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Brokeback Mountain

O documento analisa as traduções dos títulos do conto 'Brokeback Mountain' em inglês, português e espanhol, destacando a intencionalidade e as escolhas linguísticas dos tradutores. As traduções refletem adaptações culturais que enfatizam o segredo do relacionamento homoafetivo, revelando como a tradução molda a percepção da narrativa. A pesquisa utiliza uma abordagem de análise do discurso para compreender as nuances culturais e sociais presentes nas traduções.

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Brokeback Mountain

O documento analisa as traduções dos títulos do conto 'Brokeback Mountain' em inglês, português e espanhol, destacando a intencionalidade e as escolhas linguísticas dos tradutores. As traduções refletem adaptações culturais que enfatizam o segredo do relacionamento homoafetivo, revelando como a tradução molda a percepção da narrativa. A pesquisa utiliza uma abordagem de análise do discurso para compreender as nuances culturais e sociais presentes nas traduções.

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Universidade Estadual de Santa Cruz

Análise do Discurso
Código - LTA673
Departamento de Letras e Artes

Jabson Vasconcelos Barbosa

Tradução e Intencionalidade: As Estratégias Discursivas nos Títulos do conto


Brokeback Mountain em Inglês, Português e Espanhol

Introdução

A análise das traduções de títulos de obras, sejam literárias ou cinematográficas, oferece


uma oportunidade singular para explorar a interseção entre linguagem, cultura e
intencionalidade. O estudo do caso de Brokeback Mountain me interessa, pois, em suas
diversas traduções, observo a intencionalidade por trás das escolhas linguísticas feitas pelos
tradutores. Nesse sentido, busco analisar discursivamente três dessas traduções do conto
estadunidense: o título em inglês, língua de origem do conto, e as traduções para o espanhol e
o português.
A narrativa de Annie Proulx, autora do conto, que aborda a complexa relação amorosa
entre dois vaqueiros, transcende as barreiras do tempo e do espaço, ressoando com questões
universais de amor e identidade. Conforme Cândido (1976) aponta, o contexto social
desempenha um papel fundamental na estrutura de uma obra, influenciando sua recepção e
interpretação. Dessa forma, indo além dessa referência, mas sem me distanciar dela, observo
que a tradução dos títulos da obra para o português e o espanhol não é apenas uma questão
linguística, mas uma prática que reflete e se adapta às especificidades culturais de cada
língua.
A abordagem proposta por Rodrigues Júnior (2006) e outros estudiosos dos Estudos da
Tradução enfatiza a importância das escolhas linguísticas feitas pelo tradutor, que atuam
como mediadores entre as culturas de partida e chegada. Essas escolhas são fundamentais
para a formação de significados e para a representação das dinâmicas sociais envolvidas.
Através da análise das traduções dos títulos de Brokeback Mountain (inglês), é possível
identificar como os tradutores gerenciam significados e representam as nuances culturais
presentes na obra original. Assim, a análise das estratégias discursivas nos títulos traduzidos
nos permite não apenas compreender a obra em suas múltiplas dimensões, mas também
refletir sobre como a tradução molda a experiência e a percepção de uma narrativa.

Tradução como Prática Discursiva e Cultural

Ao abordar a atividade de tradução, é imprescindível discutir a relação entre discurso e


