Boas Maneiras Título original: Boas Maneiras. Copyright © 2022 L.
S
Englantine.
Texto de acordo com as novas regras ortográficas da Língua Portuguesa. 1ª
edição 2022. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte dessa obra pode
ser reproduzida ou usada de qualquer maneira ou por qualquer meio,
eletrônico ou físico, inclusive fotocópias, gravações, ou sistema de
armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, com exceção
de citações curtas utilizadas em resenhas críticas, artigos ou divulgação em
mídias sociais. Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, localidades
e acontecimentos históricos e/ou atuais retratados neste romance são
produtos da imaginação da autora e utilizados de modo fictício, sem
qualquer referência à realidade. Direito de imagem à Plataforma Digital
Canva.
Revisão: Raianne Viana.
Leitura Sensível: Mary Dionisio.
Diagramação: Lara Silva.
Capa: Andresa Rios.
Arte: Ana Paula Artes (@anarte.p) Para a pessoa que quebrou meu coração
em 2014, querendo ou não, hoje cada pedacinho dele virou arte.
playlist:
Seu Jorge — Miley Cyrus — Rita Lee — Bikini Kill — The Runaways —
Clarissa — e mais!
Tudo na playlist oficial de “Boas Maneiras” no Spotify!
Procure por “Boas Maneiras Para Boas Garotas”
ilustração:
notas:
Saudações!
Este é um livro tão especial para mim!
Ele simplesmente apareceu do nada na minha mente e quis ser escrito, custe
o que custasse, o que combina perfeitamente com as nossas protagonistas.
Antes de iniciar a leitura, você precisa saber que, apesar da capa enganar,
esta é uma obra de ficção contemporânea, classificada como new adult e
de classificação +16!
Há palavreado chulo, consumo de bebidas, insinuação à violência, além
de cenas de sexo gráficas.
BM também contém com a indicativa de histórias reais sobre inundações,
categorizadas aqui por meio dos personagens. É um livro que passou por
preparação e leitura sensível!
Em suma, espero que gostem deste mais novo romance e que apreciem o
mais novo casal do Tineverso!
Boa leitura!
Prólogo
“Não sirvo para obedecer Mas depende de quem manda.”
Flores & Obediência — Canção de Liz Salles O amassado indelicado na
minha saia de alfaiataria me incomoda como nunca antes algo me
importunou na vida. Exagero, eu sei, mas é o que sinto.
De repente, tudo aquilo o que aprendi sobre boas maneiras e etiquetas foi
para o ralo. Não me lembro de como é andar em linha reta, sem tropeçar ou
desequilibrar. Esqueci como se sorri e como se acena.
Sei que existe uma porção de regras que devemos seguir quando estamos de
frente para pessoas importantes, mas deveria ser mais fácil me lembrar de
cada uma delas se fosse possível.
Nada aqui faz muito sentido para mim e, para completar, sei listar todos os
defeitos do meu visual. Desde que saí do carro, atravessei o corredor
principal e me sentei nesta cadeira de madeira caríssima — e que deve custar
mais do que o meu apartamento inteiro.
E, simplesmente, não consigo tirar da cabeça que não estou nada
apresentável.
O meu sapato de salto médio é muito retangular na ponta, mas foi o único
par sofisticado que encontrei no armário da minha mãe, da época em que
panfletava livros de economia de porta em porta, durante o dia todo, fizesse
chuva ou sol.
A sola está bem gasta agora, a cor se mantém fora de moda e aperta bem no
meu tornozelo, mas é o que posso oferecer neste momento tão importante.
Se ela quer me conhecer, que saiba que não me emperitiquetei toda.
Meus cabelos não acordaram no melhor dia, e posso apostar que o chuvisco
de hoje mais cedo contribuiu para que os fios ficassem ainda mais ariscos.
Não me importo muito sobre este último detalhe, mas errei o tom de base da
minha maquiagem, e com a luz forte que vem dos refletores profissionais é
muito perceptível que a base destoa toda a cor da minha pele.
Estou pálida, com os olhos arregalados, declaradamente acuada. E com o
tom deslocado, é pior ainda.
Desde as olheiras que continuam expostas ao elo quebradiço na ponta do
meu queixo, que me avisa que o produto passou da validade há tempos.
Mas nada mais importa agora, porque estou aqui, não é?
Compareci e fiz jus ao convite.
Sou uma cidadã que será reconhecida. Ponto final.
Só preciso aguardar, em silêncio, esbanjando toda a paciência que devo ter:
presa dentro de uma sala, sozinha, esperando. Pelo o quê? Não sei,
exatamente. Minha irmã e eu fomos separadas, disseram que ela me
encontraria quando tudo estivesse resolvido.
Se me falassem que eu, Ária Campos, conheceria a filha do prefeito da
minha cidade em apenas uma semana após postar aquele vídeo, jamais
acreditaria.
Ou teria postado o vídeo antes, é claro.
1
“Tudo o que há em mim, É uma falha perspectiva de você.
Fogo e água.
Tudo o que há em mim.”
Em Mim — Canção de Liz Salles Meus maiores ídolos são pessoas de
décadas diferentes.
Rita Lee, dos anos 70. Cyndi Lauper, dos anos 80. Liz Salles, dos anos 90.
Lady Gaga dos anos a partir de 2010 — contando com o “The Fame” e “The
Fame Monster” — e Miley Cyrus, depois da Disney Channel. E as cinco, no
fundo, completam o meu estilo musical e quem quero ser.
Ser, talvez, uma cantora melancólica que influencie outras pessoas a verem
certa beleza na tristeza cantada ou apenas alguém a inspirar uma pasta no
Pinterest, escrito “Young Ária Campos Aesthetic” no futuro.
Mas o que eu sei é que, assim como elas em algum momento de suas vidas
de artista, cheguei ao meu limite da desesperança.
— Valeu, pessoal! — falo perto do microfone, sentindo o peso do violão me
puxar para baixo.
O dono da banca de jornal, alguns idosos que jogam dominó e poucos
estudantes que passam pela praça me aplaudem, causando um alvoroço entre
os pombos ao meu redor.
Ao menos, recebo certo apoio.
Meu tempo acabou, de qualquer forma. Retiro o violão de perto do pescoço
e confiro quantos trocados consegui com meus covers de Lana Del Rey desta
tarde.
Dois reais e noventa centavos, o suficiente para comprar um cafezinho na
esquina. Ok, é bom.
Recolho os meus equipamentos, fecho o violão dentro da capa e passo na
banca de jornal. Fiz um acordo com o Seu Pires; se eu tocar Tim Maia toda
quarta-feira, as revistas de fofoca e os jornais são de graça.
— Eu ainda vou te ver na TV, garota — salienta ele, me dando um gibi da
“Turma da Mônica” de cortesia — Vai ser famosa que nem essa gente. Será
uma das grandes!
— A TV não faz o meu estilo. — Abraço os jornais para perto do meu busto.
— Quem sabe no teatro?
— Estarei lá — promete, sorrindo. — Na primeira fila!
Devolvo o gesto carinhoso com um sorriso, agradeço pela prestação do
acordo mais fácil que já tive em toda a minha vida e sigo para casa em linha
reta. Seu Pires acompanha o meu andar, declarando a todos os ventos que é
para acreditar nele.
De volta para casa, é o que consigo pensar; a fama não me apetece como um
todo, ser reconhecida já é o suficiente. Atravesso a rua mais movimentada do
bairro e viro na próxima esquina. Não demora nem cinco minutos até
encontrar a fachada desbotada do bar musical que a minha família é dona.
Entro no bar sem cerimônias, procurando por alguém conhecido.
Deixo meus instrumentos no hall principal, apoio os jornais na entrada dos
correios e me preparo para mais uma porção de trabalho braçal até anoitecer.
— E aí, galera.
Cruzo o salão às pressas, acenando para os poucos funcionários que já estão
aqui.
— Oi, Ária! — retrucam em um coro de vozes desiguais.
A música de Gilberto Gil entoa boa parte do Clube 148, acompanhando cada
membro da pequena equipe em suas tarefas; meu pai limpa as grandes
canecas de cerveja com um pano úmido e novo; minha mãe varre o chão da
pista de dança principal, e eu pretendo manter a mesa do DJ organizada.
— Cheguei — anuncio o óbvio aos meus pais, desviando de dois
funcionários que trazem um arco de flores brancas para a entrada do clube.
— Muita plateia? — meu pai pergunta de trás do mezanino, atencioso.
— Os pombos de sempre. — Sorrio, prendendo meus cabelos em um rabo
de cavalo e já na procura de um avental. — Mas consegui dinheiro para um
cafezinho.
Reinaldo sorri.
— Justo. — E com um acenar de queixo, aprova o arco e as flores.
Hoje à noite, uma noiva vinda de Milão comemorará sua despedida de
solteiro bem aqui. Exigiu karaokê livre, tequila liberada, decoração temática
de piratas e perguntou se poderíamos oferecer uma banda de covers à sua
disposição. Só não fechou o bar porque disse que festejar ao lado de
estranhos é bem mais divertido do que se enfurnar em uma balada com as
mesmas pessoas de sempre.
Sigo para a mesa do DJ.
— Onde você estava?
Atrás de mim, minha irmã, Lilian, ergue um papel amassado, que fora
impresso de maneira tão desleixada que há tinta preta por toda a parte.
Marcas de dedos também preenchem as laterais da folha. Sem me importar
em lhe dar satisfação, volto a focar em limpar cada botão melecado do painel
de música.
— Cantando.
Retiro um punhado de farelos de Doritos entre as teclas da mesa de som e
torço o nariz.
— Nem sei por que perguntei — desconversa. — Enfim, a noiva de hoje
passou a setlist.
Indico o papel com o queixo.
— Que merda aconteceu aqui?
— Pedi uma única tarefa pro nosso pai — responde, um pouco impaciente.
— Você consegue cantar tudo isso? Ela, a noiva, disse que essas são as
músicas favoritas dela, e como hoje é Noite do Pop e dos piratas...
Há uma pré-seleção de todas as músicas que a banda dos funcionários
precisa estudar antes de subir ao palco. Nós não temos um nome adequado
ou uma marca, é apenas trabalho em grupo.
Sem retirar a minha mão dos equipamentos que o DJ
precisará hoje à noite, leio em voz baixa o que a noiva de hoje escolheu. Há
Camila Cabello, Taylor Swift, Miley Cyrus, Dolly Parton, Anitta, Lexa, Ana
Carolina e termina com uma música lenta da Maria Gadú. Ao todo, não é
nada complicado.
— Coisa fácil — digo, piscando na sua direção. Lilian sorri aliviada. — Só
preciso que os vocais mudem entre Taylor e Maria Gadú, porque uma não
tem nada a ver com a outra. Mas damos um jeito.
Lilian, que é a única pessoa na família que não parece ter muita paciência
para o bar musical, ao menos tenta ser simpática.
No fundo, bem lá no fundo de seu peludo coração, ela gosta daqui, mas o
que consegue transparecer é um desprezo incorrigível que a afasta aos
poucos de todos nós.
Às vezes, a pego analisando cada milímetro do bar com o nariz contorcido
de nojo. E não posso culpá-la, de vez em quando é deprimente. As paredes
estão descascadas, o som é velho e congestionado, o piso range, as janelas
estão caindo aos pedaços e o bar ainda possui uma decoração ultrapassada de
uma era pin-up que nem meus pais gostam.
Porém, o negócio da família tem sorte.
Com tantos bêbados e obcecados por música que passam aqui todo santo dia,
é difícil repararem nesses detalhes. Minha mãe sempre diz que manter o
banheiro sem baratas e os copos limpos é a receita perfeita para garantirmos
mais de quatro estrelas no Google. Mas nós, as pessoas que trabalham aqui
de dia, sem a luz neon por perto e sem bebermos uma gota de álcool,
sabemos o quanto o Clube 148 possui mais defeitos do que qualidades.
Apesar de amplo, bem frequentado e manter uma clientela fiel nos últimos
sete anos, há tantas dívidas por metro quadrado que meus pais mal
conseguem desfrutar dos lucros que deveriam ser bons. Lilian tem a teoria
que deveríamos ser ricos se não fosse o mau empreendedorismo, mas é mais
uma de suas falas que não devemos levar a sério.
— Terminei — aviso. Checo o painel pela última vez.
Milagrosamente encontro um avental e o amarro ao redor da cintura.
Antes da casa abrir e antes da noiva chegar, trabalharei no bar. — Vou tirar
uma pausa antes de treinar drinques novos com o papai, e aí posso dar uma
treinada na setlist. Ok?
Ela dá de ombros, porque não sabe o que responder.
Lilian, que é apenas um ano mais velha do que eu, morde os lábios, não me
dando passagem. Continua parada lá, segurando a setlist entre os dedos
enrugados de tanto lavar pratos e mordendo a pontinha do lábio inferior
ressecado. Seu cabelo cacheado idêntico ao meu está preso em um rabo de
cavalo sem graça que não a valoriza, definitivamente.
Somos bem parecidas. O mesmo tom de pele negra-clara, o mesmo nariz
curvado e achatado, mas não temos os mesmos olhos.
Lili herdou o verde-escuro de nosso pai, e eu o castanho-claro da mamãe.
— Pode me dar cobertura hoje? — questiona, sustentando a voz em um tom
baixo. É tão baixo que preciso me aproximar um pouco para ouvir melhor.
Como a minha testa se franze, Lili entende a minha entonação da maneira
errada. — Qual é, Ari, você me ouviu muito bem!
— Não, não ouvi. — Suspendo as minhas sobrancelhas. — O
que você disse?
Bem atrás de nós, não muito longe, nossos pais conversam sobre o clima.
Em dias instáveis como hoje, o tempo acaba sendo um terrível problema. Se
chover, precisaremos encerrar a despedida de solteiro mais cedo; há goteiras
espalhadas pelo clube inteiro.
Contudo, se a noite for estrelada, sem nuvens ameaçadoras no céu,
poderemos respirar aliviados até o mês seguinte.
Com a bagatela que a moça de Milão nos pagará, é uma garantia de que não
precisaremos trabalhar tanto assim pelos próximos dias.
É uma oportunidade de respirar e descansar, finalmente.
Quem sabe role a chance de pegar uma praia no final de semana.
— Vem. — Insegura, Lili segura a minha mão, me conduzindo para dentro
das coxias do palco.
A poeira que sobe a cada passo me atiça uma vontade incontrolável de
espirrar, mas me seguro, segurando o nariz entre os dedos.
Lili me conduz até o escritório da nossa mãe, o único equipado com
computador e impressora.
Sozinhas, assisto Lilian fechar a porta e cruzar os braços, soltando o ar do
corpo. O uniforme do bar também é velho e apertado, acentua nossas curvas
em lugares desnecessários. É
antigo, não tem identidade própria e não é nada moderno. O logo do clube
está desbotado, mas não há como mandarmos fazer outro. Ou consertamos o
teto ou saímos por aí como ícones fashion, os dois não dá.
— A noiva — diz, enfim. — Eu a conheço.
— Sério? — Me interesso genuinamente pelo assunto. — E
será que você consegue convencê-la a trocar o repertório da Dolly Parton por
outro? Eu sinceramente só conheço “Jolene”. Eu sei, eu sei, sou péssima em
conhecer apenas essa música, mas duvido que uma pessoa queira ouvir
apenas uma música de uma cantora e...
Lilian aperta os lábios um no outro, insatisfeita ao me ouvir tagarelar sem
parar. Somente paro de falar quando reparo que talvez a pauta mega
importante não seja essa.
— Não, não, não vou pedir nada para ela — entoa. — O que eu quero dizer,
é que... — Leva um tempo pensando. Enruga os lábios, divide o peso entre
as pernas e sacode os braços. — O nome dela é Lorena. É a pessoa mais
insuportável que eu já conheci. Eu...
Simplesmente não posso trabalhar aqui. Não... Posso.
— Pensei que a noiva fosse de Milão.
— E isso muda alguma coisa, Ária?
Olho para o teto ao refletir; uma lagartixa miúda está perto de uma das
lâmpadas quebradas e parece me encarar também.
— Ela me disse, ao telefone, que veio de lá, e eu tenho certeza que você
nunca colocou seus pés em Milão — rebato, analisando seu rosto bonito
ganhar ainda mais rugas.
— Não faz diferença... Não vou trabalhar aqui hoje — define.
— Não para ela!
Há tantos problemas hediondos e enormes dançando tango no bar da família
que é impossível não ficar irritada com a sua afirmação. Primeiro de tudo,
nós funcionamos com a casa cheia quase todos os finais de semana, e o
grupo de garçons que temos aqui quase não é páreo para os clientes. Sem
Lilian como garçonete, é premeditar mais uma noite de estresse, de
xingamentos e de brigas gratuitas.
E se eu tiver que resolver mais uma merda dela envolvendo pedidos mal
anotados ou comandas com acréscimo de consumo, é capaz que meus pais
tenham que se despedir de Lilian e se contentarem com apenas uma filha —
eu.
Atender o público nunca é fácil, e se torna ainda mais intolerável quando Lili
decide que não é boa o bastante para cooperar.
— Sério, como você pode conhecer uma pessoa de Milão?
— Meu Deus — sopra. — Que diferença faz?
— Não sei, fiquei curiosa.
— Lorena é o que é — Lilian resume, de muito mau-humor. — Estudou
comigo, depois saiu do país. Encontrou um gringo... A mesma história de
sempre. Garotas ricas encontram garotos ricos, se casam, têm filhos, essas
ladainhas de romance internacional.
— E... Ela é tão ruim assim quanto você está fazendo parecer?
— Sei lá — comenta. — Ela bebe suco de cranberry, isso já diz muita coisa.
— Quem bebe suco de cranberry?
— Exatamente!
É quase um momento de pura sanidade entre nós. Quase, porque Lilian não
consegue sorrir nem quando a situação pede por uma risadinha.
— Enfim... — diz, me olhando de baixo para cima. — Vai ou não vai me
ajudar? Não quero estar aqui quando ela chegar.
Então lembro que, mesmo com vontade de rir, ainda estamos falando sobre
algo muito sério. Ou dentro de um nível mediano de seriedade. Sendo amiga,
ex-amiga ou inimiga de Lilian, não dou a mínima para nada.
— Vou fingir que não escutei. — Sorrio, avançando em direção à porta. —
Essa tal de Lorena não paga as suas contas.
Aliás, nem você paga suas contas, Lilian — completo. — O que ela tem a
ver com o seu emprego?
— Nós estudamos juntas — responde, com os lábios tão unidos de raiva que
mal se mexem. — Não quero ser garçonete dela por uma noite inteira!
— Antes ou depois dela ir para Milão? — debocho. Ouço sua respiração
pesar. — Lilian, é simples. Teremos um milhão de clientes daqui a pouco,
ela não é a única. Sei lá... Adota um freguês e fica em cima dele a noite toda
— sugiro. — Essa noiva que, por um acaso, se chama Lorena, é a maior
cliente que temos em meses! Nós... — Respiro fundo. — Nós precisamos de
você aqui.
Não somos pobres, mas temos inúmeros problemas financeiros. Talvez
sejamos bem mais desafortunados do que pensamos, mas a vida estudantil
para Lilian foi bem mais complexa do que sei definir. Éramos de um colégio
de elite. Nossos pais pagavam mensalidades altíssimas até frequentarmos a
sexta série, e, um semestre depois, tudo decaiu de verdade. Foi quando
precisamos nos tornar bolsistas.
Para Lilian foi o fim da picada, mas não se deixe enganar, minha irmã
conseguiu não pontuar o mérito de ser bolsista para amigas. Escondia com
facilidade sua real condição financeira, até se formar.
Trabalhar aos finais de semana enquanto o resto de suas amigas
endinheiradas gastavam por aí foi complemento para seu inferno astral. E eu
até que entendo. É lógico que gostaria de estar focando na minha arte, na
atuação e no meu tempo para voltar para a faculdade de música, mas não
tem como eu continuar acreditando em uma fantasia inalcançável ou em
contos de fadas supérfluos.
Simplesmente nada acontece.
E é impossível que aconteça.
— Bom... — Aperta ainda mais seus braços contra o busto. — Não vai dar,
Ária. Me recuso a trabalhar aqui esta noite. — Lilian umedece os lábios e me
fita, as íris faiscando de irritação. — Pensei que você me entenderia.
E entendo, mas de um outro jeito.
Faz pouco mais de um ano que desisti de controlar, conversar, debater ou
convencer Lilian dos meus ideais. Então, aprendi a lidar.
Mais uma noite longa e complicada se aproxima, se minha irmã quer bancar
a herdeira mimada de um bar falido, que banque. Se colocará o dedo numa
tomada, que tome choque. Se tem a pretensão de amarrar-se em um canhão,
que exploda junto à bomba.
— Faça o que quiser — é a minha resposta final. Com ela, há cansaço
também, mas não faz mais sentido gastar saliva, não quando todos os
resultados foram negativos até hoje. — Mas não vou te cobrir em nada. Se
os nossos pais descobrirem, é apenas uma consequência. Certo?
No passado, nós esperneávamos muito; gritávamos uma com a outra até
ficarmos roucas, nos batíamos com as nossas bonecas e já cheguei a cortar o
cabelo dela uma vez — tínhamos seis e sete anos —, mas de vez em quando,
confesso, sinto vontade de agir feito criança também.
Um ano a mais, trezentos e sessenta e cinco dias de diferença, não garantem
mais maturidade a ela. Não mesmo.
Lilian, enfim, bufa. Consigo detectar que ainda havia um pingo de esperança
de que eu fosse complacente com seu mais novo ataque de estrelismo. Se
estivesse de bom humor, minha irmã se apossaria do teclado e me ajudaria
nos arranjos mais românticos da Miley Cyrus, mas não há santo, Cristo ou
dinheiro que a faça mudar de ideia.
Assim como odeia o clube e sua “miserável vida”, Lilian também detesta a
música. Ou as artes de um modo geral, mas é uma ótima atriz melodramática
quando quer.
— Certo — concorda comigo, depois de bons segundos em total silêncio.
Com raiva, destranca a porta e acrescenta: — E vai se foder, Ária.
Sua saída carregada de cinismo é acompanhada com o estrondo da porta
contra o batente.
Continuo plantada no mesmo lugar, rindo de desespero, sentindo a amargura
deste momento consumir os meus ossos aos poucos. Se eu não estivesse tão
acostumada a lidar com alguém como Lilian, já teria começado a chorar. É
difícil algo me abalar tanto ao ponto de derramar algumas lágrimas. Afinal,
trabalho com o público.
Geralmente, choro de emoção, de alegria ou de tristeza. Mas não de raiva.
Não posso dar esse gostinho a ela — e a mais ninguém.
Com o baque desproporcional da porta, alguns quadros antigos da parede
feita de gesso de última categoria caem. Por sorte, o vidro de proteção se
mantém intacto, mas dois ou quatro moldes das pinturas estão no chão agora.
Fito a lagartixa no teto, cansada.
Sem Lilian por perto, reparo como a rua da frente é barulhenta. O escritório
da minha mãe é muito mal posicionado perto de um beco sem saída, onde
transaciona a saída de uma pizzaria e de uma tabacaria. Viver em São
Palomane é um choque de cultura tremendo.
Me agacho com cuidado, arrastando-me pelo piso empoeirado. Adiciono
uma nota mental para varrer o ambiente como tarefa extra e recolho os
quadros um por um. Separo-os de acordo com tamanho e cor e começo a
recolocá-los na parede.
O primeiro não é uma pintura, é uma foto dos meus pais na terceira Lua de
Mel deles, anos e anos atrás, em Fortaleza.
Faz muito, muito tempo que meu pai não visita sua terra natal — o mesmo
lugar em que conheceu a minha mãe.
Penduro o quadro de volta, parando de pensar nos conflitos que o dinheiro
traz.
Depois de arrumar a decoração original de volta, limpo as minhas mãos no
avental surrado e decido organizar os documentos jogados na mesa de minha
mãe. Me sento na poltrona e espio a tela acesa do computador. Sorrio
nasalado ao notar que é o meu canal no YouTube, logado nele inclusive. Ele
é modesto, mas muito promissor.
Há quinhentos inscritos, todos foram conquistados com muito suor. São
“fãs” que encontraram meus covers nos confins da internet e decidiram
acompanhar o meu trabalho. O vídeo mais recente, no entanto, continua
oculto.
Lilian gravou para mim de muito mau-humor, mas conseguiu captar a
essência. É a última canção que a minha artista favorita escreveu antes de se
aposentar, nos anos 2000.
Liz Salles tinha uma melancolia expressiva e uma vontade única de viver ao
mesmo tempo. Seus exemplos musicais eram folks e indies, e se apresentava
na mesma praça que costumo ir, no mesmo ponto que o meu.
Sempre que visito a praça tenho que ficar por lá. É quase como se Liz me
abençoasse.
Apenas o consegui porque sabia que a minha cantora favorita esteve lá
também. Tive em mente que, se aquele micro lugar lhe deu visibilidade,
talvez desse para mim também. E se funcionou para ela, talvez funcionasse
para mim.
Porém, parei de acreditar em encontro de destinos e pedidos às galáxias há
muito tempo.
Ainda pensando, penso em retirar o vídeo da parte oculta.
Apesar de ainda estar infeliz com o enquadro da câmera, com a luz que faz a
minha testa brilhar e as pessoas ao meu redor não estarem com as melhores
expressões para mim, não tenho nada a perder ao publicá-lo.
Meu vídeo mais assistido contém apenas dezesseis visualizações, quem verá
algo tão ruim assim?
E, ok, sem esse papo de gratidão ou paz interior, mas fico feliz por cada uma
das visualizações. Quer dizer que, pelo menos, dezesseis pessoas tiraram um
tempinho de suas vidas para me assistir.
É surreal.
Olho para a lagartixa: ainda está lá, me olhando de volta.
Sem pensar muito, permaneço irritada com a conversa com Lilian, então
aperto o enter. A única coisa que pode me animar agora é um pouquinho de
esperança. Se eu obter dezoito visualizações neste vídeo, será um grande
avanço.
Duas pessoas a mais do que a padrão.
Talvez, desta vez, eu jogue para o universo.
Espero que ele tenha algo para me oferecer.
2
“Diga não e verá toda a razão.
Me diga sim e lhe prometo o paraíso.”
Eu e a Minha Má Sorte — Canção de Liz Salles Há algumas garrafas
vazias de cerveja até no fundo do Clube 148, o que garante que a última
noite foi boa.
O ambiente inteiro está abaixo de lixo plástico ao meio de bitucas de cigarro.
Perto das cadeiras desorganizadas, encontro pacotes de camisinha sem
camisinha. A desordem é típica de um dia comum de limpeza.
Festas temáticas ou privadas sempre são as piores de arrumar depois de uma
longa noite de comemoração, mas não tem muito o que fazer a não ser
aceitar.
Dormi apenas trinta minutos depois que decidi cochilar na despensa e já
estou de pé, pronta para retirar os farelos de salgadinho do balcão e expulsar
os gatos da vizinhança que insistem em invadir o clube logo cedo.
Passo pelo salão principal segurando um saco de lixo de sete litros, tentando
encontrar, a primeiro momento, restos de comida e bebida. Depois que você
separa o orgânico do reciclável, fica bem mais fácil coordenar tudo.
Mas como as minhas costas doem, meus olhos pesam, meus pés se
encontram inchados, é de se esperar que eu deixe este último afazer para
Lilian. Foda-se.
Da direção contrária, meu pai vem caminhando enquanto segura as contas
atrasadas de água, dos últimos dois meses.
— Conseguimos pagar? — pergunto, ficando bem perto dele.
— Ou vamos ter que suportar uma noiva vinda de Paris?
— Noivas de Paris são sempre as mais românticas, Ári — responde, sem
retirar os olhos dos documentos. — Mas sim, conseguimos sim. Só vou
reunir numa pasta, caso haja algum problema.
— Por quê? — Uso da minha falsa inocência para mudar o rumo da pauta.
— Por que noivas de Paris são as mais românticas?
Meu pai sorri, todo prestativo.
— Paris é conhecida como a cidade do amor — explica com educação e
paciência. — Dizem que quando conhecemos uma noiva que veio de lá,
podemos encontrar o amor eterno.
Assinto lentamente. Pode ser uma mentira tremenda ou pode ser uma
verdade absoluta, depende do que quer acreditar. É bem nítido para mim que
a parte mais fantástica de uma história é sempre a mais divertida do que a
racional.
— Não sei se acredito nisso — escolho dizer, desconfiada.
— Deveria, meu amor. — Ele sorri. Faz uma breve pausa, sacudindo as
contas pagas. — Vamos comemorar — anuncia. — Noite da pizza?
— Frango com catupiry — digo. — E limonada rosa.
— Limonada rosa — confirma. — Com certeza! — Pisca. — Então,
combinado. Vá lá pra cima e descanse! — Ele faz carinho no topo de minha
cabeça e bate com as contas em minha testa, sem força alguma. — E tome
um banho!
Escuto sua risada preenchendo todos os pontos silenciosos do clube em uma
manhã de sábado e me sinto aliviada. E feliz.
Contas pagas são realmente uma dádiva.
Em direção ao apartamento, encaro meu pai por cima dos ombros. Ele sorri
para mim, feliz em deixar as contas em dia e satisfeito por termos fechado
negócio com a tal Lorena.
Foi uma ótima festa, até os funcionários se divertiram.
Comemos à vontade também e pude cantar uma música de Liz Salles quando
todos estavam caídos de cansaço, sem energia para me mandarem calar a
boca.
E mesmo que meu pai não esteja tão exausto assim de trabalhar, não
deveríamos colocar nossa saúde em último plano
apenas para termos uma vida consideravelmente boa ou razoável.
Há pessoas que trabalham menos do que nós e possuem mil vezes mais
condições.
É tão injusto, mas tão centralizado na minha família, que apenas decido
seguir com mais um dia comum para todos nós.
Um final de semana sem abrir o clube custa caro demais. Até no descanso
perdemos dinheiro.
Um dinheiro que nem ao menos temos.
Fora do banho, almoçando um dos meus sabores favoritos de macarrão
instantâneo, me aconchego em uma cadeira para conferir os meus últimos e-
mails. Faço uma grana extra oferecendo e criando jingles para empresas
pequenas da região, ajuda a custear minhas viagens de bate e volta para São
Paulo e instrumentos para a banda do clube, mas não é muito.
A última das músicas foi um conceito para uma clínica de odontologia do
centro, que me pagou quase quinhentos reais para rimar escovar com carear.
Daqui consigo ouvir minha mãe batendo as panelas para fazer o almoço de
seu próprio apartamento, já que somos vizinhas de parede. Também ouço o
baterista da banda treinar um dos solos que apresentará hoje à noite, já que é
o Dia do Rock. Metaleiros e motoqueiros tem cinquenta por cento de
desconto no consumo final.
É um grande sucesso, então exige ainda mais energia de mim.
Também checo as fotos que a noiva de ontem nos marcou, agradecendo por
sediarmos sua despedida de solteiro.
Ainda que a minha parede esteja tremendo pelo som da bateria e a rua
movimentada não me dê sossego, consigo um pouco de silêncio mental ao
analisar online a vida da cliente de ontem.
Depois de uma longa festa, ela já está no aeroporto da cidade, com o
passaporte na mão, óculos de sol no rosto, pronta para sair do continente,
vivendo a vida que os deuses desejam a todos.
Aprendi a lidar com a inveja ignorando a minha irmã, Lilian.
Mas de vez em quando, esta emoção aparece.
Com vinte e um anos, é claro que sinto que as demais pessoas que conheço
vivem bem mais do que eu. Que todas as minhas colegas de turma da escola
se deram melhor do que eu. Elas podem viajar, trabalhar, namorar, ser o que
quiserem e ainda terão tempo de não fazer nada.
Não conheço Lorena ou sua vida, mas queria um dia ou uma semana de
folga, sem pensar em como pagarei as minhas contas no final do mês.
Apenas viver, sem pensar muito sobre o dia de amanhã.
Como arcarei com as despesas? Não sei, depois penso nisso, porque estarei
mergulhando em alguma praia da Grécia.
Problemas e resoluções seriam pautas bem distantes.
Depois de vasculhar fotos de sua última viagem, fecho o perfil da noiva, me
recostando no meu sofá de dois lugares, tomando cuidado com a toalha
enrolada na minha cabeça.
Volto a checar meus e-mails; tem um convite para um processo seletivo para
interpretar a Bela, de a “A Bela e a Fera”, em um teatro infantil em um
bairro no subúrbio daqui. Pagará cinquenta reais a hora e preciso me
locomover até lá, sem vale transporte, mas com um vale mixuruca de
refeição, de apenas quinze reais.
Próximo.
Vaga em um teatro independente, sem pagamento, sem benefícios, apenas
experiência para o currículo.
Próximo.
Atriz de musical para uma produção grande, de uma peça conceituada que
fez sucesso no sul do país e que agora chegou ao sudeste. Precisam de
garotas altas, que cantam há pelo menos dez anos, com definições próprias
de carreira e que possuam bons números de seguidores nas plataformas de
digitais, para as demais avaliações finais.
É uma boa chamada, uma boa oportunidade, mas já consigo ver o “não”
brilhando em vermelho-neon para mim. Então, hum, não, obrigada.
Próximo.
O último e-mail é apenas o primeiro de uma fileira de quinze outras
mensagens idênticas. É de uma pessoa chamada Rita, correspondente da
revista Louise Lou. Acima de seu e-mail, outras pessoas da mesma revista
querem entrar em contato comigo. O
“urgente” do assunto principal me enche de aflição.
Deixo a tigela com o macarrão na mesa de centro, ao lado dos discos que
roubei do meu pai na semana passada.
Apoio melhor o meu notebook no centro e me sento no chão, de frente para a
mesa. Abro o primeiro deles, o de Rita.
“Olá, Ária Campos Tudo bem?
A revista Louise Lou está muito interessada em ter uma exclusiva com você!
Hoje de manhã, seu vídeo mais recente nos chamou a atenção. O cover de
Liz Salles é realmente um achado e tanto.
Queremos saber tudo por trás do vídeo; quem é você; onde esteve esse
tempo todo; e o que há de tão especial em sua voz que chamou a atenção de
uma figura pública tão reservada.
Será possível nos colocar na sua agenda?
Aguardo retorno, Rita Van Dute, Editora-chefe da Louise Lou Brasil .”
Há um selo colorido que destaca a importância deste e-mail no meio de tanto
lixo eletrônico que recebo. Além de ser um carimbo de eficácia contra
golpes, então... tem chances de ser real.
Ainda que seja uma boa mensagem, algo em mim pede para ignorá-la. O que
uma editora-chefe de uma revista multinacional quer comigo?
Sigo para o próximo e-mail, de um tal de Rick.
“Olá, Ária Campos Tudo bem?
A revista Louise Lou está muito interessada em ter uma exclusiva com você!
Hoje de manhã, seu vídeo mais recente nos chamou a atenção. O cover de
Liz Salles é realmente um achado e tanto.
Queremos saber tudo por trás do vídeo; quem é você; onde esteve esse
tempo todo; e o que há de tão especial em sua voz que chamou a atenção de
uma figura pública tão reservada.
Será possível nos colocar na sua agenda?
Aguardo retorno, Rick Pedreira, Editor da Louise Lou Brasil .”
É algum tipo de piada?
De alguém do clube, quem sabe?
Como isso pode ser engraçado?
Irritada e crispando os lábios um no outro, sigo para o próximo.
“Olá, Ária Campos
Tudo bem?
A revista Louise Lou está muito interessada em ter uma exclusiva com
você!”
Paro de ler na metade.
É a mesma coisa, de pessoas diferentes, só que de apenas um lugar. Coço o
alto da minha testa, confusa. Muito confusa. Puxo o notebook para mais
perto e checo a minha caixa de entrada. Estou na página 5, bem longe da
página 1, onde costumo ficar. Confiro as configurações, curiosa para
entender qual dica de informática deixei passar ou qual engraçadinho
descobriu o meu e-mail profissional.
Perto do logotipo de cada mensagem eletrônica, noto um detalhe alarmante
que não havia reparado de ontem para hoje. Há mais de duzentas mensagens
acumuladas na minha caixa de entrada. Muito mais do que costuma haver.
Não sabia que tinha me inscrito em tanto abaixo-assinado por aí.
Na aba de lixo eletrônico é pior ainda, porque consta com mais de
quinhentos e-mails endereçados a mim. A maioria com convites exorbitantes
que até então não fazem sentido. De acordo com estas pessoas
desconhecidas que importunam a minha privacidade, querem que eu apareça
na TV, na rádio, em podcasts e em colunas de fofoca.
Meu Deus.
O que está acontecendo?
Não respondo nenhum e-mail, até os mais picantes que de vez em quando
aparecem por aqui. Me levanto às pressas, ainda com a mente focada na
descoberta das perguntas que não param de salpicar. Como meu
apartamentinho é minúsculo, encontro o meu celular na pia do banheiro.
Sento-me na tampa da privada fechada e cruzo as minhas pernas, em posição
de yoga.
O visor principal é iniciado com dezenas de mensagens em quase todas as
minhas redes sociais. São notificações que não param de chegar e me
assustam na mesma medida.
Mais algumas, e tenho certeza que o meu aparelho jurássico vai travar e
explodir a qualquer segundo.
— Merda, merda, merda...
Abro meu Instagram primeiro e sou recebida por uma avalanche de novos
seguidores. No total, eu tinha apenas míseros dois mil, agora tenho... cem
mil?
Nada faz sentido na minha tela, as mensagens, os comentários, os e-mails, as
notificações. Que porra é essa?
Pisco diversas vezes, só para garantir que estou acordada. E
estou, muito bem acordada, alimentada e limpa. Então, o que há?
Permaneço sentada, estática, sem saber como me mover e como proceder
com tudo o que ocorre ao mesmo tempo. Não é como se os seguidores
tivessem um intervalo entre um ou outro, acontece que uma leva infame de
perfis chega junto. Em dez, duzentos e até quatrocentos de uma vez.
Todos curtem, principalmente, meus vídeos cantando e deixam comentários
com corações e emojis divertidos. Ok, pelo menos um nude meu não vazou.
Né?!
Bem... né?!
Ainda atordoada com tanta atenção, sigo para o meu canal no Youtube. A
conta agora consta com legítimos duzentos mil inscritos, todos pedindo pela
continuação dos meus covers da Liz Salles e implorando para explorar
outros artistas que combinariam com a minha voz, como Lana Del Rey e
Taylor Momsen.
O quê?
Definitivamente um nude não faria isso.
Se bem que eu sou bem bonita, então é difícil saber.
As piadas não me fazem ficar mais calma, não quando os inscritos não
param de crescer e os e-mails não param de chegar.
Não é apenas Louise Lou ou canais de TV atrás de mim. Agora tenho Marie
Claire, Vogue Brasil, a emissora Farol e colunistas famosos na minha cola.
O quê?
Ok, vamos lá. Se um nude não é capaz de me trazer fama inesperada, o que
pode, então?
A noiva de ontem? Lorena é tão sensacional assim? Ao ponto de me jogar
aos leões sem me avisar?
Foi o universo?
Como ele teve coragem de me ouvir logo após eu conversar mentalmente
com uma lagartixa? Estava na cara que eu não me encontrava no meu
melhor estado, ele podia ter me ignorado, não é?
Se for uma brincadeira da Lilian, é de extremo mau gosto.
Mas...
Como poderia?
Minha irmã não teria força ou disposição para mover céus e terra para me
constranger tanto assim. Brincadeira ou não, ainda é um oceano inteiro de
pessoas estranhas que agora me seguem e estão interessadas no que eu faço.
Lilian jamais se concentraria em algo tão único e grande.
Decido fazer o que qualquer pessoa com um pingo de calma faz quando quer
procurar algo que não quer ser encontrado: ir ao Google. Contudo, meus
dedos travam na barra de pesquisas.
O que eu vou escrever?
Como se procura isso?
Finjo que sou o ápice do egocentrismo e digito o meu próprio nome,
fingindo não escutar meus pensamentos rirem de mim.
Em poucos instantes, encontro a minha resposta.
Sem nude, sem universo, sem irmãs folgadas ou pegadinhas de mau gosto.
Parece que a filha do prefeito compartilhou um vídeo meu.
E as pessoas gostaram da recomendação mundial.
3
“Então eu canto Pois minha alma chora Insisto em viver Pois minha alma
chora.”
Minha Alma Chora — Canção de Liz Salles UM NOVO ROSTO NA
ÁREA?
Desde que Ária Campos (21) surgiu repentinamente nas redes sociais da
nossa queridinha Clarissa de La Plume , nós estamos eufóricos e ansiosos
para conhecê-la melhor.
Deveríamos acreditar em Clarissa, não é?
Afinal, se Ária mereceu um espaço em suas postagens tão seletivas, é porque
há algo de especial na jovem artista.
Concordam?
Postado por MinutoGossip São Palomane é maior que Curitiba e um pouco
menor que São Paulo. Talvez isto explique porque as minhas redes sociais se
tornaram o pico mais badalado da semana desde então.
Ser habitante de uma metrópole sempre me conquistou.
Gosto da cidade que nunca dorme, das ruas movimentadas, das baladas que
nunca fecham, das inúmeras opções de atividades e dos pontos turísticos.
Mas é possível que eu não goste de toda essa atenção que Clarissa está me
dando.
Ah, sim, isso mesmo. Ela.
A pessoa que compartilhou o meu vídeo.
Clarissa é, na verdade, Clarissa de La Plume, mais conhecida como Clarissa
Plume, filha do prefeito Batista e da empresária do ramo de cosméticos,
Natália Plume. O sobrenome estrangeiro se deve ao fato de que vieram de
uma linhagem muito, muito falida de uma família nobre da França.
Os registros mostram que os de La Plume faliram muito antes de Clarissa,
Batista ou Natália sequer pensarem em nascer, mas ostentam o sobrenome
até hoje, como se ele fizesse algum pingo de sentido.
Talvez faça, porque as pessoas gostam desse estrelismo internacional e de
narrativas com nomes difíceis. Mas, mudando um pouco de assunto, ainda
quero entender como o meu vídeo chegou até Clarissa.
Se ao menos dezesseis pessoas me assistiam regularmente, ela fazia parte
desse número?
Me encontrou por acaso?
Me viu em algum lugar?
O que um cover, bem mal gravado por sinal, pode ter de tão interessante?
Isto é algo que ela não respondeu diretamente, mas também não apagou as
evidências.
Seu perfil do Facebook ainda exibe com perfeição o meu vídeo, com aquela
preview horrorosa do meu rosto em zoom, da música de “Minha Alma
Chora” de Liz Salles. As curtidas são de impressionar, e a maioria dos
comentários são positivos. Apesar de ser escrachado que se trata de um
material amador, a maioria do público conseguiu reconhecer que estou
tentando progredir — e que tenho talento de sobra.
E isso, vindo da internet, é quase como um “Ei, nós gostamos de você! Mas
não pise na bola, estamos de olho!” .
Na realidade, é exatamente isso.
— Nada? — Minha mãe quer saber, pendurando sua caneca de cerveja
alemã favorita na parede mais próxima.
— Nada ainda! — Levanto o meu celular na altura dos seus olhos. — O link
ainda tá no perfil dela. Não apagou... Então, não deve ser engano.
— Por que seria, Ária? — Sua pergunta me faz despencar um pouco os
ombros, porque é lógico o que virá a seguir: — Essa garota simplesmente
sabe que você é especial e quis ajudar.
Isso é muito otimismo depositado numa pessoa desconhecida e
absurdamente rica, mas não discuto.
Faz três dias que entro diariamente no perfil de Clarissa Plume para conferir
se disse algo. Pode ser qualquer coisa, desde um pedido de desculpa, do tipo
“Ei, pessoal, meu gato andou pelo meu teclado e acabou compartilhando
este vídeo dessa garota que eu nunca vi na vida, me desculpem!” , até só
apagar a publicação e fingir que não fez nada.
Mas não. Para o meu total desespero, o vídeo, a publicação, as curtidas e os
comentários continuam lá.
Os seguidores dobraram nas últimas horas e os comentários no meu canal
clamam por mais covers da Liz Salles.
Meu pai disse que é apenas o universo me devolvendo toda a energia que lhe
ofereci nos últimos anos; minha mãe acredita em forças divinas e pensa que
moraremos numa mansão até o fim do mês, e Lilian não quer falar comigo.
Simples assim.
Eu, não. Não acredito em uma boa ação, gratidão ou coincidência. Nada
disso. Tudo anda muito esquisito.
Não que eu não mereça reconhecimento, só me sinto deslocada.
— Hm... Pode ser?! — Escolho dizer. — Mas...
— A Ária tá vendo o perfil da Clarissa de novo? — Meu pai entra no clube,
carregando uma caixa de cerveja artesanal do próximo lote. — Você deveria
é estar sugerindo fazer um showzinho para aquela família, filha. Isso sim!
Meus pais aceitaram bem mais do que eu. Talvez porque mamãe tenha feito
parte de um grupo de dança famoso nos anos 90
e o meu pai tenha crescido com o ideal de família musical, fazendo sucesso
junto dos meus avós, ao caírem na estrada. Sei lá. O que eu sei, é que não
consigo me adaptar ao novo normal.
— Não sei se quero a Ária envolvida com os Plume — Bete, a minha mãe,
diz, oferecendo um olhar de águia ao meu pai. — Não votei no prefeito e
não votaria.
— Ária tem ciência que o prefeito é... — Meu pai pousa o lote de cerveja no
balcão, pensativo. — Como eu posso dizer carrasco sem dizer carrasco?
— Sem noção? — sugiro.
— Babaca? — Bete opina.
— Vou ficar com “sem noção”... — afirma. — Enfim, não mandamos mais
nela, Elisabete. Isso é fato, faz três anos ou mais que a Ári é dona do próprio
nariz.
Me aconchego na banqueta rente ao balcão do bar, me abstraindo do diálogo
sobre responsabilidade, política, um prefeito otário, seu caráter controverso e
uma celebridade taciturna.
Abaixo o meu olhar novamente para a tela do meu celular, entrando mais
uma vez no perfil de Clarissa.
Há alguns anos, quando tínhamos dinheiro, meus pais me matricularam em
todos os cursos de arte possíveis. Sei desenhar, pintar e dançar, mas atuar,
modelar, cantar e tocar são as minhas verdadeiras paixões. Já passei
madrugadas em claro apenas ensaiando com minhas bandas imaginárias. O
meu ideal de sucesso envolve oportunidades verdadeiras e um cartaz enorme
com o meu rosto, me anunciando como protagonista de um musical.
Não há espaço para milhares de seguidores, picuinhas entre subcelebridades
e mal entendidos, embora ter fama esteja conectado com a primeira opção.
De repente, “chegar lá” e ser vista é precisar interagir com milhares de
pessoas que você nunca nem conheceu.
E o ponto alto da vida de Clarissa é que, mesmo não querendo ou sendo
adepta das redes sociais, a filha do prefeito é muito, muito vista. Seus pais
colecionam investimentos em ramos completamente diferentes, isso explica
o dinheiro. Adicionado a um sobrenome de peso, uma história sobre nobreza
e superação, temos no final uma família que é metricamente assistida. Se
eles estrelassem um reality show, bateriam recordes de audiência. É fato.
De acordo com os mesmos sites que agora estampam o meu nome, Clarissa
tem vinte anos. Sua última festa de aniversário foi comemorada em uma
boate em Nova York, com presença de Hunter Schafer, Ludmilla e alguém
do elenco de “Skins”. Voltou do intercâmbio de não-sei-quantos-anos da
Suíça e agora, no Brasil,
leva uma vida reservada e discreta, sem muitos amigos e aparições, desde
que o pai foi eleito há mais ou menos um ano.
Ela é o tipo de pessoa que as outras desejam saber o que está fazendo. Tudo
o que Clarissa Plume toca vira ouro, e a felizarda deste mês sou eu.
— Enfim, Superestrela. — Minha mãe toca a minha mão, para que eu volte
para a minha realidade. — Você ainda não é Beyoncé, então coloque uma
luva e vá lavar o banheiro feminino do segundo andar. Hoje vamos reabrir! É
dia de pop, bebê!
Aperto o celular com força na mão.
— Não deveria ser a Lilian?
Minha mãe pendura a última caneca de uma fileira invejável de sua coleção
legítima. Foi presente de casamento e ajuda bastante aqui no clube quando
ficamos sem copos.
— Não encontro sua irmã desde ontem à tarde — responde, sem me olhar
nos olhos.
Bete tem coragem de assumir, pelo menos. É mais uma daquelas vezes em
que não quer tentar justificar os atos de Lilian, sabendo que está errada.
— Eu limpo o banheiro — meu pai fala, se intrometendo. Por um segundo,
os dois trocam olhares frios de desacordo. — Só me fala onde estão as luvas,
minha querida.
Eles são ótimos disfarçando.
— Vou me trocar — aviso.
Mais uma noiva nos quer para uma despedida de solteiro, e ao menos sei que
dançarei até as minhas pernas doerem. Afinal de contas, posso comemorar
que fui vista. Alguém apontou para mim e me escolheu em uma vasta
multidão de opções.
É isso o que é experimentar um pouquinho do doce sabor da fama; tem gosto
de cereja, dúvidas e desconfiança.
De vez em quando, gosto de dormir no sofá, de comer qualquer item que
encontro na minha geladeira e dormir em apenas cinco minutos de filme.
Bem, sozinha.
Durante boa parte do ano passado, minha prima, Valentina, de dez anos, foi a
minha melhor companhia e melhor amiga, mas paramos de sair com tanta
frequência. Especialmente quando se mudou para São Paulo.
Não tenho amigas da minha idade. Tenho colegas, que foi o que restou da
escola. Mas amigas de verdade? Que entendem os vários dilemas que penso?
Não.
E mesmo que Valentina seja incrível, entendi que nós duas deveríamos
procurar pessoas da nossa faixa etária.
Depois que precisei trancar a minha matrícula na faculdade para trabalhar,
meu círculo social foi afunilando, até não restar ninguém. Como posso
manter as pessoas entretidas em mim, quando fazemos partes de fases
diferentes?
Meus amigos falavam sobre testes, audições e peças que queriam participar
para as horas complementares, e eu não tinha mais tempo de ensaiar. Cantar,
saudar e vivenciar Liz Salles nas ruas de São Palomane foi o modo que
encontrei de conhecer gente nova, fora do âmbito do trabalho, mas ainda
assim, não é a mesma coisa.
Ontem a casa lotou.
O clube sediou uma fila imensa pela primeira vez em cinco anos. Teve gente
que dobrou a esquina e meu pai quase pensou na possibilidade de cobrar
entrada. Teve gente que apenas pediu para me ver e me conhecer, que apenas
tirou foto comigo e foi embora.
Uma grande parcela ficou, participou dos jogos musicais, das danças, das
despedidas de solteiro, e me aplaudiu quando subi ao palco ao lado da banda
do clube.
Muitos faziam pedidos especiais, do tipo “Ei, Ária, canta essa música para
mim, por favor?”, ou então “Eu amo essa, por favor, na sua voz vai ficar
linda!”. Outros me filmavam de perto, de longe, de todos os ângulos
possíveis para falar que estavam no mesmo ambiente que eu.
Mas o que mais me chocou foram as fotos.
Clientes que me conhecem há anos me parando no meio do expediente para
enfiar uma câmera no meu rosto, me obrigando a sorrir, porque estavam
felizes, realizados e satisfeitos em me verem.
Uma... celebridade em ascensão?
Seremos ricos... agora?
Rio pelo nariz com a percepção, sacudindo a cabeça e recolhendo a nova
bagunça. Desligo a TV, deixo a luz do corredor acesa em sinal de respeito ao
Bicho-Papão que desaparecerá covardemente ao ver que há iluminação nesta
casa, e rumo para a cozinha.
Me acomodo perto da pia para começar a lavar a louça, mas não faço nada
além de suspirar. Não ter amigos é não ter ninguém com quem conversar de
igual para igual. Meu pai é ótimo, minha mãe é sensacional e Lilian é a
minha irmã mais velha na medida do possível.
É solitário não ter uma pessoa por perto, alguém que mesmo que não me
entenda, faça um esforço para me ouvir. Sinto falta de muitas experiências,
embora ainda seja jovem o bastante para tê-las no futuro.
Sem ânimo para terminar as últimas tarefas domésticas que faltam, pego
meu celular mais uma vez, a fim de admirar toda a bagunça inusitada que as
minhas redes sociais se tornaram. Minha parte favorita é o meu Instagram;
duzentos e cinquenta mil seguidores. Todos muito bonzinhos até agora.
Tem uns velhos tarados nas minhas DM’s, mas bloqueio todos.
Caminho com o celular, ainda entretida, para a janela do cômodo. Me apoio
no parapeito, analisando as nuvens cor-de-rosa do céu da noite me avisarem
que choverá a madrugada toda. Tusso um pouco e checo os meus e-mails.
Ainda não aceitei nenhum convite de entrevista ou aparição surpresa.
Nenhum mesmo.
Todos parecem superficiais, hediondos, sensacionalistas. Não é assim que
quero ser reconhecida.
Está vendo?
Se eu tivesse uma amiga, ela me diria que estou sendo racional demais.
Me colocaria dentro de um vestido curto e de alças finas, faria a minha
maquiagem e me levaria para uma festa que eu não quero ir, porque sou
diferente das outras garotas e prefiro ler a me misturar com o restante do
mundo. É assim que boa parte dos meus livros aninhados na estante
começam. É isso que li sobre amizades.
Termino de deslizar a lista interminável de mensagens, me assustando um
pouco ao receber uma notificação fresquinha. Uma notificação que não
estava ali antes e nunca esteve.
O tremor do aparelho nos meus dedos é frio e desconcertante, mas talvez
seja uma parcela da resposta que procuro.
Abro o novo e-mail, me sentindo sufocada.
“Cara Ária Campos da Silva, É com grande prazer que nós, da Família
Plume, a convidamos para um almoço majestoso na nossa casa.
Depois que seu vídeo fez sucesso nas minhas redes, fiquei pensando que
seria muito legal que nos conhecêssemos pessoalmente. Venha
acompanhada de uma pessoa especial, se assim desejar. A imprensa de São
Palomane estará em peso neste dia, então não se esqueça de usar um
modelito incrível, ok?
Um carro, com um motorista de confiança, será encarregado de lhe buscar
diretamente de sua casa. E não se preocupe, ele a trará de volta em
segurança no mesmo dia.
Ficarei muito feliz e honrada se aceitar este convite. Pode responder este e-
mail quando achar necessário, a Família Plume espera ansiosamente para
ter um talento nato como o seu na moradia oficial do prefeito.
Preciso dizer que seu cover tocou no fundo do coração. É a minha música
favorita da Liz Salles e posso dizer que você é a mais nova cantora que
deveria estar nas minhas playlists. Espero que possamos nos ver o mais
breve possível!
Aguardo retorno, Com muito carinho, Clarissa Antônia Souza de La
Plume.”
E sem pensar mais do que dois segundos, é o primeiro convite que aceito.
04.01
“Como assim?
Você não me ouviu?
Ah, verdade Acho que não refleti de verdade, Apenas fiz!”
Não Pensei e Fiz — Canção de Liz Salles CLARISSA DE LA PLUME
FINALMENTE SE PRONUNCIA SOBRE ÁRIA
Na tarde de ontem, nossa herdeira preferida finalmente deu as caras nos
stories. A modelo, que costuma ser bem vaga sobre sua vida virtual, afirmou
que compartilhou o vídeo da cantora de rua, Ária Campos ,
propositalmente. Ainda admitiu que é a mais nova fã da artista.
É ver para crer, né?
Postado por MinutoGossip — Esse é o e-mail mais falso que eu já li na
vida!
— Deus sabe que não gosto de concordar com você, mas tem razão.
Lilian recua um pequeno passo quando ouve direito o que eu digo.
Concordarmos não é fácil, então o momento precisa ser admirado quando
acontece.
Sustento o meu olhar no dela, notando sua descrença em ouvir a verdade
pontuar cada esfera de meu rosto. Lilian, então, decide ficar em silêncio,
como quem diz “Ok, pelo menos você tem ciência disto aqui!”.
É sábado de manhã, quase perto do horário do almoço. Faz dois dias que
minha família e eu estamos destrinchando cada parte do e-mail que Clarissa
Plume me enviou. Todas as letras, palavras, vírgulas e pontos foram
meticulosamente debatidos por vários minutos, durante quarenta e oito
horas.
Meu pai acha que é tudo falso.
Minha mãe tem certeza que estou participando de um golpe.
E Lilian, bom, é Lilian.
— Tem certeza que você vai, então, Superestrela?
Minha mãe está sentada na ponta da minha cama de casal. O
semblante decaído, as mãos juntas no colo, as sobrancelhas unidas, a testa
enrugada. Insegurança é sua maior ruína em um momento como este.
— Eu acho que ela deveria ir, sim — meu pai opina, da porta.
Ele assiste enquanto calço os únicos sapatos elegantes que encontrei no
guarda-roupa da mamãe, porque também uso uma saia de alfaiataria que
comprei especialmente para comparecer à uma audição de um espetáculo
sobre advogados, no centro da cidade — uma audição que jamais recebi
retorno, inclusive.
Será que dá tempo de recorrer a um papel?
Será que agora eles sabem que sou, tipo assim, a cantora favorita de
Clarissa?
É algo com o que devo me gabar. Ela mesma disse, ontem, quando foi
perguntada o que achou do meu vídeo: “Ária Campos é o novo rosto da
música. Escutem o que eu digo. Já sou fã!”.
— Sozinha? — Bete dispara, preocupada.
— Vocês não precisam ir, por favor — peço, saltando de um lado e para o
outro no quarto. Tenho quase cem por cento de certeza que esse sapato é um
número abaixo do meu. — Sério, tá tudo bem.
A gente passou muito tempo falando sobre isso. Achei que tivéssemos
resolvido que eu iria. É uma... Mãe, abotoa a minha camisa, por favor. —
Paro de frente para ela, empurrando a minha franja cacheada para o lado e
oferecendo os últimos botões da camisa social azul-bebê. — Enfim, como eu
ia dizendo, é uma grande oportunidade, não acham? Se eu souber a origem
da fama, posso contê-la para não acabar nunca mais.
Minha mãe costuma dizer que eu falo como uma sonhadora e que acredito
em concepções fantasiosas como um pescador inocente. É preciso dar a ela
alguns créditos sobre a criatividade, porque ultimamente ando bem mais
racional.
— É assim que se fala. — Meu pai me incentiva, fechando o punho ao
erguê-lo.
Se meu pai é um ótimo músico, o talento para as artes cênicas eu herdei da
minha mãe. Uma mentira dele pode ser detectada a quilômetros de distância,
de tão ruim que é Por trás de seu corpo grande, percebo que Lilian
desapareceu sem deixar rastros.
Mamãe termina de abotoar cada uma das casinhas dos botões e dá um
tapinha de leve na minha cintura. Estico os meus braços, arrumo a minha
postura, subo o meu queixo e abro um sorriso brilhante aos dois.
— Então... — falo. — Como estou?
— Linda como sempre. — Ela sorri, orgulhosa. — Né, Rei?
— Linda como o pai — elogia, colocando a mão na cintura. — Beleza é de
família.
Não levo muito a sério, porque a opinião deles é comprada desde o momento
em que me viram na maternidade. Por pura curiosidade, me coloco de frente
para o espelho; meus cabelos estão em ordem, mas se depender da garoa
incômoda do lado de fora, posso começar a dar adeus ao penteado que tentei
recriar. Pesquisei no Pinterest e se chama “Passaport Girl”.
Ao menos combinou com a maquiagem leve, mas com a base não. Caralho,
essa base está tão errada, tão fora de ordem no meu rosto, que já começo a
me sentir um alienígena.
— Superestrela. — Meu pai me chama, carinhoso como sempre. — O carro
chegou.
Quando respondi a Clarissa sobre nosso encontro, a modelo me passou
alguns detalhes. Ainda que fosse “majestoso”, seria um almoço casual. Eu a
conheceria, assim como teria a “maravilhosa”
chance de ser apresentada ao prefeito Batista, e à esposa dele, Natália. Como
o irmão mais novo de Clarissa está na cidade, também teria a honra de
conhecê-lo.
Em seguida, me questionaram sobre qual seria o meu prato favorito, já que
os chefs escolhidos a dedo pela família o preparariam para mim.
A Convidada de Honra.
Arfo alto, sacudindo as minhas mãos para liberar a tensão do meu corpo. Do
espelho até a janela é apenas um passo e meio.
Afasto as cortinas apenas três centímetros para espiar o carro do outro lado
da rua. O veículo preto, de vidros filmados e grande o suficiente para impor
medo, destoa todo o ambiente cinzento do bairro.
— Então, eu já vou indo. — Deixo a cortina de lado, ajustando a saia rente
ao meu corpo. — Dicas?
— É bom não falar sobre a oposição — minha mãe brinca, me lançando uma
piscadela. — E pergunte se o prefeito pode mandar alguém para
desemburacar o final da nossa rua.
— Sim, é um bom jeito de causar uma primeira impressão — retruco. —
Mas é uma opção!
Os dois concordam, saindo do meu quarto primeiro que eu.
Pego a minha bolsa de mão, confiro minha carteira, meus documentos e a
minha chave. No corredor, ajeito a minha franja de novo no espelho que
encontro — e assim repito toda vez que encontro uma superfície reluzente.
Da minha casa, que fica no mesmo corredor que o apartamento deles, meus
pais me acompanham até o Clube 148. O
que quer dizer que descemos um lance inteiro de escadas rangentes, até os
fundos. Perto do beco lateral é quando os dois me abraçam, desejando um
bom almoço e que tudo corra muito bem.
— Até mais tarde — falam ao mesmo tempo.
Fico um pouquinho dentro do abraço deles, me aconchegando. Porém,
decido ir logo.
Não tinha reparado no meu nervosismo até empurrar a porta do clube e sair
ao ar livre, recebendo um pouco de sereno frio e solitário direto no meu
rosto. Minha barriga afunda de imediato e tenho certeza de que meus
sentidos vão me pregar uma peça. É
possível que minha boca esteja dormente, ainda não sei se é apenas
impressão minha.
Contudo, é certeza que vou comprar um maço de cigarro assim que eu sair
da casa dos Plume e fumar tudo sozinha antes de dormir.
— Ei, espera aí!
O grito de Lilian me faz parar na metade do beco; um gato malhado acabou
de sair de uma pilha de saco de lixo, estressado pelo susto. Reparo em seu
pescoço pequeno, peludo e decorado com uma coleira. Deve ser da vizinha.
Por cima dos ombros, assisto Lilian sair da mesma porta de onde vim. Usa
um de seus casacos caros que sobreviveram às épocas em que tivemos que
vender a maioria dos nossos bens mais preciosos. Debaixo da peça pesada,
Lili usa meia-calça e sapatos pontudos — que devem ser da nossa mãe
também.
Ela corre na minha direção, esbaforida.
— Posso ir com você?
A pergunta é apenas uma pergunta, porque pela maneira que está vestida, já
decidiu por mim.
— Passou a semana toda sem olhar na minha cara e agora quer ir comigo até
lá?
Sem remorso algum, dá de ombros.
— Você precisa de um apoio — define, séria. — Não precisa?
— Preciso. Mas tem que ser o seu?
— E de quem mais seria? — devolve. — Desse gato? — E
aponta para o bichano que nos observa de perto, provavelmente nos
julgando. — Eu sei exatamente o que fiz, mas ainda sou a sua irmã mais
velha.
— Um ano.
— Ainda assim, mais velha.
Não tem o que discutir, ir sozinha ainda parece aterrorizante.
Se Lilian fizer algo terrível ou imperdoável, pelo menos tem idade o
suficiente para responder por seus próprios atos.
— Vamos logo — decido.
Posso jurar que ela solta um guincho alegre com a minha decisão, mas ainda
pode ser coisa da minha mente, inventando pequenos cenários para me
deixar um pouco menos apavorada.
Minha irmã para ao meu lado e me oferece um de seus sorrisos marcados
pela falsidade. Ombro a ombro comigo, caminhamos em silêncio até a
calçada. O motorista do carro sai apenas quando repara na nossa presença.
Ele é como eu provavelmente descreveria se estivesse escrevendo uma
história. Seu uniforme é um terno comum, preto, não há nada de grandioso
ali. Um chapéu com a identificação de que trabalha em uma empresa de
serviços de transporte particular, e me cumprimenta como se me conhecesse
há anos.
Inclusive, abre a porta para mim.
— Com certeza a Clarissa não escreveu aquela mensagem.
— Lilian sussurra quando já estamos dentro do carro, tão gigantesco e
confortável quanto parece por fora. — Alguém fez isso por ela.
— Talvez uma assessora — sugiro baixo. Não queremos que o motorista
escute nada do que estamos falando. — Ou uma pessoa que cuida apenas das
mensagens eletrônicas dela. Sei lá, mas é certo que ela não digitou nada
daquilo.
— É marketing — solta. — Nas últimas frases, ela diz que a imprensa estará
presente. O que mais isso significa?
— Retomada de campanha — defino. O motorista já pegou seu lugar à
frente do volante. A força do motor estremece o veículo, em um breve aviso
de que partiremos a qualquer segundo. Com a minha pausa, volto a
cochichar para Lili. — Eu li que o Batista não é muito popular entre os
habitantes jovens de São Palomane, embora estejamos muito longe das
próximas eleições, ainda é uma jogada de mestre se mostrar ser tão... Aberto
à possibilidade de receber, na própria casa, uma pessoa que ganhou fama em
apenas uma semana.
— Hum... É, isso... Pode funcionar.
— Dependendo de como serei recebida, vai funcionar.
Ainda indecisa, apenas meneia a cabeça, dando o assunto por encerrado.
Ao contrário de mim, Lilian não trancou a faculdade para se dedicar ao
clube, suas aulas de Economia consomem muito de seu tempo. O que, no seu
ponto de vista, é sensacional. Também mora sozinha, no mesmo prédio que
eu e nossa família, mas no apê mais recluso e afastado possível. Talvez por
manter uma parte de sua vida
reservada que Lilian ainda seja uma caixinha de surpresas quando quer.
Como ainda ter um casaco de grife e me acompanhar de bom grado em um
evento anormal.
De toda forma, não a agradeço por estar aqui. Apenas seguimos em silêncio
e cada uma de nós vira o rosto para encarar a paisagem ao lado, que repassa
pela janela de vidros limpíssimos e blindados.
A casa dos Plume é mais uma construção antiga que fora transformada em
algo moderno, chique, espaçoso e requintado no auge dos bairros afastados
da cidade. Não encontro nada na mansão que seja extravagante ou
exagerado, mas a combinação de arte e estilo é de encher os olhos. As
palmeiras na entrada principal são um pouco demais, mas as janelas estilo
georgianas são um verdadeiro charme.
As pinturas dos parentes já mortos dos Plume é de dar arrepios, mas os
tapetes quilométricos de cada corredor me dão a sensação de estar dentro de
um palácio.
Nada é realmente páreo para a minha imaginação que não possa melhorar;
todos os cômodos têm portas devidamente fechadas e lacradas; as paredes
seguem uma linha de cores mornas e pastéis, e a tecnologia é o ponto alto da
casa, que é protegida vinte e quatro horas por seguranças e câmeras
noturnas.
Do carro, fomos levadas até uma pequena sala de segurança, onde
precisamos responder perguntas básicas e pessoais. Lilian ganhou um
pequeno crachá com seu nome, e eu, um broche de ouro, com o símbolo
exemplar de heras venenosas — uma das plantas oficiais do governo de São
Palomane. Da salinha, fomos para um corredor extenso e silencioso, onde
recebemos informações importantes de uma pessoa chamada Sílvia.
Cinco segundos depois, Lilian e eu fomos separadas.
E agora estou aqui, sozinha, reclusa, com os ombros decaídos, em um
recinto desconhecido e quente, mas não muito abafado. O ambiente, na
verdade, é um gabinete. Uma sala de reunião com uma mesa oval na lateral,
perfurada no centro. Há uma bandeira do Estado de São Paulo no canto
superior, perto da bandeira da cidade e a do país.
Os tons entre dourado, vermelho e amarelo-escuro não são de doer as vistas,
pelo contrário, transparecem uma seriedade quase que constrangedora. Cada
móvel está posto em seu devido lugar, nada aqui esbanja desordem.
Exceto eu, é claro.
Que continuo aqui, sem me mover um centímetro, com medo de quebrar
algo valioso.
No meio de tanta cor e beleza, há um pequeno espaço de sete cadeiras de
plástico que, possivelmente, não faz parte da decoração original. É possível
que uma parte da imprensa fique ali.
Talvez. Não sei. O que eu sei, é que parece que se passaram séculos desde
que me deixaram aqui.
O tédio dá lugar à apreensão e ao fato de que não ensaiei nada do que falarei
para Clarissa ou sua família.
Vamos ser apresentadas ao vivo?
Nos darão privacidade para conversarmos primeiro?
Eu sou parte de uma campanha falida para conquistar jovens?
Minha testa esquenta com tantas perguntas que não param de reaparecer,
como se gritassem comigo de uma só vez.
Por instinto, me levanto da cadeira, andando em círculos para tentar me
acalmar. Forço uma contagem expressiva, que nada mais é que um exercício
de concentração que aprendi no teatro. Os movimentos repetidos apenas
pioram a minha breve vertigem, então decido apenas ficar parada no mesmo
lugar, contendo a força da minha aflição.
Um pouco mais controlada, começo a pensar no que dizer.
Um simples “oi” deve bastar e posso improvisar a maioria das ações quando
estiver frente a frente com Clarissa.
Meu coração volta a bater forte quando escuto passos vindo do lado de fora
do gabinete. São de saltos altos também.
A maçaneta é forçada e a pessoa do outro lado não consegue entrar. Não
quando puxa uma porta que deve ser empurrada. Tudo bem que posso estar
de frente para uma suposta ameaça, mas, ao menos, me sentiria mais
intimidada se a pessoa soubesse o que está fazendo.
— É de empurrar — falo alto, quase como proferir um grito.
O instante de não-tensão funciona para me tranquilizar e forçar meu corpo a
parar de tremer.
Um segundo se passa e a pessoa, então, consegue me ouvir.
E dando voz à racionalidade, abre a porta dupla, entrando de uma vez.
A pessoa, no entanto, não é qualquer uma, é Clarissa de La Plume. Que é,
sem sombras de dúvidas, a garota mais bonita que já vi.
Interessada no pensamento, decido afastar por enquanto os elogios que solto
mentalmente a ela. Reconheço-a apenas porque é inegável que é ela e porque
a acompanhei nas redes sociais nos últimos dias. Reparo nas roupas formais
e nos terninhos coloridos que é sempre vista usando. Seu cabelo
quimicamente liso foi ordenado em um rabo de cavalo baixo, dando foco aos
brincos de pino, dourados. Uma pulseira de ouro reluz em seu pulso direito,
para combinar com o colar que abraça o pescoço. Também de ouro, mas com
um pingente torto para o lado esquerdo.
É um C de Clarissa.
A filha do prefeito não sorri para mim ou demonstra simpatia, seu rosto
pintado por cores estratégicas de maquiagem continua impenetrável. Apenas
sei que está nervosa porque uma camada fina de suor percorre sua testa livre
de espinhas ou manchas e seu peito sobe e desce, ofegante.
De imediato, arrumo a minha própria postura, erguendo o meu queixo para
cumprimentá-la.
O ato faz com que sua testa se enrugue apenas um pouco, é uma atitude
mínima que faz um grande efeito. Sua pele negra-clara é um pouco mais
escura que a minha, talvez por isso não esteja corada.
— Ah... — murmuro sem jeito. — Oi.
— Oi — diz, quase sobrepondo a minha fala. Rápida, segura as próprias
mãos, apertando os dedos uns nos outros. — Olha, me desculpa chegar
assim, mas... É que eu preciso te falar uma coisa. E
é urgente, então... — Clarissa olha para trás, como se estivesse sendo
seguida há horas. Deixa a porta de lado e caminha com pressa na minha
direção, muito decidida a falar comigo. — Primeiro de tudo, preciso pedir
desculpa para você, Ária. De verdade. Não foi a minha intenção fazer nada
disso, nada mesmo, ok?
Não encontro significado em suas frases, são apenas palavras emboladas
umas nas outras.
— O que está...
— Depois eu te explico tudo, o que precisa saber é que a coletiva de
imprensa vai começar daqui a pouco, então... Eu tenho...
— Clarissa checa seu relógio de pulso, afoita. — Ah, ótimo. Tenho apenas
dois minutos para me explicar.
— Se explicar?
— É! — prontifica. — Sério, me desculpe por tudo, não quis causar nada
parecido, mas...
— Meu Deus, o que...
— Só me escuta, ok? — Me interrompe de novo, desesperada. Os olhos
esbugalhados me avisam de que se trata de um assunto sério. Muito, muito
sério. — Preciso te agradecer por não ter oferecido nenhuma entrevista a
nenhum veículo da mídia, sério.
Pela primeira vez desde que chegara feito um furacão, Clarissa faz uma
pausa, ficando em silêncio. Seu rosto continua inchado de estresse e seu
corpo permanece agitado, eufórico, completamente afetado. É quando
percebo que devo falar algo em resposta.
— Ah... de nada. Nem precisa agradecer, fico imaginando que deve ser chato
ser... Tão famosa.
Não é a melhor escolha de palavras do mundo, mas ao menos funciona.
— E eu agradeço de coração, porque... — Clarissa olha para trás outra vez.
— Enfim. — E volta a me encarar com pesar. — Você precisa saber que não
foi a minha intenção compartilhar aquele vídeo seu.
Agora, quem sabe, eu entenda o assunto.
— Não foi?
— Não! — proclama, tão rápido que me assusto de leve. — Desculpe —
pede, recuando. — É que... Foi uma aposta, ok?
E para combinar com o momento caótico da abordagem, Clarissa marcha em
direção à porta, ficando perto das fechaduras, para tentar captar se alguém
está vindo.
— Uma aposta? — repito, quase rouca.
É pior do que eu pensei.
— É, é... — concorda, dando de ombros. — Umas amigas minhas me
desafiaram a compartilhar qualquer vídeo aleatório que eu encontrasse na
internet. Estávamos bêbadas, sei lá. Não me lembro de muita coisa... Não
sabia que tomaria estas proporções...
Sabia que não era nada bom, mas nunca imaginei que seria tão péssimo de
escutar.
— Não sabia? — resmungo. — Você tem milhares de seguidores e nunca
passou pela sua cabeça que as reações seriam intensas?
— Na minha defesa, meu Facebook é quase que abandonado — Clarissa
responde, saindo de perto da porta dupla e mantendo a calma. — A culpa, na
verdade, é sua. Você tem talento, Ária. As pessoas não compartilharam por
minha causa, e sim porque gostaram do que viram.
Pisco, sem reação. Isso consegue ser um elogio e um insulto ao mesmo
tempo. Devo estar participando de algum vídeo do “Porta dos Fundos” e não
estou sabendo.
— Então... Você não gosta de Liz Salles?
É a pergunta mais tosca que eu poderia fazer em uma situação como esta,
mas é a única que consigo fazer. Ao ouvir o que digo, a modelo me fita com
o cenho franzido, mas logo suaviza a expressão quando percebe que eu estou
em desvantagem aqui.
Em trinta segundos de conversa, já posso dizer que Clarissa não é o ser
humano mais paciente ou sucinto do mundo.
— Ah, a Sílvia deve ter escrito ou falado isso... — desconversa, porém é um
comentário mais para si mesma do que para mim. — Eu até que gosto da Liz
Salles, sabe, mas não tanto assim.
— E também não gostou do meu cover?
— Para falar a verdade, eu nem assisti o vídeo inteiro — confessa. — É
como eu disse, estava bêbada, cumpri um desafio, e no outro dia... —
Clarissa morde os lábios, pensativa. — Bem, no outro dia tudo já tinha
acontecido, não tinha mais o que fazer.
Toda a concepção desta cena parece que saiu de dentro de um sonho muito
mal escrito e dirigido pelos meus neurônios. Não há nada que me faça sorrir
ou espernear, porque todas as informações que estão sendo jogadas
simplesmente são desastrosas demais para seguirem uma linha lógica.
— Eu fui... Apenas uma aposta?
— É como eu disse, estou pedindo desculpa pelo transtorno!
— Clarissa fala rápido, desistindo de espiar o corredor pela fechadura. De
frente para mim, começa a caminhar de volta. — Meus pais inventaram isso
tudo, a coletiva de imprensa, o bate-papo e...
Passos fortes e vozes estridentes aumentam pelo corredor de onde viemos. É
o estopim para fazer o discurso moralista de arrependimento de Clarissa
Plume se encerrar abruptamente.
— Olha, me desculpa de novo, Ária! — fala, embolando as palavras umas
nas outras. — Se puder falar que não nos conhecemos e que não vamos virar
amigas, ficaria muito feliz!
— Como é?
Os passos se aproximam...
— Eles vão te fazer perguntas, certo? — A questão retórica é acompanhada
por um grunhido de desespero. — Meus pais querem essa narrativa de duas
pessoas se encontrando e se tornando amigas. Adoraria que... Sei lá, me
agradecesse pela oportunidade, mas cortasse essa ideia pela raiz.
— O mal pela raiz?!
— Ideia, mal... Tanto faz. Pode fazer isso?
— Então... Você quer que eu...
— Não quero que você minta e nem nada do tipo.
Os passos estão chegando cada vez mais perto...
E a pressa de Clarissa de resolver as coisas comigo só aumenta.
— Deixa eu ver se entendi — peço com a mão estendida. — Você nem ao
menos me conhece, nunca me viu na vida e, ainda assim, participei de uma
aposta. Ok, entendi. Agora, você quer que eu encerre qualquer possibilidade
de as pessoas darem a entender que viraremos amigas?
— Isso! — brada. — Não seria justo com você.
— Ah — debocho. — Não seria justo comigo?
