisar alguns aspectos do direito
à proteção das minorias linguísticas. Como estudo de caso, pretende
examinar, a partir dos seus fundamentos constitucionais, as políticas
públicas destinadas à educação das minorias étnicas e linguísticas fran-
cófonas na província canadense de Québec, numa perspectiva histórica,
política e jurídica.
Recebido em 14/8/14
A província de Québec destaca-se por sua condição de principal
Aprovado em 21/8/14 bastião da cultura francesa na América do Norte, mantido graças a um
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delicado equilíbrio constitucional estabelecido O seu órgão judiciário, a Corte Permanente
pelo pacto federativo que oferece aos canaden- de Justiça Internacional (CPJI) chegou a se ma-
ses de origem francesa a proteção da sua cultura, nifestar nesse sentido quando emitiu o Parecer
representada, sobretudo, pela preservação da Consultivo no caso do acesso à escola das mino-
língua francesa como um dos dois idiomas rias alemãs na Alta Silésia, em território polonês.
oficiais do Canadá. Tal condição de minoria Em 24 de janeiro de 1931, o Conselho da
linguística de 21,7% da sua população1 implica SDN decidiu solicitar à CPJI um parecer con-
a manutenção pelo Estado de um sistema edu- sultivo, como previsto no artigo 14 do Pacto
cacional voltado para conservação dessa especi- da SDN, a partir do seguinte questionamento:
ficidade cultural e do direito à escolarização das podem as crianças que foram excluídas das
novas gerações no idioma dos seus ancestrais. escolas de minoria alemã, na base dos testes
Mais recentemente, a proteção jurídica dessa de linguagem previstos na Resolução do Con-
rica experiência de preservação da unidade selho da SDN, de 12 de março, 1927, por essa
na diversidade multicultural foi estendida às circunstância, serem impedidas de terem acesso
populações indígenas canadenses, sobretudo a essas escolas? A CPJI, por 11 votos a um,
aos inuites2, habitantes do Território de Nuna- opinou que não.3
vut, localizado no extremo norte do país. Pelo Porém, o grande salto qualitativo foi dado
acordo, os inuites passaram a governar uma área apenas em 1966 com a aprovação do Pacto
equivalente a um quinto da superfície total do Internacional dos Direitos Civis e Políticos
Canadá, de maneira tal que as culturas e as tra- que, em seu art. 274, estabeleceu a proteção
dições aborígenes sejam mantidas e respeitadas. das minorias étnicas, linguísticas e religiosas.
Deve ser observado que a Declaração Universal
2. O multiculturalismo e o direito à dos Direitos do Homem de 1948 não continha
proteção das minorias menção expressa a esse tipo de direito, particu-
larmente nos Estados multiculturais.5
Provavelmente, no âmbito do Direito In- Em relação ao reconhecimento dos direitos
ternacional, o marco pioneiro da proteção das das minorias pelos governos dos Estados, como
minorias possa ser considerado a Conferência bem salientou Lopes (2006, p. 55):
da Paz, celebrada em Paris em 1919, como
conclusão da Primeira Guerra Mundial, que 3
Além disso, conforme observou Beiter (2006, p. 25),
expressamente declarou a igualdade de todos em 1924 a SDN adotou a Declaração dos Direitos das
perante a lei, a igualdade dos direitos civis e Crianças, também chamada “Declaração de Genebra”, que
reconheceu implicitamente, em três dos seus cinco princí-
políticos, a igualdade de tratamento e a se- pios operativos, o direito à educação.
gurança das minorias. Coube, sem dúvida, à 4
“Art. 27. No caso em que haja minorias étnicas, religio-
sas ou linguísticas, as pessoas pertencentes a essas minorias
Sociedade das Nações – SDN o mérito de ter não poderão ser privadas do direito de ter, conjuntamente
sido a primeira organização internacional que com outros membros de seu grupo, sua própria vida cul-
tural, de professar e praticar sua própria religião e usar sua
buscou proteger universalmente os direitos própria língua” (BRASIL, 1992).
fundamentais (LOPES, 2006, p. 55). 5
A Teoria do Multiculturalismo foi desenvolvida, den-
tre outros, pelo canadense Will Kymlicka (1996) e “propõe
direitos especiais para a reivindicação da cidadania das
1
Dados do censo canadense de 2011. minorias”, com o objetivo de “contribuir na construção
das bases teóricas que permitam o pleno reconhecimento,
Mais conhecidos, no Brasil, como esquimós do
2
a proteção e a promoção dos direitos fundamentais dos
Canadá. grupos minoritários” (LOPES, 2006, p. 55).
28 RIL Brasília a. 52 n. 207 jul./set. 2015 p. 27-44
“Durante muito tempo, os estados americanos, e outros tradicional-
mente considerados estados de imigração, como a Austrália ou o Brasil,
ignoraram os direitos das suas nações originárias, fundados na errônea e
lamentável concepção de que essas nações ‘não tinham cultura’ ou ‘eram
de cultura inferior’, em relação à cultura ocidental. Kymlicka (1996)
dirige sua atenção, precisamente, a esses grupos minoritários, as nações
originárias, consoante com a definição tradicional de minoria da ONU,
que apenas reconhece os grupos com especiais características étnicas,
lingüísticas ou religiosas como minorias. Dessa maneira, Kymlicka (1996)
dedica sua Teoria do Multiculturalismo a analisar as culturas minoritárias
entendidas essas apenas como nações ou povos. Não obstante o autor
canadense afirme não desconhecer a existência ou a importância de ou-
tros grupos minoritários, como as mulheres, homossexuais, idosos etc.,
ele tem dirigido sua teoria aos estudos das minorias entendidas como
nações, limitação que não prejudica a importância da repercussão das
suas propostas na defesa das minorias em geral”.
Na discussão acerca da defesa dos direitos das minorias nos Estados
multiculturais, destaca-se o aporte de Kymlicka que distingue dois tipos
de Estados multiculturais: os multinational states e os polyethnic states
(KYMLICKA, 1996, p. 11).
Os primeiros são os Estados nos quais coexistem duas ou mais nações
devido a um processo de convivência involuntária (invasão, conquista
ou cessão) ou voluntária (formação de uma federação) de diferentes
povos. As minorias desse tipo de Estados são basicamente nações que já
existiam originariamente no seu território, passando a (con)viver com
outras nações que chegaram posteriormente, como é o caso dos indígenas
canadenses, americanos e brasileiros (LOPES, 2006, p. 56).
Os segundos são os Estados onde convivem várias nações devido a um
processo de imigração, como os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália.
Apesar de os imigrantes não ocuparem terras nativas, podem ser conside-
rados grupos minoritários, com a condição de que se estabeleçam conjun-
tamente e obtenham competências de autogoverno (LOPES, 2006, p. 56).
A imigração, ressalta Kymlicka (1996, p. 17), não é apenas uma ca-
racterística dos países do “Novo Mundo”. Muitos outros Estados também
receberam imigrantes, não necessariamente com a mesma magnitude dos
países americanos. Desde a Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido
e a França têm admitido imigrantes das suas antigas colônias. Outros
países, como a Suécia, acolhem refugiados de várias partes do mundo e,
ainda, existem aqueles países que aceitavam trabalhadores temporários
que acabaram se transformando em imigrantes de fato, como no caso
dos turcos na Alemanha. Em todos esses países, verifica-se o fenômeno
da polietnicidade.
