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Adaptação da escala de ansiedade pré-escolar, de S. Spence
Article in Psicologia Saúde & Doenças · November 2013
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2 authors:
J. Paulo Almeida Victor Viana
Centro Hospitalar de São João University of Porto
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PSICOLOGIA,SAÚDE & DOENÇAS, 2013, 2013, 14(3), 470-483
EISSN - 2182-8407
Sociedade Portuguesa de Psicologia da Saúde - SPPS - [Link]
ADAPTAÇÃO DA ESCALA DE ANSIEDADE PRÉ-ESCOLAR, DE S.
SPENCE
ANXIETY IN PORTUGUESE PRE-SCHOOL CHILDREN –
ADAPTATION OF THE SPENCE PRE-SCHOOL ANXIETY SCALE
J. Paulo Almeida1 & Victor Viana2
1 Hospital Pediatrico Integrado de S. João; Instituto Superior Da Maia; 2 Hospital Pediatrico Integrado de S.
João e Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação, Universidade do Porto.
_____________________________________________________________________
RESUMO- Pretendemos, com este estudo, avaliar as propriedades da Escala de
Ansiedade Pré-escolar de S. Spence (Spence, Rapee, McDonald & Ingram, 2001) numa
amostra de crianças portuguesas. A escala foi respondida por 561 mães de crianças entre
os 3 e os 7 anos de idade. Relativamente à estrutura dos sintomas de ansiedade, uma
análise fatorial exploratória aponta para uma solução composta por 5 fatores (ansiedade
geral, ansiedade social, perturbação obsessivo-compulsiva, medo de dano físico e
ansiedade de separação) como sendo a mais adequada. Os índices de consistência interna,
de validade externa (através da correlação com a Escala de Internalização do CBCL) e de
discriminação com uma amostra de crianças referidas para consulta de psicologia clínica
devido a perturbações de ansiedade são satisfatórios. Obteve-se uma correlação positiva
entre o incremento da idade e a intensidade e expressão dos sintomas.
Palavras Chave- Stresse, Ansiedade, avaliação da ansiedade, criança, pré-escola
________________________________________________________________
ABSTRACT- The aim of this study was to evaluate the psychometric properties of the
Spence Preschool Anxiety Scale (Spence, Rapee, McDonald & Ingram, 2001) in a sample
of Portuguese children of preschool age. The scale was answered by 561 mothers of
children between 3 and 7 years old. Concerning the structure of anxiety symptoms, an
exploratory factor analysis points to a solution composed of five factors (general anxiety,
social anxiety, obsessive compulsive disorder, fear of physical injury and separation
anxiety) as more appropriate. Were also found satisfactory internal consistency; external
validity (by correlation with the CBCL Internalizing Scale) and discrimination with a
sample of children referred for outpatient clinical psychology because of anxiety
disorders were also satisfactory. We obtained a positive correlation between increasing
age and severity of symptoms expression but no differences due to gender.
Key-words- Stress, Anxiety, anxiety assessment, child, preschool.
__________________________________________________________________
Recebido em23 de Maio de 2013/ Aceite em 14 de Outubro de 2013
Prof. Doutor J. Paulo Almeida, Hospital Pediátrico Integrado S. João, Alameda Prof. Hernâni Monteiro 4202-
451Porto, Portugal E-mail: [Link]@[Link]
470
AVALIAÇÃO DA ANSIEDADE EM IDADE PRÉ-ESCOLAR
As perturbações da ansiedade representam um dos conjuntos de patologias mais frequentes na
infância (Albano, Chorpita & Barlow, 2003; Cartwright-Hatton, McNicol, Doubleday, 2006)
afetando entre 5,7 e 17,7% de crianças e jovens (Costello & Angold, 1995). Havendo um
aparecimento precoce, têm um impacto marcado no processo de desenvolvimento da criança, na
adequação aos contextos educativos, no desempenho académico e na vida e saúde mental do
adulto (Shamir-Essakow, Ungerer & Rapee, 2005) pelo que se torna premente o seu despiste e
diagnóstico precoce de forma a implementar estratégias de intervenção adequadas que minorem
o seu impacto.
A ansiedade e o medo são um conjunto de estratégias precocemente desenvolvidas que vão
desde a perceção (de ameaça) até à execução rápida de ações que têm como objetivo a proteção
do indivíduo perante uma ameaça ou o perigo. Esta função geral de proteção deverá ser
entendida como um componente de um sistema de alarme e defesa perante o perigo (Baptista,
2000) que desencadeará uma resposta diversa consoante o tipo de ameaça percebida.
Em termos desenvolvimentais o primeiro estudo sobre a evolução das manifestações
ansiosas na criança data de 1935, realizado por Jersid e Holmes (citado por Barros, 1996), os
quais procuraram inventariar os principais estímulos desencadeadores de medo na criança. Com
base neste estudo e na imensa literatura entretanto produzida considera-se que as primeiras
reações de medo (primeiro semestre de vida) têm características inatas (Wenar, 1990) e são
desencadeadas por estímulos intensos e súbitos como ruídos, quedas ou movimentos bruscos.
