Texto de apoio
Sociologia VI
Profa. Dra. Mariana F. Guerino
Neoliberalismo e Fascismo: A Crise da Democracia e o
Aprofundamento das Desigualdades
O avanço do neoliberalismo e a ascensão de discursos fascistas no Brasil e no
mundo têm gerado impactos profundos na sociedade, intensificando a
desigualdade social e fragilizando instituições democráticas. Enquanto o
neoliberalismo promove a desregulação econômica, precarizando o trabalho e
reduzindo direitos sociais, o fascismo contemporâneo se alimenta das crises
geradas por esse sistema para justificar medidas autoritárias e antidemocráticas.
Neoliberalismo: Privatização e Precarização
O neoliberalismo, que se consolidou a partir dos anos 1980 com governos como
os de Margaret Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nos Estados Unidos,
baseia-se na crença de que o mercado deve operar com o mínimo de
interferência estatal. No Brasil, esse modelo econômico se intensificou a partir
da década de 1990, com a privatização de empresas públicas e a flexibilização
das leis trabalhistas.
O impacto desse processo é visível nos índices de desigualdade:
A taxa de desemprego no Brasil em 2024 é de 6,4%, com cerca de 7 milhões de
brasileiros desocupados, sendo as mulheres as mais afetadas;
A renda média dos trabalhadores brancos (R$ 2.796) ainda é 73,9% superior à
dos trabalhadores pretos e pardos (R$ 1.608), refletindo a desigualdade racial
estrutural;
O Brasil tem 21 milhões de pessoas passando fome, um reflexo direto do
desmonte de políticas públicas de assistência social;
Com a precarização do trabalho e a redução da presença do Estado, milhões de
trabalhadores foram empurrados para a informalidade, como é o caso da
uberização do trabalho, onde indivíduos atuam sem garantias trabalhistas,
assumindo os riscos que antes eram das empresas.
O Fascismo como Resposta às Crises do Neoliberalismo
O crescimento do autoritarismo e do fascismo no século XXI pode ser
compreendido como uma resposta política às crises geradas pelo próprio
neoliberalismo. O historiador Enzo Traverso argumenta que vivemos uma era de
"pós-fascismo", na qual governos autoritários adotam estratégias populistas para
canalizar o descontentamento social sem romper completamente com as regras
democráticas.
No Brasil e no mundo, esse fenômeno se manifesta de diferentes formas:
Governo Bolsonaro (2019-2022): Seu discurso incluiu ataques à imprensa,
defesa da ditadura militar e desmonte de políticas sociais, alinhando-se ao
modelo autoritário neoliberal.
Donald Trump (EUA): Sua gestão adotou medidas protecionistas e discursos de
extrema-direita, alimentando tensões raciais e polarização política.
Viktor Orbán (Hungria) e Recep Tayyip Erdoğan (Turquia): Líderes que
consolidaram regimes iliberais, restringindo a liberdade de imprensa e
reprimindo opositores.
Esses governos compartilham uma retórica comum: a construção de inimigos
internos (migrantes, feministas, indígenas, ativistas de direitos humanos), a
militarização da política e o enfraquecimento das instituições democráticas.
Neoliberalismo e Fascismo: Complementares ou Contraditórios?
Embora neoliberalismo e fascismo possam parecer contraditórios — um
promovendo liberdade de mercado e outro o autoritarismo —, eles se
complementam na medida em que o neoliberalismo destrói direitos sociais e gera
crises, e o fascismo surge como uma resposta populista que busca culpar
minorias e intelectuais pelos problemas da sociedade. O economista Wendy
Brown argumenta que o neoliberalismo enfraquece a democracia ao transformar
todos os aspectos da vida em mercadoria, enquanto o fascismo se aproveita
dessa fragilidade para impor regimes autoritários.
Conclusão
O mundo atual enfrenta um dilema: enquanto o neoliberalismo continua
aprofundando as desigualdades e fragilizando a democracia, o fascismo cresce
como uma alternativa autoritária que explora o medo e o descontentamento
popular. No Brasil, esses processos se refletem no aumento da pobreza, na
uberização do trabalho e na ascensão de discursos extremistas. Compreender
essa dinâmica é essencial para formular alternativas que garantam justiça social,
direitos trabalhistas e fortalecimento democrático.