— Não, não seria. Você veio aqui esperando alguém que declarou que é sua
fã, e eu não sou.
— Que sorte a minha! — Abro e fecho os braços.
— Só... Pode seguir o meu pedido, sim ou não?
— Tá de brincadeira? — disparo, sentindo todo o meu sangue ferver. — Que
merda é essa?
— Eu sei que deve ser frustrante, mas...
As portas se abrem de supetão. Clarissa leva um susto, parando ao meu lado
e esticando um sorriso pragmático de boa filha, capaz de enganar o mais
descrente dos eleitores do pai.
Da passagem também dourada, vejo o prefeito dar boas-vindas à imprensa,
que o seguem entusiasmados. Pouquíssimos jornais locais e emissoras de
grande renome foram convidados para hoje, mas a maioria apoia Batista
publicamente.
Ao lado dele, do jovem e bonito político, reconheço Natália, sua esposa, e o
filho mais novo, Vinícius.
— Aí estão vocês duas! — O prefeito ergue as mãos, feliz. — Aproveitaram
para se conhecerem, hein?
Seu olhar atento repassa por mim com esperança. Ele espera pelo meu
sorriso de gratidão e, quando o recebe, retorna ao ponto de apresentar os
jornalistas ao gabinete.
Sem a atenção vigilante do pai, Clarissa me segura delicadamente pelo
cotovelo e sussurra: — Por favor — implora. — Vamos terminar isso logo,
antes que se estenda — opina. — Você já ganhou seguidores suficientes,
pode comer aqui o quanto quiser, me conhecer e ir pra casa. Ok?
Engulo a vontade de retrucar. O sorriso que nasce em meus lábios é
dolorido.
É neste infame e brilhante segundo que decido que, a partir deste momento,
eu a odeio.
04.02
O prefeito Batista Plume é bem mais legal do que imaginei. O
cara tem uma lábia impressionante, porque consegue fazer as pessoas rirem
sem se esforçar. É um homem jovem também, não passa dos quarenta e
poucos anos, de brinco na orelha, de cabelo métrico e bem cortado, de pele
branca-pálida e sorriso quase cintilante.
De primeiro momento, enquanto fervia de ódio de sua filha, mal reparei que
estava com a expressão fechada e que todas as piadas que o prefeito me
lançava eram de muitíssimo bom gosto, o suficiente para me fazer sorrir e
esquecer, aos poucos, que Clarissa é uma mentirosa sem escrúpulos.
No gabinete, o prefeito conduziu um bate-papo sobre o momento em que
Clarissa compartilhou o meu cover. Precisei assistir em silêncio, durante
vinte minutos ou mais, uma história falsa e ensaiada sobre como Clarissa
estava, por um acaso, acessando covers de sua também cantora predileta, Liz
Salles.
Todos os jornalistas caíram na historinha dela feito patinhos, como presas
vulneráveis despencando direto na boca de um lobo babão. A cada absurdo
contado à mídia, precisei me segurar muito para não rir de sua cara ou de
revirar os olhos. Mas câmeras, microfones e pessoas importantes do ramo de
comunicação estavam de olho em mim, então, interpretei.
Usei dos meus anos no teatro e das aulas de improviso para ser a melhor
versão de mim mesma. Ou a versão de uma cantora agraciada pela fama
repentina. Não importa qual papel decidi encarnar, o que importa é que usei
meu método de sorrir e acenar, de me curvar para parecer sexy, e de jogar o
cabelo para ser charmosa, nas poucas vezes em que tive a chance de
responder às perguntas.
Ninguém precisou fingir que estava interessado em mim.
No fundo, aquelas pessoas só estavam lá por uma única razão: um bate-papo
interpessoal com nomes de peso. A grande oportunidade de ficar perto da
misteriosa Clarissa, a quem a imprensa e as colunas de fofoca ardem de
desejo para conhecer, dia após dia, conforme o sucesso da família cresce.
No entanto, meu carisma despreocupado e minhas risadas calorosas nos
momentos certos serviram para conquistar o pequeno público. A cada riso,
aplausos e interação que eu conseguia, me sentia um pouquinho mais forte
que Clarissa.
O bate-papo durou quase uma hora e, quando as entrevistas foram
encerradas, a imprensa foi convidada para cobrir o almoço. Foi servido
lasanha ao molho branco — meu prato favorito —, frango assado, salada de
alface grego e suco de maracujá a todos, mas, mesmo assim, eu sabia que a
mídia ainda estava vigiando cada interação forçada nossa.
De algum jeito, conseguiram cliques meus e dela, mas nada além disso.
Lilian apareceu apenas no almoço. Disse que precisou seguir alguns
protocolos de segurança e que ficou mofando na portaria quando, enfim, foi
liberada.
Agora está sentada ao meu lado esquerdo, depositando olhares desconfiados
para cada membro da Família Plume, que já me tratam com intimidade.
Em total silêncio, quase todas as partes da entrevista repassam na minha
mente como slides. Clarissa sorrindo e agradecendo a minha vinda, pedindo
para eu cantar um pedacinho de “Minha Alma Chora” e ainda contando um
pouco da vida de Liz Salles para os repórteres, como se fosse fã tanto quanto
eu.
É tudo tão nojento e falso de presenciar, que mal toco no meu almoço. Me
servi de pouca lasanha e de pouco frango, o suficiente para apreciar a
comida, mas o bastante para não desperdiçar caso deixe no prato.
— Então, Ária e Lilian, vocês moram em São Palomane há muito tempo?
O prefeito é um legítimo conquistador, porque sabe o que dizer na hora
certa. Com as câmeras desligadas, o homem é desconfiado, quieto e um
pouco distante, mas na frente de holofotes é um galã nato.
O assunto morreu há cinco minutos, mas o bater dos talheres no fundo dos
pratos o perturba.
Clarissa está quase terminando de comer, ansiando para sair daqui o quanto
antes, mas como o pai quer prolongar o momento, começará com as
perguntas básicas para melhorar o clima.
— Desde que nascemos — respondo, trocando um olhar com a minha irmã.
— Quase fomos morar em São Paulo, mas nossos pais gostam daqui.
As câmeras estão voltadas para os nossos rostos, e os flashes dos aparelhos
não são discretos. Há uma jornalista, no caso, que grava e anota tudo o que
eu falo.
— Não, não — Natália Plume diz. — São Paulo não é aqui e nunca será. Eu
prefiro a nossa cidade... Que bom que seus pais mudaram de ideia!
Natália e Batista compartilham de olhares apaixonados; por eles mesmos e
por São Palomane.
— Eu prefiro o Rio — Vinícius fala para provocar, mas todos riem. — Pelo
menos tem praia.
— E você, meu amor? — Risonho, Batista se refere a Clarissa. — O que
prefere?
Um pouco mais calada que no bate-papo, percebo que a garota se segura
para não dar de ombros.
— São Palomane — decide.
O salão todo explode em risadas, é como se Batista tivesse vencido mais
uma eleição de fato. Vinícius também ri, porque acha engraçado e porque
não está sendo forçado a estar aqui.
— Justo, justo... — Natália continua. Com um acenar de dedo anelar,
continua: — Antes de irem, meninas. Gostaria que passassem a tarde
conosco!
Por reflexo, olho para Clarissa. Sentada à minha frente, a queridinha da
cidade se mantém em riste, desconfortável com a
minha presença. O lugar foi escolhido a dedo para as “novas melhores
amigas da cidade” poderem ficar juntinhas enquanto almoçam.
Patético.
Seu olhar esbarra no meu e, com uma discrição invejável, Clarissa nega com
a cabeça, pedindo em silêncio que eu negue o convite o quanto antes.
— Será um prazer, Natália — falo, sorrindo abertamente, sem retirar meu
olhar do de Clarissa. — O que você acha, Lilian?
— Acho legal — minha irmã responde, com sinceridade.
— Aqui tem piscina aquecida — Natália emenda. — Não precisam nadar
nesse frio, e sempre tem roupa de banho extra na casa da piscina. Depois
dessa burocracia toda, vocês podem se divertir.
— Eu queria me divertir também — o prefeito entoa, apenas para arrancar
mais risadas de seus seguidores mais devotos.
E consegue.
— Agradeço o convite — emendo. — Será uma honra ficar! — comemoro.
— Né, Lilian?!
— Sim, sim — fala. — Claro que sim.
Irmãs tem algum tipo de codinome ou língua própria, porque Lili nota que
algo de muito estranho está acontecendo, mas dançará perfeitamente
conforme a música.
Esticado em cima de uma cama king-size, um simples maiô preto me espera.
Minha barriga, estufada de comida e meu corpo, pesam. Porém, minha
mente ainda voa em todos os últimos acontecimentos.
A conversa, o momento, o bate-papo. Tudo passou como um borrão, não
consigo me lembrar de nada com clareza. Em um instante, fui invadida por
informações demais que não se concretizaram e continuam a me incomodar.
É isso, afinal.
Não entender o que está acontecendo e seguir em frente.
Depois do almoço, Natália disse que eu poderia ficar um momento a sós para
me trocar, me entregou uma toalha limpa, chinelos novos e uma sacola de
papel na qual estava um dos maiôs extras que oferece na casa de piscina. Me
conduziu para um dos quartos de hóspedes da mansão e me deixou sozinha e
em paz.
A peça é bonita e simples. Algo que eu, normalmente, usaria.
— Você pode vestir o maiô quando quiser.
Não me assusto com a aproximação enxerida de Clarissa, porque escutei
seus passos do outro lado da porta. O quarto de hóspedes é acoplado com
outros dois ambientes da casa, o quarto dela e um corredor particular.
Com suavidade, a filha do prefeito fecha a porta que dá acesso ao seu quarto
e cruza os braços. O terninho, as joias e o rabo de cavalo simétrico
continuam no mesmo lugar.
— Você devia ir embora — aconselha, impertinente.
— E você devia aprender a não beber tanto — digo, ainda encarando o maiô
como se fôssemos inimigos. — Ou ao menos tentar, sei lá, não fazer
besteira.
— As melhores pessoas fazem besteira. — Dá de ombros. — E devemos ser
punidas por isso?
— Não sou a sua punição pessoal, mas se quiser, eu posso ser. Não tenho
nada a perder.
Um segundo é o suficiente para Clarissa Plume compreender o que quero
dizer. Seu nariz entorta de desaprovação e abraça a si mesma, desconcertada.
— E tem a ganhar?
— Mais do que você pensa. — Decido agir, pego o maiô pelas alças e o
levanto na frente do espelho da penteadeira. Que, por sinal, deve ser de uma
edição ilimitada de móveis caros, assinados por artistas nacionais. — Vai
ficar um pouco apertado na cintura, mas tudo bem.
— Acha mesmo que vão continuar te dando alguns minutinhos de fama?
— Sei lá — declaro. — Mas você mesma disse que eu ganhei alguns
seguidores a mais, não foi? Se eu for esperta, consigo usurpar mais alguns
antes de cair no esquecimento total.
— É isso o que você é, então? — provoca. — Uma interesseira?
Ouvir seu tom de voz petulante me dá uma certeza ao meio de tanta
confusão; não deixarei meus reais objetivos caírem por terra apenas para ter
um pouco de paz de espírito. Abrir mão dos meus sonhos e de boa parte do
meu lazer já foram decisões caras demais, se eu conseguir tirar proveito de
uma situação como esta e tiver que suportar alguém como Clarissa, é quase
certeiro que me darei bem no final disso tudo.
Afinal de contas, fui criada ao lado de Lilian, sei lidar com garotas iguais a
ela — e iguais a mim.
Me viro na direção de Clarissa, dobrando o maiô em meu braço.
— Me chame do que quiser — decido. — Oportunista, adoradora de golpe
do baú, trambiqueira, qualquer coisa. Realmente não me importo.
Porque é verdade.
A segunda certeza que eu tenho é que me ofendi bem mais em ser
confundida com uma pessoa capaz de tramar algo tão cruel e descabido. Ok,
não tinha como eu planejar exatamente como tudo se desenrolou, já que a
culpada é ela e apenas ela. Mas só de aceitar o convite, foi uma mensagem
muito assertiva que passei.
Queria conhecê-la, queria falar sobre Liz Salles durante horas e talvez
Clarissa me ajudasse a limpar a base no tom errado que passei. Agora sei
que todos os meus conceitos foram inocentes demais para alguém que já é
grandinha o suficiente para compreender as nuances hediondas do mundo.
Contudo, como ela espera que eu seja alguém pronto para dar o bote, serei
exatamente esse tipo de pessoa.
Se Clarissa pode dar visibilidade ao meu trabalho, estaremos todos os dias
juntas. Se Clarissa ouvirá meus covers, que esteja pronta para compartilhá-
los. Se Clarissa me ajudará em algum patamar da minha carreira, é melhor
que comece a escolher o modelito para me acompanhar em algum teatro,
porque faço questão que me assista da primeira fila.
Sem essa de esforços, tristeza por não conseguir sozinha ou frases
motivadoras sobre a vitória. Há um grande convite de mudar radicalmente a
minha vida, e não será a modelo que me impedirá.
Pelo contrário, vou esbanjar tudo o que o dinheiro dela tem a me oferecer.
— Achei que você fosse uma pessoa legal — comenta.
— Eu também — sibilo. — Mas erros acontecem, é assim mesmo. —
Sorrio. Dou algumas batidinhas no lado onde está o maiô.
— Quero me trocar, Clarissa. Com certeza vão tirar fotos nossas na piscina e
não quero me atrasar.
A herdeira da Família Plume não me responde, apenas se mantém com os
braços curvados ao redor do corpo, tentando encontrar possibilidades para se
livrar de mim.
Na mesinha de centro, há uma edição da Louise Lou Brasil onde Clarissa foi
a capa de maio. Na foto, usa um vestido bege que apaga sua pele-negra clara
e não realça as maçãs alvas de seu rosto, porém, ainda é uma capa de uma
revista conceituada e Clarissa está nela, exatamente como uma modelo de
renome deveria estar.
Fim de papo.
— Faz o que você quiser — define.
Se usa psicologia reversa comigo, não sei dizer, mas faz uma saída triunfal e
dramática, batendo os saltos contra o piso de madeira. O tlec tlec tlec é
realmente sofisticado.
— Se eu soubesse que você seria assim, teria dado entrevistas a todas as
revistas que me chamaram — disparo de uma vez.
O corpo dela trava no meio do caminho; a mão segurando a maçaneta, os
ombros tensionados, a respiração controlada.
Assisto-a girar pelos calcanhares e voltar para perto de mim, com o dedo
anelar erguido, o cenho enrugado e os sentidos estremecidos por uma
simples frase de efeito.
Abro um sorriso na hora.
— Se eu soubesse que você era assim, nem ao menos teria tentado te
agradecer por nada!
Por favor, vamos terminar isso logo, antes que se estenda.
Você já ganhou seguidores suficientes, pode comer o quanto quiser aqui, me
conhecer e ir pra casa. Ok?
A frase retumba no fundo da minha cabeça, em ecos poderosos de irritação.
— Essa foi a forma que você encontrou de me agradecer? — repito,
desacreditada. — Vem cá, você é meio estranha, né?
— Eu só tentei...
— Você tentou se livrar de uma consequência. — É a minha vez de
interrompê-la. E a sensação é maravilhosa. — E, na boa, eu nem precisava
saber o que te levou a fazer o que fez, interpretar na frente das câmeras é a
coisa mais... Mais fácil do mundo. Se você espirrar, é capaz de te darem um
lenço para assoar em dois segundos.
Ela respira fundo, cansada.
— Sabe o que quero? Quero curtir — defino. — Sair, beber, conseguir
algum retorno no meio disso. E você? — pergunto. — O
que você quer?
— Não ter que suportar ficar perto de alguém tão prepotente.
— Estamos falando de você ou de mim? — Aponto para o meu rosto e o
para o seu, duas vezes. — Porque você acabou de se descrever.
— Você nem ao menos me conhece! — brada, tão irritada e desconcentrada
que avança um passo.
— E você me conhece? — Sorrio de lado, exalando calma e serenidade.
Duas emoções que lhe presenteiam com ódio puro, do mais fervente
possível.
— Não preciso te conhecer para saber com quem estou lidando. — Clarissa
anda mais um passo, enfurecida. Seus lábios se espremem e seus dedos se
apertam. — Quando eu vi que você estava amando cada segundo da
entrevista, eu soube que não estava lidando com uma amadora. Você deve ter
amado isso tudo assim que aconteceu, cada curtida a mais naquele vídeo foi
essencial para inflar o seu ego.
— Sério, cara. — Ergo a palma da minha mão. — Estamos falando de mim
ou de você? Ainda não entendi. Você é muito objetiva no que fala e acaba
resumindo a si mesma, é impressionante!
Não tem como estar mais furiosa do que já estou, mas se há algo valioso que
aprendi durante todos esses anos desviando do estado ranzinza da minha
irmã, é que menos é mais. Quanto menos eu demonstrar que estou afetada,
mais conseguirei tirá-la do sério.
Isso funciona com garotas mimadas e irmãs insuportáveis.
— Não dá para falar com você — desiste, deixando os ombros caírem para a
frente. A garota balança a cabeça para os lados, inconformada. — Mas só
para ressaltar, você deve ser mais uma daquelas pessoas irritantes que não
conseguiram nada de bom na vida, então começam a fingir que não dão a
mínima para nada.
Rindo de se acabar com situações sérias ou esquecendo que, sei lá, erros
acontecem. Você sabe que tentei melhorar a situação e explicar o mais breve
possível. Então, agora, preciso te aturar por mais tempo do que pensei. Te
aturar dando sorrisos lindos por aí, oferecendo risadinhas pros repórteres e...
Não o bastante, nadando na minha piscina!
O fôlego é o último elemento que Clarissa busca ao terminar de destilar todo
o seu veneno contra mim. Faço uma pausa de propósito, para que a herdeira
escute sua própria respiração escassa.
— Primeiro, ainda não nadei na sua piscina — começo, sorrindo de lado. —
Estava me preparando quando você veio aqui me importunar. Segundo... —
Pontuo com os meus dedos da mão esquerda. — Você acha o meu sorriso
lindo?
Esta última frase é um agradecimento monumental ao meu personagem
literário favorito que ganhou vida nos últimos anos; Anthony Bridgerton,
essa foi para você.
O desarme de Clarissa é glorioso de assistir, porque há uma certa pegadinha
em focar em palavras dispensáveis de um longo discurso carregado de
apatia.
— Chega — profere. — Vai se foder.
A atitude é acompanhada por uma batida única na porta, o tipo de toque que
só uma pessoa importante sabe o que está fazendo. Sem esperar por mim,
Clarissa anuncia que a pessoa pode entrar.
Em um segundo, seu pai aparece ao batente.
— Que bom vê-las juntas! — comemora. O sorriso é para a filha, mas a
investida é para mim. — Ária, minha querida, os jornalistas querem tirar
uma foto sua com a Rissa, tem problema?
Ainda não descobri se o prefeito é assim tão cordial porque está sendo
vigiado de perto ou se é mesmo tão devoto a oferecer uma boa educação.
— Claro! — praticamente canto. — Eu estava aqui mesmo falando para a
Rissa que deveríamos ter mais fotos juntas!
Sem convites, passo o meu braço por cima dos ombros dela, apertando-a.
Estou tão dentro desse papel, que sequer ligo para a minha maquiagem
horripilante.
— Rissa — o prefeito repete. — Que bom que você já sabe o apelido secreto
dela. — A frase é de um pai amoroso, não de um líder durão. — Enfim...
Batista termina de abrir a porta, deixando quatro jornalistas entrarem com
suas câmeras em mãos. Todos falam para sermos os mais naturais possíveis,
sem poses combinadas ou momentos de dúvida, apenas duas recém-
melhores amigas se conhecendo depois de uma semana agitada.
— Alguma declaração, Ária? — Um simpático jornalista ruivo quer saber.
Enquanto os cliques e flashes continuam, ele é o único que estica um
gravador de voz na minha direção.
Olho para Clarissa; seu semblante levemente fechado ainda diz muita coisa.
Se eu disser a coisa certa agora posso me safar de uma inimizade decisiva
com a filha da pessoa mais poderosa de São Palomane, posso voltar pra casa
e fingir que nada nunca aconteceu.
Encontrar Lilian, aceitar a carona até o clube e continuar com a minha rotina
de sempre, ou ao menos tentar.
Entretanto, pego o caminho mais complicado, aquele que pode me dar um
futuro brilhante ou me colocar na lista de ódio de pessoas poderosas. Mas é
o único que posso ditar, o único que, dependendo de como for, pode ser
escrito por mim.
— Só estou muito feliz por ter Clarissa como amiga — falo em alto e bom
som. — E feliz que passaremos tanto tempo juntas!
Á
CLARISSA E ÁRIA JUNTINHAS!
Hoje acontece o grande encontro envolvendo Clarissa de La Plume e sua
mais nova celebridade em ascensão favorita, Ária Campos . O prefeito da
cidade, ao lado da esposa e dos filhos, receberá Ária na mansão milenar da
família. Infelizmente, não fomos convidados para participar deste momento
icônico, mas as primeiras fotos já saíram, e a colunista desta manchete que
vos fala aposta todas as fichas que as duas serão melhores amigas!
As melhores!
Postado por MinutoGossip
5
“Foi aí que eu disse, Ok, bem, foda-se Meu bem.”
Sem Volta — Canção de Liz Salles Apenas decidi que queria ser uma
artista de teatro musical, não focando muito em TV e ou em filmes, quando
percebi que poderia interpretar uma rainha caricata. E quando digo isso,
estou me referindo a gritos potentes, vestidos de cetim com corações
pregados na roupa, figurino fantasioso e, quem sabe, um “Cortem-lhe as
cabeças!” preso bem no final da garganta, pronto para repercutir no interior
da plateia.
O ao vivo do teatro é emocionante e me faz vibrar. Erros são consertados
com improviso, escorregões ou tropeços que completam a apresentação,
tornando-a única. Ao aceitar mais um papel, você pode ser quem quiser.
Faz pouco mais de uma hora que decidi que enfrentaria uma nova
personagem para sair desta situação o quanto antes. O real problema é que
acho que não estou mais atuando.
— Ótimo — digo para o reflexo do espelho.
Meu corpo está dentro daquele mesmo maiô que demorei séculos para vestir,
o que aperta um pouco a minha cintura e marcará as minhas costas quando
for tirá-lo, mas é uma ótima peça.
Como a mansão continua um gelo, retiro um roupão novo e limpo do cabide
do banheiro e me aconchego nele, fechando-o na frente. Arrumo o cabelo em
um coque muito bem preso e deixo as minhas roupas juntas em uma pilha,
em cima da tampa da privada.
Clarissa, Lilian e Vinícius esperam por mim na piscina aquecida, no
subterrâneo da casa. Isso foi há vinte minutos, quando pensei em todas as
alternativas em fugir sem ser notada. Agora, eles já devem ter desistido da
minha presença.
Sem muita escolha, decido ir. Dar a cara à tapa, continuar com a minha
personagem. Seguro a maçaneta da porta e a giro, saindo do banheiro
olhando para baixo; para os meus pés dentro de chinelos de plumas, estilo
dondoca dos anos 50. É uma verdadeira graça.
— Ah...
Solto um gritinho abafado com as mãos ao me deparar com Natália, a mãe
de Clarissa, sentada na beirada da cama de hóspedes. Talvez, esperando por
mim. Quando entrei no banheiro, ela não estava aqui. Tenho certeza disso.
A primeira-dama de São Palomane permanece imóvel, lendo a revista na
qual Clarissa foi capa. Meu susto não passa de apenas mero detalhe para a
cena, sequer a comove.
— Desculpe — pede, encerrando sua leitura e fechando o exemplar. Deixa a
edição em cima do colo e sorri. — Não foi a minha intenção. — A
empresária me olha de cima para baixo e estala os lábios. — Mas eu quero
conversar com você antes de ir embora, Ária. Será que podemos?
Sua formalidade é intimidante, mas não difícil de entender.
— Ah, sim. — Termino de fechar a porta do banheiro direito e arrumo os
pontos amassados do roupão. — Claro que pode.
É agora que recebo uma bronca da mãe de Clarissa?
Para combinar com este dia caótico, nada como entrar na lista de ódio
pessoal de Natália.
— Antes, quero te dizer que você é uma graça de pessoa, Ária — elucida. —
É muito educada, e fico feliz que esteja ganhando reconhecimento!
Há frases em que precisamos detectar algum tipo de ameaça ou falta de
originalidade. Trabalho tanto com o público que comecei a captar os
detalhes ocultos em elogios demais. É provável que não seja o caso de
Natália, mas é bom ficar atenta.
— Obrigada. — Continuo longe dela, bem perto da janela principal do
quarto. — Obrigada de verdade.
Satisfeita, sorri ainda mais.
— Você sabia que eu fui a cinco shows da Liz Salles quando tinha a sua
idade?
A pergunta é tão animada que me contagia.
— Sério? — Ergo as sobrancelhas. — E como foi?
— Hum... Apertado? — sopra. — Eu era tão fã dela que seguia os carros, as
turnês, ia aos programas de auditório e me metia em brigas. — Sem reparar,
já estou sorrindo. — Passava dias fora de casa, porque acampava na fila dos
shows, era uma loucura!
— Você pegou a época de Dias de Glória? — questiono, me referindo ao
terceiro álbum de estúdio de Liz. Natália concorda, toda sorridente. — Foi a
melhor fase! Os balões coloridos no palco, as declarações de amor... Sério
que assistiu tudo isso ao vivo?
— Seríssimo! — Natália ergue a mão, jurando sua palavra. — Meus pais
ficavam tão irritados comigo, que não sabiam o que fazer.
Só quando Liz decidiu se aposentar que eu dei uma sossegada e comecei a
ouvir apenas os discos e acompanhar os programas na TV.
— E você tem algo dela? — indago. — Tipo um... Autógrafo?
— Deixei a minha coleção de vinis na casa de praia, mas devo ter uma
camiseta autografada no fundo do meu guarda-roupa — comenta, pensativa.
— Vou procurar qualquer dia desses.
Natália está tão confortável conversando comigo que posso finalmente
escutar os meus próprios pensamentos. Durante o bate-papo, ela mediou a
maioria das perguntas dos jornalistas e selecionou os repórteres indicados,
para que nenhuma pessoa fosse constrangida. Foi realmente gentil da sua
parte tomar tanto cuidado com uma pessoa tão leiga quanto eu, já que não
me lembro nem da metade da entrevista pelo nervosismo.
— Enfim. — Encerra o primeiro assunto ao ajeitar os ombros.
— Apesar de amar Liz e ela ainda ser a minha cantora favorita, não é sobre
isso que vim até aqui.
— Não? — sondo. — É sobre a Clarissa?
— Sim.
Depois que o prefeito nos deu privacidade novamente, a herdeira Plume
desapareceu do meu campo de visão o mais rápido que conseguiu. Passei
tanto tempo rindo da sua expressão de quem chupou limão e não gostou, que
mal percebi que estava atrasada para descer até a piscina e acabar logo com
esse show de horrores assistido.
— E o que, exatamente? — Me afasto o suficiente da janela, me sentando de
frente para Natália, usando o banco de apoio da penteadeira. — Sobre o
vídeo compartilhado?
Misteriosa, abre e fecha a boca, decidindo o que falar primeiro.
— Ária — pontua ao arfar. — Vou ser sincera com você, sei muito bem que
a minha filha compartilhou o vídeo acidentalmente.
Surpreendo-me. Pais realmente não compram nenhum teatrinho dos filhos.
— Sabe?
— Claro que sei — confirma de novo. — Ela é a minha filha.
Além dela, gosto de saber o que os dois estão fazendo e os conheço há anos,
então... — Natalia abaixa o olhar, admirando a foto de Clarissa na revista. —
E a Clarissa, bem... Ela sente muito pelo o que fez e imagino que tenha
tentado falar com você a respeito do incidente.
— É, você a conhece como ninguém.
Para a minha surpresa, a primeira-dama ri.
— E imagino que ela não tenha sido... Sensível.
— Nem um pouco.
— Bom, não vim aqui para pedir que a desculpe, sabe? — continua e, dessa
vez, volta a olhar para o meu rosto. — Vim aqui te pedir outra coisa.
Há dezenas de situações que casam com este curioso momento, mas
nenhuma delas é páreo para roteirizar a minha vida.
— O que, então?
A minha pergunta é acompanhada por silêncio e mistério, já que Natália
parece mais interessada em refletir do que falar. Então uso do tempo hábil
para reparar nela.
Dona de uma empresa de cosméticos desde os vinte anos, Natália é um rosto
influente com a Tulipe Tulipe, tem cinquenta anos e é mais velha que seu
atual marido. É filantropa, poliglota e uma das pessoas mais inteligentes que
se tem conhecimento ao pisarem em São Palomane.
Hoje, usa um poncho de cores quentes e fortes, ostentando um dos broches
oficiais do governo da cidade, trazendo as tão famosas heras venenosas em
destaque.
Sua pele negra-retinta é salpicada por pintas escuras, e há uma pequena
verruga no seu queixo que serve apenas para pontuar o charme de sua idade.
O cabelo é muito curto e crespo, em um corte moderno que realça suas
orelhas arredondadas e o nariz grande.
Natália é uma mulher muito bonita.
Muito.
— Bem... — decide. — Vou ser direta. Vim pedir que seja amiga da minha
filha.
— Ela não parece muito interessada nisso — confesso. E a propósito, penso,
nem eu. — E já deu para perceber que não sou muito bem-vinda aqui. De
acordo com Clarissa, é claro.
— Depois que ela voltou... Hum... Do intercâmbio, tudo mudou, sabe? —
discorre. — Quando ela foi embora, o pai era apenas um advogado muito
interessado no ramo político, quando voltou, era o prefeito. É uma mudança
e tanto...
— Imagino — ironizo, mas Natália não repara no meu tom.
— Os amigos ficaram na Europa e os que estavam aqui, não eram... Bons...
Consegue me entender? Ela, digamos assim, sempre teve dificuldade em
manter relações duradouras — questiona. Não faço ideia do que isso
significa, mas sacudo a cabeça de forma positiva. — E Clarissa é muito...
— Seletiva?
— Solitária.
A palavra me enlaça ainda mais para continuar a prestar atenção na
conversa.
— Não parece que seja.
— Mas ela é. Tem algumas amigas, preciso admitir. Mas são as mesmas de
sempre, desde o maternal quase. São poucas, mas honestas. — Natália
encara um ponto atrás de mim, fixada na janela.
— O que estou querendo dizer, é que é na mesma zona de conforto.
As mesmas pessoas, com os mesmos assuntos. — Outra pausa. — E a minha
filha tentou fazer amizade com alguns... Filhos de políticos e o resultado
foi... Terrível. Eles são péssimos, na minha opinião.
— Não tenho como discutir.
— É, pois é. — A mulher toma fôlego. — E Clarissa, como não tem muitas
opções, acaba se retraindo cada vez mais. Entende? — Assinto ao escutá-la.
— E depois que assisti ao seu vídeo e a conheci, fiquei pensando muito
sobre. Claro, também estou pedindo isso porque sei algumas coisas sobre
você.
Suspendo as sobrancelhas.
— Você colocou um detetive na minha cola?
— Não! — Natália ri, enrugando a testa. — Estou falando sobre a internet!
Há muita informação sobre você lá.
— Ah! — disparo. — Menos mal!
— Eu sinto que minha filha está se sentindo sozinha e pensei que você seria
uma boa companhia — emenda, focada no que conseguirá ao final desta
conversa. — Uma das amigas dela se casará em breve e vai embora. É uma
perda e tanto... Enfim, vi nesta situação uma grande oportunidade de vocês
duas... Se deram bem!
— Tem certeza?
— Tenho, sim.
— Olha, Natália, eu...
— Você se tornará uma pessoa influente, Ária. — Me interrompe, mas com
muita elegância. — As pessoas querem ansiosamente te conhecer. E com os
elementos certos, um jogo midiático específico e uma presença marcante,
não tem como essa fama repentina passar. É preciso que a segure o máximo
possível, até torná-la estável.
— Você está dizendo que...
— Que se for amiga da Clarissa, oferecerei todo este suporte para a sua
carreira, porque, pelo o que eu entendi, você quer uma carreira, não apenas
cinco minutos de entrevistas superficiais, certo?
Sacudo a minha cabeça em afirmação, estática.
— Foi o que eu pensei. — Sorri de novo. — E como vocês duas andarão
juntas, as pessoas a verão lado a lado com Clarissa, é mais do que normal
que se torne uma figura pública daqui para a frente.
— E se eu não quiser? — murmuro, limpando a minha garganta. — Ser
amiga dela? E nem ser uma figura pública? O que acontece?
Natalia meneia a cabeça para o lado.
— Nada?! — sibila, confusa. — Não é uma ameaça, é um pedido. Como um
troca. Seja amiga dela e cuidaremos dessas burocracias para você — resume.
— E se você não quiser, tudo bem!
— Sério?!
— Sim.
— Não vão tentar me matar quando eu não estiver olhando?
— Eu poderia me ofender com essa pergunta? Sim, poderia.
Mas a resposta é não, não vamos te matar — assegura, rindo de nervoso. —
Nem perseguir a sua família.
Levo bons minutos pensando, impressionada.
Acordar todos os dias para saudar os meus seguidores viciados na minha
rotina não é o que eu quero, mas preciso reconhecer que uma semana com o
nome interligado aos dos Plume me rendeu mais clientes do que meus pais
viram em meses.
Em anos!
O movimento melhorou quando inauguramos a ala das despedidas de
solteiro, mas ainda assim, não pagou nem um terço das dívidas centrais.
Tem aluguel, salário dos outros funcionários, instrumentos para consertar,
reforma para começar, além de questões básicas, como alimentação e o lazer
dos meus pais. Faz muito tempo que Reinaldo e Bete não saem para se
divertir, sem ter hora para voltar, sem pensar em economizar consigo
mesmos.
Se aceitar a proposta de Natália, ainda posso ditar exatamente o que quero da
minha carreira. Tenho que ser determinada e, além do mais, será apenas uma
ajuda, como Natália bem disse.
E não dou importância ao que Clarissa pensa de mim ou deixa de pensar. Ser
interesseira é a única forma de atingir os meus gloriosos objetivos neste
exato ponto onde a minha vida se encontra.
Não há mal nenhum desejar a coroa de um reino, quando há tantas chances
de conquista.
— Posso tentar — é o que eu digo. Os olhos de Natália acendem de
animação. — Mas... Com alguns pedidos antes.
— Me fale quais!
Hesito, mas prossigo.
— Pode parecer bobo, mas talvez de fato... Seja. — Limpo a minha
garganta. — Meus pais têm um negócio, somos de Hedini.
Seria legal se mais pessoas nos conhecessem. Então... Quando for
perguntada qual é o melhor bar musical da cidade, diga que é o Clube 148.
Com marketing gratuito e quase genuíno, é capaz que as pessoas apareçam
por lá mais vezes.
Natália curva os lábios, surpresa com a condição.
— Feito — decide. — E o que mais?
— Ainda vou decidir — garanto, friamente. — E te aviso. Pode ser?
— Pode. — Levanta-se da cama, deixando a revista de lado.
— É capaz que você apareça aqui quando quiser e Clarissa vai reparar, não é
boba. Então, quero apresentar uma desculpa... — fala.
— Um dos feriados mais importantes para a cidade é daqui a dois meses e a
Clarissa tocará piano em homenagem ao evento. Está meio enferrujada e
quero que pratique com ela.
— Como sabe que sei tocar piano?
— Eu disse que pesquisei a fundo sua vida, Ária. — Pisca. — Enfim, o que
me diz?
— Posso ser a tutora dela se os clientes no bar dos meus pais aumentarem —
digo, sem me deixar abalar. — Quando o negócio dos meus pais estiver
explodindo, com filas quilométricas, pessoas vidradas em buscar diversão
nas noites temáticas, eu volto aqui. Até lá... Veremos. — Ergo um dedo. —
Em resumo, sucesso nos negócios e serei amiga de sua filha. A melhor já
vista.
Natália, se me detesta em apenas uma conversa ou se estabeleceu um
enorme respeito por mim, é boa em disfarçar qualquer emoção, porque
apenas acena com o queixo, pragmática.
Faz um sinal de despedida com os dedos e salienta: — Divirta-se, Ária.
E pronto.
Desfila para fora do quarto, me deixando sozinha com o nosso mais novo
acordo pairando pelo ar.
Definitivamente, não estou mais atuando.
VAMOS FALAR A VERDADE, PESSOAL?
Clarissa de La Plume pode ser o que for, mas que ando com muita
curiosidade para conhecer melhor a Ária , isso não posso negar.
Afinal, quando conheceremos a mais nova sensação?
Postado por MinutoGossip.
6
“Nem tente decidir por mim Sei o que ando fazendo.
Se é certo ou errado Nem o diabo falará em voz alta.
Há Muito o Que se Fazer — Canção de Liz Salles Vestido de Homem de
Ferro, meu pai coordena de longe alguns funcionários do Clube 148 a
pendurarem de maneira certa uma fotografia emoldurada na Parede da Fama.
O espaço que deveria ser preenchido por artistas que já visitaram o bar não
possui muitas fotos. Na seleção, há meu pai praticamente dando um mata-
leão no Chacrinha — dá para ver o rosto do velhinho contorcido em
desconforto — e uma fotografia embaçada de quando minha mãe encontrou
a Gretchen no aeroporto, uma vez. De resto, a parede nunca mais foi
atualizada.
Exceto por hoje.
Reinaldo parou todo o expediente, antes de abrirmos em plena sexta-feira,
para fazer a maioria de nós assistirmos o exato momento que uma foto
minha e de Clarissa de La Plume é exibida. A imagem é bem maior do que a
de Chacrinha ou da Gretchen, esconde bons cubos de tijolos e é horrenda.
Clarissa mantém a expressão fechada, é hostil e seus ombros continuam
curvados para a frente; o meu sorriso é mecânico, assustador e nada natural.
Mas mesmo que seja um desastre completo — e captado em seu estado
sólido —, ainda se trata de alguém muito famoso.
— Tá ótimo! — elogia meu pai, fazendo um sinal com os dedos que formam
um OK perfeito.
— Tá ridículo, isso sim — Lilian debocha.
Meu pai coloca a mão na cintura, apertando as pálpebras ao olhar da imagem
para mim três vezes. Os dois funcionários que descem de uma pequena
escada portátil e que o ajudaram a pendurar o quadro não têm coragem de
dizer a verdade para o meu velho. E ainda que tivessem, não diriam uma
palavra.
— É... — confessa meu pai. — Bonito não tá, mas vai ficar assim.
— Precisava de tudo isso, Rei? — mamãe pergunta, com os braços cruzados
na altura do busto. Ela está fantasiada de Viúva Negra, com direito à peruca
falsa de cabelo sintético ruivo e tudo. — A Ária está quase pedindo socorro
nessa foto.
— Quase, não — emendo. — Estou!
Reinaldo desconversa, pronto para ouvir reclamações — mas não se
importando com nenhuma delas.
— Vai ser bom para os negócios — insiste, quase desacreditando na sua
ideia mirabolante. — Não vai, Ária?
— Pai, isso deve ter custado uns... Duzentos reais. — Aponto para este troço
que ficará pendurado aqui pela eternidade dos meus dias. — Isso não é
demais, não?
— Marketing — define Reinaldo Campos. — Puro marketing.
Nenhuma de nós tem paciência para argumentar, porque pela lógica, ele tem
total razão.
Logo após a conversa com Natália, o decorrer da tarde de sábado foi curioso.
Não de um jeito bom, é claro. As fotos que tiraram de mim na piscina foram
as melhores, mas quase nenhum jornal as publicou. Parece que veículos de
comunicação amam fotografias horripilantes, porque nenhuma me
favoreceu. Tampouco esta que meu pai mandou imprimir, ampliar e a
transformou em um quadro de quase um metro e meio de altura.
Inclusive, o dono da banca de jornal, o Seu Pires, me disse hoje de manhã:
“Eu disse que te veria na TV, garota! ”. A única parte boa de tudo isso.
— Obrigada, pai — é o que eu digo. — Vou me lembrar desse dia estranho
para todo o sempre!
— Superestrela, é apenas tirar proveito da situação! — Ele toca o meu
ombro, sendo sábio. — Não é o que dizem? Oferta e demanda?!
— Não sei quem fez a oferta, mas acredito que a demanda esteja
desesperada.
— Basicamente isso — brinca, me fazendo rir finalmente.
Nunca pensei que levaria um sermão de um Homem de Ferro, é o que torna
o instante engraçado.
Penso em como posso usar essa experiência para o meu trabalho de
composição de jingles.
Balanço a minha cabeça para tranquilizar o meu pai e ele sorri, feliz em
poder prosseguir com sua tramoia. Dá mais algumas batidinhas no meu
ombro, toca o meu queixo e se afasta, para poder conferir a decoração de
hoje à noite. Vamos oferecer a Noite do Herói, mais uma festa temática em
comemoração a todos os ingressos antecipados que vendemos na internet.
Com uma semana de dianteira desde o encontro com Clarissa, fizemos
algumas melhorias e extrapolamos nosso orçamento do mês. Meu pai disse
que é apenas investimento, então é preciso se agarrar a uma chama de
esperança para que nada saia dos trilhos.
Dentro delas, conseguimos trocar as mesas e as cadeiras do salão principal,
consertamos a mesa do DJ, trocamos o fornecedor de refrigerantes,
conseguimos hospedar nosso site amador em um software mais moderno e o
design do Instagram mudou. Ainda é pouco comparado à lista imensa do que
precisamos fazer, mas já dá um frescor diferenciado no dia a dia.
— Vou convencer seu pai a destruir esse negócio até o fim do mês. — Minha
mãe aponta para a foto com o nariz, fazendo carinho nas minhas costas.
— Podemos fingir que o bar foi assaltado — falo, dando a minha
contribuição.
— Superestrela. — Suspira. — Nem um ladrão roubaria isso.
Seu pai não é tão fácil assim de enganar!
Olho para minha mãe com a boca aberta e levamos menos de dois segundos
para rirmos muito alto uma da outra. Ok, posso
conviver com o meu rostinho ao lado de Clarissa pelos próximos meses.
Ossos do ofício.
— Vou lá pra trás começar a separar as carnes para os hambúrgueres —
mamãe avisa, separando-se de mim. — Terminem de arrumar as mesas, por
favor!
Sozinha, continuo a amaldiçoar a imagem, e a cada vez que a encaro,
encontro um defeito a mais. Neste segundo, acabei de reparar que a minha
camisa social estava abarrotada de tantos focos amassados e mal cuidados.
Minha irmã para ao meu lado, deixando seu ombro resvalar no meu. Desde
que voltou da visita à mansão, Lilian continua um pé no saco. Ainda é a
pessoa mais chata que conheço, mas até que seus comentários andam
certeiros demais e talvez — eu disse talvez — esteja suportável.
— Você é mesmo a filha favorita, né?
Ok, retiro o que disse.
— Sem paciência para você hoje, Lilian. — Giro o meu corpo, saindo de
perto dela e da Parede da Fama. Arranjo uma mesa para supervisionar e
separo copos dos talheres. — Passa amanhã, se eu tiver sorte de encontrar
uma secretária até lá, você pode repassar suas reclamações para ela.
De soslaio, espio quem se move na minha direção.
Fantasiada de Feiticeira Escarlate, Lilian está muito bonita dentro do
figurino fiel que encontramos em homenagem aos quadrinhos.
— Não estou dizendo para te provocar — fala, sorrindo de maneira amarga.
Com cuidado, retira um copo de vidro da minha mão e o repousa no centro
da mesa mais próxima. — É apenas a verdade. Doa a quem doer.
Lili sorri sem mostrar os dentes e dá as costas para mim, me ajudando a
arrumar o salão que sediará o retorno do maior público que já tivemos.
Natália cumpriu o que disse.
E vou ser bem petulante com o que falarei agora, mas não precisávamos de
suas recomendações. No dia seguinte à visita, já colecionávamos uma boa
leva de clientes.
O salão principal do Clube 148 está cheio o suficiente para fazer os garçons
tomarem cuidado ao sustentarem uma bandeja perto das mesas lotadas,
cautelosos com incidentes que podem acontecer a qualquer segundo.
O bar é mais uma extensão do salão; fregueses afoitos, ansiosos e eufóricos,
desejando uma boa visão do palco, onde o DJ
comanda a pista de dança pequena e reclusa para os poucos sortudos que
conseguiram chegar mais cedo.
É uma visão anormal.
Encher, na realidade, não. É uma sorte quando a última latinha de cerveja é
vendida, mas o clube estar infestado de gente, com pessoas quase saindo da
janela, essa é a grande novidade.
— Cinco cervejas, petiscos de camarão e fritas — repito o pedido da mesa
sete, apoiando a bandeja na ponta da mesa.
Os fregueses que atendo hoje são um grupo de quatro pessoas, um casal e
dois amigos. Os dois últimos usam camisetas do Capitão-América e do
Hulk, enquanto o casal usa broches que se completam do Falcão e do
Soldado Invernal.
— Ei... — a única garota à mesa diz, indicando o meu rosto.
— Você não é... A filha do prefeito?
Com a música alta, é capaz de eu ter escutado errado.
— Não, não. — Rio sem graça. — Sou... Enfim, não sou ela.
— Não! — Um deles completa. — Não é a filha, mas é a garota que canta
Liz Salles. É você, não é?
— Sim... Sou eu.
A mesa vibra em conjunto. Os amigos e o casal trocam olhares empolgados.
— Eu te sigo! — a garota diz. — Adorei seus vídeos, por que não postou
mais nada?
Gratidão e medo se mesclam quando escuto toda a pergunta.
Gratidão, porque uma pessoa sentiu falta dos meus conteúdos, depois de
quase duas semanas sem postar nada. Desde o vídeo-cover, não alimentei
minhas redes sociais com nada além de uma selfie que publiquei
acidentalmente. E medo, porque agora sou reconhecida. E muito.
— Ah... É o tempo — desconverso, terminando de servir à mesa. — Ando
trabalhando demais.
— E você tá fantasiada de quê? — O namorado dela pergunta, me olhando
de cima a baixo. — Não te reconheço.
Coloco a bandeja debaixo do meu braço.
— MJ Jones — profiro. — Sabe? Homem-Aranha do Tom Holland.
— Não é uma fantasia.
— Bom — discorro. — Agora é. Bom apetite, pessoal!
— Peraí! — gritam ao mesmo tempo. O de camiseta do Hulk diz: — Canta
uma música aí pra gente. Viemos aqui só para te ver.
Se eu sair correndo é falta de educação?
Se eu me recusar a fazer qualquer coisa além de servir mesas, o grupo
avaliará o clube com menos de três estrelas na internet?
— Não, valeu — gesticulo. — Preciso servir as mesas.
— Anda! — Capitão-América incentiva. — A maioria aqui quer te ver
cantar! — ressalta. — Ok, não posso falar por todos, mas posso falar pela
gente!
Seus amigos lhe apoiam, com tapinhas no braço e gritinhos animados.
À essa altura da conversa, as mesas ao redor já me reconheceram. Isso quer
dizer que uma chuva de cotovelos se cutucando começou. Pessoas
intercalando pessoas, apontando e sussurrando para mim sem serem
discretas. Simplesmente porque não conseguem usar da discrição uma fiel
arma para a fofoca.
— Vai — continua. — Uma palinha...
— Canta, canta, canta!
Uma pessoa aleatória repuxa um coro ensaiado que contagia até as mesas
mais afastadas, perto da saída. O efeito em onda chega ao bar, fazendo os
barmans respirarem aliviados pelos clientes que se distraíram por apenas uns
segundos. Viro lentamente para enxergar o salão que se explode em um
pedido único e simples.
É surreal pensar que todos me conhecem e estavam esperando apenas uma
pequena brecha para solicitarem a comprovação do meu mais recente
sucesso.
Eles devem estar se perguntando; sorte ou talento?
Se eu errar uma nota ao vivo, terá uma pessoa nesta plateia até então
inofensiva que comprovará que não mereço nada do que estou planejando
conquistar.
É por isso que inflo o meu peito, abrindo um sorriso amarelado ao tentar
conter os gritos que fervem o ambiente. A música estridente é apenas uma
batida dentro das caixas de som, e até mesmo as pessoas suadas da pista de
dança suplicam por me ver.
Na multidão, encontro o meu pai e a minha mãe, que apenas dão de ombros.
Se eu fugir, eles conterão os zumbis que ficarão na minha cola. Se eu subir
no palco, serão os primeiros a aplaudir.
Então, sigo em direção ao enfoque colorido de luzes neon, onde o DJ da casa
já me oferece o microfone para se encaixar no apoio.
Deixo a bandeja com uma das garçonetes que encontro no caminho e arrumo
a minha postura. Confiança é tudo, e já estive nas ruas apresentando a minha
arte para plateia mais exigentes que essa.
Sem a música por perto, o clube nada mais é que um recinto abafado e
barulhento.
— Boa noite, pessoal — digo perto do microfone, me sentindo em casa. —
A maioria aqui deve ter me assistido por aí. Correto?
Eles vibram.
Meu Deus, eles reagem bem mais do que das outras vezes.
— Vou levar como um sim. — Minha risada causa uma pequena sensação de
conforto, porque escuto as risadas deles de volta. — Nada mais justo que
cantar o que me trouxe aqui.
A primeira fileira da plateia pula e grita, ansiosa pelo momento.
Sem meu violão ou guitarra, deixo que o DJ coloque a batida pronta de
“Minha Alma Chora” para mim.
Nunca fui tímida, nunca me acuei. Monopolizar meus pais para apresentar
meus programas imaginários quando era criança se tornou uma das minhas
partes favoritas em me considerar uma grande artista desde muito nova.
Sempre foi assim.
Hoje, não fica para menos.
Não quando meu timbre acerta pontos sensíveis que a música alcança, não
quando um mar de lanternas de celulares rapidamente se ergue para mim.
Reviver uma das minhas canções favoritas é relembrar o motivo de amar
cantar, acima de tudo.
Em modelar, venci alguns concursos de beleza. Mas me inscrevia apenas
porque gostava da atenção e dos aplausos. O ego inflado por pessoas
desconhecidas que me julgariam facilmente pela roupa.
Nas artes cênicas, a paixão de vivenciar histórias diferentes.
Mas é com o canto que posso ser eu mesma; reivindicar minha chama
artística e orgulhar meus parentes, pois sabemos que viemos das notas de
uma melodia.
Canto para o público de braços abertos, deixando que os versos fluam. A
música fala sobre quando Liz percebeu que jamais seria apoiada pela
família, e há beleza maior do que o puro sofrimento de uma dama musical?
Há coisa mais singela do que revivê-la?
Sei de cor e salteado, é por este motivo que quando a música termina, ainda
penso que falta uma parte minha ali, ainda viva, ainda esperando por um
desfecho melhor. A sensação sempre é a mesma.
Em uma hora, estou cantando.
Na outra, terminei.
Ser ovacionada me tira do eixo, porque repenso se fiz algo de errado, mesmo
sabendo que não. Aperto o microfone com força, agradecendo com um
sorriso imenso tamanha dedicação de uma plateia em me fazer sentir
confortável.
Tento reparar em cada rostinho feliz em me ver. Cada cliente que deixa seu
prato ou sua bebida de lado para pedir mais uma música. Reparo tanto, que
sei que fui vigiada — além de estar aqui com eles.
E bem ao fundo do ambiente, encapuzada como um dos milhares de heróis
que ainda insistem neste disfarce tão dispensável, posso jurar que vejo
Clarissa me aplaudindo.
Porém, decide ir embora tão rápido quanto veio.
07.01
“É isso, não é?
Perder tem este gosto?
Pois que se dane, É melhor me servir mais três doses!”
Faça e Aconteça — Canção de Liz Salles ÁRIA CAMPOS EM UM
MINI-SHOW
Na noite de ontem, recebemos vídeos exclusivos de Ária Campos revivendo
seus dias de praça, ao cantar “Minha Alma Chora”, de Liz Salles. O
momento nostálgico foi captado por alguns clientes que tiveram a sorte de
encontrá-la no bar musical, Clube 148.
Poderosa, hein?
Será que veremos mais disso?
Postado por MinutoGossip — Por onde você andou?
Apoio a capa do violão e o próprio violão atrás da porta, retiro a jaqueta
corta-vento e a jogo no sofá dos meus pais.
— Cantando na praça do final da rua — respondo, entrando na cozinha
apertada e abrindo a geladeira, sem cerimônias. — Hoje foi legal, consegui
quase cinquenta reais só em trocados!
Na primeira fileira, pego a jarra com suco de laranja e me sirvo de um copo
cheio, dando ouvidos à minha língua sedenta por um pingo de qualquer
líquido refrescante.
Não escuto uma réplica da minha mãe, então refaço o caminho até a sala,
levando copo e jarra. Bete Campos está aninhada no sofá, com o cobertor na
metade das pernas, com os pés apoiados na mesinha de centro. Seu caderno
de finanças descansa no apoio do braço, enquanto termina de fazer algumas
contas.
— Precisa de ajuda? — ofereço, me aproximando dela.
— Não, não, estou terminando de somar os ganhos extras da casa e... — Ela
ergue o caderno na altura dos olhos, orgulhosa. — Vamos conseguir pagar
seu tio Ferdinando até o começo da semana que vem.
— Sério? — Estico o pescoço para enxergar melhor aquele bendito caderno.
— O empréstimo todo?
— O empréstimo todo! — reforça, cada vez mais energizada.
Há sete meses, uma enchente inesperada devastou a maioria das ruas do
nosso bairro. Famílias perderam suas casas e negócios, comerciantes
precisaram mudar às pressas e muitas pessoas deixaram os lados de Hedini
para sempre. Meus pais foram persistentes, é claro. Com o banco, não
adiantava mais negociar, então recorreram à pior pessoa possível na família.
Tio Ferdinando é dono de um frigorífico bem-sucedido no Rio de Janeiro, é
o tipo de pessoa odiosa para fazermos amizade e ainda mais periculosa
quando precisamos de ajuda. O empréstimo não foi apenas caro, também
custou a alma dos meus pais.
Pagar toda a grana é uma verdadeira libertação.
— Cacete?! — Boquiaberta, repouso a jarra do lado contrário da mesa de
centro. — Cerveja hoje é por minha conta!
— Não sei o que você disse àquela família, Ári. — Ela ignora a última parte,
sorrindo. — Mas funcionou, porque tenho certeza que você disse algo...
Aquela dondoca da Natália jamais colocou os pés aqui, mas soube que
recomendou o lugar como se tivesse propriedade.
É a minha vez de ignorá-la, porque uso o momento para buscar um copo na
cozinha para servir um pouco de suco de laranja à minha mãe.
Um dos motivos pelo qual meus pais não apoiaram Batista de La Plume é
que suas promessas eram tão vagas quanto suas realizações. O maior
problema da cidade são as chuvas e as inundações. A época de tempestades
se aproxima e ainda não sabemos sua real intenção em nos ajudar. Com a
eleição de Batista, as enchentes se tornaram frequentes e o silêncio do
prefeito quanto às tragédias só aumentou.
— Talvez ela só queira ajudar — é o que eu respondo de volta à sala de
estar. — Não é isso o que gente rica gosta de fazer? Ajudar os pobres?
— Pensei que ela fosse te dar um cheque — brinca, aceitando o suco.
— Poderia, mas às vezes eles querem ajudar como se... Não quisessem.
Entende?
— É, acho que entendo.
Sorrio.
Minha mãe é uma das pessoas que mais respeita o meu silêncio. Se não
apareço desatando a falar sobre um assunto, não perguntará até que eu me
sinta à vontade. Todas as vezes que terminei um namoro ou deixei de falar
com grandes amigas, Bete apenas me apoiava com um sorriso e um carinho
nas costas.
Isso também se enquadra no que aconteceu ou não aconteceu na mansão de
La Plume.
— Então, mãe... Você acha que a divulgação de Natália está surtindo muito
efeito?
Ela bebe um longo gole da bebida, estalando os lábios.
— Como foi seu dia? — Muda de assunto, voltando a fazer a conta. —
Cantou o que hoje?
Demoro um tempo para decidir se insisto na minha questão de novo ou se
narro como foi o começo do meu dia. Sigo a segunda opção, porque parece
mais fácil.
Hoje, um dia após o sucesso da Noite do Herói, acordei vívida por atenção
de uma multidão. Então conto que o Seu Pires me deu mais jornal de graça,
que cantei duas músicas do Tim Maia, uma da Elza Soares e finalizei com
um pouquinho de Liz Salles, porque pediram bastante. Falo que a praça
encheu em coisa de cinco minutos, só para me verem cantar.
— Vai começar a andar com seguranças daqui a pouco, Ária — debocha.
— Espero viver um romance com um deles — devolvo a investida. Minha
mãe ri de mim, sacudindo a cabeça. — Tô falando sério! — Ouço sua risada
contagiar o apartamento silencioso.
Satisfeita com sua reação, cutuco seu joelho. — E então? Acha que a Natália
ajudou ou não?
Misteriosa, fecha o caderno, dando seu momento de finanças como
encerrado.
— Nem todo marketing pode fazer as pessoas ficarem em um ambiente
ruim. Ajudou sim, mas o que manteve as pessoas interessadas não foram os
dizeres da primeira-dama. — Sorri. — Foi o próprio clube... E uma garota
talentosa a quem eu chamo de Superestrela.
Dizem que promessa é dívida, e dá para compreender a frase só de jurar que
pagará uma coxinha para alguém. Porém, quando você diz que aceita um
acordo interpessoal e profissional com Natália de La Plume, a dívida será
cobrada o mais rápido possível.
Ou seja, um sábado às seis da manhã em ponto.
— Tem certeza? — Minha mãe me segue de perto, segurando a minha
mochila feita de tecido jeans. — Isso é muito estranho.
— Por isso eu pensei em ir escondida. — Seguro a alça da capa do violão e
retiro a mochila de suas mãos. — Natália me convidou para passar um final
de semana lá. Clarissa precisa de aulas de piano.
— A Lilian toca piano melhor do que você.
— Desde quando você é tão cruel assim? — Me finjo de ofendida. — Eu sou
boa também, não tanto quanto a Lilian, ok, mas... Enfim, é uma boa
oportunidade.
Do lado de fora do clube, Bete enruga o nariz, desaprovando o carro
caríssimo que me espera do outro lado da rua.
— Não sabia que você tinha se tornado tão amiga dessa garota.
— Mãe — murmuro. — Tem uma foto dela na Parede da Fama, somos
quase unha e carne. — Sorrio, amarga. — E até ontem
eu estava elogiando que você respeita o meu silêncio. Cadê a minha
credibilidade?!
Bete não diz mais nada; está dividida entre ser teimosa ou fingir que não se
importa.
— Tem razão — declara. — Você é uma adulta agora, Ária.
— Sim, não que eu saiba o que estou fazendo com a minha vida. Ser adulta e
saber o meu rumo são duas coisas bem diferentes.
— Entre nesse carro logo antes que eu mude de ideia.
Abro um sorriso imenso, encosto na sua bochecha com o maior beijo
molhado que consigo lhe oferecer e atravesso a rua correndo.
De manhã, em pleno sábado, o bairro de Hedini é um antro deserto de gatos
de rua, latas de lixo cheias e bêbados pelos cantos, adormecidos.
O motorista me ajuda a arrumar o violão no porta-malas — e é o mesmo que
me levou ao almoço na mansão, há quase duas semanas. Sentada e
acomodada nos bancos traseiros, aceno para a minha mãe,
desesperadamente. Apenas fazendo graça para esconder todo o meu
nervosismo.
É bom que eu esteja fazendo a coisa certa.
Nada mudou na construção de La Plume desde quinze dias atrás, exceto que
uma barricada de poucos opositores acampa na entrada principal. Os
eleitores de um dos principais rivais de Batista erguem cartazes com “Não é
o meu prefeito!” e prometem que, nas próximas eleições, os resultados serão
bem divergentes das anteriores.
Não são uma grande ameaça, mas ainda é assustador vê-los em uma missão
tão sem escrúpulos. E embora nenhum deles esteja armado visualmente, o
motorista dos Plume não se aproxima da portaria principal; contorna a
residência até a segunda portaria, em acesso ao subterrâneo. Onde os
alimentos e os demais suprimentos da família são descarregados.
— É sempre assim? — pergunto ao saltar para fora do carro.
— Aquelas pessoas aqui?
— Nem sempre. — Carlos, o motorista, responde, retirando o meu violão do
porta-malas e me seguindo até o elevador. — Às vezes a imprensa aparece,
aí sim é meio caótico.
O elevador abre as portas, completamente vazio.
Entro primeiro, observando Carlos pousar o violão no chão. As portas se
fecham e, cinco segundos depois, estamos no principal estacionamento da
residência. Gentil, ele me conduz até o primeiro andar, no mesmo hall
principal que tive o desprazer de ser separada de Lilian.
Ao contrário da minha casa, a mansão Plume é barulhenta e agitada. São
apenas seis e meia da manhã, mas parece um dia qualquer de trabalho.
— Ária, você se importa em ficar no mesmo quarto daquela última vez?
Natália é uma sensação, porque surge de repente, de uma das mil portas
lacradas do hall, sendo seguida por uma atenta equipe de filmagens. Um dos
assistentes segura os produtos da linha Tulipe Tulipe, então adivinho que
seja alguma publicidade para a marca.
Levo bons segundos admirando seu poder singelo de ser uma estrela.
— Ah... Não, não, sem problema!
— Ótimo! — vibra e pisca, voltando-se para o motorista. — Carlos, pode
ajudar a menina com o violão até lá em cima? — questiona. — E depois
pode descer para a cozinha, tem pão de milho. Você pode tomar café da
manhã.
— Tô sem fome, chefia. — Carlos sorri, batendo as mãos na barriga. — Mas
aceito, porque pão de milho não é bom negar.
— Exatamente. — Natália sorri. Carlos passa por nós, levando meu violão
primeiro. — E, Ária, boa sorte — deseja. — Clarissa acordou... Mal
humorada.
— Todos os dias são assim, então.
A frase é muito baixa, mas desconfio que Natália tenha me ouvido, porque
sorri discretamente e acena com os dedos, sutil.
O grupo e a primeira-dama desaparecem em outra porta, então fico sozinha
de novo. Sigo Carlos pelo caminho que tento relembrar e encontro o antigo
quarto, aquele em que tive uma conversa atípica com Natália. Ao abrir a
porta, me deparo com uma nova decoração que se sobrepõe à antiga.
Os quadros de paisagem foram substituídos por pôsteres de luxo da Liz
Salles e da Miley Cyrus. A penteadeira tem strass de brilhantes ao redor do
espelho central e há bombons, salgadinhos e bebidinhas apoiados em uma
mesa ao lado do frigobar cheio de refrigerante, água e leite com chocolate
gelado.
Em cima da cama, ao lado do violão, há um buquê de rosas com um bilhete
escrito à mão.
“Seja bem-vinda, Ária!”
O tratamento de realeza não termina, porque as toalhas foram selecionadas
com bordados trazendo as minhas iniciais, e os sabonetes líquidos foram
personalizados com fragrâncias artesanais feitas especialmente para mim.
Com muito mais calma, percebo em detalhes que ainda não havia reparado.
Tem uma TV embutida na madeira do guarda-roupa; há um interfone ao lado
da porta; a cabeceira é entalhada em heras venenosas, para combinar com o
broche preso no meu peito direito; a janela dá para a piscina e para a área de
verão.
Afasto as cortinas apenas um pouco para espiar o que há do lado de fora.
Daqui de dentro dos muros altos, protegidos por cerca elétrica, os opositores
não são vistos, é de se imaginar que nada esteja acontecendo lá fora.
Levo um pequeno susto quando o interfone toca.
Me afasto das cortinas como se tivesse sido pega em flagrante e corro pelo
quarto, atendendo no segundo toque.
— Oi?!
— Ária, né? — Uma voz masculina fala do outro lado da linha.
— Aqui é da cozinha. A dona Natália quer saber se você quer tomar café da
manhã aqui, na sala de refeições, ou no seu quarto.
Estou dentro de uma novela e não sei. Andarei pelo calçadão de Copacabana
ao som de bossa-nova a qualquer instante.
— Hm... Posso comer aqui?!
— Claro que pode! — Ri, educado. — Em um segundo a comida estará aí.
Ele desliga após escutar meu agradecimento, porém meu estado de choque
continua até mesmo quando me deparo com a comida chegando e sendo
servida em uma das mesas distribuídas pelo quarto.
E até mordiscar um pão de queijo feito de grãos de bico que tem um sabor
diferente — e não estou me referindo a ser feito de grãos.
07.02
Depois de terminar de comer o meu café da manhã, até penso em me esticar
na cama grande de colchas macias e importadas para tirar um cochilo, mas
logo desisto. Bebo o último gole do suco de mamão, limpo as gotas que
escaparam da minha boca com o dorso da mão e salto para fora do móvel,
decidida a começar com as minhas metas e tarefas.
Afinal, estou aqui para cumprir um trabalho sério.
Antes de adentrar o precioso espaço pessoal de Clarissa, verifico a minha
aparência no espelho da parede. Meus cabelos avoados e cacheados estão
soltos, minha franja continua bagunçada de um jeito selvagem e glamoroso
que eu gosto bastante. O que destoa a minha harmonia facial é uma nova
espinha que nasceu na ponta do queixo.
Não sei onde li que essas coisinhas param de crescer aos vinte e um e, agora,
com esta idade, posso dizer que é mentira.
Balela pura.
Pisco para o meu próprio reflexo e marcho em direção à porta que conecta o
quarto de Clarissa com o meu. A passagem dá para um corredor privado,
com estantes de madeira em cores brancas, tendo livros de Direito, vasos
com flores de plástico e caixas de MDF
nas prateleiras expostas.
O caminho até a porta seguinte é demarcado por vinte ou trinta passos.
Atravesso toda a passagem de queixo erguido e paro apenas quando percebo
que é muita falta de educação entrar sem ser convidada.
Mas é só me lembrar de frase por frase ditas por Clarissa que logo sou
tomada por uma força maior de determinação, invadindo o recinto de
maneira sórdida.
— Bom dia flor do dia — cantarolo, acenando para seja-lá-aonde-ela-estiver.
O quarto de Clarissa é uma concepção de branco e cinza que me dá a
sensação de estar presa em uma caixa; encontro-a sentada no parapeito
estofado da grande janela, encolhida, lendo um livro e bebendo uma xícara
de café, presumo.
— Além de exagerada, é barulhenta — ressoa, sem retirar os olhos da
página.
— Em outras ocasiões sou sorrateira e silenciosa, mas dependendo com
quem estou, posso ser o que quiser.
O duplo sentido a faz revirar os orbes, mas não me provoca de novo.
Não há nada em seu quarto que seja dignamente interessante, nem o closet
meio-aberto, nem o banheiro, nem as estantes de livros clichês — que se
parece com a minha. Não há decoração pessoal ou sequer um pingo de sua
personalidade.
Ou... não. Talvez Clarissa seja exatamente isso. Um poço de tédio.
— A minha mãe te convenceu a ser a minha amiga, foi?
É um teste.
Posso ser uma otária e deixar Clarissa perceber que todo o meu corpo reagiu
negativamente à sua pergunta. Ou posso ser rude, ao ponto de não me
importar que saiba a verdade sobre a minha vinda para cá. Minha intenção
era ser um pouco invasiva, mas não óbvia.
— Está quase me pagando, na verdade — comento, dando a volta nos
calcanhares e fingindo reparar no ambiente mais sem graça que já vi na vida.
— Você é tão chata que não tem amigos ou matou todos na pré-escola?
— Matei todos na pré-escola.
— E estão enterrados no fundo da casa.
— Não, os restos mortais eu escondi debaixo da minha cama.
— Sorri de lado, sem ainda me direcionar uma olhadinha sequer. — Eu não
espiaria se fosse você.
— Pode deixar. — Paro ao lado de sua penteadeira. O móvel em si é
parecido com o que foi colocado no meu quarto, mas o dela contém marcas
de uso. O primeiro sinal de que Clarissa vive aqui. — E você quer começar
sua aula quando?
Ela salienta uma lufada de ar, fechando o livro. É “Luxúria”, de Ana Novais
Catarino. É um ensaio sáfico sobre desilusões e amores passageiros. É
interessante.
— Não se sinta especial, Ária — começa. — É um conselho.
— Ando meio cansada dos seus conselhos, sabe — digo, mudando o rumo
do meu pequeno passeio. Me sento em sua cama, esticando as pernas. —
Eles são péssimos!
— Minha mãe já fez muito isso. — Clarissa abraça o livro. — Tenta
convencer outras pessoas a serem minhas amigas e, agora, com meus vinte
anos, isso chega a ser ridículo.
— Eu também acho, mas cá estou eu. — Subo e desço os meus ombros. —
Além do mais, é por uma força maior. Quer que pratiquemos piano juntas.
— Não, obrigada.
— Não é assim que funciona. — Curvo meus lábios.
— Como é?
— Não é assim que funciona — repito, ainda mais alto. — Você não quer
ficar perto de mim, eu não quero ficar perto de você.
Então, seja inteligente ou pense antes de colocar suas emoções à prova. —
Engatinho por sua cama, atravessando a circunferência do móvel para ficar
mais perto dela. — Piano é só um pretexto para ficarmos mais tempo juntas
e aí, sei lá, talvez sua mãe pense que eu vou te conhecer o suficiente para
entender suas dores, suas angústias e perceber que no fundo você é uma
pessoa legal. E sem querer ofender, você não é!
Com tédio, diz:
— E aí?
— E aí quem sabe você tenha paciência de reconhecer que esteve errada
sobre mim — retruco. — Essas baboseiras que as pessoas pregam sobre
amizade genuína. Particularmente eu culpo “Quatro Amigas e um Jeans
Viajante”. — Arqueio o meu dedo. Há um vislumbre de sorriso no rosto
fechado de Clarissa que some em questões de segundos. — É só pensar
“vamos terminar logo com isso”. Eu consigo o agenciamento para a minha
carreira, você consegue suas aulas de piano.
Ela precisa admitir que é uma boa troca; no final, é capaz que seja um
acordo indolor. Rápido, fácil, sem grandes surpresas.
— Não — continua impassível. — Não preciso de ajuda.
Clarissa ergue-se do parapeito estofado e cruza o quarto com pressa, repousa
o livro em cima da penteadeira e indica o closet aberto. Seu pijama de
mangas longas é feito de seda.
— Sabe — inicio, ainda em sua cama. — Eu também não tenho amigas,
Clarissa.
Seu rosto se franze.
— Por que tá me contando isso? — resmunga. — Para eu sentir dó de você?
— Não, é claro que não. — Sorrio. — Tô te falando isso para você ver que
até pessoas incríveis e sensacionais como eu não tem companhia.
— Realmente, isso estragou o meu dia — ironiza.
Fico em silêncio apenas para dar a ela uma vantagem nesta decisão. Não que
tenha escolha, na verdade, terá que me aturar mais do que pensa. Não vou
desistir tão cedo.
— Vai pra casa, Ária — aconselha. — Não encontrará nada aqui.
Dou de ombros, saindo de sua cama. Ao contrário do que me foi oferecido,
Clarissa não tem um frigobar ou bombons dentro de uma tigela de vidro. E
embora não tenha cor ou vida em seu quarto, seu ambiente parece bem mais
verdadeiro do que o meu.
— Como quiser — falo, saindo pela porta principal.
O estrondo contra o batente não estremece o corredor, o que faz a minha
saída dramática menos chamativa do que planejei. E
uma vez sozinha, reparo que não sei exatamente para onde ir. O
gabinete, a sala de jantar, a piscina aquecida e o quarto de Clarissa foram os
únicos lugares que me apresentaram.
Voltar de onde eu vim e assistir filmes de suspense o dia todo ou desvendar
uma casa que pode me engolir?
Caminho pelo lado contrário do corredor, decidida a encontrar, ao menos,
uma biblioteca. Ricaços possuem bibliotecas aos montes, dizem que é um
dos lugares mais silenciosos de uma casa cheia. E, ao menos, seria bom para
me coordenar se a mansão possuísse um mapa, setas ou placas.
Todas as portas estão devidamente fechadas e não há qualquer dica ou sinal
que me faça compreender aonde estou indo.
Ao final do quarto corredor em que viro, reparo que o retângulo de tijolos e
papel de parede persa é sem saída. Apenas com uma passagem dupla
também lacrada.
— Não podemos ir aí. — A voz retumba pelo corredor, me pregando um
susto.
— Não sabia que quadros falavam. — Me viro para encontrar Vinícius de La
Plume, o irmão de Clarissa. — E se falam, deviam tomar cuidado, não é
legal levar um susto em uma casa tão grande assim.
— É porque você nunca esbarrou no governador Cachaça à meia-noite.
Vinícius mantém o ombro escorado na parede atrás de mim, usa uma
camiseta polo salmão e uma tiara simples e preta que faz com que seu cabelo
grande e cacheado fique para trás dos ombros e das orelhas.
— É tão ruim assim conhecer o governador Cachaça?
— Só o nome já diz muita coisa.
Assinto, reconhecendo que fala a verdade.
Cachaça foi um comediante famoso nos anos 90, aparecia em programas de
auditório para falar sobre como odiava ser casado, além de reclamar bastante
dos filhos, da família e principalmente da sogra. Seu humor foi muito datado
e as pessoas gostavam dele na medida do possível. Ainda não entendi como
um comediante tão despreparado conseguiu se eleger para deputado e foi
subindo de cargo aos poucos e, quase vinte anos depois de sua primeira
eleição, agora é governador do estado.
É uma figura e tanto.
— Tem razão — declaro.
— Mas falando sério. — Vinícius se desencosta da parede e caminha a
passos lentos até onde estou, apontando para a porta. — Aqui é o limite, lá
dentro é como a área secreta do prefeito.
— Seu pai.
— Prefeito — enfatiza. — Daqui para trás, meu pai. A partir desta porta para
frente, é o prefeito.
— Entendi. — Não me demoro a olhar para a porta e volto-me para Vinícius.
— Tem ideia do que posso fazer aqui? Sem terminar de encher a paciência
da sua irmã?
— Ninguém te mostrou a sala de música ainda?
— Aqui tem uma sala de música?
Ele não responde, apenas acena com o queixo para que eu o siga.
Vinícius tem dezenove anos, é modelo assim como a irmã e um dos
principais rostos da marca da mãe. É um pouco mais festeiro do que
Clarissa, mas nunca esteve envolvido com nada além de boas ações, sorrisos
cálidos e eventos beneficentes. Quando nos conhecemos, há alguns dias, foi
muito educado durante a tarde toda, mas não nos falamos mais do que o
necessário.
Do corredor em diante, leva apenas cinco minutos para Vinícius me conduzir
até a sala de música. É um salão ao final de outro corredor, no primeiro
andar, com janelas do chão ao teto, trazendo luz natural do sol.
— Entregue — anuncia. — Pode mexer no que quiser, a sala só é usada
quando precisamos ensaiar...
Noto que Vinícius falaria mais alguma coisa, mas desistiu antes que se
arrependesse.
— Valeu. — Ando entre as variedades de instrumentos, me aproximando
primeiro do piano. — Quer ficar e tirar um som?
— Tenho que ajudar a minha mãe com a próxima campanha, mas se você
estiver por aqui quando eu voltar, quem sabe?
— Combinado!
Ele sorri sem mostrar os dentes, mas ainda consegue transparecer simpatia
com o ato mínimo. O garoto me deixa sozinha, acenando com a mão e
fechando a porta.
A sala é acústica e antirruído, tem uma cabine profissional de gravação perto
dos instrumentos mais clássicos e antigos da casa, como por exemplo, uma
harpa.
Me aproximo do mini palco, tocando com o máximo de cuidado os
microfones atualizados, com voltagens altíssimas. Passo
pelas guitarras, baixos e violões, brincando com os acordes e me sentindo a
pessoa mais profissional do mundo.
ALERTA DE #MIGAS!
Fontes próximas confirmam que Ária Campos está na casa de Clarissa
passando uma temporada.
Estou ansiosa para ver como essa dupla será!
Postado por MinutoGossip
8
“Você não sabe nada sobre mim E, às vezes, eu também não Todo o meu
coração me expele de volta Porque nem ele me suporta.”
Jardim das Aparências — Canção de Liz Salles Cantar “Jardim de
Aparências”, em uma tarde trancada numa sala de música me enche de
pensamentos que não deveriam pairar pela minha cabeça.
As estrofes que Liz Salles canta sobre ser uma ótima pessoa, mas não
marcante para as demais, é algo que me marca profundamente, e é tão
cativante que por baixo da pele ainda me sinto parte de cada verso que
elucido sobre a solidão.
Eu tinha muitos amigos, mas isso foi antes de precisar abdicar de um tempo
livre para dar meu sangue e meu suor ao Clube 148.
Também foi antes de trancar a minha vaga na Faculdade Torritieli Torres.
Antes de tudo, mesmo.
Os funcionários do bar são ótimos, mas não são meus amigos. Eles não me
conhecem de verdade e não sabem quem eu sou fora daquele palco.
Não é a mesma coisa.
Não ter ninguém com quem contar é cravado no dia a dia.
Você sente que pode estar fazendo algo de interessante e deseja companhia.
Pensa em notícias boas e ruins e não tem com quem compartilhar. Não que
eu não saiba fazer nada sozinha, só chega um momento em que cansa. E
muito.
No final da música, quando Liz diz: “E todo o meu coração me expele de
volta/Porque nem ele me suporta”, termino a minha apresentação solitária
da canção que finjo não gostar. Existem músicas que prefiro pular a ser
jogada na crua realidade, e “Jardim de Aparências” é uma delas. É uma das
poucas que finjo que Liz nunca cantou ou compôs — apesar de ser uma das
minhas favoritas.
— Bravo! — Alguém entoa. — Bravo!