Posteriormente, já com interferência das experiências de vida precoces, surge a ansiedade à
aproximação de estranhos e de separação das figuras de vinculação emocional e o medo das
alturas (conforme experiência do abismo percetivo). A ansiedade de separação, descrita como
“afeto negativo”, é despoletada pela antecipação, ou subsequente ao afastamento ou perda de
uma figura de vinculação (Barros, 1996) aparece como um medo generalizado a todas as
crianças. Tem o seu apogeu entre os 9 e os 13 meses diminuído gradualmente a partir dos 30
meses. Com o desenvolvimento e a exposição a uma maior diversidade de estímulos, são
crescentes os desencadeadores de medo e ansiedade. Surgem os medos e fobias a objetos simples
(animais ferozes, como aranhas, baratas ou mesmo aos mamíferos domésticos mais corpulentos
ou ativos) ou situações (trovoadas ou tempestades) potencialmente causadoras de dano à
integridade física da criança. As oportunidades de socialização da criança (com adultos
exteriores ao núcleo familiar ou com pares) favorecem a expressão não só de ansiedade de
separação das figuras de vinculação emocional como também de angústias associadas a situações
sociais que implicam a exposição da criança, surgindo igualmente medo que o seu
comportamento ou atitudes sejam alvo do ridículo por parte de outros adultos ou crianças ou do
insucesso do seu desempenho (Wenar, 1990). Ao longo desta faixa etária, paralelamente ao
desenvolvimento simbólico e da capacidade de representação mental bem como da linguagem,
vão surgindo medos fundamentados na imaginação da criança: monstros, fantasmas ou outros
seres fantásticos podem povoar os locais afastados, escuros ou mesmo a noite.
Nesta faixa etária a maioria das crianças ainda não possuem competências metacognitivas
que permitam analisar e relatar os seus pensamentos e emoções, capacidade que se vai
desenvolvendo entre os 5 e os 7 anos de idade, com o acesso ao pensamento concreto (Piaget,
1971) e o treino de competências escolares de tipo cognitivo (Flavell, Green & Flavell, 2000).
Avaliação do Medo na Idade Pré-Escolar
471
J. Paulo Almeida & Victor Viana
Analisando as manifestações mais precoces do medo e ansiedade na criança, apesar da
informação ser escassa, considera-se que um conjunto de sintomas está presente desde cedo com
uma frequência e intensidade que lhe conferem relevância clínica. Apesar de se considerar que
na idade pré-escolar se possam encontrar padrões comportamentais compatíveis com os critérios
de diagnóstico de perturbações de ansiedade tais como ansiedade de separação, ansiedade social
(e a sua manifestação extrema, o mutismo seletivo), ou as fobias específicas, não existem muitas
evidências empíricas em populações de idade pré-escolar, as quais demonstrem conclusivamente
que essas manifestações poderão preencher os critérios de diagnóstico tal como são formulados
na DSM-IV (2000).
Um obstáculo significativo na ação dos clínicos que trabalham com crianças em idade pré-
escolar ou dos investigadores da saúde mental infantil reside na ausência de instrumentos de
avaliação fidedignos e adaptados à população portuguesa em idade pré-escolar. Esta dificuldade
tem sido contornada com o recurso a escalas de avaliação global das perturbações
internalizadoras (CBCL 1,5-5, Achenbach, 1992) que integram na mesma subescala
(inespecificamente) padrões comportamentais relacionados com a ansiedade, o isolamento social
e a depressão, fornecendo pouca informação específica sobre sintomatologia específica da
ansiedade. Desta constatação decorre a necessidade dos clínicos possuírem um instrumento de
diagnóstico desenvolvimentalmente adequado, fiável e específico para a população pré-escolar
portuguesa pelo que se tornou premente a concretização do nosso objetivo de adaptação de um
instrumento.
A Escala de Ansiedade Pré-Escolar de Spence (P.A.S.) o único instrumento encontrado na
literatura internacional sobre a avaliação de ansiedade pré-escolar. Desenvolvida a partir da
classificação da DSM-IV visto ser o sistema dominante quer na clínica quer na investigação das
perturbações de ansiedade na infância. O P.A.S. apresenta um conjunto de sintomas bem
especificados que devem ser respondidos pelos progenitores de acordo com a frequência da sua
presença numa escala de 4 pontos que varia entre “nunca” e “sempre”. Os itens, consistentes
com as categorias da DSM-IV, foram selecionados por peritos no tema tendo em conta a
literatura, medidas de diagnóstico internacional e entrevistas clínicas (Edwards, Rapee, Kennedy
& Spence, 2010). A validação original do instrumento (Spence at al, 2001) foi administrada a
crianças entre os 3 e os 5 anos de idade e está organizada em cinco categorias de diagnóstico:
Perturbação de ansiedade generalizada (PAG), perturbação de ansiedade social (PAS), ansiedade
de separação (AS), perturbação obsessivo-compulsiva (POC) e medo de dano físico (MDF) as
quais estão associadas num fator “ansiedade” superordenado responsável pelo covariância entre
os fatores sugerindo que, em idades precoces, a ansiedade poderá ser um constructo unitário. As
dimensões responsáveis por uma variância considerada suficiente para serem clusters
independentes foram a PAS, POC E MDF. A ansiedade geral e a ansiedade de separação
estavam altamente correlacionadas e relacionadas com o fator geral “ansiedade”. Os autores
hipotetizam que, no seu conjunto, estes resultados poderão indicar que existirá alguma
diferenciação precoce de subtipos de perturbações de ansiedade os quais se tornarão
gradualmente mais específicos ao longo do desenvolvimento. Outro aspeto relevante quanto às
propriedades psicométricas do P.A.S. é a validade de constructo, afirmada por uma correlação
significativa com a Escala de Internalização do Child Behavior Checklist (CBCL, Achenbach,
1991). Não se encontraram diferenças significativas entre sexos e, por fim, encontraram-se
472
AVALIAÇÃO DA ANSIEDADE EM IDADE PRÉ-ESCOLAR
ligeiras diferenças entre níveis etários com as crianças mais novas a obterem níveis de ansiedade
ligeiramente mais elevados.
