Extremoz
Cefas César - Lula Borges
em
5 lendas
Cefas César - Lula Borges
Extremoz
em 5 lendas
Extremoz/RN
2023
© Todos os direitos reservados aos autores
Pesquisa:
Cefas Cesar
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Redação, Editoração e Arte:
Lula Borges
[email protected] Ficha catalográfica
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CESAR, Cefas. BORGES, Lula. Extremoz em 5 lendas. Lula Borges Editoria : Ex-
tremoz, 2023.
36 Páginas
ISBN
1. Lendas brasileiras 2. Cultura brasileira 3. Folclore. I. Título
CDD - 398.20981
CDU - 398.22
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1.Índices para catálogo sistemático:
Lendas : Cultura Brasileira : Folclore
Dedicatória
Dedico este livro à minha mãe, Inês Maria de Araújo;
em memória a minha esposa, Maria Auxiliadora Alves Fer-
nandes de Araújo; ao meu filho, Brayan Christopher Fer-
nandes de Araújo; ao grande arquiteto do universo, por me
inspirar e ao meu grande amigo e companheiro Professor
Lula Borges, por assinar esta obra com a sua arte meu muito
obrigado e a todos os leitores.
Cefas César
Dedico esta obra, principalmente a duas grandes per-
das que tive em minha vida em muito pouco tempo, minha
mãe, Josefa Cândida Dias Borges que se encantou neste ano
e a minha irmã que se foi em 2018. Muita saudade das duas.
Lula Borges
Agradecimentos
Quero agradecer ao amigo e parceiro Lula Borges, por
me ajudar a tornar esse sonho real, assinando o meu livro
com sua Arte o meu muito obrigado.
Cefas Cesar
Agradecimentos a Cefas Cesar, pelo convite para a fei-
tura deste livro; à minha esposa, Branka, por estar sempre
ao meu lado, faça chuva, faça sol; a todos os envolvidos na
arte e na literatura desta grande cidade, chamada Extremoz.
Lula Borges
Sumário
A lenda do tesouro
O sonho de Joaquim Honório
A lenda das cobras
A lenda do carro caído
A lenda da ilha fantasma
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A lenda do tesouro
Inicialmente, a região de Extremoz era habitada pelos
índios Tupis e Paiacus, que viviam às margens da lagoa de
Guajiru, um lugar de beleza selvagem e mistério. No entan-
to, em 1607, os Jesuítas receberam essas terras e desempe-
nharam um papel fundamental na construção da majestosa
igreja de São Miguel, que atualmente é o ponto turístico
mais visitado da cidade, rivalizando até mesmo com suas
famosas praias de areias douradas.
Enquanto estabeleciam a missão do Guajiru, os Jesuítas
enriqueciam a cultura local com seus ensinamentos religio-
sos e educação, deixando uma marca indelével na história
da região. Porém, o destino reservava eventos tumultuosos
para esse cenário idílico.
Em 1759, os Jesuítas foram expulsos da região em meio
a uma série de eventos históricos e políticos que sacudiram
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o Brasil colonial. Isso deu origem à vila Nova de Extremoz
do Norte, uma comunidade que prosperava com seus 1.429
habitantes e que se tornou um importante centro econômi-
co e pecuarista em seu auge.
A destruição da igreja de Extremoz, contudo, perma-
nece cercada por lendas misteriosas que ecoam pelos sécu-
los. Acredita-se que alguns moradores locais tenham feito
uma descoberta extraordinária: um tesouro oculto nos pro-
fundos alicerces da igreja. A consequência desse suposto
achado foi a própria ruína da majestosa igreja de São Mi-
guel do Guajiru. No entanto, o tesouro nunca emergiu da
escuridão subterrânea, e uma aura de incerteza envolve sua
existência até os dias de hoje. Alguns especulam que ele per-
manece oculto, aguardando um destemido aventureiro que
o desvende.