Aperto o microfone com muita força, abrindo os olhos com atenção. À
minha frente, não há nada além de instrumentos postos lado a lado, seletas
variações do dinheiro que os de La Plume tem.
Só encontro a dona da voz quando olho para cima, em uma pequena
arquibancada que, até a minha supervisão, não existia.
A garota, que está sentada no escuro, apoiada pelos cotovelos nos joelhos,
não para de me aplaudir.
Curiosa e ainda assustada, caminho até o interruptor mais próximo,
apertando o botãozinho que faz iluminar onde está. A sala de música me
surpreende ainda mais. Com a iluminação em todos os focos agora, consigo
notar que a arquibancada tem gradil de vidro e que não se trata de apenas
meia-dúzia de bancos; o salão é ordenado por cadeiras suspensas,
possibilitando à família oferecer concertos, pequenos shows e até mesmo
espetáculos particulares.
Porra?
— Obrigada, então — falo, fazendo uma breve reverência para agradecer
pela ouvinte misteriosa. — Só que da próxima vez, é melhor fazer barulho.
— Não, não. — Nega ao sacudir a cabeça. — Se eu fizesse barulho eu ia te
interromper, e se eu te interrompesse, não me perdoaria.
— Eu, sim — respondo. — Sou benevolente. E justa.
— Tal qual uma rainha — completa, sorrindo de lado.
Meneio a cabeça em sua direção, abrindo um sorriso aos poucos pelo charme
inegável. Vestindo preto dos pés à cabeça, o estilo é complementado pelos
braços repletos de tatuagens grandes, pequenas e médias. Nenhuma é
colorida, mas trazem uma personalidade gigantesca à dona.
— Você não estava aqui durante a semana — começa. — Estava?
— Não, cheguei hoje de manhã.
Deixo o microfone no tripé, me afastando das instalações.
Cantei mais de cinco músicas seguidas, é hora de uma pausa.
Assim que estou pronta para puxar assunto com a primeira companhia
interessante da casa, a porta da frente é escancarada por uma Clarissa
desgostosa com a vida. Ou comigo.
Tanto faz.
— Achei que tinha ido embora — reclama. Fecha a porta e se aproxima, às
pressas. — Pensei que tinha me escutado!
— Que nada. — Faço careta. — Entrou por um ouvido e saiu pelo outro!
— E por que... — Clarissa para de frente para o palco, mas de costas para a
garota. — Por que você tá descalça?
Por reflexo, olho para baixo; bem perto da barra desfiada da minha calça
boca de sino, jeans e estilo anos 70, levanto os dedos do pé, saudando as
unhas com esmalte preto descascado.
— Gosto de cantar descalça quando tô sozinha — respondo.
— Como Liz Salles e Daisy Jones.
— Daisy Jones?
— É — declaro. — A do livro.
— Você sabe que ela não existe, né?
— Mero detalhe. — Gesticulo, abanando o ar. — Se alguém deveria estar de
queixo caído sou eu... Tipo assim, você se veste assim todos os dias?
Clarissa congela feito uma estátua recém-modelada.
— O que tem de errado com a minha roupa?
— Nada — debocho. — Só parece que você é a política aqui, não o seu pai.
Dentro de mais um terninho sofisticado demais e com uma pulseira de
pérolas, Clarissa continua a usar seu cabelo em um rabo de cavalo sem graça
e sem vida.
— Que se foda. — Sacode a cabeça. — Pode, por favor, ir embora?
— Por que ela faria isso, Rissa?
Se a herdeira já estava em estado de choque antes, ao ouvir a voz melodiosa
da garota é que termina de se manter estática. Mas, de repente, vira o rosto
no exato ponto onde sua suposta convidada está.
— Achei que chegaria mais tarde. — Clarissa ri de nervoso.
— Não gosto de atrasar. — A outra responde, erguendo-se do assento e se
apoiando no gradil. Seu cabelo é comprido e muito liso.
— E ainda ganhei um show particular, o que mais eu ia querer?
Clarissa ri como quem acha divertido, ainda que esteja se controlando para
não implodir.
— A Ária tá de saída — informa.
— Tô nada — digo com prazer.
A garota, que é muito inteligente por sinal, olha de mim para Clarissa duas
vezes antes de assentir com o queixo.
— Enfim — diz, erguendo uma sobrancelha. — Vou te esperar no seu
quarto, Rissa. Não quero atrasar.
As duas passam alguns segundos se encarando, conversando por olhares. E
não parece ser um diálogo muito amigável, apesar de Clarissa tentar tratá-la
bem.
Enquanto discutem em silêncio, reparo em cada detalhe intenso da nova
visitante. Seu corpo é delineado pela calça jeans skinny, com quadris largos e
coxas avantajadas. Sua pele é de um marrom–escuro sedoso e brilhante, seu
cabelo é ondulado na franja lateral, também.
Há um piercing de bolinha em seu nariz generoso e pontudo, além de uma
circunferência no começo dele, que dá o toque e o charme central. Com as
sobrancelhas grossas e com muitos pelos faciais que completam seu visual
irreverente, entendo que a garota seja ou possua familiares do Sul da Ásia,
da Índia, em especial.
— Tá. — É ela quem encerra a troca de olhares com Clarissa.
— Vou pro seu quarto. Saímos em uma hora... — Sobe os degraus e vira-se
para mim. — Quero te ver cantar de novo, Ária!
Ótimo, ela sabe meu nome.
— Quero que seja a minha plateia de novo... — Arqueio uma sobrancelha.
— Majuri.
— Majuri — cantarolo. — É mais do que convidada.
— Pode deixar.
Majuri acena com dois dedos ao lado da testa e desaparece por um corredor
onde não consigo ver nada do que acontece. Sei que estou sozinha com a
herdeira de La Plume apenas porque ouço seu pigarrear me encher os
nervos.
— E então? — insiste. — Você...
Abro um sorriso que é capaz de fazê-la ficar em silêncio. Com uma das
sobrancelhas erguidas, olho para Clarissa e para o lugar que Majuri deixou
desocupado algumas vezes. É só ligar os pontos, fazer um pouquinho de
contas e somar dois mais dois para entender o que rolou aqui. E capto na
hora.
— Você gosta dela! — acuso, dando-lhe as costas e estudando a guitarra
mais próxima de mim. É uma Telecaster rosa.
É uma boa hora para tocar rock.
— O quê?! — Clarissa quase engasga.
— Ah, sim, Rissa. — Aperto os lábios em um beicinho. — Você gosta dela!
Amedrontada, Clarissa olha para trás, para o exato ponto em que Majuri
desapareceu.
— Você... Acha que dá para perceber? — sussurra, esbanjando insegurança.
Sorrio, agachando para retirar a guitarra do apoio.
— Você não é a melhor pessoa disfarçando. É patético. — Uso a alça de
apoio para prender a guitarra rente ao meu corpo e pescoço. — O corpo fala.
E o seu praticamente gritou.
— Mas...
— E não dá pra te culpar, a Majuri é bem bonita — ressalto. — Será que ela
tá solteira?
É o momento exato em que Clarissa desperta; não pode ficar aqui jogando
conversa fora comigo, porque ao contrário do que sua mãe pensa, jamais
seremos amigas ou confidentes. Só de pensar nesta alternativa, meu
estômago se contorce.
— Claro, além de oportunista, não pode ficar longe de uma pessoa influente.
— Então ela é solteira? — Posiciono a guitarra entre os dedos. — Porque
pela forma que você ficou irritada, não quer concorrência.
— Ária...
— Relaxa. — Sobreponho sua voz. — Não sou ciumenta.
Antes de soltar o primeiro acorde, assisto a herdeira massagear a testa.
— Tanto faz, Ária, tanto faz, só... Volta logo pra casa.
— Hum... Não vai rolar, não. — Me preparo para começar um outro
repertório. Vou de Joan Jett desta vez, e depois finalizarei com Rita Lee. —
E não adianta mais fingir que não gosta de mim ou da minha música, porque
eu te vi no clube... Me aplaudiu e tudo.
Clarissa dá de ombros.
— Você cantou bem — admite, a contragosto. — Mas só.
— Disse que eu tenho um sorriso bonito, que eu canto bem.
No fundo... Você quer ser eu ou me quer? — Me aproximo da borda do
palco, lhe oferecendo um sorrisinho de canto. — Não! Corrigindo!
— Ergo o dedo. — Você disse que eu tenho um sorriso lindo.
— Foi modo de falar.
— Ou seu jeitinho de confessar que é a minha fã — provoco.
— Tem certeza que compartilhou o vídeo acidentalmente? No meu ponto de
vista, você sempre sabe o que tá fazendo.
Com a mandíbula cerrada, decide: — Vai pra casa.
Ignoro-a, pedindo para que saia da minha frente de uma vez, antes que eu
quebre esta guitarra nela. Ao menos surte algum tipo de efeito, porque
decide desfilar para longe de mim, da minha música e dos seus instrumentos.
É madrugada e o que há na geladeira é capaz de alimentar a minha família
inteira por um mês. Enfio a cabeça dentro do eletrodoméstico, me
espremendo entre a porta para pegar o último pedaço de um bolo de canela
com leite condensado que avisto lá no alto. Entre frutas e outros lanchinhos
saudáveis, é o único que me apetece.
Depois que perdi Clarissa — e Majuri — de vista, mereço algo com o que
me sustentar. Visto que falhei na única tarefa que fora me dada.
Com o prato da fatia na mão, conduzo-me para uma das mesas da cozinha,
ainda no escuro. Utilizo das luzes dos próprios aparelhos domésticos para
me guiar. Encontro um garfo limpo e me sento à mesa, sozinha.
A cozinha é estilo profissional, equipada com mais de duas geladeiras e
fogões. Suponho que comporte todos os ingredientes do mundo,
selecionados a dedo para agradar os moradores daqui. O
que, no meu ponto de vista, é assustador.
Como metade do pedaço quando percebo que alguém se aproxima. Não tem
como me esconder ou inventar uma desculpa melhor do que insônia, então
apenas aguardo a bronca: de boca cheia, com farelos de bolo de canela pelo
meu pijama e com o rosto inchado de tanto chorar após assistir “Um Amor
Para Recordar”.
Segundos depois, a pessoa acende a luz da cozinha inteira, iluminando-me
também. É Batista, que recua alguns passos ao detectar em si mesmo um
tremendo susto. O prefeito da cidade arruma o roupão rente ao corpo e força
um sorriso, um tanto quanto surpreso.
— Ária — diz, como se testasse o meu nome. — Algum problema?
Vejo que ainda se recupera do baque, pois anda lentamente para uma das
geladeiras.
— Não — respondo baixo. — Hum... Deu fome.
Vejo os ombros do prefeito estremecerem: aposto que está rindo.
Da primeira geladeira, retira uma jarra de suco de morango e repousa a uma
mesa de distância de mim. Em seguida, foca-se na mesma geladeira onde
encontrei a fatia.
— Lanches da madrugada são um crime. — Faz piada, mesmo não fazendo
sentido. Começa a cantarolar uma música sertaneja e só para ao espiar por
entre as prateleiras ordenadas da segunda geladeira. — Ária, por acaso,
você... Não viu um pedaço de bolo de canela por aí?
Paro de mastigar na hora.
O prefeito me encara por cima dos ombros, sorrindo. Retira de lá um
pequeno recipiente com pedacinhos de queijo e fecha a geladeira, sentando-
se à mesa onde colocou a jarra.
— Desculpe — murmuro, muito envergonhada.
— Sem problema — pede. — O bolo é muito bom, mesmo.
Fico feliz que gostou...
— Hum... Ainda sim, tem um pedacinho...
— Não, não, não. Pode comer, você é a minha convidada — garante, se
contentando com suco de morango e queijo. — E aí, o que está achando da
estadia?
Lilian uma vez disse que o prefeito tem um sorriso engessado de quem está
suportando uma dor muito grave no dedo mindinho, mas aqui, comigo, é
apenas um sorriso cansado e ligeiramente preguiçoso de alguém que não
quer ser educado.
— Muito boa.
Filmes de graça, uma sala de música gigantesca e um quarto funcional
podem mudar uma opinião.
— A Natália me contou sobre... Hum... O plano?!
— Sobre Clarissa?
— É — ressalta. Batista faz uma longa pausa e reparo que o cabelo grisalho
brilha contra a luz. — Gostei da ideia, Clarissa precisa de amigas novas. Na
minha opinião.
— Precisa?
— Sim — reafirma. — Me diga, você acha que é você? A pessoa certa?
Não estaria aqui se representasse alguma ameaça ou um símbolo negativo à
Família Plume, mas, de repente, o bolo começa a pesar dentro da minha
boca. Já não é mais tão apetitoso assim.
Como não respondo de pronto, o prefeito continua: — Posso confiar em
você? — quer saber. — Sobre discrição?
— Natália e eu firmamos um acordo de confidencialidade.
— Bom, bom... Mas não foi isso o que perguntei... — Ele coloca outro
cubinho de queijo na boca e sorri. Exatamente como faz quando quer
convencer seus apoiadores em um discurso. — Perguntei se posso confiar
em você.
— Pode... Pode, sim.
Estou sem vontade de terminar de comer.
— Você votou em mim? — pergunta, abrupto. — Se fiz as contas certas,
você tem dezoito anos.
— Vinte e um — corrijo.
— Então votou? — Ergue uma sobrancelha, falsamente atencioso comigo.
Na realidade, preferia cortar fora a minha própria língua a ter votado em
Batista. Seus ideais para os pontos mais delicados de São Palomane eram
ridículos e as obras de contenção de inundações foram paralisadas pela
metade.
Votei em Carmen Duelo, mas não chegou a ter um segundo turno.
— Não — revelo.
Batista murcha a boca e bebe um gole do suco de morango direto da jarra.
Limpa os lábios com o dorso da mão e devolve a bebida para a primeira
geladeira. De pé, segura o recipiente com queijo, pronto para ir.
— Esta ideia de ser amiga da minha filha é um pouco...
Ilusória. Mas minha mulher acredita nessas coisas, sei lá... — Dá de ombros.
— Espero poder confiar em você, Ária. E que não traga nenhum problema
para a minha família, sim?
— Sim.
— Ótimo! — decreta. — Boa noite.
Da mesma forma que apareceu, Batista se vai. Inclusive, apaga a luz da
cozinha como se eu não estivesse aqui. Não sei se é uma boa ação para me
deixar confortável ou especificar a diferença entre nós.
Não importa, na verdade.
O que sei e o que ficou muito bem esclarecido é que nem todos os Plumes
gostarão de mim.
09.01
“Demorei demais Passou o tempo Não sei o que fazer, Que agonia!”
E agora? — Canção de Liz Salles Pagar minha “dívida” com Natália foi
fácil, porque não houve pendências que tornaram a missão difícil. Ou seja,
não fui bem-sucedida em nada, mas ainda assim, fácil.
Depois do meu encontro com Clarissa e Majuri, não as vi o final de semana
inteiro. Depois da conversa com Batista, não encontrei nenhum outro Plume.
Toquei algumas canções à capela, me diverti com o piano e com o teclado,
almocei sozinha no meu quarto e assisti Vinícius treinar tênis, da minha
janela, enquanto comia um dos deliciosos sabores de gelatto que a cozinha
me ofereceu como cortesia.
Era doce de leite argentino, me lembro bem.
Fiquei o resto do dia trancada no meu quarto, pulando na cama, ouvindo
música alta e desvendando os poderes de um controle remoto conectado à
uma TV de última geração, com todos os canais possíveis de assinatura paga
— fora as plataformas de streaming sem qualquer restrição.
Assisti todos os filmes possíveis.
E quando pude jantar, me deparei com uma refeição nova e feita
especialmente para mim. No domingo de manhã, tentei infernizar um pouco
a vida de Clarissa, mas quando entrei em seu quarto, a cama já estava pronta
e os lençóis esticados, talvez revelando que tinha saído antes mesmo de eu
acordar.
Ou, quem sabe, nem tenha voltado para casa depois que saiu com Majuri.
Já o domingo foi um pouco diferente, porque joguei Truco com o jardineiro
e apostei corrida com o instrutor de tênis do Vinícius enquanto ele esperava
o aluno descer. Quando Vinicius apareceu, fui rapidamente excluída da
tarefa.
Não vi Natália e nem o prefeito Batista outra vez durante a minha curta
estadia, mas Carlos, o motorista, estava a postos para me levar de volta à
minha realidade às seis e meia da noite.
Bom, pelo menos eu tentei, né?
09.02
DOIS MESES DEPOIS
Duas semanas.
Quinze dias.
Foram o suficiente para alguns dos meus vídeos conseguirem uma boa
monetização. Eles ainda sustentavam aquele mesmo ar amador de gravação
de sempre, e talvez seja isso que tenha me aproximado de um público sólido
e fiel, que ansiou por um pouquinho mais da minha voz.
Com os vídeos, vieram a iniciativa de cantar ao final da noite de qualquer
celebração dentro do Clube 148; eu era aplaudida, agraciada, desejada e
amada. As condições de subir lá e fazer o que eu quisesse eram
maravilhosas. Durante duas semanas após a minha visita à mansão Plume,
meus passos em rumo ao que eu realmente queria se tornavam mais
estreitos.
Em resumo, foram os melhores quinze dias que já tive em meses. Até
mesmo me aposentei da jornada criativa de inventar jingles, porque não
precisava mais de uma grana extra. A principal já valia — e muito.
Duas semanas viraram dois meses gloriosos de ganhos e clientes novos
aparecendo aos montes. Não soube administrar as minhas redes sociais,
perdi mais seguidores do que ganhei em uma longa pausa de dez dias sem
alimentá-los com conteúdo fresco, mas tinha um bom motivo.
Quanto mais dinheiro eu ganhava, mais meus pais conseguiam pagar todas
as dívidas que paravam de acumular. Era tanta gente procurando por nós que
não soubemos o que fazer pelos primeiros dias.
Até entendermos que não deixaríamos aquela maré de sorte ser apenas sorte
ou um frescor da vida. Faríamos a nova fase render, lucraríamos com as
vantagens de sermos do ramo de artistas, e não pararíamos para voltar ao
tempo de contar moedinhas ao final de uma semana longa de trabalho duro.
Com o meu primeiro salário de verdade publicando vídeos, ofereci o valor
integral aos meus pais, exceto por uma quantia única que usei para comprar
um fone novo para mim. É um modelo rosa, de orelhas de gatinho, com
microfone externo e que brilha no escuro.
Um item fútil, um pouco banal, mas que fez a minha semana.
Meus pais tomaram uma decisão tão séria quanto qualquer outra. Abririam
uma filial do Clube 148 em São Paulo, comandada pelos meus tios. Um
adorável casal jovem que aceitou prontamente embarcar neste novo desafio.
Uma filial!
Do clube!
Nunca pensei que falaria isso antes, especialmente porque este mesmo clube
estava caindo aos pedaços. Imagina se multiplicar. Ou, até mesmo,
finalmente se multiplicar.
São tempos bons e estáveis, consolidados. Além de termos voltado a comer
pizza mais de duas vezes na semana, coisa que foi considerado luxo em
certos tempos. Tudo isso conquistado por ter visibilidade o suficiente para
trazer bons frutos à família.
— Não vai entrar? — minha mãe pergunta, segurando a porta de acesso ao
clube do beco.
Termino de colocar o lixo do clube para fora. Até este momento não havia
reparado o quão fria e solitária a temperatura de São Palomane se encontra
hoje. É provável que o sol tenha se escondido para combinar com o clima de
renovação.
— Ah — solto, surpresa por estar sozinha. Nem notei quando Lilian e meu
pai entraram. — Vou, sim — informo. — Tenho que limpar as mesas do
mezanino ainda. Se formos abrir na área sem reforma, precisamos de mais
mesas e...
— Ária. — Bete deixa que eu entre, mas fecha a porta com um pesar
característico na voz. Nos fundos do ambiente, estamos sozinhas, em um
silêncio pesado de fim de tarde. — Superestrela, ainda bem que tocou no
assunto...
Em cima de uma mesa que deveria servir como apoio para bebidas e shots,
pego um pano de prato usado e o penduro no ombro, pronta para voltar ao
trabalho.
— Que foi? — murmuro. — Não vamos abrir hoje? Eu confundi?
— Sim, nós vamos.
Ela se encosta na porta fechada, cruzando os braços e erguendo os ombros.
Desde que o clube deu uma guinada, minha mãe não exibe mais olheiras
descompensadas abaixo dos olhos e nem um fio desgrenhado no cabelo
cacheado. O cansaço lhe vencia quase todas as noites, mas hoje em dia ela
recuperou algo precioso que nos fora tirado com o passar dos anos: tempo.
— Então? — Incentivo sua fala, gesticulando com as mãos. — Só preciso
saber o que fazer.
— Exatamente — pondera. — Não quero que faça nada.
— Como é?
Bete arfa, abrindo um sorriso tímido entre os lábios carnudos quase idênticos
aos meus.
— Conversei com o seu pai, sabe? — começa. — E não é fácil manter um
negócio, é instável, é imprevisível e nunca sabemos o dia de amanhã. Com a
filial em São Paulo e a reforma, nós decidimos que haverão mudanças
significativas por aqui, mudanças que eu quero que sejam levadas a sério a
partir do primeiro dia útil do mês.
Arqueio uma sobrancelha.
— Tipo assim... Amanhã?
— Isso! — Sorri.
— E o que é?
— Não queremos que você e sua irmã trabalhem mais aqui — dispara de
uma vez só, sem rodeio. — Especialmente você. Bem...
— Ela coça a testa, pensativa. — O público te ama, seria covardia te privar
de cantar aqui, mas... Não quero mais que sirva mesas, faça drinques ou
prepare setlists. Quero que você e sua irmã tirem um tempo só para vocês!
— Tô... Tô sendo demitida?
— Sim, está. — Tranquila, concorda de imediato. — As duas.
Do ponto exato em que estamos, é possível ver o salão coberto por lonas e
toldos, para dividir a área funcional da interditada. Lilian está com os braços
cruzados, a boca crispada e os olhos de águia atentos ao que meu pai fala
sem parar. Um segundo é o bastante para minha irmã mais velha pular no
lugar, bater palmas e abraçá-lo com força.
— Lili gostou da ideia. — Minha mãe toca o meu ombro, fazendo carinho
para que eu volte a focar neste diálogo. — Você abriu mão de muitos sonhos
pelo meu sonho, Ária. Não é justo.
— Mas... Gosto de trabalhar aqui.
— Eu sei, mas deveria estar trabalhando em si mesma. — Do ombro, sua
mão desliza para a minha bochecha esquerda. — E é isso o que eu quero,
que você e sua irmã foquem em seus próprios objetivos.
— Mas...
— Está feito, Ária — declara, me interrompendo. — Amanhã, seu pai e eu
vamos entrevistar algumas pessoas para ficarem aqui e outras para
comporem o time da filial.
— Já?!
Minha mãe sorri, mas é um sorriso diferente dos outros. Além de carregar
determinação e orgulho, há uma pitada de dizeres sábios que complementam
a estética do momento.
— Sim, já — reforça, começando a se afastar de mim. — Tente isso, Ária.
Tente dedicar-se à sua arte. É o que queremos.
E é o que eu quero também.
Só não sei se conseguirei.
— Você colocou nossas prioridades à frente das suas, agora é hora de viver,
Superestrela!
Viver? Como se faz isso?
Depois de tanto tempo vivendo à sombra de uma rotina maçante, não sei
mais o que é ser... eu. Ou estudar, ou lidar com uma sala de aula, ou conviver
em outro ambiente que não seja este.
Vejamos, minha melhor amiga tinha dez anos, e a única preocupação, fora as
demais, estava vinculada a me apresentar em uma simples praça, continuar
idolatrando minha cantora favorita e ganhar jornais de graça.
Agora tenho que cuidar de mim mesma?
Observo ao longe Lilian abraçar a minha mãe também, emocionada com a
percepção de não precisar mais trabalhar aqui como uma simples garçonete.
Eu e ela, mais do que nunca, estamos liberadas do nosso primeiro emprego.
E com a breve conversa com a minha mãe, entendo o que quer me dizer.
Destrancar o meu curso na faculdade, focar nos vídeos, na publicidade e na
alta demanda de seguidores que continuam crescendo de vez em quando.
Se eu me organizar direito, quem sabe consiga alavancar outro vídeo como
aquele que Clarissa publicou? Nenhum outro alcançou tantas visualizações,
mas posso tentar.
É.
Agora eu tenho tempo, posso fazer o que eu quiser.
Continuo parada, estática, sem saber para onde ir. Se para meu quarto ou
para o bar comemorar a novidade. Se devo ligar para a reitoria da faculdade
local ou me programar para acordar cedo e me tornar a mais nova
universitária da cidade.
Com tantas opções, o que fazer primeiro?
Como focar na minha arte e na minha música?
Que pontapé inicial devo fazer?
Por que ninguém me dá um guia passo a passo do que fazer com a minha
vida?
Seria mais fácil.
Então, decido que beberei um shot de vodca para me dar ânimo. No bar, me
sirvo da bebida, encarando-a cintilar com gotinhas poderosas de álcool. Viro
de uma vez, fazendo careta. Em nome do meu futuro, lhe ofereço vodca.
Quando penso em beber só mais um, meu celular notifica um novo e-mail,
dentre os milhares que continuam mofando. O endereço é falso e será
apagado ou substituído em breve. Há dezenas de letras e números que não
fazem sentido na aba de assunto, mas está anexado na caixa de alta
prioridade entre as mensagens eletrônicas.
Mas este em específico talvez a seja a solução das minhas dúvidas.
“Ária Campos,
Á
Você é convidada de honra de NATÁLIA DE LA PLUME para o evento
anual de São Palomane , na inauguração da Praça dos Três Sóis.”
10
“Não perca tempo, querida Não tenho medo de você Não vou a lugar
algum!”
De Volta — Canção de Liz Salles O jeito mais fácil de se conseguir uma
coisa dita como impossível é fingir.
Quando percebi que olhar para o teto, ainda embasbacada com o que minha
mãe falara, não adiantaria nem metade das minhas metas, cheguei à
conclusão que o meu real rumo partiria ao dar à minha nova visibilidade
outro enfoque. Em outras palavras, abri a câmera do meu celular e gravei
dois vídeos horrorosos para o Instagram.
Só por forçar uma naturalidade que existe só quando não sou obrigada a
interagir, tudo deu errado. Fiquei uma tarde toda falando sozinha, apagando
os vídeos, legendando e apagando de novo, até o meu celular perder toda a
bateria e morrer.
Então, precisei ser sucinta.
Se eu quisesse um pingo de sucesso sem levar uma tarde inteira para gravar
um mísero storie, fingiria estar no controle da situação, até estar de verdade.
Quando estivesse acostumada a ser uma representante fiel da minha rotina,
todos os meus conteúdos fluiriam sem eu ao menos perceber.
Coloquei mais um personagem na minha mente, alguém feliz, elétrico e
divertido, e gravei o primeiro vídeo que valeu a pena apresentar aos meus
seguidores.
A marca de seiscentas mil pessoas me seguindo em apenas uma rede social
pode causar um efeito diferenciado em outras pessoas. Em mim, serviu
como desculpa para comprar um celular novo.
— Que bom que veio, Ária. — Natália, de pernas cruzadas e semblante
límpido, me recebe na mansão Plume para um chá de quarta-feira. — Fiquei
pensando em você nos últimos dias.
Não há nada de diferente na casa, e confesso que não mudaria nem um dia,
quanto mais em dois meses. Ricos não reformam suas casonas para ficarem
irreconhecíveis, pequenos reparos estratégicos são o bastante.
— É? — Acho graça. — Não apareço há dois meses — falo, empurrando a
minha franja para o lado.
Meu celular, o novo modelo que me custou quase o meu dinheiro todo, está
posto na mesa de centro feita de vidro. Ele parece fazer parte da decoração,
afinal.
— O que é uma pena — confessa. — Clarissa andou sendo...
— Prepotente?
— Eu diria impiedosa, mas... Serve. — A mulher dá de ombros e arruma o
cabelo crespo diante de um espelho de mão. — Enfim, mesmo que pareça,
não esqueci de você.
Parece muito, na realidade. Depois do fracasso daquele final de semana, tive
dois meses de folga para pensar sobre como não consegui me entrosar
direito. Meu nome começou a desaparecer das colunas de fofoca, mesmo
que os clientes aumentassem. Fama breve e passageira assusta.
— É? — debocho de leve. — Pareceu mesmo, nunca mais fui convidada.
Um final de semana é suficiente para desistir da nova amiga de Clarissa?
A alfinetada revestida de pergunta faz a pálpebra de Natália tremer, mas não
diz nada.
— Soube que sua vida sofreu algumas mudanças. — Prefere me ignorar.
Convencida de que não falaremos muito sobre o que deixou de acontecer
nestes últimos dois meses, dou de ombros.
— Acho que sim.
— Meus parabéns, soube que seus pais vão abrir uma filial em São Paulo!
Semicerro os olhos.
— E ainda diz que não colocou um detetive particular na minha cola —
comento, esboçando uma risadinha de nada.
Felizmente, Natália encontra humor na frase. — E sim, estamos muito
felizes, valeu.
— Então, deixei que tirasse este tempo para você e sua família antes que
falássemos sobre... Você.
Não tive nenhuma outra notícia de Clarissa ou Majuri quando deixei a
mansão, há sessenta dias.
Apenas que a modelo foi capa de outra revista e o rosto central de um
comercial de skincare. Precisei vê-la na minha TV por três semanas. Além
disso, busquei mais informações em suas redes sociais, mas Clarissa Plume
praticamente evaporou. Nada foi publicado, nem foto, nem vídeo, nem links
de vídeos de filhotes de cachorrinhos, nada.
Sem rastro, sem provas.
— Sim?!
— Ainda quero que se torne amiga da minha filha, Ária. — Natália serve um
pouco de chá de menta para mim. — Aliás, eu insisto que seja amiga de
Clarissa.
— Ainda?
— Sim, ainda. — A mulher sorri de lado. — Alguma surpresa?
Todas possíveis, mas me abstenho de representar o meu choque.
— Mas... Se eu continuar com isso...
— Falaremos sobre a sua carreira, sim. Esse é o acordo — reforça,
recostando-se na cadeira e abrindo um sachê de açúcar cristal. — Podemos
falar disso agora. Dei uma olhada no seu perfil central e você precisa de um
nicho demarcado. Não acha?
Retiro a xícara da mesa, apoiando-a no pires.
— Como por exemplo...?
— Ser uma figura da mídia, mas ainda mantendo sua rotina — explica. —
As pessoas gostam de você, Ária, porque você é comum o suficiente para
cativar qualquer um. Usa linguagens fáceis, é bonita, jovem, talentosa.
Quem não gostaria de te acompanhar?
— Obrigada?!
— De nada! — Vibrante, a primeira-dama beberica seu chá. — O que estou
querendo dizer, Ária, é que mudanças drásticas farão seu público estranhar.
Mas se fazê-los acreditar que estão fazendo parte de todas as reviravoltas da
sua vida, o público mais sólido ficará onde está, conquistando outros em
seguida. Consegue me entender?
Não, mas não deixo transparecer nada.
— Sim — murmuro.
— E para isso, preciso saber... Você quer focar em qual área da sua carreira?
Artes cênicas ou música?
— Só uma?
— Só para começar, sim.
— Música — disparo, sem pensar duas vezes. — Meu curso na Torritieli
Torres é de música, inclusive.
— É, eu soube que vai voltar a estudar — notifica. — Faremos o seguinte,
focaremos na sua carreira musical, mas manteremos seus seguidores
antenados sobre as artes cênicas, assim eles terão esta identificação com
você envolvendo, sonhos, metas... Essas coisas.
— Parece bom.
— Sim, sim... — concorda. — Que tal... Adicionarmos a modelagem? Soube
que também trabalhou no ramo.
— Eu era modelo comercial quando menor, fiz umas propagandas médias.
Era bem legal.
— E te interessa voltar? — elucida. — Podemos começar com um pequeno
contrato com a Tulipe Tulipe. Te deixar em alta é um bom começo.
— Modelo e musicista, então?
— Modelo e musicista — repete, com todo o fervor de um acordo justo.
O rosto de Natália entra em um breve momento nebuloso de pensamentos,
os quais não irá compartilhar comigo.
— Você já sabe — repete. — Agencio sua carreira se continuar tentando se
aproximar de Clarissa.
É para isso mesmo que estou aqui, visitando-a em plena quarta-feira,
bebendo chá caro de menta, debatendo sobre o meu futuro nas mãos de uma
empresária poderosa. Única e exclusivamente interessada em trilhar um
caminho célebre de recompensas. Se para ganhar sua confiança e seus
truques profissionais terei que aturar uma garota mimada, que ao menos seja
paga.
E algo me diz que serei.
— Então vamos começar deixando algumas pistas do que vem por aí. —
Sorrio, deslizando meus dedos até encontrar o meu novo celular. — Uma
foto com a primeira-dama da cidade deve bastar para me dar um pouquinho
mais de engajamento.
Natália suspende as sobrancelhas, porém não deixa de expressar seu
contentamento ao sorrir e esticar o pescoço, pronta para o próximo clique.
Empurro a porta da sala de música usando toda a minha força. Os dois
compartimentos se escancaram de uma vez, me saudando para, talvez, um
dos meus lugares favoritos na casa dos Plume.
Todos os instrumentos estão no mesmo lugar onde os deixei, há dois meses.
Exceto por uma viola que foi adicionada ao pé do mini palco. Acendo todas
as luzes, olhando de relance para o mesmo lugar onde vi Majuri me
assistindo pela primeira vez. E, infelizmente, na plateia não há nenhuma
garota bonita e misteriosa, pronta para me aplaudir.
Pelo contrário, analisando o piano principal da variedade familiar, há uma
garota — também muito bonita — usando um terninho, com uma saia
plissada e, claro, um rabo de cavalo.
— Você não desiste mesmo.
Dar poder à uma pessoa é garantir que nem todos os desafios lhe aflijam. E
comparado ao que quero para a minha vida, suportar Clarissa é apenas um
pequeno obstáculo.
— E você continua se vestindo como se fosse a Rainha da Inglaterra.
— A coitada tá morta e mesmo assim é mais sortuda que eu — declara. —
Porque ela não precisa te ver.
Coloco a mão sobre o meu coração.
— Essa frase teria doído mais se eu não soubesse que ficou pensando nela
por tanto tempo. Por isso eu sumi, te dei vantagem!
— Me aproximo o suficiente dela e do piano, pousando delicadamente
minhas mãos na estrutura do instrumento. — E foi péssima.
À minha frente, a herdeira forja um sorriso que basta como sinal de que
ficará em silêncio pelo resto da aula.
Não sei como sua mãe lhe convenceu a aparecer, mas talvez seja a
responsabilidade batendo em sua porta finalmente. O grande evento onde
Clarissa ministrará uma das homenagens acontecerá neste sábado, no centro
de São Palomane, à frente do Museu Milenar, para a inauguração de uma
praça. Também marca os anos duradouros dos fundadores da cidade, sendo
como um segundo aniversário para nós.
É feriado e tudo fica pela metade do preço. Festas e festivais são oferecidos
durante dois finais de semana do mês, e temos a tradição de pendurar
símbolos de heras venenosas nas portas, para atrairmos boa sorte.
— Vamos começar? — Deixo a minha ecobag com o rosto da Miley Cyrus
pintado à mão no chão. — Se começarmos a ensaiar tipo... Hoje, até às
quatro, conseguimos uma sequência boa até...
— Já escolhi o que vou tocar. — Clarissa se apossa do banco diante do
piano, sem deixar espaço para mim. — Se quiser fingir que fez alguma
coisa, fique à vontade.
— Ao menos quero tentar contribuir...
— Não precisa.
— Mas eu quero.
— Não será possível.
Cruzo os braços, rindo amargamente.
— Já tinha me esquecido como você é — cito. — Também tinha esquecido
dessa minha vontade de arrancar fora esse seu rabo de cavalo.
Posicionada com os dedos em cima das teclas, Clarissa faz um
acompanhamento sonoro para a minha provocação.
— Vê-la segurando meu rabo de cavalo seria uma imagem e tanto, mas não
acho que arrancar o meu cabelo por inteiro seria legal. Apesar de apreciar
dor e prazer de vez em quando.
Ignoro completamente o que a frase deve significar e acrescento: — Não
haverá prazer algum se continuar sendo tão...
— O quê? — Clarissa finalmente me encara, com as sobrancelhas muito
bem feitas no alto da testa. Seu sorriso é ríspido.
— O quê, Ária? Fala.
Avanço um passo, pronta para começar uma briga, e se vamos envolver
piano e teclas, estou prestes a arrancar uma por uma se assim for necessário.
Inclusive, rasgar as partituras. Mas nada disso causa efeito em nós duas,
porque das portas abertas, uma figura adentra a sala de música.
Boquiaberta, sigo petrificada pelo barulho das portas — e por ver a pessoa.
Vacilar perto de Clarissa de La Plume é igual a um pesadelo incontrolável.
Nós sabemos que estrondo é falso o suficiente para não nos assustarmos,
mas ainda assim, apavora.
A pessoa se aproxima bebendo um drinque direto pelo canudo. Desfila até
onde estou, fazendo meus ombros oscilarem, causando uma risada simpática
na herdeira.
Víbora de merda.
— Lilian? — Sopro, chocada demais para processar dois mais dois.
— Ária! — Minha irmã responde, neutra. — Você devia experimentar a
limonada especial do chef, tá divina!
Com as unhas longas, Lilian aponta duas vezes para o copo colorido entre
verde-claro e rosa-bebê.
— Que porra tá fazendo aqui? — urro, impaciente.
— A Rissa não te contou? — O foco no apelido pessoal de Clarissa me
causa náuseas. Com a chegada de Lilian, a herdeira se afasta dois pulinhos
no banco, abrindo espaço. — Ela me contratou!
Ácida, minha irmã senta-se ao lado da minha nêmesis, trocando sorrisos e
olhares cúmplices de quem com certeza bate em idosos na rua.
— Como assim... Te contratou, Lilian?
— Aulas de piano! — cantarola. — Todo mundo sabe que eu sei tocar
melhor do que você.
Sim, eu pensei que as pessoas soubessem, mas nunca imaginei que seriam
todas.
Se fosse guitarra, violão, bateria ou qualquer outro instrumento que não seja
clássico demais, eu dominaria a arte dos ensinamentos práticos, mas piano é
e sempre foi a praia da minha irmã mais velha. E apesar de detestar as artes
por seus próprios motivos, aparecer e ser vista não são atributos que Lilian
Campos negaria.
— E eu quero a melhor ao meu lado, Ária. — Clarissa pousa sua mão acima
da minha, me passando falso acolhimento. — Você entende, não é?
Ainda não consigo assimilar quando e onde as duas conversaram, mas
entendo que nada é impossível para alguém que vive cercada de informações
fáceis o tempo todo.
— Eu...
— Entende! — Clarissa responde por mim, falando alto. — Agora preciso
ensaiar um pouco. Pode ir, por favor? Gosto de me concentrar!
A Teoria do Efeito Borboleta diz que uma ação pode gerar conflitos
catastróficos em poucos segundos, abrindo uma linha de possibilidade e
resoluções ao bater de asas de uma pequena borboleta. No meu caso, a única
coisa que Clarissa deveria ter feito era ter passado reto do meu vídeo e ter
compartilhado, quem sabe, imagens de uma foca trocando trompete numa
banheira.
Teria me poupado de certos pensamentos.
— Bom ensaio — profiro, pegando de mau jeito a minha ecobag.
— E feche a porta! — Lilian aconselha.
As duas, então, caem na risada, compartilhando, assim, uma piada interna
que apenas elas entendem.
Marcho em direção à saída, nem um pouco convencida a desistir do meu
Bilhete Dourado para os palcos e para as apresentações intimistas que tanto
sonho.
A trilha sonora dos meus devaneios se mantém fixa rente à risada de Clarissa
e Lilian, que assistem à minha saída de com olhinhos atentos. Finjo um
sorriso simplório ao fechar os dois lados da porta, me encontrando sozinha
no corredor.
Uma ideia só é boa quando lapidada, confesso.
E quando uma artimanha é usada, é bom que seja revidada da mesma forma.
Dessa vez, com ainda mais informações.
Pesco meu celular da bolsa, digito o número que preciso e começo mais um
capítulo da minha jornada em ser uma estrela.
ALERTA DE REENCONTRO!
Quem disse que Ária Campos estava começando a sumir, mentiu. Hoje,
nossa amada estrelinha foi vista ao lado da primeira-dama de São
Palomane, Natália de La Plume . Fontes confiáveis confirmam que
poderemos ver Ária em alguma campanha da Tulipe Tulipe em breve. Fora
que Clarissa e ela continuam beeeeeem amigas, tá?
Foi apenas um hiato?
Nós esperamos que sim!
Postado por MinutoGossip
11.01
“Ora, mas veja Não é aqui que ficam os perdedores?
Chegue pra lá, Não pertenço a este lugar, não.”
Você Disse que Eu Perdi? — Canção de Liz Salles Natália me enviou uma
roupa especial para o evento de hoje.
Um terno de tecido pesado, com direito a saia plissada, estilo duquesa, com
mais um broche de heras venenosas para exibir no bolso lateral do lado
direito. A combinação de hoje é retangular, com certo relevo nas plantas
oficiais do governo desta cidade.
Dá para notar que a concepção do terninho e saia é onerosa.
O conjunto foi assinado por um estilista de alta costura paranaense e não
deve ter custado menos do que alguns milhares de reais.
Lilian, por sua vez, veste uma roupa idêntica à minha, só que a dela é
vermelho-cereja.
— Você tá bonita.
Elogio a minha irmã, mantendo os braços ao redor do corpo, caminhando em
direção à área de visitação, o espaço onde devemos estar como convidadas
de honra da família.
— Hum... Obrigada. — Pondera ao responder. — Não gostei muito da cor,
vermelho me deixa meio... Brilhante. Parece que sou uma pimenta com
pernas.
— Uma pimenta com pernas bem bonita — ressoo.
De relance, me encara com desconfiança trilhando todos os pontos delicados
de seu rosto sério. Lilian não tem culpa que herdou os traços com ares de
superioridade da parte da família da nossa mãe. Mesmo quando mantém o
semblante tranquilo, ainda parece pronta para retrucar qualquer pessoa ou
tese.
— O que você quer? — resmunga de volta. — Um elogio? — sugere. —
Porque não terá. Verde, definitivamente, não é a sua cor.
Sua afirmação sequer faz cócegas no meu subconsciente.
Quando está na defensiva, minha irmã não é muito lógica. Não respondo,
apenas sacudo os ombros, apontando para o alto da praça onde devemos
estar, bem perto das escadarias do Museu Milenar. O evento começou faz
uma hora, mas Natália nos aconselhou a chegarmos “atrasadas” para
demonstrar charme.
O caminho de pedras cinzentas e farinhentas é uma péssima receita para os
sapatos de salto que me foram emprestados. Se um desses pares estragar, não
quero ver a conta final.
— Eu que te pergunto. — Devolvo a entonação na conversa.
— O que você quer?
Ela ri pelo nariz, ajeitando a pulseira no centro do pulso.
— Muitas coisas, eu diria — tacha. — Mas a principal delas é ser vista como
amiga da Clarissa. E quem sabe descolar uma pontinha em alguma publi
para a Tulipe Tulipe.
— Sabe, Lilian. — Suspiro alto, com o olhar fixo no palco onde estaremos
daqui dois segundos. — Nós não somos tão diferentes assim.
— Se quer um comercial com a marca da Natália, não me importa muito —
admite. — Mas se tornar amiga da Clarissa... Ah, isso eu quero ver, cara
irmãzinha.
— Que se foda a Clarissa — reitero. — Nem tudo é sobre ela.
— Olhe ao redor e verá que está enganada. — Lilian projeta sua mão no meu
ombro, me impedindo de seguir em frente e indicando uma meia-dúzia de
pessoas ávidas que gritam o meu nome, do outro lado da grade de proteção.
— Você pode até estar curtindo essa coisa de Barbie Popstar, mas se
soubesse ler nas entrelinhas, veria que essa cidade é dos Plume. Logo, de
Clarissa.
— Me avise quando Clarissa não estiver brincando de bonecas com você.
Retiro sua mão com cuidado e abro um sorriso enorme para Lilian, seguindo
em direção às pessoas que me recebem com gritos e beijos. A maioria se
espreme para desviar dos seguranças, mas
quando percebem que me aproximo, afrouxam a proteção exagerada.
Enquanto atendo todos que me pedem uma foto, sei que o olhar de minha
irmã queima as minhas costas.
Com um drinque de abacaxi com muito gelo colorido na minha mão, vago
pelo ambiente fechado do Museu Milenar com a atenção fixa nos quadros
que contam um pouco da história da cidade. O
palco em que Clarissa tocará daqui a pouco está recebendo um grupo de
meninas que dançam uma música típica alemã em homenagem ao fundador
do museu.
O palco é virado para o vale da praça nova, garantindo ao público um pouco
de entretenimento, mas fazendo com que se torne difícil conversar deste lado
da festa.
— Você é uma garota persistente.
A acusação me faz girar nos calcanhares, pronta para encontrar Vinícius. O
caçula, que tem quase a minha idade e não parece tão novo assim, brinda seu
copo de espumante com o meu drinque.
— Achei que deveria vir — falo, erguendo o busto. — Sua mãe me
convidou, e a minha sempre disse que recusar convites sinceros é falta de
educação. E... — Dou uma olhada no salão, procurando por Lilian. — É
comida de graça.
— Quem disse? — Vinícius franze o cenho. — Isso vai sair do seu bolso!
— Do meu?! — brado. — Então vão servir salgadinhos Fandangos e suco de
limão da Tang, né? É isso o que eu posso pagar!
Vinícius ri como um verdadeiro lorde. Toda a sua postura invejável me faz
consertar as minhas costas curvadas imediatamente.
— Quer companhia? — sugere. — A minha, no caso.
— Você é tão áspero quanto sua irmã?
— E você é como a sua?
Vinícius e eu nos fitamos por dois segundos. Não somos santos e nem
perfeitos, mas é bom que tenhamos encontrado algo em comum.
— Eu não falo da sua e você não fala da minha — defino, entortando os
lábios. — É um bom acordo?
— Feito! — Com a mão vaga, Vinícius sela nosso pacto. O
cara solta os meus dedos e para ao meu lado, sendo a primeira conversa
sincera que tive desde que cheguei. Depois que atendi os seguidores que
vieram até aqui atrás de mim, só cumprimentei Natália e o prefeito, e andei
de um lado e pro outro, silenciosa. — E
me desculpa por não ter te dado atenção antes... Tipo assim, há vários dias,
pensei que você não quisesse estar perto da minha família.
— Não te contaram?! — Estreito os olhos. — Sou sua irmã perdida. Vocês
têm que me aturar agora, senão farei um escândalo na mídia.
— Bem que eu desconfiei. — Aponta várias vezes na minha direção. —
Mas... Se fosse eu, não falaria sobre ser a minha irmã com tantos políticos
por perto.
Vinícius supervisiona ao redor; quase todos os engravatados mais famosos
da política de São Palomane estão aqui.
Engulo em seco.
— Ah, sim. Eles podem ouvir, né?
— Sim, além de acharem que está falando a verdade. — Enruga a testa. — E
não quero que você seja a minha irmã... E nem parte da família.
O tom usado é pontuado com um sorriso cálido que se esconde como
malicioso nos lábios torneados de Vinícius. Entendo a cantada logo de cara.
Não tenho tempo de respondê-lo, porque uma garçonete segurando uma
bandeja de prata nos oferece um celular deslogado no centro do objeto.
— O que é isso?
Vinícius já está sorrindo na direção dela, sendo muito educado.
— O celular tá conectado com as redes sociais oficiais da prefeitura. — Ele
pega o aparelho, piscando para a garçonete. Ao entender o ato, se distancia
de nós. — Era tecnológica, sabe? Eles pedem para os convidados gravarem
um vídeo pequeno, assim as pessoas que acompanham as atualizações sabem
o que estamos fazendo.
— Estão tentando provar que não tem drogas por aqui? — brinco.
— Todo mundo sabe que tem drogas na cueca de algum desses babacas. —
Vinícius levanta o celular na altura dos olhos, arrumando o cabelo bonito,
grande e cacheado com cautela. — Mas dançar o ritmo da música é assim
mesmo.
— E se eu quero ser vista, é bom que eu aprenda a coreografia o quanto
antes. — Me aproximo dele, abrindo um sorriso brilhante para aparecer aos
seguidores da cidade inteira.
— Exatamente.
Vinícius repassa o braço por cima dos meus ombros, alegre.
— Fala, pessoal! — discorre, cheio de energia. — Aqui é o Vinícius de La
Plume, diretamente do Museu Milenar e da nova Praça dos Três Sóis, e o
evento tá irado. Tão irado que a mais nova estrela da cidade já marcou
presença aqui!
Divertido, Vinícius curva-se para conseguir me filmar. Estou mais bonita do
que pensei.
— Ele sabe que está exagerando — digo para a tela, gargalhando. — Mas
agradeço demais pelo convite!
— Se agradece, vai aparecer mais vezes?
— Vou, claro!
Entramos em um espiral de elogios jogados ao vento, com risos fáceis
demais para agradar um público fiel, mas funciona.
Testamos todos os filtros de orelhas de coelho que encontramos disponíveis
também.
Pousando o celular de volta na bandeja de prata, Vinícius termina de beber
todo seu espumante com um único gole.
— Pensei que nunca fosse aparecer lá em casa depois que a Clarissa fugiu de
você.
— Ela fugiu de mim?!
— Não leve para o lado pessoal, ela foge de todo mundo.
— Não. — Sorrio. — Fico feliz em saber que a assustei ao ponto de fugir de
mim.
Vinícius faz uma longa pausa, refletindo se entendeu bem ou não.
— Enfim... bom saber que tá de volta.
— Obrigada!
— Mas se quer um conselho, Ária.
— Não quero.
— Não fica insistindo nisso de ser amiga dela.
Por cima de seus ombros, vejo a silhueta perfeita de Clarissa adentrar o
salão, sendo seguida por algumas amigas e a minha própria irmã.
— Não quero mais este cargo. — Dispenso a entonação com a minha mão.
— Ser amiga de uma pessoa é chato demais. Prefiro a inimizade.
11.02
REUNIDAS!
Acontece hoje, na Praça dos Três Sóis, um evento que reuniu nossas amigas
favoritas. Apesar de não serem clicadas juntinhas, podemos afirmar que
Clarissa e Ária não pararam de trocar olhares durante a primeira hora do
evento.
Amigas são assim, mesmo!
Postado por MinutoGossip.
Cresci ouvindo Liz Salles, mas só me dei conta de que era fã de seu trabalho
aos oito anos.
Minha escola estava promovendo uma festa à fantasia com a temática das
principais figuras brasileiras que inspiravam as crianças e me deixaram
escolher uma delas. Lilian foi fantasiada de Cobra Celeste, de “Castelo Rá-
Tim-Bum”, com direito a pintar o rosto de rosa-shocking e uma língua falsa
de plástico grudada na boca.
Quando parei para pensar o que seria, lembrei do que me vestiria. Naquela
época, eu queria ser como a minha mãe nos anos 90; descalça, de camisetas
folgadas, despreocupada com a vida, seguindo bandas de rock pelos
bastidores sem se importar com o dia de amanhã. E o mais parecido que
encontrei foi a sua cantora favorita, Liz.
Percebi que sabia todas as músicas e que eram as primeiras que eu testava a
voz quando decidia cantar com o meu pai. Fomos atrás de calças jeans de
lavagens claras, chinelos com tiras marrons e suspensórios. Reencarnei Liz
na capa de seu álbum mais famoso, “Latitude”, onde aparece perto de uma
cachoeira, mostrando o dedo do meio, enquanto o nome do disco lhe censura
de propósito.
Fui a sensação da escola por alguns dias pela fidelidade da fantasia e, desde
então, não larguei mão da minha adorada ídola.
Mesmo que ela tenha abandonado o Brasil em 2005, para viver isolada em
uma fazenda nos alpes chilenos.
Mas toda a concepção de Liz, minha música e quem sou hoje em dia, está
pregada no meu alcance.
Porque quando Lilian se locomoveu cinco dias na semana para praticar
piano com Clarissa, as duas prepararam uma surpresinha.
Em notas clássicas, a herdeira apresentará “Céus e Nuvens”, em homenagem
ao evento. Uma canção de Liz.
— Escolhi para você — Clarissa murmura, ombro a ombro comigo.
Neste instante, Batista está preso em um discurso, no auge do palco, sendo
aplaudido pelos cidadãos que compareceram do lado de fora do museu. É
uma multidão, na realidade. Uma multidão empenhada em amá-lo. Em
respeito a ele e ao evento, nenhuma de nós pode se mexer mais do que
poucos segundos centímetros, porque precisamos fingir que prestamos
atenção nele.
— O quê? — sibilo de volta. — O rabo de cavalo horrível ou o terninho que
desenterrou do túmulo da Rainha?
Por vacilo próprio, pelo canto do olho, percebo que Clarissa confere seu
modelito por breves segundos, apenas para ter certeza de que não errou em
alguma paleta de cores. Porém, não há nada diferente. O mesmo terno com
saia e rabo de cavalo baixo.
— Não — responde, ainda olhando para a frente, seguindo o protocolo de
respeito ao prefeito, exatamente como estou fazendo.
— A música. Você ama Liz, pensei que gostaria de ouvir.
— Gosto de ouvir a minha cantora favorita, mas não quando você toca.
— Nunca me ouviu tocando!
— Se for como se veste, deve ser tão entediante quanto.
Durante a semana, as duas, Clarissa e Lilian, passaram mais tempo juntas do
que posso contar. Todas as minhas investidas de fazer parte das aulas
práticas foram destruídas por ambas, e enquanto eu não conseguir o mínimo
de apreço da herdeira, a parte técnica da minha vida continuará no mesmo
lugar.
Precisei agir para garantir o meu destaque.
Se Clarissa tivesse colaborado, Batista anunciaria que Clarissa e eu
trabalhamos em um solo digno da nova praça, mas como ensaiou com Lilian
a semana inteira, meu nome foi rapidamente excluído dos créditos finais.
Bom, meu nome foi excluído, agora não mais.
— Pois saiba que sei tocar sim, mas é só para você perceber que não te
quero por perto.
— E quer a Lilian? — Abro um sorriso de lado. — Você sabia que ela fala
enquanto dorme? Se eu fosse você, tomaria cuidado.
Com o olhar mais afiado do que uma águia pronta para capturar seu almoço,
Natália gira o pescoço com lentidão, pronta para oferecer uma bronca a nós
duas. Arrumo de novo a minha coluna, concordando com a cabeça a
qualquer pronunciamento que Batista esteja fazendo. Não me importa o que
diga, apenas concordo.
Vinícius esconde a vontade de rir ao fingir que coça a bochecha, mas
Clarissa arfa um pouco alto demais.
— Você se dedicou muito, né? — Puxo assunto. — Para o dia de hoje.
— Como assim?!
— Esforço — repito. — A Lilian chegou muito tarde a semana toda...
Ensaiando com você.
É o primeiro sinal de guarda baixa que a modelo me oferece em semanas.
— Ah, sim. — Faz uma pausa longa. — Minha mãe quer que tudo seja
perfeito. Não sei tocar piano tão bem quanto gostaria, mas... A Lilian ajudou
bastante, mesmo que tenhamos ficado até tarde desvendando as partituras.
Sorrio, acompanhando o falatório externo. Batista é ovacionado de novo;
abre os braços, recebendo todo o amor e gratidão que seu leal público tem a
lhe oferecer. Se aproxima do microfone, indicando o piano ao seu lado
direito com os dedos esticados.
— E sem mais delongas! — anuncia.
— Bom — inicio, arrumando a minha saia. — Que pena que tanto trabalho
foi jogado no lixo.
— Como assim?! — indaga, exasperada.
Sinto suas íris em mim, porém não respondo nada, continuo a encarar seu
pai.
— Quando pensei em alguém especial para tocar uma maravilhosa música a
vocês, pensei diretamente nesta pessoa — continua o prefeito. — Alguém
que conhece a cidade tão bem quanto eu, alguém que está escalando o
sucesso com determinação.
Senhoras e senhores, espero que recebam com graça a nossa Ária Campos!
A salva de palmas é forte e eloquente, quase nenhuma pessoa ao meu redor
deixa de me prestigiar. Vinícius, apesar de chocado pela mudança repentina
de planos, esconde a surpresa muito bem. O prefeito não nota nada de
diferente, é claro que seguiu um roteiro muito bem ensaiado.
Clarissa é jogada em um poço de desilusões tão grande que precisa levar um
cutucão discreto da própria mãe para enfiar uma expressão límpida no rosto
e me aplaudir, como se não quisesse voar no meu pescoço.
A única que não mostra reação alguma é Lilian. Não bate palma, não está
estática, não anseia me matar ou me empurrar do palco. Apenas se mantém
reta e fixa ao lado das outras amigas e companheiras de Clarissa, me
observando de perto.
Só esboça uma pequena ação quando pisca para mim.
Talvez dizendo que, ainda que sejamos diferentes, em uma luta braçal de
poder, fama e futilidades, ainda somos irmãs.
Me aproximo do palco, acenando para as pessoas que chamam por mim, e
subo os poucos degraus em direção ao centro da construção. Cumprimento o
prefeito com um aperto de mão prático e me direciono para o piano,
começando os primeiros acordes clássicos e repaginados de “Toda a Má
Reputação em Mim”, uma canção que Liz Salles escreveu quando precisou
se defender de um acidente.
A situação?
Ela tinha acabado de atropelar sem querer sua arqui-inimiga.
— Filha da puta!
— Não, é glacê de morango.
Ofereço uma nuvem de glacê cor-de-rosa na ponta do meu dedo para
Clarissa experimentar um dos melhores confeitos que fizeram na festa pós-
inauguração. Forço um sorrisinho, sacudindo meu dedo para os lados.
Porém, preciso disfarçar bem.
Meus sentidos me pregam uma ligeira peça, porque, sem aviso, imagino a
herdeira segurando a base da minha mão, avançando um passo até o meu
corpo, se envergando até alcançar o meu dedo com a boca, chupando-o com
excelência até não restar glacê ou doce algum na minha pele. A fantasia dura
pouco mais de três segundos, mas é o bastante para me irritar.
E ainda que seja uma visão impossível de se realizar, não é de todo mal,
mesmo que contraditório. Tanto, que aprecio cada milímetro dela.
— Ária, sabe quanto tempo passei praticando aquela porcaria de música?
Seus sussurros são ferozes, porque escândalos no meio de uma festa não são
o ideal esperado da filha do prefeito.
— Deixa eu pensar... Oito a nove horas de ensaios — recito, no automático.
— Mas fica tranquila. — Lambo o glacê do dedo, piscando. — Deveria é me
agradecer, eu salvei a apresentação!
Do outro lado do salão, suas amigas conversam com Lilian e Vinícius. Os
dois últimos olham para cá sem esconder a preocupação por estarmos
sozinhas.
— Só... — Clarissa coça a testa, desesperada. — Como conseguiu isso? Eu...
Eu pensei que estava tudo certo, eu...
— Quando você vetou qualquer possibilidade minha de participar das aulas,
tive que agir. — Dou de ombros, dando as costas para ela, porque sei que
serei seguida. Caminho pelo salão do museu, calmíssima. Antigamente,
posso apostar que ofereciam bailes aqui. — Convenci sua mãe a me deixar
tocar, e pronto!
— Mas... — Clarissa me segura delicadamente acima do cotovelo, pausando
a minha caminhada. — Ela não me disse nada!
— Não?! — Arqueio as sobrancelhas, fingindo me importar. — Que pena,
Rissa! — Retiro um fiapo de linha de seu blazer. — Talvez ela tenha
esquecido, sei lá...
— Eu perdi todo o meu tempo, Ária!
— Aí já não é comigo. — Com cuidado, me desvencilho de sua mão. — Eu
me ofereci porque sei que seria “bom” falar sobre uma garota comum. Uma
pessoa que começou muito cedo na carreira musical e que surgiu da noite
para o dia, mas que ainda mantém a essência de onde veio. — Empurro uma
mecha do meu cabelo para de trás da orelha. — Seu pai seria otário se não
acolhesse essa narrativa, vamos ser sinceras.
Ultrajada, Clarissa recolhe as mãos.
— Você é pior do que eu pensei.
— Não. — Faço bico. — Eu disse que não pouparia esforços para ter
sucesso... E nesta altura do campeonato, já deve ter um vídeo meu
circulando por aí. Divida os holofotes, Clarissa, prometo que não doerá
tanto!
— Você...
— Já disse. Ofereci a ideia para a sua mãe, ela gostou, estou aqui. Sem
mistérios. Mas... — Me aproximo. — Se ela não te avisou, realmente não é
problema meu!
Fico feliz que a herdeira não possa soltar lava dos olhos, porque estaria
morta uma hora dessas. Não deixo seus xingamentos internos me atingirem,
não quando estou tão feliz.
Em um pequeno resumo, o concerto foi divinamente fantástico. Consegui me
preparar muito bem durante a semana.
Foram horas de preparo, estudo e muita pesquisa, que valeram a pena no
final. Lilian ainda faria um trabalho melhor que o meu, mas ao menos
consegui destaque.
É o bastante.
— Rissa? — Uma de suas amigas aparece, a acolhendo ao abraçá-la de lado.
— Temos que ir, estamos atrasadas!
A amiga, no caso, é Majuri.
O meu espanto é vê-la tão irreconhecível. Vestida com um blazer por cima
de um vestido que apaga o seu tom escuro de pele, Majuri se parece com
todos os outros convidados. Inclusive porque suas tatuagens foram
escondidas com o tamanho das mangas do blazer.
— Majuri?
— Pensei que nem ia falar comigo, Ária.
No entanto, seu sorriso sedutor continua o mesmo.
— Nem ao menos percebi que era você.
— Aos finais de semana eu acompanho a minha mãe nos comitês de política,
sabe? Para garantir que eu tenha certos privilégios... — Ela se aproxima um
pouco de mim, apontando para uma das mulheres que usa um sari colorido,
com contas nos braços e nos dedos. É Anili Mahar, uma senadora
importantíssima do estado, que luta pelos direitos trabalhistas. — Se eu
aparecer, ela não encana com nada da minha vida.
— Me parece justo — defino.
Clarissa revira os olhos, deixando que seu ombro toque no de Majuri. Atrás
delas, outras duas garotas lhe esperam. A mais alta do grupo está grávida; o
relevo da barriga é assustadoramente grande, suspeito que pode nascer a
qualquer minuto. Seus ombros são largos e sua pele negra-escura possui um
pouco de maquiagem brilhante na superfície.
E a segunda está com os braços cruzados, mexendo no buraco vago que a
retirada de um piercing deixou no nariz.
— Vamos logo. — A herdeira cutuca Majuri, que não para de sorrir para
mim. — Não aguento mais ficar aqui.
— Vamos — promete. Mas, ainda com a atenção em mim, emenda: — Você
toca muito bem, Ária. Não sabia que dominava o piano também.
— Tem tantas outras áreas que eu domino, Majuri.
— Vamos! — Clarissa brada, apertando o pulso da amiga.
Com um sinal de queixo, Clarissa chama as outras duas, que se despedem
superficialmente de Lilian e Vinícius.
— A gente se vê — declara Majuri. — Né?
— Com certeza, não quero te perder de vista.
Ao rir do tom da minha voz, consigo fazer Majuri Mahar abaixar a cabeça ao
sorrir com a minha cantada — ao menos, é um sinal muito positivo para
seguir em frente.
Em fila única, as quatro deixam o salão sem se despedir dos pais e, como é
de se esperar, desaparecem pelo resto da noite.
12
“O que vai, Não é nosso Que bom que encontrei você.”
Bons e Fiéis Amigos — Canção de Liz Salles Há uma parte de qualquer
cidade que uma pessoa igual a mim jamais verá. Com sorte, posso
experimentar um vislumbre do gostinho do que é presenciar o luxo, mesmo
nada realmente sendo meu.
Para começo de conversa, a comida, para eles, jamais é horrível ou de quinta
categoria. Tudo é tão leve e delicioso, que mal nos damos conta do quanto
estamos comendo. Os carros, as roupas, o jeito de falar e a maneira como se
portam, revelam ímpeto de uma boa educação.
E, talvez, andar no banco da frente de carros raros também não seja algo
destinado para mim.
— Já disse que não me importo! — Vinícius segura o volante com calma,
atravessando a cidade na madrugada de sábado para domingo. — Nesse
horário, qualquer lugar é dez minutos de distância.
— Que bom. — Lilian argumenta, no banco de trás do Porsche. — Porque
eu não tinha intenção nenhuma de pedir um Uber.
Descontraído, o Plume ao meu lado apenas ri pelo nariz, ajeitando o
retrovisor do carro para enxergar Lilian melhor.
Chegar a essa hora em casa não significa muita coisa; Vinícius me
convenceu a ficar até o jantar ser servido, e na linguagem de ricaços sem
hora para voltar, quer dizer que apenas forrei meu estômago com ravioli
quase meia-noite em ponto.
E depois que comemos, decidi ir para casa.
As músicas na playlist da pequena baladinha no museu não foram grande
coisa, então tive que me contentar com poucos resquícios de diversão. E
todos envolviam Vinícius.
Com ele por perto, as músicas ficaram toleráveis, os atrasos na hora de servir
petiscos também. No final, não foi uma boa, boa festa, mas serviu para me
entreter.
E preciso dizer que fui objetiva em dizer que teria visibilidade no momento
em que colocasse meus pés no palco, até o momento que eu saísse.
— Hum... — Vinícius desacelera, entrando na rua do Clube 148. O letreiro
em neon, que antes tinha um A faltando, agora brilha com todas as letras
enfileiradas. — Vocês... Moram aqui?
— Sim — falo, me agitando. — Bem no letreiro. A Lili dorme no C e eu
fico com o L.
— Parece bem confortável! — entoa.
— Não quando chove. — Ela entra na onda, abrindo a porta ao seu lado e
colocando suas pernas para fora do banco. — Valeu pela carona — diz, a
contragosto. Não parece agradecida.
Lilian, sem esperar por mim, sai aos tropeços, fecha a porta e dá a volta pelo
carro, atravessando a rua e cumprimentando os poucos clientes que restam
sentados no meio-fio do clube, em uma madrugada tão gelada quanto as
anteriores.
No karaokê, do lado de dentro, alguém arranha “Evidências”.
Um clássico de quem quer afogar as mágoas na bebida e na cantoria.
— Ela é sempre assim? — Ele indica com o polegar o lugar onde minha
irmã esteve. — Um doce?
— Sempre. — Reúno os meus pertences no meu colo. — Mas hoje estava de
bom humor. Ela ter aceitado sua carona é como se tivesse, sei lá, te
abraçado.
— Fascinante — debocha, curvando os lábios.
Vinícius batuca os dedos no centro da buzina, sem a intenção de apertá-la.
Parece inquieto, mas se mantém concentrado em uma ideia que faz seu rosto
suavizar.
Aproveito a brecha para refletir de novo no sumiço de Clarissa. Por que a
herdeira some tanto?
— Te vejo quando?
Sua pergunta quebra a minha vibração investigativa de pronto.
— Quando sua mãe me selecionar para uma tarefa impossível, quem sabe.
— Deslizo a mão para abrir a minha porta.
— Ou antes.
— Prefiro antes. — Vinícius retira as mãos da circunferência do volante e
recosta-se no banco. Ele é tão bonito e charmoso quanto o restante de sua
família. — Por exemplo... Amanhã, na faculdade?
Levo bons instantes para detectar de qual assunto está falando, até me
recordar que as minhas aulas na Torritieli Torres começam na segunda.
Depois de dois semestres com a bolsa trancada, esqueci o que era ter um
compromisso diário com os estudos.
— Ah! — Rio alto. — A faculdade. Sim! Às vezes esqueço que a sua mãe
sabe muita coisa sobre mim.
— Às vezes assusta, confesso. — Ele se aproxima do meu corpo, como se
me contasse um segredo. — Mas imagino que você seja do campus de artes.
— Exatamente. Música — admito com orgulho. — Dei preferência às
matérias musicais neste semestre, mas parte do meu coração sempre ficará
nas artes cênicas.
— Eu sempre estou do outro lado do campus, focado em Comunicação —
ressalta. — Mas posso atravessar a faculdade se isso significar um almoço
comigo. Com o ônibus do próprio campus, leva apenas dez minutos.
— Isso é um convite?
— Ou uma ameaça.
— Prefiro um convite, é bem mais sensível.
Miro na faísca incandescente que respalda nos olhos castanho-escuros de
Vinícius de La Plume; ele está flertando comigo e pretende continuar.
— Ária — chama, interessado em me encarar bem no fundo da minha alma.
— Sim?!
— Eu quero te beijar agora — anuncia. — Eu vou me aproximar e, se não
quiser, é melhor dizer.
Sorrio sem jeito. Falando sério, quem não o beijaria?
Legal, interessante, divertido e cuidadoso na medida certa, é claro que meus
lábios formigam só com a expectativa de beijá-lo, finalizando um dia
completamente estranho, mas o deixando ainda mais aceitável.
Quem diria não?
Eu.
Deixo a situação se estender, captando seus movimentos suaves. A boca é
levemente umedecida. A blusa de manga comprida se mantém erguida
alguns centímetros, revelando o pulso delineado por um relógio de prata,
dando enfoque às veias saltadas e à mão de dedos grandes e enxutos.
É uma ótima visão.
— É melhor não. — Pauso suas ações ao esticar minha mão em seu peito. —
Provavelmente é um momento de festa.
— Momento de festa? — recua, sutil.
— Quando todos se tornam atraentes porque acabamos de sair de uma festa.
— Não, não. — Vinícius senta-se melhor. — Tenho certeza que quero te
beijar dentro e fora de uma festa.
Os elogios, as cantadas, os olhares e a combinação do enredo são ótimos
para a minha autoestima adormecida, que não sabe mais o que é manter
interesse em alguém há tempos.
— Obrigada, mas... — Arrumo meus ombros. — Ainda acho melhor não.
O caçula da família, que completará vinte anos em breve, gira seu rosto para
frente, assentindo com pesar.
— Quero ser sua amiga — acrescento.
— Amigos se beijam.
Abro um sorriso sacana.
— Não sei que tipo de amigos anda tendo, mas... — Não termino de falar,
porque me sinto confortável em perceber que a recusa de beijá-lo não pesou
o clima. — Eu não tenho muitos amigos, Vinícius. E, na verdade, não tenho
nenhum fora a minha família. E a Lilian não conta, ela é obrigada a
responder os meus “bom dia”.
— Foi por isso que aceitou ser amiga da minha irmã, então?
Não respondo diretamente, apenas desconverso ao gesticular.
— Clarissa ainda é a última pessoa que quero no meu círculo de amizade.
A frase morre, porque o cara leva alguns segundos ouvindo os próprios
pensamentos. Pensei que a herdeira não tivesse ninguém, que fosse tão
solitária quanto... enfim, imaginei que as pessoas ao seu redor não
chegassem aos seus pés para firmar amizade. Mas ela tem Majuri, duas
meninas misteriosas e, querendo ou não, Lilian.
— Então, me desculpa. — A sinceridade traça cada poro de sua voz. —
Acho que pensei errado.
— Não, tá tudo bem. Pode ser que eu tenha gostado dessa atenção toda.
Novamente, seu queixo sobe e desce em total compreensão.
Um beijo não estragaria os meus planos, mas ao menos faria com que eu
pensasse nas minhas atitudes, e nesta posição de poder, é melhor saber
exatamente com quem estou lidando.
— Sendo assim... — Ele esbarra o ombro no meu. — Também quero ser seu
amigo. Tipo, de verdade. Sem segundas intenções!
Vinícius ergue a palma da mão aberta para incrementar sua promessa.
— Mesmo?!
— Mesmo!
— O almoço todos os dias no campus tá de pé?
Ofendido, Vinícius vai para trás e volta, boquiaberto.
— Claro que sim! — Me dá um peteleco no joelho. — O
bandejão da semana é o melhor. Almoço por um real, suco por cinquenta
centavos. É um banquete, Ária!
— Combinado! — Me animo de verdade, estendendo a minha mão para
selarmos nosso acordo diário. — E eu falo sério, é o meu primeiro dia depois
de muito tempo.
— Estarei lá! — reforça.
Gentil, o motorista da noite aperta a minha mão, oscilando para os dois
lados.
Com sorrisos nos rostos, é certo que nos veremos na segunda de manhã
como dois universitários.
É o que eu quero.
— E me chame de Vini — oferece.
— Até segunda, Vini.
Agora, pronta para ir embora e me enfiar debaixo de um banho quente, tenho
tempo de ouvi-lo dizer um último conselho.
— Se quer saber a minha opinião, Ária — profere. — Haja com cautela
sempre.
Abro a porta, repassando as pernas para o outro lado.
— Cautela sempre — repito, arrebitando o nariz e conseguindo um sorriso
afetuoso do meu mais novo amigo.
13
“Calma, vamos lá Acho que você gosta de mim, sim Não adianta mentir.”
Nem Tudo é o Que Parece — Canção de Liz Salles ALERTA DE
CHUVAS INTENSAS NA REGIÃO!
São Palomane está sob o aviso de pancadas fortes de chuva durante a
semana. Os picos das tempestades acontecerão de manhã e à noite.
Postado por PalomaneReal Não dormi nem duas horas.
Não dormi nada, na verdade.
De domingo para segunda refiz a minha mala como se estivesse indo em
algum passeio escolar. Repassei todos os meus cadernos, minha roupa, e o
que não levaria. Tomei um café da manhã reforçado e avisei aos meus
seguidores que torcessem por mim. Criar uma pequena amizade com eles
adiantou para que eu me sentisse bem mais confortável.
Identificação com a rotina também.
Peguei ônibus e metrô bem cedo. Dentro de um veículo grande, ao lado de
outras vinte e oito pessoas, nem todos os seguidores do mundo podiam me
ajudar. Entretanto, andar de ônibus nunca me incomodou.
Nada me incomodou no meu início; nem o trânsito para se entrar no campus,
nem a pequena chuvinha que peguei, nem a poça de água que enfiei os pés,
tampouco os fotógrafos escondidos que insistiram em tirar uma foto minha.
Acenei de qualquer jeito e, mesmo assim, ficaram satisfeitos.
Me conduzi pelos horários que encontrei na Área do Aluno e fiquei sem
fôlego quando percebi que a ala de música possui um prédio só seu.
Vamos lá, colocarei Liz Salles no meio.
Ela foi convidada para ministrar aulas aqui antes da aposentadoria, estava
tudo decidido se não tivesse desistido de ficar no país. Preferiu viajar e
enviou um vídeo modelo para a Torritieli, informando que poderiam
transmitir quantas vezes quisessem. É
apenas um frame de trinta segundos, dela cantando um dos trechos mais
bonitinhos de suas músicas inacabadas, nos desejando boa sorte.
Amei assisti-los!
Estar aqui me lembra de quando fiz amizade com uma garota, no antigo
congresso de música. Jade. Acho que era Jade Reis.
Ficamos amigas de cara, mas durou o tempo do congresso e nunca mais
apareci na faculdade. Espero que ela esteja bem — e que tenha seguido a
carreira que tanto desejou.
Todas as minhas aulas foram orquestradas em ritmos que não consegui
acompanhar muito bem. Os professores retomaram as matérias de antes da
greve geral e a maioria — senão todos — dos alunos, já se conheciam. O
novo rosto sou eu.
Ao menos, foram educados.
— Está matriculada em alguma aula prática, Ária? — Meu professor de
História da Música, Paulo, me pergunta. Quase todos os alunos saíram da
sala, prontos para irem embora ou, ao menos, tentar. — Tem uma oficina de
aquecimento de voz pela tarde, é interessante.
— Peguei as teóricas por enquanto — respondo, feliz em interagir com um
professor. Interagir com um professor! Depois de tanto tempo, é bom demais
estar aqui. — Pensei em ficar com a cabeça nos livros durante um tempo, até
me divertir de verdade.
Paulo entende a piada, mas não ri muito, apenas solta um pequeno filete de
ar pelo nariz e termina de anotar em uma folha tudo o que preciso para
acompanhar meus colegas de turma. O rabo de cavalo de fios brancos
balança conforme respira.
— Tá aqui. — Me repassa o papel. Tem quatro itens listados em uma letra
arredondada. — Normalmente, não passo monografias, mas esse ano será
necessário. O preparo de grupos já foi feito, então você pode fazer sozinha.
Tem que comprar alguns livros que ajudam na matéria e sempre ler as
atualizações de conhecimentos gerais. Quando tem prova e as notas não são
satisfatórias, sempre ofereço uma de recuperação. Atente-se a isso, porque
você terá um prazo bem apertado. Ok?
— Ok — aviso de pronto, sendo eficiente.
Reconheço que Paulo participou de algum programa de reality show em
algum momento na vida. Como aqueles “Ídolos” ou “Cante Se Puder”, sei
que o já vi em algum lugar.
— Mais alguma dúvida?
— Por enquanto não, professor.
— Ótimo. — Sorri, pragmático. — Seja bem-vinda de volta.
Meu sorriso é enorme e guardo a folha — para não perder — na minha
bolsa. Saio da classe já com o celular em mão, pesquisando as livrarias mais
próximas para comprar o material de apoio o quanto antes. Ignoro a
notificação de chuvas fortes na cidade e sigo meu caminho pelo corredor,
espiando de vez em quando meus passos.
O prédio de Música tem auditórios, teatro e salas de gravação, além de
saletas de estudo com puffs coloridos para descansarmos enquanto
estudamos. É para uma delas que decido ir, para esperar a chuva passar.
Ainda que a minha barriga esteja roncando de fome — e que eu tenha
combinado de estrear o bandejão com Vinícius —, devo ter um bolinho de
baunilha no fundo da bolsa. Minha mãe é mestre em sobremesas quando
quer.