Obviamente, um país pode ter ambas as características: ser multina-
cional (como resultado da colonização, da conquista ou da confederação
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de comunidades nacionais) e poliétnico (como resultado da imigração
individual ou coletiva). De fato, tais elementos de pluralismo cultural
estão presentes em alguns dos maiores países do continente americano:
Argentina, Brasil, Canadá e Estados Unidos.
No Canadá, de acordo com Silva e Pereira (2007, p. 200):
“A questão da identidade é de suma importância na história do país. Um
quarto da população, notadamente na província de Quebec, tem o francês
como língua materna, ainda que haja uma minoria lingüística anglófona
com maior poder aquisitivo. Em outras regiões do país, os francófonos
formam a minoria. E, ao mesmo tempo, o Canadá tem cidadãos com
línguas maternas diferentes de ambas, tendo em vista a imigração dos
últimos 40 anos. Além disso, e não menos importante, o país contém o
status de aborígine.
[...]
Além do aspecto histórico, há que se ressaltar as características do pro-
cesso migratório em direção ao Canadá. No meio do século XIX, a onda
migratória era formada por anglo-saxões, alemães e irlandeses. No século
XX, por eslavos, judeus, entre outros; logo depois da Segunda Guerra
Mundial, a presença de italianos, portugueses, poloneses e também
alemães foi forte e, finalmente, a mais recente onda migratória, formada
por asiáticos, caribenhos e latino-americanos. A maior parte desses
imigrantes não tem nem o francês nem o inglês como língua materna e,
segundo documentos do início do século XX, eles nunca se tornariam
verdadeiros canadenses, porém, os seus filhos teriam a oportunidade de,
por meio do sistema público de ensino e a mistura entre os canadenses,
tornar-se verdadeiros cidadãos canadenses”.
Entre os grupos minoritários, destaca-se a comunidade francófona da
província de Québec, zelosa na defesa do seu sistema educativo.
3. A comunidade francófona e o direito à educação na
província de Québec
No recenseamento de 2011, 78,9% dos habitantes da província de
Québec declararam o francês como língua materna (CANADÁ, 2011).
A maior parte, descendentes dos cerca de 15.000 imigrantes franceses
estabelecidos na Nouvelle France durante o século XVII. Todavia, uma
porção substancial dos québecois é anglófona e descende, em grande
proporção, dos imigrantes anglo-americanos vindos com a conquista
britânica da província de Québec. Após 17636, o ensino começou a dar-se
6
Segundo Miller, Vandome e McBrewster (2010, p. 17), com a derrota francesa frente
aos ingleses na Guerra dos Sete Anos (1774-1760), oficializada pelo Tratado de Paris em
1763, “la France doit choisir entre sa colonie de Nouvelle-France ou ses colonies des Antilles.
La France opte pour les Antilles à cause de la présence de se ressources naturelles facile-
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em inglês como resposta aos anseios desses No mesmo sentido, as características de
novos imigrantes (PROULX, 2009, p. 66). uma rede escolar liberal, suscetível de favorecer
Certas características da rede escolar con- tanto o bom funcionamento do aparelho polí-
temporânea de Québec mergulham suas raízes tico quanto a livre empresa, foram claramente
num passado longínquo. A história tem efeitos enunciados na década de 1840. Em 1867, logo
estruturantes: as escolas confessionais, as es- após a formação da federação canadense, a
colas de língua francesa e de língua inglesa, os rede escolar tomou a forma que foi conservada
estabelecimentos públicos e privados, surgidos por quase um século, controlada pelas igrejas
há mais de dois séculos, ainda influenciam católica e protestante.9 Somente após 1960 o
as instituições educacionais do Canadá.7 Na governo provincial de Québec assegurou o seu
Nouvelle France, como em todas as sociedades comando sobre as instituições educativas em
ocidentais, a Igreja assumiu a responsabilidade nome dos princípios da igualdade de acesso à
pela educação.8 escola e de uma “melhor preparação para a vida
em sociedade” (PROULX, 2009, p. 22).
ment exploitables et aussi parce qu’elle sait est incapable O sistema educativo quebequense é cons-
de défendre son immense colonie de Nouvelle-France face tituído por um grande número de instituições
aux prospères colonies britanniques”. Com a Proclamação
Real de 1763, a autoridade britânica intenta obter o controle centralizadas e descentralizadas que agregam
total sobre Québec e assimilar os colonos franco-católicos. mais de um milhão de pessoas. Esse sistema
“Cette loi anglaise vise à donner un visage anglais à la
Province de Québec. Ainsi on décide d’imposer les lois conta com quatro níveis de ensino: o ensino
anglaises aussi bien au civil qu’au criminel. Le gouverneur
Murray doit aussi exiger le serment du test qui consiste à
pré-escolar e primário; o ensino secundário
renier la religion catholique pour tous ceux qui veulent un e o nível pós-secundário, o ensino colegial e
poste dans l’administration. Cette mesure vise à écarter
les anciens sujets français de tout poste officiel. Il doit de universitário. O sistema está sob a responsabili-
plus encourager l’immigration britannique et favoriser la
creation d’écoles protestantes”.
7
De acordo com Zanazanian (2008, p. 110), “until en Nouvelle-France. À tous niveaux, c’est l’Église qui assume
1960s, two different historical narratives were transmitted cette responsabilité, ici comme ailleurs en Occident”. Con-
to French-and English-speaking students in Quebec, both forme Miller, Vandome e McBrewster (2010, p. 17), “le droit
reflecting the collective memories of each group. In general, de fréquenter l’école catholique était garanti par l’Acte de
Francophones were taught la survivance or the preservation Québec de 1774, protégeant ainsi la totalité de la population
of their French heritage and Catholic religion, with its de langue française catholique qui vivait dans un pays ou
accompanying morals and values, while Anglophones were la population anglaise était majoritairement protestante”.
taught about the redemptory magnificence and virtues of
the British Empires. […] This politically sanctioned duality
9
Segundo Miller, Vandome e McBrewster (2010, p.
changed with the Quiet Revolution, as did the province’s 23), o período do governo de Maurice Duplessis como
sociopolitical landscape, necessitating reform in how history primeiro-ministro de Québec (1945-1960) caracterizou-
was taught in schools. As French Canadians in Quebec -se por “un ultra-conservatisme social qui fait peu de
started to gradually identify themselves as les Québécois”. place à l’intervention de l’État en éducation, en santé et en
soutien aux défavorisés, laissant ces sphères au soins des
8
Segundo Proulx (2009, p. 25-27), “dès 1615, les congrégations religieuses; le Québec accumule d’ailleurs
Récollets ouvrent une petit école pour les garçons à Qué- un retard important sur le plan de la scolarisation durant
bec. Les Jésuits font le même en 1635 et les Sulpiciens, à la période”. Nas décadas seguintes, ainda de acordo com
Montréal, en 1666. On trouve aussi des écoles de filles: la Miller, Vandome e McBrewster (2010, p. 17), “la réligion
première est ouvert par les Ursulines à Québec, en 1639; était peu prise en compte depuis les années 1970, l’éducation
Marguerite Bourgeoys en inaugure une autre à Montréal, religieuse pouvant être ramplacée par l’enseignement moral
en 1657. [...] Bientôt, les petites écoles ne touchent que les au choix des parents. Une modification apporté à la Loi sur
enfants des colons. En 1668, on trouve 29 écoles paroissiales l’instruction publique de 1998 a remplacé les comissions
rurales dans la colonie, plus celles des Villes. En 1760, Il y scolaires confessionnelles par des commissions scolaires
a 45 écoles paroissiales pour 110 paroisses. Plusiers de ces fondées sur la langue et non sur la religion. Depuis l’année
écoles sont tenues par des religieuses de la Congrégation scolaire 2008-2009, il n’y as plus de choix de religions et
de Notre-Dame. Les jésuites ajoutent progressivement des les écoles sont devenus 100% laïques. Le cours de religion
classes à leur école de Québec jusqu’à offrir toute la for- a été remplacé, au primaire et au secondaire, par le cours
mation collégiale en 1649. [...] On le voit, il n’existe pas de d’Éthique et Culture religieuse, qui fusionne l’enseignement
structure administrative laïque responsable de l’éducation general des grandes Religions ainsi que la morale”.
