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PRLP n.2
PARECER PROFERIDO EM PLENÁRIO AO SUBSTITUTIVO DO
SENADO FEDERAL AO PROJETO DE LEI Nº 4566, DE 2021
SUBSTITUTIVO DO SENADO FEDERAL AO PROJETO DE LEI Nº
4.566, DE 2021
Tipifica o crime de injúria racial coletiva
e torna pública incondicionada a respectiva
ação penal.
NOVA EMENTA: Altera a Lei nº 7.716,
de 5 de janeiro de 1989, para tipificar a
conduta de injúria racial em local público ou
privado aberto ao público de uso coletivo.
Autores: Deputados TIA ERON e BEBETO
Relator: Deputado ANTONIO BRITO
I – RELATÓRIO
O Projeto de Lei nº 4.566, de 2021 (que anteriormente recebia
a numeração 1749/2015), de autoria dos Deputados TIA ERON e BEBETO, foi
aprovado pela Câmara dos Deputados, tendo sido a matéria remetida ao
Senado Federal em 30 de novembro de 2021. Naquela Casa, sofreu alterações
de mérito, de forma que a proposição retornou à Câmara dos Deputados em 25
de maio de 2022, sob a forma de Substitutivo do Senado Federal ao Projeto de
Lei nº 4.566, de 2021, a qual é objeto de descrição neste Relatório.
*CD222347334000*
A modificação efetuada pelo Senado Federal ampliou o escopo
do texto aprovado por esta casa, que se limitava aos casos de injúria racial
cometida em locais públicos ou abertos ao público. O texto do Senado, por sua
vez, sugere as seguintes alterações legislativas:
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PRLP n.2
a) Altera a ementa para a seguinte redação: “altera a Lei nº
7.716, de 5 de janeiro de 1989 (Lei do Crime Racial), e o
Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código
Penal), para tipificar como crime de racismo a injúria racial,
prever pena de suspensão de direito em caso de racismo
praticado no contexto de atividade esportiva ou artística e
prever pena para o racismo religioso e recreativo e para o
praticado por funcionário público”;
b) Retira do Código Penal e inclui, na Lei nº 7.716/1989 (Lei do
Crime Racial), o crime de injúria racial (em razão de raça,
cor, etnia ou procedência nacional), cominando uma pena
de reclusão, de 02 (dois) a 05 (cinco) anos, e multa, pena
essa que será aumentada de metade se o crime for
cometido mediante o concurso de duas ou mais pessoas;
c) Inclui, no § 2º do art. 20 da Lei n. 7.716/1989, uma
qualificadora para o crime de racismo cometido por
intermédio de publicação em redes sociais ou da rede
mundial de computadores, cominando uma pena de
reclusão, de 02 (dois) a 05 (cinco) anos, e multa;
d) Inclui qualificadora no art. 20 da Lei n. 7.716/1989
(racismo), para o caso de o crime ter sido cometido no
contexto de atividades esportivas, religiosas, artísticas ou
culturais destinadas ao público, cominando uma pena de
reclusão, de 02 (dois) a 05 (cinco) anos, e proibição de
frequência, por 3 (três) anos, a locais destinados a práticas
esportivas, artísticas ou culturais destinadas ao público,
*CD222347334000*
conforme o caso;
e) Tipifica, como crime de racismo, a conduta de obstar,
impedir ou empregar violência contra quaisquer
manifestações ou práticas religiosas;
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PRLP n.2
f) Cria causa de aumento de pena para todos os crimes
previstos na Lei n. 7.716/1989, quando ocorrerem em
contexto ou com intuito de descontração, diversão ou
recreação;
g) Cria causa de aumento de pena para os crimes de injúria
racial e de racismo praticados por funcionário público;
h) Insere uma regra de interpretação na Lei n. 7.716/1989,
dispondo que “na interpretação desta Lei, o juiz deve
considerar como discriminatória qualquer atitude ou
tratamento dado à pessoa ou a grupos minoritários que
cause constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou
exposição indevida, e que usualmente não se dispensaria a
outros grupos em razão da cor, etnia, religião ou
procedência”;
i) Estabelece que, em todos os atos processuais, cíveis e
criminais, a vítima dos crimes de racismo deverá estar
acompanhada de advogado ou defensor público.