Alguns alunos me cumprimentam como se fôssemos conhecidos e não me
importo em respondê-los.
No andar das saletas, procuro a mais vazia, me enfiando em uma qualquer,
no fim do corredor. Um trovão acabou de fazer as paredes tremerem e as
janelas entrarem em um pequeno atrito, então imagino que demorarei para
almoçar.
Reparo que não estou sozinha na sala. Vasculho, por entre a borda do celular,
a garota que está sentada em um puff cor-de-rosa, de olho na janela
embaçada pela água.
— Tá me seguindo? — Clarissa me cobra, séria.
Me jogo em um puff amarelo, longe dela.
— Você faz música?
O meu tom de voz é tão neutro e tranquilo que vejo seus ombros relaxarem.
Dessa vez, não brigaremos. Ninguém vai estragar o meu dia, consigo ser
legal ou remotamente educada se assim for necessário.
Vi gente nova e conheci meus professores. Meus colegas são legais e me
convidaram para um barzinho na sexta. E depois de anos comprando livros e
materiais de segunda mão, cheguei ao ponto de poder comprar tudo o que
preciso em livrarias famosas.
Não o bastante, tenho um amigo novo me esperando para almoçar e pretendo
estudar o quanto antes.
Então repito, ninguém vai estragar o meu dia.
— Hum... — Receosa pela minha mudança de humor, Clarissa junta as
sobrancelhas levemente no centro da testa. — Não — é o que diz. Não fala
seu curso e nem me dá abertura para prolongar o assunto.
Retiro a alça do meu ombro e começo a caçada pelo bolinho de baunilha. A
fome aperta e me deixa sem vontade de fazer nada.
Preciso comer para obter energia, já que o meu dia não acabou.
No fim do estofado da ecobag, encontro dois bolinhos. Posso comer tudo na
frente dela, farelo por farelo, glacê por glacê, mas o espírito da bondade me
atinge e decido chamar sua atenção com um pigarro.
Clarissa me encara de imediato, curiosa. Seu cabelo, hoje, não está preso em
um rabo de cavalo e, sim, em um coque baixo.
Estilo bailarina clássica. Seu jeans é apertado e usa sapatilhas com pequenos
saltos.
— Quer? — Ofereço um dos bolinhos, o mais embrulhado. — Duvido que
sairemos daqui tão cedo.
— E é...?
— Bolinho de baunilha. Minha mãe que fez.
Aliás, com as novas garçonetes no clube, substituindo Lilian e eu, Bete
voltou a cozinhar o que mais gosta: sobremesas. Inclusive, comprou um
livro de culinária assinado por sua atriz favorita, Georgia Pessoa.
À minha frente, Clarissa não pensa muito, apenas faz que sim com o queixo.
Deve estar morta de fome, assim como eu. Ou todos que esperam a chuva
para terminar para conseguirmos caminhar até o bandejão.
Um pouco desajeitada, me levanto, arrastando o puff amarelo comigo e o
remodelando para o lado de Clarissa, que é onde me sento. Ela, de frente
para a janela. Eu, de costas.
A modelo aceita o bolinho da minha mão e o desembrulha com classe. Eu
deixo o lanchinho repousado no meu colo, salivando para sentir o leve
adocicado de uma das especialidades da minha mãe.
— Valeu — agradece, em um fio de voz. — Tô morrendo de fome.
— Imaginei.
Em sua primeira mordida, Clarissa arregala os olhos de leve, impressionada
pelo sabor.
— Posso te dar a receita se quiser — sugiro, pegando o celular de volta,
porque quero retornar às pesquisas sobre livros e materiais. — Ou se quiser,
posso pedir para que faça para você.
— Ah — solta. — Não, não. Valeu. Não quero incomodar.
— Não incomoda, ela gosta — reafirmo. Encontro uma promoção de Apoio
& Graves, um livro de capa dura, o mesmo recomendado por prof. Paulo. —
Ainda mais para você, Clarissa.
— Você tá estranha — define. — Não me provocou até agora.
— Isso se chama “Tenho coisa melhor para fazer” — falo, ouvindo sua
risadinha baixa, atitude que me surpreende um pouco.
— Tô pesquisando uns livros e não quero ficar de mau humor. Você quer?
— Hoje não — decide. — Então, por hoje... também não vou dizer nada.
— Combinado. — Sorrio para a tela do aparelho, o que espero que faça a
modelo entender que é para ela.
Em silêncio, ouço seu breve mastigar se fundir com o meu. O
bolinho de baunilha dura poucos minutos na minha mão e o dela persiste por
mais alguns instantes antes de acabar também.
— Nota? — pergunto de repente, subindo o olhar. Clarissa faz um aceno
com o queixo, confusa. — Sobre o bolo.
— Ah! — Sorri. — Dez, com certeza.
— Vou repassar para a minha mãe, pode deixar.
A herdeira leva algum tempinho me analisando e, então, diz: — Não
imaginei que você estudaria aqui.
— Nem você.
— Torritieli é o único lugar que meus pais não podem controlar direito,
então... é perfeito. Gosto das pessoas, do campus e do ambiente no geral.
— Então, mais do que tudo, vamos ter que nos aturar aqui também —
resumo.
— Espero que apenas aqui — deseja. — Sem querer ofender.
— Não ofendeu, penso o mesmo! — Sorrio de forma genérica e volto a
analisar a tela. Se eu comprar o livro dentro de cinco minutos, ganho frete
grátis. — O que você faz no prédio de música?
Ouço sua respiração pesar, pode ser que esteja ficando irritada, pode ser que
não. É um mistério.
Talvez muito entediada, retira o caderno da bolsa.
Reparo que escreve sem parar, distraída. Porém, só repete o nome da
faculdade, linha por linha, empenhada em encontrar algo para fazer além de
conversar comigo. É engraçadinho de assistir, porque seu “O” em letra
cursiva tem um adereço fofo logo embaixo.
Ao invés de puxar o traço em qualquer outra letra — como o T de, Torrietili
ou de Torres —, é o “O” que ganha atenção.
— Já que vamos tentar essa onda puritana apenas por uma chuva, preciso
dizer que você tocou muito bem. No sábado — especifica, como se eu não
soubesse que roubei sua chance de brilhar. — Só não usurpe meus trabalhos
na Tulipe Tulipe, aí estaremos em guerra.
— Primeiro. — Subo o olhar de novo. — Obrigada, fico feliz que meu plano
tenha dado certo. — Apenas sorrio porque consigo fazê-la revirar os olhos.
— E segundo, não tenho planos de dividir holofotes, então fique de olho em
mim!
— Ficarei — promete. — Como conseguiu? Digo... convencer a minha mãe
a dar o meu lugar para você.
Reparo que não é mágoa no tom de voz, apenas curiosidade.
Perder não faz bem para sua reputação.
— Usei da minha excelência em ser convincente. — Entorto os lábios. —
Assim que te vi com a Lilian, liguei para sua mãe e ofereci a minha
narrativa. Bem... — Sorrio. — Funcionou!
— Pra caralho — comenta, pensativa. — Mas não faça mais isso. Eu fiquei
horas trancada naquele lugar ensaiando, foi terrível.
Piano nem é a minha... — A herdeira pigarreia. — Enfim, não é a minha
praia. Entende?
— Pode deixar. Vou tentar interferir em todas as suas aparições.
Clarissa semicerra os olhos, não tem ideia se estou brincando ou não.
Sei que sua carreira começou sendo o rosto principal da marca da mãe e que
as campanhas da Tulipe Tulipe têm um grande espaço em seu coração, então
é cabível que esteja confusa mesmo.
— Ficarei de olho — promete, ainda desconfiada. — Não só de olho, como
um passo à sua frente. Sempre.
— Agora sim — cantarolo. — Isso sim é um jogo justo, quando as duas
estão prontas para ganhar e nunca perder.
— Terá que ter uma vencedora — insiste.
— E será eu. — Subo e desço os ombros. — A mídia já acha que somos
amigas, então... É fácil manipular um ou dois pauzinhos.
Clarissa relaxa o corpo, indignada.
— E nem sei como podem pensar uma coisa dessas! — reclama, alto. —
Não que você não seja... Sei lá, uma boa pessoa.
Talvez seja. Enfim... O que quero dizer, é que nem ao menos aparecemos
juntas e, de repente, todos pensam que somos grudadas.
— É curioso, eu diria. — Entorto a boca ao pensar. — Se fôssemos outras
pessoas, é provável que nos empurrassem como um casal. Como somos duas
garotas, somos vistas apenas como amigas. Confidentes. Parceiras. Essas
coisas.
— Não sei o que é pior — decifra. — Ser sua amiga de mentira ou sua
namorada de mentira.
Ignoro-a.
— Inventamos um fake dating? — brinco. — Um fake friendship? Existe
isso? Deve existir.
— Mas, enfim, concordo. Quem nos impediria de atacar uma à outra aos
beijos? — pergunta, erguendo uma sobrancelha. — Precisam pensar em
todas as possibilidades.
— Em algum fórum de internet já deve ter um shipp nosso — a tranquilizo.
— Algo como... Aríssa.
— Aríssa — repete. — Gostei. Parece nome de protagonista de livro de
fantasia.
Nós não rimos, apesar de ser um momento cômico. É difícil dizer o que
acontece, só que as coisas seriam mais fáceis se gostássemos uma da outra.
— Já que você está solícita — desafio, adorando o gostinho de irritá-la. —
Como você lida com... Ser uma figura pública?
— Sem querer ofender, Ária — começa, com a mão erguida.
— Mas seus seguidores não são quase nada hoje em dia. Qualquer pessoa
pode alcançar o que você conseguiu.
— Qualquer pessoa pode conseguir com ou sem o meu sorriso lindo? —
indago, cínica. — Porque meu sorriso pode ser um grande diferencial.
— Você nunca vai esquecer disso?
— Foi você quem falou! — reforço. — Então... Não!
— Enfim — pontua, desgostosa. — A marca de seiscentos mil seguidores
é... Pequena em comparação ao resto. Pode ser que sua vida tenha mudado
bastante, mas é apenas uma parcela do que pode ser.
— Como sabe que tenho seiscentos mil seguidores? Andou olhando o meu
perfil?
Clarissa fecha a boca devagar, piscando as pálpebras sem saber realmente o
que me responder. A herdeira, então, repara que a chuva parou
consideravelmente e começa a se preparar para sair, pronta para almoçar.
— Lido com uma câmera no meu rosto desde que nasci — responde,
ajeitando-se já de pé. — Já me acostumei. Não posso ajudar mais do que
isso... Enfim... — Limpa a garganta. — Obrigada pelo bolinho, a trégua
termina aqui.
Sem mais delongas, confirma seu posicionamento ao ressaltar sua promessa
com o queixo e sair da saleta, me deixando sozinha com as minhas próprias
teorias.
Ela com certeza andou vendo as minhas fotos.
MAIS QUE AMIGAS, FRIENDS!
Ária Campos postou uma foto essa semana que nos deixou encafifados. Em
uma das imagens, Ária aparece erguendo um bolinho, feito por sua mãe e,
na legenda da foto, escreveu: “Oi, Clarissa”. Não sabemos se é algum tipo
de provocação, mas acreditamos que se trate de uma piada interna entre as
duas.
A foto, que chegou à marca de uma das imagens mais curtidas da rede
social nesta semana, é uma grande confirmação de que Clarissa e Ária são
próximas.
Já temos nossas it girls favoritas!
Postado por MinutoGossip
14
“Ah, você sempre está aí Me vigiando aonde quer que eu vá Engraçado,
não, menina?
Como nossos olhos viram imãs?”
Uma Espiada e Eu Paro! — Canção de Liz Salles Durante três dias
seguidos, Vinícius de La Plume cumpriu com o acordo; nos encontramos
para almoçar no bandejão da faculdade, no centro de um espaço arborizado
em que os setores distintos da faculdade se unem em um só caminho em
direção ao prédio do refeitório.
Depois da chuva, comemos peixe frito com rodelas de limão; na terça, foi
macarronada com almôndegas; na quarta, salsicha ao molho vermelho, arroz
e feijão. Os sabores de suco são os mesmos até o fim da semana, laranja ou
graviola. E em todos os momentos em que encontrei Vini desocupado,
pronto para passar o tempo dos intervalos comigo, sempre estava sozinho.
Não conheci nenhum de seus amigos da Torritieli Torres, nenhum mesmo. E
também não o vi acompanhado de mais ninguém, a não ser da irmã.
No quarto dia em que nos encontramos, Vini sugeriu me buscar em casa para
chegarmos juntos. Depois de duas baldeações de metrô e um ônibus lotado,
aceitar uma carona não me pareceu má ideia.
Ontem, na quinta-feira, exatamente sete da manhã, Vinícius me esperou
dentro de um carro tão reluzente e caro que seria digno de qualquer
colecionador.
— Nem pensar — eu disse, me recusando a entrar no carro.
— Se vai me buscar todo dia em casa, que seja com algo mais discreto.
Ele riu da minha cara em resposta.
— Tipo uma... Brasília?
— Pode ser.
Na sexta, fomos para a faculdade em um carro bem mais discreto, da cor
prata e de preço popular. Mas ao menos tínhamos começado uma nova
tradição. Almoçar juntos e ouvir “Brasília Amarela”, dos Mamonas
Assassinas, logo de manhã, para esquentarmos os nervos e nos animarmos
para as aulas.
Minha mãe me fez um cupcake especial de aniversário em homenagem à
minha primeira semana de volta ao meu tão estimado curso.
O glacê de cream cheese entra em harmonia com a massa avermelhada do
bolinho, que é o meu café da manhã de hoje. Os farelos da cor-sangue se
misturam no caminho de concreto entre o gramado verde-esmeralda, e
apresso os meus passos para chegar o quanto antes na primeira aula do dia.
Sem Vinícius e com a chuva, cruzar a cidade se tornou uma viagem de quase
duas horas e meia. Perdi as três primeiras aulas e não quero perder a
antepenúltima do meu dia. Energia e ânimo é o que não me faltam.
Dentro do prédio de música, me escondo da tempestade. Os raios já cortam o
céu nebuloso e o dia se mantém escuro e mórbido, saído direto de um filme
de terror.
Por reflexo e costume, retiro o celular do bolso do jeans, atualizando os
perfis que passarei o dia estudando. Publico uma selfie, erguendo o bolinho
na frente da minha boca. É um tanto quanto ridículo captar passo por passo
da minha vida, e me sinto um pouco intrusa neste mundo incolor, mas acaba
sendo divertido. E
venho recebendo tanta atenção ultimamente, que acabo gostando de cada
comentário positivo sobre a minha aparência.
— E aí, Ária!
Um grupo de músicos clássicos me cumprimentam, estão sentados em um
sofá de espera. Os sapatos úmidos e os moletons com marcas de gota de
chuva denunciam que acabaram ficando no pé d’água de hoje mais cedo.
— E aí, gente. — Aceno de volta, seguindo pelo corredor.
— Fala, Ária! — Um cara no corredor, marchando na direção contrária da
minha, sacode a mão. — De boa?!
— Oi! — respondo alto. — De boa, e você?
Ele não responde, apenas sorri e pisca. É o suficiente.
— Ária! — Duas meninas, amigas, presumo, também falam comigo. —
Tudo bem?!
Meus últimos dias no prédio de música foram assim, sendo uma pequena
celebridade movida a simpatia e acenos tímidos. Não faço ideia de como
estas pessoas me conheceram, se pelos eventos recentes ou simplesmente
por serem gentis. O fato é que não sei o nome da maioria.
Preciso apenas pegar o elevador para o terceiro andar, arrumar a minha
garganta para começar um pedido de desculpas pelo atraso para o professor
e, enfim, prestar atenção na matéria. É
uma tarefa simples e concreta, certo? Se torna difícil quando avisto Majuri
adentrar uma saleta de estudos vazia, a poucos metros de onde estou.
Veja bem, não sou a pessoa mais curiosa que existe na Terra, e neste exato
segundo quero desfrutar da minha mais nova vida. E
como recém-universitária, não quero que nada e nem ninguém me abale.
Destrancar uma vaga que eu estava quase perdendo é o suficiente para me
motivar a ignorar a presença de Majuri, esperar o elevador e me encontrar
com o meu professor mestre em História da Música. Porém, ela é o tipo de
garota que eu, com certeza, deixaria me abalar.
Quero ser vista por Majuri e adoro quando nos encontramos.
Mesmo não sendo convidada a saber o que ela está fazendo aqui, desvio do
trajeto até o elevador, como todo o bolinho antes de chegar perto da lixeira
mais próxima e jogo o papel fora, me livrando dos farelos acumulados na
roupa.
Sigo o mesmo caminho até a sala vazia que, de deserta, não há nada. A porta
está entreaberta e consigo ouvir a voz de Majuri se fundir com outras,
também femininas, fazendo eco pelo ambiente.
Empurro com cuidado a porta, que abre-se ao cantarolar uma melodia
deprimente de suas articulações enferrujadas. O ranger da madeira faz com
que tanto Majuri quanto suas amigas calem-se de pronto.
Seus olhares decaem em mim, curiosas, mas não espantadas Majuri, que
veste suas roupas comuns do dia a dia, está sentada na maior mesa, em cima
da madeira. Ela sorri para mim.
Sorri de verdade. Com dentes aparentes, olhos cintilando e uma boca
esticada em afinidade.
— O que você quer?
Uma pequena ruga se forma na minha testa. Apesar de estar concentrada em
Majuri e sua recepção calorosa, fico confusa, porque a voz azeda e a frase
em tom espinhoso não vem dela.
Viro meu rosto em poucos centímetros, para encontrar Clarissa não muito
longe de mim. Sentada em um banco, a herdeira concentra os braços
cruzados escondendo o busto. Suas roupas em tons pastéis são apenas uma
extensão dos terninhos.
— Bom dia, Rissa. — Abro um sorriso sem defeitos. — Nem te vi aí. Tudo
bem?
Ela não me responde e, na verdade, não tem porquê me responder. Uma por
uma, reparo nas outras duas garotas. A mais alta delas, usando um macacão
jeans sujo de respingos de tinta, me saúda com a mão direita, enquanto a
esquerda massageia a barriga saliente de gestante.
A mais baixa também me cumprimenta, mas apenas sobe e desce o queixo,
desinteressada em um modo geral.
Com a minha chegada despretensiosa, é claro que o assunto morreu por
decreto, porque é nítido que nenhuma delas continuará a pauta. Que, por
sinal, parece ser interessante.
— Enfim. — Clarissa enverga o corpo, pegando do chão sua bolsa de
estudos, que também se parece com uma da nova coleção da Prada. — Você
tem certeza, Majuri?
A filha do prefeito ergue-se da cadeira com toda a sua imponência. São
nesses raros instantes em que não força seu rosto a se manter sério que
admito com todas as letras que Clarissa Plume é uma das pessoas mais
bonitas que já vi. Dá para entender as dezenas de capas da Louise Lou que
estampou e entender como as pessoas são ávidas e desesperadas por um
pingo da sua atenção.
— Sim, eu tenho — Majuri responde, saltando da mesa do professor. —
Depois a gente fala sobre isso, ok?
— Não precisa. — Clarissa pede com a mão no alto de seus olhos. — Confio
em você — assume. — Mas fica por sua responsabilidade, então.
Não parece uma simples conversa, e sim um debate.
— Bom, eu concordo com a Majuri. — A mais baixa entre elas fala, pronta
para ir embora também. — E você, Rafa?
Rafa, a garota que está grávida, dá de ombros.
— Voto com a Majuri também — decide. — Mas depois a gente termina o
papo, pode ser?
— Pode — confirmam todas em uníssono.
Clarissa espera pela garota mais baixa, que espera por Rafa.
As três, em disparata, desfilam para fora da sala, e apenas as duas últimas se
despedem de mim.
Sozinhas, aperto a alça da ecobag entre os dedos, para pinicar de propósito a
pele.
— Atrapalhei — revelo. — E ainda fiz com que a conversa acabasse.
— Não, não atrapalhou — assegura, sorridente. — Aliás, você é mesmo a
pessoa que eu queria ver!
Olho para trás por diversão.
— Tem certeza? — brinco. — Não pareci muito bem-vinda.
— É que você entrou aqui, na faculdade, meio tarde. A maioria delas tá em
semana de prova.
— Não, eu voltei.
— Como...?
Sua testa se franze.
— Eu não entrei, eu voltei pra cá. Tive que trancar nos primeiros semestres
pra ajudar no negócio da família.
— Ah, sim! — Entendendo o que quero dizer, Majuri Mahar começa a se
aproximar. — Então, bem-vinda de volta!
— Obrigada. — Me aproximo também.
— E se você voltou, isso quer dizer que...
— Faz uma semana hoje!
— Então... — Seu peso se divide entre as pernas, e aproxima os braços dos
seios, divertida. — Quer dizer que faz uma semana que você tá aqui e nem
falou comigo?
— Para minha total defesa... — Levanto a minha mão. — Eu não te vi! Se
tivesse visto, teria falado um oi.
— Devo acreditar em você ou é papo furado?
— Você queria mesmo me ver ou é conversa para boi dormir?
Imito seus olhos estreitos banhados em desconfiança, apenas para fazê-la rir.
E funciona.
— Sou uma pessoa confiável, Ária! — De relance, a garota toca o meu
ombro. — É tanta confiança, que prefiro conversar com você em outro lugar.
— É assim que pedidos de empréstimos começam. E preciso dizer, Majuri.
— Abro um sorriso. — Não tenho dinheiro nenhum para te emprestar.
— Tentador?! — define. — Sim, mas não tem nada a ver com dinheiro.
Bom... Até que tem, porém não com empréstimos, é mais como ganhar.
— E o que eu tenho que fazer?
Se Majuri gosta de mim ou pretende continuar com nossas conversinhas
subentendidas eu não sei dizer com clareza, mas que de algum jeito
compreende as minhas investidas, isso posso dizer com toda a veracidade do
mundo.
— O que você vai fazer quarta-feira à noite?
Por reflexo, quero responder que preciso servir mesas no Clube 148 e que
normalmente só estou livre às cinco da manhã, quando o último cliente
decide ir para casa. Contudo, não faço mais parte desta rotina.
Pela primeira vez em meses, posso pensar em me divertir sem sentir remorso
por deixá-los “sozinhos”.
— Estudar. — Faço charme. — E você?
— Sair com você.
Majuri acredita fielmente no que fala, porque não consigo rebater.
— É? — Faço bico. — E aonde vamos?
— Um lugar — declara, começando a caminhar em direção à saída. Majuri
desvia de mim de propósito, deixando suas mechas macias tocarem de leve
na minha pele ao passar. — E aí poderemos conversar melhor. Te passo mais
informações pelo Vinícius, pode ser?
— Pode.
Não tem como recusar, não quando todo o meu rosto e corpo decidem que a
queremos o quanto antes.
TEMPESTADES RECENTES DERRUBAM ÁRVORES NO
CENTRO
São Palomane está, oficialmente, perto da temporada de chuvas.
Postado por PalomaneReal
15
“Sei que seus olhos dizem Sei muito bem, mas me ouça Não é tão fácil
assim.”
Me Diga Como Ela é — Canção de Liz Salles — Posso comer a sua maçã?
Sem antes esperar por um sinal positivo vindo da minha parte, ou uma
resposta concreta, Vini avança sobre a fruta na minha bandeja. Estou na
metade do meu almoço; carne moída, cenoura cozida e arroz branco, quando
o Plume já terminou de comer faz tempo.
É um dia bem atípico no campus, já que pela chuva da manhã, metade dos
estudantes faltaram. O refeitório, que normalmente é uma combinação de
caos, falatório e mesas cheias de gente, hoje é apenas um espaço para comer,
se proteger da chuva e aproveitar que os lugares disponíveis são maioria.
— Você já pegou, né — murmuro de boca cheia. — Mas o seu sorvete é
meu, então.
— Isso se não comer tudo também.
Vini dá uma longa mordida na fruta, com direito ao barulhinho constante de
suculência.
— Ei, me fala uma coisa. — Me ajeito no banco à sua frente.
Um dos estudantes que estão se preparando para comer acabou de escorregar
no piso liso e molhado, ao nosso lado. — O que você sabe sobre a Majuri?
Meu mais novo amigo me lança uma olhadinha de canto, cético. Demora um
pouco mais para responder, porque precisa pegar da mochila um casaco
extra para conter o frio do refeitório. Sem as pessoas famintas do dia a dia,
este lugar é até um pouco assustador.
— Eu sei que ela é legal — diz. — Eu não a conheço muito bem, não. A
Majuri, no caso.
— Não conhece?
— Não.
— Ela vive na sua casa.
Vini sorri.
— Você também ficou andando pelos corredores da minha casa sem eu te
conhecer, então...
Subo o queixo, usando de sua resposta para me calar. Sua risadinha célebre
me contagia um pouco.
— Mas você sabe... O básico? — insisto. Stalkear nas redes sociais não é o
que quero fazer, pelo menos não agora.
— Sei o que você sabe. — Suspira. — Eu também não conheço muitas
pessoas aqui, estava fora do país quando o meu pai ganhou a eleição, então...
— Outra mordida muito audível na maçã e emenda: — Por quê?
— Ela me convidou para sair quarta à noite.
Vini, que até então estava muito confortável com a conversa, para de
mastigar de repente. Sua mandíbula torta revela seu choque.
— Chamou?
— Chamou! — Paro o garfo no ar, observando-o com atenção.
— Não deveria?
Nervoso, dá de ombros, ainda sem jeito.
— Sei lá...
— É agora que os filhos ricos dos políticos vão me matar? — Me curvo em
sua direção, sussurrando. — Vão cometer um crime hediondo e esconder o
meu corpo em um carro velho? Empurrarão a lata velha penhasco abaixo? O
meu corpo ficará irreconhecível para as autoridades e todos vocês
comemorarão o êxito na missão bebendo champanhe?
De leve, Vini meneia o rosto para o lado.
— Olha, não sei que tipo de filme você tá assistindo, mas... — Ao rir de
novo, deixa a maçã de lado, voltando a mastigar. — Não é nada disso, só
fiquei surpreso.
— Por quê?
— Se for o que eu tô pensando, é melhor a Majuri te contar.
Comecei esta conversa sem informação nenhuma e continuo no mesmo
parâmetro.
— É coisa ruim? — indago, ainda nada satisfeita com o rumo que estamos
tomando. Deveria ser mais fácil obter informações de uma pessoa tão
antenada quanto Vinícius.
— Você é teimosa, hein. — Querendo mudar de foco, Vini empurra a minha
mão. — Simplesmente encontra a garota e escuta o que ela tem para te falar,
porra.
— Se eu morrer... — Aponto o dedo muito bem esticado na sua frente. — Se
prepare, porque estarei de volta em ao menos quinze dias!
— Vou dormir sem cobrir os meus pés, então — debocha. — Assim pode
puxá-los quando quiser.
Usamos de um tempo útil para nos encararmos, ele com as sobrancelhas bem
mais torneadas que a minha, eu pensando no que foi que me meti.
— Enfim... — Mudo a atenção para o meu almoço. — Conheci uma delas,
inclusive. Rafaela?
— Ah. — Seu rosto se ilumina. — A Rafa, sim. Ela é legal.
— E a outra?
— Deve ser a Diana. A baixinha?
— Isso.
— Se você reparar bem, ela parece a Mônica.
— De “Friends”?
— Turma da Mônica, do Maurício de Sousa.
Depois de um segundo após repensar sua fala, preciso admitir que Vini tem
razão. Diana é a mais baixa entre as amigas, seu cabelo channel e liso para
na altura do queixo e há uma franja lindinha que termina de compor seu
visual.
— Nunca mais vou desver — acrescento.
— Quando a Clarissa me disse isso, não consegui mais desassociar também
— lembra, divertido. Paro um pouco para refletir sua fala. Clarissa tem
humor? — Enfim, voltando. A Majuri é filha da senadora Anili, e a Diana é
neta do ex-prefeito Dutra Pinhal.
— Do cara que foi preso ao lado da amante indo para Barcelona?
— O próprio — reforça. Vini olha para os lados, procurando alguém que
esteja prestando atenção em nós, mas não há ninguém.
— Ele já deu em cima da minha mãe, inclusive.
— Mentira!
— Juro!
— Você deve saber de tanta fofoca política.
— Quase todas já imagináveis. — Orgulhoso, Vini finge mexer em uma
gravata imaginária. — E o Dutra ainda pensou em se reeleger, mas depois de
uma temporada na Grécia, decidiu trabalhar no partido da Anili. Claro, pelos
direitos da família.
— E a Rafaela?
— Filha da Catarina Keller, a próxima candidata à presidência do país.
— Todas elas... São...
— De famílias políticas? Sim. Todas. — Ainda com fome, Vini volta a dar
atenção para a maçã mordida, dessa vez determinado a dar um fim na fruta.
— A gente se conhece há pouco tempo, mas são as únicas que... São legais.
Minto, na verdade a gente conhece a Diana desde crianças, mas a Rafa e a
Majuri são de agora.
— Pensei que a Clarissa não tivesse... amigos.
— Digamos que ela não tem na concepção da minha mãe.
Mudança de pontos de vista fazem sentido para mim. É muito fácil dizer
algo que você não sabe ou vivencia, de fato.
Fico em silêncio analisando tudo o que Vini me diz. Se afinal, Clarissa não é
tão sozinha quanto eu pensei e Natália fez parecer, por que a empresária quer
que sejamos amigas?
— Daqui a pouco eu tenho que ir — Vini avisa. — Vou tirar umas fotos para
a campanha da marca da minha mãe. Quer vir junto?
— Tenho que estudar, vou ficar a tarde toda na biblioteca daqui. — Volto a
comer. — Com o barulho da reforma, prefiro ficar com os trovões daqui.
— De boa, te acompanho até lá, então.
Sem deixá-lo perceber, fito Vini por um certo tempo.
Ele é sociável, engenhoso, inteligente, é o rosto da Tulipe Tulipe, coleciona
carros luxuosos e duvido que seu relógio seja falso.
É tranquilo, companheiro e muito gentil. Ainda não entendo porque
não o vejo cercado de amigos ou, pelo menos, bajuladores profissionais. O
que mais tem nesta universidade pública são pessoas endinheiradas como os
Irmãos Plume. Pessoas como eu, apesar de sustentarmos o direito de
estarmos aqui, são poucas.
— Não quer matar o tempo com seus amigos? — sugiro.
— Não. — Dispensa com um aceno. — Prefiro ficar com você.
Não há segundas intenções românticas ligadas à frase, é apenas sua resposta
e escolha.
E inventando um assunto qualquer sobre sabores extravagantes de Corote,
percebo que não é Clarissa a irmã solitária.
— Ocupada?
Olho para a tela do celular, enquanto me apronto para sair. É
quarta à noite, afinal.
— Pode falar — respondo para Natália, enquanto escolho a dedo o par de
sapatos que usarei. Com as cortinas fechadas, apenas de calça e sutiã, quero
o resultado perfeito para quando encontrar com Majuri. — É algo sério?
— Não, é apenas um convite! — Natália ri. — Quero que apareça em uma
campanha pequena. Do meu mais novo protetor solar.
— Sério?!
— Sim, você é nova na marca e vai se tornar embaixadora em breve. Não
quer?
De relance, relembro todas as vezes em que meus pais me levaram para
gravar comerciais quando pequena e pré-adolescente.
Era uma boa sensação ser gravada, paparicada e arrumada. Quase migrei
para a modelagem na passarela, se tivesse algum pingo de paciência ou
disposição para participar das aulas de catwalk. As aulas de postura, poses e
estrutura já foram sórdidas demais.
Mas, no fundo, amava meu pequeno trabalho. Ter a chance de voltar uma
boa sensação, uma que não sei muito bem como descrever. Se parece com
tudo o que venho passando atualmente.
— Hum... sim, claro. Quando?
— Vamos marcar. Clarissa estaria no seu lugar, mas decidi por você.
Sem querer, acabo por sorrir.
— É uma ótima escolha — provoco, deixando que Natália saiba que estou
sorrindo pelo timbre da minha voz.
— Aliás, vocês vão sair hoje? Juntas?
Paro de andar pelo meu quarto e olho para o aparelho, a ligação se mantém
no viva-voz, porém a ideia parece distante. Eu e Clarissa? Hoje à noite.
— Que eu saiba... não.
A primeira-dama da cidade fica em silêncio, não sei dizer se é ou não um
bom sinal.
— Certo, ok. Te passo mais informações via e-mail, Ária.
E desliga, sem me deixar a chance de perguntar o que houve.
Hum. Então... ok?
Meu pai tem uma regra simples; na madrugada, as melhores festas
começam. Então quando chegamos na maioridade, Reinaldo Campos deixou
que Lilian e eu fizéssemos festas inesquecíveis que começavam à meia-noite
e só terminavam quando o sol raiasse de volta em São Palomane.
O resultado?
Duas filhas festeiras, inimigas do fim, que não veem a hora de usar roupas
novas para sair.
Porém, atualmente, não paro de bocejar enquanto espero Vini me buscar
para irmos. Para onde? Não sei.
A minha calça de paetê e o meu top transparente são uma boa visão para
quem não para de escutar o álbum de “Plastic Hearts”, da Miley Cyrus, mas
talvez seja uma péssima escolha para quem sente frio.
Sinto o peso do meu celular dentro da bolsa. Se eu pegá-lo e gravar alguns
vídeos para os meus seguidores, será que é um bom conteúdo? É provável
que nem todos aprovem a minha saída neste horário. Ou morram de inveja.
E não é isso que se trata as redes sociais?
Mentiras contadas com sorrisos esbeltos para gerar cobiça?
— Aonde vamos?
Com as pernas unidas na escadaria do hall principal, ouço Lilian descer. Viro
para enxergá-la, desacreditada. De calça jeans, sandálias prateadas e um
casaco de pele falso, não sei dizer se é um modelito de verdade ou uma
fantasia, minha irmã mais velha sorri para mim. Ainda que as duas opções
sejam distintas, Lilian está linda.
— Você eu não sei, mas eu vou sair com o Vinícius. — Seguro a vontade de
bocejar. Checo o relógio no meu pulso. São onze e meia da noite de uma
quarta-feira. Amanhã ainda será dia útil. Meu Deus. — O que você quer?
Soltando o ar de maneira melodramática, Lili senta-se ao meu lado.
— Ir com você.
— Ninguém te convidou.
— Mas não gosto de ser excluída — avisa.
Brinco com os brilhos da minha calça, abrindo um sorriso carregado de
prazer.
— Tá chateadinha porque a Clarissa te usou, né? — canto. — E mesmo com
tanto ensaio e dedicação, ela ainda não te convidou pro seu clubinho
pessoal?
— Não me importo com ela. — Impassível, Lili dá de ombros.
— Ainda assim, não gosto de ser excluída.
— Tanto faz — decido. — Tenho certeza que o Vinícius não vai conseguir te
dizer um não.
Na terça, Majuri me disse que Vinícius me levaria ao misterioso lugar onde
vamos nos encontrar. Foi ontem que eu entendi que não se trata de um
encontro; no máximo entrarei em uma boate secreta para assistir aos mais
curiosos tipos de perversidade humana, enquanto convivo com filhos de
grandes potências cheirando carreiras de cocaína e música eletrônica se
interliga com refletores neon.
Mesmo com música alta rolando no salão do clube, consigo ouvir a buzina
do carro popular de Vinícius. E continuo surpresa por tê-lo feito aposentar o
anterior, o caríssimo.
Lilian é a primeira a se levantar, arrumando o casaco rente ao corpo e
abrindo a porta principal da portaria. Me levanto da escada limpando o meu
traseiro do pó que fica acumulado nos cantos dos degraus e a sigo.
Do banco da frente, vejo que Vinícius engole em seco só pela presença
icônica de minha irmã, mas logo veste um semblante despreocupado ao
cumprimentá-la.
— Vou na frente — anuncia, já abrindo a porta e jogando-se ao lado dele.
— Sempre bom te ver, Lilian — comenta, usando seu charme.
— É hoje que consigo ver um sorrisinho no seu rosto?
— Continue tentando, pirralho.
— Você é apenas dois anos mais velha, calma lá.
Reviro os olhos e mentalizo Majuri. Espero que esta noite valha a pena.
Entro no banco de trás e bato no apoio de Vinícius para apressá-lo. Temos
que ir o quanto antes; depois ele pode terminar de brigar com a minha irmã,
e dependendo do assunto, dá até para ajudar.
PREVISÃO DO TEMPO PARA SÃO PALOMANE
Garoa intensa com risco de ventania.
Postado por PalomaneReal
16.01
“Sempre falam sobre mim O que faço ou deixo de fazer Fingem me odiar Na
verdade, me amam, não vivem sem mim!”
Toda a Má Reputação Em Mim — Canção de Liz Salles Um dos
principais percursos da minha casa até o começo da Rodovia Caribe dura
cinco músicas inteiras do Queen. E eu até cantei “Love of My Life” e “Killer
Queen” ao lado de Vini. Mas quanto mais nos afastamos dos lugares que
conheço, mais taciturna fico.
De Queen, vamos para Seu Jorge, e nem as batidas harmoniosas de um dos
meus cantores favoritos pode me acalmar quando percebo que estamos
saindo de São Palomane.
— Agora é real — começo. — Você vai mesmo me matar, Vinícius.
Nem Lilian diz algo, porque sei que seu silêncio significa milhares de
palavras que jamais serão ditas. Da janela, não consigo ver nada além do que
os faróis dos carros atrás de nós iluminam, e posso imaginar que estamos
perto de montanhas, pastos e restaurantes fim de mundo.
— Quer relaxar? — Vinícius abaixa o som de “Burguesinha”
da rádio conectada ao seu Spotify. — Meu Deus...
Ele está bem mais relaxado do que eu, porque deve conhecer o caminho pela
palma da mão.
Contudo, as músicas vão aumentando, e de cinco inteiras do Queen, ouvimos
a discografia inteira de “Música para Churrasco Vol.
1”, também de Seu Jorge, a soma de quase quarenta minutos sem encontrar
respostas de onde estamos.
É com luzes quentes salpicando arranha-céus ao longe, que percebo que
entraremos em São Paulo dentro de vinte ou mais minutos.
— São Paulo? — brada Lilian, cada vez mais confusa.
— Na verdade, não.
Com toda a calma do mundo, Vinícius faz uma manobra suave com o carro,
pegando um contorno simples em uma rua longínqua e asfaltada. É uma
ladeira não muito íngreme, mas longa. O caminho é acentuado por postes de
luzes em formato de rosas, nos presenteando com um ar encantado de contos
de fadas.
Com o álbum em repeat, Seu Jorge canta “A Doida” quando terminamos de
subir todos os pontos misteriosos da ladeira ao lado da rodovia. Ao alto,
consigo ver os prédios mais imponentes de São Palomane do meu lado
direito e, em contrapartida, a intimidadora cidade que nunca dorme do lado
esquerdo.
A rua, enfim, se interliga a um espaço de areia, com um símbolo de Rosa dos
Ventos. Estamos exatamente na divisa da minha cidade com São Paulo.
O carro de Vinícius segue pela trilha de postes com lâmpadas de roseira.
Cinco minutos longe do ponto turístico, a luz branca e padrão transforma-se
em um fulgor vermelho-vivo, quase sangue. É
brilhante e sedutor, e faz com que o carro caia em um ritmo desenfreado e
tentador.
— Chegamos — anuncia o motorista, ainda se divertindo com as nossas
reações.
— Onde, exatamente? — É Lilian quem responde.
— Ao Corações & Flechas.
Não sei o que é isso e o nome não me remete nada a não ser uma convenção
de cupidos, porém, quando o carro diminui a velocidade e o vermelho se
mistura ao rosa, entendo que se trata de um bar. Talvez uma boate.
Carros, motos e até bicicletas se amontoam em um pequeno estacionamento
que não comporta metade do público. Pessoas em roupas coloridas, festivas
e bonitas não param de passar. Ao lado, há uma linha de trem inativa, onde
os clientes aparecem aos montes
ao chegarem com seus próprios meios de transporte. Todos estão
empolgados, gritando e cantando a música que vem de dentro do prédio de
três andares.
O letreiro é estilo pisca-pisca, cintilando o nome com um coração cortado e
ensanguentado por uma flecha de um cupido com chifres de diabo. Não é
inovador, mas é lindo.
— Vem. — Vinícius incentiva. — Acho que chegamos na hora certa.
Até raciocinar o que Vini fala, em uma vaga reservada para nós, nem ao
menos tinha notado que já estamos parados.
Boquiaberta e animada para curtir cada pedacinho da noite, troco um olhar
com Lilian, saltando para fora do carro aos tropeços e aos risos.
Visto uma pulseira de veludo também vermelho.
Ela indica que estou com Vinícius em uma das áreas VIPs. O
anfitrião foi reconhecido logo na bilheteria, ultrapassando as filas e
cumprimentando diversos colegas de vista.
Agora, em um dos corredores estreitos da boate, Vini nos conduz para a ala
do palco, onde fica o bar mais interessante de acordo consigo mesmo. As
paredes em um tom bege-claro servem para serem apagadas, assim as
múltiplas fotografias de molduras grossas podem terminar a missão de atrair
o público.
Há fotos de mulheres em cima de motos potentes, usando jaquetas de couro
e fazendo caretas. Há também a imagem de uma garçonete patinando e uma
mulher em frente à Torre Eiffel, feliz e segurando um buquê de noiva.
Conforme avanço pelo corredor, em passadas longas para acompanhar
Vinícius, as fotos vão se atualizando. Então percebo que fazem parte de um
túnel do tempo, um estado cronológico que promete contar a história da
boate em fotografias.
Ao final do corredor, nos esprememos contra as costas de outras pessoas que
esperam para entrar no salão. Me falta um pouco de ar e Lilian, ao menos,
deixou seu casaco de pele falso no carro. Com a barriga de fora graças a um
cropped de lã, estilo anos 70, parece bem mais confortável.
— Vem. — Vinícius toma a liberdade de me segurar pela mão, pescando os
dedos de Lilian também. — Chegamos a tempo.
Querem beber algo?
Ouvi-lo se torna cada vez mais difícil, principalmente porque o corredor
escuro seguinte ao anterior em que nos enfiamos é terrível de estreito. O
receio de escorregar ou tropeçar só aumenta.
— Como assim...
Só não termino a frase porque não consigo.
O fim do pequeno tour na boate só termina quando Vinícius afasta uma
cortina grossa, indicando sofás perto do palco principal.
As pessoas me cumprimentam pelo simples fato de serem educadas e abrem
espaço conforme me mostro tentada a me pendurar na grade para assistir ao
show que está rolando. Todos pontuam o ritmo ao sacudirem a cabeça de
leve, no entanto, é rock puro escalando pelas paredes coloridas entre roxo e
rosa.
Me afasto dos dois, me aproximando do gradil para assistir a banda que se
apresenta, melhor.
O público na pista é, na verdade, uma pilha de pessoas que se abraçam e
cantam “Rebel Girl”, do Bikini Kill, com fervor. A confusão de mãos,
cabelos, braços e pescoços é maravilhosa de se ver, faz tempo que não
encontro uma multidão tão devota assim. As mesas ficam em um mezanino
suspenso e o bar, também de luzes neon, é em formato de coração.
Há gaiolas distribuídas pelos cantos superiores do palco, onde garotas de
jaqueta de couro e meia arrastão dançam para mergulharmos ainda mais no
clima do show.
— Elas são demais! — Vinícius grita no meu ouvido. — Tocam aqui duas
vezes por semana!
— Até que tô gostando! — Lilian berra de volta para mim, sacudindo a
cabeça para acompanhar o baixo.
As linhas do meu rosto estão doendo de tanto sorrir. Ter contato com a
música de outras pessoas é um dos meus hobbys favoritos, então começo a
prestar atenção em cada integrante da banda.
Todos os membros são garotas. Meus olhos pousam de imediato, como se
fossem imãs, na guitarrista. Não consigo ver seu rosto, pois seu cabelo
comprido faz um ótimo papel de escondê-la do público. Ela está tão
concentrada na canção que seu corpo é apenas uma extensão da música.
Mas eu reconheceria as tatuagens e a postura de longe.
É Majuri.
Me animo em vê-la, me aproximando ainda mais das grades.
Grito e ergo os meus braços no refrão. A baixista, que usa uma camiseta
verde-esmeralda nada discreta, é capaz de me calar um pouco. Porque se
trata de Diana Pinhal, a garota que conheci na reunião que atrapalhei ao ir
atrás de Majuri.
Apesar da surpresa, a letra de “Rebel Girl” está travada na minha boca. Com
as sobrancelhas franzidas, olho para a vocalista. A responsável de fazer o
público vibrar.
Com a barriga de fora e os seios brilhantes pelo glitter, assisto Rafaela
Keller, dominar o palco, reivindicando a música como sua. A cantora está
suando muito, mas sua performance não deixa de ser alucinante. E se torna
ainda mais bonita, justamente, pelo fato de estar grávida.
O abdômen com estrias pela gestação foi decorado com tinta neon-rosa.
O meu choque continua, mas consigo utilizá-lo para gritar o mais alto que
consigo. Aceno, canto e danço. E, por um milésimo de segundo, Rafaela me
vê. Sensual e magnética como toda cantora à frente de uma banda é. E
perspicaz, porque sabe o que está fazendo lá em cima e acaba apontando
para mim, dedicando os versos finais para a minha presença.
Se todas que estão no palco são pessoas que conheço, procuro ansiosa pela
baterista.
Sou tão movida pela curiosidade que quase não reconheço a figura com
roupas molhadas de suor, nem com os jeans rasgados na altura dos joelhos,
tampouco com a maquiagem derretendo pelas bochechas e os fios pretos
grudados pela face, atrás do instrumento enorme, vermelho-vivo.
Selvagem como a mais bela visão de alguém se divertindo, constato que a
baterista é Clarissa.
Com um dos últimos retoques da baqueta contra os pratos, a herdeira tem
tempo de sorrir na minha direção, fazendo uma breve reverência por
conseguir roubar todos os meus pensamentos e sentidos.
16.02
O show foi, sem sombras de dúvida, sensacional.
Muito antes do último cover finalizar a noite, eu já estava sentindo a minha
garganta arranhar, avisando-me que ficaria rouca a qualquer segundo.
Não tirei os olhos de nenhuma delas; Rafaela, porque sua performance em
cima do palco elucidou dedicação, sangue e suor; Diana, porque seu
contraste no baixo é tudo o que a banda precisa; Majuri, simplesmente por
amar ter um cargo em algo tão vívido e original e, por fim, Clarissa.
O que dizer sobre a entrega da herdeira?
Ainda me encontro sem palavras.
— Belo show.
Ando devagar até fazer a minha voz se sobressair pela música pop de
Britney Spears que preenche toda a boate, e consigo me espremer em uma
banqueta vaga ao lado de Majuri. Lilian e Vinícius estão sentados atrás de
nós com o resto da banda Era de Heras. Em outras palavras, elas.
O frenesi da plateia ainda ressoa cada partezinha da pista de dança. O palco
ainda contém muito gelo seco embaçando parcialmente a visão, mas o
banner da banda e os instrumentos já foram recolhidos, o que destrói a teoria
de que voltarão ao palco em algum momento da noite.
— Valeu. — Majuri se ajeita melhor na banqueta, fazendo com que a ponta
de seus joelhos encoste nos meus. — Gostou do que viu?
Não sei exatamente ao que se refere, mas para ambos entendimentos, a
resposta é sim.
— Mais do que você pensa. — Tombo a cabeça para o lado, animada o
bastante para subir no balcão e cantar também. Me sinto inspirada, viva,
motivada. — Você bem que podia ter me contado que... eu estaria cara a cara
com a guitarrista de uma banda.
O barman serve o pedido de Majuri, um drinque feito de licor de cereja.
— E estragar a graça de surpreendê-la? — Majuri abre um sorriso pequeno.
— Não, não, prefiro convidar as minhas amigas para me assistirem sem
contar a verdade. É bem mais divertido.
— Ah. — Levanto as minhas sobrancelhas. — Somos amigas?
A guitarrista da Era de Heras não responde, porque prefere bebericar seu
drinque, mantendo as íris muito bem delineadas em mim.
— Somos — confirma, engolindo. — E, aliás, eu não te chamei apenas para
me ver tocar.
— Não? — Sorrio de lado. — Que pena, para mim já é o suficiente.
Um pouco sem graça, Majuri sacode a cabeça em positivo; seus cabelos lisos
escondem um pouco da estampa da camiseta, um logotipo em verde-escuro e
vermelho de uma mulher de olhos poderosos e sorriso maligno. É uma boa
ilustração, e sua importância é ainda mais tendenciosa ao trazer referências
às heras venenosas de São Palomane, que terminam de compor o visual
rebelde e musical.
Especialmente sabendo que todas fazem parte de laços políticos. Todas.
Diana, Majuri, Rafaela e Clarissa.
— Não — diz, prontamente. — Mas antes de falar sobre o assunto. Preciso
saber se você gostou do que viu?
— Já respondi sua pergunta.
— Não direito. Quero saber se curtiu o nosso som, se somos legais e se
estamos na linha de aprovação de Ária Campos.
— Minha linha de aprovação?
— Você é profissional, Ária. — Majuri cruza as pernas. — Eu vi seus
vídeos. Todos eles. Você sabe o que tá fazendo e tem uma das vozes mais
bonitas que eu já vi. Então, sim. Quero saber se aprova a minha banda.
Toda a história de como quatro herdeiras decidiram montar uma banda me
apetece, exclusivamente, porque todas são talentosas. Se é apenas diversão,
sabem comemorar como ninguém.
Se é puro trabalho, espero que possam lançar um álbum o quanto antes.
— Claro que sim! — vibro. — Não consegui parar de cantar!
Aliás, quero saber aonde vende uma camiseta como essa!
— Somos uma das bandas da casa, na lojinha perto da saída deve ter.
— Sensacional — confesso, perdendo o fôlego.
— E já que gostou da gente. — Majuri segura o drinque em apenas uma
mão, usando a outra para alcançar o meu pulso. — Quero saber se tem
interesse em ser uma de nós.
A mínima percepção de estar dentro de uma banda que não seja a do clube
me tira dos eixos. Só de imaginar cantar neste palco, com estas pessoas me
assistindo pelo menos duas vezes por semana, é o ímpeto do sucesso que
posso imaginar.
— Tá brincando comigo?
— Não! — Se ofende um pouco, recuando alguns centímetros. — É
verdade!
— Não acho que tenha espaço para mim na banda, Majuri.
— E, basicamente, não tem. — Dá outro gole na bebida, quase finalizando-
a. — A Rafa. — Aponta para trás de seu corpo, para a garota grávida e
sorridente que massageia a barriga enquanto Diana ri de uma piada de Vini.
— Não sei se você reparou, mas ela tá esperando um bebê.
— Não, não reparei — declaro. — Não sabia. Nem dá para notar!
— Pois é! — Ri alto. — E assim, os estágios mais arriscados tão chegando,
ela precisa se preocupar em, você sabe, montar uma família. E o pós-parto é
complicado... Falo em nome de todo o grupo quando digo que queremos que
você a substitua.
Olho de Rafaela para Majuri, buscando algum sinal de que seja mentira.
Algo que esclareça que estão brincando com a minha cara.
— Sério?
— Não temos motivos para mentir. — Dá de ombros outra vez,
completamente relaxada. — A Rafa faz coisas incríveis em cima daquele
palco, mas estamos começando a ficar preocupadas. Em resumo, queremos
que ela descanse o máximo possível.
Sei ao que se refere. Rafa quase deu cambalhotas no show de hoje, e embora
esteja enfrentando um estágio sensível, é prova concreta de que pessoas
grávidas não estão impossibilitadas de fazerem o que quiserem. Porém,
entendo o cuidado e o enfoque em seu conforto, aquele bebê parece que sairá
da vocalista a qualquer instante.
— Tem certeza?
— Olha, Ária. — Majuri afasta a mão do meu pulso, mudando o lugar para o
meu joelho. — Todas nós conhecemos o seu trabalho, conversamos por
muito tempo até decidirmos. E a própria Rafa acha essa ideal bem foda.
Agora entendo o clima que ficou no debate que interrompi, há alguns dias.
— Até a Clarissa? — Estreito os orbes.
— Foi uma das primeiras a sugerir você.
— Até parece mentira.
— Mas não é — reforça, muito paciente. — Você tem a energia que
queremos, e aos sábados, os covers são escolhidos pela galera da curadoria.
Tem muitos fãs de Liz Salles por aqui.
É a cereja do bolo para me conquistar e me fazer sorrir. Como posso enganar
alguém? Cantar e interpretar é o que eu mais quero.
Faço isso desde que me entendo por gente. Faz parte da minha personalidade
e de quem sou.
É uma das propostas mais pontuais e avassaladoras que já recebi.
Porra.
Tudo isso por conta de um vídeo.
— Quando começamos? — rebato, ansiosa.
Arranco uma risada calorosa e descontraída de Majuri; seus olhos se fecham,
seu rosto se enruga e os dentes aparecem aos montes.
— Vamos com calma — pede, dando batidinhas no meu joelho. — Primeiro
de tudo, você precisa saber que é uma banda secreta.
— Banda secreta?
— É — sentencia. — A maioria do pessoal não é dedo duro, só querem se
divertir. Então... a gente não faz show por aí, apenas aqui. Nossos pais não
podem saber que temos a Era de Heras, seria...
— Estranho?
— Estranho é o menor dos adjetivos, eles com certeza dariam um jeito de
estragar tudo. — Receosa e um pouco mais séria, Majuri bebe o drinque de
uma vez e pede outro, apenas fazendo um sinal com os dedos. — O que você
acha?
— E como ninguém sabe disso? — reforço minha curiosidade, frustrando
um pouco Majuri por não responder diretamente. — Porque assim, a
Clarissa é a Clarissa. Você é você, e as outras meninas tem certo grau de
relevância. Aliás, uma delas é filha da futura presidente do país!
Majuri sorri, convencida.
— Bom saber que, no seu mundo, a mãe da Rafa já venceu.
Dou de ombros, porque dentre as opções que desconfio que estejam no
páreo, Catarina Keller é a melhor opção.
— Ainda não explicou — relembro.
— A confidencialidade é sempre cercada em ordem quanto se tem dinheiro
— simplifica, sendo enigmática. — É o que posso dizer.
Segredos são caros, em resumo.
— Não tenho cheques para pagar isso...
— Por enquanto, não se preocupe — pede, sorridente. — A banda é pura
diversão, então... se você não quiser participar, eu entendo.
— Só diversão?
— Só! — ressalta. — A Rafa é mais da área das artes plásticas, a Rissa
prefere o curso. E a Diana só quer um pretexto para fazer o avô dela quase
infartar, então...
Presto atenção em cada palavra, cada informação crucial para entendê-las.
— E você? — Me aproximo um pouco, atenciosa. — O que quer?
— Me divertir — resume. — E agora quero que você participe de tudo isso.
Não é justo?
— Justíssimo — admito. — Mas...
— Eu sabia que você diria um “mas”, então pensei em te dizer que aqui tem
alguns contatos que gostaria de manter. Ser vista aqui é mais do que um
hobby, de algum jeito, pode ajudar.
— É tentador...
— Só aceita.
— Vou... pensar. Pode ser?
— Não é o que eu quero, mas é... pode ser.
É nítido que estou tentada a aceitar sem pensar mais do que dois segundos.
Mas ainda tem minha faculdade, o tempo que reservarei à banda e, é claro,
Natália. A pessoa que prometeu que cuidaria de perto da minha carreira.
— Só reforçando, Ária. — Séria, Majuri me encara. — Não conte da banda a
ninguém, por favor.
— Prometo! — defino. — Sou boa nisso, é com a Lilian que você tem que
se preocupar.
Aos risos, Majuri gira pela banqueta ao procurar Lili com suas amigas; ela
está bebendo um drinque que brilha no escuro, completamente vidrada em
uma história que Rafa conta com ajuda de Vini.
De volta a me olhar, com todo o seu charme que faz a minha perna tremer,
decido agir.
— Depois daqui... você vai para algum lugar?
O barman serve o segundo drinque, piscando para mim de forma automática.
Majuri arfa.
— Já é quinta-feira, então já vai ser um saco acordar daqui a pouco.
— Não tem tempo nem de um pós-show? — Faço um pequeno drama.
— Hum... acho que não, Ária.
O interesse mútuo vai se esvaindo conforme compreende onde quero chegar
com isso. Pensei em beijos, amassos ou, quem sabe, sexo. Mas entendo a
breve recusa.
— Gosta de alguém na banda? — pergunto baixo, não é uma provocação.
— Não. — Sem mostrar os dentes, Majuri estica os lábios em um sorriso
simples.
— Mas tem uma pessoa que gosta de você.
Faço carinho na dobra de seu cotovelo, porque tenho cem por cento de
certeza que Clarissa nos observa.
— É?! — cantarola.
— É... é falta de educação fingir que não sabe.
— Eu sei. — Majuri segura a minha mão. — Mas tô fora. Não quero me
envolver com ex de amiga.
— Ex?
— Diana e Clarissa — dispara. — Elas namoraram... tipo... há séculos. Mas
não quero me envolver nesse drama, então...
Por relance, miro em Diana Pinhal, bonita como todas as outras integrantes.
Clarissa e ela mantêm conversas firmes e centradas, não parece que há
algum assunto mal resolvido ou sentimentos entreabertos, mas entendo o que
Majuri quer sinalizar.
— Não sabia. — Continuo as carícias. — Independentemente se você ficaria
com a Clarissa ou não, deveria contar pra ela.
Os ombros de Majuri relaxam e a guitarrista semicerra as pálpebras.
— Claro — ironiza. — Porque você se preocupa muito com ela.
— Ninguém te contou? — Me espanto, falsamente. — Somos melhores
amigas, é claro que preciso cuidar dela!
— E você me ajudaria nessa.
— Com toda a certeza!
A guitarrista, com os lábios úmidos pela bebida, abre um sorriso
desacreditado com a minha cena, mas não é ofensivo.
— Olha, Ária, além de não querer me envolver em drama, não quero
participar dessa guerrinha de vocês duas. — Majuri pausa minhas investidas.
— Não quero confusão — enfatiza.
— Não quero me casar com você, Majuri — admito. — Ou deveria? Posso
começar a planejar a cerimônia.
Consigo capturar mais uma gargalhada dela, ao passo que sei que seus olhos
declaram que me agarrariam aqui mesmo se fosse possível e se não fosse
contra os seus ideais. Ainda que seja amiga de Clarissa, sabe que a herdeira
Plume nutre sentimentos por ela e é fiel ao que acredita.
— Você é impossível, garota! — Ri de nervoso, pegando o copo e se
levantando da banqueta.
Não perco o bom humor apesar do fora. Não me importo se a beijarei ou
não, passar um tempo com alguém tão interessante quanto Majuri Mahar fez
o meu dia e a minha semana.
Mantenho o sorriso no rosto, assistindo-a se afastar de mim com os olhinhos
brilhantes de entusiasmo por ter falado comigo.
Com a banqueta livre, analiso Majuri se infiltrar no sofá onde as amigas
estão. Ela senta-se ao lado de Rafa, encostando a orelha direita na barriga
para interagir com o bebê.
— Ela já te convidou?
Clarissa ocupa o lugar que Majuri deixou vago, abrindo o pequeno cardápio
disponível, sem direcionar sua atenção para mim.
Ainda com a camiseta recortada do Era de Heras, o colar com o pingente
“C” continua em seu pescoço.
Tudo nela brilha em uma grande incógnita.
— É por isso que a sua mãe quer que eu seja sua amiga? — retruco,
crispando os lábios. — Para te espionar?
— Touché — canta, ainda procurando o que pedir. — É claro que é um
mistério aonde eu vou parar toda quarta e sábado, e mamãe não suporta não
saber das coisas.
— Por que ela não coloca um detetive no seu pé?
Indignada, Clarissa sobe o olhar.
— Cara — profere. — Qual é a tua com detetive, hein?
— Não sei — confesso ao rir. — Só me parece coisa que gente rica e com
tédio faria.
— É justo. — Retorna para seu cardápio. — Mas ela não faria isso. Não com
outras filhas de figuras poderosas por perto. Se alguém descobre que estão
investigando a vida da filha da futura presidente, a culpa pode recair no meu
pai. Ninguém investigaria a filha da senadora Anili ou a neta do Dutra
Pinhal. Entende? É
burocrático e perigoso demais. — Ela me encara de cima a baixo. — Mas
uma pessoa comum como você, é o disfarce perfeito.
É interessante, admito. No final, Natália e eu estamos jogando o mesmo jogo
de interesse, mas com cartas e ideais diferentes.
— Então, vocês querem ganhar o meu silêncio me colocando na banda?
— Na verdade, é porque a Rafa pediu para descansar antes do bebê chegar.
— Clarissa empurra o menu para o lado e chama o barman mais próximo
com os dedos erguidos. — E espero que você não diga nada para a minha
mãe, fazendo parte da banda ou não.
— Belo jeito de me fazer ficar em silêncio — reconheço. — Fazendo-me
apegar às integrantes.
— Não é novidade que Majuri é a mais legal entre nós. — Clarissa pisca. O
barman se aproxima e a herdeira abre um sorriso cativante. — Nós vamos
querer um Poison Ivy.
— Nós? — Me surpreendo.
O barman se afasta quando compreende o pedido.
— É, nós — entoa. — Me deixa te pagar uma bebida — oferece. — Você
babou tanto em mim quando me viu tocando bateria, que aposto que sua
boca tá seca.
— Eu... eu não... — Pigarreio forte. — Não babei! Só fiquei surpresa....
— Sei...
— É sério. Nunca pensei que uma chata como você fizesse algo tão legal.
— É bom assim — define. — Posso manter minha vida exatamente como
está.
Até com a maquiagem borrada e o cabelo bagunçado em estado de glamour
puro, Clarissa fala e age feito uma princesa educada nos melhores colégios
dos alpes suíços. E apesar de suas roupas refletirem seu estado de espírito
nesta noite, ainda não estou de frente para sua real identidade.
Entretanto, admito sem pudor algum que Clarissa após um show é a visão
mais bonita que uma capa de revista poderia querer.
Se os editores soubessem o que a Corações & Flechas guarda, gostariam de
lutar por uma única foto dela assim.
Quando o barman está de volta, Clarissa se oferece para me servir.
— Você aceitou, né? — Levanta de leve a mão, para me pegar a bebida e
agradecer. — A vaga.
Imito seus movimentos ao gratificar o barman e seguro o copo. Está gelado e
com um aroma delicioso de morango e menta pairando ao redor.
— Vou pensar — é o que eu digo. — Dessa vez, não quero fazer nada sem
refletir.
— Melhor.
Não é uma provocação e nem levo para o lado pessoal, apenas gesticulo com
o queixo e bebemos em silêncio. Não tão em silêncio quando Olivia Rodrigo
explode nas caixas de som.
— Tá afim de sair daqui? — convido, abrupta. — Eu e a minha irmã temos
uma tradição pós-festa, e quem sabe você goste.
Não muito convencida da intenção da proposta, a garota estufa o busto.
— Pode ser — decide, tentando captar a falsidade na minha ideia.
E finalmente não encontrando.
17
“Sem mentiras Sem histórias inventadas Apenas eu e você nesta
madrugada”
Estamos Aqui, afinal — Canção de Liz Salles O calçadão perto do Museu
Milenar, o exato lugar em que toquei piano para dezenas de pessoas em uma
inauguração, é o meu ponto favorito após uma noitada. Toda a via comercial
da parte matutina e diurna vira um compilado de restaurantes móveis pela
madrugada. Tem barraquinhas de tempurá, sushis, pastel, hambúrguer, pizza,
churros e sorvete. E, é claro, o meu predileto de todos os tempos, um
cachorro-quente completo do meu food-truck do coração.
O Dogão da Arminda é um negócio de família tal qual o Clube 148. É
comandado por uma cozinheira de mão firme que é apaixonada pelo Fábio
Júnior desde que eu me entendo por gente.
— Ária! — Arminda, mesmo com óculos fundo de garrafa, consegue me
reconhecer a quilômetros de distância. — E Lilian! — comemora mais
ainda. — Faz tempo que vocês não aparecem por aqui!
Da boate até aqui, o percurso no carro de Vinícius foi de apenas trinta
minutos. Depois que você se acostuma com um trajeto, é normal que nada
dure mais como na primeira vez.
— Faz tempo que a gente não sai, dona Arminda. — Me aproximo da altura
da abertura do carrinho. A reprise da novela da madrugada está passando em
uma pequena televisão atrás dela.
Hoje dona Arminda trabalha ao lado do filho mais novo. — Estamos virando
o terror da senhora!
— Não me diga. — Me interrompe com a mão, ultrajada. — Vocês estão
ficando... caseiras?
Seu choque resplandece em todo o seu rosto da terceira idade e Arminda
busca confirmação em Lili, logo atrás de mim.
Abraçada ao casaco de pele falso, minha irmã apenas dá de ombros.
Nem confirmando, nem discordando.
— Ou estamos sem grana — completa Lili. — Qual você prefere?
— Caseiras, definitivamente — Arminda resmunga. — Sem grana é capaz
de nunca me pagarem e isso eu não admito!
Ao som de suas risadas, Arminda cutuca o filho, que está ocupado demais
prestando atenção no beijo apaixonado do casal principal. É a reprise da
minha novela favorita do ano passado, “Destino Inteiro”. Georgia Pessoa e
Mikael Devante interpretam o meu par romântico sensação de todos os
tempos. Eles têm química, paixão e seus personagens denunciam que sempre
estiveram apaixonados durante as gravações.
É praticamente óbvio.
— E quem são eles? — Arminda já prepara o primeiro pão.
Aliás, que é caseiro. — Amigos?
Vini e Clarissa se concentram atrás de Lili, um pouco reclusos.
Vini é o mais confortável na madrugada e no calçadão, parece o seu tipo de
itinerário. É a irmã que revela-se tensa.
— Uns conhecidos — desconverso, fazendo Vini rir. — Não são
importantes, Arminda.
— Não?! — Desconfiada, a dona da barraquinha ergue uma sobrancelha. —
Eu acho que já os vi antes.
— Nunca na vida você viu alguém como eu, madame. — Vini empurra
delicadamente o ombro de Lili para passar e ficar à frente de Arminda. —
Sou insubstituível.
— É... — Sem graça ao presenciar uma pessoa tão bonita e charmosa quanto
Vinícius, Arminda derrete-se. — Realmente. Eu me lembraria de um
jovenzinho como você.
— Agradecido!
Lili e eu rimos, ao passo que Clarissa esconde a vontade de reconhecer o
tom cômico da cena afundando a boca entre os dedos.
— Faz um completo para os novatos, Arminda — peço, olhando diretamente
para Clarissa. — Eles precisam voltar, né?
— Com certeza! — cantarola. — O de sempre para você, Ária.
— Sim!
— Lili?
— O vegano, por favor.
Me desencosto da bancada do food-truck, caminhando até Clarissa; uma
ratinha encolhida, nada parecida com a baterista autêntica que conheci hoje à
noite. E nem um pouco semelhante com a herdeira de nariz em pé que tive o
desprazer de esbarrar.
— Que foi? — pergunto logo de cara.
— Tô com frio! — reclama, abraçando-se. Usando a regata da banda, é
possível que esteja congelando. — Como não tá sentindo nada?
Olho para baixo para conferir; minha calça de paetês é fina demais, e o top
transparente não me protege do vento gelado e afiado.
— Costume. — Oscilo os ombros.
— Não sei como consegue...
Estreito os orbes, não dando importância para o que sente.
— Quem é você de verdade? — Cruzo os braços. — A herdeira, a filha do
prefeito ou a baterista?
Cínica, sorri sem mostrar os dentes.
— Clarissa — define. — Esta sou eu.
— Talvez seja a da capa da Louise Lou.
Um sorrisinho de nada ameaça brotar em seus lábios.
— Eu amo a Louise Lou, mas... hum... não sou nada parecida com as capas
de revista.
— Um completo saiu! — Arminda grita.
Sua voz me faz parar de encarar a pessoa que tanto me intriga e viro o rosto
na direção, a tempo de ver Vini discutir com Lilian — de novo. Deve ser a
sétima vez só essa noite.
Na verdade, Lilian debate sozinha, enquanto Vinícius apenas ri. A pauta da
vez é porque Vinícius “roubou” o cachorro-quente que deveria ser da minha
irmã, além de ter colocado o frasco de ketchup em um lugar que Lilian não
alcança.
— Eu pego todos os molhos que você quiser, se você falar as palavrinhas
mágicas. — Vinícius segura a maionese, a mostarda e o ketchup bem no alto.
— Vai logo, cacete!
— Errou, Lilizinha. — Faz beicinho. — Vamos lá. Não é tão difícil assim...
A cena é lastimável e me causa tédio.
— Me pague quinze reais e o Vinícius pode ser seu irmão. — Clarissa
suspira.
— Aceito de graça — comento. — Ele é bem divertido.
— E elétrico.
— Mas ainda assim, divertido — confirmo. — Mas se quiser, aceito vinte
reais em dinheiro pela Lilian.
— Que nada. — Clarissa sorri de lado. — Ela é bem legal, na verdade.
Ok.
Esta noite é muito estranha. Muito mesmo.
— A Lilian? — repito. — A minha irmã Lilian?
— Sim — responde com firmeza. — Ela me ensinou piano sem pedir nada
em troca, conta piadas de humor ácido e é bem interessante.
— Primeiro... — Cutuco seu ombro. — Eu que ensinei todas as piadas que a
Lili sabe.
— E o segundo?
— Nada, é só isso mesmo.
— Um completo e um da casa saindo! — Arminda berra, antes que eu tenha
a chance de perguntar um pouco mais sobre a amizade excêntrica de Lili e
Clarissa.
Me coloco a caminhar para buscar os lanches; encho a minha a mão com
guardanapos e sachês de molhos, bem mais prático do que brigar pelo frasco
como Vini e Lili andam fazendo. De uma cestinha bem bonita, o cachorro-
quente de Clarissa cheira muito bem, mas o meu se sobressai, trazendo
farofa de bacon em cima do cheddar.
Levo até onde Clarissa está e aponto para a beira da calçada.
A modelo entende na mesma hora, caminhando à frente. Senta-se perto do
meio-fio, analisando a rua deserta que sobe em direção ao Museu Milenar e
a Praça dos Três Sóis. Tirando a vivacidade das demais pessoas que comem
seus jantares da madrugada neste calçadão, São Palomane se mantém deserta
e silenciosa.
— Cara. — Entrego sua cestinha de comida. — Tenho tantas perguntas.
Jogo-me ao seu lado, sentando de qualquer jeito.
Ainda vestida como uma rockstar, sua postura ainda é impecavelmente ereta.
— Já vim aqui, mesmo. Não tem mais saída ou escolha — declara. — Pode
perguntar o que quiser.
Sorrio.
— Faz quinze mil reais de transferência para mim? — indago.
— Agora mesmo no PIX?!
— Tá falando sério? — Seu rosto se contorce.
— Claro que não. — Rio alto, desembrulhando o cachorro-quente. Meu
estômago reage, revirando-se de emoção. — Você disse qualquer pergunta.
Plume desliza os dedos pelo embrulho de papel-manteiga gorduroso em que
seu lanche está, ainda sem pretensão de abri-lo.
Pelo canto do olho, percebo que sou detentora da sua atenção.
— Que foi?
— Por que você tá sendo legal comigo?
— Sei lá — resmungo de boca cheia. — Provavelmente é êxtase. Gostei do
que vi e me sinto... inspirada. Alguma coisa assim... mas não se preocupe, às
sete horas de hoje tudo vai ter voltado ao normal e você terá voltado a virar
uma cenoura.
— Uma cenoura?! — guincha, incrédula.
— Abóbora, então.
Clarissa até pensa em retrucar, mas, como está com muita fome, prefere abrir
o lanche de uma vez e mordê-lo com vontade, mastigando devagar.
— Primeira pergunta... — cito, alto. — Como tudo isso aconteceu?
— Eu virar abóbora, você quer dizer?
— Isso! — debocho.
— Uma fada na floresta — lamenta falsamente. — Não quis me ouvir ou me
ajudar, mas achou que eu fosse ser útil para a Cinderela.
— E foi?
— Até meia-noite sim! — A piada funciona, porque consigo dar uma
risadinha descontraída. Então, satisfeita, a herdeira infla o peito. — Enfim...
a verdade é que Vini e eu tocamos quase todos os instrumentos imagináveis.
Meus pais gostam de se gabar... você sabe. Começamos a aprender guitarra,
baixo e bateria apenas para compor portfólio.
— Então, você conheceu a Majuri?
— Não. Foi a Diana — conta. — Fizemos várias viagens juntas por causa da
nossa família. Já fugimos para muitos bares e pubs na Irlanda, só para
vermos bandas desconhecidas tocarem.
Imaginar Clarissa como uma adolescente imprudente é quase impossível.
Mas o máximo que consigo me faz sorrir quase sem perceber.
— Nós começamos a tocar por diversão e... — Ela faz uma pausa para
morder outro pedaço e, mesmo de boca cheia, continua: — Percebemos que
aquilo estava funcionando. Conhecemos a Majuri num congresso no Mato
Grosso, viramos amigas e decidimos tocar por diversão na casa dela. Depois,
ficávamos entediadas, porque a única plateia que tínhamos eram as bonecas
antigas do quarto da Majuri, então...
Me pego rindo da cena; da cena que consigo montar na minha mente e que
parece meiga.
— Rafaela veio em seguida com a campanha da mãe dela ganhando força.
Ela nos apresentou ao Corações & Flechas, e numa noite de karaokê,
decidimos tentar, sabe? O público nos odiou, mas na segunda música, parece
que sabíamos o que estávamos fazendo.
— E sabiam?
— Nem um pouco! — relembra, risonha. — A Majuri quase quebrou o pé, a
Rafa caiu do palco e a Diana estava bêbada demais.
Ela nem ao menos se lembra desse dia, mas eu sim, porque foi... — Faz
outra pausa para refletir e só completa quando tem certeza: — Porque foi
libertador, então me lembro de cada fragmento.
— Até de que cor era a sua calcinha?
— Não! — Arregala os olhos. — Naquele dia, eu não estava usando uma.
O fato é digerido por alguns segundos, onde apenas nos encaramos. Nada
além de duas pessoas olhando uma para outra, esperando o melhor momento
para gargalhar. Até que acontece, nossas costas se juntam, porque usamos
uma à outra para nos apoiarmos, para rirmos o mais alto que pudermos.
— Ok, ok... — Limpo a lágrima de alegria que se acumula nas minhas
pálpebras. — E essa história de esconder a banda?
— É fácil — sentencia. — Nenhuma de nós quer nossos pais dando palpites,
nossas famílias já são públicas. A banda é a única coisa nossa que temos.
E é verdade o que fala, reconheço a franqueza pelo semblante contente
migrando para o sério.
Dou uma pausa para Clarissa, deixando que coma pelo menos metade do
cachorro-quente sem precisar ouvir uma entrevista da minha parte. Vista
daqui, talvez eu não a odeie tanto. Parece inofensiva.
O cabelo continua armado e com os filetes de fios lisos entre os cachos.
Compreendo que Clarissa vive de rabo de cavalo para compor seu figurino
de filha exemplar — e porque está passando pela transição química, quer se
livrar o quanto antes das madeixas alisadas. Com o cabelo em duas texturas,
não parece se importar tanto assim com coques ou penteados simétricos.
— A minha próxima pergunta vou resumir em dois nomes, para ficar mais
fácil — decido. — Majuri e Diana.
— Ah. — Seus ombros decaem, um pouco irritada. — Você é mesmo uma
fofoqueira, hein?
— Gosto de me manter informada, Rissa.
— Não somos amigas ainda para você me chamar de Rissa.
Rio pelo nariz.
— Não vamos ser amigas para eu te chamar de Rissa — argumento. — Isso
aqui. — Indico de mim para ela. — É uma pausa.
Somos adultas, não somos? Sabemos comer um podrão em paz e harmonia
quando necessário.
— Tem razão! — reconhece, honesta. — Então, tá — murmura. — Sobre a
Diana. Nós crescemos juntas e descobrimos coisas juntas... fomos... as
primeiras namoradinhas uma da outra, então ela é a minha melhor amiga.
Uma pessoa realmente especial — conta, realizada. — É a primeira pessoa
que eu conto tudo, e a Diana sabe tudo sobre mim. Tudo, sem exceções.
— E a Majuri?
— É a pessoa que ainda não me deu bola porque acha que posso voltar com
a Diana a qualquer segundo — diz, no automático.
— E com certeza, você vai se aproveitar dessa vantagem.
— Tentei! — confesso, já revirando os olhos. — Mas ela disse que não quer
se meter entre mim e você. Ou... atrapalhar a banda.
— Como se eu me importasse com você.
— Talvez ela saiba que sou mais legal.
— Às vezes, quando contamos muitas mentiras, começamos a acreditar na
farsa.
— Tanto faz — rebato. — Nós não vamos conseguir beijar a Majuri, resta
aceitar.
Ainda é um assunto agradável, sem mexermos em um clima atravessado,
porque vejo Clarissa concordar para cima e para baixo, reconhecendo que o
que digo, faz certo sentido.
O meu cachorro-quente encontra-se em farelos, e o dela, faltando pouco
mais de duas mordidas.
— Última pergunta — ressalto. Clarissa fita-me, desconfiada.
— Prometo!
— Manda ver.
— Ok. — Meço meu olhar nela, bem atravessada. — Quem é você?
— Não dá para ser profunda a essa hora, Ária. Sinto muito! — Ainda sem
terminar de comer, balança o rosto para os lados, inconformada. — Três da
madrugada não é horário para esse tipo de assunto.
— Sem problemas. — Abro um sorriso brilhante. — Eu descubro!
— Não é um desafio, Ária — avisa-me.
— Exatamente, é uma missão.
— Sabe... — Meneia a cabeça para o lado. — Lembrei porque não nos
damos bem.