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dade do Ministério da Educação, do Lazer e do canadense, muitas vezes reagrupados em pe-
Esporte. Em nível local, as comissões escolares, quenas comunidades rurais isoladas, os fran-
os colégios e os estabelecimentos universi- cófonos minoritários, ainda que numerosos,
tários asseguram a organização dos serviços caracterizam-se pela fraca densidade demo-
educativos dentro do seu respectivo território gráfica. Assim repartidos, as comunidades e os
(PROULX, 2009, p. 19). indivíduos recebem inegavelmente uma grande
As características das instituições escolares influência da língua e da cultura majoritária
estão vinculadas a certo número de princípios (CORMIER, 2005, p. 3).
organizadores tais como a idade dos alunos nos No final da década de 1960, a prática da
respectivos níveis de ensino, o idioma utilizado adoção da língua inglesa pelos imigrantes e suas
na educação e o caráter público ou privado da sua crianças começou a ser questionada. O censo
administração escolar (PROULX, 2009, p. 19). de 1971 indicou que o idioma francês corria
As instituições educativas são mantidas grandes riscos: quem imigrava para o Canadá
graças à vontade da Assembleia de Québec. De aprendia o inglês, não o francês. Se, em 1951,
acordo com o artigo 93 da Lei Constitucional os franco-canadenses constituíam 83% da po-
canadense de 1867, as Assembleias Legislativas pulação de Québec, em 1971, essa porcentagem
provinciais têm competência para legislar em começou a cair. “Os alarmistas afirmavam que
matéria educacional e assegurar o seu financia- logo Montréal se transformaria numa cidade
mento público (PROULX, 2009, p. 47). de língua inglesa na qual os descendentes dos
A característica dos francófonos no Canadá franceses se sentiriam como estrangeiros”
é, conforme salientam Silva e Pereira (2007, p. (MORTON, 1989, p. 278).
195), a sua concentração geográfica nas seguin- Em 1968, um conflito eclodiu na escola de
tes regiões: Québec, Nouveau Brunswick (única Saint-Léonard11, subúrbio de Montréal, porque
província oficialmente bilíngue), Ontario, imigrantes italianos insistiam em enviar os seus
Manitoba, Île du Prince Édouard e Nouvelle filhos a escolas de orientação inglesa. A crise foi
Écosse. Todavia, nos últimos 40 anos, de acor- responsável, no ano seguinte, pela aprovação
do com estudos sobre o uso das duas línguas da “Bill 63”12, que consagrou a livre escolha da
pelos canadenses, tem ocorrido um processo língua de ensino.
de diminuição dos falantes de língua francesa.
As duas principais razões para essa redu-
porque os franco-canadenses permanecem mais cautelosos
ção são, em primeiro lugar, a queda da taxa de em relação à integração.
natalidade entre os francófonos em relação aos 11
“The school board of Saint-Léonard (Montréal) had
anglófonos a partir de 1971 e, em segundo lugar, insisted that children of immigrants within its jurisdiction
receive unilingual French education. Anglophone
imigrantes de língua inglesa que chegam com opposition caused the UNION NATIONALE government
to introduce Bill 85, which never passed the parliamentary
frequência ao Canadá.10 Deve ser ressaltado, committee stage. The Gendron Commission was then
ainda, que, dispersos sobre o vasto território established to investigate language problems in Québec,
but when a compromise proposed by the Saint-Léonard
school board trustees led to violent demonstrations, the
government introduced Bill 63 without awaiting the
10
No início do século XX até os dias de hoje, chegou commission’s recommendations” (BILL 63, 1969).
ao Canadá grande número de imigrantes pertencentes a
outras nações e culturas. De acordo com Zanazanian (2008, 12
“Bill 63, Loi pour promouvoir la langue française au
p. 112), geralmente os imigrantes adotam a escola de língua Québec (Nov 1969), required children receiving their edu-
inglesa para os seus filhos por duas razões: em primeiro cation in English to acquire a working knowledge of French
lugar, porque a língua inglesa possibilita maior mobilidade and required everything to be done so that immigrants
socioeconômica na América do Norte e, em segundo lugar, acquired the knowledge of French upon arrival in Québec”.
32 RIL Brasília a. 52 n. 207 jul./set. 2015 p. 27-44
É necessário esclarecer que a existência das Na prática, a “Lei 22” tornou-se inaplicá-
escolas em língua inglesa jamais foi contestada. vel. A tomada de consciência deste fenômeno
Discutiu-se, entretanto, o comprometimento engendrou um vivo debate na sociedade ca-
da função assimiladora dessas novas correntes nadense, concluído em 1977 com a adoção da
migratórias pela escola francófona, pois os Carta da Língua Francesa (CLF), comumente
imigrantes preferiam inscrever maciçamente conhecida por “Lei 101” (Bill 101). A aprovação
os seus filhos em escolas de língua inglesa e da CLF pela Assembleia quebequense fez da
integrarem-se à minoria anglófona da provín- língua francesa o idioma oficial de Québec e a
cia de Québec. Nesse sentido, os francófonos língua habitual utilizada nos locais de trabalho,14
corriam o risco de se tornarem minoritários na nos meios de comunicação, no comércio, nos
capital da província, Montréal. negócios15 e no ensino (PROULX, 2009, p. 66).
Porém, em 1974, novos dados estatísti- Todos os cidadãos estavam sujeitos a
cos alarmaram o governo de Québec: mais essa norma, tanto os quebequenses como os
de 25.000 alunos francófonos e 82,7% dos imigrantes. Contudo, excepcionalmente, a
alófonos13, filhos dos imigrantes, estavam fre- lei permitia às crianças da minoria histórica
quentando as escolas de língua inglesa. Como anglo-quebequense realizar os seus estudos em
reação, o governo liberal de Robert Bourassa inglês se um de seus pais já tivesse concluído a
sancionou a “Lei 22” (Bill 22) que proclamou o sua instrução primária em inglês na província
francês como a única língua oficial da província de Québec. As disposições transitórias também
de Québec, aboliu a tradicional escolha dos pais protegiam os direitos adquiridos daqueles que
entre a escolarização em inglês ou em francês e, já haviam iniciado o seu aprendizado em inglês
para forçar os imigrantes a matricularem seus (PROULX, 2009, p. 76).
filhos em escolas de orientação francesa, limitou
o acesso à escola de língua inglesa tão somente 14
Na análise de Morton (1989, p. 280), “a Bill 101
às crianças que já dominavam aquele idioma e poderia ser absurda ou opressiva ao impor o francês como
que fossem submetidas a um teste de linguagem língua de trabalho, governo e até para as placas das livrarias
inglesas, mas os canadenses fora de Québec não eram afeta-
(MORTON, 1989, p. 278). dos por isso e nunca tinham demonstrado muita simpatia
pela minoria de língua inglesa da província. A própria
minoria estava confusa, dividida e amplamente silenciosa.
