finish him off [taekook] by kittenishi
Category: Fanfiction
Genre: bangtanboys, bottomjk, bts, drama, fanfic, fightclub, hatexlove,
jkbottom, luta, romance, taekook, toptaehyung, universitario, vkook,
wattys2021, yaoi
Language: Português
Status: Completed
Published: 2018-07-17
Updated: 2023-09-15
Packaged: 2023-09-16 18:38:12
Chapters: 22
Words: 115,686
Publisher: www.wattpad.com
Summary: Foi na arena de luta que Jeongguk odiou Taehyung pela
primeira vez. "O quão bem você acha que conhece de si mesmo se nunca
esteve numa luta?" #1 em taekook em 07/03/2020
Language: Português
Read Count: 313,754
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Avisos
Bem-vindo (a) a Finish Him Off!
Oi, oi pessoal! Esse capítulo-aviso tá chegando bem tarde (afinal, FHO
bateu 300k), mas chegou! São apenas alguns avisos que eu quis dar antes
que alguém comece a ler essa história.
Contém:
- angst
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- violência
- drama
- linguagem bem obcena
- sexo explícito
- preconceito (homofobia leve e questão de classes sociais)
- assédio
- problemas de comunicação
- texting
- ESSA É UMA HISTÓRIA PARA MAIORES DE 18!
> é pelo POV do Jk na maior parte do tempo, mas temos alguns poucos
capítulos com o POV do Th
> estamos lidando com personagens adultos que falam merda, pensam
merda e fazem merda (e depois se arrependem), mas se você não sabe lidar
com isso, já dê meia volta e não leia! estou falando isso na maior
sinceridade, o número de pessoas incapazes de compreender isso, que
ficam frustradas e param de ler a história no capítulo 6 é provavelmente
grande (e adoram mencionar isso nos comentários também), então esteja
avisado. Tanto o JK quanto o TH cometem muitos erros ao curso dessa
história, se você espera personagens perfeitos, novamente: dê meia volta e
não leia!
> dito isso, se você ainda decidir ler, espero que goste de FHO do fundo do
meu coração. foi minha primeira longfic taekook e eu tenho um carinho
por ela.
PLAYLIST:
Sabotage - Beastie Boys
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Epic - Faith No More
Vertigo - U2
Medicate - AFI
Unbelievable - EMF
Broken - Seether, Amy Lee
Always - Blink 182
California - Phantom Planet
Scream - Avenged Sevenfold
Alive - Pearl Jam
Lucky Man - The Verve
Eternal Flame - The Bangles
Coming Undone - KORN
Going Under - Evanescence
Our Truth - Lacuna Coil
Fortune Faded - Red Hot Chili Peppers
Enter Sandman - Metallica
Even Flow - Pearl Jam
Love of My Life - Queen
Good Riddance (Time of Your Life) - Green Day
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Capítulo 1 - Sabotage
Playlist da fanfic está linkada no meu perfil, okay?! Boa leitura!!!
[...]
— Tempo! — O técnico Richards gritou quando conseguimos fechar o
placar com um touchdown.
Ergui meu punho em sinal de comemoração antes de retirar o capacete, e o
protetor de dentes. A sensação da vitória era algo que sempre me deixava
extasiado após cada treino. Saber que eu sempre estava na equipe
vencedora, saber que eu fui uma peça-chave para a nossa vitória era
maravilhoso.
Eu amava aquilo. Vencer.
Passei uma mão sobre meus cabelos suados, retirando meus fios de minha
testa enquanto observava Hugh Brown, o rapaz que estava jogando no time
adversário durante nosso treino, discutindo com nosso técnico, nada
conformado com o resultado. Revirei os olhos ao observar tal ato.
Estávamos treinando para os futuros jogos da temporada, tínhamos que dar
o nosso melhor, e a atitude grosseira do meu colega de time me irritou.
Vi Jung Hoseok, um dos cornerbacks, soltar uma risada alta ante a algo
que Hugh falou.
— Você é inacreditável, cara — balançou a cabeça, caminhando em
direção ao vestiário, segurando o capacete.
Me aproximei do técnico Richards e ao me ver ali, Hugh fez uma careta.
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— Você é um péssimo perdedor — afirmei —, temos pessoas assistindo
ao treino e você realmente vai se dar ao trabalho de passar uma vergonha
dessas?
O quarterback apertou os lábios, claramente furioso com minha alfinetada.
Um idiota daqueles não devia sequer estar reclamando com o técnico, no
entanto, aqui estávamos nós, presenciando o babaca bater boca
simplesmente porque não sabe perder.
— Quem você pensa que é, Jeon? — Questionou, parecendo se segurar
para não voar em meu pescoço.
Suspirando, fiz meu caminho até o vestiário sem me incomodar em olhar
para trás.
— Sou o Center desse time — respondi em alto e bom som.
Os outros jogadores já estavam fazendo uma pequena fila para tomar
banho e eu me apressei a pegar um lugar ao lado de Hoseok, que também
esperava por sua vez. Meu colega de time tinha uma toalha em seu ombro
e sorriu para mim quando apareci ali.
— Nós vamos sair para beber hoje. Vai ter uma festa na casa do Tom.
Você vai?
Neguei com a cabeça.
— Não é meu tipo de programa, você sabe — declinei, educadamente —,
agradeço o convite, de qualquer forma.
— Entendo — deu de ombros, não se importando muito e não insistindo
—, só melhora um pouco essa sua expressão. Você jogou muito bem hoje!
Ânimo!
Não era surpresa para mim que Hobi – o apelido pela qual chamávamos
Hoseok – sempre era quem tentava me colocar para cima. Ele era uma das
pessoas mais positivas que eu já conheci. Mesmo que eu sempre recusasse
os convites para sair com o resto do time, ele nunca desistia de tentar.
Quando finalmente chegou minha vez de tomar banho, procurei demorar o
máximo que pude. Meu dia tinha sido cheio, então, eu estava muito
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cansado. A carga de estudo e treino não era fácil de se acostumar, mas
acho que o pior de tudo era como eu ficava cansado depois de uma dia
assim. Era provável que eu simplesmente deitasse em minha cama e
dormisse bem rápido.
O lado bom disso era que amanhã era sexta-feira, então, o fim de semana
estava chegando, e eu tinha planos. No entanto, o que me chamou a
atenção foi a conversa que meus colegas de time estavam tendo nos
chuveiros ao lado, separados pelas cabines, mas os rostos à vista.
— ... meu amigo tinha dito que eles começaram na metade do semestre
passado, sabe, mais ou menos no início do ano. Mas, não era nada grande
ou fixo. Só que durante as férias, cresceu bastante e agora eles estão se
encontrando semanalmente.
— E como é lá?
— Você já assistiu aquele filme, Clube da Luta? Então, é nos moldes do
filme, mas ao invés de ser nos subsolos de Phoenix, acontece em nossa
universidade mesmo — explicou.
— E tem as regras? Tem tudo aquilo?
— Tem sim! É muito maneiro. Você desafia uma pessoa, luta com ela e
acontece tudo aquilo — contou, empolgado —, eles possuem regras
rígidas sobre manter segredo na universidade, imagina se descobrem algo
assim?
— Como posso participar? Eu quero ir — afirmou. — Quero desafiar os
caras mais fodas.
— Você está maluco — riu —, Zach me disse que tem um cara lá que é
vencedor invicto. Ele nunca perdeu uma única luta. Parece que ele é
estrangeiro até.
— Vencedor invicto? Não brinca!
— É sério! Zach falou que esse cara é desigual, que ele vence de todo
mundo que o desafia. Inclusive, falou que ele quase não comparece nas
reuniões semanais do Clube da Luta, porém, quando ele vai, ninguém tem
coragem de desafiá-lo, e ele também não desafia ninguém. Só observa as
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lutas.
— É claro que as pessoas não vão querer lutar com alguém que elas não
tenham a mínima chance de ganhar — refletiu.
— Verdade.
Desliguei o chuveiro, enrolando a toalha em minha cintura e indo até a ala
dos armários, pegando minha roupas e começando a vestir. Não tive muita
noção do que exatamente eles estavam falando, mas não dei muita atenção
também porque não parecia ser boa coisa.
O que quer que fosse, parecia ser encrenca, então, eu não queria. Não
importava se fiquei curioso e intrigado com aquilo.
Aquilo não era da minha conta.
[...]
Eu sempre fui um bom garoto. De verdade.
Posso afirmar com convicção que nos meus vinte e um anos de vida fui a
personificação do tipo de filho que todo pai e toda mãe quer ter.
Eu tirava boas notas. Sempre ajudei em casa. Namorei garotos ambiciosos
e de boas famílias. Eu tinha uma boa relação com tudo e todos. Sempre
odiei causar problemas.
E o principal: nunca havia entrado numa briga.
Parece idiotice, mas para mim, sempre fora uma questão de princípios.
Durante a adolescência, era comum encontrar os garotos da minha idade
procurando formas de provarem sua masculinidade através de intrigas e
brigas sem motivo. Já eu, estava mais preocupado se minhas notas seriam
o suficiente para ingressar numa boa universidade, porque se tinha uma
coisa que eu queria fazer, era orgulhar os meus pais.
Ambos já tinham um orgulho imenso de mim. Sempre me apoiaram em
todas as minhas escolhas, e não me desprezaram quando contei sobre
minha homossexualidade. A preocupação deles se deu em questionarem se
eu seria capaz de suportar as pressões que se assumir um homossexual na
sociedade traziam.
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Em retorno por terem me aceitado como eu era, decidi nunca os
desapontar. Ganhei medalhas no colégio, fui eleito aluno-destaque, obtive
prêmios e ingressei na bem-conceituada Arizona State University, a
melhor universidade pública dos Estados Unidos da América. Sendo filho
de um casal de imigrantes coreanos, com minhas notas exemplares e tudo
mais, fui capaz de obter uma bolsa de estudos para integrar o time de
futebol americano da universidade, os Sun Devils.
Eu era praticamente o filho perfeito.
O orgulho de ambos para com as minhas conquistas era mais do que
suficiente para mim, afinal, meus progenitores me incentivavam mais do
que tudo. E eu procurava continuar sendo esse tipo de filho.
Independentemente do que falassem ou reclamassem, exatamente como
meu melhor amigo fazia nesse exato momento.
— Por favor, Jeon!
Seu olhar pidão quase me fez ficar com pena. Quase. Ao invés disso,
simplesmente ignorei e tornei a fitar os livros abertos em minha frente.
— Ryan, não! — Meu tom de voz era irredutível, mas ele não se importou
e continuou falando em meu ouvido.
— Fala sério! — Protestou —, você é o melhor amigo mais careta que eu
poderia ter arranjado.
— Só posso lamentar — respondi.
— Minha própria namorada já me disse que nós dois somos os garotos
mais caretas que ela já conheceu! — Bufou, passando a mão pelos cabelos
louros.
— Então, por que ela te namora mesmo?
Ryan grunhiu irritado e eu me limitei a dar de ombros sem me incomodar
de desviar os olhos dos meus livros. Eu tinha uma redação para entregar na
segunda-feira e estava aproveitando aquela milagrosa tarde livre de sexta
para acabar com as pendências e ficar livre durante o fim de semana, afinal
de contas, eu tinha algumas séries para maratonar. Esses eram os meus
planos.
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— Vamos, Jeon! Por favor! Só hoje! Só uma vez! — Implorou, sentando
na cadeira vaga ao meu lado —, eu realmente não queria ir sozinho. Miles
me falou disso a semana toda e pediu que eu mantivesse o segredo e
fizesse uma visita hoje!
— Ryan... — revirei os olhos.
— Você tem tanto músculo para quê? Só para jogar futebol? Do que
adianta tudo isso se você nunca deu uns socos em alguém?
Meu melhor amigo devia ser um louco ou algo do tipo.
— Dar socos em alguém? Para o que exatamente você está me chamando
mesmo? — O encarei, arqueando uma sobrancelha.
— Eu já falei, um encontro que acontece no porão da universidade
semanalmente.
— Seja mais específico. Que encontro é esse? — Exigi.
Hesitou por alguns segundos antes de finalmente me responder:
— É uma espécie de clube de luta onde homens da faculdade de reúnem
para lutarem entre si, e é muito legal! Miles me garantiu! — Seu olhar era
apreensivo.
Era só o que me faltava mesmo. Ele estava falando daquele Clube da Luta
que meus colegas de time citaram durante o banho? Aquele Clube da Luta?
— Clube de luta? Essa coisa nem deve ser legal ou autorizada pela
universidade — comentei carrancudo, tendo certeza de que não era legal e
muito menos autorizado — e nem pensar! Você está maluco? Você me
conhece há anos já, e sabe muito bem que eu sou a pessoa mais pacífica
que existe, eu nunca me meteria numa briga. Qual é o sentido de brigar
assim?
Bufando audivelmente, Ryan me fuzilou com seus olhos azuis e dando-se
por vencido, levantou da cadeira, apanhando a mochila.
— Muito bem, então, Jeongguk. Já entendi, você adora ter uma vida
medíocre e sem graça, mas eu não — apanhou a mochila e a jogou nas
costas —, espero que a sua existência monótona seja tão satisfatória
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quanto você faz parecer ser.
Quando ouvi aquilo, não dei muita importância, afinal, Ryan estava sendo
apenas tão exagerado quanto sempre. Mas horas mais tarde, enquanto eu
caminhava de volta para meu quarto no dormitório disponível da ASU, um
pensamento começou a perturbar a minha paz de espírito. Será que a
minha vida era tão medíocre e sem graça assim?
Claro, na minha cabeça, não era tão ruim. Eu tinha os treinos, os jogos, os
estudos, às vezes saía para tomar uma cerveja com o pessoal, e bem
raramente, dava uns beijos. No entanto, nem isso eu tinha mais. Fazia
meses desde a última vez que eu transei (fora no meu segundo e último
relacionamento porque eu definitivamente odeio a ideia de casos de uma
noite só. Eu certamente nunca fiz e nunca farei uma coisa dessas), tendo
apenas meus dedos, um lubrificante e um vibrador como companhia nos
meus piores momentos de solidão.
Essa situação não me incomodava verdadeiramente, mas me fez questionar
se a minha vida era tão sem sal e parada assim. Vejo muitas pessoas
falando que gostariam de terem histórias legais para contarem aos netos
quando forem mais velhos, e eu sempre quis adotar, então, se eu chegasse
a ter netos o que eu teria de legal para contar?
Assim, claro que ir num clube de luta onde homens se batem sem motivo
não é lá o tipo de coisa que me anime muito, mas eu não preciso
necessariamente participar. Eu poderia ir observar, daí poderia contar para
quem quisesse ouvir que eu já fui num clube de luta. Fora Miles, o irmão
mais velho de Ryan, quem lhe contara sobre o tal clube, e desde que o
conheço, Miles é o homem mais tranquilo que já existiu. Então, esse tal
clube não deve ser tão ruim assim. Não deve ser o tipo de coisa que tiraria
o meu título de filho exemplar.
Mas, mesmo assim, não era motivo suficiente para me convencer a sair da
minha zona de conforto. Eu não iria e ponto.
[...]
Ryan: Jeon, vamos comigo! Por favor! :(
Você: Eu achei que a gente tinha chegado na conclusão inevitável de que
eu não iria.
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Ryan: Por favor, caramba! Você sabe que eu sou insistente! Eu não quero
ir sozinho!
Você: Ryan, eu não vou para um lugar onde as pessoas simplesmente
acham legal se bater.
Ryan: Não é que eles acham legal se bater. É bom para extravasar!
Você: Eu não quero extravasar nada não.
Ryan: Por favor, Jeon! Eu faço o que você quiser!
Você: O quê? lol
Ryan: Eu faço o que você quiser, só vai comigo! Você não precisa lutar, só
vai para me fazer companhia.
Você: Estou vendo que você não vai me dar paz mesmo, não é?
Ryan: Vamos, porra! Não custa nada!
Você: Certo, certo, eu vou. Mas você vai ter que pagar meu café por um
mês.
Ryan: Você está maluco?
Você: Ou é isso, ou nada. Você está me coagindo a fazer algo que eu
nunca faria em sã consciência por causa da nossa amizade. Acho isso
justo.
Ryan: E você está me chantageando!
Você: Vai aceitar ou não?
Ryan: Certo, certo. Eu aceito, caralho. Mas você vai ter que mostrar seu
melhor sorriso a noite toda.
[...]
Ryan e eu adentramos o que parecia ser um porão velho e acabado abaixo
do prédio da Escola de Música do Instituto Herberger para Design e Artes
da universidade já passada a meia noite naquela mesma sexta-feira. A
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porta de madeira de entrada ficava numa parede escura, camuflada, e ao
ser aberta, um lance de escadas de concreto aparecia. Descemos as escadas
até alcançarmos uma porta corta-fogo vermelha e enferrujada no fim da
linha. Dando-me um sorriso encorajador, Ryan abriu a porta e a mesma
rangeu sobre o chão, riscando o piso. Eu apenas revirei os olhos, pensando
seriamente se foi sensato ter ido. Eu poderia estar fazendo tanta coisa mais
produtiva agora.
Dezenas de vozes masculinas altas e estridentes encheram meus ouvidos
ao fecharmos a porta e eu arregalei os olhos ao ver muitos homens
reunidos no centro daquele local. Parecia uma roda punk. Era um porão
gigantesco e mal iluminado com algumas lâmpadas quebradas, e as que
faziam o serviço liberavam uma luz fluorescente fraca e branca. Quatro
pilastras de concreto sustentavam o teto, formando um quadrado perfeito
no centro do porão, e os homens presentes ali faziam um círculo perfeito
entre as pilastras.
Nos aproximando do círculo em passos vacilantes, ou melhor, eu
caminhava vacilante, pois Ryan não tirava o sorriso da cara, parecendo
estupidamente feliz e animado só por estar ali. Era muita gente, então não
conseguimos ter uma visão exata de quem estava ali, todos conversando
entre si, mas vimos que dois homens estavam no centro do círculo
discutindo alguma coisa. Um deles era muito alto, tinha os cabelos louros e
usava roupas sociais, sem o blazer do terno, e o outro tinha cabelos cor-de-
rosa e usava roupas casuais em um tom sóbrio de cinza.
O mais alto levantou um braço, chamando a atenção de todos ao redor, e
automaticamente toda a conversa e falação se findou.
— Estou vendo um bocado de rostos desconhecidos aqui nesta noite —
afirmou, estalando a língua e encarando a todos com um olhar ameaçador.
Aquilo me fez querer sair correndo dali na hora, do quão intimidado me
senti só por aquilo, mas Ryan nem notou, simplesmente me puxou pelo
braço para nos espremermos entre os homens do círculo e ficarmos mais
na frente. Algo dentro da minha cabeça me dizia para cair fora, pois iria
dar merda.
— O que significa que alguns de vocês quebraram a primeira regra e a
segunda regra do Clube da Luta — repreendeu, sua voz grossa soando pelo
porão num tom áspero e severo.
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Um silêncio mortal se fez no ambiente e nem as respirações eram ouvidas
mais.
— Caso não se lembrem, eu lhes direi qual são as regras aqui, já que as
maricas aqui parecem não terem entendido — deu um sorrisinho cínico,
levantando o dedão no alto —, primeira regra, vocês não devem falar sobre
o Clube da Luta — passou o olhar por todos ao redor, em seguida,
levantou o indicador —, segunda regra, vocês não devem falar sobre o
Clube da Luta. Será que fui claro, porra?
Os homens ao redor assentiram, fitei Ryan ao meu lado. Mesmo com toda
aquela bronca, ele continuava a sorrir feito um maníaco. Por que ele
precisava de mim mesmo?
— Deixando claro aqui, caso vocês tenham esquecido — começou a ditar
as outras regras, levantando um dedo em suas duas mãos até acabar —,
terceira regra, se alguém gritar "pare", começar a mancar, dar duas batidas
no chão, a luta acaba. Quarta regra, apenas dois caras por luta. Quinta
regra, uma luta de cada vez. Sexta regra, nada de camisas, nada de sapatos.
Sétima regra: as lutas durarão o tempo que elas tiverem de durar. E oitava
e última regra, se essa é a sua primeira vez no Clube da Luta, você deve
lutar!
Os homens ao redor gritaram em entusiasmo e a falação começou mais
uma vez. Arregalei os olhos, pronto para avisar meu amigo que esse não
era o tipo de coisa que eu imaginava participar. Fui tomado por uma
vontade de sair correndo, e até tentei vazar dali, espremendo-me com força
entre aquele monte de homem, mas fui impedido quando um rapaz baixo
de ascendência asiática assim como eu, cabelos de um tom azul-piscina, e
olhar rabugento olhou fixamente para mim. Ele estava ao meu lado e
parecia querer sugar minha alma com os olhos.
Sem a mínima piedade, me empurrou até o centro do círculo e apontou
para mim.
— Ele é novo! É a primeira vez dele aqui! — Berrou para quem quisesse
ouvir, e eu literalmente quase me caguei. O que houve com a coisa de
"você não precisa lutar"? Mas que merda!
— Jeongguk...! — Ryan gritou alguma coisa, mas não fui capaz de ouvi-lo
já que ele foi "engolido" pela multidão de homens ao redor do círculo e
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sumiu de vista.
Prendi a respiração, olhando ao meu redor conversarem entre enquanto me
analisavam dos pés à cabeça. Eu não queria isso, eu não queria lutar. Eu só
queria sair daqui, que merda! Até que meus planos foram frustrados...
— Eu quero lutar contra ele — uma voz grave soou em alto e bom som
atrás do homem de terno e mais uma vez, houve silêncio.
Abriram espaço no círculo e foi aí que eu vi. Um rapaz da minha faixa
etária estava encostado contra uma das pilastras com os braços cruzados,
do lado de fora do círculo. Devagar, ele descruzou os braços e caminhou
para dentro do círculo, parando em minha frente, não exatamente perto de
mim. Todos pareceram chocados e alternavam os olhares entre eu e ele.
— Tem certeza, Taehyung? — O homem dos cabelos róseos perguntou.
O rapaz que dissera querer lutar comigo tinha os cabelos cor de fogo, de
um vermelho vivo. Ele usava uma bandana preta em meio a cabeleira
ruiva, trajava uma camiseta branca, uma jaqueta de couro preta, jeans
surrados e botas de combate negras. Eu não podia negar, apesar dos
pesares, que ele era bonito para caralho, porque isso, ele claramente era. E
ainda chupava um maldito pirulito. Seu olhar estava cravado em mim.
— Nunca tive tanta certeza de uma coisa na minha vida — afirmou com
um sotaque forte demais, e eu me dei conta de que ele era não era daqui,
não era americano. Um estrangeiro de não sei lá aonde.
Mais gritos rugiram ao redor quando ele afirmara aquilo com tanta
convicção e eu só consegui identificar uma voz grave soando atrás de
mim:
— Você está tão fodido, garoto.
Senti como se fosse uma ameaça e não um aviso e meus joelhos tremeram.
Puta merda, no que eu fui me meter?
O homem dos cabelos vermelhos deu um passo à frente e instintivamente
recuei um passo. Ele abriu um sorrisinho cretino, ainda chupando aquele
maldito pirulito.
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— Vai fugir feito um franguinho assustado? — Perguntou, sua voz grave e
seu sotaque diferente causando-me arrepios indesejados.
E aquilo fora o fim para mim. Ele dissera simplesmente as palavras certas,
porque, infelizmente, meu maldito orgulho me impediu de cair fora daqui,
exatamente como os meus instintos gritavam para eu fazer. Eu não era um
franguinho assustado. Quem ele pensava que era para me chamar assim?
O ruivo descalçou as botas que usava, jogando-as para longe, retirou a
jaqueta de couro, seguida da camiseta branca que usava sob. Eu não
queria, eu juro que não queria, mas foi inevitável não encarar seu físico e
engoli em seco. Não bastava ele ser bonito e ter aquela áurea sexy ao redor
de si, o canalha ainda tinha tatuagens espalhadas pelo pescoço, peito e
braços. Eu estava prestes a lutar contra a encarnação de Adônis bem na
minha frente e isso me deixou triste, sério.
— As roupas, garoto! Tire os sapatos, o casaco e a camiseta! —
Ordenaram para mim, e desajeitadamente, o fiz.
Chutei meu par de tênis para fora do círculo, e tremendo, retirei meu
casaco e camiseta. Tornando a encarar o homem dos cabelos vermelhos,
percebi que ele havia se livrado do pirulito e me encarava com uma
expressão divertida. Eu não sabia exatamente o que tinha de fazer, então,
resolvi esperar ele começar.
Mas, ele não fez nada. Apenas ficou parado me fitando até que soltou uma
risada audível.
— Vamos, garoto. Me ataque — encorajou —, venha com tudo e me dê
um soco.
Incerto, resolvi fazer o que ele mandara e dando alguns passos à frente,
ergui os punhos exatamente como tinha visto nos filmes e investi o punho
esquerdo contra seu rosto, desequilibrando meu corpo para frente de forma
nada elegante quando o cara desviou da minha tentativa.
Risadas foram ouvidas ao nosso redor e quando me virei para encara-lo
novamente, vi que ele ria também. Aquele desgraçado estava caçoando de
mim.
Mais determinado a meter-lhe um soco, corri em sua direção e ergui o
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braço novamente, apenas para ele tornar a desviar com um passo para o
lado e eu tropeçar no meu próprio pé, caindo de joelhos no chão. As
malditas risadas ficaram ainda mais altas, e eu senti meu orgulho sendo
estraçalhado.
— É isso que você chama de "vir com tudo"? Tsc, tsc — fingiu
desapontamento —, esperava mais de alguém que joga como center no
time do Sun Devils.
Ele sabia quem eu era? Não era como se eu fosse extremamente conhecido
ali só por jogar no time, isso não acontecia. Levantei do chão rapidamente
e foquei no rosto daquele homem, analisando-o minuciosamente. Eu não
sabia quem ele era e isso me irritou.
Sem pensar duas vezes, fui até meu combatente com uma raiva palpável
nos olhos e tentei meter uma joelhada em seu estômago, mas ele segurou
meu joelho com uma mão, e acertou um gancho certeiro em meu queixo,
fazendo-me ficar atordoado. Não contente, o ruivo me deu um rasteira e eu
caí de barriga no chão frio, grunhindo de dor. Meus ouvidos zumbiam
graças ao soco que tomei que tomei, minha cabeça estava pesada e eu
meus sentidos falharem. Os homens ao redor gritavam, mas não consegui
prestar atenção naquilo, não quando meus dois braços foram segurados
com força para trás, e eu senti um corpo debruçando-se sobre o meu.
A respiração quente dele bateu contra minha orelha e eu pude ouvi-lo
dando uma risadinha.
— Volte quando aprender a dar um soco, garoto — sussurrou debochado.
Largando meus braços, ele se levantou e se afastou, dando a visão de suas
costas tatuadas. E mesmo naquele estado de torpor, senti meu sangue
ferver. Ele não podia simplesmente sair assim como se ele fosse o rei do
mundo. Não podia me humilhar dessa forma. Eu não iria deixar!
Com dificuldade, ignorando a dor terrível de meu queixo e os zumbidos
em meu ouvido, caminhei a passos decididos em sua direção, tentando
pega-lo por trás.
— Seu babaca! — Rosnei.
Mas incrivelmente (ou não), ele desviou de meu soco estando de costas
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para mim, agarrou o meu braço com uma destreza impressionante e o
torceu com força contra as minhas costas, prensando meu corpo contra a
pilastra de concreto mais próxima que havia ali. O peito dele grudou nas
minhas costas e mais uma vez, ele aproximou os lábios de minha orelha.
— Não posso dizer que não estou me divertindo com toda essa situação,
ou que eu não estou gostando de te prender contra a pilastra assim. Mas,
você precisa saber de algumas coisas, Jeongguk — arregalei os olhos,
mesmo com meu rosto pressionado. Ele realmente sabia quem eu era —,
primeira regra de combate, não ataque com raiva, isso só fará com que
você perca mais rápido. Segunda regra, nunca baixe guarda, oponentes
idiotas podem tentar se atacar por trás — debochou —, terceira e mais
importante regra, aprenda a discernir quando você está acabado. E nesse
exato momento, você está acabado, garoto.
Afastando-se de mim numa velocidade incrível, ele caminhou em direção
às suas roupas e sapatos, apanhando-os do chão enquanto ignorava os
gritos e cumprimentos dos homens ao redor, entusiasmados. E antes de
sair do porão, retirou um pirulito avermelhado de dentro do bolso da
jaqueta, jogando-o na boca, e antes de se encaminhar até a porta corta-fogo
da saída, olhou para mim com um sorriso cretino e deu uma piscadela.
[...]
ATENÇÃO: EU FIZ UMA ÚNICA VENDA DESSA FIC EM VERSÃO DO
LIVRO ORIGINAL NO COMEÇO DE 2021. NÃO DIVULGUEI MUITO
PORQUE PLANEJAVA SER UMA COISA PEQUENA PRA QUEM
QUISESSE, E COMO NÃO CHEGUEI A RECEBER PROPOSTAS DE
PUBLICAÇÃO, ESTAREI POSTANDO A VERSÃO DO LIVRO NO SITE
NO STARMOON PRA QUEM QUISER ACOMPANHAR ♡ SERÁ UM
CAPÍTULO A CADA DUAS SEMANAS, OKAY? O LINK ESTÁ NO
MURAL DE RECADOS DO MEU WATTPAD! ♡
beijinhos ♡
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Capítulo 2 - Epic
Horas mais tarde, eu me encontrava deitado sobre minha cama com uma
carranca assustadora estampada na face e uma bolsa de gelo firmemente
apertada contra meu queixo. Afinal, quando toda a adrenalina passou, senti
os resultados que aquela luta patética deixou em meu corpo.
Aquele fim de semana mal começou e já estava sendo um verdadeiro
inferno para mim.
Era oficial. Eu odiava aquele garoto. Aquele maldito garoto dos cabelos
vermelhos, sorriso provocador, corpo bonito e tatuado. Mas que merda,
por que diabos eu estava pensando no corpo dele?
Assim, ele podia ser feio, barrigudo, desdentado ou fedido, mas não! O
filho da puta tinha que ser extremamente atraente e ainda cheirar bem! Ele
cheirava bem! Eu não sei por que eu prestei atenção no cheiro dele! Eu não
tinha a mínima ideia do porquê o cheiro daquele desgraçado ser tão bom.
Naquele momento, Ryan, seu irmão mais velho, Miles, e Lisa, a namorada
tailandesa de meu melhor amigo, se encontravam presentes em meu quarto
de dormitório. Os olhares de pena que os três mandavam para mim me
faziam querer saltar da janela. Já não bastasse a aura assassina que me
rondava desde que Ryan apanhou minhas roupas do chão, e me
acompanhando, saiu do porão junto de mim murmurando vários pedidos
de desculpas. Ninguém reclamou que ele não havia lutado, até porque os
homens lá estavam mais concentrados em rir da minha cara do que lembrar
desse detalhe.
Abandonei aquele maldito lugar minutos depois daquele ruivo abusado
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piscar para mim e sair de lá. Ruivo-Asiático-Filho-Da-Puta. Seria dessa
forma que eu iria me referir a ele, até porque não tinha nome melhor em
minha cabeça. E também, a raiva que me consumia me fazia querer saber
quem ele era. Não devia ser muito difícil encontrar um rapaz vestido como
um bad boy encrenqueiro, com aquele corpo tatuado e os cabelos do tom
vermelho vivo. Sem contar sua ascendência asiática. Ah! E claro: o
sotaque.
O inglês dele era perfeito, não ouvi um erro sequer em suas palavras. Mas,
aquela voz grave e profunda possuía um sotaque fortíssimo, o que devia,
talvez, facilitar ainda mais minha busca. Não acredito que deva ser normal
encontrar um estrangeiro com uma aparência, sotaque e voz parecidos com
ele.
— Jeongguk, me desculpa mesmo por ter te levado lá, cara — Ryan
lamentou pelo o que pareceu ser a milésima vez, passando as mãos pelos
cabelos louros —, achei que era tranquilo, que a gente só ia se divertir um
pouquinho. Não devia ter escutado Miles.
Seu irmão mais velho o fuzilou com os olhos.
Ambos eram a cópia um do outro fisicamente. Todos achavam espantosa a
semelhança dos irmãos Carmichael. Partilhavam os cabelos louro-claros e
curtos, os olhos azuis e altura mediana, embora Ryan fosse mais alto. Eu
conheci meu melhor amigo há dois anos atrás quando entrei na
universidade, afinal, ele era meu colega de quarto, no entanto, no início
daquele ano, o mesmo começou a dividir um apartamento junto do irmão
aos arredores do campus Tempe da ASU, nossa universidade, quando
conseguira um trabalho de meio período numa editora de livros infantis.
Como resultado, acabei ficando com o quarto somente para mim.
Eu tinha uma ótima relação com Miles, o irmão mais velho de Ryan, que
me tratava como um irmão mais novo. Só era chato quando ele insistia que
eu devia fazer mais amigos, afinal, eu perdi contato com meus antigos
amigos do Ensino Médio (uma vez que todos me lembravam de meus dois
relacionamentos de longa data e eu queria manter distância de tudo o que
pudesse me remeter aos meus dois ex-namorados. No entanto, hoje em dia,
vejo como fui um extremo idiota por ter feito isso. Ser imaturo demais me
fez cometer burradas como essa), e também vivia dizendo que eu era
"melancólico" demais como resultado de estar tanto tempo sem transar.
Geralmente, eu apenas o mandava ir "se foder" quando ele falava isso, e o
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idiota respondia com um "já fodi alguém essa semana. E você? "
Já Lalisa Manoban, ou apenas Lisa, a tailandesa loura, namorava Ryan há
menos de um ano. Ela viera da Tailândia para estudar Dança, e acabou por
conhecer Ryan quando o mesmo recepcionava os estudantes
intercambistas do curso de Música do Instituto Herberger para Design e
Artes. Embora Miles fosse um veterano do curso de Planejamento Urbano,
Lisa fosse da minha idade (vinte e um), e Ryan fosse um ano mais velho
do que nós dois, todos nos dávamos muito bem. Éramos um grupo até
legal, ou ao menos eu achava.
— Agora a culpa é minha? — Indagou Miles, indignado —, como que eu
ia prever que ia dar merda? Sem contar que eu não estava lá ontem à noite,
como eu ia impedir qualquer coisa?
— Como se fosse possível impedir — Ryan bufou —, existe uma regra
secreta naquele maldito clube onde diz que você pode recusar uma luta?
Pelo que eu saiba, você é obrigado a lutar na primeira noite.
— Ainda assim, você não lutou — Lisa observou, sentada no chão, sem se
incomodar de fitar nenhum dos dois, os olhos fixos nas unhas dos pés,
enquanto as pintava de rosa.
— Amor, eu tive que ajudar o Jeongguk — protestou meu amigo, fazendo
um bico. Ele estava sentado na cadeira de minha escrivaninha, seu irmão
encontrava-se em pé, encostado contra uma parede com as mãos nos
bolsos de sua calça jeans.
— Que desculpa de merda, Ryan — Miles riu, —, aliás, me digam uma
coisa. Como exatamente era o cara que desafiou o Jeongguk? Geralmente,
quem desafia os novatos são os membros mais antigos, como os amigos de
Namjoon, o líder do Clube da Luta.
O mais novo dos irmãos apoiou o queixo sobre o punho, pensativo.
— Ele era mais ou menos da altura do Guk. Asiático. Cabelos tingidos de
vermelho e acho que ele tinha algumas tatuagens...
— Não eram algumas, Ryan — respondi, entredentes, sentindo uma dor
terrível passar por meu maxilar —, o corpo dele era todo tatuado.
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Miles ficou calado por um tempo, absorvendo as informações que
havíamos lhe dado, até que, de repente, seus olhos se arregalaram de uma
maneira muito cômica.
— Esperem aí... — pigarreou —, essa descrição física... não, não pode ser.
Ele quase nunca vai!
— Do que você está falando? — Questionou Ryan, tão confuso quanto eu.
— Namjoon, o líder, fundou o Clube da Luta no início deste ano e já ouvi
falar que esse cara ruivo era um dos que ajudaram a fundar, mas que ele
raramente dá as caras porque seria injusto — Miles me encarou —, será
que você teve o azar de ir justamente numa dessas raras visitas dele?
— O que você quer dizer com "seria injusto"? — Arqueei uma
sobrancelha.
Em resposta, o irmão de meu amigo sorriu.
— Porque diziam que ele nunca perdeu uma luta, Jeongguk. Desde a
fundação do Clube da Luta, ele nunca perdeu — concluiu —, ele era
imbatível, e todos que o desafiaram perderam, todos, sem exceção. Os
boatos que correm são de que ele era parte de uma organização de ninjas
assassinos.
— Ninjas? Ninjas são do Japão, então, ele seria japonês? — Ponderei.
— Você não está acreditando nisso, não é, Jeongguk? — Ryan revirou os
olhos.
Dei de ombros.
— Não importa. Eu só quero saber quem é aquele desgraçado — afirmei,
convicto.
Miles, Ryan e Lisa me observaram na mesma hora como se estivessem
analisando minuciosamente o que falei.
— Você está maluco? — Ryan indagou —, para que você quer saber quem
ele é? O que isso vai agregar na sua vida?
— Não é uma questão de agregar algo em minha vida —, retruquei —, ele
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sabia quem eu era! Ele me conhecia!
Fechando o vidro de esmalte cor-de-rosa, Lisa soltou uma risada
anasalada.
— Não é muito difícil te conhecer não, seu pateta — apontou —, você
joga no time! Lembra? Futebol americano. Sun Devils. Claro que ele iria
te conhecer.
— Eu não sou lá tão popular assim! E era diferente — insisti —, a forma
como ele me olhava, como ele falou comigo. Eu quero saber quem é
aquele cara e quem ele pensa que é.
— Você não consegue lembrar o nome dele? — Miles perguntou —, eu já
ouvi o pessoal falar algumas vezes, mas é nome estrangeiro, então não
consegui decorar. O seu mesmo eu demorei mais de cinco meses para
decorar.
Isso era verdade. Por algum motivo, Miles Carmichael era totalmente
incapaz de lembrar e pronunciar nomes estrangeiros. Ele tinha uma
dificuldade fora do comum. Não que eu ligasse muito, já que no início ele
me chamava apenas por meu sobrenome, Jeon, que se assemelhava ao
nome "John" em inglês, portanto, era mais fácil de se recordar.
— Falaram o nome dele, mas não consigo lembrar — comentei.
— Não sei porque você está interessado em saber quem é aquele cara.
Você estava acabado, Guk — Ryan afirmou —, eu no seu lugar, não
provocaria um segundo confronto.
— Ele trapaceou! — Exclamei, ignorando a pontada de dor que minha
ação causou em meu queixo —, a regra era que a luta só devia acabar caso
eu gritasse para parar, batesse no chão ou mancasse e nada disso aconteceu
— reclamei, emburrado.
— Acho que para todos estava muito claro que aquela luta tinha acabado,
Jeongguk — revirou os olhos novamente.
— Também, preciso admitir que acima de tudo, estou surpreso —
comentou Miles —, aquele cara não desafia ninguém, eu nunca o vi
desafiar alguém. E ninguém ali o desafia também. É bem raro ele ir, e
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acontece que Jeongguk foi azarado o suficiente pegá-lo numa noite em que
ele foi.
Pode ter sido azar eu ter ido na mesma noite, mas não foi azar eu ter sido
escolhido por ele, minha luta com ele. Não houve azar algum ali, houve
um propósito, e provavelmente foi da parte daquele babaca. Ele não estava
lutando para valer comigo, para começar. Ele estava caçoando de mim,
estava tirando uma com a minha cara. Fez um comentário sobre eu ser o
center do time de futebol americano, sussurrou meu nome ao pé de meu
ouvido, me humilhou na frente de todos.
Ele sabia muito bem quem eu era, aquele maldito sorrisinho, toda sua
linguagem corporal debochada deixava isso claro. E eu precisava saber
quem ele era e qual era o problema dele comigo, o que diabos eu havia
feito para ele agir assim.
— Não foi azar, gente. Garanto para vocês — devagar, sentei-me sobre a
cama — ele sabia quem eu era. Ele me desafiou justamente por saber
quem eu era.
Lisa fez uma careta.
— Está dizendo que o cara estava de marcação com você? Caramba, isso
não é nada legal.
— Sim, ele estava! E não importa quem ele seja — pedi —, vou treinar
duro durante essa semana. Eu quero acabar com ele.
Um silêncio mortal de instalou ali, três pares de olhos fixos em mim, até
que as figuras caíram na gargalhada, arrancando uma exclamação
indignada minha. Eles tinham que ficar do meu lado, e não tirarem sarro
com a minha cara, porra!
— Como você é engraçado — Miles disse, entre risos.
Cruzei os braços, exatamente como uma criança birrenta.
— Por quê? Aliás, por que vocês estão rindo?
Lisa e Ryan continuaram a rir.
— Ninguém vence aquele cara, Jeongguk. Qual parte disso você ainda não
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entendeu? — Continuou Miles, —, e acho que vale a pena eu te contar que
ele não costuma ir com frequência. Você só teve um azar desgraçado. É
provável que ele não apareça na próxima semana.
— Espera aí — Lisa interrompeu, parando de rir de repente — ah, minha
nossa, como eu sou burra! — Bateu na própria testa várias vezes.
— O que foi, amor? — Quis saber Ryan, controlando o riso.
— Agora que fui prestar atenção na descrição física que vocês fizeram do
cara — afirmou —, e se eu não estiver errada, o que creio que não seja o
caso, eu sei de quem vocês estão falando!
Interessado em ouvir mais, larguei a bolsa de gelo sobre a cama e
debrucei-me para mais perto de Lalisa.
— O nome dele é Kim Taehyung, Taehyung Kim. Alto, asiático, cabelos
vermelhos, pele tatuada — murmurou balançando a cabeça —, por acaso
ele tem a pele bronzeada, chupava um pirulito e tinha piercing na língua?
Na hora em que ouvi o "piercing na língua" minha alma praticamente quis
sair de meu corpo, mas eu me policiei para não demonstrar nenhuma
reação a isso. Até porque isso não significava nada. Só que o cara
ridiculamente gostoso que chutou o meu traseiro tinha um fodido piercing
na língua. Puta que me pariu. Não tive como notar isso quando paguei
mico e fui humilhado na frente de todos naquele maldito porão, mas,
agora, eu queria ver.
Jeongguk Jeon, você nunca foi do tipo que age assim por um rosto bonito,
se controle!
Se bem que aquele rosto bonito parecia estar dando em cima de mim. Ele
disse que não se importava em...será que estou ficando louco? Ah, que
saber? Foda-se essa merda, foda-se esse cara, e foda-se esse maldito
piercing na língua!
— Bom, sim, acho que sim, ele não parecia ser do tipo branco feito leite
igual o Jeongguk, e chupava um pirulito sim — respondeu Ryan, franzindo
a testa —, mas como você sabe que ele tem um piercing na língua?
Lisa fez um meneio com a mão.
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— Eu só beijei a sua boca desde que cheguei aos Estados Unidos, querido,
não há necessidade de ciúme — enfatizou —, ele é estudante de
intercâmbio da Coreia do Sul, Guk! Veio do país natal dos seus pais —
parecia animada —, eu creio que o vi no dia em que teve um encontrão
com os alunos intercambistas dos países asiáticos, e uau, Gukkie — me
fitou com os olhos brilhando —, você lutou contra aquele deus grego?
Puta merda, aquele cara é um gato! — Ryan protestou, mas ela ignorou e
continuou falando comigo —, ouvi que muitas meninas já quiseram sair
com ele, mas parece que ele curte a mesma fruta que eu e você. Se ele
estiver interessado em você, faria sentido.
Fiz bico.
— E por acaso ele escolheria lutar comigo e me trataria daquela forma
caso estivesse afim de mim? Fala sério, né, Lisa. É tudo, menos isso.
— E ele é muito inteligente, parece que estuda bioquímica ou algo assim.
Se as fofoqueiras não estiverem erradas, ele é dois anos mais velho do que
eu e você — deu um sorrisinho sapeca —, e aquela pose de cara mal dele é
totalmente merecida. Dizem que ele foi preso por matar um cara quando
ainda morava na Coreia, vendia órgãos para o mercado negro. Dizem que
ele arrancou todos os dentes e os substituiu por próteses para vendê-los em
troca de ouro. E sabe para o que ele usou o ouro? Para comprar um
bandana rara de uma lenda do rock que estava sendo leiloada. Também
falaram que ele trabalhava para a máfia e foi preso por correr pelado no
terreno da Casa Azul, a sede do governo central coreano.
— Lisa, é claro que isso é mentira — revirei os olhos.
— Não sei, não, hein. E se ele tiver preso mesmo? — Mordeu o lábio,
pensativa —, caramba, isso é tão sexy, você não acha? Ele é um
delinquente. Se estiver a fim de você, cai matando!
— Lalisa! — Ryan protestou, indignado —, eu sinceramente estou...
Ela levantou do chão e montou no colo de meu melhor amigo, beijando-o e
fazendo-o calar a boca.
— Ah, vão se foder vocês dois! — Exclamou Miles —, eu não sou
obrigado a ver esse pornô aqui. Lisa, você podia voltar a namorar aquela
garota da Austrália que você falou, Rosé o nome dela, não é? Podia ficar
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com ela e abandonar esse grande panaca! — Abriu a porta do quarto,
preparando-se para sair.
— Hey...! — Ryan tentou protestar entre beijos, mas sua namorada não
deixou.
— Espera aí, Miles — levantei-me da cama, calçando meu tênis
rapidamente —, eu vou com você. Não vou ficar aqui para assistir isso,
não!
[...]
Na segunda-feira esgueirei-me para dentro do prédio da Faculdade de
Artes Liberais e Ciências da ASU. Meu traje consistia em uma camiseta de
mangas longas, calça jeans, tênis, touca e óculos escuros. Todo meu
vestuário era na cor preta, pois o plano era passar despercebido (ou ao
menos tentar).
Objetivo: identificar o tal do Kim Taehyung, ou Taehyung Kim. Ah, foda-
se. Ele pode ser da Coreia, mas está nos Estados Unidos, e aqui o sistema é
"nomes primeiro, sobrenomes depois".
Vi alunos indo e vindo, e me sentindo uma espécie de James Bond, passei
por todos e fui até o mural conferir o número das salas onde ficavam as
turmas do curso de bioquímica. Que Lisa esteja certa disso, senão, eu juro
que iria arrancar a cabeça dela fora!
— Se está procurando meu horário de aula — pulei de susto ao avistar o
desgraçado do Ruivo-Asiático-Filho-Da-Puta encostado na parede ao meu
lado com um sorrisinho de canto estampado nos lábios e aquele maldito
pirulito —, bastava me perguntar.
Agradeci mentalmente por estar usando óculos escuros, pois assim, pude
encarar sua figura. Ele usava apenas uma camiseta preta, jeans azul e as
botas de combate. Seus braços descobertos exibiam suas tatuagens que
cobriam até suas mãos e escapuliam para o pescoço. A bandana da vez era
azul. Por que ele tinha que ser tão bonito? Por quê?
— Eu não estava procurando seu horário de aula — protestei.
— E existe mais alguém que você conheça que estude bioquímica? — Seu
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sorriso aumentou —, você é da Ciência da Computação, então, não deveria
estar aqui.
Eu sei que não deveria, mas aquela voz do cão com aquele sotaque mexia
comigo. Filho da puta. Eu odeio esse cara.
— E se eu conhecer? — Cruzei os braços —, não é como se fosse da sua
conta! E aliás, como você sabe que eu faço Ciência da Computação?
Deu de ombros.
— Não é tão difícil saber coisas sobre você — disse como se fosse óbvio
—¸ por que você está usando óculos escuros aqui dentro? Está com alguma
doença ocular?
Xinguei-me mentalmente por estar usando óculos escuros, pois assim, eu
tinha dado uma chance de ele caçoar de mim. Arranquei os óculos da cara
e tirei a touca, bagunçando meus cabelos negros.
— Dá próxima vez que tentar passar despercebido, faça melhor do que
isso — debochou, sorriso zombeteiramente e dando meia volta para sair
dali.
Ah, mas esse desgraçado não ia sair por cima assim como se fosse o fodão.
Não dessa vez, porque eu não ia deixar.
— Espera aí! — Chamei sua atenção, — eu preciso falar com você. E
precisa ser agora!
— Tenho coisas melhores para fazer — afirmou.
Aquilo ferveu meu sangue.
— Eu não estou nem aí! — Exclamei —, você vai me ouvir querendo ou
não.
Tirando o pirulito da boca, ele lambeu os lábios e se aproximou de mim,
parando a poucos metros de meu corpo.
— Se você está querendo que eu chute seu traseiro de novo, é só falar —
deu um sorriso cretino —, mas não quero ver você passando vergonha na
frente de todas essas pessoas.
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Fez um gesto com a cabeça, indicando que eu devia segui-lo, e assim o fiz.
Pensei que ele nos guiaria até algum lugar afastado, mas apenas saímos do
prédio e ficamos bem ao lado, próximo à parede. O Ruivo-Asiático-Filho-
Da-Puta jogou o pirulito para dentro da boca mais uma vez e cruzou os
braços, fazendo com que seus braços e suas tatuagens ficassem ali,
expostas bem na minha cara!
Ignorando isso, resolvi começar logo de uma vez.
— Você é Taehyung, não? Olha, eu não te conheço, e não vou dizer que
não faço questão de conhecer, porque não sou assim — o sorrisinho
diminuiu, e agora, ele me observava com olhos atentos —, tenho uma
pequena noção de onde você veio, o que estuda, mas não gosto de ser feito
de idiota —, olhei em seus olhos, sério —, então, por favor, vamos lá.
Quem é você e porque quis lutar comigo e me humilhar? O que você tem
contra mim?
A resposta saiu de imediato:
— Eu não estava te humilhando, e não tenho nada contra você. Eu sequer
te conheço!
— Você está mentindo — acusei —, a forma como você me olhou, as
coisas que você me disse. Você sabia muito bem quem eu era, e foi
justamente por isso que você se candidatou a lutar comigo!
— Suponho que você descobriu quem era, qual era o meu nome através de
outras pessoas, não é? Pois bem, nem por isso você quer lutar comigo ou
tem algo contra mim, certo? — O sorriso voltou.
— Errado! — Retruquei na mesma hora —, eu definitivamente tenho algo
contra você, pois o que você fez não foi correto.
— E eu estou me importando muito com isso por...? — Debochou.
— Vai se foder! — Soltei, com raiva.
— Ouch — fez uma careta teatral —, nunca pensei que o filho exemplar
pudesse xingar. Jurei que sua língua era presa.
Arregalando os olhos, espalmei minhas duas mãos sobre seus ombros e o
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encurralei contra a parede. Como diabos ele podia saber que eu tinha essa
coisa de ser o filho exemplar? (Se bem que quebrei isso muito bem
naquele dia no Clube da Luta, e ainda o estou quebrando nesse exato
momento. O filho exemplar não xinga e nem se mete em confusão).
— Quem é você? — Meu tom diminuiu consideravelmente.
A respiração quente dele batia contra minha bochecha e causava pequenos
arrepios em mim sem meu consentimento. Ele causava algum maldito
efeito em mim, e eu não era capaz de conter isso. O que me deixava com
raiva.
— Eu não sou ninguém, Jeonggukkie — respondeu com a voz tão baixa
quanto a minha.
Balancei a cabeça, desacreditado.
— Anote minhas palavras, Taehyung: eu vou acabar com você. Nós vamos
lutar de novo, e eu não vou perder! — Afirmei —, não importa quem você
seja ou deixou de ser. O que aconteceu na sexta-feira terá troco.
Tirando o pirulito de dentro de sua boca, ele abriu um sorriso gigantesco,
daquele que mostrava todos os dentes, exibindo o formato de coração de
seus lábios superiores.
— Mal posso esperar por isso, então.
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Capítulo 3 - Vertigo
Estávamos em setembro, ou seja, o primeiro jogo da temporada estava
próximo. Eu jogava como center do Sun Devils, o que basicamente me
fazia ser parte da linha ofensiva do nosso time. Os treinos já haviam
começado, e o técnico Richards estava determinado a nos levar à vitória do
NCAA* naquele ano, exigindo o dobro, o triplo da nossa dedicação. Não
que eu reclamasse, de qualquer forma. Sempre me esforcei para provar
minha capacidade e garantir que minha orientação sexual não influenciava
em nada quando se tratava das minhas habilidades como estudante e
jogador. Além disso, eu gostava de cuidar de meu corpo e de minha saúde
mesmo.
Só que naquela semana em particular, extrapolei.
Minha discussão com Taehyung na segunda-feira me deixara possesso e
pensativo. Quem aquele babaca pensava que era? Se tinha algo que eu
odiava, era ser subestimado, e ele não só me subestimou como também
pisou no meu orgulho. Ele me fez sentir algo que eu nunca sentira com
tanta intensidade antes: ódio.
Eu tinha a fama de me exceder e ser bom em tudo que eu fazia, e dessa vez
não iria ser diferente. O idiota achava que não teria troco? Que a coisa ia
ficar só por isso mesmo? Eu ia mostrar como se dava soco de verdade.
Não o encontrei durante o resto da semana (o que foi um alívio para mim),
sempre evitando passar perto do prédio da Faculdade de Artes Liberais e
Ciências como se o local estivesse infectado com algo tóxico (e talvez
estivesse mesmo...). Queria poder dizer que a nossa falta de interação me
acalmou os ânimos, mas ao invés disso, apenas me deixou cada vez mais
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obcecado.
Para isso, pedi para Hoseok (ou Hobi para os mais próximos), um dos
integrantes do time de futebol americano, que malhasse comigo e me
ajudasse num treino mais pesado. Hobi era um poço de alegria e agitação,
então, concordou sem nem pestanejar, botando pilha em mim e me
encorajando, acreditando que toda aquela energia disposta por mim era
graças a temporada de jogos.
Porém, quando chegamos na sexta-feira, o mesmo não pôde se conter em
comentar enquanto eu fazia uma série de abdominais no chão após passar
uns bons vinte-minutos treinando com um saco de pancada.
— Jeongguk, tudo bem que quando você veio me falar de treinar no início
da semana, eu achei legal pois pensei que você pretendia já entrar em
forma para os jogos, mas... — hesitou —, você não acha que está pegando
pesado demais?
O suor escorria por minhas têmporas grudando meu cabelo em minha
testa, espalhando-se por meu pescoço e todo o meu corpo, e encharcava
minha regata de treino preta, junto de meu short.
— Não — ofeguei entre um abdominal e outro —, eu estou determinado.
Mais do que determinado, na verdade.
— Mas, para o quê? — Questionou —, que bem isso vai trazer? Treinar
pesado assim para conseguir provar o quê? Isso só vai prejudicar o seu
corpo!
Não vi motivo para esconder o motivo, então, falei de uma vez.
— Vou provar para aquele... babaca que eu não devo ser subestimado —
encerrei os exercícios e sentei no chão, abraçando minhas pernas —, ele
vai engolir cada palavra debochada dele.
Hobi franziu a testa e ficou um bom tempo me analisando como se
estivesse absorvendo cada uma das minhas palavras e decidindo o que
devia falar. Só que não era como se ele fosse a pessoa mais discreta
quando se tratava de aconselhar.
— Você precisa transar, Jeongguk — afirmou —, urgentemente, aliás.
33
— O quê? — Arregalei os olhos, surpreso.
— Eu não sei quem é esse rapaz, mas se ele estiver na sua acho que você
devia investir — ponderou —, você só fala dele a semana toda. Você não
quer só lutar com ele ou meter uns socos nele. Você está afim dele. E no
mínimo, ele também deve estar afim de você.
— Você está maluco? — Indaguei, ultrajado. Hoseok estava
completamente fora de si apenas por considerar uma possibilidade dessa.
— Pelo contrário — deu de ombros —, isso tudo que você está sentindo é
tensão sexual, menino Jeongguk. Diz aí, você adoraria que o cara te
imprensasse contra uma parede e te pegasse de jeito. Você já me disse que
tinha uma fantasia assim, ou sei lá. Você estava bêbado naquela noite.
Corei da cabeça aos pés recordando a lembrança do dia em que fomos para
um bar e eu fiquei bêbado pela primeira vez. O resultado que isso
culminou foi que a minha pessoa acabou por confessar coisas
constrangedoras. Era verdade que eu gostava de comandar durante o sexo
com meus antigos namorados, e nenhum dos dois tinha os colhões para ir
contra mim. E embora eu adorasse dominar, eu tinha a fantasia particular
de achar um parceiro que às vezes, também soubesse tomar o controle. Eu
sempre dominava, sempre consegui intimidar mesmo sendo o passivo da
relação, seria uma verdadeira experiência encontrar um rapaz que não
ficasse "amedrontado" comigo.
— Eu sei que estou há meses sem transar, mas não é isso — revirei os
olhos —, eu fui insultado, Hobi! Você não está entendendo!
— Tudo bem, então — deu de ombros —, mesmo que não seja esse tal
garoto pela qual você está fissurado e não admite, ao menos encontre uma
foda na festa depois do jogo de sábado. Você merece, meu caro! E precisa
também.
— Não sei se irei nessa festa, e odeio casos de uma noite — fiz uma careta
—, nem pensar.
Cruzando os braços, Hoseok ajeitou a calça que usava e sentou-se à minha
frente.
— Como diabos você odeia algo que nunca experimentou, criatura? — Me
34
perguntou, como se fosse uma coisa óbvia.
Bufando, deitei-me sobre o chão da academia da universidade e estiquei
meus braços para os lados, fitando o teto com uma expressão cansada.
— Eu acho grotesca a ideia de conhecer um cara em uma noite e já deixar
ele me foder sem termos intimidade — confessei —, sexo para mim é algo
íntimo demais. Não gosto da ideia de transar com alguém em uma noite
sem sentido e pronto, no outro dia agir como se estivesse tudo bem.
Aquela pessoa sempre vai poder falar para todo mundo que ela teve a
chance de transar comigo numa única noite, e isso me incomoda. Nada
contra quem gosta disso e faz, mas eu não consigo aceitar ou me imaginar
fazendo.
— Então, você odeia a ideia de casos de uma noite, não os casos de uma
noite — Hobi coçou o queixo —, se esse garoto por quem você está afim
te conquistasse para um caso de uma noite, você aceitaria?
— Claro que não. Porque eu não estou afim dele — neguei, veemente.
Hoseok ignorou a última frase.
— Isso significa que ele não é atraente o suficiente para despertar isso em
você? — Arqueou uma sobrancelha.
O problema era que não tem como eu negar isso. Aquele coreano imbecil
era bonito, atraente para caralho e exalava uma aura... ah, não sei explicar,
só sei que ele é um desgraçado. Lisa me disse que ele tem um piercing na
língua e eu me peguei imaginando como seria beijar uma pessoa com
piercing na língua. Claramente terei que fazer uma visita aos punks da
universidade e beijar algum... O tipo de ideia que me veio em mente por
culpa dele!
E respondendo à pergunta de Hoseok, é claro que aparência não é o
suficiente para me convencer a transar com ele em uma noite. Uma que eu
duvido que seria lá essas coisas, outra que eu gosto de dominar. Não posso
dizer que minha vida sexual com meus dois ex-namorados foi exatamente
sem graça, porque não foi. No entanto, confesso que o uso dos meus dedos
e do vibrador acaba me satisfazendo bem mais (porque eu sempre focava
no ponto certo).
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— Ele é sim muito atraente, pode acreditar. Mas, não sou superficial a esse
ponto, Hobi — retruquei.
— Não, claro que não. Nunca pensei que você fosse, apenas pense no que
eu falei, Jeongguk.
Alongando-se, meu amigo e colega de time levantou-se e foi até o
banheiro.
[...]
Ah, eu agradecerei pela existência da internet até o fim dos tempos. E
pelas coisas que ela te permite fazer sem que as pessoas saibam
exatamente que é você. Uma delas é a minha capacidade de digitar
"Taehyung Kim" na barra de pesquisa do Facebook e stalkear a minha
cruz. Sim, esse garoto era a cruz que eu teria que carregar até vencê-lo
numa luta.
Qualquer pessoa pode tirar conclusões precipitadas do porquê eu estava
fazendo isso, mas a verdade era que eu estava apenas coletando
informações sobre o meu oponente. Para vencer o inimigo a gente precisa
saber mais dele, e naquele momento, minha missão consistia em tentar
descobrir quem exatamente ele era, e como ele me conhecia tão bem.
Por sorte, o perfil dele era aberto e eu pude já ir coletando algumas
informações. Taehyung era de uma cidade coreana chamada Daegu, faria
23 anos no dia 30 de dezembro. Não era muito de sair, mas quando saía
sempre mostrava aquele sorriso diferente e bonito, as pessoas o amavam
pelos comentários, pela forma como falavam dele (isso nos comentários
que eu entendia em inglês). Ele era apaixonado por música clássica e arte,
o que me impressionou. Você não espera que um cara tatuado dos cabelos
tingidos e roupas de um bad boy universitário fosse gostar desse tipo de
coisa. Mas aí, a própria tatuagem já era uma arte, então, teria ele desejado
transformar seu próprio corpo em uma?
Espantando esses pensamentos, continuei com a pesquisa e fui
descobrindo mais e mais sobre aquele garoto. Ele tinha um cachorrinho de
raça não especificada chamado Yontan, Yeontan (não entendi exatamente
como se escreve). Uma criaturinha tão fofa para um cara que gosta de
socar as pessoas. Mais surpresas por aí.
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E olha que as surpresas estavam apenas começando...
Pois acabei por descobrir algo que me chocou mais do que tudo. Baixando
a página da linha do tempo e vendo postagens e fotos (infelizmente, ele
não era muito ativo nas redes sociais... assim como eu – Ryan geralmente
me xingava por isso), vi uma em especial dele trajando uma bermuda
branca, camiseta da mesma cor, uma faixa azul estava em seus cabelos
escarlate naquele mesmo estilo que eu vira antes e os músculos dos braços
dele flexionavam de forma impressionante enquanto ele segurava uma
raquete de tênis, sua pele bronzeada, cheia de suor, expondo as tatuagens
incríveis e sua expressão era a de mais pura concentração.
Se eu já não soubesse que ele era atraente por si só, ficaria surpreso por ver
como ele era estupidamente bonito, mas aquilo... aquilo era outro nível e
só me fez ficar ainda com mais raiva dele. Os comentários naquela foto
também não ajudavam. Tive que traduzir boa parte deles já que estavam
em coreano.
"Lindo! "
"Melhor jogador de tênis do mundo! "
"Orgulho do nosso país! "
"Tae Oppa, quando você vai voltar para a Coréia? Sinto tanto a sua falta!
Você nunca mais me deu atenção! "
"Essa foto é tão incrível! "
"Como esse garoto conseguiu ficar tão bonito? "
"Bebê da mamãe"
"Te aguardamos para o Natal, filho! "
No fim, não consegui me aguentar e joguei o nome dele no Google. Minha
boca foi lá no chão ao ver os diversos prêmios importantes que ele ganhara
como tenista. Nunca fui ligado no mundo desse esporte, e como ele era um
tenista de outro país, não vi muitas notícias sobre. Mas, agora, saber que
esse garoto joga tênis desde muito jovem e tem ganho medalhas e prêmios
em nome da Coréia do Sul...
37
Lisa não me falara isso quando me contara sobre ele, não me dera esses
detalhes, e era claro que isso devia ser de conhecimento público. Aliás,
arriscava dizer que era justamente por isso que ele devia ser meio popular.
E sinceramente, ele não podia ser apenas um cara que gostava de socar as
pessoas e pagar de perigoso a ponto de espalharem notícias absurdas sobre
sua pessoa no círculo social como um todo, se bem que eu me perguntava
onde diabos Taehyung tinha aprendido a dar socos se era tão bom assim.
E bem ali, na minha página da internet só aparecia notícia atrás de notícia
elogiando a performance dele, notícia de ele ganhando medalha, ele dando
entrevista, ele posando ao lado de outros tenistas mundialmente famosos e
consagrados... quer dizer, afirmar que estou sem palavras é pouco para
descrever a minha reação.
Eu costumava achar que ser o melhor aluno do colégio e receber elogios
por me exceder em todas as matérias, ganhar medalhas em decatlos
acadêmicos e ser o center do time de futebol americano da universidade
com uma bolsa integral era o melhor feito que uma pessoa podia ter até
saber que a minha cruz era campeã mundial de tênis. É isso aí, a coisa
ficou ainda mais pessoal aqui. Era agora mesmo que eu iria me esforçar,
dar o meu máximo e meter a porrada naquela idiota arrogante e de
preferência, jogar aquele pirulito no chão que ele sempre chupava e pisar
naquela coisa com todas as minhas forças até se espatifar em diversos
pedacinhos avermelhados.
E embora eu admitisse que era estranho como eu não me reconhecia mais
em luz de tudo o que aconteceu. Justo eu que sempre evitei dar bola para
conflitos e sempre evitei me meter em conflitos estava determinado a dar o
troco.
Precisava planejar bem os meus passos, pois estava lidando com o
queridinho da Coréia.
Naquela noite de sexta, trajei roupas negras e uma touca (praticamente
imitando minha camuflagem da segunda-feira), saindo do meu quarto com
os punhos cerrados e minha determinação alta em chutar o traseiro daquele
estrangeiro cretino e arrogante. Após saber mais sobre ele, minha sede de
sangue só aumentou. Eu finalmente daria o troco que ele merecia.
É isso aí, eu ia naquela Clube da Luta ridículo provar meu valor.
38
Caminhando na calada da noite pelo campus silencioso da universidade,
fiz o trajeto até o prédio da Escola de Música do Instituto Herberger,
apenas para ver uma figura feminina conhecida parada de braços cruzados
ao lado da entrada do local vestindo roupas pretas iguais às minhas e
óculos escuros... de noite.
— Lisa? — Meu tom era incrédulo —, o que você está fazendo aqui?
Ela pulou, assustada quando chamei sua atenção (devia estar devaneando),
mas sua expressão facial mudou na hora, e um sorriso enorme emoldurou
seu rosto.
— Eu vim ver você levar uma surra do coreano gatão — afirmou,
animada.
Parei nos trilhos, tombando minha cabeça para o lado, incerto se tinha
ouvido certo. Ela realmente tinha dito aquilo?
— O quê? Você está brincando, não é? — Arregalei os olhos
repentinamente pensando naquela possibilidade.
Uma que eu não ia levar uma surra, não era essa a minha intenção ali,
outra que Lisa queria testemunhar isso? Que tipo de amigos eu arranjei?
— Queria estar, mas — mexeu no bolso do casaco negro —, eu até trouxe
minha câmera para registrar o momento.
Ergueu aquela coisa na minha cara, literalmente zombando de mim.
— Você não vai entrar lá — cruzei os braços —, não vou deixar você
espalhar algo do tipo. É a minha vingança pessoal contra o tenista que age
como um lutador de meia tigela.
Os lábios da garota se curvaram num sorrisinho de canto.
— Então, você finalmente descobriu sobre a popularidade do garoto —
assentiu —, uma pena, pois eu pago para ver essa luta. Ryan me falou
como entrar e eu vou ver hoje. Me processe!
E correndo, ela adentrou o prédio na velocidade da luz, entrando pelo
porão e descendo as escadas de concreto. Revirei os olhos. Claro que Ryan
precisava espalhar para ela.
39
Sem me incomodar de segui-la e sem questionar se teria algum problema o
fato de ela ser mulher, desci as escadas de concreto sentindo o nervosismo
tomar conta de meu estômago e me dar uma terrível vontade de vomitar!
Era agora ou nunca. O momento que antecipei a semana toda...
Só que nada aconteceu. Lisa estava lá, me mandando joinha, camuflada
em meio aos homens (não acho que perceberam a presença dela ali), mas
enquanto todas as lutas foram acontecendo, passei meu tempo tentando
localizar Taehyung. Ele não estava contra a pilastra, não estava mais
afastado de todos, não estava entre os homens, não estava em lugar
nenhum. Ele não tinha ido naquela noite.
Antes mesmo que as lutas daquele encontro tivessem acabado, bati em
retirada dali, sentindo minhas mãos suarem consideravelmente, Lisa vindo
em meu encalço quando saí daquele prédio, incapaz de conter a minha
fúria. O que falaram era verdade. Ele não ia ao Clube da Luta com
frequência. Ele ia de vez em quando apenas para humilhar um ou outro
(como eu), apenas para provar o quão arrogante e superior era comparado
à nós meros mortais.
A própria Lisa resmungou algo sobre não valer a pena ter arranjado um
disfarce legal e usar óculos escuros à noite se o causador da diversão não
se encontrava, e suas palavras fizeram um sentimento borbulhar dentro de
mim. Um sentimento de repulsa. Aquele cara era tão podre de arrogante
que nem se dava o favor de aparecer.
Kim Taehyung era um filho da puta.
[...]
O sábado de jogo chegou rapidamente e eu não estava com cabeça para
jogar. Mas não é como se a gente pudesse fazer algo contra isso. Não era
como se eu já não tivesse sido tomado pelas distrações e pensamentos nas
últimas vezes em que joguei, só que dessa vez era claramente diferente. Eu
estava com raiva. E o pior de tudo era que eu precisava estar com a mente
limpa para jogar, eu tinha uma função importante a cumprir.
E eu a cumpriria com maestria.
Já devidamente vestido com o protetor de ombros, meu uniforme padrão
nas cores branca e azul, a camisa gigante de número 30 e o capacete em
40
mãos, eu ouvia atentamente a tudo que o treinador dizia.
— Muita atenção na marcação e não percam a concentração — falou o
técnico Richards —, Jeon, olho na linha adversária.
Assenti, sério e concentrado. Dentro de nosso time, todos tinham noção da
minha homossexualidade, e embora eu estivesse em bons termos com os
jogadores, no início não foi fácil. Uma que o quarterback fez comentários
bizarros e homofóbicos contra mim, o que culminou no meu punho
criando um hematoma em seu rosto. Hoje, nós confiávamos um no outro
na hora de jogar, e tínhamos plena fé em nossa capacidade como center e
quarterback.
Eles acreditavam que o fato de eu ser gay iria resultar em mim os secando
enquanto trocavam de roupa, ou que eu eventualmente daria em cima de
alguém. O que nunca aconteceu, claro. Eu nunca sequer cogitei algo assim,
e constantemente dava foras em quem ousasse tentar brincar comigo. Ser
homossexual e jogar futebol americano não era algo fácil. Em meu time,
os outros tiveram de aprender a conviver com isso e aceitar que eu não era
uma espécie de animal no cio que ia tentar bolinar todo mundo.
Chegamos em um ponto onde um de meus colegas de time me apresentou
um amigo assumidamente homossexual, achando que nos daríamos bem.
Pena que o cara era um babaca apenas interessado em entrar nas minhas
calças.
Eu só dava uns beijinhos mesmo por aí. O ápice aconteceu quando um
cornerback do time se embebedou certa vez que fomos ao bar, deu em
cima de mim e tentou me beijar. Minha recusa veemente chocou a todos,
já que eu afirmei firmemente que eu não namoraria alguém dali. No outro
dia, ele pediu desculpas, me chamou para sair e confessou se atrair por
homens também. Fiquei triste por ter de dar um fora nele, mas não me
arrependi.
A questão da homossexualidade no futebol americano era algo que eu
considerava digno de discussão, e até controverso. Eu provavelmente não
seguiria carreira naquilo, mas e os outros jogadores que fossem
homossexuais?
Geralmente, revistas masculinas eram passadas no vestiário e eu mesmo
admitia que muitas da imagem eram incrivelmente sexy, mas minha
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atração sexual se inclinava para homens. Não tinha problemas em
comentar quando eu achava uma mulher bonita ou coisas do tipo, sempre
participando ativamente das conversas. Quando os outros jogadores
partilhavam de suas experiências com outras parceiras, eu também
participava, brincando e afirmando coisa tipo "você só fez isso? Eu sou
gay e sei que você não se esforçou", o que geralmente arrancava
gargalhadas dos outros.
Hoseok e eu nos tornamos muito próximos à ponto de eu confessar as
coisas para ele. Ele me conhecia tão bem quanto Ryan e sempre me
apoiava.
— Prontos?
Com a face séria e contida, assenti, juntamos nossas mãos, dando nosso
grito de equipe e adentramos o campo de futebol. Ignorando as coisas que
rondavam minha mente, foquei nos berros das pessoas ao redor e quando
me posicionei ao lado de meus colegas de time para cantarmos o hino
nacional dos Estados Unidos, limpei minha mente.
Após o fim do mesmo, colocamos os capacetes, trocamos umas poucas
palavras e nos posicionamos. O estádio estava em silêncio absoluto até que
o jogo começou e eu me forcei a raciocinar, estudando a linha adversária e
bolando a melhor estratégia de como poderíamos realizar o melhor passe, e
como o wide receiver poderia fazer um touchdown.
A adrenalina corria pelo meu corpo, entorpecendo-me enquanto eu me
esforçava, esquecendo de qualquer problema ou qualquer pensamento
tumultuoso. Eu estava à deriva, completamente imerso naquele momento,
naquelas sensações.
A cada segundo que passava, eu ficava ainda mais em alerta, meu corpo
sendo levado ao limite. Era daquilo que eu gostava. De sentir aquilo
quando jogava. Era como se você se sentisse mais vivo do que nunca
quando se levava ao seu ponto máximo.
Quando o jogo acabou, comemoramos nossa vitória, gritando a plenos
pulmões e sendo recepcionados pelas animadoras de torcida. Algumas
delas insistiam veementemente em dar em cima de mim mesmo sabendo
que eu gostava de meninos. Isso foi ocasionado numa certa ocasião em que
eu estava conversando com uma delas e essa moça me dissera que achava
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"tanquinhos" legais, já eu, fui sincero e disse que achava seios legais (o
que era verdade mesmo).
O resultado foi que ela espalhou isso para todas as animadoras e agora elas
tinham certeza que eu tinha atração por meninos e meninas.
Eu sinceramente não me importava, já que eu nunca conversava com
qualquer garota de forma que indicasse que eu poderia estar afim dela. Eu
tinha pavor de imaginar as pessoas maldizendo meu nome por causa de
mal-entendidos. Minha neura de ser o filho perfeito não me deixava
cogitar a possibilidade de quebrar os corações das pessoas.
Retirando o capacete e passando minha mão por minha testa suada, afastei
meus cabelos enquanto seguia até o vestiário, sendo acompanhado de
meus colegas de time. Durante o banho para retirarmos o suor e a sujeira
de nosso corpo, os caras dos boxes ao lado do meu começaram a falar
sobre as usuais festas pós-jogo que Jin, um sênior do curso de direito, dava
todo final de jogo. Era praticamente um ritual desde que eu entrara no time
dos Sun Devils, mas nunca participara das festas antes por não achar que
fosse minha praia exatamente (na verdade, eu fui umas duas vezes bem no
início da minha carreira ali, mas desisti de comparecer após perceber como
não curtia muito).
E naquela noite não seria diferente.
— Jeongguk, você vai na festa? — Hobi perguntou enquanto eu penteava
meus cabelos e partia minha franja para que não caísse em meus olhos.
— Não — respondi prontamente.
— Por quê? Você não vai fazer nada melhor hoje, vai? Vamos! Só dessa
vez! — Arqueou uma sobrancelha.
— Na verdade, eu vou fazer algo melhor sim — o fitei —, vou assistir
filmes que estou enrolando faz séculos para assistir.
Hoseok franziu a testa e cruzou os braços.
— Isso é verdade ou você inventou essa desculpa agora? Cite um filme e
fale sobre ele.
43
— A Piada Mortal. Você sabe que eu prefiro a Marvel e sou o maior fã do
Homem de Ferro, mas eu queria muito assistir esse porque Ryan me disse
que era muito bom, e esse filme conta uma versão conhecida e considerada
a correta sobre a origem do Coringa — falei prontamente (e era verdade
mesmo, mais uma vez).
Suspirando, Hoseok assentiu a apanhou seu casaco.
— Certo, esqueci que você gosta de coisas mais tranquilas — comentou.
Algo me incomodou.
Aquela palavra era tão boba, mas me incomodou de um tanto que eu não
soube explicar. Eu gostava de coisas mais tranquilas. E lembrou-me do
que Ryan me dissera sobre minha vida monótona e sem graça, me lembrou
sobre como aquilo também me incomodou.
Como a minha vida não tinha nada de emocionante, como parecia uma
inércia. Eu sempre tive orgulho dessa inércia, mas não me reconheço mais
desde aquela maldita noite naquele maldito Clube da Luta. De repente, eu
não queria mais ser sem graça, eu não achava mais tão legal assim, isso
fazia com que eu parecesse fraco.
Eu sempre me considerei alguém tão tranquilo, mas será que eu era
mesmo?
Me lembrei das palavras de Taehyung.
Mesmo não sendo a personificação do filho perfeito nos termos com a qual
eu cresci habituado, ele ainda conseguia ser diferente num sentido bom.
Mesmo sendo tatuado, idiota, com fama de matar pessoas e vender órgãos,
ele ainda era amado, reverenciado, inteligente e um grande atleta. Eu o
odiava mais que tudo.
Porque eu estava fazendo algo influenciado por suas malditas palavras.
Então, fazendo uma careta, impedi meu amigo de ir embora:
— Hoseok, espera aí — suspirei, pesarosamente —, eu vou com você.
[...]
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Eu não esperava me arrepender da decisão de ter ido porque isso seria
péssimo. Eu já tinha dado a chance de poder socializar com aquela galera,
mas chegando naquela casa, vendo as pessoas pularem naquela piscina
com cheiro de mijo, um homem bêbado tentando me beijar à força e meus
amigos me dando o perdido, concluí que eu devia ter algum azar daqueles
porque não tem lógica uma coisa dessas.
Uma das líderes de torcida até afirmou que eu não dava o cu fazia muito
tempo e por isso eu andava mal-humorado. Não é minha culpa se o Ruivo-
Asiático-Filho-Da-Puta (que mais parecia uma cruz que eu tinha que
carregar) me deixou histérico nessa última semana. E eu não vou ficar
oferecendo minha bunda para quem quiser, o vibrador e os meus dedos
estão fazendo um bom trabalho me satisfazendo, já afirmei isso várias
vezes.
Um casal se agarrava ao meu lado no sofá e eu bufei, irritado, levantando-
me e indo em direção à cozinha pegar uma bebida. Como do lado de fora o
pessoal fazia uma espécie de gincana, o interior da casa estava vazio,
assim como a cozinha.
Ou ao menos, assim eu achava. Adentrando o cômodo fechado e
iluminado, parei na porta ao ver uma figura debruçada sobre a pia
enquanto assistia a diversão que acontecia do lado de fora pela janela. Tal
figura tinha os cabelos vermelho-escarlate, usava uma calça jeans preta
folgada, a mesma jaqueta de couro do dia da luta e tênis branco. Não dava
para ver nitidamente, mas eu apostava que ele estava de bandana também.
Aquele era o estilo dele. E olhando por aquele ângulo, ele era bonito até de
costas... e isso me irritou. De nada.
Na surdina, resolvi pegar uma bebida sem denunciar que era eu ali, então,
devagar, me encaminhei até a geladeira do local, em completo silêncio, a
abri e tirei de lá uma garrafa de cerveja fechada.
Com minha própria mão, a abri e apressei-me a sair dali o mais rápido
possível.
— Fugindo novamente? — Taehyung perguntou, fazendo-me parar
novamente —, depois do jogo de hoje, depois daqueles caras mais altos e
maiores que você enfrentou sem medo, você realmente vai fugir de mim?
Fitando-o, percebi que ele não tinha nem se movido, mas aí, notei o meu
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erro. O vidro da janela refletia exatamente na geladeira. Ele não precisava
se mover para saber que era eu. Droga.
— Eu só vim pegar uma cerveja, não estou fugindo de você — revirei os
olhos, mentindo da maneira mais convincente que consegui.
— Não foi o que me pareceu — continuou —, você estava prestes a bater
em retirada daqui como um franguinho assustado. E devo dizer, estou
impressionado. Você jogou muito bem hoje, Jeon. Parabéns.
Pisquei atordoado, tentando processar suas palavras. Ele tinha acabado de
me parabenizar?
— O quê?
Virando-se para me encarar, Taehyung deu um sorriso. Dessa vez não
havia nenhum pirulito ali, e surpreendentemente, não havia uma bandana
também em seu cabelo.
— Ainda não sabe lidar com elogios? — Cruzou os braços.
— Como assim? Eu sei lidar com elogios — respondi, irritado —, e
obrigado. Eu dei o meu melhor no jogo.
— Se você diz... — deu de ombros —, e de nada. Eu estava nas
arquibancadas e acompanhei de perto seu desenvolvimento.
Tomando um gole da minha cerveja, a apoiei contra o balcão.
— Você... — resmunguei —, você me conheceu quando eu era criança,
não é? Você sabe quem eu sou pois já me conhecia, mas eu não lembro de
você.
Taehyung tombou a cabeça para o lado.
— É uma hipótese interessante — pareceu pensativo —, se estiver correta.
— Se? — Suspirei —, quer saber? Adeus! Tenho coisas melhores para
fazer.
— Como o quê? — Perguntou Taehyung.
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Eu não devia responder, eu sabia que não, mas...
— Eu não vou te falar — olhei para seu rosto ridiculamente bonito —,
uma coisa que você precisa entender é que eu não gosto de você de jeito
nenhum, não simpatizo com você. Nada do que você fizer eu irei gostar,
nada do que você dizer. Eu não gosto de você, será que fui claro? Tirando
no tal Clube da Luta, quero distância máxima!
Taehyung pareceu momentaneamente afetado pelas minhas palavras, antes
de piscar algumas vezes e tombar a cabeça para o lado, indagativo.
— Claro como cristal — sua expressão se endureceu um pouco —, você
vai esperar para sempre até o dia em que eu resolver aparecer no Clube?
Patético.
— Agora eu sou patético? — Era só o que me faltava! —, você ao menos
se lembra das coisas que você me falou na noite em que lutou comigo?
— Lembro, aliás, quer saber qual foi a minha favorita delas?
Babaca!
— Não!
— Foi quando afirmei que não era como se eu não estivesse gostando de te
prender contra a parede porque eu estava — olhou nos meus olhos —,
pode ter certeza que eu estava, e algo me diz que você também gostou.
Um leve arrepio passou por minha coluna, mas eu dei meu melhor em
ignorar.
— Algo te diz? Que algo? Você é esquizofrênico, por acaso? — Rebati,
ansioso para o caso de ele seguir naquele assunto. Eu não queria admitir
que eu tinha gostado mesmo. Mas foi só um pouquinho!
Sorrindo, Taehyung cruzou os braços.
— Você está muito na defensiva — comentou —, não vejo motivo para a
sua agitação.
— Agitação? — Me exaltei —, quer saber, eu vou embora mesmo, tenho
coisa melhor para fazer do que ficar falando com você.
47
— Você ainda não me disse o quê — apontou o ruivo.
Por que o sotaque dele tinha que ser tão bonito de ouvir? Filho da puta. E
por que diabos ele estava insistindo em continuar aquela maldita conversa?
— Filmes, filmes são mais interessantes — respondi petulante —, filmes
de animação de quadrinhos mais ainda.
Pareceu interessado e eu considerei se foi sensato ter contado aquilo.
— Qual seria?
— A Piada Mortal — replicou, automaticamente.
Caminhei até a saída já dando aquela conversa por encerrada (e também
porque eu não queria ficar perdendo tempo e conversando com ele), mas
Taehyung disse:
— Interessante a escolha.
Parei nos trilhos, apertando os olhos força antes de abri-los e voltar a
encará-lo. Mordi o lábio, incomodado com a minha fraqueza. Era
simplesmente difícil lutar contra a vontade de responde-lo. Eu queria
responder.
— Por quê? — Não resisti, xingando-me mentalmente.
— Você já leu o quadrinho? — Perguntou.
Arqueando uma sobrancelha, assenti. Não entendendo onde ele queria
chegar.
— Amo HQ's.
— Bom, eu também — caminhou em minha direção —, sabe uma coisa
interessante que o Coringa fala para o Batman?
Neguei com a cabeça, vendo sua aproximação e engolindo em seco. No
entanto, não cheguei a me afastar.
— Que basta apenas um dia ruim para reduzir o mais são dos homens a um
lunático.
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— E o que tem? — Minha voz falhou um pouco, e eu pigarreei,
empinando o queixo.
— Bastou uma única noite ruim comigo no Clube da Luta para você deixar
de ser o mais pacífico dos homens e se empenhar tão ferrenhamente em
vingança? — Sorriu de lado.
Filho da puta arrogante!
Aliás, ele estava se referindo a...? Não, não podia ser.
— O quê? Mas como...
— Eu uso a academia em três dias da semana, Jeonggukkie — afirmou,
meio irônico —, não é como se eu nunca tivesse ouvido você por lá...
ainda mais falando com seu amigo.
— Em quais dias você usa a academia? — Perguntei, preocupado, minha
respiração falhando.
— Segunda, quarta e sexta.
De repente, o sangue esvaiu do meu rosto e eu arregalei os olhos. Dizer
que eu estava horrorizado com aquela descoberta era pouco,
definitivamente. Eu falei aquele monte de coisas constrangedoras e o cara
de pau estava lá, escondido, apenas espiando?
— Você está bem? — Perguntou ele, franzindo a testa, sua expressão era
divertida.
— Você ouviu minha conversa com Hobi, você estava lá — acusei,
tentado a lhe dar um soco no meio da fuça —, não posso acreditar.
— Não é nenhuma novidade, você disse que tinha algo contra mim, você
aparentemente me odeia, e está há tempos sem transar.
— Você sa...
— E não há nada de ruim com isso, Jeongguk — sorriu suavemente —,
sabe, eu não sou do tipo que espalharia isso para ninguém, relaxa. Talvez
você esteja precisando mesmo de sair da seca.
49
Meus olhos dobraram de tamanho e eu senti o sangue voltar ao meu rosto
enquanto minhas bochechas coravam consideravelmente.
— E... eu não vou transar com você! — Exclamei.
— Comigo? Eu não disse que precisava ser comigo, mas — umedeceu os
lábios, me dando uma pequena visão de seu piercing —, se você esquecer
que me odeia e estiver afim, estou à disposição.
— Você o quê? — Me encontrava desacreditado. Taehyung estava se
oferecendo para transar comigo. E algo me dizia que aquela ideia o
agradava mais do que ele deixava transparecer.
— Você ia gostar se eu fizesse alguma investida? — Olhou nos meus
olhos.
— Não, eu não ia, seu... tenista convencido — rebati.
Taehyung fez uma careta. Eu definitivamente quebrei todo o clima com
aquele comentário. Fiquei puto e aliviado ao mesmo tempo. Por que fiquei
puto? Não faço ideia.
— Não venha dizer que estamos tendo essa conversa só porque você
descobriu que eu jogo tênis profissionalmente.
— Isso nem passou pela minha cabeça — fui sincero.
— Ótimo, porque senão, eu seria obrigado a te castigar te beijando — se
afastou, dando um sorriso preguiçoso.
— O quê? — Arregalei os olhos novamente.
— Vou indo nessa, jagiya* — piscou para mim —, você poderia me
passar seu telefone? Caso eu queira te pedir umas dicas de combate.
Desgraçado. Que vontade de dar um chute no meio de suas pernas.
— Vai se foder — cuspi, cruzando os braços —, não vai ter meu número
coisa nenhuma.
— Você me entristece desse jeito, Gukkie — balançou a cabeça.
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Gukkie...?
Aquele apelido... Era extremamente íntimo. Só pessoas do meu círculo
mais próximo sabiam. Nem meus ex-namorados me chamavam assim!
— Taehyung? Quem é você? — Questionei, mais uma vez, ainda mais
intrigado. Como era possível que ele soubesse daquilo? —, esse é meu
apelido de infância. Você me... — conhece de onde? De onde nós nos
conhecemos? — Quer saber? Não importa. Eu vou descobrir a verdade.
E iria mesmo. Estava mais do que disposto a saber agora quem ele era.
Como ele sabia tão bem quem eu era.
Sorrindo e assentindo, ele disse:
— Quando o fizer, me avise. Estarei esperando.
*NCAA - National Collegiate Athletic Association.
O campeonato de futebol americano dos Estados Unidos da América é
organizado por essa associação.
*Jagiya – 자기야
Palavra da língua coreana cujo significado seria "querido (a) ", "honey"
(em inglês). Usado geralmente por pessoas com intimidade.
51
Capítulo 4 - Medicate
Taehyung me conhecia.
Essa era única certeza que eu tinha. E não estou falando de um simples
"conhecer". O filho da puta realmente me conhecia. Aquilo já estava claro
para mim. O Ruivo-Asiático-Filho-Da-Puta não estava para brincadeira.
Ele sabia da minha fixação em querer ser o filho perfeito, sabia do meu
apelido de infância, sabia que eu ficava sem graça quando recebia elogios.
E sei lá, devia saber mais um número de coisas diversas. Sem contar que o
garoto era quase um stalker meu, sabendo meu curso, minha posição no
time de futebol americano (se bem que esses dois últimos não eram muito
difíceis de saber). Era como se ele soubesse tudo sobre mim, mas eu não
soubesse nada sobre ele.
Cheguei a cogitar se sofri amnésia igual aqueles filmes clichês ou algo do
tipo, mas não! Tenho certeza de que não sofri nenhum acidente inesperado
que me fez esquecer partes da minha vida.
No entanto, considerando as coisas que ele falou e que ele sabia, tive
certeza de que já fomos próximos. A questão era: Como? Quando? Onde?
Eu nasci e morei nos Estados Unidos minha vida toda! E considero que ele
tenha morado na Coreia do Sul a vida toda também, então, como podia ser
possível? Tinha alguma peça faltando nessa história e eu estava mais do
que determinado em descobrir. E quando eu descobrisse, qual seria a
reação dele?