Evidência de validade transcultural das escalas de ansiedade de Spence existe para as
versões para populações em idade escolar (Spence Child Anxiety Scale –SCAS-, Spence, 1997)
sendo apenas disponível para a P.A.S. um estudo de adaptação para crianças romenas (Benga,
Tincas & Visu-Petra, 2010). Os resultados deste estudo globalmente confirmam os dados
recolhidos na construção da escala original.
O objetivo do estudo é analisar as propriedades psicométricas da versão portuguesa do
[Link]. Em segundo lugar, explorar e avaliar as perturbações de ansiedade numa população em
idade pré-escolar. Mais especificamente conhecer os principais medos e problemas de ansiedade
presentes na população pré-escolar (prevalência de sintomas e potenciais diferenças ao longo da
idade e devido ao género).
MÉTODO
Participantes
Participaram 562 indivíduos: crianças que frequentam Jardins de Infância e o 1º ano de
escolaridade da área metropolitana das duas principais cidades de Portugal (Lisboa e Porto).
Optamos por alargar a nossa amostra às crianças do 1º ano de escolaridade) 6 e 7 anos visto que
em Portugal os instrumentos disponíveis para a avaliação da ansiedade em crianças apenas
estarem validados para crianças com idade de 8 anos ou superior. Com este procedimento
evitamos a existência de uma lacuna na avaliação das perturbações de ansiedade nesta faixa
etária.
As famílias foram contactadas com a colaboração das Educadoras e Professoras para
participar num estudo sobre o desenvolvimento emocional e avaliação da ansiedade em crianças
de idade pré-escolar e início de escolaridade. Os questionários foram preenchidos pelas mães, no
domicílio, e devolvidos posteriormente. A amostra clínica foi recolhida numa população de
crianças referidas para uma consulta de psicologia pediátrica por apresentarem sintomas de
ansiedade.
Foram recolhidos 562 protocolos com respostas ao P.A.S.-pt (53% do sexo masculino e 47%
do sexo feminino - não foi possível identificar o sexo em 4 protocolos) de crianças com idades
compreendidas entre os 28 e os 84 meses de idade (m = 51,19 meses; dp=13,39), dos quais 98
responderam à Escala de Internalização do CBCL 1,5-5 (Achenbach, 1992). A amostra clínica é
composta por 49 crianças (8,7%).
Material
O P.A.S.-pt é um questionário aos pais composto por 28 itens que avaliam problemas
relacionados com 5 tipos de perturbações de ansiedade presentes na idade pré-escolar: Ansiedade
generalizada, ansiedade social, ansiedade de separação, medo de dano físico e perturbação
obsessivo-compulsiva. Seis itens adicionais avaliam a presença de sintomas de perturbação de
stresse pós-traumático. A resposta a cada item era dada numa escala tipo Likert de 04 pontos (em
que 0= nunca e 4= sempre). Os resultados parciais e o resultado global calculam-se pelo
somatório das respostas aos itens.
473
J. Paulo Almeida & Victor Viana
Como forma de obter uma medida de validade de constructo uma sub-amostra de 98 mães
respondeu aos itens da subescala de Internalização do Child Behavior Questionnaire (CBCL,
Achenbach, 1992) na tradução para o português de Almeida e colaboradores (Fonseca, Simões,
Rebelo, Ferreira & Cardoso, 1994). O CBCL foi inserido no procedimento, tal como no estudo
original (Spence, Rapee, McDonald & Ingram, 2001) enquanto indicador de validade
concorrente através da previsão de correlação significativa entre o resultado global do P.A.S.-pt
e a Escala de Internalização do CBCL. Este questionário de rastreio de perturbações
comportamentais é bastante utilizado na clínica e bem conhecido na investigação em crianças
com idades compreendidas entre os 1,5 anos e 18 anos. Inclui 113 itens descritores de
comportamentos da criança (agrupados em duas subescalas: Internalização e Externalização) em
que os progenitores assinalam numa escala de três pontos (não é verdadeiro=0; algumas vezes
verdadeiro=1; e muito verdadeiro=2) se o comportamento ocorre no presente ou se manifestou
ao longo dos últimos 6 meses. A subescala de Internalização é composta por 31 itens que
avaliam a ocorrência de comportamentos associadas à ansiedade, depressão, queixas somáticas e
isolamento social.
Procedimento
O processo teve início com o pedido de autorização aos autores para utilização do instrumento
supracitado. Procedeu-se à tradução da escala e à sua aplicação aos participantes a fim de validar
a escala à população portuguesa. No desenvolvimento da versão Portuguesa seguiram-se os
seguintes passos para a validação: Tradução para Português dos itens originais; Discussão com
especialistas, no sentido de escolher uma versão em língua portuguesa que refletisse o conteúdo
dos itens em Inglês; Inspeção da análise de conteúdo de cada item (algumas modificações
pontuais foram necessárias); Identificação da população alvo do inventário;
Obteve-se a autorização dos Conselhos Diretivos das Escolas em que a Escala foi aplicada e
elaborou-se o formulário de consentimento informado para os pais; obteve-se a autorização da
Comissão de Ética para a amostra clínica;
Aplicou-se a Escala à população de estudo, solicitado às mães para responder à tradução
portuguesa da Spence Preschool Anxiety Scale (P.A.S.-Pt) realizada pelo primeiro autor, de
acordo com as orientações do International Test Commission (van der Vijver & Hambleton,
1996).