Seus membros mais jovens fizeram as malas. O mesmo
[...] “Bill 63 aroused unprecedented opposition among ocorreu com muitas companhias com sede em Montréal.
Québec’s francophone population who believed it was too Ottawa chegou a pedir para que todas elas ficassem, mas
weak a measure. It was eventually repealed and replaced by os separatistas se regozijavam em silêncio com o êxodo”.
the more comprehensive BILL 22” (BILL 63, 1969). 15
A propósito, Neathery-Castro e Rousseau (2002, p.
13
“Indivíduo cuja língua materna não é a da comuni- 21-22) destacam que: “Prior to this, Quebec’s economy was
dade em que se encontra” (HOUAISS, 2001). Nesse sentido, dominated by Canadian and United States corporations
é instigante a indagação formulada por Kimlicka (1996, p. embracing an ethnic division of labor – anglophone capital
46): “Why fracophones should be able to demand court and francophone labor. As a result, the economy ran in
proceedings or education in their mother-tongue at public English; unilingual French speakers were largely excluded
expense when Greek – or Swahili – speakers cannot. The from most middle-class managerial and professional
answer, I have suggested, is that language rights are one occupations, hindering upward mobility. Quebec’s current
component of the national rights of the French Canadians. language policies ensure that French remains the national
Since immigrant groups are not national minorities, they language, maintaining economic opportunity for the
are not accorded similar languages rights. [...] The fact that French-speaking working class and the culture producing
French Canadians are a national minority is essencial to French-speaking middle class. [...] The market value
understanding why individual francophones have a right to of French in Quebec has improved. Still francophones
a trial in French, and why a group of francophone parents continue to have less geographic mobility in Canada than
can demand a French school where numbers warrant, and anglophones. Thus Quebec’s economic development
why the province of Quebec has jurisdiction over education policies focus on attracting ‘mobile capital to immobile
under the federal division of powers”. francophone workers’”.
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Duas ideologias diferentes se enfrentavam tou com a aprovação das províncias de língua
durante todo esse debate. No âmbito federal, inglesa e a desaprovação da Assembleia de
a dualidade canadense originária dos seus Québec. Como observou Lopes (2007):
povos colonizadores impunha dois princípios:
a igualdade das duas línguas oficiais e o direito “Nas nove províncias e territórios onde o
de mobilidade dos cidadãos através do país. idioma inglês é predominante, cidadãos cuja
língua materna seja o francês têm o direito
A livre escolha do idioma de ensino em todo
de mandar seus filhos a uma escola onde se
o país simbolizava esses mesmos princípios ensine em francês, ou no caso da pessoa que
(PROULX, 2009, p. 71). está assistindo a uma escola de ensino fun-
Para os políticos de Québec, a sociedade a damental ou médio em francês tem também
o direito de continuar assistindo a esse tipo
ser construída seria “essencialmente francesa”,
de escola. Da mesma forma, as pessoas cuja
como a de Ontário era inglesa. Esse caráter língua materna seja o inglês ou assistam a
distintivo foi acompanhado do reconhecimento uma escola onde se ensine em inglês terão
da comunidade anglófona e de suas instituições também o direito de mandar seus filhos a
de ensino. Entretanto, a principal responsabili- uma escola em inglês ou, se for o caso, de
continuar recebendo educação nessa língua.
dade pela integração dos imigrantes em Québec
Esse direito, a ser educado em inglês ou
deveria ser, inicialmente, da maioria francesa. francês, será aplicado apenas se na respectiva
Em 1982, o primeiro-ministro do Canadá, província existir um número suficiente de
Pierre E. Trudeau, propôs um projeto de Lei pessoas requerendo esse tipo de educação”
(LOPES, 2007, p. 14).
Constitucional (Constitutional Act) 16 que con-
“O Canadá foi criado por uma lei do Parlamento
16 É o que se denomina “Cláusula Canadá”.
da Grã-Bretanha; consequentemente, não possui uma Mais tarde, a Suprema Corte interpretou o ar-
‘constituição’ propriamente dita. O documento mais
próximo a um texto constitucional seria o Ato da Amé- tigo 23 da Lei Constitucional17, reconhecendo o
rica do Norte Britânica de 1867, pelo qual as províncias
coloniais britânicas do Canadá (Alto e Baixo Canadá),
Nova Escócia e Nova Brunswick uniram-se para criar o de reforma da Constituição para o Parlamento Canadense,
Dominion do Canadá. Ainda assim, mesmo sem existir e o acréscimo, em âmbito constitucional, de uma Carta
uma ‘constituição’ propriamente dita no direito canadense, de Direitos e Liberdades Fundamentais. Como é possível
a Lei Constitucional de 1982, que figura como anexo ‘B’ perceber, a Constituição do Canadá está em constante
da Lei do Canadá de 1982, através da qual a constituição aperfeiçoamento, não se permitindo ficar estática e correr
canadense foi finalmente repatriada para o Canadá, define o risco de não ter mais serventia ao seu povo. A partir de
o que é a constituição” (OAS, 2007). Conforme salienta agora vamos analisar as principais alterações promovidas
Santos (2007, p. 240), o Ato da América do Norte Britânica pelo Ato Constitucional de 1982.”
de 1867 “criou a federação, as províncias, o Parlamento
Federal e as Assembléias Provinciais, dispôs os poderes do 17
“Article 23. (1) Citizens of Canada (a) whose first
governo e garantiu ao Quebec o reconhecimento de seu language learned and still understood is that of the English
próprio sistema jurídico. Mas possuía algumas imperfeições, or French linguistic minority population of the province in
sendo a mais grave a ausência de previsão de um procedi- which they reside, or (b) who have received their primary
mento de reforma desse documento. Além disso, qualquer school instruction in Canada in English or French and reside
alteração de ordem constitucional só poderia ser feita pelo in a province where the language in which they received
Parlamento Britânico. Tal situação só veio a ser alterada that instruction is the language of the English or French
no ano de 1982, quando ocorreu, como afirma a doutrina linguistic minority population of the province, have the
jurídica canadense, a “repatriação” ou “canadianização” de right to have their children receive primary and secondary
sua Constituição. O Ato Constitucional de 1982 reconheceu school instruction in that language in that province. (2)
25 documentos como constitucionais, sendo o primeiro Citizens of Canada of whom any child has received or
o Ato da América do Norte Britânica e o mais recente o is receiving primary or secondary school instruction in
próprio Ato de 1982. Além desses, reconheceu treze leis do English or French in Canada, have the right to have all their
Parlamento Britânico, sete do Parlamento Canadense e qua- children receive primary and secondary school instruction
tro do Conselho Privado Britânico. As grandes alterações in the same language. (3) The right of citizens of Canada
foram duas: o fim do poder do Parlamento Britânico sobre under subsections (1) and (2) to have their children receive
a Constituição do Canadá, com a transferência do poder primary and secondary school instruction in the language
34 RIL Brasília a. 52 n. 207 jul./set. 2015 p. 27-44
direito das minorias anglófona e francófona de gerir os seus estabeleci-
mentos de ensino primário e secundário na língua de sua preferência.18
No que concerne aos estabelecimentos de ensino pós-secundários,
nenhuma lei indica o idioma no qual deverão ministrar o seu ensino.