Era estranho pensar que Taehyung parecia querer tanto que eu me
52
lembrasse de sua pessoa. As provocações dele não eram em vão, ele fazia
aquilo com um propósito em mente, eu só precisava descobrir qual. Desde
o momento em que nos vimos pela primeira vez naquele Clube da Luta,
ele parece sempre fazer as coisas na intenção de me balançar. E eu causava
algum efeito nele. Eu sabia que sim. Ele reagiu quando eu disse que ele
não significava nada para mim, e não fora uma reação positiva.
Talvez fosse mentira, admito. Se ele não significasse nada, eu não estaria
tão disposto a querer socar a cara dele, ainda mais considerando todas as
vezes em que ele provocou, e aquele dia no Clube da Luta quando ele
estraçalhou o meu orgulho. Não nego que o canalha é extremamente
atraente e que depois daquela maldita festa onde ele se aproximou de mim
e disse estar "à minha disposição" caso eu esquecesse que o odiasse,
sequer consegui evitar. Naquela mesma noite, para minha grande vergonha
eterna, eu ultrapassei os limites.
Estava deitado na minha cama, descansando minha cabeça em minhas
mãos e fitando o teto com uma expressão nada feliz. Minha mente vagava
por tudo o que aconteceu recentemente, vagava sobre a figura de Kim
Taehyung. Eu recordava – infelizmente – cada traço de sua aparência. As
pintinhas espalhadas por seu rosto, sua pele bronzeada, o sorriso
retangular, tão diferente e bonito (e que me provocava a cada segundo). Os
cabelos vermelhos, o corpo esguio, os ombros largos, as tatuagens. Até as
malditas roupas.
Não contive minha vontade quando minha mão deslizou por minha barriga
e adentrou minha calça do pijama. Fechei os olhos e me toquei, rodeando
meu membro com meus dedos e começando a movê-los devagar para cima
e para baixo.
Minha vergonha aumentou quando gemidos baixos escaparam de meus
lábios. Eu estava pensando nele, pensando naquelas malditas palavras,
imaginando como seria se fosse ele ali, nu, colocando seus dedos longos
dentro de mim, me preenchendo com seu pênis.
Imaginei como seria Taehyung sem uma única peça de roupa no corpo,
como seria tê-lo à minha disposição, me fodendo com força contra meu
colchão. Gemi alto, aumentando a fricção em meu pênis, sentindo que não
ia aguentar muito.
Será que Taehyung falava sacanagens quando transava? Meu coração se
53
acelerou quando senti o orgasmo se aproximar. Imaginei sua voz grave,
imaginei como seria um gemido seu e não me aguentei. Gozei gemendo de
forma manhosa, e quando recuperei a sanidade, eu quis me enterrar vivo.
Não acreditei que fiz aquilo.
Era o orgasmo mais constrangedor da minha existência!
Afinal, quem diabos se masturba pensando no inimigo?
Não importa quantas vezes eu tente justificar isso dizendo a mim mesmo
que era por causa da aparência dele ou daquela voz grave desgraçada. Ou
até daquele sotaque bonito do cão. Não adianta!
Se tinha uma coisa que eu concluí após nossas breves interações foi que:
Kim Taehyung Kim não era esquecível. Ele não era o tipo de pessoa com a
qual eu poderia conviver e esquecer. Quem diabos se esquece de um cara
com cabelos tingidos de vermelho, corpo coberto por tatuagens, piercing
na língua e aquele jeito irresistível de bad boy? Quem se esqueceria
daquele sotaque, daquele sorriso?
Claramente eu.
O cara era um tenista promissor, vinha de uma abastada família coreana
(nada de surpreendente se considerarmos que tênis não é um esporte para
pessoas com parca condição financeira), algo que eu descobri pesquisando
ainda mais sobre ele na esperança de obter respostas. Claro que não
adiantou. Descobri trocentas informações sobre o indivíduo, mas nada que
me remetesse sobre sua real identidade para mim.
A única alternativa que me sobrou foi a de perguntar para meus pais. Eu
gostaria de perguntar pessoalmente, e eu iria para casa no feriado de Ação
de Graças em novembro. Teria de esperar um tempo fodido para
finalmente fazer isso, mas fazer o quê, né?! Era o jeito.
Se Taehyung sabia de coisas pessoais minhas, além de meu apelido de
infância, era mais do que certo de que meus pais deviam saber alguma
coisa sobre ele, ou pelo menos teriam uma ideia (porque não era possível!)
Eu passei dias inteiros espumando de raiva por causa da arrogância dele e
o odiando eternamente (não que isso tenha mudado muito, de qualquer
forma), mas agora, minha raiva tinha baixado para o nível aonde descobrir
54
em que lugar ele se encaixava no meu passado era mais importante. Mais
importante do que socar a cara dele, mas isso ainda estava nas prioridades!
Acho bom esclarecer isso!
Não esqueci que ele é a minha cruz ou o Ruivo-Asiático-Filho-Da-Puta. E
muito menos esqueci de todo o seu deboche e toda a situação na qual já me
encontrei junto dele.
Não mesmo (e ainda assim, gozei pensando nele...)
[...]
Estávamos em uma linda quarta-feira à tarde e eu estava na academia
socando o saco de pancada com força e precisão. Treinando, e treinando, e
treinando. O suor escondia por todo o meu corpo, encharcando minha
regata e meu short, enquanto meus braços se exaustavam pelo esforço. Já
havia treinado coxas e panturrilhas mais cedo, agora procurava aumentar
minha massa muscular. Minhas mãos estavam enfaixadas, ajudando-me a
ter um soco mais preciso.
— Você não vai criar músculos desse jeito, Jeongguk — uma voz
conhecida me chamou, fazendo-me pular, assustado — só vai deslocar o
seu ombro.
Olhei para o lado e avistei ele.
Taehyung usava uma faixa preta na testa, impedindo seus cabelos
molhados de suor de caírem em seus olhos. Tênis esportivos, calças
moletom cinza e uma camisa branca folgada que cobria boa parte dos
braços, no entanto, parte de suas tatuagens ainda apareciam. Escapavam
pelo pescoço e um pouco dos braços.
Diferentemente dos nossos encontros anteriores, ele não carregava uma
expressão de deboche ou provocação, pelo contrário. Parecia visivelmente
cansado, encarando-me com uma expressão serena. Um par de luvas de
couro estava em suas duas mãos e ele levava consigo uma garrafa d'água
verde.
— Cai fora — fui curto e grosso, ignorando sua presença ali perto e
continuando o treino. Olhar para ele era ruim por si só sinceramente. Eu
não queria lembrar que me masturbei pensando nele. Não queria que ele
55
viesse com sua pose debochada para cima de mim. O cara parecia me
perseguir. A gente mal se viu no sábado, e agora, na quarta-feira, aqui
estava ele de novo. Sei que ele usava a academia nos mesmos dias que eu,
mas porra, parecia estar me perseguindo real! Ou talvez eu fosse azarado
demais, não há como saber exatamente.
— Aqui é um espaço de uso livre dos estudantes — respondeu irônico —,
público, sabia? Ou será que você não conhece o significado de "público"?
Babaca.
— Não estou nem aí. Só me deixa em paz e vaza — devolvi, socando o
saco de pancada com mais força do que antes.
— Simpático como sempre, além de bipolar — zombou, apoiando a
garrafa de água em um dos aparelhos de musculação e esticando os dois
braços, alongando-os.
O lado bom era que pelo menos haviam poucas pessoas usando a academia
naquele horário da quarta-feira, e também, não era como se alguma delas
estivesse ligando para nós dois trocando farpas ali. As pessoas eram
adeptas à filosofia de "cada um cuida da sua vida" na ASU e eu não podia
estar mais grato por isso do que naquele momento.
— Bipolar é você! — Acusei, indignado, desferindo um golpe forte com o
punho esquerdo, descontando toda minha raiva ali —, não eu!
Na moral, quem tinha as mudanças de comportamento bizarro aqui era ele!
Ele era quem agia de uma forma e depois parecia agir de outra do nada, sei
lá. Ao mesmo tempo em que ele parecia só querer me sacanear, parecia
que ele queria me comer. Sim, naquele sentido, não estou sendo exagerado
não.
Dando de ombros, ele sorriu suavemente antes de caminhar em minha
direção e eu ignorei pelo bem da minha sanidade, até que ele parou atrás
de mim, segurando meus dois pulsos e me impedindo de continuar
socando o saco de pancada.
Sobressaltado, o fitei alarmado, tentando me libertar de sua pegada firme.
O peito dele pressionava contra as minhas costas e eu sentia sua respiração
quente bater em meu ouvido. Sem querer, me arrepiei.
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— Me solta, porra! O que você pensa que está fazendo? — Debati-me.
— Assim... — murmurou esticando meus pulsos e fazendo um movimento
lento, mostrando como eu devia guiar o punho para desferir um soco —,
você vai torcer o pulso se não socar corretamente. É sério. E dói para
caralho, posso te garantir. Você não vai querer sentir isso — uma de suas
mãos soltou meu pulso esquerdo e foi para meu ombro direito — estique
seus ombros. Isso, desse jeito. Quando você vai socar alguém, você usa
todo o seu braço, não apenas os seus punhos. A sua força vem do braço
todo. É como um conjunto. É um combo que você precisa usar ao seu
favor.
Ele estava me ajudando? Afastando-me de si, me virei e o fitei intrigado.
Ele continuava com a expressão serena, sem sinais de deboche.
— Por que está me ajudando? — Seu louco bipolar!
— Você vai acabar se machucando desse jeito. Estou te ensinando como
se dá um soco — respondeu como se fosse óbvio.
— Eu sei dar um soco! — Retruquei, orgulhoso. Eu estava treinando
intensamente naquela academia. Eu sabia dar um soco sim!
Taehyung me analisou atentamente, parecendo absorver cada palavra
minha.
— Sabe é? — Assenti petulantemente — então me dê um soco.
Arregalei os olhos.
— O quê?
— Agora, Jeongguk. Me ataque e me dê um soco — abriu os braços num
convite claro.
— Eu não vou bater em você — mesmo sem querer, minha voz saiu fraca.
— Você não vai me bater. Anda! Me ataca!
Engolindo em seco, hesitei por alguns segundos. Certo, ele queria que eu
lhe desse soco, então assim eu faria. Avancei sobre ele e investi, erguendo
meu braço e tentando acertar seu rosto, mas ele segurou meu punho
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firmemente.
— Está sentindo isso aqui? — Usou a mão livre para dar batidinhas em
meu antebraço — É desajeitamento. Você só está tentando enfiar o punho
em mim, não me dar um soco de verdade.
— Cai fora — grunhi irritado, puxando meu braço com força e dando um
passo para trás —, não vou ficar aqui ouvindo você falando besteira.
— Se você acha — deu de ombros.
— O que você faz aqui, de qualquer forma? Desde quando você precisa
usar uma academia, hein? — Questionei, cruzando os braços.
— Eu jogo tênis, Jeongguk. Preciso me manter em forma constantemente
mesmo estudando — respondeu, sorrindo preguiçosamente — aliás, você
já descobriu quem eu sou? Você garantiu que faria isso na última vez que
nos falamos. Você já teve três dias. É mais do que o suficiente para
descobrir algo.
— Não, não descobri e nem sei se quero também. — Falei, acidamente —
O motivo pela qual eu faria isso seria por curiosidade mesmo, mas aí, eu
lembrei que você não é nada para mim mesmo. Não tem porque eu fazer
isso.
— Você realmente sabe ser grosseiro quando se trata de mim, hum —
comentou, baixinho —, não sabe sequer como reagir às minhas
provocações.
— Você é um idiota, Kim. E acho que você sabe disso. A única coisa que
me indigna é ver como você parece ter orgulho disso, de ser um idiota —
repliquei.
Taehyung estralou o pescoço, fitando-me intensamente.
— Defina idiota.
Ba-ba-ca!
— Ah, vai se foder — fazendo uma careta, estiquei a mão para pegar
minha própria garrafa d'água não muito longe e bebi longos goles.
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— Só acho engraçado que durante toda a nossa interação, eu nunca te
xinguei, mas você parece amar fazer isso comigo — comentou, dando um
sorrisinho —, não sei quem é o pior da situação.
E quando eu acho que a cara de pau dele não tem limites, ele vai lá e me
prova que estou mais do que certo. Consegue ser pior do que tudo!
— Eu vou acabar com você — afirmei, convicto —, é algo que estou
deixando claro aqui. Eu já disse antes, mas quero enfatizar. Nós vamos nos
enfrentar de novo e eu vou acabar com você!
— Será que vai mesmo? — Arqueou uma sobrancelha, desafiador.
Mas eu não cairia nessa provocação.
— Quer apostar?
Abrindo os braços, Taehyung deu um sorriso de canto.
— Não tenho nada a perder.
Ah é? Isso é o que veremos, seu babaca arrogante. Eu não podia ver a hora
em que eu tiraria aquele sorriso condescendente da cara dele.
— Eu vou vencer você no Clube da Luta. Na frente de todos ali e você vai
engolir suas palavras, vai se ajoelhar, beijar o meu pé e mais alguma coisa
que eu ainda vou decidir — respondi.
— Se você vencer, Jeongguk, eu faço o que você quiser — afirmou,
olhando nos meus olhos.
— O que eu quiser? — Estreitei os olhos, desconfiado —, como posso
saber se você vai cumprir sua palavra mesmo?
— Porque eu estou te prometendo. Eu prometo que farei o que você quiser
— falou —, e eu nunca quebro uma promessa. Nunca.
Eu nunca quebro uma promessa... Eu já tinha ouvido aquela frase em
algum lugar, mas não conseguia lembrar de onde exatamente. Um preto
tomava conta da minha mente e nada fazia sentido. Era como se aquela
não fosse a primeira vez que eu ouvia aquilo, mas nada era claro.
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— Certo. E se você ganhar? — Perguntei, temendo o que ele pediria. E ele
nem precisou de alguns segundos para pensar.
Aproximando-se de mim, Taehyung sorriu.
— Uma noite.
— Uma noite o quê? — Indaguei, confuso.
— Eu quero passar uma noite com você. Acho que estou sendo bem claro
aqui, não?
Eu estava boquiaberto.
— Você só pode estar brincando — falei, desacreditado —, para de tirar
sarro com a minha cara, idiota!
— Eu pareço estar brincando? — Tombou a cabeça para o lado —, estou
apostando que caso eu ganhe, você terá que transar comigo. Não é tão
ruim, é? Você acha que estou tirando sarro com a sua cara? Acho que nós
dois sabemos muito bem que eu não estou, Jeongguk. Você pode querer
bancar o bobão não-afetado, mas eu não jogo assim. A coisa é simples. Eu
quero você por uma noite. Mas, se você não quiser, está tudo bem.
— Não é questão de ser bobão ou algo do tipo — protestei, sentindo-me
ofendido —, sexo é algo íntimo demais para mim, Taehyung! Não gosto
dessa coisa de casos de uma noite. Você estava na academia sexta passada,
você ouviu minha conversa com Hoseok. Você não pode querer pedir isso,
sério! — Expliquei, sério —, se isso acontecer, você vai sair falando para
todo mundo que transou comigo e eu odeio imaginar algo assim!
— Você acha que eu sairia contando para alguém? — Olhou em meus
olhos —, você realmente acha que eu espalharia para as pessoas que a
gente transou? Não sou babaca a esse ponto, jagi. E para ser sincero, estou
surpreso. Achei que você citaria seu ódio como o principal motivo para
não aceitar, e não isso.
Eu nem estava lembrando disso, para ser sincero. O ódio era o de menos
agora.
— Ódio não se compara quando a questão a ser tratada são os meus
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princípios — retruquei —, e eu não vou aceitar esse tipo de coisa.
— Tudo bem, então — deu de ombros, pegando sua garrafa d'água.
— Espera, aonde você vai? — Questionei —, vai fugir da aposta?
— Não sou eu quem está indo contra os pedidos do outro — apontou,
sorrindo de lado —, eu aceitei a sua parte do acordo que diz que eu teria de
fazer o que você quisesse. Qualquer coisa. Não tenho ideia do que diabos
você poderia pedir, mas poderia ser algo constrangedor para caralho. E eu
fui específico, você teria que transar comigo, mas você recusou. Acho que
não temos um acordo aqui.
— Você não pode estar falando sério!
— Eu pareço não estar? — Umedeceu os lábios, me mostrando seu
piercing por uma fração de segundo —, você acha que eu vou sair
espalhando para todo mundo. Não serei eu quem vai ficar insistindo. Até
porque quem veio com a ideia da aposta foi você.
— Por que diabos você quer isso? — Insisti, meio desesperado. Eu queria
tanto aceitar aquilo. Eu estava tão tentado a concordar com aquilo. Estou
pensando com a maldita cabeça de baixo — por que você tinha que pedir
justo isso?
— Você realmente quer saber? Realmente está interessado? Achei que
nada relacionado a mim te interessasse. Você fez questão de enfatizar isso
muito bem.
Eu odiava ter que engolir minhas próprias palavras.
— Pelo amor de Deus, não estava na cara de que eu estava exagerando? Se
eu não estivesse interessado eu não estaria nem fazendo uma maldita
aposta de que eu sou mais do que capaz de quebrar a sua cara — afirmei,
exaltado.
Os olhos de Taehyung me analisaram, curiosos.
— Você está interessado em mim, jagi?
— Corta as provocações, Kim — falei, carrancudo.
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— Certo. Você quer saber, então. Pois bem, suponhamos que você é um
atraente universitário da Ciência da Computação. Suponhamos também
que você tem um corpo de matar. Suponhamos que nós dois sentimos
atração sexual um pelo outro. Suponhamos que talvez eu esteja afim de
você e você esteja afim de mim. Suponhamos novamente, que você finge
me odiar quando eu aposto uns trezentos dólares que já deve ter se
masturbado pensando em mim porque eu vejo como seu corpo reage a
mim. Não precisa fazer essa cara, essa suposição inclui que talvez eu tenha
feito o mesmo. Talvez — respondeu, dando um sorriso cretino —, preciso
ser mais claro do que porquê sugeri aquilo? Ou será que estou louco? Você
por acaso já sentiu vontade de transar com alguém como um caso de uma
noite? Imagino que não. A questão que enfrentamos aqui é que: o que
exatamente te garante que seria uma noite só?
Não respondi nada, então, ele agarrou a garrafinha novamente.
— Estou indo, jagiya. Se você mudar de ideia, me avise. Tem tantas coisas
acerca de mim que você precisa pensar e descobrir. Toda a vez que eu
conversar com você terminaremos um assunto assim? — Suspirou —, só
não demore muito, Guk.
Abrindo o sorriso maravilhoso e cretino, ele saiu da academia.
[...]
No sábado à noite, infelizmente, tive que sair de novo. Mas dessa vez, o
motivo foi melhor. Era o aniversário de Peter, o melhor amigo de Miles
(irmão mais velho de Ryan) e exatamente como ele fazia em todo ano, nos
convidou para a festa que daria num show bar no centro de Phoenix. Ele
alugara todo o espaço, chamou uma penca de gente e aproveitando o jogo
de luzes do local, alugar uma máquina de fazer espuma.
Todos os anos em que fui foram legais as festas, mas eu temia ter de
encontrar Taehyung. O garoto parecia estar onde quer que eu estava, como
se tivéssemos uma espécie de ímã invisível.
No entanto, percebi que seria tolice deixar de me divertir por causa dele, e
por causa do meu medo irracional de encontrá-lo. Não era como se ele
fosse me morder ou algo do tipo. Eu não podia perder essa festa e eu não o
faria. Minha consideração para com Peter era maior.
62
Passei o sábado todo pensando no que ele pedira como prêmio caso eu o
vencesse. Eu odiava que minha pessoa estivesse considerando aquilo como
uma opção viável quando claramente não era! Mas o pior de tudo era que
eu acreditava nele quando ele dizia que não contaria para ninguém. Eu
acreditava que Taehyung não era esse tipo de babaca, embora ele fosse um
babaca.
Será que eu me arrependeria?
Bem, a única forma de remediar isso era ganhando dele. Aceitando sua
parte do acordo apenas me deixava ainda mais determinado a vencer.
Quando saí do dormitório, eu trajava minha jaqueta esportiva do Sun
Devils, camiseta branca por baixo, calça jeans de lavagem clara e
Timberlands. Parti meu cabelo para que nada tampasse meus olhos e
passei manteiga de cacau em meus lábios. Peguei carona com Ryan e Lisa
até o local da festa. Meu amigo e sua namorada estavam deslumbrantes
naquela noite e arrancavam olhares mesmo com as pessoas vendo suas
mãos entrelaçadas.
— Estamos indo dançar — gritou Ryan quando eu me sentei em uma
banqueta do bar — quer ir junto?
Neguei com a cabeça enquanto os dois assentiram e foram juntos até a
pista de dança dançarem juntinhos. Suspirando, observei o movimento ali
e acabei por me perguntar se Taehyung estava ali. E se estivesse o que ele
estaria fazendo?
Não que eu quisesse reencontrá-lo ou algo do tipo. Não era nada disso, de
forma alguma! Era apenas uma curiosidade saudável e totalmente normal!
— Você está lindo, jagi — Taehyung me cumprimentou, me assustando ao
parar ao meu lado com um copo em mãos —, estou impressionado.
Dizer que eu estava boquiaberto era pouco. Taehyung não cansava de me
impressionar quando se tratava de sua aparência e isso era claro. Ele usava
uma camisa de botões preta, as mangas arregaçadas mostrava algumas
tatuagens. Calça jeans, tênis e uma bandana escura acompanhavam o look.
Eu queria agradecer e dizer que ele estava deslumbrante, mas ao invés, não
foi isso que saiu dos meus lábios.
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— Você por acaso me persegue? — Indaguei, arqueando a sobrancelha.
Eu estava falando sério. Não era possível!
— Boa parte da universidade foi convidada, Jeon — respondeu,
debochado e dando um gole em seu drink azul —, não é como se eu não
estivesse incluído nisso. Sou meio popular, temo.
Metido.
— Certo. Achei que depois da sua proposta indecente, você não teria a
cara de pau de vir conversar comigo — comentei, encarando-o.
— Ainda bem que vergonha na cara nunca foi uma das minhas melhores
qualidades mesmo — deu de ombros —, eu ia oferecer para te ajudar,
Jeongguk. Eu ia oferecer para te dar umas aulas de luta e te ensinar como
se luta de verdade.
— Passo — respondi.
— Ouch — sorriu.
— É impressionante que um garoto vindo de família rica como você saiba
como lutar, mas não, não quero sua ajuda.
Taehyung pareceu divertido com o que falei.
— Brigas de rua, jagi. Não é como se eu nunca tivesse brigado antes —
comentou, alegremente.
Isso era... interessante.
— O que diabos é jagi? — Quis saber, carrancudo. Ele ficava me
chamando disso!
— Se eu falar, talvez você não vá gostar — deu um sorriso forçado.
— Você está me xingando? — O fitei com olhos cerrados.
— Longe disso, Jeongguk — outro gole no drink azul.
— Você já pode ir embora — falei, incomodado.
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Rindo, Taehyung me fitou.
— Está me expulsando daqui? Que feio, jagi.
Revirei os olhos.
— Você quem está me perturbando! E pare de me chamar assim! —
Exclamei.
— Acho justo — virou o drink de uma vez e o apoiou contra o balcão,
limpando a boca com as costas da mão.
Desviei o olhar de sua figura e olhei para a pista de dança. Foi aí que vi. A
pior cena que se podia imaginar. Meu ex-namorado se aproximando do bar
abraçado de outro homem. Ele não podia ver que eu terminei com ele e
estava sozinho. Isso dar merda. Eu não podia deixar. Como ia ficar o meu
orgulho? Ele certamente não perderia uma chance dessas comigo. Afinal,
quem terminou o namoro fui eu, e eu não devia estar sozinho. Assim eram
as regras.
Então, antes de pensar direito, puxei a camisa preta de Taehyung e o
trouxe para perto de mim, arrancando um olhar indagativo do mesmo. Ele
me encarava de forma intensa, tentando entender o que me impulsionou a
fazer aquilo, mas não parecendo nada incomodado também.
— Por favor, me diz que você é um bom ator! — Sussurrei, desesperado.
— O que? — Riu baixo perto de minha bochecha.
— Por favor! — Implorei.
— Jeongguk? — A voz de Yugyeom soou às minhas costas.
Eu o conheci quando fui com meus pais em um evento sobre a cultura
coreana em Los Angeles e descobri que ele era da mesma cidade que eu.
Esse tipo de evento era até muito legal, até porque a única vez que me
lembro de ter passado uns cinco dias na Coreia foi quando eu era criança, e
isso meio que me conectava às minhas raízes.
Travei no lugar, arregalando os olhos e engolindo em seco só de imaginar
o quão humilhante aquela situação seria por si só e eu desejei morrer do
que ter que passar por aquilo, sinceramente.
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Até que o próprio Taehyung olhou para ele e depois para mim e pareceu
pegar a situação. Ele abriu um sorriso radiante e levantou meu queixo com
uma mão, obrigando-me a encará-lo. Seus olhos transmitiam segurança
para mim, e envolvendo minha cintura com seu braço, o Kim me virou,
fazendo com que encarássemos meu ex. Meu corpo estava pressionado
contra o seu com força, e o mais incrível foi que eu não me importei.
Taehyung estava quente.
— Yugyeom — cumprimentei — quanto tempo!
— Pois é! Nem eu acredito! — Disse —, ah sim, este é BamBam, meu
namorado!
A forma como ele apresentou o rapaz ficou claro que era uma forma de
mostrar que ele me superou ou sei lá. A forma como ele o introduziu foi
totalmente proposital, e disso eu tenho certeza. Até a maneira como ele
tocou o rosto dele com carinho e tal. Me fez querer revirar os olhos, sério.
— Este é... hm — mordi o lábio, incerto, e fitei o Kim ao meu lado.
— Eu sou Taehyung, sou namorado do Jeongguk — respondeu o Kim,
sorrindo.
Yugyeom nos analisou com os olhos semicerrados.
— Sério? Estranho, parece que eu tinha visto vocês discutirem —
comentou.
— A gente tem várias discussões bobas, mas sempre as resolvemos depois
entre quatro paredes — disse Taehyung, apertando minha cintura.
Meu ex assentiu, claramente analisando cada palavra proferida pelo meu
namorado.
— Vocês nos dão licença, por favor? Foi muito bom te ver, Jeongguk —
acenou, tentando esconder a careta e puxando o outro garoto pelo braço.
Quando ele se afastou, eu suspirei.
— Obrigado — sussurrei baixinho —, isso tudo é tão ridiculamente clichê,
mas obrigado.
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— Disponha. — Sorriu divertido —, mas, seu ex está olhando para cá com
o tal namorado dele. Eles não parecem namorar de verdade, hein.
— E nem nós — protestei, vendo que Yugyeom nos olhava de esguelha da
pista de dança, longe de nós, ao lado do garoto que dissera ser seu
namorado —, ele deve achar que eu menti igual ele.
— A gente pode dar um jeito — Taehyung me olhou nos olhos e eu
entendi muito bem o que ele quis dizer com isso.
Minha parte racional gritava que aquilo não podia acontecer jamais, que eu
odiava, que ele pisara no meu orgulho, que ele era um idiota, que eu devia
manter distância, mas meu corpo não dava ouvido a essa parte de mim. Era
como se tivesse vida própria e naquele momento, eu me vi ansiando por
aquele beijo.
Eu queria beijar aquele desgraçado do Kim Taehyung... ah, e eu ia.
Devagar, caminhei para perto de si e toquei suas duas bochechas, enquanto
ele segurava minha cintura firmemente. Respirando fundo, fechei os olhos
e abri novamente, dando-lhe um pequeno beijo. Comecei devagar, apenas
no toque sutil de lábios. Os lábios macios dele se moviam contra os meus.
Eu podia sentir o gosto da minha manteiga de cacau naquele beijo.
Até que eu pedi passagem com minha língua e Taehyung a concedeu.
Nossas línguas se enroscaram numa batalha deliciosa quando nós nos
beijamos com mais fervor. Blue Hawaii. Era o que ele estava bebendo.
Aquele gosto geladinho e agradável misturado ao rum era difícil de não se
reconhecer. E céus, os lábios dele eram viciantes.
— Eu te odeio muito. Você não faz ideia do quanto eu ainda quero quebrar
a sua cara — murmurei entre beijos —, seu canalha arrogante.
— Eu tenho uma ideia disso sim — sorriu contra meus lábios.
Finalizei o ósculo dando-lhe selinhos.
— Ele ainda está olhando? — Perguntei baixinho, sem me afastar.
Taehyung nem se incomodou de virar a cabeça para ver e confirmar,
apenas assentiu descaradamente, sorrindo sem mostrar os dentes. E eu
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gostei daquilo, gostei demais.
Sem perder pressa, o beijei novamente, agarrando seus cabelos vermelhos
e já iniciando um beijo particularmente desesperado e intenso numa
bagunça de línguas e dentes. Ele fazia carinho na minha cintura, mas
desceu a mão para o bolso da minha calça jeans, apertando meu traseiro.
Soltei um gemidinho contra seus lábios e tentei retomar o controle do
beijo, sem sucesso. Taehyung era do tipo que comandava o beijo. Era do
tipo arrancava todo o meu fôlego, e céus, eu estava adorando aquilo.
Acariciando minha língua, ele a puxou com cuidado e a chupou, fazendo
com que eu gemesse manhoso contra seus lábios. Aquilo era bom demais.
Sem parar de me beijar, ele me guiou para fora do bar, fazendo-me
caminhar de costas até encostar-me contra uma parede fria. Não liguei.
Aproximei-me o máximo que pude e encostei meu abdômen contra o dele
o máximo que pude, acariciando e puxando seus fios avermelhados
enquanto nos beijávamos com uma vontade impressionante.
Mordendo meu lábio inferior, Taehyung sorriu e puxou minha cintura para
que ficássemos ainda mais juntos. Eu o sentia em todos os lugares e aquilo
era estupidamente gostoso. Não tinha sequer palavras. E sinceramente, não
ia demorar para que uma ereção crescesse. Aquele era definitivamente o
melhor beijo que já tive o prazer de experimentar.
— Ele ainda pode estar olhando — comentei, recuperando o fôlego e
fitando seus lábios cheios avermelhados.
— Melhor não arriscar — respondeu antes de se aproximar novamente e
passar a língua sobre meu lábio superior, provocando-me. Eu queria gritar
para que ele parasse com aquilo e me beijasse logo. Sorte que ele parecia
disposto.
Guiando seus lábios para os meus, novamente iniciamos um ósculo furioso
e cheio de desejo.
Eu sabia que a gente estava inventando desculpa para poder se beijar, mas
nenhum de nós ligava. O que importava era que aquilo estava bom para
caralho e eu queria beijar Taehyung até ficar sem fôlego algum mesmo.
Porque ele sabia beijar. Oh, se sabia.
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Surpreendendo-me, ele interrompeu o beijo e imprensando-me contra a
parede novamente, ele desceu os lábios para meu pescoço, distribuindo
beijos e mordiscadas sobre minha pele branquinha. Eu só conseguia gemer
manhoso, apreciando todas aquelas carícias.
Caralho, eu não ia aguentar. Aquele ruivo estava acabando comigo de uma
forma inexplicável. Eu precisava de mais! Nós não podíamos nos limitar a
apenas isso, nos beijar para que eu pudesse fingir que tinha um namorado
na frente do meu ex. Eu não queria fazer isso simplesmente por causa
disso.
Eu queria que rolasse algo porque eu queria!
— Taehyung, eu aceito — murmurei com a voz falha.
— O quê? — Resmungou contra a pele de meu maxilar.
— Sua parte do acordo. Eu aceito — porque se eu ganhasse, eu
provavelmente pediria para você desfilar pelado na minha frente. Ainda
mais depois de hoje.
Sorrindo contra minha pele, Taehyung baixou a mão para o bolso da frente
da minha calça.
Agarrando meu celular, ele o ergueu num pedido silencioso para que eu
colocasse minha impressão digital e o desbloqueasse. O fiz, e ele fuçou
alguma coisa no display. Não reclamei, nem neguei nada, até que vi. Ele
adicionara seu número, abrira o iMessage e me fez mandar-lhe um smiley
face para que depois ele salvasse o meu número.
— Minha intenção nunca foi a de te humilhar no Clube da Luta. Talvez te
intimidar. — Confessou —, mas eu adoraria se você pudesse ganhar a luta.
Quando quiser, te darei aulas. Estou à disposição.
Dessa vez, quem sorriu fui eu.
Cretino arrogante.
— Hum — murmurei, ainda sorrindo.
Minhas mãos estavam mergulhadas em seus fios vermelhos, fazendo um
carinho sutil, mesmo que involuntário enquanto os lábios dele retornaram
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para o meu pescoço, começando a arroxear minha pele com chupões.
Ele enfiara meu celular de volta em meu bolso e suas duas mãos
apertavam a minha cintura. Eu sabia que provavelmente me martirizaria
por estar aos beijos e amassos com Taehyung; minha consciência me
repreendia, mas o meu corpo e o meu bom-senso estavam dando o foda-se
para aquilo. Eu o deixava me beijar porque eu queria e porque estava bom
demais, puta que pariu.
Não importava se Yugyeom estava vendo ou não, isso não importava mais.
Apenas que merda, eu estava começando a me excitar com aqueles
contatos, estremecendo toda a maldita vez em que a respiração quente
batia contra minha pele fria, tamanho era o calor que eu sentia.
Se eu fosse sincero comigo mesmo, admitiria que nós dois podíamos jogar
todo o acordo no lixo, pois se dependesse de mim, a gente faria sexo
naquele exato momento. Eu o levaria para um hotel e mataria esse desejo
insano que me consumia. Estou sem sexo a tanto tempo e isso nunca fez
diferença para mim. Até agora. Era loucura, mas como eu podia explicar
que sentir Taehyung beijar meu pescoço e apertar-me contra si estava me
deixando mais excitado do nunca? Eu nunca me senti assim, desesperado
ao ponto de precisar transar.
A perna direita dele se enfiou entre as minhas e automaticamente, me
acomodei ali, sobre sua coxa, abrindo mais as minhas próprias pernas e
sentando-me confortavelmente. Meu pênis estava começando a doer e eu
mordi meu lábio, esfregando-me sutilmente. Movia meus quadris num
ritmo suave, desesperado por um pouco de fricção. Ele não impediu meus
movimentos, e enquanto isso, continuei cavalgando contra sua coxa,
mexendo-me contra si e procurando alívio. Aquilo era tão bom, que
involuntariamente, gemi alto, apenas me esfregando e sentindo-o contra
meu membro.
Notando meu desespero, Taehyung levantou a cabeça e seus olhos
encontraram os meus, enquanto minhas mãos se mantinham firmemente
entrelaçadas em seus cabelos sedosos.
— Jeongguk? — Sussurrou baixinho.
Engoli em seco, arregalando os olhos por uma fração de segundo. Eu
estava me esfregando contra ele. Puta merda, ele nem parece estar tão
70
afetado assim! Ou será que era só impressão minha? Afinal, seu peito
subia e descia numa velocidade sem igual, sua respiração falhava, e o
volume em sua calça denunciava a ereção.
— O quê? — Devolvi, falando ainda mais baixo.
— Não podemos fazer nada hoje — pelo seu tom de voz, ele parecia
aborrecido —, eu não sei você, mas eu não estou cem por cento sóbrio, e
quando nós fizermos isso pela primeira vez, jagi — seus olhos pareceram
se escurecer um pouco —¸eu quero estar totalmente consciente do que
estou fazendo. Quero fazer você gritar de prazer, mas sem um pingo de
álcool nas veias.
Ali estava ele, admitindo em alto e bom som o quanto ele me desejava. E
porra, o quão controverso isso soava em minha cabeça.
— Sim, não vamos fazer nada porque eu não quero fazer nada também —
retruquei, falando a primeira merda que veio em minha cabeça —, você
fala de uma primeira vez como se fossem ocorrer outras. Se houver
alguma chance de isso ocorrer será por causa do acordo idiota que eu
aceitei. Não sonha, não, viu!
E com aquela resposta escrota (admito que foi), quebrei todo o clima que
tinha se instaurado entre nós. A perna direita dele saiu de dentre minhas
coxas e me fez querer soltar um gemidinho de protesto, mas não o fiz. Eu
não estava maluco, ele realmente parecia estar chateado com minhas
palavras, e puto, para não dizer o mínimo.
— Se você não quer nada, então fala isso para o seu corpo, porque
aparentemente, ele tem vida própria!
— Você só pode estar tirando uma com a minha cara! Não venha querer
bancar o ofendido com a situação porque eu claramente te rejeitei, ou sei lá
— rebati, cruzando os braços e estremecendo quando ele deu um passo
para trás, deixando que uma corrente de ar gelada transpassasse entre nós
—, lembra que antes de tudo, eu te odeio porque você é um idiota que teve
o maior prazer em me humilhar. Não espere que eu vá abrir as pernas para
você!
— Um idiota que você não se importou em fingir ser seu namorado, e
muito menos em beijar — apontou, arqueando uma sobrancelha —, eu não
71
disse que minha intenção não foi te humilhar, ou você por acaso não ouviu
uma palavra sequer do que eu disse?
— Ouvi sim, e ainda teve a pachorra de se oferecer para me dar aulas para
que eu ganhe a luta — debochei —, e outra coisa, como assim não teve
intenção? Você por acaso se lembra do que disse?
— Claro que eu ofereci, eu quero que você ganhe! Qualquer pessoa que
fosse se voluntariar para lutar com você teria te dado uma surra — afirmou
—, eu evitei que isso acontecesse. Mas tiveram dois motivos que me
motivaram a agir daquela forma.
— Quer que eu ganhe? Deixa de ser mentiroso! Você não vê a hora de
vencer para me levar para a cama! Admite, seu cretino — esbravejei —, e
eu devia por acaso interpretar suas atitudes como um ato de compaixão,
então? Oh, santo Taehyung, obrigado por ter poupado meu belo traseiro de
ter sido chutado. Quaisquer que sejam os seus motivos, eles claramente
foram muito dignos!
Devagar, Taehyung se aproximou de mim, e instintivamente, recuei um
passo para trás, encostando-me contra a parede novamente. Um braço dele
estava ao lado da minha cabeça, sua mão firmemente apoiada na parede.
Seu olhar penetrante encontrava o meu, e enquanto eu fazia um biquinho
emburrado, me recusei a ser o primeiro a acabar com a troca de olhares.
Ele queria me intimidar? Vamos ver quem toma a melhor nessa!
— Para que eu mentiria? — Perguntou, — não seria mais fácil para mim
apenas ganhar a luta e ter uma noite com você? Você já deixou claro o
quanto abomina a ideia de casos de uma noite só, e ainda assim, enquanto
eu te beijava até te deixar sem ar, você aceitou minha parte da aposta sem
nem pestanejar — passou a língua pelos lábios e eu não resisti em
observar. O filho da puta conseguia ser atraente com uma passada de
língua pelos lábios. Pela primeira vez, notei uma coisa: ele não estava
usando o piercing na língua. Durante toda a nossa interminável sessão de
beijos, não senti o metal do piercing e nem percebi isso de tão... distraído.
Mas que droga —, no entanto, não era o que eu queria, e como eu sei que
você não quer também, você tem uma determinação extra para vencer essa
luta, afinal, você não terá que transar comigo. — Suspirou —, ato de
compaixão? Sério? Claro que não, jagi. Quanto aos motivos, bom,
claramente vejo que eles não valem nada mesmo já que você não sabe
quem eu sou. Apenas me pergunto porque diabos eu ainda ligo para eles.
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E de repente, toda a hostilidade que eu estava sentindo sumiu, dando lugar
à confusão. A forma como ele falara, as coisas que ele falara. Não houve
um pingo de provocação em tudo o que fora dito e eu pude perceber isso.
Ele fora sincero, e parecia cansado. E agora, eu estava confuso. Aquele
garoto parado na minha frente.... Como pode ser possível? Algo nessa
história não se encaixa! Franzindo minha testa, agarrei a gola de sua
camisa e o virei, encostando-o contra a parede e apertando-o com força
contra a mesma. Embora ele parecera surpreso com a minha atitude, ele
não reagiu ou me impediu.
— Eu não entendo... — sussurrei, olhando em seus olhos —, de onde eu
conheço você? O que foi que nós, por acaso, tivemos no passado? Quem é
você, Taehyung? E por que eu não lembro de você? Eu não consigo
entender, não existe a mínima possibilidade de eu não lembrar de alguém
como você! Olha para você, porra! Você não é alguém esquecível!
— Será mesmo? — Sua voz grave soou contra meu ouvido e me vi
arrepiando.
Observando cada detalhe de seu rosto, em silêncio, absorvi cada detalhe,
desde seus cabelos escarlates, para seus olhos expressivos, os lábios
cheinhos, as pintinhas espalhadas. Incluindo uma no nariz e uma em seu
lábio inferior. Ele tinha a minha altura, e seus ombros eram largos e
firmes. Os braços eram fortes (suponho que seja pelo tênis) assim como
todo o seu corpo, embora ele não fosse exatamente musculoso. Taehyung
era definitivamente um dos garotos mais bonitos que eu já vira. Só de
olhar para ele, eu sentia coisas estranhas dentro de mim graças a atração
que tínhamos um pelo outro.
E o mais estranho era que agora, observando-o atentamente e com calma,
absorvendo cada pedacinho de sua feição, eu tive certeza: eu já o tinha o
visto antes sim. Eu o conhecia de algum lugar, mas eu não era capaz de me
lembrar com clareza onde e quando, porque um breu tomava minha mente
somado a lágrimas, e uma lembrança distante de estar observando o sol se
pôr.
— Eu não consigo me lembrar — grunhi frustrado —, só me vem um breu
à mente e lágrimas, acho que eu estava chorando, e teve alguma coisa
relacionada com o pôr do sol. Eu não entendo.
No entanto, aquela minha resposta fez Taehyung arregalar os olhos,
73
surpreso. Era quase como se ele não esperasse que eu fosse lembrar de
algum detalhe, não da forma como eu agia, pelo menos. Estávamos num
clima estranho e eu não sabia se isso era decorrente das coisas que eu falei
ou se era decorrente de algo que aconteceu. Nem parece que minutos atrás
nós dois estávamos nos agarrando animadamente contra aquela mesma
parede e depois tivemos mais uma discussão.
As mãos de Taehyung agarraram os meus dois pulsos, retirando meu
aperto de sua camisa e fez um carinho sutil sobre as veias saltadas que eu
tinha na parte de dentro do pulso usando seus dedões. Respirando fundo,
ele deu um sorrisinho de lado e se aproximou de mim mais uma vez,
segurando meus pulsos. Devagar, seus dedos foram subindo até que nossas
mãos se entrelaçaram, levantadas contra o ar e eu ignorei o quão bom foi
sentir os dedos geladinhos dele contra os meus.
— Sei que está muito cedo ainda, mas quer uma carona até o dormitório?
Acho que a gente podia conversar um pouco até lá — lambeu os lábios
novamente e eu xinguei mentalmente. Era uma mania dele. Ele tinha
mania de umedecer os malditos lábios cheios que eu tive o prazer de
beijar.
Sem pestanejar, assenti.
Abaixando nossos braços, ele soltou uma de minhas mãos e com a outra,
me levou para fora do bar. Qualquer pessoa que nos visse agora, afirmaria
que nós éramos namorados ou algo do tipo, já que estávamos de mãos
dadas.
Minha mente confusa e controversa gritava contra as minhas ações. Eu
podia contar nos dedos o tempo que passou até que eu cedesse. Foram o
quê? Duas semanas? Ou três? Era uma sexta-feira à noite quando conheci
Taehyung e desde aquele dia, me vi comportando de uma forma estranha.
Disposto a me vingar dele e quebrar sua cara para reparar meu orgulho,
mas o grande problema era minha maldita atração. Não consigo mais
mentir para mim mesmo nessa altura do campeonato, não quando me
esfreguei na coxa dele, puta merda.
Eu não tinha nem noção da existência daquele garoto há menos de um mês
atrás, e agora, todos os meus pensamentos estavam nele, seja por ódio, por
vontade de querer quebrar sua cara por suas palavras provocadoras... seja
por imaginar ele transando comigo. Isso era tão estranho!
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Acho que o ideal seria dizer que ao mesmo tempo em que eu o odiava por
ter abalado minhas estruturas, eu queria que ele me fodesse em meu
dormitório até que o sol raiasse. Eu me entreguei tão rápido, cedi tão
rápido. Quando Yugyeom apareceu eu realmente quis encontrar uma
forma de escapar de uma eventual humilhação, mas quando beijei
Taehyung... aquele era eu mesmo. Sem juízo algum.
Caminhando pelo estacionamento, aguardei para que ele me direcionasse
até alguma moto (é o esperado de um bad boy), mas ao invés disso, ele
enfiou a mão no bolso da calça, retirou uma chave de lá e o alarme de uma
Range Rover Velar soou em meio a tantos carros. Arregalei os olhos,
surpreso. Os meus pais não eram exatamente pobres, tínhamos uma
condição financeira confortável de uma família de classe média norte-
americana, mas não era do tipo que nos permitia comprar uma Range
Rover. Fitei Taehyung de forma questionadora ao o que ele apenas deu de
ombros.
— Minha família tem um pouco mais de condição do que a maioria das
famílias — disse, como se não fosse nada demais.
— Ricos, você quer dizer — refiz sua sentença —, não há necessidade de
ter medo de pronunciar essa palavra. Ela não é feia, sabia?
Taehyung deu uma risada e me fitou.
— Sim, senhor — puxou-me até a lateral do carro e abriu a porta do
passageiro. Ao finalmente soltar sua mão, sorri agradecido e entrei no
carro sentindo outra vontade súbita de gritar comigo mesmo pelos meus
pensamentos controversos.
Ele deu a volta no veículo, adentrou o lado do motorista e colocou a chave
na ignição, dando partida para fora do estacionamento.
Observar os braços dele enquanto manobrava o carro era tão...
interessante. Como suas mangas estavam arregaçadas, eu podia ver seus
músculos se contraindo a medida em que ele girava o volante e eu quis
poder me debruçar e enterrar meu rosto em seu pescoço, sentindo seu
cheiro gostoso e tocar naqueles braços com a ponta de meus dedos, mas
espantei aqueles pensamentos, observando seu rosto. A forma como ele
franzia as sobrancelhas olhando pelo retrovisor ou como lambia os lábios
inconscientemente...
75
— Taehyung...? — Perguntei, meio incerto.
— Sim? — Não desviou o olhar do trânsito.
— Como nós nos conhecemos? Porque a gente se conheceu antes daquele
dia no Clube da Luta quando você me perguntou se eu ia fugir feito um
franguinho assustado, certo? — Perguntei, logo depois recordando o que
aconteceu
Ante a minha pergunta, ele enrijeceu no assento, mordendo o lábio.
Parecia na dúvida se me contaria ou não, mesmo que eu já tivesse o
questionado acerca de sua identidade diversas vezes ao curso de todas as
vezes em que interagimos.
— Desculpe pela coisa do franguinho assustado, foi naquele momento em
que descobri como provocar você é irresistível — sorriu por uma fração de
segundo antes de ficar sério novamente — E eu não posso, Jeongguk —
lamentou —, se eu te contar, talvez você não entenda, não aceite. Se você
descobrir por si próprio, acho que será menos pior.
— Por quê? A gente cometeu algum delito no passado ou o quê? —
Questionei.
— Não, Jeongguk, não é isso, caramba — parou num sinal e passou a mão
pelos cabelos antes de se virar para me fitar. Os semáforos demoravam por
volta de 30 segundos para fechar de acordo com os cronômetros
eletrônicos —, você mudou muito, não que eu esperasse que você fosse ser
a mesma pessoa de anos atrás. É só que tenho me perguntado se realmente
vale a pena me manter àquela promessa. Eu nunca quebrei algo que
prometi, mas estou começando a achar que talvez essa seja a primeira vez.
— Você por acaso me prometeu alguma coisa? — Minhas palmas
começavam a suar e eu não sabia o que fazer, como reagir —, por que
simplesmente não me conta logo? Olha, estou disposto a esquecer todas as
vezes em que você me ofendeu ou pisou no meu orgulho se me contar!
Estou disposto a esquecer as provocações e tudo mais, mas me conta!
O sinal verde abriu e Taehyung acelerou a Range Rover, passando pela
avenida Apache. Estávamos perto do dormitório, mas eu me mantinha
determinado. Eu queria que ele me contasse logo. Ele me conhecia tanto,
sabia da minha insegurança com elogios, sabia de detalhes da minha vida.
76
Será que ele não via como meu corpo reagia a ele? Ele não via como
apesar das minhas afirmações controversas, eu o beijei desesperado?
Taehyung por acaso esperava que eu fosse lhe dar um fora? Eu concordei
em transar com ele por uma noite, coisa que eu nunca sonharia em fazer na
vida.
O que diabos ele não parecia entender?
Merda, eu estava a ponto de gritar de frustração com a situação. Se nós
dois tínhamos uma ligação, uma conexão no passado, por que ele não
contou logo de antemão?
— Eu não posso! Você precisa entender que eu não posso! — Exclamou,
parecendo tão frustrado quanto eu —, Jeongguk, porra... eu sou um
esquisitão, essa é a verdade. Eu não posso te contar a verdade.
— Por quê? — Faltei berrar.
— Porque você não me notou desde que cheguei aos Estados Unidos,
Jeongguk. Droga, eu.... Eu esperei tanto tempo por isso e você sequer
lembrou do meu nome — estacionou o carro —, você só percebeu que eu
existia quando eu te provoquei e feri o seu orgulho num maldito Clube de
Luta.
Eu estava mudo, chocado. Todas aquelas palavras me atingindo como um
choque tremendo. Ele tentara chamar a minha atenção? E eu não notei?
Quando...? Isso não era possível!
— E depois, você me disse que eu não sou alguém esquecível — deu uma
risadinha amarga —, engraçado você ter dito isso, porque você me
esqueceu.
— Taehyung, eu lamen...
— Não! — Interrompeu-me, apertando o volante com força —, vai se
foder, Jeongguk, eu não quero sua pena! Não quero você dizendo que
lamenta! Não olhe para mim com esses olhinhos cheio de compaixão!
— O que você quer que eu faça então, porra? — Devolvi, meio chocado
por vê-lo ser grosso comigo pela primeira vez, embora eu o trate com
grosseria em praticamente todas as pequenas conversas que a gente já teve.
77
— Eu quero que você lembre, Jeongguk. Lembre-se da promessa que você
me fez fazer, caramba! Você me obrigou a repetir aquilo três vezes em voz
alta! — Exclamou —, eu não consigo entender como você não lembra de
nada daquele dia! Ah não ser que não significou nada para você!
Mas era aí que estava a coisa. Eu nunca fiz alguém prometer algo para
mim, não desde que me entendo por gente. Se eu fiz isso, embora não
lembre, significou algo sim. Eu só precisava saber o que foi.
— Taehyung... — sussurrei com cautela —, você tem certeza de que fui
eu? Não teria sido outro Jeongguk?
Virando-se sobre o assento, ele me encarou com as sobrancelhas franzidas.
— Jeon Jeongguk, mora em Phoenix, Arizona, e sonhava em estudar na
ASU. Nascido em setembro de 1997, passou as férias com os pais na
Coréia do Sul em 2007...
— Espere um instante — o interrompi —, como você sabe que...
Ah, meu Deus. Como eu sou burro! Puta que pariu! É claro!
— A gente se conheceu quando criança — sussurrei para mim mesmo em
voz alta —, quando fui passar as férias na Coréia. Mas, não entendo. Você
é de Daegu e eu lembro que passei todo o período das férias em Busan, na
cidade dos meus pais.
— Como sabe que eu sou de Daegu? — Quis saber, cruzando os braços.
— Estava no seu Facebook, oras — e logo que as palavras deixaram meus
lábios, os tapei com minhas mãos, arregalando os olhos.
Era oficial, eu queria morrer. Queria me enfiar em um buraco e só sair de
lá em 2047, de preferência quando Taehyung já estivesse fora dos Estados
Unidos. Não acredito que revelei na cara dura que eu tinha stalkeado ele.
— E o que mais você descobriu no meu perfil? — Perguntou, sorrindo
travesso —, espero que tenha visto a foto do meu cachorro. Você viu o
Yeontan? Ele é fofo, não é?
— Vai se foder — eu estava aborrecido.
78
— Estávamos falando sobre o passado há segundos atrás, quem citou meu
Facebook foi você — seu sorriso aumentou, enquanto ele apoiava a lateral
do corpo preguiçosamente contra o banco de couro.
— Mas, sim. Ele é fofo — soltei, baixinho.
Taehyung suspirou ao meu lado e estralou o pescoço, ligando a rádio do
carro. Tocou na tela touchscreen algumas vezes, escolhendo o que
ouviríamos, até que uma música de alguma banda de rock começou a soar
baixinho pelo som.
— Esperava Mozart, ou Beethoven. Você não gosta de música clássica? —
Perguntei, confuso.
— Amo, na verdade. Mas, não revelo tudo sobre meus gostos no Facebook
— deu uma risadinha, fazendo-me fechar a cara —, aliás, estou achando
muito interessante essa descoberta de que você me procurou nas redes
sociais. Sinal que eu significo algo para você, não é?
— Eu só fiz isso porque para vencer o inimigo, nós temos que conhecê-lo
— retruquei —, você nunca leu A Arte da Guerra, não?
— Não me recordo de Sun Tzu ter escrito alguma coisa avisando que você
precisa saber do cachorro do seu inimigo ou algo assim.
— Ah, fala sério, aquilo foi somente uma informação que veio em
conjunto! — Protestei —, eu não entrei lá esperando achar o seu cachorro.
— E o que mais você achou? Ah é, que eu sou de Daegu. Considerando
que estamos nos Estados Unidos, como isso vai te ajudar a me vencer,
mesmo? — Deu um sorrisinho cretino.
— Você pode ter um podre ou algum escândalo, sei lá — respondi.
Taehyung parecia estar se segurando para não rir alto e aquilo me irritou.
— Você precisa me vencer numa partida de luta. Você não precisa saber
de nada meu para me vencer — apontou —, admite que você entrou lá
porque queria saber quem eu era.
— Jamais, essa não foi minha intenção. Não viaja, não.
79
— Então, não gosta de mim ainda? — Fez um biquinho.
Balancei a cabeça veementemente, tentando convencer a mim mesmo de
que isso era verdade.
— Se você não gosta, por que você estava se esfregando contra mim?
Você sai se esfregando nas pessoas que não gosta? — Debruçou-se sobre o
painel de botões entre os dois bancos e se aproximou de mim. Ao invés de
me afastar, deixei que ele fosse chegando mais perto.
— Eu não me esfreguei porque eu gosto de você — resmunguei —, foi
porque eu estava com uma maldita ereção e estava doendo. Não tinha nada
a ver com você.
— Certo, e o que causou a sua ereção dolorosa?
— Estímulo — engoli em seco.
— Que tipo de estímulo, Jeongguk? — Se aproximou um pouco mais.
— De lábios... — minha voz falhou um pouco.
— Então, quer dizer, que você ficou excitado beijando um cara que você
não gosta, e ainda se esfregou contra ele? — Deu um sorrisinho de canto,
encostando seu nariz contra o meu —, tsc, tsc, você é um garoto levado,
sabia? Mas, não se preocupe. Eu adoro isso. Principalmente na cama.
Sem tirar o maldito sorrisinho do rosto, ele passou os lábios por minha
bochecha esquerda e eu fechei os olhos, sentindo sua respiração quente
bater contra minha pele e me causou pequenos arrepios. Ele chegou um
pouquinho mais perto e puxou meu lábio inferior com os dentes e começou
a mordisca-lo devagar, passando a língua e me provocando. Eu queria que
ele me beijasse de novo. Eu ansiava para que ele me beijasse de novo, mas
eu nunca ia admitir isso em voz alta.
Então, resolvi tomar o partido eu mesmo. Soltei meu lábio de seus dentes e
agarrando seus cabelos com uma mão, esmaguei minha boca na dele, num
beijo molhado e nada ritmado. Sim, a gente estava se insultando e
discutindo há menos de cinco minutos e agora, cá estou eu, beijando-o
com toda a minha vontade. Sim, eu desisti de tentar entender alguma coisa
aqui.
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Taehyung segurava minha cintura com firmeza e fazia carinhos sutis com
seus dedões, sorrindo vez ou outra quando eu soltava pequena arfadas
contra o beijo. Eu experimentei o que era beijá-lo mais cedo naquela noite
e estava ansioso para provar novamente. E para ser sincero, histórias de
ficção onde inimigos acabam por terem um caso juntos são sempre as mais
emocionantes.
Repetindo a ação de mais cedo, ele puxou minha língua e a chupou,
fazendo-me gemer manhoso.
— Vem cá, vem — largou minha cintura e deu duas batidinhas na coxa.
Desgraçado gostoso.
Louco de desejo e vontade, não pensei duas vezes, levantei de meu assento
e atravessei o painel até estar sentado em seu colo. É isso, acabei de
assinar minha sentença de morte e falta de juízo, foi bem ali.
Colocando minhas coxas cada uma ao lado de seu quadril, agarrei seu
pescoço, enquanto as mãos dele desceram por meu corpo, apertando-me.
Retomamos o beijo e dessa vez, ele apertou minhas coxas.
— Caramba... — resmungou.
— Taehyung? — O chamei, engolindo outro gemido quando ele levou as
mãos até o meu traseiro e o apertou —, eu vou lembrar quem é você. Eu...
quero saber o que fiz você prometer! Isso daqui, puta merda. Eu fico com
tanta raiva de lembrar do que você fez naquela noite, mas ao mesmo
tempo, eu quero te beijar até você ficar sem ar. Eu nunca me senti assim
antes, tão sem controle — ele subiu as mãos para dentro da minha
camiseta e tocou minha barriga. Reprimi outro gemido —, eu não me
reconheço mais desde aquela noite. Eu odeio isso, odeio ver como mudei,
como eu talvez não conhecia a mim mesmo, e eu te odeio mais ainda por
isso.
Odeio também por perceber como a minha vida era sem graça e que eu
estava gostando de como ela estava agora. Eu estava gostando de como as
coisas estavam, de como minha missão por vencer Taehyung deu toda uma
nova dinâmica ao meu dia-a-dia.
— E você vai me vencer naquela luta, Jeongguk — sussurrou, beijando
meus lábios —, te dou até o início de dezembro. Na primeira semana de
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dezembro iremos lutar, e veremos quem sairá vencedor.
Precisei de toda a minha força de vontade para não gemer em protesto.
Estávamos praticamente em outubro, o que significava que faltavam dois
meses. Se ele ganhasse, a gente ia transar, e se eu ganhasse... bem, talvez,
apenas talvez, eu ia querer como prêmio que a gente transasse também. O
que significa que ia demorar para caralho. Eu não queria esperar, merda.
Esperar até dezembro para finalmente matar esse desejo insano que me
consumia?
No entanto, por fora, respondi:
— Então, dezembro será.
Eu me perguntava de verdade se Taehyung era bom de cama. Porque ele
parecia ser. A forma como ele me tocava, me olhava, me beijava. A
respiração dele era o suficiente para me arrepiar completamente, e isso me
fazia questionar se talvez não fosse apenas encenação. Mas algo me dizia
que não era. E eu queria experimentar isso. Queria ter essa oportunidade.
E eu a teria.
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Capítulo 5 - Unbelievable
Infelizmente, eu e Taehyung não prosseguimos com o momento dentro do
carro. Isso porque um dos policiais que faziam a ronda pelo campus
naquela hora da noite nos viu e pediu: "meninos, vamos manter o pudor,
vocês estão num local público". Eu só pude assentir, descer do carro e sair
correndo enquanto Taehyung gritava "e o beijo de boa noite? Namorados
não dão beijos de boa noite? "
A cara de pau era admirável naquele momento, mas tive que dar o
desconto. Durante toda a situação, ele apenas riu. Ele não se importou,
apenas riu, adorando ver minha expressão enquanto eu procurava fugir o
mais rápido possível daquele lugar. Como ele conseguia manter aquela
pose implacável até nos momentos mais improváveis era uma das minhas
maiores dúvidas.
No entanto, toda aquela série de acontecimentos me fez refletir bastante
enquanto eu caminhava de volta para o dormitório. A nossa conversa
dentro do carro, as coisas que ele me disse, tudo o que suas palavras
deixavam implícito, e, principalmente, o que eu sentia em relação a tudo
aquilo.
É muito complicado lidar com sentimentos quando você tem uma atração
física forte e mútua com alguém que você não gosta. E não engano a mim
mesmo: eu não gosto de Taehyung. Não da pessoa. Fisicamente, a coisa é
totalmente diferente. E aceitar uma aposta envolvendo sexo... não acredito
que aceitei aquilo.
Meu corpo respondia ao dele de uma forma como nunca antes, mas
quando se tratava dele mesmo, da pessoa que ele era, eu hesitava, vinham
83
dúvidas, questionamentos. Tantas coisas que eu não entendia e eu
simplesmente queria uma explicação acerca de seu comportamento, de sua
pessoa.
Caramba, eu estava muito confuso. Dormi sentindo-me confuso, acordei
sentindo-me confuso, e fui para a aula ainda mais confuso. Passei uma boa
parte do primeiro período divagando, mal escutando uma única palavra de
meu professor. Porém, lá para o segundo período, meu celular apitou,
tirando-me de meus devaneios. Tinha recebido mensagem de minha
progenitora.
Mãe: Filho, não se esqueça de me avisar caso for trazer alguém para
passar o Dia de Ação de Graças conosco. Estava falando com seu pai
ontem sobre a quantidade de comida que farei.
Lendo aquela mensagem, uma luz acabou por se acender em minha mente,
e eu tomei uma decisão. Eu havia adiado aquilo por tempo demais, já
estava mais do que na hora de esclarecer as coisas. Eu queria esperar até o
dia em que fosse para casa no feriado de Ação de Graças, mas resolvi que
não seria muito pertinente. Minha curiosidade não deixaria. Eu precisava
saber logo se ela tinha alguma ideia de quem seria Taehyung, quando o
conheci e de onde o conheci exatamente.
Minha progenitora poderia ser a peça-chave para eu desvendar o enigma
Kim Taehyung e sua conexão com meu passado.
Mãe, a senhora está ocupada?
A resposta dela não demorou um minuto sequer.
Mãe: Não, querido, estou assistindo tevê. Por quê?
Posso tirar uma dúvida com a senhora?
Mãe: Claro.
A senhora já ouviu falar em um garoto chamado Kim Taehyung? Ou
Taehyung Kim?
Mãe: Claro que já! Ele é um tenista famoso!
Por quê? Está interessado nele?
84
Não é isso!
Mãe: Não? Eu não ficaria surpresa caso fosse, para falar a verdade.
Como assim?
Mãe: Pelo o que vejo nas entrevistas, e no geral, ele é amado por todos, e
parece ser um bom garoto. Sem contar que ele é muito bonito. É incrível
ver como ele ficou bonito. O tempo só o fez bem.
A senhora o conhece?
Mãe: Uai, filho, não estou entendendo.
Claro que o conheço! Você é quem me apresentou. Para mim e para o seu
pai, aliás.
Não lembra?
Não...
Mãe: Ah, você só tinha 10 anos, acho que não dá para cobrar que você
lembre de algo assim.
A senhora pode falar o que sabe? Como eu o conheci? O que aconteceu?
Eu gostaria de saber.
Mãe: Certo, deixe-me ver.
Se me lembro bem, você se encantou com ele logo de cara.
Foi na festa beneficente que os pais dele estavam dando em Seul na época.
Saímos de Busan direto para lá. Você deve saber que a família dele é rica,
certo?
Então, nós éramos amigos de um casal próximo aos Kim. Fomos à festa, e
chegando lá, você se isolou, era muito tímido, franzino e calado.
Até que Taehyung chegou e te viu. Ele era um garoto alto magricela, de
cabelos castanhos com um corte horroroso, lembro bem disso. Nada
parecido com aquele rapaz lindo de cabelos vermelhos e cheio de
tatuagens.
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Prosseguindo. Ele te viu triste no cantinho e te chamou para brincar com
ele e as outras crianças.
Você recusou de início, com um biquinho emburrado. Mas, ele ficou do
seu lado, disse o quão fofo você era e depois de te fazer cócegas, te
convenceu.
Vocês foram brincar e eu só te vi de novo quando te chamamos para ir
embora.
Foi horrível, você chorava tanto e não queria largar dele de jeito nenhum.
Ele precisou te garantir que estaria tudo bem e que ele cumpriria uma tal
promessa ou algo assim.
Acredito que ele tenha sido o seu primeiro amor, né? Foi tão fofo!
Se ele gostar de garotos, é um partido e tanto, sabia?
Fiquei sabendo que ele está nos EUA. Imagina só, se você chega nele
falando dessa história, talvez vocês possam sair!
Ante a resposta dela, foi como se eu recordasse exatamente tudo o que
faltava para finalmente entender. E respondi com um breve agradecimento
logo mudando de assunto, mas sem exatamente esquecer aquilo que ela
falou.
Eu o conheci numa tal festa, tinha vagas lembranças, e me recordo bem de
um garoto magro segurando minha mão e me guiando pela enorme
mansão. Ele era a única criança que sabia falar inglês, então foi a única
criança com quem me comuniquei diretamente. Eu o chamava de
"TaeTae" porque aparentemente o nome dele era difícil de se dizer.
E finalmente entendi por que não lembrava direito. Nós dois ficamos
presos dentro de um closet ou algo assim, no final do dia, assistimos ao pôr
do sol juntos, momento na qual eu o fiz prometer três vezes a mesma
coisa. Eu estava chorando muito, por isso a lembrança de lágrimas.
E as palavras que ele jurou foram algo relacionado a "eu prometo que,
quando nós crescermos, eu vou para os Estados Unidos atrás de você. Vou
estudar na melhor universidade da sua cidade, vou te achar e nós vamos
ficar juntos para sempre. Eu juro".
86
Pequenos flashbacks borrados e sem muito foco fizeram sentido em minha
cabeça. As interações que nós tivemos quando criança, as coisas que
aconteceram.
— Oi, eu sou Taehyung! Vamos brincar de pique-esconde? — Falou o
garotinho sorridente.
— V- Você sabe inglês — resmunguei, choroso.
— Claro que sei! Mamãe me disse que todos temos que saber muitas
línguas — afirmou, confiante — vamos brincar?
— N- Não quero — balancei a cabeça.
— Então, eu vou ficar aqui. E não vou sair até você sorrir.
...
— Eu posso te chamar de TaeTae? Não consigo pronunciar seu nome todo
— pedi.
— Claro que pode, Jeongguk.
— Gukkie, eu gosto de ser chamado de Gukkie. Minha mamãe e meu papai
me chamam assim — sorri fofamente.
— Você é tão fofo, Gukkie — elogiou.
— O- Obrigado — agradeci, acanhado com o elogio.
...
— TaeTae, eu não estou vendo nada, estou com medo desse armário —
reclamei, chorando.
— Está tudo bem!
— A gente tem que beijar mesmo? E-Eu nunca beijei! Eu tenho vergonha
— abracei a cintura do mais velho, com medo.
— Eles deram 7 minutos para gente. Não precisam saber do que
aconteceu aqui — assegurou — eu posso falar que a gente beijou quando
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não aconteceu nada!
— Jura? — Me acalmei um pouco.
...
— Você não pode mesmo morar nos Estados Unidos comigo? —
Perguntei, chorando de novo. O majestoso sol se punha atrás de mim.
— Não, eu sou muito pequeno ainda. Meu papai não deixaria — lamentou.
— Mas eu não quero me separar de você nunca mais, TaeTae — pulei nos
braços do mais velho, chorando copiosamente.
— Eu também não quero!
— Então, me promete uma coisa! Você precisa me prometer que irá atrás
de mim quando você crescer...
Eram lembranças do passado, do dia em que conheci Taehyung. De
quando ele insistiu em me fazer sorrir, me fez companhia o dia todo,
segurou minha mãozinha gorducha na época, me chamou para brincar, e
quando fomos para o closet, ele sugeriu mentir porque eu estava com
medo. E nos minutos finais, fiquei na pontinha dos pés e selei nossos
lábios num beijo tímido e inocente, um mero encostar de bocas.
Eu fui o primeiro beijo dele, e ele foi o meu.
E eu me esqueci dele. Me esqueci do meu primeiro amor. Taehyung fora
meu primeiro amor.
Era disso que ele falava desde o início. Ele tinha medo de que eu reagisse
mal a isso.
Porém, para ser sincero, agora eu não tinha a menor ideia do que pensar e
de como agir. Como eu encararia Taehyung sabendo de tudo isso?
Sabendo que ele nunca se esqueceu de mim durante todo esse tempo e eu
não fazia ideia de quem ele era até alguns minutos atrás?
Ele cumpriu a promessa. Ele sempre cumpria suas promessas.
[...]
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Sabe aquele momento em que você começa a questionar absolutamente
tudo o que tem acontecido nos últimos dias e pensa no que você deveria
fazer?
Cá estou eu, deitado de barriga para cima em minha cama no dormitório e
encarando meu celular. Precisamente, encarando o número dele aberto no
meu celular. Ele havia salvo o contato como "Meu Tae", como se eu
tivesse feito isso. Qualquer pessoa que lesse, acreditaria que salvei o
número dele como "Meu Tae", mas eu não tive coragem de mudar.
Já havia se passado cinco dias desde o ocorrido no bar, e no carro, e ele
não havia entrado em contato comigo. Nem uma vez. Ele tinha meu
número, mas não fizera nada. Não nos esbarramos no campus, nem na
academia (isso porque eu tive todo o cuidado de não passar por certos
lugares e muito menos treinar em horários específicos). No entanto, treinei
normalmente, fiz todas as minhas atividades, meus deveres de casa, uma
ligação de Skype com meus pais para assegurá-los de que eu estava bem e
não precisava de nenhum dinheiro. Passei tempo com meus amigos (isso
quando Ryan e Lisa não estava ocupados demais engolindo um ao outro),
joguei Overwatch, mas nada de emocionante aconteceu. E talvez o mais
importante: nada que envolvesse Taehyung.
E o pior de tudo era que eu não sabia se estava triste ou aliviado com isso.
Provavelmente, um pouco dos dois, embora meu alívio claramente fosse
maior do que a minha tristeza no momento. Ainda não tinha a menor ideia
de como iria encará-lo e conversar sobre as coisas relacionadas ao passado.
Não tinha a mínima possibilidade de eu conseguir ficar perto dele e não
me sentir culpado. Minha cabeça ia se lembrar de como eu o esqueci e eu
me sentiria péssimo.
Não tinha coragem de falar sobre aquilo ainda, então, resolvi fazer o mais
sensato: ignorar Taehyung por enquanto.
Pelo menos até eu arrumar coragem.
Por isso, para tirá-lo de minha cabeça, aceitei o convite que Ryan fizera.
Durante toda a semana, ele me perturbou sobre esse tal primo que chegara
de Rhode Island fazia quatro semanas e estava à procura de conhecer gente
nova. E ao descobrir que o primo era gay, Ryan Carmichael não perdeu
tempo: planejou um encontro duplo para apresentar eu, seu melhor amigo,
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a ele. Era como se ele tivesse a esperança de que eu pudesse entrar para
sua família de alguma forma, meio que me casando com seu primo.
E no calor do momento, falei que ia pensar, afinal, eu não ia dispensar uma
chance de um possível relacionamento que poderia dar certo, mas, a
questão era que eu não estava exatamente interessado. Nas outras vezes em
que me chamaram para esse tipo de coisa, aceitei sem nem pestanejar,
mas... antes, não tinha um Kim Taehyung na minha vida e nos meus
pensamentos.
E eu sabia que esse cara ia ter que se esforçar para conseguir fazer com
que eu não pensasse no Kim o tempo todo, o que tinha se tornado uma
ocorrência constante na minha vida. Minha missão de descobrir sobre
nosso passado juntos e a tal promessa me deixou deveras perturbado e
envergonhado
Depois de confirmar a Ryan que eu iria ao tal encontro, senti minha
consciência pesar. Fora estranho porque eu não estava fazendo nada de
errado. Mas, olhando para o "Meu Tae", meu estômago deu um salto,
como se eu estivesse traindo o Kim por aceitar sair com outro cara.
Balançando a cabeça em negação pelos meus pensamentos malucos, mudei
o nome do contato para "Tae" e bloqueei meu celular, ignorando meus
pensamentos controversos.
[...]
Marcaram o encontro no dia do feriado de Colombo. Não achei que as
coisas fossem funcionar muito nesse dia, mas Ryan e Lisa me
convenceram que seria legal, já que não teria aula. A tailandesa maluca
veio sussurrar no meu ouvido em particular como ela esperava que eu
saísse da seca com Robert, pois eu definitivamente estava precisando
transar para perder o stress. Eu quis mandar todo mundo ir a merda. Por
que diabos minha abstinência sexual parecia incomodá-los mais do que a
mim mesmo às vezes?
E fiquei extremamente incomodado por insinuarem aquilo com aquele
rapaz. No momento, sexo era a última coisa que passava por meus
pensamentos. Eu sequer conseguia focar naquilo, e lá estavam eles
insinuando esse tipo de coisa. Não bastava o fato de que o objeto dos meus
desejos vergonhosos fosse o cara que eu fingi não existir durante toda a
semana.
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O primo de meu amigo, Robert Carmichael, era louro dos olhos claro, um
traço da família de Ryan e Miles. Ele me cumprimentou com um aperto de
mão, e parecia disposto a mais, mas eu mantive minha distância, sendo
discreto e educado, tirando quando descemos do carro e eu permiti que ele
apoiasse a mão em minha cintura. Íamos até um snooker e bar que havia
ali perto, intencionando tomar algumas cervejas e jogar um pouco de
sinuca. O ambiente estava cheio de homens e mulheres das mais diversas
faixas etárias, todos aproveitando o feriado e se divertindo um pouco
naquele dia livre.
Eu estava disposto a me divertir também, então quando fomos a procura de
uma mesa, caminhei próximo de Robert, sorrindo calorosamente. Até que:
— Lisa? É você? — Um rapaz de cabelo azul-piscina se levantou de uma
mesa não muito longe de nós e sorriu, abraçando a garota e
cumprimentando Ryan logo em seguida — não acredito que vocês vieram
para cá, e vieram acompanhados!
O garoto olhou para trás, a fim de conferir Robert e eu, mas quando seu
olhar caiu sobre mim, ele arregalou os olhos de forma cômica e deu um
sorrisinho de canto, parecendo lembrar alguma coisa muito engraçada. E
eu saquei exatamente o que era.
Aquele maldito... fora ele quem me jogara no centro da roda do Clube da
Luta e gritara para todos que eu era novo ali. A culpa de Taehyung e todos
terem notado minha presença ali foi graças a ele.
— Yoongi? — Lisa sorriu grandiosamente — você está acompanhando
também? Faz tanto tempo que não te vejo!
— Estou com meus amigos! Por que vocês não se juntam a nós? —
Perguntou, mostrando seu sorriso gengival. Eu queria dar um soco na cara
dele. Parece que todos os meus problemas começaram por causa dele.
Aquele maldito baixinho do cabelo azul.
E não! Ryan e Lisa deviam lembrar que estávamos aqui para um encontro
duplo, não para uma saída com amigos. Eu não queria ficar perto desse
Yoongi. Mas não era como se eu tivesse alguma chance de protestar ou
impedir o desastre capital de acontecer. Quando dei por mim, os dois nos
apresentaram ao baixinho, estávamos caminhando em direção à mesa dos
amigos do garoto e eu sinceramente me perguntei por alguns segundos o
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que eu tinha feito de ruim nas minhas vidas passadas para merecer aquilo.
Eu sinceramente devo ter assassinado alguém importante, ou roubado
dinheiro dos pobres, porque não é possível.
Naquela mesa estavam sentados três garotos. Um de cabelos róseos e de
rosto angelical que reconheci do Clube da Luta, um de cabelos loiros que
exibia um sorriso cheio de covinhas, que também reconheci do Clube da
Luta (inclusive, este era o rapaz que estava ditando as regras para "quem
não tinha entendido" e para os novatos). Ambos usavam camisetas e calças
casuais, a diferença era que o rapaz das covinhas usava tons mais sóbrios,
e o de cabelos rosados gostava de cores mais vivas. E sentado na
extremidade da mesa, estava Taehyung. Com uma bandana azul na cabeça,
a jaqueta de couro (não pude ver direito suas roupas como um todo já que
ele estava mais longe, mas suponho que ele usava jeans escuro ou algo).
Sua expressão facial não revelava nada, ele apenas trocava olhares comigo
e descia os olhos para a mão de Robert que estava descansando contra
minha cintura. Ignorei o arrepio que me percorreu apenas por ser
perscrutado por ele daquela forma, com os braços cruzados, e sentado de
forma relaxada sobre a cadeira.
A forma como ele olhava parecia que ele dizia na minha cara "eu sei que
você me ignorou de propósito durante a semana toda".
— Pessoal, esses são meus amigos, Namjoon, Seokjin e Taehyung. Mas
acredito que vocês dois e o garoto — Yoongi gesticulou para mim — já os
viram no Clube.
Isso era verdade. Ryan e Lisa já tinham ido comigo nas duas vezes em que
me aventurei. Meu amigo não lutou nada, e sua namorada foi na intenção
de tirar fotos minhas "passando vergonha".
— Como vão? — Namjoon acenou, sorrindo educadamente — fora do
Clube somos todos da paz.
Eu quis rir. Aquilo era sério?
O rapaz bonito de cabelos rosados se levantou e nos cumprimentou
calorosamente.
— É um prazer conhecê-los.
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Enquanto ele apertava as mãos de cada um de nós, Lisa deu passo para trás
e meteu uma cotovelada leve na minha barriga, sussurrando perto do meu
ouvido:
— Ah, aquele é o Taehyung, Jeongguk! Não acredito que você vai ter que
cumprimentar ele! — Deu uma risadinha animada.
Eu quase respondi que aquilo não seria nada demais, mas lembrei que ela
não fazia ideia. Lisa não sabia que eu já tinha conversado com ele mais
vezes do que ela podia imaginar. Caramba, imaginei o que ela diria se
soubesse que semana passada eu subi no colo dele dentro da Range Rover
e o beijei até que o policial que fazia a ronda teve de nos pedir para parar.
Ou se ela soubesse que ele estava ali para cumprir uma promessa que fez
para mim anos atrás e eu fiz o favor de esquecer.
E, se dependesse de mim, ela nunca ia saber. Eu ia levar esse segredo para
a cova junto comigo. Ninguém precisava saber. De nenhum dos dois. Ele
não sabia que eu lembrava, e quanto ao outro, eu acreditava que Taehyung
não diria nada. Ele garantiu que não contaria para ninguém caso a gente
transasse. Tinha de dar um voto de confiança ao Kim.
— Taehyung? Não vai cumprimenta-los? — Yoongi indagou, olhando
para o amigo.
Sem desfazer a pose implacável e olhando diretamente para mim, ele
respondeu:
— Não.
Um silêncio bizarro e desconfortável se fez ante à resposta dele. Quer
dizer, ele tinha todo o direito do mundo de não querer cumprimentar,
mas... ah, sei lá.
Robert, que estava ao meu lado, ainda segurando minha cintura, deu um
pigarro para chamar a atenção de todos e sorriu para os garotos da mesa
após cumprimentar Yoongi.
— Eu sou Robert, prazer em conhecê-los!
— Não estou interessado em saber o seu nome. Por acaso alguém aqui
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perguntou? — Taehyung respondeu, arqueando uma sobrancelha.
Seokjin arregalou os olhos e meteu um tapa no braço do Kim.
— Não seja mal-educado! — Repreendeu.
— Bem... hã, pessoal, estes são Ryan, meu namorado, nosso amigo
Jeongguk e, ele é o Robert — Lisa apresentou, sem graça.
— Não tem problema — Robert fez um meneio com a mão, sorrindo
radiante —, estou tendo um encontro incrível hoje e nada pode abalar o
meu humor.
Dito isso, abraçou os meus ombros e eu arregalei os olhos, querendo achar
uma oportunidade para esconder ou para vazar dali. Isso era
definitivamente azar demais para uma pessoa só. Como era possível...
Na hora de organizarmos como ficaríamos sentados na mesa redonda,
escolhi sentar ao lado de Taehyung. Por mais maluco que isso possa
parecer, eu não queria pegar ele me encarando, e sentando ao lado dele,
isso se torna menos constrangedor. Passei os cinco dias direto pensando
nele, nas coisas que ele falou, nos beijos dele... Ele ocupou meus
pensamentos por dias sem fim, e aqui estava ele, sentado ao meu lado no
dia do meu encontro. Naturalmente, Robert sentou do meu outro lado e
tentou arrastar a cadeira para mais perto de mim.
Eu não era exatamente uma pessoa grudenta com qualquer pessoa, e
aquele cara estava praticamente invadindo meu espaço pessoal.
Inconscientemente, afastei um pouco para o lado de Taehyung, olhando
para Robert que sorria para mim aqueles olhos brilhantes. Puta que me
pariu, onde eu fui me meter.
Senti uma mão pousar sobre minha coxa esquerda e virei-me alarmado
para encarar Taehyung. Ele me fitava com a testa franzida.
— Você está quase subindo em cima de mim, Jeongguk — sussurrou
baixinho, apenas para que eu escutasse.
— Ah, eu, quer dizer, me desculpe — tentei me afastar, mas a mão dele
continuou na minha coxa.
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— Não, eu não me importo — sorriu — mas parece que seu amigo aí ao
lado não parece muito satisfeito.
Certo. Eu tinha que me lembrar que eu estava num encontro com Robert.
Mas, o que eu podia fazer? Quando eu me sentia atraído por Taehyung
mais do que por qualquer outra pessoa antes...
— Ele está querendo ficar grudado em mim — reclamei em tom baixo.
— Ainda assim, — pegou a caneca de cerveja que estava em sua frente e
tomou um gole, suspirando — você está grudado em mim e não parece se
importar nem um pouco.
Fazendo uma careta, me afastei um pouco de Taehyung, e tentei me ajeitar
na cadeira, mas não adiantou muita coisa, pois a mão firme dele
continuava na minha coxa sob a mesa, e eu não fiz nada para tirá-la de lá.
E isso era porque eu realmente não queria. Na verdade, minha vontade era
de esticar minha mão e acariciar a sua, e num repentino momento de
coragem, assim o fiz.
Ele deu um sobressalto, claramente surpreso com minha demonstração de
afeto e atenção e aquilo me fez sentir um pouco mais culpado por não
contar para ele de uma vez por todas que eu sabia quem ele era. Taehyung
segurou minha mão ainda debaixo da mesa e entrelaçou nossos dedos.
Um pigarro chamou minha atenção ao lado e eu me virei para fitar Robert,
que encarava Taehyung com uma expressão aborrecida no rosto.
— Ele está te incomodando? — Perguntou rente ao meu ouvido.
— Não, por quê? — Desconversei, apanhando minha própria caneca de
cerveja com a mão livre e tomando um gole.
— Você parece meio desconfortável com a presença dele — comentou.
Bom, sim. A presença de Taehyung me deixa desconfortável. Mas não da
forma como Robert está pensando. E ele não podia nem sonhar com uma
coisa dessas.
— É só impressão mesmo — sorri — mas me diz, o que você está achando
de morar no Arizona?
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Ante a minha tentativa de puxar assunto, ele pareceu ficar mais feliz. Era
melhor dar atenção ao meu "encontro" do que criar uma intriga porque eu
estava dando mais atenção à Taehyung. Não que eu pudesse evitar de
qualquer forma, ele segurava minha mão e fazia carinhos sutis com seus
dedos.
— Tirando o tempo quente? — Riu — aqui é quase um inferno de tão
quente. Embora Phoenix seja uma das cidades mais limpas e organizadas
que já vi, não seria o suficiente para morar aqui. Sem contar que a água
daqui tem gosto e é horrível e...
— Você sabe por que a água tem gosto, não é? — Taehyung perguntou
atrás de mim, fazendo com que nós dois o encarássemos.
— Sim, porque eles usam água do mar, mas o processo de dessalinização
não é muito bom — respondeu Robert, assumindo um tom defensivo.
— Certo, e você sabia que a fonte de água doce daqui, o Rio Colorado é
disputado por mais outros três estados? — Taehyung prosseguiu —
consequentemente, o fornecimento de água doce é escasso. Como o
Arizona é um estado construído e fundado no deserto, o clima daqui tende
a ser mais quente e árido. Para conter isso, o governo espalha
umidificadores e bebedouros gratuitos por toda a cidade a fim de amenizar
isso. A água não é das mais doces, como já expliquei, por isso o gosto
ruim. Não é como se isso fosse culpa de alguém, sabia?
Ainda bem que Seokjin, Namjoon, Yoongi, e Ryan pareciam estar
distraídos conversando entre si, mas Lisa não. Ela estava vidrada na
discussão que ocorria entre nós e sorria de uma forma como se estivesse
assistindo o barraco do século. Algo me diz que se ela tivesse pipoca ali,
ela estaria comendo com entusiasmo.
— Sim, mas isso não significa nada — Robert retrucou, cruzando os
braços — não gostei muito daqui, não há nada de entusiasmante para fazer.
— Ou, talvez você não tenha gostado do que viu — rebateu, Taehyung,
encostando-se de lado contra as costas da cadeira, tomando cuidado para
não mostrar nossas mãos entrelaçadas em minha coxa.
— E você gostou de alguma coisa? — Perguntou, irritado.
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— Você tem o direito de não gostar de nada, não me leve a mal — o
sotaque de Taehyung acentuava quando ele falava num tom debochado —
você foi no Museu de Instrumentos Musicais? Foi uma das exposições
mais legais que eu já fui. Eles mostram instrumentos e expressões musicais
do mundo inteiro. Ou o Museu de Arte de Phoenix. Cara, lá eles tinham
exposições de obras incríveis. Você conhece o trabalho de Monet? Eles
têm a obra Flowering Arts por lá. É estranho porque de perto parece um
borrão qualquer, mas quando você olha de longe, é uma das coisas mais
incríveis e fascinantes. Ou a escultura de Rodin que também está lá — sua
mão apertou a minha levemente — mas o meu favorito foi o Snow Bowl
do Arizona. Eu tive o prazer de ir até lá e andar de teleférico. É uma vista
tão linda! Eu até me imaginei voltando lá, acompanhado e beijando
alguém enquanto somos contemplados com o pôr do sol.
Ele sequer era daqui. Taehyung era um estrangeiro e parecia conhecer
mais do que um cara que nasceu e foi criado aqui.
— Você não conheceu o Grand Canyon? — Perguntei, fitando-o.
Me encarando de volta, Taehyung sorriu.
— Não, infelizmente não — lamentou — mas espero poder fazê-lo algum
dia.
Lisa pigarreou, chamando nossa atenção. Quando a olhei, ela estava com
os olhos arregalados e parecia maravilhada com o que estava vendo. Só
um cego para não perceber o clima que estava rolando entre nós dois.
Robert estava com a cara fechada e não parecia querer falar mais qualquer
coisa.
— O que vocês acham de a gente jogar um pouco de sinuca? — Sugeriu
animada, chamando a atenção de todos na mesa.
— Eu topo — falei, levantando-me e desvencilhando nossas mãos.
E parece que minha animação contagiou aos outros que acabaram por se
toparem também. Logo, nos vimos em volta de duas mesas de sinuca. A
primeira dupla a se enfrentar seria eu e Robert. De início, ele foi contra,
mas eu o desafiei e ele sorriu satisfeito, exigindo que caso ganhasse, eu lhe
desse um prêmio. Revirei os olhos ante a isso, imaginando o tipo de
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prêmio que ele ia querer.
Dividindo-nos em grupos entre as duas mesas de sinucas e eu peguei um
taco. Passei o giz especial na ponta do taco e me debrucei para fazer a
jogada inicial, posicionando o taco. Concentrando bati na bolinha branca e
a mesma colidiu com o triângulo organizado de bolas. Consegui acertar a
bola vermelha, que era o meu objetivo inicial e sorri satisfeito com meu
desempenho.
Na medida que o tempo foi passando, eu e Robert realizamos nossas
jogadas e eu tive de conter minha vontade de gemer em desgosto. Ele era
deveras bom naquilo e estava com seis pontos na minha frente. Eu já
estava prevendo minha iminente derrota caso não conseguisse encaçapar a
bola preta e adquirisse sete pontos. Era praticamente o match point, e eu
precisava vencer essa. Eu não queria dar o tal prêmio para aquele cara, não
queria dar aquele gostinho para ele.
Passando mais giz na ponta do taco, estudei a mesa e a posição das bolas
com atenção, mordendo o lábio incerto. Para que eu conseguisse fazer
aquilo, eu teria de realizar uma jogada arriscada. A bola branca teria de
acertar a amarela, e ela precisava derrapar, bater na azul e a azul acertaria a
preta, encaçapando. Engoli em seco, procurando manter a calma, já vendo
o sorriso satisfeito surgir nos lábios de Robert.
— Jeongguk? — Taehyung me chamou, fazendo-me virar para encará-lo
— tem certeza de que fará nessa posição da mesa?
Ele estava parado logo atrás de mim, encostado numa parede e com os
braços cruzados. Um pouco, incerto, assenti.
— Se o Taehyung quiser dar uma ajuda, ele pode — Lisa afirmou,
sorrindo — Robert pediu a ajuda de Ryan quando foi encaçapar a bola cor-
de-rosa, então, não vejo motivos para você não poder fazer o mesmo.
Descruzando os braços, Taehyung veio em minha direção e gesticulou
para que eu andasse um pouquinho para o lado direito. Confuso, obedeci e
esperei. Mas a ação seguinte dele foi completamente inesperada. Ele parou
bem atrás de mim e debruçou o corpo contra o meu, fazendo seu peito
grudar nas minhas costas. Seus braços cobriram os meus e uniu nossas
mãos sobre o taco. Estávamos praticamente abraçados sobre uma mesa de
sinuca.