RESULTADOS
Efeitos de idade e sexo
A análise da relação entre a idade e os resultados do [Link] foi realizada inicialmente
através de um teste de correlação (Pearson) o qual revelou um aumento do número total de
problemas de ansiedade com o avançar da idade (r=0,16; p<0,001). Esta constatação verificava-
se igualmente nas subescalas Perturbação de Ansiedade Geral (r=0,15;p<0,001), de Ansiedade
Social (r=0,12; p<0,005), de Medo de Dano Físico (r=0,11; p<0,01) e de Ansiedade de
Separação (r=0,16; p<0,007). Podemos verificar que, apesar de positivas e de apontarem no
sentido previsto pelos autores da escala original, bem como da teoria atrás revista, estes valores
são pouco elevados.
474
AVALIAÇÃO DA ANSIEDADE EM IDADE PRÉ-ESCOLAR
O quadro 1 apresenta os valores obtidos na amostra para o resultado global do P.A.S-pt e
subescalas.
Quadro1 - Resultados médios (e desvio padrão) da [Link] e subescalas para a amostra total, por
idade e por sexo. Nas linhas abaixo apresentam-se, como referência, os valores da aferição romena
e do estudo original.
______________________________________________________________________________________________
Ansiedade Ansiedade P.O.C. Medo dano Ansiedade P.A.S.
Geral Social fisico Separação Total
______________________________________________________________________________________________
3 Anos 4,9 (3,2) 6,1 (3,2) 3,8 (3,0) 7,5 (4,5) 6,1 (3,9) 28,1 (12,8)
4 Anos 4,7 (3,0) 6,5 (3,8) 4,6 (3,2) 8,8 (5,2) 6,2 (3,9) 29,3 (14,0)
5 Anos 5,7 (3,5) 7,8 (4,3) 4,5 (2,9) 10,7 (6,1) 7,3 (4,4) 34,8 (15,9)
6 Anos 7,2 (4,3) 7,7 (5,5) 4.4 (3,8) 8.6 (6,2) 7.3 (5,1) 37.0 (25,1)
7 Anos 5,6 (3,6) 6,7 (3,6) 4,5 (3,3) 7,7 (6,1) 7,4 (4,2) 34,1 (17,8
______________________________________________________________________________________________
P,A,S, 5,3 (3,4) 6,8 (4,0) 4,4 (3,1) 8,9 (5,5) 6,7 (4,2) 31,2 (15,2)
Total
Masculino 5,2 (3,4) 6,8 (3,9) 4,3 (3,1) 8,6 (5,6) 6,2 (4,2) 30,0(15,6)
(n=295)
Feminino 5,3 (3,3) 6,8 (4,0) 4,4 (3,1) 9,2 (5,4) 7,0 (4,1) 32,4 (14,7)
(n=263)
_____________________________________________________________________________________________
P,A,S, Ro 4,4 (3,4) 6,3 (4,6) 5,0 (3,2) 9,9 (5,7) 5,8 (3,8) 31,4 (15,4)
Total
Masculino 4,2 (3,3) 6,2 (4,4) 4,9 (3,2) 9,4 (5,4) 5,6 (3,7) 30,3 (14,7)
Feminino 4,5 (3,4) 6,4 (4,8) 5,0 (3,2) 10,3 (5,9) 6,0 (3,9) 32,4 (15,9)
______________________________________________________________________________________________
P,A,S, 2,2 (2,6) 4,7 (3,7) 1,2 (2,0) 6,5 (4,3) 2,7 (2,8) 17,3 (11,8)
Spence
Masculino 2,2 (2,9) 4,7 (3,7) 1,3 (2,2) 6,5 (4,3) 2,7 (2,9) 17,4 (11,8)
Feminino 2,1 (2,2) 4,6 (3,8) 1,2 (2,0) 6,6 (4,3) 2,7 (2,8) 17,2 (11,0)
______________________________________________________________________________________________
Ro- Romena
Num segundo momento, analisamos a prevalência dos problemas de ansiedade ao longo
das diversas idades. A comparação do nível de significância dos resultados referidos foi efetuada
através de uma ANOVA com testes post-hoc e correção de Bonferroni. Constatamos uma
progressão dos resultados entre os 3 e os 6 anos de idade, sendo que a progressão dos problemas
de ansiedade é estatisticamente significativa (F(4, 426)=4,60; p=0,001) do 3º e do 4º para o 6º
ano de idade e um declínio aos 7 anos para a [Link] Total; para a subescala Perturbação de
Ansiedade Geral a evolução dos resultados é semelhante com um incremento significativo do 4º
para o 6º ano de idade (F(4,488)=4,93; p=0,001); Na subescala Ansiedade Social encontramos
um perfil evolutivo semelhante mas com uma evolução estatisticamente significativa (F(4,500)=
4,02; p=0,003) entre os 3 e os 5 anos; Na subescala Medo de Dano Físico constatamos uma
progressão da frequência dos sintomas até aos 5 anos, sendo a progressão significativa do 3º ano
e do 4º ano (F(4, 497)= 6,41; p=0,001) para o 5º ano de idade e um declínio nas idades seguintes;
Para a subescala Ansiedade de Separação, após um ligeiro aumento entre os 3 e 4 anos de idade,
ocorre um incremento acentuado mas não significativo (F (4,493)=2,17; p=0,07) para os 5 anos
com estabilização posterior; Finalmente na POC encontramos uma subida dos comportamentos
compulsivos e das obsessões entre os 3 e os 4 anos (estatisticamente não significativo – F (4,
506)=1,35; p=0,25) e uma estabilização nas idades subsequentes.