No seu retorno à Câmara dos Deputados, para apreciação das
modificações aprovadas no Senado Federal, a matéria foi distribuída à
Comissão de Direitos Humanos e Minorias e à Comissão de Constituição e
Justiça e de Cidadania, para exame da constitucionalidade, juridicidade,
técnica legislativa e mérito, sob regime de tramitação de urgência, sujeita à
apreciação do Plenário.
Designado relator de Plenário, incumbe-me proceder à
*CD222347334000*
manifestação perante este colegiado.
É o relatório.
II – VOTO DO RELATOR
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PRLP n.2
Compete-nos proferir parecer quanto aos aspectos de
constitucionalidade, juridicidade, técnica legislativa, e quanto mérito do
Substitutivo em exame.
Sob o enfoque da constitucionalidade formal, a proposição
não apresenta vícios, porquanto observadas as disposições constitucionais
pertinentes à competência da União para legislar sobre a matéria (art. 22, I), do
Congresso Nacional para apreciá-la (art. 48) e à iniciativa parlamentar (art. 61).
No tocante à constitucionalidade material, inexistem
discrepâncias entre os conteúdos das emendas e a Constituição Federal.
Quanto à juridicidade, o Substitutivo não apresenta vícios sob
os prismas da inovação, efetividade, coercitividade e generalidade, bem como
se consubstancia na espécie normativa adequada.
Em relação à técnica legislativa, entendemos que a
proposição está de acordo com o que dispõe a Lei Complementar nº 95, de
1998.
No que tange ao mérito, o Substitutivo oriundo do Senado
Federal contempla medidas consentâneas com o objetivo de reprimir o racismo
e, por isso, merece aprovação.
Ressalte-se que, no mesmo dia em que essa matéria foi
aprovada na Câmara dos Deputados, a Comissão de Juristas destinada a
avaliar e propor estratégias normativas com vistas ao aperfeiçoamento da
legislação de combate ao racismo estrutural no país, instituída no âmbito
desta Casa Legislativa e composta por eminentes juristas, apresentou o
seu Relatório Final com diversas sugestões legislativas.
Participaram dessa Comissão o Ministro Benedito Gonçalves,
do Superior Tribunal de Justiça, Dr. João Benedito da Silva, Dra. Maria Ivatônia
*CD222347334000*
Barbosa dos Santos, Dr. Silvio Luiz de Almeida, Dr. Adilson Moreira, Dra. Ana
Claudia Farranha Santana, Dr. André Costa, Dr. André Luiz Nicolitt, Dra. Chiara
Ramos, Dr. Cleifson Dias Pereira, Dra. Dora Lúcia de Lima Bertulio, Dra.
Elisiane Santos, Dr. Fábio Francisco Esteves, Dr. José Vicente, Dra. Karen
Luise Vilanova Batista de Souza, Dra. Lívia Casseres, Dra. Lívia Santana e
Sant’anna Vaz, Dra. Rita Cristina de Oliveira e Dra. Thula Rafaela de Oliveira
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PRLP n.2
Pires. Também contribuiu para os trabalhos dessa Comissão o professor
Edvaldo Pereira de Brito.
E foi justamente nessas sugestões apresentadas que o
Senado se baseou para propor o Substitutivo ora em análise. Quanto às
alterações em si, consta do Relatório da Comissão de Juristas as seguintes
justificativas, com as quais concordamos integralmente:
“Intervenções na Lei 7716/89
O primeiro ajuste consiste em trazer para o âmbito da lei de
racismo (Lei 7716/89) as ofensas à dignidade e ao decoro, até
então previstas no art. 140 do Código Penal. A mudança
proposta tem por desiderato colocar fim a celeuma quanto a
natureza do crime e a incidência da imprescritibilidade
constitucional.
Dogmaticamente não se tem dúvida que a chamada ‘injúria
racial’, apesar de prevista originalmente no código penal, surgiu
no ceio de legislação antirracista que regulamentava o
comando constitucional. Isto é, a Lei 9459/1997 alterou os arts.
1º e 20 da Lei nº 7.716/1989, que define os crimes resultantes
de preconceito de raça ou de cor, e acrescentou o parágrafo ao
art. 140 do Decreto-lei nº 2.848/1940. Com efeito, sua topologia
e sua teleologia estavam insertas na resposta penal do Estado
brasileiro ao racismo. Não poderia sofrer tratamento distinto
daquele indicado pelo texto constitucional.