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— Preste atenção, está vendo a bola marrom? — Perguntou baixinho
contra meu ouvido. Engolindo em seco, assenti, não confiando na minha
voz para fazê-lo — posicione o taco um pouco para a sua direita — com as
mãos dele sobre as minhas, fiz o pediu — isso, desse jeito. Você não vai
exercer muita pressão contra o cotovelo quando for empurrar o taco contra
a bola branca. Ela vai bater contra a bola marrom, e ela vai empurrar a
preta.
— Mas, ela pode bater na azul! — Protestei — não vai dar certo! Ela vai
bater na azul e vai empurrar a preta para longe da caçapa!
— Não, não vai! — Assegurou — você precisa confiar em mim. Confie
em mim, Guk. Vai dar certo! Você vai conseguir!
Respirando fundo, assenti novamente e senti ele se afastar de mim, dando
oportunidade para que eu fizesse a jogada. Nervoso, segui suas instruções,
e acertei a bola branca. Não deu outra: apliquei a pressão certa e ela
acertou a preta passando de raspão pela azul. Quando a bola preta foi
encaçapada, virei para encarar Taehyung e sorri, verdadeira feliz.
Levantando as duas mãos no ar, ele bateu palmas pausadamente, sorrindo
de volta.
— Oba! Parece que o Jeongguk venceu! — Lisa comemorou, sorrindo de
uma maneira sinistramente feliz — agora, escolha o seu prêmio!
— Não quero nada — sorri sem graça. Eu não teria vencido sem a ajuda
do ruivo que eu já apelidara de tantas coisas (incluindo 'minha cruz').
— Nada? Você pode pedir o que quiser! — Lisa encorajou.
— O que eu quiser? — Ela assentiu, o sorriso sinistro aumentando —
posso pensar por um tempo antes de decidir o que quero?
Aproximando-se de nós dois, ela falou, ainda sorrindo:
— Certamente, você podia ir decidir um pouco no banheiro. Você parece
que precisa lavar o rosto, Jeongguk. Toda a concentração e suor te
deixaram vermelho — disse como se fosse a coisa mais preocupante do
mundo — você não concorda, Taehyung?
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Eu não podia acreditar no que ela estava sugerindo. Eu não podia acreditar
que ela estava me jogando em cima dele quanto eu devia estar tendo um
encontro com o primo do namorado dela. E eu não acredito ainda mais que
eu adorei tanto a ideia que não perdi meu tempo esperando ele responder,
marchei até o banheiro do bar, ignorando o fato de que eu estive evitando
ele durante a semana inteira graças a minha vergonha.
Com a respiração descompassada, conferi cada uma das cabines e me
certifiquei de que cada uma estivesse vazia. A porta do banheiro do abriu
segundo depois e Taehyung adentrou o espaço, trancando a porta ao
passar. Eu estava de costas quando ele entrou e um pouco longe da
entrada, então levei um pequeno susto, encarando-o alarmado.
Esperei que ele dissesse alguma coisa, qualquer coisa, na verdade. Mas, ao
invés disso, ele passou a mão tatuada e cheia de veia saltadas pelos cabelos
avermelhados e retirou a bandana azul, apoiando-a sobre a pia.
Engoli em seco.
— Como está o encontro, Jeongguk? Se divertindo muito? — Caçoou,
abrindo sua jaqueta de couro e a apoiando sobre a pia logo em seguida,
mostrando sua camiseta verde folgada por baixo. As tatuagens de seus
braços ficaram expostas e eu observei cada detalhe.
— Estou sim — respondi, cruzando os braços.
— Então, por que você não vem aqui para se divertir um pouco mais, hm?
Nós dois sabemos que não é aquele cara quem te manteve entretido a noite
toda — sorriu de canto.
— Não seja tão convencido — revirei os olhos.
— Não posso evitar. Não quando você se incomodou quando seu amigo
sentou muito perto de você, mas não achou ruim quando minha mão ficou
sobre a sua coxa. Pelo contrário, você segurou minha mão — se
aproximou de mim, caminhando em passos lentos. Eu não fiz nada,
aguardei pacientemente até que ele chegasse perto de mim. Encostei
minhas costas contra a parede e engoli em seco, ansioso e animado. Eu não
podia negar que estava mais do que satisfeito com a ideia de beijá-lo
novamente. Vê-lo aqui já fora demais para mim desde o começo, e agora...
100
Taehyung segurou meu rosto com suas duas mãos e selou nossos lábios
num beijo doce e calmo, totalmente contrário à o que eu esperava.
Remexi-me inquieto, querendo intensificar a coisa, e ele pareceu notar
minha ansiedade, para o que sorriu pediu passagem para explorar minha
boca, coisa que eu fiz de muito bom grado. Sua língua entrou em contato
com a minha e um arrepio gostoso passou por minha coluna quando senti o
metal de seu piercing contra o meu músculo. Descendo as mãos, de meu
rosto, ele às passou por meu pescoço, espalmando-as em meu peito e as
levando até minha barriga, tocando e traçando os gominhos que eu tinha
ali.
Gemi satisfeito. Enquanto ele acariciava minha língua com a sua, enquanto
suas mãos foram para minha cintura, e desceram ainda mais para meu
traseiro, apertando-o.
Não queria admitir para mim mesmo, mas eu estava desejando poder beijar
ele mais uma vez depois do que aconteceu.
— Eu te quero tanto, Jeongguk — disse, entre beijo — você não tem ideia
do quanto eu te quero.
Eu também. Você não tem ideia do quanto eu também te quero. Me
desculpa por ter me esquecido de você.
Desci minha mão para o volume exposto em sua calça e apertei sua ereção
sobre ela. Taehyung gemeu sofrido e apertou mais a minha bunda.
Tomando o partido da coisa, o empurrei, fazendo-o andar de costas ainda
me beijando, até que suas costas encostaram contra a pia do banheiro
masculino. Segurei suas duas mãos e as prendi contra a beirada da pia e
desci meus lábios por seu pescoço tatuado, beijando e marcando. A pele
dourada dele já era marcada por toda aquela tinta, mas eu ansiava por
deixar uma marca minha. Ele deixou chupões e mordidas em mim da
última vez, que evidenciaram que alguém atacara meu pescoço, e eu queria
fazer o mesmo. Queria que ele se olhasse no espelho e visse uma marca
feita por mim.
Taehyung não reclamou, deixou que eu o beijasse e distribuísse uma série
de carícias e mordidas por todo o seu pescoço. Eu sentia seu pênis excitado
bater contra minha coxa, e cada vez que eu me movia, ele soltava um
gemido sofrido, ora pela parca fricção em seu membro, ora por não ter
fricção alguma.
101
Soltei uma de suas mãos e desci minha destra até seu volume, acariciando-
o sobre a calça. Aproveitando que eu havia o soltado, Taehyung libertou a
outra mão e as duas presas em minha cintura, me virou, fazendo-me
encostar na pia do banheiro. Sorrindo safado, ele apoiou as mãos na parte
de trás das minhas coxas e me ergueu, fazendo-me sentar sobre a pia.
Agarrando seus cabelos, o trouxe para perto de mim e beijei seu pescoço
novamente, sentindo ele descer a mão para o botão de minha calça,
procurando abri-la.
— Taehyung, eu lembr...
— Hey! Quem trancou o banheiro? — Uma voz masculina gritou do lado
de fora, seu dono parecendo estar extremamente irritado e batendo na porta
com força.
Sem me fitar, Taehyung apoiou o rosto no vão de meu pescoço e começou
a rir baixinho, sua mão interrompendo o que fazia.
— Nós temos que ir.
Infelizmente. E eu nem falei o que queria.
— Eu não quero voltar para lá. Robert vai ficar enchendo o meu saco, e
você sabe que a nossa demora é clara — resmunguei, enquanto batiam na
porta de novo.
— Antes de você ir embora, me deixe fazer uma coisa — calmamente,
Taehyung pegou o celular no bolso de trás da calça jeans que usava e abriu
a câmera fotográfica, tirando uma foto minha. Surpreso, arregalei os olhos
— você está ofegante, suado e sentado sobre uma pia de banheiro
enquanto eu estou entre as suas pernas. Esta é uma cena que eu não podia
perder.
Ele mexeu alguma coisa no celular e me mostrou meu contato. Ele havia
colocado a foto no meu contato, cujo nome estava salvo como 'Jagi
Gukkie'.
Deixando um último beijinho nos meus lábios, Taehyung apanhou a
bandana, a jaqueta e destrancou a porta do banheiro, saindo dali enquanto
tentava inutilmente esconder a ereção entre as pernas.
102
Capítulo 6 - Broken
Após Taehyung sair do banheiro, ignorei quando outro homem entrou e
me olhou feio enquanto se dirigia para uma das cabines. Deve ter sido o
sujeito que bateu na porta e gritou pedindo para entrar. Fitei a porta por
onde o Kim havia passado e suspirei, lembrando dos beijos que trocamos e
da fotografia que ele tirou. Uma fotografia que não o impedi de tirar.
Respirando fundo, desci da pia do banheiro, ajeitei minhas roupas e
esperei uns minutos, me recompondo e tentando conter minha ereção de
crescer ainda mais. Ele tinha intencionado abrir as minhas calças antes de
sermos interrompidos, e eu só podia me perguntar o que exatamente ele
planejava fazer.
Porém, naquele momento, encontrava-me incomodado. Alguma coisa me
incomodava e eu tinha certeza de que precisava voltar para casa e pensar
um pouco. Foda-se aquele encontro com Robert, eu me sentia confuso.
Joguei um pouco de água no rosto e, sem enrolação, bati em retirada dali.
Eu tinha ficado num impasse comigo mesmo, analisando novamente o que
fiz naquela noite. Minhas atitudes e – principalmente – as atitudes de
Taehyung. Era tudo tão estranho porque parecia como se tivéssemos
avançado em nossa relação, mas eu não sabia explicar exatamente o quão
longe chegamos e onde estávamos. E que tipo de relação nós tínhamos?
Um rolo? Só sabia que não era a mesma coisa de quando o beijei no carro.
Tudo mudou quando conversamos na mesa, quando gostei de sentir sua
mão em minha coxa, quando ele me ajudou a vencer aquela partida de
sinuca, quando nos beijamos no banheiro... Coisas aconteceram e, mesmo
assim, eu não tinha uma conclusão exata do que seria.
103
Claro que o fato de eu ter descoberto o que aconteceu entre nós colabora
bastante para que eu saiba ele tem razões para gostar de mim, que ele fez
todo o trajeto até os Estados Unidos por minha causa, e, agora que eu o vi,
percebi que não tenho como continuar fingindo que não sei de nada. Ele
tem o direito de saber.
Mesmo com toda a raiva que senti dele depois de tudo o que aconteceu no
Clube da Luta, todas as provocações, e todas as vezes em que discutimos,
descobrir nossa relação do passado me deixou totalmente desarmado. Eu
me sentia confuso, ao mesmo tempo em que tinha noção. Era como se eu
estivesse com medo de onde minha conclusão acerca de meus sentimentos
poderia me levar, e isso era porque simplesmente não fazia sentido algum
ter raiva dele. Se eu quisesse ser sincero comigo mesmo, eu precisava
admitir que eu sentia absolutamente tudo, menos raiva. Nós dois fomos tão
infantis um com o outro, fomos tão idiotas, e para quê?
Suspirando, encaminhei-me até a saída do bar, tentando vazar na surdina –
Ryan perdoaria eu não ter pago minha conta, porque eu juro que o pagaria
depois, nunca fui devedor ou algo assim. Precisava colocar os
pensamentos em ordem, ficar na solidão do meu dormitório e refletindo
junto dos meus botões. No entanto, quando consegui colocar meus pés
para fora do estabelecimento, fui literalmente pego na saída. Lisa surgiu de
não sei onde e me encurralou contra a parede, ao lado da entrada, sorrindo
daquela mesma maneira sinistra de antes. Ouso arriscar que ela estava
vigiando o caminho do banheiro masculino e aguardando Taehyung e eu.
Porém, curiosamente, enquanto passei correndo, não vi o ruivo por lá. Ele
não havia voltado para a mesa e se juntado aos outros em mais partidas de
sinuca, o que me fez concluir que ele foi embora também.
— Eu acho que você me deve explicações — ela cruzou os braços,
sorrindo — Taehyung foi embora agorinha depois de passar correndo feito
uma bala com a barraca armada e nós dois sabemos que aquilo não foi uma
mera obra do acaso. E, sendo franca com você, ouso dizer que o pênis dele
é grande, pelo que eu vi, então, você vai ter que se preparar bem caso tente
transar com ele algum dia.
— Lisa! — Repreendi, sentindo minhas bochechas esquentarem ao
lembrar do que ocorreu no banheiro. Minha vontade era a de sair de perto
dela e ir embora de uma vez, mas a garota parecia disposta a ter aquela
conversa.
104
— Mas é sério, Jeongguk! Aquele clima que estava rolando entre vocês. O
que foi aquilo? Vocês dois estavam tão à vontade um com o outro.
Pareciam que eram um legítimo casal! A forma como ele te olhava...
Caramba, ele te olha de uma forma tão... Enfim, quando isso começou?
— Faz um tempo já — admiti sem querer contar muito — nós não temos
nada, apesar de tudo. Só rolaram alguns beijos, mas, sinceramente, não
quero falar sobre isso, agora. Eu quero ir para casa.
— O que foi, Jeongguk? Aconteceu alguma coisa? Ele te forçou a alguma
coisa? — Perguntou, abandonando toda a pose provocativa e me fitando
genuinamente preocupada.
Me forçar? Impossível. Impossível quando eu aceito, retribuo e almejo que
ele me toque. Se tem uma coisa que não posso negar é o quanto eu
correspondo de muito boa vontade a tudo.
— Não, ele não me forçou a nada. O problema são as coisas que
aconteceram e tem acontecido entre nós dois. Eu descobri coisas que me
deixaram... Estou confuso — confessei — eu preciso de um tempo para
pensar.
Sem insistir muito, ela assentiu e se afastou.
— Vá com cuidado! Me avise quando chegar no dormitório, okay?
Assentindo, rumei para o campus – que eu chamava de casa há algum
tempo já. Fui pelo metrô, desci perto e caminhei o resto do trajeto até o
dormitório com as mãos enfiadas nos bolsos. Não havia nada para comer
em meu armário, então, antes de entrar, fui até o mini Walmart que
tínhamos na ASU para comprar algumas coisas.
Não me surpreendi ao notar que o local estava praticamente vazio e segui
até a sessão de besteiras, pegando um saco gigante de M&Ms e uma
Pringle's. Não comi muita besteira ultimamente graças aos jogos,
procurando comer bastante, mas comer de forma saudável, porém, hoje
não vi problemas em comer assim.
Fui até o caixa manual e passei minhas compras. Quando fui inserir a
cédula de dez dólares na máquina para pagar, escutei o barulho da porta de
entrada se abrindo. Não dei muita atenção, afinal, não fazia diferença, no
105
entanto, ao embalar tudo em uma sacola de plástico e me virar, esbarrei em
Hoseok.
Arregalei os olhos, surpreso.
— Quer me matar do coração? — Perguntei, revirando os olhos.
— Eu só vim pegar algo para comer — coçou a nuca, dando um empurrão
em meu ombro.
— O técnico vai ficar satisfeito, tenho certeza, nós dois aqui, aproveitando
a vida de solteiros da melhor forma que existe: comendo — dei uma
risada, indo até a saída.
— E falavam que você estava com um dos maiores pegadores do campus...
fofoqueiros idiotas — comentou, rindo atrás de mim.
Confuso e intrigado com suas palavras, me virei para encará-lo, mas
Hoseok tinha sumido entre as prateleiras, me deixando lá, plantando com
meus pensamentos sem compreender exatamente do que diabos ele falava.
[...]
Precisei ir no McDonald's duas vezes para comprar lanche para alguns
colegas de time meus após eu chegar atrasado para treinar na segunda-
feira. Foi um saco ter que chegar lá, fazer o mesmo pedido duas vezes.
Pelo menos, a lanchonete ficava pertinho e eu não precisava andar muito.
Em compensação, pude me aquecer um pouco mais depois do treino,
fazendo uma corridinha rápida lá e cá. Hoje a gente ia em um pub e eu não
podia estar mais desanimado.
Taehyung me mandou mensagem de manhã me desejando 'bom dia', e eu,
muito educado, respondi de volta da mesma maneira. Acabei ficando um
tempo sem resposta, afinal, eu sabia que coreanos usavam mais o
KakaoTalk, e eu não tinha aquela coisa, meu máximo era iMessage e
WhatsApp. No fim da tarde, recebi um emoticon como resposta, e resolvi
deixar assim, sem falar mais nada.
Esqueci de perguntar a Hoseok o que ele queria dizer com aquela coisa de
"pegador", mas não foi como se eu não tivesse sido lembrado daquilo
106
involuntariamente dois dias depois enquanto fui almoçar no Memorial
Union. A única mesa disponível, infelizmente, estava ao lado da mesa da
equipe de atletismo da universidade, e eu tive que sentar lá a contragosto.
Não gostava muito daquele pessoal, não depois que eles pregaram uma
peça sem graça com a intenção de humilhar um calouro no ano passado.
Foi simplesmente desnecessário e maldoso.
Apoiei minha bandeja na mesa, enfiando um pouco de salada na boca e
mastigando enquanto checava as notificações em meu celular.
— ... hoje de manhã ele estava treinando, e puta merda, que homem
gostoso — uma das garotas comentou —, nem me importo de ele ser
asiático. Ele é uma exceção à regra em todos os sentidos.
— Concordo, tatuagens, piercing na língua, cabelo vermelho. Eu tenho
uma queda, não vou mentir — outra completou.
Mesmo olhando para meu telefone, meus ouvidos focaram completamente
no que elas falavam. Aquela descrição física era inconfundível. Parecia
que eu estava vivendo numa novela onde coincidentemente, acabei
ouvindo pessoas aleatórias falando justamente de Taehyung. Justamente
dele.
— Jackie já transou com ele, ela disse que ele fode bem para caramba.
— Jackie Lovett? Da engenharia? — Um dos rapazes perguntou.
Engoli em seco, sentindo meu estômago pesar. Eu certamente não
esperava aquele rumo da conversa.
— A própria. Vocês imaginam como deve ser, né.
— Eu sei. Eu já transei com ele — outra garota afirmou — nem foi
planejado. A gente estava na academia, rolou um clima e fomos para o
dormitório. A forma como ele te segura e mete com força... não consigo
nem descrever.
— Jackie disse o mesmo!
Incapaz de ouvir mais daquela conversa obscena e nojenta, peguei minha
bandeja, jogando minha comida intacta no lixo e caminhando para fora
107
dali com vontade de vomitar, e o pior de tudo é que eu nem queria parar
para pensar no porquê.
Não era possível que estivessem falando de quem eu pensava, não é?! Não
podia ser o mesmo Taehyung que eu conhecia, podia? A descrição física
batia, mas eu não conseguia acreditar.
Eu iria perguntar para ele, claro. Não gosto disso de se guiar por fofocas,
então me aquiesci e segui para o campus a fim de continuar meus estudos e
decidido a perguntar quando nos encontrarmos, e isso precisava acontecer
o mais rápido possível.
Taehyung, eu posso conversar com você mais tarde? Pessoalmente.
A resposta chegou menos de um minuto depois, era quase como se ele
estivesse esperando.
Taehyung: Claro, Jagi. Vou jogar boliche com os meninos hoje. Tem como
você ir?
Eu não queria sair de casa hoje à noite, mas resolvi cancelar a ida ao pub e
confirmar.
Tem, sim. Que horas?
Enquanto ele me passava as informações, fui até a academia, disposto a
estudar mais tarde. Puxei peso e treinei minhas pernas e braços,
exaustando-me até o final da tarde. Alguns colegas de time estavam ali
também, malhando comigo e eu pude conversar um pouco para passar o
tempo.
Quando deu o horário, voltei para o dormitório, tomei um banho e,
enquanto me arrumava, meu celular tocou. Coloquei no viva-voz e atendi,
ajeitando meu cabelo em frente ao espelho.
"Alô, Jeongguk? Por que você não vai mais vir ao pub? ", Era Lisa.
— Taehyung me chamou para ir ao boliche hoje, e, como eu preciso
conversar com ele pessoalmente, aceitei — expliquei.
"Hum, o que exatamente você precisa conversar? Você está agindo
estranho desde o que aconteceu no banheiro".
108
— Eu posso te falar depois — suspirei — é realmente algo importante,
ou... pelo menos acredito que seja.
"Certo, certo, certo. Você precisa me manter informada. Se tem alguém
aqui que se importa, esse alguém sou eu".
— Diz a garota que levou uma câmera ao Clube da Luta esperando que
chutassem meu traseiro — revirei os olhos, pegando minha carteira e
colocando-a no bolso na calça jeans rasgada.
"Guardar rancor faz mal, Jeongguk. Quem guarda rancor vive menos".
— Está bem, espertinha. Vou desligar, estou saindo aqui.
"Okay", ela ria quando encerrou a ligação.
Ocorreu-me que eu ainda não havia contado para Lisa tudo o que
aconteceu e tudo que eu descobri, ainda. Ela ia surtar quando soubesse,
sinceramente.
Peguei um ônibus no ponto em frente a uma das entradas do campus e
juntei minhas mãos, tentando ignorar o nervosismo. Eu estava determinado
a perguntar logo, tirar aquela história a limpo, e dependendo do que fosse
sua resposta, eu tomaria alguma atitude.
Como era uma quarta-feira, o local não estava muito cheio, e tinham
poucas pessoas jogando, provavelmente como consequência de ser meio
de semana.
— Jeon! — Ouvi a voz de Namjoon chamando não muito longe de mim.
Ele estava acompanhado de Seokjin, Yoongi e Taehyung, todos da qual
me observavam atentamente. Foquei meu olhar no ruivo, vendo a forma
fofa como seus cabelos caíam em seus olhos, e o sorriso de canto que ele
me dava, visivelmente contente por me ver ali. Cumprimentei cada um
deles, deixando-o por último de propósito, e ele percebeu isso,
aumentando o sorriso quando fui finalmente cumprimentá-lo.
Aproximei-me para dar um abraço rápido, mas Taehyung virou o rosto,
roubando um beijo meu. Surpreso, pisquei, sentindo minhas bochechas
corarem.
109
— Tudo bem? — Perguntou ternamente, olhando nos meus olhos.
— Tudo sim — forcei um sorriso. — Eu queria conversar com você em
particular.
— Claro, pode ser depois do jogo?
Eu estava tentado a dizer que sim, mas a verdade era que minha ansiedade
não me deixava esperar mais.
— Pode ser agora? Eu queria fazer isso logo — tentei não parecer tão
nervoso, mas provavelmente falhei miseravelmente, pois Taehyung me
fitou com a sobrancelha erguida e assentiu.
— Pessoal, a gente já se junta a vocês — informou aos outros, pegando
minha mão e me guiando para a saída do boliche, para conversamos
melhor do lado de fora onde não tinha movimento.
O ar quente da noite bateu contra meu rosto quando nos encostamos ao
lado da entrada do boliche, escorados na parede. Taehyung me encarava
preocupado, parecendo perceber que algo definitivamente não estava certo,
então, aguardou até que eu me sentisse pronto para falar. Tinha tanta coisa
que eu queria falar, mas agora, eu simplesmente não sabia como externar
isso. Uma sensação de vergonha me tomava conta, como eu poderia
começar falando tudo aquilo?
O ruivo tocou meu queixo, levantando minha cabeça e me fazendo
encontrar seus olhos. Seu polegar acariciou a maçã de meu rosto e eu
engoli em seco, apreciando a carícia.
— É verdade que você transou com muita gente desde que chegou aqui?
Digo, que ao invés de me procurar diretamente, você preferiu sair com
outras pessoas? — Perguntei de uma vez, soltando tudo sem rodeios
quando arranjei uma coragem repentina.
Sua expressão ficou indecifrável e seu olhar se tornou impassível. Eu o
peguei totalmente de surpresa. Ele claramente esperava qualquer coisa,
menos isso, e o mais surpreendente de tudo, é que ele não negou. Ou,
talvez não fosse tão surpreendente assim. Eu sinceramente não tinha
motivos para estar surpreso.
110
— Não foi muita gente, mas sim. Tive casos de uma noite só, transei com
outras pessoas desde que cheguei aqui. — admitiu, não desviando o olhar
do meu. — Mas, não foi dessa forma como você disse.
— Então, é algo que você está acostumado a fazer, você realmente tem o
hábito de transar com as pessoas e depois partir para outra muito fácil —
concluí, sentindo minha garganta secar, a vontade de vomitar que senti
mais cedo voltando.
— Sim, eu fiz isso, mas dessa vez é diferente — afirmou convicto — você
é diferente. Tudo com você é diferente.
— Taehyung, eu ouvi pessoas falando de você. Falando sobre como é, o
quão bem você... que você já fez isso com muita gente — respirei fundo
— eu realmente quero acreditar em você, apenas estou sentindo algo
estranho...
Ciúme.
— Tem uma razão! — Insistiu, seu rosto assumindo uma expressão de
angústia — eu queria que você soubesse de tudo, mas você não descobriu
ainda e...
— Eu descobri sim — cortei, cruzando os braços. As mãos dele caíram ao
lado de seu corpo, seus olhos arregalados — eu sei que você foi meu
primeiro amor, eu sei de tudo, sei que te fiz fazer uma promessa quando
éramos crianças. Você realmente cumpriu a promessa, embora eu tenha me
esquecido, e eu peço perdão por isso, de verdade. Eu quis te evitar esses
dias e não foi por raiva por qualquer atitude sua. Foi porque eu estava
envergonhado comigo mesmo por não lembrar — justifiquei, vendo-o
arregalar os olhos mais ainda — é realmente incrível que você tenha se
lembrado disso, mas eu nem sei se posso acreditar em tudo o que você diz.
Você veio aos Estados Unidos por minha causa? Porque se for mesmo, por
que você demorou tanto para entrar em contato comigo? Você chegou em
fevereiro e só o fez em setembro. Você aproveitou todo o tempo que pode
por aqui para sair com outras pessoas até finalmente se enjoar e decidir
que era hora de me procurar? E por que você precisava fazer daquele jeito?
Não gritei, não me exaltei, muito menos xinguei. Apenas tirei tudo o que
estava preso em minha garganta.
111
A resposta dele não demorou muito:
— Eu peço desculpas pela forma como te tratei desde aquele dia no Clube
da Luta, Jeongguk, de verdade. Não foi algo correto, mas eu estava com
raiva — suspirou — você foi o motivo de eu ter escolhido Phoenix como
destino. Meus pais queriam que eu estudasse nos Estados Unidos, mas eles
esperavam que eu fosse para Harvard ou Stanford. Escolhi a ASU quando
vi seu nome no site do time de futebol americano da universidade, disposto
a te reencontrar. Só que no dia da recepção aos calouros e intercambistas,
você estava flertando com outro cara quando te vi, e quando tentei me
apresentar, você me ignorou. E bem, eu fiquei com raiva, por mais idiota
que isso fosse. Eu achei que você tivesse esquecido de mim
completamente, e estava aproveitando sua vida, então, decidi também
aproveitar o máximo que pude, transei com algumas pessoas e...
Sua voz morreu.
— Você poderia simplesmente ter falado comigo — balancei a cabeça —
olha, eu não sei nem mesmo... foi bem ruim escutar falarem de você
daquela forma... poxa, você não planejava falar nada para mim, não é?!
— Eu não estou brincando com você, eu realmente ia te contar — insistiu
— eu realmente gosto muito de você, caramba. Me desculpa que você teve
de ouvir essas coisas vindas de outras pessoas.
— Não serei hipócrita a ponto de perguntar sobre sua vida sexual em geral,
afinal, isso não me diz respeito, em especial o que você fez ou deixou de
fazer antes de vir para a América — passei minhas mãos por meu rosto —
mas, a partir do momento em que você veio para cá é diferente, afinal,
você veio por minha causa e não foi o que pareceu. Eu ia perguntar quando
foi a última... deixa pra lá. Não é da minha conta também.
Taehyung me encarou em silêncio por alguns segundos. E para minha
surpresa respondeu o que eu queria ter perguntado.
— A última vez que me envolvi com alguém aqui nos Estados Unidos foi
no dia em que eu lutei com você no Clube da Luta, não transei mesmo,
mas, aconteceu algo naquele dia — confessou.
— Então, você saiu mais cedo naquele dia, zombou de mim, me humilhou
na frente daqueles homens e depois saiu para ir comemorar o feito
112
trepando com outra pessoa — dei uma risada sem humor.
— O quê? Claro que não! Eu nunca faria uma coisa dessas — pareceu
ofendido que eu tivesse considerado aquilo.
— E ainda assim, você não perdeu uma única chance de zombar de mim
— suspirei — mas isso não é tão pertinente assim, para ser sincero. Você
não tem que sentir culpa de nada, muito menos acreditar que me deve algo.
Eu não tenho motivos para ficar chateado ou brigar com você, afinal, nós
não éramos nada antes do Clube da Noite, não éramos nada naquela noite e
não sei, acho que continuamos sendo nada. Eu não tenho direito de cobrar
explicações, você pode viver como bem quiser, eu só queria saber mesmo.
— Não, Jeongguk — sua voz estava desesperada, seus olhos alarmados
quando ele tocou minhas bochechas com as duas mãos — me deixa
explicar. Eu juro que não fiz nada com intenção de zombar de você, eu
nunca faria isso. Você é importante para mim, acredita em mim, por favor!
— Fala, Taehyung — fechei os olhos, me afastando — pode falar.
— Eu agi de forma imprudente, sequer pensei direito. Tudo não passou de
prazer momentâneo, nada daquilo teve importância para mim — afirmou
— me desculpa. Eu sei que a gente tava começando alguma coisa e eu sei
que você odeia a ideia de se sentir usado, me desculpa, mesmo. Nunca foi
a minha intenção. Me dá uma chance, por favor. Eu realmente vim aqui
por você, porque eu gosto de você e eu não queria acabar com tudo dessa
forma. Se eu pudesse, eu voltava no tempo e nunca faria nada disso.
— Eu só... — suspirei novamente. — Me sinto triste e confuso de pensar
que você sempre afirma seus sentimentos por mim, mas desistiu na
primeira e única tentativa falha. Estive por perto durante todo esse tempo,
e você decidiu convenientemente que isso significava uma rejeição
definitiva ou sei lá e saiu para transar com meia universidade.
— Me perdoa? — Me fitou com olhos suplicantes. — Você pode me dar
uma chance? Só mais uma? Eu não quero que você deixe de confiar em
mim, ou pare de falar comigo. Não agora que a gente começou a ter algo.
— Eu não vou parar de falar com você, eu só não sei se quero mais, não
sei se vale a pena — menti, sentindo-me extremamente inseguro. Saber de
tudo aquilo me deixou inseguro ao extremo — preciso de um tempo para
113
pensar, preciso ficar sozinho. Não vou te ignorar, mas quero distância, por
enquanto.
Taehyung olhou para baixo, parecendo arrasado e eu me senti por estar
fazendo aquilo.
— Não tem uma mínima chance de nós dois sermos alguma coisa?
— Eu... Eu não sei, não sei o que eu penso de você, não sei o que pensar,
eu não conheço você, não confio totalmente, não sei se vou conseguir
algum dia, não sei se você é uma boa pessoa. Seu comportamento passado
me faz pensar que você não é — falei baixinho, me arrependendo daquelas
palavras assim que elas saíram da minha boca.
Assentindo, Taehyung, colocou a mão no bolso e tirou de lá um
colarzinho, colocando-o na minha mão.
— Desculpa — sussurrou uma última vez antes de voltar para dentro do
boliche.
Era um colarzinho prata, com um pingente redondo contendo os dizeres "I
believe it's meant to be, darling" da música favorita de minha mãe. Ela me
dera aquilo como um presente no meu aniversário de 10 anos e eu havia
mentido que o perdi quando ela me perguntou do paradeiro do colar,
quando na verdade, eu o dera para Taehyung quando éramos crianças.
E agora, ele me devolveu.
[...]
Quando o sinal foi dado e o jogo acabou, encontrei-me desacreditado. Meu
desempenho tinha sido péssimo, o time todo parecia distraído naquela
noite. Perdemos de forma vergonhosa contra os Cardinals de Stanford e eu
sequer reagi ao ouvir os gritos do técnico Richards. Não executei as
jogadas de forma apropriada e a própria frustração me corroía por dentro.
Retirei o capacete e passei meus dedos por meus cabelos molhados de
suor. A verdade era que aquela semana estava sendo uma merda.
Definitivamente já podiam cancelar aquela porra, pois tudo parecia estar
dando errado. E o pior de tudo era que a maldita sensação de que isso era
culpa minha não me abandonava.
114
Talvez porque fosse mesmo. Eu sentia a falta de Taehyung.
Quando uma coisa desanda, parece que todas as outras seguem o ritmo e
tudo desaba de uma vez só.
E claro, toda essa situação catastrófica começou comigo falando que não
confiava nele e que ele não era uma boa pessoa. Uma parte minha tentava
me convencer de que eu estava certo, mas porra, eu não devia cobrar
explicação, eu não devia cobrar nada! Eu não era nada dele para cobrar
qualquer tipo de comportamento, e muito menos para julgar. Lembrei-me
do dia da recepção dos calouros e intercambistas que ele falou, e concluí
que ele era o rapaz de boné que tentou me cumprimentar, mas que eu
ignorei porque um dos pianistas da universidade estava flertando comigo.
Eu fui idiota por dizer que eu não sabia. Eu estava gostando de descobrir
quem ele era realmente, estava gostando da faceta diferente que eu estava
conhecendo. A mesma que ele mostrou no aniversário do Peter, a mesma
que ele mostrou no bar quando entrelaçou os dedos nos meus.
Ele não era uma pessoa qualquer. Ele era o garotinho que disse que não
sairia do meu lado enquanto eu não desse um sorriso, o mesmo garotinho
que cumpriu a promessa que eu o fiz fazer. Mas, na hora em que
conversamos, quando expus tudo, a única coisa que me veio na cabeça foi
a minha insegurança.
Dizem que não adianta chorar pelo leite derramado, mas como eu posso
não lamentar o que fiz? Eu dei a entender que não aconteceria mais nada
entre nós e isso era péssimo, porque Kim Taehyung era a única coisa que
ocupava meus pensamentos nos últimos dias. E não digo somente pela
culpa, por me lamentar, como também pela saudade. Me custou um pouco
de coragem para admitir isso já que a presença dele às parecia constante, e
agora, eu nem sabia por onde ele andava.
Compreensivelmente, ele evitou a academia, evitou os encontros em
grupo, evitou tudo. Ele me evitava como se eu fosse uma das dez pragas
do Egito e eu entendia. No lugar dele, eu também faria o mesmo.
Sinceramente, eu não sei se sequer perdoaria o fato de ter insinuado que
ele não era boa pessoa. Todo mundo errava, eu incluso, e não era meu
lugar julgar. Ele errou quando não veio falar diretamente comigo, mas aí,
eu também errei quando o ignorei. Ele errou quando transou com várias
pessoas como se isso fosse demais, e eu errei em jogar isso em sua cara,
115
fazendo uma insinuação mesquinha sobre seu caráter.
Era tudo tão ridículo.
Trocamos beijos intensos no bar, na porra do carro e no banheiro e eu
pensava naquilo. Aquelas malditas lembranças dominavam minha
imaginação quando eu me encontrava sozinho no quarto. Refleti sobre as
coisas que eu disse e analisei cada um dos pontos. Ele viera para os
Estados Unidos da América cumprir a promessa e me encontrar. Aquilo
por si só já era suficiente para me fazer sentir algo. E parando para pensar,
era fofo ver como ele se esforçou para cumprir a própria palavra, embora
eu não tivesse nenhuma obrigação com aquilo.
Ele dissera que eu não o reconheci e que eu o ignorei e aquilo em
particular me incomodou. Taehyung é alguém intenso demais para se
esquecer. No primeiro momento em que o vi no Clube da Luta, senti-me
instantaneamente atraído e embasbacado, ele me chamou a atenção assim
que o vi.
Ele ficou magoado porque o ignorei, porque não o reconheci, isso
culminou em sua atitude infantil e no fim, sua atitude imbecil no Clube da
Luta. A única coisa que dera certo para chamar minha atenção.
Não conseguia mais pensar. Parecia que quanto mais eu recordava, pior
ficava.
Porém, o que aconteceu naquela semana ultrapassou o conceito do que
exatamente eu classificava como "pior", e mesmo assim, eu sabia que não
podia reclamar. Eu precisava encontrar Taehyung e conversar com ele de
uma vez por todas, mas estava complicado. Queria vê-lo pessoalmente
porque eu não tinha coragem de mandar mensagem. Toda a vez que eu via
o "online" escrito abaixo de seu nome, ficava mordiscando meu lábio e
hesitando. Ele não bloqueou meu número (não tinha razões para tal, de
qualquer forma), mas eu não queria fazer isso por rede social. Se eu fosse
ter uma conversa séria com ele para que nós dois nos acertássemos, tinha
de ser em pessoa.
No entanto, recebi uma mensagem que me deixou balançado enquanto
estava deitado em minha cama, descansando após mais um dia exaustivo
de treino.
116
Lisa: Jeongguk, fiquei sabendo que um amigo do Taehyung veio da Coreia
para os Estados Unidos. Chegou ontem à tarde, parece que veio para dar
força ou algo assim, não entendi direito. Ele vai embora dos EUA, por
acaso? Você sabe o que aconteceu?
Sei, e a culpa provavelmente é toda minha.
Lisa: Como assim, caramba? O que aconteceu? O que você fez?
Conversei com Taehyung e acabei com o que quer que a gente estava
começando. Merda, eu nem sei se a gente tinha alguma coisa direito.
Lisa: O quê?
Eu estava incomodado com algumas atitudes dele, e eu acho que terminei
a abordagem de forma errônea. Ele disse que veio para os EUA por minha
causa, graças a uma promessa que eu o fiz fazer quando a gente era
criança e nos conhecemos na Coreia (detalhe, eu não lembrava disso até
uns dias atrás).
Daí, eu ignorei ele e não o reconheci na recepção aos calouros porque
estava ocupado flertando com outro cara. Taehyung interpretou isso de
forma errada e saiu comendo um monte de gente pelo campus.
Claro que eu não gostei de saber disso, porque como ele quer que eu
acredite que comigo é diferente? Ele agiu de forma extremamente
arrogante comigo no início, e foi bem idiota no Clube da Luta. Que
garantia eu tinha de que ele realmente era sério como dizia ser?
Ele implorou por uma chance, disse que gostava de mim, e eu não fui
muito sincero com ele. Eu me sinto inseguro demais com essa situação
toda. Saber que ele tem uma reputação assim, saber que ele é desejado
por geral aqui na faculdade.
Acabou que eu acabei falando que eu não confiava nele e não sabia
sequer se ele era uma boa pessoa, baseado no comportamento anterior
dele.
Foi isso.
Lisa: Puta merda.
117
Eu não sei nem o que dizer.
Caramba.
Assim, eu já ouvi falar que ele teve uns casos sim, mas não que ele comeu
geral. Isso é verdade mesmo?
Você sabia? Por que não me falou antes?
Lisa: Porque eu não achei que fosse preciso! Que eu saiba, ele só teve
alguns. Se ele tiver comido umas seis pessoas foi muito, sinceramente.
Ele não negou ter dormido com outras pessoas, embora tenha dito que foi
apenas algumas. Sinceramente, não sei nem o que pensar direito. Eu não
tinha noção da suposta bissexualidade dele até esses dias. Isso triplicou a
minha insegurança.
Lisa: Ele não ia mentir sobre algo tão sério quando você perguntou, né?
Isso é uma prova de que talvez ele não tenha mentido, Jeongguk. Ele pode
realmente gostar de você como ele disse antes.
Se for verdade, ele errou feio em ter enfiado o pau em outras pessoas
antes de falar com você, mas você também errou de cobrar dele algo que
você não tem direito. Você queria que ele tivesse se mantido fiel a você,
sei lá? Vocês nem se falavam!
Ele devia ter esclarecido as coisas de forma melhor, e você devia ter
escolhido melhor suas palavras quando foi falar com ele.
E outra, eu acho que você devia conversar com ele com mais calma. Ele
não comeu geral como te falaram, não, Jeongguk. Eu sei das fofocas de
geral dessa universidade e eu falei sério, ele teve alguns hook-ups, mas
não foram tantos assim. E de onde você tirou essa história de
bissexualidade? Ele é gay, Jeongguk! G-A-Y! Gay como você! Os casos
dele foram apenas com homens!
Mas eu ouvi garotas descrevendo os encontros com eles, ele não negou
quando eu falei deles!
Lisa: Você falou na cara dele que ele tinha transado com mulheres e ele
não negou?
118
Na verdade, não. Eu não cheguei a falar em hora alguma que ele transou
com mulheres. Eu só disse que "pessoas" haviam dito, não passei disso.
Lisa: Jeongguk, ele não transou com garota alguma desde que chegou
aqui. O que você ouviu foi fofoca. Povo adora mentir sobre gente famosa,
você sabe. Eu já vi algumas garotas comentando que elas acreditam que
Taehyung é bissexual. Isso é simplesmente porque ele é atraente demais
para ser gay, nenhuma delas quer acreditar nisso. É muito mais fácil você
alimentar sua consciência com uma mentira dessas, e se fazer acreditar
que "não, aquele homem maravilhoso definitivamente NÃO pode ser gay"
do que encarar a realidade de uma vez por todas.
Então, quer dizer que os casos aconteceram, mas não com esse
sensacionalismo todo que me foi relatado?
Lisa: Definitivamente não! Talvez, você acreditou nisso que te contaram,
que quando você o abordou, você o fez de forma tão... direta que ele
provavelmente entrou em pânico na hora, sei lá. Isso não é culpa sua,
aliás. Não é como se você pudesse prever qualquer coisa do tipo, né. Mas,
agora eu sugiro que você vá conversar com Taehyung, Jeongguk. Eu vi ele
dois dias atrás no MU, com um capuz cobrindo metade do rosto, tentando
passar despercebido. Mas, ele parecia tão tristinho e cabisbaixo. Acho
que você roubou o coraçãozinho dele mesmo. E rejeitou também.
Obrigado por me fazer me sentir mal.
Lisa: De nada, qualquer coisa estou aqui.
Acho que vou no dormitório dele agora. Você sabe qual é o apartamento?
Sinto que a gente precisa conversar melhor para esclarecer e eu preciso
pedir desculpas.
Lisa: Você tem meu total apoio no que quer que for fazer <3
Obrigado, Lis.
Levantando-me da cama, troquei de roupa, colocando um conjunto de
moletom cinza e peguei meu celular, abrindo o contato de Taehyung na
rede social. Abri um sorrisinho ao ver seu sorriso em forma de coração e
fiquei feliz por saber que aquilo tudo foi em parte um exagero e
principalmente, falta de comunicação. Eu iria encontrá-lo, nós iríamos
119
conversar de novo, só que dessa vez de forma mais sóbria, e eu acreditava
que íamos nos acertar. Aquela insegurança de antes não me esmagava
como antes e eu me sentia grato por ter conversado com Lisa.
Disposto a emendar as coisas entre a gente, rumei até seu apartamento de
dormitório, que ficava numa das alas mais abastadas na universidade após
Lisa me instruir, indicando que ele era um aluno de renda superior.
No entanto, acabei por descobrir duas coisas nessa minha jornada.
A primeira delas era que um amigo de Taehyung realmente tinha vindo
para os Estados Unidos, e a segunda delas era que ele me odiava com
todas as forças do universo. Park Jimin, como era seu nome, possuía um
ódio que provavelmente ultrapassava os limites conhecidos pelo homem.
Quando bati na porta, quem me recebeu não foi um Taehyung, e sim um
garoto muito bonito de baixa estatura, lábios cheios, feição angelical e
cabelos tingidos num tom de louro claro como sol. As roupas dele eram de
um estilo refinado, e seus olhos pequenos focavam-se em mim, julgadores.
— Pois não? — Cruzou os braços, inquisitório.
Eu esperava ser recebido por Taehyung. Esperava que ele abrisse a porta,
não esse... amigo (que mais tarde eu descobri se tratar de Park Jimin).
Mexendo meus dedos ansiosamente, respirei fundo e tomei coragem.
— Taehyung está? — Perguntei, limpando a garganta.
Me analisou da cabeça aos pés.
— Quem deseja? — Estreitou os olhos.
Hesitei. Eu estava com um mau pressentimento de aonde aquela conversa
iria nos levar, e algo me dizia que não terminaria comigo falando com
Taehyung.
— Jeongguk — murmurei, me arrependendo de ter contado logo de
antemão quando o baixinho fechou a cara na hora.
Ante a mera menção de meu nome, o garoto saiu do apartamento e bateu a
porta com força atrás de si, dando um passo à frente e me fitando raivoso.
Instintivamente, recuei um passo, embora eu fosse mais alto e claramente
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mais forte fisicamente.
— Então, é você! Eu não sei como você tem a cara de pau de vir aqui para
falar com ele depois de quebrar o coração dele daquela forma! —
Esbravejou.
— Eu vim pedir para conversar com ele, esclarecer as coisas. Houve uma
falta de comunicação grave entre nós dois, e eu também queria pedir
desculpas por...
— Enfia as suas desculpas no cu. Você provavelmente vai gostar, já que é
passivo! — Me interrompeu, fazendo-me arregalar os olhos. — Eu não
quero saber das suas malditas desculpas, elas não valem porra nenhuma
agora! Eu não acredito até agora que você teve coragem de vim aqui
depois das coisas que você falou. É um tremendo de um cara de pau! Você
deu esperanças para ele de que vocês podiam ser algo a mais e depois você
simplesmente deu a entender que isso não tinha a menor possibilidade, que
ele não tinha a menor chance com você. Você não vai se aproximar do
Taehyung nunca mais! Eu não vou deixar! E sabe o que mais? Ele não
quer te ver! Ele não quer saber de você, não quer te ver pintado nem de
ouro. Ele até me disse que não sabia onde diabos ele estava com a cabeça
quando veio da Coreia atrás de você, e não sabe por que diabos ele
acreditou que você era especial de alguma maneira. Então, faça um favor a
si mesmo e some daqui! — Exclamou, irado. — E não me testa, garoto.
Você não me conhece, você é só um zé-ninguém sem perspectiva de nada
na vida que joga no time lixo dessa universidade. Eu tenho dinheiro e
contatos, e posso fazer você sumir de circulação com o estalar dos meus
dedos. E acho bom você levar a sério o que estou falando, senão eu vou te
mandar para uma ilha na porra do Oceano Pacífico para viver o resto da
sua existência inútil como um pescador! — Continuou. — Fica longe do
meu melhor amigo! Eu vou fazer questão de garantir que Taehyung se
esqueça da promessa idiota, da sua existência e de que, um dia, ele te
conheceu. Boa noite.
Dito isso, ele entrou no apartamento e fechou a porta na minha cara.
Fiquei uns bons cinco minutos parado na porta, tentando respirar e fazer
minhas pernas andarem. Quando finalmente o consegui, voltei para o
dormitório chorando. Eu não tinha chorado nesses últimos dias, mas, dessa
vez, eu acabei não conseguindo segurar. Taehyung agora considerava a
promessa inútil? Tudo se converteu a nada para ele? Eu não conseguia
121
acreditar naquilo. Não era uma promessa inútil, nunca foi. Como ele tinha
coragem de insinuar algo daquele tipo? Assim que me lembrei, senti-me
tão mal por não ter lembrado da promessa de antemão, mas agora que eu
tinha plena consciência, ela significava algo para mim. Não era algo vazio.
No entanto, aparentemente, Taehyung não pensava mais assim.
122
Capítulo 7 - Always
Passei a noite em claro chorando em meu quarto. Aquelas palavras me
afetaram bastante e eu me senti péssimo, mesmo que não quisesse admitir
de primeira. Faltei todas as minhas aulas no dia seguinte já que não estava
com cabeça para nada, e mais tarde, resolvi fazer algo que eu não fazia há
séculos.
Encher a cara.
Voltei no mesmo bar onde tínhamos comemorado o aniversário de Peter, o
amigo de Miles, sentando-me no mesmo lugar em que ficara junto de
Taehyung quando fingimos namorar para o meu ex. Eu estava a fim de
afogar as mágoas e beber até entrar em coma alcoólico (quem sabe quando
eu acordasse desse torpor, com sorte eu sofreria de amnésia e esqueceria
cada palavra maldosa que Park Jimin jogou contra mim.)
No entanto, não muito longe de mim, enquanto eu tomava um gole da
minha primeira bebida da noite, observei as pessoas ao redor e foquei na
pista de dança. Uma coisa é verdade: quando é para uma pessoa ser tão
fodidamente azarada, ela consegue ser cinco vezes mais, pois vi uma cena
que me fez ficar de queixo caído. Era Taehyung. Com seu vestuário de
sempre, jeans, uma camiseta, um casaco escuro elegante e a maldita
bandana. Seus cabelos grudavam em sua testa graças ao suor que ele
expelia, e bem ali, praticamente na minha frente, ele mantinha suas mãos
na cintura de um outro cara muito bonito, que se apoiava em seu pescoço e
mexia com seus cabelos, enquanto esfregava seu quadril contra o do ruivo.
Achei que estavam em um momento íntimo, dançando juntos, mas foi o
oposto disso. Ele apoiava as mãos na cintura do homem para afastá-lo de
si, embora o sujeito estivesse empenhado em ficar em cima de si.
123
Quando achei que não tinha como ficar pior, Jimin, o amigo baixinho do
ruivo apareceu ao lado deles segurando um drink, esbanjando um sorriso
enorme no rosto. Eu não conseguia ouvir o que ele falava, mas o que quer
que fosse, irritou Taehyung na hora. Sem pestanejar, ele deu um esbarro
no ombro do amigo enquanto batia em retirada dali, visivelmente
contrariado. O Park fitou o garoto que antes tentava montar no ruivo e
murmurou o que apostei ser um pedido de desculpas.
Se eu não soubesse que Taehyung não queria nem olhar na minha cara, eu
afirmaria sem problemas que o amigo dele é um verdadeiro babaca.
Deixando uns trocados para o barman, pedi um táxi e voltei para o
dormitório sem nem ao menos estar bêbado como planejei. Eu não
esperava vê-lo por ali, e lá estava ele. Tão bonito como sempre, e eu nada
pude fazer.
Fora tudo tão fodidamente pior do que eu imaginei. Lembrei de quando
nos beijamos, quando me esfreguei em sua coxa, praticamente cavalgando-
o, quando subi em seu colo no carro e o deixei me apertar contra si. Eu
odiava esse semestre. Essa foi a minha conclusão inevitável da semana.
E agora, com minha cabeça em outro lugar, eu não estava sequer
executando minha função de center nem nos treinos.
No sábado, eu só queria realizar uma missão que me foi impedida de ser
cumprida. Eu queria me entupir de álcool e virar a noite bêbado, mas Lisa
não parecia disposta a permitir que eu cumprisse meus objetivos, querendo
que eu estivesse cem por cento sóbrio. Ela me interceptou após algumas
horas querendo conversar sério comigo.
— Eu quero saber o que aconteceu mesmo — exigiu ela quando estávamos
no meu quarto de dormitório, indignada após eu contar detalhadamente o
que aconteceu pelo meu ponto de vista. Pensei em lembrá-la que ela não
podia falar muito alto já que estávamos no dormitório masculino e ela nem
devia estar ali —, não posso acreditar que você deixou aquele... aquele
anão de jardim falar com você assim! Jeongguk, quem ele pensa que é? Eu
vou arregaçar a cara daquele garoto! Ele mentiu, eu tenho certeza!
Ela andava de um lado para o outro, parecendo tão puta que eu juro que ela
poderia querer estrangular alguém a qualquer momento. Conseguindo me
sentir cada vez mais triste e impotente com a situação, enterrei meu rosto
124
no travesseiro e senti as lágrimas descerem silenciosamente por meu rosto.
— Jeongguk, ele veio da Coreia por sua causa! — Ela parecia querer matar
alguém de tão inconformada que estava com aquilo — não tem a mínima
chance de ele não querer sequer olhar na sua cara! Isso não pode ser
verdade de forma alguma! Não faz sentido! Sinceramente, não sei como eu
não fui atrás daquele garoto ainda, eu estou até calma demais.
E ela chamava isso de calma? Era um milagre que ela não apanhou algum
travesseiro e rasgou, porque só pela forma como a garota fazia uma
expressão de fúria, mostrava que ela tinha vontade de fazer isso.
— Eu acho que botei tudo a perder, eu fui muito descuidado com as
palavras — lamentei, chorando e abraçando o travesseiro com força.
— Guk — ela suspirou, parando para tomar um ar e eu levantei minha
cabeça do travesseiro, encarando-a. Lisa ainda estava irritada, mas agora,
parecia pensativa — olha, eu sei que você disse que odiava o Taehyung,
que tinha um misto de sentimentos conflituosos rondando a sua cabeça e
tudo mais. Mas, agora, eu queria que você me respondesse sinceramente
sobre como você se sente.
— O que você quer dizer? — Assoei o nariz, encolhendo-me sobre a cama
como uma bola.
— Quero que você me diga com todas as palavras que você gosta dele, e
gosta muito.
— Eu gosto — afirmei sem sequer pestanejar — eu gosto muito dele. Por
que você acha que eu estou me sentindo assim? O problema é que eu não
teria coragem de dizer isso para ele. Eu menti sobre meus sentimentos na
última vez que a gente conversou, eu... — respirei fundo — eu não tenho
problemas em confessar a você que eu gosto dele de verdade. Já faz um
tempo que eu parei de ter pensamentos raivosos contra ele. Desde que eu
descobri sobre a promessa eu só... só consegui gostar mais dele a cada dia.
Eu só não sei se tenho coragem de admitir isso para ele.
Se ela queria me fazer ter mais uma crise de choro, ela conseguiu, e com
sucesso, pois chorei mais uma vez, e dessa vez, sentindo-me ainda mais
triste, se é que era possível. Ele não era só um garoto que me irritava.
Caramba, eu me atraía por ele. Taehyung tinha um sorriso bonito, ele era
125
inteligente, me tratava de uma forma que me derretia, como quando ele
entrelaçou nossos dedos e acariciou minha mão, ou quando a gente se
encontrou no boliche e ele tocou minhas bochechas com tanto carinho que
me fez corar. Era como se aquele fosse quem ele realmente era. Aquele era
Kim Taehyung, um homem provocante e sarcástico, mas também
terrivelmente carinhoso.
Dizem que o amor e o ódio andam juntos, e acho que caí nessa.
Literalmente falando, até porque eu afirmava tanto o quanto eu o odiava
antes de tudo.
Isso apenas me entristeceu mais ainda, confessar esse tipo de coisa acerca
dos meus sentimentos. Não era bom e não me deixava nada melhor.
Afinal, saber disso não ajudava em nada, não me permitia fazer as coisas
de forma diferente. Porque sinceramente, à luz de tudo que eu sabia agora,
se eu tivesse capacidade de fazer isso, no momento em que puxei
Taehyung para fora daquele boliche, eu teria o jogado contra a parede, e o
beijado antes de chamá-lo para conversar. Definitivamente teria sido
melhor.
— V-Você acha que se eu tentasse falar com ele de novo... eu... você acha
que a gente ia se acertar? Foi tudo um problema de comunicação entre nós
desde o início que gerou essa bola de neve gigantesca, e eu realmente
queria remendar essa situação. Será que é possível? — Perguntei em voz
baixa, temendo a resposta que Lisa desse.
E ela pareceu reflexiva por um momento.
— Não sei — disse sincera — eu realmente não tenho uma resposta para
isso, desculpe.
Minha expressão caiu na hora, e eu fiquei verdadeiramente cabisbaixo,
baixando meu olhar para meu travesseiro e vendo minhas lágrimas caírem
sobre a fronha branca.
— Porém — a loura pigarreou — apesar de tudo, eu não vou deixar que as
coisas fiquem por assim mesmo. Irei pensar em uma forma de tirar essa
história mal contada a limpo e consertar essa situação. Se Taehyung
realmente tiver dito que não quer nem mais ver a sua cara, então a gente
manda ele tomar no meio daquele lugar e eu faço questão de arranjar um
garoto bem gostoso para você.
126
Dei uma risada rouca entre lágrimas, limpando minhas bochechas
molhadas. Ela estava certa, e eu desejava que tudo desse certo.
[...]
Quando Lisa, Ryan e Miles me chamaram para sair no domingo seguinte,
minha animação era nula. Aquela semana não estava sendo boa em nada, e
eu só queria ficar quieto no quarto de dormitório dando o foda-se para
minha saúde, comendo qualquer porcaria e assistindo série de tevê. Não
fui para a academia naquela semana e não estava me importando com
aquilo nem um pouco. O técnico Richards ia me matar, mas grande merda
quando não se tem cabeça para nada.
Fui obrigado a levantar da minha cama quentinha, tomar um banho quente,
vestir um jeans confortável, uma camiseta preta e uma camisa xadrez
vermelha por cima. Penteei meus cabelos da forma padrão, partindo-os ao
meio, calcei um par de tênis qualquer e saí do quarto exibindo minhas
olheiras com orgulho. Eu não estava nem aí para minha aparência de
zumbi, eles insistiram em me tirar do dormitório, eles que me aguentem.
Não prestei muita atenção no trajeto, encostando minha cabeça no vidro do
carro enquanto os três tagarelavam sobre a temporada de jogos na
universidade e como o Sun Devils precisaria ralar para se manter. Lembrei
das palavras do amigo de Taehyung e automaticamente fiquei melancólico.
Antes, Ryan me chamava de careta, dizia que minha vida não tinha
emoção e eu estava bem com isso, não me importava, afinal, ele era meu
melhor amigo e não falava aquilo com intenção de me machucar. Porém,
foi diferente com Park Jimin. Ele queriame machucar, queria que eu me
sentisse péssimo.
Cada palavra dele foi como um deboche a minha vida e a tudo o que eu
era, como se tudo fosse uma piada. Me peguei questionando se minhas
conquistas eram... medíocres. Caramba, eu me considerava um bom filho,
bom aluno, eu tinha talentos, mas... jogava num time não tão grande como
ele falara (ele usou uma palavra que eu me recusava a repetir), e eu
realmente não tinha perspectiva de como seria meu futuro. Eu fazia
faculdade de Ciência da Computação, e não planejava seguir carreira no
futebol. No caso, eu não tinha contatos, não tinha dinheiro, não tinha nada
que pudesse mesmo me ajudar.
Eu era mesmo um zé-ninguém?
127
Aquele garoto disse que podia dar um fim em mim com o estalar dos
dedos e eu não duvidava. Lembro-me de quando fiquei puto ao stalkear
Taehyung na internet e descobrir seus feitos e talentos. Naquela época,
quando comparados aos meus, me deixou intrigado e impressionado com o
tanto que ele havia conquistado em tão pouco tempo. Agora, me deixava
cabisbaixo.
Eu estava prestes a querer chorar mais uma vez quando o peso daquelas
palavras me atingiu quando percebi que Ryan estacionara o carro.
Piscando várias vezes para espantar as lágrimas, olhei em volta ao sair do
veículo e arregalei os olhos ao ver onde estávamos. Village Tennis Club. O
clube de tênis de Phoenix. Com banners e faixas de algum evento
beneficente. O sangue se esvaiu de meu rosto por um momento quando
recordei o que tinha visto nas redes sociais. Domingo, evento beneficente,
tênis. Eu ia vomitar. Taehyung iria jogar. Eu iria ver ele jogar.
— Não acredito que vocês me trouxeram para cá — resmunguei, querendo
arranjar uma forma de correr rapidamente e sair dali o mais rápido
possível.
Porém, Ryan pareceu ler meus pensamentos e andou atrás de mim para
garantir que eu não fugisse. O evento possuía um preço simbólico muito
baixo para a entrada, e como a capacidade de pessoas suportada era
grande, a arrecadação seria boa. Havia muita gente ali. Era gente para
caramba, sendo franco, e não era para menos. Todos tinham o interesse de
assistir um tenista premiado e importante jogando. Logo na bilheteria
havia um banner enorme com uma foto do rosto de Taehyung exposta ao
lado de seu adversário. Fiz uma careta. Ele era bonito até em malditos
banners de propaganda. Quis xingar a minha estupidez, mas apenas
balancei a cabeça.
Adentramos o local e corremos para escolher lugares bons nas
arquibancadas. Infelizmente e felizmente, só achamos lugares disponíveis
mais para cima, ou seja, longe da quadra. Isso era bom porque eu ficaria
longe e não precisaria vê-lo tão perto, e era ruim porque eu ficaria longe e
não o veria de perto. Contraditório? Provavelmente.
Sentaram em sequência Miles, eu, Ryan e Lisa. Fui colocado no meio para
ser forçado a me enturmar com eles, mas eu apenas revirei os olhos e
ignorei. Meus próprios amigos estavam querendo me obrigar a conversar
com eles e a socializar. Seria correto afirmar que se eu pudesse sair
128
daquele lugar voando, eu já teria feito isso há muito tempo. Uma pena que
não nasci com poderes.
Bufei em impaciência e fiquei observando a quadra com uma expressão de
tédio até que ele apareceu. O maldito que dominava cada pensamento meu
desde o momento em que eu dormia até o momento em que eu acordava.
Taehyung entrou na quadra trajando uma bermuda branca, camiseta azul,
um par de munhequeiras brancas em cada um dos pulsos e uma faixa em
sua testa, também branca, segurava seus cabelos vermelhos, os impedindo
de cair em seus olhos. Ele estava tão bonito que aquilo me fez querer ir até
lá para lhe dar um soco por me fazer querer fazer besteira (lê-se correr até
o meio da quadra e beijá-lo na frente de toda aquela gente). Sua pele
chamativa e bronzeada chamava a atenção naquele dia ensolarado com
suas diversas tatuagens sendo expostas para quem quisesse ver. Como
estava de camiseta, eu podia ver como elas cobriam bem seus braços, mãos
e dedos, e chegavam no pescoço. Eu daria tudo para vê-lo sem camisa
novamente apenas para apreciar aquilo.
E ele estava muito sério. Acho que nunca o vi tão sério antes. Não me
lembro de seriedade dominando as feições de Taehyung antes. Ele sempre
mantinha o ar provocativo, sempre dando aqueles sorrisinhos malditos que
mexiam comigo de forma descomunal, ou sendo extremamente atencioso e
carinhoso de uma forma que me desestabilizava. E o mais bizarro era que
ele conseguia ficar ainda mais bonito com aquela pose séria. Pegando uma
raquete da bolsa que trazia consigo, ele usou uma das bolas fornecidas e
começou a se aquecer rebatendo algumas vezes. Agradeci mentalmente
por ele não ter olhado muito tempo para a plateia. A ideia de ser
reconhecido me apavorava demais.
E bem, lá estava eu, apreciando a forma como os músculos dele
sobressaíam e contraíam cada vez que ele movia os braços para fazer
algum movimento com a raquete. Aquela era uma vista linda, puta merda,
eu tinha que admitir. De pensar que eu já beijei aquele homem... porém,
quis me bater por isso. Ele não queria sequer olhar na minha cara, não me
deu a chance de conversarmos mais adequadamente mesmo que eu tenha
sido o motivo de sua vinda para a América, então não, eu não ia ficar me
remoendo, não ia chorar pelo leite derramado. Eu tinha uma coisa
chamada amor próprio, e por mais que aquela situação me entristecesse de
forma descomunal, eu não ia agir feito pateta em público, não ia
demonstrar isso a ele, eu tinha uma autoestima a zelar, embora nos últimos
129
dias eu não estivesse me importando tanto com ela. Taehyung podia não
gostar mais de mim, tudo bem, não tenho como reclamar, mas não vou
ficar parecendo um otário assim.
— Não acredito que você está aqui — uma voz raivosa me tirou de meus
devaneios, fazendo-me olhar para a nossa fileira nos assentos das
arquibancadas. Ao lado de Miles, estava Jimin, parado próximo a nós. O
baixinho louro estava muito bonito naquele dia, trajando uma calça
incrivelmente apertada e uma camisa estampada folgada. Seus olhos
estavam fixados em mim, e eu juro que se fosse possível, ele teria me
assassinado ali mesmo com seu olhar.
— Estamos na paz — Miles disse, sorrindo amarelo.
Para minha grande mortificação, Lisa contara para os irmãos Carmichael
tudo o que aconteceu. Ela disse que era necessário que os dois soubessem
do que acontecia, pois assim, não ficariam perdidos. Ryan ficou surpreso,
afirmando que eu poderia ter escolhido palavras melhores para externar o
que eu sentia, mas me apoiou incondicionalmente e ameaçou quebrar a
cara de Jimin. Miles concordou com ele, mas foi sincero comigo: você não
falou nada demais, não sei porque você está se sentindo tão mal assim.
Isso é prova do quão boa pessoa você é, porque esse cara vacilou bem
mais com você e não quer olhar na sua cara?
Acho que os dois não sabiam quem o recém-chegado era, pois acredito que
suas reações não teriam sido tão amistosas.
— Não importa — insistiu Jimin — não consigo crer na sua cara de pau.
Não acredito que você veio assistir ao jogo dele. Você é muito cara de pau,
garoto, sério, você devia ter vergonha! Sinceramente, eu sinto vergonha
por você. Ah, e lembre-se do que falei antes, porque ainda está valendo:
fique bem longe dele! Não ouse sequer pensar em falar com ele! Ele não
quer te ver pintado nem de ouro! Ele só quer distância de você! Eu já falei!
— Hey, calma aí! — Ryan se levantou de seu assento e ficou parado em
minha frente — abaixa a sua bola quando for falar com meu melhor
amigo, sei imbecil. Você é o babaca que falou merda para ele, não é?
— Ryan, deixa para lá, esquece isso — sussurrei. Eu não queria que ele se
metesse em confusão com o amigo de Taehyung.
130
— Não, não vou esquecer nada! — Exclamou meu amigo — você não fez
nada de grave, não vou permitir que ele te trate como bem entender!
Ninguém chega aqui falando com você como se você fosse um qualquer!
— Ele podia ter seguido esse conselho quando falou com Taehyung, você
não acha? — Jimin afirmou, debochado, cruzando os braços — essa
estupidez é traço dos americanos?
Ryan cerrou os punhos e já ia partir para cima dele, quando eu e Miles nos
levantamos rapidamente e o seguramos antes que acertasse o garoto.
— Porra, Ryan! Fica frio, cara! — Miles brigou, irritado — não vai ser
preso por agressão, porra!
— Não vou, mas esse estrangeiro otário está pensando que é alguma
merda! Jeongguk não falou nada e ele se sentiu no direito de humilhá-lo
simplesmente porque achou conveniente — rosnou, debatendo-se.
— Patético — Jimin revirou os olhos —, simplesmente patético. Você
achando que está com razão!
— Por que você não vai procurar outra coisa para fazer? — Lisa disse,
empurrando nós três e ficando em nossa frente para encarar o outro garoto
— vai fazer companhia ao Taehyung depois dos aquecimentos, sei lá —
sugeriu, fuzilando-o com os olhos — ele não veio para falar com um cara
que não quer vê-lo nem pintado de ouro, e também, não há intenção de ser
cara de pau, nós o trouxemos aqui e ele não sabia onde estávamos o
levando. Pelo que eu saiba esse é um evento beneficente para que qualquer
pessoa participe. Eu sugiro que você se informe antes de falar merda,
porque você não está sendo melhor do que ninguém. E você já teve sua
chance, vaza daqui!
— Tanto faz — seu olhar se direcionou para mim novamente — fica longe
dele! Você está avisado!
Dando as costas para nós, ele saiu de nossa fileira de assentos e desceu as
escadas das arquibancadas até chegar a quadra. Ryan se sentou acalmando-
se um pouco com Lisa ao lado enquanto Miles lhe dava uma bronca.
Observei atento quando Jimin foi permitido entrada na parte restrita e se
aproximou de Taehyung que rebatia as bolas. Automaticamente, assim que
viu o amigo, o ruivo parou os movimentos e o encarou, conversando
131
alguma coisa. Eu podia chutar que os dois estavam conversando em
coreano pela forma como mexiam os lábios. Eu era bom em leitura labial e
não consegui entender nada. Era diferente.
No entanto, eu devia prever que o garoto fora fofocar sobre a minha
presença ali. O maldito parecia estar disposto a atormentar a minha vida
mesmo depois de acabar comigo verbalmente, pois enquanto falava com
Taehyung, ele gesticulou com a cabeça em minha direção, e na hora, os
olhos do ruivo cravaram em mim. E em mim ficaram. Acho que os meus
próprios olhos devem ter dobrado de tamanho quando fui "pego no flagra".
Curiosamente, não consegui identificar exatamente o que a expressão dele
revelava. Ele estava apenas me olhando, de forma misteriosa. E eu
retribuía aquele olhar.
Jimin falou alguma coisa e Taehyung a respondeu ainda sem desviar seus
olhos de mim, e eu senti a súbita vontade de correr dali. Aquela encarada
estava me deixando nervoso e ansioso. Ele me evitou durante tanto tempo
e não queria nem olhar na minha cara, agora não tinha vergonha em ficar
me encarando?
Querendo escapar, levantei-me bruscamente do assento, ainda sem parar
de fita-lo e tentei sair da fileira, ignorando a voz de Miles me chamando,
mas meu plano foi falho, pois esbarrei numa moça que carregava um copo
de um litro de refrigerante, e na minha pressa de sair, acompanhada da
minha idiotice em não desviar o olhar, não olhei para onde estava indo. A
bebida doce e grudenta derramou toda sobre minha camiseta preta e
espirrou em meu rosto. A pobre moça pediu mil desculpas, mas eu sabia
que não havia sido culpa dela. Tentei lhe dar dinheiro para que ela
comprasse outro, mas ela estava envergonhada demais pelo incidente e se
recusou veementemente, estendendo uma garrafa de água que tinha ali,
como um presente de "desculpas".
Agradecido, resolvi dar o foda-se e voltei para o meu assento, já que tinha
sido uma péssima ideia querer sair, e abri a grande garrafa de água,
jogando o líquido em meu rosto e camiseta sem olhar para qualquer coisa.
Eu ia ficar todo molhado, mas novamente: foda-se. Eu estava de saco
cheio com a situação. E como a camiseta era preta, não era como se fosse
mostrar alguma merda mesmo.
Nenhum de meus amigos disse qualquer coisa, apenas observaram
enquanto eu fechava a cara e fazia um bico emburrado. Ousei olhar para a
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quadra novamente e vi Taehyung balançando a cabeça em sinal de
negação, ainda me olhando, como se não acreditasse no que eu tinha feito.
Suspirando, desejei que aquele evento acabasse logo, felizmente tivemos
de parar com as encaradas quando o adversário dele chegou. Apresentaram
os dois para o público, e quando o locutor disse "Kim Taehyung" toda a
plateia gritou e aplaudiu com entusiasmo. Em agradecimento ele deu um
sorriso lindo e se curvou, visivelmente lisonjeado pela animação das
pessoas ali.
Lisa não parava de mexer no celular, parecendo ansiosa com alguma coisa
e eu arqueei uma sobrancelha, confuso. A partida finalmente começou e eu
quase não pude conter a baba de escorrer por minha boca, literalmente. Ele
jogava muitíssimo bem. Correndo de um lado para o outro na quadra,
sacando a bola, rebatendo a bola, contra-atacando, avançando. Ele era
muito bom no que fazia e bem ali, pode entender o porquê de ele ser um
dos melhores jogadores de tênis da nova geração. Ele era talentoso de
verdade. E o engraçado era que eu tinha a impressão de que ele não estava
sequer se esforçando ou dando tudo de si.
Um nervosismo corroeu meu estômago quando deu o primeiro set com
vitória absoluta de Taehyung e Jimin foi até ele novamente para falar
alguma coisa enquanto ele tomava água. Assentindo, o ruivo me olhou de
novo e ao apoiar a garrafa de água, ele se preparou para o segundo set.
Eu não sabia explicar, mas Taehyung parecia fixado em me encarar
sempre que podia. Eu podia estar louco ou paranoico, mas era como se ele
estivesse conferindo se eu prestava atenção, se eu estava acompanhando. E
eu sempre estava, sequer piscava, maravilhado demais com o que via.
Como seria um total de três sets, se Taehyung ganhasse de novo, ele seria
o vencedor. E com o início do segundo, ele jogou muitíssimo bem mais
uma vez, correndo pela quadra, flexionando os ombros quando rebatia a
bola. E claro, eu notei como a camiseta dele subia um pouco quando ele ia
sacar a bola. Um pequeno detalhe estupidamente... interessante.
Nada surpreendente, ao fim da partida, ele estava pingando de suor e
parecia visivelmente cansado, sorrindo alegre ao passar uma toalha na
testa molhada. Entregaram-lhe um microfone após descansar mais um
pouco, e olhando para todos ali, ele abriu aquele mesmo sorriso radiante.
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— Queria agradecer a presença de todos aqui! Eu sei que hoje é um dia
muito importante, pois todos nós estamos aqui por um propósito maior.
Queria anunciar meu próprio compromisso de realizar doações, pois
sempre me alegra poder ajudar quem quer ter uma chance mesmo não
tendo recursos para isso — discursou — eu fico muito feliz de ver como os
Estados Unidos tem uma tradição bonita de incentivar seus cidadãos aos
esportes, isso é realmente incrível, e eu, como um atleta profissional
admiro muito isso. Mais uma vez, obrigado a todos! Tenham um bom dia,
e uma boa semana!
Dito isso, ele falou alguma coisa em coreano e se curvou mais uma vez em
agradecimento, para no fim, acenar e sorrir.
Se afastando, Taehyung foi em direção à saída da quadra que levava ao
vestiário e eu respirei aliviado por ver que aquela situação e toda aquela
tortura finalmente tinham acabado. Não chegava a ser tão torturante assim,
mas me deixava tristonho. Quando ele falou no microfone e eu pude ouvir
sua voz grave com aquele sorriso fofo que ele tinha faltei suspirar. Como
ele conseguia ser atraente até quando não parecia ter intenção daquilo era
um mistério, ao menos para mim.
Lisa me cutucou, sorridente, chamando minha atenção quando estávamos
do lado de fora do clube de tênis e voltando para o carro.
— Consegui, Jeongguk! Contatei Yoongi e os meninos! Eles conversaram
com o amigo chato lá e convenceram Taehyung a ir lanchar com todo
mundo para comemorar o resultado do jogo. Ele não queria ir porque não
estava muito animado, mas os garotos sabem ser bem persistentes quando
querem — deu uma risadinha.
Arregalei os olhos. Eu ia ver Taehyung de novo?
— Lisa, não sei se quero ir. Estou nervoso — mexi com meus dedos,
hesitante — não sei se é uma boa ideia. Eu não quero ver ele, não quero ter
de ouvir mais ofensas do amigo dele.
Toda a confiança que eu tinha ficou abalada com aquilo por mais que eu
não quisesse admitir. As pessoas podiam chamar de drama, de exagero
meu, e talvez fosse, mas palavras têm um poder imenso sobre nós. Elas
têm o poder de nos machucar e criar uma ferida mais funda do que lesões
físicas, e eu, que nunca ouvi aquele tipo de coisa na vida, me senti
134
péssimo. De repente, eu me sentia um adolescente de 16 anos de novo,
com medo e inseguro. E eu definitivamente odiei. Essa sensação de não
saber como agir. Isso não acontecia desde que meu primeiro namorado me
chamou para sair pela primeira vez.
— Jeongguk, você precisa se animar! Precisa fazer algo por si próprio! Eu
não consigo mais ver você chorar por isso! As coisas não podem continuar
assim para sempre! Você não é tudo o que ele te disse! Ele é um
verdadeiro lixo humano por ter te tratado assim e ter se metido num
assunto que não era da conta dele! Você não vai ficar fugindo do
Taehyung. Você vai melhorar essa cara, esbanjar seu melhor sorriso e
tentar se divertir, o otário aqui é ele, não você. — Ela segurou meus
ombros e me fitou séria — pelo menos tenta. E não faça isso só por ele,
faça isso por você. Você precisa disso.
Eu sabia que ela estava certa, e mesmo inseguro, concordei. Durante o
trajeto até a lanchonete, Ryan xingou Jimin de tudo quanto era nome,
afirmando como "aquele coreano babaca se acha muito superior quando
ele está sendo mais baixo do que todos com aquele comportamento".
Não dei muita atenção, sentindo minhas mãos suarem e borboletas voarem
em meu estômago pela sensação que tomava conta de meu corpo. Isso
porque eu sabia que ficaria perto de Taehyung mais uma vez com todo
aquele clima estranho.
Chegando na lanchonete, fomos cumprimentados pelo segurança e pela
garçonete que estavam na porta e logo entramos. Não abri espaço para
discussão, já fui logo escolhendo uma mesa e sentei de uma vez no canto
praticamente beijando a parede, e me encolhi, querendo sumir no assento e
pedindo aos céus para que aquela noite acabasse de uma vez.
Os outros meninos chegaram tão rápido que eu xinguei como eles mal me
deram tempo para pensar em como falaria com Taehyung, caso surgisse
uma oportunidade do tipo. Tremi na base ao vê-los se aproximando todos
sorridentes. Yoongi, Seokjin, Namjoon e logo atrás deles, Jimin e
Taehyung. Educados, Lisa, Ryan e Miles se levantaram para
cumprimentarem os recém-chegados (com exceção de Jimin, talvez),
principalmente o "herói da noite". O parabenizaram e Taehyung sorriu,
verdadeiramente agradecido. Cruzei os braços, sentindo minha camiseta
úmida e um pouco suja de refrigerante grudar em minha barriga, mas
ignorei a sensação desconfortável. Quando a sessão de cumprimentos
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terminou, ainda em pé todos me fitaram, como se esperassem que eu fosse
me levantar e fazer alguma coisa.
— Não vai levantar, Jeongguk? — Lisa perguntou, me fitando confusa já
que eu sequer me movi.
Mantendo meus braços cruzados, dei um sorriso fraco e neguei com a
cabeça.
— Não.
O olhar de Taehyung cruzou com o meu na mesma hora e eu senti a ironia
e coincidência da situação. De quando ele estava sentado de braços
cruzados naquele bar e se recusou a se levantar para nos cumprimentar. Eu
fizera praticamente a mesma coisa que ele involuntariamente, mas sem ser
grosso. Engolindo em seco e procurando aquietar meu estômago, levantei
uma mão e acenei.
— Oi, pessoal — cumprimentei fracamente. Respirei fundo e juntei toda a
coragem que tinha dentro de mim para encarar o ruivo novamente e falei:
— parabéns pelo jogo! Você joga muito bem mesmo!
Lisa prendeu a respiração perto de mim, parecendo surpresa que eu tenha
parabenizado Taehyung. Eu mesmo não acreditava que tinha feito aquilo, e
por um momento, achei que ele fosse me deixar no vácuo ou simplesmente
marchar para fora dali. Jimin me fuzilava com os olhos todo o tempo,
como se estivesse inconformado por eu ter falado com seu amigo.
Surpreendendo a mim, Taehyung sorriu como se estivesse extremamente
feliz por eu tê-lo elogiado (ele realmente sorriu!) e respondeu:
— Obrigado, Jeongguk.
Não parecia ser real. Ele sorriu para mim, agradeceu e ainda disse meu
nome com afeto na voz? Eu não estava louco e imaginando coisas. Antes
seria "Jagi", ou "Gukkie", mas agora era apenas "Jeongguk".
Contrariando todas as lógicas e tudo o que imaginei, (afinal, ele
supostamente não queria nem me ver pintado de ouro) Taehyung fez
questão de entrar no espaço da mesa logo, e sentou-se exatamente do outro
lado bem à minha frente, encostado na parede assim como eu. Seu sorriso
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não estava mais lá, mas ele continuava a me encarar de forma intensa
enquanto mordia o lábio inferior. A verdade era que eu não sabia como
reagir ou o que fazer ante aquela situação. Não quando eu não planejei
nada do tipo. Supus que Taehyung fosse me ignorar ou fugir de mim como
diabo foge da cruz, mas não. E aquilo sinceramente estava me sufocando;
ele tinha que demonstrar vontade de ficar longe de mim, exatamente como
o melhor amigo dele disse, e não agir como se ele estivesse tão triste
quanto eu estava.
Enquanto ele conversava normalmente com o pessoal da mesa, Jimin me
fuzilava com os olhos vez ou outra, parecendo me fulminar o tempo todo.
Ele me encarava como se eu fosse uma espécie de inseto que devia ser
eliminado. Como sentei no canto da mesa, a única pessoa ao meu lado era
Lisa, que sussurrava pertinho de meu ouvido, aconselhando-me a manter a
calma e afirmando que ia ficar tudo bem, afinal, eu não tinha motivos para
entrar em pânico ou algo do tipo, além de enfatizar que aquele garoto era
verdadeiro babaca.
Quando um garçom chegou para anotar os pedidos, eu ainda não havia
decidido o que queria comer, e para ser sincero, eu sequer estava com
fome. Eu queria sair dali, eu realmente precisava sair dali. Era demais.
— Jeongguk? O que vai querer? — Lisa perguntou e todos se voltaram
para me fitar.
Saturado de tudo, resolvi fazer algo. Eu estava cansado dos olhares do Cão
de Guarda de Taehyung e nervoso por causa dos olhares estranhos que o
próprio Taehyung me lançava, então, pedi licença e todo mundo me dera
espaço, permitindo que eu saísse do assento e fosse até o banheiro da
lanchonete.
Covardemente, corri até a pia e me olhei no espelho, lavando meu rosto na
água fria. Eu não ia conseguir fazer isso, não ia conseguir fingir que estava
tudo bem. Era uma tremenda tempestade em copo d'água, mas eu não
ligava. Eu não tinha colhões suficientes.
Enquanto minha consciência gritava comigo que eu devia deixar de ser
otário e parar de pensar num garoto que não queria mais nada comigo,
decidi fazer o que parecia ser mais sensato após ficar uns bons dez minutos
dentro daquele banheiro agradecendo que ninguém viera checar em mim:
fugir.
137
Respirando fundo, sai do banheiro furtivamente e fitei a cabeça do pessoal
na mesa. Ninguém olhava para cá, estavam todos de costas entretidos em
uma conversa e a parte da mesa que apontava para cá permitindo a visão
da minha fuga era escondida por uma mesa disposta com um computador
no meio da lanchonete. Aproveitando, rapidamente fui até a saída,
querendo ir embora mais uma vez sem avisar ninguém, sentindo-me
envergonhado de minha atitude, saindo do estabelecimento de forma
tristonha.
— Você ao menos se despediu dos seus amigos? — A voz de Taehyung
chamou minha atenção sobre meus ombros. Dei um pulo assustado,
virando-me para encarar a figura. Ele estava encostado contra a parede da
entrada da lanchonete do lado de fora com os braços cruzados e olhava
para um ponto específico na frente. Seus cabelos escarlates estavam
úmidos e ele usava uma camisa azul de botões que ficava ridiculamente
bonita em seu físico, realçando seus ombros largos.
— E você não devia estar aqui — respondi baixinho — o que você está
fazendo aqui fora?
— Vim tomar um ar, só isso — deu de ombros.
Eu não podia acreditar que estava falando com ele, que ele estava falando
comigo normalmente. Como se fôssemos mero conhecidos. Ele era
inacreditável em todos os sentidos da palavra!
Mas algo me dizia que aquele encontro podia ser a chance que eu teria de
tentar remendar a situação. Aquela era a hora, agora ou nunca. Aquele
maldito momento extremamente idiota já foi adiado por tempo demais.
Respirando fundo, tomei meus 20 segundos de coragem insana e me
aproximei dele em passos vacilantes, pedindo aos céus para minha voz não
falhar ou para eu não gaguejar.
— Taehyung? Você... eu posso falar com você? — Perguntei, hesitante.
— Você já está falando comigo — deu um sorrisinho fraco.
Claro.
— Certo, sim...
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— Me desculpe — ele disse de uma vez, me interrompendo.
O quê?
— O quê?
Me encarando, ele deu um longo suspiro antes de descruzar os braços e
colocá-los nos bolsos na calça.
— Estou pedindo desculpas a você. Desculpa por tudo. Eu sei que devia
ter feito isso antes, mas eu fiquei realmente inseguro depois da nossa
conversa. Acho que nunca senti tanto remorso em toda a minha vida por
algo que fiz — disse, sincero — eu não devia ter feito o que fiz. Eu devia
ter te procurado logo de início ao invés de querer "me vingar" e dormir
com outros. Imagino que você não confie e não goste mais de mim nesse
ponto, e eu realmente entendo, não agi de forma muito... boa, e eu lamento
muito por isso. Não foi a educação que a minha mãe me deu, e não era a
imagem que eu queria que você tivesse de mim.
— Taehyung, eu... — franzi a testa, confuso e perdido com suas palavras
— estou confuso demais, você me confunde, sinceramente.
O ruivo pareceu verdadeiro intrigado pelas minhas palavras.
— O que exatamente está te confundindo? — Indagou, arqueando uma
sobrancelha.
— Eu achei que você não queria nem me ver. Você não disse que não
queria saber mais de mim e que tinha se arrependido de vir de Coreia para
cá por minha causa? — Repeti as palavras.
— Não! Eu nunca disse isso! — Negou veementemente. — Esse tipo de
coisa sequer passou pela minha cabeça. Não me arrependi de ter vindo
para cá, de onde você tirou isso?
Agora, eu realmente não esperava por aquilo. Ele nunca tinha dito aquelas
coisas? Ele não tinha problemas comigo, então? A única conclusão óbvia
era a de que o melhor amigo dele mentiu na cara dura.
— Eu fui no seu quarto de dormitório falar com você. Eu queria conversar
e pedir desculpas, porque acredito que fui injusto em algumas coisas que te
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falei, e eu queria remendar a nossa relação, mas quem abriu a porta foi o
seu amigo, e bem, ele não me deu a chance de sequer entrar ou te ver —
engoli em seco — ele me segurou do lado de fora e falou algumas coisas
bem cruéis. Eu não vou repetir exatamente tudo o que ele falou, mas
caramba, aquilo me machucou de verdade. E então, ele fechou a porta na
minha cara.
Taehyung estava boquiaberto, os olhos arregalados, extremamente
surpreso. Acredito que ele esperava qualquer coisa, menos isso.
Levantando suas mãos tatuadas, ele esfregou o rosto de forma exasperada
e resmungou alguma coisa em coreano, e por sua expressão, eu chutava
que era um xingamento.
— Não acredito que ele fez isso — respirou fundo, me fitando com uma
expressão entristecida. — Jeongguk, eu juro que eu nunca falei qualquer
coisa que ele te disse. Eu teria aceitado conversar com você na hora se eu
soubesse que... É tarde demais para isso?
— Para a conversa? Acredito que não, mas não acho que seria pertinente
aqui fora — encolhi os ombros.
Ele assentiu, parecendo entender.
— Certo, mas eu preciso falar com Jimin, e isso não vai esperar um
segundo a mais — preparou-se para voltar para dentro do estabelecimento.
— Eu vou embora, Tae — chamei sua atenção, fazendo com que ele
parasse de andar e virasse para me encarar mais uma vez com os mesmos
olhos tristes de antes.
— A gente se vê depois? — Perguntou, incerto.
Não havia motivos para negar a isso, então, dando um sorriso mínimo,
assenti antesm de sair dali com a mão nos bolsos, sentindo o peso de seu
olhar sobre meus ombros.
[...]
140
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142
143
Capítulo 8 - California
Acordei de madrugada naquela noite de domingo com meu celular tocando
irritantemente ao lado. Estiquei o braço de forma preguiçosa e conferi as
horas: uma da manhã.
Lisa estava me ligando. À uma da manhã, puta que pariu.
Eu custara dormir naquela noite pois fiquei com uma baita dor de cabeça
(consequência de passar boa parte do tempo deitado e pensando em tudo o
que aconteceu após chegar no dormitório) e quando finalmente consegui,
sou acordado.
Gemendo em desgosto, apanhei o aparelho e atendi.
— Lisa, isso lá é hora de me ligar em plena madrugada de domingo,
caramba? — Resmunguei.
"Jeongguk, S.O.S! Você não sabe o que aconteceu, ou melhor, o que está
acontecendo agora! Você precisa vir para cá! " Disse agitada do outro lado
da linha.
— Hã? Do que você está falando?
"Você foi embora sem sequer me avisar e eu não estou reclamando, até aí
tudo bem. Mas não tenho ideia do que aconteceu antes de Taehyung voltar
para nossa mesa, porque ele simplesmente chegou lá, falou algumas
palavras que pareceram muito chulas em coreano para o amigo dele e saiu
andando na hora ignorando todos os chamados do nome dele e sumiu.
Namjoon e Seokjin procuraram ele e finalmente o encontraram na quadra
144
de tênis do campus faz uns quinze minutos e ele está muito puto. Acho que
nunca o vi tão irritado, Jeongguk"
— Sim, ele está irritado? — Respondi, bocejando, sem dar muita atenção.
Eu estava sonolento e minha mente não estava funcionando direito ainda.
"Não, idiota! Presta atenção! Os meninos estão tentando conversar com
ele, incluindo o amigo babaca dele, mas ele está irredutível, não quer falar
com ninguém, você consegue ouvir eles discutindo? Ele está falando
alguma coisa relacionada a você! "
— Hum, sim. Estou ouvindo — eu conseguia ouvir vozes brigando no
fundo
"Escuta aqui, levanta esse traseiro da sua cama e vem para cá! Vem
resolver essa situação! Ryan está achando que eles vão sair na porrada já,
já. Taehyung está muito nervoso. "
Suspirando audivelmente, levantei-me da cama e encerrei a ligação. Calcei
meus sapatos e coloquei um moletom preto por cima de meu pijama de
bolinhas, não me incomodando de trocar de roupa. Apanhando meu
celular, carteira e a chave do quarto de dormitório, saí andando pelo
campus com uma cara de sono terrível. Cruzei os braços para me manter
aquecido, sentindo saudade do meu travesseiro e desejando que eu
estivesse dormindo. Eu temia um pouco o que presenciaria assim que
chegasse lá.