475
J. Paulo Almeida & Victor Viana
Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas, analisadas através de um
teste t, entre os resultados da escala total (t=1,58; p=0,39) ou subescalas entre rapazes e
raparigas.
Prevalência de sintomas de ansiedade
Uma estimativa da prevalência de cada sintoma de ansiedade foi determinada a partir da
percentagem de mães que assinalaram o item como ocorrendo “Quase Sempre” (nota 3) ou
“Sempre” (nota 4). Os problemas mais comuns (respostas com frequência superior a 10%) para a
população estudada são apresentados no quadro 2.
Constatamos que os problemas mais frequentes ao longo da fase pré-escolar são relativos à
separação dos pais e o medo de dano físico associado a algo específico (cães, insectos ou
trovoadas).
Os 12 problemas mais comuns anotados para a população em estudo referem-se a ansiedade
de separação dos pais (dormir fora de casa) ou que algo negativo lhes aconteça ou ainda que algo
impossibilite a contacto com os progenitores, medo de dano físico (medo de alturas, do escuro,
de insetos ou cães), ansiedade social (ter comportamentos desajustados, que envergonhem a
criança frente a outras pessoas), dois itens referentes a ansiedade geral (dificuldade em controlar-
se/acalmar-se e em dormir quando preocupado) e um item que reflete um comportamento
repetitivo (verificar se fechou a porta ou a torneira).
Nas idades mais precoces são mais prevalecentes os problemas especificamente associados à
separação (o item 6 – ter receio de dormir sem a companhia do pai ou mãe fora de casa o item 12
- ter medo que alguma coisa má aconteça aos pais) são mais prevalentes em crianças de ambos
os sexos aos 3 e 4 anos de idade seguidos pelo medo de dano físico (medo do escuro – que está
igualmente associado às separação dos pais para dormir no quarto próprio); os problemas de
ansiedade social emergem pelos 6 anos de idade (item 2 e item 19 – preocupação relativa à
realização de comportamentos que deixem a criança embaraçada em situações publicas) em
ambos os sexos. A constância de respostas assinaladas no item 3 (constante verificação da
realização de ações de modo correto) poderá estar associado à disponibilidade
desenvolvimentalmente benéfica da criança para realizar aprendizagens instrumentais das quais
poderá decorrer algum benefício social.
Quadro 2- Medos mais frequentes por idade e por sexo.
______________________________________________________________________________________________
Item Subescala Amostra 3 Anos 4 Anos 5 Anos 6 Anos 7 Anos
Total % % % % %
_________________________________________%_____________________________________________________
6. Ansiedade 32,3 Total 31,8 31,5 35,3 36,4 22,4
Separação Masc. 30,7 30,3 27,0 31,3 25,1
Fem. 32,9 33,3 42,3 41,1 14,2
12 Ansiedade 30,0 Total 25,1 24,3 26,2 42,4 33,3
Separação Masc. 23,3 26,6 33,4 35,3 31,3
Fem. 26,9 20,5 22,4 43,8 35,7
3. POC 29,9 Total 27,5 28,9 31,4 35,3 35,7
Masc. 23,3 27,9 31,1 29,4 18,8
Fem. 31,3 30,2 32,1 41,1 58,3
26. M. Dano 25,6 Total 20,9 21,3 36,4 25,0 23.4
Físico Masc. 21,0 16,8 36,2 25,0 25,1
Fem. 20,8 28,6 37,0 25,0 21,4
16. Ansiedade 24,8 Total 19,5 21,3 30,3 32,4 36,6
Separação Masc. 17,6 25,9 28,0 11,8 31,3
476
AVALIAÇÃO DA ANSIEDADE EM IDADE PRÉ-ESCOLAR
Fem. 21,3 15,1 33,0 29,4 42,9
20. M. Dano 20,8 Total 9,1 18,8 21,7 34,4 20,0
Físico Masc. 1,6 18,4 17,2 25,0 18,8
Fem. 15,4 20,0 24,3 37,5 21,4
13. M. Dano 19,1 Total 17,0 16,6 23,0 26,5 16,6
Físico Masc. 17,6 17,1 26,0 29,4 18,8
Fem. 16,5 16,4 20,5 23,6 14,3
24. M. Dano 18,2 Total 12,5 16,0 23,6 31,6 26.6
Físico Masc. 9,5 15,1 23,1 25,1 25,1
Fem. 15,6 16,2 23,0 31,3 28,5
7. M. Dano 17,3 Total 10,5 14,2 29,0 18,2 15,7
Físico Masc. 10,9 16,4 20,3 23,6 22,5
Fem. 10,2 12,2 36,4 12,6 8,3
17. M. Dano 16.2 Total 15,7 16,4 20,2 9,1 6,6
Físico Masc. 20,3 19,1 15,0 11,8 6,3
Fem. 11,4 11,4 24,0 6,3 7.1
2. Ansiedade 16,1 Total 15,7 16,4 20,2 18,8 16,6
Social Masc. 20,9 11,6 20,3 19,4 15,0
Fem. 13,9 12,3 21,6 18,8 18,4
11 Ansiedade 14,8 Total 10,3 12,7 22,1 16,2 16,7
Social Masc. 10,6 11,6 17,3 15,9 18,8
Fem. 10,2 13,7 25,6 17,6 14,3
19. Ansiedade 14,7 Total 10,0 10,0 20,6 34,4 10,0
Social Masc. 14,3 11,0 15,7 31,3 6.3
Fem. 6,5 9,8 24,0 37,6 7,1
4. Ansiedade 11,8 Total 11,7 7,5 13,0 17,7 13,3
Geral Masc. 10,8 5,4 17,4 17,7 12,5