Aqueles que o fazem em inglês assim procedem por conta da tradição
(PROULX, 2009, p. 76).
Quanto ao ensino privado, atualmente ele continua a ocupar um lugar
importante em Québec graças, principalmente, a uma legislação que em
tudo favorece a garantia de acesso à escola particular.
Em 1966, o relatório Parent19 afirmava que o ensino privado é um
direito que decorre da liberdade de ensinar. O relatório recomendava,
entretanto, que os estabelecimentos de ensino particular tivessem uma
vocação complementar ao sistema público. Posteriormente, em 1968, a As-
sembleia Nacional adotou uma primeira lei sobre ensino privado. A partir
de então, as instituições educacionais privadas tiveram que obter uma
of the English or French linguistic minority population of a province (a) applies wherever
in the province the number of children of citizens who have such a right is sufficient to
warrant the provision to them out of public funds of minority language instruction; and (b)
includes, where the number of those children so warrants, the right to have them receive
that instruction in minority language educational facilities provided out of public funds”
(CANADÁ, 1982).
18
Nesse sentido, a título exemplificativo, merece destaque a análise do “leading case”
Mahé v. Alberta, (1990): “Is a leading decision of the Supreme Court of Canada. The ruling is
notable because the court established that section 23 of the Canadian Charter of Rights and
Freedoms requires that parents of the official-language minority in each province have the
right either to be represented on the school board, or to have a school board of their own,
in order to provide adequate protection for the education rights of their children. Three
Edmonton citizens, Jean-Claude Mahé, Angeline Martel and Paul Dubé, were dissatisfied
with the quality of the French language schools provided by the Albertan government. In
1982 they submitted a proposal to the Minister of Education for a new French elementary
school that would be administered by a committee of parents within an autonomous French
school board. The Minister of Education told them that it was not in their policy to make
such arrangements and so they suggested they try to do it through the public school board.
The board rejected them. Mahé and the others brought an action against the government
of Alberta for violating their right to a Francophone-run education system under section
23 of the Charter. The questions before the Supreme Court were: Have the rights of the
Francophone population of Edmonton under section 23(2)(b) of the Charter been violated?
Do the rights under section 23 include the right to manage and control the schools? If so,
what is the nature and extent of the management and control? Does the provincial School
Act violate section 23? If so, can it be saved under section 1 of the Charter? Are the rights
affected by section 93 of the Constitution Act, 1867, section 29 of the Charter, and section 17
of the Alberta Act? The Court held that section 23 guarantees representation on the school
board, and exclusive control over the children’s education with respect to culture; or it can
guarantee a separate school board. However, there must be sufficient minority language
population to warrant either level of protection. In this particular case, the Court decided
representation on an existing school board would be sufficient, and held that this did not
interfere with denominational school rights under section 29 of the Charter since it merely
affected language. The Court’s unanimous decision was given by Chief Justice Brian Dickson.
He began by examining the purpose of section 23 which is to ‘preserve and promote the two
official languages of Canada, and their respective cultures’. The section was intended to be
remedial so as to prevent the loss of a minority group’s language and cultural identity and
so must be interpreted in light of section 15 and 27 of the Charter” (WIKIPÉDIA, 2015c).
19
Comissão de inquérito sobre o ensino em Québec, instituída em 1962 e presidida
pelo Monsenhor Alphonse-Marie Parent, reitor da Universidade Laval.
RIL Brasília a. 52 n. 207 jul./set. 2015 p. 27-44 35
autorização cuja emissão depende do respeito a certos critérios de qua-
lidade, sobretudo quanto ao nível dos seus profissionais da educação. Os
estabelecimentos escolares privados devem, igualmente, seguir os progra-
mas oficiais do Ministério da Educação, do Lazer e do Esporte e aplicar
as suas principais disposições acerca do processo pedagógico. Enfim, a lei
prevê um generoso regime de subvenções aos estabelecimentos reconhe-
cidos de interesse público. O procedimento atual foi fixado pela lei sobre
ensino privado de 1992, que veio substituir aquela adotada em 1968. Os
elementos essenciais da lei precedente foram mantidos, sobretudo quando
se trata da aplicação e do cumprimento dos programas e do sistema pe-
dagógico. Desse modo, a lei de 1992 indicou uma lista de critérios que o
Ministério da Educação, do Lazer e do Esporte deve levar em conta para
a atribuição das referidas subvenções, incluindo a fixação de um teto
nos valores cobrados pelas instituições privadas (PROULX, 2009, p. 88).
Ao analisarem o aprendizado das línguas oficiais do Canadá e o seu
valor simbólico, Silva e Pereira (2007, p. 201) ressaltam que:
“As línguas inglesa e francesa e as religiões protestante e católica, respec-
tivamente, foram protegidas pela constituição no então novo país desde
1867. Apesar disso, segundo os citados autores (Riffel; Levin, 2006), na
prática os direitos constitucionais das minorias linguísticas não têm sido
respeitados no Canadá como um todo. Eles nos dizem que a comunidade
anglófona, economicamente poderosa, tem se desenvolvido na região do
Quebec, e, portanto, criado e mantido suas escolas em língua inglesa com
financiamento público. Da mesma forma ocorre em New Brunswick,
com uma substancial minoria falante do francês, mas em outras partes
do Canadá francês as escolas não são tão afortunadas. Manitoba, por
exemplo, eliminou as escolas católicas em 1890 e apenas nos últimos 20
anos as escolas puderam oferecer essa língua novamente.
Tal mudança de postura frente às respectivas minorias ganhou espaço em
1982 na nova constituição do país, com o Charter of Rights and Freedoms,
pelo menos nas escolas públicas, inclusive porque passa a garantir escolas
com o ensino em francês para alunos com raízes na francofonia e com
língua materna francesa. Para esses autores, a situação dos anglófonos em
Quebec hoje é menos insatisfatória do que já foi, e ainda mais satisfatória
do que a situação dos francófonos em regiões em que há o predomínio
da língua inglesa.
Em suma, no contexto atual canadense de multiculturalidade, encontra-
mos, além da minoria francófona e da primeira geração, os aborígines,
segundo Fasal Kanouté (2002), inúmeros processos de construção iden-
titária das pessoas em situação de migração ou, ainda, de aculturação”.
Nesse cenário de tensões identitárias e de interesses divergentes,
buscou-se um mínimo denominador comum para a negociação de uma
nova legislação que garantisse a manutenção do francês como idioma
oficial da província de Québec amparado pelo sistema educativo.
36 RIL Brasília a. 52 n. 207 jul./set. 2015 p. 27-44
4. A Carta da Língua Francesa e seus reflexos no sistema
educativo
Sancionada em 26 de outubro de 1977, a Carta da Língua Francesa
(CLF) substituiu a “Lei 22”20 e reconheceu, de maneira categórica e
global, o francês como língua oficial de Québec. A CLF estabeleceu, em
termos gerais, o direito de toda pessoa “viver em francês” em Québec.
Em seguida, no seu capítulo 3o (artigos 7o a 13), reconheceu o francês
como língua da legislação e da justiça na província de Québec (BRUN;
TREMBLAY; BROUILLET, 2008, p. 886).
A CLF faz referência ao uso da língua francesa na administração e
nos organismos públicos, no ambiente de trabalho, no comércio e nos
negócios. Todavia, o espírito da lei não é o de tornar o idioma francês a
língua exclusiva de Québec. Com efeito, existem várias jurisprudências
reconhecendo o direito do uso do idioma inglês nas comunicações do
empregador; nos programas de computadores fornecidos aos empregados
e o direito de as cidades terem as suas leis redigidas em forma bilíngue.