Se o relato de Lisa fosse verídico, então, Park Jimin realmente havia
mentido e Taehyung não estava nada feliz com isso. Cheguei na parte
esportiva do campus rapidamente, conhecendo aquilo como a palma de
minha mão, afinal, eu jogava futebol americano. Assim que adentrei o
ginásio e cheguei na quadra de tênis consegui ouvir as vozes. Ao longe,
avistei Namjoon e Yoongi tentando intermediar a briga verbal em coreano
entre Taehyung e Jimin. Seokjin passava a mão no rosto, parecendo
angustiado com tudo aquilo, Ryan e Miles observavam com expressões de
choque e Lisa abraçava meu melhor amigo, visivelmente preocupada.
Mesmo estando um pouco longe, consegui começar a escutar.
— ... não vou discutir com você em coreano, Park Jimin! Você não vai me
convencer das suas ditas boas intenções, porra!
145
— Não importa em que língua eu diga isso, Taehyung! Puta merda, você é
burro ou o quê? — Berrou. — Eu te fiz um favor afastando aquele garoto.
Te privei de tomar uma atitude babaca! Onde diabos você achou que vir
atrás daquele zé-ninguém seria uma boa ideia? Você esqueceu as coisas
que ele te falou? Esqueceu como ele te fez chorar depois de ter te beijado o
tanto que quis? Pois eu não! Você simplesmente não pode estar falando
sério! Não pode estar bravo por causa da minha atitude!
— Park Jimin — Taehyung ralhou, parecendo ainda mais puto agora —
não vou nem exigir que você peça desculpas pois sei que você não o faria
e muito menos se arrepende. Jeongguk não está aqui para ouvir isso. E eu
não vou falar nada contra você pelo bem da nossa amizade, mas eu acho
bom você parar para pensar nas merdas que você falou para o Jeongguk.
Pior ainda: as merdas que você falou em meu nome!
— Isso é...
— Agora você vai me escutar, porra! Falou o que quis, agora vai ouvir o
que não quer — arregalei os olhos, surpreso e hesitante de sair do lugar —
primeiramente, eu nunca te pedi para interferir na minha vida pessoal
como você tem insistido em fazer, sequer pedi para você vir para os
Estados Unidos. Não estou reclamando da sua presença aqui, você é meu
melhor amigo e eu sentia a sua falta, mas não pense que achei lindo
quando você chegou batendo na minha porta exigindo que eu fosse embora
e muito menos quando me arrastou para uma boate e tentou jogar um
estranho para cima de mim.
— Você saiu porque você quis! Não venha jogar a culpa das suas ações em
cima de mim, porra! Você não é essa vítima que está parecendo ser! —
Exclamou o baixinho.
— Sim, eu saí porque quis! Fiz isso porque quis, mas você acha mesmo
que se você não estivesse lá falando coisas na minha cabeça, eu teria tido
alguma ideia daquele tipo? Me diz, Jimin! Você acha? — Rebateu. — Eu
sinceramente não consigo acreditar até agora no que você fez. Ele foi até o
meu dormitório para falar comigo, para fazermos as pazes, para pedir
desculpas, e você se sentiu no direito de falar coisas horríveis para ele,
coisas que ele se negou a me contar, mas que o magoaram e ainda o
expulsou de lá. Você disse para ele que eu não queria vê-lo em hipótese
alguma e ainda afirmou que eu disse que me arrependia de ter vindo para o
Estados Unidos por causa dele. Você inventou tudo isso e ainda está
146
achando ruim a minha reação?
— Não acredito — Jimin passou as mãos pelo rosto. — Eu estava tentando
te proteger desse energúmeno! Você chorou muito por causa dele,
lamentando as coisas que ele te disse, era claro que você ficou magoado e
esperava que eu não fizesse nada?
— E por acaso eu pedi proteção, Jimin? Me diz? Eu não me lembro de ter
pedido proteção alguma! Eu não tenho mais dezesseis anos! Nós não
temos mais dezesseis anos! Eu não estava magoado com Jeongguk, eu
estava chateado com a situação horrível que nós dois criamos. Você não
devia ter feito nada, você não tinha esse direito! — Uma veia saltou na
têmpora de Taehyung.
— Não precisa de proteção, mas você não mudou, Taehyung! Você ainda
é aquele garoto sensível! Eu sei que é! Você finge que é todo durão, você
usa uma máscara de inabalável quando, na verdade, você é tão inseguro
quanto qualquer outro! — Exclamou, indignado. — Não ouse falar que eu
não tinha o direito de fazer nada quando isso nunca foi sequer discutível na
nossa relação
— Você é ridículo — balançou a cabeça, desacreditado — eu não posso
crer que você está levando como base o meu comportamento de quando eu
era um maldito adolescente! Quando tudo o que eu queria era transar e ser
imprudente! Você esqueceu que eu sou um adulto agora e posso tomar
minhas próprias decisões? Principalmente quando se trata da minha vida
pessoal?! Você não vai me manipular como manipulava o seu ex! Nem
todos têm que fazer o que você quer!
— Se a sua mãe estivesse aqui, ela com certeza concordaria comigo. Você
planejando namorar e ter uma vida com um garoto sem futuro, sem
perspectiva, e que vai trabalhar numa espelunca qualquer ganhando o
suficiente só para se sustentar porque no time de futebol americano
lamentável dessa universidade tenho certeza de que não vai sair nada,
exatamente como eu disse para ele — gritou Jimin, fazendo com que eu
me encolhesse ao ouvir aquelas palavras novamente.
E ficou claro, que assim que tudo aquilo saiu de sua boca, ele
automaticamente se arrependeu, arregalando os olhos e cobrindo os lábios
cheios com as mãos. Um silêncio bizarro se instaurou na quadra, todos
parecendo chocados demais para falar qualquer coisa.
147
— Você falou isso para ele? — Taehyung perguntou, baixinho,
visivelmente abalado.
— Jeongguk? — Dei um pulo de onde estava, assustado. Vi Lisa olhando
para trás, me encarando.
Respirando fundo, olhei para Taehyung novamente e devagar, caminhei
em sua direção, mas ao invés de me encarar ou falar qualquer coisa, o
ruivo balançou a cabeça, parecendo perturbado demais (era como se me
olhar fosse doloroso) e mergulhando as mãos nos cabelos, caminhou para
fora da quadra de tênis sem olhar para trás.
[...]
Lisa: Jeongguk? Hey! 'Tá aí?
Sim, acabei de sair do treino.
Lisa: Ah sim. Você não tinha me respondido quando fui almoçar no MU.
Eu acabei ficando preocupada.
Está tudo bem, só tive um dia cheio.
Lisa: Certo, e como você está? De verdade? Já faz quase uma semana.
Taehyung não falou com você uma vez sequer?
Não, ele não falou comigo. Não disse nada. Sinceramente, acho que ele
nem vai. Se não falou até hoje.
Lisa: Eu acho que ele ficou chocado e envergonhado. Ele não acreditou
nas coisas que o próprio amigo tinha dito para você. Acho que ele não tem
coragem de te encarar.
Ele precisa saber que eu não o culpo por nada, eu não estou bravo com
ele. Eu só queria conversar, eu queria que a gente acabasse com isso de
uma vez por todas.
Lisa: Eu sinto muito, Jeongguk.
Chega, não quero falar mais disso agora. Vamos deixar para depois, eu só
quero esquecer por enquanto e espairecer.
148
Lisa: Você está certo. Aliás, eu tenho uma ideia! Você conhece a Maya
Duncan?
A pianista que representou a universidade naquela competição? Conheço
sim.
Lisa: Ela mesma. Ela organizou um grupo de viagem para a Califórnia
para esse feriado do Halloween e convidou Ryan e eu para irmos junto.
Quer ir conosco? Acho que seria bom para você. Sabe, passear por SF.
Quem vai nessa viagem?
Lisa: Não sei ao certo. Alguns colegas de curso, aquele pessoal que a
gente já conhece. Vão ter várias festas de Halloween, vai ser legal!
Vamos!
Okay, eu vou, então. Vai ser bom mesmo. Eu só tive a chance de visitar SF
umas duas vezes. Vai ser legal voltar.
Lisa: YAY! Vou te mandar o link do site do hotel.
[...]
Quando o avião pousou no Aeroporto de San Diego, e nós recuperamos
nossas bagagens, o clima agradável do estado da Califórnia foi a primeira
coisa que eu notei ao observar toda a vista ao nosso redor. Era realmente
diferente do Arizona. O sol brilhava por ali, mas não era acompanhado da
total falta de umidade de ar, já que uma brisa fresca e deliciosamente
úmida batia contra meu rosto, fazendo-me agradecer por ter escolhido
vestir roupas folgadas que me permitissem sentir aquilo.
Eu saí de Phoenix em poucas ocasiões durante toda a minha vida, então
aquela estava sendo uma experiência extremamente agradável. Enquanto
Ryan e Lisa alugavam um carro, não pude deixar de conter minha vontade
de suspirar, desanimado. Aconteceu tanta coisa em tão pouco tempo,
então, sinceramente, era bom estar longe de casa. Eu não queria pensar em
Taehyung o tempo todo, embora fosse meio inevitável. Ele continuava a
dominar meus pensamentos, e eu pensava em como ele estava, se ele
estava bem, o que ele estaria fazendo.
O pessoal do grupo principal havia chegado no voo que viera de Phoenix
149
na noite anterior e já haviam chegado no hotel. Maya mandara para Lisa
uma mensagem avisando que nos esperariam lá, então o que nós tínhamos
que fazer agora era pegar o carro e nos juntarmos ao grupo para
realizarmos aquela viagem.
Lisa conversou comigo e garantiu que nós nos divertiríamos ao máximo e
eu lhe dei um voto de confiança. Ela até foi num sex shop comigo,
insistindo que eu comprasse um lubrificante novo e melhor (afirmando que
se eu encontrasse alguém, eu merecia transar), e um daqueles géis que
dava efeito e sensação de gelado. Ela também tinha cuidado pessoalmente
para que nós alugássemos quartos próximos e que eu ficasse no mesmo
quarto que um amigo gay de Maya que ela não conhecia. Não discuti
muito, apenas concordei com tudo, verdadeiramente sem vontade alguma
de protestar.
Enquanto devaneava ao pegarmos o carro, apreciei a passagem linda que
as casas de San Francisco apresentavam. Elas tinham uma arquitetura
diferente de tudo que eu já tinha visto, e a própria atmosfera da cidade era
diferente de Phoenix. As casas eram coloridas e perfeitamente alinhadas,
seguindo um padrão simétrico bonito, e o melhor de tudo era que me
recordava dos diversos filmes e séries que assisti, cuja locação principal
era aquela cidade incrível. No entanto, havia algo não tão legal assim sobre
SF: o número espantoso de moradores de rua.
Nós tínhamos moradores de rua em Phoenix, mas era algo não tão comum
de se achar, você encontrava em um ponto ou outro da cidade, sem contar
que o governo do Arizona prezava pela boa imagem, e a cidade era
impecavelmente limpa. San Francisco não. Você podia ver lixo espalhado,
pichações e muitos, mas muitos mesmo, moradores de rua. Era algo
realmente triste a lamentável de se ver. Uma cidade cujo custo de vida é
tão alto, abrigar tantos mendigos assim. Supus que os filmes e séries
mostram muito pouco da realidade para nós quando se trata da vida em
geral, e aquilo era horrível.
Ao chegarmos no hotel – que era beira-mar – estacionamos o carro e
apanhamos nossa bagagem. Lisa conseguira um bom preço naquele hotel,
já que hotéis a beira-mar não costumam ser nada baratos, possibilitando
que nós economizássemos pelo menos 150 dólares.
Claro que eu e minha família não éramos pobres, tínhamos uma condição
de vida muito boa, eu tinha um celular da última geração, comprava roupas
150
mensalmente, mas se precisasse viajar ou fazer algo como o que estávamos
fazendo agora, seria necessário economizar. E puta merda, o custo de vida
em San Francisco era muito maior do que em Phoenix, então, tudo aqui era
cinco vezes mais caro e eu precisaria tomar cuidado. O dinheiro era
contado, então, não podia extrapolar. Minha mãe quase me estrangulou
pelo telefone quando contei sobre a viagem relâmpago (ela começou a
gritar em coreano e a falar um bocado de coisas, e como meus pais nunca
me ensinaram sua língua materna, eu não entendi absolutamente nada,
apenas franzi a testa e esperei ela parar de gritar), me chamando de
irresponsável e afirmando que eu devia ter avisado com um mês de
antecedência. Claro que minha neura do filho perfeito me deixou mal por
pensar nisso, que eu decepcionei ela e fiz ela me chamar de irresponsável,
porém ignorei a forma como meu estômago se contorceu. Eu já não me
sentia mais o filho perfeito, ela só não sabia ainda.
— Vamos fazer o check-in na recepção e encontrar o pessoal nos nossos
quartos — Ryan se pronunciou, visivelmente animado.
Lisa piscou para mim e entrelaçou seus dedos aos de seu namorado, indo
junto com ele até a recepção. Vendo os dois juntos, eu nunca tinha parado
para analisar como eles eram um casal bonito. Lisa era enérgica, era
entusiasmada, enquanto Ryan era mais tranquilo e contido. Ele conseguia
ser bem pé no saco às vezes, mas sempre era extremamente carinhoso e
atencioso com ela. Era triste para mim pensar na minha solidão atual, até
antes mesmo de Taehyung. Quer dizer, eu nunca me incomodei em estar
solteiro, isso era verdade, mas chega um ponto onde você começa a
perceber o quão solitário você é, e puta merda... não acredito que estou
fazendo poesia de solidão.
Eu definitivamente estou carente.
Feito o check-in, colocamos nossas bagagens no carrinho disponível, e
com nossos cartões de acesso aos quartos fomos até onde a gente ia ficar.
Os quartos eram no terceiro andar, e se Lisa não estivesse errada, eu devia
ficar no 3065 com o amigo gay da Maya, e Ryan e Lisa no 3081. Mesmo
andar, mas não exatamente um ao lado do outro. Ela avisou o grupo que
nós havíamos chegado e combinamos todos de nos encontrarmos depois
no lobby.
Peguei minha mochila enquanto os dois conversavam entre si sobre a
localização dos quartos de todos e fui até a porta do quarto 3065. Ansioso
151
para deixar minhas coisas ali logo e para conhecer meu colega de quarto,
abri a porta com uma saudação na ponta da língua...
Até que parei nos trilhos.
Eu poderia querer acreditar que aquilo era uma miragem ou ilusão da
minha cabeça, mas eu não usava drogas e não bebi nada a caminho da
Califórnia, então, não era possível que estivesse louco. Não tinha
explicação lógica para o que eu via, no entanto, sentado em frente à
Taehyung em uma das camas de solteiro, estava ele... o mesmo garoto que
eu vi tentando beija-lo no bar. Acho que se chamava Bogum, não tenho
certeza, apenas sei que ele sorria para Taehyung enquanto o ruivo lhe
fitava com os braços cruzados e uma expressão de poucos amigos.
E foi lindo, claro. A minha pessoa parada feito uma pateta, travada no
lugar e com a boca aberta, parecendo um retardado.
Bogum se levantou da cama e me deu um aceno, sorrindo de forma
irritantemente simpática, enquanto Taehyung me observava com olhos
arregalados, verdadeiramente surpreso. Ele parecia estar me estudando,
tentando descobrir o que eu faria, como eu reagiria. Sequer consegui
admirar a bela vista de ele estar usando uma bermuda vermelha e uma
regata preta, mostrando seus braços, não apreciei nada. Lá estava ele, na
companhia daquele garoto estupidamente bonito e atraente. No meio de
tudo isso, uma única perguntou surgiu em minha mente:
O que diabos eu estava fazendo ali observando tudo aquilo?
— Eu... — pisquei duas vezes, tentando organizar meus pensamentos —
esse quarto... quer dizer, não era para eu estar nesse quarto...?
Não era para a pergunta ter saído hesitante, mas foi o que aconteceu. Eu
não queria me humilhar falando qualquer bosta, ou fazendo um escândalo,
até porque isso não era do meu feitio. Fazer espetáculos na frente de outras
pessoas com a intenção de chamar a atenção. A verdade é que eu não
entendia o que estava acontecendo ali, de verdade, então, não aguardei
resposta, apenas me apressei a sair dali o mais rápido possível (eu não
devia sequer ter perguntado, parando para pensar), mas em minha pressa,
acabei por esbarrar em Lisa, que quase caiu de bunda no chão.
— Hey! Hey! O que é isso? — Indagou, irritada — seu quarto é para
152
aquele lado!
— Jeongguk! — Ouvi Taehyung me chamar, parando lado da loura com
uma expressão de leve desespero estampada no rosto. — Desculpe pelo o
que você viu. Na verdade, não estava acontecendo nada, não aconteceu
nada.
Cruzando os braços com a testa franzida, Lisa indagou:
— O que você está fazendo aqui, Taehyung?
— Como assim? — Ele arregalou os olhos novamente. — Eu estou
passando férias aqui. Maya me convidou, ela faz parte da equipe
voluntária que auxilia os atletas com os treinadores.
— O quê? Mas...
Enquanto Lisa e Taehyung se falavam, uma enorme tristeza me tomava
conta, eu não queria mais ficar ali. Eu queria voltar para casa, para ser
sincero. Queria pegar o primeiro voo de volta para Phoenix e esquecer
tudo isso. Infelizmente, adiantamento de passagem custava uma fortuna e
eu não podia pagar por isso. Eu não queria tê-lo reencontrado daquela
forma. Tudo sobre aquilo era definitivamente péssimo.
— Lisa — interrompi a conversa, chamando a atenção dos dois — eu
quero alugar um quarto para mim.
Os olhos da garota dobraram de tamanho.
— O quê? Você tem certeza?
— Eu tenho — afirmei, convicto.
— Jeongguk, eu juro que nada aconteceu ali. Maya não me falou que você
era meu colega de quarto, estou tão surpreso quanto você, me desculpa...
— Mas, você não fez nada de errado — dei um sorriso mínima e deixou
duas batidinhas em seu ombro antes de marchar para fora dali,
praticamente voando até chegar à recepção, sentindo um bolo se formar
em minha garganta pelo desconforto. Taehyung era o tal amigo gay com a
qual eu ia dividir quarto anteriormente. E realmente, eu não estava errado,
ele não havia feito nada de errado.
153
Enquanto o recepcionista fazia seu trabalho, alugando um quarto para
mim, vi Lisa correndo em minha direção, parecendo estar agitada e
preocupada ao mesmo tempo.
— Jeongguk! Você não vai fazer isso! Você não tem dinheiro para isso!
Você disse que não estava chateado com ele e age de uma forma que
demonstra o total oposto disso — Protestou, indignada.
— Não tem problema, Lisa — falei baixinho, cerrando os punhos com
força.
— Isso não está certo!
— Eu não quero ficar no mesmo quarto que Taehyung! — Explodi,
fechando os olhos — eu não quero ficar perto dele. Eu esperei a semana
inteira para rever ele, para ter a chance de conversar porque ele me evitou
como se eu fosse uma das dez pragas do Egito, e acabo o reencontrando
assim.
Sem minha permissão, uma lágrima rolou por minha bochecha e eu a
limpei com pressa, abrindo os olhos e vendo o recepcionista me fitar de
forma visivelmente preocupada.
— Senhor... está tudo bem? — Perguntou, hesitante.
Forçando um sorriso, assenti, balançando a cabeça positivamente e
funguei, tentando limpar meu nariz que começava a escorrer.
Passando meu cartão de crédito ao recepcionista, suspirei. Nossas diárias
ali eram reservadas, mas deviam ser pagas ao final de nossa estadia. Como
não compramos com meses de antecedência, não tivemos como pagar de
forma parcelada e mais barata. Infelizmente, o único tipo de quarto
disponível era dos que tinham uma cama de casal, e um quarto individual
ficaria duas vezes mais caro do que um quarto compartilhado. Eu teria de
sobreviver a base de comida barata durante aquela maldita viagem.
Primeiro dia, e eu já estava odiando com todas as minhas forças quando
devia ser minha oportunidade para espairecer. Por que diabos eu concordei
com isso?
— Eu não quero me lembrar dele durante essa viagem, Lis — afirmei,
154
digitando a senha na maquininha, decidido a pagar parte da minha diária
agora e a outra parte quando fôssemos embora. — O que a gente vai fazer
é aproveitar o que pudermos da viagem, vamos andar juntos pela cidade,
tirar fotos. Quem sabe não conhecemos pessoas legais?
— Mas... — ela começou a protestar, porém, sua voz morreu antes que
continuasse. Lisa não era idiota. Ela podia ver claramente como a situação
não era das melhores, e como isso estava me deixando triste, então, ela não
insistiria, pelo o meu bem — tudo bem. Você está certo. Quer saber?
Foda-se tudo, foda-se Kim Taehyung e aquele cara lá. Fodam-se todos
eles. Por mim, tomara que todos se engasguem com a cerveja e acordem
com ressaca — afirmou — e sabe o que nós vamos fazer? Eu, você e Ryan
vamos ficar juntos, só nós três. Não me importo de nos separarmos dos
outros. Vamos passear juntos e nos divertir, e eu vou te levar para alguma
boate LGBT, você vai conhecer algum cara legal, e vai beijar na boca a
noite toda! Não vou deixar você ficar chorando e sofrendo por Taehyung e
nem por macho algum.
Peguei meu cartão magnético após realizar a transação e me virei para fitá-
la, dando um sorrisinho mínimo.
— Tira essa tristeza do rosto agora! Você já tentou pedir desculpas para
ele! Você já foi atrás dele e ele te ignorou! Se eu conseguir, hoje mesmo
você vai arranjar alguém para beijar e não vai sequer se lembrar de quem é
Kim Taehyung! Entendeu, Jeongguk? Eu amo você, você é meu melhor
amigo, e eu não vou deixar que as coisas fiquem assim — ela sorriu
determinada — sentimentos não desaparecem da noite para o dia, Guk.
Taehyung gostava de você antes e gostava muito pelo o que entendi. Eu
duvido que ele tenha te esquecido, porque é impossível! Mas, a sua vida
não pode parar em função dele e nem vai, então, diversão e alegria nos
aguardam em SF!
E dito isso, ela agarrou minha mão e foi comigo em direção ao meu quarto.
Número 2074. Andar diferente, lugar diferente. Quando adentramos o
quarto que continha uma espaçosa cama de casal, ela sentou numa poltrona
que havia ali, e começou a planejar como iríamos aproveitar o dia.
[...]
Após tudo o que ocorreu, Lisa conversou com Ryan e pediu para que eles
se transferissem para o meu andar. Meu amigo concordou na hora, e eles
155
trocaram de quarto sem avisar os outros. Nos instalando nos quartos do
segundo andar, discutimos o itinerário para aproveitarmos a viagem como
devia ser aproveitada e sem explicarmos o motivo, saímos só os três do
hotel. Maya e o resto do grupo mandaram mensagens, parecendo
extremamente confusos com nossa atitude já o combinado era que iríamos
nos encontrar, mas Lisa os tranquilizou, garantindo que estava tudo bem.
Saí do hotel na companhia do meu celular e da minha câmera fotográfica
(presente de aniversário de Ryan, Miles e Lisa naquele ano), preparado
para fotografar tudo o que pudesse. Em Phoenix, eu já havia fotografado
praticamente tudo, então, não havia mais graça. Mas ali, naquele lugar
totalmente novo e diferente, senti-me sedento por tirar milhares de
fotografias. Eu definitivamente estava disposto a fazer aquela viagem valer
a pena apesar de tudo.
E enquanto Ryan dirigia o carro em direção ao nosso primeiro destino,
meu celular apitou em meu bolso, fazendo-me lembrar de que eu precisava
avisar minha mãe e meu pai que havia chegado bem. E o mais
impressionante, a mensagem era de Taehyung! Após tanto me ignorar,
com o incidente bizarro do quarto, ele finalmente me contatou. O que
aconteceu não foi nada demais, sinceramente, mas estávamos claramente
fazendo uma tempestade em copo d'água sobre aquilo.
Taehyung: Jeongguk, me desculpa pelo o que aconteceu hoje mais cedo.
Não era para você ter visto aquilo, o que quer que tenha sido e eu me
sinto verdadeiramente péssimo agora. Me perdoa, eu ainda quero
conversar com você, se você ainda quiser conversar comigo, se não tiver
desistido de mim. Eu não sabia que você seria meu colega de quarto, eu
estava tentando expulsar Bogum de lá, ele acabou me seguindo até SF, ele
tem me perturbado faz dias já. É sério, acredita em mim. Sei que tenho te
evitado, mas eu posso explicar tudo, me dá uma chance! Eu sinto muito
mesmo por tudo, e quero muito fazer algo para compensar aquela
situação e tudo o que aconteceu. Me perdoa!
Taehyung: Eu estava sem reação na hora e fiquei muito surpreso.
Taehyung: Eu queria, se possível, que você voltasse para o nosso quarto
do hotel. O quarto que era para ser meu e seu. Ficarei sozinho lá caso
você não queira ir.
Suspirando audivelmente, digitei de volta.
156
Está tudo bem, Taehyung. Você não sabia. E não precisa se desculpar
pela coisa do quarto, ou qualquer outra coisa. Como eu já disse, está tudo
bem. Isso realmente não foi sua culpa!
Taehyung: Me deixe fazer alguma coisa para compensar, tudo isso! Por
favor, Jeongguk!
Eu já disse que está tudo bem!
Taehyung: Eu sei que não está, caramba! Para de fingir que não se
importou. Você me olhou com tanta decepção, Jeongguk. Não tem como
você me dizer que está tudo bem!
Você não precisa fazer nada! Aproveita a viagem, e a gente talvez se
esbarre por aí, okay?
Taehyung: Por favor, Jeongguk!
Só aproveita o dia. Tchau.
Guardando o celular dentro do bolso de minha calça, suspirei, tentando me
esquecer do que houve e focando em aproveitar o meu dia. Até porque, eu
merecia.
Passamos por vários pontos da cidade. Estacionamos o carro e íamos à pé
através de várias casas e prédios incríveis. Usando minha câmera,
fotografei tudo o que pude, sorrindo satisfeito com as paisagens que eu
conseguia capturar. O sol refletia muitas vezes, causando um efeito etéreo
nas fotos. Era como se desse mais vida a elas.
Um dos momentos mais lindos que consegui capturar foi uma hora quando
Ryan e Lisa caminharam à minha frente. Ela estava tomando sorvete, e ele
roubou um pedaço da casquinha dela. Sorrindo divertida, Lisa o puxou
pela gola da camiseta, e lhe deu um selinho. Quando tirei essa foto, o sol
se punha atrás deles, deixando a foto com um efeito incrível.
Ambos definitivamente gostariam de revelar aquela imagem depois.
Almoçamos, aproveitamos mais um pouco, até pegarmos o longo caminho
até a notória Ponte Golden Gate que ficava na Baía de San Francisco (um
lugar que a minha mãe simplesmente amava na Califórnia, pois lhe trazia
157
lembranças do passado). O guia turístico nos explicou que antigamente
diziam que aquela ponte nunca seria construída, e que a mesma era um
exemplo de perseverança e determinação. Foi inaugurada no dia 27 de
maio de 1937, dois anos antes do início da Segunda Guerra Mundial,
quando os Estados Unidos estavam eventualmente reerguendo e
melhorando após a Grande Depressão de 1929, graças ao Plano Roosevelt.
Tirei diversas fotos daquela ponte vermelha majestosa, que chamava a
atenção por sua verdadeira imponência. A atravessamos também, tendo
uma vista boa na notória Ilha da Alcatraz, que já fora considerada uma das
prisões mais seguras do mundo, e abrigou figuras notórias e pessoas
consideradas "irrecuperáveis" para a sociedade. Como exemplo disso,
tínhamos Al Capone, o notório gângster de origem italiana. Algo
interessante que o guia nos contou foi que houve um caso de fuga em
1962, onde três prisioneiros passaram sete meses arquitetando e
preparando sua fuga. Como corpos nunca foram encontrados (já que nadar
pelas águas da Baía de San Francisco era considerado impossível por ser
muito gelada e a distância ser longa), concluíram que eles haviam morrido.
Isso até o FBI declarar que um dos homens que fugiu mandou uma carta
para o Departamento de Polícia informando que eles conseguiram fugir,
que ele tinha 83 anos, e estava morrendo de câncer.
Na volta, passamos na loja que tinha ali, comprei alguns chaveiros legais,
e uma caneca incrível. Ela era vermelha, com um acabamento grosso e
pesado, mas polido. Na frente, havia os dizeres "Golden Gate Bridge.
Opened May 27, 1937". Não gastei muito, até porque a caneca por si só já
foi caríssima, e eu tinha a obrigação de contar os centavos graças ao quarto
de hotel que aluguei separadamente.
O sol já se punha atrás de nós, e um vento gelado cortava minhas
bochechas, fazendo-me estremecer. Voltamos para o hotel sentindo aquela
sensação de dever cumprido, como se tivéssemos aproveitado o máximo
que podíamos.
Como nosso andar era diferente, não corremos o risco de encontrar
ninguém do grupo (o que era um alívio para a minha pessoa). Tínhamos
passado em um mercado antes de chegarmos e eu comprei algumas
besteiras para estocar no quarto até domingo. Não contamos aos outros
onde estavam nossos quartos, e Lisa disse que preferia que fosse assim, e
que no dia seguinte, a gente podia pedir desculpas por sumir assim. Mas,
mesmo sendo falta de educação, eu não conseguia me sentir mal. Eu
158
precisava daquilo, daquele momento de descontração, de me divertir sem
me preocupar, afinal, era provável que Taehyung estava acompanhando o
grupo principal.
Então, dando a desculpa de que eu estava querendo descansar, recusei a
insistência de que fôssemos para a balada a fim de que eu conhecesse
algum carinha qualquer apenas para arranjar uma boca para beijar. Foi até
bom porque aproveitei o tempo livre para assistir alguns animes deitado
em minha cama do hotel, me entupindo de comida enquanto o tempo
passava.
Confesso que não sei que hora acabei desmaiando na cama e nem me
importava. Dormi feito um neném, sem me preocupar com o mundo lá fora
e sem imaginar o que dia seguinte me reservava.
159
Capítulo 9 - Scream
De acordo com as regras do hotel, eles tinham horário para a limpeza das
piscinas. E ali, haviam mais ou menos umas cinco piscinas disponíveis. E
era permitido o uso de madrugada. Mas, como eu sabia que provavelmente
poucas pessoas deviam usar para isso, no dia seguinte, quando o relógio
marcou as duas da manhã, coloquei um calção de banho, apanhei uma das
toalhas disponibilizadas no quarto e saí do quarto levando apenas o cartão
magnético de acesso à porta. Até meu celular deixei por lá.
Usei as escadas e cheguei no térreo, rumando para o lado das piscinas e
caminhei para a mais afastada de todas. Sorri ao ver que a água havia
acabado de ser trocada, e o vapor fumegante da água quente que saía de lá
era tentador naquela noite fria. Borbulhas eram feitas na superfície da água
límpida, e mais animado do que antes, deixei minha toalha sobre uma
espreguiçadeira e pulei dentro de uma só vez. Aquela água estava pelando
de quente, mas não liguei, estava bom daquele jeito. Recordei da vez que
Yugyeom me levou para um clube quando ainda namorávamos. Eu queria
aproveitar o máximo possível da piscina, enquanto ele queria aproveitar as
atividades que ofereciam dentro do lugar.
Apoiando minha cabeça contra um degrau que havia dentro da piscina,
fechei os olhos e relaxei, sentindo todos os músculos de meu corpo
absorverem toda aquela calmaria e tranquilidade que me era transmitida.
Eu merecia isso depois do dia agitado que tive, e sinceramente se o mundo
resolvesse acabar naquele exato momento, eu não ia me importar nem um
pouco.
Mais uma vez, Lisa, Ryan e eu ocupamos nosso dia com turismo. Um
turismo só nosso, e mais uma vez, ficamos o mais longe possível do
160
pessoal do grupo. Taehyung me mandou mais algumas mensagens pedindo
para falar comigo, mas não as respondi e me diverti o resto do dia. Não era
minha intenção inicial ignorá-lo, e eu realmente planejava respondê-lo, o
problema era que quando eu lia as mensagens, eu não tinha a mínima ideia
do que falar, eu estava na dúvida. Não esperava que depois de ser ignorado
por algum tempo, ele começaria a querer minha atenção desse jeito.
Infelizmente, minha paz na piscina durou pouco quando alguma pessoa
inconveniente também teve a brilhante ideia de usar a piscina no mesmo
horário que eu, e pulou sobre ela espirrando água por cima de mim
enquanto fazia sua entrada "triunfal". Fiz uma careta incomodada, mas
ignorei, afinal, não era nada demais, só mais algum hóspede.
— Jeongguk?
Eu sinceramente gostaria de saber que tipo de azar do cão era aquele. O
que fiz na minha vida passada para merecer isso? Devo ter cometido o pior
dos crimes, porque não é possível... Tinha que ser justo ele, de todos os
seres humanos... o cara que eu ainda não respondi.
Abrindo meus olhos devagar, ajeitei-me dentro da piscina e fitei
Taehyung, que me encarava com uma expressão sem graça. Ele estava sem
camisa, exatamente como eu, dando-me a visão de seu peito e suas
tatuagens, e seu cabelo vermelho estava molhado, caindo contra seu rosto
de forma desajeitada. E os lábios dele... puta merda, eu não devia olhar,
mas estavam úmidos, entreabertos... eu diria que aquele desgraçado estava
beijável. Perigosamente beijável.
— Você me seguiu? — Perguntei, franzindo a testa.
— Não. Você sequer está no mesmo andar que eu — respondeu
prontamente — acho que tivemos a mesma ideia.
Okay.
— O que você está fazendo aqui? — Indaguei, cruzando os braços
embaixo d'água.
— É um espaço público do hotel. Eu vim nadar um pouco — replicou,
como se fosse óbvio.
161
Assenti, sem ter o que falar.
— Você fez muita coisa hoje? — Ele perguntou, parecendo genuinamente
interessado.
— Sim, passeamos bastante, e você?
— Fiquei no hotel o dia todo. Todos saíram, mas eu disse que queria ficar
sozinho no quarto. Não tive ânimo para sair hoje. Fiquei extremamente
sem graça com tudo que aconteceu ontem e nos últimos dias, me desculpe.
— Mordeu o lábio.
— Eu acredito em você, não há necessidade explicar nada — falei
baixinho.
— A verdade era que eu queria me retratar, arranjar uma forma de redimir
tudo o que houve, mas eu não consigo, Jeongguk. Eu sinto muita vergonha
só de olhar para você, e não é vergonha de você. É de mim, do meu melhor
amigo. Eu sei que tudo te afetou muito, principalmente as palavras
maliciosas dele, e isso me preocupa.
— Olha, não tem motivo para você querer se preocupar comigo. Não
agora.
— Eu me perguntei por onze anos se você estava bem sem saber de
verdade. Pensei se você estava saudável, se você estava feliz. Fiz isso por
tanto tempo. Você acha que não tenho motivo para me preocupar com
você? Acho que vou parar da noite para o dia? — Apontou, fazendo com
que eu me calasse e abaixasse a cabeça.
— Desculpe, você está certo — concedi.
Era babaquice discutir acerca de uma coisa assim. Mas então... ele parecia
tão vulnerável para mim. Parecia que as coisas estavam diferentes. Me vi
novamente estudando sua feição e concluindo que eu não conhecia aquela
faceta de Taehyung. Eu gostava dele, estava praticamente apaixonado por
ele, mas mesmo assim, eu sabia muito pouco. Eu conhecia seu lado
provocador, safado, sexy, carinhoso, inteligente, atencioso e muitos de
seus defeitos, no entanto não considerava tanto a parte vulnerável e
insegura.
162
— Não importa o que o seu amigo disse — comecei — eu não te culpo por
nada. Eu fui até o seu quarto naquele dia para me desculpar, e eu quero
fazer isso agora. Me desculpe por ter dito aquelas coisas que eu disse para
você, por ter pensado coisas indevidas, porque eu realmente pensei. Eu
achei que você tinha transado com um monte de garotos e garotas, mas
descobri que não foi exatamente assim, sem contar que eu não tinha o
direito de cobrar nada de você porque nós não éramos nada naquela época.
Também fiz insinuações acerca do seu caráter e isso de forma alguma foi
correto também — suspirei — me perdoa, Taehyung. Desde o início, eu
acredito que a gente começou bem mal e agimos impulsivamente, tomando
decisões precipitadas, tirando conclusões errôneas e sendo imaturos um
com o outro.
— Doeu sim ouvir as coisas que me você me disse, e eu chorei feito um
idiota, lamentando tudo, mas eu sei que também fui idiota. É péssimo
quando nada acontece da forma como a gente planeja e eu fiquei tão
frustrado — olhou nos meus olhos, com a expressão séria — porém, em
momento algum fiquei com raiva de você. Eu só queria que me desse outra
chance. Eu quero que você me dê outra chance. Eu gosto de você de
verdade e quero te mostrar isso, e é claro que eu perdoo você.
Fiquei boquiaberto, verdadeiramente surpreso com a sinceridade de suas
palavras.
— Embora o que você tenha dito seja um espelho de como você me via, eu
não sou essa pessoa e...
— Eu não vejo você daquela forma — protestei, corando — não mais,
pelo menos.
— Certo, o que eu quero dizer é que embora você verdadeiramente me
odiasse, eu ainda queria tentar algo com você — sorriu, sem mostrar —
mesmo com toda a minha vergonha que me fez te evitar nesses últimos e
eu peço desculpas novamente, eu acho que vale a pena. Eu gosto de como
você é atrevido e responde de forma petulante, gosto da forma como a
gente acaba brigando mas acaba se beijando. Adoro quando você me
alfineta enquanto me agarra. É como se fosse um desafio para mim a cada
vez que a gente interage de alguma forma, e eu amo isso, sinceramente.
Minhas bochechas estavam extremamente vermelhas com sua declaração,
e eu vi ele se aproximando de mim dentro da piscina.
163
— Eu também te evitei na época em que descobri a verdade sobre o nosso
passado porque também fiquei com vergonha. Acho que nós somos mais
parecidos do que imaginamos, né? — Dei de ombros, tentando disfarçar
minha vergonha. — Eu também gosto da forma como a gente interage,
você sinceramente me deixa aceso só por respirar perto de mim, você sabe
disso. E toda a coisa de você cumprir a promessa do passado, confesso que
é um pouco bizarro, mas também acho que é extremamente fofo. Você
realmente se empenhou para vir atrás de mim, e eu fico muito feliz que
você o tenha feito. Obrigado por nunca ter se esquecido de mim, eu só
preciso te dizer que... — Ele parou na minha frente, o corpo tão próximo
do meu que eu podia sentir sua respiração batendo no meu rosto. — Se eu
te odiasse de verdade eu não teria te beijado como eu beijei. Eu não teria
me esfregado em você como eu fiz, ou subido no seu colo dentro de um
carro. Se eu te odiasse, eu não teria me agarrado com você em um
banheiro público. Taehyung. Eu sinceramente teria ficado de joelhos e te
chupado se nós tivéssemos tido tempo suficiente. Você acha que eu
realmente te odiava mesmo? — Soltei. — Você me deixava confuso. Me
irritava e levava meus sentimentos ao extremo! Eu não gostava de como
meu humor oscilava perto de você, como você parecia brincar com a
minha cabeça, eu queria te socar e te beijar ao mesmo tempo, mas te odiar?
Não.
Taehyung não respondeu, ao invés disso, seus olhos fixaram-se nos meus e
ficamos naquele silêncio agradável. Ele absorvia minhas palavras,
mantendo uma expressão de seriedade e calma.
Eu queria que ele falasse alguma coisa, qualquer coisa, simplesmente para
não me sentir tão nervoso e inseguro, afinal, eu tinha acabado de me
declarar praticamente.
Até que ele se aproximou mais um pouquinho de mim, e mais um
pouquinho e num toque sutil, encostou nossos lábios no que parecia ser um
beijo meigo. Um mero encostar carinhoso de lábios. Rapidamente,
coloquei minhas mãos em seu pescoço, trazendo-o ainda para mais perto e
correspondi com todo o meu coração, sentindo-me tão feliz, que eu sentia
que poderia explodir. Eu queria que ele sentisse através daquele beijo o
que eu não era capaz de falar com meus lábios... o quanto eu realmente
gostava dele, gostava de verdade, e eu queria que a gente ficasse bem, que
a gente se resolvesse.
As mãos dele descansaram em minha cintura e me puxaram para um
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pouquinho mais perto, exatamente como tentei fazer, colando nossos
torsos e fazendo-me suspirar baixinho contra seus lábios. Eu não sabia o
quanto sentia falta de beijá-lo até estarmos realmente fazendo-o, e eu tinha
certeza de que aquela estava sendo a nossa reconciliação. Nós ficaríamos
bem.
[...]
No dia seguinte, assim que acordei, tomei outro banho, dessa vez mais
rápido. Coloquei uma calça, camiseta e um moletom preto, apanhando
meu telefone, câmera fotográfica, cartão magnético e a carteira. Eu já
queria estar preparado para que a gente pudesse cumprir o itinerário
daquele dia. Não recordo tudo o que Lisa planejara para aquele dia, mas
sei que envolvia mais visitas a pontos turísticos notórios.
Dormi tão bem noite passada depois que voltei para o quarto de hotel.
Dormi com um sorriso estampado no rosto. Infelizmente, não ficamos na
piscina por muito tempo, mas aproveitei o máximo que pude com ele,
abraçados por algum tempo na borda até que decidimos ir dormir. Ele me
mandara uma mensagem me desejando "boa noite", e eu respondi "boa
noite, ainda vou chutar o seu traseiro", o que ocasionou uma série de
risadas do mais velho.
Confesso que eu estava ansioso para vê-lo hoje ainda, então, desci as
escadas até o salão principal onde serviam o café da manhã o mais rápido
que pude (afinal, ontem de manhã eu pulei o café da manhã) e comecei a
me servir, colocando ovos mexidos, bacon e salsichas em meu prato.
Apanhei um suco de laranja e fui procurar Taehyung. Notei que ele estava
numa mesa grande, na companhia de todos o pessoal do grupo. Incluindo
Ryan, Lisa e... Bogum?
O que diabos aquele cara fazia ali?
Com a bandeja em mãos, suspirei e fiz meu caminho até eles. Fui
cumprimentado por todos e sentei-me na última cadeira disponível que
ficava no final da mesa, coincidentemente, ao lado do último mencionado.
Ele parecia estar tentando se enturmar, mas o pessoal não parecia lhe dar
muita atenção. Assim que me sentei, notei como Bogum pareceu ficar
tenso ao meu lado, engolindo em seco algumas vezes. Ignorei e tomei um
gole de meu suco de laranja, disposto a tomar meu café da manhã como se
não tivesse nada errado.
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Estiquei a cabeça e olhei na direção de Taehyung, que estava sentado
algumas cadeiras longe de mim. Ele me observava sorrindo e eu sorri de
volta, confuso, mas sentindo borboletas voando em meu estômago.
— Psiu — Bogum chamou baixinho, interrompendo meu momento gay
com o garoto por quem eu tinha uma verdadeira queda e fazendo com que
eu fechasse os olhos, irritado, implorando a alguma divindade que me
desse paciência para seja lá o que ele quisesse me falar — seu nome é
Jeongguk, não é?
Virei-me para encará-lo e notei que Bogum me fitava com um temor
aparente nos olhos. Como se fosse pular em cima dele e arrancar sua
garganta. Também não é para tanto, cara. Segurando minha vontade de
revirar os olhos, fiz um meneio com a cabeça, indicando que era o meu
nome e que eu estava escutando.
— Eu queria te pedir desculpa por toda a situação do quarto. Eu não
imaginava que Taehyungie já tinha um colega — sussurrou para que
somente eu ouvisse. Taehyungie. — Eu fiquei extremamente constrangido
de ter sido o causador daquele mal-entendido, que para ser franco, eu
mesmo não compreendi muito bem o que foi, sério.
— Eu sei que você e o Taehyung tiveram um breve caso, que você o
chutou e agora fica tentando se aproximar dele de novo — continuou
sussurrando. Fiquei surpreso, ouvindo aquilo com mais interesse do que
antes e me segurando para não dar uma resposta ácida — e eu vejo como o
Taehyung fica quando você está por perto. Temo que você não faça bem
para ele. Ele tem me ignorado nos últimos dias e eu sei que é por sua
causa. Aquele amigo dele que voltou para a Coreia tinha me falado.
— Como é que é? — Dizer que eu estava desacreditado seria piada. E
também, Park Jimin tinha voltado para a Coreia? Nada surpreendente
considerando que eu não o vi novamente.
— É isso mesmo — ainda falava baixo, para que somente eu ouvisse — eu
queria pedir para você parar de fazer isso, de se aproximar dele. —
Suspirou de forma melancólica e colocou um garfada de bolo que tinha em
sua bandeja. Eu queria sinceramente pegar esse pedaço de bolo e esfregar
na cara desse imbecil. Virando-se para mim novamente, ele sussurrou —
no fim, concluí que foi bom eu ter vindo, afinal, você não devia dividir o
quarto com ele e não o fazer sofrer mais do que ele já sofreu. Então, faça
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isso, por favor! Fique longe dele!
Minha reação ante a isso foi automática. Eu não falei nada, apenas tombei
a cabeça para trás numa gargalhada alta e sonora, chamando a atenção de
todos que tomavam café daquele salão. Não conseguia entender o que
causou aquela crise de risadas em mim, só sei que quando menos imaginei,
levantei da cadeira ainda rindo, e numa ação totalmente impensada, agarrei
meu copo de suco de laranja e joguei em seu rosto, causando reações
chocadas e abismadas de todos. Lisa cobria os lábios com a mão, os olhos
arregalados.
— Quem você pensa que é para chegar e tentar me dizer o que eu devo ou
não fazer? Você nem foi convidado e quem te disse que você tem alguma
chance aqui, garoto? — Guinchei, indignado e sem olhar para trás,
marchei para fora do salão, ignorando quando alguém gritou meu nome.
Minha vontade tinha sido de meter um soco no rosto daquele imbecil, mas
eu não podia, eu sabia que não, então contentei-me em apenas jogar o suco
mesmo. Eu sei que foi impulsivo e provavelmente muito errado, mas eu
não ligava. Corri para meu quarto de hotel, bati a porta com força, e sentei
na cama com os braços cruzados como uma verdadeira criança birrenta.
Eu estava tão irritado com aquele cara, com aquela situação ridícula, com a
audácia daquele cara. Ele realmente conseguiu estragar o que devia ter
sido o melhor café da manhã para mim.
Uma batida forte foi ouvida na porta e eu resmunguei, irritado.
— Lisa, agora não! Vai perturbar o Ryan ou sei lá! — Gritei em resposta.
Porém, ela continuou a bater insistentemente na minha porta e a
contragosto, caminhei em passos duros e a abri com uma expressão
aborrecida e um bico enorme nos lábios. No entanto, quem estava ali era
Taehyung. Com uma expressão engraçada no rosto.
Ele não disse nada, nem pediu licença, entrando no quarto e fechando a
porta atrás.
— O que foi aquilo? — Perguntou.
— Ele que começou — reclamei — eu estava tomando café da manhã
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tranquilamente e ele começou a falar algumas baboseiras sobre você, que
eu te fazia mal que eu devia me afastar e eu fiquei muito irritado. Para
evitar uma catástrofe, resolvi só jogar o suco na cara dele.
— Só? — Arqueou uma sobrancelha.
— Ah, ele pediu por aquilo — retruquei.
Taehyung balançou a cabeça, parecendo achar graça em aquilo tudo.
— Sabia que você fica uma graça com ciúme?
Cruzei os braços, fazendo uma careta.
— Quem te iludiu falando que eu estava com ciúme? — Fiz bico.
— Eu sei que você estava, está na verdade — afirmou.
— Não estou, não. Não sei de onde você tirou isso. Eu não tenho ciúme de
você, eu nunca teria ciúme de você — rebati, não querendo dar o braço a
torcer. — Seu ego incharia demais se eu tivesse ciúme de você.
Taehyung ficou lá, parado e me observando de forma compenetrada.
Soltando um suspiro, ele umedeceu os lábios (aquela mania que ele tinha)
e eu tive um vislumbre de seu piercing por meio daquele ato. Os braços
tatuados dele estavam apoiados em sua cintura e por um momento, pensei
ter visto ele mover as mãos. Adoraria saber o que diabos ele estava
pensando, pois, aquele silêncio estava me deixando maluco. Ele faria o
quê?
— Eu vou fazer você admitir que estava com ciúme.
— Só nos seus sonhos — revirei os olhos.
— Adoro desafios, Jagi — sorriu.
— Quer ver só.
Atravessando a distância entre nós em menos de três longos passos,
Taehyung segurou meu pescoço e me imprensou contra a parede com
força, esmagando seus lábios nos meus. Senti minhas costas baterem
contra o concreto, mas não importei. Abracei sua cintura de maneira
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possessiva com meus braços, fechei os olhos e correspondi ao beijo.
Nossas línguas brigavam por dominância naquele beijo sem ritmo, e eu
praticamente gemi em satisfação só de sentir o metal geladinho do piercing
dele. Obviamente, meu gemido fez Taehyung buscar me beijar com mais
vontade do que antes. Inconscientemente, eu sabia como levá-lo a loucura
como ninguém.
Interrompendo o ósculo, respirei profundamente, buscando o ar que faltava
em meus pulmões.
Os lábios dele foram de encontro ao meu pescoço e eu mordi o lábio, feliz
demais para pensar em qualquer coisa naquele momento. Gemi baixinho
quando Taehyung marcou minha pele com seus dentes, dando mordiscadas
que doíam um pouquinho e logo em seguida, passando sua língua por cima
para "anestesiar" o efeito, e aquilo era muito gostoso. Enquanto isso, tirei
um de meus braços de sua cintura e desci para o volume em sua calça,
notando que ele já estava começando a ficar excitado.
Buscando tomar o controle da situação, num movimento rápido,
aproveitando sua distração ao beijar meu pescoço, troquei nossas posições,
fazendo ele se encostar contra a parede. Taehyung soltou um arfar,
claramente surpreso, mas não reclamou, mergulhando sua mão em meus
cabelos enquanto trazia meus lábios de volta para os dele, e de boa
vontade, me deixei ir, beijando-o mais uma vez. E foi bem ali, que eu
aproveitei, e aproveitei com gosto. Uma risada maléfica teria saído se eu
não estivesse tão ocupado beijando ele. Aquele beijo estava deveras
gostoso, e claro, não me contive e guiei minhas mãos por seu pescoço, as
descendo devagar, passando por seu peito e espalmando-as ali. Uma
vontade louca de gritar para aquele babaca invasor que quem estava
beijando Taehyung era eu, quem estava tocando ele era eu, e só eu faria
isso. Nunca fui possessivo, mas foda-se. Eu não ligava para isso. Levei
minhas mãos para seus ombros largos, sentindo a firmeza que ele tinha e
me perguntando como seria estar em cima de Taehyung, cavalgando-o
enquanto me apoio ali. Desci para seus braços e quase gemi em satisfação
ao sentir seus braços. Ele era tenista, então se tinha uma parte de seu corpo
que devia causar inveja, eram os seus braços.
Dedilhei seus músculos, passando a ponta dos meus dedos pelas tatuagens
que ele tinha ali e sentindo-me estupidamente feliz apenas por estar
fazendo aquilo. Infelizmente, Taehyung me conteve de explorar mais o seu
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corpo, o que me fez lamentar um pouco (eu estava tendo a chance de estar
com ele novamente, e após observar de longe por tanto tempo tudo o que
eu não tinha mais ao alcance das minhas mãos, a minha vontade era de
tocar em tudo. Literalmente).
Procurando minhas mãos, eles as entrelaçou com as dele e me virou de
volta contra a parede, mas as prendendo acima de minha cabeça. Olhando
nos meus olhos, Taehyung arqueou a sobrancelha de forma arrogante e me
deu um sorrisinho extremamente safado. Eu estava prestes a perguntar o
que ele faria, mas ao invés disso, ele abriu minhas pernas com seu joelho,
e se encaixou ali, me fazendo praticamente sentar em sua coxa.
Exatamente como no dia em que a gente se beijou pela primeira vez.
— Cavalga em mim, Jeongguk — seu sorriso aumentou —, dessa vez, eu
não vou te impedir. Se esfrega em mim até você gozar.
Eu não esperava que ele fosse falar isso nem em um milhão de anos. Como
minhas mãos estavam presas acima de minha cabeça, eu não podia fazer
nada a não ser literalmente me esfregar se eu quisesse me aliviar.
Desgraçado.
Ainda nos mantendo naquela posição, Taehyung voltou a beijar meu
pescoço e a deixar chupões por ali, tentando me deixar cada vez mais
excitado. Podia sentir os sorrisinhos que ele dava contra minha pele
sempre que meus gemidos escapavam de forma mais gutural, e eu não me
importava, para ser sincero, a gente podia tirar a roupa e transar ali mesmo.
No entanto, eu teria de pedir para que ele tivesse mais cuidado, já que eu
não transava há longos e solitários meses, usando apenas dedos e vibrador
(digo pensando no que Lisa disse sobre o pênis dele... quer dizer, será que
era tão grande assim?)
Aos poucos, minha ereção começava a crescer e a se tornar dolorosamente
insuportável. Minha vontade era de descer minhas mãos, abrir meu jeans e
me ver livre daquele encosto, mas infelizmente, eu não tinha como fazer
isso.
— Tae-Taehyung — chamei seu nome usando uma voz mais manhosa que
o normal — abre a minha calça.
— Você deveria estar se esfregando, Guk — murmurou ainda beijando
meu pescoço.
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— Mas, está doendo, minha calça está me machucando — reclamei,
fazendo um biquinho.
Antes, eu era dominante demais em todos os meus namoros, sempre
ditando como tudo devia ser, como iria funcionar, mas com Taehyung, era
diferente. Eu não ligava de perder minha pose de dominação com ele, ele
exalava uma aura de dominância que, sinceramente, me excitava para
caralho.
Dando um último beijinho em minha pele marcada, ele soltou minhas
mãos e guiou seus dedos até o fecho de minha calça, abrindo os botões e o
zíper. Pensei que ele só faria isso, até porque aquela ação por si só já me
deu um alívio imenso, mas não. Ajeitando meu quadril, ele puxou minha
calça para baixo junto com minha cueca e meu pênis saltou para fora, ereto
e já escorrendo o líquido pré-seminal. Ele estava me vendo quase nu da
cintura para baixo pela primeira vez e eu não podia me importar menos.
Seus dedos longos agarraram meu pênis e eu gemi extremamente alto só
com isso. Sua mão morna me causou calafrios por todo o corpo e eu
estremeci de prazer.
— Me toca — pedi, com os olhos fechados.
— Já estou te tocando, mas creio que sei o que você está pedindo — abri
os olhos, fitando-o confuso — eu só vou te tocar se você olhar nos meus
olhos e admitir em voz alta que você estava com ciúmes e que sim, você
tem ciúme de mim.
— O quê? — Eu estava boquiaberto.
— Vamos lá, Jagi — meu estômago deu um salto ao ouvir o apelido
carinhoso — admita que você tem ciúme, não é tão difícil.
— Você está brincando, não é? Eu já disse que não — Franzi a testa.
Taehyung sorriu.
— Queria estar, mas no momento estou segurando o seu pau enquanto
você está praticamente montado em cima de mim, então, acho que não
custa nada — cretino — vamos, não vai doer nada! Você já confessou
tantas coisas para mim e não pode falar isso?
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— Só vai inflar ainda mais o seu ego! — Protestei.
Aproximando os lábios dos meus, ele puxou meu lábio inferior entre os
dentes e mordiscou um pouco.
— Então, não irei usar minhas mãos.
Arregalei os olhos, e num ato de desespero, segurei seu rosto com minhas
mãos livres e olhei em seus olhos.
— Está bem, eu... TaeTae, você é arrogante para caralho, mas eu... eu
tenho ciúme de você. Eu senti ciúme de você durante o café da manhã com
as coisas que ele falou. Satisfeito?
O sorriso dele mudou, de algo mais relaxado e provocativo, foi para algo
carinhoso e tremendamente afetuoso. Ele mostrava o quadradinho lindo
que seus dentes formavam sempre que sorria e eu apreciei o formato de
coração que os lábios dele tinham.
— Sabe que a última vez que você me chamou assim foi há onze anos
atrás? — Disse, sem parar de sorrir.
— Assim como? — Eu estava distraído, olhando para seu sorriso.
— TaeTae.
Surpreso, eu pisquei algumas vezes.
— Te chamei de TaeTae? — Ele assentiu — foi tão automático que eu
nem percebi. E você me chamou de Jagi.
Sim, eu estava feliz com isso.
— Agora, eu acho que você podia voltar ao que estava fazendo. Sua mão
ainda está aí, paradinha, sem fazer nada.
— Então, faz o que eu falei. Se esfrega em mim, Jeongguk, como se você
estivesse desesperado para me ter dentro de você.
E eu meio que estava mesmo, mas nunca admitiria em voz alta. Ele não
precisa saber disso, já basta eu ter admitido ontem o quanto eu queria ele, e
ter admitido agora que eu tinha ciúme dele.
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Mas não reclamei, fiz exatamente o que ele dissera, e comecei a mover
meu quadril contra sua coxa, buscando fricção. Eu adoraria espantar o
incômodo que eu sentia em minha entrada, mas por enquanto, teria de me
contentar isso. E a medida em que comecei a esfregar-me, a mão grande
dele começou a me estimular, espalhando o líquido pré-seminal por toda a
minha extensão. Poderia ir a beira da loucura com o que estávamos
fazendo ali, mas eu queria mais, parecia não ser o suficiente.
Seus dedos ágeis me faziam gemer cada vez mais alto. Ele tocava minha
glande e descia a mão de forma torturante. Eu buscava apoio em seus
ombros, me sustentando ali enquanto rebolava com vontade contra sua
perna. Desesperado por mais contato, levei meus lábios aos lábios dele
novamente, e o beijei com um desejo desenfreado, gemendo manhoso
enquanto a língua dele acariciava a minha e depois a chupava sem fazer
muita pressão, ainda me masturbando com sua mão.
Sentia minha liberação se aproximar à medida que eu aumentava a fricção
de meu quadril contra sua coxa, enquanto ele abraçava minha cintura,
tentando trazer-me para mais perto de si. O volume de sua calça estava alto
e eu me sentia mais do que satisfeito por saber que eu era o causador
daquela ereção.
— Imagine só, Jagi — sussurrou contra meus lábios, apertando minha
cintura — imagine como será quando eu estiver dentro de você. Você
suado e ofegante, me recebendo dentro de você. Imagine, quando eu
estiver te pressionando contra a cama, sem uma única peça de roupa de
corpo... — gemi alto só de imaginar aquilo — eu ia cuidar de você tão
bem, não ia, eu vou cuidar de você. Vou fazer amor com você e depois vou
te foder com tanta força que você só irá ter voz para gritar o meu nome.
Não consegui aguentar mais. Após ouvir cada uma daquelas palavras,
inclinei meu corpo para frente, enterrando meu rosto em seu pescoço
enquanto sentia o orgasmo tomar conta e eu explodir, gozando em sua mão
e em sua camiseta branca (agradecendo aos céus pela cor da camiseta).
Gemi com a voz rouca e manhosa à medida que meu pênis expelia o
líquido branco de meu sêmen. Minha respiração estava fraca, e eu tentava
me recuperar dos espasmos que meu corpo dava. Não me recordo de ter
gozado tão gostoso assim nem quando transava com meus ex-namorados.
Claro que isso podia ser resultado da seca, mas eu gostava de acreditar que
não. E não faria diferença. Quando a gente transasse de verdade eu poderia
comprovar o que eu já deduzi faz tempo.
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E caramba, como eu sentia saudade daquilo: das nossas alfinetadas
seguidas de beijos e muito mais. Essa fora a primeira vez que a gente
realmente chegou no fim daquilo, e eu estava contente.
Achei que Taehyung me colocaria no chão ou algo assim, mas ao invés,
ele se afastou um pouco de mim, tirando minha cabeça de seu pescoço e se
abaixou para fazer com que eu colocasse minhas pernas em volta de sua
cintura. Eu me sentia tão mole que nem falei nada, apenas abracei seu
pescoço e respirei de forma contida, normalizando aos poucos.
Caminhando comigo no colo até o banheiro, Taehyung me sentou sobre a
gigante pia de mármore branco lotada de toalhas, e outras coisas
fornecidas pelo hotel, terminou de tirar as minhas calças e roupa íntima.
— Você não vai dormir, vai? — Perguntou, divertido, ao acariciar minha
coxa com uma mão.
— Eu queria, não vou mentir — comentei, sentindo-me meio grogue —
acho que nunca gozei com tanta força antes, isso me deixou meio
desestabilizado.
Taehyung deu uma risada ainda mais divertida e segurou a barra do meu
moletom, me incitando a levantar os braços. Obedeci e deixei que ele
tirasse o resto das minhas roupas. Eu estava realmente completamente nu
na frente dele e não me importei muito.
— Você está suado e sujou sua calça de sêmen — seu sorriso aumentou —
quer tomar um banho?
— Com você? — Arregalei os olhos.
— Não! — Riu de novo — se eu entrar com você, faremos tudo, menos
tomar banho.
— Ainda assim, você está com essa ereção no meio das pernas —
comentei.
O ruivo suspirou.
— Não vou cair na sua, sei bem o que está tentando fazer — me deu um
beijinho.
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— Mas eu quero te ajudar — fiz um biquinho — deixa eu te chupar.
Um músculo tremeu na mandíbula dele.
— Porra, você tem certeza? — Perguntou — eu posso usar minha mão, eu
realmente não quero que você se sinta na obrigação de fazer isso.
Revirando os olhos, desci da pia com dificuldade, sentindo minhas pernas
tremerem. O virei contra o mármore, fazendo ele apoiar o traseiro ali, e me
agachei, prontamente desabotoando sua calça e a abrindo com uma
animação. Era agora que eu ia comprovar. Era agora!
Abaixei o zíper e sem hesitar, levei sua cueca junto, dando de cara com seu
pênis. Soltei uma exclamação surpresa e tentei segurar a risada. Não tinha
nada de engraçado naquilo, mas acabei me lembrando do que a Lisa disse.
Se ela apenas tivesse noção... Ele era grande sim, comparado aos meus ex-
namorados aquilo ali era realmente impressionante. Só pelo tamanho e
grossura já percebi que eu não conseguiria colocar aquilo tudo na boca de
jeito nenhum.
Mas quem disse que isso era motivo para eu não dar o boquete para
Taehyung?
Sem esperar mais um segundo sequer, segurou seu pênis com minhas mãos
e comecei a massageá-lo, subindo e descendo devagar por toda sua
extensão, basicamente imitando seus movimentos de antes. Eu espalhava o
pré-sêmen por ali e me deleitava com a imagem dele agarrando a pia atrás
de si e me fitando com desejo aparente nos olhos.
Aproximei meus lábios em sua glande e a circundei com língua, sentindo a
textura daquela área sensível de seu corpo e fazendo Taehyung tremer um
pouquinho. Minha intenção ali não era torturá-lo, então, abri minha boca e
abriguei o máximo que pude de seu pênis, tendo o auxílio das minhas
mãos para continuar estimulando o que eu não conseguia engolir.
O gosto dele era cítrico e deixava um sabor peculiar em minha língua
sempre que eu procurava levar seu membro mais fundo em minha
garganta. Os olhos negros dele me encaravam com luxúria pura,
mostrando todo o prazer que ele sentia por aquele simples ato. Ou não tão
simples assim.
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— Você, agachado, nu e me chupando... — grunhiu —, essa é uma das
visões mais lindas que eu já tive, e eu nunca vou me esquecer disso,
Jeongguk.
Sorri, feliz por estar dando prazer a ele na medida em que ele me dera
prazer, e me preparei para fazer uma garganta profunda. Inicialmente, tirei
seu pênis de meus lábios e fui até seus testículos, chupando com afinco
cada uma delas até subir minha língua por toda sua extensão e lamber
como se fosse um pirulito. Então, tornei para sua glande e respirando
fundo, abocanhei tudo de uma só vez, levando tão fundo em minha
garganta que Taehyung engasgou, surpreso. Relaxei os músculos de minha
boca o máximo que pude e tomei tudo, ficando sem ar por algum tempo.
Eu queria que ele ditasse como ele queria, que ele literalmente fodesse a
minha boca, então, num pedido mudo, tirei uma de suas mãos da pia e a
coloquei em meus cabelos. Taehyung não precisou de outro comando para
entender o que eu queria, ele segurou meus fios negras com ambas as mãos
e começou a mover o quadril contra minha boca num ritmo bruto e rápido,
mas eu não liguei. Fechei os olhos com força, sentindo as lágrimas
escorrerem e deixei que ele investisse contra minha garganta.
Apoiei na parede ao lado e tentei me manter firme enquanto relaxava ainda
mais a minha boca. Taehyung gemia alto, e os gemidos dele eram graves e
arrastados, extremamente agradáveis de se ouvir. Mais duas estocadas e
ele começou a tremer.
— Eu vou gozar. Tira os lábios — gemeu.
Até parece que ele estava me estranhando.
De bom grado, mantive minha boca, deixando que ele continuasse a se
mover, e grunhindo de forma sofrida, Taehyung gozou na minha boca e eu
não pensei duas vezes, engoli tudo, sentindo o mesmo gostinho cítrico de
antes, mas agora de seu sêmen. Minha garganta doía por ter sido forçada
daquela forma, mas não me importei. Levantei-me do chão e sorri de canto
ao ver o ruivo com os olhos fechados a cabeça tombada para trás e a mão
agarrando a pia novamente.
Sorrindo sugestivo, segurei a barra de sua camiseta, e ele abriu os olhos
inquisitório. Nada falei, apenas a retirei de seu corpo, fazendo Taehyung
levantar os braços. Fitei seu torso tatuado e mordi o lábio inferior, sentindo
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uma vontade gigantesca de passar meus dedos e os meus lábios por cada
uma delas. Ah, mas é claro que eu faria isso. Um dia.
— Estava cheia de sêmen — falei com a voz falha — e a sua calça
também tem um pouco. Só irei colocar uma roupa nova e te trago uma
camiseta emprestado.
Sem falar nada, ele assentiu e ficou lá. Voltando ao quarto, coloquei uma
bermuda, uma blusa de manga longa vermelha e apanhei uma camiseta
gigante do Homem de Ferro que eu tinha, sorrindo ao levá-la até o
banheiro. Ao ver a peça, ele não se aguentou e gargalhou alto, vestindo a
mesma sobre seu peito tatuado. Como eu previa, ficou frouxa nele, mas
super fofa.
— Seu super-herói favorito ainda é o Iron Man?
— Sempre — dei de ombros.
— Bem — ele coçou a nuca, sem graça — na verdade, não sei se essa é
uma boa hora considerando tudo isso, mas não consigo pensar em um
momento melhor. Sinceramente, acho que a gente já esperou demais. E
lembro o que você disse para o seu amigo do futebol certa vez que você
abomina casos de uma noite só, que você odeia a ideia de ficar com uma
pessoa uma única vez sem que signifique nada. E bom, para mim, isso
daqui não foi "nada" como você deve saber. Partilhamos de uma
intimidade gigantesca como nunca antes, e apesar dos meus defeitos, eu te
respeito o suficiente para não chegar a transar com você sem ser seu
namorado oficialmente. — Deu um sorrisinho sem graça. — Então me diz,
você aceita namorar comigo?
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Capítulo 10 - Alive
— ... eu tô querendo morrer de vergonha, sinceramente. Lisa me levou até
um canto e me fez contar todos os detalhes de como você me pediu em
namoro e eu aceitei. Ela tem uma forma de arrancar as informações da
gente e quando me vi, acabei contando para ela que eu praticamente
implorei para você abrir a minha calça. E ela gritou no meu ouvido!
Taehyung soltou uma gargalhada gostosa e se sentou na cama, batendo no
colchão ao lado, como um convite para eu ir até lá me sentar.
— Você sabe que esse quarto é meu e você está invadindo, não é? —
Brinquei, dando a volta pela cama e sentando do outro lado.
— Vamos ver se será invasão quando você for dormir comigo mais tarde.
Eu sou o melhor travesseiro que existe — afirmou.
Franzi a testa e me debrucei sobre ele, deitando sobre seu peito, e de bom
grado, ele me aconchegou no vão de seu braço e apoiou o queixo em
minha cabeça. Eu estava extremamente confortável e à vontade naquela
posição, e sinceramente, poderia dormir daquele jeito fácil, fácil.
Estávamos agindo como um legítimo cuddling couple, e era gostoso
demais estar daquele jeito. Depois que ele me pediu em namoro
oficialmente e eu aceitei, assim que saímos para passear, tivemos de contar
a novidade para o grupo, e é claro que Lisa surtou um pouco no meu
ouvido.
Agora, Taehyung pediu para ficar no meu quarto comigo (já que a cama
era de casal) e eu não tive coragem de negar, e nem queria também.
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— Eu estava pedindo conversando com Bogum e fazendo ele entender que
não vai rolar nada entre nós — comentou Taehyung, acariciando meu
braço. — Ele decidiu voltar para Phoenix hoje à noite.
Finalmente. Ninguém nem chamou aquele cara e ele veio para ficar atrás
do meu namorado.
— Garanti que pagaria a multa da diária do hotel para ele — suspirou — e
eu acho que foi tudo bem, pois ele apenas sorriu de forma sem graça e
pediu licença. Fiquei com tanta vergonha dessa situação como um todo, foi
péssimo.
— Foi mesmo — concordei — e foi mais errado ainda ele chegando em
mim pedindo para que eu me afastasse de você.
— Ele te disse isso mesmo? Não creio nisso até agora — Se afastou para
me fitar, perplexo.
Revirei os olhos.
— Mas é claro, Taehyung. Por que você acha que eu fiquei tão irritado e
joguei suco na cara dele? Minha vontade era de dar um soco nele!
— Imagino e agradeço por você ter tido autocontrole — suspirou
dramaticamente, me fazendo dar um soco em seu braço. — Mesmo assim,
eu queria ter evitado aquilo tudo de acontecer. Não posso, então, vida que
segue.
Eu queria dizer que lamentei a coisa como um todo. Mas não.
"Vida que segue". Ele mesmo quem disse.
E realmente seguiu. Nós tínhamos uma viagem incrível para desfrutar até
voltarmos para Phoenix, então, visitamos mais alguns pontos turísticos da
cidade, e fomos até uma loja de aluguel de fantasias. Eu realmente não
queria, mas Maya e Lisa convenceram a todos e ainda insistiu que nossas
fantasias fossem surpresa.
A primeira coisa que eu pedi foi uma fantasia do Homem de Ferro, afinal,
ele era o meu super-herói favorito, mas infelizmente, eles não tinham. No
fim, consegui uma fantasia do Batman. Era um herói legal, mas eu ainda
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preferia a outra, caso tivessem. Era ideal para homens mais altos e com um
porte mais forte, o que era meu caso, então deu certinho. Após escolher
minha fantasia, Lisa apanhou o celular e mandou uma mensagem,
mantendo um sorriso ladino no rosto.
Ela ficou extremamente na dúvida do que escolher, e no fim das contas,
pegou uma fantasia de anjo, com direito a asas e até uma "coroa" na
cabeça.
Não fui autorizado a ver Taehyung e nem a fantasia que ele escolheu.
Brincando, Lisa garantiu que ele tinha escolhido uma fantasia de Branca
de Neve, e que tinha ficado lindo nele, mas que eu só poderia ver como
ficou na sexta à noite. Duvidei muito que fosse isso, até porque é difícil
imaginar Taehyung de vestido e com um lacinho na cabeça.
Após alugarmos as fantasias, ele pediu para a gente visitar a ponte Golden
Gate novamente, já que ele não havia saído do hotel no dia anterior e
gostaria de conhecer aquele ponto turístico famoso. Como aquele lugar era
lindo, ninguém se importou em ir de novo lá e muito menos eu. Dessa vez,
eu estava indo com ele. Paramos nas margens das águas geladas que
levavam ao Oceano Pacífico e eu suspirei, feliz por estarmos ali. Pode
parecer estranho, mas eu agradecia até por ter jogado aquele suco na cara
de Bogum. Pelo menos ele tinha ido embora.
Ficamos observando o sol se pôr enquanto ele me abraçava por trás,
segurando minha cintura com uma possessividade sem igual. O tempo já
esfriava bastante, e eu começava a estremecer, me arrependendo de ter
vestido uma bermuda anteriormente e não ter colocado ao menos um
casaco depois que a gente quase transou no quarto. E ele pareceu ter
notado que eu tremia mesmo estando em seus braços. Então, se afastando,
Taehyung retirou sua jaqueta de couro e a colocou sobre os meus ombros.
O fitei assustado, surpreso com sua ação, mas ele apenas deu de ombros e
afirmou que não estava com frio, pois passou o dia inteiro com a jaqueta.
Não reclamei. Passei meus braços pelas mangas pesadas e sorri ao ser
engolfado pelo cheiro dele. A jaqueta ficava certinha no corpo, já que
tínhamos a mesma altura, e como ele a usava anteriormente, estava
quentinha. O vento bateu sobre a minha camiseta do Homem de Ferro (que
ele ainda usava) e o mesmo suspirou, voltando a me abraçar. Fechei os
olhos e ouvi os barulhos que a cidade e o mar faziam, sentindo uma paz
enorme me consumir. Quem diria que estaríamos assim...
180
Na quinta-feira nós fomos para uma peça de teatro, visitamos mais alguns
lugares e eu passei o dia inteiro grudado em Taehyung. A gente se beijava
sempre que podia, ou se abraçava. Era um ímã invisível que parecia nos
puxar um para o outro, e Lisa dizia como nós éramos enjoativamente
fofos.
Durante nosso turismo na quinta, descobrimos coisas interessantes sobre a
cidade de San Francisco. Como, por exemplo, a bandeira do arco-íris, o
símbolo do orgulho LGBT, havia sido criada ali. San Francisco era
conhecida como sendo uma cidade acolhedora com LGBTs, e era um
destino comum dos mesmos quando vinham de outros países ou cidades. A
Parada do Orgulho LGBT que ocorria ali era uma das maiores e mais
notórias do mundo. Eu e Taehyung poderíamos morar ali algum dia, e eu
realmente idealizei isso. Nós dois morando em SF, um lugar acolhedor e
onde não sofreríamos opressão por sermos gays.
Talvez fosse besteira minha já idealizar um futuro quando a gente
namorava a menos de um dia, mas foi inevitável. Isso me deixava feliz,
pois me fazia acreditar que eu e Taehyung não seríamos apenas algo
passageiro, e que sim, um relacionamento para durar anos e mais anos.
Uma vida toda.
[...]
A chegada da sexta-feira me deixou ansioso.
Até demais, para ser sincero. Afinal, era o dia da festa de Halloween.
Quando acordei na sexta de manhã, sorri ao sentir os braços dele envoltos
em minha cintura. Eu sabia que ele estava pelado atrás de mim, até porque
Taehyung me dissera que sempre gostou de dormir nu e eu não iria
impedi-lo de dormir da forma que mais achasse confortável (embora ele
tenha tentado convencer que não tinha problemas em dormir vestido caso
sua nudez me incomodasse. No entanto, era claro que eu não me importava
com isso). Eu geralmente dormia com algum pijama, então, basicamente,
lá estava ele, peladão atrás de mim enquanto eu esbanjava meu pijama de
listras. O mais engraçado era o ruivo afirmar como era fofo me ver vestido
naquilo e como ele adorava o contraste com o fato de que ele não vestia
nada para dormir.
181
Claro que quando o peguei ferrado no sono ao acordar mais cedo na
quinta-feira, admirei como Taehyung conseguia ser lindo até dormindo. E
também, levantei a coberta para dar uma espiada em seu corpo tatuado.
Não era como se fosse um crime, nem nada. E puta merda, eu não me
arrependia. Ver aquelas tatuagens por toda a pele bronzeada... e já
começando a decidir quais eram as minhas favoritas. Eu gostava demais da
tatuagem tribal que ele tinha nos dois braços. Os traços eram
extremamente bem feitos e coloridos, e conectavam aos desenhos que ele
tinha nas costas das mãos e os símbolos em coreano nos dedos. Em cima
do peito havia uma espécie de escudo celta que pegava bem acima de seu
coração. Era grosseiro, mas não era exatamente feio, não soube explicar.
No pescoço, as tatuagens tribais subiam e formavam frases intercaladas
com imagens, parecendo desenhos como um sol, uma lua, o mar,
representações do vento, fogo, água e terra, junto com um símbolo
redondo de cor azul e vermelha.
Descendo por sua barriga, havia uma tatuagem com uma linha
extremamente bem-feita de um leão. Era tão bem detalhado mesmo sobre a
barriga dele que eu não pude deixar de notar. E o mais impressionante era
que a cauda do leão chegava até o osso do quadril, bem perto da virilha.
Quando vi o que ele tinha nas costas, segurei-me para não tocar, porque
vontade não me faltava. Era uma espécie de desenho artístico que
mesclava um majestoso tigre branco e os astros do céu com diversos
elementos químicos. Eram ampolas e coisas de experimentos. Era como se
fosse um laboratório no espaço, até que me lembrei. Taehyung estudava
bioquímica! Era a especialidade dele. O que explicava os experimentos e a
conexão com o que seria natural. E claro, eu não podia deixar de notar que
bem no meio das costas, em meio àquelas coisas, havia um número
tatuado. Um 95 pleno para se admirar. Dei uma risada imaginando que era
relacionado ao ano em que ele nasceu.
Nas coxas, eu via que ele tinha alguns desenhos, mas era difícil focar ali
quando eu não conseguia parar de olhar para o pênis dele. Ele não tinha
tatuagens naquela área, e nem na virilha, mas era inevitável, ainda mais
quando Taehyung acordou excitado e eu senti sua extensão em meu
quadril. Mordi o lábio pensando no que fazer, mas aí, quando eu decidi
tocar, ele acordou e correu para o banheiro tomar um banho gelado.
Na próxima oportunidade, eu não esperaria, tocaria logo de uma vez só.
182
Ainda na cama com os braços dele em minha volta, virei-me para fitá-lo e
sorri triste. Pensei em como era trágico que eu precisei passar por dois
relacionamentos fracassados antes de conhecê-lo. Seria infantilidade
minha reclamar disso? Provavelmente, mas era inevitável.
De frente para ele, fitei suas feições serenas. Ele tinha que acordar e eu não
sabia outra forma de fazer isso, então, aproximando-me mais, comecei a
dar vários selinhos em seus lábios. Por algum milagre, ele não tinha um
hálito matinal forte, então, eu não teria problemas. Acariciei seus cabelos
vermelhos e percebi quando o nariz também vermelhinho dele pareceu se
mover um pouquinho quando ele respirou profundamente e abriu os olhos
parecendo um pouco desnorteado, até que notou onde estava.
— Bom dia. Não podemos enrolar! A gente tem que tomar café da manhã
e...
Taehyung não me deixou terminar, apenas sorriu e se levantou da cama,
caminhando até o banheiro, completamente nu. Arregalei os olhos,
surpreso com sua ação, mas tomei aquilo como um sinal de que eu devia
levantar também, então, assim o fiz. Demorei alguns segundos a mais para
levantar, surpreso com o tanto que o ruivo despertara rápido e me
espreguicei, ouvindo o som do chuveiro tomar conta do quarto.
Bocejei e caminhei até o aposento, pegando minha escova de dente e
fazendo minha higiene matinal com uma cara de sono terrível.
— Jeongguk, você pode me passar minha escova e o creme dental, por
favor? — Pediu em meio ao calor do box de vidro escuro.
Distraído, passei os dois pela fresta do box e continuei fazendo minha
higiene, ainda dormindo em pé. Terminei de escovar os dentes e me
preparei para sair do banheiro, quando Taehyung me chamou de novo,
dessa vez pedindo para que eu colocasse sua escova e o creme dental na
pia. Suspirando, esperei que ele me entregasse, caminhando até a entrada
do box com os olhos fechados. Parecia que minha alma ainda estava na
cama.
Bom, isso até Taehyung abrir o vidro, agarrar a parte da frente do meu
pijama e me puxar para dentro. E eu gritei. Assustado para caralho ao
receber uma jorrada de água quente na cara. E o desgraçado estava lá,
gargalhando alto da minha situação lamentável. O fuzilei com os olhos,
183
dando um empurrão em seu peito e me afastando do chuveiro.
— Você molhou meu pijama, seu idiota! — Reclamei, irritado.
— Pelo menos você acordou agora — deu de ombros.
— Não acredito, Taehyung! — Bufei irritado e comecei a abrir os botões
da minha camisa do pijama — você provocou, agora vai arcar com as
consequências.
— Nós vamos nos atrasar — deu um sorriso matreiro, observando tudo
atentamente.
Joguei a camisa por cima do vidro do box, e logo em seguida, arranquei
minha calça, sendo acompanhada da cueca logo em seguida.
— Não estou nem aí — arqueei uma sobrancelha.
Sem parar de sorrir, Taehyung me puxou pela cintura e se meteu para
debaixo do chuveiro comigo, conectando nossos lábios num beijo
surpreendentemente calmo. Agarrando seus fios molhados, fechei os olhos
e me aproximei o máximo que pude, sentindo nossos membros se
encontrarem.
Era estranho, mas aquele contato não começou sendo malicioso, era
apenas nós dois tomando banho juntos pela primeira vez, e aquilo era tão...
gostosamente doméstico. Eu não tinha vergonha de nudez, e muito menos
Taehyung, claramente.
— Jagi, posso te perguntar algo pessoal? — Sussurrou contra os meus
lábios.
Não respondi nada, apenas assenti.
— Você tem algum tipo de restrição com sexo em início de namoro?
Alguma regra que você gosta de seguir e eu deva saber?
Sorrindo, ainda não falei nada, apenas neguei com a cabeça.
— Não, eu só espero que você seja asseado. Ontem à noite, quando fui
tomar banho fiz a chuca — comentei, fazendo o mesmo arregalar os olhos
— não precisa reagir assim. Desde que me tornei sexualmente ativo eu
184
faço a chuca frequentemente. Eu gosto, e você tem que lembrar que eu não
transo com ninguém faz tempo. Não é como se eu tivesse feito ontem só
pensando em você. Eu adoraria que a gente transasse, mas também adoro
me sentir limpo.
— Nem todo passivo é higiênico — sussurrou Taehyung — nunca transei
sem camisinha. Não consigo confiar nas pessoas para isso.
— Mas eu não sou qualquer um, sou seu namorado e eu quero que a gente
faça tudo certinho se tratando de sexo.
Assentindo, Taehyung me beijou de novo e esticou o braço, pegando o
sabonete e a esponja disponíveis ali. De bom grado, deixei ele me ensaboar
todinho, e depois, ao enxaguar meu corpo, distribuir beijinhos por meu
pescoço. Foi um banho certamente mais inocente do que deveria, mas não
liguei, amei partilhar da experiência.
E esperava que mais experiências viessem.
[...]
Se tem uma coisa que eu definitivamente odeio em festas e eventos é
quando as pessoas me convidam ou me levam para, no fim das contas,
tomarem um chá de sumiço.
E foi exatamente isso que aconteceu. Assim que cheguei na casa onde
estava acontecendo a festa, Lisa – que me acompanhava – disse que sairia
para procurar o resto do pessoal e logo voltaria, ajeitando sua fantasia de
anjo. Eu me arrumei no quarto dela e de Ryan e fui proibido de espiar a
fantasia de Taehyung pois segundo ela, seria surpresa.
Mas agora, aqui estava eu, sentado num banquinho, vestido de Batman e
com uma bebida na mão, suspirando a cada cinco minutos. Taehyung não
respondia nenhuma mensagem ou atendia ligações, deixando-me naquele
vácuo. Eu já estava começando a achar que tinha algo errado e que eu
devia era voltar para o hotel, até porque era deprimente demais estar no
tédio quando todos ao seu redor dançavam e se divertiam usando os mais
diversos tipos de fantasia.
A decoração na parte de dentro da casa era incrível. Morcegos de papel
enfeitavam o teto, pendurados por cordinhas e abóboras ornamentavam
185
todos o espaço. Ali dentro era escuro e havia um globo espelhado de
esqueleto no meio da pista de dança, um jogo de luzes coloridas de um
tom neon iluminava o local. Fantasminhas estavam espalhados junto de
miniaturas de aranhas e havia muito brilho e purpurina espalhado, teias
sintéticas estavam localizadas em lugares estratégicos, os mais diversos
tipos de doces e pratos típicos estavam dispostos em uma mesa gigantesca
no canto da casa e uma máquina de fazer fumaça dava um aspecto legal.
Recordei da festa de aniversário de Peter, quando eu e Taehyung saímos
de lá tão cedo que eu sequer tive a chance de ver a máquina de espuma
fazer seu trabalho.
— Jeongguk? — Tomei um susto, olhando para o lado e vendo Taehyung
em pé, me fitando com uma expressão de incredulidade. E vestido de
Coringa. — Me disseram para procurar por um Batman e.. Por favor, não
me diga que isso foi planejado e... — Suspirou, balançando a cabeça —
Lisa... eu não acredito. Ela sumiu.
Arregalei os olhos, chocado com a astúcia dela. Ela tramou para que nós
nos fantasiássemos como um casal.
Enquanto minha fantasia consistia na máscara, a capa, a calça colada,
botas e o cinto de utilidades, a de Taehyung era o terno de cauda roxo,
com uma camisa por baixo e a gravata cinzenta, sem contar seus cabelos
penteados de forma bagunçada e cobertos de tinta verde. A maquiagem
estava muito bem-feita e seguia os padrões do Coringa clássico dos
quadrinhos, fazendo-me recordar da noite em que falamos sobre A Piada
Mortal. Era irônico ao extremo.
— Então, quer dizer que você é o Coringa do meu Batman? — Questionei,
arqueando uma sobrancelha.
Sob toda aquela maquiagem, ele riu.
— Sim, sou eu mesmo. Acho que você teria que me pegar, então —
respondeu, aproximando seu corpo do meu.
— Eu? Quem terá que pegar quem aqui é você. Não corro atrás de garotos
levados — sorri de volta.
Sorrindo, Taehyung tirou a bebida de minha mão, e a aproximou dos
lábios, virando o conteúdo de uma só vez. Sequer reclamei, fascinado
186
demais pela visão de ele estar fazendo isso e de como o observava engolir
tudinho. Apoiando o copo sobre uma mesinha ali perto, Taehyung limpou
os resquícios da bebida dos cantos de sua boca.
— Sex On The Beach — me fitou, sugestivo — considerando que estamos
numa festa em uma casa da praia, me pergunto se a sua escolha de drink
foi proposital.
O alto-falante tocava alguma música eletrônica de ritmo mais calmo, e as
pessoas ali dançavam entre si, cada um cuidando de sua vida e não se
importando com o que acontecia ao seu redor. Fitando meu namorado,
resolvi provocar um pouco. Afinal, se o plano era que aproveitássemos a
noite sozinhos, então, que o fizéssemos da melhor forma possível.
— Eu nunca disse isso. Você quer seu prêmio, tem que ir atrás dele —
sorrindo, encaminhei até a pista de dança lotada, e fechando os olhos,
comecei a dançar de acordo com o ritmo que tocava.
No entanto, não consegui me mover muito, até porque senti as mãos
grandes de Taehyung em minha cintura e sua ereção crescente bater contra
meu traseiro. Os lábios dele estavam em minha orelha e sorrindo, levei
uma de minhas mãos até seus cabelos, ainda mantendo meus olhos
fechados. Eu não precisava necessariamente ver, nós dois estávamos
naquele jogo provocativo e eu sabia que Taehyung não me deixaria na
mão.
— Não me provoque, super-herói. Você não sabe o estrago que eu sou
capaz de fazer — sussurrou contra meu ouvido.
— Ah, isso é porque você nunca viu como eu sou eficaz em prender super-
vilões. Ainda mais se tratando do meu arqui-inimigo — respondi de volta.
— Do que adianta me prender se eu sempre arranjo uma forma de escapar?
— Seus lábios foram até meu pescoço e eu aumentei meu sorriso.
A ereção de Taehyung crescia cada vez mais, deixando sua excitação ainda
mais aparente, fazendo com que eu precisasse segurar a vontade de gemer.
Eu não queria ceder.
— Nem sempre você consegue escapar. Eu sou capaz de te prender e não
te soltar nunca mais.
187
— Ah, você se superestima demais, herói — sorriu.
— Você é quem me subestima. Você sabe dar um soco muito bem, sabe
como nocautear um inimigo, mas eu sei fazer algo que pode te manter no
chão rapidinho.
— Que seria? — Riu soprado, apertando minha cintura e fazendo
movimentos de penetração contra meu traseiro em um ritmo extremamente
lento.
— Eu jogo futebol americano, vilão. Se tem uma coisa que eu sei fazer, é
imobilizar pessoas. E eu posso te jogar no chão e te imobilizar
completamente — mordi o lábio.
— Você pode é? — Assenti. — E me diz, como pretende fazer isso?
— De preferência o mais rápido possível, e quando nós estivermos sem
roupas — respondi.
Taehyung riu no pé de meu ouvido e parou de fazer as estocadas,
começando a mover seu quadril junto do meu na velocidade da música.
Arrancando minha máscara e a deixando pendurada em meu pescoço,
deitei a cabeça sobre seu ombro e deixei ele movimentar nossos quadris,
suas mãos firmes nunca me soltando. Aos poucos, fui me deixando levar e
movia meu quadril junto do dele, virando minha cabeça para o lado sobre
seu pescoço e puxando seus cabelos, o fiz se abaixar e me beijar. Era um
beijo desajeitado graças às nossas posições, mas não deixava de ser
gostoso. A maquiagem dele em volta de sua boca começou a se borrar,
porém não liguei, aproveitando demais daquele momento e gemendo
baixinho enquanto Taehyung chupava minha língua.
Apertando meu quadril, ele interrompeu o beijo e sorriu.