cultura. A cultura é um produto da ação humana e, por essa razão, encontra-se em constante
evolução e construção, jamais sendo um fenômeno acabado. O discurso, por sua vez,
enquanto prática social, funciona como um mecanismo tanto para a construção quanto para a
disseminação cultural (Pêcheux, 1969). Nesse contexto, a tradução atua constantemente sobre
esses conceitos, lidando com elementos culturais e linguísticos que se manifestam por meio
dos discursos.
Entendo, ainda, que a tradução envolve tanto possibilidades quanto limitações, uma vez
que as particularidades dos sistemas linguísticos e culturais apresentam desafios
significativos para os tradutores. A tradução está frequentemente voltada para atender às
demandas do mercado, priorizando, em grande parte, as expectativas da cultura receptora.
Quando se trata de temas como a temática queer, presente em livros, contos e filmes, podem
ocorrer restrições, adições ou alterações significativas de sentido ao serem transpostos para
outra cultura. Dessa forma, é comum que os tradutores adaptem o texto para torná-lo mais
acessível ao público-alvo, dependendo das particularidades da cultura de chegada.
O conceito de tradução etnocêntrica ilustra essa questão. Lawrence Venuti, em seu livro
A Invisibilidade do Tradutor: Uma História da Tradução, argumenta que muitas traduções são
realizadas de maneira etnocêntrica, privilegiando a cultura do público-alvo e adaptando o
texto original para que soe natural e familiar aos leitores. Nesse processo, o tradutor faz
escolhas dentro de um conjunto de possibilidades da língua-alvo para traduzir o texto da
língua-fonte, buscando aproximar o texto traduzido às expectativas culturais do público
receptor.
No caso do conto Brokeback Mountain, a temática queer presente na obra pode apresentar
desafios para os tradutores, pois questões relacionadas à sexualidade e identidade de gênero
nem sempre são recebidas da mesma forma em diferentes culturas. Isso pode resultar em
alterações nos títulos para torná-los mais palatáveis ou apropriados para a cultura de
recepção, influenciando a forma como os personagens e as narrativas são percebidos.
Portanto, a escolha do título não é apenas uma questão de tradução linguística, mas também
uma estratégia discursiva que reflete decisões sobre quais aspectos do enredo e dos temas são
enfatizados ou suavizados para o público-alvo.

Procedimentos Metodológicos

Para a organização da subsequente análise, o primeiro passo será examinar o título da


obra na língua original, o inglês. Em seguida, realizarei uma comparação e reflexão sobre as
versões traduzidas para o espanhol e o português. É importante ressaltar que a pesquisa não
busca analisar o conto na íntegra; o foco está restrito à análise dos títulos traduzidos nessas
duas línguas.
A metodologia será baseada na análise do discurso de orientação materialista, conforme
proposta por Michel Pêcheux. Conforme a prática discursiva, buscarei compreender a
intencionalidade subjacente às escolhas de tradução.
Utilizo também como recurso metodológico as noções sobre os marcadores culturais nos
processos de tradução, tendo como base o texto “Indagações acerca dos marcadores culturais
na tradução” de Francis Henrik Aubert (2006).

Análise discursiva da obra de Annie Proulx

O título original do conto, Brokeback Mountain (inglês), refere-se diretamente ao local