Atrás de nós, Vinícius acabou de comer o último pedaço do cachorro-quente
de Lilian, roubando-o em um momento em que minha irmã não estava
prestando atenção em nada. Os insultos e as risadas dos dois se misturam
pela noite, me dando conta de que estou cansada.
E de que daqui a poucas horas, tenho aula.
— Quer beber? — convido. — Uma última cerveja. Estamos ferradas
mesmo!
Ao olhar para o relógio e para a mais nova briga de nossos irmãos, não tem
muito o que fazer. Principalmente porque um deles é a pessoa que nos levará
para casa — e justo ele não parece com sono algum.
— Melhor — sibila, estendendo nossa temporada pacífica.
18
“Esses é quem estão no poder?
Não, não São eles?
O que fazem?”
O Poder — Canção de Liz Salles Encaro a ponta do meu All-Star novo e
checo o batom vermelho dos meus lábios, antes do elevador abrir. De certa
forma, tudo parece ok. Até Carlos, o motorista, disse que estou bem bonita e
que não preciso me preocupar com a minha aparência.
Levo seu comentário como um tremendo elogio, pois quando saio da grande
caixa de aço, ainda animada em enfrentar uma reunião, me sinto
renovadamente linda.
Mas o frescor do segundo dura poucos instantes, porque o olhar certeiro do
prefeito esbarra em mim. Prestes a sair pela porta principal, Batista, que
levaria os óculos escuros até o rosto, desiste do ato para sorrir para mim.
Desde a nossa conversa na cozinha, evito ficar perto e a sós com ele. Porém,
quando se está na casa de um político abertamente magnata, é complexo
fugir.
— Ária, oi! — Me saúda, cheio de simpatia. — Como vai?
— Bem, até — respondo, sorridente. — Estou indo encontrar a Natália.
— Lá em cima. — Indica as escadas, prestativo. — Linda como sempre. —
Ao ouvir a frase, ergo as sobrancelhas, confusa.
Batista ri arrastado, achando graça em uma piada que não encontro de
imediato. — A Natália — refere. — Ela está linda como sempre.
— Ah, sim. — Sacudo a cabeça. — Sim, sim.
É constrangedor o momento em silêncio que partilhamos, talvez espere que
eu puxe algum tipo de assunto, mas ao menos não detém o espaço apenas
para ele. Ou invade o meu conforto com o olhar.
— Eu vou indo — anuncia. — Tenho que ir a uma cúpula no centro.
— Ouvi falar — reconheço. — Li nos jornais hoje cedo. É
sobre as mudanças climáticas, né?
— Leu bem, Ária — fala, levemente impressionado. — Exatamente.
Estamos perto da época de chuvas e a cidade está quase um caos. Imagina
quando chegarmos na época, mesmo.
— Espero... hum... espero que dê tudo certo.
Batista assente.
— Não sei porque tanta reunião — diz de novo, abrindo um sorriso de
escárnio. — É apenas uma chuvinha aqui ou ali.
Desmancho o sorriso aos poucos.
É a mesma chuva que levou metade do meu bairro, que contribuiu para que
gastássemos uma porção de dinheiro que nunca tivemos em proteção e
barreiras. Perdemos casa e um negócio bem-sucedido. E até a dignidade. A
mesma chuvinha que fez a família inteira perder um carro em uma
inundação.
Ok, então.
É apenas uma garoa.
— Boa reunião — decido dizer, firme.
— Obrigado!
Seu agradecimento é realmente genuíno. Ele não compreende minha
expressão, meu silêncio e nem a maneira que começo a respirar entre pausas.
Ou não entende, ou prefere viver em um mundo onde os meus e os demais
problemas da população não existem.
— Progresso?
— Hm... nada ainda.
Natália detém o queixo alto e reto, sendo maquiada por um profissional de
confiança. O quarto em que estamos é mais um da grande seletividade que
há na mansão Plume, organizado especialmente para um dia de sessão de
fotos para sua marca.
— Não conseguiu nada de Clarissa?
Quando retornei para casa, procurei desenfreadamente qualquer informação
que constasse sobre a presença de Clarissa e do resto da banda na boate. Mas
não encontrei nada. Absolutamente nenhuma foto. Seja o que elas estiverem
fazendo para manter o segredo em seu verdadeiro estado de espírito,
funciona.
Fito, enfim, Natália.
Sentada em uma poltrona, afastada da desordem que é o bastidor de simples
fotos segurando tubos de protetor solar, continuo a minha tarefa de comer
alguns bolinhos de limão antes de alimentar minhas redes sociais com a
minha rotina. Depois de tanto marcar presença no campus da Torritieli
Torres, meus seguidores querem ver alguém famoso, conhecido,
deslumbrante. E não folhas de caderno e reclamações.
— Se eu não descobri nada sobre Clarissa?
É uma pegadinha.
A minha questão está envolta em uma armação de palavras, um jogo de
letras que Natália poderá reverter se tiver me escutado direito. Talvez não
faça ideia que eu esteja ciente de suas reais intenções sobre a minha amizade
com sua filha.
— Hum? — Natália ressoa, confusa. — O que disse? Não ouvi...
— Se eu descobri algo sobre Clarissa — repito, usando o meu melhor tom
de voz.
Se repara ou não que pode ser uma pequena confissão, Natália é ótima em
disfarçar, porque logo entoa: — Isso. Quero saber se virou amiga dela...
— Sem progresso. — Finjo insatisfação. — Você tem alguma dica? Se posso
puxar assunto sobre algo que ela goste.
Natália anima-se de imediato.
— Ela gosta muito de música, sabe? — conta, feliz. — Não gosta muito de
músicas atuais, ela sempre ouve... clássicos.
— Clássicos?!
— Isso.
— Sério?!
— Sim. Rissa ama música clássica.
Natália acredita no que diz, porque suas pálpebras piscam esperando pela
minha resposta.
— Certo. E o que mais?
A primeira-dama espera um segundo, toca os lábios que ainda não foram
coloridos por batom e direciona as íris para o teto, muito pensativa. A base
de sua maquiagem praticamente some em sua pele negra-retinta, exibindo a
qualidade do produto. Seu rosto se franze com leveza e há um certo reflexo
em roer as unhas.
— Hm... pelo o que eu me lembre é... o filme favorito dela é “Operação
Cupido”. É um pouco antigo, mas ela e o Vini ficavam horas... assistindo.
Sem parar. Pode começar daí, música clássica e filmes.
— Ok, acho que consigo alguma coisa!
Me levanto da poltrona, dando batidas pequenas nas minhas coxas para que
o farelo do bolo de limão se perca pelo carpete. É um hábito terrível, admito,
mas ao menos ninguém repara.
— Aonde você vai? — Natália pergunta em choque.
— Hum... pra casa. — Coloco a minha bolsa em um dos ombros, pronta para
ir. — Preciso estudar alguns conceitos de cordas e...
— Não, não, não, Ária! — Natália sacode as mãos. — Por que pensa que te
chamei aqui?
— Para saber da Clarissa.
— Não! — brada, rindo ao desacreditar de mim. — Também, mas o
essencial é que precisamos plantar sua imagem com a Tulipe Tulipe aos
poucos. Sua sessão é hoje! Vamos... — Pensando, seu dedo anelar encosta
no queixo. — Vamos te maquiar um pouquinho e você fará alguns vídeos
recebendo produtos da marca.
— Vou?!
— Claro que vai. Alguns realmente são presentes para você.
— Ela aponta para a cama muito bem arrumada, com uma caixa grande de
papelão verde-musgo. — Vamos começar aos poucos...
principalmente porque eu quero que a próxima campanha você esteja
estrelando ao lado do Vini.
— Eu?
— É — diz, como se fosse lógico. — Na minha época, chamavam de it girl.
A porta está a poucos passos diante de mim. Posso seguir em frente, ir para
casa e estudar, ou ficar um pouquinho aqui. O
suficiente para gravar tudo o que eu preciso e oferecer um conteúdo
interessante de verdade para quem me segue. Estou quase chegando em
oitocentos mil seguidores. E digo quase, porque a marca abaixa todo santo
dia.
Sou interessante.
Desinteressante.
Interessante.
Desinteressante.
Interessante.
Desinteressante.
É um ciclo, um botão de ligar e desligar.
Com cuidado, vou abaixando a alça da bolsa.
— Eu fico — decido.
E consigo um sorriso genuíno de aprovação.
Minha franja está enrolada em dois bobes de cabelo, a maquiagem que
colore o meu rosto é no tom de base correto e é muito cheirosa. A qualidade
da Tulipe Tulipe me impressiona, bem mais do que me assusta.
No celular, no corredor, enquanto espero a minha vez de aparecer nos stories
da grife, reúno um tempo destinado a mim, uma pequena pausa na correria.
Respiro e inspiro bem fundo, digerindo tudo.
— Tá de brincadeira comigo?!
Travo o aparelho porque ouço a inconfundível voz de Clarissa ecoar perto de
mim. Depois de quarta, nós voltamos à programação normal.
— Oi, Clá-Clá! — Guardo meu celular no bolso jeans. — Que bom te ver!
Trajada em suas roupas normais do dia a dia, Clarissa é uma paisagem
entediante de consultório médico.
— Pensei que fosse desistir disso tudo.
— Nós já falamos disso antes — respondo, fechando os meus olhos e
massageando o centro da testa. — Muda o disco.
Em uma rápida inspeção de cima a baixo, a herdeira mede seus orbes
atrevidos em mim. Repassa pelo meu rosto corado de maquiagem e as unhas
ainda cheirando a acetona. Pelo meu cabelo harmoniosamente enrolado e
sedoso, mesmo de bobes, está bonito.
No fim, parece gostar do que vê, ao menos.
— Era para eu estrelar essa campanha — anuncia.
— Não se pode ter tudo — lamento. — Divida suas coisas sem chorar.
— Tanto faz. — Retira, com cuidado, o olhar do meu rosto. — Hoje a
Majuri quer ver a gente — sussurra, se aproximando o suficiente de mim.
Como a porta do quarto está fechada, é improvável que nos escutem. —
Sobre a banda.
— Hoje não dá — informo. — Preciso estudar. E, se não ficou claro, estou
trabalhando no momento!
Impaciente, a garota revira os olhos.
— Quer fazer parte disso ou não?
— Quero, mas...
— Ok, então vamos juntas — decide por mim. — Depois que acabar de
brincar de boneca com a minha mãe, me avise.
— Acha que vai demorar muito? — pergunto, incerta. — Tipo...
— Não sei. — Desinteressada com a minha insegurança, Clarissa analisa as
unhas tingidas de bege. — Normalmente, sim.
Mas enfim... sete horas, tá bom?
— Sete horas?! — brado, agitada. — Tipo assim, agora são...
três da tarde. Quanto tempo uma sessão de fotos leva para terminar?
Na minha época, era rápido.
Ou talvez fosse demorado? E a minha memória de infância tenha me
pregado uma peça?
Escolho a segunda opção.
A herdeira até cogita me responder. Dá para ver em seus olhinhos que a boa
ação da semana será me tratar como uma conhecida, mas seus hábitos
cínicos sempre darão as caras primeiro, porque prefere abrir um sorrisinho
sugestivo e subir os ombros.
— Boa sorte, Ária — define. — É o que eu posso dizer.
PREFEITO... QUEM?
O prefeito Batista de La Plume não compareceu, hoje, na cúpula regional.
A pauta que visa as mudanças climáticas está em grande enfoque nos
últimos anos, uma vez que o governo de São Palomane , é o que mais alega
situação de calamidade pública em temporadas de chuvas.
Postado por PalomaneReal
19
“Procuro uma resposta Por aí Na vida Enfim.”
Quem Sou Eu? — Canção de Liz Salles
ÁRIA CAMPOS BY TULIPE TULIPE
O que já tínhamos pensado que aconteceria finalmente vingou. A mais nova
modelo e embaixadora da marca se encontrou com a CEO da Tulipe Tulipe
.
Eu disse que ela seria o momento, não disse?
Postado por MinutoGossip Oito e meia da noite, no fundo do carro de
Carlos, passo e repasso meus stories e minhas fotos oficiais várias vezes. As
imagens ficaram fantásticas. Minha animação foi genuína, de dar inveja a
qualquer um, e a minha tarde coloriu toda a minha rotina.
— Você tá apaixonada por você mesma.
Minha companheira de viagem até... sei lá aonde estamos indo, provoca.
— Tipo isso — concordo, sorridente.
Não paro de ver as gravações nem por um segundo; os seguidores não param
de crescer também. Pela escuridão do lado de fora e aqui dentro, apenas meu
celular ilumina os bancos traseiros.
Até o meu rosto parece mais corado, e com a base certa, o tom claro da
minha pele negra-clara brilhou feito pérola. Minhas unhas foram feitas e o
aroma de esmalte recente fez Carlos espirrar três ou cinco vezes.
— Quer parar? — Clarissa cobra, virando o rosto da janela até mim. — Você
assistiu esses vídeos desde que saímos de casa!
— Não, não posso. — Deito a minha cabeça em seu ombro, erguendo o
celular na altura de suas íris. — Veja você, mesma!
Clarissa sobe o busto, fazendo a minha cabeça erguer-se, e consegue se
desvencilhar de mim. Com a minha risadinha mesclada com o meu sono
tímido, ouço-a xingar baixo.
Aos poucos, o carro desacelera e estaciona de frente para um prédio central,
no coração da cidade. Na área metropolitana, os prédios competem entre si
para serem os mais altos, já tive dores de cabeça apenas os olhando.
— Obrigada, Carlos — ela assegura, abrindo a porta com rapidez. — Até
mais ver.
Clarissa sai primeiro, sem esperar por mim. Também me despeço de Carlos
— e ainda me desculpo pelo cheiro que o esmalte e a acetona deixaram por
todo o veículo.
Fora do carro, observo que Clarissa retira duas malas de mão do porta-malas,
fechando-o com ajuda dos cotovelos. Não pede a minha ajuda, apesar de
estar claro que cada uma das bagagens é pesada. Sigo-a mantendo uma
distância considerável, me impressionando pela arquitetura francesa e
dourada da construção.
Abrem a porta dupla e principal para nós, onde caímos em uma portaria
vinte e quatro horas, vazia, silenciosa e elegante. Os poucos funcionários
presentes nos cumprimentam com acenos de cabeça e de mãos.
No elevador, não trocamos nenhuma palavra, mesmo sozinhas.
No andar correto, marcado como nono andar, Clarissa sai primeiro e em total
disparada. Preciso quase correr para alcançá-la no corredor amplo, que
comporta tantas portas quanto a mansão Plume.
A garota, então, para na última porta do trajeto, retira as chaves de um dos
bolsos de seu terninho e destranca a fechadura.
— Demorou, hein — é Majuri quem diz, assim que entro pelo hall principal.
A sala de estar é acoplada com uma cozinha de salão norte-americano. As
janelas, com travesseiros e almofadas no parapeito, são um convite e tanto
para qualquer leitor sonhador.
— A nossa mais nova modelo teve sessão de fotos. — Clarissa sorri de lado,
fechando a porta atrás de mim. — Culpem a Ária, não eu.
— Como poderia culpar a Ária? — Majuri debocha, sentada no sofá e
comendo pipoca de uma travessa cheia. — Esse rostinho tem que ser visto!
— Eu concordo. — Rafaela, que desce as escadas em espiral, ergue a mão.
— Um rostinho bonito ainda é um rostinho bonito.
— Então, vocês são... hipócritas. — A herdeira determina. — Porque
quando eu me atraso com os compromissos da minha mãe, sou a errada.
Rafa se acomoda em uma poltrona de massagem, tomando cuidado com a
barriga. Majuri e a amiga trocam olhares e, depois de conversarem via
cumplicidade, olham de volta para Clarissa.
— Exatamente! — falam em coro. — Você é a errada!
A herdeira até tenta não rir ou continuar com sua fama de intragável, mas
enquanto retira o terninho de seu corpo para pendurar perto do cabideiro,
vejo um risinho resplandecer nos lábios grossos.
— E cadê a Diana? — pergunto, descendo os dois degraus baixos que
interligam a sala de estar com o hall. — Vamos ensaiar...
ou algo do tipo?
Com a boca lotada de pipoca, Majuri concorda com o rosto.
— E eu tô aqui. — Diana vem de uma porta abaixo da escada, segurando um
pote de sorvete importado. Reconheço porque é um dos favoritos de Lili. —
Demorou, hein — diz diretamente para Clarissa.
A provocação entre amigas é certeira e muito engraçada de se ver. E, aos
poucos, me sinto um pouco quente entre as minhas roupas, talvez de
vergonha. Ou de deslocamento. É nítido que eu sou a pessoa nova e a garota
sem intimidade, onde brincadeirinhas como estas podem se transformar em
climas estranhos.
— Vou me trocar, podem ir aquecendo — avisa a modelo.
Ainda com a sensação de não pertencer a este lugar, me concentro nela.
Pegando de volta suas bagagens de mão, Clarissa me aconselha a segui-la.
Rafa, Majuri e Diana se agitam, levantando-se aos poucos para caminharem
em direção ao corredor contrário do lado da cozinha, enquanto a filha do
prefeito segue para as escadas.
O apartamento de dois andares é uma grande descoberta para mim, mais
ainda por perceber que é de Clarissa.
Suas fotos de criança abraçada a Vinícius estão condecoradas por toda a
parte. E, aos poucos, noto o que sua personalidade tem a me oferecer. Há
muito da decoração minimalista de seu quarto na mansão, mas os quadros de
Paris e das pinturas a óleo são o ponto final na encruzilhada.
Como uma boa curiosa e enxerida, sigo Clarissa pelas escadas, olhando para
os lados, com medo de perder todos os detalhes que compõem sua
verdadeira casa.
— Pensei que morasse na mansão — falo, saltitante de tão eufórica em
importuná-la na própria residência. É presente demais para uma pessoa só.
— Agora tô triste em saber que não vou esbarrar com você por lá com tanta
frequência.
— É um combinado — responde de costas para mim. — Meus pais me
deixam em paz e eu passo o final de semana com eles. Fim de papo.
— Por isso não tinha decoração alguma no seu quarto, né?
No topo da escada, bem perto de uma sala central com mais uma TV de
plasma, Clarissa me olha por cima dos ombros.
— Você reparou nisso?
— Não tem como não reparar! — Passo meus dedos pelo corrimão liso. —
Um quarto daquele parecia uma sala de espera de dentista, Clarissa.
O segundo andar enche os meus olhos, porque não sei no que reparar
primeiro. Se no assustador vaso de flor de quase dois metros no canto
superior ou no quadro enorme com o rosto da própria Clarissa, dentro de um
vestido horroroso e brega, pendurado na parede principal. Escolho o quadro
primeiro.
O sorriso metálico dela se deve ao aparelho colorido, e o cabelo foi armado
em um penteado de poodle recém-saído do pet-shop. É um verdadeiro
desastre e aposto que se trata de Clarissa aos quinze anos, na famosa festa de
debutante.
Retiro o meu celular do bolso e tiro uma foto disso, só para garantir futuras
chantagens. Não sei quanto tempo passo apenas bisbilhotando suas coisas,
apenas o corredor me dá material o suficiente para importuná-la até quando
tivermos noventa anos.
Perto da foto há um quadro de estrutura caseira. Nele, um celular antigo e
cor-de-rosa, estilo flip é o centro do desenho. De acordo com a nota de
rodapé, foi feito por Clarissa em um trabalho da escola, há muito tempo.
Época em que ainda era uma pré-adolescente, presumo.
— Não toque em nada — ordena, voltando de seu possível quarto.
E pela forma confortável que volta, posso imaginar que fiquei aqui, do lado
de fora de seu quarto, por mais de vinte minutos.
— Relaxa, eu com certeza não tenho grana pra pagar nada disso. Mas se eu
estragar essa foto é um favor que eu faço para você.
De cabelo solto e usando uma calça de moletom simples, ela não parece
muito contente por eu estar aqui. E é o que mais me fascina.
— Por que você pendurou um celular flip na sua parede?
— Bom, fui eu quem pintei. Não tá muito bom, mas ainda fui eu — diz,
pouco orgulhosa. — E porque foi meu primeiro celular. Eu lembro que
minha mãe me ligava e ficávamos conversando por horas, até enjoarmos e
desligarmos.
— Legal. Você desenha bem.
— Não desenho mais — acrescenta. — O tema era bom, aliás. Mas foi a
primeira e última vez que me dispus a desenhar algo do tipo.
— E qual era o tema?
— Eu tinha que desenhar algo que me remetesse à saudade.
Então fiz o celular. Ganhei um dez e pendurei na parede. Regra número um
desse mundo. — Clarissa arqueia um dedo. — Seja sua maior fã! — E sorri
abertamente. — Vem — convida. — Vamos pra sala de música.
Volto a segui-la.
— Tenho que ir embora às onze, ok? Preciso mesmo estudar.
Minhas provas são alguns dias antes do feriadão, inclusive.
— Fica aí. Com a gente — convida. A modelo se mantém parada diante de
mim. — Os ensaios duram a noite toda, quase.
— Eu preciso mesmo ir embora.
— Hoje é sexta, Ária — diz, fazendo pausas. — Fica aí.
Meneio o meu rosto para trás.
— Só se você implorar pela minha presença.
— Então vai embora.
— E perder a chance de estar na Batcaverna? — Sorrio. — Nunca!
Consigo, de alguma forma, fazê-la sorrir um pouco. É
intrigante saber a razão de ser convidada para ficar aqui, mas não discuto.
Ando primeiro, ultrapassando seu corpo até chegar na sala de estar
novamente. Sigo o som das risadas do resto da banda, parando perto de uma
porta aberta, indicando uma ala quase que secreta. Encontrar a sala de
música, um pequeno espaço com instrumentos da Era de Heras, não é difícil.
Entro também, pegando um espaço pequeno no canto. Todas sorriem para
mim, já caminhando em direção aos seus devidos lugares.
— A Rafa vai começar, Ária — Majuri fala, já segurando a guitarra rente ao
corpo. — Se quiser fazer um dueto com ela, é só se aproximar do microfone
e mandar ver. Nossos ensaios são muito livres. Não temos muitas regras.
— Lembra da diversão? — Diana pisca para mim. — Tente ao máximo se
divertir aqui também.
Assinto com firmeza.
— Beleza, ok.
Timidez não combina comigo, mas mulheres dentro de uma banda são o meu
verdadeiro ponto fraco, então prefiro me sentar em um banco e aguardar a
minha vez.
Faço questão de olhar para a bateria, principalmente para a baterista.
Clarissa, primeiro, arruma os ombros, esticando-os ao se alongar um pouco.
Discretamente, repasso meus olhos para Majuri, que me pega em flagrante.
Em automático, suas sobrancelhas se erguem como quem enfatiza “Você
precisa se decidir. Ou a odeia, ou a deseja”. Não lhe deu nenhum gostinho de
estar certa, apenas cruzo meus braços, incentivando o ensaio a começar de
uma vez.
Cada uma delas testa seus respectivos instrumentos sem pressa alguma.
Diana brinca com o baixo, Majuri com os arranjos na guitarra. Clarissa
arruma perfeitamente cada prato da bateria, testando o chimbal logo em
seguida.
Rafa, ainda muito conectada com sua barriga, faz um pequeno aquecimento,
sem deixar de dedicar a música para seu bebê.
— Prontas? — quer saber Rafa, segurando o microfone entre os dedos. — A
de sempre?
— A de sempre — concorda Majuri, sem retirar os olhos de mim. —
Conhece The Runaways, Ária?
— Claro.
Majuri e Rafa trocam um pequeno olhar, sorridentes.
Clarissa, então, começa a contagem, marcando o ritmo com as baquetas em
ampla sintonia entre seus dedos. Os olhos, no entanto, se estreitam para
mim, porque se há alguma dúvida em mim sobre o que anda fazendo, cairá
por terra em poucos instantes.
A banda, enfim, inicia seu primeiro ensaio assistido por mim. A música
escolhida é a que eu pensei que tocariam. Uma das mais famosas de The
Runaways, “Cherry Bomb”. Igual ao nome do filme em homenagem a elas.
A voz de Rafaela é bem diferente da minha. A dela, forte e feroz, traz uma
raiva colossal sem motivos aparentes. É o timbre da revolução que buscam
na canção, é o âmbito perpétuo da fúria. É
neste momento que me pergunto se gostarão da mudança. A minha é
melancólica e sombria. A dela, vibrante e cruel.
A letra escorre por sua boca feito mel, conhecendo todos os pontos da
canção de cor. Rafa me convida para eu me aproximar,
pegar o segundo microfone e tentar, mas nego com um simples aceno. Ainda
não é hora.
Assisto a vocalista interagir com Diana, fazendo a baixista rir de uma careta
que faz ao declamar uma melodia que, possivelmente, fala sobre uma garota
rebelde que está cansada dos próprios pais. E que se autointitula como uma
bomba de cereja.
De Diana, Rafa brinca com Majuri; com seu cabelo, com suas piadinhas,
com seu carisma. É um ensaio mais livre e divertido.
Entendo perfeitamente quando dizem que querem apenas se divertir.
Clarissa é a única que se abstém de se divertir mais do que deveria, porque
seu empenho atrás da bateria é invejavelmente avassalador. A música
adentra suas veias e faz sua mente colapsar, seus lábios se mexem sutilmente
repetindo a letra, que conhece tão bem quanto Rafaela.
Não há escolhas, não quando um segundo microfone foi colocado para mim.
Aos poucos, sem chamar muito a atenção delas, me levanto. Caminho
devagar até o tripé extra e fico atrás dele, um tanto tímida.
Lembro-me de todos os momentos que fui até a praça cantar, tendo pouco
mais de cinco pessoas como plateia. Sempre valorizei cada centímetro da
minha conquista, especialmente porque estou rumando a substituir uma
cantora exímia, que possui um público fiel.
Preciso me lembrar que mereço esta oportunidade como qualquer outra
pessoa e, por este motivo, canto.
Canto para mim, para elas, para o meu futuro.
E para o que quero conseguir com a música.
Simplesmente canto.
— À Ária!
Levanto a garrafa de cerveja o mais alto que consigo, ficando na ponta dos
pés. Alguns respingos da bebida despencam na direção do meu rosto, mas
isso só serve para me fazer rir ainda mais.
— Ária! — O resto comemora em seguida.
O brinde termina quando todas as garrafas se tocam com cuidado e, depois,
somos liberadas para beber. Uma linha pequena de suor se acomoda na
minha testa. Tocamos duas músicas, mas serviu como se tivéssemos
encenado um show inteiro. Não parei de pular e dançar, não quando fui tão
bem acolhida.
Bebo um gole longo e generoso de cerveja, fazendo meus sentidos
religarem. Mais viva do que nunca, mais preparada do que um dia pensei em
estar.
— Então, isso é um sim, né? — Diana toca o meu ombro, procurando uma
boa resposta. A baixista se joga no sofá de Clarissa, esticando as pernas. —
Porque seria maldade ter cantado daquele jeito conosco e depois vazar.
— É claro que é um sim. — Rafa se apossa novamente da poltrona de
massagem. — A Ária é uma hera agora.
— É? — Clarissa suspende uma sobrancelha, sorrindo de maneira
convencida para mim.
Uma a uma, todas me fitam, esperando uma resposta melhor do que apenas
sorrir e beber cerveja.
— É! — falo com tanta firmeza que me surpreendo pelo tom da minha voz.
Majuri é quem puxa o coro de comemoração, erguendo sua cerveja o
máximo que pode também. Acaba que, no final, senta-se ao lado de Diana,
brindando de novo com a amiga.
— E por que se chama Era de Heras?
Dinha me oferece uma bebida, mas recuso com a mão.
— Somos filhas de políticos da cidade. Todas nós somos de São Palomane,
nascemos aqui — responde. — Então decidimos pensar, daí a Majuri veio
com o nome. Heras, porque o símbolo de São Palomane são heras
venenosas. Era, porque somos a próxima geração depois deles. É meio que
uma declaração de que somos tudo o que nossas famílias não querem que
sejamos. É legal, meio profundo e charmoso. Eu pelo menos acho.
— Era de Heras — suspiro, concordando.
— Exato. — Pisca.
— Temos que tirar uma foto — a dona do apartamento diz suavemente. —
Vou buscar a câmera. O momento pede uma foto...
das antigas.
Ainda mais tranquila do que sua fala, Clarissa dá meia volta nos calcanhares
e refaz o caminho até seu quarto. Sigo seu andar até desaparecer escada
acima e, como nenhuma delas está conversando comigo, posso adivinhar que
não escutam quando digo “Vou ajudá-la”. Saio sem ser notada, subindo
degrau por degrau até o segundo andar.
Adivinho, pela porta aberta, onde deve ser o quarto de Clarissa e me
aproximo, ficando no batente, sem coragem de entrar sem ser convidada.
De fato, acertei que seu real ambiente possui mais decorações do que na
mansão Plume.
— Você vai mesmo entrar na banda ou só não quer magoar as minhas
amigas?
Encontro Clarissa mexendo em um móvel perto da entrada do recinto, em
uma gaveta.
— Não. — Faço careta. — Seria maldade com elas. Vou mesmo entrar.
— Então... meus parabéns.
É frio e vago, uma felicitação que damos a alguém que acabara de atravessar
a rua ou congestionar o trânsito.
— Vai ter que me aturar até na banda — brinco com o momento, esperando
por alguma dica de que está mentindo para mim. Como sei que está.
— Não podemos ter tudo na vida — reclama, vasculhando a gaveta sem
parar.
A herdeira dá de ombros.
— Você canta bem, não quero me dar mal ao escolhermos uma péssima
vocalista.
Não acredito em nada, nenhuma palavra faz sentido. Não quando Clarissa de
La Plume parece tão ansiosa para que eu saia de perto dela. De invadir seu
espaço, de estar tão próxima de conhecê-la. E preciso admitir, depois de um
tempo decifrando cada camada de seus breves mistérios, tornou-se algo
recorrente.
Entro, enfim, em seu quarto, segurando a garrafa entre meus dedos. Apoio
minhas costas no móvel, ficando de lado para ela.
— Assume logo que me quer desde sempre.
A exclamação pode servir para dois sentidos, resta saber qual Clarissa
seguirá.
— Você é boa. — Fecha a gaveta de supetão, ao encontrar uma câmera
digital, estilo polaroid. — É isso o que direi.
— Por enquanto — recito, ficando à sua frente sem querer.
Clarissa respira fundo, controlada. — Serve.
Abro um sorriso ingênuo e aberto, saindo de sua vista o mais rápido
possível.
20
“Quem sabe sou eu Sempre eu E apenas eu.”
Faça o Que Tiver que Fazer — Canção de Liz Salles Faz exatos 40
minutos que estou em pausa que, inicialmente, duraria apenas vinte.
De repente, encarar a minha bandeira esticada na parede, com as cores da
bissexualidade, parece bem mais interessante. Em todos esses minutos de
descanso, apenas fito o tecido de linhas finas. Reparo em três amassados nas
pontas laterais e em um rasgo no centro.
Da bandeira, encaro a recente foto que decora a minha mesa de estudos.
Nela, na polaroid de efeito antenado e vintage, estou abraçada com Diana,
enquanto Majuri, Rafa e Clarissa ficam atrás de nós, exibindo suas cervejas e
sorrindo de maneira tão eufórica e sincera, que a imagem é o primeiro
documento visual de que a Era de Heras tem uma nova vocalista.
Eu.
— Tá ocupada?
Sutil, minha mãe aparece, colocando a cabeça para dentro do meu quarto.
Pauso meus devaneios e sorrio.
Morar sozinha é uma coisa, mas viver no mesmo prédio que seus pais é
como lhes dar diversas permissões invisíveis. Nem sei quando Bete
conseguiu a minha chave reserva, mas conseguiu.
— Tentando ficar ocupada. — Me espreguiço, empurrando o corpo junto
com a cadeira para longe da escrivaninha congestionada com o meu material
de estudos. Partituras, redações e composições.
— Mas pode falar, aconteceu alguma coisa?
Minha mãe entra totalmente no quarto, dando uma rápida verificada em
todos os objetos que considera demais. Acaba por detestar o meu pôster
enorme da Liz Salles, porque roubei dela quando tinha quinze anos. Duvido
que mamãe tenha intenções de exibir a foto em algum lugar por aí, fica bem
melhor no meu quarto.
Ela também desaprova os meus móveis pichados de propósito e as camisetas
com o rosto da Miley Cyrus estampado.
— Nada de grave, Superestrela — garante, sentando-se na beirada da cama,
bem perto de mim. — Só queria te mostrar isso aqui...
Em sua mão direita, há seu celular danificado pelo tempo. Tela rachada,
capinha imunda, modelo antigo e touchscreen lento, é uma lástima de
aparelho. E Bete o estica para mim.
Me aproximo dela, usando a cadeira para me arrastar.
Nas fotos — também muito mal tiradas por alguém tão leigo quanto a minha
mãe — consigo ver uma construção quase que finalizada. A fachada verde-
esmeralda é inconfundível, porque foi a cor que meus pais escolheram para a
filial na cidade seguinte. O
letreiro já está posto, mas permanece desligado. A calçada foi enfeitada por
bancos de madeira e mesas do mesmo material, porque em São Paulo eles
acham divertido comer no meio da rua, no meio do sereno. Sei lá, para os
paulistanos deve fazer algum pingo de sentido Bom, eu não posso falar
muito. Adoro comer na calçada quando visito o Dogão da Arminda.
— A inauguração vai ser antes do feriadão — diz, contente.
Os óculos de grau na ponta do nariz é o charme central de sua miopia. —
Vamos pra lá para conferir os últimos detalhes!
— Já?! — Abro um sorriso lento, mas carregado de expectativa. — Então, as
obras foram adiantadas?
— Com certeza — confirma. — Com o feriadão, é bom que as pessoas
estejam comparecendo ao Clube 148, entende? É o que eu quero. Seu pai e
eu investimos um dinheirão para que tudo corresse bem.
— Mãe...
— Nem se preocupa, Superestrela — assegura, erguendo a palma da mão
para interromper a minha fala. — Já foi, depois a gente recupera. Para
investirmos em nós e no nosso bem-estar, é assim mesmo que funciona.
— Mas...
— É isso, Ária! — Decide pôr um fim, de um jeito ou de outro.
— Vem cá ver sua prima. O seu tio mandou umas fotos dela, tá enorme!
Me aconchego para mais perto, ampliando as imagens trêmulas da decoração
no foco, trazendo meus tios e minha prima usando um chapéu de proteção e
acenando para a câmera, toda feliz com a possibilidade de ajudar no que
precisarmos. Morro de saudade daquela baixinha, mas fico imensamente
feliz que está ao lado dos pais.
— Meu Deus, ela cresceu mesmo — reparo, impressionada.
— Quando é inauguração?
— Semana que vem, antes do feriado — fala, ainda de olho no celular e nas
fotografias. — Tô tão animada que comprei uma roupa nova e nem sofremos
abalos no orçamento final do mês. É tão bom comprar sem me preocupar
com as contas.
A frase, de algum jeito, quebra o meu coração.
Não sei explicar o que é estar estudando em um sábado à tarde, chuvoso pelo
visto, sem ter a cabeça quente com a festa de hoje à noite.
Neste horário, há três meses, eu estaria dormindo ou bebendo uma xícara
inteira de café para me manter acordada. Me forçaria a ter muita energia para
lidar com os clientes, a cantoria e as bebidas que, com certeza, derramariam
em mim.
— Eu consigo ir pra lá no feriadão. Se quiser, posso fazer aquela mágica nas
redes sociais — me gabo, sorrindo de lado. — Um vídeo aqui e outro ali...
Bete fica comovida. Dá uma simples risadinha antes de me fitar de soslaio,
preocupada.
— Você anda trabalhando na sua música, Ária? — questiona, ressentida. —
A faculdade tá ótima pelo visto. — Indica a mesa de estudos atrás de mim.
— Mas no seu tempo livre, você passa mais tempo com aquela gente do que
aqui em casa. Tem certeza que são as amizades certas?
Se eu contasse para a minha mãe, a mesma fã dedicada de roqueiros nos
anos 90, que estou em uma banda secreta com as filhas de poderosos ícones
da política brasileira, ela diria que estou participando de algo excitante, mas
me recomendaria cautela. Muita, muita cautela.
No entanto, explicar todo um contexto é o que menos quero.
Prefiro mentir.
— Até que sim. — Interpreto o papel de uma filha exemplar. — Não tanto
quanto gostaria, porque meio que deixei o teatro de lado, mas...
— Teatro musical é o que você sempre quis, né?
— A música mais do que tudo e, acredite ou não, eu atuo todo santo dia.
E é verdade.
Na frente de Natália, principalmente.
— Aquela mulher... a Natália... ela tá cumprindo o que prometeu?
Há mais fotos e campanhas envolvendo a Tulipe Tulipe do que música ou
canções. Até sinto falta de compor, seja uma letra autoral ou os meus jingles
divertidos que, por muito tempo, me salvaram ao pagar uma conta. Também
sinto falta de tocar na praça.
Na minha cabeça, faz séculos que não coloco meus pés lá.
— Tá, mãe.
— Você ficaria linda num comercial da Tulipe Tulipe — reconhece,
segurando o meu queixo com cuidado. Sua análise pelo meu rosto é movida
a admiração. — Mas ainda fico preocupada com a sua música, Superestrela.
— Tem o vídeo do piano, aliás.
— Você não estava fazendo por diversão, então não vale. E
faz tempo que você não publica nada. O seu material não é eterno, meu
amor.
O fato dela ter razão me deixa levemente ansiosa. Mas é preciso ter foco em
tudo o que planejo.
— Mãe... — reclamo alto, prolongando as sílabas. — É sério.
Tá tudo ok!
— Ok...
É uma resposta qualquer. É certo que algo de errado ou de muito estranho
vem acontecendo com a promessa, mas enquanto houver a possibilidade de
oportunidades fáceis, bem na palma da minha mão, não há razão para
recusar.
— Vai sair hoje? — Puxa assunto, interessada na variedade de calças que
comprei no brechó perto de casa, hoje de manhã. — Porque se não for, um
furacão passou por aqui!
Hoje é a minha estreia na Era de Heras; depois de ontem, Rafa e eu
decidimos cantar juntas, até que o público se acostume comigo para repassar
o bastão oficialmente para mim. Estou em um misto de euforia extrema com
um medo surreal percorrendo meus ossos.
— Vou, sim. — Volto para perto da mesa e termino de fechar a janela, um
pouco de chuva respinga nos meus cadernos. — O Vini vai passar aqui para
me buscar, volto só de manhã.
— Assim que é bom! — Decidida a ir, levanta-se da cama. — Gosto dele, do
Vini — emenda. — É um bom rapaz. Assim como a Clarissa... é... com os
outros dois que fico... sabe... de olho?!
— Não se preocupe — garanto. — Eu também.
Há um lapso de sorriso que Bete esconde na face, compreensiva.
— É bom mesmo — define. — Ninguém pode apagar a minha estrela.
A Corações & Flechas está fechada e, neste ponto de vista, vejo
perfeitamente como a boate é bem maior do que pensei. À
minha frente, canto uma das minhas músicas favoritas da Rita Lee.
“Lança Perfume” não tem público agora, mas há Vini, aplaudindo cada gesto
meu em cima do palco.
— Tá nervosa? — Rafa interrompe a minha cantoria na cara dura, apoiando
sua mão na minha cintura. Como é apenas uma passagem de som, deixo-a
falar. — Na minha primeira vez, eu quase saí correndo.
— Não estou tão nervosa quanto pensei que estaria — revelo.
— Estar no palco é como estar em casa. Clichê e batido, mas é a verdade.
— Você deve ter lido isso em um rodapé de caminhão — desafia Clarissa, de
trás da bateria.
— Ou sou apenas sentimental demais — sugiro, falando ao microfone.
— Nervosa ou não. — Majuri Mahar se aproxima da conversa.
— Nós queremos agradecer por ter aceitado ser uma de nós tão em cima da
hora, Ária.
— Vini deu a ideia! — esboça Rafa, animada. — Mas a Rissa quem
comprou!
Da coxia, um funcionário da boate surge, trazendo um buquê de flores
coloridas. É grande, espalhafatoso, cafona, bonito e indiscreto. Tudo ao
mesmo tempo, exatamente como gosto das coisas. Recoloco o microfone no
apoio e espero pelos próximos passos, porque se o buquê não for para mim,
será um mico e tanto.
Mas é destinado para a minha pessoa, pois o funcionário me entrega com
muita gentileza, desaparecendo de vista logo depois.
— São prima-donas — esclarece Clarissa, sem se aproximar de mim. — A
flor mais popular entre as demais, para a nossa mais nova vocalista.
Há prima-donas azuis, vermelhas e amarelas. Há um conjunto de pequenas
plantinhas que representam as famosas heras de São Palomane, dois cravos e
algumas rosas para completar o buquê mais caótico que já recebi na vida.
— Vou fingir que vocês não me deram um monte de flores venenosas e
agradecer. — Finjo fungar, abraçando meu presente com cautela. — Valeu,
pessoal. São lindas!
De longe, Vini tira algumas fotos minhas, mas poso apenas para uma pessoa.
A que segura uma câmera digital e moderna, esperando uma polaroid sair do
aparelho a qualquer minuto.
Sorrio com todo o meu ser para ela, feliz.
Cintilando. Agradecida. Fascinada.
21.01
“Sem brincadeira Há coisa melhor do que vencer?”
Olha Só O que Consegui — Canção de Liz Salles ANDAM QUIETAS?!
Nossas meninas andam sumidas e reclusas demais, não acham?
Já estou com saudade de Clarissa e Ária e, apesar de não aparecerem
muito, não darem mais sinal de vida me deixa...
desconfiado.
Vem algo por aí?
Postado por MinutoGossip Alguém jogou Soda em mim, mas não dei a
mínima.
Porque foi para me refrescar, pelo menos.
Não sei como a pessoa pensou nisso, mas no fim, foi bom me sentir um
pouco fresca. As gotículas refrigeradas da bebida entraram em meu sutiã e se
misturaram com o meu suor. O tecido já está preso rente ao meu corpo faz é
tempo. E o penteado, aquele mesmo que passei alguns bons minutos
modelando, já não existe mais.
Agora sou uma Hera.
E neste palco, sou deles.
Quando Rafa começou seu discurso falando sobre sua saída temporária da
banda, ouvi todos os muxoxos da plateia. O que é pior do que substituir? O
que é pior do que deixar um lugar inalcançável vago?
Todas as minhas ideias de substituição foram terríveis. Séries que
terminaram, franquias de filmes que faliram, bandas que nunca mais foram
as mesmas.
Porra. Tomar o lugar de Rafa?
Quem faria isso com uma garota gostosa, linda, inteligente e grávida?!
Eu faria.
Quando me vi, na coxia, esperando ser anunciada, percebi na merda que
tinha feito. Rafa tem uma legião de seguidores fieis que desejam ouvi-la.
Pessoas que saem do trabalho e pensam em ouvir a voz dela para relaxar.
Não a minha.
Pensei em desistir na hora, sair correndo, abandonar o barco enquanto ainda
era tempo. As garotas ainda teriam duas fotos polaroids para se lembrarem
de mim, porque não pisaria naquele palco nem que me pagassem.
Se o palco era a minha casa, estava sendo expulsa imediatamente.
Mas, conforme os acordes de “Cherry Bomb” entraram em foco, Rafa
conseguiu ministrar sua breve saída com sutileza.
Dedicou a música para o público, enfatizou que eles gostariam da escolha e,
enfim, me chamou. Meiga e gentil, como se não fosse a vocalista mais voraz
e talentosa que conheci em anos.
No refrão da música, ela sacudiu seus ombros no ritmo, me incentivando a
interagir com a banda e com o público. Não deixei que nenhum deles
experimentasse do meu nervosismo. Pessoas podem te engolir facilmente se
mostrar um pingo de insegurança. É
uma regra simples. E muito prática.
Quando me senti confortável o suficiente para reivindicar o meu lugar na Era
de Heras, o público aplaudiu por alguns minutos, me incentivando a
continuar. De primeiro momento, se tornou apenas Rafa, eu e um microfone.
Duas vozes, duas potências bem diferentes, ressaltando toda a nossa
realização que antecederam os ensaios recentes até ali.
Tudo o que torna uma apresentação eletrizante é com certeza sacudir a
cabeça, dançar dentro ou fora do ritmo. Também rimos tanto que ficamos
roucas e erramos o final da letra, mas não pedimos desculpa ou ficamos com
vergonha. Cada acerto ou erro se tornou válido. Cada amparo foi essencial
para mim.
Fomos reais acima de tudo e conquistei uma simpatia pequena, que ainda
será muito lapidada.
Agora, continuando na linha de The Runaways, estamos tocando “School
Days”. Me pendurei em uma das grades, inclusive, empunhando com força o
microfone e fazendo questão de fazer todos vibrarem. Não sinto que estou
sozinha, nem quando percebo os olhares nostálgicos que as pessoas
esbanjam para Rafa.
De certa forma, quero acreditar que essas pessoas gostariam de me ver aqui
na semana que vem. É uma grande chance para provar o que sei fazer e o
que vim esperando a minha vida toda para alcançar.
Aperto o microfone com tanta força e dedicação que simplesmente sei que
estou prestes a finalizar meu dia.
Não me leve a mal.
Cantar para uma plateia empanturrada de hambúrguer e com álcool nas veias
é legal. Mas me apresentar para um público alucinante, de pessoas
desconhecidas que aprenderam o meu nome na força da música e que me
receberam como se já me conhecessem, foi o bicho.
Boa parte dos meus sentimentos estavam aos pedaços, porque substituir uma
vocalista é sempre um papel horrendo de se assumir. Só depois de reparar
nas fotos de Rafaela Keller que estavam penduradas na parede da Corações
& Flechas foi que percebi que teria minha foto ali também.
Não paro de pensar no show; na minha maquiagem escorrendo, no meu
cabelo grudando na nuca pelo suor, nas minhas pernas que começaram a
ficar bambas pelo esforço físico, meu fôlego se perdendo nos refrões mais
difíceis e nas pessoas mais atrevidas, no começo do palco, que adoraram
segurar a minha mão.
Tudo.
Tudo é capaz de me fazer sorrir hoje.
— Vocês foram incríveis!
O rapaz no camarim elogia. Miro minhas íris nele, sorrindo.
Bruno é o namorado da Rafa e pai do bebê. Ele é o tipo de pessoa que destoa
o ambiente da balada. Seu jeito engomadinho de ser é desnorteante, porque
imagino que o relógio que decora seu pulso seja um Rolex.
— Valeu, Bru — agradece Majuri, servindo um pouco de champanhe caro na
taça que ele segura. — Agora você terá todos os shows particulares que
quiser, porque Rafa é uma cantora sem banda agora.
Sentada no chão do camarim, aguardo enquanto Diana trança o meu cabelo,
em uma técnica que aprendeu no TikTok. Estou relativamente bêbada e um
pouco chapada de maconha, posso estar relaxada e mole e demais, e este
chão, porra, é o chão mais confortável que já me aninhei na vida.
— Sem querer ofender. — Rafa ergue o dedo, comendo um brownie cheio
de cobertura, dentro de uma marmita que o próprio Bruno trouxe. — Mas eu
não aguentava mais.
O camarim, que é preenchido apenas por nós, se explode em risadinhas.
O cabelo de Rafa está cheio de nós pelo tempo que bateu cabeça no palco,
cantando Kiss e The Runaways, então Clarissa tenta penteá-lo o máximo que
pode, usando toda a sua cautela na raiz da amiga. A pele de Rafa, da cor
negra-escura, tem pontos de tinta neon seca e craquelada, que Bruno retira
com a ponta das unhas.
— Temos a Ária agora. — Diana provoca, repuxando o meu cabelo um
pouco. — E sem querer colocar pressão, mas não queremos outro bebê na
banda.
— E nem terá! — Rafa, assustada, brada. — Este é o primeiro e o último.
— É? — Bruno finge surpresa. — Pensei que teríamos outro.
— Só nos seus sonhos — determina. — Meus pés incharam, a minha fome
triplicou e só durmo de barriga para cima, porque de bruços não é mais uma
opção!
— Minha mãe disse que comeu tijolo na minha gestação — falo, erguendo a
minha taça para Majuri encher de champanhe. Os olhos de Rafa se
arregalam. — Tô falando sério.
— A minha comeu melancia com maionese. — Majuri oferece sua
contribuição, sentando-se na mesa central do camarim.
— A minha disse que comeu papel higiênico molhado. — A fala de Diana
faz meu ventre revirar. — Calma, gente! Foi papel novo, não foi usado.
Apenas molhou e comeu, e disse que foi refrescante.
Contorço os lábios.
— Mesmo assim... — Bruno termina de limpar o rosto de Rafa e ganha um
beijinho da namorada. — Foi a coisa mais nojenta que eu já ouvi, Diana.
— E eu posso fazer o quê? — Dá de ombros e o ato a faz errar um lado da
trança, me pedindo desculpa em seguida. — Foi ela que disse!
Com a conversa e a breve apresentação de Bruno, descobri que ele é irmão
mais velho de Diana. Filhos de mesmo pai, mas de mães diferentes. É mais
um daqueles escândalos extraconjugais que os políticos escondem, mas que
uma hora acabam vazando.
Enquanto me mantinha nervosa na coxia, esperando a minha vez de entrar
no palco, Bruno me contou que descobriu a existência de Diana quando
tinha oito anos. Que todas as pessoas em sua casa pareciam saber que ele
possuía uma irmã, menos ele.
Me contou a fofoca inteira; seu pai traiu sua mãe mais vezes do que ele
soube contar. E para cada traição acumulada, já que o casamento não
acabava de jeito nenhum, a mãe dele ganhava um diamante ou uma bolsa de
grife. Até que o divórcio foi anunciado e eles puderam ficar com outras
pessoas.
Com o dinheiro do divórcio — e das joias —, a mãe dele mudou-se para
Miami e passou a detestar o nosso país mais do que tudo.
— Ela ficou ainda mais possessa quando descobriu que meu pai casou com a
mãe da Diana, mas isso é fofoca pra outro dia.
Disse, finalizando o assunto e me dando um tapinha nas costas, porque
estava prestes a cantar ao lado de Rafa.
— E você? — Bruno cutuca Clarissa. É o momento que volto a prestar
atenção na conversa. — O que sua mãe comia quando estava grávida?
Concentrada com o pente no cabelo de Rafa, para que os fios não se
embolem e não acabe machucando a amiga, a herdeira apenas curva os
lábios, querendo encerrar o assunto.
— Sei lá — diz. — Não sei.
— Pronto. — Diana toca os meus ombros. — Fiz as tranças.
— E sorri para mim, mas logo se volta a Bruno. — Bora mudar de assunto?
— sugere. — Da última vez em que tivemos aqui, você me prometeu um
drinque. Vamos que eu quero cobrar a dívida.
Diana se levanta em um pulo, convidando o irmão para segui-la até o bar.
Eles têm os mesmos olhos e ambos são baixos. Bruno, contudo, é alguns
centímetros mais alto que Diana, mas é consideravelmente menor do que
Rafa. O cabelo moreno e grosso de Diana é um contraste e tanto para os fios
dourados feito ouro de Bruno.
Me ergo do chão, para me admirar no espelho. As tranças boxeadoras
deixaram o meu rosto em evidência, e a maquiagem e o glitter em grande
destaque.
— Vai ficar? — Majuri quer saber, dominando a garrafa de champanhe para
si. — A noite ainda não acabou.
— Talvez para mim. — Termino de me ajeitar. A camiseta da banda ficou
perfeita em mim. — Tenho que estudar. Provas chegando e as lágrimas
também.
— Que bonitinha, Campos — murmura, fazendo beicinho. — Sério. Eu que
não vou te atrapalhar!
— É bom mesmo — decido. — E é melhor guardar toda a sua energia para
quarta-feira que vem, que é quando pretendo festejar!
— E tem planos para o feriadão?
Ouço Rafa rir alto.
— Todas temos. — Rafa revira os olhos. — Imagino que você vai ser
convidada para ir para São Paulo, Ária.
— Vou?
— Como nova boneca da minha mãe, a resposta é sim — ironiza Clarissa,
ganhando um dedo do meio meu. — Tem um evento beneficente e ela quer
você lá.
— E a minha mãe quer organizar um chá de bebê para mim — choraminga
Rafa. — Vai ser um saco, então é melhor você ir para São Paulo no feriado,
Ária. Menos um babaca para encher o meu saco.
— Estarei lá — prometo, piscando para ela pelo espelho. — Mas até lá, serei
uma boa menina e me afundarei em boas maneiras, porque preciso estudar.
Me agacho e, ainda um pouco zonza pela bebida, capturo a minha mochila
debaixo da penteadeira. Em pé, me preparo para ir.
— Vejo vocês na quarta? — relembro.
— Quarta! — cantam em coro.
— Quarta — confirmo.
Me despeço de Majuri com um abraço bem apertado de boas-vindas, beijo a
bochecha de Rafa e ganho um aceno de cabeça de Clarissa — é um avanço,
sejamos sinceros.
No corredor até a saída, sou parabenizada pelos clientes que me encontram.
Recebo elogios e gritos contentes na minha direção.
— Oi. — Uma mulher, sentada sozinha e apreciando um martini, brinda na
minha direção. — Você canta muito bem — entoa, com uma voz cantarolada
banhada a veludo puro.
— Valeu — agradeço, ficando quente. Ela é muito bonita. — Quarta tem
mais.
— Estarei aqui.
Com a promessa, continuo o meu caminho com um sorrisinho no rosto.
Consigo me despedir de Diana e de Bruno, diretamente do bar, e resgato
Vinícius de uma conversa que parece chata com um grupo de pessoas
desconhecidas. Sem Lilian aqui, não tem com quem brigar.
— Você dominou tudo, hein! — Vini me abraça pelos ombros.
— Mandou tão bem, que fiquei com um surdão no ouvido por dois
segundos!
A caminho do estacionamento, ele retira as chaves do carro da jaqueta.
— Você vai ver... — Me desvencilho dele, para andar de ré. — Ainda terei
um disco com o meu rosto!
— Não é bem o que eu quero ver por aí, mas tá valendo.
Com sua mão grande, Vinícius me segura pelo alto da cabeça e me provoca,
me trazendo para outro abraço. Dessa vez, gargalho em seu ouvido, me
sentindo leve como uma pluma, pronta para sair voando por aí,
completamente sem rumo.
— Toma. — Antes de sairmos de verdade da boate, Vini pousa um chaveiro
de um coração neon na palma da minha mão. — Um presente de boas-
vindas.
— Me diz que você tem um de... — falo, levantando o chaveiro para
enxergá-lo melhor.
— De flecha. — Mostra o seu, um pouco tímido. — Acho que é uma
combinação de chaveiro da amizade. Comprei na lojinha daqui.
— Chaveiro da amizade! — comemoro. — Nunca tive um.
Quando eu era pequena, tive uma pulseira da amizade, mas depois nada
mais...
— Nem eu — confessa.
— Agora tem. — Entrelaço seu braço no meu, puxando-o para fora. — Já é
o meu chaveiro favorito. E se você for tão bonzinho quanto tá sendo agora,
prometo te dedicar uma música no show que vem!
— Você faria isso, oh, minha deusa? — debocha, gemendo alto para que as
pessoas na fila nos encarem. — Como é bom ser fã de Ária Campos!
— Cala a boca, Vinícius! — Belisco sua barriga.
No estacionamento escuro e um pouco cheio, sendo agraciado pela garoa da
madrugada, Vinícius devolve o beliscão no meio da minha barriga.
Infantilidade, êxtase e alegria se misturam, porque começamos uma
briguinha besta de tapas e chutes fracos.
— Ei, Ária!
É o grito de uma garota que nos faz parar e, ainda com o riso preso na
garganta, me viro para encontrar Clarissa ao pé da escada de onde vim.
Debaixo da garoa, corre até onde estou, abraçada à uma mochila.
— Você pegou a minha mochila sem querer — fala, fazendo a troca.
Ainda estou com a mente presa na guerrinha de mãos e braços com Vini,
porque não paro de sorrir.
— Não foi sem querer. — Pego a mochila certa. — Foi por querer. Assim
você viria correndo atrás de mim.
— Só assim mesmo — ressalta, séria. — E... sem querer puxar seu saco, ok?
— esclarece. — Mas você mandou muito bem hoje, Ária. De verdade.
— Sim, eu sei. — Pisco. — Mas aceito os elogios, porque sabe-se lá quando
o escutarei novamente.
— Nunca!
— Foi o que pensei.
— Quer carona, maninha? — Vini oferece, também risonho, invadindo
nosso diálogo.
A modelo torce o nariz.
— Não, vou ficar. Rafa vai dormir lá em casa e o Bruno prometeu uma
carona.
— De boa — responde. Ele cutuca a minha bochecha. — Então, somos só eu
e você, Ária.
— Boa noite, Clarissa — falo, tombando o rosto no ombro de Vinícius. — E
você quer mais alguém, Vini?
— Não coloque palavras na minha boca! — decreta, teatral.
Ouço Clarissa limpar a garganta ao tossir, levemente intrigada com a minha
relação com Vinícius.
A guerrinha retorna, com chutes, soquinhos e palavrões, e só termina quando
chegamos ao seu carro.
Não faço ideia se deixamos Clarissa plantada no meio do estacionamento ou
não, fazendo-a assistir uma brincadeira tão tosca como aquela, mas a
felicidade é uma bebida tão embriagante quanto qualquer outra.
Arrisco dizer que é a mais forte de todas.
21.02
— Espero te dedicar todo o amor do mundo, em nosso lindo e glorioso
refúgio.
A balada romântica, calma, atrativa e monumental parece agradar bem mais
o público de quarta-feira. Começar com um rock pesado ou um pouco
revolucionário não é o que as pessoas querem.
No meio da semana, talvez, desejem estar ao lado de boas bebidas, uma
banda que compreende seu momento zen e comidinhas leves que não
pesarão no estômago.
— É o que somos, mulher. Aceite de uma vez. Nosso amor, nosso amor...
Gingo suave, sem movimentar meu corpo mais do que deveria. Usar meus
braços, minhas mãos e todo o meu corpo para contar a história que Liz
Salles escreveu para o seu primeiro amor, uma garota que estudou com ela,
em um colégio de freiras, chamada Carmen.
Ainda que o público me encare um pouco desconfiado pela repentina
substituição de Rafa, não podem deixar de negar que gostam de mim e que
consigo arrancar sorrisinhos indiscretos deles.
E suspiros. Não podemos esquecer dos suspiros.
— Ele é tudo o que mais quero, não esqueça de mim e do refúgio que
construímos.
Sem maquiagem derretida, sem cabelos desgrenhados ou danças frenéticas,
o palco é só mais uma extensão da calmaria que queremos pregar em plena
quarta-feira.
Na última parte da letra, espero pacientemente todas na banda terminarem
seus arranjos para agradecer a plateia que, ainda um pouco resistente, não
grita pelo meu nome ou implora por bis. Ao menos, ninguém me xingou ou
exigiu que eu saísse do palco.
É uma vitória.
— Obrigada, pessoal! — falo em alto e bom som. — Somos a Era de Heras.
Essa música... — começo a dizer, ofegante. — Foi destinada para a nossa
baterista!
Majuri faz graça com a guitarra, incentivada por Diana.
Clarissa, que se segura para não revirar os olhos, bate com força nos pratos,
causando um som de efeito digno de uma sitcom.
Com a pequena gracinha, consigo conquistá-los pelo humor e finalizamos a
noite com bom humor. É assim. Um dia de cada vez, é o que dizem, não?
Da plateia, a mesma mulher que me elogiou na primeira noite nos assistiu.
Sem perder um segundo da minha trajetória no palco.
Interessante.
As cortinas fecham-se, nos separando da multidão conformada por termos
acabado por aqui. O refletor continua aceso, essencial para nos enxergarmos.
É o nosso último show antes da viagem do feriadão, então todas as músicas
foram escolhidas metricamente para nos agradar.
— Combinamos de dedicar a música para a Rissa? — Majuri aproxima-se,
com a sobrancelha erguida. — Queria para mim.
Rafa, que vem da coxia, me abraça de lado, me oferecendo uma garrafa de
água fresca.
— Você faz cantar aqui em cima parecer uma tarefa fácil, Ária — comenta,
impressionada. — Posso dizer que estou com inveja ou...?
— Gosto de causar inveja. — Aceito a garrafa, sedenta por água. — E sobre
a música, Majuri, pode deixar, que a próxima apresentação é sua.
Não sou repuxada para a conversa, não quando analiso Clarissa sorrir
sozinha enquanto guarda as baquetas no apoio, pronta para ir para casa.
Disfarço um pouco, revezando o olhar entre ela e Rafa, mas é um pouco
difícil. Não quando sabe que estou a encarando. Não quando gosta desta
atenção.
— Nos vemos em São Paulo, então? — Diana me cutuca gentilmente na
altura da barriga, fazendo-me acordar. — São Paulo.
Feriadão — repete. — Nos vemos lá?
— Sim, claro! — falo rápido e alto.
Diana sorri, porém é um gesto que demonstra mais do que simplesmente me
entender.
É compreender.
Termino de assinar o meu nome nas linhas pontilhadas.
Supervisiono todas as respostas e tenho por finalizado a prova. Recolho a
minha bolsa do chão, guardo a caneta e me levanto, pronta para entregá-la ao
prof. Paulo. Ficando com esta folha, estou livre para viajar no feriado
prolongado. Posso pensar em festas, bebidinhas e saídas despreocupadas.
Pouso a folha no canto de sua mesa e sorrio apenas por educação, mirando já
na porta.
— Bom feriado, Ária — deseja Paulo.
— Igualmente, professor.
Ainda faltam alguns dias para pensar em cair na estrada — cuja viagem não
demorará menos do que duas horas —, mas é uma percepção notar a linha
tênue entre estar ou não estar livre.
Saio da classe direto para as saletas de estudo; quero comer outro bolinho de
baunilha enquanto tento digerir os comentários na página oficial de Era de
Heras na internet. Me acomodo em um puff primeiro. E, em segundo, abro o
Instagram da banda.
Vamos lá, as garotas não são otárias. Elas sabem que não podem colocar
seus rostinhos à frente, então o perfil nada mais é que um amontoado de
fotos misteriosas com o logotipo central: uma mulher da natureza, tão bonita
quanto qualquer outro ser místico, abençoando nossa música.
A maior parte dos comentários que pedem Rafa de volta são apagados,
principalmente aqueles que trazem seu nome. Nenhuma das garotas segue a
conta oficial, mas desconfio que haja perfis fakes por aqui.
Me contento em analisar uma discussão nos comentários, justamente na foto
mais recente do perfil.
@anajadi: eu ate que gosto da nova vocalista mas prefiro a antiga vcs
sabem quem @ruthpereira: a nova é suuuuuperlegal não sei o que tão
reclamando TANTO
@anajadi: em resposta: ela é, mas falta algo @ruthpereira: em resposta:
então sobe lá no palco e faz melhor — Tá fazendo o quê?
A abordagem de Clarissa não me assusta, apenas indico com o queixo que
pode se aproximar. Do batente da saleta, a modelo certifica-se de que estou
sozinha e entra totalmente. Em seu braço, há uma pasta com suas anotações.
Descobri recentemente que faz Relações Internacionais — e o motivo de
sempre aparecer no prédio de música é completamente óbvio agora que
existe a banda.
— Tentando não levar para o coração os comentários do pessoal sobre mim
— respondo à sua questão, quando já está sentada perto de mim, em um puff.
— Ah — solta. — Isso? — Faz uma breve careta. — Sem querer minimizar
o que você tá sentindo, mas... não é nada, Ária — prontifica, deixando de
olhar para o meu celular. — Eles não podem fazer o que você faz.
— Não, mas sabem afiar muito bem os comentários.
— Claro, pessoas e internet são uma péssima combinação, mas... — Ela dá
pequenas batidas na tela, descendo a timeline. — Não são muito pautados,
entende?
— Não interessa, mas de repente quero saber como agradar essa tal Ana
Jadi.
— É impossível. — Sorri, ao aguardar a pasta na mochila cara de uma marca
australiana. — Quando começamos com isso, vamos querer fazer tudo e
mais um pouco para as pessoas. Então... é melhor seguir em frente. —
Clarissa força um sorrisinho e continua: — Além do mais, a maioria gosta de
você. Mas é normal, ficaram acostumados com a Rafa.
— Completamente normal. Só em sonho mesmo eu conseguiria agradar
todos de uma vez só.
— Exatamente! — ressalta. — Continue a pensar nisso e repita a frase toda a
vez que se sentir uma merda.
— Não estou me sentindo uma merda — anuncio. — Só me distraindo com
a coisa errada. Por exemplo... — Indico de novo a tela, saindo da rede social
e entrando na área informativa. — As pessoas juram, mais do que tudo, que
somos amigas. Não interagimos, não tiramos fotos juntas e nem aparecemos.
Mas somos amigas! O poder de falar, bem ou mal, ainda assim é viciante.
Aponto para uma manchete que afirma que Clarissa e eu seremos vistas
passando o Ano Novo em Copacabana, daqui a alguns meses. As fontes
confiáveis são apenas invenções confiáveis.
— História fraca, enredo forçado — pontua. — Dou nota cinco para a ideia
que somos amigas.
— Não é bem colocado, mas de repente, acreditam na própria mentira. —
Desisto de ler as notícias fantasiosas sobre nós. — Animada para o feriado?
— Por que estaria?
— Perguntei por perguntar.
— Ah, sim... — Seus ombros descansam. — Ah... sim. É
apenas um feriado, então... sei lá.
Clarissa, que está muito perto de mim, deixa seu ombro encostar no meu
sem querer. Só percebo porque o calor de sua roupa na minha é perceptível
ao ponto de me fazer estancar no lugar.
— Entregou todas as provas? — Puxa assunto, interessada.
— Você quase faltou no primeiro ensaio por querer estudar, então é melhor
que consiga uma nota boa.
— Sim, entreguei. — Deixo meu ombro onde está, respirando um pouco
para fazê-la lembrar que estamos perto demais. — E
você?
— Sim — murmura, baixo. — Foi fácil.
Muito perto.
Perto mesmo.
E jogando conversa fora, quando poderia estar em qualquer outro lugar.
Evito sorrir, não quando a atitude poderá afastá-la. Não me importo com os
comentários — pelo menos, não por agora — e viro delicadamente o
pescoço, para analisar Clarissa de perto. O
rabo de cavalo deixa as bochechas macias à mostra e o gloss, que demarca
toda a boca, é de cereja.
Clarissa sabe que estou a admirando, mas não fará nada a respeito.
Então, testo.
Testo o que posso fazer sem iniciar uma pequena discussão.
— Você tá bonita — elogio, respirando profundamente. — Sabia?
Clarissa bate as pálpebras, encontrando certo nervosismo dentro de si.
— Valeu — diz, mas ainda não me encara.
O próximo passo é tocar sua pele, na extensão do pulso.
Meus olhos vagam por seu braço e refazem o caminho até o rosto
novamente, esperando por alguma reação. Apesar de ser escrachada, está lá.
As pálpebras e a boca levemente entreaberta, a sensação de estar tão
próxima que poderemos dividir um puff daqui a pouco. Traço pequenas e
significativas carícias no pouco de pele exposta e Clarissa, que ainda se
mantém fixa em resistir a mim, não se retrai.
— Trouxe mais bolinho de baunilha — invento qualquer frase.
— Quer um?
— Para mim também?
— Claro — minto.
Quero rir, quero que veja que estou gostando de cada partezinha deste teste,
em especial, porque parece bem positivo para o meu lado.
— Pode pegar? — pergunto. — Tá na minha bolsa. E está mais perto de
você.
Clarissa assente, taciturna. Abaixa um pouco o tronco na direção da ecobag
e repassa-me, ao passo que finalmente precisa me encarar. Faço questão que
nossas mãos quase se entrelacem e sorrio em agradecimento. A atenção,
combinada com a investida perfeita, resultam em uma pequena espiada em
seus lábios.
Uma mais indiscreta, para que saiba que estou interessada.
E que a beijaria aqui mesmo. Com a chance de sermos interrompidas ou não.
Uma mecha do cabelo recai de trás de sua orelha, e é a oportunidade perfeita
para seguir com os gracejos.
— Seu cabelo tá lindo também.
Nada disso é mentira, ainda que seja um teste. Nunca diria nada parecido
apenas para brincar ou manipular. Tudo o que sai da minha boca é a mais
pura verdade, Clarissa acreditando em mim ou não.
— Sério?
Ela mexe no rabo de cavalo, retrazendo a maior parte do cabelo para frente.
As duas texturas da transição química estão lá, o cacheado ao lado das linhas
lisas que, futuramente, não existirão mais.
— Não minto — relembro. — Às vezes, mas não agora.
— Se não mente — tensiona, molhando a boca discretamente. — Posso te
fazer uma pergunta?
— Vai me custar quantos reais?
— É de graça.
— E posso pedir algo em troca?
Clarissa quase retruca, mas não consegue. Dá para notar que uma ideia surge
em sua mente, porém sequer consegue colocá-la para fora.
— Depois de me dar o bolinho — opina. — Gostei do que experimentei.
Finjo estar ofendida.
— É isso o que eu sou? — Sorrio de lado. — Uma provedora de bolinhos
que não merece nem um beijo?
Ok, cheguei ao nível máximo. Carícias, elogios e investidas corporais não
foram o suficiente, agora disse exatamente o que quero e o que desejo com a
aproximação, e Clarissa não fugiu. Está bem aqui, me encarando no fundo
dos orbes, tão intrigada quanto a primeira vez em que nos vimos.
— Um beijo e uma pergunta — falo de novo.
— Não sei se é justo.
— No meu ponto de vista é, sim.
Trilho um caminho em seu pulso, dedilhando meu dedo anelar até chegar em
seu ombro. Do ombro para o cabelo e do cabelo para a nuca. Massageio a
região, assistindo com prazer suas pálpebras fechando-se totalmente, sem a
intenção de espiar meus próximos movimentos. Ela pode estar cansada da
semana, da temporada de provas e dos shows.
Pode ser uma infinidade de resoluções.
A herdeira, então, se aconchega para mais perto, decidida a fazer sua boca
tocar na minha. Ainda de olhos abertos, aprecio cada segundo de sua
devoção a mim. O rosto sereno, as mãos reunidas no colo, um tanto tímida.
A forma que, possivelmente, nossos corpos se encaixarão assim que nos
beijarmos.
Também aumento meu sorriso; um belo jeito de dar boas-vindas ao feriadão
é beijando uma garota linda na sala de estudos.
Só que não chego a beijá-la, não quando a própria me afasta com apenas um
toque de mãos. Em um segundo, estamos entrelaçadas para um beijo, no
outro, Clarissa fita-me como se estivesse cometendo uma falta grave no
campo de futebol.
Não entendo o que ela quer dizer com os olhares, nem com os gestos, então
preciso de tempo.
Muito tempo para perceber que Vini está olhando para nós, perto da porta da
saleta. Seu corpo está transpassado entre a passagem e o corredor, e o rapaz
sorri para mim, com as sobrancelhas alinhadas erguidas.
— Achei você — fala, exclusivamente para mim. — Vim te buscar.
Terminei minha prova agora e topo te dar uma carona se formos passar no
Mc Donald’s primeiro.
Não tenho problema nenhum em admitir que beijaria Clarissa — e faria o
que mais pudéssemos fazer aqui —, então trato de colocar uma expressão
sugestiva no rosto, calmíssima.
— Parece promissor. — Enfio a mão na ecobag, retirando um dos bolinhos
de baunilha da minha mãe e entrego para Clarissa. — Preciso arrumar
minhas coisas para o feriadão.
Pela maneira que me fita, Vinícius sequer desconfia do que estávamos
prestes a fazer. Talvez seja um dom entre irmãos o que Clarissa tem;
conseguir ouvir seus passos a metros de distância.
— Você vem? — convido, descarada. Me levanto do puff e estendo minha
mão para ela. — Sempre cabe mais um.
Avalia minha mão ao hesitar.
— Hum... não, não. Vou ficar.
— Mais batata pra gente — comemora Vini. — Vamos? — Me apressa. —
Não quero pegar fila. A maioria das pessoas já estão caindo na estrada.
— Vamos. — Retiro meu olhar do dela, mas acrescento antes de sair. — Se
quiser me ver mais tarde — incito —, para continuarmos nossa conversa, é
só me chamar.
Clarissa de La Plume não diz nada, só continua um pouco surpresa pelo
desenrolar do episódio. Uma hora, estávamos falando sobre comentários em
fotos, em outra, puffs se tornaram pequenos ao ponto de incomodar.
Não sigo frustrada até meu amigo, não quando sei que terei mais alguma
oportunidade como esta.
Não é fácil me fazer desistir de algo.
Tampouco de alguém.
22
“Veja só, Eles não enganam ninguém!”
Na Alta Classe — Canção de Liz Salles O casaquinho social que uso
pinica os meus braços, porém é a única peça de roupa confortável que há
para me proteger do frio imprevisível de São Paulo.
Depois de entregar uma das provas mais difíceis na faculdade, pensei que
usaria meu tempo para descansar das primeiras semanas de relatórios —
ainda mais para mim, uma novata. O que não foi o que caso.
Ao invés de dormir e relaxar, me encontro muito bem acordada, em uma
manhã de segunda-feira, em um jardim de inverno, apreciando um brunch.
Aparentemente é o mesmo que café da manhã.
Viajei hoje de manhã com os Plume e com Lilian para cá.
Estamos hospedados na casa da família, herança da parte paterna do prefeito
Batista. E, da casa, viemos para uma chácara no campo, uma residência
agradável que pertence aos Keller.
Não pensei que conheceria a futura candidata à presidência do Brasil, mas
aqui estou eu, dentro de um chá de bebê chique demais para uma criança. E
apesar de segurar uma taça de suco de laranja, minha mente voa com a
possibilidade de almoçar um milk-shake de chocolate.
Tento ao máximo me manter acordada e longe de bocejos.
— Falando sério. — Clarissa Plume aproxima-se calmamente, erguendo o
queixo. Desde o ocorrido na saleta, na quinta, nós ainda não nos esbarramos.
Não sozinhas, é claro. — Tá trepando com o meu irmão?
— Isso era o que você queria me perguntar? — Franzo a testa. — Na quinta?
No canto do salão, sem conversar com ninguém, espero Vinícius voltar para
fofocarmos sobre as roupas dos outros convidados do chá de bebê barra
brunch barra café da manhã. Não me oferece nada para entender o que me
diz, então intercalo: — Bom dia, Clá-Clá — sibilo, sonolenta. — Tudo bem?
— Tá ou não?
— Meu Deus — murmuro. — Já vamos começar a segunda-feira assim? —
Sem resposta alguma vindo de sua parte, sorrio de lado. — Primeiro... —
Levanto meu dedo anelar. — É da sua conta?
— Sorrio. — Segundo... trepar? Quem fala assim?
Clarissa de La Plume ajeita seu blazer, com uma flor de lírio grudada em um
dos bolsos, e se curva na direção da mesa mais próxima, se apossando de
uma taça de goiabada com queijo nobre.
— Não quero que ele se magoe — resume, sem coragem de me olhar.
— Sei.
— Tô falando sério, Ária.
— Ou você é fofoqueira ou tá com ciúme.
— Ciúme?
— É. — Viro o rosto. — Quer que eu te dê atenção também?
— Aproximo-me, lhe entregando um docinho de morango com muito glacê.
Ainda me lembro de quando pensei na possibilidade da herdeira chupando o
meu dedo com o doce por cima. Foi muito bom.
— Se quiser, é só me dizer onde e quando.
— E-Então... — gagueja, engolindo em seco. Clarissa aceita a oferta do
doce, retraindo os ombros. — Não tá saindo com ele?
— Deveria?
— Por que não consegue responder uma simples pergunta?
— Porque quero entender a intenção da questão. — Ajeito meus ombros. —
Depende... se eu falar que estou ou não estou interessada em Vinícius, posso
perder muitas chances.
— Tudo para você é negociação?
— Sim, desde que eu comecei a pagar muitas contas.
Vejo-a abrir e fechar a boca, indecisa se continua com o assunto ou não. É
difícil entender se eu ainda a odeio — ou se um dia odiei. Talvez tenha
detestado. Não sei dizer.
Sei especificar que existe um sentimento entre nós que é recíproco. Resta
saber se é negativo ou positivo. No entanto, é bem lógico para mim que é
algo diferente. Não tão sólido ou concreto, porém bem mais coeso do que
quando nos conhecemos.
Quando está atrás de uma bateria, Clarissa faz questão que a minha atenção
seja dela e que eu sonhe em seus dedos trabalhando em mim, tanto quanto
trabalha na música.
Mas fora do quesito musical, seu tédio ainda me intriga e sua postura de
princesa me repele.
— Enfim... — pontua, subindo e descendo os ombros. — Só para você
saber, à noite, nós vamos dar uma festinha. Um chá de bebê de verdade,
sabe? Para a Rafa.
Ao escutar o nome da futura mamãe do grupo, encontro Rafaela pelo salão.
Está conversando com o sogro, Márcio Pinhal.
Todos parecem muito felizes e realizados com a vinda da filhinha de Bruno e
Rafa. Que, a propósito, se chamará Júlia.
Eu pensei que Rafaela estava de sete ou oito meses pelo tamanho da barriga,
mas é apenas cinco meses e meio. É fascinante como um ser tão pequeno
pode crescer tanto.
— Sim?
— Estou te convidando — diz, fria. — A Rafa, na real.
— Então, você não quer que eu vá?
— Quero?
— Esse nosso joguinho te cansa ou te cativa, Clarissa? — sussurro, sentindo
seu ombro respaldar no meu.
Isso!
É um jogo. Não há emoção ou sentimento. É apenas um jogo sem sentido,
montado tal qual um labirinto. Pronto, agora sei descrever o que somos.
