Chá
Poético
Um encontro com a leitura!
Projeto Chá poético
Justificativa:
A poesia é uma das formas mais ricas de expressão artística, capaz de
despertar emoções, estimular a imaginação e ampliar o repertório
cultural dos estudantes. O Chá Poético surge como uma proposta para
aproximar os alunos da literatura brasileira de maneira envolvente e
significativa, promovendo a leitura, a escrita e a oralidade em um
ambiente acolhedor e interativo. Além disso, essa atividade contribui
para o desenvolvimento da criatividade e do pensamento crítico,
fortalecendo a apreciação da poesia como ferramenta de comunicação e
expressão.
Objetivos:
✓ Apreciar poemas de autores brasileiros;
✓ Estimular o interesse e prazer pela leitura;
✓ Estimular a produção de textos poéticos pelos próprios alunos;
✓ Desenvolver a oralidade e a autoconfiança por meio da apresentação
dos poemas;
✓ Criar um ambiente literário agradável e participativo;
✓ Valorizar a literatura como forma de arte e expressão pessoal.
Metodologia:
O projeto será desenvolvido em três momentos distintos, realizados em
dias diferentes:
🔹 Dia 1 – Leitura e Apreciação de Poemas
✓ Seleção de poemas de diferentes autores brasileiros, contemplando
variados estilos e épocas.
✓ Leitura coletiva e individual, com momentos de reflexão e
interpretação.
✓ Compartilhamento das impressões e sentimentos despertados pelos
textos.
🔹 Dia 2 – Produção de Poemas
✓ Atividades criativas para estimular a escrita poética, como jogos de
palavras, desafios de rimas e escrita livre.
✓ Produção individual ou em duplas/grupos, incentivando a liberdade de
criação.
Projeto Chá poético
🔹 Dia 3 – Apresentação e Celebração
✓ Momento de declamação e compartilhamento dos poemas criados
pelos alunos.
✓ Organização de um ambiente temático com decoração inspiradora e
chá servido durante o evento.
✓ Troca de experiências e valorização dos talentos literários da turma.
Sugestões para Produção e apresentação dos Poemas:
Fundamental I (1º ao 5º ano)
🔹 Produção:
Criação de pequenos versos rimados ou poemas simples sobre temas
próximos ao universo infantil, como amizade, natureza, família e
brincadeiras.
Uso de estruturas fixas, como quadrinhas e acrósticos, para facilitar a
escrita.
Atividades com palavras recortadas para montar poemas, ajudando os
alunos a explorarem a sonoridade e a criatividade.
🔹 Apresentação:
Declamação coletiva ou individual em tom lúdico, com expressões
corporais e gestos.
Uso de painéis ilustrados pelos próprios alunos com trechos dos poemas.
Momento de varal poético, onde os poemas são pendurados para
exposição e leitura.
Possibilidade de dramatizar alguns poemas curtos, transformando-os em
pequenas encenações.
Projeto Chá poético
Fundamental II (6º ao 9º ano)
🔹 Produção:
Experimentação de diferentes estilos poéticos, como haikais, sonetos
simples, poesias livres e cordel.
Atividades com desafios criativos, como escrever um poema a partir de
uma imagem ou de uma palavra-chave sorteada.
Exploração de sentimentos e reflexões do cotidiano, como sonhos,
desafios da adolescência, tecnologia e meio ambiente.
🔹 Apresentação:
Momento de declamação livre, incentivando a interpretação e a emoção
ao recitar.
Uso de música como pano de fundo para tornar a apresentação mais
envolvente.
Performance em duplas ou grupos, misturando poesia e expressão
corporal.
Produção de pequenos livretos poéticos para serem compartilhados
entre os alunos.
Projeto Chá poético
Ensino Médio
🔹 Produção:
Criação de poemas com maior liberdade estrutural e temática,
explorando figuras de linguagem e diferentes perspectivas.
Desafios poéticos, como escrever a partir de um verso de um autor
famoso ou transformar trechos de músicas em novas poesias.
Experimentação com poesia falada (slam), incentivando a escrita
engajada e crítica sobre temas sociais e contemporâneos.
🔹 Apresentação:
Declamação estilo Slam Poetry, com ênfase na performance e na
expressividade.
Uso de projeções ou vídeos com animações simples acompanhando a
leitura dos poemas.
Microfone aberto para que os alunos compartilhem seus textos
espontaneamente.
Possibilidade de criar um sarau poético, com ambientação especial e
participação da comunidade escolar.
Estimular o
interesse e o prazer
pela leitura.
Objetivos:
Apreciar poemas de
autores brasileiros.
Chá
Poé
tico
Um
encontro
com a
leitura !