Além disso, a lei sobre o serviço de saúde e os serviços sociais (artigos 15,
348 e 508) prevê que toda pessoa de expressão inglesa tem o direito de
receber neste idioma as informações sobre o acesso aos seus programas
e serviços (BRUN; TREMBLAY; BROUILLET, 2008, p. 886).
As disposições originais da Carta da Língua Francesa impuseram o
“unilinguismo” francês aos avisos públicos e à publicidade comercial.
Todavia, tais disposições foram julgadas contrárias à liberdade de ex-
pressão contemplada nas Cartas de Direitos e Liberdades do Canadá21
e de Québec.22 As mesmas disposições foram julgadas contrárias ao
20
“Cette loi adoptée par le Parlement québécois en 1974 voulait identifier les secteurs
où il paraissait nécessaire que la loi intervienne, notamment au sujet de l’accès à l’école de
langue anglaise, des entreprises, du commerce et des affaires. La Loi sur la langue officielle
faisait du français la langue officielle au Québec, tout en accordant aux anglophones les droits
qu’ils avaient toujours historiquement obtenus. La loi 22 voulait intégrer les allophones à la
culture francophone en apprenant le français. Signalons que la Loi sur la langue officielle
constituait le premier effort d’un gouvernement québécois pour rendre officielle la langue
française, dans la province. Aujourd’hui abrogée, cette loi n’a qu’une valeur historique”
(QUÉBEC, 1974).
21
No Canadá, os governos, tanto federal quanto os provinciais ou territoriais, protegem
os direitos e liberdades da pessoa. A Declaração Canadense de Direitos, adotada em 1960,
foi a primeira lei federal a anunciar expressamente os direitos fundamentais dos canadenses.
A Lei Canadense dos Direitos da Pessoa (LCDP), adotada originalmente em 1977, protege
igualmente os direitos da pessoa, notadamente nos campos do emprego e da habitação.
Contrariamente à Declaração Canadense de Direitos, a LCDP aplica-se não apenas ao
governo federal, mas também ao setor privado nas áreas regulamentadas diretamente por
ele, como, por exemplo, nas operações bancárias. Todas as províncias e territórios possuem
igualmente leis sobre os direitos da pessoa.
22
Aprovada em 27 de junho de 1975, entrou em vigor em 28 de junho de 1976. Maiores
detalhes sobre a história da Carta disponíveis em: <[Link]
[Link]>. Acesso em: 19 jun. 2015.
RIL Brasília a. 52 n. 207 jul./set. 2015 p. 27-44 37
direito de igualdade, garantida pela Carta dos estabelecida no artigo 23 da Carta Canadense
Direitos e das Liberdades de Québec (BRUN; de Direitos e Liberdades. Em 1993, a Carta da
TREMBLAY; BROUILLET, 2008, p. 887). Língua Francesa foi modificada para se ajustar
O capítulo 8o da Carta da Língua Francesa ao texto constitucional federal. Nessa ocasião,
enuncia, inicialmente, o princípio pelo qual a CLF indicava que “a maior parte” do ensino
o ensino em Québec deve ser oferecido em primário ou secundário recebido no Canadá
francês para as classes maternais e nas escolas é que condicionava a admissibilidade à esco-
primárias e secundárias. Inicialmente, a CLF la inglesa em Québec. A Suprema Corte do
limitava o acesso à escola inglesa apenas às Canadá julgou que esta indicação é compatível
crianças cujos pais assim o haviam requerido com o parágrafo 2o do artigo 23 da Carta Ca-
e que tiveram em Québec, por conta de certos nadense de Direitos e Liberdades24, dando-lhe
direitos adquiridos, o ensino primário em in- um sentido mais qualitativo que quantitativo:
glês. A “Cláusula Québec”, contida na linha 73A a Corte examinou “se existe uma prova de
da CLF, impedia as pessoas vindas de outras engajamento autêntico na língua ensinada à
províncias e de outros países de terem acesso minoria”, sublinhando que não é suficiente que
à escola de língua inglesa. Porém, a “Cláusula uma criança seja inscrita apenas em algumas
Québec” foi julgada inválida na medida em que semanas ou alguns meses em um determinado
era incompatível com a “Cláusula Canadá”23 programa escolar ministrado no idioma desta
minoria. O objetivo manifesto do constituinte
era proteger as minorias de língua, inglesa ou
23
“Clause Canada/Clause Québec: La Cour suprême
du Canada a implicitement reconnu que l’article 23 de la francesa. A interpretação da Suprema Corte
Charte canadienne des droits et libertés avait été adoptée
pour empêcher le Québec de recourir à l’unilinguisme
tendeu, antes de tudo, a ver neste artigo 23 os
territorial avec la Charte de la langue française. À l’origine, direitos, individuais.25
l’article 73 de la Charte de la langue française, adoptée en
1977 par le parlement de Québec, prévoyait que seuls les en-
fants dont le père ou la mère avaient reçu un enseignement 24
“Article 23.(1) Citizens of Canada (a) whose first
en anglais au Québec avaient le droit de fréquenter l’école language learned and still understood is that of the English
anglaise au Québec. Or, le 26 juillet 1984, la Cour suprême or French linguistic minority population of the province in
du Canada déclara que la ‘clause Québec’ (l’école anglaise which they reside, or (b) who have received their primary
uniquement pour les enfants dont les parents ont fréquenté school instruction in Canada in English or French and reside
l’école anglaise au Québec) était inconstitutionnelle, et ce, in a province where the language in which they received
rétroactivement, parce qu’elle était contraire à la Charte des that instruction is the language of the English or French
droits et libertés (adoptée en 1982). Le paragraphe 23.2 de la linguistic minority population of the province, have the
Charte canadienne oblige, rappelons-le, toutes les provinces right to have their children receive primary and secondary
canadiennes à donner un enseignement en français ou en school instruction in that language in that province. (2)
anglais à tout enfant dont les parents ont reçu un enseig- Citizens of Canada of whom any child has received or is
nement en français ou en anglais au Canada: Les citoyens receiving primary or secondary school instruction in English
canadiens dont un enfant a reçu ou reçoit son instruction, or French in Canada, have the right to have all their children
au niveau primaire ou secondaire, en français ou en anglais receive primary and secondary school instruction in the
au Canada ont le droit de faire instruire tous leurs enfants, same language. (3) The right of citizens of Canada under
aux niveau primaire et secondaire, dans la langue de cette subsections (1) and (2) to have their children receive
instruction. Depuis juillet 1984, il faut lire au Canada plutôt primary and secondary school instruction in the language
que au Québec, le paragraphe a) devient ainsi: a) les enfants of the English or French linguistic minority population of
dont le père ou la mère a reçu un enseignement primaire a province (a) applies wherever in the province the number
en anglais au Canada, et non plus au Québec. La Loi cons- of children of citizens who have such a right is sufficient to
titutionnelle de 1982 a en effet remplacé ce qu’on a appelé warrant the provision to them out of public funds of minority
la ‘clause Québec’ par la ‘clause Canada’. De même pour le language instruction; and (b) includes, where the number of
paragraphe c), il faut, depuis 1984, lire Canada au lieu de those children so warrants, the right to have them receive
Québec, ce qui devient: c) les enfants qui recevaient léga- that instruction in minority language educational facilities
lement l’enseignement en anglais dans une école publique provided out of public funds” (CANADÁ, 1982, grifo nosso).
du Canada (et non plus Québec) avant l’adoption de la loi.