Nos dias atuais, quem visita a cidade de Extremoz
ainda pode contemplar as enigmáticas ruínas da primitiva
igreja de São Miguel. Essas ruínas, envoltas em mistério e
beleza, atraem inúmeros visitantes que, além de admirar a
paisagem, tentam capturar em suas fotografias a atmosfera
singular desse intrigante capítulo da história local. O tesou-
ro perdido e a lenda que o acompanha continuam a alimen-
tar a imaginação daqueles que se aventuram a explorar essa
região histórica e encantadora.
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O sonho de Joaquim
Honório
Na cidade de Extremoz, habitavam diversos povos in-
dígenas. Alguns pesquisadores sugerem a presença das tri-
bos Potiguara e Janduís, enquanto outros afirmam que os
Tupis e Paiacus eram os habitantes originais. O local onde
hoje estão as ruínas da igreja era, no passado, a grande al-
deia de Guajiru. Quando os portugueses chegaram ao Brasil,
trouxeram consigo os Jesuítas, que estabeleceram as bases
para a primeira igreja, a Matriz de São Miguel Arcanjo.
No entanto, algo verdadeiramente curioso aconteceu
nessa cidade. Um antigo morador teve um sonho - um so-
nho no qual o espírito de um frade apareceu diante dele,
revelando um segredo extraordinário. O frade disse a Joa-
quim Honorio que, escondido nos arredores da grandiosa
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paróquia de Extremoz, repousava um tesouro oculto. Ele
forneceu a Joaquim pistas enigmáticas para desvendar o pa-
radeiro desse tesouro.
Quando Joaquim Honorio despertou, imediatamente
correu até os arredores da Matriz de São Miguel do Guajiru
em busca do tesouro escondido. Cavou, procurou incansa-
velmente, mas o tesouro não foi encontrado. No entanto,
Joaquim Honorio encontrou indícios de que o sonho era
real e que, de fato, existia um grande tesouro na região. A
notícia do sonho de Joaquim Honorio rapidamente se es-
palhou por toda a vila de Extremoz, e todos os moradores
também partiram em busca desse tesouro.
Não apenas os habitantes da cidade, mas também pes-
soas de outras vilas e lugares distantes chegaram a Extremoz
em busca do tesouro. Cavaram, procuraram, saquearam os
arredores da igreja e até as paredes da igreja, que já estavam
se deteriorando com o tempo, foram destruídas, deixando-a
em ruínas. No entanto, o tesouro nunca foi encontrado.
Ainda hoje, existem moradores que acreditam que
Extremoz guarda, de fato, um valioso tesouro, e essa lenda
continua a ecoar através das gerações na história fascinante
dessa cidade.
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A lenda das cobras
Em nossas jornadas, ouvimos falar frequentemente das
cobras encantadas. Ao explorar, coletamos histórias minu-
ciosamente relatadas por testemunhas e depositadas com fé
nas lendas que moldam o imaginário popular do Rio Gran-
de do Norte. Uma dessas lendas é a da cobra de Extremoz,
uma pequena localidade que foi a primeira vila em nosso
estado, habitada por Tupis e Tapuias, e também o epicentro
do esforço evangelizador dos religiosos da Companhia de
Jesus em terras potiguares.
Era uma época de expansão do cristianismo no Novo
Mundo, quando o paganismo já não era tolerado. Crianças
não batizadas eram consideradas amaldiçoadas e mantidas
afastadas do paraíso, devido às faltas de seus pais. Este rela-
to é sobre uma jovem índia que engravidou de gêmeos. Ao
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nascerem, seus destinos foram selados pelas supostamente
sábias palavras do velho pajé da aldeia. Ele aconselhou que
as crianças fossem lançadas na lagoa, escapando assim do
batismo compulsório imposto pelos padres jesuítas. Foi as-
sim que essas crianças se transformaram em cobras, cum-
prindo o destino previsto pelos pagãos.