Degustando
palavras e
saboreando poesia.
Um brinde à
leitura com um
chá de poesia.
Leitura que
encanta, chá que
acalma.
Leitura e chá,
uma combinação
perfeita para a
alma.
Desfrutando a
doçura da leitura
com um chá
poético.
Leitura que
inspira e alegra o
coração.
1°,2° e 3°
ano
POEMINHO DO CONTRA
MÁRIO QUINTANA
TODOS ESTES QUE AÍ ESTÃO
ATRAVANCANDO O MEU CAMINHO,
ELES PASSARÃO.
EU PASSARINHO!
NO MISTÉRIO DO SEM FIM
CECÍLIA MEIRELES
NO MISTÉRIO DO SEM-FIM
EQUILIBRA-SE UM PLANETA.
E, NO PLANETA, UM JARDIM,
E, NO JARDIM, UM CANTEIRO;
NO CANTEIRO UMA VIOLETA,
E, SOBRE ELA, O DIA INTEIRO,
ENTRE O PLANETA E O SEM-FIM,
A ASA DE UMA BORBOLETA
O GIRASSOL
VINÍCIUS DE MORAES
SEMPRE QUE O SOL
PINTA DE ANIL
TODO O CÉU
O GIRASSOL
FICA UM GENTIL
CARROSSEL.
RODA, RODA, RODA CARROSSEL
GIRA, GIRA, GIRA GIRASSOL
REDONDINHO COMO O CÉU
MARELINHO COMO O SOL.
BAILE NO SERENO
RUTH ROCHA
CANTADOR CANTA TRISTEZA,
CANTA ALEGRIA TAMBÉM.
É DE SUA NATUREZA
CANTAR O MAL E O BEM.
POIS ELE TEM DENTRO DELE
O CANTO QUE O CANTO TEM…
POR ISSO, SE O MAR SECAR,
SE COBRA COMPRAR SAPATO,
SE CACHORRO VIRAR GATO,
SE O MUDO PUDER FALAR,
SE A CHUVA CHOVER PRA CIMA,
SE BARATA FOR GRÃ-FINA,
QUANDO O EMBAIXADOR FOR EM
CIMA,
CANTADOR VAI SE CALAR.
BAILE NO SERENO
LEO CUNHA
BAGUNÇA RIMA COM CRIANÇA,
BAGUNÇA É PRIMA DA LAMBANÇA,
BAGUNÇA DANÇA, BAILARINA,
COMEÇA E NEM SEMPRE TERMINA,
BAGUNÇA MANSA,
ESSA MENINA,
DESCANSA DE PANÇA PRA CIMA.
POR ENQUANTO SOU PEQUENO
PEDRO BANDEIRA
POR ENQUANTO SOU PEQUENO,
MAS VOU APRENDER A LER:
JÁ SEI LER PALAVRA INTEIRA,
LEIO PRA CIMA, E PRA BAIXO,
E PLANTANDO BANANEIRA!
POR ENQUANTO SOU PEQUENO,
UMA COISA VOU DIZER,
COM CERTEZA E ALEGRIA:
SEI QUE NUNCA VOU ESQUECER
DA BELEZA DA POESIA!
O ELEFANTINHO
VINÍCIUS DE MORAES
ONDE VAIS, ELEFANTINHO
CORRENDO PELO CAMINHO
ASSIM TÃO DESCONSOLADO?
ANDAS PERDIDO, BICHINHO
ESPETASTE O PÉ NO ESPINHO
QUE SENTES, POBRE COITADO?
— ESTOU COM UM MEDO DANADO
ENCONTREI UM PASSARINHO
A CENTOPÉIA
MARINA COLASANTI
QUEM FOI QUE PRIMEIRO
TEVE A IDEIA
DE CONTAR UM POR UM
OS PÉS DA CENTOPEIA?
SE UMA PATA VOCÊ ARRANCA
SERÁ QUE A BICHINHA MANCA?
E RESPONDA ANTES QUE EU
ESQUEÇA
SE EXISTE O BICHO DE CEM PÉS
SERÁ QUE EXISTE ALGUM DE CEM
CABEÇAS?
LEILÃO DE JARDIM
CECÍLIA MEIRELES
QUEM ME COMPRA UM JARDIM COM
FLORES?
BORBOLETAS DE MUITAS CORES,
LAVADEIRAS E PASSARINHOS,
OVOS VERDES E AZUIS NOS NINHOS?
QUEM ME COMPRA ESTE CARACOL?
QUEM ME COMPRA UM RAIO DE SOL?
UM LAGARTO ENTRE O MURO E A HERA,
UMA ESTÁTUA DA PRIMAVERA?