Ainsi, la ‘clause Canada’ a définitivement remplacé la ‘clause 25
Tal decisão, na avaliação de Brun, Tremblay e Brou-
Québec’ dans le système scolaire québécois” (CLAUSE, s.d.). illet (2008, p. 889), é suscetível de multiplicação de litígios.
38 RIL Brasília a. 52 n. 207 jul./set. 2015 p. 27-44
Em 2002, a Carta da Língua Francesa foi novamente modificada para
estabelecer que, para garantir o direito de acesso à escola de língua inglesa,
não seria considerado o ensino em inglês obtido em Québec numa escola
privada não subvencionada26 e, tampouco, o ensino recebido em inglês em
virtude de uma autorização particular (motivada por sérias dificuldades
de aprendizagem, permanência temporária ou grave situação de ordem
familiar ou humanitária). Esses dois tipos de exclusão foram julgados con-
trários ao artigo 23 da Carta de Direitos e Liberdades do Canadá pela Corte
Suprema que decidiu que as exclusões não eram justificadas nos termos do
artigo 1o da Carta canadense. Por seu turno, a Corte de Apelação (Court
of Appeal) julgou que o número de crianças visadas por uma autorização
particular seria pouco significativa e que não haveria ameaça ao equilíbrio
linguístico de Québec. Ademais, levou em consideração a sobrevivência da
comunidade anglófona em Québec. Curiosamente, este último argumento
foi retomado pelo Juiz Hilton27, que declarou que a maioria francófona de
Québec, no contexto da América do Norte, estaria ameaçada e que ela teria
o direito de se proteger por meios razoáveis. Finalmente, a Suprema Corte
do Canadá reconheceu a livre escolha da língua de ensino em Québec e
julgou que a Carta da Língua Francesa não é discriminatória pelo fato
de impedir os membros da maioria francófona de terem acesso à escola
inglesa 28 (BRUN; TREMBLAY; BROUILLET, 2008, p. 889).
26
“Article 78.2. Nul ne peut mettre en place ou exploiter un établissement d’enseignement
privé, ni modifier l’organisation, la tarification ou la dispensation de services d’enseignement,
dans le but d’éluder l’application de l’article 72 ou d’autres dispositions du présent chapitre
régissant l’admissibilité à recevoir un enseignement en anglais. Est notamment interdite
en vertu du présent article l’exploitation d’un établissement d’enseignement privé principale-
ment destiné à rendre admissibles à l’enseignement en anglais des enfants qui ne pourraient
autrement être admis dans une école d’une commission scolaire anglophone ou un établisse-
ment d’enseignement privé anglophone agréé aux fins de subventions en vertu de la Loi sur
l’enseignement privé (chapitre E-9.1)” (QUÉBEC, 1974, grifo nosso).
27
“Mr. Justice Hilton was born in Montreal on June 18, 1949 to Catherine Ross and
Allan L. Hilton. He graduated with a Bachelor of Arts degree from Sir George Williams
University (now Concordia University) in 1970, and during the 1969‑1970 academic
year, he was a member of the University’s Board of Governors as a student representative.
[...] He obtained a B.C.L. degree in 1973 and an LL.B. degree in 1974, both from McGill
University. Mr. Justice Hilton was appointed to the Superior Court on January 29, 1998,
and he was elevated to the Court of Appeal on September 26, 2003.” Disponpivel: <http://
[Link]/c-appel/English/About/Judges/current/bios/HiltonAR_en.html>.
Acesso em: 20 jun. 2014.
28
“File No.: 29298. 2004: March 22; 2005: March 31. Present: McLachlin C.J. and Major,
Bastarache, Binnie, LeBel, Deschamps and Fish JJ. ON APPEAL FROM THE COURT OF
APPEAL FOR QUEBEC [...] Implementation of Minority Language Instruction in Quebec.
The purpose of s. 23 is the protection and promotion of the minority language community
in each province. Section 23 is of prime importance given ‘the vital role of education in
preserving and encouraging linguistic and cultural vitality. It thus represents a linchpin in
this nation’s commitment to the values of bilingualism and biculturalism’ (Mahe, at p. 350).
Section 23 achieves its purpose by ensuring that the English community in Quebec and the
French communities of the other provinces can flourish. As this Court said in Mahe, at p.
362, ‘[t]he section aims at achieving this goal by granting minority language educational
rights to minority language parents throughout Canada.’ […] In Mahe, at p. 372, our Court
RIL Brasília a. 52 n. 207 jul./set. 2015 p. 27-44 39
Para a sua melhor execução, a Carta da Há mais de 40 anos a questão das línguas
Língua Francesa instituiu o Escritório Quebe- nacionais está no centro das preocupações
quense da Língua Francesa29 e uma comissão constitucionais do Canadá. As tensões polí-
a ele vinculado. Entre as suas atribuições, o ticas que ela provocou constituíram um fator
escritório auxilia a aprovar e a elaborar pro- determinante da vontade do governo federal
gramas de afrancesamento (francisation) dos de preservar as garantias linguísticas das mi-
organismos da administração e das empresas. norias. Infelizmente, conforme a análise de
Para assegurar o respeito à Carta, o Escritório Brun, Tremblay e Brouillet (2008, p. 890) as
exerce as funções da antiga Comissão de Prote- intervenções federais na matéria foram viciadas
ção da Língua Francesa, com o poder de efetuar sob dois planos cruciais: em primeiro lugar,
inspeções e pesquisas, agindo por sua própria não se reconheceram no domínio linguístico
iniciativa ou quando solicitado. Enfim, a Carta as necessidades específicas de Québec, onde se
instituiu um Conselho Superior da Língua encontra a única maioria francófona do Cana-
Francesa para orientar o Ministro responsável dá; maioria que, ao mesmo tempo, concentra a
sobre toda questão relativa à língua francesa em principal minoria do Canadá e cuja sobrevivên-
Québec (BRUN; TREMBLAY; BROUILLET, cia é problemática. Em segundo lugar, a minoria
2008, p. 890). francófona do Canadá deve poder manter o seu
espaço onde seja possível “viver em francês”,
5. Considerações finais assim como os anglófonos podem “viver em
inglês” no restante do país. O exercício dessa
Na província de Québec, o aprendizado das prerrogativa, na sua plenitude, está vinculado
duas línguas oficiais do Canadá é obrigatório. ao direito de obtenção e manutenção de servi-
Todavia, é mais acentuada a conservação da ços essenciais na sua própria língua, inclusive
língua francesa. aqueles de caráter educacional.
A longo prazo, a melhor solução para as
dificuldades da minoria francófona do Cana-
explained the importance of retaining control in the hands
of the minority: Furthermore, as the historical context in dá, de acordo com Brun, Tremblay e Brouillet
which s. 23 was enacted suggests, minority language groups
cannot always rely upon the majority to take account of all
(2008), deverá respeitar o princípio da territo-
of their linguistic and cultural concerns. Such neglect is not rialidade, inspirado nas “zonas de segurança
necessarily intentional: the majority cannot be expected to
understand and appreciate all of the diverse ways in which linguística” adotadas pela Suíça e pela Bélgica.
educational practices may influence the language and culture No Acordo constitucional do Lago Meech30,
of the minority. A provincial government that provided equal
access to all citizens to minority language schools would not realizado em 1987, surgiu a ideia de que o
be ‘do[ing] whatever is practically possible to preserve and Canadá francófono é geograficamente concen-
promote minority language education’ (Arsenault-Cameron,
at para. 26). In short, as Dickson C.J. observed in Mahe, at p.