— Me mostre como você vai me imobilizar — sussurrou contra o pé de
meu ouvido — eu quero saber de tudo.
Mordendo meu lábio, segurei minha vontade de dar uma risada maléfica.
Taehyung achava que eu não sabia como provocá-lo?
Soltando-me de seu aperto, virei para encará-lo e dando um sorriso de
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lado, juntei meu corpo ao dele novamente, dessa vez, fazendo com que a
ereção dele encontrasse a minha. Eu não estava tão excitado quanto
Taehyung, mas claramente sentia algo a mais por ali. Agradeci
mentalmente pela calça da fantasia ridícula ser apertada e agarrando suas
duas mãos, as coloquei de volta em meu quadril. Abracei sua cintura, e
sem tirar o sorriso do rosto, comecei a mover no ritmo da música,
provocando-o enquanto estimulava nossos membros numa dança sensual.
Descendo uma mão atrevida para sua ereção, a apertei um pouco e
Taehyung soltou um gemido rouco, na qual me deleitei em ouvir.
— Está vendo como eu te tenho na palma da minha mão? — Puxei seu
lábio inferior com os dentes. — Literalmente falando, afinal, você está tão
duro.
Ele não tirou minha mão de seu pênis, parecendo embriagado nas
sensações físicas e fitava meus lábios com um desejo aparente. Quando
Taehyung tentou me beijar novamente, me afastei e balancei a cabeça,
ainda sorrindo.
— Vamos voltar para o quarto de hotel? — Sugeri. — Eu quero te mostrar
minhas habilidades quanto estivermos a sós.
Não precisei pedir duas vezes. Taehyung agarrou minha mão, e todo
esbaforido, me puxou para sair daquela festa. Segurei minha vontade de rir
do aparente desespero que ele demonstrava. Nossas ereções se mostravam
para quem quisesse ver, e sendo sincero, eu não podia me importar menos.
Como a casa onde ocorria a festividade de Halloween ficava perto do hotel
(Lisa já havia dito anteriormente), não demoramos para chegar lá a pé. A
afobação de meu namorado era simplesmente hilária demais para se
ignorar. A forma como ele respirava rápido demais e como ele apertava os
olhos enquanto subíamos pelo elevador me fazia querer rir.
Chegando no quarto, nós dois entramos e eu pensei que ele já me levaria
para a cama e me agarraria, porém, não. Eu já deveria imaginar como ele
sabe ser imprevisível pois Taehyung me puxou pelo pulso e me levou para
o banheiro, fechando a porta atrás de si. Arqueei uma sobrancelha, confuso
com tudo aquilo.
— Tire suas roupas.
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Simples assim, um comando claro e direto. Ele começou a se despir bem
na minha frente. Retirou a gravata cinza, a parte de cima do terno roxo
com cauda, marca registrada do Coringa, em seguida, foi sua camisa,
deixando-o nu da cintura para cima. Quando suas mãos desceram para sua
calça, acordei do transe em que estava, e comecei a tirar minha fantasia do
Batman o mais rápido que pude para acompanhar seu ritmo. Enquanto me
desdobrava para conseguir tirar a parte de cima da fantasia, ele se despiu
completamente e foi até o chuveiro, abrindo-o e deixando o box aberto.
Mais uma vez, parei toda minha ação de me despir para observar aquela
cena e meu queixo literalmente caiu. Travei no meio do caminho de tirar a
calça quando visualizei a figura de Taehyung em pé debaixo do chuveiro.
Ele lavava todo o rosto e cabelo, tirando a maquiagem, e toda a água
quente misturada a espuma escorria por seu corpo tatuado e por sua
ereção. Não sei dizer se seria isso mesmo, mas eu estava crente de que a
intenção dele era me matar, porque não tinha a mínima possibilidade de eu
estar vivo depois disso.
O desgraçado era gostoso e ele sabia disso.
Eu o provoquei na festa, e agora, ele estava me provocando de volta.
Em completo desespero, tirei o resto da minha roupa de qualquer jeito,
sentindo como a minha própria ereção respondia à vista dele e como aquilo
estava mexendo comigo. Eu ia perder a sanidade e a culpa era daquele
cretino.
Estava prestes a entrar debaixo daquele chuveiro quando Taehyung abriu
os olhos e me fitou, passando uma mão sobre os cabelos avermelhados e
os puxando para trás. Não tive tempo de pensar, ele desligou o chuveiro e
saiu de lá sem nem pegar uma toalha! E claro, meu olhar descarado
passava por todo o seu corpo, sentindo mais vontade do que nunca de tocá-
lo.
Se aproximando de mim, ele pegou em minha mão e foi de volta para
debaixo do chuveiro, me levando junto e ligando o registro novamente.
— Tenho a impressão de que você não ia se mover tão cedo — arfei,
sentindo a água quente batendo em nós dois. Ele estava parado em minha
frente, e nossos pênis se esbarravam. — Quer tocar? Você pode me tocar
se quiser, sabe. Pode tocar o que você quiser.
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Sem o mínimo pudor, levei minha destra para sua ereção e comecei a
mover meu punho devagar, estimulando-o e fazendo movimentos de vai-e-
vem. Ele não parava de me encarar, observando a forma como eu mordia o
lábio, sentindo-me excitado apenas por estar dando prazer a ele.
— Você gosta de dominar, não gosta? — Sussurrou. — Então terá que
trabalhar duro, Jagi, pois eu também amo dominar.
— Irei fazer o que você pediu — respondi, sem desviar o olhar de seu
pênis — vou te imobilizar.
— Veremos.
— Nós vamos foder, então? — Devolvi, encarando-o finalmente.
Taehyung assentiu, sorrindo. — Então me deixe te esclarecer algo que eu
acho que você não entendeu — retirei minha mão de seu pênis, e
espalmando as duas mãos em seu peito, o imprensei contra a parede de
cerâmica fria — eu não sou um passivo fofinho que gosta de ser tratado
como se fosse quebrar. Eu gosto de dominar, gosto que seja intenso. Você
acha que consegue me dominar? Eu te desafio novamente.
Os olhos dele escureceram de desejo e ele me encarou de uma forma que
deixava claro que eu ia me arrepender de tê-lo desafiado. E sinceramente,
eu mal podia esperar por isso.
Taehyung tirou minhas mãos de seu peito e me puxou pela cintura.
— Poucas coisas me agradam mais que um desafio, Jagi, você já sabe —
sorriu — e você vai pensar duas vezes antes de me desafiar de novo depois
de hoje.
Seus lábios encontraram os meus num beijo desajeitado e afoito,
totalmente diferente das outras vezes em que ele me beijou e eu agarrei
seus cabelos vermelhos, puxando-os com força, mas não seria tão fácil
assim. Taehyung retirou minhas mãos de seus fios e as segurou
firmemente, prendendo-as de cada lado do meu corpo. Eu não me
importava sinceramente que ele detivesse o controle da coisa e dominasse,
mas eu queria provocar.
O empurrei de uma vez e o coloquei contra a parede, descendo meus lábios
para seu pescoço tatuado. Surpreendendo-me, o ruivo soltou minhas mãos
191
e moveu suas próprias para a parte de trás das minhas coxas, incentivando-
me a ficar em seu colo e eu não hesitei. Num salto, envolvi minhas pernas
em sua cintura e me debrucei um pouco mais para continuar a beijar seu
pescoço. Desligando o registro com uma mão, ele caminhou até o quarto
me carregando e sem demonstrar o mínimo esforço por estar daquela
forma.
Percebi que sua intenção era me deitar na cama, mas eu não deixaria.
Usando toda a minha força, forcei meu tronco contra o dele e o fiz virar de
uma vez, caindo sobre a cama, comigo por cima. Taehyung soltou um
arfar surpreso e eu dei uma risada, satisfeito, aquela era a minha deixa.
Minhas coxas fartas estavam de cada lado do corpo dele, e sem
dificuldade, prendi suas mãos contra o colchão. Ele tinha vantagem
quando estávamos em pé, pois bem, eu tinha vantagem quando estávamos
deitados. Era quase como se isso fosse uma espécie de MMA.
Sem tirar o sorriso do rosto, gemi baixinho ao sentir seu pênis em minha
bunda. Estávamos nus, então seriam dois tempos até que ele estivesse
dentro de mim. De forma provocativa, rebolei levemente sobre seu colo,
estimulando seu membro excitado e fazendo ele gemer de forma
estrangulada.
— Gostoso — grunhiu.
— Você é quem diz — respondi, ainda me roçando sobre seu pênis.
Levei minha boca para seu pescoço e comecei a beijar ali, deixando
chupões sobre sua pele tatuada e sem parar de mover meus quadris. Uma
excitação louca queimava em meu peito, fazia tanto tempo desde a última
vez em que eu fiz sexo e eu sentia vontade de agradá-lo e de dar prazer,
mostrar que eu sabia o que fazer. Geralmente, eu era o tipo de passivo que
não ligava muito para a parte de dar prazer ao meu parceiro, até porque eu
considerava que o ato do sexo já era suficiente para ele, mas dessa vez, eu
queria que fosse diferente. Eu não queria limitar aquilo a um boquete,
beijos, uma foda e fim (que era geralmente como acontecia com meus ex-
namorados), eu queria que aquilo durasse, que fosse uma das melhores
transas que ele já teve na vida.
Desci meus lábios por seu peito tatuado, distribuindo beijos e lambidas. A
pele dele carregava um gosto salgado e peculiar, então supus ser resultado
do local onde estávamos. Uma cidade próxima ao mar, cuja maresia
192
dominava o vento e a atmosfera. Eu quis levar minha boca até sua virilha,
e por fim seu pênis, mas fui impedido. Taehyung aproveitou o meu
momento de distração e nos virou sobre a cama, ficando sobre mim. Ele
levou suas mãos para minhas coxas, que se mantiveram em sua cintura, e
as apertou com força. Soltei um gemido manhoso e sorri, vendo a forma
como ele me encarava, como se estivesse apreciando cada parte do meu
corpo.
— Precisamos apostar outra coisa caso você ganhe no Clube da Luta —
comentou — algo que seja mais válido do que somente transar.
— Você vai descobrir algo — tentei fazer com que nós mudássemos de
posição, mas ele era ágil, e notou minha intenção, segurando meus pulsos
contra a cama.
Taehyung beijou meu pescoço e eu simplesmente não me contive, gemi
alto e suspirei. Eu tinha uma fraqueza quando se tratava de meu pescoço e
ele sabia disso. Deixou chupões marcando cada vez mais a minha pele já
marcada de dois dias atrás. Todas as minhas forças se esvaíram quando o
ruivo desceu os beijos para meu peito, estimulando meus mamilos com sua
língua. O maldito piercing encostava em minha pele e me fazia arrepiar,
apreciando a sensação geladinha. No entanto, ele não ficou muito tempo
ali. Eu esperava que fosse descer por minha barriga, mas não, Taehyung
deu uma risada maliciosa e me virou de costas sobre a cama.
Soltei um gemido, sentindo minha ereção ser pressionada contra a cama e
mordi meu lábio, surpreso ao sentir suas mãos acariciando meu traseiro.
Sua mão grande acertou um tapa leve, sem intenção de me machucar e sem
a mínima cerimônia, ele afastou as duas bandas. Eu estava de costas e não
conseguia ver nada, mas pude supor o que ele faria, e só aquilo já me
deixou nervoso. Eu podia contar nos dedos quantas vezes ganhei um beijo
grego e não poderia estar mais do que ansioso, pois eu sabia que aquilo era
bom para caralho.
Taehyung aproximou o rosto de minha entrada e soprou de leve, fazendo-
me contrair um pouco involuntariamente, só aquilo já sendo o suficiente
para me arrepiar novamente. Devagar, senti seus lábios sobre a pele
sensível que cercava meu ânus e deixar beijinhos ali, num gesto tão
carinhoso que nem parecia que íamos transar a qualquer momento. Agarrei
os lençóis embaixo de mim e tentei regular minha respiração. Sem fazer
nada demais, Taehyung chegou um pouco mais perto e tocou minha
193
entrada com a pontinha da língua, fazendo uma corrente elétrica passar por
meu corpo. Eu ia desfalecer ali mesmo.
Pressentindo minha agonia, ele resolveu não me provocar tanto e lambeu
de verdade aquela área, arrancando gemidos altos e sofridos de minha
boca. E não era algo qualquer, ele estava me lambendo enquanto passava
seu piercing junto de minha entrada, causando espasmos em meu corpo.
Taehyung se deleitou nos sons que eu fazia e soltou uma risada baixa antes
de cair de boca mais uma vez, dessa vez me lambendo e estimulando para
valer.
Meus lábios se abriram num grito mudo quando sua língua infiltrou meu
ânus, provocando-me da forma mais gostosa possível. Afundei meu rosto
no lençol e o apertei ainda mais, dando o foda-se para aquele papo de
dominar. Como eu iria discutir sobre quem devia ser o dominante numa
situação dessas? Quando a língua dele estava enfiada dentro de mim e era
umas das sensações mais gostosas que eu já senti?
Contorci-me com vontade, perdendo toda e qualquer resistência que
poderia ter. Mordi meu lábio inferior com força e tentei normalizar minha
respiração, mas daquele jeito era impossível, ainda mais quando senti ele
pressionar a ponta de seu dedo indicador ali, e sem muito esforço, me
penetrar com o dedo longo e magro. Estava molhado e geladinho, fazendo-
me supor que em algum momento, ele deve tê-lo colocado na boca, e isso
só tornou a estimulação ainda mais gostosa. Acreditei até que Taehyung
acrescentaria mais dedos, mas não, ele usou apenas o indicador e junto de
sua língua, me provocava.
Achei que iria prolongar o contato até eu gozar, mas não, retirando sua
língua e seu dedo de dentro de mim, o ruivo me virou para que eu ficasse
deitado de barriga para cima mais uma vez, e abriu as minhas pernas. Essa
maldita seca que enfrentei estava me deixando pior do que eu podia
imaginar, me fazendo cinco vezes mais manhoso do que o usual.
Ajeitando-se entre minhas pernas, ele apanhou meu pênis sensível e o
colocou na boca sem a mínima cerimônia. Engasguei com o ar, arrastando-
me para baixo e dando mais espaço para ele se ajeitar ali.
— Jagi, está me ouvindo? — Perguntou Taehyung, rindo enquanto
deslizava a língua por minha extensão.
— Sim, eu só... — as palavras morreram em meus lábios quando ele
194
chupou a minha glande, fazendo-me engolir as palavras. Seus dentes
raspavam devagar a pele sensível e logo em seguida, ele descia todo o meu
falo por sua garganta. Gemi manhoso ao sentir-me tão fundo dentro de sua
boca.
— Achei que você deveria estar me mostrando o quão dominante você é
— provocou.
— Vai se foder — xinguei entre gemidos, sabendo que ele estava sorrindo.
Desgraçado. Mesmo num momento daqueles ele não abandonava as
malditas provocações.
— Não, eu irei te foder — respondeu, procurando me chupar novamente.
Aquela língua cretina acariciava meu pênis e me fazia morder meu lábio
com tanta força que eventualmente senti o gosto ferroso de meu sangue.
Mais uma vez, estremeci com o toque de seu piercing em mim, e ele,
claramente, notou.
— Você tem algum tipo de fetiche com o meu piercing, Jagi? Toda a vez
que o uso, você parece gemer cinco vezes mais alto — sorriu divertido.
— Talvez — admiti — não me chupa mais. Eu vou acabar gozando e do
jeito que estou, não sei se vou aguentar muito, faz muito tempo que eu não
faço sexo, e eu quero gozar quando você estiver dentro de mim.
Não lhe dei tempo para processar a informação. O puxei pela mão para que
ele sentasse na cama e me levantei, tomando seus lábios num beijo rápido
antes de caminhar em direção à cômoda que ficava ao lado da cama,
pegando dois frascos e uma camisinha. Um dos frascos era lubrificante e o
outro era aqueles tipos de géis geladinhos que tornavam a penetração mais
prazerosa. Os mesmos que eu comprara com Lisa.
Voltei para a cama e me ajoelhei na sua frente. Ele observava tudo com
uma expressão de prazer e curiosidade, e claro, eu não planejava enrolar
mais do que a gente já tinha enrolado. Apoiei meus joelhos no chão e me
acomodei entre suas coxas. Taehyung abriu as pernas e tentou guiar
minhas mãos para seu pênis para obter algum estímulo, claramente
incomodado, mas lhe meti um tapa e o fuzilei com os olhos, deixando
claro que quem estava no comando ali era eu, fazendo ele dar de ombros.
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Comecei beijando suas coxas tatuadas, apreciando o que devia ser uma
releitura de alguma obra de arte na coxa esquerda e abaixei os meus lábios
para a parte interna de sua pele amorenada, descendo devagarinho até seus
testículos. Segurei seu membro excitado, dando-me a oportunidade de
mamar cada um de seus testículos, os chupando com vontade e adorando
ouvir os gemidos que Taehyung dava. A voz dele possuía um timbre
gostoso e grave de ouvir quando gemia, era um pouco rouco, falhando vez
ou outra.
Usando minha mão, estimulei seu pênis dolorosamente, espalhando todo o
líquido pré-seminal que escorria por toda sua extensão enquanto chupava
seus testículos. Levei minha língua até a base de seu membro e a subi mais
devagar do que antes, sentindo o gostinho do pré-sêmen em minha boca na
medida em que lambia. O sabor cítrico invadiu minha garganta quando
engoli minha saliva e procurando fazer aquelas sensações durarem o
máximo possível, cobri sua glande com meus lábios e fiz sucção em sua
ponta. Taehyung estremeceu e gemeu mais alto, apreciando mais um
pouco.
— Não vai me chupar? — Perguntou num tom sofrido.
Sorrindo, abri minha boca o máximo que pude e o abocanhei, subindo e
descendo minha cabeça devagar, usando minhas mãos para estimular o que
não cabia dentro da minha cavidade bucal. Sem enrolação, o chupei com
afinco, acariciando sua extensão com minha língua. Era delicioso.
Taehyung gemia alto, enquanto eu me empenhava em chupá-lo. Os
barulhos que minha boca fazia em seu pênis eram obscenos e eróticos,
aumentando ainda mais o tesão que eu sentia. Sinceramente, eu não
aguentava mais, a excitação estava me levando a loucura. Meu pênis
escorria de pré-sêmen, parecendo ficar mais sensível à medida que o
tempo passava. Eu necessitava de estímulo.
Segurando seu membro com minha destra firmemente, tomei ar e o enfiei
completamente dentro de minha boca, levando até o fundo e novamente
fazendo uma garganta profunda. Nunca tive problemas de fazer isso com
meus antigos namorados, mas com Taehyung eu precisava relaxar bastante
a garganta, senão não era possível fazer isso com sucesso. Relaxei
completamente, agradecendo por não ter muito reflexo de ânsia e o fiz
praticamente foder minha boca.
Tirando-o de meus lábios, olhei para Taehyung e vi como os pingos da
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água do chuveiro se misturavam ao suor que começava a sair de nossos
corpos. Os cabelos avermelhados dele estavam molhados, caindo sobre sua
testa, e ele mantinha os lábios vermelhinhos entreabertos. Uma vista bonita
para caralho, ainda mais somando isso ao corpo bronzeado e tatuado que
ele tinha. Era como se fosse uma visão do céu... ou do inferno.
Levantei-me do chão e aproveitando sua posição sentada na beirada da
cama, sentei-me sobre seu colo, colocando uma perna de cada lado e
sentando em seu colo. Sem raciocinar direito no que faria, peguei uma de
suas mãos e olhando dentro de seus olhos, coloquei três dedos na boca,
chupando-o da forma mais obscena possível. Espalhei o máximo de saliva
sobre os dedos longos e logo os retirei de minha boca, aproveitando sua
distração para roubar um beijo de seus lábios entreabertos e inchados.
Então, ainda sem quebrar o contato visual, levei sua mão até a altura de
meu traseiro e usando minha mão livre, separei as bandas, guiando seu
dedo médio para minha entrada, penetrando-o lá. Fiz isso com meus
próprios dedos por muito tempo e já era mestre em me tocar sem me
machucar, então, resolvi fazer isso com ele mesmo. E claro, Taehyung não
reclamou. Apenas parecia estar respirando com mais dificuldade do que o
normal quando comecei a mover seu dedo dentro de mim.
Sem muita dificuldade coloquei seu indicador longo junto do dedo médio e
os movimentei dentro de mim, mordendo o lábio inferior com a excitação
que me tomava conta da cabeça aos pés. Taehyung não fazia nada, deixava
eu usar sua mão e seus dedos como eu bem quisesse, e eu estava adorando
aquilo. Sentado em seu colo, movi meu quadril um pouco, provocando seu
pênis excitado embaixo de mim enquanto penetrava o anelar, sentindo um
incômodo crescente, mas acertando sem querer os nervos de minha
próstata. Soltei um gemido tão alto e prazeroso que ele deve ter percebido
que havia acertado meu ponto G.
Finalmente tomando o controle de sua mão, Taehyung usou os três dedos
para me preparar mais, me fodendo e acertando minha próstata mais
algumas vezes, fazendo-me contorcer em seu colo e gemer da forma mais
manhosa possível.
Provavelmente não aguentando mais aquela provocação infinita, o ruivo
tirou seus dedos, segurou minha cintura e me colocou deitado de barriga
para cima na cama. Apanhou a camisinha que eu busquei anteriormente,
rasgando o pacote com os dentes e encapando o pênis ereto. Pegando o
197
lubrificante, despejou uma quantidade considerável sobre os dedos e os
deslizou para dentro de mim novamente, aplicando lubrificante em minhas
paredes anais. A camisinha já era lubrificada por si só, então ele não
aplicou muito sobre o próprio pênis, apanhando o gel que causava o efeito
de geladinho e dando uma gargalhada gostosa ao conferir o que era aquilo.
Quase o xinguei, mandando que ele andasse logo, mas não foi preciso,
Taehyung aplicou uma pequenina quantidade sobre o pênis encapado e
debruçou-se sobre o meu corpo. Abri minhas pernas o máximo que pude, e
o puxei pelos braços, ajudando-o a se acomodar ali, e assentindo, lhe dei
permissão para prosseguir.
Nervoso, mordi o lábio ao sentir a ponta de seu membro em minha entrada
e tentei relaxar o máximo que pude, afinal, eu sabia que a dor ia vir. Mas,
caramba, eu não sabia dizer se eu era apertado demais, ou talvez ele fosse
um pouco grande, o que eu sabia era que aquilo estava certamente sendo
horrível demais. Taehyung não tentou entrar de uma vez, indo bem
devagarzinho e expandindo o caminho dentro de mim aos poucos.
Lágrimas brotaram no canto de meus olhos quando a dor excruciante me
atingiu em cheio. Fitando-me preocupado, Taehyung franziu a testa,
notando meu notável sofrimento.
— Hey, você quer parar, Jagi? — Perguntou baixinho, acariciando minha
bochecha. Não havia um único vestígio de malícia ou provocação em sua
voz.
— N-Não, eu não quero, é só que... — respirei fundo. — Acho que faz
tanto tempo que eu não faço sexo que estou verdadeiramente
desacostumado a isso.
— Me desculpe — lamentou, dando beijinhos em meus lábios.
— Não é sua culpa, você sabe — assegurei, sorrindo fracamente.
Taehyung começou a distribuir beijos por todo o meu rosto na tentativa de
diminuir a dor que eu sentia e de forma alguma eu queria interromper ou
terminar aquilo com um boquete. Eu queria gozar com ele dentro de mim.
Aguardamos até a dor diminuir bastante, até que eu desse o sinal verde
para ele, e passado algum tempo, o encorajei a me penetrar um pouquinho
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mais. Por sorte, o geladinho do gel causava uma sensação gostosa em meu
ânus e amenizava a dor de uma forma prazerosa. Taehyung colocou suas
mãos em minha cintura, fazendo um carinho gostoso com seus dedos.
Sorri, normalizando minha respiração e apertando os olhos com força
quando ele entrou quase completamente dentro de mim, fazendo a dor
aumentar ainda mais.
— Jeongguk, já chega — suspirou — isso não vai dar certo assim! Você
definitivamente está sofrendo mais que eu pensei.
— Eu já falei que isso não é sua culpa! — Exclamei — não é como se
você tivesse previsto que eu ia desacostumar com isso, ou que você ia ter
um pau grande, ou sei lá.
— A gente pode tentar de novo depois. Você vai estar melhor e me receber
melhor — sugeriu, trincando os dentes enquanto o suor escorria por sua
testa.
Eu acharia a situação engraçada se não visse o quanto ele também
claramente sofria por estar com o pênis ereto no meu interior apertado, se
matando para poder se aliviar.
— Taehyung, cala a boca e continua — revirei os olhos — a bunda é
minha e eu quero continuar até o fim!
— Mas o pau é meu e eu não quero, porra! — Rebateu.
— A gente não vai ter essa discussão agora — ralhei, irritado.
— Não é uma discussão! Eu não gosto de saber que eu sou o culpado por
você estar sentindo tanta dor assim, mesmo não seja a minha intenção,
caramba — insistiu, suspirando derrotado — certo, então. Você quer ir até
o fim? Apesar de qualquer coisa?
Assenti, decidido a completar o ato da maneira correta.
Empurrando seu pênis até atingir o meu limite, arfei, sentindo-me cheio
quando Taehyung sussurrou baixinho:
— Você pediu por isso, Jagi.
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Segurando minhas duas coxas dobradas, ele ondulou os quadris e começou
a mover-se dentro de mim. Era algo completamente indescritível. Ainda
doía para caralho e a dor era constante, mas eu nunca tinha experimentado
aquela sensação, de sentir-me tão cheio e sentir cada centímetro entrando e
saindo.
Apertei seus ombros, abraçando-os enquanto o encarava durante toda a
ação. Taehyung investia devagar e olhava nos meus olhos. Uma de suas
mãos abandonou minha coxa e foi para entre nossos abdomens fazendo
uma masturbação complicada em meu membro, que deslizava entre a
barriga dele e a minha. Me beijou, mantendo os movimentos e gemendo
contra os meus lábios. Aquilo já era suficiente para mim, de alguma forma,
deixando-me feliz por saber que aquele momento era algo bom. E
realmente, na medida em que ele me estocava, a dor ia diminuindo
gradativamente, mesclando-se ao prazer e fazendo com que a transa se
tornasse mais gostosa para mim.
Relaxei mais um pouco e Taehyung percebeu isso. A mão que ainda estava
em minha coxa a apertou com mais força, e mantendo os estímulos em
meu pênis, ele começou a investir com mais força dentro de mim. Antes,
eu acreditava que ia ser aquele ritmo tranquilo, mas era claro que ele
apenas estava esperando eu me acostumar e relaxar. E caramba, como
aquilo foi gostoso. O ruivo aumentou os movimentos e me estocou mais
rápido e com mais força, fazendo nossos corpos se chocarem num ritmo
erótico.
Eu tinha feito uma suposição uma vez de que Taehyung devia ser bom de
cama. E ele era, porque meio segundo após começar a se movimentar mais
rápido, ele conseguiu acertar minha próstata em cheio, arrancando um
gemido tão alto da minha garganta que eu estremeci.
— Mais, Tae — gemi, manhoso — mais forte, caralho!
— Você exige demais — sorriu, soltando meu pênis e segurando minhas
duas coxas firmemente para obter condição de investir em mim mais
rápido e com mais força.
Ele me fodia tomado de uma paixão que me alucinava, e me fazia revirar
os olhos, tomado pelas ondas de prazer que dominavam todo o meu corpo.
A ardência ainda estava lá, mas nada se comparava ao seu pênis acertando
minha próstata seguidas vezes como se tivesse decorado exatamente onde
200
meu principal ponto de prazer ficava.
E eu queria mais, queria mantê-lo dentro de mim para sempre,
sinceramente.
Trancando minhas pernas atrás de si, usei de toda minha força para
mostrar que eu queria mudar de posição, e sem objetar, Taehyung nos
virou abruptamente, fazendo-me ficar por cima. Ajeitei-me em seu colo,
tomando o máximo que pude de seu pênis dentro de mim e espalmando
minhas mãos sobre seu peito tatuado. Realizei uma de minhas fantasias
particulares: cavalguei.
E cavalguei com gosto.
Fechei os olhos, mordi meu lábio inferior e comecei a rebolar em seu colo,
subindo e descendo sobre seu pênis. As mãos dele foram para a minha
cintura, dando-me estabilidade para manter o ritmo. Busquei o prazer para
mim e gemi manhoso ao conseguir acertar minha próstata. Como se tivesse
sido o gás que eu precisava, rebolei com mais vontade e aumentei a
velocidade dos meus movimentos, sentando precisamente no ponto onde
ficava minha área de prazer.
— Você tem noção do quão maravilhoso é te ver me cavalgando? —
Taehyung gemeu, levando a mão até meu pênis que movia de acordo com
meu quadril e me masturbou.
— Ah, é? — Sorri, sem parar de subir e descer em seu membro — você é
quem não sabe quantas vezes eu imaginei isso. Quantas vezes eu fantasiei
com você e me masturbei pensando em você. Mesmo quando eu estava
com raiva, você estava lá, me fazendo imaginar como seria ser fodido por
você, como seria estar em cima de você exatamente como estou agora.
— Você... — riu, entre gemidos — você fantasiou tanto assim comigo,
Jagi?
Abrindo os olhos, abaixei meu tronco e apoiei minhas mãos em seus
ombros, encarando-o e diminuindo a velocidade do meu quadril, mas sem
parar realmente.
— Quase todo o dia, Taehyung — sorri — você não sabe nem da metade.
201
Continuando a me mover, senti meu orgasmo chegar com força total de
tanta estimulação em minha próstata e eu queria me liberar logo, tanto que
mal pude avisar, soltando meu sêmen entre nossas barrigas e melando o
abdômen tatuado dele. Gemi arrastado e alto, minha voz naquele mesmo
tom manhoso enquanto meu pênis expelia uma quantidade absurda de
gozo. Eu podia afirmar com certeza que aquela foi a gozada mais gostosa
que eu já tive na vida, ultrapassando em disparada todas as outras vezes
em que fiz sexo. Taehyung realmente sabia como transar.
No entanto, ainda faltava ele. E eu não deixaria de jeito nenhum que ele
ficasse na mão, mesmo não tendo força alguma para fazer qualquer coisa.
O ruivo nos virou sobre a cama novamente e aquilo me fez querer rir. Já
havíamos trocado de posição diversas vezes, nunca satisfeitos com a coisa
aparentemente e isso tornava tudo tão gostoso. Não tendo o mesmo
cuidado de antes, Taehyung apertou minha cintura e investiu com força
novamente contra minha entrada, buscando seu prazer, tentando
finalmente se aliviar. Mesmo sem muita força, resolvi ajudar e puxei um
pouco seus cabelos vermelhos, tendo consciência de que ele gostava
daquilo.
Ele grunhiu de forma sofrida, parecendo não aguentar mais e prestes a se
desfazer de uma só vez. E eu o incentivei, apertando seu pênis dentro de
mim ao contrair meu ânus e fazendo ele se derramar dentro da camisinha
num gemido ainda mais alto do que o meu.
Taehyung estava tremendo quando afundou o rosto no vão de meu
pescoço, tentando recuperar a respiração e fazendo seu hálito quente bater
contra minha pele suada. Levantei minha mão e a levei até seus cabelos,
fazendo um carinho em seus fios enquanto aguardava ele se recompor do
orgasmo. Infelizmente, ele não ficou muito tempo ali, saindo de dentro de
mim com cuidado, tirando a camisinha e a amarrando antes de jogá-la na
lixeira ao lado da cama. Caminhando completamente nu até o banheiro, ele
voltou de lá com o abdômen limpo e com uma toalha úmida em mãos. Não
questionei, apenas deixei que Taehyung limpasse os resquícios de sêmen
do meu corpo, arrancando um sorriso afetuoso meu.
— Obrigado — agradeci, sorrindo cansado.
— Você provavelmente vai acordar cansado e dolorido amanhã —
comentou, apoiando a toalha na poltrona ao lado e indo até a mini
202
geladeira que havia no quarto para pegar uma garrafinha de água.
A oferecendo para mim, Taehyung deitou na cama e se ajeitou ao meu
lado. Bebi um pouco do conteúdo da garrafa rapidamente e apoiei a
mesma na cômoda. Olhei ao meu lado, vi meu namorado com os braços
abertos num convite claro para me deitar em seu peito, e de bom grado, eu
fui. Deitei sobre ele e me encaixei no vão de seus braços, sentindo meu
traseiro doer para caramba, mas não me importando realmente com aquela
dor.
Respirei fundo, sentindo o quão bom era a paz e intimidade que aquele
momento me proporcionava, mesmo que a gente tenha acabado de transar
e eu me sentisse ainda um pouco entorpecido. As mãos dele faziam
carinho em minhas costas e eu delineava o traço de uma de suas tatuagens
tribais que chegava até o peito, fascinado pela perfeição dos desenhos.
— Tae?
Ele deu um resmungo como resposta.
— Qual o significado das suas tatuagens? Digo, todas elas têm um
significado?
Tirando minha mão de seu peito, ele a levou até seus lábios e depositou
um beijo sobre a palma.
— Nem todas. As tribais não possuem um significado real, eu as fiz numa
época de rebeldia. Eu queria ser um verdadeiro bad boy — riu baixinho.
— Quando eu era adolescente, vi um primo meu apanhar de um grupo de
garotos. Eles eram de uma gangue e achei isso loucura. A partir daquele
dia, eu fiz amizade com um líder de uma gangue de Seul para vingar meu
primo e participei de muitas brigas de rua, na intenção de sentir essa
adrenalina de fazer algo que vá contra o que é considerado correto.
Cheguei a enfrentar muitos caras ao mesmo tempo, apanhei muito e
aprendi a como brigar de verdade. Não foi algo bom, e eu sei disso, e eu
não diria para ninguém tentar algo assim — isso explicava porque ele era
tão bom em combates corpo-a-corpo — só sei que para impor medo, me
convenceram a fazer uma tatuagem, já que na Coreia do Sul, tatuagens não
são comuns. Meus pais enlouqueceram quando fiz as tribais, mas não foi
como se eles pudessem ter evitado.
203
— Delinquente — brinquei — sabia que espalham boatos ao seu respeito?
Do tipo que envolve venda de órgãos ou algo assim.
— É bom saber que as pessoas me temem dessa forma — sorriu — quando
na maior parte do tempo eu estou pensando no que irei comer.
Dei uma risada.
— As tatuagens de meu pescoço representam o meu país, a minha origem.
Os quatro elementos presentes na bandeira e as cores, azul e vermelho. A
Coreia passou por maus bocados após a guerra de 1953, mas se reergueu
depois e eu tenho orgulho de ser coreano. O leão foi a última tatuagem que
fiz antes de abandonar a gangue. Eles definiam cada membro como se
fôssemos um animal, de acordo com nossa personalidade. E me diziam
que eu sou um leão — suspirou — em minhas costas fiz uma homenagem
ao meu estudo e ao brasão da minha família. Bioquímica. Eu gosto muito
do que faço e espero de verdade poder seguir carreira nisso, embora seja
complicado com a minha carreira no tênis. E o tigre branco.
— É lindo, Tae — bocejei, aninhando-me ainda mais em seus braços. —
Você se arrepende de ter feito parte de uma gangue?
— Não me arrependo, fez parte da minha vida, mas não voltaria. Não sou
a favor das coisas que eles fazem por lá, não mais.
— Ah sim.
— Acho melhor você ir dormir, quer dizer, melhor nós irmos dormir —
respondeu, sorrindo.
— Concordo — mesmo sonolento, ergui-me um pouco sobre ele e selei
nossos lábios num beijo tão carinhoso, mas tão cheio de sentimento, que
eu esperava que ele sentisse isso também, a forma como meu coração
reagiu quando a gente se beijou.
Taehyung correspondeu ao beijo e ao se separar de mim, deixou um selar
em minha bochecha e mais um selinho em meus lábios antes de se ajeitar
melhor sobre a cama. Ligando o ar-condicionado do quarto, ele aguardou
até que eu me alinhasse em seus braços novamente e assim dormimos.
204
Capítulo 11 - Lucky Man
Já ouvi falar que tudo que é bom dura pouco. E infelizmente, para mim,
nossa viagem para a Califórnia acabou cedo demais. Aproveitamos
bastante, mas acho que poderíamos ter aproveitado mais. Eu não estava
nem um pouco animado para voltar ao Arizona, afinal, provas, treinos e
noites mal dormidas me esperavam, quando o que eu mais queria era ficar
na cama o dia inteiro – de preferência com Taehyung.
Não acho que posso ser julgado. Fiquei um bom tempo preso na minha
solidão e na minha abstinência sexual. Sim, eu fiquei deveras dolorido e
com dificuldade para andar depois que a gente transou, mas não reclamei
uma vez sequer. Não havia motivos para isso, e caramba, aquela foi a
transa mais gostosa que eu já tive, então, não tenho do que me queixar,
sinceramente.
Nosso retorno à Phoenix foi tranquilo, mas um saco. Começou com o fato
de que Taehyung havia pago o resto da minha diária sem me contar e eu
fiquei com vontade de meter-lhe uns tapas, no entanto, me contive. A
intenção dele foi boa, e ele passara praticamente a viagem inteira
dormindo comigo naquele quarto, então, não havia motivos para que eu
me irritasse de verdade. E terminou com o fato de que tivemos de viajar
em voos separados em horários diferentes, já que tínhamos comprado
separadamente. Despedi-me dele com um selinho e segui meu caminho
junto de Ryan e Lisa, combinando que nós nos encontraríamos assim que
voltássemos.
Ah, quem dera que isso tivesse acontecido mesmo, pois assim que pisamos
em minha cidade-natal, fui convocado por meu treinador. O técnico
Richards gritou no meu ouvido por uns bons vinte minutos, exigindo saber
205
onde eu estava com a cabeça nos últimos tempos, e me dera um ultimato:
ou eu melhorava meu desempenho como center, ou eu seria colocado na
reserva do time. Não tive argumentos contra, então, apenas assenti e
prometi que daria o meu melhor.
E foi o que fiz e tenho feito. Duas semanas passaram, e eu não fazia nada a
não ser estudar e treinar. Era deprimente porque eu só via Taehyung
quando a gente ia almoçar junto no Memorial Union da universidade.
Ficávamos jogando conversa fora enquanto conversávamos e quando
íamos nos despedir, eu dava um selinho rápido nele e me afastava, sabendo
que o idiota estava rindo de mim e da minha vergonha. Ele podia não ter
problemas com PDA no meio do campus, mas eu tinha!
Geralmente, conversávamos pelo celular mesmo, através de mensagens ou
chamadas de voz apenas para ouvirmos a voz um do outro. Numa dessas
vezes, ele começou a sussurrar obscenidades para mim, o que resultou em
nós dois fazendo sexo por telefone, e não nego, foi muito bom. Mas, aqui
estávamos nós, mal tendo tempo para qualquer coisa, e eu tinha certeza de
que iria ficar pior, afinal, o semestre não me dava trégua.
— Jeongguk, você está com uma cara de morte — Hoseok comentou,
sorrindo divertido.
Eu estava com o queixo apoiado na mesa com a boca aberta. A gente
combinou de estudar junto na biblioteca, mas eu só sabia olhar para o além
com uma expressão de exaustão.
— Não estou surpreso — resmunguei — essas provas estão me fazendo
questionar minha existência.
— Ânimo, poxa! — Exclamou baixinho — você agora namora, agora tem
uma fodinha vez ou outra para tirar o stress.
— Eu queria, viu — bati a testa na mesa — mas com essas provas, eu mal
tenho tido tempo de encontrar Taehyung, quem dirá transar com ele.
— Você saiu da seca! Olha pelo lado bom!
— Agora estou aqui, querendo transar, mas não posso — lembrei — antes
pelo menos eu não passava vontade.
206
Hoseok riu.
— Já considerou uma rapidinha com Taehyung? Só para retirar a tensão?
— Eu te odeio — respondi, fazendo o mais velho rir novamente.
— Você vai na reunião que farão com os atletas da universidade naquela
escola local hoje mais tarde? É aberta ao público e vão dar palestras ou
algo do tipo — Hoseok comentou.
Eu sabia desse tal evento, só não sabia se iria. Seria legal, admito,
conversar com um bocado de adolescentes sobre futebol americano, lhes
incentivar a praticar algum esporte e orgulharem nossa nação. Não era atoa
a tradição de atletas experientes que tínhamos nos Estados Unidos.
— Acho que sim — suspirei — qualquer desculpa que eu tiver para sair
dessa universidade, usarei. Não aguento mais falar de provas, quero enfiar
as provas no cu, isso sim.
— Você provavelmente não ia se importar, né?
Fuzilando-o com os olhos, levantei o dedo médio.
— Idiota, não é porque eu gosto de ser passivo que gosto de enfiar
qualquer coisa lá embaixo — retruquei.
— É verdade, esqueci que você só gosta de enfiar a coisa do seu
namorado, não é.
— Já chega — me levantei, revirando os olhos — você é ridículo! Eu vou
cair fora.
O babaca do Hoseok não parava de rir de mim.
— É sério, Jeongguk. Eu acho melhor você chamar o Taehyung para uma
rapidinha. Você não costuma ligar para piadas com cu. Isso só acontece
quando você está mal-humorado ou com problemas emocionais — falou,
ignorando minha careta e fitando os livros espalhados em sua frente.
Recolhendo minhas coisas, saí da biblioteca, seguindo em direção ao
dormitório para tomar um banho. Mandei uma mensagem ao técnico
avisando que eu iria ao tal evento no colégio, evitando treino daquela
207
tarde, e ele me liberou sem problemas. Os outros rapazes do time que
também participariam estavam combinando de irem de ônibus mesmo (o
mesmo oferecido pela universidade) e eu resolvi seguir o bonde.
Taehyung me avisara mais cedo que não ficaria online durante o dia, e
provavelmente só daria sinal de vida quando anoitecesse, então, não me
incomodei em avisar aonde eu estava indo. Nós tínhamos nos visto no dia
anterior quando almoçamos juntos no Taco Bell e ele estava com uma
expressão um pouco entediada, comentando que odiava semana de provas,
e reclamando sobre minha agonia com PDA, pedindo que eu reservasse
algum lugar onde a gente pudesse ficar junto e demonstrar afeto sem que
eu me sentisse desconfortável. Achei uma graça o biquinho emburrado que
ele formou ao dizer isso e quase dei um selinho, mas ao invés, dei um
sorriso e afirmei que procuraria uma sala vazia para que a gente fosse feliz.
Vesti roupas confortáveis para aquela ocasião: calças de moletom folgadas
de um tom cinza, tênis, uma camiseta preta e por cima, um gigantesco
moletom com capuz preto. Penteei meus cabelos molhados e coloquei
meus óculos de armação arredondada. Era um problema a forma como eu
constantemente esquecia de usar meus óculos, fosse por preguiça, ou
simplesmente porque eu não curtia muito. Talvez fosse porque meu grau
era deveras pequeno, mas eu não gostava mesmo, preferindo as lentes.
Saindo do dormitório, encontrei meus companheiros de time perto do
ônibus fornecido pela universidade. Até fizeram piada com meus óculos,
comentando sobre o quão fofo eu ficava. Revirei os olhos e subi meu
capuz, tentando me ocultar e disfarçar minha presença, sinceramente já me
arrependendo de ter inventado de colocar os benditos óculos naquela tarde.
Meu problema era tão insignificante, não tinha porque eu me incomodar
com isso.
Hoseok me cumprimentou com aquele sorriso radiante e apertou minhas
bochechas enquanto comentava sobre minha fofura, fazendo-me querer
tirar os óculos, mas ele repreendeu e disse que ia me meter o cascudo se
me visse sem meus óculos. No fim das contas, fiquei sentado no final do
ônibus com os braços cruzados e a cara fechada, já me arrependendo de ter
inventado de ir naquele evento. Claro que eu só precisava lembrar da tarde
livre de treinos que o arrependimento passava, mas mesmo assim, era
chato para caramba.
Expus o bico enorme até chegarmos no tal colégio (uma instituição de
208
Ensino Médio), e descemos do ônibus, sendo saudados pelos responsáveis
do local. Algumas garotas deram gritinhos histéricos ao verem atletas
universitários entrando ali, e eu não consegui não sorrir. Quando eu ainda
estava no Ensino Médio, achava hilária a forma como as pessoas
pensavam que ser atleta era o sinônimo de "namorado perfeito". Sem
contar o número de meninos e meninas que já deram em cima de mim e
me chamaram para sair.
Fomos guiados pela equipe do colégio junto de atletas de outras
modalidades que vieram em outros ônibus para o ginásio gigantesco que
eles tinham ali. Uma penca de alunos já estava reunida nos assentos, todo
mundo parecia ansioso, expectante para o que poderia acontecer. O capitão
de nosso time começou a falar, agradecendo pelas boas vindas calorosas e
explicando sobre a importância do esporte em nossas vidas, não apenas
para torcer, e sim também para sermos os melhores naquilo. Faça o que for
fazer, seja o melhor naquilo. Ele chamou alguns alunos para participar e os
gritinhos histéricos das meninas preencheram mais uma vez o ambiente,
todas se voluntariando.
Decidimos escolher pessoas aleatórias, então, caminhando por ali, observei
os estudantes sentados e avistei uma garota de capuz preto encolhida atrás
de uma menina ruiva, parecendo tentar se esconder de todos ao redor.
Gesticulei em sua direção e pedi que ela descesse, fazendo as outras
meninas em volta dela empurrarem a coitada para o meio do ginásio, e
trêmula, ela foi.
Ela era baixinha, tinha olhos azuis e pelo capuz pude ver os cabelos
castanhos dela, e fitava com apreensão, como se eu fosse uma espécie de
"grande homem". Eu carregava uma bola oval em meus braços, girando-a
enquanto observava a menina.
— Qual o seu nome? — Perguntei.
— Jennie — respondeu baixinho.
— Eu sou o Jeongguk — apresentei-me — você gosta de algum esporte?
Gosta de futebol americano?
— Tênis. E sim, eu gosto — ela falou tão baixo que eu sequer ouvi.
— Como?
209
A garota suspirou.
— Eu gosto de futebol americano sim, mas prefiro tênis — respondeu
mais alto.
Assenti, animado com a resposta.
— Você conhece Kim Taehyung? O tenista coreano? — Questionei.
E foi aí que a menina finalmente reagiu. Ante a menção do nome dele, ela
arregalou os olhos e me fitou incrédula, como se eu tivesse cometido
algum crime ou sei lá.
— Se eu conheço? Se eu conheço? Claro que eu sei quem é Kim
Taehyung! — Afirmou, petulante — ele é simplesmente o melhor tenista
do mundo, o meu maior ídolo! Você tem ideia do quão apaixonada por ele
eu sou? Eu tenho revistas dele, figurinhas, faço parte do fã clube oficial.
Ele é a minha maior inspiração da vida, se eu quero aprender tênis algum
dia, é por causa dele!
Fiquei estático, encarando a menina com os olhos tão arregalados quanto
os dela. Eu não esperava aquele surto, e muito menos que ela fosse
declarar sua paixão eterna pelo meu namorado. Antes, eu achava que ela
era apenas uma garota mais tímida, só que aí não, ela é tão doida quanto as
outras, só sabia esconder melhor.
— Ah, certo... — não sabia exatamente o que responder — você toma ele
como inspiração para o esporte, isso é muito legal!
— Não é uma mera inspiração — ralhou — eu sinto que tenho uma
conexão especial com ele, sabe? Sinto que temos algo a mais. Algum dia
eu irei conhecê-lo e irei confirmar as minhas suspeitas. Sabe quando você
tem certeza absoluta de que aquela pessoa foi feita sob medida para você?
Então. Eu terei uma carreira bem-sucedida no tênis, e algum dia, nós
seremos reais.
Ela era como uma daquelas fãs doidas que se imaginava casando com os
ídolos.
— Kim! Ainda bem que pôde vir — o diretor do colégio que estava ali
falou em alto e bom som, puxando nossa atenção para a entrada do
210
ginásio, e eu nem precisava ver para prever o caos que aquele lugar ia se
tornar. Eu sentia.
Taehyung havia chegado dos outros tenistas de nossa universidade,
parecendo um pouco confuso, como se não soubesse exatamente o que ele
tinha de fazer. E infelizmente, seu cabelo não o deixava passar
despercebido nem se ele quisesse. Naquele dia, meu namorado vestia
calças e blusa de moletom assim como eu, escondendo suas tatuagens,
embora as de duas mãos e pescoço ainda ficassem um pouco a vista.
Com as mãos nos bolsos, ele veio em nossa direção, junto dos atletas e ao
passar pela multidão de jogadores de futebol americano e alunos, fez uma
reverência ao diretor do colégio enquanto apertava sua mão. Eu sabia que
era costume essa coisa de reverência entre eles, mas foi fofo vê-lo fazendo.
Jennie estava petrificada ao meu lado, parecendo sequer respirar olhando
na direção dele, enquanto as outras meninas berravam estridentemente.
— Meninos, meninas, acredito que vocês devem saber quem esse rapaz é,
afinal, ele esteve num evento beneficente recentemente em nossa cidade, e
vocês descobriram o quão talentoso ele é, e claro, não pude perder a
chance de chamá-lo para vir até aqui falar sobre como é ser um tenista
profissional e premiado sendo tão jovem — o diretor afirmou, e eu sorri —
é uma honra que ele esteja estudando em nosso país, mais especificamente
na ASU, e é uma honra ainda maior que ele tenha se disponibilizado para
vir. Deem as boas-vindas para Kim Taehyung.
Os alunos que estavam no centro do ginásio foram obrigados a voltar para
seus lugares, interrompendo o que fazíamos antes, alguns reclamando,
outros parecendo aliviados. As meninas se levantaram e gritaram para o
Kim, batendo palmas, já Jennie não moveu um músculo, ainda parada ao
meu lado.
Pensei em estalar um dedo em frente ao seu rosto, mas não sabia se ia
adiantar, não no estado de torpor dela ao encontrar o próprio ídolo tão
perto.
Coçando a nuca, Taehyung deu um sorriso mínimo e acenou.
— Oi, pessoal.
O simples cumprimento arrancou mais reações histéricas e ele corou um
211
pouco, parecendo incerto do que falar.
— A honra em estar aqui é toda minha, principalmente para falar sobre o
tênis, que é uma paixão minha desde muito cedo — começou contando
sobre sua trajetória — eu costumava ser muito magro e franzino, não tinha
força. As pessoas diziam que eu era incapaz, e que para obter sucesso no
tênis, eu precisava mudar. Então, eu não mudei, eu melhorei. Treinei todos
os dias, me esforcei, dei duro, chorei, suei e consegui ir além dos meus
limites. Hoje, se eu tenho êxito como tenista, podem apostar que é às
custas de muita crítica maldosa. Acredito que também seja porque sou
terrivelmente teimoso e determinado. Quando eu quero uma coisa, eu
consigo, custe o que custar.
Aquilo me fez sorrir mais uma vez, sabendo o quão verdade isso era.
Experimentei em primeira mão a teimosia e determinação de Taehyung.
Mas, não era como se eu pudesse criticar ou reclamar, quando eu mesmo
era assim. Duas personalidades fortes.
Enquanto ele falava, observei Jennie tremer ao meu lado, fitando-o de
forma abobalhada, como se ela não soubesse o que fazer da vida. Até que
Taehyung pegou uma raquete de tênis e uma bola, chamando um daqueles
adolescentes para pegá-las, e claro, a garota não demorou um segundo
sequer para correr em direção a ele, parecendo hiperventilar quando parou
em sua frente. Ele entregou os dois nas mãos dela, sorrindo radiante e
arregalando os olhos, a menina assentiu e voltou correndo para o assento
que ela não ocupava há algum tempo.
Achando graça, caminhei em direção a Hoseok que estava parado mais
afastado da multidão de atletas do ginásio.
— Seu namorado claramente tem fãs aqui — comentou baixinho,
parecendo divertido.
— Eu percebi.
— E você não fica com ciúme? — Arqueou uma sobrancelha.
Dei de ombros.
— Não vi ninguém dando em cima dele, e também, são adolescentes que
estamos vendo aqui, não verdadeiras ameaças — respondi.
212
— Queria que você fosse maduro assim quando você enche a gente com
suas chatices de ser o filho perfeito — brincou.
— Eu não faço isso mais — protestei.
Sorrindo, Hoseok envolveu ombro com um braço e eu fiquei lá, de braços
cruzados, aguardando tudo aquilo acabar. Com aquele tanto de gente ali,
Taehyung ainda não tinha me visto, distraído no que fazia, e embora eu
esperasse poder conversar com ele um pouco, sabia que provavelmente
não seria possível, pois chamaram todos para irem ao centro do ginásio a
fim de formar pequenas equipes para conversar com os atletas e tudo mais.
Aproveitei a pequena bagunça que começou ali e me esgueirei para fora do
ginásio a procura de um banheiro, sabendo que um jogador de futebol
americano a menos não faria tanta falta assim. Os corredores vazios do
colégio me fizeram sorrir, lembrando-me nostálgico dos meus tempos de
Ensino Médio, as amizades que fiz e perdi, os contatos que não quis
manter graças a minha imaturidade quando terminei com meu ex. O início
de meu namoro havia sido bom, mas poucos meses depois a coisa
começou a se desgastar e me faz lamentar o quanto isso atrapalhou o que
poderia ter sido uma experiência de Ensino Médio.
Era exatamente como eu me lembrava, os corredores, as salas, a ala dos
armários. Usei o banheiro rapidamente, e retornei fazendo o mesmo
trajeto, até que ao passar em frente a uma sala de aula, a porta for aberta e
me puxaram para dentro agarrando-me por meu braço. Pisquei duas vezes,
vendo Taehyung fechar a porta e sorrir.
— Eu estava esperando o momento ideal para te pegar sozinho —
comentou, risonho — mas estava difícil.
Balançando a cabeça, puxei a gola de seu moletom e o trouxe para perto de
mim, beijando-o. Não foi um beijo desesperado, foi algo mais carinhoso,
algo mais calmo. Minhas mãos desceram para sua cintura, e ele segurou
minhas bochechas, acariciando-as com o dedão.
— Sabia que eu tinha um fetiche de me agarrar com alguém numa sala de
aula igualzinha essa daqui? — Deu um selinho nos meus lábios — com
todas essas carteiras, o quadro negro e a bandeira dos Estados Unidos
pendurada ao lado do quadro.
213
— Você assistiu muitos filmes americanos, então — respondi abraçando
sua cintura — onde você esteve durante a manhã?
— Encontro com novos patrocinadores — revirou os olhos — meus pais
acham que eu preciso representar marcas grandes durante os meus jogos,
mas não podem ser qualquer uma das marcas padrão, tem que ser as que
eles querem.
— Eles são seus pais — comentei, sorrindo — está certo em fazê-los feliz!
— Eu quero tanto que você os conheça, Jagi — seus olhos brilharam —
não vejo a hora de te apresentar para eles.
Sorrindo puxei seus lábios em mais um beijo carinhoso, que infelizmente
durou menos de cinco segundos antes da porta da sala ser aberta e revelar
uma Jennie muito chocada. A menina olhava para mim e depois olhava
para Taehyung como se estivesse tentando processar a informação. Ela
pegou o ídolo dela aos beijos com outro homem.
— Eu não acredito! — Exclamou, boquiaberta — eu segui o Taehyung
para... para vê-lo se pegar com... minha nossa, vocês dois são o casal gay
mais bonito que eu já vi!
Dizer que eu estava surpreso era pouco. Eu esperava que ela fosse surtar,
chorar, espernear, não falar que a gente era o casal gay mais bonito que já
viu. Aquela menina definitivamente era meio doida, isso não tinha como
discutir.
— Vocês namoram...? — Perguntou, hesitante — digo, eu supus que sim
porque estavam beijando, mas sei que as pessoas não precisam namorar
para beijar e...
— Sim, Jeongguk é meu namorado — Taehyung respondeu, colocando o
braço em meu ombro exatamente como Hobi fizera anteriormente.
— Eu posso tirar uma foto? — Ela perguntou, tirando o celular do bolso
do moletom.
— Acho melhor não, não tornei público ainda, e sei que essa foto se
espalharia — Taehyung disse, educadamente.
214
Jennie fez um biquinho.
— Mas, eu quero uma recordação — reclamou.
— Que tal você tirar uma foto com nós dois, ao invés de uma foto de nós
dois? — Sugeriu o ruivo.
Ela não precisou pensar duas vezes antes de saltitar em nossa direção e
parar no meio de nós, pedindo para que nós ficássemos o mais junto
possível. Tiramos várias fotos, sorrindo, fazendo caretas, brincando,
fazendo coração e mais algumas poses bobinhas que ela pediu. Taehyung
ficou verdadeiramente ao notar o quão eufórica a adolescente ficou com
algumas fotos.
— Hey, vocês podem seguir a minha conta no Instagram? — Pediu, nos
fitando com olhos de cachorrinho — é privada, então, não tem perigo de
nada. Eu só quero falar para os meus amigos que vocês me seguem.
Puxando o próprio celular, Taehyung concordou na hora, perguntando qual
era o usuário dela, e me obrigando a fazer o mesmo. Fizemos a solicitação,
ela aceitou, e logo em seguida postou todas as fotos. Salvando uma das
fotos em que fazíamos careta, Taehyung a postou em sua própria conta e
mostrou para ela.
Jennie ficou tão feliz que parecia a ponto de chorar, afirmando que nunca
imaginaria que algo assim iria acontecer um dia.
— Eu vou sair para dar privacidade a vocês, mas por favor, se vocês forem
se casar pela lei do nosso país, me convidem, por favor — deu um abraço
forte em Taehyung e logo sem seguida, se retirou.
— Parabéns, você deixou uma fã adolescente feliz — sorri.
— É engraçado como pequenos gestos deixam as pessoas assim —
comentou baixinho — eu só segui a conta dela no Instagram e ela parecia
que tinha ganhado na loteria ou algo assim.
— Com fãs, qualquer coisa é incrível.
— Gukkie, eu estava querendo falar com você hoje, mas não consegui —
lamentou — eu estava pensando em fazer uma visita ao Clube da Luta
215
amanhã. Você anima ir?
Surpreso com o convite, mordi o lábio.
— Ir ao Clube da Luta de novo? Não sei, Tae... — hesitei.
— Vamos, Guk-ah!
— Guk o quê? — Arqueei a sobrancelha.
Taehyung bateu na própria testa.
— Esqueci que você não entende essas coisas, desculpe — sorriu — se
você não quiser ir, está tudo bem. Eu vou apenas para me divertir um
pouco, nada muito sério. Faz um tempo desde a última vez que fui.
— Corro o risco de lutar contra você?
— Apenas se você quiser — sorriu, roubando um selinho de meus lábios
— caso queira, terei o prazer de te nocautear.
— Por que eu sinto que isso não tem nada a ver com luta? — Perguntei,
sorrindo.
As mãos de Taehyung foram até minhas costas, e desceram devagarzinho
até chegarem as minhas nádegas, onde ele deu um aperto, fazendo-me
soltar um gemidinho.
— Porque talvez não tenha mesmo — respondeu — você tem sorte de
estarmos numa escola, senão, eu já teria te despido dessa calça e fodido
você aqui mesmo.
— Não ia, não — rebati — quem disse que eu ia deixar?
— Ah, você ia sim, Jagi — sorriu — você não ia resistir. Você nunca
resiste.
[...]
Eu não planejava voltar ao Clube da Luta, eu realmente não planejava. Ia
216
passar minha sexta ocupado com séries de televisão ou algo do tipo, mas
meu subconsciente continuava ali, me perturbando e me "convencendo" de
que seria legal ir, afinal, por que não? O meu namorado estaria ali, certo?
Todo o pessoal que eu conhecia estaria ali, não havia motivos para temer
nada. Seria apenas uma noite como qualquer outra.
E claro, eu provavelmente veria Taehyung lutar. Ele era um dos
fundadores daquela coisa e vez ou outra precisava dar o ar de sua presença
para as pessoas. E eu queria ver ele lutando com outra pessoa, queria ver
isso.
Então, quando o relógio bateu meia-noite, saí do quarto vestindo um
moletom folgado, jeans e tênis, disposto a ir somente para observar as lutas
daquela noite. Ouso dizer que será emocionante, então não custa nada
fazer presença.
Cheguei no prédio do Instituto Herberger, adentrei o porão, passando pela
porta de madeira, desci as escadas e abri a porta corta-fogo, chegando no
ponto de encontro. Uma luta já rola ali, e todos gritavam de forma animada
e estridente, torcendo para os dois. Eu não conhecia nenhum dos dois
homens que estavam imersos na pancadaria, mas podia supor que ambos já
estavam acostumados com aquilo, desviando de golpes e desferindo outros
com uma precisão invejável.
Aproximei-me mais do círculo, olhando em volta e procurando Taehyung.
Ele estava parado exatamente no mesmo lugar da primeira noite em que o
conheci, encostado contra uma das pilastras, conversando com Namjoon
que estava parado ao seu lado. Naquela noite, o ruivo usava uma camisa de
mangas longas azul, calças pretas folgadas e uma sandália marrom. Em
sua testa havia uma bandana roxa, e entre seus lábios, ele segurava um
pirulito vermelho (que supus ser de morango). Eu quis até os dois para
cumprimenta-los, mas não tive tempo, quando um dos homens que lutava,
caiu desacordado no chão após tomar um belo soco na cara. A luta foi
encerrada na mesma hora, o vencedor erguendo os punhos e
comemorando.
Abriram espaço e começaram a debater entre si qual seria a próxima luta,
quem lutaria na próxima. Ninguém parecia disposto a ir na próxima,
parecendo imersos naquela discussão de como fariam e como seria.
Revirei os olhos, impaciente, e fui tomado por uma súbita coragem insana.
Eles não eram corajosos?
217
Lá se vai minha tentativa de só observar ou só ficar na paz. Que eu não
tinha um pingo de juízo não era novidade alguma. Ergui uma mão:
— Eu vou lutar!
Jeon Jeongguk meia hora atrás: não irei para o Clube da Luta.
O mesmo Jeon Jeongguk nesse exato momento: quero lutar.
Não existe discussão acerca do problema que eu tinha, mas sinceramente,
se eu já estou aqui mesmo, não acho que vá doer um pouquinho de
adrenalina.
Abriram espaço para eu entrar no meio do círculo, e sem hesitar descalcei
meu tênis.
— Quem você desafia? — Indagou Namjoon, falando alto.
Não pensei duas vezes. Eu não ia desafiar outra pessoa dali. Eu não tinha
coragem suficiente para isso, mas...
— Taehyung — respondi, sorrindo.
Abriram espaço, dando-me a oportunidade de vê-lo ainda encostado na
pilastra e me fitando de forma curiosa e afetuosa. Era totalmente diferente
da primeira vez em que lutamos quando seu olhar carregava aquele ar
provocativo, meio debochado. Balançando a cabeça num sorriso divertido,
meu namorado entrou no círculo, já retirando sua camisa e sandálias,
mantendo o pirulito na boca. Ele não parecia acreditar que eu estava
desafiando-o para lutar comigo novamente.
Arranquei meu moletom também e foquei nele, lambendo os lábios ao fitar
seu corpo tatuado. Eu amava demais cada centímetro daquele maldito
corpo. Lembranças de quando transamos, de quando toquei em cada uma
de suas tatuagens, de quando ele me fodia com força, quando eu o
cavalguei sentindo-o pulsar dentro de mim dominaram os pensamentos. A
mera presença dele já me fazia estremecer, desgraçado. Eu não devia
pensar naquele tipo de coisa agora.
— Tem certeza, Guk? — Perguntou baixinho, me fitando de forma
preocupada.
218
— Não — dei de ombros, arrancando uma risada dele. Taehyung
murmurou algo próximo a "você é inacreditável" e se posicionou. Irônico
ele falar isso, porque eu costumava dizer isso acerca dele o tempo inteiro.
Ergui meus braços, e sem aviso, fui em sua direção e tentei lhe desferir um
soco, na qual ele se desviou facilmente. Não era como se eu realmente
achasse que poderia vencer aquela luta, mas eu tinha esperanças de
conseguir fazer algo decente. Errei feio na primeira tentativa, mas eu não
ia desistir. Voltei a erguer os braços, respirei fundo e investi de forma mais
habilidosa, desferindo um soco com a direita e depois com a esquerda.
Mas ele era veloz e conseguiu segurar meus punhos antes que eu acertasse
seu rosto, e num movimento certeiro, me puxou de uma só vez pelos
braços, chutando a parte de trás dos meus joelhos sem muita força e me
fazendo cair ajoelhado no chão. Torcendo meu braço esquerdo com força
atrás de mim, ele me fez dar duas batidas no chão, pedindo para acabar
pela dor horrível que eu sentia.
— Jagi? Me desculpe se te machuquei muito — sussurrou pertinho do meu
ouvido.
Eu ia proferir alguma maldição, mas foi impedido por Namjoon:
— Tae, vou lutar com você aproveitando que já está aí — se pronunciou,
rapidamente entrando no círculo.
Sentindo-me irritado pelo o que aconteceu, desvencilhei-me de si, e
levantando-me, caminhei para fora do círculo quando Namjoon desafiou
Taehyung, avistando um rosto conhecido em meio à multidão de homens.
Fui para perto de Yoongi que estava de braços cruzados me fitando de
forma divertida. O baixinho começou a rir da minha desgraça quando fiz
uma careta desgostosa.
— Vai ficar com essa cara de cu? Ele nem fez nada demais — zombou.
Idiota, eu realmente não achei que fosse perder assim. Ainda mais
considerando que ele "não fez nada".
— Cala a boca — rebati, rabugento — ele acabou comigo mais rápido do
que da última vez. Não achei que eu fosse ganhar, mas também não pensei
que ia perder de forma vergonhosa.
219
— Sei bem. Não é à toa que você perde tão fácil para o Taehyung,
Jeongguk. Você é alvo fácil — comentou, naturalmente.
O fitei, confuso.
— Como assim? — Fiz uma careta.
— Você é previsível demais. Nunca vai vencer ele desse jeito.
— Previsível? — Bufei — se você sabe como, me fala como vencer ele,
então.
Yoongi deu uma risada.
— Você quer que eu te diga como chutar o traseiro do seu namorado?
Assenti freneticamente.
— Eu definitivamente gosto de você, garoto — gesticulou com o queixo
em direção a eles — observe Taehyung lutar.
E o fiz. Ele era ágil e preciso, e seus olhos fitavam desde os pés de
Namjoon, até sua expressão facial, como se estivesse decorando
meticulosamente cada um dos seus movimentos.
— Veja como ele estuda o oponente. Ele está analisando e descobrindo os
pontos fracos, vendo se existe alguma hesitação. Ele já apanhou demais
quando fazia parte de gangue, ele tem noções de combate. Ele não é
invencível, você precisa aprender a estudar ele, observar como ele se
movimenta, descobrir o ponto fraco dele e tentar unir ao seu ponto forte.
— E como descubro isso? — Questionei.
Yoongi suspirou, dando de ombros.
— Você vai ter que descobrir sozinho, Jeongguk.
Assenti, esperando até as lutas acabarem. Taehyung ganhou de Namjoon
(não tão fácil quanto foi comigo, mas também não fora lá um grande
desafio), e esperou que as duas próximas lutas acontecessem e acabassem
para finalmente vir falar comigo. Quando a noite se encerrou e todos
começaram a ir embora, Taehyung veio caminhando em minha direção,
220
sua expressão cansada e preocupada. Eu estava encostado na parede ao
lado da porta corta-fogo vermelha, observando o último membro do Clube
da Luta subir as escadas enquanto sobrava apenas eu e meu namorado.
— Você está bem? Eu não te machuquei muito, né?! — Segurou meu rosto
com as duas mãos.
— Só o meu orgulho mesmo — resmunguei, emburrado.
Sorrindo afetuosamente, Taehyung tentou se aproximar e me beijar, mas
eu me afastei.
— Não adianta tentar me adular. Eu não consigo engolir como perdi feio.
Eu achei que dessa vez eu conseguiria pelo menos te dar um pouco de
trabalho, mas nem isso eu fiz — reclamei — eu quero renovar a aposta, eu
não aceito perder assim.
— De novo? Mas a gente já namora — seu sorriso não saiu do rosto — a
gente já até transou. Se você quisesse, eu te levava agora para o melhor
hotel de Phoenix e nós teríamos uma noite e tanto. Não há mais
necessidade de apostar comigo, Jagi. Você quer meu corpo nu, você pode
ter, a hora que quiser, aliás.
Revirei os olhos, segurando a risada pela melosidade toda, embora eu
sentisse meu coração saltar em meu peito com um sentimento de posse
tomando conta de mim. Eu podia ter Kim Taehyung pelado a hora que eu
quisesse.
— Eu já sei o que quero — afirmei, fingindo não me importar — já sei
qual será o meu prêmio caso eu ganhe a nova aposta.
Seus olhos brilharam interessados.
— Que seria?
— Eu quero comandar tudo. Uma oportunidade em que a gente vai transar
e quem vai dar as ordens, serei eu.
Taehyung soltou uma risada melodiosa.
— Jeongguk...
221
— Não me venha com essa de "Jeongguk" — cruzei os braços.
Revirando os olhos exatamente da forma como fiz minutos atrás, ele
encostou meu corpo contra a parede atrás de mim e provocou meus lábios,
fingindo que ia beijar. Eu tinha vontade de cortar a distância, mas não ia
ceder. No entanto, tentei encontrar meus quadris com os dele, no entanto,
não consegui. As mãos dele estavam firmes em mim.
— Alguém parece ansioso aqui — provocou.
— Eu quero você — sussurrei, sentindo-me de repente entorpecido pela
presença dele ao meu redor — quero agora.
— Quer que eu cuide de você, Jagi?
Assenti, soltando um suspiro audível quando ele passou a língua por meus
lábios. Sua mão foi até o volume que começava a surgir na minha calça,
apertando-me um pouco, e eu não consegui segurar outro gemido,
lembrando-me de quando ele me beijou no bar naquele dia.
— Aceito sua condição na aposta, Gukkie. Te vejo amanhã?
Se afastou de repente de mim, me tirando do transe.
— O quê? — Arqueei uma sobrancelha, piscando atordoado.
— Nos vemos amanhã, então — deu um sorrisinho diabólico.
— Taehyung, você não vai me deixar assim — eu estava desacreditado,
meu tom perigosamente ameaçador.
— Ah, mas eu vou sim — seu sorriso diabólico laumentou — se tem uma
coisa que eu vivo é para te provocar. Até amanhã, Jeonggukie.
222
Capítulo 12 - Eternal Flame
Oiii!!! Atualizando semanalmente agora, bem bonitinha auhsuas gostaram
da nova capa??? eu amei muuuuuito <3 milly muito talentosa. Esse é um
dos meus capítulos favoritos da fic toda (se não é o meu favorito mesmo.
Eu amo MUUUUUITO esse capítulo, sério :( ele é tão lindo e sei lá... aff).
Boa leitura!!!
[...]
— Jeongguk, você já falou com Taehyung? — Lisa perguntou na segunda-
feira seguinte.
Estávamos reunidos no MU no horário do almoço, eu pegara um sanduíche
de frango frito, batata frita em formato de waffle e um copo médio de
refrigerante no Chick-fil-A, enquanto Lisa comprou um Milk-shake
simples no McDonald's, alegando não estar com muita fome.
Desde sexta-feira eu estava ignorando as mensagens de Taehyung, então
pedi para que ela me acompanhasse no almoço hoje, já que eu não queria
dar o braço a torcer e falar com idiota. Lembrar de sua provocação me
deixava irritadiço, embora eu soubesse que era besteira e eu não tinha
motivo para ficar tão irritado assim, mas mesmo assim!
— Não sei quem é esse — respondi, tomando um gole de refrigerante.
Lisa revirou os olhos.
— Não sabe? Alto, ombros largos, ruivo, bonitão, coreano, ímã de olhares
maliciosos, se chama Kim Taehyung, mas também atende por "seu
223
namorado"? Será que agora talvez você se lembra? — Indagou, arqueando
uma sobrancelha.
— Você não combina com sarcasmo — fechei a cara.
— Por que você não fala com ele de uma vez por todas, hein? Essa sua
birra é tão boba.
Eu sabia bem disso. O que me impedia de fazer isso era o orgulho mesmo,
porque se eu fizesse daria o indicativo para ele que estava tudo bem e ele
ia tornar a me provocar assim que aparecesse a primeira oportunidade.
Ninguém precisa chegar me perguntando como tenho certeza disso, eu
simplesmente conheço meu namorado.
— Porque não vai adiantar nada, na primeira oportunidade ele vai agir
feito um idiota de novo — insisti.
— Mas o feriado do Dia de Ação de Graças está chegando, seu cabeçudo!
Você não vai levar seu namorado para conhecer seus pais? Você disse que
garantiu para sua mãe que iria passar o feriado lá e ela até queria saber se
você não ia levar ninguém — comentou.
— Eu sei, eu sei — soltei um gemido de desgosto, fazendo uma careta ao
lembrar disso.
E o pior de tudo era que provavelmente eu teria de passar por meu orgulho
e chamá-lo para conhecer meus pais. Sei que os dois vão ficar encantados
com Taehyung, e vão fazer milhões de perguntas constrangedoras, minha
mãe vai querer mostrar fotos minhas quando criança (aquelas de quando
você saiu correndo do banheiro pelado, mas por algum motivo ainda a ser
descoberto pela humanidade, seu pai estava com uma câmera fotográfica
bem na hora e achou que seria legal tirar uma foto sua assim), contar
histórias constrangedoras, e tratá-lo como se fosse o genro enviado dos
céus.
Sem contar meu pai que provavelmente vai nos chamar de crianças do
início ao fim, perguntar para Taehyung sobre as notas dele na
universidade, quais são os planos dele para o futuro, e vigiar se a gente
está se tocando demais. Não importa se já passei dos vinte anos, meu pai
ainda me trata como um garotinho.
224
— Se eu fosse você, não enrolava muito — aconselhou — geralmente, as
mães são bem rigorosas com essas coisas de quantos convidados terão para
jantar.
— Somos sempre só eu, ela e meu pai, Lisa — resmunguei.
— Mas, eu garanto que uma cabeça a mais para comer fará diferença!
Querendo cortar aquele assunto, puxei meu celular do bolso da calça e
conferi as horas. Não podíamos demorar muito, pois havíamos combinado
com um amigo de Ryan que assistiríamos sua luta com um dos treinadores
mais conhecidos de Wrestling nas universidades dos Estados Unidos. Ele
não desafiara o homem, e sim, pedira por uma chance para testar suas
habilidades, querendo que assistíssemos e lhe disséssemos o que achamos.
— Olha, a gente tem que ir! — Exclamei. — Enfiando uma batata na boca
e levantando-me da mesa — vamos?
Suspirando, Lisa balançou a cabeça como se estivesse reprovando minha
atitude, mas logo em seguida, concordou, pondo-se a levantar também.
Agradeci silenciosamente por ela não insistir, sabendo como a garota
conseguia me colocar contra a parede quando queria. Fomos juntos até o
local da luta. Pendurei minha mochila em meus ombros e fiz uma leve
careta ao sentir o sol quente bater contra minha cara, praticamente me
cegando. As desvantagens de morar no meio do deserto.
Chegando na área esportiva, procuramos onde ficavam os tatames, e por
sorte, não foi muito difícil achar. Os assentos em volta não estavam muito
cheios, aliás, um deles estava ocupado por Ryan. Eu e Lisa fomos em sua
direção e sentamo-nos cada um em cada lado dele, notando que os
lutadores já estavam próximos ao tatame, vestindo aquele macacão colado
que costumavam usar para as lutas.
Só me fazia questionar como aguentavam usar aquilo porque parecia
desconfortável demais, no entanto, não nego que era incrível ver a forma
como apertava um pouco suas coxas, marcando-as.
Exatamente da forma como imaginei, todos os wrestlers ali presentes
tinham um corpo de dar inveja. Braços e peitos fortes, músculos que
sobressaíam e chamavam a atenção. Eu estava mais do que feliz em meu
namoro com Taehyung, apesar de estar com raiva daquele idiota, mas
225
namorar ele não me cegou e muito menos me tirou a capacidade de
observar algum homem bonito.
E falando nele, admito que fiquei com um pouco de inveja de Lisa e Ryan,
abraçados bem do meu lado, desejando poder fazer o mesmo. O pior, é que
dessa vez eu podia, eu só precisava responder as mensagens dele ou ligar
para ele. Não duvido que Taehyung viria se eu pedisse. Às vezes, ter
orgulho é uma merda!
— Jeongguk, achei que você traria o Kim — Ryan comentou, claramente
confuso — quando te falei para não esquecer da luta de Austin, acho que
mencionei algo sobre você trazer seu namorado, não?
— Eu tenho certeza que sim — Lisa afirmou — mas acontece que o seu
melhor amigo é orgulhoso demais para falar com o próprio namorado de
novo.
— Sério? — Ryan revirou os olhos — amor, chama ele para vir que aí o
Jeongguk acaba sendo obrigado a falar com ele logo.
— O quê? — Arregalei os olhos.
— Boa ideia! — Lisa sorriu — vou conferir se ele está livre agora.
— Não faz isso! — Sussurrei, tentando fazer meu tom sair duro, mas não
deu muito certo, pois a única coisa que ficou evidente em minha voz foi
meu pseudo-desespero de pensar que Taehyung viria para cá e eu teria de
cumprimentá-lo, teria de falar com ele. Não importa se estou sendo
deveras infantil e idiota, eu só... não queria, não agora.
Mas claro que não tive voz quanto a isso. Lisa realmente contatou ele, sem
contar que eu estava ali, segundo ela, e como resposta, o ruivo disse que
estaria assim que desse já que estava numa consultoria que acontecia
durante o horário do almoço. Por dentro, desejei que ele não conseguisse
chegar e que desse uma desculpa, porém, a julgar pela sorte que eu tinha
era realmente improvável que isso fosse acontecer.
Meus dedos começaram a suar assim que as lutas começaram (seria uma
série de lutas, e não uma única luta como eu anteriormente pensei), e eu
sequer conseguia prestar atenção direito, olhando para a entrada da sala
dos tatames o tempo todo, esperando capturar uma cabeleira ruiva
226
adentrando o local. O pior de tudo é que eu provavelmente ficaria
desapontado se ele não aparecesse ali também. Estranho pensar que ao
mesmo tempo em que eu torcia para que algo desse errado e ele não
viesse, eu também queria vê-lo.
E eu não sabia como deveria cumprimentá-lo. Eu deveria fingir que tinha
esquecido como ele adora me provocar e me deixou com uma ereção
crescente e simplesmente lhe saudar? Desgraçado, eu precisei correr para o
banheiro mais próximo e bater uma maldita punheta pensando nele.
O amigo de Ryan subiu ao tatame, pronto para lutar contra o famoso
treinador, sendo essa a penúltima luta e eu já estava ficando confuso com a
mistura de sentimentos dentro de mim. Alívio, decepção, alívio, decepção,
alívio, decepção. Não conseguia me decidir qual dos dois era pior. Até
observei a luta com uma expressão entediada, apenas desejando que
acabasse logo e eu pudesse ir embora de uma vez.
No entanto, eu infelizmente não teria essa sorte. E o que é pior, as coisas
chegaram a um nível cinco mil vezes mais tenso do que eu imaginava
quando ao final da luta (que encerrou com a vitória de Derek Ramos, o
treinador, claro), como estavam com uma suposta "lenda" do Wrestling ali,
perguntaram se alguém gostaria de ter a "honra" de lutar com ele. E então,
um dos lutadores apontou para mim, mencionando que eu jogava futebol
americano (não tenho ideia de quem seria aquele cara), e logo fui coagido
a ser o "voluntário".
Recusei-me a trocar de roupa, mantendo minha calça jeans e minha
camiseta mesmo que ambas não fossem aptas para esse tipo de atividade e
fui descalço até o centro do tatame, encarando o homem na minha frente.
Derek era novo, não devia ter mais de 30 anos, o que era impressionante,
tinha cabelos negros, olhos azuis e um sorriso gentil, o que contrastava
com seu físico. Ele era mais alto que eu, portador de um corpo musculoso
intimidador e por incrível que pareça, bonito.
— Qual sua posição no time? — Perguntou, todo sorrisos.
— Center — respondi, cruzando os braços.
— Quando eu fiz faculdade aqui na ASU, eu acompanhava os jogos do
Sun Devils. Essa temporada definitivamente está sendo a melhor —
contou, me fazendo franzir a testa. Ele já estudara aqui?
227
— Você viu os jogos?
— Sim, eu sempre vejo os jogos do NCAA. Tomara que esse ano vocês
vençam — piscou para mim.
Engoli em seco na hora. Ele estava dando em cima de mim? Eu esperava
que fosse impressão minha, ou simplesmente loucura da minha cabeça,
mas seu tom de voz meloso, a forma como ele sorria, e parecia manter a
postura o mais ereta possível a fim de fazer seu porte físico ficar mais
imponente me diziam o contrário. E aquela maldita piscadela.
Isso vai dar merda das grandes, e eu não sei como escapar disso.
— Vamos lutar ou não? — Meti um soco fraco em seu braço fingindo
estar aborrecido e fingindo que não notei suas intenções. Na dúvida, o
melhor é sempre se fazer de idiota.
Sem tirar aquele maldito sorriso do rosto, ele assentiu e me instruiu da
posição que eu deveria ficar, debruçando meu corpo para baixo. Derek me
olhava como se estivesse planejando formas de acabar comigo, e algo me
dizia que não era exatamente àquela luta que se referia. Sinceramente, me
fez querer sair correndo. Não porque estou com medo de lutar com ele, e
sim porque estou com medo de suas intenções.
Continuando com as instruções, ele garantiu que não investiria de verdade
contra mim, apenas me daria uma amostra. Assenti, respirando fundo. No
entanto, quando o sinal foi dado, o homem não pensou duas vezes antes se
jogar contra mim, abraçando minha cintura e me levando ao chão. Ele
usou suas duas pernas para me manter no chão e segurou meus pulsos ao
lado de minha cabeça.
Eu odiei aquilo e aquele homem com todas as minhas forças, querendo sair
dali, usando toda a minha força para isso. Caralho, quem ele achava que
era para fazer isso? Eu não conhecia muito de Wrestling, mas já assisti na
televisão, e aquilo era tudo, menos Wrestling! O babaca sorria, não se
importando de ter uma plateia, parecendo extremamente satisfeito.
— Já te nocauteei, garoto? Foi rápido, não? — Debochou, sorrindo
malicioso.
Filho da puta!
228
Usando toda a minha força, consegui mover minhas pernas e tentei acertar
uma joelhada no meio das pernas dele. Deu certo, mas não atingi com
força suficiente, fazendo ele xingar e soltar minhas mãos, levando-as até
seu pênis. Aproveitei a deixa para empurrá-lo de cima de mim, disposto a
acabar com aquela palhaçada, mas enquanto eu removia minhas pernas, ele
segurou meus tornozelos, rangendo os dentes pela dor que ainda sentia, e
sem mais nem menos, prendeu suas coxas em meu corpo e me imprensou
com mais força ainda contra o chão, usando as pernas para me imobilizar.
Eu não sabia o que fazer, olhando desesperado para todo o lado, até que
meu olhar encontrou as pessoas paradas ao lado do tatame, tentando pedir
socorro a uma delas, mas ao invés disso, senti Derek ser arrancado de cima
de mim do nada e não consegui registrar como tudo aconteceu direito,
apenas vi Taehyung segurar o babaca pela alça de seu macacão e lhe meter
um soco na cara. Cambaleando para trás, o homem não teve tempo de
reagir antes que o ruivo fosse para cima dele e lhe desse mais dois socos
antes que dois do wrestlers ali presentes corressem e o segurassem,
impedindo-o de bater mais.
Mas isso não o conteve, pois ele se debatia, mandando que o soltassem.
— Você me paga, seu imbecil — Derek resmungou, limpando o sangue
que escorria do nariz.
— Se você ousar chegar perto dele de novo, eu acabo com você —
Taehyung berrou — você não me testa, seu imbecil, eu não estou nem aí
para quem você seja, eu acabo com você!
— Você é idiota, seu doente? Eu estava ensinando ele a lutar!
— A lutar o que? Como arranjar boas posições para o sexo? Isso parecia
mais um pornô do que qualquer coisa — guinchou, alterado.
— Eu posso te denunciar por agressão física, sabia?
— E eu vou te denunciar por assédio sexual, seu babaca! — Devolveu —
você estava assediando ele, deixando-o desconfortável e colocando em
posições constrangedoras, você estava insinuando-se para cima dele!
— Taehyung! — Lisa gritou correndo até onde nós estávamos — soltem
ele! O que vocês estão fazendo?
229
Ryan veio em minha direção e me ajudou a levantar, sussurrando que já
estava prestes a me acudir quando Taehyung entrou no local, ficando
parado feito uma estátua ao me ver com aquele cara. "Ele apertava os
punhos com tanta força", meu amigo falou, "até correr em direção a
vocês".
— Eu não estava assediando ele — Derek negou.
— Estava, e todos aqui observavam tudo com o maior sorriso no rosto —
acusou Taehyung — me solta, porra! Eu juro que se não me soltarem
agora vai ser pior!
— Não acho pertinente soltar um homem descontrolado — um dos caras
falou.
— Soltem ele — pedi, atraindo a atenção para mim — soltem ele logo!
— Esse cara maluco chegou me agredindo do nada! — Derek reclamou —
você pode falar para ele que só estávamos fazendo algo normal? Que eu
estava te ensinando?
Não basta ser filho da puta, ainda é cara de pau.
— Esse maluco é meu namorado e você não estava me ensinando, você
estava quase se esfregando em cima de mim! — Cruzei os braços — não
venha dizer que interpretei errado, você não parava de sorrir, piscou para
mim, abraçou minha cintura e ainda usou o termo de nocaute numa
conotação sexual. Eu posso sim te acusar de assédio porque tenho
testemunhas aqui além de tudo, então acho bom você tomar bastante
cuidado com o que fala. E soltem meu namorado!
— Namorado — Derek resmungou com desdém.
Finalmente soltaram Taehyung e ele se desvencilhou de forma brusca dos
dois homens. Ele estava tão nervoso que abriu caminho, passando reto e
saindo dali em direção aos vestiários da universidade. Captei apenas
quando ele sumiu, trajando a costumeira jaqueta de couro e suspirei,
desanimado.
— Eu vou atrás dele — anunciei.
230
— Ele está muito puto, Jeongguk. Você tem certeza? — Lisa parecia
preocupada.
— Tenho — assentiu — ele não vai me atacar, nem nada, relaxa.
Enquanto eu caminhava em direção dos vestiários, ouvi Lisa gritar atrás de
mim:
— Se eu ver algum de vocês indo para aquele vestiário também vocês vão
se ver comigo!
Adentrei o local, fechado e bem iluminado, passando pelos armários
avermelhados e caminhando silenciosamente. Eu não sabia onde Taehyung
estava, mas tinha um palpite, pois vi sua jaqueta jogada no chão e o
barulho de um chuveiro ligado ao longe. Franzi minha testa, confuso do
porquê o chuveiro estar ligado, e continuei fazendo meu caminho até onde
ficavam.
A água estava ligada no frio já que não saía vapor, e embaixo de um dos
chuveiros, estava Taehyung, de roupa e tudo (com exceção da jaqueta),
molhando sua cabeça e parte de sua blusa. Ele usava uma blusa cinza-
escuro que mostrava seus braços, e parecia tremer um pouco sob a água,
apoiando um dos braços contra a parede.
— Tae? — Sussurrei.
Foi baixo, mas eu sabia que ele escutara, pois assim que falei, o ruivo
desligou o registro e se virou para me encarar. Ele estava "esfriando" a
cabeça, no sentido literal da coisa. Taehyung saiu de dentro da divisão do
chuveiro, afastando os cabelos molhados de sua testa. Pensei que ele diria
qualquer coisa para mim, ou talvez me ignorasse e fosse embora, várias
possibilidades passaram por minha cabeça.
Mas ao invés disso, ele cerrou os punhos com força, marchou em minha
direção e me puxou pela cintura, me beijando de forma afoita e desejosa.
Eu estava surpreso, mas não recusei nada, levantei minhas mãos até seus
cabelos e retribui até ficar sem ar. Ele não estava sendo cuidadoso e muito
menos carinhoso, ele me beijava como um homem faminto, parecendo
disposto a me devorar ali mesmo. E caramba, como eu gostei.
Taehyung nunca agira assim, me agarrando por ciúme, e eu sinceramente
231
não tinha do que reclamar. Sua língua brincava contra a minha, puxando-a
com força e provocando-me com seu piercing. Soltei o arfar quando ele
desceu para minha mandíbula dando beijos molhados ali enquanto suas
mãos foram de minha cintura para minhas nádegas, apertando-as com uma
força desmedida.
Gemi baixinho, sentindo seus lábios marcarem meu pescoço. Era como se
ele tivesse fazendo mais do que apenas por ciúme, ele estava querendo
deixar alguma marca sua em mim, algum indicativo de que eu estava com
ele. Taehyung deixou chupões ali, sem parar de me apertar, tentando me
fazer ficar o mais perto possível, mas, já estávamos praticamente grudados
um no outro, então era impossível.
Subindo, ele tomou meus lábios novamente, me beijando até que o ar
faltou e finalmente, o ruivo decidiu parar para tomar o fôlego. Claro que
aquilo me excitou e eu estava com uma bela ereção a mostra (ele não
estava diferente), mas eu tinha noção de que ali provavelmente não era a
melhor hora.
— Jeongguk? — Chamou baixinho, enterrando o rosto em meu pescoço —
desculpa.
— Pelo o quê? — Fiz uma careta.
— Te atacar assim, te beijar assim — respondeu — não consegui me
controlar quando te vi, eu só queria... porra, eu queria acabar com você de
todas as formas possíveis, e te fazer gritar o meu nome para a universidade
inteira ouvir. Estou com tanta raiva daquele homem, a forma como ele
estava te tocando, ele não estava te ensinando a lutar ou sei lá o que diabos
ele disse...