Conta-se que a cobra fêmea era dócil e melancólica,
assobiando melancolicamente ao entardecer, enquanto seu
irmão assustava banhistas, devorava crianças e pregava pe-
ças nas lavadeiras locais. No entanto, mesmo transforma-
dos em cobras encantadas, os pequenos não escaparam dos
esforços obstinados dos catequistas. O missionário, como
representante de Deus, convocou as duas cobras em latim
para comparecerem à igreja durante a missa dominical.
A cobra fêmea atendeu ao chamado e, atravessando
toda a vila, chegou à igreja, onde se enroscou como num
abraço no edifício e recebeu a bênção do velho padre. Em
seguida, voltou à lagoa de onde nunca mais saiu, nunca mais
amedrontando as pessoas. O mesmo destino, no entanto,
não aguardava seu irmão teimoso, que foi amaldiçoado em
latim e pereceu, deixando um rastro por onde passou, onde
nem a mais modesta erva jamais cresceu.
A história das cobras de Extremoz é um relato fas-
cinante que nos lembra das complexas interações entre as
crenças indígenas e o avanço da fé cristã nas terras brasilei-
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ras. A transformação das crianças em cobras, cada uma com
seu destino peculiar, evoca um dilema entre as tradições
ancestrais e a influência impositiva dos missionários. En-
quanto a cobra fêmea encontrou redenção e paz na igreja,
seu irmão rebelde sucumbiu a uma maldição, deixando uma
marca sombria na paisagem que ecoa os desafios da conver-
são religiosa na época. Esta narrativa ilustra a rica tapeçaria
de mitos e lendas que moldaram o folclore do Rio Grande
do Norte, celebrando sua história.
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A lenda do carro caído
Em uma manhã saindo da Aldeia Velha (hoje o bairro
de Igapó, em Natal), um carro de bois avançava ruidosamen-
te pela estrada. A bordo, estava um valioso sino destinado
à capela de Extremoz, onde um grande grupo de moradores
ansiosamente aguardava sua chegada. Todos estavam empe-
nhados na preparação da cerimônia de batismo do sino de
bronze, um evento de grande importância para a comuni-
dade.
A jornada foi longa, estendendo-se ao longo do dia. À
medida que o sol se punha e a noite caía, a luz da lua ilu-
minava o caminho. O condutor do carro, um homem negro
chamado João, alternava entre momentos de vigília e breves
cochilos, enquanto, com sua vara de ferrão, encorajava os
bois a prosseguirem.
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Em um desses momentos de vigília, João começou a
entoar uma toada melancólica. Os bois pareciam apreciar
a música e o ritmo da jornada ganhou vida. No entanto, o
cansaço logo superou João e ele adormeceu novamente.
De repente, ele acordou e percebeu que os bois esta-
vam parados, como que congelados no tempo. Irritado, ex-
clamou: "Diabo!" e aplicou uma forte ferradura nos animais
para incentivá-los a continuar. Nesse momento, uma coruja
passou voando, rasgando o céu noturno como se desfizesse
um sudário. No entanto, João não compreendeu que aquela
coruja era, na verdade, um anjo, um mensageiro, que tenta-
va alertá-lo. João estava conduzindo um sino sagrado des-
tinado à capela de Nosso Senhor e, portanto, não deveria
mencionar o maligno.
Pouco tempo depois, João voltou a gritar "Diabo!" e
golpeou os bois com raiva. "Quem me chama no inferno?"
– respondeu uma voz estridente, fazendo o carrinho estre-
mecer de pavor ao perceber que havia chamado a atenção
do próprio diabo.
Para disfarçar seu medo, João começou a assoviar e,
depois, retomou a melodia triste como uma espécie de des-
pedida. Os bois voltaram a se mover, e o carro balançou ao
longo da estrada. Subitamente, João adormeceu novamente
e, ao despertar, percebeu que o carro estava parado mais
uma vez.