369: … it would be totally incongruous to invoke in aid of the
interpretation of a provision which grants special rights to a
30
“L’accord du lac Meech était un projet de réforme
select group of individuals, the principle of equality intended constitutionnelle au Canada visant à convaincre le Québec
to be universally applicable to ‘every individual’. Practical de signer la Loi constitutionnelle de 1982. L’accord, conclu
reasons as well as legal principle support the conclusion entre les provinces et le gouvernement fédéral en 1987,
that s. 23 minority language education rights cannot be comprenait cinq modifications constitutionnelles visant
subordinated to the equality rights guarantees relied upon à répondre aux demandes du Québec. Les modifications
by the appellants. V. Conclusion: For the reasons outlined exigeaient la ratification unanime des 11 gouvernements du
above the appellants have no claim to publicly funded English Canada (10 provinces et le fédéral) dans un délai de 3 ans
language instruction in Quebec” (QUÉBEC, 2005, grifo nosso). (1987-1990) pour entrer en vigueur. Toutes les provinces
signèrent l’accord, mais deux assemblées législatives ne
29
Office québécois de la langue française. Site oficial: ratifièrent pas la modification avant l’échéance du délai”
<[Link] (WIKIPÉDIA, 2015a).
40 RIL Brasília a. 52 n. 207 jul./set. 2015 p. 27-44
trado e, no Acordo de Charlottetown31, de 1992, a província de Québec
passou a compreender “uma maioria de expressão francesa”. Esses dois
projetos de reforma constitucional ajustados entre o parlamento e o
governo de Québec tiveram o papel de proteger e de promover uma
sociedade distinta que se encontra legitimamente vinculada à Carta da
Língua Francesa.32
O problema é que essas cláusulas de interpretação associaram
princípios concorrentes, senão contraditórios. Todavia, no âmbito
das disposições relativas à imigração, ambos os Acordos melhoraram
as perspectivas de renovação da francofonia canadense. O Acordo de
Charlottetown estabeleceu, ainda, um mecanismo especial para a ado-
ção de projetos de leis federais atribuindo uma importância particular
à língua e à cultura francesa do Canadá (BRUN; TREMBLAY; BROU-
ILLET, 2008, p. 891).
O federalismo é usado, reiteradamente, para acomodar a diversidade
nacional. Porém, uma das dificuldades no sistema federativo é a busca
do equilíbrio entre centralização e descentralização. Quanto mais os
quebequenses francófonos almejam uma divisão descentralizada de po-
deres, mais os canadenses anglófonos são favoráveis ao fortalecimento do
governo central. Assim, um dos desafios mais importantes para o Canadá
é encontrar uma forma aceitável de “federalismo assimétrico” que busque
acomodar as suas minorias (KYMLICKA, 1996, p. 46).
Apesar das dificuldades, conclui Munari (2007, p. 140), “o federalismo
assimétrico canadense é uma resposta positiva à diversidade existente
naquele país” e tal característica tem conferido alguma “eficácia aos
dispositivos relativos à educação, quer constitucionais, quer infracons-
titucionais”.
Como bem salientou Stavenhagen (2006, p. 215), numa sociedade
multinacional e poliétnica, tal como o Canadá ou o Brasil, é necessário
reafirmar que os direitos humanos de segunda geração “exigem um
31
“Contrairement à l’Accord du lac Meech, le processus de l’Accord de Charlottetown
était un référendum national. Trois provinces, la Colombie-Britannique, l’Alberta et le
Québec avaient récemment adopté des lois obligeant tous les amendements constitution-
nels à être soumis par référendum. De plus, à la suite des négociations de Charlottetown,
le premier ministre du Québec d’alors, Robert Bourassa, a affirmé qu’il tiendra un réfé-
rendum soit sur un nouvel accord constitutionnel ou soit sur un Québec indépendant. La
Colombie-Britannique et l’Alberta ont accepté de participer au référendum fédéral, mais
le Québec a choisi de faire son propre vote séparé. (Pour cette raison, les Québécois vivant
temporairement à l’extérieur du Québec avaient la possibilité de voter deux fois, et ce,
légalement). L’accord ne devait pas seulement être approuvé par une majorité de citoyens,
mais aussi par la majorité des électeurs de chaque province. Si une seule province n’obtenait
pas une majorité de ‘50 % + 1 vote’, l’accord ne serait pas adopté” (WIKIPÉDIA, 2015b).
32
De acordo com Proulx (2009, p. 74), a Carta da Língua Francesa teve um efeito deter-
minante na década de 1960 nos níveis secundário e colegial e seu impacto foi observado nos
dados de uma pesquisa realizada em 2008: mais de 80% dos estudantes alófonos estavam
matriculados em escolas de língua francesa na província de Québec.
RIL Brasília a. 52 n. 207 jul./set. 2015 p. 27-44 41
Estado ‘ativo’, que seja responsável, redistributivo e regulador, e que
forneça os recursos e os serviços necessários para o exercício dos di-
reitos econômicos, sociais e culturais. Quando o Estado abdica de suas
responsabilidades nessa área, são reduzidas as condições para o pleno
exercício desses direitos”.
Finalmente, o estudo crítico sobre o direito à proteção das minorias
linguísticas e a experiência do sistema educativo de Québec podem, de
alguma forma, nos inspirar na formulação de políticas públicas voltadas
para o resgate da dignidade das minorias étnicas e linguísticas constitu-
tivas da sociedade brasileira.33
Sobre o autor
Jorge Luís Mialhe é doutor, mestre e bacharel pela USP. Pós-doutorado nas universidades
de Paris e Limoges. Professor da UNESP/Rio Claro e da UNIMEP/Piracicaba.
E-mail: profmialhe@[Link]
Título, resumo e palavras-chave em inglês34
THE RIGHT TO PROTECTION OF LINGUISTIC MINORITIES AND ITS REFLECTION
IN THE EDUCATION SYSTEM OF QUÉBEC
ABSTRACT: This paper intends to study some aspects of the right to protection of
linguistic minorities in the Canadian province of Quebec. We opted for the study of
public policies meant for education of ethnic and linguistic Francophone minorities in
the federal Canadian model. Federalism is used, repeatedly, to accommodate national
diversity. However, the more francophone Quebecers long for a decentralized division of
powers, including the right to protection of linguistic minorities and the organization of
the educational system, more English-speaking Canadians are in favor of strengthening
the central government. From this perspective, the challenge of the federal state is finding
the balance between centralization and decentralization in the distributive and regulatory
management of resources and services necessary to the exercise of economic, social and
cultural rights.
KEYWORDS: LAW OF LINGUISTIC MINORITIES. QUÉBEC. EDUCATIONAL
SYSTEM. CANADIAN FEDERALISM. FRANCOPHONIE.
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Conforme preceituam o artigo 231 da Constituição Federal; as disposições do De-
creto no 26, de 4 de fevereiro de 1991 e os artigos 21 a 26 da Convenção no 107 da OIT, de
5 de junho de 1957, aprovada pelo Decreto Legislativo no 20, de 1965 e promulgada pelo
Decreto no 58.824, de 1966.
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Sem revisão do editor.
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