Peças em um tabuleiro.
— Às vezes... me cansa. — Suspira. — E às vezes... — Ela reserva dois
segundos inteiros para encarar a minha boca tão perto da sua. — Me cativa.
E, sem mais nem menos, vai embora, enfiando-se em uma roda de conversa
com Lilian e Diana.
— E aí. — Vinícius retorna, passando o braço por cima dos meus ombros.
Seu cabelo está preso em um coque, mas ainda usa uma tiara para conter os
fios da frente. — Demorei?
Atrás dele, vejo o prefeito Batista acenar na minha direção e sua esposa,
Natália, faz um sinal de simpatia para mim. Hoje, em especial, tenho um
ensaio fotográfico com Vinícius.
— Não, de boa. — Ofereço uma coxinha de frango para ele, a única comida
comum que encontro entre tantos derivados de camarão. — Você não
deveria estar lá?
Aponto para o outro lado do salão da chácara, para uma mesa redonda onde
outros caras bem parecidos com Bruno Pinhal estão.
Aliás, se Bruno não fosse tão ridiculamente legal e receptivo, julgaria que
ele estaria naquela mesa. Os caras falam alto, as garotas são escandalosas e
nenhum deles come nada, apenas bebem.
— Hum... não, não deveria. — Vinícius enfia duas coxinhas na boca. — Eles
são uns babacas.
— Achei o mesmo.
— Achou?
— É — digo. — Você e as meninas são legais demais para viverem nesse
mundinho, tinha que haver os otários. Pensei que fosse o Bruno, mas ele me
conta muita fofoca, então...
— Acertou. — Ele vira-se para fitar os ocupantes da mesa. — Filhos de
delegados, deputados, médicos e advogados. Elitezinha barata, se acham os
donos do mundo e... são horríveis.
— Imagino.
— Meus pais até tentaram me fazer andar com eles. E a Clarissa os suportou
por mais tempo que eu, mas...
— Mas?!
— Eles não são legais, Ária — diz, me olhando dentro dos olhos. — E para
eles, pessoas como Clarissa e eu não deveríamos estar onde estamos.
Compreende?
Assinto, sem precisar de maiores explicações.
Fora a candidata Keller e a senadora Mahar, os Plume são os mais poderosos
no ramo judiciário neste local e, ainda assim, são minoria.
— Enfim. — Vinícius força um sorriso. — Eles não são importantes.
E, realmente, para esta história, não são nada além de...
nada.
FAMÍLIA À VISTA!
E todos em São Paulo.
Em um evento privado na grande cidade, fortes nomes da política brasileira
se juntaram para fermentar um amável chá de bebê, em nome da primeira
filha de Rafaela Keller e Bruno Pinhal , que nascerá em dezembro.
Viva os papais!
Postado por MinutoGossip
23
“Em toda a minha vida Nunca conheci amigo feito você Para sempre desejei
a artimanha de Desenhar e imaginar você Escreva o que te digo.”
Você e Eu, Sempre — Canção de Liz Salles — Nós seríamos um casal
lindo!
É o que Vinícius diz ao abrir a porta do quarto em que estamos ficando, se
jogando na cama. A sessão de fotos foi boa; depois de um brunch, um
almoço que tivemos que chamar de lunch e um passeio na Avenida Paulista,
trabalhamos um pouquinho.
As fotos ficaram ótimas; foi apenas algo experimental que deu certo.
Vinícius e eu, sem maquiagem, posando para a linha de skincare da Tulipe
Tulipe. Os fotógrafos suspiraram por nós e Natália já quer uma campanha
oficial, que ultrapasse o Instagram.
— Verdade. — Fecho a porta do nosso quarto e vou para o banheiro. Quero
me preparar para o chá de bebê de verdade. — Acha que as fotos ficaram tão
boas assim?
Ouço seus passos sendo abafados pelo carpete do quarto, e logo Vini se
recosta no batente.
— Acho — fala sinceramente. — E nem se preocupe com isso, eu gostei das
fotos. A gente combina!
— E muito! — Ainda visto o casaquinho social e estou mais do que pronta
para me vestir como eu mesma. Me encaro no espelho e quase desisto de
falar o que tenho em mente. Mas, se Vinícius de fato é meu amigo, precisa
me ouvir. Não importa a circunstância. — Vou te dizer uma coisa bem
aleatória agora, Vini, e espero que não zoe comigo.
— Impossível — declara. — Zoar com a sua cara é bem mais legal do que te
levar a sério.
— Então é melhor aprender, porque... — Viro de costas para o espelho e
cruzo os braços, usando a pia de mármore importado para apoiar o quadril.
— Quero pegar a sua irmã.
A confissão não o surpreende tanto quanto pensei que surpreenderia. Talvez
porque Vini tenha captado nas entrelinhas que quero socar Clarissa tanto
quanto quero beijá-la.
— Que bom. — Murcha os lábios. — Porque eu também quero pegar a sua.
Quase engasgo, é informação demais. Duas pessoas se encarando no
banheiro com confissões quentes o bastante para fazer o clima de São Paulo
derreter.
— Tá falando sério? — Enrugo a testa.
— Sim, e você?
— Sim.
— Então, sem julgamentos, parceira.
Vini estende a mão na minha direção, para selarmos o nosso acordo de “sem
zoações” com a cara do outro. E, no meu ponto de vista, é bem justo. Troco
um aperto de mão firme.
— E como isso aconteceu?
— Sei lá, aconteceu — anuncia. — Não que eu esteja apaixonado, não é
nada disso. É que quando vocês conheceram o Corações & Flechas, Lilian
passou algum tempo comigo e foi bem legal. E depois que comecei a
provocá-la, só penso em fazer isso...
tipo, o tempo todo.
— Irritar uma pessoa é legal, né?
— Sim! — vibra, dando um pulinho no lugar. — Ela fica irritada,
esquentadinha, não sabe o que fazer, se perde no argumento e fica tão...
— Bonita?! — emendo, empolgada. Porque comigo é a mesmíssima coisa,
sem tirar e nem pôr.
— Isso aí!
— É... — murmuro arrastado, perdendo o olhar pelo banheiro e mordendo o
lábio inferior. — Em resumo, estamos fodidos.
— Também. Mas eu gosto da ideia de você e Rissa juntas.
— Sem juntas — proclamo, sacudindo as mãos. — Não estou apaixonada.
Não quero que haja um juntas, Vini. Ela só... me atrai, ok?
Meu amigo cruza os braços, nada convencido do que digo.
— Não consegue parar de pensar nela, né?
Penso em espernear, sair correndo do recinto, fechar a porta na sua cara e
nunca mais entrar em um assunto como este, mas não tem o que fugir
quando o Plume sabe muito bem do que está falando. É dizer a verdade ou
mentir. E se eu mentir, serei pega em dois segundos.
— Não, não consigo — revelo, bem baixo. — E não me orgulho, porque...
se ela souber de algo, sem compreender o que eu quero, vai debochar de
mim.
Termino a frase com o sentimento de ser uma verdadeira tola.
Ao menos ele não ri de mim ou diz que estou exagerando.
Nós ficamos em silêncio; perto da privada de material importado também, há
um exemplar da revista Louise Lou trazendo a Grazi Massafera na capa. E
apenas estreito os olhos, porque é a revista favorita de Clarissa.
— A gente deveria ter sido um casal — falo, batendo em seu peito e, em
seguida, no meu. — Seria mais fácil.
— Não, não seria. Dei em cima de você porque interpretei as coisas errado.
Faço uma careta, ainda mais inconformada.
— Caralho! — brado. — Você recusou rápido demais.
— Ah. — Vini abre um sorriso sem graça. — Foi mal.
— Relaxa. — Dou risada. — E você tem razão, seríamos estranhos.
— Eu não disse isso! — protesta.
— E isso importa?
Vini não responde, porque não tem o que retrucar. Nossa amizade se tornou
a minha coisa predileta no mundo atualmente.
Posso dizer qualquer besteira que ele vai entender, ao passo que conversas
sérias se tornam menos desconfortáveis quando está por perto. É um
daqueles momentos que notamos o quão grata somos por uma pessoa.
E eu sou grata por Vini.
— Hoje à noite — inicia. — Dou um jeito de vocês duas ficarem sozinhas.
— E esbarra seu ombro no meu, para chamar a minha atenção. — Já que é
um dia especial.
— Sério?
— Sim.
— Olha... não sei como te ajudar, mas depois do chá de bebê, eu e a Lilian
vamos conhecer a filial do clube dos meus pais. Você pode oferecer uma
carona...
— Pode ser, mas eu quero ajuda para saber se a minha tática infalível ainda
funciona.
— Vini... — faço uma pausa, arqueando uma mão. — Se você usa uma
tática infalível para conseguir pegar alguém, já sei que vai dar errado.
— Só me ajuda e me dá uma nota de... zero a cinco.
— Zero a cinco?
— Zero a cinco!
— Eu sou obrigada a participar disso, ou...?
— Como minha amiga, é seu dever estar aqui.
Olho bem para cara do caçula Plume e, ainda que tenha dezenove anos, de
rosto e corpo parece bem mais velho do que Clarissa ou eu. E, sendo franca,
Vini possui chances com Lilian.
Aliás, Vinícius teria chances comigo se eu não estivesse tão obcecada com a
herdeira desde o começo de tudo.
— Tá, que se foda, anda logo. — Aceito e, ao mesmo tempo, aviso: —
Quero tomar banho.
Entusiasmado, Vinícius se prepara como se estivesse prestes a correr uma
maratona; remexe nas roupas e no diâmetro do cabelo e do coque. Ajusta a
postura, os ombros, o olhar, e utiliza a marra para entrar no personagem de
galã que conquista todas as pessoas que o conhecem de primeira.
Seguro a vontade de gargalhar no fundo da garganta e me mantenho centrada
na personagem.
— Vamos lá, primeiro de tudo, você precisa compreender o cenário.
Céus...
— Ok — digo. — Cenário. Mostre o que você tem.
— De algum jeito, vou estar em um local apertado com ela.
Tipo um depósito ou um banheiro como este.
— Então... — faço outra pausa, pigarreando. — Você pretende levar a Lilian
para um banheiro?
— Não, um local apertado.
— E acha que a Lilian vai entrar em um local desses com você?
— Na minha imaginação de tática infalível? Sim.
— Deus... — sibilo. — Não faz sentido.
— Só entra na brincadeira, Ária. Caramba!
Rio baixinho, concordando.
— Só para saber, eu sou a Lilian? Porque seria estranho interpretar a minha
própria irmã, isso é muito “Game of Thrones” da nossa parte.
— Meu Deus, não! — reclama. — Você é... uma garota. Nem você, e nem
sua irmã. Apenas uma garota!
— Mas você quer conquistar a Lil...
— Ária! — Me interrompe. — Entra na personagem!
— Foi mal — peço, rindo muito. — Só quis encher o teu saco.
Nós levamos bons minutos para entender todo o nosso simples roteiro:
somos duas pessoas em um lugar apertado que vão, eventualmente, flertar.
Ok. Posso lidar com isso.
— Eu e essa garota vamos conversar muito, até que eu começo a me
aproximar dela — narra, avançando um passo na minha direção. —
Primeiro, vou apenas concordar com o rosto com tudo o que ela me falar, e
depois, avanço mais um.
Vini, educadamente, me encurrala na pia, sustentando o olhar nos meus,
fixado em um assunto que não estamos debatendo de verdade.
— Vou segurar a mão dela — continua, encontrando os meus dedos nos
seus. — E apenas ficar quieto.
Sua barriga tensiona a minha, me mantendo presa entre ele e a pia, ainda
bem seca e inutilizada. Subo as íris para encontrarem as suas, surpresa pela
sobriedade dele. O castanho de seu olhar apagou, e meu amigo está mais
sério do que nunca.
— Vou acariciar a pele... — emenda, acalentando a minha bochecha na sua
mão. — E subir o queixo.
Tudo o que conta, Vini faz, seguindo um script muito bem elucidado.
— Provavelmente ela vai continuar a falar, então vou seguir a minha mão da
bochecha para a nuca.
O trajeto lento e arrastado é tentador o suficiente para me fazer a minha
mente calar pelos instantes que se seguem. Ao menos, ele sabe o que está
fazendo.
— Vou me aproximar assim... — Vini destrói os últimos centímetros que nos
separam de um possível abraço. — E esperar.
— Esperar?
Odeio como minha voz está rouca, mas limpo a garganta a tempo.
— Esperar que seja da vontade dela meus próximos toques — esclarece. —
E é?
Confirmo para entender toda a cena.
Com a mão vaga, seu calor pesa na minha cintura, abraçando-me.
— E aí eu vou dizer... que quero te foder devagar. Dizer que você é a única
para quem tenho olhos.
Pisco, estática. Seu toque ainda se mantém destemido e resistente, e preciso
entrar em um personagem certeiro no flerte, porque ainda estou perdida na
minha motivação aqui. Todos os meus bons anos de teatro serviram para
muito.
— Vou dizer que estou cansado de ficar sozinho em casa — continua, sólido.
— E que costumava ter uma garota por dia, mas quero que você fique
comigo — acrescenta, umedecendo os lábios e descendo lentamente o olhar
para minha boca. — E não precisamos nos abster de tudo, amor.
Quando cai na tentativa de buscar um beijo da minha personagem, Vini e eu
paramos na metade do caminho — porque é lógico que não nos beijaremos,
estando em uma encenação ou não.
Somos profissionais até em um teste de tática.
— E então? — pergunta, saindo de todo o clima de romance e sexo,
esperando uma resposta agradável. — Infalível?
Levo o braço até meu busto, incerta.
— Você estava citando uma música?
— Uma música?
Ele sai de perto de mim, coçando os olhos e soltando o cabelo do coque. Os
cachos recaem ao redor de seu rosto, emoldurando sua confusão. Sigo-o até
chegarmos no quarto central da suíte.
— É, uma música — repito. — Se parece muito com “Lost in Fire”, do The
Weeknd.
Vini ri baixo, escondendo o rosto de mim, ao se aproximar da cama de casal.
— É, talvez seja dele.
— Sua tática infalível é ser o The Weeknd?
— Funcionou?
— Vini! — Jogo um travesseiro nele, ouvindo sua gargalhada preencher o
quarto. — Claro que não! — Jogo outro. — A menos que diga que todos os
direitos de imagem e som são dele. Até lá, pense em algo mais criativo e
sincero que isso!
— Qual é, Ária. — Se protege dos travesseiros que não param de voar nele,
encolhendo-se. — O cara não vai vir aqui me cobrar. E
eu nem tô gravando as músicas dele, tô usando como oficina de estudo!
— Inacreditável. — Seguro firme outro travesseiro, abraçando-o e desistindo
de jogar em Vini. — Você ia mesmo me conquistar à base de uma música!
— Ia?
— Não vem ao caso! — Ameaço com o próximo travesseiro.
Mas, todavia, espero um segundo para ouvir sua defesa.
— Você bem que me beijaria que eu vi! — acusa, pronto para correr de mim.
É com a frase que tenho certeza que é melhor dar continuidade para o meu
dia — que ainda não acabou —, então ataco, aos risos, o último travesseiro
da cama. Vini interpreta cair ao chão, fingindo ter sido atingido em cheio,
ressaltando o quão má e hostil eu sou.
Sem lhe dar importância, me enfio no banheiro.
Chega de experimentos e flertes.
Chega.
É melhor seguir no improviso.
TURMA BADALADA EM SP!
O que queremos ver?
Nosso grupinho favorito na balada, aproveitando ao máximo o que podem.
E, é claro, que haja fofocas frescas para nós ao final de tudo.
Postado por MinutoGossip
24
“Há um presente em cima da cama Abra-o por mim Surpreenda-se Por
favor, finalmente sorria.”
Especial Como Você — Canção de Liz Salles Estou começando a me
aproximar dos males de uma vida tão exposta e assistida, um passo meu é
facilmente criptografado em seguida. Mas vou ignorá-los — a imprensa e a
mídia — enquanto estiver em São Paulo. É uma decisão que tomo descendo
as escadas da casa Plume, determinada a ter uma boa noite sem sair nas
manchetes do MinutoGossip.
— Vocês vão pra onde?
É a primeira vez que vejo Natália e o prefeito Batista relaxando; não tem
comício, assistentes ou fotógrafos particulares, apenas os dois tomando um
pouco de vinho tinto, juntos à mesa, em uma das diversas salas espalhadas
pela residência.
Hoje, li em um site que o prefeito esqueceu de prestar contas sobre alguns
piscinões inacabados na minha cidade. É um dos poucos projetos que
realmente funciona, ainda que esteja disponibilizado em diferentes focos de
São Palomane.
— Vamos sair com a Rafa — Clarissa responde, guardando o celular em
uma bolsa de mão. — E só.
— Hoje? — Natália se apruma na cadeira, surpresa. — Logo hoje?
— Qual é o problema? — Clarissa respira fundo.
— Hoje foi um dia cheio, Rissa. — Natália faz um breve drama. —
Viajamos, estivemos na casa dos Keller, ainda teve a minha campanha. Fica
aqui comigo — sugere, bem sentimental. — Vini também... e claro, a Ária.
Vamos tomar um vinho!
O prefeito sacode uma taça vazia na nossa direção, como se nos seduzisse
para não sairmos hoje à noite.
— Não, mãe. — Clarissa desconversa. — Já prometemos pra Rafa, né?
Ela busca aprovação em mim e no irmão.
— Fica tranquila, dona Nat. — Vini se aproxima dela, beijando o rosto da
mãe. — A gente vai estar com a Rafa, nada pode acontecer. Não é como se
fôssemos chapar geral, ela tá grávida, afinal.
— Ela só quer os filhos presentes. — Batista se intromete, sorrindo de lado.
Os olhos entreabertos revelam a embriaguez. — Não podemos passar um
tempo com os nossos herdeiros?
— Hoje não. — Vini também beija a bochecha do pai. — Talvez no final de
semana.
Vinícius indica a porta, pronto para ir, porém a modelo pede um instante,
voltando-se para os mais, mas se concentrando na mãe.
— Mãe... — Clarissa sopra. — Por que quer ficar conosco hoje? Tem algum
motivo?
Natália, que ainda desfere carícias no dorso da mão de Vinícius, apenas nega
com o queixo.
— Nada em especial, meu bem. — Sorri. — Apenas uma mãe com saudade
das crias.
— Entendi. — Arrumando a postura, a herdeira olha para mim, sinalizando a
saída. — Então, vamos. Não quero me atrasar!
— Eu quero tanto, tanto beber! — Rafa lamenta, dando uma espiada
exagerada na minha bebida.
É Cantinho Azul, uma das poucas seleções que não me fizeram vomitar nas
últimas vezes em que bebi. Vini serve Corote, enquanto Bruno ajuda o resto
de nós com shots de Catuaba.
— Nós bebemos por você — diz Diana, ao meu lado. A garota usa uma
camiseta larga e vermelha que a faz ficar cada vez mais parecida com a
Mônica. — E se eu fosse você, faria o Bruno não beber também. Se você
não pode, ele não pode!
— Acho justo! — Me envolvo na conversa, brindando o meu copo com o de
Diana. — Além do mais, você não fez a Júlia sozinha.
Rafa dá uma conferida rápida na barriga de fora e dá de ombros, se
contentando com sua bebida sem álcool feita de frutas e refrigerante.
O quarto de hotel em que estamos está um pouco bagunçado pelas
embalagens de bebida, cerveja e comidinhas práticas que os anfitriões
ofereceram. Pessoas comuns oferecem sua própria casa; pessoas ricas, donas
do PIB do país, reservam quartos de hotéis luxuosos para não serem
incomodados.
Aliás, isso é amplamente visível. Na roda de conversa em que participamos,
Diana logo começa a falar sobre o último filme que assistiu em um cinema
de Paris com entusiasmo, ao ponto que Rafa lhe recomenda pontos turísticos
na Cidade Luz com tanta naturalidade e descontração, que percebo que é a
minha deixa para me abstrair do diálogo.
Não entendo nada disso.
De viagens internacionais, no caso.
Sozinha, checo o quarto como um todo; um garoto silencioso de piercing na
sobrancelha está sentado ao lado de Lilian num sofá.
Os dois não conversam, mas parecem se entender. Diana disse que está doida
para beijá-lo o quanto antes, e que uma pessoa que não diz muita coisa é seu
tipo favorito de paquera.
Na varanda, enfrentando o frio do lado da cidade, Clarissa recebe um abraço
apertado de Majuri, tendo Vinícius por perto, tirando uma foto das duas.
Paparicando-a mais do que tudo. Quando Majuri solta a herdeira, é a vez de
Vini acolher a irmã nos braços, tirando-a do chão e rodando-a um pouco.
— E você, Ária? — Diana me traz de volta à realidade, tocando seu braço
desnudo no meu. — Gosta da França?
Tento enxergar um tom cômico na pergunta, algo que me dê uma boa
percepção de estão zombando de mim ou não. Mas pela forma que Rafa me
fita com as sobrancelhas erguidas, espera-se que eu diga a minha opinião.
— Nunca viajei para fora do país — confidencio e aproveito para assistir
seus rostos assumindo expressões diferentes, relembrando exatamente quem
sou.
Se a música pode nos unir, outros milhares de pautas nos separarão.
— Ah — dizem em conjunto.
— É.
— Mas se fosse, para onde seria? — Rafa tenta consertar a situação. Ao
menos se esforça.
— Hm... Grécia, talvez.
— Já fui! — Diana fala alto, como se gabaritasse uma prova.
— Umas... três vez... enfim... — Ao perceber o que diz, a baixista se
contém. — Você vai gostar. Eu gostei bastante quando fui!
— Estamos falando da Grécia? — Bruno retorna, pousando a garrafa de
Catuaba em cima da mesa mais próxima e abraçando Rafa de lado. — Não
gostei muito.
— Nunca fui — sibilo.
— Ah. — Bruno crispa a boca, pigarreando. — É legal, Ária.
Os gregos festejam como ninguém! A noite nunca acaba e de manhã é
apenas uma pausa, porque à tarde, as festas em iates dominam o
cronograma!
— Também nunca estive em um iate — comento.
Não que eu me sinta coagida a me retrair, mas embora todos sejam muito
legais e receptivos, ainda há um abismo de realidade entre nós que aos
poucos vai se mostrando presente. O estilo old-money de suas famílias é
inegável e, talvez, o meu arco de new-money seja evidente demais.
As bebidas que estamos tomando são baratas, porém boas.
Fico pensando se, por ventura, esses riquinhos gostam de brincar de classe
média baixa. Não que eles não possam beber o que quiserem, porém é de se
pensar, porque não estou encontrando vodcas caríssimas ou tequilas
importadas por perto.
Vai saber. Enfim.
— No próximo verão... — Bruno começa, pisando em ovos. — Podemos
tirar férias juntos, né?
É uma boa tentativa, e reconheço que não há nada de desconfortável em ser
convidada pela primeira vez a viajar ao lado de amigos. Contudo, é como se
tivessem colocado uma barreira de pautas na roda. Algumas podemos falar
livremente, outras são completamente dispensáveis.
— Parece bom! — Abro um sorriso amarelado e seguro o copo com as duas
mãos. — Vou lá pra fora — aviso, sem graça.
— Beleza! — concordam, juntos.
E, talvez, estejam um pouco aliviados.
Cruzando o quarto reservado, reparo na finalização da decoração, um estilo
de doer os olhos por ser tão clássico e antigo. É
como estar dentro de um boticário dos anos 20.
Passo por Lilian, que monopoliza o ouvido do cara misterioso — e, sendo
franca, ele não parece se importar.
Na varanda, encontro Vini sozinho, mexendo no celular e editando sua foto
com a irmã. Clarissa e Majuri estão conversando no quarto, dobrando as
roupinhas de bebê que demos de presente para Rafa e Bruno.
— Ei. — Toco seu ombro. — Valeu pelos presentes — falo. — A minha
blusa e a roupinha, tinha esquecido de comprar.
— De boa. — Vini sorri e pisca, voltando para a edição da foto. — A Rafa
gosta de uma loja específica, então quando passei lá, pensei em trazer
presentes extras para garantir.
Presentes extras, uau.
Normalmente compro um e fim de papo.
O segundo presente que me refiro é o top feito de lã sueca que estou usando.
É de uma grife iniciante e feito à mão. Quando estava me arrumando, hoje
mais cedo para vir para cá, Vinícius me presenteou com a peça de roupa. É
bem lindinha e jovial, e combina com o casaco corta-vento que visto por
cima.
E, para finalizar, antes que eu passasse em uma farmácia e estourasse o
limite do meu cartão de crédito comprando um pacote de fraldas, Vini me
alertou de que havia tomado a liberdade de comprar uma lembrancinha para
a bebê por mim. Não faço ideia do que comprou, mas suspeito que seja um
macacão de recém-nascido.
— Assim vou ficar mal-acostumada, V — falo, me apoiando no gradil da
varanda ao seu lado, ombro com ombro. — Me fala quanto custou o
macacão, pelo menos. Eu pago.
— Sério, A, fica de boa. Nem foi tão caro assim, comprei apenas porque já
estava na loja.
— Eu sei, é que...
Engulo em seco, sentindo o gosto amargo e ácido do Cantinho Azul me
encher de desconforto. Tanto pela situação, quanto pelo fato de não ter pago
nada ou contribuído para o chá de bebê.
— O quê? — Vini termina de editar a foto com a irmã e trava o celular,
deslizando-o pelo bolso da calça. — Já disse, foi um favor.
Sei lá...
— E quanto ao top?
— Ficou bom em você.
— Não, não é isso. — Me livro da bebida, deixando-a no parapeito do
gradil. — Por que me deu esse presente?
— Eu sou antenado na moda, gata. Pensei que você fosse gostar, a marca é
meio street, nova no mercado. O tipo de peça que uma garota como você,
gostaria — responde, suave. — As pessoas andam de olho em você, Ária.
— Sim, eu sei... enfim... — Coço a minha testa, levando alguns fios de
cabelo junto. — Valeu pelo presente, sério.
— Não precisa agradecer — repete, reforçando.
Penso em dizer algo a mais, talvez perguntar se quer um presente também,
mas desisto. Em especial porque Majuri vem vindo.
— Vini? — Majuri reaparece da porta do quarto, chamando-o.
— Quer tomar uns shots? Vamos virar a noite aqui.
— Dois shots e pronto — negocia. — Tô dirigindo.
— E qual é a vantagem de se ter um motorista se não pode usá-lo? — Majuri
cruza os braços, suspendendo uma sobrancelha.
— No feriadão? — Vini recua. — Todo mundo precisa descansar.
— Sim, verdade — concorda apenas por concordar, ansiosa para beber ao
lado de Vini. — Então, vem, que comprei mais bebida.
— Beleza. — Ele se anima, batendo uma palma. — Você vem?
Os dois me encaram com expectativa, mas apenas sacudo o meu rosto em
negativa.
— Não, valeu — gesticulo. — E daqui a pouco tô indo embora, preciso
comparecer em um compromisso de família.
Nem Majuri e nem Vinícius insistem na minha companhia — e agradeço
demais por isso. Especialmente porque ambos parecem ansiosos para
beberem o resto da noite. Vinícius se despede de mim com um beijo na
lateral do rosto e saltita na direção da guitarrista, muito animado.
Sozinha, com a noite sem estrelas de uma São Paulo abaixo de dez graus, me
acomodo ali, observando a vida passar na avenida cheia lá embaixo.
— Oi.
Clarissa cumprimenta, marchando até mim. Tranquila, acaba por imitar a
minha pose e rebaixa o olhar para as calçadas cheias de pessoas que passam
em zigue-zague.
— Oi — murmuro de volta.
— Tá gostando daqui?
Talvez essa seja a primeira vez que estou vendo Clarissa com roupas que
realmente compõem seu estilo. Calça jeans de lavagem escura, coque alto,
deixando os fios lisos e metade cacheados pela transição em evidência,
pouca maquiagem e uma camiseta larga, por cima de uma blusa gola alta
branca e coturnos nos pés Ainda não sei dizer. Seu estilo pode transitar entre
vários, na realidade.
— Gostar não é bem a palavra, sei lá. Tá estranho.
— Tipo?
— Eles começaram a falar da França e eu sequer coloquei meus pés lá.
Clarissa ri pelo nariz.
— Imaginei — ressalta. — Às vezes eles falam demais, se...
eu pudesse falar um defeito dos meus amigos, seria esse.
— Não, relaxa. Vocês não precisam se sentir mal porque não visitei a França
ou a Grécia, só... — Escolho muito bem as minhas palavras. Reúno-as em
fileiras na minha mente. — Só ter noção que isso não é tão fácil assim para
as outras pessoas.
— Sim, claro — admite. — Tem razão.
Não há deboche na frase, o que me traz um pouquinho de calmaria.
— Eu vou indo, tá? — Me desvencilho do gradil e arrumo o meu cabelo com
os dedos. — Tenho que visitar a filial do clube!
A inauguração foi semana passada, e meus tios conseguiram montar um
Instagram com um design de verdade que atraísse os paulistanos. Funcionou,
a casa musical bateu a gloriosa marca de mais de cento e cinquenta pessoas
em uma só noite.
Quero festejar e estar ao lado da minha família como antigamente, e talvez
esta seja a noite perfeita para isso.
— Já? — resmunga.
— Tente disfarçar que não sente a minha falta, Rissa.
— Tô falando sério — insiste. — Tá cedo.
— Tô... sem paciência. Nada pessoal, mas... enfim.
Aceno de dois dedos na sua direção, mas Clarissa murmura um “espera” alto
o bastante para interromper a minha caminhada.
— Posso ir com você?
— Quer ir comigo? — repito.
— A Rafa vai entender — promete. — Nós sempre estamos dando presentes
pra Baby J, não é novidade nenhuma isso aqui. É
só um motivo para a Diana encher a cara e todos nós falarmos mal dos
nossos pais. Cansativo, resumidamente. Hoje quero fazer algo diferente.
— Essa foi a coisa mais patricinha que você já me disse — zombo. — Baby
J?
— Hein, Ária! — Me cutuca, rindo alto. — Posso ir com você?
Clarissa no Clube 148 é algo que eu pagaria para ver. Ainda bem que é de
graça.
— Pode — confirmo. — Mas não espere nada parecido com isso aqui... eu
sei que você esteve uma vez lá em São Palomane, mas não é nada chique,
não.
— Ótimo — profere. — Não quero nada disso mesmo.
Fico parada à sua frente como uma otária, tentando captar alguma armadilha
na sua fala, mas não há nada para decifrar aqui. É
como diria a minha amada Cyndi Lauper, duas garotas só querem se divertir.
25
“Me diga o que você vê É um combinado, nosso acordo secreto Eu vejo você
E só isso o que quero.”
Chegue Mais Perto — Canção de Liz Salles A cor que meus pais
escolheram para a filial é verde, o que resultou no abandono total do estilo
pin-up. Há verde em toda a parte; mesas, cadeiras, guardanapos, palco, bar e
luzes neon. Em tons diferentes, sim. Mas ainda com muito verde para se
assemelhar à uma selva, talvez?
Chegar com Clarissa ao Clube 148 foi bem legal, nós pedimos um táxi que
nos reconheceu de pronto e pediu uma foto para neta.
De resto, não disse nada. Igual às pessoas na fila do lado de fora.
Havia me esquecido como os paulistanos gostam de cuidar da própria vida.
— Ária!
O grito por cima da música estridente só é fácil de escutar porque um
pequeno ser de luz se projeta para de trás do balcão de bebidas sem álcool.
— Sua irmã? — Clarissa pergunta, chegando bem perto de mim. Como o
ambiente está mais cheio que o normal, é fácil se perder.
— Prima — respondo, já me agachando e abrindo os braços.
Valen choca-se contra o meu corpo, feliz em me ver. Tudo nela brilha com o
êxtase de estar em casa e ao lado dos pais. Seu sorriso, que antes era um
pouco difícil de conquistar, agora é frouxo e leve. Suas bochechas andam
coradas por cima da pele negra, e seus orbes não param de faiscar.
Senti saudade da minha melhor amiga em potencial.
— Como você anda, tampinha? — Levanto-me, abraçando-a de novo. —
Sentiu a minha falta ou já posso ir embora?
— Não vá! — pede, desesperada. — Senti sua falta, é claro.
Valentina escaneia o meu rosto, realizada em estarmos juntas de novo. Em
uma época não muito distante, fomos melhores amigas.
De relance e para checar, suas íris repassam em Clarissa, e um vinco fraco se
forma no centro de sua testa.
— Valen — chamo. — Esta é a Clarissa.
— Oi... Valentina, né? — Clarissa abre um sorriso muito educado, mas nada
falso ou mecânico. — Tudo bem?
— Oi — canta minha prima. — Tudo. Você vai ficar?
— Devo ficar?
— Sim. — Valen sorri. — Mas hoje é noite... tema... tema...
— Temática — emendo por ela.
— O que é isso? — Clarissa indaga.
— O nome já diz — rebato. — Mas todo o dia é dia de festa no Clube 148.
Dia do herói, do rock, do pop... e pelo visto... — Dou uma geral nos clientes
que passam por nós. Grandes figuras com barbas e chapéus pontudos. — É
Noite dos Vikings.
Até aquele momento, não havia notado as próprias roupas de Valen. É tão
costumeiro andarmos por aí fantasiados que não consigo assemelhar mais
nada.
— Noite dos Vikings?! — A herdeira brada, surpresa.
— Noite dos Vikings! — Meu pai aparece da multidão, trazendo dois
chapéus com chifres tortos e mantos de pele de cordeiro. Quero dizer,
mantos que se parecem com pele de cordeiro.
— Demorou, hein, Superestrela!
— Superestrela? — Ouço minha convidada questionar.
Mas não a respondo, porque abraço meu pai, já pegando um chapéu para
mim. Ele me ajuda com o manto e fico idêntica à Valentina. Uma digna
viking — ou quase.
— E temos uma convidada! — Reinaldo sobe as sobrancelhas, oferecendo
um chapéu para Clarissa. — Se está aqui, tem que entrar de cabeça no tema.
Ela demora alguns bons segundos encarando as peças temáticas com o
semblante perdido, com uma certa tensão de indecisão que logo vai embora,
pois não se opõe. Pelo contrário, coloca os chifres por cima do coque e veste
o manto sozinha.
— Obrigada — diz. — A Ária me convidou, espero que não se importe,
senhor.
— Senhor? — Meu pai franze o cenho, perdido. — Não estou vendo
nenhum senhor aqui. Sou um cara tão jovem, descolado...
— Se fosse, não usaria a palavra “descolado”, pai.
— Tem razão, Superestrela, tem razão! — Ele retorna para perto de mim,
abraçando-me pelos ombros. — Você viu como está a casa? Lotada. Tem fila
de espera e não para de chegar gente!
Sorrio fraco, porque estou ocupada demais sentindo toda a felicidade que
meu pai transmite com a expressão corporal. Não parou um segundo desde
que chegou, presumo. É como ver uma criança em uma loja de presentes,
não sabe o que fazer primeiro de tanta animação.
— Enfim, vou ajudar seu tio com as bebidas — informa, com ainda mais
energia. — E Clarissa — emenda. — Sinta-se em casa.
Toda amiga da Ária é nossa amiga também. Certo, Valen?
— Certo!
A herdeira sorri com certa timidez, mas agradece com um aceno de cabeça.
— Vem. — Seguro seu pulso. — Vamos pegar uma mesa!
Valen abre caminho entre as pessoas que continuam em pé, e não para de
tagarelar sobre a nova escola, onde pôde reencontrar antigos amigos. Está
matriculada na aulinha de futebol do bairro e anda praticando inglês aos
finais de semana.
Tem um quarto novo e decorado do jeito que tanto sonhou e não dorme mais
debaixo da mesa do DJ. Ela nos conduz até uma mesa vazia com o símbolo
de RESERVADO, joga a placa fora e dá alguns toquinhos na madeira.
Me acomodo ali, satisfeita pela visão do bar.
— A Lili vem? — questiona. Por cima dos ombros de Valen, vejo a minha
mãe sacudindo a mão ao me cumprimentar. — Ou...?
— Vem — garanto. — Só que mais tarde.
— Tudo bem.
E com um salto, Valentina desaparece, nos deixando sozinhas. É a minha
chance de observar Clarissa; os olhos preocupados, inseguros e o corpo
contraído.
— Só relaxa, ok? — aconselho. — Ninguém vai te morder. E é noite dos
Vikings, haja como um.
— Não quero ir até Valhalla, mas pode ser!
— Assim que se fala!
— Shots da casa!
Minha mãe aparece com uma bandeja de pequenos copinhos pegando fogo,
do lado contrário do qual Valen sumiu. As labaredas azuis das bebidas fazem
Clarissa rir, surpresa.
— Eu ia mesmo pedir isso — falo. — Valeu, mãe. Leu a minha mente!
— Temos uma convidada especial — Bete informa. — Seja bem-vinda,
Clarissa. Espero que goste. A ala do karaokê ainda vai abrir.
— Eu... eu... com certeza vou gostar, obrigada.
— Então aproveitem os shots. — Mamãe sorri. — E
Superestrela? — Se refere a mim. — O de sempre?
— O de sempre. — Pisco. — Vou fazer a Clarissa entender o que é a raiz do
clube.
— Boa pedida!
De novo sozinhas, Clarissa junta as mãos no colo.
— Por que seus pais te chamam de Superestrela?
— Beba um shot comigo e eu te respondo. — Faço a minha oferta,
esperando o fogo do shot apagar. Ouço-a proferir um “justo” e se apossar de
um. Contamos até três, com os olhos uma na outra e, ao final da contagem,
viramos com tudo. É vodca com melado de cereja, e desce rasgando. —
Bom... — Pigarreio alto, dando pequenos socos entre o vale do meu peito.
— É um apelido carinhoso. Sempre quis aparecer nos teatros e me enfiava
em todo curso artístico que encontrava. Então meus pais começaram a me
chamar assim.
— E você gosta? — continua. — De ser chamada assim?
— Sim. — Distribuo outros shots para nós. São seis ao total, três para cada.
— Por quê?
— Não é...
— Não é?
— Não sei como explicar direito, mas não te enche de pressão?
— Não. — Batuco os dedos na mesa. — É o que eu sou. Uma Superestrela.
E os meus pais reconhecem isso.
Clarissa assente devagar, levando a minha resposta para o fundo de sua
mente para poder refletir. Estalo os dedos perto de seu rosto, lembrando-a da
bebida. Recomeçamos a contagem e entornamos de uma vez só, fazendo as
mesmas caretas. Dessa vez, reconheço que é vodca com melado de banana.
— Quando... quando eu vim aqui... quer dizer, quando eu apareci no clube
da nossa cidade, você estava fantasiada de alguma coisa, porque tinha
muitos Batman’s por lá.
Abro um sorriso.
— Ah, sim. Era Noite do Herói — relembro. — Eu estava fantasiada de MJ
Jones, sabe? Homem-Aranha do Tom Holland, coisa e tal — conto. — Me
falaram que não era uma fantasia de verdade, mas eu discordo.
— Eu também! — Sorri. Está começando a se soltar. — E
você deve ter se perguntando o porquê de eu estar lá.
— Até que sim, uma garota famosa de capuz não é muito comum lá em casa.
A garota ri, frouxo.
— Eu queria ter conversado com você, mas não consegui pensar em nada.
Então desisti e fui embora.
— E por que desistiu?
Clarissa abre a boca para me responder, mas para combinar com o assunto,
desiste.
— Vamos beber o último shot e eu te respondo — propõe.
Sorrio, aprovando a ideia, e puxo um copinho para mim.
Refazemos a contagem, dessa vez, no número cinco. Viramos ao mesmo
tempo, quase morrendo pela queimação intensa que atinge a minha garganta.
Esse é vodca com melado, de limão e talvez seja a combinação mais mortal
do mundo.
— Já pode me responder.
— Olha, vou ser sincera — diz, colocando a mão em cima da mesa. —
Desde o dia que te conheci, você me intimida pra caralho, Ária.
A minha réplica é interrompida pela abertura do karaokê, um momento em
que meu pai monopoliza todos do bar para vê-lo cantar uma longa
apresentação de “Macho Man”. É uma tradição da família e todos — repito
todos — precisam parar o que estão fazendo para assisti-lo. Inclusive os
funcionários.
Reinaldo repassa as regras do karaokê e libera o microfone para o primeiro
corajoso da noite; um homem gringo, que canta “Garota de Ipanema”, com o
sotaque carregado e tudo. Talvez seja alemão.
— Ok, seu pai também é uma Superestrela! — Ainda de olhos arregalados,
Clarissa não para de aplaudir a apresentação de Reinaldo. — Todo mundo na
sua família é artista?
— Todos — enfatizo. — Todos sabem cantar, dançar, tocar ou atuar. A Lili
detesta, porque prefere ser a chata burocrática, mas como você bem sabe, é a
mestre do piano — acrescento.
Impressionada, vejo-a sacudir a cabeça. — E voltando ao assunto, porque
não esqueci dele. Como assim eu te intimido?
— Bom, eu cheguei no gabinete do meu pai, desesperada para que você
entendesse o meu lado e você... disse não.
— Ninguém nunca havia te dito um não?
— Já, com certeza. Já ouvi muitos “não”, mas não apenas isso. Você criou
um desafio e montou um teatro bem consolidado em poucos segundos. Nem
ao menos pude reagir e... — Clarissa faz uma pausa, respirando fundo. Vê-la
usando chifres e um manto é mais engraçado do que consigo descrever. —
Você faz isso sempre.
— Montar um teatro?
— Também. — Faz uma careta. — Sei lá. Você é falante...
não cala a boca um segundo. É agitada, espontânea e todas as pessoas riem
das suas piadas, e elas são... péssimas. Você é escandalosa e barulhenta. E
ainda ronca!
— Eu não ronco!
— Já dormi uma noite ao lado do seu quarto e posso dizer que ronca, sim!
— Espera aí... então, todas as vezes que te procurei na mansão, você estava
lá?
— Isso mesmo. Fugindo de você.
Não tenho resposta para isso, porque me concentro em aplaudir seu
desempenho em não nos esbarrarmos.
— Mas... se você tá aqui, quer dizer que gosta de mim?
— Quer dizer que eu te tolero.
— Nada disso! — Intensifico a minha fala. — Você gosta de mim tanto
quanto eu gosto de você.
A herdeira quase engasga.
— Você... gosta de mim?
— Não me pergunte o motivo porque não sei. — Dou de ombros. — Mas é,
acho que sim.
— Podemos dizer que... aprendi a me acostumar com você.
— Sei — confirmo. — Aprendeu tanto que saiu de um chá de bebê para
passar um tempo comigo. Sozinhas.
À menção ao chá de bebê faz o sorrisinho sagaz de Clarissa desaparecer aos
poucos, retraindo-se de novo.
— Que foi? — investigo. — Tá se sentindo mal?
— Não, não. Mantenho a minha palavra ao dizer que a Rafa não vai se
importar.
— E então?
— É complicado, Ária.
— É, já percebi, mas temos tempo.
— Tempo?
— É. Eu tenho tempo para você.
O poder das palavras lhe atinge aos pouquinhos, fazendo seu corpo reagir ao
que eu digo.
— Ainda...
— Clarissa, você passou o dia estranha, mais que o normal...
— falo, impaciente. Mas não quero ser rude com a herdeira. — As pessoas
ficaram te abraçando e tirando fotos e nem me contaram o motivo. Você
ficou chateada quando a sua mãe te convidou para tomar um vinho e... — Às
minhas palavras, Clarissa volta a se encolher, um pouco envergonhada, e
talvez desejando fugir de mim.
— E depois, quando perguntou se tinha um motivo especial para bebermos
vinho e ela negou, você ficou estressada.
— Irritada — corrige. — Fiquei irritada.
— E depois. — A ignoro de pronto. — O Vinícius ficou editando uma foto
sua e... — Paro de falar, abrindo a boca com certo drama teatral. Finalmente
entendo tudo de uma vez. As fotos, as frases, a comoção do pessoal.
Entendo! — Hoje é o seu aniversário!
Como não percebi isso antes? Estava tão óbvio!
A modelo revira os olhos.
— Bingo — ironiza.
— E seus pais esqueceram.
— Como sempre.
— E você não gosta de comemorar.
— Como gostaria? — revida, agora sim ficando estressada. — Não tem
motivo. É só mais um dia no ano.
— E a Rafa inventou um chá de bebê apenas para reunir todo mundo.
— Acertou.
— Vamos comemorar! — grito, erguendo os braços.
— Tá vendo? — retruca. — Por isso não te disse nada, você não para quieta
e vai querer transformar esse dia em algo mágico.
— É algo mágico, Clarissa! — defendo-me. — Você tá fazendo... hum...
quantos anos você tá fazendo, mesmo?
— Vinte e um.
— Vinte um! — berro de novo. — É um marco. E se estivéssemos nos
Estados Unidos você estaria atingindo a maioridade.
— Mas estamos no Brasil, fofa. Então, aqui é apenas um número.
— Não, não é. Nós vamos comemorar seu aniversário... numa Noite Viking.
— Ária, pelo amor de Deus... — resmunga baixo.
— Vamos lá.
Me levanto, parando ao seu lado e estendendo a minha mão.
Clarissa olha de mim para o palco vazio, assustada. É a nossa chance de
pegar os microfones se quisermos cantar algo.
— Ah, não. Nem pensar!
— Você quer ir de bom grado ou vou precisar anunciar seu nome para o bar
todo ouvir? — ameaço. — É uma escolha simples.
— É muito mico.
— Clarissa, quando aprender que ninguém se importa com você, sua vida
vai ficar mais leve. — Me aproximo dela, sussurrando ao lhe contar um
segredo. — Tá todo mundo vestido de viking, bebendo desde as quatro horas
da tarde. Acha mesmo que vão ligar para duas garotas cantando? Estamos
num bar musical, é isso o que as pessoas vêm fazer aqui. Cantar e se divertir.
Ela hesita, sei que sim, pensa em desistir, fugir ou fingir que este convite
jamais aconteceu, mas faz algo legal ao segurar a minha mão e se deixar ser
conduzida ao palco. Antes de seguir, Clarissa para de andar por um
momento, pedindo calma. Solta a minha mão e retorna para mesa, abrindo
sua bolsa. De lá, retira sua câmera de polaroid, entregando para um garçom
aleatório que nos passa coragem para seguir em frente.
É meigo o jeito que volta a segurar a minha mão, bem mais decidida a cantar
comigo.
Dou uma breve corrida para chegar primeiro, já que duas mulheres tinham a
mesma intenção que nós. E, ao chegarmos ao palco, as duas precisam recuar.
A escolha da música quase faz Clarissa surtar, mas pela compreensão que
traça seu rosto, ela confirma que conhece a canção.
Os acordes amenos de “Finally Free”, de Madison Reyes e Charles
Gillespie, pontilham o entendimento das caixas de som, espalhando o
momento calmo às pessoas que nos assistem.
— Eu começo — sussurro. — Depois você entra quando se sentir à vontade.
Iniciar é fácil, ninguém realmente se importa com o que você faz em um
karaokê. Pode parecer que sim, ainda mais quando o palco é unificado.
Porém, é a mais pura mentira que inventaram para fazer as pessoas
acreditarem que pagariam um mico aqui em cima.
Pode até ser um momento vergonhoso, mas ninguém lembrará de você ao
final da noite. Ninguém.
Você pode começar devagar ou simplesmente apenas passar apoio para a
pessoa ao seu lado, mas a verdade é que é impossível não cantar. É
contagiante.
Movida a este pensamento é que encarno no papel de Madison Reyes muito
bem, não soltando a mão de Clarissa para lhe passar força. Nossos dedos não
estão entrelaçados, apenas palmas coladas respeitosamente.
Na primeira parte da música canto sozinha, praticamente.
Clarissa utiliza de seu tempo para fazer uma segunda voz, ainda sem
coragem de encarar o público. No segundo refrão é que tenta pular, ao meu
lado. Um pouco mais destemida.
Não tem mais jeito; as pessoas já nos viram, já estão nos assistindo e querem
que fiquemos até o fim da performance.
Vejo em seus olhos que escolhe se entregar à canção, enfim.
É a letra de duas pessoas que fazem parte uma da outra, que estão livres
depois de tanto, tanto tempo, que não conseguem mais suportar a distância.
Fictícia ou não, é convincente.
Clarissa aperta sua mão na minha quando percebe que sua voz já
complementa a melodia, sem fazer muitos esforços. É um timbre afinado,
mas não de uma pessoa que canta. O que, para falar a verdade, não tem
problema nenhum.
Parte de mim fica orgulhosa por estar se soltando; a outra, anestesiada pela
sensação de seu toque na minha pele. Bem ali, na frente de todo mundo, sem
me soltar de jeito nenhum.
Até sacudo seu braço, tentando dançar, para testar sua autoconfiança. É
possível que esteja tão perto de mim porque tenha se esquecido de me
repelir. Todavia, até balançando-se para todos os lados, brilhando animação
e esbanjando diversão, Clarissa sequer se importa de estar conectada a mim.
E isto, acima de tudo, é um presente bem mais sentimental para mim.
A pessoa que não está fazendo aniversário.
FELIZ ANIVERSÁRIO, CLARISSA!
Hoje, nossa modelo favorita, completa vinte e um aninhos.
Clarissa, que é a primogênita do casal Batista e Natália de La Plume, é um
dos nomes mais procurados no Google atualmente e sempre aparece por
aqui, celebrando nossas capas mais vendidas.
Toda a equipe da revista deseja um feliz aniversário a ela, que contribui
tanto para continuarmos crescendo.
E viva!
Postado por LouiseLouBrasil
26
“Não há nada aqui Para lembrar, mas já houve Eterna, breve Passageira.”
Efêmera — Canção de Liz Salles — Parabéns para você, nesta data
querida, muitas felicidades, muitos anos de vida. Clarissa! Clarissa!
Clarissa! Clarissa!
Um cupcake de baunilha com uma vela de estrela está posicionado no centro
da mesa em que estamos. O bar de vikings parou tudo o que estavam
fazendo apenas para cantarmos em homenagem a Clarissa, que sorri, pula e
bate palma sem parar.
Ela não se importa com os desconhecidos cantando a mais famosa das
músicas do mundo, nem com o outro chapéu de chifres que colocamos nela e
nem com a faixa de “Aniversariante” que meu tio encontrou nos fundos do
bar e lhe deu. Nada. Nada realmente mais importa, porque está se divertindo
de verdade.
E nem bêbada está.
— Obrigada, pessoal! — agradece, juntando as mãos no centro do busto. —
Valeu, mesmo!
Com as bochechas inchadas de tanto rir, é irreconhecível vê-la tão alegre. O
colar com o pingente em C me saúda primeiro, já que é a primeira coisa que
vejo.
Aos poucos, os demais clientes se dispersam pelo salão, desejando um “feliz
aniversário” e gritando para desejar que Clarissa tenha um fim de noite
inesquecível.
— Feliz aniversário, querida. — Minha mãe toca em suas costas. — Insisto
que sua conta seja paga pela gente, nosso presente!
— Que isso, dona Bete. — Clarissa senta-se à minha frente e arregala os
olhos, incrédula. — Não precisa, eu faço questão de pagar!
— É seu dia — meu pai insiste, abraçando a minha mãe de lado. — Quando
for na sede do clube em São Palomane a gente conversa. Por hoje, aproveite
seu novo ciclo!
Feliz demais para se conter, a herdeira assente com o rosto, fazendo todo o
corpo tremer. Nesta altura das coisas, falta pouco menos de três horas para a
meia-noite.
— Então, obrigada de novo! — declara, contente.
— Apareça mais vezes, Clarissa — meu pai pede, todo sorridente. — E
Superestrela. — Volta-se para mim. — Não durma tarde!
É apenas uma brincadeira interna. Na nossa família, nós aproveitamos o
último segundo de casa aniversário, até as badaladas do relógio anunciarem
o próximo dia.
Realizados, eles se distanciam de nós, prontos para dançarem muito na pista
de dança.
Clarissa está cheia de hambúrguer, porque comeu dois.
Bebeu alguns drinques e cantou três músicas comigo. De “Finally Free”
fomos para “Jolene”, numa deplorável tentativa de imitar a Miley Cyrus em
um de seus covers mais icônicos, mas finalizamos com “Wannabe”, das
Spice Girls.
— E agora? — pergunta com a boca cheia de bolo de baunilha, há farelos
que recaem do canto de sua boca. — O Vini não apareceu até agora e eu
ainda tô cheia de energia.
— É. — Cruzo meus braços lentamente. — Parece que eu tinha razão em
alguma coisa. Aniversários podem ser mágicos.
— Em só uma — ressalta. — Mas... A Noite dos Vikings é bem legal.
— A minha favorita é a Noite do Pop ou Ícones Brasileiros.
Uma vez, meu pai se fantasiou de Grávida de Taubaté.
— É, eu preciso ver isso com os meus próprios olhos.
Estou suada de tanto dançar e pular; Clarissa está abraçada com um ursinho
roxo que ganhou na máquina de caça-pelúcia da entrada. Já temos uma dúzia
de fotos em polaroids para sua coleção, inclusive uma nossa cantando e
berrando. Já comeu e bebeu tudo o que tinha direito.
Clarissa escreve atrás da polaroid.
“Clarissa. Ária. O mundo musical todo dentro da foto.”
E aquele detalhe no “O” na letra cursiva retorna.
— Por que você escreve o O desse jeito? — questiono. — Puxando o traço
dele até embaixo?
— Eu gosto assim.
— Parece um Q.
— Parece um O.
— Parece um Q.
— Definitivamente parece um O — reafirma. — E eu acho fofo. Enfim, o
que podemos fazer para preencher estas três últimas horas? — quer saber,
ansiosa. — Se não quiser, já podemos ir embora...
— Não, não. Acho que sei o que podemos fazer — conto, enigmática. —
Mas você precisa confiar em mim.
Engolindo o último pedaço de bolo de forma demorada, Clarissa meneia o
rosto.
— Em outros dias, resumidamente em dias normais, isso seria uma péssima
ideia. — Faz uma pausa, preocupada. — Mas como se faz vinte e um anos
apenas uma vez na vida... vamos lá.
Há uma joia de prata em seu septo, bem recente pela colocação feita com
perfeição. No auge do bairro da Vila Madalena, Clarissa e eu estamos
caminhando de volta para o metrô. Ela, com um piercing novo no nariz, e eu,
com um na sobrancelha.
É um adereço tão sexy, que não sei como não fiz isso antes.
— Doeu muito! — reclama, seguindo os meus passos até a pequena subida
até o metrô. — Não deveria ter aceitado sua sugestão!
Depois de comer e dizer aos meus pais que sairíamos, Clarissa vetou
qualquer possibilidade de terminarmos a noite numa balada, mas aceitou a
alternativa de fazermos um piercing. A primeira sugestão foi uma flash-
tattoo, mas disse que teria que pensar melhor caso um dia decidisse marcar
seu corpo para sempre.
Um brinco foi a melhor pedida, já que com o piercing no septo pode
empurrar a joia para dentro quando quiser esconder de alguém.
Leia-se seus pais.
E como os meus são liberais e já tiveram todos os piercings do mundo na
juventude, não serão hipócritas ao ponto de querer mandar em mim. Não
quando fiquei tão bonita com um piercing na sobrancelha.
— Ah, Clarissa, você não reclamou quando o bodypiercing passou o telefone
dele para você.
Falo, girando nos calcanhares ao chegarmos na entrada luminosa do Metrô
Vila Madalena.
— E por que reclamaria? — Abraçada ao urso, a herdeira suspende o
queixo. — Ele era um gato!
— Era mesmo. — Reconheço com os olhos levemente arregalados. Começo
a pensar nele, um cara de cabelo colorido, cheio de tatuagens e brincos
brilhantes. — Acha que ele tem um piercing lá embaixo?
— Com certeza — declara sem pensar muito. — Deve ser um charme.
— Deve mesmo. — Enfio as mãos dentro do bolso do casaco.
— Me fala — pede. — Como você conheceu ele?
— Conheci quem?
Clarissa faz uma pausa, ao pigarrear.
— O bodypiercing... o nome dele é Lucas.
— Ah... quem disse que o conheço? — Entorto a boca. — Nunca vi antes na
vida.
— Ária! — Em tom de censura, seus olhos arregalam-se de pavor. — Tá
falando sério? Você me levou para fazer um piercing em um lugar que não
conhece? Com um cara que nunca viu na vida?
Aprecio seus segundos de pavor, porque são ótimos. Então, mais relaxada,
sorrio.
— Não, tô brincando! — garanto, rindo alto. — O Lucas estudou comigo,
fez o meu primeiro brinco na orelha usando maçã e gelo.
— Pelo amor de Deus, me fala que isso também é brincadeira.
— Bem que eu gostaria.
Clarissa ainda mantém a expressão desolada em seu rosto, procurando
respostas na minha tranquilidade.
— Enfim, seguinte — chamo. — Quer finalizar a noite no centro de
feirinhas? Vai até às duas da manhã e sempre tem música por lá.
Aponto a entrada do metrô, com um fluxo acelerado de pessoas ansiosas
para curtir o começo do feriado prolongado. Há uma barraquinha de pipoca
pontilhando o ar com o aroma chamativo que remete aos cinemas.
— Eu... não sei... hum... pensei em usar o presente que o Vinícius me deu.
— Que é...?
— Bem... — Limpa a garganta. — O dia do meu aniversário é sempre
caótico lá em casa, porque meus pais lembram da data do nada. Sei lá,
alguém da assessoria deles deve falar algo. — Clarissa faz uma pausa,
avançando um passo. — Nesta altura, a prefeitura palomaniense já deve ter
soltado uma nota de imprensa me desejando os parabéns e é sempre...
deprimente ficar perto deles nessa data, sabe?
— Imagino — sibilo, fraco.
— Não tem como imaginar, porque seus pais são incríveis — completa,
ficando desconfortável. — Enfim, nessas datas prefiro chegar apenas no dia
seguinte e me fingir de besta. Há quatro anos, Vinícius me dá este presente.
É uma reserva no meu hotel favorito durante uma noite. Eu costumo ficar
sozinha, não convido ninguém.
Como todo o sorvete do frigobar e fico assistindo ao meu filme favorito.
— Sim...?
Dividindo o peso entre os pés, a herdeira tem dificuldade em seguir falando
o que pensa.
— O hotel fica não muito longe daqui, podemos pegar o metrô e...
— Sim? — insisto, ainda não entendendo. — O que você quer?
— Ária, puta que pariu — resmunga, alto. — Você já entendeu que estou te
convidando para vir comigo!
— Está? — Finjo-me de desentendida. — Porque você poderia chamar o
bodypiercing para ir com você, parece mais promissor.
— Sim, sexo com um desconhecido é divino — responde, sagaz. — Mas não
é com ele que quero passar meu aniversário, ok?
— E é comigo?!
— Na verdade, eu gostaria muito de passar o meu tempo com o Tyler James
Williams, mas ele detesta o Brasil desde que enchemos o Instagram dele de
spam, então... Você serve!
— Me sinto lisonjeada! — Coloco a mão no meu peito. — Ária Campos tem
lá seu valor. — Faço-a rir, bem mais divertida do que quando a noite
começou. — Tudo bem, eu aceito, mas... as minhas roupas ficaram na sua
casa daqui, então...
— O Vini sempre manda roupa extra para mim, relaxa. Vamos!
Pegando a dianteira no nosso passeio, Clarissa acelera o passo para entrar no
metrô ao lado de seu ursinho favorito.
Quando disse que estaria em um hotel, não pensei que acabaríamos no mais
caro que existe em São Paulo. O Le Vie, em uma das avenidas mais
movimentadas do Ibirapuera, nos recebeu com certa desconfiança, mas
quando nos reconheceram, relembraram da reserva feita por Vinícius de La
Plume.
Nos conduziram até a suíte presidencial e nos avisaram que o café da manhã
seria servido às nove e meia em ponto, uma cortesia ao aniversário de
Clarissa.
O quarto, que mais parece um apartamento, é dividido em três polos, com
duas camas, sofá, uma sacada sensacional com vista para o Parque do
Ibirapuera, champanhe em baldes de gelo, morangos cobertos com chocolate
e roupões para cada uma.
Tomamos banho — separadas — e colocamos os roupões, ainda com os
cabelos úmidos. Cada uma pegou uma taça e começamos a beber desde
então, sentadas no chão da sacada com gradil feito de vidro. A cidade inteira
é iluminada por estrelas terrestres, luzes presas em prédios e arranha-céus.
— Se você gosta tanto de festas, você comemora todos os seus aniversários,
Ária?
Deixando a taça de champanhe de lado, Clarissa serve-se com os morangos
cobertos de chocolate.
— Todos, sem exceção — conto, já rindo. — Eu amo fazer aniversário e
saber que tem um dia reservado apenas para mim.
— Sua cara — define. — Não pensaria nada ao contrário de você.
— Não deveria — falo com propriedade. — Na minha casa, a gente faz os
nossos aniversários se tornarem semanas e até meses festivos. É de se
celebrar!
— Você faz parecer bom — confessa. — Envelhecer é assustador, na real.
— É, mas eu comemoro que sobrevivi e penso que ganhamos uma
oportunidade ao girar da Terra. É papo de hippie, talvez, porque os meus
pais são assim e me criaram assim.
— Meus pais sempre esqueceram o meu aniversário, se você quer saber. —
Ela faz uma pausa, mastigando. — Esquecem do Vinícius também, mas o
dele é um pouco mais fácil de lembrar porque envolve campanhas
publicitárias e descontos na marca da mamãe, então... eles acabam
monetizando tudo.
— É por isso que você não gosta de fazer festa? — pergunto.
— Pelo seus pais?
— Basicamente, sim — concorda. — Eles não são muito bons demonstrando
sentimentos, e acho que... depois de tanto criticá-los, acabei ficando igual. O
que, para mim, é um verdadeiro pesadelo.
— Você não é igual a eles, Clarissa.
— Mais do que pensa. — Dá de ombros. — Não consigo fazer as pessoas
ficarem perto de mim por mais que eu queira, não sei dizer quando gosto de
alguém e acho que meias palavras servem para me expressar. Então, sim,
acho que sou igual aos dois.
— E sempre foi assim?
— Piorou quando voltei do meu intercâmbio e caí na real.
— Eles estavam bebendo sangue fresco? — Arregalo os olhos. — É por isso
que caiu na real? Descobriu que o prefeito Batista é um vampiro?
Indignada, ao menos a herdeira ri de mim.
— Céus, não! — pontua. — Seria legal se fosse essa alternativa, eu... —
Segura um morango pela metade. — Nós deveríamos beber depois de fazer
um piercing?
— Não, mas agora já era — gesticulo. — Prossiga.
— Ah, sim, então... — Coloca toda a fruta na boca. — Se eles fossem
vampiros eu iria me divertir. Mas caí na real, porque percebi que eles não
mudariam, e que eu só estava de volta para fazermos o papel de família
perfeita e feliz de novo.
— Só para você... é difícil?
— Deve ser pro Vini também, mas finge melhor do que eu — declara. —
Vini acredita que no fundo os nossos pais se importam, mas eu penso que é
mentira. Depois que meu pai conseguiu a prefeitura e a mamãe o prestígio de
uma marca reconhecida, não penso que temos espaço para nada além das
aparências.
Não respondo nada, porque levo a reflexão para o coração.
Jamais pensei que os Plume fossem perfeitos, mas ao menos imaginava que
havia certa sintonia e harmonia que as demais pessoas, como eu, não teriam
tão cedo. Quando, na verdade, são uma família quebrada.
— Inclusive, você é a primeira amiga que o Vini tem em anos.
— Ele também é meu primeiro amigo em anos... — conto. — A Valentina,
aquela prima que você conheceu hoje, era a minha companhia suprema de
uns tempos.
— E o que aconteceu?
— Eu a libertei — resumo. Clarissa meneia o rosto, sem entender. — Como
era a minha única amiga, percebi que colocava uma carga dramática em
cima das costas dela. Queria que estivesse sempre disponível e que me
entendesse. O que era complicado, afinal, ela tem apenas dez anos. Decidi
que era hora de entender meu posto como amiga e que jamais poderia
transformá-la em uma pessoa que eu queria por perto. Não seria justo com a
Valen.
— Não, não seria. — Suspira, firme. — Mas é bom que tenha reconhecido
isso, Ária. Isso já vale... — Com sutileza, sorri. — E
agora você tem o meu irmão. Vini gosta de você... e fico feliz que goste dele
também.
Rio sem esboçar algum som.
— Finalmente entendeu que não ando trepando com ele?
— Só estava checando — confessa. — Não queria que se magoasse.
— Ele ou eu?
— Os dois — proclama. — Quando morávamos aqui e somente aqui, nós
tínhamos amizade com quase todas as crianças filhas dos amigos dos nossos
pais. Com o tempo era legal e leve, mas no final, todas se mostravam uns
babacas racistas pra caramba.
Seja de um jeito violento ou de uma maneira que eles tentavam esconder...
foi terrível. Vini sofreu mais, é claro. No final restou nós, Diana, Majuri e
Rafa.
— Que otários.
— Sim, eles são. Mas eles acreditam que estão certos, então... — Ela me
oferece um morango, mas recuso com um acenar.
— Enfim, fico feliz que são amigos.
— Eu também. E falo sério. — Retiro minha atenção do parque para encará-
la. — Sua mãe, ao menos, parece interessada em te ter por perto.
— Não caia na lábia da minha mãe, Ária!
— Sério. Ela me disse que você gosta de música clássica e que seu filme
favorito é “Operação Cupido”.
A modelo ri da minha breve ingenuidade e cruza as pernas em posição de
ioga, virando-se para mim.
— Ouvia música clássica porque fiz ballet por mais de seis anos, hoje em dia
detesto. Porque me lembro dos sons das sapatilhas quebrando em contato
com o piso. — Finge ter calafrios.
— Enfim... eu amo todos os filmes da Lindsay Lohan, mas depois de uns
anos, meu filme favorito se tornou “Mulherzinhas”, e não mais “Operação
Cupido.”
— Então...?
— Ela deve ter reparado que estou bem distante, então deve ter te dado as
informações que tinha antigamente sobre mim. Nas minhas contas, as
instruções que ela te passou, Ária, estão cinco ou seis anos atrasadas.
— É por isso que ela quis que eu virasse sua amiga.
— Exato — confirma. — Tanto para saber quem sou hoje em dia, quanto
para saber o que eu faço no meu tempo livre. Em resumo, saber da Era de
Heras, o que ela nunca, nunca pode saber!
— Então, seu desespero quando me conheceu era por isso?
— E também porque pensei que você era uma babaca interesseira que ia
ficar na minha cola sendo paga para atazanar a minha vida. E no fim... —
Clarissa me analisa. — Eu tinha razão.
— Quase, não estou sendo paga. — Ergo o dedo anelar. — Se estivesse, te
suportar seria mais fácil. Porém... — prolongo a frase. — Quero saber como
compartilhou o meu vídeo.
Clarissa revira os olhos, levemente envergonhada.
— Eu estava bebendo com os amigos do Bruno e, apesar dele ser legal, o
resto deles não é — começa. — Mas eu queria afogar os meus sentimentos
sobre os meus pais, então usei a bebida e fui uma pessoa mimada durante
uma noite. Nós fizemos um jogo de desafio e eu aceitei. Como não queria
beijar nenhum deles, escolheram algo que sabiam que movimentaria a minha
vida e as minhas redes sociais. No dia seguinte, eu tinha encontrado o mais
novo talento da cidade e arranjado uma dor de cabeça enorme.
— Espero que a dor de cabeça seja pela bebida que ingeriu.
— Sim.
— Então, eu tinha razão — reparo, séria. — Você realmente ficou brincando
com a vida de outra pessoa enquanto se divertia.
— Sim — reconhece, o nó formando-se na garganta. — Não sou muito
diferente deles também.
— Sabe... não tem graça ser uma chacota, Clarissa.
— Você não é. Não tem outro jeito de falar, mas fico feliz que tenha... sabe,
dado resultado. Você não mereceria passar por nada se fosse o contrário. —
Ela se aproxima. — Me desculpe, Ária. E
estou falando sério, isso não vai mais se repetir.
— Espero que não mesmo. — Crispo a boca. — Espero que nem ao menos
pense em fazer algo parecido. É mexer demais com a vida de uma pessoa, é
virar uma situação de ponta cabeça. Vindo para bem ou não. É quase cruel.
— Eu sei — fala, suave. — Me desculpe. Não tem o que eu fazer a não ser
pedir desculpa.
— Bom... obrigada. — Oscilo as costas. — É bom ouvir isso.
— Me recosto na parede. — Mas saiba que não vou a lugar algum.
Agora que você inventou isso de me fazer famosa, que aguente!
Clarissa concorda com o queixo, ao rir e fungar pelo sereno da noite.
— Também não quero que você vá a lugar algum, Ária.
— E não vou — prometo. — Preciso fazer seus pais torrarem o máximo de
grana comigo. Espero que, de algum jeito, eu te vingue.
Seus olhos castanhos ganham uma cor desejável de interesse e seus lábios
esticam-se, devagar.
— Tá falando sério?
— Seríssimo — entoo. — Esse é o meu plano, ser uma interesseira de marca
maior agora.
— Agora estamos falando a mesma língua, garota. — Clarissa anima-se. —
Se quer usurpar os meus pais, tem total o meu apoio.
— Um brinde — proponho. — Ao império que degustarei até enjoar.
— Ao império que degustará até enjoar! — repete, levantando sua taça para
colidir de fraco com a minha.
Após o brinde, nós bebericamos, muito mais unidas do que antes. Ao
repousarmos as taças de volta ao chão, o relógio de Clarissa apita em um
alarme fraco.
— Meia-noite — diz, calma.
— Feliz não-aniversário, Clarissa.
Ela pisca as pálpebras, emocionada.
Não sei ao certo qual foi o seu melhor aniversário — com certeza aquele que
teve a Hunter Schafer e a Ludmilla —, mas sinto que posso ter alcançado
uma posição no ranking. Contudo, está emocionada por ter rido, gostado
tanto de ter passado um tempo
sem preocupações, que conseguiu fazer um dia péssimo transformar-se em
uma Noite de Vikings.
— Obrigada, Ária.
A modelo abre os braços e nós nos aconchegamos em um abraço de amigas.
Isso mesmo, por enquanto não vou ultrapassar a trégua. Não quando a
pessoa que detestava reviver um dia tão legal decide finalmente dar uma
chance à sua data única na vida.
E, como amigas, mantemos o abraço firme e forte, até enjoarmos e
decidirmos assistir “Monte Carlo” antes de dormir.
CLARISSA E ÁRIA NA NOITE PAULISTANA!
O flagra é ouro para nossos olhos!
Duas das mais novas amigas perfeitinhas da atualidade cantando e
dançando para curtirem o aniversário da herdeira Plume.
Nós da redação desejamos um feliz aniversário para Clarissa!
Postado por MinutoGossip
27.01
“Garota, você tem me tem Cada parte minha é sua Reivindique-me, tenha-
me, possua-me.”
Brilho por Você — Canção de Liz Salles — Que diabos é isso na sua
sobrancelha?
Mantenho a postura, esperando o prefeito Batista terminar de cumprimentar
seus convidados especiais para o jantar de hoje, sem mover um único
músculo.
— É um piercing — falo, reunindo as mãos para trás do corpo.
— Um piercing? — Natália pergunta. As íris levemente esbugalhadas e os
dedos tremendo ao contornar uma taça de espumante revelam seu choque
inicial. — E ele sempre esteve aí?
Na sua sobrancelha, Ária?
Hoje pela manhã, acordei de um ótimo jeito; me deparando com Clarissa
logo pela manhã, penteando os cabelos molhados pós-banho e me
convidando para tomar um delicioso café com vista para o Parque do
Ibirapuera. Me entupi tanto de croissants de frango que nem ao menos
almocei.
Quando voltamos para a casa dos Plume de São Paulo, os pais dela nem ao
menos perceberam que havíamos passado a noite fora. Estavam ocupados
com os preparativos do jantar que daria boas-vindas ao feriadão.
— Sim. — Faço um breve teatrinho ao mentir. — Sempre tive piercing na
sobrancelha, Natália. Nunca reparou?
A primeira-dama recua o rosto alguns centímetros, pensativa.
— Não, eu... não. Nunca havia notado que você tinha... bom, isso aí —
responde, visivelmente em choque. — Não que seja um problema, você fica
bonita com tudo o que usa, Ária.
— Valeu — agradeço, erguendo os ombros. — Acho que combina tanto com
o meu rosto, que você nem deve ter notado, né?
Até parece que eu o fiz ontem!
— É. — Ri, ainda nervosa. — Até parece que fez ontem!
— Mas não fiz.
Natália assente com a cabeça, perdida nos próprios pensamentos, tentando
reconhecer se seus sentidos fizeram ou não um bom trabalho em remover
memórias recentes.
— Enfim, meu bem. — Ao sacudir a cabeça, a empresária move-se para
ficar ao meu lado. De onde estou, consigo ver a sala de jantar como um todo,
de olho em todos os convidados enquanto passam pelo protocolo oficial ao
lado do prefeito. — Eu vi que vocês passaram muito tempo juntas. Gostou
das meninas, né?
— Sim, são bem legais.
— E que você... chegou com a Rissa hoje de manhã.
À menção do nome da ex-aniversariante, encontro-a pelo salão, ao lado de
Lilian, sussurrando alguma piadinha maldosa sobre a decoração do jantar. O
que funciona, porque minha irmã solta risinhos na direção dela, cúmplice.
Clarissa usa um vestido idêntico ao meu; de flores verde-água, com mangas
estilo babados e um decote em meia-lua que dá ênfase aos nossos pescoços
longos. Há muitos fotógrafos por perto, então seu piercing no septo foi
empurrado delicadamente para dentro do nariz.
Acordamos de bom humor, viemos de metrô até aqui, cantamos músicas
antigas aos berros enquanto pulávamos na cama e posso dizer com todas as
palavras que estamos nos dando bem. É
por este brilhante motivo que não digo a Natália que ontem era aniversário
da herdeira.
Se eu ainda pensasse em destruí-la, ao ponto de exterminar com as poucas
alegrias do seu dia, faria Natália entender de uma vez por todas que foi uma
mãe desnaturada. Ela, então, faria um grande drama na vida de Clarissa e eu
me sentiria vingada de alguma forma.
Só que hoje, visando nossa trégua, ficarei em total silêncio.
Ela que repare quando for tarde demais.
— Sim — vibro. — Acho que somos finalmente amigas.
Mesmo fazendo a minha irmã rir do outro lado do salão, Clarissa encontra o
meu olhar por alguns instantes, o bastante para trocarmos um sorriso
sugestivo.
— Acha?
— Ainda não tenho certeza — comento baixo, virando meu rosto na sua
direção. — Sua filha é cheia de mistérios.
— Continue tentando! — Me incentiva, me dando tapinhas nas costas. —
Ela é uma pessoa sensacional!
Não tenho chance de responder, porque o prefeito chama a atenção de todos,
com uma colher e uma taça de vidro.
— Hora de comer! — anuncia, aos risos. — Senão todos vão pensar que os
chamei aqui apenas para conversar.
Não é uma boa piada — e Batista sabe disso —, mas as explosões de risadas
e aplausos são desproporcionais.
Natália sorri para mim.
— Vamos, Ária — anima-se.
Sigo-a, dando passos pequenos logo atrás da empresária, que é conduzida
para a cabeceira da longa mesa para comportar tantos convidados. Meu lugar
é demarcado com uma placa dourada que indica que sentarei ao lado de Vini
e de frente para Clarissa.
Estão todos aqui. Inclusive Majuri e o resto da banda. Ela, a pedido da mãe,
entoa uma paleta de cores realmente muito festiva, que continua a frisar sua
pele marrom-escura e seu nariz acentuado.
Já Rafa é a única que usa calça jeans e camiseta. A pele negra brilhando pelo
glitter de ontem à noite, ainda.
E Diana repicou ainda mais o cabelo e aposto que foi, necessariamente, em
seu banheiro.
— Não te vi ontem, no clube — digo, sentando-me ao lado direito de Vini.
— Chegamos depois da meia-noite — responde, sorrindo para mim. Vini é
uma das pessoas mais bonitas do jantar, dentro de um blazer esportivo cinza-
cigarro, deixando o cabelo grande e cheio, solto. — Ficamos na Rafa,
bebendo e curtindo um pouco. Lilian é uma boa companhia.
— Por que as pessoas falam dela assim? — pergunto, contorcendo o rosto.
— Até parece que é uma pessoa diferente.
— Talvez seja — sugere. — Longe de você.
— É. Talvez.
O caçula Plume aproxima-se um pouco de mim, usando a mão fechada em
concha para encobrir a nossa conversa.
— Se vocês sumiram ontem, posso imaginar que você tenha descoberto
sobre o aniversário dela.
— Sim — cochicho de volta. — Nós... comemoramos do nosso jeito, mas
não teve tática infalível ou The Weeknd.
— Que pena — lamenta. — Mas, se serve de consolo, também não teve
nada de The Weeknd para mim.
— Foi tão ruim assim?
— Não! — Arregala os olhos, apressado. — Foi bem legal.
Lilian e eu cantamos quase todo o álbum da Clarice Falcão no karaokê e a
sua mãe me deu dois drinques de graça.
— E depois?
— Depois eu conheci o namorado dela.
— O namorado de quem?
— Da Lilian.
— Como assim? — Olho de Vini para a minha irmã que, por sorte, está
ocupada demais conversando com Diana para notar que estamos falando
dela. — A Lili não tem namorado.
— Tem, sim — Vini reforça. — Pelo menos, tem há cinco meses. Se chama
Caio e faz faculdade na Torritieli Torres também. O
cara é bem legal e ficamos os três bêbados e cantando todas as músicas
possíveis até o bar fechar.
— Tá falando sério?
— Sim.
— Eu... não... eu não fazia ideia de que a Lilian tinha namorado, Vinícius, se
eu soubesse...