Fem. 12,7 9,5 9,0 17,6 14,3
8. Ansiedade 11,2 Total 11,1 9,7 12,4 11,3 11,2
Geral Masc. 9,3 8,3 13,3 5,9 6,3
Fem. 12,8 12,3 10,4 17,6 15,8
1 Ansiedade 9,3 Total 14,4 14,8 10,6 15,6 18,2
Geral Masc. 13,6 16,3 13,7 11,8 7,1
Fem. 17,0 12,5 6,4 19,4 26,7
______________________________________________________________________________________________
Estrutura Fatorial
Spence et al. (2001) testaram, inicialmente através da análise fatorial exploratória e,
posteriormente, pela análise confirmatória, vários modelos de análise e explicação dos resultados,
destacando-se as variantes com quatro fatores inter-relacionados (em que não se diferenciava entre
ansiedade geral e ansiedade de separação), uma variante com cinco fatores e ainda um modelo de
cinco fatores com um fator sobre-ordenado, tendo concluído que o modelo de cinco fatores era o
que melhor se adequava aos resultados (validado pela análise fatorial confirmatória). Tal resultado
foi confirmado no estudo de Benga, et al. (2010) para a população Romena. Pelo que decidimos
seguir os mesmos passos para o nosso estudo.
Análise em componentes principais
A medida de adequação da amostra fornecida pelo teste Kaiser-Meyer-Olkin (0,86) e o teste de
esfericidade de Bartlett (x2 = 3702,52; p< 0,001) indicam a adequação de realizar a análise fatorial
com os dados presentes. Realizamos uma análise de componentes principais com rotação obliminal
(tal como na versão original) para extração dos fatores tendo entrado todos os itens na solução final.
O scree-test mostra uma solução com cinco fatores que explicavam 49,53% da variância dos
resultados, sendo que os itens que os integram coincidem com os descritos na versão original. A
477
J. Paulo Almeida & Victor Viana
análise dos valores de alfa para as diferentes subescalas permitiu obter valores indicadores de
consistência interna satisfatória para todas as subescalas. Verificamos que para a subescala de
ansiedade generalizada obtivemos um valor de alfa=0,74; Na subescala medo de dano físico o valor
de alfa foi de 0,73; Para a subescala de ansiedade social registamos um valor de alfa=0,70; na
subescala de ansiedade de separação encontramos um valor de alfa=0,69, por fim, na subescala
POC o valor determinado foi alfa=0,63.
Análise de fidedignidade
A análise da consistência interna foi determinada pela computação do Alfa de Cronbach. O valor
obtido para a escala total foi de alfa=0,88 (0,87 no PAS-ro, versão romena) e, indicador de boa
consistência, enquanto para as subescalas a consistência variou entre 0,63 e 0,73 Ansiedade
Generalizada =0,69, Ansiedade Social =0,70, Perturbação Obsessiva =0,63, Medo de dano Físico
=0,73 e Ansiedade de Separação =0,69. todos estes valores são indicadores de uma consistência
interna satisfatória.
Validade convergente
Como anteriormente referimos, com o objetivo de fornecer suporte para a proposição que
afirmava que os itens selecionados para o P.A.S.-pt avaliavam o constructo ansiedade na população
pré-escolar, a validade concorrente foi determinada com recurso à Escala de Internalização do
CBCL, sendo que uma correlação positiva entre ambos indicaria a capacidade do P.A.S.-pt para
alcançar o seu propósito. Apesar de a escala de Internalização fornecer uma avaliação mais ampla
dos problemas internalizadores, dos quais a ansiedade é um dos componentes, esperava-se uma
correlação moderada a alta.
Calculamos o Coeficiente de correlação produto-momento de Pearson entre o resultado total da
referida escala e o resultado global do P.A.S.-pt e encontramos uma correlação significativa entre os
valores (r=0,61; n=349; p<0,01) o que confirma a nossa hipótese (Quadro 3). Também se verifica a
existência de correlações significativas entre a Escala de Internalização do CBCL com a subescala
de Ansiedade Generalizada (r=0,50; p=0,0001), de Ansiedade Social (r=0,33; p=0,0001),
Perturbação Obsessiva (r=0,42; p=0,0001), Medo de dano Físico (r=0,39, p=0,0001) e Ansiedade
de Separação (r=0,46; p=0,0001).
Validade Discriminante
Procuramos conhecer a capacidade de o P.A.S.-pt discriminar entre a população normativa de
crianças inseridas em Jardim de Infância e uma amostra de crianças referidas para uma consulta de
psicologia pediátrica por apresentarem sintomas de ansiedade.