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Enfurecido, cutucou os bois e exclamou: "Diabo, estou
aqui!" Em resposta, uma voz sussurrou: "No inferno!" Nesse
momento, o carrinho foi arrastado para dentro de uma la-
goa, com os bois, o sino e tudo o mais.
João sequer teve tempo de invocar Nossa Senhora, mas
o negro não morreu; ele continua vivo sob as águas. Dizem
que, durante a Quaresma, ainda é possível ouvir o rangido
do carro, o gemido do sino e o toque do sino, tudo vindo de
debaixo das águas da lagoa, como lembrança de uma lenda
que ecoa através dos tempos.
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A lenda da ilha fantasma
Conta-se a história que as margens da lagoa na loca-
lidade do Guajiru, no município de Extremoz, existe uma
vegetação flutuante, conhecida como ilha fantasma. Conta-
-se que foi o local onde a cobra que foi abençoada pelo pa-
dre jesuita, voltou para dentro da lagoa de onde nunca mais
saiu. uma ilha flutuante, que de tempos em tempos viaja de
uma parte para outra da lagoa, para lembrar a população
sobre a cobra que ainda descansa nas águas da lagoa de Ex-
tremoz. Ilha essa que foi escolhida como refúgio e morada
para o descanso da serpente. Alguns pecadores contam que
já viram a grande cobra em noite de luar.
Reza a história que, às margens da lagoa na localida-
de de Guajiru, no município de Extremoz, existe uma pe-
culiar formação vegetal flutuante conhecida como a “ilha
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fantasma.” A lenda conta que esse foi o local onde a cobra,
abençoada por um padre jesuíta, retornou às águas da lagoa,
onde repousa eternamente.
Essa ilha flutuante, que ocasionalmente se desloca de
um lado para o outro da lagoa, serve como um lembrete à
população sobre a serpente que ainda descansa nas profun-
dezas das águas de Extremoz. Diz-se que essa ilha foi esco-
lhida como refúgio e moradia para o merecido descanso da
serpente.
Alguns afirmam ter vislumbrado a imponente cobra
em noites de lua cheia, embora isso seja contado apenas por
aqueles que ousam pecar contra a tranquilidade da lagoa. A
lenda da ilha fantasma continua a ecoar, reforçando a cone-
xão entre a natureza e a mística da região de Extremoz.
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Sobre os autores
Cefas Cesar é Jornalista, Escritor,
Pesquisador, Antropólogo, Professor e Poeta.
É Licenciado em Filosofia pela Universidade
do Estado do Rio grande do Norte - UERN
Licenciado em História pela Faculdade
Batista de Minas Gerais - INPERMIG.
Licenciando em LETRAS Português, pela Faculdade Campos Elíseos
- FCE. Pós graduado em Docência do Ensino Religioso pela FAETEC.
Pós graduando em Literatura e Cultura pela Faculdade Sucesso -
FACSU.
Lula Borges é Doutorando em Educação pela World
University Ecumenical; Mestre em Ensino da Arte
pela UFRN; Mestre em Educação pela Universidade
Gama Filho, Especialista em Cinema pela UFRN;
Graduado em licenciatura em Educação Artística
com especialidade em Artes Plásticas pela UFRN,
Animador 2D e 3D, Artista plástico, Músico,
Sonoplasta, Editor, Diagramador, Produtor de quadrinhos, Cineasta,
Professor de artes e tecnologia pelo estado do RN.
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Leitura fundamental sobre a as lendas que forjam a história
e a cultura de Extremoz. A lenda, até então, inédita sobre a
“Ilha Fantasma” reveste a obra de um ineditismo que justifi-
ca, ainda mais, sus relevância. Como professor e apaixona-
do pela história da cidade, aplaudo de pé esse lançamento.
Parabéns aos autores por tão valiosa contribuição.
Recomendo sua aquisição.
Leandro Soares
Professor de história, Mestre e
Doutorando em Educação.