— Relaxa — pondera. — Tô ligado que você não sabe muita coisa sobre ela.
— Bom, sim. — Me encolho um pouco. — E depois?
— Depois eu bebi tanto que não sei como acordei em um sofá, mas acordei.
Uma menininha ficou me encarando o tempo todo enquanto eu dormia e
disse que se chamava Valentina.
Abro um sorriso.
— É... É A Valen... ela é incrível.
— Sua família me acolheu demais, Ária. — Sorri, mostrando todos os
dentes. — Falaram para eu aparecer quando eu quisesse.
— E é verdade, você é bem-vindo!
Apoio a minha cabeça em seu ombro, suspirando ao ver que Vinícius e
Clarissa gostaram da minha família. Os dois, que são bem reservados e
tímidos quando querem, ao menos encontraram pessoas tão bacanas quanto
nós, os Campos, para passar o tempo.
— E o seu — questiona. — Teve alguma tática?
— Sem tática para mim também — evidencio. — Nós...
apenas conversamos.
— Ficaram juntas até de manhã... e conversaram?
— Exatamente. — Ajeito os ombros, sendo pragmática. — Acredite ou não.
— Nem sei se devo...
— Deve! — Toco sua bochecha. — Porque quando acontecer... e se
acontecer... hum... pularei na cama com você. Vou dançar por uns três dias
seguidos.
— Pularemos na cama, então — combina, piscando para mim.
Vini abaixa o tom de voz, porque seu pai aproxima-se da própria cadeira. —
É uma boa forma de comemorarmos.
— Todos sentados? — O prefeito indaga, de forma retórica.
Ele está muito bem vestido, em especial, porque passou o dia relaxando
quando deveria ter participado de um congresso sobre contenção de
inundações. — Então, vamos comer! Bon-appétit!
E ele consegue mais risadas.
O buffet é servido para cada um de nós. O prato principal é francês, de nome
difícil demais para eu saber pronunciar, mas é uma combinação de carne,
molho tártaro e batata-frita.
Passo a maior parte do tempo brincando de lutinha com Vini; beliscando sua
barriga, dando peteleco no seu pescoço e recebendo chutes dele debaixo da
mesa.
Somos um pequeno ponto caótico em meio às conversas interligadas que
celebram a terça-feira.
— Ah! — Anili Mahar, a senadora e mãe de Majuri, ergue a mão, feliz em
conseguir a atenção de todos. — Feliz que estejamos juntos de novo!
— Mãe... — Majuri, próxima a mim, choraminga. — Sem discursos, por
favor!
— Que isso. — Anili franze a testa. — Não posso deixar de oferecer minhas
felicitações à Clarissa. O aniversário dela foi ontem e eu me esqueci de
desejar “parabéns”.
A mesa em si reage ao erro com risadinhas e soluços, porque a maioria deles
também esqueceu. Porém, assisto o desastre reinar em três pontos da mesa.
Em Natália, que quase engasga com a bebida ao controlar o espasmo com as
mãos. Seu rosto ganha compreensão mútua ao trocar um olhar afiado com o
marido, do outro lado da mesa. O prefeito, por sua vez, sorri amarelado para
a senadora Anili, que continua o monólogo sobre aniversários e idades.
E, é claro, Clarissa, que precisa se contentar com a atenção vidrada toda para
ela novamente. Os fotógrafos usam desse momento para salpicarem de
cliques uma situação tão desconfortável assim, mas tomara que com a edição
certa, eles façam a percepção do aniversário atrasado ser melhor e até
mesmo divertida.
— Obrigada, Anili. — A herdeira faz um gesto prático com o queixo. —
Não precisava se importar comigo, eu juro!
— Que isso, minha linda! — Anili sorri, inflando as bochechas pintadas por
blush. — Mandei fazer um bolo especialmente para você...
— Mãe! — Majuri tenta de novo.
— Hare, Majuri, calma! — pede a senadora, aos risos. — A menina não
gosta de cantar parabéns, então deixei o bolo na geladeira. — E pisca,
travessa. — Coma quando quiser!
Mais aliviada, Majuri sorri para a mãe, como quem diz “Ok, você mandou
bem agora!”.
— Novamente. — Suspira Clarissa. — Obrigada, Anili. De verdade, mas
não peça desculpa, não é apenas você que esqueceu o meu dia.
O agradecimento não é levado como uma alfinetada, mas a senadora sequer
nota a expressão dura e revestida em ferro do prefeito, que está quase
explodindo.
— Parece que foi ontem que elas brincavam por aí, né, Nat?
Não faço ideia de quem seja a mulher que faz a pergunta, mas presumo que
seja a mãe de Diana — madrasta de Bruno.
— É... — Ainda com reflexos do engasgo, a empresária não sabe o que
responder direito. — Clarissa... é... ela é... uma ótima filha, fico feliz que
mais um aniversário passou.
— E o que você ganhou de presente? — Anili questiona, inocente. — Até
ano passado, você era filha de um político em ascensão, agora é filha de um
prefeito. Muita coisa deve ter mudado!
Majuri até pensa em impedir a mãe de causar um clima tenso, mas parte da
guitarrista adora ver o circo pegar fogo, principalmente se isso significa
deixar os donos desta casa em saias justas.
— Ainda não recebi meu presente — diz Clarissa. — Mas já que todos estão
aqui, também quero saber. — Clarissa apoia o queixo nas mãos. — Pai!
Mãe! — cantarola. — Qual é o meu presente desse ano?
O prefeito limpa a garganta após molhar a língua com um longo gole de
vinho tinto.
— Se eu contar, estraga a surpresa, meu amor — sibila, entredentes de tanta
vergonha.
Ainda que nenhum dos convidados tenha reparado na gafe da Família
Plume, de algum jeito, o casal se sente intimidado.
— Conversa fraca, Batista! — a mãe de Diana dispara. — Tá todo mundo
aqui, conta pra gente!
— É, pai! — Vini incentiva. — Conta pra gente.
Um trovão intenso, bravo e desgovernado faz os vidros da sala inteira
estremecer. Os flashes das câmeras também não param.
— Eu... — Natália tenta dizer algo, mas é interrompida.
— Espero que seja melhor do que no ano retrasado — a herdeira desafia.
Anili se apruma.
— Que presente foi ano retrasado? — A senadora questiona, ansiosa.
— Clarissa... — O prefeito escolhe censurá-la. É um aviso para que se
mantenha discreta.
— Sabe, Anili — Clarissa começa, sem retirar os olhos do pai.
— Teve um ano em que estava em Paris, sozinha, no auge do meu
intercâmbio. Os meus pais prometeram que faríamos uma videochamada
para jantarmos juntos...
— Clarissa, por favor — suplica o prefeito.
— Era coisa de meia-hora — diz, sem se importar com os pais que a olham
estáticos. — Vini pegou o primeiro voo para me ver e esperou a chamada
comigo. Ficamos mais de cinco horas esperando o agora prefeito Batista e a
empresária de sucesso, Natália, aparecerem. — Sorri, sem humor algum. —
E eles não apareceram, nem mandaram uma mensagem falando que não
poderiam conectar-se com a gente. — Ela estala os lábios. — Foi ali que
aprendi a não confiar neles, Anili. Nunca mais, pelo menos. Então, hum, não
faço ideia qual será o meu presente, mas pelo visto, certos hábitos jamais
mudarão, porque... eles esqueceram de novo! Mais um ano!
A mesa explode em murmúrios de choque e repreensão. Anili retrai-se na
cadeira, infeliz por ter iniciado o assunto, porém parece prestes a defender
Clarissa se assim a herdeira desejar.
— Clarissa! — o prefeito urra, incrédulo.
Um flash pipoca perto dele, o suficiente para começar a respirar fundo.
— Nós... trabalhamos muito ultimamente. — Natália tenta consertar as
coisas. — Nós... hum... enfim, nós...
— Obrigada pelo bolo, Anili — Clarissa fala alto. — É, com certeza, um dos
melhores presentes. Não graças a eles, tive um ótimo aniversário! — A
modelo levanta-se de supetão, pregando um susto nas pessoas mais perto
dela. — E se me derem licença, escolho jantar no meu quarto.
Deslizando o guardanapo de pano para a mesa e marchando em disparada
para fora do salão, Clarissa de La Plume é cercada pelos fotógrafos que
pedem uma exclusiva do momento.
Imagino que os mínimos detalhes serão pontuados em revistas e colunas de
fofoca amanhã de manhã. Se o casal Plume for azarento, hoje mesmo
saberão o que fizeram.
Ou o que deixaram de fazer.
O prefeito conversa com a esposa pelo olhar, enquanto os demais
convidados insistem em oferecer suas opiniões que não foram solicitadas.
— Deixa — informo, interrompendo Natália de se mover. — Eu vou atrás
dela.
— Ah. — Suspira, quase desfalecendo. — Obrigada, Ária! — diz, chorosa.
— Converse com ela, por favor. Ela saberá te ouvir!
Com um sinal de queixo, o prefeito também me agradece, torcendo
internamente que eu coloque juízo na cabeça da filha. Bom, Clarissa não está
errada, mas os pais pensam que sim.
Me despeço de Vini e de Lilian, colocando meu olhar em Majuri e Diana
também. Saio da sala de jantar sem correr, mas às pressas, sorrindo sem
graça para os convidados e os fotógrafos que me encaram sem querer.
Fora do salão cheio e movimentado, saio para o corredor, ao passo que vejo
Clarissa andando com força, metros adiante de mim.
Ela já está quase no final quando grito por seu nome, pedindo que me espere.
Seus passos são brutos e fortes e talvez deseje machucar o chão, para não se
sentir tão ferida.
— Ei. — Fecho a porta da sala de jantar. — Espera!
Agora eu corro, mesmo de salto, me aproximando dela quase ofegante. Não
há lágrimas no rosto da herdeira, apenas raiva e estresse fundidos em mágoa.
— Tá tudo bem? — pergunto, próxima.
Clarissa está agitada, eufórica, extremamente ressentida. Seu peito sobe e
desce, pronto para inflar e desinflar a cada pensamento horrendo que
mantém. Seu olhar quando me aproximo, no entanto, é diferente. Traz uma
paz imensa consigo, apesar do episódio desastroso.
Um pequeno surge entre seus lábios pintados e não consigo desviar do olhar
ou me distanciar. Seu único ato para recompensar a fuga mais rápida da noite
é avançar um passo decisivo, me segurar pelo rosto e me beijar.
É um beijo de finalmente. Finalmente estamos aqui, finalmente a trouxe para
perto, finalmente nossos corpos se alinharam, finalmente sua boca pode ser
tida como minha.
Bem ali no corredor, com o coração berrando todas as emoções do mundo.
27.02
Experimento me afastar primeiro, mantendo a mão no meio de seu abdômen,
firmando distância entre nós. O beijo, em si, durou pouco menos de cinco
segundos. O resfolgar de sua boca na minha não passou de uma brisa intensa
de verão. Uma mera lembrança para quem quer mais.
Nada para mim faz sentido, então busco nela alguma explicação de seu
último feito.
Confusa, Clarissa desce suas mãos, deixando-as rentes ao meu corpo. Cada
uma delas encontra as minhas com suavidade, entrelaçando-se pelas palmas
abertas. Assisto todos seus movimentos, extasiada. Sem conseguir mover os
lábios ou montar uma frase coerente.
Apenas sirvo de cobaia de seu experimento.
Apenas sinto.
Andando de costas e me conduzindo, um pouco mais centralizada nos
pensamentos, Clarissa repuxa-me corredor a dentro. Dobramos a esquina
seguinte, andando pouco menos do que seis passos até uma porta fechada —
para combinar com as dezenas de salas e quartos que jamais conhecerei
desta casa.
Clarissa, devagar, solta a minha mão para abrir a porta, entrando primeiro
em um escritório simples e discreto, com pouca decoração além bandeira da
cidade de São Paulo esticada ao lado da cabeceira da mesa principal.
— Clarissa...
Tento dizer qualquer coisa; perguntar se ela está bem, se precisa de ajuda ou
se deveríamos sair por aí enfiando mais piercings novos na cara. Se vamos
fugir para um karaokê ou falar sobre o beijo. Entretanto, a herdeira espera
que eu entre para nos trancar no escritório, sem pudor algum.
— Clarissa... — tento de novo. — Você quer alguma coisa...?
— A única coisa que eu quero, Ária — inicia, voltando-se para mim. — É
que você cale a boca e me beije!
Surpresa e interesse mesclam-se em mim, dançando em um ritmo
desenfreado. Tenho dezenas de opções a seguir, não preciso ficar aqui se não
quiser. Mas este é o ponto. Quero estar bem aqui.
Exatamente neste segundo.
Ao menos consigo sorrir antes de tomá-la em meus braços e beijá-la de
novo.
Agora não fico parada como uma estátua sem mover os lábios ou a língua e
nem deixo que dure segundos. Desejo que nosso beijo se estenda por
minutos ou horas. Dias, semanas, meses. Quem sabe?
Ao contrário do primeiro contato, sei o que fazer com os meus braços e não
preciso agir feito uma boba inexperiente. Uso todo o meu desejo trancafiado
no fundo do meu subconsciente para expressar o que almejo. Abraço-a com
força e urgência, choramingando baixinho ao finalmente sentir seus lábios
grudados nos meus.
Talvez esta vontade tenha me acompanhado lado a lado desde o momento
em que a vi tocando bateria, quando sua personalidade detestável ficou bem
mais tolerável de conviver. Ou talvez tenha sido o fato de conseguir me tirar
do sério com tanta facilidade, depositamos energia demais brigando uma
com a outra.
Sei lá.
Não é tão difícil dizer, mas estou vidrada demais em sentir a língua de
Clarissa.
Sua boca encaixa na minha depois de alguns segundos procurando uma boa
frequência, e o tecido de nossos vestidos roçam de desespero, quentes o
suficiente para me fazer delirar.
Não passei muito tempo imaginando quando seria o momento em que a
beijaria. Ontem à noite, por exemplo, daria alguns punhados de reais para
adiantar o grande acontecimento. Mas fui a pessoa que ela precisava. A ouvi,
a entendi e não terminei de magoá-la. Na real, se nos tornássemos apenas
amigas, tudo bem também. Não me importaria.
Ou não? Acabaria me importando?
É abraçada a ela, sentindo cada partezinha do seu corpo reagir a mim, que
talvez eu tenha certeza que não servimos apenas para sermos amigas. E se
formos, prometo que seremos as melhores nisso.
Avanço outro passo, a obrigando a recuar. De um a um, encosto Clarissa na
mesa. O móvel está livre de documentos, pastas ou porta-lápis, é apenas uma
mesa vazia, como se soubesse que seria usada hoje à noite.
Ela não se senta na superfície, mas usa do apoio para se estabilizar em pé,
espalmando as mãos nas minhas costas.
Clarissa solta um suspiro cansado e realizado ao mudarmos de ritmo: de
ansioso e desbravador para um lento e sedutor. Uma de minhas mãos
continua em sua nuca, abaixo do elástico preto que serve para prender seu
cabelo em um rabo de cavalo, pronta para criar pequenos focos de arrepios
na herdeira.
O beijo, infelizmente, é interrompido por outro trovão, tão feroz e potente
quanto o anterior. Nós rimos juntas após pularmos de susto. O pequeno
sobressalto me dá a ideia de garantir que continuemos trancadas. Espio a
tranca apenas para me passar mais calma e apenas prossigo quando constato
que, sim, a fechadura mantém o escritório selado ao nosso favor.
Volto-me para Clarissa.
Pelas sandálias, estou um pouquinho mais alta que ela. Uso a minha
vantagem para segurar sua nuca com força e, abruptamente, uso a outra mão
para soltar seu penteado. O cabelo dividido entre fios lisos e cacheados
moldura seu rosto, faiscando de ansiedade.
— Vai me beijar de novo ou vai ficar me olhando? — sussurra, perdida ao
declarar a frase com a voz rouca.
— Gosto de te olhar, Clarissa — digo, pousando a mão em sua cintura. —
Se não gostasse, não saberia que está tão chateada.
— Podemos falar disso depois?
— Sim, mas quero garantir que não fez isso apenas para distrair a mente —
falo, séria. — Se fez, não me importo em ser uma amiga tão boa ao ponto de
usar a boca para te distrair. — Vejo-a abaixar o rosto ao rir. — Mas ainda
assim, chateada ou não, há consequências.
Clarissa segura-me pelos ombros, brincando com os babados do vestido.
— Você me faz falar, Ária — repara. — Nada com você é fácil, apesar de ser
instigante.
— Sou uma pessoa falante — orgulho-me. — E para não errar, gosto de
saber o que as pessoas pensam. E quero saber o que você pensa. — Toco o
centro de seu busto.
— Eu te beijei, criatura irritante, porque...
— Porque...? — Abro um sorriso desproporcional de propósito.
— Porque eu gosto de você.
— Eu sei.
— E então? Por que me fez falar, cacete?
— Também gosto de palavras de afirmação.
Clarissa estala a língua no céu da boca, um pouco incrédula.
— Você é impossível — define. — Mas é essa a verdade. Não fiz isso
apenas pela adrenalina do ocorrido, fiz isso porque o momento me deu
coragem.
— E esse tal momento deu coragem de mais alguma coisa?
— Aproximo-me sorrateira, afastando seu cabelo do busto e beijando a
entrada de seu pescoço. — Ou ele é tão límpido que prefere apenas beijos?
Ela não responde, porque posso apostar que fechou os olhos lentamente,
curtindo cada beijo depositado em sua pele nua pelo decote igual ao meu. É
um pouco estranho estar vestida como a modelo, mas sei que estou fazendo
meu papel de dama de companhia muito bem: acalmando a minha princesa.
Clarissa afunda as unhas na pele de meus braços, concentrando-se para não
entregar-se às pessoas do lado de fora, onde estamos. Mas suspeito que
ninguém virá atrás de nós nem tão cedo.
— Acho que o único momento que posso ter silêncio, sem você tagarelando
mais que a língua, é aqui — solta, tranquila.
— Veremos — retruco. — Dizem que sou bem barulhenta.
— Então, faça um pequeno esforço, Ária. Não quero ser interrompida.
Clarissa de La Plume afasta-se de mim, impedindo os beijos em seu pescoço
para tomar a rédea da situação. Pisco atordoada pelos movimentos rápidos
que não soube captar antes e me impressiono por estar perto da mesa agora,
sentindo suas mãos em mim.
É a minha vez de fechar os olhos e me deixar levar. Minhas pernas e sentidos
desligam, me causando uma breve tontura de prazer em focos espalhados
pela coluna, o mesmo local onde Clarissa respalda suas unhas.
Seguindo um ciclo de vai-e-vem, os botões feitos de pérolas do meu vestido
se desfazem das casas, afrouxando-se ao redor do meu corpo. Com o
calcanhar direito, retiro a sandália do pé esquerdo, e vice e versa. Clarissa
me imita, livrando-se dos saltos.
Sorrindo uma para outra, sua mão é ágil em fazer as mangas do meu vestido
decaírem pelos ombros, dos ombros até o busto, do busto até os pés. De
calcinha e usando um sutiã sem alça, deixo Clarissa me analisar, levando o
baque do acontecimento pela primeira vez.
— Você ficou ainda mais bonita de piercing — ela me elogia, retirando seu
vestido sozinha, ansiosa demais para me sentir sem roupa. — Você deveria
colocar mais um. Talvez uma argolinha no nariz.
— O da sobrancelha não é o único piercing que eu tenho — ronrono,
repuxando as mangas de sua peça e liberando-a das roupas.
— É? — ressoa. Reparo que usa sutiã e calcinha combinando. São peças
vermelhas. Os mamilos ultrapassam a renda, duros. — E cadê o outro?
— É hoje mesmo que você vai descobrir.
Voltamos a nos beijar com muito mais calma do que o primeiro contato.
Ainda há expectativa, ainda há tesão puro nos fazendo agir sem pensar, já
que um jantar acontece não muito longe daqui, mas nada é movido à pressa.
Quero senti-la com calma, quero fazê-la gemer meu nome com calma, quero
fazê-la se lembrar de mim com toda a suavidade do mundo.
Seguro firme seu cabelo enroscado nos meus dedos, beijando-a lentamente,
sabendo que visualmente é um beijo obsceno e carregado de vulgaridade. E
isso é tão delicioso, que me animo ainda mais.
Só de saber que pulamos a etapa de voarmos no pescoço uma da outra para
voarmos no pescoço uma da outra, me deixa em êxtase total.
Clarissa impede meus movimentos, reunindo as minhas mãos atrás do meu
corpo; a herdeira espalma meus dedos na madeira da mesa, subindo os
toques até encontrar o fecho do meu sutiã e tirá-lo sem maiores dificuldades.
Meus seios, livres e pesados, a cumprimentam cara a cara.
Clarissa respira fundo, analisando o piercing no meu mamilo esquerdo,
brilhando para ela, como se a convidasse para experimentar o gelado no
toque de sua língua.
— Você não fez isso, Ária — diz, desacreditada.
— Pior que fiz. — Sorrio, segurando-a pelo queixo. — E fiz só em um,
porque doeu para caralho.
Clarissa volta a rir, passando uma mecha para trás de sua orelha. Umedece
os lábios, massageando os meus ombros ao mesmo tempo. Com cautela,
desce até o peito esquerdo, mergulhando no vale ao chupá-lo. A língua
repassa com delicadeza pelo ferro da joia, mas a boca é hábil em sugá-lo.
Seu gemido surpreso mistura-se ao meu.
Faz muito tempo que não sinto nada parecido.
Reservo todo o tempo para observá-la, é a melhor visão que eu poderia ter.
Um relâmpago ilumina a sala como o flash de uma fotografia e quase
encerramos nossa tentativa de sexo, se não fosse o momento ideal para
Clarissa deslizar um dos dedos até a minha calcinha.
— Foi a tempestade — me acalma, escorregando a peça por entre os meus
joelhos.
— Tem certeza?
— Não estou fazendo nada de mais — diz, inofensiva. — Estou?
Como a unha está um pouco grande demais, a almofada de seu dedo
contenta-se em amaciar meu clitóris. O que é uma pena, porque adoraria que
estivesse dentro de mim. A junção de seus atos me intimida, porque gostaria
de estar revidando, fazendo algo bem mais interessante do que observar e
chiar. Mas não consigo.
É tudo tão colossal e delirante, que apenas abro as minhas pernas e jogo a
minha cabeça para trás. Que ela me faça dela, não me importo.
Clarissa passa para o outro seio, livre de joias ou piercings.
Dessa vez, sinto-a melhor e consigo reverberar o meu alarde ao esticar meu
tronco e choramingar mais alto do que deveria.
Coloco a mão na boca e torço para que um trovão me acoberte.
A herdeira me mantém por perto, no centro das minhas pernas. Brinca e
belisca meu seio e desliza a língua pelo vale do meu busto. Com a umidade
nos meus peitos, Clarissa molha a pontinha do dedo na própria saliva, e o
frio da sensação mistura-se ao quente da experiência ao estimular o bico
inchado.
Me apoio nas mãos, porque temo que cairei a qualquer segundo e que as
minhas pernas já não são as minhas melhores amigas em me manter em pé
— ou sã.
Um pouco irritada, consigo retirá-la de perto de mim, apenas o suficiente
para retirar seu sutiã e sua calcinha. Finalmente nua, Clarissa retorna para
onde parou, mas, sem qualquer cerimônia, ajoelha-se, mantendo as minhas
pernas juntas em seus ombros.
Não sei se isso vai acontecer mesmo, e acredito apenas quando a herdeira
enfia seu rosto na minha virilha, salpicando beijinhos até encontrar o que
verdadeiramente quer. Seu cumprimento erótico na minha intimidade me
causa uma crise de riso desenfreado de tesão. Aquele riso desacredito,
gostoso e maravilhoso de sentir.
A reação lhe agrada, pois continua; os olhos suspensos até mim, o cabelo
bagunçado na selvageria que tanto aprendi a apreciar e os dedos firmes na
minha bunda, e a outra mão em um dos meus seios.
Não sabia que faria alguém tão poderosa cair aos meus pés, e preciso
guardar esta piadinha para dizer a ela — em um momento em que não
estiver tão ocupada quanto agora.
Uso o dorso da minha mão para limpar a minha baba. É tão alucinante que
estou com água na boca, molhada até tentar atingir um alívio que almejo que
seja para ambas.
Clarissa para de me chupar, fazendo uma breve pausa ao trilhar beijos da
parte interna até minha boca. É a brecha que uso para empurrá-la até o chão,
no carpete felpudo que nos recebe com conforto. Com os cabelos espalhados
e os seios cheios me chamando, salivo um pouco mais.
Divido o meu peso, sentando em sua virilha. Quero que sinta o quão
molhada estou, quero que saiba que cada micropartícula minha vibra por ela
e que só sairemos daqui quando encontrarmos um fim adequado para as
duas.
Abaixo meu corpo e a beijo, saboreando sua língua na minha de novo. Quase
reviro os olhos com saudade deste beijo. Logo, me divirto com seus peitos,
tão prontos para mim quanto a própria Clarissa.
Suas unhas passeiam pelas minhas costas e abraço-a, trazendo-a para mais
perto. Clarissa senta-se comigo no carpete, dobrando as pernas em posição
de ioga. Empino meu quadril, nossos peitos se acomodam, sem roçar e sem
machucar.
Esfrego-me nela, apertando os lábios com os dentes para não romper o
acordo secreto em fazer silêncio, mas uso os barulhos dos trovões e da chuva
lá fora para me aliviar sonoramente, sem perder um único foco.
Clarissa aperta-se contra mim, viciada em pressionar-se também. Rebolo
acirradamente, abaixando um pouco o rosto para beijá-la. Com os
movimentos uniformes e estratégicos, não há como nos tocarmos direito ou
fazer com que sua língua dance com a minha.
Sorrimos em conjunto, porque os toques atrapalhados ainda sabem
reconhecer o carinho e calidez um do outro.
Seus dedos dedilham um trajeto perfeito até a minha virilha, amaciando a
região, viciada em assistir a minha coreografia. Minha boceta está
umedecida e quente, abafada, implorando para que continuemos até não
aguentar mais.
E, como de fato, não aguento.
Continuo a usar o quadril e a pressionar minha intimidade até identificar
minha pele se arrepiando aos poucos e os dedos dos meus pés fecham-se,
suplicando pela euforia absurda de prazer extremo, que frisa os meus
batimentos cardíacos e me presenteiam com uma calmaria carregada de
frescor, entregando-me um ápice nada moderado.
Clarissa me assiste de camarote, sem coragem de tampar a minha boca com
a sua mão.
O suor respinga em mim e nela, mas a herdeira, nada saciada, ganha um
pouco mais de vitalidade ao passo que meu orgasmo se torna tão firme.
— Você sabe fazer música, Ária — define, me arrancando um selinho. —
Agora, mais do que nunca. Você é bem mais afinada transando.
— Não conte o meu segredo por aí, por favor.
Clarissa ri perto da minha boca, me capturando em mais um beijo tranquilo
de línguas pecaminosas se interligando. Agarro seu pescoço com os meus
braços e deixo que troque as posições.
Deitada no carpete, percebo que estou cansada. O sono começa a me atingir,
meu coração está voltando para o lugar e minhas pernas continuam moles.
É a minha vez de fixar o olhar em cada lance sexual da modelo, ansiosa para
me misturar a ela de novo. Clarissa engatinha acima de mim, subindo o
quadril e mantendo as pernas apoiadas, cada uma de um lado.
— É isso, então? — sussurro. — Você vai sentar na minha cara?
— Objeções? — zomba.
— Nenhuma.
Com cuidado, mirando certo e segurando-me pelo topo da cabeça, Clarissa
de La Plume faz o que bem entende em mim. A cavidade tórrida é um
grande convite para não sair daqui nunca mais.
Uso sua bunda para me guiar, até ouvir uma pequena reclamação de sua
parte. Ok, ok. Ela vai decidir o que quer.
Uso dedos, língua e lábios, todos os atributos necessários que a fazem surtar
um pouquinho mais, deliciosamente entregue a mim.
Não me importo se meu nome não ressoa pelo escritório, ela sabe que me
pertence. Ela sabe que cobrarei este momento como nosso segredo ou nosso
fascínio.
A cada vez que seu peito explode em choque pelo prazer, a tempestade
parece aumentar, viciada em nos assistir do lado de fora, em um pequeno
show de amostras do que somos capazes.
A dança no meu rosto se intensifica e quanto mais agoniada em buscar o
nosso enlevo, mais Clarissa derrete-se por mim. Seu sabor é eloquente e me
leva ao céu. Aperto seu quadril, forçando sua virilha cada vez mais para
baixo, pronta para me deleitar até o final.
Clarissa suplica para si mesma, apertando as coxas. Levo uma das mãos para
seus seios e inspiro com força. Cabem na minha mão com maestria e a
animação em pensar em lambê-los me atinge outra vez.
Na última fase ao clamar, o volume de seus leves grunhidos abaixa, seu
corpo perde a força. As costas, antes rígidas, ganham lacunas de pele e
dobras, e seu ímpeto final me cativa, porque a fiz ver estrelas.
Querendo ou não, precisa admitir que sim.
Clarissa se desfaz de mim, jogando-se ao meu lado no carpete. Não há som
vindo do lado de fora, apenas da água batendo contra a janela. A chuva é
violenta na cidade, mas sinto que enfrentaria dezenas de dilúvios para me
sentir assim de novo.
— Espero que tenha prometido que iria me acalmar quando veio atrás de
mim. — Se aconchega em meu peito. — Porque você acabou de cumprir.
Rio alto, não dando a mínima se seremos pegas.
28
“Do jeito que eu gosto É isso o que você é, mulher O que eu sempre quis.”
Maldosa & Venenosa — Canção de Liz Salles As pernas de Clarissa estão
juntas rente ao busto. O piercing no septo continua evidente, seus joelhos
estão escondidos pela camiseta da Lisa Simpson que usa, e os cabelos
continuam soltos, desalinhados.
Só sei que são quatro da manhã porque há um relógio na geladeira, o único
ponto de luz que ilumina a cozinha profissional da casa. A tempestade
passou e o jantar terminou sem nem ao menos ter experimentado o prato.
Comi uma porção de batatas-fritas que Vini levou ao nosso quarto quando
decidiu me procurar.
De resto, nada mais.
Exceto pelo bolo de chocolate com bastante granulado que Clarissa e eu
estamos devorando há vinte minutos, é o nosso jantar da madrugada.
— Seus pais disseram alguma coisa?
Comer em silêncio ao seu lado é um pouquinho reconfortante, mas apenas
um pouco. Além da nossa maravilhosa transa, ainda há tristeza traçando seu
rosto — e não é nada legal assistir uma herdeira se despedaçar.
— Bem... — diz, erguendo o olhar até mim. O bolo está no chão, em uma
travessa decorativa que Anili Mahar fez questão de mandar escrever
“Clarissa faz 21!” e velas de glitter rosa e roxo. — Eles foram até o meu
quarto. Meu pai exigiu que eu mandasse um e-mail para cada convidado
explicando a minha má educação.
— Tá brincando?!
— Não, não. — Faz uma careta. — Quem me dera, meus pais são experts
em fingir que o problema não são eles.
O piercing no septo está aparente, sem precisar escondê-lo de ninguém.
— E depois?
— Depois... — Clarissa levanta o olhar para mim, confusa. — Fizeram algo
ainda mais assustador.
— O quê?
— Pediram desculpa de verdade.
Pisco, estática.
— Sério?
— Sim, e me convidaram para sair no final de semana que vem. Só a gente,
a família.
— E você...?
— Eu aceitei, mas... — Ela meneia a cabeça, pensativa, segurando a colher
suja de chocolate. — Ainda tô meio baqueada, isso pode rolar ou não.
Veremos.
— Espero que dê tudo certo — falo sinceramente. — Para você, no caso.
— Pior que eu não tenho muitos problemas com eles, sabia?
— conta, rindo de forma ácida. — Eles são bons, na medida do possível,
mas toda essa desatenção me deixa tão confusa. Porque sempre foi assim.
Em apresentações de colégio, consultas de médico, reuniões escolares. E, ao
mesmo tempo que são péssimos, todas as minhas melhores lembranças
envolvem os meus pais.
Estranho, né?
— Até que sim — reconheço. — Sei lá, eles te amam, isso dá para
reconhecer.
Clarissa ri pelo nariz, afundando a colher em mais um pedaço de bolo.
— Sim — salienta. — De algum jeito.
— Mas... quais lembranças? — indago. — Se quiser falar, é claro.
— Meu pai gostava de cantar uma música quando fazíamos pipoca. E era um
ritual nosso, sempre foi! — fala, muito radiante. — Até hoje, se eu quiser
fazer pipoca e ele estiver por perto, vamos cantar a música. E a minha mãe é
ótima inventando e escrevendo histórias. Nós fazíamos muitas! A minha
favorita é sobre uma Kombi que se apaixona por um ônibus.
— Uma Kombi e um ônibus?
— Exatamente. — Ela traz os joelhos para ainda mais perto do peito e apoia
o rosto ali. — Era um romance bem fofo. E é o que consigo pensar... enfim,
talvez não tenha dado mais certo por falta de tempo.
Nós decidimos ficar em silêncio em conjunto. Apenas o som esquisito da
geladeira, o barulhinho inconfundível do relógio digital demarcando os
segundos e as nossas respirações.
— Você é bem-vinda lá em casa quando quiser — é o que escolho dizer
porque, ao menos, consigo um sorriso seu.
— Quer saber um segredo da minha família? — indaga, sonhadora.
— É um segredo que você pode me contar de boa ou terá que me matar no
final da nossa conversa?
— Definitivamente você poderá continuar viva, Ária. — Clarissa se
aproxima de mim, largando a colher, porque provavelmente está satisfeita.
— Quer ou não?
— Manda a ver.
— Meu sobrenome não é de La Plume — dispara, de uma vez. — É Palmas.
— Como é que é? — Rio, nervosa. — Sério?
— Aham — garante. Seu sorriso cresce. — Minha avó visitou a França uma
vez, e quando precisou se apresentar com o sobrenome completo, um francês
disse que parecia com a de uma família nobre, os de La Plume. Ela gostou
tanto que decidiu adotar o sobrenome bem descaradamente.
— Então... seu pai se chama Batista Palmas?
— Todo mundo na minha família se chama Palmas! — exclama, risonha. —
Inclusive eu. É Clarissa Antônia Souza de Palmas.
— Mentira!
— Juro! — profere, alto. — Confesso que o de La Plume é bem bonito, mas
fico imaginando a verdadeira família nos conhecendo e ficando bem
confusa, porque não somos descendentes de ninguém que seja francês. O
chef da minha avó era francês, mas descobrimos que apenas a mãe dele veio
do país, então...
— Seus pais acreditam demais nessa história.
— Até que sim, me fizeram prometer nunca falar disso para ninguém. Às
vezes até me esqueço que me chamo Palmas.
— Pelo menos é uma boa história — comento. — Não tenho nenhuma. Meu
sobrenome é Campos.
— Mas. — Ela ergue o dedo anelar, pontuando sua tese. — Seus pais te
chamam de Superestrela, é a melhor coisa que eu já vi.
— Olha, beleza que eu te dei um orgasmo, mas não precisa me bajular tanto.
Recebo um tapa no ombro em resposta e um olhar certeiro de indignação.
— Eu não te elogiaria nem que você me desse cinco ou seis orgasmos em
uma noite.
— Isso é um desafio?
— É um fato! — defende-se. — E para você pode ser...
comum, mas para mim é verdadeiramente muito legal saber que seus pais se
importam tanto com você, ao ponto de te darem um apelido.
— Não reclamo de barriga cheia. — Limpo ao redor da minha boca as
manchas de chocolate e granulado. — E você tem razão, meus pais são
incríveis.
Mais animada, Clarissa sorri., — E do que eles chamam a Lilian?
— Ah... de Lili.
— Não... tem apelido?
— Não, eles nunca pensaram em nada para a minha irmã.
— Ah, sim.
Até este segundo, nunca tinha parado para pensar que Lilian é apenas Lili
em casa, o que não é muito, visto que podemos apenas tirar uma sílaba para
que se torne um breve apelido. E é até preguiçoso.
— Enfim... — digo, desconfortável, sem me interessar por mais bolo. Está
pela metade, comemos muito. Ou seja, Anili arrasou na escolha. — Suas
amigas não se importam que você... não faça nada com elas? Tipo sair,
beber, sei lá...
— Elas estão acostumadas comigo. — Dá de ombros, se apoiando nas mãos.
— Não tem muito o que fazer. Na escola, elas me davam presentes e tudo,
até que começaram a barrar.
— Por quê?
— Era uma escola católica e particular, se tivesse presente para mim, deveria
ter para todas.
— Sei! Também estudei em uma.
Interessada, a herdeira se ajeita no lugar.
— É? Qual?
— Maria Santana, no centro.
— Eu também! — comemora. — Nunca te vi por lá.
— Ué, nem eu — admito. — E olha que eu me lembraria de você, um
rostinho tão enjoado como esse é difícil de esquecer.
— Você estudou lá... tipo assim, por muito tempo?
— Quase a minha vida toda.
— Ária... — Clarissa franze a testa. — Nunca te vi por lá!
— Tinha muita gente naquele lugar, e eu aposto que você estava ocupada
demais andando com as mesmas pessoas para se importar em conhecer gente
nova.
— Isso você tem razão — reconhece. — Nunca larguei a Diana.
— Então... — concordo.
— Mas... — murmura, aflita. — Não quero te ofender nem nada, bom... é
que o Colégio Maria Santana custava...
— Uma fortuna por mês? É, eu sei.
Lembro aos poucos como era ser uma estudante como as outras.
Conviver ao lado das minhas amigas enquanto eu não era bolsista foi fácil,
tínhamos o mesmo cronograma, as mesmas aulas e as mesmas distribuições
de palestras bilíngues. Depois tudo foi se complicando, até não termos mais
nada em comum.
— Nem sempre foi assim. Meus pais não tinham apenas o clube, sabe? Eles
comandavam um restaurante português no bairro de Vila Alencar também —
conto. — E na época, o restaurante tinha acabado de passar por uma
reforma, estava lindo! Mas com as enchentes e com as fraudes nas
seguradoras, perdemos nossa casa, nosso dinheiro e o restaurante teve que
ser vendido para pagar as dívidas. Até o clube sofreu. Tivemos que despedir
funcionários, viver com o que tínhamos... Minha mãe não queria me tirar da
escola. Não com tantos cursos que me fariam bem. Recorremos às bolsas, e
Lili e eu conseguimos no ano seguinte.
— Ah, Ária, desculpe, nem imaginava...
— De boa, a pergunta não me ofendeu. — Engulo em seco.
— Nunca fomos ricos, não. A gente sempre precisou trabalhar, entende? Se
deixássemos de abrir o restaurante ou o clube por cinco dias, era um
arrombo imenso nas finanças.
— E depois? — pergunta, curiosa. — Que vocês...
continuaram na escola?
— Comecei a ajudar em casa no que podia, mas só quando fiquei mais velha
que decidi concentrar todo o meu tempo no clube.
Eu varria, limpava os banheiros, cantava, comprava fantasias e montava
playlists personalizadas.
— Imagino que o clube não é o mesmo sem você.
— E não é mesmo! — Me empolgo. — Conheço quase todas as músicas de
karaokê de trás para frente! — Abro um sorriso imenso. — Mas... fico feliz
em ter voltado para a faculdade. As redes sociais me deram uma visibilidade
imensa, me fizeram crer que eu poderia ser vista até mesmo escondida.
Mudaram a vida dos meus pais e a minha. É diferente... entendo que, para
você, as redes sociais sejam uma lástima. Tipo uma tortura. Contudo, para
mim... foi uma grande chance.
Clarissa não responde. Abaixa um pouco o queixo, brincando com sua
camiseta dois ou três números maiores do que o ideal.
— Fico feliz que tenha dado certo — inicia. — Mas nunca vou agir como se
você devesse me agradecer, espero que saiba.
— Que nojo! — Fecho o sorriso, fazendo graça. — Jamais vou te agradecer,
uma coisa não tem nada a ver com a outra.
— Fico ainda mais feliz ouvindo isso! — vibra, fazendo uma breve
dancinha.
O relógio na geladeira marca quase cinco horas da manhã, ainda não falamos
sobre o que aconteceu no escritório diretamente, porém acho que não
precisa. Pelo menos, não agora.
— Acho que é melhor a gente dormir — sugiro, recolhendo o bolo do chão e
me levantando. — Pelo o que eu sei, amanhã precisamos acompanhar a
senadora Anili em uma exposição.
— Verdade. — Ergue-se também.
Clarissa me assiste guardar o bolo bem coberto na geladeira e jogar as duas
colheres no lava-louças.
— Então... isso quer dizer que somos amigas? — Coloco a mão na cintura,
perto da porta.
Estou ansiosa para fofocar com Vini o quanto antes.
— Depois de eu ter chupado os seus peitos e ter sentado na sua cara? —
questiona, cínica. — Sim, claro. Por que não ser sua amiga?
— Então, boa noite — declamo, sorrindo de lado. — Rissa.
— Deve ter transado comigo apenas para conseguir permissão de me chamar
assim.
— Sempre te chamei assim no off, transei com você porque era um grande
benefício. — Aproximo-me o suficiente para senti-la recuar um mínimo
passo. — E ainda é.
A herdeira permite que eu ganhe um beijo de boa noite, tão suave quanto a
garoa lá fora. Se estivéssemos em um romance escrito por algum poeta,
talvez nos comparecesse com chuva.
E apenas talvez estivesse certo.
FUGA NO JANTAR!
Não parece que Batista sabe o que está acontecendo na cidade, quem dirá
na própria família.
Fontes próximas afirmam que Clarissa abandonou um jantar especial às
pressas, pois afirmou que os próprios pais esqueceram de seu aniversário. É
certo que o momento foi um fiasco e as imagens, um tanto confusas, já
circulam nas redes sociais.
E você, o que acha que aconteceu?
Clima tenso por aqui!
Postado por MinutoGossip
29
“Sem enrolação, Não quero ser sua amiga, não Eu quero é mais Mais e
mais, mais e mais.”
Belo Teatro — Canção de Liz Salles O feriado foi adornado por mais
chuva.
Choveu no evento do prefeito Batista, choveu durante o almoço e choveu
quando voltamos para a casa em que estamos hospedados em São Paulo. E,
neste momento, ainda chove enquanto tenho a perna de Diana esticada por
cima das minhas.
A baixista brinca com um fiapo de linha branca que destoa em seu conjunto
de pijama perfeito. O cabelo curto e repicado tenta esconder a marca de um
chupão em seu pescoço. Se foi o cara misterioso e taciturno de segunda-
feira, parece que o encontro foi bom.
Rafa sugeriu que fizéssemos uma festa do pijama; trouxe máscaras faciais de
abacate, salgadinhos de procedências malcheirosas, chocolates, bebidinhas e
doces derivados. A grávida do grupo está contando uma fofoca fresca para
Majuri, Lilian e Clarissa, enquanto Diana me fita de perto, como se soubesse
dos meus segredos mais cavernosos.
Seus olhinhos atrevidos querem dizer “Tô ligada que você transou com a
minha melhor amiga, hein”, ao passo que respondo com o olhar “E pretendo
continuar!”.
— E não pensei em decoração alguma para o quarto da bebê!
Diana e eu paramos de conversar internamente assim que Rafa nos convida
para participar da conversa.
De relance, Diana e eu trocamos outro olhar. Há um ligeiro cuidado quanto a
Clarissa vindo de sua parte, sendo que quem merece proteção sou eu. A
herdeira facilmente me comeria viva.
— Sério? — pergunto, passando um pouco de bala de gelatina para Diana.
— E por quê?
Fora Diana e Vini, duvido que outro membro da banda saiba — ou desconfie
— que Clarissa e eu estamos mais unidas do que nunca. Depois de noite
passada, realmente mais unidas do que nunca.
A reação de Vini foi pular na cama comigo. Quando cheguei, ainda de
madrugada ao nosso quarto, simplesmente começamos a dançar e a pular na
cama. Sem parar. Confidenciando segredos como dois bons amigos.
E ele me apoiou.
— Não penso em continuar aqui. — Rafa faz uma careta e se apoia nas
mãos.
saliência
na
barriga
aumentou
consideravelmente. — O Bruno tem família na Alemanha... é uma opção.
Havia me esquecido que elas falam em morar fora do Brasil de um jeito tão
fácil e prático, que parece que trocaram de vila no “The Sims”.
— Fora que a campanha da mãe dela vai começar ano que vem. — Majuri
apoia a amiga, mergulhando um punhado de Doritos no queijo cheddar
derretido, distribuído em uma vasilha no chão. — Vai ser caótico, é melhor
para a bebê ficar longe de tudo isso.
— Já tá sendo — confessa, mas logo sacode a cabeça. — Mas isso não
importa muito, quero me concentrar em não botar tudo o que eu como pra
fora.
— Tenta tomate — aconselha Lili. — Dizem que funciona para os enjoos.
Bebendo ou comendo.
— E leite! — Diana acrescenta. — Deve adiantar, já me falaram que sim,
mas beber leite puro é, na verdade, um crime.
— Eu tomo leite puro — Clarissa diz, suave. — É gostosinho.
Às vezes com bolacha recheada.
— Lá vem... — Diana belisca a melhor amiga. — É biscoito.
Todas — inclusive eu — murmuramos baixo, em uma súplica audível para
que não entremos nessa discussão tão sem pé e nem cabeça.
— Todo mundo sabe que biscoito é de polvilho e bolacha é recheada! —
defende a herdeira. — Como seria diferente, Diana?
— E se tudo for bolacha? — sugere Majuri, sorrindo de nervoso. — E se na
verdade essa palhaçada toda for sinônimo e estão brigando por besteira?
— Sinônimos existem. — Dou a minha contribuição, recebendo um sorriso
enorme de Majuri. Ela estende a mão para mim e trocamos um hi-five. — É
como falar de um cão, mas sabemos que é um cachorro também.
— Ninguém come cachorro com leite — Lilian resmunga para mim. — A
gente come bolacha com leite.
As duas, Lilian e Clarissa, também trocam um aperto de mão amigável por
concordarem. É prático perceber que há times aqui; Majuri e eu, Lilian e
Clarissa.
— E se vocês gostam tanto assim de sinônimos — começa Rafa. — Por que
não tem um para gato?
— Há felino — esclareço. — Mas pode ser usado para leão também.
— Tá vendo? — retruca Diana, sorridente. — Nem tudo é isso aí o que
vocês disseram.
— Sinônimos — repito. — E eu não disse que era tudo, disse que existia.
Sentadas em roda, em um tapete felpudo do quarto de Clarissa, com dezenas
de guloseimas por perto. Cada uma de nós parece pronta para estabelecer
uma guerra séria e centrada sobre biscoitos, bolachas — e seus sinônimos.
— Decidam aí — falo, me ocupando com a única vasilha vazia. Detonamos
com um saco inteiro de Ruffles. — Vou encher isso aqui.
Diana retira suas pernas de cima das minhas, me dando passagem livre.
Todas se aproximam do centro da roda, prestes a oferecer seus mais novos
argumentos sobre a linguística tão vasta do nosso país.
Em pé, me aproximo do frigobar do quarto. Me aposso de uma latinha de
Coca-Cola e caminho na direção das sacolas plásticas, onde um dos
salgadinhos está aberto.
Enquanto despejo as batatinhas na vasilha, me perco nas únicas fotos que
decoram o ambiente. São Vini e Clarissa, abraçados, e com os rostos
grudados e os sorrisos banguelas, completam uma infância regada a
aventuras, porque imagino que estejam em algum tipo de safari. Pelas botas,
bonés e tom de roupas que usam.
Ao meu lado direito, Lilian também se aproxima. Há um traço de riso em
seu rosto e traz um copo plástico vazio, buscando por mais energético.
— Oi. — Sorrio para ela.
— Por que tá falando comigo?
Olho para a parede, crispando a boca.
— Bom... uma vez me disseram que você era a minha irmã e acreditei nisso
desde então.
— Justo. — Dá de ombros. — Oi... o que você quer?
Termino de encher a vasilha, enrosco os dedos em duas batatinhas e uso a
mesa para apoiar o quadril.
— Não sabia que tinha namorado.
Lili pragueja baixo, impaciente.
— Foi o boca de sacola do Vinícius que te contou, né?
— Nossos pais que não foram — comento. — E tampouco você. Nem sabia
que você namorava.
— Há cinco meses.
— Isso foi o que mais me surpreendeu.
— E daí? — Na defensiva, Lilian me cobra. — Por que você quer saber?
— Dizem as outras teorias que posso acabar me importando com você. Mas
não é nada concreto, sabe?
— Não contei porque não quis — ressoa, ainda mais irritada.
— E porque não quero ter que lidar com alguém que você vá apresentar para
a família.
— Entendi. — Pego a tigela da mesa, abraçando-a. — Mas seria legal
conhecer o... Caio... — Lilian me encara com censura. — Também foi o Vini
que contou.
— Pode ser, tanto faz! — Enche o copo com energético saboreado de
morango. — Vou perguntar pra ele. Ok?
— Ok.
Mas Lilian já se afasta de mim quando respondo o próximo “Ok”. Mais do
que desconforto, talvez a minha irmã mais velha queira me dizer algo. Só
não sei exatamente o quê.
Ainda afastada do restante do grupo, retiro meu celular do bolso do pijama,
dando uma passada de olho nas mensagens mais recentes. Tem uma foto do
meu pai pescando ao lado do meu tio, da minha mãe bebendo com as amigas
que tem aqui em São Paulo e algumas mensagens acumuladas de Clarissa.
Abro o chat.
CLARISSA: sem zoeira, não aguento mais o feriadão. todas vocês colorem
o meu dia, mas quero voltar para são palomane o quanto antes. depois do
jantar, a festa virou um enterro!
e amanhã eu vi que vai parar de chover!
é um sinal!
ÁRIA: primeiro de tudo, você disse que colorimos seu dia?
awn!
isso foi fofo da sua parte.
segundo... é um convite? tá me convidando para voltarmos para a cidade
antes de todo mundo?
Com o envio da mensagem, observo Clarissa parar de brigar com Diana para
checar o celular discretamente e, ao perceber que se trata de uma mensagem
minha, coloca-se a ler. Um pequeno sorriso de satisfação respinga em seus
lábios livres de qualquer maquiagem e decide responder de pronto, mas logo
bloqueia o aparelho, voltando a debater.
A resposta chega em poucos segundos.
CLARISSA: primeiro, eca! você é muito sentimental, deveria melhorar
isso. e segundo, pode ser. tirando você, o vini tem alguns amigos aqui em sp
e quer os visitar em guarulhos, meus pais vão continuar ocupados. as
meninas vão seguir as famílias em comícios... então, pensei que sim.
você fez a comemoração de aniversário parecer uma coisa muito simples
(porque é). enfim, quero continuar a celebrar a minha nova idade.
Com você.
O “Com você” me captura.
Com você.
Com você.
Com você.
Ressoa pela minha mente, como se estivesse dentro de uma caverna cheia de
eco.
ÁRIA: amanhã, às 7:00, antes de todos acordarem, voltamos para são
palomane.
CLARISSA: mais do que combinado!
Ela não olha para mim nenhuma vez, consegue segurar o ímpeto de
trocarmos uma olhadinha sequer, mas há um brilho diferente em seu rosto,
um brilho que ganhou apenas por nossa conversa.
Porém, meu celular treme de novo, ainda na minha mão.
E é uma mensagem de Natália.
NATÁLIA PLUME: veja isto
anexo
O que você acha de uma festa para comemorar?
Clico na aba indicada, me surpreendendo por ser um screenshot do meu
perfil no Instagram.
ÁRIA: estou quase chegando em 1 MILHÃO de seguidores?
NATÁLIA PLUME: isso mesmo! pensei em uma festa!!!! os preparativos
podem te ajudar na visibilidade e nos contratos!
Há certa esperança mal alimentada aqui, pois em quase quatro meses,
nenhuma gravadora, produtora ou alguém musicalmente influente reparou
em mim. E não que isso seja péssimo ou dramático, mas com um milhão de
seguidores, essa gente faz parecer que preciso de mais. Talvez seis, oito ou
até dez para me tornar relevante.
É estranho, mas aceito a oferta.
— Gente! — Rafa grita, chamando a nossa atenção. — A bebê chutou!
Guardo meu celular às pressas e corro para a roda, enfiando-me em uma fila
risonha de garotas ansiosas para sentirem os primeiros chutes de uma das
bebês mais importantes do momento.
É assim que é participar de um grupo?
30
“Espero te dedicar todo o amor do mundo, Em nosso lindo e glorioso
refúgio.”
Amor, Refúgio Amor — Canção de Liz Salles Liz Salles casou-se quatro
vezes com três pessoas diferentes.
A primeira delas foi com seu empresário, um inglês nacionalizado no Brasil
chamado Ryan, que as pessoas daqui carinhosamente chamavam de “Riãn”.
O casamento durou pouco; um típico escândalo sensacionalista com direito a
traições, boatos horrorosos e brigas públicas. E isto estava começando a
romper o discurso pacifista de Liz, que era sempre vista aos prantos e aos
berros ao lado de Ryan. Claro que não implicava em nada, porém, naquela
época queria dizer alguma coisa.
O segundo casamento foi com o cara que era seu guitarrista.
Havia fofocas por ali e aqui de que se odiavam, mas casaram-se em uma
capela em Las Vegas. Túlio e Liz foram muito felizes, e ela se separou dele
apenas porque o guitarrista morreu no final dos anos 90.
Antes de não tolerar mais a fama e odiar ser reconhecida, Liz fez uma
cerimônia simbólica, no Recife, com uma mestre em Letras chamada Élida.
As fotos delas são a minha verdadeira meta romântica, quero dizer, quando
Liz namorava Túlio também. Em duas fases da vida, ela foi feliz com
pessoas distintas, mas ainda assim, muito, muito feliz.
E é pensando neles que termino de dirigir quase uma hora e meia até o
centro de São Palomane. Com o feriado prolongado e o céu aberto, livre das
chuvas dos dias anteriores, é um bom dia para caminhar no Parque
Experimental Palomane.
Clarissa já está de óculos de sol, e salta entusiasmada do carro. Demos um
perdido em Carlos, o motorista, e saímos de São Paulo ainda mais cedo do
que combinamos.
— E a Liz nunca mais se casou de novo? — questiona Clarissa, que me
ouviu tagarelar sem reclamar pelo resto da viagem.
— Com a Élida, renovaram os votos e só — conto, fechando o carro de
Vinícius, que pegamos emprestado, é claro. Quando vamos devolver? Aí já é
uma pergunta difícil demais de se responder. — Fico horas vendo edits delas
no TikTok.
Com os meus próprios óculos de sol, sigo Clarissa até o fim do carro, onde a
herdeira acabara de abrir o porta-malas. Dentro contém nossas malas e um
objeto que não lembro de ter guardado quando saímos. Ao ver a minha
surpresa e confusão em rosto, Clarissa apoia-se na porta aberta, travessa.
— Pensei em fazermos um piquenique — diz, agitada. Não sabe como agir
ao ser meiga e prestativa, então prefere desviar o olhar do meu. — Tem
sanduíches, sucos, frutas. Planejei tudo.
A cesta de comida parece pesada, mas a modelo nem sequer pede a minha
ajuda ao tirá-la do porta-malas. Com a mão vaga, ainda consegue pescar uma
bolsa de mão — igualmente lotada de coisas.
— Tô vendo — reparo, cruzando os braços. — Se eu soubesse, teria
preparado algo.
— Não, não — desconversa. — Você me deu um piercing e uma noite de
viking, o mínimo que posso fazer é pensar em preencher o nosso tempo.
— Não fiz porque queria algo em troca, ok? Fiz porque quis.
— Exatamente.
Apressada, Clarissa segue na frente, pois conhece o parque como ninguém.
Disse que é um dos seus lugares favoritos no mundo e que como está cedo,
há poucas pessoas por perto ou dispostas a nos reconhecer.
Apenas caminho ao seu lado depois de conferir as travas do carro e mandar
uma mensagem a Vini pedindo desculpa pela fuga antecipada — e que se ele
for um bom melhor amigo, quem sabe compartilhe a fofoca completa depois.
Ao alto de uma colina não muito grande, mas extensa, há uma árvore velha
de galhos grossos e folhas molhadas, onde Clarissa decide se aprumar.
Sozinha, estica uma toalha branca — porque não tinha nenhuma
quadriculada —, distribui nosso café da manhã e ainda arranja tempo para
me presentear com um livro, vindo diretamente da bolsa misteriosa.
— “Em Teu Delírio”? — Leio o título em voz alta, me deliciando com um
iogurte natural. — Acho que nunca li.
— Nem eu — comenta, trazendo um exemplar idêntico ao seu colo. —
Pensei em lermos juntas, sabe? Em silêncio ou... em voz alta.
Sorrio, pausando os meus movimentos.
Vejam só, a pessoa mais mesquinha que tive o desprazer de conhecer passou
tempo suficiente planejando um encontro em severos detalhes.
Ora, ora, ora.
— Fala sobre o quê? — Deixo o iogurte de lado.
— Sobre duas garotas sobreviventes de um incêndio que destruiu o colégio
delas. Era uma escola interna — conta. — Como foram as únicas que saíram
com pequenos machucados, os pais delas decidem juntá-las para serem
amigas. Tratar os traumas com mais delicadeza.
— E elas se apaixonam? — Folheio o livro, interessada demais.
— Acho que não — responde, franzindo de leve a testa. — Li algumas
resenhas falando que dão a entender que sim, outras dizem que a amizade de
Ana e Sophie é íntegra e nada romântica. E outras que falam que o livro
causa confusão de propósito, já que se passa nos anos 30.
— Interessante. — Balanço a cabeça para cima e para baixo.
— E você já fez isso antes? — continuo. — Leu com alguém?
— Não... não. Acho que ninguém teria paciência, não precisa ler se não
quiser. — Aflita, Clarissa retira o livro da minha mão com fervor, pensando
em guardá-lo. — Pensando bem, parece uma ideia tosca, né?
Sinto vontade de rir ao perceber que seu subconsciente já quer me repelir,
me afastar e manter a mesma barreira de má comunicação que tivemos desde
o princípio, mas não levo para o pessoal e nem me sinto ofendida.
— Espera aí. — Coloco a minha mão em cima da sua e me aconchego para
mais perto. Clarissa avalia meus movimentos, acuada. — Eu não disse que
era tosca, eu só perguntei se já tinha feito isso antes. — Com prática e
cautela, pego o livro de volta. — Vamos fazer isso, Rissa. Ao contrário do
que pensa, eu tenho tempo para você.
Seus ombros se eriçam.
O presente mais valioso que eu poderia dar para Clarissa acabou de revelar-
se para mim.
O tempo.
— É verdade? — quer saber, quase rouca. — Tem espaço para mim nos seus
afazeres?
— Tenho, sim. — Sorrio, tocando sua bochecha.
— E não acha... tudo isso... meio... bobo?
— Não. — Curvo os lábios. — Acho legal. Nunca fiz antes, então é a minha
primeira vez, também.
— Não quero incomodar...
— Por que pensa que incomoda? — indago. Rissa não responde, porque não
precisa. Se ninguém ao menos se interessou por seus finitos detalhes
internamente, por que externamente se interessariam? — Relaxa — falo,
tentando sorrir. E, ao menos, funciona para tranquilizá-la. — Vamos ler e
depois fazer uma resenha enorme no Skoob. Quem sabe podemos abrir um
clube do livro só nosso!
— Sério?! — Ri, incrédula.
— Por que não? — retruco. — Quem nos impediria?
A herdeira Plume faz um sinal positivo com a cabeça, decidida a lermos seu
livro escolhido até o fim do dia.
A garota deita-se no meu colo e abre a primeira página, indicando que já
podemos começar. Faremos uma pausa de quinze minutos a cada meia hora
lendo e seguiremos na história de Ana e Sophie até terminamos a leitura.
Suspirando, viro a primeira página, me sentindo especial por estar quieta
com alguém.
Quando há conforto, não há, necessariamente, silêncio. Só paz.
É assim que se chama a quietude.
— Ana e Sophie eram apenas amigas! — argumenta, me passando uma
pistola de chumbo para acertar os patinhos de plástico de uma barraquinha.
— É nítido, Ária.
Miro nos animais falsos, pronta para ganhar um chapéu de Festa Junina —
mesmo estando fora de época — que faz parte de um dos brindes. Depois de
lermos “Em Teu Delírio” a manhã inteira e comermos toda a comida da
cesta, encontramos um Parque de Diversões beneficente no parque. Toda a
verba coletada será direcionada para a capela central da cidade.
Só que, para variar um pouquinho, discordamos do livro todo.
— Nítido? — repito, desacreditada. Cerco o patinho e atiro, mas erro em
cheio. — Tem uma passagem inteira da Ana falando que o tom de cabelo da
Sophie é como trigo, e é o mais bonito do mundo!
— Ana era carinhosa ao extremo — revida. — Não se lembra da parte que
ela diz que os olhos do menino que entregava leite eram da cor do mar? Tão
límpidos e azuis, que ela sentia vontade de mergulhar? — Ao analisar o meu
erro, Clarissa me empurra delicadamente com o ombro, me dando um chega
para lá. Paga mais dois reais ao dono da barraquinha e está pronta para
derrubar os patos e conquistar o prêmio final. — Ana era poética e
sentimental, isso não quer dizer que estava apaixonada pela Sophie.
Cheiro de pipoca doce, salgada e algodão doce se fundem, me dando a
sensação nostálgica de infância.
— Sim, eu lembro. — Me aproximo da barraquinha, torcendo para que erre
todos os patos também. — Mas logo em seguida, Ana diz que ainda prefere
os olhos da Sophie, isso te diz alguma coisa?
— Sorrio, cheia de acidez. — Embora o entregador de leite tenha olhos azuis
como o mar, Sophie tinha olhos cor de mel e ela os preferia. Viu, só?
O tiro escapa pela lateral, pegando o painel muito mal pintado de azul,
simbolizando uma lagoa. Os patos vagam de um lado para o outro,
extremamente irritantes.
— Ária, o livro se trata de duas pessoas que perderam todas as amigas em
um incêndio. Elas são as únicas garotas da mesma idade que restaram na
cidade. Só possuem uma à outra!
Concentrada, Clarissa consegue errar todas as três chances de derrubar um
pato. Furiosa, também desiste de me conseguir um chapéu.
— Nos filmes parece mais fácil — resmunga, andando lado a lado comigo.
— A pessoa sempre consegue o prêmio.
— Ainda podemos tentar mais tarde — garanto, decidindo pegar um ar
longe de patos falsos e lagoas mal feitas. — E
respondendo sua pergunta, eu acho que você tem uma facilidade tremenda
para ignorar o elo sáfico da história.
— Realmente — ironiza. — A filha sáfica do prefeito ignorando um
romance.
— Não — falo, rindo. — É que às vezes muitas pessoas encontram
desculpas ambíguas para explicar algo lógico. Como as pessoas que
acreditam que Capitu traiu Bentinho.
— Pode ser... — Meneia o rosto. — Mas também sei que a autora fez de
propósito, entende? Ela queria essas discussões, queria que o leitor perdesse
a cabeça encontrando uma resposta, mesmo havendo uma só. E naquela
época, é provável que tenha feito todos acreditarem que se tratava de
amizade, e não de amor.
Sou levada a muitos pensamentos, porque a leitura foi boa o suficiente para
me deixar eletrizada com todos os detalhes. Elas eram ou não eram um
casal?
— Olha. — Clarissa aproxima seu ombro do meu. — Foto Maluca. Vamos?!
O painel montado no centro do parque traz um marinheiro ao lado de uma
enfermeira. Seus rostos não foram pintados, mas retirados, com uma fenda
redonda para que coloquemos nossas cabeças lá.
— Vamos!
Clarissa escolhe ser o marinheiro, e eu, a enfermeira. Faço uma careta de
língua de fora e olhos arregalados, pronta para a foto, que custa três reais a
mais no nosso orçamento.
Pelo menos é revelada — e dá direito a duas cópias —, o que serve para uma
memória afetiva desse momento.
No último brinquedo que decidimos ir, um mini-boliche, Clarissa passa
tempo demais no celular. É tão demorado que mal presta atenção em mim, e
até penso em dizer algo, mas a modelo estala os dedos de repente.
— Aqui, encontrei.
Agitada, retorna para perto de mim, enfiando o celular na altura dos meus
olhos.
— É uma entrevista que fizeram com a filha da autora — cita, sendo uma
grande espertalhona. — Maude diz que a mãe gostava de jogos de
linguagem e que uma teoria não anula a outra... — Desmotivada, a herdeira
abaixa o aparelho, sorrindo amarelo. — Bem, deixa pra lá.
Abraço-a por trás, retirando seu celular de sua mão.
— Não! — brado. — Agora eu quero ver o que é. — Recoloco na página da
web, repassando os olhos pelas partes que Rissa leu anteriormente. Continuo
por conta própria: — Maude diz que a mãe gostava de jogos de linguagem e
que uma teoria não anula a outra.
Se existia amizade entre elas, existia amor. E se existia amor, existia
amizade. O que Maude pode dizer é que Ana e Sophie viveram felizes uma
ao lado da outra pela eternidade e que amor e amizade foram exaltados em
todas as épocas que se mantiveram unidas.
Insatisfeita, arfa com força.
— Ainda não entendi! — reclama.
— Nem eu. — Solto-a, devolvendo o telefone. — Deu na mesma. Elas
podem ser unidas e serem um casal e unidas e serem amigas.
— E mesmo se fossem, uma coisa não anula a outra, lembra?
Amor é amizade. E amizade é amor — emenda, pensando ao olhar para os
lados. — A filha da autora, a Maude, mora na Suíça.
Podemos ir até lá e perguntar o que diabos a mãe dela quis dizer com isso.
— De acordo com “A Culpa é da Estrelas”, podemos encontrar uma
escritora sem paciência que gosta de rap sueco, então não.
— Mas ao menos Augustus e Hazel comem em um bom restaurante.
O frenesi intenso começa a crescer dentro da minha barriga.
Duas pessoas passam por nós, apontando e acenando. Com o horário do
almoço em seu auge, o público do parque dobrou e estamos começando a ser
reconhecidas. Clarissa bem mais do que eu, o que implica em pares de olhos
sempre atentos em nós.
— Ária? — sussurra, ainda fitando-me com todo o seu ser. — Queria tanto
te beijar agora.
Sei que não podemos, não com tanta gente por perto.
Pessoas que não tem nada a ver conosco, mas que se sentiriam no direito de
definir se estaríamos ou não confortáveis. Ou até mesmo, seguras.
— O dia não acabou — rebato, indicando a saída para o estacionamento. —
A semana do seu aniversário ainda está acontecendo.
Meus dedos formigam, árduos, porque seria um bom momento para segurar
sua mão, mas seguro o ímpeto, não quero confusão. E nem ser responsável
por uma fofoca que Clarissa não saberá como contornar.
Ainda sorrindo, caminhamos juntas, sem perder o bom humor ao gargalhar
alto.
Como duas boas amigas.
31
“Bem ali, Bem ali mesmo Há um fim para todos Não para mim (e nem para
você)”
Dignidade, Dignidade — Canção de Liz Salles — Outra praça? — Ouço
Rissa praguejar. — Você gosta mesmo de praças, hein.
A modelo me segue, rindo bastante quando corro na frente, conhecendo o
caminho perfeitamente sob o meu olhar atento. O dia realmente está mais
incrível do que pensei que estaria e isso se deve ao sol, ao céu sem nenhuma
nuvem e a nós.
— É — confirmo, subindo e descendo os ombros. — Mas em minha defesa,
essa é uma praça muito especial.
— É? — Cruza os braços, parando no meio do caminho e virando o rosto
para todos os lados, procurando por nada em especial. — E por quê? Vai ter
algum evento aqui?
— Não, é onde eu tocava antes de ser conhecida — conto, retornando para
perto dela e dando pequenas batidas na minha garganta. — Quero dizer,
antes de ter minha vida dominada pela internet — faço drama. — E é onde
Liz Salles tocava antes da fama, então... nada mais justo estar aqui. Ou te
apresentar o lugar.
Na praça, perto da banca, cumprimento as poucas pessoas que lembram de
mim, da época animada e cativante em que aparecia aqui mais de três vezes
na semana. Ganhava bons trocados cantando as minhas músicas favoritas.
— Ah... — Clarissa repara na capa do violão que seguro e no meu sorriso.
— Vai tocar para mim?
— Com ou sem duplo sentido, parece uma oferta interessante.
— Dou pequenas batidas em seus ombros. — Mas não só para você, para
todas as pessoas aqui...
— Que safada! — provoca, mordendo os lábios. Clarissa continua rindo
quando diz: — Legal, pode ser. Quero te ver ao vivo sem ser na banda.
— Privilégios — cantarolo.
Volto a caminhar rápido, me apossando do mesmo lugar onde sempre fiquei
ao longo dos anos e meses; perto da banca de jornal do Seu Pires, no centro
da praça, recebendo a luz natural do sol por entre os galhos das árvores.
Monto meu pequeno espacinho ali, com a capa do violão aberto. Hoje estou
sem caixa de som ou microfone, mas deve servir.
Seu Pires acena para mim, muito feliz em me ver na ativa novamente. Desde
que comecei a aparecer na Tulipe Tulipe ou na faculdade, exterminei a
minha agenda de shows na praça. Nunca mais apareci, embora quisesse no
fundo.
Por alguns instantes, me sinto fora do eixo. Como se o lugar não me
pertencesse mais; a falta de conectividade que tanto evitei sentir. Tento
afundar o sentimento com os acordes que texto no violão, afinando-o
exatamente para o que quero.
Seu Pires anima-se, saindo da banca de jornal e sentando-se em frente de seu
comércio, completamente atento ao que acontecerá. Clarissa, um pouco
deslocada, move-se em direção à uma árvore encostando-se.
— Sugestões, Seu Pires? — brinco, erguendo as sobrancelhas. —
Desapareci daqui, você merece ouvir uma boa música.
— Pode ser... hum... “Ela Partiu”? — sugere. — Do Tim Maia.
— Quer me dizer alguma coisa? — zombo, analisando seu sorriso abrir. —
Mas ok, pode ser sim.
Não é como se fosse novidade alguma que meu caro amigo Pires é um
grande fã de Tim Maia. Acho que já representei mais essa música do que
qualquer outra. É como nos velhos tempos, atender os pedidos da minha
minúscula e fiel plateia.
Concebendo seu desejo, inicio uma das canções mais tristes e sôfregas já
inventadas. Se não for a primeira, é claro.
Trilho todos os elos sentimentais da música, fechando meus olhos
lentamente, ao refogar uma tristeza que, até então, faz anos que não sinto.
Não me lembro direito dos meus primeiros amores, é possível que eu não
tenha tido tempo para me apegar a eles suficientemente bem ao ponto de
acabar tendo o coração partido ou ferido.
Ou esqueci.
Talvez tenha esquecido, é uma possibilidade.
Uma que não posso negar que existe.
Espio por entre as pálpebras de vez em quando, para me certificar de que
Seu Pires está gostando, ou que Clarissa não desapareceu ou fugiu de mim.
Porém, fico a maior parte da apresentação de olhos fechados, refletindo no
tempo. Curioso pensar que Clarissa e eu nunca tivemos esta pequena
palavrinha que significa muito.
E, a cada vez que checo seu rosto me assistindo, um punhado de pessoas
novas aparecem para conferir de perto o que está acontecendo.
Normalmente, meu público majoritário eram senhores que jogavam dominó;
as pessoas apressadas que cruzavam a praça na intenção de chegarem a outro
lugar nunca paravam para me assistir.
Hoje é diferente.
Cada adulto, criança ou adolescente que me vê ao longe se aconchega entre
árvores, bancos e troncos para tirar uma pausa de seu dia e curtir a minha
música. Quero dizer, o meu cover.
Eles também me gravam, de longe. Respeitando o meu espaço muito bem
delineado com a capa do violão. Alguns jogam trocados, mas me recuso a
receber qualquer quantia. Tento negar com a cabeça, mas apenas serve para
pontuar a melodia.
A câmera de polaroids retorna para o nosso itinerário, porque Clarissa a
aponta para mim, bastante íntegra do que fará.
De poucas pessoas, a multidão torna-se um emaranhado de colegas de
vizinhança que chamam uns aos outros para terminarem de curtir o feriado
comigo. De Tim Maia, passo para Cazuza, obrigando todos a cantarem
“Exagerado” em um coro que leva
Clarissa até o centro da plateia, aplaudindo e gritando meu nome como uma
verdadeira fã faria.
— É sempre assim?
Bem mais tarde, quando decidi terminar a minha apresentação com medo de
encher a praça mais do que poderia comportar, Clarissa se aproximou.
Recolheu o dinheiro da capa do violão e trocou por jornais na banca.
— Não — digo, colocando a alça do violão em um dos ombros. — Só
quando garotas estão por perto.
— Então é sempre assim — confirma, abraçando o punhado de jornais. —
Foi bem legal. Você é a ídola deles. Não vai demorar para as pessoas serem
seus fãs, Ária.
— Vou ser uma rockstar — prometo. — Está no meu DNA.
— Vai, sim — elogia, com as íris brilhando. — E agora? — Empolga-se. —
Vamos fazer o quê?
— Quer ir lá pra casa? — falo, ainda de olho no celular. — Meus pais
voltaram também.
— Clarissa!
O canto da minha mãe é alto o suficiente para assustar de leve o meu pai
que, pela expressão, calcula as finanças da semana de cabeça. Sem
calculadora, sem ajuda de alguém, apenas ele e um caderninho surrado que
usa desde sempre. Geralmente é Lili quem cuida disso, já que cursa
Economia, mas quando não quer ajuda, meu pai é difícil de ceder.
Fecho a porta do Clube 148, porque ainda não estamos no horário de abrir
— e nem perto disso. Depois da reforma, o estilo pin-up morreu por
definitivo, deixando o lugar bem mais límpido, visual e confortável.
Cansada pelo dia, meus olhos estão pesados e meu nariz um pouco marcado
pelo tanto de sol que peguei sem passar protetor solar. Clarissa e eu meio
que estamos um pouco queimadas. Na minha pele, por ser mais clara que a
dela, é bem mais visível.
— Oi, dona Bete — cumprimenta a herdeira, sendo tímida. — Tudo bem?
Minha mãe abraça Clarissa sem pedir permissão, apertando suas costas e
passando as mãos pelos ombros, carinhosa. Vejo como a garota reage aos
poucos, surpresa pela recepção mais do que calorosa.
— Que bom que voltou! — brada. — Fiquei torcendo para que a Ária te
trouxesse aqui mais vezes.
— E eu vim! — Clarissa sorri e olha para mim, rapidamente.
— E hoje é Noite de quê?
Mamãe troca um olhar com o meu pai, que saúda Clarissa apenas com um
acenar de rosto. Em hora de somar dois mais dois, meu pai fica sério e
centrado demais para sequer notar o mundo ao seu redor.
— Noite da Família, serve? — Bete sugere, risonha. — Estamos cansados
demais. São Paulo sugou todas as nossas energias e vamos nos dar uma noite
de folga, amanhã tem mais!
— Hum... se é noite da família, vamos pedir pizza? — Deixo as minhas
bagagens no chão, apontando para a minha barriga. — Certo?!
— Pizza, então — concorda a minha mãe. — Pizza e pastel, pode ser?
— Pode! — Clarissa arregala os olhos, feliz.
— Vai levar essas coisas lá pra cima, Ária. — Bete gesticula com as mãos.
— E aproveita e apresenta sua casa para a Clarissa, sua amiga merece saber
que seu quarto é bagunçado!
— Pelo menos ela já sabe que a minha mãe é dramática.
Recebo uma breve ameaça de tapa, mas recuo a tempo.
Corro dela, parando apenas para beijar a bochecha do meu pai. Indico que
Clarissa pode me seguir, mas não sem antes ter a chance de lhe mostrar a
foto ridícula que meu pai pendurou na intenção de conquistar clientes e
celebridades.
De certa forma funcionou, porque antes, a parede que apenas tinha
Chacrinha, Gretchen e Clarissa de famosos. Hoje em dia tem o Rei das
Fritas, que é um empresário do bairro, dono de uma rede de batata frita com
frango frito; uma cantora chamada Eloi; alguns Tiktokers que passaram por
aqui para divulgar nas redes sociais, e um jogador de futebol do Corinthians.
— Essa é a foto mais horripilante de toda a minha vida — comenta,
entortando a boca em uma expressão enojada. — Mais do que nunca, parecia
que estávamos lado a lado para pagar uma dívida de jogo.
— Como diria a grande pensadora Isabela Boscov.
Minha opinião sobre a imagem não mudou e nem jamais mudará; é o retrato
excelente de como é visível que nos odiamos seriamente por muito tempo,
mesmo que haja resquícios de uma possível guerra a qualquer minuto até
hoje.
— Eu tô horrível! — Clarissa se aproxima da moldura, criticando sem parar.
— E você... nem se fala.
— Não precisa dizer o óbvio. — Cutuco-a, um pouco irritada.
— Pareço uma pintura mal feita? Pareço, mas você deveria, ao menos, dizer
que estou bonita.
— Por que eu faria isso? — Se ofende. — Nitidamente não está, não gosto
de mentir, não.
— Nem de ser gentil, pelo visto — provoco.
Abaixo-me apenas um pouco, pegando a capa do violão e a minha mala,
voltando a caminhar em direção às escadas do fundo.
Clarissa faz um grande monólogo sobre sua lealdade com a verdade, e
embora eu não esteja chateada, é interessante vê-la tentar argumentar algo
que não dou a mínima.
É a minha pior foto também.
Subimos sem maiores reclamações, e aponto para uma porta de madeira
renovada, afirmando que é o apartamento dos meus pais.