Relativamente aos resultados do grupo clínico, constata-se que esta amostra obtém valores
significativamente mais elevados quer no resultado global do [Link] quer nas subescalas
Ansiedade Geral, Ansiedade Social, Medo de Dano Físico (Quadro 3). Não se encontrou diferença
significativa nas subescalas POC (o grupo referenciado não incluía nenhuma criança com este tipo
de sintomatologia) nem na subescala de Ansiedade de Separação, apesar do grupo clínico apresentar
valores mais elevados.
478
AVALIAÇÃO DA ANSIEDADE EM IDADE PRÉ-ESCOLAR
Quadro 3- Validade discriminante entre grupo normativo e grupo de crianças referenciadas a
consulta de psicologia clínica por apresentarem perturbações de ansiedade
Escala M (DP) F p
_________________________________________________________
Ansiedade Geral
Gr. Normal 4,94 (3,08) 18,20 0,0001
Gr. Clínico 8,14 (4,35)
Ansiedade Social
Gr. Normal 6,52 (3,72) 10,75 0,001
Gr. Clínico 9,57 (5,03)
POC
Gr. Normal 4,17 (3,02) 0,00 0,98
Gr. Clínico 5,98 (3,17)
Medo Dano Físico
Gr. Normal 8,37 (5,20) 3,84 0,05
Gr. Clínico 13,40 (6,16)
Ansiedade Separação
Gr. Normal 6,25 (3,93) 1,77 0,18
Gr. Clínico 10,12 (4,50)
[Link] Total
Gr. Normal 29,16 (13,64) 9,57 0,002
Gr. Clínico 47,23 (17,46)
_________________________________________________________
DISCUSSÃO
O presente estudo examinou as propriedades psicométricas da versão portuguesa da Escala de
Ansiedade para o Período pré-escolar (P.A.S.-pt)1 numa amostra de crianças de Jardim de
Infância e do 1º ano de escolaridade. Em termos gerais os resultados confirmam o agrupamento
de sintomas apresentado no DSM-IV e as investigações realizadas em contextos culturais
diversos (Austrália e Roménia) com algumas especificações. Desde já teremos que ter algum
cuidado na análise dos resultados pois, à semelhança do estudo de Benga et al. (2010), a nossa
amostra era constituída por crianças mais velhas (entre os 3 e os 7 anos de idade, com os mais
crescidos já a frequentar o 1º ano de escolaridade) e um grupo de controlo com sintomatologia
clínica, referido para uma consulta de especialidade por apresentar perturbações de ansiedade.
Devido ao reduzido número de respostas aos itens da escala de stress pós-traumático, estes
não foram analisados no presente estudo (tal como ocorreu nos estudos de Benga, et al., 2010, e
de Edwards, et al., 2010).
Começando por efetuar a análise da prevalência e intensidade dos diversos sintomas de
ansiedade, destaca-se, desde logo a discrepância entre a expressão de sintomas de ansiedade
encontrados na nossa população e os registados pelos autores da escala. Os registos de
1
Disponível em: [Link]
479
J. Paulo Almeida & Victor Viana
prevalência são significativamente mais elevados na nossa população (semelhantes aos
encontrados para a população romena).
Uma análise das diferenças entre sexos revelou que não foram encontradas diferenças
significativas entre rapazes e raparigas quer para a escala total quer para as diversas subescalas, o
que vai de encontro ao registado na adaptação da escala original mas contraria a literatura que
refere serem as raparigas mais propensas às manifestações de ansiedade ou de comportamentos
fóbicos (Bouldin & Pratt, 1998). Podemos concluir que, na nossa população, não existirão
diferenças significativas na expressão de medo ou ansiedade em crianças de idade pré-escolar,
segundo o registo das mães. Estudos complementares poderão ser importantes para esclarecer
este resultado bem como sobre as considerações teóricas sobre a sua etiologia (inata ou adquirida
ao longo do processo de socialização) e a evolução dos medos pois é sabido que existe uma
diferenciação na sua expressão ao longo da infância e adolescência. Relativamente à idade das
crianças, apesar de estatisticamente significativos, a magnitude dos valores de correlação é
incipiente, mas constatamos um incremento das manifestações de ansiedade entre os 3 e os 6
anos de idade com declínio para os 7 anos. No geral, as crianças de 3 anos expressam um menor
número de medos, tal como se pode constatar pela análise do resultado da [Link] Total; para a
subescala Perturbação de Ansiedade Geral a evolução dos resultados é semelhante com um
incremento significativo do 4º para o 6º ano de idade; Na subescala Ansiedade Social
encontramos um perfil evolutivo semelhante mas com uma evolução estatisticamente
significativa entre os 3 e os 5 anos; Na subescala Medo de Dano Físico constatamos uma
progressão da frequência dos sintomas até aos 5 anos, sendo a progressão significativa do 3º ano
e do 4º ano para o 5º ano de idade e um declínio nas idades seguintes; Para a subescala
Ansiedade de Separação, após um ligeiro aumento entre os 3 e 4 anos de idade, ocorre um
incremento acentuado mas não significativo para os 5 anos com estabilização posterior. Estes
resultados contrariam o estudo original mas, mais uma vez, vão de encontro ao constatado por
Benga, et al., (2010) na população romena. Estes resultados parecem apontar para algum tipo de
influência cultural com as portuguesas e romenas a revelarem uma maior expressão emocional,
provavelmente associada a maior sensibilidade e menor desenvolvimento do controlo emocional
ao longo da idade pré-escolar, mais uma vez seriam necessários estudos complementares para
confirmar esta hipótese. Constata-se que o incremento de medos durante a idade pré-escolar
parece corresponder a uma crescente tomada de consciência do lugar da criança no mundo e das
potenciais ameaças que enfrenta sem que corresponda ainda o desenvolvimento de estratégias de
confronto para lidar com esses medos (Compas, Connor-Smith, Saltzman, Thomsen, &
Wadsworth, 2001).