— Era para ser uma aula de Wrestling ou algo assim — contei — mas ele
começou a dar em cima de mim e você viu o que aconteceu. E... eu não me
importo de ser beijado assim, para ser sincero.
Taehyung levantou a cabeça de meu pescoço e me fitou surpreso.
— Você está falando sério?
Sem coragem de falar qualquer coisa, apenas assenti.
232
— Acho que tenho alguns conhecimentos de Wrestling, posso te ensinar
alguma coisa depois, se você quiser — arqueou uma sobrancelha.
— Eu quero sim. Mas não acho que seja legal num local público —
comentei, mordendo o lábio — e Tae? Obrigado por ter aparecido na hora
certa, tirado ele de cima de mim e metido uns socos nele. Depois dessa
nem tenho como brigar com você por sexta passada ou por ter usado
agressão física.
O ruivo sorriu sem mostrar os dentes.
— Se não tivessem me segurado eu teria desfigurado a cara dele, Jeongguk
— murmurou — odeio admitir que fizeram certo em me segurar, porque
só Deus sabe o quanto eu queria mandar ele para o hospital.
— Eu sei que teria mesmo — dei de ombros, não me importando muito —
Tae, vamos sair daqui? Você precisa secar esse cabelo e essa blusa, e eu
preciso te fazer um convite.
— Convite do quê?
— Você verá!
[...]
Como eu já esperava, Taehyung aceitou passar o feriado do Dia de Ação
de Graças comigo e meus pais. Dizer que eu estava nervoso para
apresentá-lo aos meus pais era pouco. Eu acreditava que os dois iriam
gostar muito dele, mas e se não gostassem? A aprovação de meus
progenitores é crucial para mim, eu não se conseguiria manter um
relacionamento sem que tivesse os dois me apoiando. Sempre foi assim, e
eu acreditava que sempre seria.
Fomos no carro de Taehyung, comigo mostrando caminho de como chegar
em minha casa. Naquele dia, ele dispensara a costumeira bandana, tendo
os cabelos penteados sobre seus olhos e usava óculos escuros de armação
redonda. Não havia sinal da jaqueta de couro, ao invés disso, ele estava
com uma blusa de moletom frouxa da cor preta, calças confortáveis e um
All Star vermelho. Era fofo como embora suas roupas cobrissem quase seu
corpo todo, suas mãos e pescoço o denunciavam e mostravam as tattoos ali
presentes.
233
Exatamente como o instruí, Taehyung trouxera uma mochila contendo
roupas para usar durante aquele fim de semana, e ele me disse até ter
comprado um pijama para causar uma boa impressão. Aquilo me fez rir
demais, imaginando o que meus pais diriam se soubessem do hábito que
ele tinha de dormir nu, e que eu passei todo o tempo na Califórnia
dormindo com ele...
— Nervoso? — Perguntei, o observando pelo canto do olho.
— Um pouco — respondeu — mas estou feliz por conhecer os seus pais
mesmo que a gente esteja namorando a pouco tempo. Isso é meio que um
indicativo de que nosso relacionamento é realmente algo sério.
— Sim, eu sei — sorri — quando contei para minha mãe que eu ia levar
você para passar o feriado com a gente ela ficou muito feliz. Ela vai adorar
você.
— Tomara.
Durante todo o trajeto conversamos sobre banalidades, ambos aguardando
ansiosamente até o momento em que ele estacionou o carro. Nossa
garagem era grande, então, eu o instruí a estacionar a Range Rover ali.
Minha casa era como qualquer típica casa americana, dois andares, porão e
sótão, pintura azul-bebê, um cercadinho branco, jardim com flores
cultivadas por minha mãe, e ficava numa vizinhança tranquila onde todos
os vizinhos se conheciam (muitos me viram crescer).
Descemos do carro, Taehyung apanhou a mochila e eu esperei que ele
trancasse o carro antes de entrelaçar meus dedos nos seus. Ele sorriu e
apertou minha mão num sinal tranquilizador e andando na frente, o guiei
para a entrada de minha casa, destrancando a porta da frente com minha
chave e já tirando meus sapatos na entrada, sendo imitado pelo ruivo.
— Mãe? Pai? — Chamei pelos dois, vendo a casa silenciosa, até os dois
surgirem no topo da escada, descendo juntos enquanto observavam nós
dois.
— Filho, vocês chegaram! — Minha mãe saudou, sorrindo, mostrando os
dentinhos que puxei dela. Em contrapartida, eu era a cópia fiel do meu pai
no quesito aparência.
234
Calorosa como sempre, ela foi a primeira a me cumprimentar, me
abraçando com força e apertando meu corpo em vários lugares.
— Você está cheinho, sinal que está se alimentando direitinho — deu um
beijo em minha bochecha — espero que não esteja só comendo fast-food,
Jeongguk, senão vou te proibir de colocar besteira na boca durante esse
fim de semana!
Antes que eu pudesse responder, ela se afastou e deu espaço para o meu
pai me abraçar também. Ao contrário de minha mãe, meu velho não me
apertou e ao apartar o abraço, colocou as mãos em meus ombros, dizendo:
— Eu vi você jogando no NCAA. Estou muito orgulhoso!
Aquilo praticamente seria o suficiente para me fazer ganhar o dia! Saber
que orgulhei o meu pai era uma das melhores coisas que eu poderia saber.
— Agora, quem é este rapaz bonito, hum? — Minha mãe perguntou,
levando sua atenção para Taehyung que até então observava tudo atrás de
mim.
Pigarreando, dei um passo para trás, ficando ao seu lado e novamente
entrelacei nossas mãos (que haviam se soltado quando abracei meus pais),
respirando fundo.
— Pai, mãe, este é Kim Taehyung, meu namorado — apresentei, sentindo
o nervosismo subir por meu estômago — Taehyung, estes são meus pais,
Jeon Jongjin e Kang Sooeun.
Sem soltar minha mão, o ruivo abriu um sorriso e curvou o corpo para
frente, num ângulo perfeito enquanto falava:
— É uma honra conhecê-los.
Quando Taehyung se levantou, meu pai foi o primeiro a falar com ele, para
minha surpresa, mas ele falara em coreano. Balançando a cabeça
afirmativamente, meu namorado respondeu também em coreano e os dois
engajaram numa conversa. Meu olhar ia de um ao outro, tentando entender
o que tanto falavam e porque o estavam fazendo em outra língua.
Então, para minha maior surpresa, Taehyung soltou minha mão, e
235
carregando a mochila, seguiu meu pai escada acima, ainda conversando.
Observei a cena boquiaberto. O que diabos acabou de acontecer?
— Seu pai gostou de seu namorado, não se preocupe — minha mãe
assegurou, sorrindo — ele estava perguntando sobre a carreira de
Taehyung e suas notas na faculdade.
— É nesses momentos que me arrependo de não ter cobrado de vocês para
aprender coreano — cruzei os braços, emburrado.
— Acho que parte da culpa é nossa também — suspirou — agora, me diz.
Como você conseguiu fisgar ele? Uau, ele é um partido e tanto, você sabe,
né? Quando te contei sobre ele pelo telefone, você interessou, não foi?
— Hã... mais ou menos isso — cocei a cabeça, sem graça.
— Ele é tão educado, sem contar bonito — deu uma risadinha — mas não
me surpreendo, com o dinheiro que a família dele tem, educação
certamente seria algo imprescindível. Agora, na aparência... Eu sei que não
devia perguntar isso por ser sua mãe, mas ele atrai atenção até sem
camisa?
— Mãe! — Ralhei, sentindo meu rosto esquentar.
— O quê? Não perguntei nada demais — revirou os olhos — mas tudo
bem, se isso te constrange e você quer fingir que é virgem, não insistirei.
Levantando as mãos em sinal de rendimento, ela foi até a cozinha, e se
aproximou no forno elétrico, conferindo o peru gigante que assava para o
dia seguinte, e eu a segui.
— Como assim fingir que sou virgem? — Indaguei, indignado.
De costas para mim, ela respondeu:
— Filho, você já teve dois namorados, e agora está namorando esse garoto
ridiculamente atraente e espera que eu acredite que nunca fez nada? —
Comentou, naturalmente — se não tiver feito com o namorado que tem,
está perdendo seu tempo, então.
— Mãe! — Gritei de novo, ainda mais constrangido — não acredito que a
senhora está falando isso.
236
— Não falei nada demais, pare de fazer escândalo — repreendeu — vá na
geladeira e pegue o suco de laranja, por favor.
Obedeci e após pegar a jarra, a coloquei sobre a pia.
— Antes de vocês voltarem, vou fazer aquela receita da sopa de peru com
o que sobrar do peru. Eu sei que você adora e vou cozinhá-la com muito
carinho para você comer quando voltar a faculdade — ela se virou para
mim e sorriu afetuosamente, acariciando minha bochecha.
Não contive meu sorriso, feliz por passar o feriado ali.
— Mãe? — Ela resmungou em resposta, indicando que me ouvia — é bom
estar em casa.
[...]
Como eu já esperava, minha mãe colocou o ruivo para dormir no quarto de
hóspedes. Embora eu adorasse a ideia de dormir com ele em meu quarto,
sabia que dificilmente meu pai concordaria com isso.
Mas além disso, Taehyung se deu muito bem com meus pais no decorrer
da quinta para a sexta, o que me deixou mais feliz do que tudo. Ele e meu
pai conversavam sobre esportes, estudos e marcenaria (meu pai gostava), e
ele tentava agradar minha mãe a todo custo, até oferecendo ajuda na
cozinha (o que eu achei hilário), embora ele não soubesse cozinhar nada.
Resultou no ruivo quase botando fogo na cozinha ao inventar de tentar
flambar a receita de banana sozinho.
O coloquei para fora da cozinha quando isso aconteceu e ajudei minha mãe
em seguida. Preparamos um verdadeiro banquete, afinal, ela queria causar
uma boa impressão em Taehyung. Acho que o mais engraçado era que ele
também tentava causa uma boa impressão, parecendo um homem
completamente diferente. Suas provocações, tom sarcástico, sorrisos
cheios de segundas intenções sumiram, dando lugar a um Taehyung que
esperava pacientemente meus pais terminarem de falar, fazia reverências
como forma de agradecimento, sempre tentando ser o mais educado
possível.
Antes do jantar minha mãe mandou nós dois irmos tomar banho, e
obedientemente, assim o fizemos. Esperei que meu namorado se lavasse
237
primeiro, e após ele sair do banheiro, lhe dei um selinho rápido nos lábios
arrancando uma risadinha de Taehyung que segurou meu pulso e me
trazendo para perto selou nossos lábios novamente, dessa vez demorando
alguns segundos.
— Eu sei que a gente não pode fazer nada, e também corremos o risco de
sermos pegos, mas qual é a graça de correr o risco com um beijo? —
Sussurrou bem baixinho, sorrindo.
Não respondi, retribuindo seu sorriso e entrando no banheiro. Aquele era o
Taehyung com a qual eu estava acostumado, o que me provocava sem
pensar duas vezes. Não demorei no banho, saí o mais rápido que pude,
correndo para o quarto e me vestindo com roupas confortáveis e arejadas.
Desci as escadas sentindo o cheiro delicioso da comida, senti meu
estômago roncar. Eu estava com uma fome daquelas, então, chegando na
sala de jantar, faltei salivar ao ver que todos os pratos já estavam
devidamente postos sobre a mesa. Minha mãe organizara para que parte
fosse típica da culinária norte-americana, e parte fosse da culinária
coreana. Haviam quatro jogos de pratos, talheres e copos, indicando que eu
me sentaria ao lado de Taehyung encarando meus pais.
Quando deu a hora, nós dois sentamos em nossos devidos lugares, demos
as mãos e meu pai fez uma oração agradecendo por nosso ano,
agradecendo pelas coisas que conseguimos conquistar, afinal, esse era o
significado do Dia de Ação de Graças: um momento na qual você
reservava apenas para lembrar das coisas pelas quais você era grato.
E então, minha mãe liberou a mesa, se prontificando a cortar o peru e nos
servir, afirmando saber como jovens são desajeitados e provavelmente só
iremos fazer bagunça ao tentar tirar a carne do peru. Enquanto comíamos,
claro que a conversa rolou solta.
— Quando vocês começaram a namorar? — Meu pai perguntou.
— Foi durante a viagem para a Califórnia — Taehyung respondeu.
— Ah, eu amo aquele lugar — minha mãe comentou em tom nostálgico —
lembro da época que eu ficava na praia com meu som portátil ouvindo The
Bangles. Minha juventude foi certamente memorável — olhou para o
ruivo — mas então, me conta Taehyung, como foi que vocês se
238
apaixonaram?
Um silêncio mortal se instalou na sala de jantar assim que ela perguntou.
Para qualquer casal provavelmente seria uma pergunta normal, seria algo
lindo de se explicar, mas nós não. Até porque nós nunca falamos de
sentimentos, quem dirá amor. Taehyung nunca chegou em mim me
dizendo o quão apaixonado ele era por mim. E eu também nunca disse
nada.
A percepção de que nós dois nunca conversamos sobre isso me tomou
conta e me fez pensar porque a gente nunca tinha pensado nisso. Mas,
agora, eu queria que o fizéssemos, queria que Taehyung me dissesse o que
ele sentia por mim.
— Eu tive que correr atrás do Jeongguk — Taehyung respondeu — ele
não gostava de mim e me dava foras. Até que eu desisti de correr atrás
dele, e ele veio atrás de mim. Depois eu pedi ele em namoro, e aqui
estamos nós.
— Sabe, quando eu ainda morava na Coreia, eu tive que correr atrás do pai
desse garotão aí — contou, animada — ele é mais novo do que eu, e
resistia muito bem às minhas investidas. Mas eu sou insistente, sabe?
Nessa história, você é eu, Taehyung. Jeongguk é tão parecido com o pai, e
não é só no quesito aparência, pelo visto.
— Mãe, não conta essa história de novo — revirei os olhos.
— Conto quantas vezes eu quiser, garoto — repreendeu — você vigie seu
tom comigo.
— Crianças, teremos de colocar Taehyung para dormir no chão do quarto
de Jeongguk — meu pai olhou para nós dois com os olhos semicerrados —
sua mãe inventou de apoiar a caixa pesada de materiais de jardinagem dela
na cama agora a noite, e acabou quebrando as molas.
— A culpa é sua que encheu o porão com aquelas quinquilharias de
marcenaria! — Revirou os olhos.
— Mas, como vocês sabem, eu prezo pelo pudor nessa casa, e eu espero
que vocês estejam no mesmo lugar assim que eu acordar na manhã
seguinte, cada um em sua cama, a uma distância respeitosa, e sem fazer
239
nada impróprio. Será que fui claro, crianças?
Sem ter coragem de contradizer, Taehyung assentiu, parecendo
verdadeiramente preocupado. Após o jantar, nós dois ajudamos minha mãe
a limpar a cozinha, escovamos nossos dentes e nos preparamos para
dormir.
Minha cama ficava ao lado da janela de meu quarto, o colchão do ruivo
ficou afastado, devidamente forrado e arrumado. Vesti meu pijama xadrez
e sentei na cama, esperando que Taehyung viesse para que eu apagasse o
abajur. E pouco depois, ele entrou no quarto, fechando a porta devagar.
Meu queixo literalmente caiu ao vê-lo vestido com um pijama escuro de
bolinhas, porque era definitivamente uma das coisas mais fofas que já vi, e
era estranho, porque "fofo" era geralmente a última palavra que me vinha à
mente quando pensava em Taehyung.
Ele deitou no colchão, ajeitando-se nos cobertores e eu apaguei a luz,
deitando-me também. Fiquei de barriga para cima, encarando o teto de
meu quarto, reflexivo sobre o dia que tivemos. Uns vinte minutos depois, a
porta de meu quarto foi aberta e meu pai colocou a cabeça para dentro,
checando em nós e conferindo se tínhamos quebrado alguma "regra". Era
engraçado, pois ele tratava nós dois como dois adolescentes, e não dois
adultos.
Quando ele saiu, ouvi Taehyung rir baixinho, mas no silêncio do quarto,
qualquer coisa baixa parecia um grito.
— Seu pai é um bom homem — sussurrou.
Sorri.
— Sim, ele é. Ele não liga muito para o fato de eu ter 21 anos. Acho que
ele sempre vai me ver como um bebê, como o garotinho dele.
— Você é filho único, isso é normal — respondeu.
— Sim, mas as vezes é chato — comentei — porém, é o que dizem,
quantas mais regras ele coloca, mais gostoso deve ser quebrá-las.
— Hm — resmungou.
240
— Tem espaço no seu colchão? — Perguntei.
Taehyung pigarreou.
— É... não, na verdade não tem — sua voz parecia tensa.
Eu não sabia porque, mas aquilo me fez sorrir diabolicamente.
— Eu acho que tem — não escondi a sugestão.
Levantei de minha cama, e fui na ponta dos pés até seu colchão,
tropeçando num sapato que estava em meu caminho. Andar no escuro era
uma merda.
— Jeongguk, o seu pai vai descobrir — brigou sussurrando quando eu me
agachei e puxei sua coberta, me metendo ali junto dele — eu estou falando
sério! Ele vai descobrir e vai me castrar, Jeongguk! A gente nunca mais
vai transar, pensa nisso!
Dando uma risadinha, embrulhei-me completamente, sentindo Taehyung
abrir os braços e me puxar para deitar juntinho dele. Era engraçado que ele
falava isso, tentava "brigar" comigo, mas não estava fazendo nada para me
tirar dali. Seu perfume estava fraco graças ao banho, mas ainda estava
cheiroso. Eu podia sentir seu coração batendo em seu peito a um ritmo
acelerado, e me perguntava se ele também sentia o meu, como eu estava
feliz apenas por estar ali. Será que ele sentia o mesmo?
— Está vendo? Não é ruim, é? — Sorri.
— Não, não é ruim. Mas estou com medo de acordar sem meu pau amanhã
— resmungou, suspirando contra meus cabelos — você ainda será a causa
da minha morte, saiba disso.
— Morrer de amores, espero — brinquei.
— Se estivéssemos em posições trocadas, você não estaria brincando
assim — sua mão foi para minhas costas, fazendo carinho ali e eu me
aconcheguei o máximo que pude. Estava quentinho e confortável, e eu
sinceramente poderia fechar os olhos e dormir sem problemas.
— Fique sabendo que se meu pai te castrar, eu prometo que não irei
reclamar de viver apenas de boquetes.
241
Ainda bem que estava escuro, pois eu tenho certeza que ele estava me
fuzilando com o olhar agora.
— Você quer me matar mesmo, caramba — Taehyung afirmou antes de
capturar meus lábios num beijo calmo.
Era gostoso. Não estávamos com pressa alguma, apenas saboreando os
lábios um do outro, nossas línguas se tocando sem desespero, causando
arrepios por todo meu corpo. Mas não fizemos mais do que isso. Ele fez
carinho em meus cabelos, o abracei com força e assim, dormimos.
242
Capítulo 13 - Coming Undone
Acordei primeiro na manhã seguinte, lutando para não dormir de novo.
Durante a noite, mudamos de posição, e agora, eu estava deitado de
barriga para cima enquanto Taehyung me usava como travesseiro. Nossas
pernas estavam emboladas uma na outra, e eu acho que não conseguia
sentir meu pé direito, esmagado pela coxa dele.
Seria engraçado a gente acordando assim num dia normal, em um local
"seguro". Porém, estávamos na casa dos meus pais, e aqui não era o lugar
mais adequado. Se meu pai abrisse a porta e nos visse dormindo
abraçados, ele ia ficar extremamente aborrecido, principalmente
considerando como fora enfático com a gente sobre cada um dormir em
sua cama.
Esse pensamento me fez arregalar os olhos e empurrar Taehyung, fazendo-
o rolar pelo colchão até parar no chão, deitado de bruços e me fitando com
uma expressão incrédula. Dei um sorriso culpado.
— Foi mal — levantei, correndo até minha cama a apanhando meu celular.
Não estava muito tarde, então havia a possibilidade de que os dois não
tinham nos visto naquela posição. Mas eu tinha experiência quando se
tratava dessas coisas. Os pais sempre sabem de tudo. Tudo.
— Você podia avisar que ia endoidar antes de me jogar no chão assim —
resmungou, visivelmente mal-humorado.
Taehyung se levantou também e já se pôs a dobrar o cobertor e a ajeitar o
colchão. Eu não queria muito sair do quarto, ter que encarar os meus pais,
tomar café da manhã ou qualquer outra coisa de tanta preguiça. Mas nós já
243
iríamos embora hoje, então, não podia enrolar muito.
Sem tirar o bico emburrado da cara inchada de sono, o ruivo marchou para
fora do quarto e eu me segurei de começar a rir ali mesmo. Ajeitei minha
cama inutilizada, troquei de roupa e fui escovar os dentes.
Não encontrei Taehyung pelo corredor e nem pelo banheiro. O quarto de
hóspedes que ele tinha ocupado antes estava vazio, então supus que ele já
devia ter descido, e claro, minha suposição estava certa. Ele se encontrava
sentado à mesa junto de meus pais, comendo e rindo enquanto
conversavam alguma coisa em coreano.
Tomei meu lugar, dando "bom dia", mas fui ignorado, recebendo um
simples cumprimento de todos, para logo em seguida, voltarem a
conversar em coreano. Eles podiam ter um pouco de consideração comigo,
já que eu não era fluente na língua, mas não, foda-se o Jeongguk alheio a
tudo.
No entanto, eles não comentaram nada sobre a gente ter dormido junto (ou
ao menos eu acho que não porque não estava entendendo nada), até porque
se fosse esse o caso, meu pai não estaria todo sorridente. Ele já teria
sentado nós dois no sofá e faria um discurso de meia hora, pelo menos, nos
dando uma bela lição acerca de respeito, pudor e prudência.
O combinado era de partirmos logo após o café, e eu tinha visto que minha
mãe realmente preparou a receita de sopa de peru para que eu pudesse
levar. Quando o relógio marcou onze e meia da manhã, Taehyung
anunciou nossa partida, após colocarmos nossas coisas no carro, fui me
despedir dos meus pais. Minha mãe fizera todo um discurso sobre me
alimentar bem, cuidar da minha saúde, voltar para a semana do Natal, e
não ficar preso no campus.
Já meu pai, depois que fez um discurso similar, chegou em meu ouvido e
sussurrou: eu vi vocês dois dormindo juntos, mas resolvi não acordar ou
reclamar porque vocês estavam vestidos e Taehyung estava te usando
como travesseiro. Mas, da próxima vez, respeitem as minhas regras!
Claro que assim que deu partida na Range Rover, o ruivo engoliu em seco
e afirmou como "nunca mais vamos dormir no mesmo quarto quando
estivermos visitando seus pais", porque segundo ele, meu pai conversava
consigo também.
244
— Você quer ir direito para o seu dormitório? Pensei de a gente passar no
meu, sabe... — Comentou Taehyung, depois de uns quinze minutos de
estrada — você nunca foi lá, e eu queria te mostrar, se bem que não tem
nada de muito espalhafatoso.
— Eu adoraria — sorri, acariciando os cabelos de sua nuca enquanto ele
não desviava o olhar da pista — eu já estive lá, para falar a verdade. Sei
que você mora numa área de dormitórios reservada para alunos mais ricos.
O mais velho sorriu, assentindo, e tomando o caminho pela rua Apache até
chegarmos ao campus Tempe da universidade. O tempo estava fresco
naquele final de novembro, com a chegada do inverno, e em breve,
começaria a nevar. A estação de esqui no Arizona Bowl abriria e seria um
programa mais do que ideal para aquela época do ano.
Assim que entramos nos terrenos da faculdade, Taehyung estacionou o
carro no estacionamento reservado para estudantes ao lado dos
dormitórios. Eu havia trazido uma mochila comigo de casa embora não
tivesse levado uma na ida. Descemos do carro com as mochilas em mãos,
em direção aos dormitórios, e não demoramos a chegar no pequeno
apartamento habitado por Taehyung, que ficava ali naquele complexo.
Ao destrancar a porta e me dar espaço para entrar, observei como o local
era organizado e simples. Um sofá pequeno de couro, uma televisão,
alguns quadros que pareciam ser releituras de obras famosas, porta-retratos
espalhados por todo quanto é lugar, uma cozinha anexa à sala, e uma porta
que provavelmente levava a suíte. Nada muito espalhafatoso, mas eu
definitivamente não poderia pagar por um apartamento daquele tamanho
jamais.
Observando as fotos repleta de rostos desconhecidos (o rosto conhecido de
Jimin em algumas delas), uma contendo a figura de um cachorro de porte
pequeno muito adorável. Sorrindo, larguei a mochila no chão e peguei o
porta-retrato, vendo a foto do cachorro mais de perto.
— Ele é muito fofo, não é? — Taehyung perguntou, me encarando do
batente da porta da suíte.
Assenti.
— Qual é o nome dele mesmo?
245
— Yeontan. Quando nós formos para a Coreia, eu espero poder te
apresentar a ele — comentou, adentrando o quarto.
Colocando o porta-retrato de volta no lugar, caminhei até ele havia
sumido.
— Por que você não o trouxe com você? — Indaguei, fitando a cama de
casal e o guarda-roupa.
— Ah, você sabe — Taehyung respondeu, e eu parei na soleira da porta,
encarando-o enquanto mordicava meu lábio. Ele estava de costas, só de
cueca, pegando uma muda de roupa de dentro do guarda-roupa — trazer
bichinhos de estimação de outro país é complicado — vestiu uma calça
preta — e também, o dormitório tem regras estritas acerca de bichos, e eu
resolvi não passar pela dor de cabeça.
Ao contar, ele se virou, vestindo uma camiseta de gola polo preta,
arqueando uma sobrancelha ao me ver parado ali.
— Você estava me espionando como um grande esquisitão? — Sorriu
divertido.
— Eu? Jamais — revirei os olhos, fingindo desdém — a gente estava
tendo uma conversa decente aqui.
— Já passou do horário do almoço, então pensei de a gente ir no MU
comprar alguma coisa, o que acha?
Ele não precisou sugerir duas vezes, o sorriso empolgado em meu rosto
disse tudo.
[...]
Tae <3: Jeongguk, o que acha de passar o feriado do Natal com minha
família?
Tipo, viajar para a Coreia?
Tae <3: Isso, tipo viajar para a Coreia.
Não é que eu não queira, eu quero sim, mas, você tem certeza? Você
pensou o feriado de Ação de Graças comigo e meus pais, mas foram
246
apenas meus pais.
Tae <3: Não precisa ficar com vergonha de conhecer meus parentes,
Gukkie.
Como eu vou falar com eles? Eu não sei coreano!
Tae <3: Vamos contratar um tradutor particular.
Eu estou falando sério!
Tae <3: E eu também.
Posso pensar pelo menos?
Tae <3: O tempo que você precisar, mas não demora muito.
E o que você está fazendo agora de bom?
Tae <3: Nada, estou deitado na cama e vendo fotos do meu cachorro no
celular. Pensei em levantar para jogar Overwatch ou sair um pouco, mas
a preguiça está falando mais alto nesse momento.
Você joga Overwatch? Eu também! Depois me adiciona e vamos jogar
juntos. Meu user é Seagull.
Tae <3: Não acredito.
No quê?
Tae <3: Você é aquele engraçadinho que me venceu no solo. Eu sou o
Vantae.
Mentira lol. Era você? Eu te dei uma bela surra.
Tae <3: Não exagera, você venceu por muito pouco.
Claro, claro. Continue se iludindo, não dói nada mesmo.
Tae <3: Foi concorrido.
Vamos jogar de novo depois e vejamos quem vai vencer, então.
247
Tae <3: Pode ser.
Combinei com os meninos de a gente ir jogar paintball nesse sábado, o
que você acha?
Tae <3: Vamos ficar no mesmo time?
Podemos!
Tae <3: Então, animo.
Você bem que podia vir aqui agora, né?
Tae <3: Hm, podia é...
Sim, a gente podia passar um tempo juntos.
Tae <3: Ou você podia vir também.
Eu adoraria, mas pensa numa preguiça que eu estou agora.
Tae <3: Se você vier, eu chupo você.
Tentador
Tae <3: Chupo pela frente e por trás.
Quando foi que esse papo ficou tão impróprio para menores de idade?
Tae <3: A partir do momento que você sugeriu de eu ir aí. Você adora me
provocar.
Isso não é verdade, eu nunca fiz isso.
Tae <3: Eu te liguei aquela vez para conversar numa boa e a gente
acabou fazendo sexo por telefone, Jeongguk.
Mas foi gostoso, admite aí.
Tae <3: Foi ótimo.
E agora, você quer sexo por mensagem.
248
Tae <3: Não fui eu quem fez a sugestão.
Estou tirando minha camiseta já, se eu fosse você, desenrolava.
Tae <3: Maldito, você realmente quer fazer isso assim?
Eu te ligo depois, prometo.
Tae <3: Certo, toque seus mamilos, jagi.
Jagi é golpe baixo.
Tae <3: Espero que já esteja se tocando.
Eu queria tanto que você estivesse aqui.
Tae Jagi: Por quê? Você não precisa de mim para se sentir bem, jagi.
Preciso sim. Você tem ideia do que faz comigo? O seu corpo, a sua voz.
Sabe como eu fico excitado quando você geme no meu ouvido?
Tae Jagi: E o que você gostaria que eu estivesse fazendo com você agora?
Eu queria que você estivesse em cima de mim, me pressionando contra a
cama.
Tae Jagi: Imagine que estou aí com aí, tocando você por cima da sua
calça, enquanto estou em cima de você beijando seu pescoço.
Ah, Tae. Está um saco digitar enquanto me toco com uma mão só. Vou te
ligar.
Tae Jagi: Não, você não vai.
Mas eu quero ouvir a sua voz. Deixa eu te ligar :(
Tae Jagi: Não, jagi. Não te dei permissão para me ligar.
Você é mal.
Tae Jagi: Sou? Não sou eu quem está aí na sua imaginação te tocando?
249
Sim :(
Tae Jagi: Posso escutar você choramingando daqui. Você consegue
lembrar de como é quando eu te possuo?
Quando você me fode com força?
Tae Jagi: Exatamente. Eu sempre te preparo com carinho para depois
acabar com você. E você ama.
Sim, eu amo. Tae, eu estou com dois dedos dentro de mim e é tão bom.
Tae Jagi: Seus dedos são tão pequenos. Eles não conseguem te alargar
como os meus conseguem. Imagine que são os meus dedos aí, brincando
com você.
Filho da puta, eu vou gozar só de imaginar isso.
Tae Jagi: Do que me chamou?
Não vou repetir, não.
Tae Jagi: Acho bom você pedir desculpa nesse exato momento.
Senão o quê? Você não pode fazer nada.
Tae Jagi: Não posso? Você não perde por esperar.
Não perco nada.
Tae Jagi: Você sabe que está pisando em terreno perigoso.
Sei?
Taehyung?
Taehyung? Você não vai me deixar sozinho e excitado de novo.
Você está visualizando! Fala alguma coisa!
Tae Jagi: Fraternidade.
250
O quê?
Tae Jagi: Estou indo para a festa deles aqui no campus, se quiser gozar
com a minha ajuda, apareça.
Seu desgraçado, não vou sair com uma maldita ereção.
Tae Jagi: Ah, mas você vai sim. Eu adoraria continuar aqui, descrevendo
por mensagem como eu ia te segurar com força e meter o meu pau em
você até você gritar, mas você não quer :(
ONDE FOI QUE EU DISSE QUE EU NÃO QUERIA?
Tae Jagi: É realmente uma pena, Jeonggukie. Eu ia te falar como eu iria te
foder gostoso, uma pena que você não quer.
Você é um desgraçado, como eu te odeio.
Tae Jagi: Sua boca fica muito suja quando você está irritado. Acho que
preciso te castigar por isso.
Como se eu fosse deixar você fazer alguma coisa.
Tae Jagi: Você vai. Acredite em mim, você vai. E quando eu tiver
terminado, você nunca mais vai me xingar sem minha permissão.
Eu não preciso da sua permissão, não. Nunca precisei! Você se acha bom
demais, acha que eu não tenho resistência contra você.
Tae Jagi: E você tem?
Tenho sim.
Tae Jagi: Boa sorte com a ereção, Jeonggukie. Você vai precisar.
[...]
Eu não estava com raiva de Taehyung, não dessa vez. Mas ele precisava
me provocar toda santa vez? E eu precisava cair na dele toda a vez?
Revirei os olhos, irritado com o tanto que a minha carne era fraca porque
sim, eu estava indo para a maldita festa da fraternidade.
251
Muitas coisas passaram por minha cabeça. E se ele tivesse brincado e não
tivesse ido para lugar nenhum? Imaginei a cena de eu chegando lá e não o
encontrando. Até tomei um banho de última hora, ficando mais cheiroso
que nunca e enfiei algumas camisinhas no bolso. A julgar pela nossa
conversa, a gente ia transar, e eu estava ansioso.
Acho que seria loucura da minha cabeça, mas acho que durante todo esse
tempo eu me enganei, fingi que não gosto da forma como ele me provoca,
mas puta merda, preciso admitir que me excita demais.
Chegando na casa, passei pelas pessoas embriagadas na entrada e avistei
um pequeno bar montado, onde um garoto fazia drinks. Pedi um coquetel
de gim com suco e enquanto aguardava a bebida ser preparada, mandei
uma mensagem.
Estou aqui. Onde você está?
Tae Jagi: Sofá da sala, ao lado da galera pelada dançando.
Pensei que ele fosse provocar mais um pouco porque eu estava ali, mas
não. Peguei meu drink, tomando um gole e caminhando em direção a sala.
Realmente, havia um grupo de meninos e meninas dançando pelados no
meio do espaço mal iluminado e eu franzi a testa para a bizarrice daquilo.
Literalmente se assemelhava com um American Pie.
Taehyung estava sentado no sofá enquanto mexia no celular, e havia um
casal se pegando bem ao lado dele. Ele não usava uma bandana como era o
costume, e ao contrário do habitual, vestia uma camisa branca, em vez de
cores escuras e a jaqueta. Mas não era surpresa para mim que ele estivesse
atraente até daquele jeito.
Caminhei em sua direção, vendo quando seu olhar levantou do celular. Ele
ia se levantar do sofá, porém, eu coloquei uma mão em seu peito e o fiz
sentar encostando-se contra o tecido macio do sofá. Posicionei minhas
pernas de cada lado de suas coxas, sentando em seu colo. Quis rir de sua
expressão. Ele parecia chocado que eu estava fazendo aquilo na faculdade
no meio de toda aquela gente.
Tomei mais um gole do coquetel e me debrucei, capturando seus lábios
num beijo afoito, agarrando seus cabelos com a mão livre. Claro que ele
retribuiu, apertando minha cintura sobre o moletom que eu usava e
252
tentando me trazer para mais perto de seu corpo.
— Você precisa parar de me provocar o tempo todo — resmunguei contra
seus lábios, me afastando e bebendo mais um pouco.
— E você precisa parar de ser tão mimado o tempo todo.
— Não consigo, é mais forte que eu — dei de ombros, capturando seus
lábios mais uma vez, mas foi apenas um mero encostar pois ele não
deixou.
— Mais forte? — Riu de forma sombria — eu realmente preciso te colocar
no seu lugar, não é?
— Eu realmente adoraria ver você tentar — desafiei, dando um sorrisinho
matreiro.
Taehyung não desviou o olhar do meu, parecendo de repente sério demais
quando gritou por sobre meu ombro:
— Kevin, você ainda tem aquela vodca russa?
Olhei para trás e vi um rapaz negro, que estava parado perto da lareira da
sala conversando com uma menina, tornar sua atenção para nós com a
testa franzida.
— Tenho sim, Kim. Por quê?
— Eu gostaria de usá-la para uma brincadeira, prometo não beber tudo,
relaxa — comentou misteriosamente, levantando-se do sofá e me
obrigando a ficar em pé.
Franzi a testa, confuso. Ele por acaso iria me embebedar ou algo do tipo?
Estava prestes a perguntar e descobrir para o que diabos ele gostaria de
uma vodca, mas ao invés disso, Taehyung segurou minha mão e me
direcionou para o bar montado na festa, chamando o garoto que preparava
os drinks e sussurrando alguma coisa em seu ouvido. Na hora, o garoto
sorriu safado e cortou uma rodela de laranja, dividindo-a em duas partes.
A cada segundo que passava minha confusão aumentava. O homem
chamado Kevin se aproximou trazendo uma garrafa do que parecia ser
uma vodca caríssima e a passou para Taehyung que se aproximou e
253
sussurrou alguma coisa em seu ouvido também. A reação dele fora
semelhante à do garoto do bar, mas ele não sorriu, ele gargalhou alto,
dando dois tapinhas nas costas do ruivo e o elogiando pelo o que diabos
ele estava planejando fazer.
E então, a criatura começou a gritar e a chamar a atenção de todos, porque
segundo ele, todos precisavam ver aquilo. Ver o quê?
Taehyung segurou minha cintura e me colocou sentado no balcão.
— O que você...
Ele me beijou e me interrompeu, arrancando um berro empolgado das
pessoas que se aglomeraram ao redor.
— Deita.
— Aqui? Por quê? — Arqueei uma sobrancelha, intrigado.
— Confie em mim — olhou nos meus olhos — apenas deita e curte.
Eu estava desconfiado e um pouco temeroso, mas eu confiava em
Taehyung, afinal, ele era meu namorado. Então, respirei fundo e assenti,
deitando-me sobre o balcão, tentando manter a calma. Não sabia o que ele
faria, porém, me surpreendi ainda mais quando ele tomou impulso e subiu
no balcão também, ficando por cima de mim.
Taehyung me fitava com um sorriso extremamente safado e por um
minuto, me perguntei se tinha sido prudente confiar nele mesmo. Suas
mãos seguraram a barra de meu moletom e minha camiseta, subindo-os até
que toda a minha barriga ficou exposta.
— Ele tem gominhos — uma garota falou ao lado — puta merda, isso vai
gostoso demais de assistir.
Pegando as rodelas de laranja cortadas, ele as colocou sobre minha pele,
perto de meu umbigo. Debruçando-se sobre mim, o ruivo beijou minha
barriga, depositando beijos sutis por meus gominhos até chegou às rodelas.
Capturou uma delas com os lábios, chupando um pouco de seu suco e se
ergueu, aproximando-se de meu rosto.
Descendo, Taehyung colocou a rodela de laranja em minha boca, fazendo-
254
me segurá-la com meus dentes. Sorrindo, ele passou a língua por meu
lábio e chupou a rodela mais uma vez antes de descer.
O pessoal gritou mais uma vez, encorajando o que estava por vir. Ainda
com a coisa na boca, vi ele abrindo a garrafa de vodca russa e despejá-la
sobre mim. Estremeci um pouco com o contato do líquido alcoólico em
minha pele, escorrendo de meu umbigo e de minha barriga.
Sem proferir uma palavra sequer, meu namorado abaixou-se novamente.
Ao invés de beijar minha barriga, sua língua foi passeando por meus
gominhos e chupando todo o rastro da bebida que havia ali. Mesmo com a
laranja em lábios, soltei um gemido baixinho, nem um pouco incomodado
ou constrangido, como eu supunha que devia me sentir.
Taehyung passava a língua perversa por toda a extensão de minha pele,
erguendo a cabeça para me fitar e lamber os lábios.
— Muito gostoso, Jeongguk.
E então, sua boca foi para meu umbigo e sugou toda a vodca concentrada
ali. Cuspi a laranja para o lado e mordisquei meu lábio, reprimindo um
gemido. Todos em volta comemoraram, e para completar, Taehyung pegou
a outra rodela de laranja, chupando-a e jogando no lixo atrás do balcão
antes de olhar para mim com um sorriso.
Ele desceu e me ajudou a descer também, embora minhas pernas
estivessem completamente dormentes. Meu corpo todo estava em chamas
e eu jurava que podia enlouquecer ali mesmo. A vontade de transar
aumentara ainda mais, e se antes eu queria Taehyung, agora eu estava
literalmente necessitado por ele.
Parecendo notar meu aparente desespero, o ruivo ignorou todos ao redor e
me levou escada acima, procurando um dos quartos disponíveis. Não havia
nenhum, mas havia um armário cheio de tranqueiras vazio. Entramos lá
dentro e ele logo trancou a porta.
Tentei beijá-lo, mas Taehyung segurou meus dois pulsos e me virou de
costas para si. Sua virilha encostou-se em minhas nádegas enquanto ele
prendia meus pulsos contra a parede. Virei meu rosto, tentando vê-lo ou
perguntar se ele queria transar assim, mas o próprio falou.
255
— Você foi um garoto levado, Jagi — sussurrou em meu ouvido — você
gemeu na frente de todas aquelas pessoas... tsc, tsc.
— Tae — uma bela ereção jazia entre minhas pernas e eu tentei esfregar
minhas coxas, em busca de atrito.
— Você é sempre tão atrevido — riu baixinho — tem uma boquinha suja
demais.
— Me fode — gemi.
— Será que você merece? — Levou os lábios para meu pescoço, deixando
lambidas em minha pele. — Eu acho que não. Lembra de como você se
comportou mais cedo?
Eu estava querendo transar fazia um bom tempo, desde que conversamos
pelo celular, e o maldito estava adorando me provocar. Mais uma vez, eu
estava adorando isso. Eu adorava isso.
— Taehyung, por favor — implorei, perdendo a força em minhas pernas.
Por sorte, ele percebeu e soltou minhas mãos, segurando minha cintura.
Aproveitando a posição, o ruivo desceu a destra para o fecho de minha
calça e a abriu. Não segurei o suspiro de alívio que saiu de meus lábios
quando a calça e a cueca ficaram dependurados em meu joelho, libertando
meu pênis endurecido.
Sua mão grande apanhou minha extensão e ele começou a me masturbar
enquanto eu deitava minha cabeça em seu ombro.
— Mais rápido — choraminguei.
— Como é? Eu não ouvi.
Filho da mãe.
— Vai, Tae. Me toca direito — reclamei.
Rindo no pé de meu ouvido, ele largou meu membro e se agachou atrás de
mim. Sem cerimônia alguma, afastou as duas bandas de minhas nádegas e
passou a língua por minha entrada.
256
— Não se toque, Jeongguk — avisou —, quero que você goze apenas com
isso. Esse é o seu castigo.
— E se eu me tocar? — Perguntei, petulante, mordendo o lábio inferior.
— Se você se tocar, você não vai gostar do que eu vou fazer.
Sorri, gemendo alto quando Taehyung me penetrou com sua língua.
— Eu gostaria de te ver tentar me castigar de verdade — provoquei, e sem
dar a mínima, desci minha mão para minha extensão.
Ouvi um grunhido alto saindo de seus lábios enquanto me estimulava e
escutei o som familiar da camisinha sendo aberta.
— Você quem pediu — sussurrou, me penetrando com um dedo molhado.
Não tínhamos paciência para fazer aquilo durar, era para ser uma
rapidinha, então, ele não demorou muito para terminar de me preparar e se
levantar. Quando senti seu pênis posicionado em minha entrada, não pude
evitar empinar mais o traseiro, pronto para recebê-lo. A penetração foi
dolorida como imaginei que seria, mas não quis parar.
O encorajei a continuar, mas Taehyung esperou algum tempo, enterrado
dentro de mim antes de finalmente se mover. Seu quadril se chocava
contra o meu enquanto fazíamos sexo em um lugar proibido, tentando não
gemer tão alto. O rosto dele estava em meu pescoço enquanto uma de
minhas mãos cobria meus lábios. Eu estava muito excitado desde que saí
de casa, e toda a coisa com o body shot só aumentou o meu desejo, então,
não demoraria para que eu gozasse.
O ruivo dirigiu uma de suas mãos para meu membro enquanto a outra
segurava minha cintura, estimulando-me rapidamente. Engasguei com o ar
quando o prazer cortou meu corpo e me fez tremer assim que liberei.
Taehyung veio logo em seguida, despejando dentro da camisinha enquanto
recuperava o fôlego contra meu pescoço.
Em silêncio, me movi devagar de forma que ele saísse de dentro de mim e
subi minhas calças, abotoando-as de volta.
— Eu amo rapidinhas, e você? — Brincou, deixando beijinhos em minha
257
nuca.
— Você não presta — gargalhei.
258
Capítulo 14 - Going Under
Estávamos no apartamento do dormitório de Taehyung numa tarde de
sexta-feira. O tempo estava frio e caía alguns poucos flocos de gelo
deixando as ruas escorregadias.
Particularmente, eu até gostava do inverno. Minha infância era repleta de
memórias divertidas na véspera de Natal, brincando na neve, ajudando
minha mãe a limpar o jardim da casa, ou tomando chocolate quente com
marshmallow debaixo dos cobertores.
O aniversário de Taehyung era nessa época, exatamente no dia 30 de
dezembro, e ele estava extremamente ansioso. O Grand Slam do tênis
começaria em 31 de dezembro, ou seja, provavelmente passaríamos o
aniversário dele na Austrália, onde ocorreria o jogo. Ele fez questão de
conseguir um lugar para mim em meio à plateia, e como um bom
namorado claro que não recusei.
Porém, antes de tudo isso, comemoraríamos o Natal com os pais dele na
Coreia. Depois de tanta insistência, acabei cedendo, embora não deixasse
de me sentir inseguro com toda a situação. Eu não sabia falar coreano,
então minha comunicação com a família dele seria bem limitada, embora
garantisse que seus progenitores sabiam falar inglês perfeitamente.
Todos me garantiam que daria tudo certo e eu não tinha motivos para me
preocupar. Quando fomos esquiar o Arizona Bowl no início de dezembro,
Ryan, notando minha ansiedade, me puxou para um canto e conversou
comigo por parcos segundos, pedindo para que eu mantivesse a calma,
afinal, eu parecia prestes a explodir a qualquer momento. Ele não podia me
culpar. Quem em sã consciência não estaria morrendo só de pensar que
259
conheceria os sogros estrangeiros cuja língua você não fala?
— Qual o problema? — Taehyung perguntou baixinho, passando o nariz
pelo vão de meu pescoço enquanto sua respiração normalizava. Gemi
baixinho quando ele se retirou de dentro de mim, sentindo o lubrificante
escorrer por minha bunda. O plano inicial era ver um filme, o que a gente
não contava era que o filme contivesse cenas de sexo extremamente
explícitas. Como resultado, a gente se excitou e transou no sofá.
Meu peito subia e descia, me recuperando do orgasmo. Aquilo era
péssimo. Havíamos chegado num nível de intimidade daquele em tão
pouco tempo? Do tipo que ele consegue perceber quando algo está me
preocupando sem eu precisar falar?
— Nada não — desconversei.
Levantando a cabeça, o ruivo apoiou os braços tatuados de cada lado de
meu pescoço, erguendo-se um pouco e me encarando preocupado. Os
cabelos estavam grudados na testa graças ao suor acumulado,
consequência de nossa interação física. Irônico que do lado de fora fazia
um frio sem precedentes.
— Você faz essa coisa fofa com o nariz quando mente, sabia? — Sorriu.
— O quê? Não faço nada com o nariz, não — levei uma mão até o meu
rosto, cobrindo-o.
— Fez de novo — seu sorriso aumentou, mostrando completamente seus
dentes e delineando seus lábios em forma de coração — você fica fofo
quando tenta esconder.
Bufando, revirei os olhos, descendo minhas duas mãos para sua cintura.
Tudo bem que ele estava em cima e nós dois estávamos completamente
desprovidos de qualquer peça de roupa, mas esse era apenas um detalhe a
mais, não fazia lá muito diferença.
— Sério, Guk. O que houve? — Perguntou novamente.
— É só que — suspirei, fechando os olhos por alguns segundos — eu
estou preocupado com a viagem. Estou preocupado com tudo. Esse fim de
ano vai ser tão movimentado!
260
— Verdade — assentiu — mas eu não estou preocupado, você também
não devia estar. Eu vou me esforçar ao máximo para você se divertir e não
se sentir desconfortável.
— Promete que não vai sair de perto de mim? Eu sei que é bobeira, mas
quando estivermos visitando sua família, eu não quero estar sozinho perto
de gente que eu não conheço e não tenho condição de me comunicar, caso
eles tentem puxar assunto comigo — pedi, com olhos suplicantes.
— Está tudo bem — deu um beijinho na ponta de meu nariz — eu não vou
sair do seu lado. O simples fato de você já ter concordado em ir já é
demais para mim. Você não tem ideia do quanto significa para mim, saber
que irei te apresentar aos meus pais. Esperei muito por esse momento,
Jeongguk.
Eu sabia disso. Ele esperou anos para aquele momento, e eu prometi a
mim mesmo que daria o meu melhor naquela situação. Daria tudo certo.
[...]
As coisas definitivamente não estavam dando certo.
E eu tinha certeza disso a partir do momento em que nós precisamos
realizar duas viagens internacionais em três dias, e isso apenas serviu para
aumentar meu nervosismo. Nosso voo com escala era até a Coreia do Sul,
no entanto, assim que pisamos em território coreano, Taehyung recebeu
uma ligação de sua mãe informando que houve uma mudança de planos e
eles estavam na propriedade da família na Escócia. Na Escócia! O que
diabos eles estavam fazendo no Reino Unido?
Até aí, tudo bem. Pegamos mais dois voos e logo estávamos pousando em
Edimburgo. Era sim mais tranquilizante estar num país cuja língua falada
pelo menos era o inglês, mas não ajudava nada em diminuir meu
nervosismo. Questionei meu namorado acerca da condição financeira de
sua família, afinal, não era qualquer pessoa que tinha capacidade de
comprar uma casa num país estrangeiro, ainda mais o Reino Unido, cuja a
moeda era mais cara do que o próprio dólar americano. Ele apenas deu de
ombros, preferindo não falar nada.
Mas, quando pegamos um táxi em direção a propriedade da família, meu
queixo foi ao chão. RothesGlen House. Esse era o nome da mansão que os
261
Kim tinham nas Highlands Escocesas. Um lugar lindo e de tirar o fôlego.
Engoli em seco, procurando manter a calma. Eu não tinha motivos para
pensar coisas negativas.
Taehyung apertou minha mão, sorrindo empolgado para mim e eu tentei
devolver o sorriso com a mesma animação, embora não a sentisse. O táxi
parou e descemos, sendo recebidos por uma mulher e um homem. Os dois
eram estavam extremamente bem-vestidos, deviam estar na meia idade e
sorriam calorosamente na direção do ruivo. Foi aí que notei a semelhança
dele com a mulher. Ela definitivamente devia ser a mãe dele.
Indo em direção ao filho, ela o abraçou e começou a falar várias coisas,
conversando com ele em coreano. Seu marido seguiu o ritmo e logo em
seguida o abraçou, falando uma série de coisas. Eu estava um passo atrás
de Taehyung, sentindo vontade de vomitar. Nunca me senti tão
desconfortável em toda a minha vida, mas tudo bem, Tae deve ter sentido
o mesmo quando conheceu meus pais, isso certamente era normal, certo?
No entanto, ao invés de me cumprimentar como minha família fez, a mãe
de Taehyung colocou um braço sobre seus ombros e tentou guiá-lo para
dentro da mansão junto do marido. Eu já sentia um frio absurdo por causa
da neve que caía, minhas bochechas coradas sendo cortadas pelo vento
congelando, mas aquela atitude pareceu deixar o tempo cinco vezes mais
gélido do que já estava.
Eu não estava maluco. Eles estavam ignorando a minha existência de
propósito.
Toda a insegurança e sensação ruim que eu sentia pareceram se confirmar,
como se eu realmente tivesse um motivo plausível desde o início.
— Esperem, não — Taehyung se desvencilhou de seus progenitores e
voltou até ficar do meu lado, entrelaçando os dedos nos meus — mãe, pai,
este é Jeon Jeongguk, meu namorado.
O alívio me invadiu quando o ruivo falou em inglês. Minha mãe me
educou muito bem, então, curvei meu corpo numa reverência perfeita,
exatamente como fui ensinado.
— É um prazer conhecê-los, Sr. e Sra. Kim — minha voz saiu o mais
educada e polida possível.
262
Diferentemente de como com meus pais, não recebi nenhuma reação
acalorada, e eles não pareciam nem um pouco felizes de estarem me
conhecendo. Apenas me encaravam sérios e contidos, fazendo-me
questionar se talvez o melhor não fosse voltar junto do taxista e pedir para
ele me deixar no aeroporto novamente. O olhar julgador deles era
sufocante demais e eu temia que tivesse de suportar isso durante os poucos
dias que estaríamos ali. Mas aí, esse era justamente o motivo pela qual eu
devia ficar. Seriam apenas poucos dias e isso significava muito para
Taehyung, eu devia me lembrar disso.
Então, a mãe dele deu um passo à frente e abriu um sorriso amistoso para
mim.
— Seja bem-vindo à nossa humilde casa, Jeongguk. Espero que nossos
gostos não te deixem desconfortável, mas acho improvável considerando
que sua família é de classe média — cumprimentou, em inglês perfeito —
por que não vem comigo? Lhe mostrarei os quartos que separamos para os
dois.
— Na verdade, eu quero que fiquemos no mesmo quarto — Taehyung
pediu.
— Ora, filho, sua mãe fez toda uma preparação para ambos! — O Sr. Kim
tentou protestar.
Fez uma preparação, mas ignorou a minha existência como se eu não
estivesse ali. Que tipo de preparação era aquela?
— Me desculpe por isso, mas eu quero ficar com Jeongguk, espero que
vocês entendam isso — insistiu o ruivo, cruzando os braços.
Como um bom filho mimado...
— Certo — a voz da mulher saiu cheia de um nojo contido — um quarto
para os dois dividirem. Venha comigo, Jeongguk, terei o maior prazer
levá-lo até lá.
Ela estava fazendo exatamente como meu pai, mas algo me dizia que seria
bem diferente do que foi no feriado de Ação de Graças. Em silêncio,
caminhamos pela entrada limpa de neve e adentramos a suntuosa mansão.
263
Tudo ali era do material mais bonito e polido, lustres pendurados no teto,
portas e móveis de mogno. Era tão estéril, tão sem vida, e ao mesmo
tempo esbanjava luxo. Segui a Sra. Kim escada acima e passamos pelo
corredor de quartos até chegar em um quarto que ficava no final do
corredor. Abrindo-a, ela gesticulou para que eu entrasse e assim o fiz.
Logo em seguida, ela imitou minha ação, e fechou a porta atrás de si,
trancando-a. O quarto era de um tamanho moderado e aconchegante.
Havia uma cama queen sizecom cobertores grossos e felpudos, uma lareira
acesa, uma mesinha de mogno ao lado da janela cuja vista permitia ver a
neve começar a cair, um guarda-roupa e uma porta que levava até a suíte.
Era tudo simplesmente impressionante.
Pigarreando, a mulher chamou minha atenção e eu notei que ela estava de
braços cruzados, me fuzilando com os olhos.
— Eu sinceramente não sei qual a intenção de Taehyung ou o que ele
imaginava quando ele decidiu te trazer. Onde diabos ele estava com a
cabeça quando pensou que isso seria uma boa ideia? — Começou, bufando
irritada. — Serei franca com você, pois odeio dissimulação, e odeio mais
ainda ter que fingir que estou recebendo um hóspede de braços abertos
quando minha intenção passa longe disso. Eu não sei o que você pensa que
é, ou o que você pensa que pode fazer namorando o meu filho. Já vi
muitos rapazes como você, interesseiros e pistoleiros. Eu sei exatamente o
tipo de pessoa que você é, e eu quero que você saiba que eu farei tudo o
que estiver ao meu alcance para manter meu filho longe de você.
Abri a boca para protestar, chocado e surpreso, mas ela continuou.
— Sabe, quando Taehyung revelou a orientação sexual dele para mim e
meu marido, de início, ficamos ultrajados, mas depois, passamos a aceitar
nosso filho. A única coisa que esperávamos era que ele namorasse algum
herdeiro, alguém que fosse importante, que pudesse acrescentar em nossa
família. E ao invés disso, ele me trouxe você — sua voz beirava o desdém
— não me leve a mal, garoto. Você deve entender meus anseios como
mãe, afinal, eu só quero o que há de melhor para meu filho. Sem contar
que também me pergunto se errei em meu papel quando não impedi
Taehyung de ir para os Estados Unidos. Inacreditável, sabia? Mais
inacreditável ainda é saber que ele está com você depois de tudo o que
Jimin te disse. Achei que o recado estava dado quando pedi para ele afastar
264
meu filho de você.
Arregalei os olhos, sentindo minha respiração falhar.
— Impressionante, de verdade. E você ainda teve a cara de pau de vir até
uma de minhas casas esperando que eu fosse te receber de braços abertos
quando você desprezou meu filho? Quando você fez ele chorar exatamente
como Jimin me contou? Não, apenas não. Eu esperava que Taehyung,
como o garoto inteligente que ele é, bonito e ainda tenista talentoso
pudesse fisgar quem ele quisesse, mas ele optou pelo garoto pobre que não
tem onde cair morto e é justamente por isso que não vou permitir esse
relacionamento — respirou fundo. — Jimin me contou tudo o que
aconteceu nos Estados Unidos e imagine meu choque de saber que teria de
te receber aqui como hóspede? De saber que meu filho escolheu namorar
um morto de fome.
Meus lábios tremeram e eu comecei a chorar baixinho, as lágrimas
escorrendo por meu rosto, extremamente afetado por suas palavras
venenosas e dolorosas. Eu não tinha coragem de falar qualquer tipo de
coisa que pudesse rebater o que ela dizia, afinal, eu estava na casa dela,
num local onde eu não era bem-vindo. Então, fiz a única coisa que me
parecia plausível no momento, abaixei a cabeça e sussurrei:
— Me desculpe.
— Esqueça as desculpas. A melhor forma que você pode realmente se
desculpar é terminando com meu filho. Faça um favor a ele, e faça um
favor a você mesmo acabando com esse relacionamento — exigiu.
— Eu não posso e também não quero terminar com ele — respondi,
baixinho.
— Não importa o que você quer, importa o que é correto — afirmou,
empinando o queixo — vou descer para comer junto de meu marido, filho
e o resto de nossa família. Direi que você dormiu, e se você tiver bom
senso, não irá se juntar a nós e voltará para o buraco de onde você veio o
mais rápido possível.
Dito isso, abriu a porta do quarto e se retirou, me deixando sozinho ali.
Eu queria ir embora. Queria sair dali, queria voltar para os Estados Unidos,
265
correr para a casa dos meus pais e chorar nos braços da minha mãe. Eu
queria a minhafamília, os meus amigos.
Como eu poderia fazer Taehyung feliz passando o Natal com a família
dele quando está mais do que claro que eu não era bem-vindo aqui? Eu
nem devia estar aqui, a Sra. Kim deixou isso claro, ela praticamente me
expulsou.
Deitando-me na cama, segui seu "conselho" e dormi após chorar tanto que
minha cabeça começou a doer.
[...]
— Jeongguk? — Uma voz conhecida soou ao pé de meu ouvido e eu
resmunguei, insatisfeito — acorda logo, cara!
Assustei-me com o timbre mais agudo da voz e ao virar meu rosto para o
lado, surpreendi-me ao ver que quem estava ali era Jimin, o melhor amigo
de Taehyung. Tomei um baita susto, o que ele fazia ali? Ele estava
radiante, continuava tão bonito quanto eu me lembrava e me fitava com
uma expressão preocupada, o que era muito... estranho? De volta em
Phoenix, ele não demonstrou nenhum tipo de compaixão ou gentileza
comigo.
— Eu trouxe comida para você — disse, gesticulando para uma bandeja
sobre o pé da cama — e também, vim conversar com você. Os pais de
Taehyung estão monopolizando a atenção dele de propósito. Mas isso é
bom porque me dá tempo aqui. Acho que precisamos conversar.
— O que foi? — Perguntei com a voz chorosa e preguiçosa, não querendo
conversar de verdade.
— Antes de tudo, eu queria te pedir mil desculpas e perdão por tudo o que
fiz. Eu estava cego de raiva porque Tae é meu melhor amigo desde que me
entendo por gente, e eu perco a razão se o vejo sofrer e chorar. Sei que não
justifica nada do que eu fiz e falei, eu só não queria que você tivesse uma
imagem tão ruim de mim. Não sou um monstro e eu não falei sério em
momento algum, eu só queria arranjar formas de te atingir — começou
constrangido, me surpreendendo. — E também, eu não sei o que ela disse
para você, mas você deve esquecer — afirmou, convicto — quando ela
desceu avisando que você tinha dormido eu suspeitei que algo aconteceu.
266
Daí, vocêsumiu a tarde toda e eu tive certeza. Sem contar que sua cara de
choro é um ótimo indicativo também.
— Hum... Não importa — limpei o nariz, choramingando baixinho — ela
tem todo o direito de não me querer aqui na casa dela. Talvez, seja a coisa
certa a se fazer.
— O quê?
— Terminar com Taehyung. Onde eu estava com a cabeça quando pensei
que namorar um garoto famoso e vindo de família rica daria certo?
Jimin revirou os olhos.
— Por favor, me diga que você está fingindo burrice — suspirou — e pare
com isso, sinceramente, não lhe cai bem. Eu só queria perguntar mesmo se
você se finge de idiota ou o quê. Taehyung não liga para seu histórico
familiar e sua condição financeira! Ele já deixou isso claro! Ele é
completamente apaixonado por você e você me vem dizer que quer
terminar com ele por causa da mãe dele?
— Não é por causa da mãe dele — tentei negar.
— Jeongguk! — Ralhou.
Levantei as mãos em rendição.
— Okay, okay, me desculpe, não está mais aqui quem falou — abaixei a
cabeça. — Mas, você mesmo jogou na minha cara a minha condição
financeira mesmo que esteja arrependido e tenha pedido desculpas agora.
Jimin suspirou, envergonhado.
— Eu lamento cada coisa que falei, você não tem ideia. Mas, você não
pode deixar que isso te abale. Eu... eu vejo o quanto você faz o Tae feliz.
Sabe o que você deve fazer? Provar o contrário para a mãe dele. Você,
meu caro, faz Kim Taehyung feliz como ninguém nunca fez e eu posso
confirmar isso — afirmou — você tem noção do quanto os olhos dele
brilham quando ele fala de você? Ele falou de você durante toda a refeição
como se fosse a melhor coisa que já aconteceu para ele. E você me vem
falar que está pensando em terminar com ele? Que droga você fumou?
267
— Eu não sei o que fazer mais — confessei — eu estou inseguro, e a mãe
dele me disse para voltar para o buraco de onde eu vim.
— Esquece tudo o que ela disse, come a comida que eu trouxe, levanta
dessa cama, tome um banho, lave o rosto e depois que vestir uma roupa
quentinha, desce e se junta a nós na lareira. O avô do Tae toca ukulele
enquanto recita cantigas toda a noite, é bem legal! — Chamou. — Eu
posso tentar me redimir por tudo o que falei e fiz, principalmente porque
você faz o Tae feliz e isso para mim é o suficiente. Você não vai deixar a
mãe dele ganhar essa.
— Eu não quero sair daqui — reclamei, fazendo bico.
Mas Jimin não estava com paciência. Ele agarrou meu pulso e me puxou
para fora da cama, arrastando-me até o banheiro.
Acabou que tomei banho primeiro e comi depois, mas pelo menos fiz tudo
direitinho. Ainda bem que o melhor amigo de meu namorado me
aguardou, prometendo descer junto de mim, pois eu definitivamente não
sabia como teria coragem para fazer isso sozinho.
Na sala onde o pessoal estava reunido perto da lareira havia os pais de
Taehyung, seus dois avós, e uma irmã mais nova. Jimin era considerado da
família, então sempre estava com os Kim. Sinceramente, era bom saber
que ele e Taehyung haviam feito as pazes depois de brigarem feio antes de
ele voltar para a Coreia, mas não me impressionava. Amigos de verdade
não conseguiam ficar longe um do outro. Apresentando-me para cada
membro da família, Taehyung se levantou e pegou minha mão, trazendo-
me para perto de si.
O ruivo estava sentado numa poltrona gigantesca, então, ele se acomodou
ali e me fez sentar-se entre suas pernas, encostando-me contra seu peito.
Me abraçou apertado, enquanto eu tentava me aconchegar o máximo
possível em seus braços.
— Você está bem? — Sussurrou. — Minha mãe disse que você dormiu o
dia todo de tão cansado. Me desculpe por não ter te dado uma folga para
dormir.
— Eu estou bem, Tae. Apenas cansado — assegurei.
268
Taehyung beijou meus cabelos apertando-me com carinho.
— Estou tão feliz que você está aqui, Gukkie.
Engolindo em seco, assenti, tentando espantar a vontade de chorar que
queria voltar com força total. Aquela não era a hora de estragar o
momento. Taehyung estava tão feliz. Ele estava feliz porque eu estava ali,
e eu não contaria nada a ele porque eu queria vê-lo feliz.
No silêncio da sala, o avô dele pegou um ukulele e começou a tocar
canções desconhecidas para mim. Eram músicas coreanas, e pareciam ser
antigas, mas era tão bonito vê-lo tocar. Me lembrava as poucas vezes que
vi meu pai ouvindo música. Memórias boas da minha infância. Memórias
que sempre me faziam lembrar da véspera de Natal com amor e nostalgia.
E aqui estava eu, maculando minha época favorita do ano com a família do
meu namorado.
Não vi quando foi que dormi abraçado de Taehyung, ignorando os olhares
dos pais dele, e quando abri os olhos novamente, estava deitado de novo
na cama queen size, mas dessa vez, um par de braços circundava minha
cintura.
Virando-me sobre a cama fitei a janela, vendo a neve cair do lado de fora.
Era provavelmente madrugada.
Para minha surpresa, eu estava de pijama e Taehyung estava nu, dormindo
daquele jeitinho que ele tanto gostava. O quarto estava muito quente e eu
pude ouvir o som característico do aquecedor ligado.
Aproximei-me de si e contemplei seu rosto enquanto dormia. Cada uma
daquelas pintinhas que eu tanto amava, o formato dos lábios dele, as
madeixas ruivas cuja raiz já mostrava um tom de castanho. Aquelas
tatuagens que ele tinha espalhadas por sua epiderme e até o maldito
piercing em sua língua.
Eu gostava de cada tracinho de Taehyung, e eu me sentia triste só de olhar
para ele e aquilo estava me matando. Era como se eu estivesse me sentindo
mal por estar ali com ele, como se eu não tivesse esse direito.
Não me surpreendi quando as lágrimas rolaram por minhas bochechas e
molharam o travesseiro. Eu era um grande bebê chorão, e simplesmente
269
não conseguia me conter.
Suspirei, decidido a virar para o outro lado e dormir novamente quando
ouvi:
— Por que você está chorando? — Ele abriu os olhos devagar e me
encarou — você tem esse hábito de ficar olhando para mim, mas nunca fez
isso chorando.
— Você devia estar dormindo — respondi.
— Você também — devolveu.
— Só fiquei melancólico, vamos dormir — pedi.
— Acabou de fazer a coisa com o nariz.
Tentei me virar para o outro lado, mas ele me impediu.
— Sabe que pode me contar qualquer coisa, não é — olhou nos meus
olhos.
Assenti.
— Sei, mas isso é exceção, não posso falar, me desculpe — desviei o
olhar.
— O que aconteceu? Eu fiz alguma coisa? Minha família fez alguma coisa
que te deixou desconfortável? — Quase arregalei os olhos pela esperteza
dele ao deduzir aquilo.
— Não é nada, Tae. Vamos dormir — insisti.
O mais velho fez uma careta, irritado.
— Você mentiu de novo. Olha, se você quer ficar assim, não há nada que
eu possa fazer com esse seu drama, okay? Quando você quiser conversar,
eu estarei aqui — seu tom saiu grosseiro, e eu me escolhi, querendo chorar
ainda mais.
Virei-me para o outro lado e me afastei o máximo que pude dele,
escondendo meu rosto no travesseiro e chorando o mais silenciosamente
270
possível. Eu estava à deriva, eu estava me afundando.
[...]
Na outra manhã, assim que acordei, Taehyung não estava na cama.
Levantei-me sem muita empolgação, fazendo minha higiene matinal e
trocando de roupa. Amanhã finalmente seria o Natal e essa tortura teria
acabado. Enquanto eu terminava de ajeitar o casaco em meu corpo, ouvi
duas batidas na porta do quarto.
— Pode entrar!
Duas pessoas passaram por ela, Jimin e Nayun, a irmã mais nova de
Taehyung. Os dois traziam uma bandeja contendo comida e eu sorri,
agradecido pelo gesto.
— Você perdeu o café da manhã — a garota comentou — Taehyung
estava muito irritado nesta manhã.
— Obrigado pelo gesto — cocei a cabeça, sem graça.
— Você não precisa agradecer, meu irmão foi um verdadeiro imbecil com
você, não estou certa, Jiminie? — Nayun voltou a falar.
— Eu consegui fazer ele me contar depois de ver a cara de cu que ele fez
no café — Jimin contou — eu nunca pensei que ficaria do seu lado numa
briga com Taehyung, mas dessa vez eu realmente estou. Eu quis socar a
cara feia dele.
— Desculpe minha mãe pelo o que ela te falou, Jeongguk-ah — a Kim
sorriu envergonhada — se meu irmão nunca se importou com dinheiro
quando começou a te namorar, ela não tinha o direito de interferir assim.
— Agora eu nem sei se estou com raiva dela ou do próprio Taehyung —
Jimin resmungou — ele saiu para pescar no gelo com o pessoal e ainda
não voltaram. Tomara que caia numa poça de água gelada para aprender a
deixar de idiotice.
— Jiminie! — Nayun repreendeu.
Sorri fraco.
271
— Vem, come logo que você vai passar o seu dia com a gente! Se o meu
irmão não vai te dar atenção, nós iremos! — Nayun pulou, empolgada.
Taehyung prometeu que não sairia do meu lado durante aquela viagem.
Mas ele claramente não estava sendo muito bom em cumprir sua
promessa. Exatamente como eu não fui bom em cumprir a minha.
Passei o dia na companhia de Park Jimin e Kim Nayun, a ironia daquilo. O
melhor amigo que me destratou e a bebê da família. A irmã caçula de
Taehyung era extremamente mimada, mas muito gentil e atenciosa
também. Ela tomava cuidado para não deixar escapar palavras em coreano,
pois segundo ela, o inglês era complicado demais.
Infelizmente, como os avós de Taehyung só sabiam coreano, eu tinha
noção de que não teria como conversar com eles.
Durante o dia, me levaram para conhecer outros pontos das Highlands e eu
admito que me encantei demais com a paisagem e as construções antigas
que adornavam o país. Eram diversos clãs com histórias e culturas tão
diferentes, mas que não deixavam de serem fascinantes.
Park Jimin não se parecia nada com aquele garoto que me tratou mal
quando me conheceu, e foi naquele passeio que eu pude ver porque ele era
o melhor amigo de Taehyung. Ele realmente era uma boa pessoa e cuidava
muito bem da irmã caçula dos Kim, tratando a menina como se fosse sua
própria irmã.
Na volta para Rothes Glen House, Jimin saiu para procurar Taehyung e
nos disse para voltarmos sozinhos para a mansão. Nayun esplicara que
compraram a propriedade porque seus pais estavam cansados de passarem
as férias em casas na praia, então escolheram um destino diferente de tudo
o que já haviam ido.
Admito que se fosse eu no lugar deles, aquela definitivamente não teria
sido minha primeira escolha.
Adentramos a gigantesca mansão, mas logo na entrada, fomos recebidos
pela Sra. Kim, que me fuzilava com os olhos em chamas.
— O que foi que eu te disse ontem? Ao invés de terminar com meu filho e
ir embora, como eu mandei, você faz amizade com a minha filha? —
272
Esbravejou. — Qual é o seu problema? Você é idiota por acaso? O que te
faz pensar que pode continuar em minha casa quando não é bem-vindo
aqui?!
— Como a senhora ousa falar essas coisas para Jeongguk? — Taehyung
indagou, aparecendo atrás de sua mãe com uma expressão nada feliz.
273
Capítulo 15 - Our Truth
Eu não podia acreditar que isso estava acontecendo. Ele não ia começar a
discutir com a mãe dele logo ali, ia?
— Não venha me perguntar como ouso, Taehyung. Eu sei de tudo o que
aconteceu. Sei quem esse garoto medíocre é — levantou o queixo, irritada
— não acredito que ele teve a coragem de vir com você passar o Natal
com nossa família! Eu sempre esperei que você trouxesse algum herdeiro,
e não... isso.
— Eu acho que a senhora não precisa ser tão baixa assim — Nayun deu
um passo à frente, cruzando os braços.
— Não se meta nisso! — A mais velha repreendeu.
— Mãe... — Taehyung cerrou os punhos, caminhando até estar ao lado da
mais velha. — O que a senhora...
A voz dele morreu na hora.
Sem se incomodar, a mulher começou a conversar em coreano com o filho,
lançando alguns olhares de deboche e raiva em minha direção. Era como
se ela estivesse deixando claro que nem coreano o suficiente eu era, afinal,
eu não falava a língua da terra natal de meus pais. Porém, dessa vez, eu
não estava disposto a deixar que as coisas fossem tão longe assim. A
verdade é que eu estava cansado. Estive tendo preocupações, não
considerei que eu fosse um partido bom o suficiente para Taehyung por
causa da minha condição financeira.
274
Naquela vez em que Jimin brigou com ele e ele me defendeu, eu confesso
que não esperava e me impressionei bastante. Mas aquilo não era correto.
Não estava okay ver meu namorado brigando com sua família por minha
causa. Era a mãe dele! A mãe dele! Aquilo não era correto. Eu não
conseguiria namorar um garoto cujo meus pais não aprovassem. A
aprovação dos dois era essencial para mim, pois assim, eu acreditava que o
relacionamento poderia dar certo. Como Taehyung namoraria um garoto
que a mãe dele não aprovava? Eu não sonharia de fazer isso estando no
lugar dele.
E talvez, fosse um aviso, um sinal claro de como eu deveria proceder.
Aquilo não podia continuar, eu não podia continuar levando aquele
relacionamento a frente. Eu gostava dele, gostava muito. Acho que nunca
cheguei a gostar de alguém como eu gostava daquele garoto ruivo e
tatuado. Mas, só gostar não era suficiente.
Enquanto os dois discutiam em coreano, retirei-me dali, correndo escada
acima para nosso quarto compartilhado. Sequer me incomodei em fechar a
porta, apenas fui até minha mala, caminhando de um lado para o outro
dentro do quarto, juntando minhas coisas. Uma maldita sensação de déjà
vu me tomou conta quando as lágrimas começaram a descer por minhas
bochechas. Mais uma vez, tudo estava dando errado, tudo estava indo de
mal a pior. A Sra. Kim não estava errada. Qual era o meu problema? Por
que eu achei que seria uma boa ideia aparecer ali? Minha intuição já me
dera indícios de que aquilo era uma má ideia, e agora eu tinha mais do que
certeza.
Agora, eu só queria ir para casa. Sair do Reino Unido, voltar para os
Estados Unidos e dirigir até a casa dos meus pais. Eu me sentia uma
maldita criança agora, mas eu não ligava. Eu queria estar perto da minha
família, perto do meu pai, que sempre me daria conselhos valiosos, e perto
da minha mãe, que iria me consolar. Isso era tão patético. Eu querer correr
como um garotinho e não como um jovem adulto de 21 anos. Eu estava me
sentindo patético.
— Jeongguk? — A voz de Taehyung soou baixinha, atrás de mim,
cautelosa. Como eu havia deixado a porta aberta não ouvi quando ele
entrou ali, e estando de costas para a entrada, não me incomodei em
"monitorar" o movimento dali.
Parei tudo o que fazia para ajeitar meus ombros e limpei minhas
275
bochechas.
— Eu vou embora — anunciei. — Isso não é como a Califórnia. Não
existe uma forma de fazermos as pazes aqui.
— Espera, o quê? — Ele caminhou em minha direção e segurou um de
meus ombros, me virando para que pudesse me encarar.
— Não me toca — desvencilhei-me de sua mão, dando um passo para trás.
Seu queixo caiu ante minha atitude. Eu estava criando uma distância
proposital entre nós dois.
— Eu não sei... — Respirei fundo, fechando os olhos por uma fração de
segundo antes de abrir novamente. — Eu não sei onde nós estávamos com
a cabeça quando achamos que isso poderia dar certo. E antes que você diga
qualquer coisa, me escute primeiro! — Exigi. — Você definitivamente é a
pessoa mais maluca que eu já conheci, porque eu não consigo pensar em
ninguém que faria o que você fez, desde ir atrás de mim e ainda querer
ficar comigo apesar das diferenças. Não importa se houve promessa, é
simplesmente loucura! E mesmo assim, a gente começou a namorar, e foi
sim uma das épocas mais felizes que eu... Olha, a sua mãe está certa! Você
não deve brigar com ela, muito menos por minha causa. Ela tem direito de
falar o que ela bem quiser, e tem o direito de não me querer aqui, porque
eu estou na casa dela! — Limpei uma lágrima que escorreu. — A gente
chegou aqui e você estava tão empolgado para me apresentar a sua família,
então, a sua mãe me falou algumas coisas, e eu fiquei mal porque eu não
queria estragar a sua felicidade. Eu não queria que você brigasse com
alguém da sua família por minha causa, e você disse que eu estava sendo
dramático, você... Você prometeu que ia ficar do meu lado durante toda a
viagem e no primeiro desentendimento que tivemos, você se afastou. Será
que não é hora de dar um fim em algo que sequer devia ter começado? —
Mordi o lábio inferior, me sentindo péssimo quando vi que ele sequer
piscava, me encarando de forma penetrante. Seus olhos estavam
visivelmente úmidos e eu me dei conta de que aquela era a primeira vez
que eu estava vendo Taehyung chorar. — Você é um garoto incrível, vindo
de uma família abastada. Você pode namorar sim algum herdeiro bonito e
importante como sua família deseja. Me desculpa por ter feito você fazer
aquela promessa anos atrás. Me desculpa por ter feito você se prender a
ela. Me desculpa por estar fazendo você chorar agora — meus lábios
tremeram quando a lágrima caiu de seus olhos — pode não parecer, mas
276
você é definitivamente a última pessoa que eu gostaria de fazer chorar.
— Então, por que você está terminando comigo? — Indagou, a voz
baixinha. — Por que você está indo embora?
— No momento, você pode não entender, mas...
— Não, Jeongguk! É claro que eu não entendo! — Exclamou. — Eu já não
te dei provas suficientes dos meus sentimentos por você? Eu já não provei
que eu não me importo com dinheiro ou a falta dele? — Passou a mão
pelos cabelos vermelhos. — Me perdoa por não ter ficado do seu lado
quando eu prometi que iria, e me perdoa por dizer que você estava sendo
dramático. Eu não devia ter feito isso.
— Isso não se trata de provas! Você não precisa provar nada para mim —
afirmei — o que você precisa entender é que isso não vai dar certo. Não
quando sua própria mãe não aprova!
— Ela agiu errado, ela não tinha o direito de falar as coisas que ela falou
— cruzou os braços — ninguém pode colocar os outros para baixo do jeito
que ela fez. E tanto ela assim como você precisa entender essa é a minha
vida, porra! São as minhas escolhas! Eu escolhi estar com você e eu não
me arrependo, o problema é que aparentemente, você não é capaz de lidar
com isso. Você não consegue.
— Não faça isso parecer como se fosse só o meu problema! Não ouse agir
como se eu fosse o único culpado aqui! — Protestei, irritado. — Não
venha me manipular e me fazer sentir a pior pessoa do mundo.
— Nesse momento, você não é a pior pessoa do mundo, você é covarde.
— Você não tem esse direito — balancei a cabeça, não contendo as
lágrimas que estavam jorrando de meus olhos — você não pode me
chamar de covarde como se eu tivesse obrigação de ser forte, como se eu
precisasse ser você. Nem tudo é um mar de rosas.
— E eu sei, Jeongguk! — Insistiu. — Eu sei que não é. Eu sabia disso
desde o dia em que te pedi em namoro, eu sabia que a gente teria de
enfrentar uma barra pesada, você acha que eu não pensei nisso? Eu me
sinto tão decepcionado agora, e não é nem com você. Eu estive esperando
por semanas o dia em que eu ia te apresentar para a minha família, porque
277
eu queria que eles conhecessem o garoto com quem eu gostaria de ter um
futuro, de envelhecer junto. Mas, ao invés disso, descubro que minha mãe
o tratou terrivelmente mal. Precisei conversar tanto com você para te
convencer a vir e no final, isso aconteceu.
— Desculpa — sussurrei.
— Não é culpa sua.
— Como não? Ela não mentiu, Taehyung. Eu definitivamente não sou o
melhor partido do mundo. As pessoas devem olhar para mim e terem
certeza de que eu sou interesseiro — repliquei — eu não sou nem coreano
direito, eu não falo a sua língua, não sou do seu país. Eu não sei o que será
da minha vida quando eu formar. Não sei se vou conseguir te acompanhar.
E o pior de tudo é que eu vejo tudo o que você já fez e eu me sinto
péssimo.
Taehyung arqueou uma sobrancelha.
— Como assim?
— Olha tudo o que você fez. Você nunca se esqueceu da promessa, e eu
me esqueci de você tão rápido. Você foi atrás de mim nos Estados Unidos,
você buscou entrar em contato comigo — respirei fundo — mas eu não
lembrava de você. Eu sonhei com a gente depois que descobri tudo,
quando éramos crianças. Lembro quando eu chorei nos seus braços,
falando que eu não queria me separar de você nunca mais. Então,
aconteceu tanta coisa...
— Infelizmente, a vida não é o conto de fadas que nos ensinaram na
escola, Jeongguk. Nada acontece de forma simples. Nós sempre
precisamos lutar para conseguir o que queremos — afirmou — até cinco
anos atrás, eu era uma pessoa extremamente diferente, tanto física como
emocionalmente. E isso é porque a gente muda. Não somos quem éramos
há uma semana atrás, alguma coisa mudou. Você não é mais o garotinho
que pediu para que eu prometesse que iria procurá-lo, assim como não é o
mesmo Jeongguk que me abordou aquele dia do lado de fora do boliche.
— Taehyung deu dois passos para trás, colocando as mãos em sua cintura.
— Mas, se você quer mesmo acabar com tudo e ir embora, pelo menos
deixa eu te acompanhar até o aeroporto.
278
Engoli em seco, absorvendo cada uma de suas palavras, vendo o que
estava acontecendo na minha frente. Eu tinha a escolha de continuar ali
com ele e a escolha de ir embora. Eu queria as duas, mas a que me parecia
correta já estava mais do que clara. Eu vou embora. No entanto, também
ficarei com ele. Não vou deixá-lo.
Assentindo, não perdi tempo, caminhei em sua direção em passos curtos e
o abracei com força, sentindo ele retribuir meu abraço. Enterrei meu rosto
em seu pescoço e inspirei de seu cheiro, aproveitando ao máximo todo o
afeto. Uma mão dele estava em minha cintura, enquanto a outra acariciava
meus cabelos.
— Me perdoa, Guk-ah — sussurrou contra meus fios. — Eu agi totalmente
errado com você durante essa viagem. Prometi e não cumpri, algo que eu
nunca tinha feito antes. Você não tem que se martirizar por causa de uma
promessa que você fez quando criança, quando eu não cumpri uma que fiz
dias atrás mesmo sendo um adulto.
— Eu não quero ficar aqui — afirmei — é a casa da sua mãe. Ela tem o
direito de não me querer aqui.
— Me desculpa pelas coisas que ela te falou também.
— Ah, vejo que vocês fizeram as pazes — Park Jimin resmungou, parado
contra a batente da porta.
Nos viramos para encarar o baixinho e eu abracei a cintura do ruivo,
tornando a esconder meu rosto em seu pescoço.
— Vejo que você ainda curte aparecer quando não é chamado —
Taehyung respondeu, sarcástico.
— Vigia seu tom, bonitão. Não fui eu quem agiu feito idiota com o próprio
namorado — respondeu de volta.
— Eu te odeio.
— Não, você me ama. Se não fosse por mim, ele provavelmente teria ido
embora antes, aliás, só para saber mesmo, por acaso, você chegou a cair
numa poça de água fria?
279
— Não, por quê? — Parecia confuso.
— Nada, só para saber se a praga que eu joguei em você deu certo. E não
me olha com essa cara feia, não. Você sabe que merecia depois de ter sido
um verdadeiro imbecil com o Jeongguk.
Ouvi passos, indicando que o melhor amigo de Taehyung havia saído dali.
[...]
Por mais que eu deteste admitir, fiquei feliz quando Taehyung concordou
em ir embora, mas ele pediu para que ficássemos em Edimburgo para o
Natal antes de irmos embora. Eu fui primeiro, me despedi de Nayun,
Jimin, dei um "tchau" coletivo aos outros parentes e segui de táxi até a
capital escocesa. Taehyung disse que precisava buscar uma coisa antes de
se juntar a mim.
Não dei muita atenção, concordando de antemão, afinal, naquele momento
eu só queria um pouco de paz. Depois de tudo, eu acho que merecia. A
neve que caía lá fora cobria as ruas e me fazia sorrir, aliviado. Talvez, o
pior havia passado. Talvez, nós ficaríamos bem. Talvez, a gente ia dar
certo. Talvez. Talvez. Talvez.
Eu não gostava muito do som dessa palavra. Acho que o ideal seria dizer
que sim, o pior havia passado. Sim, nós ficaríamos bem. Sim, a gente ia
dar certo. Eu não queria viver na base da incerteza e da sensação de que
qualquer coisa que acontecesse poderia separar a gente. Nós éramos um
casal homossexual, o mundo em si já trazia desafios demais por nós
sermos quem nós éramos. A última coisa que eu precisava era fazer o
favor de criar mais desafios quando a sociedade em si já o faz pela gente.
A porta do quarto de hotel foi aberta e eu fui logo cumprimentar
Taehyung, mas parei nos trilhos ao ver que ele carregava uma mala, uma
bolsa e... um cachorro. Que inclusive, era o mesmo cachorro das
fotografias que eu vira anteriormente. Qual era o nome mesmo?
— Jeongguk, eu tinha esquecido de te mostrar o Tannie, meus pais
trouxeram ele junto da Coreia — sorriu, contente. — Eu já te mostrei fotos
da minha bolinha de pelo.
— Já sim — sorri de volta, indo em sua direção e tirando as coisas de sua
280
mão, com exceção do cãozinho. — Qual o nome dele mesmo? Sempre me
esqueço.
— Yeontan — respondeu, afetuosamente enquanto apertava o bichinho.
— Você sabe que é muito engraçado ver um cara como você, todo durão e
tatuado com um cachorro tão fofo, não é? — Provoquei, fazendo carinho
na criaturinha fofa.
— Você devia saber que estereótipos não são válidos quando se trata da
gente.
Eu sabia sim, mas não perderia a oportunidade de provocar mesmo assim.
[...]
Os dias foram passando normalmente, e eu foquei na faculdade além do
jogo. A temporada iria acabar oficialmente dia sete de janeiro e nós
precisávamos estar preparados para a partida que provavelmente definiria
nossos futuros e carreiras.
Taehyung e eu estávamos bem, embora ele ainda estivesse sem falar com
sua família (com exceção de Nayun) apropriadamente. Claro que isso me
chateava, afinal, era o que eu mais temia. Conversei com meu pai sobre o
assunto, e meu velho me disse para não me meter. Era um assunto entre
meu namorado e sua família.
Lisa quase me estrangulou quando eu contei sobre a viagem e que cheguei
perto de terminar meu namoro. Dessa vez, tanto ela quanto Ryan e Miles
me deram sermão, afirmando como eu era cabeça dura às vezes e como
isso constantemente me fazia quebrar a cara.
O jogo de Taehyung no Grand Slam estava cada vez mais próximo e eu
não podia conter minha ansiedade para o grande momento. Ele estava
visivelmente estressado, e isso ficou claro quando fui assistir um de seus
treinos em uma das quadras de tênis cobertas da universidade. Alguns
treinos eram abertos ao público, exatamente como era o caso desse.
Haviam alguns patrocinadores presentes e alguns telespectadores.
Sentei-me em um dos bancos mais baixos, ao lado de um grupo de garotas
que fofocavam entre si enquanto davam risadinha e observei meu
281
namorado, conversar alguma coisa com seu treinador antes de concordar,
pegar uma raquete e fazer alguns movimentos com os braços. A faixa azul
impedia seus cabelos de caírem em seus olhos, mas não era suficiente para
impedir que seus fios avermelhados ficassem ensopados de suor. Ele havia
retocado a raiz na última semana, então, a cor estava de um vermelho
brilhante e chamativo.
— Olhem para os músculos no braço dele — uma das garotas ao meu lado
comentou em voz baixa.
— Ah, eu queria poder tocar naqueles braços.
Revirei os olhos, pensando em como deveria ser frustrante saber que da
fruta que elas gostavam, Taehyung chupava até o caroço. No entanto, não
seria eu quem diria aquilo. Não me importava muito com universitárias
cheias de hormônios pensando coisas impróprias com meu namorado, até
porque seria idiotice minha. Ele era um atleta famoso, provavelmente tinha
milhares de fãs mundo afora.
Tomei um gole da minha garrafa d'água, distraído com os saques que o
mais velho treinava. Ele estava estressado e errando muito. A frustração o
corroía e eu podia ver pela expressão nada feliz que ele fazia. Seu
treinador ordenou que ele finalizasse e, visivelmente insatisfeito,
Taehyung largou a raquete, caminhando até os bancos laterais. Bebendo de
sua própria água, vi quando ele pegou o celular e começou a digitar.
Tae Jagi: Gukkie, você está aí?
Sorri.
Estou sim.
Tae Jagi: Estou treinando, mas não estou conseguindo me concentrar hoje.
Não estou conseguindo conter meu nervosismo.
Vai dar tudo certo! Eu estou aqui te observando.
Ante as minhas palavras, ele imediatamente se levantou, me procurando
com os olhos pela quadra. Como eu não estava longe, rapidamente fui
localizado. Taehyung sorriu para mim e digitou novamente.