A controvérsia foi tamanha que acabou por ser levada ao STF
que colocou um ponto linear na controvérsia. Assim, com vistas
ao aperfeiçoamento e sistematização da legislação, melhor que
a atividade legislativa coloque um ponto final na questão,
sendo de todo conveniente, inclusive, que isso ocorra pelo
próprio Parlamento com sua legitimidade incontestável de
legislar.
Racismo no esporte e em espetáculos
A segunda proposição preocupa-se com o racismo esportivo. O
Brasil e o mundo têm testemunhado cenas lamentáveis de
hostilização de atletas com inferiorização expressada por
*CD222347334000*
palavras, cantos, gestos, remessas de objetos (como banana),
etc. Não é diferente também ocorrências em espetáculos
culturais, artísticos e religiosos.
Neste particular, a resposta penal apresenta pena de
suspensão de direito, cuja experiência apresenta bons
resultados no âmbito da legislação de trânsito e também na
experiência de alguns juizados especiais criminais, inclusive
aqueles instalados nos estádios, como o chamado ‘juizado do
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PRLP n.2
torcedor’, instituído pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio
de Janeiro.
Racismo religioso
Outro tema de intensa atualidade, que se entendeu por bem a
introdução de tratamento penal, diz respeito ao racismo
religioso.
[...]
Com efeito, o racismo religioso constitui-se como uma das
graves interfaces do racismo à brasileira que assume caráter
ubíquo e fluido, interseccionando-se com outros mecanismos
de opressão. Desse modo, figura-se imprescindível que a
legislação penal dê resposta à intolerância religiosa.
Racismo recreativo
Não escapou do trabalho a preocupação com uma forma de
racismo que além de causar danos a saúde mental,
humilhação e sofrimento, não raro é um subterfugio retórico
para a impunidade relativamente a atitudes racistas.
O racismo recreativo consiste em um tipo específico de
opressão racial. Trata-se da circulação de imagens
derrogatórias que expressam desprezo por minorias raciais na
forma de humor, de modo a comprometer o status cultural e o
status material dos membros desses grupos. Essa prática de
marginalização tem o mesmo objetivo de outras formas de
racismo, a saber: legitimar hierarquias raciais presentes na
sociedade brasileira de modo que oportunidades sociais
permaneçam nas mãos de pessoas brancas. Essencialmente,
o racismo recreativo não se diferencia de outros tipos de
racismo, embora tenha uma característica especial: o uso do
humor para expressar hostilidade racial, estratégia que permite
a perpetuação do racismo, mas que protege a imagem social
de pessoas brancas.
[...]
Para dar resposta a essa violência psicológica que causa
danos à saúde mental das pessoas negras, destacadamente a
baixa autoestima de crianças e jovens, propõe-se o racismo
recreativo como causa de aumento dos crimes de racismo.
*CD222347334000*
Causa de aumento para agentes públicos
Houve, de igual modo, a preocupação com o racismo que exala
de agentes públicos, que na contramão do espírito republicano,
se valem da coisa pública para destilar ódio, preconceito e
discriminação, para o que se propõe, igualmente, uma causa
de aumento da pena para os crimes do art. 20 e seus
parágrafos.
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PRLP n.2
Regra de interpretação
Por fim, expressou-se a necessidade de uma proposta de
interpretação que auxilie uma justiça antirracista possibilitando
a formação de uma hermenêutica disruptiva.
[...]
Assistência Judiciária
Derradeiramente, a exemplo da boa experiência trazida pelo
art. 27 da Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), propõe-se a
obrigatoriedade de assistência judiciária para as pessoas
vítimas dos crimes de racismo.”
Tais propostas, conforme enfatizado pela própria Comissão de
Juristas, têm o escopo de “conferir maior efetividade ao desejo constitucional
de combate ao racismo pela via do direito penal” e, por esse motivo, não
temos dúvida de que devem ser aprovadas.
Ante o exposto, no âmbito da Comissão de Direitos Humanos e
Minorias, somos pela APROVAÇÃO das alterações efetuadas na matéria
constantes do Substitutivo do Senado Federal ao Projeto de Lei nº 4.566, de
2021.
Pela Comissão de Constituição, Justiça e de Cidadania
(CCJC), somos pela constitucionalidade, juridicidade e boa técnica
legislativa e, no que tange ao mérito, somos pela APROVAÇÃO do
Substitutivo do Senado Federal ao Projeto de Lei nº 4.566, de 2021.
Sala das Sessões, em de de 2022.
Deputado ANTONIO BRITO
*CD222347334000*
Relator
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