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Ritual Como Performance

O trabalho analisa a perspectiva de Stanley Tambiah sobre a performatividade dos rituais, destacando que estes são sistemas de comunicação simbólica culturalmente construídos. Tambiah argumenta que rituais possuem características estereotipadas e invariantes, mas são sempre afetados por variáveis contextuais, refletindo a dualidade entre a repetição e a flexibilidade. O autor enfatiza que a comunicação social nos rituais é mais sobre a conexão interpessoal do que a transmissão de novas informações.
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O trabalho analisa a perspectiva de Stanley Tambiah sobre a performatividade dos rituais, destacando que estes são sistemas de comunicação simbólica culturalmente construídos. Tambiah argumenta que rituais possuem características estereotipadas e invariantes, mas são sempre afetados por variáveis contextuais, refletindo a dualidade entre a repetição e a flexibilidade. O autor enfatiza que a comunicação social nos rituais é mais sobre a conexão interpessoal do que a transmissão de novas informações.
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O RITUAL COMO PERFORMANCE

UM PERSPECTIVA A PARTIR DO OLHAR DE STANLEY TAMBIAH

Ana Carolina Brindarolli1

RESUMO: Este trabalho consiste no fechamento da disciplina Antropologia da Religião,


e aborda um pretencioso fichamento dos principais pontos de um dos ensaios refletidos
por Stanley Tambiah. O ensaio: Uma abordagem performativa do ritual, presente na obra
Cultura, pensamento e ação social: Uma perspectiva antropológica, retrata alguns
argumentos do autor sobre a performatividade que existe dentro do ritual.

Palavras Chave: Stanley Tambiah, performance, performatividade, ritual

11
Mestranda em Antropologia Social; Universidade Federal de Mato Grosso do Sul; Campo Grande/MS
– Brasil; anabrindarolli@[Link]
A obra Cultura, pensamento e ação social: Uma perspectiva antropológica, de
Stanley Tambiah contém uma seleção de ensaios escritos pelo autor entre 1967 e 1984.
A proposta apresentada por ele se afasta de qualquer tentativa de formular um esquema
universalista e determinista da evolução da cultura e da sociedade.
O autor traz a visão sobre a ação ritual, em seus aspectos essenciais, como sendo
performativa, isto é, 1- no sentido que “se falar” é também “fazer algo”, como uma ação
convencional, premissa que anda em sentido diferente de uma performance encenada, em
que os atores vivenciam o evento intensamente; e 2- no sentido de valores indiciais,
aqueles “que são vinculados aos e inferidos pelos atores durante a performance”
(TAMBIAH, 1985, p.140). Desta forma, ele apresenta o conceito de ritual como sendo
“um sistema de comunicação simbólica construído culturalmente. Ele é constituído por
sequências de palavras e de atos padronizados e ordenadas, frequentemente expressas em
diversos meios”, no qual os acontecimentos são caracterizados pela “formalidade
(convencionalidade), estereotipagem (rigidez), condensação (fusão) e redundância
(repetição)” (TAMBIAH, 1985, p.139).
O ritual então, é entendido por ele e por outros autores que este apresenta, como
um “instrumento tradicionalizante” e “destacam a repetição, a estilização, a ordenação, o
estilo de apresentação evocativo, a encenação e etc., como aspectos formais que permitem
que o ritual imite os imperativos e processos rítmicos do cosmos e, assim, atribua
permanência e legitimidade ao que são, na realidade, construções sociais” (TAMBIAH,
1985, p.143).
No capítulo 4 (quatro) intitulado “Uma abordagem performativa do ritual”,
Tambiah, utiliza passagens de Radcliffe-Brow, por exemplo, para demonstrar seu ponto
de vista sobre a introdução da dança como pensamento antropológico, esta dotada de
certas características podem, ao seu ver, serem extrapoladas e utilizadas para a maioria
dos casos de análise do ritual coletivo.