282
Tae Jagi: Me encontra no vestiário?
Certamente, o que você quer fazer lá?
Tae Jagi: Por incrível que pareça, nada. Só quero sua atenção mesmo.
Prendi o riso.
Você já tem toda a minha atenção, eu estou aqui por sua causa.
Tae Jagi: Você é maldoso, jagi.
Balançando a cabeça, peguei minhas coisas, descendo as escadas e
entrando pela porta principal do vestiário da quadra de tênis, aguardando
Taehyung chegar. Bocejei, pensando em como eu estava ansioso para
chegar em casa e finalmente dormir. O clima em Phoenix estava muito
agradável já que estávamos no inverno, e eu não podia deixar de pensar em
como dormir debaixo das cobertas sem morrer de calor era maravilhoso.
Minutos depois, a porta fora aberta e meu namorado passou por ela com
uma cara de poucos amigos. Largando a bolsa de treino no chão, Taehyung
tirou os tênis, as meias, munhequeiras, a faixa na testa, camiseta, bermuda
e cueca, sem se importar muito por eu estar lá, assistindo. Seu corpo estava
encharcado de suor, parecia visivelmente esgotado pelo esforço. Sem falar
nada, ele adentrou um dos chuveiros e ligou o registro.
Estranhei.
— Você está bem? — Perguntei, franzindo a testa.
— Eu não estou conseguindo me concentrar, minha cabeça anda muito
cheia — resmungou, molhando os cabelos — minha mãe me ligou ontem e
a gente só brigou. Eu odeio isso. Odeio como ela está agindo, ela não está
parecendo a minha mãe. Ela está se mostrando uma pessoa completamente
diferente.
Mordi o lábio, engolindo em seco. Inevitavelmente, senti-me culpado, mas
não falei nada. Eu não queria que a gente brigasse, ou que eu desse outro
surto daquele, falando que a gente devia terminar. Sei que provavelmente
era egoísmo meu, sei que podia ser errado e tudo mais, mas após todas as
broncas que levei de meus amigos, eu percebi como devia dar importância
283
para os meus sentimentos, para o que eu queria. E mesmo não tendo a
aprovação de parte da família do meu namorado, eu não queria terminar.
E isso parecia ser tão egoísta.
Fui até sua bolsa de treino, tirando o frasco de shampoo de lá de dentro e
caminhei até o ruivo e adentrei o chuveiro, não me importando com meu
vestuário. Sentindo minha presença, Taehyung se virou para me fitar e
suspirou, parecendo cansado. Despejei uma quantidade generosa do
líquido cheiroso em minha mão e, apoiando o frasco no chão, espalhei o
shampoo por seus cabelos, observando como ele fechava os olhos,
apreciando a forma como eu fazia carinho.
— Se abaixe um pouquinho — pedi gentilmente, e logo fui obedecido. Era
um pouco engraçado, eu devia admitir, mas não deixava de ser um ato tão
íntimo do que quando a gente transava.
Ele praticamente ronronava, satisfeito com a massagem capilar que meus
dedos proporcionavam. O empurrei para trás, obrigando-o a se molhar
mais uma vez. Enxaguei os fios avermelhados, observando a forma como
Taehyung fechava os olhos, relaxando completamente. Sem se importar,
ele deu um passo à frente e me abraçou, encharcando minhas roupas.
Franzi a testa, confuso, mas não neguei ou questionei, apenas retribuí,
sentindo-o esconder o rosto no vão de meu pescoço.
Desde a viagem para a Escócia, eu tenho visto facetas mais frágeis de
Taehyung. Ele estava me mostrando o lado mais íntimo de si. E
sinceramente, eu estava gostando muito. Era muito bom saber que por
baixo daquela pose de "implacável" dele existia um menino normal. Que
nesse momento, estava mal por estar brigado com a mãe.
— Jeongguk, se você quiser terminar comigo algum dia, não faça isso por
causa dos outros, por causa da minha mãe, por causa dos meus amigos. —
Falou, baixinho. — Faça porque você quer.
— Eu não quero terminar com você nem hoje, nem amanhã e nem em dia
nenhum — respondi — estou me permitindo ser extremamente egoísta
agora. E no momento, eu não me importo para o que estão dizendo. Eu
gosto de você e quero ficar com você. A não ser que você não queira mais.
Ela levantou a cabeça, me fitando com os olhos arregalados. Os cabelos
284
grudavam em sua testa e faziam com que ele parecesse um garotinho cheio
de tatuagens.
— Não, claro que não — negou com veemência. — Eu só estou com medo
de que isso tudo faça você querer tirar conclusões precipitadas e terminar
comigo de uma vez.
— Eu não vou — assegurei, beijando a pontinha de seu nariz — não vou.
Sinto muito pela sua mãe.
— Você não tem o que se desculpar, não é culpa sua o comportamento
mesquinho dela — respondeu, apertando os lábios, parecendo que poderia
chorar a qualquer momento.
Eu não conseguia imaginar o quanto aquilo devia estar machucando ele, o
quanto aquilo o estava magoando. A atitude de sua família não era algo
que ele esperava. Fazia tanto tempo que ele queria me apresentar seus
entes queridos, e não era assim que ele imaginava que tudo fosse
acontecer.
— Tae? Você quer que eu durma com você em seu dormitório hoje? —
Sugeri. — A gente pode ver um filme, comer algo bem gostoso.
— Você não se importaria? — Deu um sorriso fraco.
— Nunca — dei um selinho em seus lábios e o obriguei a se virar de
costas para mim, para que eu esfregasse seu corpo.
Meu pai estava certo, o melhor que eu podia fazer, era não me intrometer.
[...]
A Austrália era diferente dos Estados Unidos.
Num sentido bom, claro. Perth não se parecia com nada que eu já tinha
visto em toda a minha vida. Era uma cidade lindíssima, e eu não podia
estar mais empolgado por estar ali. Taehyung também, embora ele
demonstrasse um pouco de chateação por não ter conseguido ficar no
mesmo quarto que eu.
Não que ele precisasse se preocupar, claro. Eu daria um jeito.
285
Estava quase na hora do jogo e eu já me mantinha em posição, sentado no
camarote com um copo de um litro de refrigerante e algumas coisas para
beliscar. Uma moça que estava ao meu lado me olhou feio, como se
estivesse achando nojento o tanto de comida que eu carregava, mas sequer
me importei, era a minha vida e ela não tinha nada a ver com isso mesmo.
Suspirei pensando em como o aniversário de Taehyung havia sido ontem e
a gente mal conseguiu sair para comemorar direito, com a correria pelos
preparativos do início da temporada de tênis. Hoje à noite eu gostaria de
fazer algo especial para comemorar a vitória iminente (eu tinha quase
certeza), mas ele certamente estaria muito cansado para fazer qualquer
coisa.
Amanhã a gente ia pegar um voo de volta para os Estados Unidos, então, o
cansaço ia triplicar. Depois do jogo de hoje teria uma coletiva de imprensa,
um jantar onde os patrocinadores, outros jogadores e pessoas afins
estariam presentes. Eu sabia que teria de ir junto, até porque, eu não ia
deixar meu namorado sozinho. A mídia internacional não tinha noção da
gravidade do nosso relacionamento, e isso era porque Taehyung era
discreto e nunca respondia algumas perguntas.
Seu empresário lhe dissera que a melhor forma de manter uma carreira e
uma saúde mental estável, era manter sua vida pessoal totalmente separada
da sua vida profissional. Então, sim, a gente namorava, mas não, ninguém
lá fora tinha certeza do quão próximos nós éramos.
— Jeongguk oppa! — Uma voz conhecida me chamou e eu olhei para o
lado, encontrando Nayun, a irmã caçula de Taehyung caminhando em
direção da outra poltrona vaga ao meu lado. Taehyung havia reservado um
ingresso para ela também. — Ah, me desculpa, eu esqueci que você não
usa essas coisas como "oppa" e "hyung". — Deu uma risadinha. — Mas,
como você está? Eu estava ansiosa por hoje, sabe. É a primeira vez que
Taehyung traz alguém fora da família e dos amigos para assistir. E
imagina como ele deve estar agora? Você é o garoto por quem ele é
apaixonado desde criança e...
Ela tapou a boca, como se tivesse dito algo proibido.
— Eu não devia ter dito isso... eu não devia ter dito isso... — Repetiu
Nayun.
286
— Não devia ter dito o quê? — Perguntei confuso.
— Taehyung só se queixa comigo de duas coisas: uma é que ele não pode
levar o cachorro dele para o dormitório, e a outra é que ele não consegue
confessar que está apaixonado por você — sussurrou, como se tivesse
contando o maior segredo do universo. — Jeongguk, você não pode falar
para ele que eu te falei, senão, ele me mata.
— Não vou falar nada. Prometo — assegurei, rindo um pouco do
desespero dela.
Suas palavras me deixaram um pouco reflexivo, no entanto. A gente
namorava há pouco mais de dois meses já. E realmente, era muito pouco
tempo, mas eu tinha certeza de que a gente se gostava de uma forma que a
palavra "gostar" não parecia se encaixar mais. Quer dizer, eu estava
apaixonado por ele faz tempo e admitia isso. Para mim mesmo. Não me
recordo de ter dito isso em voz alta, ou de ter comentado com Taehyung.
Será que ele tinha a mínima noção do que me fazia sentir quando eu
olhava para ele?
E Nayun disse que ele também estava apaixonado por mim, se bem que
considerando todas as atitudes passadas dele era muito difícil não concluir
logo isso. A questão aqui era: a gente sentia, mas por que a gente não
dizia?
Fui retirado de meus devaneios quando os tenistas entraram na quadra. Eu
estava usando meus óculos, sabendo que se eu quisesse enxergar de
verdade, precisaria de "ajuda". O oponente era o tenista russo Alexander
Zverev. Eu tinha pesquisado sobre esse cara antes do jogo, e descobri que
ele era da minha idade, aliás. Tão novo quanto meu Taehyung.
O ruivo parecia muito mais relaxado do que nos dias anteriores, embora eu
soubesse que ele ainda estava bastante chateado com sua mãe. Eles ainda
não haviam feito as pazes. Ela ligou para dar feliz aniversário, e mais uma
vez, eles terminaram brigando. Dessa vez, Taehyung chorou e tentou
esconder de mim, mas é claro que eu vi. E me senti péssimo.
Os dois cumprimentaram a plateia, se cumprimentaram, cumprimentaram
a arbitragem, e se aqueceram, preparando para a partida. A faixa de
Taehyung era branca, assim como a cor de sua bermuda, mostrando a logo
287
da empresa que o estava patrocinando. Girando um pouco os ombros, meu
namorado se posicionou e esperou. Zverev começaria sacando.
Deram o sinal, e a partida começou.
Eu devia dizer que como na primeira vez, fiquei verdadeiramente
hipnotizado. Taehyung corria de um lado para o outro, rebatendo a bola,
flexionando os braços, gritando vez ou outra quando rebatia um saque
particularmente difícil. Sua respiração começou a pesar e o suor banhava
seus cabelos e seu corpo após mais ou menos uma hora e meia de partida.
Eu já havia perdido as contas de quantas balas de chocolate coloquei na
boca devido ao nervosismo.
O tenista russo era bom, mas Taehyung era melhor.
Depois de passar um bom tempo vendo como ele estava concentrado,
como ele reagia quando dava bola fora a seu favor, resmungando alguma
coisa (que eu apostava ser em coreano) e assentindo brevemente antes de
voltar. No match-point, ele esperou alguns segundos, mordendo o lábio
inferior antes de respirar fundo, sacar a bola e rebater como se não fosse
nada demais.
Taehyung deu um grito de vitória, caindo de joelhos na quadra
momentaneamente antes de se levantar e cumprimentar o adversário
novamente, seguido da arbitragem. Fez uma reverência a plateia e se
retirou para pegar suas coisas e ir tomar banho.
Eu não conseguia tirar o sorriso do meu rosto, tamanho era o meu orgulho.
Ele era tão bom naquilo, era muito bom vê-lo jogar.
— Vem, vamos lá cumprimentar ele antes que os repórteres, façam antes
da gente! — Nayun exclamou, animada.
Graças à nossas credenciais de camarote, conseguimos esperar numa área
fora do vestiário, ansiosos para dar os parabéns pela vitória triunfal que ele
teve sobre o tenista russo. Não demorou muito e Taehyung saiu do
vestiário com a bolsa em um ombro, vestindo um moletom e um casaco
com a logo dos patrocinadores enquanto seus cabelos estavam úmidos,
penteados para trás. No entanto, ele não nos viu, pois falava ao telefone, o
olhar estava baixo e sua expressão não era nada feliz.
288
Em silêncio, nos aproximamos, tentando entender o que estava
acontecendo.
— ... não! Não, mãe! Eu liguei para contar que eu venci e a senhora já
chegou com cinco pedras na mão — reclamou, a voz embargada. — E não
venha usar esse tom de "você é uma criança tola", porque eu não sou mais
criança!
Engoli em seco, fechando os olhos. E mais uma vez, aquilo se repetia.
— Eu não posso acreditar — protestou, e nesse ponto, eu podia ver que ele
chorava. — Olha, depois eu falo com a senhora, está bem? Não, eu não
vou para o jantar e nem para a coletiva. Não estou com cabeça para nada
agora. O quê? Claro que não! Me desculpa por isso, mas eu vou desligar...
E o que a senhora esperava? Eu te dou uma notícia boa e o que a senhora
faz? Começa a insultar o meu namorado. Se a senhora queria estragar o
meu dia, a senhora conseguiu.
E então, ele desligou o celular e encostou a cabeça na parede, limpando o
rosto com as costas das mãos.
Sem falar nada, Nayun correu em sua direção e lhe abraçou com força.
Assisti a tudo com pesar, sentindo vontade de chorar também. Enquanto os
dois se abraçavam ali, eu pensei que o melhor talvez fosse deixá-los
naquele momento, mas eu não iria embora. Eu não ia deixar Taehyung
dessa forma.
Então, caminhei em suas direções e abracei os dois, sendo bem recebido
por ambos. Ficamos lá, envoltos num abraço triplo. Beijando sua
bochecha, aproximei meus lábios de sua orelha e sussurrei:
— Parabéns, meu amor. Estou orgulhoso.
289
Capítulo 16 - Fortune Faded
Taehyung não queria dormir de jeito nenhum. E isso era compreensível.
Já havia passado de uma da manhã, indicando que hoje era dia 1º de
janeiro. E aqui estava eu, rolando de um lado do outro na cama, incapaz de
dormir. Conversei por mensagem com meu namorado, que reclamou da
insônia, e eu mesmo não consegui dormir. Minha cabeça estava cheia
demais.
Pensava em meus sogros, pensava na família de Taehyung. E
principalmente, pensava em como as atitudes o atingiam de forma
negativa. Ele chorando no dia de seu aniversário e chorando ontem logo
após vencer a primeira partida da temporada. E tudo porque sua mãe
falava coisas horríveis sobre mim, deixando-o chateado e decepcionado.
No entanto, aquela situação estava me cansando. Eu sabia que não
gostavam de mim, mas eu não queria que usassem isso para machucar a
última pessoa que eu gostaria de machucar no mundo. Por isso, decidi que
viajaria para a Coreia do Sul o mais rápido possível, encontraria minha
sogra e conversaria com ela. Era loucura, eu não devia me meter nisso,
mas eu não aguentava mais ficar parado vendo Taehyung chorar toda a vez
que falava com sua progenitora.
Porém, naquele exato momento, eu tinha uma missão diferente. Calçando
minhas pantufas e pegando meu celular, saí de meu quarto de hotel,
levando o cartão magnético e me dirigindo até o quarto de Taehyung. Os
corredores do luxuoso hotel estavam vazios e davam um ar meio macabro
parecendo aqueles filmes de terror.
290
Bati na porta três vezes, esperando que ele ouvisse. Não demorou nem um
minuto direito e a porta foi aberta. O ruivo vestia apenas um moletom
velho, mostrando seu peito. Sua expressão estava visivelmente abatida e eu
quis abraçá-lo.
— Posso entrar? — Perguntei.
Sorrindo fraco, Taehyung deu espaço.
— Você é sempre bem-vindo onde eu estiver, você sabe disso —
respondeu.
Adentrei o cômodo, ouvindo-o fechar a porta atrás de mim.
— Vem, eu vou te fazer carinho até dormir — estiquei meu braço,
esperando ele me dar sua mão.
Em silêncio, caminhamos até a gigantesca cama do quarto, e eu deixei meu
celular junto do cartão magnético de meu quarto na cômoda ao lado.
Tirando meus pés de minha pantufa, deitei-me na cama, e aguardei.
Taehyung retirou a calça de moletom, ficando nu e deitou ao meu lado. Eu
já estava acostumado com aquele hábito, então, não chegava a ser um
desafio gigantesco ter de me controlar. Simplesmente porque as vezes, não
tinha clima mesmo para transar.
— Eu não quero dormir agora — sussurrou ele, pegando minha mão e
levando até seus lábios. Devagar, ele beijou cada um dos meus dedos,
terminando em minha palma. — E também, não quero conversar. Eu quero
esquecer.
Assenti, compreendendo.
— Por que você não me dá umas aulas de Wrestling, então? — Brinquei,
sorrindo de forma cômica.
Eu estava brincando. Eu realmente estava brincando. O que eu não
esperava, era que ele literalmente levasse a sério a minha sugestão. Então,
quando vi, Taehyung jogou os cobertores no chão e me fitou. Arregalei os
olhos, pronto para escapar, mas não tive tempo. Ele agarrou meu braço e
deitou em cima de mim, segurando meus pulsos.
291
— Você achou que eu estava falando sério? — Indaguei, os olhos ainda
arregalados. Não obtive resposta, ele apenas abaixou os lábios e começou
a beijar o meu pescoço. — Hey, espera aí... não beija aí, ah... caramba —
gemi quando ele mordiscou a minha nuca. Ah, então quer dizer que ele
realmente gostou da ideia. Não sei se eu aprovava muito daquele método
para fazê-lo esquecer, mas foda-se. Ele queria brincar? Pois bem.
Em sua distração ao beijar meu pescoço alvo, puxei meus braços com
força e desvencilhei-me dele. Taehyung me encarou, surpreso, mas logo
sorriu, claramente satisfeito com minha reação. Suas mãos grandes
tentaram puxar as minhas pernas, e diferentemente daquela vez com
aquele cara nojento, eu envolvi sua cintura com minhas coxas de muito
bom grande. Ele achava que ia ficar por cima?
Aproveitando que eu tranquei meus pés em suas costas, apliquei toda a
minha força para virá-lo contra a cama. O ruivo arquejou, subindo as mãos
para os botões de meu pijama, desabotoando um por um numa velocidade
contida demais. Mordi meu lábio, pensando em ceder logo de uma vez. Eu
queria transar com ele logo, mas também queria prolongar a diversão.
Esperei até que meu namorado abrisse o último botão para segurar suas
duas mãos com força, prendendo-as acima de sua cabeça, no colchão.
Sorri, satisfeito pela minha posição de vantagem e rebolei sobre sua virilha
descoberta, afinal, ele já estava nu. Taehyung soltou um gemido sofrido e
me fuzilou com os olhos.
— 젠장, 덥다* — Taehyung resmungou e eu prendi o riso.
— Você está falando em coreano — comentei, abaixando-me sobre ele e
beijando seu maxilar.
— Que tal você tirar essa calça, hein? E depois me deixar beijar o seu
pescoço todinho? Eu ia te deixar louquinho daquele jeitinho — sua voz
saiu rouca e terrivelmente sexy. Seu sotaque estava ainda mais acentuado,
me fazendo sorrir novamente.
— E o que mais? — Provoquei, sentindo sua ereção crescente em minha
bunda.
— Você quer me matar — fechou os olhos momentaneamente.
292
Taehyung tirou forças de não sei onde para se sentar na cama e me fazer
cair de costas. Gargalhando gostosamente pelo arfar de surpresa que eu
dei, ele agarrou a barra de minha calça e a puxou de meu quadril de uma
vez só. Dei uma risada divertida, tentando impedi-lo de me despir e
balancei minhas pernas. Com dificuldade, ele me deixou nu da cintura para
baixo e lambeu os lábios, apreciando a visão de meu corpo.
— Você tem uma pinta que eu adoro beijar bem aqui — se abaixou,
beijando um ponto acima de meu quadril — eu adoro beijar a sua barriga
também, eu já te disse isso?
— Você adora beijar meu corpo todo, seu pervertido — coloquei meus pés
em seu peito tatuado e o afastei de mim.
Sentei-me e retirei a camisa aberta de meu pijama, jogando-a no chão.
Taehyung agarrou meus joelhos e me puxou até que eu estivesse em seu
colo. Acabei rindo mais uma vez, gostando demais daquela brincadeira.
Segurei seu pescoço e tomei seus lábios num beijo cheio de desejo e um
desespero contido. Ele retribuiu e permitiu que eu tomasse o controle,
chupando sua língua. Nada surpreso, não senti seu piercing, sabendo que
ele deve ter tirado por causa da partida de hoje.
— Queria poder negar, pena que não posso — respondeu, apertando
minhas coxas.
Sorri e o beijei mais uma vez, sentindo algo borbulhar dentro de mim.
Algo queimava, algo me fazia ansiar por aquele momento, por quando ele
finalmente estaria dentro de mim. Eu estava tão ansioso, e eu nem sabia o
porquê. A gente tinha transado há menos de três dias atrás em meu quarto
de dormitório. Não era como se fosse a primeira vez ou sei lá.
Deixei que Taehyung me deitasse na cama e subisse em cima de mim para
beijar meu pescoço. Minhas mãos estavam enterradas em seu cabelo
enquanto ele me marcava.
— Você trouxe lubrificante, não é? — Gemi.
— Sempre. Nunca sei quando nós dois vamos precisar.
— Não vou te chamar de pervertido dessa vez, porque ainda bem que você
pensa nessas coisas — sorri.
293
— Mas... eu não trouxe camisinha. Acabei esquecendo — explicou,
baixinho.
— Você sabe que eu sou limpo, nos dois sentidos possíveis, então —
sugeri.
— Claro — assentiu, se preparando para abaixar e me chupar.
— Não, espera! — Segurei seus ombros. — Eu quero logo. Só transa
comigo. Agora.
— Está tudo bem? — Arqueou uma sobrancelha. — Você ama
preliminares.
— Sim, eu sei. Mas não quero hoje — olhei em seus olhos — só me
prepara e me fode.
Taehyung parecia confuso, não entendendo minha mudança de
comportamento, mas resolveu não questionar mais. Ele apenas abriu o
lubrificante usado (estava quase no final e eu preciso admitir que talvez,
apenas talvez, a gente tem tido uma vida sexual agitada), cobriu quatro
dedos com o líquido, sabendo muito bem que eu aguentava.
Sem contar que a gente transou fazia muito pouco tempo, então, eu ainda
estava um pouquinho menos apertado. Envolvi sua cintura com minhas
pernas e lhe dei todo o espaço do mundo para que pudesse penetrar um
dedo dentro de mim. Era gelado, como sempre, aquela sensação
gostosinha de geladinho.
Fui dando permissão gradativamente, e logo, três de seus dedos
encontravam-se completamente dentro de mim, me fodendo devagar. Eu
odiava a maldita sensação de vazio que me tomava conta toda a vez que a
gente transava. Eu queria que ele ficasse dentro de mim sempre, porque
caramba, aquilo era bom.
Sabendo de meu sofrimento, provavelmente, Taehyung retirou os dedos e
rapidamente aplicou lubrificante sobre o próprio pênis, se aproximando de
mim. Estudando meu rosto, ele entrou devagar, tomando cuidado para não
me machucar. Meu interior engoliu seu falo ereto e eu resfoleguei,
tentando controlar minha respiração. Meu coração batia acelerado dentro
de meu peito e eu me sentia estranho de uma forma boa. Puxei o ruivo para
294
baixo completamente, fazendo-o unir nossos abdomens e tomei seus lábios
num beijo deveras carinhoso enquanto Taehyung começava a mover os
quadris devagar.
Nunca tínhamos feito com tanta calma e tão devagar assim antes, e
naquela noite, eu estava apreciando cada segundo.
Gemi alto quando sua extensão acertou minha próstata, me fazendo
suspirar em deleite. Eu estava à deriva naquele momento. Tudo estava
perfeito, e não tinha como mudar. Taehyung em cima de mim, dentro de
mim e me beijando com todo o carinho do mundo. Era indescritível, tudo.
Não éramos apenas um casal de namorados transando. Era mais do que
isso.
Eu tinha certeza, e não me arrependi quando gozei gemendo seu nome e
confessando:
— Tae... eu te amo.
Taehyung chegou ao orgasmo logo em seguida e enterrou o rosto em meu
pescoço, respirando com dificuldade e apertando meu corpo como se
estivesse buscando algo na qual se apoiar.
Será que ele tinha ouvido minha declaração? Será que eu falei baixo
demais? A intenção era que ele escutasse, soubesse que eu o amava,
porque eu sentia que precisava externar isso.
Mas isso não significava que ele precisava me responder a mesma coisa de
volta. Eu sabia que nem todos são tão abertos com essas coisas, porém, eu
esperaria o tempo que fosse possível.
O que eu não esperava, no entanto, era que ele não dissesse absolutamente
nada. Não ganhei um sorriso, não ganhei um abraço, não ganhei sequer um
"obrigado", por mais patético que fosse.
Ele apenas se levantou da cama e caminhou até o banheiro. Franzi a testa,
confuso e chateado com sua atitude. Esperava que nós fôssemos sorrir um
para o outro, demonstrar um pouco de afeto, ou algo do tipo, mas não.
Senti o sêmen escorrer por minha bunda e estranhamente, uma sensação
terrível tomou conta e mim. Me senti impuro, me senti péssimo como se
aquilo tivesse sido um caso sem significância, e o pior de tudo, era que eu
295
havia transado com meu namorado. Nós éramos um casal de namorados, e
não meros estranhos. Algo que já tínhamos feito diversas vezes, afinal,
Taehyung e eu curtíamos uma vida sexual ativa e saudável, e já fizemos
sexo mais vezes do que posso contar. Aquilo não fazia sentido.
Um bolo se formou em minha garganta, me fazendo querer chorar, e
ignorando aquilo, decidi ir me limpar. Fui até o banheiro e o vi parado
embaixo do chuveiro com uma mão encostada na parede, imerso em seu
próprio mundo.
Peguei uma toalha limpa, molhei um pouco e a usei para limpar os
resquícios de sêmen do meu corpo, querendo sair dali o mais rápido
possível.
A gente transou, brincou, e foi bom, mas agora nem parecia que tínhamos
feito qualquer coisa.
Era estranho e doía para caramba. Eu queria fugir.
Voltei ao quarto, juntando minhas roupas que estavam no chão, e logo as
vestindo sem a mínima empolgação, mas desesperado para escapar antes
que as lágrimas viessem. Ele não disse nada e estava agindo de maneira
fria. Como eu devia agir acerca disso? O que eu devia falar? Eu devia
pedir desculpa por ter me declarado? Será que ele não gostou?
Sem coragem para encará-lo assim que saísse do banho, peguei minhas
coisas e bati em retirada dali, sentindo as lágrimas começaram a rolar por
minha bochecha.
E isso tudo era porque eu simplesmente não entendia.
[...]
Não voltei a falar com Taehyung depois disso, e nem ele se deu ao
trabalho de me procurar. Inclusive, fez questão de mudar sua passagem, e
ao invés de retornar aos Estados Unidos comigo, foi para a Coreia do Sul.
Inevitavelmente, eu checava meu celular a cada minuto, sempre esperando
encontrar alguma mensagem, algum pedido de desculpas, ou sinal de vida.
Mas o tratamento de silêncio foi a única coisa que eu recebi.
296
Ryan conversou muito comigo quando contei o ocorrido, que eu me
declarei e tudo mais. Meu amigo me aconselhou a dar um tempo a
Taehyung, pois se havia algo errado, ele me falaria quando se sentisse bem
o suficiente. Porém, eu já estava sinceramente cansado daquilo. Voltei
para os Estados Unidos sozinho, sem ganhar uma única palavra. Eu não
queria ter paciência e dar tempo.
Mas não era como se eu pudesse fazer algo a respeito. Meu orgulho me
impedia de tentar entrar em contato, então fiquei na minha. Terminamos a
temporada do NCAA, ficando em segundo lugar, estudei, fui a palestras,
seminários, joguei Overwatch com Ryan. Fiz muita coisa no período de
uma semana e meia. Uma semana e meia sem ter contato com Taehyung.
E eu estava com tanta saudade que chegava a ser patético. Aquele imbecil
não merecia nem um pingo da saudade que eu sentia, mas infelizmente eu
não podia fazer nada para controlar minhas emoções.
Pensava nele quando estava indo dormir, pensava nele assim que acordava,
pensava nele durante o dia.
Eu nem sabia se a gente namorava mais. Será que ele nunca mais voltaria e
tinha terminado comigo indiretamente? O pior é que aquilo me fez chorar.
Chorar de raiva e de saudade. Minha vontade era de meter um belo soco na
cara dele por causa dessa babaquice.
Queria tanto esquecer de sua existência que não hesitei em aceitar quando
Ryan me mandou:
Ryan: Jeon, estamos indo num pub com o Robert e o Miles. Se você quiser
ir... sair para espairecer.
Provavelmente era disso mesmo que eu precisava. Sair para espairecer.
Me arrumei colocando uma camiseta, moletom, e um jeans. Parti meus
cabelos no meio, coloquei meus óculos e saí para encontrar o pessoal com
apenas meu celular, carteira e chave do quarto. Peguei o metrô e segui para
o ponto de encontro, ignorando o ar geladinho que batia em meu nariz.
Aquela noite em especial estava bem fria, o que era incomum em Phoenix.
— Jeongguk, como você está? — Lisa perguntou, me fitando preocupada
assim que cheguei e a abracei.
297
Claro que além de contar o ocorrido à Ryan, também contei a Lisa, e dessa
vez, ela xingou Taehyung até o último fio de cabelo. Se antes eu tinha sido
o alvo de seus ataques raivosos, agora, definitivamente meu namorado
tomou o posto.
— Bem — dei de ombros. — Querendo me enterrar.
Sorrindo radiantemente, a loira puxou minha mão, me levando até a mesa.
— Nós vamos te animar hoje — afirmou, convicta. — Não aceito que
você fique cabisbaixo assim.
Os rapazes estavam sentados numa mesa localizada nos fundos do pub,
conversando quando eu cheguei. Cumprimentei Ryan e Miles, e quando
fui cumprimentar Robert, fiquei um pouco desconfortável, mantendo um
espaço considerável entre nós.
— Vamos tirar uma foto? — Lisa sugeriu, sorrindo. — Quero postar no
meu Instagram.
Ninguém objetou, então, nos juntamos e saiu uma selfie.
— Fiquei sabendo que vocês ficaram em segundo lugar, Jeon — Robert
comentou, tomando um gole de sua cerveja. — Uma pena que não
venceram. Ano que vem, na certa vocês vão conseguir.
— Obrigado — respondi.
Lisa estava ao meu lado, e em nossa frente estavam Robert, Ryan e Miles.
— Provável que Jeongguk não esteja no time ano que vem — Ryan deu de
ombros. — Ele não quer seguir carreira nisso.
— Eu amo futebol, você sabe. Mas, não quero viver disso — suspirei,
sentindo meu celular vibrar no bolso.
— É uma pena que eu não tenha atributo de atleta, eu definitivamente
adoraria jogar e...
Enquanto Miles falava, apanhei meu celular e conferi. Engoli em seco,
fitando a tela do telefone com dedos trêmulos.
298
Tae Jagi: Guk, podemos conversar?
Aquilo me irritou e me fez bloquear a tela sem responder.
Ele não falou nada depois que me declarei, me deixou voltar sozinho para
os EUA sem me dizer porque iria para a Coreia, não disse absolutamente
nada para mim por dias, e agora, ele chega como quem não quer nada
simplesmente falando que queria conversar e eu não ganho sequer um "oi",
ou um "desculpe"?
Se ele planejava terminar comigo, aquilo podia esperar.
— Estamos pensando em viajar nas férias da primavera — Lisa comentou.
— Dessa vez, a gente queria ir para Vegas — Ryan completou. — Minha
intenção é gastar todo o meu dinheiro em casinos.
— Eu odeio Vegas — Miles suspirou. — Minha ex-namorada era de lá.
Aquele lugar me lembra ela.
— Você ainda não superou ela? — Cruzei os braços, rindo, após guardar
meu celular.
Engajamos em uma conversa por uns dez minutos, conversando sobre a
antiga namorada de Miles. E como ele foi obrigado a terminar o
relacionamento graças ao ciúme doentio dela e a forma como ela tentava
controlá-lo. Eu lembrava como Miles sofreu com aquele término. Ele
realmente gostava da garota.
O celular de Lisa tocou e ela atendeu uma ligação, se retirando da mesa
por alguns segundos, e voltando logo depois com um sorriso no rosto.
— Namjoon, Yoongi e Hoseok estão a caminho. Parece que Jin tinha uma
prova para estudar hoje e eles estavam procurando algo para fazer — bateu
palmas. — A gente podia fazer algum jogo com bebida.
— Passo — suspirei — não estou afim de me embebedar. Vou no bar
pedir algo.
Dei licença e saí da mesa, sentando em um dos bancos do bar.
— Um Sex On The Beach, por favor.
299
Apoiei meu cotovelo no balcão e meu queixo em minha mão, entediado e
abalado. Meu celular vibrou mais algumas vezes em meu bolso, mas não
me incomodei em pegá-lo para visualizar as mensagens.
Eu não queria falar com Taehyung, e acho que talvez, eu nem queria estar
ali mais. Depois de tudo o que aconteceu, eu me encontrava exausto tanto
física como mentalmente. Tudo estava me esgotando e a vontade de jogar
as coisas para ar era tentadora.
Não sabia se o melhor seria voltar para casa logo, eu também não queria ir
para o dormitório. Me sentiria meio depressivo e provavelmente começaria
a chorar de novo.
Bebericava meu drink quando senti outra presença sentando-se ao meu
lado. Não dei muita atenção, distraído enquanto pensava na morte da
bezerra. O celular vibrou novamente e eu grunhi, querendo tacar no chão e
pisar em cima até quebrar e parar de funcionar.
Bufei audivelmente, lamentando minha decisão de sair de casa.
— Você realmente não vai olhar o celular? — Uma voz grave muito
conhecida por mim e que eu não ouvia há uma semana e meia resmungou
ao meu lado.
— Não sei do que você está falando, estranho — respondi, infantilmente,
ignorando meu coração disparado apenas por saber que era ele ali do meu
lado.
— Jeongguk, pare por favor — respirou fundo — você pode olhar para
mim?
— Não te conheço, não tenho porque parar ou olhar para você.
— Jeong...
— Não ouse falar comigo nesse maldito tom de irritação — ralhei,
finalmente me virando para encara-lo. — Você não tem esse direito,
Taehyung. Pela primeira vez, a culpa aqui é toda sua, e eu posso agir de
forma imatura o quanto eu quiser.
Ele ficou em silêncio, olhando em meus olhos enquanto apoiava um braço
300
no balcão. Usava a usual jaqueta de couro, e a bandana, mas dessa vez,
havia olheiras profundas e escuras embaixo de seus olhos e uma expressão
exausta tomava conta de sua feição. Ele parecia estar cansado, como se
não dormisse há dias.
Meu coração se apertou com aquela vista, e eu fiquei querendo abraçá-lo,
mas me contive.
— Desculpa — disse, finalmente — eu sei que foi inapropriado e...
— Inapropriado? É assim que você resume tudo o que aconteceu? —
Balancei a cabeça desacreditado e virando meu drink. — Você é mais
babaca do que eu pensei.
Levantando-me do bar, caminhei de volta para a mesa, encontrando os
outros três meninos reunidos ali, e me fazendo concluir que Taehyung
provavelmente veio com eles.
Sentei-me na mesa, sorrindo e cumprimentando-os como se não tivesse
nada de errado, e sem escolha, Taehyung me seguiu, sentando-se ao meu
lado. Sorri e brinquei e enturmei, tentando ignorar a existência de meu
namorado ali do lado, mas não foi muito fácil com os olhares que ele me
lançava, claramente dizendo que nós tínhamos que conversar.
O problema era que eu não estava pronto para ceder ainda.
Até que uma amiga de Lisa chegou e se juntou a nós. Estávamos
debatendo como faríamos para incluir ela na mesa, afinal, já estava tudo
cheio, no entanto, antes que qualquer decisão fosse tomada, Taehyung
enlaçou minha cintura e me ergueu, fazendo-me sentar sobre seu colo.
Lisa nos observou pelo canto dos olhos, mas não falou nada. Fiquei tão
surpreso com a atitude que me mantive estático. Robert encarava nós dois
de forma descarada, e parecia fuzilar meu namorado idiota com os olhos.
Mexi-me em seu colo, tentando me ajeitar.
— Você quer me deixar excitado? — Taehyung sussurrou em meu ouvido,
suspirando cansado.
— Eu só me mexi, não exagera — revirei os olhos.
301
— Eu fico de pau duro só de olhar para você, Jeongguk. Até parece que
não me conhece — resmungou.
— Problema seu — respondi.
Estávamos tendo uma discussão aos cochichos, enquanto todos
conversavam animadamente... com exceção de Robert talvez.
— Nós temos que conversar e você sabe — insistiu.
— Você não quis conversar nos últimos dias, você sequer falar comigo.
Por que quer tanto conversar agora? — Não escondi a mágoa em minha
voz.
— Para explicar tudo — justificou.
— Não será tão fácil assim — devolvi.
— Eu não esperava que fosse! Só quero uma chance — soltou um gemido
baixinho quando me movi de novo — você realmente não vai facilitar as
coisas, não é?
Bufei.
— Eu mal estou me movendo no seu colo e você está gemendo. Não é
culpa minha essa sua sensibilidade.
— Não precisa ser tão infantil assim! Você está exagerando! — Exclamou.
Não medi minhas ações depois que ele falou isso. O ódio subiu a minha
cabeça e quando vi, me levantei de seu colo e dei um empurrão forte em
seu ombro com a intenção de afastá-lo de mim, fazendo meu namorado me
fitar, alarmado.
A mesa ficou em silêncio, e eu não me importei. Já estava pronto para sair
dali quando Taehyung se levantou e segurou meus pulsos. Desvencilhei-
me de sua pegada e me debati, querendo me soltar.
Chegou num ponto em que eu não tinha força sequer para me manter ali.
As lágrimas vieram de uma só vez e eu tremi, sentindo minhas bochechas
umedecerem.
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Caminhei para fora dali, não conseguindo encará-lo. Eu só queria ir para
casa.
Saí do pub e encaminhei-me até o metrô, limpando as lágrimas furiosas
que caíam. Mas Taehyung me seguiu e me abraçou por trás, me impedindo
de seguir caminho, parados no meio da calçada.
— Não vai embora — implorou baixinho — por favor, Gukkie, não vai
embora. Por favor! Me deixe explicar!
— O que tem para explicar? Eu disse que te amava e você deu as costas
para mim, você não falou comigo, você viajou para o seu país. Como você
acha que eu me senti? Você acha que foi exagero meu!
— Me perdoa, minha escolha de palavras foi péssima — lamentou — eu
só queria ter a chance de conversar com você.
— Pode começar falando, então — saí de seu abraço e me virei para fitá-
lo, cruzando os braços.
— Aqui? No meio da rua? — Franziu a testa.
Eu não ia facilitar as coisas para ele. Não mesmo.
— Sim, no meio da rua. Agora.
Taehyung suspirou profundamente e assentiu, derrotado.
— Eu fiquei triste quando você se declarou. Não porque eu não retribuía
seus sentimentos, e sim porque eles me fizeram sentir mal. Saber que
estamos num ponto tão importante de nosso relacionamento e... — abaixou
a cabeça, envergonhado — eu fui para a Coreia tentar conversar com
minha mãe. Como eu tinha te deixado no dia que a gente transou, não tive
coragem de te contar meu paradeiro e o que eu estava fazendo lá. Eu me
senti envergonhado e com raiva de mim mesmo. Eu não sabia o que dizer.
E se serve de consolo, os dias que passei na Coreia foram péssimos. Minha
mãe continua implacável e... eu sei que nada disso justifica minha atitude
com você. Cheguei de viagem hoje e vi a postagem da Lisa no Instagram,
então, como você não me respondeu, acabei vindo com os meninos.
— Você não falou comigo porque não tinha dito nada antes e ficou
303
envergonhado. E você não disse nada naquela hora porque lembrou da sua
mãe — eu estava desacreditado, confesso.
— Sim... me desculpa, Jeongguk. Me desculpa mesmo. Eu... — respirou
fundo — eu vou entender se você quiser terminar comigo de uma vez,
porque agora tem razões mais do que suficientes e você tem todo o direito.
— Eu não vou terminar com você, seu idiota — ralhei — eu não disse que
amo você? Não vou terminar por causa de um problema assim. Eu estou
sim muito magoado com o que você fez, mas isso por si só não foi
suficiente para mudar o que eu sinto por você.
— Você ainda me ama...
— Amor não desaparece da noite para o dia, Taehyung.
— Eu sei que não. É que você não tem mais motivos para continuar me
amando. Não quando eu não tomei decisões pertinentes acerca de nosso
relacionamento e de você. Eu falhei feio. Não te consultei. Desculpa.
Assenti devagar, olhando em seus olhos.
— O que realmente aconteceu, Tae?
O ruivo continuou com o olhar baixo, e sem falar nada, me abraçou,
passando os braços por minha cintura e escondendo o rosto em meu
pescoço. Seus lábios começaram a deixar alguns beijinhos na linha de
minha clavícula e eu suspirei, sem conseguir impedir e sem ligar para
PDA.
Ele afundou o rosto em meu pescoço um pouco mais, sua respiração
abafada e controlada.
Senti minha pele umedecer. Demorei dois segundos para registrar aquilo,
mas não foi muito difícil perceber o que estava acontecendo. Taehyung
chorava baixinho, soluçando contra meu pescoço e me apertando com
força, como se estivesse com medo que eu fosse desaparecer. Ele
claramente não estava nada bem.
Sem saber o que falar, levei minha mão até seus fios ruivos e comecei a
acariciá-los. Tentei passar todo o carinho possível através daquilo, mostrar
304
para ele que eu estava ali, não importando a circunstância. Mesmo que eu
não compreendesse inteiramente e estivesse magoado com ele.
— Eu não aguento mais isso — desabafou —, minha mãe mal fala comigo
e eu estou odiando isso. Eu sinto a falta dela, e ser ignorado por ela,
discutir com ela... Eu só queria que ela ficasse feliz por mim também.
— Ah... desculpe? — Sussurrei, simplesmente porque eu não sabia mais o
que dizer, e aquilo me fez sentir péssimo, apesar das circunstâncias.
Não era como se ele estivesse dizendo que aquilo era minha culpa, mas
não consegui evitar e pedir perdão.
— Não peça desculpas. Nada justifica a atitude dela. Nada.
— Eu sei que não. É só que... acho que talvez... melhor teria sido se nós
dois tivéssemos esperado um pouco — minha voz saiu trêmula.
Taehyung fungou.
— Para o quê? — Indagou, choroso.
— Começar um relacionamento sério assim, Tae — suspirei — acho que
se tivéssemos esperado, essas coisas não estariam acontecendo. Nós
corremos demais com isso. Talvez, a gente precisasse de um tempo antes
de começar a namorar. O que poderia ter ajudado com sua mãe. Tivemos
um início traumático demais, e nos apressamos demais.
— Você se arrepende? — Perguntou, me apertando um pouco mais.
— Não, jamais. De namorar você? Não — respondi, sem hesitação.
— Então...?
— É complicado — respirei fundo. — Eu... Não vamos discutir sobre isso
de novo, Tae — fiz carinho em seus cabelos — só estou dizendo que
talvez a gente se apressou muito. Mas, eu estaria mentindo se eu dissesse
que não estou feliz por estar com você agora, mesmo que eu me chateie.
Porque eu estou sim. Nós vamos superar essa barra.
— Eu espero que sim.
305
— Desculpa por ter explodido — eu estava envergonhado e arrependido
— não foi correto.
— Eu entendo que você estava aborrecido. Não liguei muito.
— Certo... acho melhor a gente ir embora, então. A gente conversa melhor
no dormitório.
Taehyung respirou fundo e assentiu, parecendo estar com sono e logo
levantou a cabeça. Entrelacei nossos dedos, puxando-o junto de mim,
afinal, nós tínhamos que ir embora. Não estávamos bem, mas eu me
esforçaria para mudar isso. Mandei mensagem para Ryan explicando o
ocorrido e pedindo para ele cobrir minha parte da conta, que depois, eu o
pagaria.
Um novo ano estava começando, coisas novas viriam, e dessa forma,
também viriam oportunidades. Enquanto eu pensava no que aconteceria
futuramente, uma coisa era certa: de algum jeito, eu teria de falar com a
mãe de Taehyung.
Anteriormente, tive certeza de que me manter firme e não me meter era a
melhor saída, porém, as vezes precisamos mudar um pouco de ideia, e
naquele momento, vi como a situação não melhoraria em nada se eu não
agisse.
Tinha tudo para dar errado, mas minha sogra e eu precisávamos chegar
num acordo pelo bem de Taehyung. Um na qual não fosse um empecilho
para que nós ficássemos juntos.
Ou assim eu esperava.
Porém, não achava que eu tinha escolha. Minha sogra não gostava de mim,
mas ela teria que tolerar aquela situação. Pelo menos tolerar. Não era
possível que ela não via o problema em estar desse jeito com o próprio
filho. Minha mãe não seria capaz de brigar comigo dessa forma.
Eu tinha que arranjar uma forma de resolver isso. E tinha de ser rápido.
306
*젠장, 덥다 – Damn, this is hot | Merda, isso é quente
307
Capítulo 17 - Enter Sandman
Anteriormente, quando eu havia perdido mais uma luta para Taehyung,
Yoongi afirmou que a culpa foi inteiramente minha. Eu era um adversário
fácil e não apresentava real perigo ou ameaça. Eu atacava sem mais nem
menos enquanto Taehyung estudava o adversário antes de fazer alguma
coisa. Em suma, eu precisava aprender a fazer o mesmo, e foi justamente
por isso que comecei a ter algumas aulas com o baixinho em segredo.
Ryan pediu ajuda a seu amigo do Wrestling, Austin, afinal, segundo ele,
qualquer coisa que eu pudesse aprender, poderia ser benéfica.
Uma coisa ficou clara para mim: Taehyung lutava muito bem em pé. Era a
especialidade dele, combates em pé. Considerando que eu jogava futebol
americano, eu tinha muita força física para jogar e segurar um adversário
no chão, então, minha vantagem seria caso eu jogasse o ruivo no chão.
Yoongi me elogiou por perceber tal coisa acerca do estilo de luta de
Taehyung. Outra coisa que notei era que o pé dominante dele era o
esquerdo. Ele era ambidestro, mas sua mão dominante era à esquerda,
então ele tendia a sustentar o peso nesse lado. Eu poderia usar isso ao meu
favor. Claro que era arriscado, em temporada de jogos, ele provavelmente
não gostaria de lutar, mas eu tentaria minha sorte.
Austin, como um bom wrestler, me ensinou como fazer uma chave de
braço perfeita. Segundo ele, como eu tinha vantagem em low ground, eu
deveria me aproveitar disso, e a chave de braço era um movimento
doloroso e eficaz. Treinei com ele, treinei com Yoongi, treinei com Ryan
(meu amigo quase desmaiou).
Eu me sentia ansioso, confesso. O nervosismo estava a mil. Não sabia se
308
eu teria capacidade vencer Taehyung, mas dessa vez, eu estava mais
preparado e sentia que talvez, poderia ter uma chance ou que eu daria
trabalho para ele, ao menos.
Porém, no momento, eu teria de deixar a luta mesmo para depois, pois
havia coisas mais importantes para se preocupar e resolver. Algo me dizia
que eu só teria a chance de obter essa luta, caso estivéssemos bem, então,
minha questão se tratava justamente de resolver o problema com a Sra.
Kim o mais rápido possível.
Sinceramente, eu não tinha um plano claro de como abordaria minha
sogra, mas tinha uma noção de como faria isso. Para começo de história,
descobri que ela estaria no Estados Unidos para acompanhar o próximo
jogo de tênis de Taehyung na semana que vem, e quem me avisou isso foi
Nayun. Quando entrei em contato com a irmã caçula de meu namorado,
não me surpreendi quando a garota demonstrou apoio incondicional, além
de me encorajar a realmente falar com a Sra. Kim.
Diferentemente da primeira vez em que a conheci, eu não ficaria parado
ouvindo insultos e mais insultos serem jogados contra minha cara. Muita
coisa mudou desde aquela ocasião, eu mudei e eu tinha força de vontade
em fazer aquele relacionamento dar certo. Ela tinha que respeitar a escolha
do filho e reconhecer que ele era feliz comigo, nós éramos felizes.
Em momento algum, cogitei namorá-lo por causa de sua condição
financeira ou fama. Se isso realmente tivesse um peso considerável, eu não
teria sequer brigado com ele aquele dia do lado de fora do boliche. E
também, já estava ficando farto daquilo tudo. Farto de ver Taehyung
chorar, farto de vê-lo cabisbaixo, farto de vê-lo errar jogadas simples
durante os treinos porque a cabeça dele estava em outro lugar.
Aquela briga tola estava afetando a vida emocional e profissional dele, e
isso era mais do que suficiente para que eu decidisse não seguir o conselho
de meu pai e efetivamente me intrometer. A mãe dele achava que ele
estaria melhor sem mim? Ouso arriscar que se a gente terminasse, ele
estaria tão mal quanto agora. Eu sei que eu ficaria mal, afinal, eu amava
ele.
Então, com a ajuda de Nayun, armei um encontro em mim e minha sogra
num dos camarotes dos jogos alguns minutos antes de começar. Taehyung
havia garantido meu lugar lá junto da irmã, e como a mãe dele também
309
estaria lá. No dia, me senti incrivelmente tranquilo, embora soubesse que
poderia dar tudo errado.
Não cheguei a ver Taehyung quando cheguei, até porque ele já estava se
preparando para a partida. No entanto, eu sabia que se convencesse a mãe
dele, ela conversaria com ele de alguma forma antes do jogo, o que era a
minha intenção.
Recebendo o sinal verde de Nayun, aguardei até a hora em que vi minha
sogra entrando na sala do camarote. Então, sem esperar um segundo a
mais, adentrei a sala, e fechei a porta atrás de mim audivelmente,
chamando a atenção da Sra. Kim que se encontrava ali dentro. Ao me ver,
a mulher cruzou os braços e me fuzilou com os olhos, parecendo realmente
ultrajada com a minha audácia de estar ali.
— O que diabos você quer aqui, garoto? Já não basta eu estar brigada com
meu filho? — Indagou, irritada. — Será que você não...
— Eu estou aqui para conversar com a senhora — interrompi, sério. — E a
senhora vai me ouvir. Diferentemente da primeira vez que a conheci, não
estou disposto a deixar que senhora fale o que bem quiser sem receber uma
resposta apropriada.
— E o que faz você pensar que eu estou disposta a ouvir? Eu vim assistir
meu filho demonstrar seu talento sem igual mesmo que não estejamos em
bons termos, e não falar com você. — Debochou. — Se bem me recordo,
acredito que deixei claro que não quero ter qualquer tipo de contato com
você e que eu esperava que você tivesse o bom-senso de se separar de
Taehyung.
— Eu acho que a senhora, acima de tudo, sabe que seu filho é um homem
de 23 anos, e não um garoto que pode ser influenciado por tudo. Ele é
perfeitamente capaz e inteligente o suficiente para fazer suas próprias
escolhas, e você como mãe, não devia atirar cinco pedras nele por não
concordar.
— Você está querendo me ensinar como ser mãe? Como educar e tratar o
meu próprio filho? — Questionou, ultrajada.
— Não, eu estou fazendo você ver suas atitudes para com ele. Eu não
tenho direito de opinar na forma como você o ensina e o educa, afinal,
310
você é a mãe dele. Mas a partir do momento em que isso começa a afetar o
bem-estar e a saúde dele, eu devo interferir — apontei — porque não se
engane, Sra. Kim. Não sou eu quem tem brigado com Taehyung todos
dias, quem tem o entristecido, quem tem o feito chorar.
— Ora, seu moleque! Se eu estou repreendendo meu filho é porque me
importo com ele! E isso é definitivamente culpa sua! Se você não tivesse
aparecido, eu não teria de brigar com ele — afirmou.
— Porque ele não escolheu um parceiro da sua preferência. É por isso —
respondi, firme. — A senhora não sabe a decepção que ele sente toda a vez
que fala com você. Seu comportamento baseado em status e dinheiro, ao
invés de priorizar o que Taehyung quer, o que ele escolheu para a vida
dele. Ele sempre me falou tão bem de sua família, e ficou arrasado quando
descobriu que dita família me tratou tão mal por questões financeiras.
— Mas, é claro! O que você esperava? Você nunca fez nada e não tem
onde cair mo...
— É aí que a senhora se engana! — Exclamei, sentindo meu orgulho
ferido. — Em comparação com os outros, posso não ter tantas conquistas
assim, mas sempre tirei notas A durante meu período escolar, ganhei
medalhas em decatlos, ganhei uma bolsa de estudos pelo futebol
americano e estou me graduando em Ciência da Computação — listei. —
Quando eu terminar a faculdade, conseguirei um emprego em uma das
grandes empresas de jogos e ganharei um salário estável e satisfatório
mostrando minha competência como funcionário. Posso não ser o que a
senhora sonhou, mas a minha mãe e o meu pai se orgulham bastante da
pessoa que eu sou e de tudo o que eu conquistei. Eles me criaram muito
bem, me criaram para ser um homem íntegro e de caráter, não para ser um
golpista que namora uma pessoa simplesmente baseada na condição
financeira dela.
— Palavras bonitas demais, mas não o suficiente para me fazer concordar
com esse relacionamento desastroso — revirou os olhos.
— Eu não quero que a senhora concorde, a senhora não precisa concordar.
Eu só quero que a senhora pelo menos tolere o fato de que a gente namora
e sim, seu filho é extremamente feliz comigo. Isso não é o suficiente para
você? Você não se importa com a felicidade dele?
311
— Claro que me importo! Tudo o que eu mais quero é que Taehyung seja
feliz. Com a pessoa certa — afirmou.
— Com a pessoa que a senhora quer, né — suspirei —. Eu terei o bom-
senso, não aparecerei em quaisquer eventos familiares, vocês dificilmente
vão me ver., mas, por favor, pelo menos tolere nosso relacionamento e
faça as pazes com ele! Por favor! Sem brigar com ele, sem discutir! E não
estou pedindo por mim, estou pedindo por ele. Pelo amor que eu sei que a
senhora sente por ele. Por favor! Por favor!
Olhei para ela de forma suplicante, faltando juntar minhas duas mãos na
frente e me ajoelhar, implorando para que ela me escutasse e fizesse as
pazes com Taehyung, era o que eu mais queria. Feliz e chocantemente, a
mulher suavizou a expressão e me analisou da cabeça aos pés, parecendo
considerar tudo o que falei.
Até que por fim:
— Tudo bem. Eu irei conversar com meu filho e entrarei em um acordo
com ele. Mas não pense por um segundo sequer que aprovo esse
relacionamento ou que quero ver você em qualquer tipo de evento — faltei
suspirar aliviado.
— Acho justo. Obrigado, Sra. Kim. A única coisa que importa é a
felicidade de Taehyung.
Fiz uma reverência, buscando sair da sala logo.
— Jeongguk — me chamou, fazendo-me encara-la com a sobrancelha
franzida.
— Sim?
— Não ouse fazer meu filho chorar.
[...]
Como imaginei, a reconciliação trouxe frutos positivos: Taehyung venceu
mais um jogo de tênis. Ele jogou com a concentração e seriedade de
sempre, mas era visível como o ruivo estava melhor, mais alegre, mais
empolgado.
312
Cumprindo minha parte, não fiquei no camarote, afinal, a mãe dele estava
ali e eu não queria causar quaisquer problemas. Assisti ao jogo pelas
arquibancadas e vibrei demais quando ele venceu junto com a senhorinha
que sentou ao meu lado.
Eu sabia que teria uma festa pós-jogo e que ele daria entrevistas aos
repórteres, cumprimentaria sua família e estaria ocupado, então dei de
ombros e decidi ir embora. Eu já estava feliz por saber ele conseguiu fazê-
lo se acertar com a mãe, mais tarde poderíamos ter um tempo só nosso.
Estava de noite quando cheguei no campus e fui direto ao Walmart do
campus comprar algumas coisas para abastecer meu dormitório. O Spring
Break logo estaria aqui, e eu me perguntava se o melhor seria viajar ou ir
para a casa dos meus pais. Tanta coisa aconteceu nesse pouco tempo desde
o Feriado de Ação de Graças, e eu sentia que precisava desabafar com
meus progenitores.
Fui para meu quarto, suspirando contente pelo clima agradável que fazia
naquela noite. Mas, assim que cheguei no corredor, arregalei os olhos,
surpreso ao ver Taehyung ali encostado em minha porta. Ele estava de
banho recém tomado, os cabelos úmidos completamente bagunçados de
quem não se incomodou em penteá-los, calça jeans e uma camisa de
botões estampada.
— De onde você tirou a ideia de que eu não perceberia sua ausência, Jagi?
— Perguntou, sorrindo. — Assim que percebi que você não estava lá, eu
fui embora.
Retribuí o sorriso, abrindo a porta do quarto e dando espaço para ele entrar
primeiro. Coloquei as compras no chão e esfreguei as mãos na calça.
— Achei que você ia querer ficar com sua mãe por um tempo — dei de
ombros.
— Você falou com ela — comentou, o sorriso aumentando — ela
realmente ouviu você e me pediu perdão. Disse que não concordava com o
nosso namoro, mas que poderia tentar engolir pelo meu bem.
— Achei justo.
Taehyung se aproximou de mim e segurou minhas bochechas com ambas
313
as mãos.
— Você é incrível — selou meus lábios — obrigado por tudo.
— Não fiz nada demais — abracei sua cintura. — Você jogou muito bem
hoje, amor. Fiquei orgulhoso.
— Joguei, é?! Acho que mereço um prêmio — deu um sorrisinho
malicioso, fazendo-me revirar os olhos.
— Deixa de ser pervertido. Eu trouxe algumas coisas do Walmart. A gente
pode ver um filme ou alguma série, o que acha? Não estou muito a fim de
sair hoje — sugeri.
— Rola uma massagem nos meus ombros? — Fez um biquinho pidão.
— Talvez, escolhe algo legal para a gente ver e dependendo da escolha, te
dou uma mensagem.
Os olhos escuros de Taehyung brilharam, empolgados.
— Feito.
Apanhando minhas compras, abri as sacolas e guardei parte do conteúdo,
tirando duas latas de refrigerante, e sanduíches naturais de dentro de um
papel alumínio para que nós pudéssemos beber e comer. Quando fui até
minha cama, vi Taehyung mexendo em meu laptop e conferi o que ele
colocou para a gente assistir: Perdido em Marte.
— Ficção científica? — Perguntei, aconchegando-me ao seu lado.
— Sim. Eu tenho sorte de nós dois gostarmos tanto de ciência. É uma
combinação perfeita — pegou uma das latas de refrigerante e abriu,
tomando um gole — e eu definitivamente mereço isso depois da minha
vitória triunfal.
Rindo, apaguei a luz do quarto, ele apertou o play e eu esperei até que se
aconchegasse, deitando a cabeça em meu ombro. Em silêncio, comecei a
fazer carinho em seus fios úmidos e o filme começou.
[...]
314
Fazia tanto tempo desde que a aposta que firmamos.
Tinha acontecido no ano passado, e acho que Taehyung sequer lembrava
dela mais. Mas, eu não me esqueci. Como eu poderia esquecer? Treinei
tanto junto de Yoongi que mal pude pensar em outra coisa.
Na próxima sexta haveria um encontro para comemorar o um ano do
Clube da Luta, e Yoongi me garantiu que essa era a oportunidade perfeita
para vencer Taehyung, afinal, ele com certeza estaria lá. Não quis
demonstrar minha insegurança para com isso.
No entanto, sinceramente, nem precisei, até porque foi ele quem me
chamou para ir no encontro de aniversário do Clube da Luta, pois estava
afim de chutar alguns traseiros. Eu apenas ri nervosamente e concordei.
Naquela noite, Taehyung usava uma bandana preta, uma camiseta simples,
jeans e coturnos enquanto que eu optei por algo similar, só que usando
tênis ao invés. Fizemos o caminho até o prédio do Instituto Herberger
juntos, com um braço dele envolto em meu ombro já que eu abraçava sua
cintura. Mais cedo, o ruivo me contou sua vontade revelar à imprensa que
estava comprometido sem citar nomes, pois assim, a mídia pararia de
especular sua vida pessoal com perguntas como "você está solteiro? ". Ele
queria que as pessoas soubessem que ele pertencia a alguém sem deixar
claro quem esse alguém era.
Claro que não reclamei. Quanto antes soubessem, para mim, melhor.
Chegamos no porão onde realizavam as lutas, e não surpreendentemente,
elas já haviam começado. Era um novato contra Seokjin, e eu ousava
apostar que Jin simplesmente acabaria com o pobre rapaz. Quem chegava
lá, não tinha a mínima chance nas primeiras semanas, porém, depois de
muito apanhar, com algum tempo, começam a durarem mais. Eu vi isso
nas poucas vezes em que estive lá, então não foi tão difícil perceber isso.
Taehyung se separou de mim e foi cumprimentar Namjoon, enquanto que
eu fui cumprimentar Yoongi.
— E aí? Nervoso? — Perguntou, dando o sorriso gengival.
— Muito. Acho que vou vomitar, inclusive. Isso tem tudo para dar errado,
sabe? — Cocei a cabeça, ansioso.
315
— Eu sei, mas isso não significa que vai dar errado, relaxa, Jeongguk —
revirou os olhos — Você já esteve em situações piores.
— Sim, mas não é suficiente. Eu realmente quero ganhar, você não tem
ideia do que eu vou conseguir se eu ganhar — comentei. — É uma questão
de honra!
Yoongi revirou os olhos.
— Quanto drama! É só uma luta — segurou a risada.
Cruzei os braços, fazendo um bico.
— Se você não conhecesse o Taehyung, eu diria que você está brincando
com a minha cara — fechei a cara — até parece que você não imagina.
— Não faz diferença — deu de ombros — você precisa vencer ele, garoto.
E você vai. Você treinou bastante a chave de braço e aprendeu um pouco
sobre como usar seus maiores atributos a seu favor. Eu acredito que você
consegue. Já disse, Taehyung não é invencível.
— Só um milagre para isso acontecer — suspirei.
— Não seja tão dramático. Com sorte, o espírito do MacGyver desce sobre
você e você consegue chutar o traseiro dele — segurou a risada.
— Mais fácil ele chutar o meu, e nem vai precisar da ajuda do MacGyver
para isso.
— Só te lembrando que quem teve essa ideia genial foi você, então, vai na
fé — deu duas batidinhas solidárias em meu ombro.
Não respondi, apenas tentei manter a calma enquanto minhas mãos
suavam. Observei a luta, tentando imaginar se eu perderia tão feio quanto
o novato perdeu. Eu não podia passar vexame daquela vez.
Mais duas lutas de sucederam depois daquela. A primeira acabou muito
rápido, bastou um soco e chute para o cara cair desacordado no chão,
enquanto que a segunda demorou um pouco. Os dois faziam parte do
Clube da Luta há algum tempo, então já estavam habituados. Desviavam
dos golpes com maestria, aplicavam golpes muito bons, como se realmente
tivesse treinado antes.
316
O que algumas semanas ali não fazia...
Mas aí, um deles bateu no chão três vezes e a luta de encerrou. Era a hora.
Eu ia passar mal de nervosismo se não fizesse algo logo, se não agisse
logo. Não podia esperar mais, a próxima luta seria nossa.
Então, enquanto tiravam os dois homens que lutavam do meio do círculo
que era o "ringue", respirei fundo e não hesitei. Tirei minha camiseta e
meu tênis, estralando o pescoço. O "crack" foi tão alto que eu me assustei
um pouco com o tanto de tensão acumulada que eu tinha. Mais uma prova
de que aquilo não podia esperar mesmo!
— Taehyung! — Chamei em voz alta, atraindo a atenção de todos os
presentes, incluindo meu namorado. O ruivo estava parado do outro lado,
conversando animadamente com Namjoon, mas interrompeu a conversa
assim que falei seu nome, me encarando com curiosidade. — Eu te
desafio.
Os homens ao redor gritaram muito alto, comemorando o desafio enquanto
Taehyung tombou a cabeça para o lado, os olhos um pouco arregalados,
demonstrando sua surpresa. No entanto, sua surpresa se desfez
rapidamente quando um sorriso carinhoso surgiu em seus lábios.
Caminhando até o centro, ele chutou o coturno e despiu a camiseta,
jogando-o para longe enquanto eu me posicionava à sua frente. Claro que
eu odiava a coisa de ter que lutar sem camisa, afinal, quem precisava olhar
para o peito tatuado dele e babar era eu. O quão triste era aquilo.
Mas, eu não podia deixar meu desejo dominar meus pensamentos naquele
momento crucial, os hormônios podiam esperar.
— Você não me dá folga, Jagi — brincou. — Eu não esperava por isso.
— Quando você lutou comigo na minha primeira noite aqui eu também
não esperava — apontei, dando de ombros, disfarçando o nervosismo.
— Verdade. A hora da vingança é agora.
— E a aposta, Taehyung — o recordei. — Lembra do que a gente
combinou. Se eu ganhar, você sabe...
317
Ele deu uma risada anasalada.
— Eu vou fazer questão que você não ganhe — assegurou, me fazendo
sentir um arrepio na espinha pela forma como me fitava.
É o que veremos, bonitão.
Levantei meus punhos e esperei que ele fizesse o mesmo, mas o ruivo
apenas me encarava de forma compenetrada, tentando me intimidar. Era
muito irônico para mim, conseguir perceber que na primeira vez, ele
debochou de mim e intencionalmente me fez passar vergonha. Agora,
mesmo já tendo ganho duas vezes, ele não estava mais com aquela pose de
chacota e deboche. Era tão diferente e mesmo assim, parecia igual.
Dessa vez, não ataquei primeiro. Esperei. Justamente porque ele esperava
minha investida. Taehyung finalmente ergueu os punhos e caminhou pelo
chão de concreto. Observei seus movimentos tranquilos, a forma como seu
pé dominante era o esquerdo, e como ele parecia esperar que eu fizesse
alguma coisa.
Cautelosamente, me aproximei, mantendo a guarda alta exatamente como
Yoongi me instruiu e o ruivo aproveitou daquilo para dar um passo para
frente, investindo. Não pensei duas vezes e fingi dar um soco, quando ele
desviou, usei sua distração a meu favor e apliquei uma rasteira em sua
perna. Como esperado, Taehyung não caiu, falhou um pouco o joelho.
Antes, eu não usava táticas para enganá-lo ou distraí-lo, então fiquei feliz
com o resultado.
Meu namorado me fitou, surpreso e um sorriso curvou os cantos de seus
lábios.
— Você andou treinando — afirmou, visivelmente satisfeito — vamos ver
o quanto você avançou, Jagi.
— Eu acho que você está tirando uma com a minha cara.
— Claro que n...
Não deixei que ele terminasse. Mais uma vez tirei proveito e acertei um
soco certeiro em sua barriga, aproveitando sua guarda baixa. Taehyung
318
cambaleou e me fuzilou com os olhos.
Ele estava irritado.
— Trapaceiro.
Soltou um resmungo antes de levantar os punhos e investir contra mim.
Desviei do primeiro soco e o segundo parou contra meu braço. Não doeu
porque ele não aplicou muita força, já percebi que quando eu sou o
oponente, Taehyung não dá seu máximo temendo me machucar.
Mas, eu não teria nada disso.
— Se eu ganhar, você vai ter de fazer o que eu quiser, e o que eu quero é
te ter à minha disposição — sorri — e eu vou ter.
— Não vai mesmo — rebateu.
Avancei um pouco e ele não hesitou em investir de forma mais agressiva,
desviando com maestria dos socos que eu tentei dar. Eu precisava derrubá-
lo, minha vantagem era no chão e não teria a mínima chance em uma luta
em pé. Mas Taehyung também parecia saber, pois no momento em que
tentei dar uma rasteira desajeitada pela minha falta de prática e habilidade
com aquilo, meu namorado segurou minha perna direita, puxando-a para
cima de forma que me fez perder o equilíbrio. Não teve outra: ele
aproveitou disso e meteu um soco sem muita força em minha bochecha,
mas ainda assim, doeu.
Ele tomava o maior cuidado possível, era claro, só que algumas coisas
eram inevitáveis. Fiz uma careta pela dor que aquilo me causou, porém,
Taehyung não tinha terminado. Com força, me deu uma joelhada certeira
na barriga, fazendo com que eu caísse com a bunda no chão. Foi
deselegante e humilhante ouvir todos aqueles homens gritando em volta e
comemorando. Apertei os olhos por um segundo pela dor que se espalhou
por minhas costas, mas não perdi tempo quando vi meu namorado
sorridente se aproximar. Meti um chute forte em seu peito e me levantei.
Taehyung deu dois passos para trás e me encarou, surpreso. Se eu fosse
perder, não seria de forma vergonhosa, eu garantiria isso.
Corri em sua direção e me joguei contra seu peito, abraçando sua cintura e
tentando jogá-lo no chão. O ruivo bateu as costas contra uma das pilastras
319
que tinha bem ali e soltou um grunhido alto, tentando acertar outra
joelhada em mim, mas consegui bloquear o impacto com minha coxa e dei
outra rasteira em seu único pé firme no chão, derrubando-o finalmente.
Taehyung caiu de joelhos e eu tentei dar uma chave de pescoço, mas foi
em vão. Ele meteu uma cotovelada em minha barriga e segurando minha
cabeça, conseguiu me puxar para frente e eu dei uma verdadeira
cambalhota, caindo deitado em sua frente.
Meu namorado parou para me analisar com os olhos preocupados e
visivelmente arrependidos, como se tivesse achado que estava pegando
pesado comigo.
— Acabou! — Anunciou.
— Não... — resmunguei.
— Jeongguk, eu não vou te ferir mais, eu não suporto a ideia de te ferir —
ralhou, parecendo meio perturbado.
— Eu posso até perder, mas não vai ser de forma idiota — reclamei, me
levantando com dificuldade. — Só acaba quando eu desistir, e eu não
desisti ainda.
— Então, vai acabar agora — disse, enfático.
Eu já tinha uma noção do tipo de coisa que ele fazia ao observá-lo por um
curto período de tempo, como a forma como ele travava a perna esquerda,
tornando-a mais vulnerável. Taehyung veio em minha direção, e eu tentei
acertar outro soco em sua barriga, mas prevendo meus movimentos, ele
segurou meu punho com maestria e virou-o contra minhas costas daquela
maldita forma que ele sempre fazia. Meti um chute contra seu joelho
esquerdo e consegui afastá-lo. Ao me virar, meti um tapa contra seu rosto,
arregalando os olhos quando o rosto dele virou e seus cabelos caíram sobre
seus olhos.
— Tae, voc...
O ruivo não me deixou terminar exatamente como eu fiz com ele
anteriormente e aproveitando de minha distração, mais uma vez agarrou
meu braço e tentou contra minhas costas. Tentando impedir aquilo, me
rebati fortemente e sem pensar duas vezes, impulsionei o corpo com tudo o
320
que eu tinha para cima dele, envolvendo seu pescoço com meu braço livre.
O ruivo claramente não esperava e eu me esforcei mais ainda, ouvindo
mais gritos empolgados dos homens ao redor. Apoiei todo meu peso contra
ele e prendendo sua perna, chutei a parte de trás de seus dois joelhos,
fazendo com que ele caísse no chão.
— Finaliza ele, Jeongguk! — Yoongi gritou, sua voz claramente
eufórica...
Determinado, apertei com força seu pescoço, lembrando das lições de
Austin e assim que derrubei meu namorado, troquei de posição
rapidamente, agarrando seu braço esquerdo e o prendi entre minhas pernas,
aplicando uma chave de braço, mas não de forma que pudesse distender
seu ombro e seus músculos (eu me preocupava com a carreira dele, afinal).
Não afrouxei o aperto até ele dar três batidas no chão pouco tempo,
desistindo da luta.
Um sorriso enorme estampava meu rosto. Eu venci. Eu realmente venci.
Meu treinamento realmente valeu a pena.
Soltei seu braço e engatinhei até estar em cima de si, vendo Taehyung
respirar com dificuldade, o cabelo vermelho grudado na testa pelo suor.
Seus olhos estavam fechados e a boca aberta, sem fôlego algum.
— Você provavelmente teria ganhado se não tivesse sido tão arrogante e
se tivesse lutado para valer — comentei, sincero. — Eu sei que você não
lutou para valer, aliás, seus socos nem eram fortes, você não me levou a
sério, e sinceramente eu não esperava que levasse. — Os olhos dele se
abriram e ele me encarou. — Se isso fosse uma luta séria e você tivesse
lutado com vontade, eu não teria vencido, eu sei. Você tem experiência
nisso afinal, e isso daqui é a vida real e não um filme de luta idiota. A
verdade é que você praticamente me deixou ganhar e eu não ligo. Sabe por
quê? Porque quem ganhou a aposta fui eu.
Dei um sorriso de canto. Ele ia vencer aquela luta, isso não era nem
questionável. Mas um vacilo foi o que bastou.
— Bom saber que depois eu vou poder te foder com tanta força que você
vai ficar uma semana mancando — rosnou.
321
Ah, estava irritado. E isso era simplesmente maravilhoso.
— Eu adoro quando a gente faz sexo com raiva, mas detesto maus
perdedores... você não? — Cheguei perto de seu ouvido e sussurrei,
suspirando de forma dramática.
Em resposta, ele apenas abriu os olhos e me fitou de forma nada contente.
Levantei-me de cima de si e ergui a mão, achando que ele ia recusar, mas
para a minha surpresa, ele segurou meu punho e levantou do chão.
Taehyung me puxou para perto de si e roubou um beijo meu, ignorando a
multidão ao redor. Ele carregava uma expressão de determinação em seu
rosto quando se afastou, os lábios entreabertos e os cabelos ruivos ainda
grudados na testa.
— Quer me ver lutar para valer, Jagi? Me observe. — Me empurrou para
fora da arena e olhou em volta. — Sam Evans, eu desafio você.
Lembro quando disseram que as pessoas não costumavam ter coragem de
desafiar Taehyung, assim como ele também não costumava desafiar,
apenas observava lutas. Porém, o que eu sabia era que Sam era um dos
melhores ali, lutava fazia tempo e perdeu bem pouco em comparação com
outros ali. Os homens mais uma vez gritaram empolgados quando o garoto
de cabelos negros retirou a camiseta, os tênis e entrou no meio.
Caminhei na direção de Yoongi e o baixinho me deu um sorriso satisfeito,
metendo um soco em meu ombro. Grunhi de dor, fuzilando-o com os olhos
e ele apenas deu de ombros, nada incomodado. Observamos os dois se
posicionando e a luta prestes a começar.
— Você venceu o imbatível — comentou. — Parabéns.
— Você sabe que ele não lutou a sério — comentei, baixinho.
— Sim, eu sei. E daí? Vacilo dele, quem ganhou foi você — respondeu,
como se fosse óbvio. — Foca na luta deles. Taehyung está com raiva, só
olhar para a cara... ah, garoto, essa luta vai ser sensacional.
Ele estava tão feliz com aquilo que eu fiquei um pouco preocupado.
A luta começou e eu não ousava piscar. Taehyung estava com uma postura
322
diferente de quando nós lutamos, claramente mais sério e bem mais
centrado. Seus punhos também estavam erguidos quando ele avançou
contra Sam e investiu um soco com o braço esquerdo em direção do olho
do garoto. O outro lutador era claramente experiente, pois conseguiu
bloquear o soco, mas Taehyung não parou, cravou o punho direito na
barriga do garoto e assim que ele abaixou os braços para proteger aquela
área, o ruivo lhe deu uma cabeçada.
Fiz uma careta, sentindo a dor do cara porque porra, a expressão facial
dele foi feia.
Porém, não tinha acabado por aí. Taehyung subiu o punho esquerdo, mas
dessa vez, acertou um gancho no queixo do rapaz, e naquele ponto, eu
pude ver que tinha sangue. Saía sangue da boca de Sam. Arregalei os
olhos, parando para pensar em como eu definitivamente ganhei
"permissão" para ganhar. Eu não teria a mínima chance mesmo contra ele
se ele tivesse lutado de verdade.
Tentando recuperar a compostura, Evans se afastou um pouco e cuspiu o
sangue no chão. Taehyung sequer parecia preocupado, observando-o ainda
de forma séria, mas com o corpo visivelmente mais relaxado. Ele passou
os dedos pelos cabelos grudados em sua testa pelo suor, jogando-os para
trás e revelando seu rosto amorenado por inteiro.
— Você não vai começar a babar logo agora, né? — Yoongi resmungou,
sem tirar os olhos dos dois.
— Seria ruim se eu babasse? Afinal, ele é meu namorado — retruquei.
— Vocês são gays demais, meu Deus.
— Não fale o nome de Deus em vão num momento como esse, tem dois
seres humanos se batendo ali — ralhei.
— Foi mal, garoto cristão — balançou a cabeça.
Sam correu na direção de Taehyung, pronto para dar um golpe, mas eu já
havia percebido que aquele tipo de ataque era uma merda e dava muito
errado. E deu mesmo. O ruivo acertou um chute na barriga do garoto na
hora, fazendo-o cambalear, mas para minha surpresa, ele não desistiu, e
correu novamente, mais determinado do que nunca. Diferente de mim, ele
323
derrubou Taehyung no chão e os dois saíram rolando pelo concreto de
forma desajeitada.
Meu namorado conseguiu se recuperar da queda junto com o rapaz e os
dois iniciaram uma briga de força bruta para ver quem conseguia subjugar
o outro primeiro. Para minha surpresa, Sam conseguiu primeiro e prendeu
Taehyung abaixo de si, começando a acertar socos repetidamente em seu
rosto. Eu fazia uma careta a cada soco que era dado, totalizando uns três
até Taehyung fazer um truque que eu simplesmente não acreditei.
Nunca na minha vida, imaginei ver ele fazendo isso, mas ele fez. Acho que
a gente já transou demais na vida com aquela mania de um tentar dominar
o outro como sempre fazíamos, comigo estando acostumado a conseguir
trocar de lugar sempre que ficava por baixo. Porém, eu quis rir muito alto
quando ele me imitou e prendeu as pernas na costela do cara,
impulsionando todo seu peso contra ele e virando-os no chão novamente.
Geralmente, eu prendia em volta de sua cintura ou de seu traseiro quando
fazia isso e era definitivamente mais sexy e gostoso, no entanto, não
importava no momento porque eu já estava achando maravilhoso saber que
as nossas transas foram benéficas até para ajudar ele a ganhar luta.
Com uma expressão perigosa no rosto, Taehyung prendeu as pernas do
indivíduo e com uma força sem igual, deu um soco, dois socos, três socos,
quatro socos, cinco socos, seis socos, até que Sam finalmente deu duas
batidas no chão, indicando a desistência. O garoto provavelmente ia ter
que passar a próxima semana todinha usando óculos escuros se não
quisesse ser perturbado por outros alunos.
Levantando de cima de seu corpo, meu namorado ofereceu a mão para
ajudá-lo a levantar, e o rapaz se recusou, levantando-se sozinho.
— É por isso que Taehyung não desafia as pessoas e as pessoas
geralmente não tem coragem de desafiá-lo — Yoongi sussurrou ao meu
lado. — Ele é bom, Jeongguk. Ele realmente é bom.
Quando o ruivo se virou na minha direção e mais uma vez tirou os cabelos
da testa, me encarando, não pude deixar de concordar.
— Ele realmente é bom.
324
Capítulo 18 - Even Flow
Taehyung's POV
Se tem uma coisa que eu aprendi durante todo nosso pouco tempo de
namoro é que Jeongguk sabe ser bem manipulador quando quer.
Principalmente se ele quer algo de mim. Era como se o garoto soubesse
que eu não tinha estruturas para resistir a qualquer pedido seu quando ele
fazia aquela carinha inocente, deixando seus olhos maiores do que já eram
e moldando os lábios num biquinho fofo.
Mas, se engana quem realmente acredita na "inocência" de Jeon. Ele me
tinha na palma da mão e se aproveitava muito bem disso. Não que eu
realmente me importasse com tudo isso, principalmente se tratando da
maneira como ele conseguia manter a pose de menino inocente, afinal, eu
sabia bem demais que não passava de uma forma de conseguir o que ele
queria.
E hoje, ele quis que eu ficasse fora o dia todo. Na verdade, eu não tinha
muito o que fazer hoje. Não tinha aulas na sexta-feira em meu novo
horário do semestre, então, geralmente aproveitava o dia para estudar um
pouco, passar tempo com Jeongguk ou apenas ficar de boa em meu
dormitório. Porém, ele fora enfático quando disse que eu devia ficar longe
e só voltasse quando já fosse noite – tudo isso enquanto fazia o maldito
biquinho.
Não entendi nada, claro, mas acabei por suspirar, dar um beijo em sua testa
325
e sair em direção à uma das cafeterias do Memorial Union da
universidade. Eu não tinha ideia do que diabos Jeongguk estava
planejando, e sinceramente, minha intuição me dizia que eu não ia querer
saber. Desde que ele me venceu no Clube da Luta, eu tenho esperado
pacientemente até que o garoto finalmente escolhesse qual seria seu
prêmio e como ele queria que fosse. E eu sabia que "ser bonzinho" era
algo que simplesmente não existia em seu vocabulário. O que quer que ele
estivesse planejando fazer, não seria tão bom para mim.
Levantei o pulso e conferi as horas em meu relógio. Já passava das sete da
noite, então, concluí que agora eu poderia voltar para o dormitório após
passar o dia todo perambulando por aí. O lado bom disso foi que aproveitei
as horas vagas para treinar uns saques com os equipamentos de tênis
disponibilizados pela universidade.
Espreguicei-me um pouco antes de me retirar da biblioteca,
encaminhando-me de volta para trajeto que me levaria até a minha cama,
porque no momento o que eu mais queria era tirar um cochilo. Como
estávamos perto do Spring Break, a temperatura estava agradável, e não
aquele calor absurdo de 45 à 50° que geralmente fazia no verão.
Coloquei minhas mãos nos bolsos frontais da minha calça jeans, sentindo o
vento bater contra minha camiseta preta. Eu havia escolhido não sair de
jaqueta hoje, não acreditando que eu realmente precisaria dela e de fato,
não precisei. Cheguei no prédio dos dormitórios e cumprimentei um dos
colegas que moravam ali antes de me dirigir até as escadas. Antes mesmo
de abrir minha porta, eu já imaginava que Jeongguk estaria deitado no sofá
vestido em alguma calça de moletom minha e assistindo televisão, mas aí,
lembrei que ele praticamente me expulsou do dormitório hoje, então, não
tinha a mínima chance de ser isso, ou de isso acontecer.
Assim que destranquei a fechadura e entrei, franzi a testa, confuso. As
luzes estavam apagadas e um breu tomava conta de todo o ambiente.
Jeongguk foi embora sem me avisar? Toda aquela coisa para eu ficar fora
o dia todo, voltar para cá e não ter nada?
Suspirando pesadamente e começando a questionar o comportamento
maluco do meu namorado, fechei a porta e a tranquei, no entanto, antes
que eu acendesse a luz, vi a fresta da porta do meu quarto brilhando, com a
luz acesa do lado de dentro. Dando de ombros, esvaziei meus bolsos,
colocando meus pertences na mesinha ao lado da entrada e decidi por não
326
ligar as luzes, caminhando até o quarto.
Estava tudo silencioso lá dentro, então, dei duas batidinhas antes de
pigarrear e perguntar em voz alta:
— Jagi? Acabei de chegar.
Não houve resposta e mais uma vez, franzi a testa. Aquele estava
parecendo o cenário de um filme terror, onde eu entraria no quarto e veria
uma cena assustadora. Balançando minha cabeça por pensar em tamanha
besteira, girei a maçaneta e abri a porta devagar, esgueirando-me para
dentro do cômodo.
E então, meu queixo caiu. Literalmente. Meus olhos dobraram de tamanho
e qualquer vestígio de sono que eu tinha, desapareceu na hora com o que
vi.
Lá estava ele, Jeongguk, deitado de bruços em minha cama com os dois
pés levantados e os cotovelos apoiados no colchão. No entanto, o que
quase me provocou uma parada cardíaca foi o fato de ele estar chupando
um pirulito de morango igual aos que eu gostava, passando a língua pela
base do doce e... estava usando a minha jaqueta de couro. Nada mais.
O desgraçado estava nu, eu podia ver claramente sua bunda branquinha
arrebitada e nua, enquanto trajava unicamente a jaqueta e me encarava
com aqueles olhos inocentes. Aquelesolhos. Ele estava fazendo tudo aquilo
de propósito.
— Oi, Tae — cumprimentou com uma expressão alegre. — Como foi o
seu dia? Espero que não esteja tão cansado.
Eu era incapaz de responder a qualquer coisa que ele perguntava, mexido
demais com toda a situação. Sinceramente, acho que eu nunca quis tanto
foder Jeongguk quanto naquele momento. Eu queria jogar ele na cama e
acabar com ele de todas as formas mais prazerosas possíveis.
O cretino percebeu que eu não ia responder e soltou uma risadinha
condescendente.
— O gato comeu a sua língua? — Perguntou, segurando o pirulito entre os
dedos.
327
Recuperando minha compostura, fechei a boca e apertei os punhos
enquanto brincava com meu piercing para conter minha ansiedade. Eu
tinha esse hábito quando esperava muito por algo, e caramba, o tanto que
eu esperava de hoje a noite não era brincadeira.
— Bem, já que você não consegue falar, parece que eu terei que definir as
regras do que vamos fazer hoje, porque se você acha que vai simplesmente
me jogar na cama e transar comigo, como eu sei que você está pensando
agora, você está terrivelmente enganado, amor — colocou o pirulito na
boca e usou os cotovelos para se erguer, sentando-se de frente para mim
com as pernas cruzadas. Minha jaqueta era gigante e cobria suas partes
íntimas, mas não ocultava totalmente seu peito.
Merda.
Eu estava ferrado, disso eu tinha certeza.
— Primeiro, eu sou a autoridade aqui, o que significa que você não tem o
direito de reclamar e nem de opinar. Você simplesmente vai me obedecer
como um bom garoto e vai fazer tudo o que eu mandar. — Ditou, me
fazendo engolir em seco. Não estava gostando de onde aquilo estava indo.
— Segundo, tira a sua camiseta. — Tombou a cabeça para o lado como se
estivesse pensando. — Agora!
Eu não estava acostumado a seguir ordens na cama, a ser "mandado".
Nunca estive, aliás. Geralmente, era eu quem dava as ordens. Mas, eu
tinha duas escolhas, obedecer meu namorado maléfico ou provavelmente
terminar a noite batendo punheta sozinho.
Suspirando audivelmente pelo o que provavelmente foi a milésima vez só
naquele dia, retirei minha camiseta preta, ficando nu da cintura para cima.
Joguei a peça no chão e avistei Jeongguk lambendo os lábios ao analisar
meu corpo da cabeça aos pés.
— Bom garoto — elogiou, me fazendo arquear a sobrancelha.
— Jeongguk... — meu tom era de aviso.
— Eu disse que você não tem direito de opinar e nem reclamar acerca de
nada — lembrou, me fazendo grunhir em desgosto, ato que arrancou um
sorriso cretino dele. — Ah, Tae. Você não tem a menor ideia de como é
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bom ver um homem tão dominante quanto você me obedecendo. Não vou
mentir, eu vou amar muito isso.
Cruzei os braços.
— Duvido que eu vá gostar do que quer que você esteja planejando fazer.
— Você vai gostar sim — fez biquinho. — Você acha que eu não vou te
dar prazer? Que tipo de namorado eu seria se não te ajudasse?
— Não sei, me diz você — rebati, sentindo-me nada contente com o que
ele claramente queria fazer.
— Digo sim. Terceiro, você não vai me tocar sem o meu consentimento e
eu vou assegurar que você não quebre essa regra — ele enfiou a mão em
um dos bolsos da minha jaqueta e tirou de lá três bandanas minhas, uma
preta, uma vermelha e uma azul. Meu queixo caiu.
— Você só pode estar de brincadeira — resmunguei, desacreditado.
— Queria poder dizer que é brincadeira... pena que não é. Pena para você,
claro — deu de ombros, fingindo falsa pena. — E sabe porque você vai
juntar suas mãos nas suas costas e deixar eu te amarrar?
O fuzilei com os olhos.
— Não sei. Inclusive, estou curioso para saber — respondi, irritado.
— Porque você perdeu a aposta, eu te venci naquela luta e esse é o meu
prêmio. Você vai ser meu e vai estar à minha total disposição durante essa
noite — falou sério, olhando nos meus olhos.
Quando fiz a aposta com ele, ela parecia ser muito boa, mas agora eu
estava realmente questionando minha sanidade mental quando a fizemos.
Respirando fundo, caminhei em sua direção, e sem encará-lo, virei-me de
costas para si e juntei minhas mãos para trás, pedindo aos céus que eu
saísse vivo daquele quarto no dia seguinte. Ou que eu saísse pelo menos
inteiro.
Em silêncio, Jeongguk usou cada uma das três bandanas para prender
meus pulsos com força, constatando que eu não poderia me soltar sozinho.
329
Aquele garoto tinha sorte que eu realmente o amava, porque sinceramente,
eu não conseguia me imaginar fazendo aquele tipo de coisa com ninguém.