QUEM ME COMPRA ESTE FORMIGUEIRO?
E ESTE SAPO, QUE É JARDINEIRO?
E A CIGARRA E A SUA CANÇÃO?
E O GRILINHO DENTRO DO CHÃO?
(ESTE É O MEU LEILÃO.)
MINHA ESCOLA
JANE EMIRENE
QUANDO EU VOU PRA MINHA
ESCOLA
TENHO MUITO O QUE FAZER
PULO, BRINCO, FAÇO ARTE
MAS TAMBÉM QUERO APRENDER
MEUS AMIGOS LÁ DA SALA
SÃO PEQUENOS COMO EU
DÃO RISADAS, SÃO ALEGRES,
SÃO BACANAS...E OS SEUS?
TODAS AS COISAS
ARNALDO ANTUNES
TODAS AS COISAS
DO MUNDO NÃO
CABEM NUMA
IDEIA. MAS TU-
DO CABE NUMA
PALAVRA, NESTA
PALAVRA TUDO.
PRIMAVERA
GERUSA RODRIGO PINTO
PRIMAVERA, ESTAÇÃO DAS FLORES
ENFEITA OS CAMPOS QUE FICAM
EM FESTA
ONDE BORBOLETAS MULTI CORES
PARECEM FLORES DE MUITAS
CORES.
OS PÁSSAROS CANTAM
ALEGREMENTE
E O BEIJA-FLOR DE FLOR EM FLOR
ANUNCIA A PRIMAVERA
ESTAÇÃO ALEGRE DE MUITO AMOR.
4° e 5° ano
Cantiga da babá
Cecília Meireles
Eu queria pentear o menino
como os anjinhos de caracóis.
Mas ele quer cortar o cabelo,
porque é pescador e precisa de anzóis.
Eu queria calçar o menino
com umas botinhas de cetim.
Mas ele diz que agora é sapinho
e mora nas águas do jardim.
Eu queria dar ao menino
uma casinhas de arame e algodão.
Mas ele diz que não pode ser anjo,
pois todos já sabem que ele é índio e leão.
(Este menino está sempre brincando,
dizendo-me coisas assim.
Mas eu bem sei que ele é um anjo
escondido,
um anjo que troça de mim.)
Gaiovota
Lalau
Gaivota
Vive lá no céu.
Gaivota vai,
Gaivota volta,
Gaivota vai,
Gaivota volta,
E os ovos?
Quando é que
A gaivota
Bota?
ABC da passarada
Lalau
Andorinha
Bem-te-vi
Coleirinha
Dorminhoco
Ema
Falcão
Graúna
Harpia
Inhambu
Jacutinga
Lindo-azul
Mainá
Noivinha
Oitibó
Pintassilgo
Quiriri
Rolinha
Sabiá
Tico-tico
Uirapuru
Viuvinha
Xexéu
Zabelê
Esperança
Roseana Murray
Muitos são os que carregam
água na peneira,
como disse o poeta
Manoel de Barros,
e esperança como estrela
na lapela.
Muitos são os que acreditam
em coisas simples e limpas,
em coisas essenciais,
amor, amizade, delicadeza,
paz,
e tantas outras palavras,
antigas e urgentes.
Gavetas
Roseana Murray
Com delicadeza
abrir as gavetas
que guardam
as palavras de seda.
Deixá-las sempre
ao alcance
de um sopro,
prontas para o voo,
para o ouvido,
para a boca.
Palavras de seda
são como borboletas
douradas
quando pousam
no coração do outro.
Lista de chamada
Ana Maria Machado
Cada nome em seu lugar
A começar pelo A
Antônio, Ana e Abel
Mas não encontro a Bebel
que está no l de Isabel
E nem adianta chamar
E não sei por que o Zé
Nunca está na letra Z
Vai no Jota se esconder
Disfarçado de José
Mas o nome que eu mais quero
Nunca está no quadrado e onde
Mora lá no meu segredo
Só eu sei onde se esconde
Mundo pequeno I
Manoel de Barros
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e
suas latas maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão
comprometidas com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco,
os besouros pensam que estão no
incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa.
Ele me rã.
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para
inverter
os ocasos.
O fazedor de amanhecer
Manoel de Barros
Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.
Bilhete
Mário Quintana
Se tu me amas, ama-me
baixinho
Não o grites de cima dos
telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho,
Amada,
que a vida é breve, e o amor
mais breve ainda…
Seiscentos e sessenta e seis
Mário Quintana
A vida é uns deveres que nós
trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há
tempo...
Quando se vê, já é 6ª feira...