Os itens com prevalência mais elevada (registo materno de “quase sempre” ou “sempre”)
revelam que os sintomas de ansiedade de separação e de medo de dano físico como sendo os
mais frequentes, seguidos dos problemas de ansiedade social. Dos 15 medos mais frequentes
entre as crianças portuguesas, 10 são coincidentes com os encontrados pelos autores do estudo
original e com 13 registados na população romena. Relativamente aos medos de separação,
constata-se um incremento na sua expressão ao longo de toda a faixa etária estudada (medo que
alguma coisa má aconteça aos pais ou à própria criança) com exceção do médio de dormir fora
de casa que, aumentando até aos 6 anos de idade, começa a diminuir a partir deste ponto. Uma
justificação possível será a experiência de socialização representada pelo ingresso, aos 5 anos, na
pré-escola e aos 6 na escolaridade obrigatória que trará maior conforto junto das crianças para
480
AVALIAÇÃO DA ANSIEDADE EM IDADE PRÉ-ESCOLAR
lidar com as experiências de afastamento. Quanto ao medo de dano físico, constata-se um
incremento na expressão de ansiedade (até aos 6 anos de idade) associada ao confronto com
cães, insetos ou trovoadas e diminuição posterior; o medo do escuro cresce na sua expressão até
aos 5 anos diminuindo posteriormente. Os indicadores de ansiedade social aumentam a sua
expressão até aos 5 anos (medo de fazer algo estúpido ou de falar com estranhos) ou 6 anos
(fazer algo que envergonhe a criança) diminuindo posteriormente. Aqui, parece ser evidente uma
tomada de consciência de si próprio ao longo da idade pré-escolar com, mais uma vez, as
experiências normativas de socialização (ingresso no sistema educativo) a serem determinantes
de uma dessensibilização e de maior regulação emocional e menor expressão de ansiedade em
situações ou contextos sociais (Buss, 1984).
Quanto à analise da estrutura dos sintomas de ansiedade na idade pré-escolar, realizada
através de uma análise exploratória, a qual se justifica pela influencia que o contexto sócio-
educativo diverso pode exercer sobre o processo de desenvolvimento da criança, gerando
significações diversas e estilos de resposta distintos. Ao contrário do estudo original (Spence et
al. 2001) e da adaptação para a população romena (Benga, et al., 2010) encontramos uma
associação dos itens em cinco factores. Como referimos, alcançamos valores aceitáveis para a
consistência interna da escala total (α=0,88). Nas diferentes subescalas o valor de alfa variou
entre α=0,63 na subescala Perturbação obsessivo-compulsiva e α=0,74 para a subescala de
ansiedade generalizada.
Quanto à validade de constructo, a análise das correlações entre os resultados da escala total,
bem como das subescalas, com a escala de internalização do CBCL permitiu verificar que estes
valores são bastante satisfatórios o que nos fornece evidência da validade do constructo da
[Link].
Relativamente à validade discriminante, determinada pala capacidade de diferenciar crianças
normais com um grupo de crianças referenciadas a uma consulta de psicologia clínica devido a
perturbações de ansiedade ou fobias, registamos uma diferença significativa quer para a escala
total quer para as subescalas com exceção das perturbações obsessivas. Estes resultados indicam
que a escala em estudo apresenta uma boa capacidade para diferenciar as crianças com
sintomatologia ansiosa.
Existem várias limitações na presente investigação que tinha como objetivo a adaptação à
população portuguesa do P.A.S.. Desde logo, a representatividade da amostra que, apesar do
numero de sujeitos que a compõe, foca apenas duas áreas geográficas do país (grande Porto e
Lisboa) de características urbanas. Em segundo lugar, os dados baseiam-se na perspetiva da mãe,
não havendo registo paterno (e do acordo entre estes observadores) ou da educadora de infância
nem tão pouco de observação direta do comportamento ansioso da criança. Não podemos
descartar algum enviesamento na apreciação do comportamento da criança realizado pela mãe,
podendo esta estar ansiosa ou deprimida. Seria desejável o recurso a um estudo mais amplo que
registasse a opinião de diversos observadores (mãe, pai e educadora) e a observação direta da
criança ou o próprio registo desta. Em terceiro lugar, o conteúdo da escala deverá ser
considerado pois, apesar dos itens terem sido selecionados com uma perspetiva
desenvolvimental, a partir várias fontes (literatura prévia, opinião de especialistas ou relato
parental), existe a possibilidade de existência de outros sintomas que não integram a escala. À
medida que novas evidências surjam, será necessário proceder a uma atualização do instrumento,
481
J. Paulo Almeida & Victor Viana
podendo desde já acrescentar-se uma questão em aberto questionando os pais sobre outros
desencadeadores possíveis de ansiedade.
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Agradecimentos- Os autores agradecem a colaboração de Linda Candeias, Ana Soares e Ana
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