Achei que ele falaria alguma coisa, ou fizesse algum comentário satisfeito,
mas ao invés disso, Jeongguk levantou da cama e deu a volta até estar na
minha frente. Finalmente tive a visão de sua intimidade e daquelas coxas
maravilhosas. Ele ficava lindo usando somente a minha jaqueta, e aquilo
me irritou um pouco. Eu devia estar irritado por estar amarrado e por estar
me submetendo a ele, mas só de olhar para si eu já sentia meu pau querer
subir. Maldito corpo que me trai e sequer me deixa fingir que não estou
excitado.
Em silêncio, o Jeon colocou as duas mãos sobre meu peito nu e me jogou
para trás, me fazendo cair sentado na cama.
— Quarto e último ponto que preciso te avisar, afinal, regras são
importantes — seus olhos brilharam de forma maldosa — você só vai
gozar quando eu autorizar.
— Jeongguk! — Gritei, indignado. — Eu nunca fiz isso com você! Isso é
golpe baixo!
— Deixa de drama — revirou os olhos — eu não disse que você não vai
gozar, só disse que só irá fazê-lo com a minha permissão. E sinceramente,
não sei do que você está reclamando. Devo te lembrar de quando a gente
transou no hotel durante a viagem em Nova Iorque e você me deixou uma
semana sem andar direito? Quem mais sofre nessa relação sou eu.
— Você disse que queria com mais força do que o costume — reclamei,
ainda mais indignado.
— Não é esse o ponto — fez uma careta. — E para de reclamar.
Resolvi me aquietar e suspirar. Eu definitivamente não ia sobreviver
àquela noite.
Achei que teriam mais regras e mais coisas que eu devia saber, mas invés
disso, meu namorado sorriu abertamente, antes de tirar o pirulito dos
lábios mais uma vez e subiu em meu colo. Eu daria tudo para apertar
aquelas coxas branquinhas, mas não podia. Droga. Sem hesitar, Jeongguk
segurou meus fios avermelhados, puxando minha cabeça para trás um
330
pouquinho e tomou meus lábios em um beijo calmo demais para o meu
gosto, mas aceitei e correspondi de bom grado, até porque aquilo era
melhor que nada.
A boca dele estava com o gosto docinho de morango e eu me deliciei com
isso, explorando todo o sabor que o pirulito deixara ali e aproveitando para
chupar sua língua macia. Eu sabia que Jeongguk gostava muito do meu
piercing, então, o provoquei com objeto geladinho, arrancando gemidos
baixinhos do fundo de sua garganta.
Não sabia dizer se era inconscientemente ou proposital. Ele estava sobre
mim e aquela posição sempre lhe foi extremamente confortável. Então,
não demorou muito para que o mais novo começava a rebolar bem devagar
sobre mim, extasiado demais com o beijo. Era uma delícia, eu amava
aquilo, mas naquela situação específica estava sendo uma tortura porque
eu não podia tocá-lo. E para piorar, minha ereção começou a crescer e a
ficar visível sob minha calça jeans.
— Eu amo beijar você, Tae — gemeu contra meus lábios. — Você sempre
me deixa maluco.
— Eu te faria ver estrelas se você me soltasse e me deixasse te dar prazer
— propus, testando minha sorte. — Vamos, Guk. Seja um bom garoto e
me solta.
— Provavelmente é verdade — concedeu. — Uma pena que eu não esteja
disposto a ceder. O "bom garoto" hoje é você.
Soltei um xingamento daqueles mentalmente, decidido a não falar aquilo
em voz alta e deixar Jeongguk irritado. Eu queria tudo, menos ser punido.
Ele roçou os lábios por meu rosto enquanto sua mão segurava meus
cabelos com força. Aguardei para ver o que diabos ele planejava fazer,
afinal, ele só ditou as regras, não me disse o que exatamente seria feito ali.
Chovendo alguns beijinhos por minha face, o mais novo deu um beijo
estalado em minha bochecha.
— Não sei se conseguirei ser maldoso com você — admitiu. — Estar
bobamente apaixonado é uma merda as vezes.
— Mais um motivo para você me soltar — sorri.
331
— Bela tentativa, mas não — selou meus lábios e desceu a boca até meu
pescoço, começando a chupar minha pele tatuada. — Você é tão gostoso.
Eu não vou mentir, tudo em você me excita estupidamente. Seu corpo, seu
cabelo vermelho, suas tatuagens, seu jeito de bad boy, seu cheiro, até as
suas roupas, em especial essa maldita jaqueta.
— Você está lindo usando só ela — elogiei. — Sei que não estou
autorizado a pedir nada, mas posso fazer um pedido simples? Prometo que
não é nada demais.
Jeongguk se afastou para me encarar.
— Que seria?
— Não tira a jaqueta. Eu queria transar com você vestindo ela. Somente
ela — dei meu melhor olhar pidão.
— Vou te conceder esse pedido, bebê — concordou, fazendo carinho em
meus cabelos.
Desceu os lábios para meu pescoço e tornou a beijar e chupar minha pele
enquanto rebolava descaradamente em meu colo, me atiçando. Se minha
ereção já estava se tornando incômoda antes, agora, estava me
machucando estar preso dentro de minha calça jeans.
Minha vontade era a de me livrar daquele tecido que me impedia de obter
alívio. Jeongguk não pareceu perceber a minha agonia, continuando as
carícias enquanto eu faltava rosnar de dor e prazer ao mesmo tempo. O
quão controverso era aquilo.
A língua macia do Jeon delineou as tatuagens de meu pescoço e deixou um
rastro de saliva sobre minha pele quente. Respirei fundo e tentei manter a
calma ante ao desespero interno que eu sentia por estar com as mãos
atadas e não poder fazer nada. E para piorar, o mais novo estava me
levando à loucura com aquelas malditas reboladas que dava em meu colo
enquanto beijava meu pescoço.
— Naquele dia, quando você lutou contra Sam... a forma como você se
movia, se portava, a sua raiva contida... eu faltei ter uma ereção só de olhar
para você naquele dia — admitiu. — E também, vi como você nunca lutou
a sério comigo. Desde a primeira luta, aliás.
332
— Eu nunca machucaria você intencionalmente, Jagi — dei de ombros. —
Você acha mesmo que eu tenho coragem de lutar com você como lutei
contra Sam? Jamais. Prefiro deixar você chutar o meu traseiro, por mais
que eu deteste perder.
Jeongguk levantou a cabeça de meu pescoço e mostrou os dentinhos
protuberantes ao dar aquele sorriso lindo que tanto amava e que
praticamente fazia seu lábio superior sumir.
Achei que ele faria alguma provocação, mas ao invés disso, tomou meus
lábios em mais um beijo, dessa vez, não tão carinhoso quanto o primeiro,
mas ainda assim, não pode deixar de apreciar o contato. O ruim era que o
mais novo estava sendo extremamente mimado e sugava minha língua, se
afastando em seguida para que eu não pudesse corresponder
apropriadamente, e ele claramente estava adorando me provocar a julgar
pelo sorriso que não sumia de seu rosto.
Eu não já estava mais aguentando aquilo tudo e a forma como minha calça
parecia ficar mais apertada a cada segundo que passava. Nesse ponto
geralmente, era provável que eu já estivesse nu e sobre Jeongguk,
beijando-o enquanto o tomava para mim mais uma vez.
— Tira a minha calça — pedi, entre beijos. — Olha o tamanho da minha
ereção, Jeongguk.
— Jagi. Você só pode me chamar de Jagi — exigiu num tom manhoso.
Suspirei.
— Certo. Abre a minha calça, Jagi — repeti.
— Implore — resmungou contra os meus lábios.
— O quê? — Meu queixo caiu. — Só abre a calça, Jagi. Eu estou excitado
para caralho.
— Eu sei — depositou um último selar antes de se afastar e olhar nos
meus olhos. — Também sei que você me fez admitir que eu fiquei com
ciúme quando eu só pedi para abrir a minha calça naquele quarto de hotel.
— Jeongguk... — mais uma vez usei o tom de aviso. Respirei fundo,
333
tentando manter a calma. — Abre a minha calça, por favor. Por favor!
— Acho que não ouvi direito, Tae. Do que você me chamou? — Fez uma
careta teatral.
— Eu disse "Jagi". Foi isso que eu disse — tentei falar de forma que
soasse convincente.
O mais novo me fitou de forma divertida, visivelmente entretido com tudo
o que estava acontecendo. Eu podia ver o brilho em seus olhos negros, a
forma que demonstrava o quão satisfeito estava de me ter totalmente à sua
mercê.
Em silêncio, ele deslizou de meu colo, se ajoelhou em minha frente, e sem
cerimônia, mexeu com os botões e o zíper de minha calça, finalmente
abrindo-a. Fiquei extremamente aliviado quando ele a puxou para baixo
junto de minha cueca, ajudando-o a me despir. Jeongguk tirou todas as
minhas roupas, deixando-me completamente nu. Não surpreendentemente,
meu pênis saltou de minha roupa íntima, dolorosamente ereto. Eu estava
muito duro, o líquido pré-seminal escorria e a cabeça estava vermelha,
implorando por estímulo.
Já esperava um ataque ao meu orgulho, que Jeon me fizesse implorar por
um boquete, mas felizmente, ele me poupou disso e apanhou meu membro,
subindo e descendo sua mão, massageando e fazendo carinho. Soltei um
gemido alto apenas por ser tocado, e tombei a cabeça para trás.
— Eu vou chupar você — Jeongguk afirmou. — Mas, não quero ouvir um
pio. Um gemido seu e eu paro na hora.
— Não acredito que você está me fazendo passar por isso — comentei,
ainda mais indignado. — Se a sua intenção era me deixar irritado ou me
fazer dormir com raiva de você, pode ter certeza que você conseguiu.
Em resposta, ele apenas aproximou os lábios de meu pênis e deu uma
lambidinha na glande, arrancando um gemido baixo da minha garganta.
— O que você disse sobre raiva mesmo? — Perguntou, piscando de forma
inocente com aqueles olhinhos fofos.
Resignei-me e apertei os olhos, me recusando a responder. Ele estava
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brincando comigo, não rolava cair em cada uma de suas provocações.
Porém, era difícil. Eu nunca estive em posição de submissão, nunca gostei
(definitivamente não estou gostando ainda mais agora), mas cedi por causa
da aposta idiota.
Ajeitando-se entre minhas pernas, Jeongguk apoiou os cotovelos sobre
minhas coxas e com cuidado, abriu a boca e me tomou até onde conseguia
me engolir. Mordi o lábio inferior com força, reprimindo um gemido e
apertei os olhos. Se eu não olhasse, seria mais fácil me controlar e não
gemer. A própria sensação da cavidade bucal úmida e quente dele
envolvendo meu pênis já era o suficiente para me enlouquecer. Sua língua
massageava toda minha extensão, fazendo-me entremeter um pouco a cada
segundo.
— Taehyung — me chamou, sério, tirando os lábios do meu membro. —
Abre os olhos.
Balancei a cabeça, negando.
— Como você quer que eu não solte gemidos olhando para você desse
jeito? — Questionei, novamente irritado.
— Abre. Os. Olhos — ordenou. — Eu quero seus olhos em mim.
— Você quer me matar — resmunguei, abrindo os olhos e encarando-o.
Me encarando de volta, ele voltou a me chupar, tomando cuidado para não
desviar o olhar. Enquanto isso, eu continuava mordendo meus lábios,
apertando a mordida a cada segundo que eu sentia as sensações se
intensificarem. Jeongguk desceu até meus testículos, chupando cada um
deles e logo subindo a língua por minha extensão como se fosse um
pirulito. As imagens dele chupando o pirulito de morango voltaram à
minha mente e eu quase gemi.
Quando ele me tomou dentro da boca fazendo uma garganta profunda,
senti o sangue começar a escorrer dos meus lábios do tanto que eu estava
mordendo com força. Na hora, ele interrompeu o que fazia e se levantou,
sentando no meu colo. Passando as costas da mão contra sua boca para
limpá-la, ele se esticou sobre mim, empinando a bunda até conseguir pega
os lenços umedecidos sobre a cômoda que a gente usava sempre que
transava.
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Em silêncio, passou o lencinho por meu lábio ferido e deu um beijinho.
— Não se machuca assim — pediu, a voz baixinha.
Ele parecia triste por aquilo ter acontecido e eu me senti péssimo, não
queria cortar o clima desse jeito.
— Não vou — assegurei. — Foi um acidente, um caso isolado. Pode
continuar.
Jeongguk pareceu meio receoso, mas resolveu continuar. Saiu do meu
colo, agachando-se em minha frente novamente e me pegando em suas
duas mãos.
— Pode gemer, Tae — concedeu, mas eu sabia que ele só estava fazendo
aquilo porque acabei ferindo meu lábio, então decidi cooperar. Assim que
ele tornou a fazer a garganta profunda, apertei meus dedos uns nos outros
em minhas costas enquanto o encarava me chupar e não dei um pio. Meus
lábios tremeram um pouco, mas consegui me conter.
Ele ficou surpreso e com isso, passou a me chupar com mais afinco,
disposto a me fazer gozar em sua boca, mas eu não queria gozar sendo
chupado. Queria gozar quando estivesse dentro dele.
— Jagi, eu vou gozar...
E na hora, ele se afastou de meu membro e caiu de bunda no chão, me
fitando com os olhos brilhantes e desejosos. Eu estava prestes a falar
alguma coisa, mas acabei desistindo quando o vi se levantar. Pensei que se
sentaria em meu colo novamente, mas dessa vez, fez um gesto com a mão,
me mandando levantar.
Curioso, obedeci e esperei. Jeongguk me olhou da cabeça aos pés,
erguendo uma mão e tocando minhas tatuagens com as pontas dos dedos.
Ele gostava de delinear os desenhos de minha pele toda a vez, parecendo
fascinado com cada contorno e cada imagem. Sinceramente, eu ficava feliz
de saber que ele gostava, muita gente criticava minhas tatuagens e me
falava que eu provavelmente seria "mais bonito" se não tivesse elas.
— Tae, você acha que ficaria legal se eu fizesse uma tatuagem? —
Perguntou.
336
— Claro que ficaria. Onde você gostaria de fazer?
— Nas minhas costas ou nos meus braços — pareceu pensar um pouco —
ou na panturrilha talvez:
Para minha surpresa, Jeongguk virou-se costas para mim e pressionou o
traseiro contra minha virilha. Arregalei os olhos quando ele começou a
fazer alongamentos na minha frente e abaixou para tocar os pés, me dando
uma visão da bunda branquinha que eu tanto queria marcar. Forcei minhas
mãos, tentando me libertar, mas estava difícil, ele realmente amarrou com
força.
— Desculpe, você está bem? — Perguntou de forma inocente, me
encarando uma preocupação dissimulada.
— Eu realmente tenho que responder? — Indaguei, arqueando uma
sobrancelha.
— Faremos o seguinte agora: eu vou soltar suas mãos, você vai deitar na
cama e eu vou amarrar seu pulso direito contra a cabeceira. O braço
esquerdo ficará livre, mas você não pode me tocar até segunda ordem e
muito menos se tocar, lembre-se disso — avisou.
— Não vou me esquecer das suas regras ditatoriais — revirei os olhos,
virando-me de costas e esperando ele soltar meus pulsos.
O mais novo deixou beijinhos em minhas costas enquanto desamarrava
cada uma das bandanas, finalmente me libertando de seu aperto.
Suspirando audivelmente, me joguei na cama, e deitei de barriga para
cima, levantando meu braço direito e esperando que ele viesse amarrar,
mas Jeongguk não o fez, ele subiu no meu colo e me encarou com um
sorriso nos lábios.
— Você está tão obediente que eu acho que vou te conceder o direito de
ficar com os dois braços livres — cantarolou. — Mas, se lembra que quem
ainda dá as ordens sou eu.
— Então, a gente só vai transar nessa posição?
— Claro que não. Quando eu quiser, você vai ter a chance de me jogar
contra o colchão e me foder daquele jeito que eu sei que você gosta —
337
piscou para mim.
— Não vejo a hora desse momento chegar — confessei.
— Paciência, Tae — deu de ombros. — Agora, você vai ser um bom
menino e não vai gozar enquanto eu cavalgo você.
Ele apanhou o lubrificante da cômoda. O conteúdo já estava no final, e eu
fiz uma nota mental de comprar mais. Certa vez, Jeongguk quis transar
sem colocar lubrificante suficiente já que acabou durante as preliminares e
ele ficou todo assado depois. E eu me recuso a causar esse tipo de
desconforto em meu namorado.
O mais novo espalhou o conteúdo contra meu membro inchado e dolorido,
massageando com delicadeza enquanto observava minhas expressões. Eu
apenas suspirava e gemia baixinho, extasiado com suas carícias. Acreditei
que ele faria a mesma coisa da noite em que nós transamos pela primeira
vez e se prepararia de sua forma, mas para minha surpresa, ele apenas se
sentou se forma mais confortável e alinhou meu pênis ereto em sua
entrada.
— Espera, amor, você vai se machucar se nã... ah, porra, Jeongguk —
gemi alto, esquecendo que eu devia chamá-lo de Jagi, mas foi impossível
me lembrar de qualquer coisa quando ele deslizou de forma tão
incrivelmente suave no meu pau que eu faltei engasgar. Seu interior
sempre me apertava e me pressionava, era gostoso.
— Eu me toquei tanto hoje pensando em você, Tae — comentou, com os
olhos fechados. — Quase consegui colocar meu mindinho também, mas v-
você sabe o quão apertado eu sou — contou. — Eu queria poupar tempo e
me fodi com aquele vibrador de cinco velocidades que você me deu. Foi
tão bom, Tae. Achei que ia precisar do dildo roxo também, mas nem foi
necessário.
Apoiando os joelhos no colchão, Jeongguk abriu um sorriso extremamente
satisfeito quando começou a montar em meu membro, cavalgando em seu
ritmo rápido. Imaginei meu namorado se preparando mais cedo naquele
dia pensando em mim e fiquei ainda mais excitado.
— Aposto que vou ter que colocar um plug em você depois que a gente
terminar, não é, bebê? — Perguntei, sorrindo. — Você detesta a sensação
338
de vazio.
— Eu amo quando você me fode, adoro sentir você dentro de mim —
afirmou, apanhando uma das minhas bandanas que ficou sobre a minha
cama e sem parar de subir e descer em meu pau, o mais novo ajeitou a
bandana e a colocou sob seus cabelos em sua testa, amarrando-a na nuca,
exatamente como eu fazia.
— Caramba, Jagi — grunhi, gemendo ainda mais com a visão.
— Segura a minha cintura sob a jaqueta, Tae — ordenou.
Sem contestar, obedeci, colocando minhas mãos sobre sua cintura fina,
agarrando-a firmemente. Jeongguk aproveitou e diminuiu o ritmo,
começando a rebolar bem devagar, movendo os quadris de forma que eu
acompanhasse de perto. Observei sem piscar e com os lábios entreabertos
a forma como ele rebolava gostosamente. Meu peito subia e descia rápido
demais, sentindo o suor escorrer por todo o meu corpo.
Meu pênis latejava e eu sabia que estava quase gozando, tamanho era o
prazer que eu sentia. Mas, ele dissera para eu não gozar enquanto me
cavalgava, e como eu era um idiota apaixonado, eu não ia fazer o contrário
disso, correndo o risco de deixar Jeongguk aborrecido.
— Jagi, se você não parar, eu vou gozar, não vou conseguir segurar —
avisei, apertando os olhos.
Na hora, ele parou, se levantou com cuidado, e eu grunhi de dor. Já era a
segunda vez que me era negada a possibilidade de gozar e meu pênis
parecia que ia explodir em breve.
— Tae? — Me chamou, fazendo com que eu abrisse os olhos e o fitasse de
forma inquisitória. Jeongguk esticou as mãos e apanhou as minhas que
estavam em sua cintura, entrelaçando nossos dedos. Sem muita
dificuldade, ele prendeu as pernas em meus quadris, e fez força para que
meu corpo deitado saísse do lugar, nos trocando de lugar. Eu estava por
cima dele. — Me fode, bonitão.
Pisquei, surpreso, demorando alguns segundos para processar o que ele
pediu antes de assentir com um sorriso arteiro. Sem protestar, o mais novo
abriu as pernas para me acomodar ali. Da última vez que a gente transou,
339
eu havia o colocado de quatro e Jeongguk reclamou que embora ele
sentisse muito prazer naquela posição e gostasse dela, definitivamente não
era uma de suas favoritas, pois ele gostava de olhar para mim enquanto a
gente fazia sexo.
E eu, claramente não tinha nenhum problema com isso. Posicionei-me em
sua entrada convidativa e entrei novamente, gemendo rouco pelo prazer
que a penetração me causou. Ele abraçou meus ombros, me beijando
desesperado e desajeitado enquanto eu o fodia, envolvendo sua cintura
com meus braços. A jaqueta infelizmente aumentava o calor entre nós,
mas eu não podia negar que estava achando sexy transar com meu
namorado enquanto ele vestia a minha jaqueta favorita.
Porém, ele também pareceu sentir o calor gigante que o tecido estava
causando, pois do nada, soltou meus ombros e se afastou um pouco.
— Não para! — Ordenou.
Eu não ia parar.
Jeongguk se esforçou um pouco e com dificuldade, tirou a jaqueta de seu
corpo e arrancou a bandana de sua testa, fazendo os cabelos negros
grudarem ali, afinal, ele também estava muito suado.
Após se ver livre daquilo, o mais novo colocou as pernas em volta do meu
traseiro e abraçou meu pescoço novamente enquanto a gente buscava o
alívio. O contato de nossas peles nuas era simplesmente maravilhoso
embora estivesse quente. O contraste da minha pele amorenada com a pele
branquinha dele. Eu precisava marcá-lo, amá-lo daquela forma.
— Jagi, eu posso te beijar? Me deixa te beijar? — Perguntei enquanto
nossos lábios ainda batalhavam.
— Você já está me beijando — respondeu como se fosse óbvio.
— Estou falando do seu corpo lindo, amor — sorri entre beijos. — Deixa
eu te beijar todinho.
Jeongguk gemeu ante a minha resposta e assentiu ansiosamente. Satisfeito,
levei meus lábios até seu pescoço e não perdi tempo em marcar a pele alva
dele, deixando beijos, chupões e lambidas por todo o pedaço de pele que
340
consegui alcançar. Ele tentava me dar mais espaço para que eu beijasse
todo seu corpo e eu aproveitei bem.
Desci para seu peito e continuei beijando enquanto ainda o penetrava. Para
minha surpresa e sem aviso, ele gozou na hora, despejando por sua barriga
e sujando meu queixo enquanto gemia rouco. Dei um sorriso ladino ao ver
como ele ficou sensível, pela estimulação em sua próstata.
Continuei a beijar seu peito enquanto ainda me movia dentro de si, e
segundos depois, gozei também, liberando todo meu sêmen dentro de si,
do jeito que eu sabia que ele gostava. Os olhos de Jeongguk estavam
fechados, e sua boca aberta enquanto ele recuperava o fôlego, mas eu não
tinha acabado ainda. Tinha uma coisa que eu queria fazer.
Guiando meus lábios por seu corpinho suado, beijei sua barriga travada e
suas coxas grossas, marcando a pele branquinha com mais chupões. Suas
pernas estavam escancaradas, mas eu não queria daquele jeito. O fiz virar-
se de bruços sobre o colchão e coloquei um travesseiro sob seu quadril,
empinando seu bumbum. Dei três tapas estalados nas nádegas branquinhas
e abri as duas bandas, fitando sua entrada vermelhinha que escorria um
pouco do meu líquido quente.
Eu queria muito fazer aquilo, mas sabia que precisava pedir permissão.
— Jagi, eu posso fazer mais uma coisa? Prometo que você vai se sentir
muito bem — sussurrei, depositando um beijinho sobre uma das nádegas
vermelhinhas.
Em resposta, ele gemeu manhoso e empinou ainda mais o quadril, sabendo
bem o que eu faria. Interpretei aquilo como permissão e passei a língua ao
redor de sua entrada inchada. Jeongguk gemeu ainda mais com aquilo e eu
não perdi tempo e lamber em volta de todo seu orifício, fazendo
barulhinhos engraçados com minha boca. Ele se contorceu quando o
penetrei com meu músculo molhado e brinquei com seu interior usando
meu piercing.
O gosto amargo de meu sêmen ficou em minha língua, mas não me
importei. O beijei ali e me deleitei com seus gemidos cada vez mais altos.
Quando me certifiquei de que havia praticamente limpado a área, peguei o
plug de Jeongguk dentro da cômoda e dei outro beijinho terno sobre seu
traseiro enquanto empurrei o objeto para dentro de si gentilmente.
341
Ele grunhiu de forma contente quando substituí a dor fantasma do vazio
pelo plug.
— Você está bem? — Perguntei.
— Sim — assentiu, bocejando. — Liga o ar condicionado, eu estou
morrendo de calor.
Liguei o interruptor do ar condicionado e logo, o aparelho eletrônico
começou a gelar o quarto que parecia estar envolto em uma verdadeira
nuvem quente. Voltando para a cama, em silêncio, fiz Jeongguk se virar de
barriga para cima e peguei os lenços umedecidos, limpando os rastros de
sêmen de seu corpo enquanto beijava seu rosto. Ele dava risadinhas porque
fazia cócegas. Arranquei o lençol sujo – conseguindo um protesto do mais
novo – e o obriguei a sentar na poltrona do quarto enquanto eu colocava
um novo.
— Vamos tomar banho — chamei.
Mas ele parecia tão cansado que apenas foi até meu guarda-roupa, pegou
uma cueca extra que sempre deixava ali, a vestiu e se jogou na cama,
pronto para já dormir. Soltei uma risada anasalada, me limpando com os
lenços também e deitei-me ao seu lado. Jeongguk se virou para me abraçar
e suspirou, contente.
— Quando o quarto está fresquinho, é ótimo dormir assim — resmungou.
— Eu sei — concordei. — Sabia que eu adorei te ver usando minha
jaqueta e minha bandana?
— Você é tão bobo — deu uma risadinha, sonolento. — Me promete que a
gente vai visitar meus pais nesse Spring Break? Faz um tempinho desde
que eu os vi.
— Claro, mas você precisa me garantir que não vai invadir minha cama.
Não quero seu pai tendo motivos para não gostar de mim — respondi.
Jeongguk riu alto sem falar qualquer coisa. Apenas levantou da cama e
caminhou até onde a minha jaqueta estava jogada. Abrindo um de seus
bolsos, ele retirou algo dali e eu observei com olhos curiosos, não sendo
capaz de identificar exatamente o que era.
342
O moreno voltou caminhando para perto de mim com um sorriso
estampado no rosto, sentando no colchão com as pernas cruzadas e o que
quer que tenha pego estava escondido em suas mãos.
— Queria te entregar isso. Eu tinha planejado que você descobrisse por si
próprio dentro da jaqueta, mas não sei se seria tão pertinente — afirmou,
colocando o conteúdo guardando entre seus dedos em minha mão. Era o
colarzinho que ele me dera quando a gente era criança e eu devolvi no dia
em que brigamos. O mesmo que continha os dizeres "I believe it's meant to
be, darling". — Por mais meloso que isso possa parecer, eu realmente
acredito que nós fomos feitos para ser. Esse foi um presente meu para você
quando eu tinha 10 anos, e continua sendo. O colar é seu, e eu não quero
que você me devolva jamais, Tae. Daqui dez anos eu vou me lembrar de
hoje — dei uma risada, vendo-o abrir um sorriso — e vou sorrir, afinal,
você sempre vai ser uma parte importantíssima da minha vida, e eu quero
que continue comigo até a gente envelhecer.
Retribuindo o sorriso dele, levei o objeto até meu rosto, pressionei contra
meus lábios, prometendo para mim mesmo que eu guardaria aquele
colarzinho com muito carinho.
— Você me pediu em casamento? A gente não namora não faz nem um
ano — brinquei.
Jeongguk deu um tapinha em meu peito e revirou os olhos.
— Estou me declarando para você e você vem querer me zoar — se
queixou fazendo um biquinho extremamente fofo. — Aliás, a minha bunda
está doendo um pouco e a culpa é sua.
Sentindo vontade de rir novamente, me aproximei de si e beijei seu
biquinho.
— Sabe que eu não resisto, Jagi. E também, que culpa eu tenho pelo
tamanho do meu pau? — Dei de ombros, fazendo o mais novo me dar
outro tapa fraco.
— A sua sorte é que eu gosto — resmungou, aprofundando o beijo.
— Eu sei — suspirei, impedindo-o de me beijar realmente para dizer: —
Eu te amo, Gukkie.
343
O sorriso dele foi tão grande e radiante que poderia iluminar o dia.
— Eu também amo você, Tae. Muito, muito, muito, muito — deitou-se
sobre mim novamente e deu um beijo no meu peito antes de fechar os
olhos. — Obrigado por ter colaborado com tudo e ter me obedecido
quando você não precisava. Estamos quites agora, você cumpriu a aposta.
Não respondi, notando que ele havia pegado no sono. Abri um sorriso
contente.
Amanhã será um novo dia.
E é isso pessoal!! :)
Espero que tenham gostado! <3
Muito obrigada pelos comentários, votos e por terem lido <3
344
Love of My Life
Recomendo que leiam escutando a versão live de Love of My Life do
Queen
Lembrando que esse capítulo ficava no final, mas eu decidi colocá-lo
como prólogo na versão do livro!
[...]
Taehyung's POV
Agosto de 2007
Eu estava de férias, era verão e tinha tanta coisa acontecendo. Meu papai
estava me deixando bravo com tantos compromissos quando a única coisa
que eu queria mesmo era estar em Daegu brincando com meus amigos.
Ao invés disso, fui obrigado a comparecer a essa festa beneficente que eles
estavam promovendo. Eu vestia um daqueles ternos infantis que minha
mamãe insistia ficarem ótimos em mim, mas eu discordava. Aquela
gravata apertava meu pescoço e aquele sapato social machucava meus
dedos. Acho que a única pessoa realmente feliz com suas roupas era
Nayun, minha irmãzinha caçula, que não escondia a alegria de poder exibir
seu vestidinho rodado de cor azulada.
— TaeTae, vamos brincar de pique-esconde? — Ela perguntou, me fitando
com olhinhos pidões. Estávamos parados em um canto do salão só nós
dois com alguns seguranças de nossos pais nos vigiando. Mamãe dizia que
como éramos filhos de pessoas importantes, algumas pessoas más
345
poderiam querem fazer coisas ruins com a gente.
— Não tem muito lugar para se esconder aqui, NaNa — lamentei, olhando
em volta. — Mas as outras crianças estão brincando ali, vamos lá falar
com eles. Daí a gente pode talvez brincar de pique-esconde.
Empolgada, minha irmãzinha assentiu e se pôs a saltitar pelo salão. Eu a
segui, vendo os seguranças em nosso encalço, olhando em volta e
conferindo se estava tudo bem. Só que antes de chegar até a rodinha de
crianças que brincavam de algo que eu não soube identificar, avistei um
garotinho sentado num banquinho bem próximo à parede. Ele era
claramente menor do que o próprio banco, pois suas perninhas balançavam
de um lado para o outro enquanto seus olhinhos tristonhos observavam sua
volta.
Fiquei encantado com a fofura dele. Ele era muito branquinho, suas
bochechas eram gordinhas, tinha os cabelos pretinhos e os olhinhos
arregalados, sem contar o biquinho que fazia. Eu precisava chamar ele
para brincar comigo, sempre gostei de fazer amigos.
Tendo certeza de que Nayun já estava com as outras crianças e já se metia
na brincadeira que faziam, caminhei de forma determinada até o garotinho.
Assim que parei em sua frente, notando que ele só usava uma camisa
social, uma calça jeans e um tênis, nada muito desconfortável como o meu
terno. Seus olhos dobraram de tamanho assim que ele me viu, e logo,
começou a mexer com os dedos de suas mãozinhas, claramente nervoso.
— 안녕하세요! 난 김 태형 입니다! 이름이 뭐에요? — Perguntei
alegremente.
O garotinho se remexeu no assento, desconfortável. Seus olhinhos se
encheram de lágrimas e eu franzi a testa, confuso. O que eu fiz de errado?
— Me desculpa, eu não entendo você — respondeu em inglês.
Minha boca formou um "O". Ele não falava coreano. Acho que era por
isso que ele estava isolado, ele não entendia as outras pessoas.
Sorrindo em sua direção, tentei novamente, dessa vez, em inglês:
— Oi, eu sou Taehyung! Vamos brincar de pique-esconde?
346
Dessa vez, o garotinho pareceu surpreso.
— V-Você sabe inglês? — Resmungou, choroso.
— Claro que sei. Mamãe me disse que todos temos que saber muitas
línguas — afirmei, confiante. — Vamos brincar?
— N-Não quero — balançou a cabeça, negando veementemente e fazendo
um biquinho emburrado.
Ele era tão fofo que me dava vontade de apertar suas bochechas.
— Então, eu vou ficar aqui. E não vou sair até você sorrir — cruzei meus
braços e fiquei parado ao lado do garoto, que me encarava de forma
curiosa, como se não conseguisse entender o que eu fazia ali. — Qual o
seu nome?
— J-Jeongguk — respondeu, as bochechas corando e o biquinho nunca
deixando seus lábios.
— Seu nome é coreano, mas você não fala coreano? — Franzi a testa,
confuso. Ele tinha até a aparência de uma criança coreana, como era
possível que ele não soubesse?
— Meu papai e minha mamãe são daqui, m-mas eu nasci nos Estados
Unidos. Estou aqui de férias — parecia envergonhado.
— Ah, mas você não acha que devia aprender um pouco de coreano? Você
não vai conseguir falar com muitas crianças — comentei, pensativo.
O garotinho negou.
— Eu estou falando com você. E-Eu acho que já está bom — abaixou a
cabeça, ainda mexendo com os dedinhos, envergonhado.
— Então, vem brincar comigo! — Fiz uma cara pidona.
— Não — balançou a cabeça, negando.
— Vamos! Você é tão fofo! — Tentei mais uma vez.
Mordendo o lábio, Jeongguk recusou novamente. Suspirando, resolvi
347
apelar para medidas drásticas: levei minhas mãos até seu pescoço e axilas,
começando a fazer cócegas ali. Surpreso, o garoto tentou escapar, mas foi
em vão, consegui prendê-lo na cadeira enquanto o fazia gargalhar pelas
cócegas. Ele tinha um sorriso lindo e protuberante, como se seus dois
dentinhos da frente lhe dessem a aparência de um coelhinho. Era tão fofo
que eu quis apertar suas bochechas.
— Ta-Ta... Taehy... — Tentava falar meu nome, se embolando
completamente na hora de pronunciar "hyung". A língua dele enrolava e
saía um som estranho. — Pare! Eu vou brincar com você. Pare! —
Implorou entre risos.
Os olhinhos dele estavam cheios de lágrima, mas dessa vez era porque eu
o havia feito rir e não chorar. E isso me alegrou bastante.
— Você não consegue falar meu nome — soltei um risinho divertido.
Ele corou ainda mais.
— Eu posso te chamar de TaeTae? Não consigo pronunciar seu nome todo
— pediu.
— Claro que pode, Jeongguk.
— Gukkie. Eu gosto de ser chamado de Gukkie. Minha mamãe e meu
papai me chamam assim — sorriu de forma tão fofa que me fez querer
apertar suas bochechas.
— Você é tão fofo, Gukkie! — Elogiei mais uma vez, encantado por ele.
— O-Obrigado — agradeceu, parecendo acanhado.
— Quantos anos você tem? Eu tenho 11 anos, farei 12 em dezembro —
contei.
— Eu tenho 9 anos, meu aniversário é mês que vem — respondeu.
Ele só era dois anos mais novo? Eu daria uns 7 ou 8 anos para ele, pois ele
era tão baixinho.
— Eu sou seu hyung, então — concluí, satisfeito.
348
— Como se fala isso? — Franziu a testinha.
— Não precisa falar, você não consegue pronunciar direito — dei de
ombros, não ligando para honoríficos naquela situação.
Mesmo que seus pais fossem daqui, ele ainda era um garoto estrangeiro
que só falava inglês, e não parecia saber muito disso. Resolvi por tirá-lo
dali para a gente brincar um pouco.
— Vem? — Estendi minha mão para ele e sem hesitar, ele desceu do
banquinho e juntou sua mãozinha à minha.
— Não me deixa sozinho — fez mais um biquinho.
— Eu não vou — assegurei. — Vou ficar do seu lado à tarde toda.
Jeongguk pareceu incerto, mas no fim, resolveu acreditar em mim. De
mãos dadas com ele, o guiei através do salão da grande mansão. Sequer
notei que os pais dele estavam próximos de nós durante toda nossa
conversa, e observavam enquanto eu o levava para brincar comigo.
Tinha uma árvore no jardim da mansão, e eu conseguia escalar ela muito
bem. Do galho mais alto era possível ver Seul sobre os muros do local, e
eu decidi que seria legal mostrar isso a Jeongguk. Estávamos entrando no
final da tarde naquele dia e o clima estava agradável.
Ele não perguntou nada, apenas me seguiu, apertando minha mão com
força, e eu apertava de volta, tentando passar segurança. Assim que
chegamos na árvore, apontei para o galho que ficava bem no topo com um
sorriso gigante estampado no rosto.
— Vamos subir até lá! É bem bonito, você vai gostar.
— Eu nunca escalei árvores — admitiu, envergonhado. — Não sei como
se faz isso.
— Eu vou te ajudar. Você confia em mim?
Sem hesitar, Jeongguk assentiu freneticamente, me fazendo rir mais uma
vez. Com cuidado, coloquei o pé numa fresta do tronco da árvore e sentei
num galho mais baixo, esticando meus braços para ajudá-lo. Ele agarrou
meus ombros e eu segurei sua cintura, lhe dando apoio para subir.
349
— TaeTae, quem são esses homens que estão olhando para gente? —
Perguntou, baixinho, com medo.
— São os seguranças dos meus pais. Eles me vigiam quando eles não estão
por perto — expliquei.
— E eles não vão fazer nada com a gente? Deixar a gente de castigo?
— Claro que não — baguncei seus cabelos pretinhos de forma afetuosa.
Continuei a subir na árvore, e a cada galho e tronco que a gente avançava,
eu parava e dava apoio para Jeongguk subir. Ele confiava em mim
plenamente, nunca questionando quando eu lhe instruía para colocar o pé
em algum lugar, ou apoiar a mão em outro.
Ajudava também o fato de ele ser um garoto magrinho apesar das
bochechas gordinhas. Ele era incrivelmente leve e toda a vez que eu lhe
ajudava, não tinha trabalho de erguê-lo ou puxá-lo. E logo, estávamos no
galho mais alto da árvore. Ele observava a cidade sobre os muros com
olhos encantados enquanto eu segurava sua cintura com um dos braços,
impedindo-o de cair, pois ele perdeu o equilíbrio em um segundo e quase
tropeçou.
— Uou, aquele ao longe é o Rio Han? — Perguntou, encantado.
— É sim, Gukkie.
— Eu queria poder nadar em um rio, mas meu papai não deixa —
comentou, melancólico. — Sabe, eu sou o melhor aluno da minha turma
de natação. Na verdade, eu sou muito bom com muitas coisas e meus pais
ficam muito felizes quando eu ganho algum prêmio. Eu gosto de ver eles
felizes, gosto de fazer eles felizes.
— Você é o filho perfeito? — Perguntei, rindo.
— Não sei, TaeTae. Eu quero ser — afirmou.
— Eu sou bom em algumas coisas, mas não em tudo — contei. — Tenho
feito aulas de tênis já faz algum tempo e consegui ganhar duas
competições mirins no terceiro lugar, mas eu sou muito fraco e magro. Já
me falaram para desistir porque eu não tenho jeito de tenista.
350
— E você vai desistir? — Me encarou com os olhinhos negros.
— Não, não vou. Eu posso não ser o melhor hoje, mas sei que serei um
dia. Eu vou chegar lá — falei, convicto.
— Eu quero muito estudar na ASU. É uma das melhores universidades do
meu estado, e eu vou entrar lá um dia. — Ante ao meu olhar confuso, ele
especificou. — Eu moro em Phoenix, no estado do Arizona. A ASU é uma
das universidades mais importantes de lá.
— Oh sim — assenti, compreendendo.
— Vamos descer? — Pediu.
E sem condições de negar qualquer coisa àquele garotinho fofo, assenti
bobamente.
Com mais cuidado do que antes, desci da árvore, ajudando a passar de
galho em galho até finalmente chegarmos ao chão do jardim. No retorno
para dentro da mansão, segurei a mãozinha de Jeongguk e ele não soltou
por um segundo sequer, grudando em mim como chiclete
— Você é o garoto mais lindo que eu já vi, Gukkie. — Falei, de repente.
— Para com isso — corou da cabeça aos pés, apertando minha mão.
— Não posso te elogiar?
— Eu... Eu não sei — dei uma risadinha e mais uma vez, baguncei seus
cabelos.
— Vem! Vamos nos juntar às outras crianças — chamei.
— Eu não entendo o que elas falam — reclamou, choroso.
Virando-me em sua direção, dei um sorriso afetuoso.
— Eu vou te falar tudo o que elas falarem, eu prometo que você não vai
ficar de fora — garanti. — Não vou te deixar sozinho, Gukkie.
Assentindo, ele soltou minha mão apenas para entrelaçar nossos dedos e
resmungar alguma coisa baixinho que soava como concordância.
351
Seguindo o fluxo de crianças, percebi que elas estavam correndo escada
acima para um dos quartos da mansão, então, sem perder tempo, guiei
Jeongguk junto de mim para onde todos estavam indo. Quase tropecei em
um degrau, incomodado com meu terno, mas rapidamente me equilibrei e
continuei. O mais novo me encarava com os olhos arregalados,
visivelmente preocupado, pois eu havia soltado sua mão. Porém, assim que
viu que eu estava bem, mais uma vez agarrou minha mão, esperando que
eu continuasse.
Chegando no andar de cima fomos até o quarto onde estavam as crianças
reunidas, e assim que nos juntamos a rodinha, Jeongguk se encolheu atrás
de mim sem soltar minha mão. Eu podia ver seu rostinho, sua expressão
era ansiosa e nervosa enquanto ele olhava de um lado para o outro. Ele não
estava entendendo o que estava acontecendo.
— Eles estão combinando o que vamos brincar — expliquei baixinho,
puxando-o para o meu lado com sua mãozinha. Para lhe passar segurança,
abracei seus ombros com meu braço, mantendo-o perto de mim.
Agradecido, Jeongguk assentiu e usou o outro braço para abraçar minha
cintura.
— Taehyung-ah, você é amigo do garoto estranho? — Um dos meninos
presentes ali, Youngbae, perguntou para mim.
— Ele não é estranho! Ele só não é da Coreia, então, ele não fala coreano
— respondi, sabendo que nossa conversa devia estar deixando Jeongguk
desconfortável, até porque estávamos conversando em coreano.
— Se ele não sabe coreano, ele não devia estar na Coreia — Youngbae
retrucou.
— Tae, o que ele está falando? — Jeongguk perguntou baixinho em meu
ouvido.
— Nada — respondi em inglês, sorrindo nervosamente em sua direção. —
Nada importante.
Inseguro, ele assentiu, confiando em mim.
— Ninguém precisa saber uma língua para visitar um país, Youngbae —
352
falei em coreano para o garoto que cruzou os braços, visivelmente
contrariado.
— A gente vai brincar de sete minutos no paraíso, então. Se você gosta
tanto do seu amigo estranho que não fala coreano, fica com ele por sete
minutos dentro do armário assombrado. — Apontou para o armário que
ficava no aposento.
Diziam que o espírito de uma velhinha habitava aquele armário após uma
mulher que trabalhava na mansão há alguns anos atrás matar uma idosa
dentro daquele quarto. Era tudo uma lenda que contavam para nos
assustar, mas minha mamãe já tinha dito que era mentira e nada daquilo
tinha acontecido.
Mas, as outras crianças ficaram verdadeiramente aterrorizadas com o que
ele falou.
— Eles são meninos, Youngbae — uma menina protestou — meninos não
podem fazer a brincadeira dos sete minutos.
— Podem sim, ou vocês entram no armário por 7 minutos, ou eu vou
contar pra todo mundo que seu amigo é burro e esquisito, incluindo os seus
pais — ameaçou, sorrindo maldosamente.
As outras crianças nos fitavam de forma confusa. Eu não queria que ele
fizesse aquilo, que ele fosse até os meus pais para falar mal de Jeongguk.
Isso não podia acontecer. Então, não pensei duas vezes antes de soltar o
ombro de Jeongguk, pegar sua mãozinha e caminhar com ele para dentro
do armário.
— TaeTae? O que houve? O que a gente vai fazer? — Indagou, perdido.
— Vamos ter que brincar de sete minutos no paraíso dentro desse armário
— escondi o fato de ter uma lenda sobre aquele lugar.
— Sete minutos no paraíso? Igual o que a gente vê na televisão? Com
beijos? — Perguntou, tropeçando em um sapato quando adentramos o
armário e fecharam a porta.
— Er... Sim — respondi.
353
— Vocês têm sete minutos! — Youngbae afirmou do lado de fora.
— Gukkie?
Para minha surpresa, o garoto ficou olhando de um lado para o outro no
armário, respirando de forma desregulada. Ele estava entrando em
desespero. Será que ele tinha medo de espaços pequenos?
De repente, ouvi um choro baixinho e comecei a entrar em pânico.
Jeongguk estava com medo e eu não sabia o que fazer, ele não parava
quieto e não parecia sequer ouvir a minha voz.
— TaeTae, eu não estou vendo nada, estou com medo desse armário —
reclamou, chorando.
Meu coração se apertou de vê-lo chorar daquele jeito.
— Está tudo bem! — Tentei assegurar.
— A gente tem que beijar mesmo? E-Eu nunca beijei! Eu tenho vergonha
— confessou, surpreendendo-me quando abraçou minha cintura com força,
claramente com medo.
Com carinho, abracei seu corpinho junto do meu e o apertei em meus
braços, sentindo as lágrimas dele molharem o meu terno, mas eu não me
importava.
— Eles deram 7 minutos para a gente. Não precisam saber do que
aconteceu aqui — assegurei mais uma vez — eu posso falar que a gente
beijou quando não aconteceu nada!
— Jura? — Se acalmou um pouco com as minhas palavras.
— Sim, não precisa se preocupar — afirmei, apertando-o ainda mais,
enquanto isso, Jeongguk afundou o rosto em meu pescoço, procurando se
acalmar.
Decidi não falar nada, ele estava nervoso e choroso, o melhor era esperar
até que os sete minutos acabassem e a gente pudesse sair. Mas na medida
que o tempo foi passando, o choro foi cessando e Jeongguk pareceu ficar
melhor.
354
Tirando sua cabeça de meu pescoço, sem deixar de abraçar a minha
cintura, ele olhou para mim com aqueles olhinhos brilhantes e úmidos.
Nós tínhamos uma diferença notável de altura, então, não reagi quando ele
se colocou na pontinha dos pés, e fechando os olhos, selou seus lábios nos
meus, num mero beijo inocente. Ele estava tendo seu primeiro beijo e eu
também, eu nunca havia beijado.
Mas não me importei. O apertei um pouco mais e pressionei meus lábios
com cuidado. Eu não sabia como beijava, será que eu iria machucar ele?
Infelizmente, não obtive resposta, pois Jeongguk se afastou e na hora,
abriram as portas do armário. Ele estava com as bochechas úmidas e
coradas enquanto olhava para os próprios pés, não tendo coragem de me
encarar. As outras crianças perguntaram coisas para nós, mas ignorei tudo.
Eu estava eufórico, eu estava muito feliz. Não esperava que aquilo fosse
acontecer, que ele fosse me beijar, mas não senti repulsa, nem estranheza.
Eu gostei. Aquilo me fez ficar ainda mais encantado pelo garotinho.
Sem esperar, apanhei uma de suas mãozinhas e marchei com ele para fora
dali, vendo Nayun conversar com um garoto que eu já tinha visto antes,
Park Jimin, numa das poltronas que havia no quarto. Os dois pareciam
estar engajados numa conversa animada.
Puxei Jeongguk comigo novamente até o jardim da mansão, e apertando
minha mão como fez durante todo o dia, ele correu junto de mim, não se
importando em estar sendo levado.
Ao pararmos ao lado da árvore onde subimos, eu parei em sua frente e o
encarei sorridente.
— Eu gosto de você, Gukkie — confessei, não sabendo ao certo o que
aquilo significava, mas sentindo que as palavras pareciam certas para mim.
— Eu também gosto de você, TaeTae — afirmou, soltando minha mão e
sorrindo de forma radiante, mostrando o sorriso lindo. — Eu-Eu gosto
muito.
Sentando na grama do jardim, esperei Jeongguk fazer o mesmo e o abracei
pelos ombros. Se aconchegando perto de mim, ele fechou os olhinhos e
começou a resmungar uma música em inglês que eu desconhecia. Dizendo
ele que era de uma banda de garotas que sua mãe gostava muito de ouvir.
355
Não dei muita atenção, apenas ouvindo tudo com um sorriso satisfeito nos
lábios.
— O sol já está se pondo — comentei, suspirando.
— É lindo! — Exclamou, alegre. — Você precisa ver como o sol brilha
em Phoenix. É tão quente.
— Eu gostaria de ir lá algum dia — Jeongguk me encarou, se virando de
costas para o sol. — Mas não faço viagem internacional de avião ainda. Eu
sou muito pequeno, meus pais não deixam.
— Você podia morar comigo lá — sugeriu, animado. — Ia ser muito
legal!
— Ia ser, mas não sei se isso poderia acontecer — lamentei.
Para meu desespero, Jeongguk começou a chorar mais uma vez, seus
olhinhos se enchendo de lágrimas grossas.
— Você não pode mesmo morar comigo nos Estados Unidos? —
Perguntou, arrasado.
— Não, eu sou muito pequeno ainda. Meu papai não deixaria — lamentei,
verdadeiramente triste.
— Mas eu não quero me separar de você nunca mais, TaeTae! —
Afirmou, pulando em meus braços e me abraçando com força.
— Eu também não quero — a sinceridade das minhas palavras me
assustou. Eu tinha acabado de conhecer aquele garoto. Bastou uma única
tarde junto dele e um beijo para que eu não quisesse me separar.
— Então, me promete uma coisa! Você precisa me prometer que irá atrás
de mim quando você crescer! — Implorou.
— Eu vou, Gukkie! Eu vou atrás de você! — Exclamei, convicto.
— Me promete! Me promete três vezes porque aí você vai ter que cumprir
— insistiu.
Sem hesitar, pronunciei três vezes em voz alta:
356
— Eu prometo que quando a gente crescer, eu vou atrás de você nos
Estados Unidos. Vou estudar na mesma universidade que você, vou te
achar, e nós vamos ficar juntos para sempre. Vamos brincar juntos e
escalar muitas árvores. Eu juro, Gukkie! Prometo que nunca vou te
esquecer, eu vou atrás de você. Eu sempre cumpro as minhas promessas,
confia em mim!
— Eu confio, TaeTae! — Me abraçou com força. — Eu gostei de conhecer
você. Nunca vou te esquecer! Eu não vou te esquecer, T-Taehy-hyung.
Ele falou de forma estranha, mas acabou por pronunciar meu nome e eu
me senti feliz apenas por ouvi-lo.
Passamos o resto do pôr-do-sol abraçados, até que para minha grande
surpresa, os pais de Jeongguk vieram até o jardim. Estavam procurando o
filho para irem embora.
— Quem é esse garoto, filho? — A mulher perguntou.
— É o TaeTae, mamãe — respondeu a ela.
— Oh, o filho dos Kim. O casal que está dando a festa — arregalou os
olhos ao me encarar seriamente.
De forma educada, fiz uma reverência.
— É um prazer conhecê-la.
— Oh, querido, igualmente. Apenas lamento que tenhamos vindo buscar o
Gukkie, estamos indo embora pois precisamos ir até Busan arrumar nossas
coisas. Vamos voltar para os EUA depois de amanhã — comentou.
— Não! — Jeongguk gritou, pulando em meu pescoço e grudando com
força em mim. — Eu não vou embora.
— Filho, nós temos que ir — seu pai afirmou.
— Não, eu não vou — fez birra.
Sua mãe tentou tirá-lo de meu pescoço, mas o aperto dele era forte. Ele
não queria me largar de forma alguma.
357
— Gukkie, está tudo bem — assegurei. — Eu te fiz uma promessa,
lembra? Nós vamos no encontrar, eu te prometi isso!
— Mas vai demorar tanto — choramingou.
— Vai passar bem rapidinho! Eu sei que vai!
Jeongguk fungou e assentiu, me abraçando com força mais uma vez, não
querendo me soltar, claramente. Dei um sorriso confiante e acreditando em
mim, ele me soltou. Escondendo-se na minha frente, o garotinho levou as
mãos até a nuca e tirou de lá um colarzinho. Certificando de que a mãe
dele não estava vendo, ele colocou o colar em minhas mãos.
— Toma. Para você lembrar — afirmou, dando um beijo rápido na minha
bochecha e corando da cabeça aos pés.
Antes que eu pudesse reagir, Jeongguk correu em direção à mãe e pegou
na mão dela. Ele acenou e eu só vi quando ele foi para dentro da mansão
novamente, me deixando ali no jardim.
Sem perceber, levantei minha mão esquerda, acenando também e sentindo
uma única lágrima escorrer por minha bochecha.
Cada palavra que falamos aqui valeu algo para mim. Ele tinha me
encantado como ninguém fez antes e agora me deixava ali. Mas, um dia eu
iria atrás dele.
Apertando o colarzinho em minha mão, abri um sorriso, voltando para a
mansão. Eu precisava conversar com minha mamãe, afinal, ela precisava
saber que eu gostaria de estudar nos Estados Unidos quando crescesse.
E eu já tinha o destino em mente.
[...]
"Amor da minha vida, você me magoou
Você partiu meu coração
E agora você me deixa
Amor da minha vida, não me deixe
358
Você roubou meu amor
E agora me abandona
Amor da minha vida, você não percebe?
Traga de volta, traga de volta
Não o tire de mim
Porque você não sabe
O que isso significa para mim
Você se lembrará
Quando isso acabar
E tudo ficar pelo caminho
Quando eu ficar mais velho
Eu estarei ao seu lado
Para te lembrar de como eu ainda te amo
Eu ainda te amo"
[...]
Falando sobre o capítulo, eu sei que muita gente vai chegar em mim e
perguntar: Como o Jeongguk não se lembrava do Taehyung depois de
tudo isso. Minha resposta é simples: na vida a gente esquece as coisas
mesmo. É natural.
Não é que isso não teve significado na vida dele. A questão é que é natural
a gente esquecer de momentos marcantes na medida que o tempo passa.
Alguns esquecem, outros não, como é o caso do Tae e do Guk, mas vida
que segue. Jeongguk já pediu perdão, eles estão bem. (vocês viram a
diferença de POV entre o Tae e o Guk nessa parte? Sugiro que releiam o
primeiro capítulo e verão ^^)
A música que o Jeongguk estava cantando enquanto estava abraçado com
o Tae era Eternal Flame do The Bangles. Tem um capítulo com esse nome,
e o trecho "I believe it's meant to be, darling" vem dessa música já que ela
é a música favorita da banda favorita da mãe do Jeongguk. Tem toda uma
"simbologia" envolvendo Eternal Flame durante a fic.
Cada capítulo foi nomeado com uma música, como vocês perceberam. As
músicas tem uma ligação com os capítulos (às vezes, a música toda se
relaciona com um capítulo, às vezes é só um trecho da música, depende do
caso.)
359
Sabotage - basicamente representa a coisa do jk chegando no CdL e sendo
obrigado a lutar
Epic - representa os sentimentos conflituosos do menino jk
Vertigo - mesma coisa do Epic
Medicate - metade representa o tae (como os trechos "you don't even know
my name), e a outra representa o jk
Unbelievable - essa daqui é um trecho só "the things you say, you're
unbelievable". É o jk pro tae
Broken - essa daqui é uma representação total dos dois, tem nem
discussão. os dois sofrendo.
Always - essa representa o jk pós-falou merda pro tae. gosto demais dela,
inclusive :)
California - "California here we come, right back where we started from,
CALIFORNIAAAAA"
Scream - essa aqui é a pura representação da putaria "Cherishing, those
feelings pleasuring"
Alive - esse capítulo foi bem um divisor de águas da fic (eu fiz isso com o
18, já explico). e nesse, é só um trecho "oh aaaa i'm still alive"
basicamente, o momento da relação sexual
Lucky Man - eu gosto demaaaais dessa música, e ela é bem a
representação da paz de espírito do jk depois que eles começam a
namorar. A coisa de se considerar um "homem sortudo"
Eternal Flame - já falei dela anteriormente. É a música neném da fic
todiiiinha. Eu amo demais esse capítulo. Tem até trechos dela num dos
pensamentos do jk
Coming Undone - olha o título dessa coisa ahsuahs "coming undone" pode
ser algo como "se desmoronar", mas gosto de pensar em outro significado
mais impuro por causa da conotação que "coming" pode ter em inglês
Going Under - é a representação da treta
360
Our Truth - eu não preciso dizer nada. a letra já diz tudo por si só.
Fortune Faded - o título dessa música é a explicação do que acontece
nesse capítulo "sorte acabada".
Enter Sandman - a música descreve um garotinho tendo pesadelos, o
começo de algo assustador. Yep, FIGHT!
Even Flow - outro capítulo diferenciado exatamente como o Alive, então,
escolhi uma música da mesma banda (Pearl Jam). Even Flow seria fluxo
constante... bem errado isso
e por fim...
Love of My Life - não achei que eu precisaria explicar, já que esse
capítulo e a letra no final já disseram tudo, é simplesmente a descrição
exata do que o Tae sente. Essa música é todinha dele. A coisa do Jeongguk
partindo para o EUA. E esse trecho "Você se lembrará, quando isso
acabar, e tudo ficar pelo caminho. Quando eu envelhecer, eu estarei ao
seu lado para te lembrar de como eu ainda te amo, eu ainda te amo". Isso
é basicamente o Taehyung.
E é isso, pessoal (oficialmente).
Caso se interessem, tenho outras taekook postadas aqui (várias one-shots,
algumas shortfics e duas longfics dos mais variados temas.)
provavelmente vale a pena dar uma olhada! =)
Beijinhooos <3
361
Good Riddance (Time of Your Life)
Oi, gente! Tudo bem?
Quanto tempo, hein! E imagino que vocês não esperavam isso aqui, e bem,
é justo!
Esse capítulo serve como um epílogo mesmo, um capítulo final para
completar 20 partes e o fim definitivo de Finish Him Off.
Espero que gostem, boa leitura!
[...]
Frustração.
Não havia uma palavra que melhor descrevesse como eu me sentia naquele
momento. Tão fodidamente frustrado. Chateado. Magoado. Talvez fosse
idiotice ou até exagero de minha parte, mas não era como se eu pudesse
evitar, é isso que você ganha quando coloca suas expectativas lá no alto
apenas para ser acertado com um belo soco na cara.
O suor escorria por minhas costas, meus braços, meu peito e meu rosto. Eu
não sabia há quanto tempo estava ali, talvez uma hora ou duas? Apenas
entrei, tirei minha jaqueta de couro e minha camisa, mantendo apenas
minhas calças, botas e bandana. Enfaixei minhas duas mãos
cuidadosamente e, em seguida, me concentrei em descarregar toda aquela
maldita frustração no saco de pancada. Eu socava o couro preto com tanta
força e rapidez que era uma verdadeira surpresa do objeto não ter soltado
do suporte de ferro que o segurava.
Tantas coisas passavam pela minha cabeça naquele momento: a maldita
promessa que fiz, a forma como aquela promessa nunca saiu de minha
mente, minha determinação em cumpri-la, e o fato de ele aparentemente
ter se esquecido dela.
362
Jeongguk.
Foi horrível. Eu estava tão ansioso. Foram incontáveis noites na qual eu
simplesmente não conseguia dormir pensando se eu realmente devia fazer
o que havia prometido para ele quando nós éramos crianças. Sempre
deitado em minha cama, ou encarando o horizonte enquanto apertava o
colar que ele me dera e me questionava se eu estava louco, se o melhor não
fosse seguir em frente com minha vida e esquecer que tudo isso aconteceu.
Jimin me alertou que Jeongguk podia não ser gay ou gostar de homens, e
eu poderia fazer uma viagem em vão. Era verdade, essa era uma
possibilidade, mas eu não saberia se não tentasse.
Há mais ou menos uns sete meses atrás, entrei no site da Arizona State
University, a mesma universidade que ele me dissera que gostaria de
estudar por pura curiosidade. Fiquei impressionado pelo campus, mas nada
superou a minha surpresa ao ver o nome e rosto de Jeon Jeongguk exposto
em meio aos jogadores do time de futebol americano. Um sorriso genuíno
surgiu em meus lábios: ele realmente tinha entrado na universidade de seus
sonhos, e se meus cálculos estivessem certos, ele devia estar por volta dos
20 anos de idade.
Foi naquele momento que decidi realmente tomar uma atitude e viajar para
os Estados Unidos, eu iria estudar na ASU e iria reencontrá-lo. Planejei a
viagem, fiz minha aplicação para a universidade e não tive problemas em
conseguir uma vaga lá graças as minhas notas satisfatórias, a condição
financeira, status de minha família, e ao fato de eu ser um jogador de tênis
em ascensão que estava chamando constante atenção da mídia.
Confesso que quando cheguei em Phoenix, eu realmente odiei o clima seco
e exageradamente quente. Não conseguia entender como as pessoas
decidiram ser uma boa ideia estabelecer uma civilização e criar uma
cidade no meio do deserto, porém o tanto que o clima dali era detestável, o
resto certamente compensava. Eu não era o "diferente" por ter o corpo
tatuado, minha vida não era constante alvo de fofocas e intrigas, cada um
cuidava de sua vida e não existia a maldita pressão social para que eu fosse
um ser perfeito.
Saboreei de uma liberdade como nunca antes no momento em que
coloquei os pés naquele país estrangeiro.
No entanto, toda a minha animação foi por água abaixo no fatídico dia de
363
boas vindas aos calouros. Eu não imaginava que no exato momento em
que chegasse ali e avistasse Jeongguk, as coisas tomariam um rumo
diferente do que eu previamente imaginei. Eu usava um boné para tirar o
sol do meu rosto enquanto via os veteranos cumprimentando os novatos,
lhe chamando para festas, fraternidades, e outros tipos de grupos e
atividades universitárias.
Fui cumprimetado por alguns estudantes, como uma garota loira tailandesa
chamada Lisa e Kevin, um rapaz negro extremamente popular e um dos
líderes da Alpha Pi, a fraternidade mais conhecida e prestigiada da
universidade. O que eu não esperava era que Jeongguk estivesse ali.
Assim que o avistei, senti minhas mãos suarem de tanto nervosismo. Ele
usava uma daquelas varsity jackets típicas de atletas universitários,
esbanjando um sorriso radiante enquanto conversava com outro garoto. Eu
queria tanto falar com ele, mostrar o colarzinho que continuava em meu
bolso, mostrar como eu nunca havia me esquecido dele durante todo esse
tempo e como eu realmente havia cumprido minha promessa. Decidido,
caminhei em sua direção com um sorriso no rosto, ignorando os olhares
que algumas pessoas ao redor me deram. Abri a boca para cumprimentá-
lo, até que finalmente percebi: ele estava flertando com o outro garoto.
Não havia dúvida acerca da linguagem corporal que os dois mostravam,
sem contar os sorrisos e toques sutis. Eu não poderia ter escolhido um
momento pior para resolver falar com ele pela primeira vez em mais de
dez anos.
— Posso ajudar? — O garoto com quem ele flertava perguntou e me
encarou curioso.
Jeongguk olhou na minha direção pela primeira vez e franziu as
sobrancelhas, visivelmente confuso, até porque eu fui o doido que parou
ao lado deles do nada e estava calado lhes encarando com a expressão
mais embasbacada possível. Ele não fazia a menor ideia de quem eu era.
Eu o reconheci de primeira, mas ele não sabia quem diabos era o rapaz de
boné e cabelos ruivos. Taehyung, o primeiro beijo dele. Aquele maldito
armário, a brincadeira do sete minutos no céu. Puta merda.
— Não, só estou perdido mesmo — desconversei, sem graça.
Claramente não afetado, Jeongguk deu de ombros e voltou sua atenção ao
garoto, ignorando minha presença.
364
Juro que podia praticamente ouvir a voz de Jimin em minha cabeça com
um "eu te avisei". Eu reencontrei Jeongguk, ele definitivamente gostava de
homens assim como eu, mas ele não me reconheceu, não demonstrou
reação alguma. Talvez eu devesse ter tirado o boné, mas não sei se faria
alguma diferença? Meu cabelo estava com uma cor diferente e chamativa,
eu tinha o corpo tatuado, embora não o mostrasse devido as minhas
roupas. Eu não era o mesmo garotinho de anos atrás, e ele também não.
Sentindo raiva da minha estupidez, soquei o saco de pancada com mais
força do que o necessário. O que eu esperava? Que ele me reconhecesse de
primeira, e a gente conseguisse marcar alguma coisa para fazer junto? Eu
vivi numa espécie de fantasia durante todo esse tempo e considerei que a
melhor alternativa fosse voltar para a Coreia do Sul de uma vez por todas.
No entanto eu tinha acabado de chegar, não podia simplesmente voltar
assim. Eu faria valer a pena a minha estadia por aqui, de uma forma ou de
outra.
A exaustão me tomou conta, e eu parei de descontar toda minha frustração
no saco de pancada, encostei minha testa na borracha e fechei os olhos.
Quando fiz parte de uma gangue em Seul, eu era constantemente alvo das
provocações de outros caras. Eles me atiçavam com desafios, buscando me
irritar e me fazer descontar a raiva neles. Perdi as contas de quantas vezes
quase fomos parar na cadeia por briga de gangue e agressão física. Eu não
me orgulhava dessa parte da minha juventude e muito menos concordava
com violência gratuita, mas não me arrependo do que fiz. Todas as
dificuldades que passei foram cruciais para que eu aprendesse as coisas da
forma mais dura possível.
— Achamos que você ia explodir o saco de pancadas — uma voz
desconhecida soou atrás de mim, e eu levantei a cabeça, encarando os três
recém-chegados.
— Foda-se — respondi, curto e grosso, caminhei em direção a minha
mochila e começei a desenfaixar minhas mãos. Como esperado, os nós dos
meus dedos estavam completamente avermelhados e até um pouco
inchados de tanto que descontei minha força através de meus punhos.
— Eu diria que ele está puto, Namjoon — um dos caras falou, o que tinha
os cabelos de um tom azul-piscina. — Olhe só para a cara dele.
— Duvido — o outro rebateu, o de cabelo rosado.
365
— Posso socar a cara de cada um de vocês para me deixarem em paz —
resmunguei, rabugento, guardando as faixas na mochila, e vesti uma
camiseta preta.
O primeiro a falar, o tal de Namjoon, pareceu gostar da minha resposta.
— Manda a ver, ruivo — sorriu de canto, mostrando as covinhas
profundas em suas bochechas.
Revirando os olhos, coloquei minha mochila nas costas e fiz meu caminho
para fora dali, nada a fim de conversar ou interagir. Porém não consegui
chegar até a porta que dava acesso a ala principal da academia onde
ficavam os aparelhos de musculação, pois o rapaz de cabelos azulados
segurou um dos meus braços e tentou acertar um soco em minha barriga.
Por reflexo, desviei e dei um passo para trás, o encarando com uma
expressão de incredulidade clara. Qual era o problema daqueles três?
— Ataca a gente, cara! — Provocou. — Ou você só sabe dar socos em um
saco de pancada que não pode revidar?
Eles queriam tanto assim que eu chutasse seus traseiros? Pois bem, que
assim seja, chega dessa porra. Larguei minha mochila no chão e estalei o
pescoço, encarando os três idiotas com um olhar irritado, afinal eu queria
entender qual era o problema deles e porque diabos estavam me
perturbando.
Sem pensar duas vezes, avancei na direção do garoto do cabelo azul com
uma destreza invejável e achei um cruzado tão perfeito que ele caiu na
parede atrás de si, mas não me detive por aí, chutei sua barriga, e ele caiu
no chão, grunhindo de dor, mas com um sorriso estranho nos lábios. Ele
por acaso parecia satisfeito por ter apanhado?
Passando a língua por meus lábios, estiquei a mão direita para si,
incentivando-o a levantar do chão. Não surpreendentemente, o garoto
aceitou e deu um tapinha em meu braço num gesto meio "brother".
— O que vocês querem? — Questionei, cruzando meus braços e os
encarando com seriedade.
— A gente quer montar um clube de luta aqui na universidade. No
subsolo. — contou Namjoon. — Você sabe chutar um traseiro. Quer
366
participar?
— E qual a intenção disso? — Indaguei. — Ou simplesmente é diversão?
— Diversão pura — o garoto de cabelo azul afirmou.
Dando de ombros, estalei os músculos doloridos de meus ombros e assenti.
Eu não tinha nada a perder.
Eu não tinha qualquer problema contra isso.
O que diabos poderia acontecer?
E alguns meses depois, dizer que eu estava curtindo minha vida e
aproveitando ao máximo era definitivamente um eufemismo.
Desde que tomei a decisão consciente de esquecer a verdadeira razão do
porquê eu fui para os Estados Unidos inicialmente, consegui me divertir
como nunca antes. Eu joguei, lutei, treinei, transei, fui a festas, fiz amigos.
Eu estava bem, estava feliz, pleno, e era bom pensar que eu estava vivendo
minha vida normalmente, não estava vivendo exclusivamente por causa de
uma pessoa.
Uma pessoa que nem sabia que eu existia.
Jimin comentou comigo certa vez se o melhor seria voltar para a Coreia já
que deu tudo errado, mas eu decidi que não. Decidi ficar ali e aproveitar
logo. Contei para ele sobre como estava sendo, em especial, sobre como eu
era um vencedor invicto no clube que formamos no campus. Nenhum
aluno foi capaz de me derrotar. Nenhum. Chegou ao ponto onde eu mesmo
parei de ir, pois não via mais graça. Ganhei reputação, ninguém tinha
coragem de me desafiar com exceção de Namjoon, Yoongi ou Seokjin
eventualmente, e eu preferia não desafiar ninguém, afinal eu sempre
vencia.
Acho que eu estava ausente fazia quase um mês.
Estávamos no final de setembro, todos já voltaram das férias e certamente
teriam novatos, ainda mais nessa época do ano. Calouros e mais calouros.
Então, quando apareci por lá, não me importei com os comentários dos
367
integrantes mais antigos ante a minha presença. Eles estavam claramente
questionando se eu desafiaria alguém, e eu não planejava fazer isso. Não
queria assustar nenhum calouro desavisado ou emocionado.
— Bem-vindo de volta, Taehyung — Yoongi me cumprimentou.
— Valeu, Yoongi — respondi.
— Chuta o traseiro de algum novato hoje — pediu, rindo. — Te pago uma
cerveja depois.
Revirando os olhos, neguei com a cabeça e segui até a pilastra próxima de
onde o grupo estava reunido e apalpei os bolsos de minha jaqueta,
procurando por um pirulito de morango, abri-o e coloquei em minha boca
enquanto observava o círculo se enchendo, e simplesmente não contive
minha surpresa quando vi Jeongguk entre os novatos. Franzi minha testa.
Ele nunca tinha aparecido ali antes. O que diabos ele estava fazendo ali?
Eu havia o visto mais cedo na cafeteria naquele dia, mas nunca sonharia
que o encontraria aqui. Ele querendo lutar? Essa era nova.
— Vocês realmente não sabem manter a merda da boca fechada —
Namjoon afirmou, estalando a língua, e encarou a todos em volta.
Cruzei os braços apenas observando o meu redor. Minha jaqueta de couro
provavelmente estava se enchendo de poeira ali, mas não me incomodei.
Era atrás da roda principal e me dava a opção de ver tudo. Incluindo
Jeongguk. Que estava em pé em meio aos homens junto de seu amigo
loiro.
— Imagino que contaram o quão lucrativo é o nosso clube de luta
clandestino, espero que pelo menos os novatos não abram a boca —
repreendeu severamente, me fazendo sorrir divertido. Era ótimo ver a
expressão de pânico dos homens ao redor, incluindo Jeongguk.
Não consegui esconder minha surpresa ao notar a expressão de pânico que
ele tinha. Ele definitivamente não era o tipo de pessoa que frequentava um
lugar como esse, mas decidi usar isso ao meu favor. Eu fiquei tão magoado
por ele não ter me reconhecido na recepção aos calouros. Eu esperei por
ele por todos esses anos, e nada aconteceu da forma como eu imaginava.
368
Isso piscou em minha mente, e eu franzi a testa. Agora ele teria que lutar
de acordo com as regras. Será que era errado eu fazer aquilo como forma
de revidar a mágoa que eu senti? Eu queria que ele pelo menos soubesse
quem eu era antes de tudo, e por mais duvidosa que fosse a minha ideia
agora, eu não me importava com isso. Não naquele momento.
— Caso não se lembrem, eu lhes direi qual são as regras aqui, já que as
maricas aqui parecem não terem entendido — levantou o dedão no alto —,
primeira regra, vocês não devem falar sobre o Clube da Luta — levantou o
indicador —, segunda regra, vocês não devem falar sobre o Clube da Luta.
Será que fui claro, porra?
Os homens ao redor assentiram. Jeongguk não parecia muito empolgado.
— Deixando claro aqui, caso vocês tenham esquecido — levantou um
dedo para cada regra citada —, terceira regra, se alguém gritar "pare",
começar a mancar, dar duas batidas no chão, a luta acaba. Quarta regra,
apenas dois caras por luta. Quinta regra, uma luta de cada vez. Sexta regra,
nada de camisas, nada de sapatos. Sétima regra: as lutas durarão o tempo
que elas tiverem de durar. E oitava e última regra, se essa é a sua primeira
vez no Clube da Luta, você deve lutar!
Todos ao redor gritaram em entusiasmo, enquanto Jeongguk parecia estar
ainda mais em pânico. Ele tentou sair da roda, mas vi a hora em que
Yoongi o jogou para o centro do círculo apontando para si.
— Ele é novo! É a primeira vez dele aqui! — Berrou. Jeongguk arregalou
os olhos numa verdadeira expressão assustada, e eu lembrei de quando ele
tinha 10 anos. Parecia a mesma coisa.
— Jeongguk...! — O amigo que o acompanhou até ali gritou seu nome,
mas não pôde falar muito antes de sumir, sendo engolido em meio à
multidão.
Jeongguk olhava ao redor, parecendo planejar uma forma de escapar. Dei
um sorrisinho de canto. Aquela era a minha deixa. Ele não iria escapar.
Não agora.
Você está ferrado, Jeon.
— Eu quero lutar contra ele.
369
...
...
...
Tudo isso parecia ser uma memória tão distante.
Eu não reconhecia nem mesmo o Taehyung do ano anterior. Foram tantas
coisas que fiz que eu sentia vergonha, que eu me arrependia. Me custou
um tempo, mas eu pude refletir sobre tudo o que aconteceu e agora que
Jeongguk e eu estávamos em um relacionamento sério e estável, era
inevitável não sentir que eu realmente podia ter agido de forma diferente
em diversas situações.
Hoje em dia minha mãe tolerava nosso namoro, tendo até mesmo o
convidado para um almoço certa vez, mas ainda assim, se eu tivesse lidado
com tudo de forma mais madura, talvez teríamos chegado a esse ponto
logo.
Porém não sou do tipo de ficar chorando pelo leite derramado,
infelizmente, o que aconteceu, aconteceu. E o que importava era que agora
estávamos bem.
Eu consegui. Eu cumpri minha promessa. Atravessei o oceano e encontrei
meu amor de infância, o reconquistei e agora ele era meu. Eu realmente
consegui!
Agora nossas vidas se envolviam em gerenciar nosso tempo,
compromissos e deveres em torno de nosso namoro e isso estava acabando
comigo de todas as maneiras possíveis.
Não acho que tenha coisa mais exaustiva do que o período de provas. Suga
a alma de qualquer um, e eu certamente não sou exceção. Quando informei
minha mãe há mais de dez anos atrás que eu queria estudar nos Estados
Unidos, não imaginei o quanto eu teria de ralar para conseguir minha vaga
numa universidade estrangeira. Eu estava disposto a conseguir isso sem
precisar usar de nossa influência e dinheiro.
Hoje, após me matar de tanto estudar e treinar, finalmente pude aproveitar
um dia de folga, indo para o bar snooker com Yoongi e Namjoon. O fato
370
era que Jeongguk não estava tendo muito tempo para passar comigo depois
que começou um trabalho de meio período numa empresa de tecnologia, e
eu não podia estar mais feliz por ele, era uma baita conquista para o futuro
que ele almejava seguir. A gente se falava bastante por mensagem,
fazíamos até chamadas de vídeo, cheguei a vê-lo há uma semana, mas foi
bem rápido. Ele corria pelo campus, apressado com alguma coisa, parou
nos trilhos ao me ver em seu caminho, deu um selinho rápido em meus
lábios e disse "oi, amor" antes de continuar correndo.
Dei risada no dia, absolutamente encantado com a forma como suas
bochechas coravam pelo calor, mas acabei ficando um pouco triste. Eu
queria passar um tempo com ele, nem que fosse um pouco, mas
ultimamente estava foda. Até estranhei que depois do tanto que tivemos de
lutar para conseguirmos namorar, agora que estávamos juntos, os mais
triviais dos "problemas" se tornavam um obstáculo.
Porém eu sabia que devia ter paciência, era só uma fase. Se eu esperei por
Jeongguk por mais de dez anos, esperar mais alguns dias não seria um
tremendo desafio.
Tirando alguns fios de cabelo vermelho que caíam sobre meus olhos,
passei giz na ponta do meu taco e me posicionei sobre a mesa de sinuca.
— Estou prevendo que você vai errar essa, Taehyung — Yoongi alfinetou,
tomando um gole de sua cerveja. Ele estava apoiando o quadril contra a
mesa e fazia uma expressão de puro tédio, a qual eu já estava acostumado.
— Ainda bem que nunca liguei para as suas previsões — devolvi.
— Pois deveria ligar. Eu apostei que seu namorado te venceria, e ele
realmente venceu — sorri discretamente ao lembrar do dia em que
Jeongguk me venceu. Embora eu tenha ficado inicialmente irritado, não
pude evitar o orgulho que borbulhou em meu peito ao ver seu progresso,
principalmente quando ele acabou por vencer um rapaz que o desafiou dias
depois sem quaisquer dificuldades. — E você teve de cumprir sua parte da
aposta.
Não que tenha sido difícil, de qualquer forma. Qualquer coisa que envolva:
eu + fodendo + Jeongguk nunca representa qualquer dificuldade para mim.
— Tive mesmo, eu não ousaria chateá-lo, você sabe disso — comentei,
371
finalmente batendo o taco na bola branca após muito estudar a melhor
posição e o melhor ângulo. Como eu já esperava, a bolinha azul acabou
sendo encaçapada, e eu ergui o punho em sinal de vitória.
— Filho da mãe, você tem talento para isso, como pode? — Namjoon
resmungou, balançando a cabeça.
Cocei a nuca, risonho.
— Meu avô me ensinou a jogar — dei de ombros. — Ele era o melhor
jogador de sinuca de Daegu. Mas, podem acreditar, eu já perdi muitas
vezes nisso daqui.
— Não acho difícil de acreditar — Yoongi soltou uma risada anasalada ao
enfiar a mão no bolso do jeans e tirar o celular de lá. — Você perde toda
vez que jogamos algum tipo de jogo de cartas e ninguém sabe disso, todos
acreditam que você é inalcançável.
Revirei os olhos, pegando minha cerveja apoiada em nossa mesa atrás da
mesa de sinuca e tomei um gole.
— Não sou muito bom com jogatinas.
— Você checou seu celular? — Yoongi perguntou, arqueando a
sobrancelha — Jeongguk mandou mensagem no nosso grupo do Discord
pedindo para você olhar suas mensagens.
Eu havia deixado meu celular sobre a mesa e não perdi tempo em conferi-
lo. Realmente havia mensagens de Jeongguk para mim, pelo menos dez
delas, todas perguntando onde eu estava, o que eu estava fazendo, se eu
estava ocupado e que ele estava de folga do trabalho e com saudades de
mim. Passei uma mão pelo meu rosto, irritado. Caralho, passei os últimos
dias almejando um tempo com ele e quando esse tempo surgia, eu não
olhava o celular.
As mensagens foram mandadas há meia hora atrás, então sem perder
tempo, disquei seu número e para a minha não surpresa, caiu na caixa
postal. Frustrado, insisti mais algumas vezes, aguardando que ele
atendesse o telefone, mas não deu em nada. Será que ele estaria me
ignorando por estar chateado comigo? Suspirei e abri o aplicativo de
mensagens.
372
Você: Jagi, eu estava jogando sinuca com os meninos, não olhei o celular.
Perdão.
Guardei o aparelho dentro do meu bolso e tirei minha jaqueta de couro,
pendurando-a na cadeira da mesa. Estiquei meus braços e estalei os
músculos tensos do meu pescoço. Notei algumas pessoas no bar olhando
para as minhas tatuagens e dei de ombros. Aquilo não se comparava à
atenção que eu recebia quando estava na Coreia do Sul. Lá era um
verdadeiro tabu.
Peguei o taco novamente e esperei Namjoon fazer uma jogada. Ele
praguejou alguma coisa quando a bola passou perto da caçapa, mas não
entrou. Yoongi tomou postos e resmungou em voz baixa antes de dar a
volta pela mesa de sinuca, estudando a forma de fazer a melhor jogada e
encaçapar uma bola particularmente mais fácil que Namjoon deixara.
— Quero ver você conseguir a preta que está bem ali — desafiou Yoongi.
— Vai, Taehyung, prova seu talento nato para mim mais uma vez.
— E o que eu ganharei com isso? — Perguntei, sorrindo.
— Você já namora, cai fora!
— Não estou falando disso, idiota — revirei os olhos. — Não tenho
qualquer interesse de sair do meu relacionamento, estou perguntando quais
ganhos terei na língua do jovem universitário.
Yoongi riu alto.
— Certo, seu safado. Te darei uma caixa da cerveja que você escolher.
— Feito! — Concordei na hora, preparando para a jogada quando ouvi
uma comoção vinda da entrada do bar.
Jogadores de futebol americano eram bem escandalosos quando queriam e
eles faziam questão de deixar claro sua presença, onde quer que fossem,
principalmente quando estavam na animação para algum jogo. Então não
foi surpreendente ver o time do Sun Devils invadir o bar com aquele ar de
superioridade da porra que os jogadores em alta da temporada tinham. Eles
exibiam suas varsity jackets como se fosse uma espécie de troféu e, junto
deles, estava Jeongguk, rindo a plenos pulmões enquanto conversava com
373
Jung Hoseok, um de seus colegas de time.
Honestamente, de todos eles, Hoseok era definitivamente o mais gente
boa, o resto eu achava um bando de mauricinhos do nariz em pé. Suspeito
que o sentimento era mútuo, já que quando me viam, eles não escondiam a
expressão de desdém. Ótimo. Eu tinha que namorar um jogador também.
Pelo menos eu sabia que ele não era assim.
E foi incrível, no instante em que os olhos de Jeongguk bateram em mim,
ele abriu um sorriso enorme e veio caminhando em minha direção, não
hesitando em me abraçar. Aceitei seu abraço de muito bom grado, o
apertando contra mim e inspirando seu cheirinho gostoso. Que saudade eu
estava dele.
— Desculpa por não ter te respondido — sussurrei no pé de seu ouvido —
eu juro que eu teria largado tudo para ficar com você.
— Eu sei — riu. — Não estou chateado, Tae. Achei que você estivesse
ocupado estudando, até me senti mal achando que eu estava te
atrapalhando ou sei lá.
Se afastando, ele plantou um beijinho em meus lábios.
— E aproveitou para sair com seus colegas de time — concluí.
Jeongguk deu de ombros.
— Eu não tinha nada melhor para fazer, mas agora que você está aqui, eu
definitivamente tenho algo melhor para fazer.
— Topa irmos ao cinema?
— Com certeza — passou as mãos por meus braços — e não precisa vestir
sua jaqueta. São poucas as vezes em que posso ver você assim em público.
— Você me vê assim nos meus jogos! — Exclamei, rindo.
— Mesmo assim!
Nos despedimos de nossos amigos, ou melhor nossos amigos e os colegas
de time de Jeongguk. Yoongi e Namjoon não se incomodaram tanto
quanto achei que se incomodariam com a minha saída, apenas soltaram
374
uns xingamentos aqui e ali como bons parceiros que eles eram. Saímos do
bar com ele segurando minha mão e me guiando para a calçada. Peguei o
celular, abrindo o aplicativo do Uber e solicitando um motorista até o
cinema mais próximo. Ao olhar para o meu lado, notei que Jeongguk
sorria grandemente.
— O que foi? — Perguntei, curioso.
— Nada, só estou muito feliz — Afirmou. — Eu achei que não
conseguiria sair com você essa semana.
Abri um sorriso tão grande quanto o dele.
— Se depender de mim, jagi, nós vamos sair juntinhos sempre que
possível.
— Eu sei, amor — deu outro beijinho em meus lábios enquanto
aguardávamos pelo Uber.
— E aí, como foi o seu dia?
Respirei aliviado quando ele começou a contar animadamente sobre tudo o
que tinha feito. Mesmo estando mais afastados nesses últimos tempos,
nada tinha mudado e isso era tão ridiculamente reconfortante, eu ainda o
amava como a primeira vez e sabia que ele também. Nós realmente
havíamos sido feitos para ser, mesmo que ele acabasse comigo em certos
dias como no dia do meu "castigo" pela aposta. O fato era que eu tinha
total convicção de que nosso futuro juntos seria incrível, e sabia também
que Jeongguk idealizava uma vida para nós em San Francisco, mas
honestamente, onde quer que fosse, fosse em Phoenix, na Coreia do Sul,
ou em San Francisco. Onde quer que estivéssemos juntos, eu saberia que
estávamos em casa.
Tudo estaria bem.
THE END
375
[...]
Oi, oi de novo!
E é aqui que acaba FHO oficialmente (com uma música do Green Day
ainda, amooo)
Espero que tenham gostado.
O que o futuro espera? Quem sabe! Porém, o que importa é que juntos
eles ficaram!
Se cuidem bastante nesses tempos difíceis (que vão passar!) e eu espero
ver vocês em outras histórias minhas.
Beijinhos e muito obrigada por todo o amor mais uma vez! Obrigada por
todos os comentários, votos, todos os surtos, por todos esses anos de muito
carinho! Eu amo muito vocês de verdade por me fazerem sentir grata por
ser escritora e por serem tão incríveis!
Para quem se interessar, a versão do livro independente de vendagem
única que fiz em março de 2021 está disponível no site da Starmoon, basta
escolher uma opção de assinatura. Como nunca cheguei a publicar com
uma editora, foi a forma que achei de deixar disponível para leitura. E
mais uma coisa: na lojinha do site tem a caneca oficial de FHO, marca-
páginas e cards exclusivos da história. Se alguém tiver interesse em
conferir, basta entrar no link em meu perfil, okay?
beijinhos
até a próxima ^^
376
oii
Oi, pessoal! Tudo bem com vocês? Espero que sim.
Mais de um ano depois, cá estou eu.
Eu estou bem e estou viva (para quem se perguntou), só não tenho escrito
fanfics mais ^^
Restaurei minha conta rapidamente para dar um recadinho pra vocês (não,
eu não voltei pra escrever fanfic kkkkkk).
Quem me acompanha há tempo, sabe que em 2021 eu fiz uma vendagem
única do livro de Finish Him Off. Não cheguei a divulgar muito e na época
decidi não fazer mais uma venda pois todo o processo havia me esgotado
muito.
Mas acabou que sobraram muitos brindes dessa venda (cards, bottons, etc).
Tanto de Finish Him Off, quanto de Galáctico (o brinde surpresa). E como
eu me comprometi com todas as artistas que contratei na época a não
vender os brindes separadamente, não irei fazer isso.
Tentei enviar os brindes para quem quis e pagou somente o frete,
pouquíssimas pessoas demonstraram interesse.
Ainda tô com tanto brinde aqui e eu cogitei jogar fora, até que a Clarinha
(@RivaMika55) me sugeriu de distribuir os brindes e eu acatei a ideia.
Como vocês sabem, ela tá arrasando muito com o lançamento dos livros de
Saron de Sangue pela Editora Violeta (talentosa e poderosa sim), e ela tem
participado de eventos com a editora, incluindo a Bienal do Livro.
Por isso, eu decidi enviar os brindes restantes pra ela, e ela vai distribuir
GRATUITAMENTE pra qualquer leitor(a) que queira durante a Bienal de
São Paulo de JULHO DE 2024.
Se alguém ainda lembrar das minhas histórias e quiser ter uma
lembrancinha delas, só ir encontrar ela na bienal do ano que vem.
Sigam ela no Instagram "ana__riva" que futuramente ela vai dar mais
377
informações para quem estiver interessado(a).
É só isso!
Beijinhos, amores!
Bebam água e fiquem bem!
Com carinho, kittenish ♡
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Índice
Title Page 2
Avisos 3
Capítulo 1 - Sabotage 6
Capítulo 2 - Epic 20
Capítulo 3 - Vertigo 32
Capítulo 4 - Medicate 52
Capítulo 5 - Unbelievable 83
Capítulo 6 - Broken 103
Capítulo 7 - Always 123
Capítulo 8 - California 144
Capítulo 9 - Scream 160
Capítulo 10 - Alive 178
Capítulo 11 - Lucky Man 205
Capítulo 12 - Eternal Flame 223
Capítulo 13 - Coming Undone 243
Capítulo 14 - Going Under 259
Capítulo 15 - Our Truth 274
Capítulo 16 - Fortune Faded 290
Capítulo 17 - Enter Sandman 308
Capítulo 18 - Even Flow 325
Love of My Life 345
Good Riddance (Time of Your Life) 362
oii 377
379