Quando se vê, passaram 60
anos!
Agora, é tarde demais para ser
reprovado...
E se me dessem – um dia – uma
outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente...
e iria jogando pelo caminho a
casca dourada e inútil das
horas.
A centopéia
Marina Colassanti
Quem foi que primeiro
teve a ideia
de contar um por um
os pés da centopeia?Se uma
pata você arranca
será que a bichinha manca?E
responda antes que eu esqueça
se existe o bicho de cem
pésSerá que existe algum de
cem cabeças?
Ser criança
Tatiana Belinky
Ser criança é dureza
Todo mundo manda em mim
Se pergunto o motivo,
Me respondem “porque
sim”.Isso é falta de respeito,
“Porque sim” não é resposta,
Atitude autoritária
Coisa que ninguém
gosta!Adulto deve explicar
Pra criança compreender
Esses “podes” e “não podes”,
Pra aceitar sem se
ofender!Criança exige carinho,
E sim! Consideração!
Criança é gente, é pessoa,
Não bicho de estimação!
Fund2 &
Ensino M.
Soneto de fidelidade
Vinícius de Moraes
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem
vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é
chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Poema sujo
Ferreira Gullar
Que importa um nome a esta hora do
anoitecer em São Luís
do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz
de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?
mas que importa um nome
debaixo deste teto de telhas encardidas
vigas à mostra entre
cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um
armário diante de
garfos e facas e pratos de louças que se
quebraram já
um prato de louça ordinária não dura tanto
e as facas se perdem e os garfos
se perdem pela vida caem pelas falhas do
assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal
esquecidos entre os pés de erva-cidreira
Retrato
Cecília Meireles
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Com licença poética
Adélia Padro
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra
homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Contagem regressiva
Ana Cristina César
(...) Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que
amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos
Morte e vida Severina
João Cabral de Melo Neto
— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Amavisse
Hilda Hilst
Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo
brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de
ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e
mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas
estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
Último poema
Manoel Bandeira
Assim eu queria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais
simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem
lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase
sem perfume
A pureza da chama em que se
consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem
explicação.
Os três mal-amados
João Cabral de Melo Neto
O amor comeu meu nome, minha identidade,
meu retrato. O amor comeu minha certidão
de idade,
minha genealogia, meu endereço. O amor
comeu meus cartões de visita. O amor veio e
comeu todos
os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços,
minhas
camisas. O amor comeu metros e metros de
gravatas. O amor comeu a medida de meus
ternos, o
número de meus sapatos, o tamanho de
meus
chapéus. O amor comeu minha altura, meu
peso, a
cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas
receitas
médicas, minhas dietas. Comeu minhas
aspirinas,
minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu
meus
testes mentais, meus exames de urina.
Casamento
Adélia Padro
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me
levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na
cozinha,
de vez em quando os cotovelos se
esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a
primeira vez
atravessa a cozinha como um rio
profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Rabo da Baleia
Alice Sant'Anna
um enorme rabo de baleia
cruzaria a sala nesse momento
sem barulho algum o bicho
afundaria nas tábuas corridas
e sumiria sem que percebêssemos
no sofá a falta de assunto
o que eu queria mas não te conto
é abraçar a baleia mergulhar com ela
sinto um tédio pavoroso desses dias
de água parada acumulando mosquito
apesar da agitação dos dias
da exaustão dos dias
o corpo que chega exausto em casa
com a mão esticada em busca
de um copo d’água
a urgência de seguir para uma terça
ou quarta boia e a vontade
é de abraçar um enorme
rabo de baleia seguir com ela
O dia inteiro
Claudia Roquette-Pinto
O dia inteiro perseguindo uma ideia:
vagalumes tontos contra a teia
das especulações, e nenhuma
floração, nem ao menos
um botão incipiente
no recorte da janela
empresta foco ao hipotético jardim.
Longe daqui, de mim
(mais para dentro)
desço no poço de silêncio
que em gerúndio vara madrugadas
ora branco (como lábios de espanto)
ora negro (como cego, como
medo atado à garganta)
segura apenas por um fio, frágil e físsil,
ínfimo ao infinito,
mínimo onde o superlativo esbarra
e é tudo de que disponho
até dispensar o sonho de um chão
provável
até que meus pés se cravem
no rosto desta última flor.
Faça do Faça do Faça do Faça do
seu dia seu dia seu dia seu dia
uma uma uma uma
Poesia. Poesia. Poesia. Poesia.
Faça do Faça do Faça do Faça do
seu dia seu dia seu dia seu dia
uma uma uma uma
Poesia. Poesia. Poesia. Poesia.
Sugestão de lembrancinha