fictício onde os protagonistas, Ennis Del Mar e Jack Twist, desenvolvem sua relação
amorosa. Em inglês, o termo "Brokeback" evoca a imagem de algo "partido" ou "quebrado" –
uma montanha com aspecto irregular, sugerindo um terreno acidentado e de difícil acesso.
Essa metáfora pode ser interpretada como uma representação das dificuldades e do caráter
conturbado do relacionamento entre os personagens, que vivem um amor proibido e
conflituoso.
O uso de Brokeback Mountain no título em inglês contribui para a criação de uma
atmosfera que alia a natureza selvagem e inexplorada do local ao caráter marginalizado e fora
dos padrões sociais da relação homoafetiva dos protagonistas. Identifico que o ambiente
remoto e isolado simboliza tanto a liberdade que eles encontram juntos, longe das pressões
sociais, quanto a solidão e os desafios que enfrentam ao manter esse amor oculto.
Ao analisar a intencionalidade discursiva por trás do título em inglês, percebe-se uma
ênfase em aspectos simbólicos e emocionais da narrativa. Ao não explicar de forma explícita
do que se trata a história, o título sugere um convite ao leitor/espectador para desvendar as
camadas de significado, refletindo o caráter profundo e, ao mesmo tempo, íntimo do
relacionamento central. A escolha de manter o nome do lugar original sugere uma abordagem
que privilegia o respeito à ambientação e à atmosfera do conto, sem impor uma leitura
específica sobre o enredo.
A tradução do título do conto para o português é "O Segredo de Brokeback
Mountain", que não é uma simples tradução literal de "Brokeback Mountain", já que,
segundo pesquisas que realizei em tradutores, a tradução literal seria "Montanha
Quebra-costas". Em português, o título se concentra mais no segredo que a montanha
representa do que na própria montanha em si. O título pode ser dividido em dois grupos com
elementos linguísticos diferentes, os primeiros elementos seriam (O segredo) e um segundo
grupo de palavras que complementam o título (de Brokeback Mountain). Ao analisar os
elementos que compõem esses grupos, observa-se que "segredo" é destacado pela presença
do artigo "o", conferindo-lhe uma relevância maior no contexto das coisas ocultas. Acredito
que a carga semântica do título recai sobre o termo "segredo", enquanto o segundo grupo
serve para complementar o significado.
Percebo que essa versão em português enfatiza o aspecto inconfessável da história, ao
invés do local onde os eventos secretos ocorrem, diferente do inglês. No contexto da
narrativa, o segredo refere-se ao amor entre Jack e Ennis, cuja revelação poderia gerar sérias
consequências. O uso da palavra "segredo" representa discursivamente os protagonistas como
pessoas obrigadas a ocultar seu amor devido às pressões sociais. A tradução também tem o
objetivo de despertar a curiosidade do público, insinuando um mistério a ser descoberto, o
que aumenta o impacto emocional e o apelo dramático da obra.
Em espanhol, o título se afasta ainda mais do original, optando por Secreto en la
Montaña. Ao mudar o foco para o "secreto" e reconfigurar a referência à montanha, a
tradução constrói um discurso que privilegia a ideia de algo a ser ocultado. O uso do termo
"secreto" no título em espanhol adiciona uma dimensão explícita de ocultação e repressão à
história, assim como no português. Em contraste com o título original, que é neutro e foca no
nome da montanha, a escolha de destacar o "secreto" implica a existência de algo que precisa
ser escondido, isso insere o espectador, desde o início, em um contexto de transgressão e
marginalidade, no qual o amor entre os personagens homoafetivos é percebido como algo
proibido ou inaceitável pela sociedade.
No discurso, a expressão "en la montaña" retoma a referência ao espaço físico de forma
similar ao título original, mas com uma diferença importante. Em vez de ser o nome
específico de um lugar, como em Brokeback Mountain, a formulação "en la montaña" remete
a um ambiente genérico, enfatizando o isolamento e a distância do cotidiano social. A
montanha, nesse contexto, não é apenas um local geográfico, mas um refúgio, um espaço de
liberdade temporária e clandestinidade onde o "secreto" pode ser vivido.
Em minhas análises, observo que "en la montaña" sugere que a montanha é uma cúmplice
no segredo dos protagonistas, um local que protege e esconde o amor proibido. Essa escolha
também atribui um caráter quase mítico ou espiritual ao espaço, como se a montanha
possuísse uma essência que acolhe aqueles que estão à margem. Ao mesmo tempo, reforça a
ideia de que o amor dos protagonistas só pode ser vivenciado longe da sociedade, ressaltando
o tema da exclusão.

Conclusão

Para Aubert (2006), marcadores culturais são elementos textuais que carregam
significados específicos em uma determinada cultura e que, ao serem traduzidos, podem
exigir uma adaptação para garantir que o sentido cultural seja mantido ou que o impacto
emocional e simbólico seja equivalente na língua de destino. No caso de Brokeback
Mountain, a tradução dos títulos para português (O Segredo de Brokeback Mountain) e
espanhol (Secreto en la Montaña) reflete a tentativa de ajustar o título original aos contextos
culturais dessas línguas, evidenciando diferentes estratégias para lidar com os marcadores
culturais presentes na narrativa.
No título original, Brokeback Mountain, o marcador cultural está associado ao nome da
montanha, que é uma referência geográfica específica dos Estados Unidos e carrega um
significado simbólico dentro da história. Nas traduções, observa-se uma tentativa de tornar os
marcadores culturais mais acessíveis para o público-alvo ao inserir a noção de "segredo".
Tanto O Segredo de Brokeback Mountain quanto Secreto en la Montaña introduzem
explicitamente um elemento que, embora não presente no título original, está fortemente
relacionado à temática da história: a ocultação do relacionamento homoafetivo em um
contexto cultural que marginaliza e reprime tais expressões de afeto.
A abordagem de Aubert oferece uma compreensão mais ampla de como os processos de
tradução envolvem não apenas a transposição linguística, mas também uma negociação
cultural, na qual os tradutores adaptam os marcadores culturais para que os significados
sejam mais compreensíveis e impactantes para os novos públicos. Isso, para mim, enriquece a
análise ao evidenciar as escolhas que configuram os personagens e moldam a percepção da
narrativa.

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