Limitando-se a tratar a dança como “uma forma de cerimonial social”


Radcliffe-Brow ressalta o fato irrepreensível de que “o caráter essencial
de toda dança é que ela é rítmica”, e que essa natureza rítmica permite
que “um número de pessoas participe das mesmas ações e as realize
como um corpo” (TAMBIAH, 1985, p.134).

Ele acreditava que o ritmo e o tom fixos possam contribuir para a performance a
atividade social em conjunto, isto é, que o ritmo produz um tipo de influência e/ou coerção

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que direciona os movimentos do corpo e os movimentos da mente, sendo que aqueles
sujeitos dispostos a serem afetados, degustam de um prazer de auto entrega, ao passo que
os resistentes, sofrerão de uma profunda inquietação, e acrescente que a ação da dança se
aplica em um duplo fazer, “a peculiaridade da forma em questão é que ela age sobre o
indivíduo de fora (como uma performance coletiva) e de dentro (já que o impulso para
ceder vem de seu próprio organismo) (TAMBIAH, 1985, p.134), traz também a visão de
como a dança e a canção empregam os sentidos, sendo a dança responsável por envolver
muito além do que apenas o sistema muscular do dançarino, mas também de recrutar dois
sentidos principais “o da visão, para guiar o dançarino em seus movimentos, e o da
audição, para permiti-lo acompanhar o tempo da música” (TAMBIAH, 1985, p.135).
O autor, discute o aspecto dual dos rituais como performances, na chave de
macroproblema, isto é, trazendo as distintas características que apresentam os rituais em
encenações públicas, com regras e estereótipos a serem seguidos e a influência de
afetação e consecutivamente alteração através do estado de coisa, de atores e da
replicação de tal ritual. Dessa maneira, independentemente de terem sido prescritos e
previsto para atuarem de determinada forma, estão sempre ligados às improbabilidades
de status fixo dos participantes, por exemplo e, logo, sempre abertos aos significados
contextuais. As variáveis e o acaso, tornam-se componentes de flexibilidade na maioria
dos rituais.

Por um lado, pode-se dizer que, em geral, um ritual público reproduz


em suas repetidas encenações certas sequências aparentemente
estereotipadas e invariantes, tais como fórmulas cantadas, regras de
etiqueta seguidas, e assim por diante. Por outro lado, todo antropólogo
de campo sabe que nem uma única performance de um rito, não importa
o quanto rigidamente prescrita, é exatamente igual à performance, pois
ela é afetada por processos peculiares ao modo oral de recitação do
especialista e por certos variáveis, tais como as características e
circunstâncias sociais dos atores que (com a exceção de eventos
puramente contingente e imprevisto) afetam questões tais como a escala
de comparecimento, o interesse do público, gastos econômicos, e assim
por diante (TAMBIAH, 1985, p.135 e 136).

É característico que em toda sociedade se possua encenações, performances e


festividades designadas e demarcadas, que são paradigmáticas e podem discernir
exemplos típicos e destacais de eventos dados como rituais;

[...] cerimônia de graduação, liturgia da igreja, encontro religioso,


convenção do Partido Republicano, ritual de comunhão, partida de
futebol. As palavras “cerimônia”, “liturgia”, “convenção”, “encontro”,

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“partida” e assim por diante, marcam os eventos como sendo de um tipo
particular (TAMBIAH, 1985, p.137).

Estes eventos são designados e demarcados como dito anteriormente. São


diferenciados por características peculiares que os distinguem dos eventos considerados
comuns e cotidianos, eles compartilham uma estrutura de encenação coletiva ou comunal,
que é intencional e/ou dedicada à conquista de um objetivo em particular.
O palco ritual para Tambiah, partilha com a ação de jogar, a esfera de atividade
temporária que exige uma “limitação de tempo”, um espaço delimitado (em certos casos),
uma forma fixa culturalmente ordenada, constituída como uma representação de algo por
elementos de repetição e alternância “[...] ele “cria ordem e é ordem” e, em um mundo
imperfeito, ele traz a perfeição temporária” (TAMBIAH, 1985, p.138). Nos faz refletir
sobre o que uma sociedade busca comunicar aos seus membros em suas principais
performances, e porque certas formas de comunicação são eleitas como mais adequadas
para a transmissão e outras excluídas? Sendo assim, o autor caminha no argumento de
que as pessoas estão sujeitas a agir significativamente de forma estereotipada, porque elas
“aprenderam a aprender”, usando a premissa de que a encenação do ritual é uma garantia
de comunicação social.

Mas o comportamento estereotipado, ritualizado e convencionado é


construído para expressar e comunicar, e é publicamente interpretado
como expressando e comunicando certas atitudes compatíveis com uma
relação institucionalizada contínua. As convenções estereotipadas,
neste sentido, operam uma segunda ou mais profunda distinção; elas
não codificam intenções, mas “simulações” de intenções (TAMBIAH,
1985, p.144).

A necessidade da estereotipagem de códigos nos rituais, é a busca pelo


distanciamento, a outra face da moeda da convencionalidade; pois o distanciamento
separa as emoções pessoais dos atores, do seu comprometimento com uma moralidade
pública, na tentativa de construção de uma cultura vigorosa como produto social, que seja
“capaz de elaborar diversas ordens de convencionalidade, sobrepondo-as e entrelaçando-
as, e justapondo diversas dimensões de significado” (TAMBIAH, 1985, p.145). A partir
desse ponto, percebemos Tambiah apresentando o argumento convenientemente do
primeiro dos três sentidos nos quais ele considera o ritual como performativo.

O primeiro sentido obviamente deriva da noção muito conhecida de


Austin de enunciado performativo, segundo o qual o ato de dizer de um

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ato ilocutório é “a realização de uma ação”; esse ato, “ajustado à
convenção” em “circunstâncias apropriadas”, está sujeito a julgamentos
normativos de êxito e legitimidade e não a testes racionais de verdade
e falsidade” (TAMBIAH, 1985, p.147).

Desta maneira ela afirma que os rituais, enquanto atos performativos, podem estar
sujeitos a dois tipos diferentes de regras, reguladoras e constitutivas, e que esta distinção
não é inabalável, “mas possui fôlego analítico”. Então, as regras reguladoras seriam
aquelas que regulam, que orientam, ele utiliza do exemplo das normas de etiqueta à mesa
que regulam as refeições; já as regras constitutivas seriam aquelas que constituem, isto é,
elas também regulam, são atividade cuja existência depende logicamente das regras,
dessa vez o autor utiliza-se do exemplo do futebol ou do xadrez para nos facilitar a
ilustração mental.
O autor nos apresenta o conceito de “redundância” ou “ciclos recursivos” dentro
do rito, com a criação de padrões reconhecíveis, tensões e resultados não antecipados,
assim ele elucida e enfatiza uma acepção de “significado” considerando o
reconhecimento de padrões e consciência configuracional, ainda menciona ser “uma
característica distintiva das artes e ofícios – poesia, pintura, dança, música, cerâmica, etc”,
e apresenta também a modulação controlada como sendo “um censor estético primoroso,
que previne a deterioração das formas artísticas na banalidade degenerada”, e assim se
torna possível reconhecer, para ele, nesta caracterização do significado baseada no
reconhecimento de padrões, uma caracterização positiva do papel do significado como
padrão, repetição e redundância.
Estando muito “a mêrce” do que necessitaria ser um fichamento sobre o capítulo
4 (quatro) da obra Cultura, pensamento e ação social: Uma perspectiva antropológica,
concluo acreditando que, a comunicação social, para Tambiah é um tipo especial de ritual
e retrata muitos aspectos que têm pouco a ver com a transmissão de novas informações e
tudo a ver com a conexão interpessoal e com a integração social e a continuidade.

5
REFERÊNCIA
TAMBIAH, Stanley. Culture, Thought, and Social Action: An Anthropological
Perspective. Cambridge, Massachusetts and London: Harvard University Press, 1985.

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