— Pensei que morasse com eles — fala, ainda com os olhos presos no tapete
de boas-vindas deles.
— Não, nós vivemos no mesmo prédio — informo. — No final do corredor
é o apartamento da Lili.
— Deve ser legal morar tão perto deles.
— Não parece que eu moro sozinha. — Retiro a chave da minha bolsa
pendurada no ombro. — Eu diria que eles invadem a minha casa a todo e
qualquer segundo.
Quando abro a porta, jogo minha mala, minha bolsa e meu violão no chão,
correndo para me certificar que as minhas plantinhas foram bem cuidadas
pelos vizinhos que deixei encarregados de regá-las.
E tudo certo, nenhuma morreu ou começou a murchar.
O sofá está no mesmo lugar, inclusive os quadros e a pequena cozinha. A
xícara em cima da pia continua no exato diâmetro em que a deixei ao viajar
para São Paulo — e nem faz tanto tempo assim.
— Não tem como eu te oferecer um tour por aqui — digo. — A casa deve
ser do tamanho do seu banheiro. Ou do seu closet.
O rosto de Clarissa de La Plume é puro brilho e cor. Apesar da timidez de
visitar a minha casa, entendo que deve ser algo tão íntimo e verdadeiro que
nos faz entender que estamos... bem, estamos alguma coisa.
— Não me importo com isso, Ária — sopra, admirada. — Sua casa é bem
linda.
— É o máximo que deu para fazer. — Aceito o elogio da pior forma
possível, mas encontro uma brecha para levá-la ao corredor.
— Se achou a minha casa bonita, espero que goste do meu quarto.
Com um sorrisinho malicioso, Clarissa gruda em mim e na minha mão,
deixando-se ser levada até o fim do pequeno corredor, para dar de cara com
a minha porta cheia de rabiscos, que fiz pensando que daria um efeito street
ao meu apartamento, mas que só serviu para um ambiente congestionado
visualmente. Com a porta entreaberta, empurro-a com o meu ombro,
indicando as paredes, meu guarda-roupa e a minha cama. Tudo ali.
— Amei os pôsteres. — Clarissa anda pelo tapete com cuidado, de olho nas
imagens das minhas cantoras favoritas. — Daqui a um tempo, as pessoas
terão pôsteres seus na parede.
— Não acredito muito nisso, mas valeu.
— Acredita, sim — desafia. — Tá apenas sendo modesta. — Ela para perto
da minha mesa de estudos. Os livros de música e das matérias da faculdade
estão abertos e muito mal posicionados. — Você deve ser o tipo de pessoa
que sempre desejou ser famosa.
— Uma rockstar reconhecida. — Me sento com tudo na cama, deixando-a se
sentir à vontade. — Porque se for o caso, é capaz que eu me torne que nem a
Liz Salles. Disposta a fugir do país para viver nos alpes chilenos.
— E ela é feliz? — Clarissa avalia um livro da minha autora favorita, direto
da estante. E, depois de um tempo, o coloca no lugar, vasculhando as fotos
em porta-retratos. — A Liz, no caso.
— Deve ser — respondo, descontraída. — Ela não tem muita fanbase por lá,
mas pelas atualizações de algumas fãs, Liz não pretende voltar pra cá. É feliz
assim, do jeito dela.
— E você é feliz?
Enrugo a testa.
— Do nada esse tipo de assunto? — Acho graça. — Porque se formos ser o
tipo de garotas profundas, preciso me preparar primeiro para isso.
— Só quero saber. — Clarissa devolve a foto que estou ao lado dos meus
pais, em uma apresentação minha na escola, à prateleira. Na imagem, eu
tinha sido a vovozinha em uma peça de “Chapeuzinho Vermelho” e arrasei
no papel. — Porque... É uma pergunta importante no meu ponto de vista.
— Sim. Eu até que sou feliz, sim. E você?
A herdeira dá de ombros, caminhando na minha direção e se sentando perto
de mim. Sua mão desliza até a minha, que serve como apoio para o resto do
meu corpo.
— Podemos dizer que sim.
Engraçado perceber que quase todos os meus conceitos sobre ela mudaram;
sim, a herdeira ainda é pé no saco, ainda parece que assusta as pessoas de
propósito em parques temáticos de terror, mas definitivamente não é a
mesma pessoa de quase cinco meses atrás. E sei disso apenas porque sinto
que Clarissa me deixou conhecê-la, porque se não deixasse, talvez
estivéssemos brigando.
— Que foi? — Ri, recuando o rosto. — Tá me olhando esquisito.
— Estava apenas pensando em como tudo isso é engraçado, nunca pensei
que mostraria meu quarto para você.
— É bom que eu conheça seu quarto logo. — Se aproxima um pouco mais.
— Não tenho intenção de sair dele tão cedo.
A outra mão escala os meus braços até encontrar uma passagem agradável
no meu pescoço, beirando à nuca. O beijo é uma grande dádiva do dia; é
cheio de saudade, calor e tranquilidade, um agradecimento gutural sobre o
dia que passamos. Sobre a leitura, os jogos no parque, o passeio até a praça e
a música que cantei, que ficou claro que foi para ela. Sobre as fotos que tirou
enquanto cantava, sem que eu notasse direito.
Sobre nós — e a pizza que pediremos mais tarde.
Se as pessoas souberem reparar em momentos implícitos perceberão que
gosto de Clarissa e, talvez, já esteja em outro patamar. Um bem mais sério e
centrado que apenas gostar. Ou só adorar.
Abraço com ainda mais força, trazendo seu corpo quente para perto. Sugo o
lábio inferior, torcendo para que demoremos aqui.
— Ária!
A voz é do meu pai, vindo da porta de casa. Me separo da herdeira com o
coração na boca pelo susto.
Nós duas nos afastamos por reflexo. Não tenho ideia se tem algum problema
em minha mãe saber sobre nós, mas não uso do momento para perguntar ou
importunar por uma direção.
Quando lhes contei que era bissexual, aos treze anos, meus pais não
disseram nada além de conversar comigo sobre sexo e proteção. Apenas.
Todas as pessoas com quem namorei foram tratadas igualmente, sem
qualquer respingo de preconceito ou pré-idealizações que, com toda a
certeza, iriam me ferir.
Só não sei se seria confortável para Clarissa.
— Sim?! — grito de volta.
Ouço os passos rápidos de Reinaldo pelo corredor. Clarissa levanta-se da
cama, voltando para perto da minha escrivaninha.
— Superestrela, sua mãe tá te chamando. Vamos pedir pizza e queremos sua
opinião. — Ele se apoia no batente da porta e sorri para Rissa. — E aí,
Clarissa! — cumprimenta, simpático. — Desculpa não ter te dado atenção
quando chegou. Você sabe, né, filha, quando as finanças chamam, não há
Cristo que tire a minha atenção.
— Imaginei. — Ainda mais educada do que ele, a modelo o acalma. — Mas
nem se preocupe, vou ficar um tempinho aqui.
Incomodo?
— Nunca! — brada meu pai. — Fica aí. Dorme aí, façam uma noite das
meninas!
Troco um olhar com ela, aprovando a ideia.
— Vamos pensar, pai — prometo, erguendo-me da cama. — Afinal, Clarissa
pode dormir comigo aqui.
Ela quase engasga com a entonação, mas meu pai parece entender que
finalmente encontrei uma amiga. Bom, de certa forma, Reinaldo não está
errado.
Encontrei, sim, uma amiga em Clarissa de La Plume, e somos ótimas nisso.
— Ouviu, né? — provoco. — Noite das meninas.
Ainda rindo de nervoso, ela me segue, saltitante.
SHOW SURPRESA!
Ária Campos deu o ar da graça em uma praça de São Palomane . Nos
vídeos que já fazem parte dos mais acessados envolvendo o nome da
cantora, Ária aparece interpretando grandes sucessos de Tim Maia,
Cazuza e Liz Salles .
Tô falando, alguém precisa ficar de olho nela!
E quem estava na plateia apoiando a amiga? Ela mesma!
Clarissa de La Plume.
Adoro nossas meninas cada vez mais unidas. Amizade do ano!
Postado por MinutoGossip
32
“É melhor correr Para não sofrer Mas não se preocupe Eu tenho um
plano!”
Rota de Fuga — Canção de Liz Salles Não limpo uma gota de suor que se
fixa na testa ou na pele, a deixo exatamente onde está. O brilho natural de
todo o meu desempenho revelando-se em quem sou agora. Todo o meu
corpo é banhado por uma cruel energia de exaustão que se interliga entre as
minhas pernas, tronco e costas.
É hora de agradecer o público, soltar o microfone e encerrar o show por
aqui.
As linhas faciais ao redor da minha boca doem de tanto sorrir.
Depois de um tempinho, é bom que eles tenham me aceitado quase cem por
cento — sem precisar mencionar ou pensar em Rafaela.
Ainda é complicado, mas não quero desistir.
Não quando posso conseguir a aprovação da minoria que ainda resiste com a
troca.
De trás das cortinas, incentivo as garotas da banda a me deixarem sair
primeiro do palco. Morta de sede, saio em disparada para o camarim, mas
não encontro nada além de vinho e cerveja. E
eu quero água.
— Voltamos com tudo, hein... — Majuri aparece atrás de mim, jogando-se
no sofá. — Você tá focada demais em fazer os fãs de Rafa calarem a boca.
Ter voltado do feriadão com a mente tranquila me ajudou inteiramente. Sem
Rafa por perto, sinto que a Era de Heras pode começar a ser minha tanto
quanto é delas. Rafaela agora se focará em outros projetos.
Sou a vocalista da banda e ponto final.
— Eu mereço ter os meus próprios fãs. — Sorrio fechando a geladeira.
Clarissa e Diana entram em seguida, aos risos. Também suadas e detonadas
por mais uma leva de shows.
— A mulher misteriosa apareceu? — Diana questiona, o corpo todo em
êxtase. — Porque eu vi ela de novo... te encarando, Ária.
— Bom ou ruim? — indago.
— Ela sempre tá por perto. — Clarissa completa. — Conhece?
— Não faço ideia de quem seja — falo a verdade. — Não sei se é uma fã ou
uma pessoa que devemos ficar de olho.
— Definitivamente uma fã. — Majuri pisca. — É melhor assim, né?
— É bom... — Ouço a herdeira mediar.
— Ciúme, Rissa? – debocha Majuri. — A Ária é nossa agora, faz parte da
fama.
— É, amiga. Tem que dividir — assegura Diana, sugestiva.
De alguma forma, não sei como, sinto que Majuri sabe de algo. Como?
Possivelmente as fofocas de Diana, porém ainda é complexo afirmar.
— Sem ciúme — define Clarissa, muito elegante. — Me garanto. — Sorri de
lado. — E confio na nossa vocalista.
— Isso aí! — Majuri me abraça pelos ombros. — Nossa vocalista.
Empurro de fraco a guitarrista, ouvindo as risadas aumentarem. Quero ficar
e debater, mas preciso beber algo o quanto antes.
Entre os vozerios, saio do camarim com a boca seca, ainda rindo de uma
piada que Majuri contou e que continua fresca na cabeça.
Cambaleio, com as pernas moles, até o bar mais próximo e me apoio no
mezanino, feliz e orgulhosa de mais uma apresentação.
Se a banda fosse visível ao ponto de sairmos desta boate, aposto que
seríamos grandes. Enormes. Gigantescas.
Peço uma água assim que me atendem.
— Belo show! — elogia alguém ao meu lado esquerdo. Espio por cima dos
ombros e por entre os cílios derretidos. — Aliás, sempre é um bom show
com você, meus parabéns.
Reconheço que é a mesma mulher da última vez; uma figura misteriosa e
educada na medida do possível, não muito fria e nem muito falsamente
altruísta. Sinto que me elogia de verdade.
— Obrigada. — Sorrio. — Ainda mais vindo de você. Deve ter visto uns
dois ou três shows meus com as meninas.
— Cinco, na verdade — gaba-se, segurando o copo com uísque na minha
direção. — E espero ver mais.
Reparo em sua pele negra-retinta brilhante e seu terno muito bem costurado
rente ao corpo. É, definitivamente, uma mulher de negócios.
— Ótimo, porque não pretendo ir a lugar algum.
O bartender aproxima-se, trazendo a minha água. Ele me reconhece, me
presenteando com um sorriso esbelto de simpatia.
— Deixa. — A mulher nos interrompe. — Eu pago.
Não é flerte ou interesse, é apenas uma pessoa que parece gostar do que vê
quando estou em cima daquele palco.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ainda não sei seu nome, mas ao menos tenho ciência de que tem um cartão
black-platinum quando paga a minha bebida.
Coloco a roupa suja na máquina de lavar e fecho com ajuda do meu quadril.
No auge do domingo, depois de um show daqueles na Corações & Flechas, é
o único suspiro de paz e calma dos acontecimentos dos últimos dias que
utilizo para colocar a minha vida nos eixos. Preparar a minha mochila para
faculdade amanhã de manhã, filtrar os e-mails e encaminhar a maioria para a
assessoria de Natália.
No fundo, domingo é um ótimo dia para se organizar.
— Daqui a três semanas, pode ser? — Natália de La Plume, no telefone,
pergunta.
Mantenho o aparelho muito bem equilibrado na minha orelha, enquanto
separo o sabão em pó do amaciante.
— Três semanas? — repito, descrente. — Tem certeza?
— Tenho pessoas que sabem do que estão falando, Ária. — Natália orgulha-
se. — A menos que você seja horrível em rede nacional e faça algo... Bem,
imperdoável. Se continuar na linha, seus seguidores não vão mais cair e
apenas crescer. Seu vídeo cantando na praça tá bombando, também. As
pessoas te adoram! E ainda acho que três semanas é tarde demais, você
deve bater um milhão de seguidores já na próxima semana.
— Mas é melhor fazermos a festa apenas quando chegarmos nessa marca,
não quero ser o tipo de pessoa que comemora antes de vencer.
— É justo — confirma. — Mas o que você acha? Três semanas está bom?
Ou quer mais cedo ou mais tarde?
Minha família entende de festas, sou uma pessoa expert no assunto, mas a
vantagem de ter uma ricaça cuidando disto para você é que não precisa se
preocupar com nada. E é isso que vim fazendo desde que voltei do feriadão,
não me preocupar com nada além de mim, da banda e meus estudos.
— Três semanas. — Bato o martelo. — É melhor assim.
— Ok... e eu posso... hm... cuidar de tudo, né?
Parte de mim já entendeu que Natália gosta de estar no comando, mandando
e desmandando. Não tem porque me ocupar com mais uma tarefa na minha
vida.
— Sim, claro que pode!
— Perfeito! — comemora, realizada. — Deixa que eu resolvo tudo, lista de
convidados, músicas, tema... Sério, será um prazer fazer isso por você, Ária.
Estabelecer um milhão seguidores é um marco para garantir que continue
crescendo.
— É... deve ser, sim.
— Outro ponto, querida. — Decide e, desta vez, não parece mais tão
atenciosa assim. — É sobre Clarissa. Eu sei que vocês andam passando
muito tempo juntas ultimamente.
Com sua frase, flashes sexuais da filha dela comigo invadem a minha
memória. Ontem à noite nos trancamos em um banheiro na boate e apenas
saímos de lá quando bateram enfurecidas na porta.
Ou seja, duas horas e meia depois que entramos lá. E não apenas memórias
sensuais se projetam na minha mente, momentos fofinhos que passamos
juntas nos últimos dias, também.
Beijos e abraços de boa noite, passos ridículos que testamos na pista de
dança e o momento exato em que meus pais convidaram Clarissa para comer
pizza e pastel conosco, sexta passada.
Anteontem, ainda na sexta, passamos a noite toda com os meus pais, em um
merecido dia de folga. Eles adoram Clarissa, um sentimento que é
igualmente recíproco.
— Sim. E daí?
— Conseguiu algo?
— Tipo o quê?
— Conseguiu entendê-la?
Paro de separar os produtos e coloco a mão vaga na cintura, refletindo. Não
tem o que fazer mais, é ridículo mentir que não a conheço, não quando vivo
perto dela.
— Olha, Natália — começo, paciente. — Acho que chegou o momento de
perguntar o que Clarissa quer de você. Sem ofensas, é claro. Mas o ocorrido
no jantar em São Paulo serviu para algo, não?
— sacramento. — Tá nos jornais. É só ver... as pessoas sabem o que houve,
mesmo que tenham fingindo esquecer. Então...
Nota mental, maneiras toscas de morrer; dar uma alfinetada na primeira-
dama da sua cidade.
— Compreendo. — Ela demora muito para continuar a falar.
— Isso é mais uma das suas respostas que significa que ainda não são
amigas?
— Somos colegas — minto. — Já é um avanço.
Natália passa algum tempo pensando, talvez refletindo, mas não diz mais
nada.
— Vou desligar — avisa. — Precisa de algo, Ária? Sei que deve ter sido
horrível ter nos acompanhado naquela viagem, entendo por que voltou mais
cedo para casa.
Nunca fiz isso antes. Normalmente quando Natália mostra-se prestativa,
desconverso ou apenas aceito uma mísera ajuda, mas agora é diferente.
Agora sei que posso me deleitar das ações dos pais de Clarissa, unicamente
pelo prazer de ser bancada por alguém.
— Estava pensando em fazer umas comprinhas — volto a mentir. Começo a
planejar um texto diferente, algo mais convincente.
— Se quero ser vista, preciso estar apresentável.
Se eu fosse uma empresária de mais de cinquenta anos, multi-talentosa e
inteligente, jamais teria acreditado em tanta baboseira na vida, vindo de uma
atriz musicista desempregada com menos de vinte e dois. Visto que, com
meus seguidores e algumas campanhas para a Tulipe Tulipe, consigo uma
boa grana por semana.
Bem mais do que um dia já consegui.
— Tem razão — concorda, sem hesitar. — Vou transferir alguma coisa, não
se preocupe.
Ainda que uma parte dela não acredite em mim, há uma parcela que quer me
recompensar pelos segundos terríveis na presença dos Plume, naquele jantar
tenebroso. Quero dizer, para eles foi horrendo, para mim foi sensacional.
Sem mais delongas, me despeço dela, ouvindo o som desolador da chamada
finalizada. Desgrudo o celular da orelha, aguardando com calma e muita
paciência o dinheiro ser transferido para a minha conta.
E realmente acontece. Bem ali. Em grandes letrinhas e números.
Mais de doze mil reais.
Em uma tacada só.
Ergo as sobrancelhas, assustada com os números se materializando,
somando aos reais que já tinha na minha conta corrente. Não sei se tenho
coragem de gastar tudo isso com roupas, visto que não preciso de mais do
que já tenho.
Apavorada, mas tentando fingir costume, travo o meu celular e volto a lavar
a roupa.
É melhor assim.
33
“Não quero ouvir, não Faça do jeito que pedi Tudo o que eu quero é
acertar.”
O Lado Horrendo de Se Estar Certa — Canção de Liz Salles ALERTA
DE TEMPESTADE!
Chuvas violentas estão previstas para atingir a área metropolitana de São
Palomane , fique atento para as recomendações da prefeitura.
Postado por PalomaneReal — Beleza, você faz faculdade de música, isso
eu entendi, mas ainda não te vi tocando nada.
Solto o ar pelo nariz, rindo fraco ao ouvir o que Vini diz. Fecho o livro e me
aconchego para o lado, para que divida a cadeira comigo.
A biblioteca da Torrietili Torres está cheia. Cheia não, lotada. A maioria dos
estudantes foi pego por uma chuva repentina do lado de fora, e a outra
parcela apenas usa a biblioteca para estudar. A real função do ambiente.
Ele senta-se ao meu lado, ocupando a esfera direita do assento.
— Só peguei as matérias teóricas nesse semestre — respondo, esbarrando o
meu ombro no dele.
— Por quê? — Entorta a boca, indignado. — Você se odeia?
— Às vezes — brinco. — E você, por que escolheu o seu curso?
— Precisava pensar em algo que não fosse festas. Queria uma
responsabilidade. — Vinícius analisa a capa do meu livro. — Vamos fazer o
quê hoje de tarde?
Diante de nós, meu velho notebook está aberto na página principal da
faculdade. A aba de disciplinas em destaque me incomoda como um todo,
mas não sei dizer o motivo.
Respondo que não sei o que farei hoje de tarde e, então, Vini começa
oferecer opções, como irmos até o shopping ou ir para sua casa matar o
tempo comendo besteira. Porém, não me concentro na conversa, não quando
um símbolo de divergência surge na tela principal, avisando-me de uma
ocorrência importante.
— Ah, verdade. Quase me esqueci! — Vini diz. — Trouxe isso para você!
Clico na mensagem, abrindo-a.
O garoto ao meu lado, no entanto, coloca um pequeno embrulho na minha
frente. Reconheço que se trata de uma caixa da confeitaria mais cara e
requisitada da cidade, um lugar especializado em donuts festivos e
temáticos. Não sei no que prestar atenção primeiro, no aviso ou no presente.
Abro primeiro a caixa rosa-flamingo, que traz uma coleção de quatro donuts
de sabores diferentes. Torta de limão, red-velvet, a clássica com granulados
coloridos e uma de chocolate derretido.
— Vini, eu...
— Passei hoje mais cedo por lá. De alguma forma, eu consigo passe-livre
nos lugares.
É uma ironia, uma vez que toda a cidade reconhece seu rosto.
Desnorteada pelo presente repentino, não me orgulho em dizer que deixo
Vini falando sozinho enquanto me preocupo com o aviso que mal consigo
ler. Respiro fundo algumas vezes e amplio as letrinhas miúdas, finalmente
lendo.
“Cara Ária Campos, Sua prova extra está anexada na Área do Aluno,
acesse o quanto antes...”
Prova extra?
Enviei e fiz todas as pendências possíveis antes de ir para São Paulo.
Eu lembro!
Continuo a ler, com pressa. Repasso pelas linhas com fervor, entendendo que
uma prova minha não foi concluída de maneira satisfatória e foi, justamente,
na matéria de História da Música.
Ensinamentos Artísticos e Barrocos está ok, História da Música do Brasil e
nas Américas também. O resto é marcado com um selo verde-neon,
indicando que posso seguir em paz. Esta é a única que me impede de
permanecer tranquila.
— Vini! — interrompo-o, urgência. Fecho a tampa do notebook, empilho os
meus livros um em cima do outro, coloco a alça da mochila em apenas um
ombro e pego a caixa de donuts também. — Preciso mesmo ir! Foi mal, a
gente se fala mais tarde! — falo tudo com muita pressa. — Valeu pelos
doces, prometo te recompensar com algumas balas de iogurte — faço piada,
mas abaixo-me para beijar sua bochecha.
— Mas que porra... — confuso porque pausei seu diálogo solitário, sua
expressão se torna vaga. — Perdi algo?!
— Acho que fui eu que perdi!
Aperto o passo, pedindo licença aos alunos molhados e úmidos que se
amontoam pelos corredores da biblioteca.
Se eu bem me lembro, a sala do meu professor de História da Música é no
sétimo andar, posso tirar a minha dúvida pessoalmente.
E espero que seja apenas um mal entendido.
Paulo, um senhor de idade de cabelos brancos e rabo de cavalo, nem sequer
olha para mim quando diz: — Você deveria ter feito a prova de recuperação
no feriado, não apareceu, então zerei. O sistema não permite reprovação ou
DP, sem antes uma tentativa de prova extra...
— Mas... — Seguro muitos livros, um notebook e uma caixa de doces, mal
consigo pensar em suas palavras. — Tem certeza? Eu lembro de ter feito a
prova na quinta, alguns dias antes da minha viagem.
A chuva parece acompanhar o meu humor, porque uma ventania atípica
começou da forma mais desesperada e assustadora possível. Algumas
árvores sofrem com a força do vento e a luz por todo o prédio vacila de vez
em quando, ameaçando apagar-se permanentemente.
— Sim, você fez — confirma, impassível. — Mas não atingiu a média
necessária, ofereci a prova de recuperação no feriadão. Avisei pela Área do
Aluno e por ligação.
— Pois eu não sabia! — choramingo, aflita. — Eu... eu não recebi ligação
alguma.
— A ligação é automática, é feita pelo sistema. Eles usam o telefone
cadastrado na matrícula.
Ainda sem me dar um pingo de sua atenção ou empatia, preciso pensar
sozinha em qual dos números a reitoria me informou.
Penso no celular do meu pai, mas é tão ridiculamente infantil, que não há
possibilidade de ter sido ele.
— É a primeira matrícula? Ou a segunda matrícula?
Paulo inspira, entediado.
— Faz diferença?
— Eu voltei pra cá, na verdade. Tranquei e destranquei — explico, em um
breve resumo. — Então, sim, faz.
— Certo, então foi na primeira matrícula.
Antes de trancar o curso, lembro que coloquei meu número de celular da
época e o da casa dos meus pais para emergências. Ou foi ao contrário? O da
casa dos meus pais sendo o principal ou o meu ficando em segundo plano?
— Bom — chamo sua atenção —, mesmo assim, não tem como aplicar uma
prova extra se a recuperação não foi feita. E se eu não respondi ao primeiro
chamado, como...
— Quem disse que não?
É a primeira vez que o professor encara-me, e é estampado em suas linhas
faciais que estou o perturbando.
— Como é?
— Quem disse que você não estava ciente?
— Ora? — resmungo. — Eu estou dizendo agora!
Professor Paulo junta as mãos no centro da mesa, aborrecido.
— Ária — pontua, impaciente, mas não sendo rude. — A prova foi liberada
porque todos os alunos confirmaram o recebimento da ligação. Se está no
sistema, você atendeu a chamada!
— Mas é isso o que estou falando, não sei de chamada alguma!
— Então, alguém respondeu por você! — define, agora sendo hostil. — Não
sei se é uma tentativa de ganhar tempo, mas preciso da sua prova extra até
quarta-feira.
Há uma ligeira ameaça em seu tom de voz, mas o desespero já não me
apetece mais. Não quando entendo o motivo da ligação.
Se eu não estava lá para receber, alguém estava.
E a única pessoa em quem penso não é uma boa alternativa.
— Pode repetir... novamente que dia a ligação foi feita?
Paulo arfa, cansado.
— Foi alguns dias antes do feriadão. Dois ou três.
— Certo, obrigada. — Forço um sorriso. — Isso não vai se repetir,
professor.
Coloco a mochila em cima do balcão, a nova leva de drinques de limão
acabou de chegar. A nova marca custa uma fortuna no mercado, mas se há
bons fornecedores e um mercado atacadista por perto, meus pais até que
economizaram uma boa grana.
Seguindo o fluxo de vozes no clube, caminho devagar ao perceber que Bete
e Reinaldo conversam com uma terceira pessoa.
Mas não é a minha irmã ou ninguém costumeiro.
Ultrapasso os limites do palco e ouço melhor.
Atrás das cortinas do velho camarim, da época em que contratávamos
artistas circenses para se apresentar aqui no clube, está Clarissa, sentada na
poltrona principal, rindo de se acabar ao lado dos meus pais. Os três estão
segurando panos laranjas, tirando o pó dos móveis.
Como o piercing no septo da herdeira está visível, quer dizer que se sente
confortável perto dos meus pais.
— Reabrimos o camarim? — pergunto, tentando manter o bom humor.
Prego um susto em cada um deles, levando xingamentos como respostas.
— Vai assustar a sua mãe! — Bete define, jogando um dos panos em mim.
— Você é sorrateira demais!
— Um dos dons que o ballet me ensinou — gabo-me, me apoiando no
batente. — O que vocês tão fazendo?
— Pensando em reabrir a ala dos artistas — é o meu pai que explica,
removendo uma caixa do caminho. — É uma boa ideia.
Grana extra.
— E você? — Aponto para Rissa, escondendo a vontade de sorrir. — Já
descobriu que os meus pais são os mais legais da família?
— Tipo isso! — A herdeira volta a ajudá-los, reunindo maquiagens vencidas
em uma gaveta. — Mas vim te buscar para a inauguração de uma loja no
centro. Minha mãe quer que marquemos presença por lá.
— É uma ótima ideia — declaro. — Mas não estou livre hoje.
Eu... hum... preciso estudar.
— Que pena — debocha, fazendo careta.
Demoro-me um pouco observando-a; o rabo de cavalo foi substituído por
um coque alto, mas ainda muito fixo no alto da cabeça. É impressionante o
magnetismo que Clarissa tem sobre mim.
— Vocês sabem cadê a Lili? Preciso falar com ela — questiono diretamente
para os meus pais.
— No escritório — indica Reinaldo, ainda sem me olhar. — Por quê?
— Nada.
Me despeço lentamente deles, prometendo que ajudo na limpeza assim que
possível. Sigo pelo corredor das coxias e termino de caminhar ao adentrar o
escritório principal do clube. Encontro Lilian atrás do computador, fazendo
anotações enquanto estuda e ouve música clássica para relaxar.
Com muita calma, entro no ambiente, fechando a porta delicadamente.
— Já chegou? — diz, retórica. Ainda digitando, completa: — Pensei em te
mandar uma mensagem para me trazer um café do...
— Por que não me avisou da prova de recuperação?
A interrupção faz Lilian retirar brevemente as íris do monitor para me fitar.
Seu silêncio se prolonga abraçado ao cinismo de nem ao menos tentar fingir
que estou criando um clima injusto entre nós.
Mas não faria isso. Artes cênicas nunca foi a sua vocação.
— Esqueci de avisar. — Simples assim, dá de ombros, continuando sua
tarefa. — E achei que tinha te avisado. Foi mal.
— Foi mal? — repito, me desencostando da porta. — Que tipo de desculpa é
essa, porra?
— Não é uma desculpa, na verdade — emenda. — É apenas “foi mal”.
Esqueci, Ária. — De relance, me encara de cima a baixo. — Supera.
— Preciso me dedicar em uma terceira prova e nas decisões finais no
próximo semestre, Lilian. — Me aproximo, espalmando as mãos na mesa.
— Sabe o que isso significa?
— Deveria saber?
— Você se importa comigo? Ou com as minhas coisas?
Seus dedos pausam no ar, sobre o teclado colorido que mamãe comprou no
Brás, na semana passada.
— Você quer que eu seja sincera? — pondera, afiada. Sinalizo com a cabeça.
— Não, não me importo com as merdas que você faz, Ária. Se queria ser
avisada sobre uma prova que é a sua obrigação, deveria ter contratado uma
secretária para isso.
Levo as frases para o lado pessoal e para todos os segundos em que passei
aturando algum chilique de Lilian aqui no clube.
Penso nas vezes em que pensei mais em seus sentimentos do que nos meus.
Não que minha irmã devesse ser agradecida, mas gostaria que ao menos
entendesse o meu lado.
É apenas uma prova, eu sei, porém, minha irmã faz parecer algo bem maior.
— É para sermos francas, então? — Direciono a minha atenção para Lilian.
— Ok, tudo bem. — Me desencosto da mesa e cruzo os braços. — Vamos
começar pelo fato de que você é uma pessoa desagradável apenas porque
quer. É mesquinha, mimada e só pensa em si mesma. Não consegue
estabelecer uma frequência simpática porque assim derreteria ou sei lá o que
aconteceria com você. Passou anos vendo nossa família precisando de ajuda
e estava mais preocupada com as amigas riquinhas do outro lado da cidade.
Que adivinha, Lilian, te substituíram na primeira oportunidade!
— Não me importo com elas!
— Se importa, sim — confirmo, amarga. — Se importa tanto que prefere se
esconder a encará-las de frente. Trabalhar aqui não é demérito, e os tempos
que passamos onde não precisávamos nos preocupar com nada já passaram.
É bom se acostumar!
— E por que eu faria isso? — devolve. — Não ganho nada aqui a não ser
dor de cabeça.
— Ganharia mais do que reclamações se pudesse se dedicar inteiramente.
Minha irmã mais velha sorri de lado, recosta-se na poltrona, inclinando-se
um pouco.
— E o que você ganhou, Ária? — retruca. — Além de um avental encardido
de gordura e clientes derramando bebida em você? — questiona. — Você
está onde está porque a Clarissa compartilhou a droga dos seus vídeos, se
não estivesse, estaria onde sempre esteve. Lavando pratos para ganhar uma
merreca. Se tivesse pensado mais em si mesma, ao menos estaria quase
terminando a faculdade. — Ela faz uma pausa, mexendo no cabelo.
— Eu estou. Me formo ano que vem, aliás. Irmã, há sacrifícios que não
precisamos fazer apenas para declararmos amor aos nossos pais. Eles que
quiseram ter filhos, eles que se virassem.
— Tudo o que você fez foi por amor, então?
— Por mim, é claro — define. Joga uma mecha de cabelo para de trás das
costas e continua: — Não tem muito o que fazer.
Estudar, pensar em mim, focar na minha carreira, é o máximo que posso
fazer para ajudá-los. Nossos pais jamais pediram a nossa ajuda, você quem
quis abdicar de tudo na sua vida porque achou que a responsabilidade era
sua, Ária.
Assinto, fiel, às suas palavras. Há um fundo de verdade que nunca deixei de
ignorar. Nossos pais nunca nos impediram de nada, nunca foi estabelecido
que viver e apenas trabalhar no clube fosse uma lei a ser seguida. Nada
disso, muito pelo contrário.
— É aí que você se engana — digo, analisando seu sorriso superior
desmanchar-se. — Sempre gostei de trabalhar aqui. Estar em contato com a
música e com o negócio que um dia pode ser meu jamais foi sacrifício
algum, Lilian. Você tem razão quando diz que, em diversas noites, gostaria
de estar em um lugar diferente deste, mas não pode pensar ou falar por mim.
— Tomo fôlego. — Mas já precisamos de você muitas vezes.
— Agora a culpa é minha?
— Não acho que haja uma culpada — afirmo. — Penso na possibilidade de
sermos pessoas que têm princípios diferentes. Você nunca esteve errada em
seguir em frente com o seu curso e nem eu quando decidi trancá-lo.
— Mas apenas uma pessoa é parabenizada aqui.
Há muito tempo, percebi que o escritório da minha mãe é o local mais
barulhento no clube; de frente para o beco, consigo ouvir o descarte da
pizzaria, as trocas de mercadoria de uma tabacaria, a avenida movimentada,
os gatos se digladiando e os carros que estacionam por perto eventualmente.
Agora, encarando-a de frente, ouço tudo e mais um pouco. Inclusive o meu
coração.
— Não vou falar o papo clichê de terem uma favorita ou não, porque nossos
pais se odiariam por isso. — Levanta a mão, pedindo calma. — Mas ainda
assim, há uma diferença.
— Não quero ser grossa — recito. — Mas não tenho nada a ver com isso. —
Espero um momento para complementar. — Não quando faz anos que você
não é legal comigo. Não quando insiste em me surpreender dia após dia com
uma inimizade que é insuportável para mim. Não quero que sejamos
melhores amigas e nem inseparáveis, não somos obrigadas a ser nada apenas
porque somos irmãs, mas uma boa convivência é o mínimo que se espera.
Você só começou a ser... suportável comigo, quando esse episódio com a
Clarissa começou. E olha que puxou o meu tapete em um desses momentos!
— Um tapete que você rapidamente pegou de volta ao conseguir a merda da
apresentação.
Sorrio.
— Sim. — Orgulho-me, coçando a nuca. — E não me arrependo.
— Não deveria — garante. — Você foi ótima. Tenho ressalvas à sua
apresentação, mas a sonoridade do piano me agradou.
Deslizo a minha mão da nuca, começando a coçar a minha testa.
— Tá vendo? — discorro, indignada. — Não consigo te entender. Uma hora
você me elogia, na outra, você me odeia.
— Não te odeio — recorre, simplória. — Só te acho irritante.
— Porque você é bem agradável, né?
— Na verdade, é porque realmente não me importo com o que você pensa
— diz. — Porém, às vezes sim.
Suspiro com toda a força do mundo, sentindo a minha cabeça girar.
Sento-me na cadeira mais próxima de mim e sei que estamos dentro
daqueles diálogos difíceis e espinhosos de se ter, mas necessários.
— Lilian — profiro, séria. — Eu também não te odeio. O fato é que talvez
eu queira que você... sei lá, reconhecesse o que faço aqui em casa.
— E eu reconheço! — brada, aflita. — Você comanda tudo aqui. As minhas
amigas preferiam ficar com você e os nossos pais também. Sempre que as
pessoas têm um problema, desabafam com você primeiro. Eu é que quero
que você reconheça as coisas que eu faço!
— Tipo...?
Cínica, Lili sorri, erguendo as mãos para listar seus feitos.
— Eu que convenci a mamãe a reformar metade do salão e trabalhei nas
finanças por dois meses até mostrar aos dois que podíamos abrir uma filial
em São Paulo. O papai tem fisioterapia toda terça-feira, e eu que levo. E a
nossa mãe precisa de companhia no consultório do dentista, porque detesta
esperar sozinha. Você pode até trabalhar duro internamente, mas
externamente, sou eu quem estou presente.
— Lili... — sopro. — Eu não fazia ideia!
— Não... não teria como saber, mesmo — lamenta, estremecendo os ombros.
— Nunca te conto nada e... nunca temos uma conversa decente por mais de
dois minutos.
Fico em total silêncio, absorvendo tudo que é despejado em mim. Todas as
vezes em que me dediquei a esta família, o clube estava envolvido. E talvez
não tivesse espaço para Lili.
— É difícil te entender, sabia? — Rio de nervoso, limpando a garganta.
— Me desculpe — diz, mas é uma frase tão baixa, que Lili precisa pigarrear
para repetir. — Me desculpa, Ária.
— Pelo o que exatamente?
— Por ser uma chata — completa. — Por não ter te entendido e por ter te
subestimado. Sempre pensei que você fazia as coisas porque gostava de ser o
centro das atenções, não porque pensava em todos nós.
Concordo com o queixo, quieta.
— Então me desculpa, Lilian — peço, suave. — Por não ter reconhecido o
que você também faz por nós e ter esquecido que você é uma Campos, então
sabe o que tá fazendo.
— Às vezes, não sei — confessa, engolindo em seco. — Mas... vou dar um
jeito.
Penso seriamente em todos os pontos e entendo bem mais o meu lado, talvez
seja inevitável. Vivo sob minha pele, compreendo meus anseios bem mais do
que qualquer outra pessoa. Contudo, reservo um tempo nas minhas reflexões
para ao menos tentar ouvir o que minha irmã tem a me dizer.
Certo. Ok. Beleza. Nada disso interfere diretamente no que sinto, o motivo
pelo qual vim aqui é outro — apesar de me interessar de pronto por esta
nova perspectiva.
— E não pense que não sinto orgulho de você. — Lilian emenda. — Você é
a Superestrela.
Rio pelo nariz, frouxa.
— Você tem um apelido? — quero saber. — Que nossos pais inventaram?
Ela franze a testa, confusa.
— Claro que sim! — resmunga. — Eles me chamam de Lilica.
— Nunca ouvi isso!
— Claro que não, você nunca tá por perto.
— Eu nem ao menos te conheço!
— Eu sinceramente não sei se você vai gostar de me conhecer.
— Eu quero — pontuo. — Para que não tenhamos uma conversa parecida no
futuro. Mas não posso querer sozinha, você também tem que deixar.
Como de praxe, Lilian quer parecer uma pessoa despreocupada, sem
sentimentos ou emoções, porque sobe e desce os ombros como se não desse
a mínima para a sugestão. Quando, no fundo, posso sentir que é um desejo
recíproco.
— Ok, então. — Me levanto da cadeira. — Sairemos assim que possível.
— É... — Faz charme. — Talvez... você possa conhecer o meu namorado...
um dia.
Sinalizo com o polegar.
De relance, olho para o teto, para o ponto em que encontrei a lagartixa que
talvez tenha escutado meu pedido ao universo. O
bichinho não está mais aqui, mas serve para aguçar a minha memória.
— Combinado — Lilian diz, quando já estou perto da porta.
— Combinado nada! — reclamo, rude. — Você vai falar com o meu
professor sobre o mal entendido e resolver esse negócio.
Termos nos resolvido não muda em nada que você foi uma babaca comigo.
— Ah — pragueja, revirando os olhos. — Tá bom!
— Se quer as minhas desculpas, vai ter que comprar meus chocolates
favoritos e me ajudar a estudar.
Irritada, dispara:
— Mais alguma coisa?
— Vai me emprestar seu casaco de pele falso para o próximo show da banda.
Lilian confirma com o polegar, sem discutir ou titubear.
— Acho bom — aviso.
Fora do escritório, levo a sério tudo o que me disse. Pois espero que também
compreenda o que falei.
É um breve acordo que estou ansiosa para cumprir.
34.01
“Você chegou até aqui De um jeito E sairá de outro Menina, abandone os
contos de fadas Todos eles morreram.”
Não Confie — Canção de Liz Salles ALERTA DE FOFOCA
FRESQUINHA NA ÁREA!
Nossa equipe investigativa está trabalhando duro para trazer uma exclusiva
quentinha para vocês.
Aguardem novidades!
Postado por MinutoGossip Liz Salles foi uma das primeiras artistas
brasileiras a recusar um Grammy Latino. Roberto Carlos vendeu mais de
100 milhões de discos. É possível que o livro “Daisy Jones & The Six” seja
baseado em uma banda real, a The Fleetwood Mac. Rod Stewart reuniu mais
de 4 milhões de pessoas em um único show em Copacabana, em 1993.
E, o meu favorito, Avril Lavigne morreu e foi substituída.
Ok. A última pauta não servirá como redação para o prof.
Paulo, mas seria uma boa tentativa.
Depois de assumir a próxima prova, decidi me abster de saídas noturnas ou
encontros com Rissa para estudar. Isso consiste em brincar com as minhas
lapiseiras e assistir vídeos do TikTok até me cansar e tentar ganhar uma sede
de conhecimento.
E o último tópico do estudo é encontrar um tema decente para uma redação
de duas mil palavras. Pode ser do que eu quiser, desde que seja um fato real,
que seja datado e computado, e que não flerte com ar conspiratórios. Ou
seja, Avril Lavigne está de fora.
RISSA: se você quiser, pode estudar aqui No meu quarto, ouvindo meu
disco favorito da Pink, me afundo na cadeira para mais uma pausa nos
estudos. Tentei o método Pomodoro uma vez, deu até certo, se eu não fosse
me interessar mais por bebês fofinhos espirrando na minha timeline.
ÁRIA: é perigoso. Com certeza não iria me concentrar RISSA: eu faria
questão que sim ÁRIA: eu sei, mas quero ficar em casa. quem sabe na
próxima?
RISSA: ok, pode ser!
Na língua da herdeira, ela se despediu de forma meiga e fofinha.
Afasto-me do aparelho, jogando em cima da colcha da minha cama. O som
da festa que acontece abaixo de mim estremece o piso do apartamento e até
seria um problema se eu já não estivesse acostumada com som alto, barulhos
horrendos e intermináveis xingamentos de clientes insatisfeitos.
E só paro de estudar mais uma vez porque preciso recolher o lixo da casa
inteira. O caminhão do lixo vai passar daqui a pouco.
Deixo a música tocando, mas bloqueio o notebook.
Começo pelo lixo do quarto, depois do banheiro e, por último, da cozinha.
Não saio sem antes pegar meu celular de novo, porque estou com a ideia de
mandar mais uma mensagem para Clarissa.
Da última vez em que esteve aqui, precisei me concentrar para não correr até
o meu quarto, recuperar a matéria que perdi no feriadão. Sinto que nem ao
menos lhe dei atenção direito e quero recompensar.
Refaço um caminho que não me jogue direto no salão de festa. Hoje é a
Noite das Profissões e não quero topar com três policiais. Pessoas vestidas
de autoridade levam a fantasia a sério demais.
Pelos fundos, chego ao beco em cinco minutos. Jogo todo o meu lixo em
uma caçamba aberta e afasto os gatos curiosos, abanando as mãos pelo ar.
Antes que eu entre, contudo, meu celular apita.
Um gato mia ao mesmo tempo, furioso com a minha aparição.
Clico na notificação do e-mail.
“ÁRIA CAMPOS, vamos negociar?”
Toda e qualquer ideia que uma pessoa desconhecida terá para tirar sua paz,
ela o fará. Não importa se é sábado à noite ou se sequer me conhecem. Há
meses, fui convidada para revistas e jornais; agora, parece que estou sendo
chantageada.
Não há links anexados e nem uma linguagem passiva-agressiva, é apenas
uma breve mensagem com dados de transferências falsos, mas vingados,
para que eu pague por um silêncio ardiloso que, no fundo, não vale de nada.
As fotos compactadas, com uma marca d’água de uma revista famosa, é a
única coisa além que cabe no e-mail. Nas imagens, apareço abraçada com
Clarissa, segurando seu ombro ao agradecer a plateia do Corações &
Flechas.
Minha maquiagem, borrada como a das outras integrantes, é o principal
destaque, principalmente porque na imagem seguinte estou beijando Clarissa
Plume.
É um novo cenário. Reconheço que é o estacionamento do parque da cidade,
quando decidimos fugir de seus familiares. A imagem é péssima, pixelada
de maneira horrorosa, mas não sei se é proposital.
O gato raivoso para, sentado, me encarando com os olhinhos semicerrados.
Se eu não sair daqui em dois segundos, provavelmente me atacará com todo
o seu ser, mas se eu for inteligente, me salvarei desta.
Transfira X valor para a conta indicada. Seja discreta e
sucinta, é simples acabar com isso. Caso se recuse, as fotos
estarão em todos os canais da imprensa em menos de um
clique. Ao total, dois segundos é o suficiente
Não há nada que me aterrorize mais do que sustos espontâneos em filmes de
terror. A imagem sangrenta de uma mulher na floresta, fãs de super-heróis
que detestam mudanças e pessoas sendo retiradas de sua zona de conforto
apenas porque outra pessoa decidiu que sim.
Sejamos sinceros, a mídia deve saber com quem Clarissa namora ou anda há
dezenas de anos. A privacidade neste meio é comprada, e com o dinheiro
certo, completamente silenciada. Por mim e pela pessoa que sou, não me
importo que nenhuma dessas imagens chegue ao público.
Gostaria que as pessoas soubessem que estou à frente de uma banda
sensacional, e que a pessoa mais intrigante que tive o azar de conhecer é
também a que preenche meus pensamentos há tempos.
Que mal tem nisso?
Para uma pessoa despreocupada, uma ameaça é apenas um jogo de palavras
insignificante.
Não é por mim ou pelo meu ego que transfiro tudo o que tenho guardado
para calar a boca de miseráveis que ganham a vida desta forma. Na semana
que vem, se não for cautelosa, receberei um e-mail parecido.
Também não posso deixar de notar como o nervosismo só ganhará espaço no
meu corpo quando resolver parcialmente o que me aflige. Agora, em um
beco, pareço madura, controlada e muito direta. Mas sinto vontade de
esgoelar, xingar e ameaçar de volta.
É por Clarissa que termino a transferência.
E é pela banda que envio o comprovante de pagamento; as mãos trêmulas, a
garganta seca, a vontade insana de estabelecer limites com pessoas que não
jogam para perder.
É assim que funciona, não é?
Dançar conforme a música possui um preço. Esqueceram-me de dizer que
custaria tudo o que eu tinha.
ALARME FALSO!
Calma, pessoal.
Infelizmente, a fofoca não foi para frente.
Que pena!
Mas seguimos de olho, hein. Sempre é hora de conseguirmos um pouquinho
mais de informações. Afinal, uma fofoca só é uma fofoca quando se mantém
secreta.
Postado por MinutoGossip
34.02
SÃO PALOMANE EM ESTADO DE ALERTA A temporada de chuvas,
oficialmente, começou.
Postado por PalomaneReal — Você fez o quê?
A bronca que Majuri Mahar me dará daqui a pouco não é nada comparado à
bota que acabei de destruir em uma poça de lama. O
par de sapato era o meu favorito, e se eu tivesse visto direito onde estava
pisando, lá fora, no meio de uma chuvarada, talvez minhas botas estivessem
inteiras uma hora dessas.
— Você já reparou como anda chovendo muito, ultimamente?
— desconverso de propósito, retirando par por par. Minhas meias estão
encharcadas também. — Quase toda semana tem tempestade, isso é de se
admirar, hein?
— É sério, Ária. — Majuri fala, irritada. — Você fez isso mesmo?
Na saleta de estudos, na faculdade, cada uma das integrantes me encara em
silêncio. É difícil saber o que pensam, especialmente porque ainda não
entendi se Majuri está brava ou preocupada. Vini é o único que parece se
divertir com as minhas botas destruídas.
— Sim, eu fiz — falo. — Paguei na hora. Foi no domingo e ao menos
funcionou, porque hoje é segunda-feira e nenhuma foto vazou.
— Até rimou! — Diana tenta ajudar, mas recebe um olhar de censura de
Rafa, retraindo os ombros em seguida. — Foi mal.
— Fala de novo como foi — Majuri pede, ressaltando sua frase com as mãos
esticadas. — Só pra eu entender melhor.
Conto tudo de novo, da mesma forma que narrei assim que pedi que nos
encontrássemos para uma reunião. Falei do valor que pediram e do que
enviei, das fotos — mas não o conteúdo extra envolvendo Clarissa e eu —,
falo apenas o básico do que precisam saber para entender que foi um e-mail
indelicado e grave de se receber.
— Você deveria ter falado com a gente! — Rafa argumenta, ansiosa.
— Para exatamente o quê? — Me sento em cima de uma mesa e retiro as
minhas meias. Ficarei com um chulé lascado depois. — Se eu ganhasse
tempo, é possível que as mães de vocês estivessem sabendo da banda neste
momento. E cada uma seria mandada para uma faculdade interna na Suíça!
— Você viu novelas demais — Vini acusa, ainda rindo de mim.
— Deveria ter falado com a gente — repete Majuri, muito insistente. — Nós
íamos resolver tudo.
— Não preciso que resolvam tudo se eu mesma poderia acabar com isso —
rebato. — Não quero ser hostil, Majuri, mas... na hora que você recebe... um
negócio daqueles, você não pensa muito. E tinha um gato bem bravo comigo
na hora, então eu tinha que sair de lá imediatamente.
De forma discreta, Clarissa ri da minha piadinha, mas volta para sua pose de
inabalável em seguida. É o suficiente para que eu pisque em sua direção,
charmosa.
— O que um gato tem a ver com isso? — Majuri choraminga de maneira
estressada.
— Nada, mas acho relevante falar pra vocês entenderem!
— E a gente entende — Diana elucida. — Na realidade, você fez o que todas
nós faríamos e já fizemos. — Um silêncio cúmplice se estabelece entre elas.
Incluindo Vini. — Majuri, quando o meu avô foi pego traindo a nona esposa
em um aeroporto, as fotos saíram em cinco minutos. Um desses e-mails
tinha ido para a caixa de spam e ele não viu. O PIX não caiu e a oitava
esposa descobriu os chifres.
— Sim, nós entendemos. — Rafa sorri de lado, porque a história com
fofocas políticas é sempre uma boa pedida para se ouvir. — Só queríamos
estar cientes. Podíamos ter ajudado. Os comentários no nosso Instagram,
fotos nossas, vídeos, áudios. Tudo isso nós conseguimos fazer sumir, Ária.
Sempre conseguimos!
Não respondo, porque tudo o que consigo pensar é na frase que Majuri
Mahar me disse quando conversamos sobre a banda, na primeira vez em que
nos encontramos. “A confidencialidade é sempre cercada em ordem quanto
se tem dinheiro.” E eu tive verba o bastante para manter bocas lacradas e
fotos anexadas.
— Ária. — Majuri me chama outra vez, ignorando as amigas.
— Tem um motivo para a banda se manter secreta. A gente recebe esse tipo
de mensagem o tempo todo, de pessoas tentando mandar pra mídia e
imprensa. Usamos o poder de mídia e alcance dos nossos pais, igual ao que
eles usam na campanha política. É assim que essas provas somem. A boate
não fala, porque temos um contrato de confidencialidade. Mas as outras
pessoas acabam sendo inevitáveis. Sabemos o que fazemos...
— Eu sei.
A minha frase, dita tão confiante em meio a tanto caos, desmonta Majuri em
dois segundos.
— Sabe?
— Claro que sei — resmungo. — Não tem como vocês serem reconhecidas
em todo o território nacional e um bando de desconhecidos manter segredo
apenas porque gostam da nossa banda! — brado, ética. — Não estamos no
final do filme da “Hannah Montana”.
Diana ri de novo de mim e do que eu falo, mas desta vez recebe um pedido
silencioso de Clarissa para ficar quieta. A herdeira abaixa o rosto e começa a
escrever na superfície de uma carteira, insegura.
— Eu imaginei que vocês pagariam, imaginei de verdade, mas... — Engulo
em seco, abrindo e fechando os olhos. — Na hora não pensei em nada. Até
imaginei que estava sendo fria ou centrada demais, mas...
Não consigo completar a frase, porque o sentimento de impotência é
realmente uma megera. Uma hora eu sabia que as coisas sairiam dos trilhos,
porém, por alguns instantes pressenti que poderia ser como elas. Como
Diana, Clarissa, Rafa ou Majuri. Ser inalcançável. Invencível. Imbatível.
Uma pessoa que as outras não vão querer mexer ou enfrentar.
Vejo Clarissa escrever novamente — e com aquele O
esquisito de volta, com o traço logo abaixo da escritura.
Vendo agora, há um motivo para que as fotos tenham sido enviadas para
mim primeiro: sou a mais fraca. O membro mais óbvio de cometer gafes e
vazar informações cruciais para um escândalo.
Nada meu será grande o suficiente para intimidá-las, mas pontos importantes
de suas vidas podem ser transformados em um jogo político de uma
campanha eleitoral suja o suficiente para falar sobre maus comportamentos.
Aqui, neste país, vale tudo.
Até normalizar crimes de privacidade para conseguir um voto a mais.
— Então, você pagou? — Mais calma, Majuri sussurra.
— Paguei.
— Da próxima vez, porque sempre tem próximas, pode falar com a gente,
tá? — Majuri se aproxima de mim, pousando a mão no meu ombro. — A
gente tá acostumada com essas merdas, Ária. Faz parte do nosso dia a dia.
— Ri, sem jeito. — Por mais assustador que isso pareça.
— Relaxa — peço, dando batidas em suas mãos. — Foi pela gente, também.
Não quero que façam com que a banda seja uma parte ainda mais escondida
de nós.
— Você sabe que a gente faria o mesmo por você, né? — Rafa interfere,
preocupada. — Porque...
— Se vocês estão pensando em pagar de volta, fiquem tranquilas. Por
favor...
Diana troca um olhar com Vini, procurando resoluções que me façam aceitar
a grana de volta. Para elas, imagino que a taxação do que paguei seja apenas
uma bolsa de grife ou uma imagem em NFT
para uma coleção. Não que seja terrível, mas zombar delas na minha mente é
bem mais interessante do que dizer em voz alta.
E não me leve a mal, adoro cada uma delas, mas tirar com a cara de ricos é
um bom passatempo.
— Mas...
— É isso. — Termino a conversa. — Sem discussões. Da próxima vez, eu
aviso. Ou ao menos, vou tentar me lembrar disso.
O fato de ter pessoas interessadas em acabar com a minha paz é algo que não
havia refletido no domingo. E que passei o dia remoendo enquanto comia
alguns punhados de amendoins.
De repente, tudo o que eu faço ou deixo de fazer será um furo de
reportagem. E é possível que eu esteja ficando fora do eixo.
— Ária... — Majuri tenta.
— Sério, relaxa — falo, ainda mais firme. — Não quero nada de volta.
E não quero. Não me importo se for o dinheiro de Natália ou de algum outro
adulto sem noção. Não quero nada delas, por mais “interesseira” que eu seja.
— Eu preciso ir pra aula — avisa Diana, pegando sua mochila e se
levantando. — Mas ainda não terminamos essa conversa.
Vamos sair mais tarde pra comer alguma coisa, viu?
A garota para ao meu lado e aponta o dedo para mim, muito mandona.
Apenas assinto com a cabeça, sem coragem de negar um pedido de Diana
Pinhal. Rafa levanta-se da cadeira com ajuda de Vini e diz que estará
esperando por mim, seja-lá-onde-decidimos-comer hoje à noite.
— Vamos suspender os shows desse mês, ok? — Majuri indaga, buscando a
minha aprovação. — Só até a poeira baixar e decidirmos o que fazer.
Porra. Se eu soubesse que o último show seria, realmente, um dos últimos
teria aproveitado melhor. Porque agora não tem o que fazer a não ser aceitar
as circunstâncias.
Concordo sem dizer mais nada, usando do meu sorriso para indicar que
estou muito bem.
Majuri também vai embora, desculpando-se sobre o ocorrido e prometendo
que falará com a mãe, para saber o que podem fazer contra a revista.
Sozinha, fico com Clarissa, a única que não disse nada durante a reunião
inteira. Ela espera todos saírem ao fechar a porta da saleta, para assegurar
que teremos uma conversa particular.
— Nas fotos... — Clarissa coloca as mãos para trás do corpo, tímida. — Não
tinha apenas a banda, né? — Com sua pergunta, sacudo a cabeça em
negativa. — Imaginei. — Ela dá um passo para frente. — E você pagou...
tipo, tudo?
— Até mais — conto. — Raspei a minha conta inteira.
— Por quê?
— Imaginei que você não gostaria de ser exposta para São Palomane dessa
forma. A banda, até que não, mas entendi que as fotos não tratavam apenas
de nós duas.
A herdeira confirma ainda mais taciturna, abaixando o olhar para os pés.
— Já perdi as contas de quantas fotos parecidas precisei me livrar.
Arqueio uma sobrancelha.
— Você é assim tão solteira? — brinco.
— Até que não — evidencia. — Mas eles davam um jeito de tirar tudo do
contexto. E meus pais não fazem ideia, mas desconfiam.
— Então, eles não sabem?
— Sabem — garante de imediato. — Só fingem não saber. O
fato de não saberem com quem me casarei os deixa bem bravos, mas não me
importo muito. — Há uma pausa, onde a modelo se aproxima de mim. —
Não controlar nos mínimos detalhes é o que ferra tudo. Apesar de eu
desconfiar que não se importam relativamente com isso. Minha mãe
conheceu alguns namorados e namoradas, mas só. Até agora, não conheci
alguém que valesse a pena apresentar para eles.
— Ninguém?
Clarissa avança outro passo, um pouco mais tranquila, embora ainda haja um
traço forte e decisivo em seu rosto.
— As pessoas pelas quais me apaixonei nunca... entenderam o que era ser
filha deles. E isso foi um defeito. — Bem perto de mim, Clarissa encara-me
dentro dos olhos. — E eles não estavam errados. Já mantive relacionamentos
que duraram quatro anos às escondidas e simplesmente não resistiram.
— Só...
— Não só por causa dos meus pais. Toda essa exposição me... assustava. Me
assusta! — pontua, afetada. — Olha isso! A rapidez com que eles
conseguem fotos e capturar momentos perfeitos, transformando em
desastres. Seguem a gente e invadem uma área que deveria ser nossa. É
apavorante, Ária!
— Não pensei muito quando paguei — confidencio. — Pensei em você. E
nelas.
Devagar, segura minha mão na sua.
— Essa foi a coisa mais otária e bonita que alguém já fez por mim.
— O dinheiro não era meu.
— Era, se estava na sua conta, era seu! Você disse que raspou tudo —
intercala. De relance, vejo sua mão trilhar até sua bolsa transversal. — Só
me fala quanto foi.
— Ei. — Salto para fora da cadeira, descalça e sentindo o chão frio me
atingir como golpes afiados na sola dos pés. — Não quero seu dinheiro. Não
quero o dinheiro das meninas ou do seu irmão. Tá tudo bem! Só quero ajuda
para me recuperar desse susto.
— E eu entendo! — Clarissa também fica na defensiva, começando a
aprumar o tom de voz. — Só estou falando para pegar o dinheiro de volta.
Pode fazer falta e...
— Pode? — digo. — Com certeza vai fazer falta, mas não quero pensar
muito nisso agora, não.
— Por que você é tão teimosa? — devolve, rude. — É só aceitar!
Dependendo do valor, posso te pagar inteiro. Quanto foi? — Clarissa
aproxima-se, agitada. Está começando a ficar estressada.
— Cinquenta mil? Trinta? Isso aqui não é nada para mim...
A frase apenas morre aos poucos à medida que percebe o que disse. Até a
entonação muda, porque suas sobrancelhas suavizam, a boca tensiona e os
ombros curvam-se diante do corpo.
Não avanço nela, nem inflo uma briga tremenda sobre desigualdade ou
classes que não pertenço, apenas a olho, interessada no que virá a seguir.
Não quero uma faixa com mil agradecimentos ou abraços carinhosos. Fiz o
que fiz, talvez movida por uma pressão que nem sabia que sentiria. E talvez
porque não pensei sobre como famosos ou celebridades lidam com imagens
pessoais sendo dispostas a esmo por aí.
Também sei que a pessoa que as tirou não quis vazar nada.
Quando querem, publicam nas redes sociais sem pudor. Se não
fizeram nada, é porque acham mais vantajoso ter este contato comigo. Quem
sabe o que querem vasculhar por aí, até decidirem postar as imagens?
São muitas possibilidades e muitos personagens em diversos cenários. É
capaz de eu ficar horas pensando em motivos para explicar o que fiz. Mesmo
não encontrando uma resposta aceitável.
— Ária. — Ela tenta recorrer. — Desculpa, eu não queria falar isso. Só
escapou, porque...
— De boa, Clarissa. — Desvio dela, sentindo a minha garganta inflamar.
Peguei muita chuva nas últimas horas e é capaz de pegar um resfriado. —
Vou me encontrar com a Lili... para almoçar. A gente se vê mais tarde, tá
bom?
— Ária, espera aí — pede outra vez. — Eu só...
— Eu já sei — falo com prática — Mas... depois a gente se fala, ok? Com
calma.
Recolho as botas e as meias, apoio a minha mochila nos ombros e sorrio sem
mostrar os dentes.
— Não acho que ela disse por mal — Lilian argumenta, séria.
— Só saiu na hora, sabe?
— Sim — concordo, sem querer esticar o assunto. — Ela não me humilhou e
nem nada disso, só foi estranho.
Empurro a porta do clube para Lilian entrar primeiro; devoramos uma
casquinha de sorvete em conjunto, nossa tão merecida sobremesa depois do
almoço do bandejão da faculdade.
Hoje, tentamos uma coisa diferente. Ao invés de almoçarmos separadas,
decidimos nos conhecer. Isso aí, conhecer a pessoa que conheço há mais de
vinte anos.
— Mas não é lindo como rico pensa que pode resolver tudo com um cheque?
— Eu queria resolver tudo com um cheque — reconheço, limpando o canto
da minha boca. — Mas depois eu falo com ela, tá?
Convenhamos, Lilian não é a pessoa ideal para desabafar, visto que existem
bilhões de pessoas no mundo. Mas se queremos tentar essa coisa de nos
conectarmos, da forma mais singela possível, reconheço que posso tentar
falar disso com a minha irmã mais velha.
E até que funcionou.
Pelas duas horas que ficamos falando sobre nossos desastres amorosos, Lili
sequer me julgou ou me insultou, apenas me ouviu, ofereceu conselhos e
ainda me contou como conheceu o atual namorado, o Caio: foi nos
corredores da faculdade.
Ele trabalha com o pai em um posto de gasolina e pensa em se tornar
empresário do meio petrolífero. Tão chato e careta quando Lili gosta.
No clube, à mesa central, meus pais acenam para gente, mas voltam a
conversar entre si.
— Mas como você tá? — Lilian puxa assunto, jogando o guardanapo do
bolso para a cesta de lixo.
— Agora? — indago. — Me sinto insuficiente. Porque até então nem tinha
parado para pensar que não sou como as outras pessoas com quem ela saiu.
Nem tenho metade da grana.
— Mas tem um rostinho lindo! — Lilian diz, tentando alcançar a minha
bochecha. Dou um pequeno tapa na sua mão. — E a sua bunda não é tão
ruim, não.
— Não é tão ruim?! — Me contorço para ver a minha bunda diante do meu
ponto de vista. — Achei que ela fosse bonita. Peguei a maioria dos genes
Campos.
— Sim, pegou, mas a minha é melhor.
— Como um assunto sobre insuficiência se tornou sobre bundas?
— É a única maneira que encontrei para fazer a pauta se tornar sobre mim.
Lili pisca, e preciso de alguns segundos para tentar entender se isso foi uma
piada ou se realmente cansou de me ouvir falar de Clarissa.
Nós combinamos de irmos ao cinema, pegar uma promoção de dez reais de
ingresso na segunda-feira, mas a expressão nos rostos de meus pais me faz
cutucar Lilian. Se estivéssemos em chamas, sequer notariam, de tão
entretidos e preocupados que estão.
— Ei — chamo-os. — Tá tudo bem?
Não está nada bem, mas não custa perguntar, visto que mentirão
descaradamente.
— Não, não tá — Lilian me conta, se aproximando dos dois.
— Dei uma olhada nas últimas finanças e...
— Lilian! — Minha mãe a repreende. — Não precisa... não precisa falar
disso. De verdade, vamos resolver.
— Resolver o quê? — Sigo Lilian, parando atrás da cadeira de Reinaldo. —
E por que não posso saber?
— Eles não querem te estressar — Lilian diz, séria, prestes a revirar os
olhos. — Houve um incidente na filial de São Paulo, o seguro não vai cobrir,
porque ainda não enviaram a papelada. O
prejuízo é meio grande e os nossos pais não têm como pagar. Sem fundo de
garantia.
— Já falei, Lilica — Reinaldo exclama, impaciente. — Vamos dar um jeito.
Acabamos de pagar os empréstimos no banco, pedir mais um será fácil.
— Mais um? — Quase engasgo. — É tão ruim assim?
— Eles usaram os ganhos fixos para montar a filial, Ária — conta minha
irmã, analisando as contas e anotações que nossos pais fizeram. — Foi
arriscado, mas funcionou. Só que o fundo de emergências foi usado para
arrumar a porta da frente e conter as inundações previstas para os próximos
meses. E o resto, bem, as contas diárias ainda precisam ser pagas.
— De quanto... — Minha cabeça volta a girar com uma fraca tontura. — De
quanto mais ao menos vocês precisam?
— Não se preocupe, Ária — mamãe arrisca.
— É sério. De quanto precisam?
— Quase dezessete mil — responde Lilian, sem se importar com os olhares
de nossos pais. — É quinze, mas tem uma margem de erro que precisamos
levar em conta.
Quase o mesmo valor que...
Porra.
— E como recuperamos? — Afasto meus pensamentos para longe. — Dá
para fazer promoções? Dias de chopada?
Não tenho um tostão para ajudar, não há nada que possa segurar as pontas
até conquistarmos algo sólido. Há dinheiro para investir, dinheiro de
emergência, de poupança e lucros. Agora estamos em busca de lucros
externos, para pensarmos nos nossos bolsos de novo.
— Vamos pensar... — incentivo.
— Vamos... — entoa meu pai.
— Não precisa pegar a responsabilidade para você! — Minha mãe se levanta
da cadeira.
— Não, não preciso. Mas eu sou assim. — Tento me acalmar, mas não
funciona. Meu coração já ricocheteia dentro do peito. — Posso pegar uns
trabalhos extras com a Natália e focar no marketing digital nas redes sociais.
Funciona? — Busco aval em Lilian.
— Sim, pode funcionar, mas sejamos sinceros. A contenção de inundação já
está pronta, o que precisamos agora é fundo e garantia!
Lilian e eu trocamos um olhar, suspendendo as sobrancelhas.
— E podemos trabalhar nisso — declaramos em uníssono.
— A começar… — Procuro o avental mais perto de mim. — Hoje! —
anuncio. — Vamos logo, meus dias como garçonete acabaram de voltar.
35
“Eu sou assim Não adianta Acostume-se com isso.”
Fogo Alto — Canção de Liz Salles SÃO PALOMANE EM ESTADO DE
ALERTA A temporada de chuvas, oficialmente, começou.
Postado por PalomaneReal Vendo o último bolinho de baunilha da leva
fresquinha.
Os modelos na pausa de mais uma campanha para a Tulipe Tulipe me
agradecem com os olhos pelos docinhos que venho trazendo nos últimos
dias.
Na segunda-feira trouxe palha italiana; terça foi dia de fatias de bolo red-
velvet; quarta inovei com pedaços de banoffe e hoje, quinta, foi dia dos
bolinhos especiais de baunilha da dona Bete Campos, todos vendidos por
dois reais cada.
— Isso aqui tá muito bom — elogia Vini, de boca cheia, usando um roupão
que esconde metade do seu tronco nu. O ensaio de hoje é para um
iluminador dourado, translúcido. Consegui uma ponta na campanha, mas não
sou o rosto principal. Me rendeu quinhentos reais que já depositei na minha
conta. — Vai continuar a aparecer por aqui com esses doces?
— Sim. Amanhã é dia de bolo de chocolate, inclusive. — Abraço a cesta
vazia, satisfeita com as vendas.
Me dispus a ajudar o máximo possível com as últimas despesas. Isso inclui
não pensar tanto no dinheiro que perdi com aquele e-mail miserável. Mas
uma pessoa sem passar por um golpe não é uma pessoa brasileira. Já dizia o
ditado que eu mesma inventei para me fazer sentir melhor.
— Hum... — Deliciando-se com o bolinho, Vini já pensa no de amanhã. —
Já deixa uma fatia reservada para mim, por favor.
— Dois reais. — Estendo a mão para ele, cobrando. — Ou nada feito.
— Sou seu amigo!
— São negócios, Vinícius!
Contrariado, mas não tanto, Vini desliza uma nota azul-clara para o meu
bolso da frente. O jeans marca o dinheiro com o tecido pesado, mas fico feliz
por ter zerado tudo. As vendas na faculdade também estão indo bem, e é o
jeito que encontrei de ajudar integralmente além dos bicos no clube.
Colocando o meu rostinho nas redes sociais também ajuda, isso, é claro, se
eu mostrar que ando me divertindo.
O ensaio fotográfico de hoje é em um dos hotéis mais modernos de São
Palomane; não é o mais caro ou exclusivo, só é o mais recente e adaptado
com as novas tecnologias. Uma área de fundo branco foi montada no centro
do quarto escolhido, e os modelos brincam com os artigos do verão que se
aproxima.
Um verão fantasioso, uma vez que as nuvens no céu estão feias, cinzentas,
pesadas e hostis demais para um dia sequer vermos os raios solares da
próxima estação. Confesso que me enche um pouco de ansiedade, porque o
vento é quente, mas a sombra é fresca. É um clima confuso.
E vai chover de novo.
— Por que eu sinto que você tá trabalhando demais?
Quando termina de comer, Vini limpa os farelos ao redor da boca, sorrindo
na direção da maquiadora. Uma jovem serelepe que não para de sorrir para
os modelos, realizada em estar aqui. A moça termina de complementar a
maquiagem de Vini, nos deixando sozinhos.
— É impressão sua.
— Não, não é. — Vini fica sério de repente. — Sei que não é a melhor das
situações, Ária.
— Porque não é.
— Eu sei, mas... você é teimosa demais — profere. Abro um sorriso
pequeno, analisando as próximas modelos que se dispõem no fundo branco,
de biquínis minúsculos e peles brilhosas. — E não sei se te contaram isso
antes — cochicha, apoiando o polegar no meu queixo para olhá-lo melhor.
— Mas você não vai salvar todo mundo. Não importa o quanto tente, não vai
conseguir.
Quero fazer manha, me atirar no chão e gritar. Chorar que é mentira, tal qual
uma criança de cinco anos faria, mas sei que Vinícius tem razão. Há uma
semana, passo mais tempo na cozinha preparando docinhos para vender ao
lado da minha mãe, do que ensaiando, cantando ou tentando me resolver
com a irmã dele. Ainda não sentamos e conversamos.
Entretanto, não será um probleminha de comunicação que me fará desistir de
conversarmos com calma.
Talvez o meu mais novo dilema sim, outros assuntos não.
— Quer apostar? — desafio. — Quer apostar que eu vou salvar todo mundo?
— Não. — Ri, fazendo charme. — Não quero ver a minha amiga em
pedaços no chão porque não respeitou os sinais do próprio corpo. Estou
falando como amigo que você, Ária Campos, não é responsável por tudo e
todo mundo. Merece ter a sua vida, ao passo que é generosa ao ponto de
ajudar a família sem ver por onde.
Abraço com força a cesta.
— Tenho medo de voltarmos a passar por tempos sombrios — confesso,
bem baixo. — Por isso quero fazer o que posso para continuarmos onde
estamos.
— Não vão — fala, tão firme que parece uma promessa. — É
só uma fase, um probleminha. Não quero ser o “É fácil pra ele falar”, quero
ser o amigo que te puxa para o chão, ok? É o que eu posso fazer, Ária. E
farei.
— Eu entendo. — Afundo o meu rosto em seu peito. — Só que já faz parte
de mim. Às vezes nem percebo, já quero oferecer soluções, fórmulas, botar a
mão na massa!
— Vamos fazer um combinado? — Vini afaga o topo da minha cabeça,
carinhoso. — Hoje à noite, vamos sair. Você e eu. Sem compromisso com a
realidade e sem vendas de docinhos. E
amanhã, quando for vender as fatias de chocolate, vá descansar. Eu vendo e
repasso o dinheiro para você.
Levanto a cabeça, desconfiada.
— Isso não é um jeito que você arranjou de ficar mais perto das fatias de
chocolate, é? — pergunto, semicerrando os olhos. — Porque se você for o
único cliente de amanhã, Vinícius. Você vai ver só!
— Se tiver dinheiro, que diferença faz?
— Vini...
— Prometo vender pra mais gente se formos sair — negocia, sorrindo de
lado. — Anda, vamos sair! Abriu uma boate no bairro de Ponta Espada, se
chama Soho. Tô doido pra conhecer.
— Sem grana pra ingresso!
— Entrada de graça até meia-noite.
— E os drinques?
— Consigo permuta por ser o filho do prefeito. — E abre um sorriso sacana
e jovial. — Vamos? Quero que se divirta.
É uma boa ideia mesmo; posso pegar uma roupa emprestada dessas araras
espalhadas pela campanha e ser uma garota focada em música pop, danças
sensuais em postes espalhados por uma boate, por uma noite. Uma só.
— Feito — garanto.
— Maravilha! — comemora. — Porque aí você pode usar... — Vini segura a
minha cintura, usando-a para se afastar de mim. Ele corre na direção de uma
mesa que apoia milhares de garrafas de água da Voss, abaixa-se perto dos
pés do móvel e retira de lá uma caixa branca, voltando para perto de mim. —
Isso aqui. Você pode usar isso!
Meneio a minha cabeça para o lado, tentando encontrar o motivo de ganhar
outro presente. Meu aniversário é apenas ano que vem, e os últimos
acontecimentos não são motivo para festa.
— Outro presente? — Desanimada, não me desfaço da cesta para pegar a
caixa, tampouco mostro-me interessada nela. — Por quê?
Ainda sob o efeito de me presentear, Vini abre a tampa central,
desvencilhando o laço central e abrindo espaço no papel manteiga que
acolhe um par de botas novinhos. É bem parecido com o par que destruí
após pisar na lama — o que fez com que a sola se desfizesse feito papel nas
minhas mãos. O único diferencial, e o que me faz arregalar levemente os
olhos, é que as botas fazem parte de uma grife. Uma marca cara, requisitada
e importada, para combinar com os outros presentinhos que Vini anda me
dando.
— É da Cover Girl — informa. — Pesquisei e encontrei igual ao que você
perdeu. Pode usar hoje.
— Por quê? — murmuro, rouca e desconfortável.
— Porque vamos sair.
— Não. — Sacudo a cabeça. — Por que você anda me dando tanta coisa?
Sem saber o que responder, Vini fecha a caixa com um estampido, franzindo
as sobrancelhas.
— Porque somos amigos?
— Mais do que isso — argumento, passando a língua pelos lábios. — De
todos os presentes, o chaveiro é o que mais amo. Mas depois veio a roupa, o
presentinho que eu deveria ter dado para a Baby J. Os donuts, as caronas da
minha casa pra faculdade e essas botas que... porra, Vini, devem ter custado
uma nota!
— As caronas são legais, não me importo em dá-las!
— Você mora do outro lado da cidade, isso quer dizer que cruza a cidade
todos os dias só para me buscar.
— E daí?
— Comprou botas apenas porque as minhas estragaram?
— Você gosta delas!
— Mas não são artigos urgentes.
— Aonde você quer chegar com isso, Ária? — Vinícius coloca a caixa no
chão, cruzando os braços ao me desafiar para uma pequena discussão.
Não encontro motivos para ofendê-lo, não quando cuida tanto de mim.
— Posso te fazer uma pergunta? — Bem mais sóbria de pensamentos e
teorias, decido dizer.
— Pode — resmunga, a contragosto.
— Eu sou a única amiga que você tem?
Vinícius enche o peito para responder, me criticar ou revidar de uma maneira
grotesca, mas não tem coragem. Ou, ao menos, não encontra formas de se
defender, a não ser abaixar os ombros.
— Não que seja um problema, Vini, mas... — Forço um sorriso, para
mostrar que estou sendo séria e sentimental, mas ainda assim, sendo sua
amiga. — Se é para falarmos sobre mantermos os pés no chão, precisa saber
que não espero nada em troca, ok? Se eu sou sua amiga, se te aturo todos os
dias, é porque gosto de você.
Não precisa me dar presentes sempre que me vê, para fazer com que eu me
sinta interessada em te ter por perto.
Quando a frase finalmente sai da minha boca e faz círculos imaginários ao
redor de Vinícius, entendo como tudo faz sentido. No primeiro momento em
que decidimos ficar a sós, há meses, Vini apareceu com um carrão para me
levar pra casa. No dia que me ofereceu carona a primeira vez também.
De certa forma, Vinícius sempre quis me impressionar, com presentes,
carros, roupas, lugares e frases que garantiam sua personalidade interessante,
dando foco ao seu estilo de vida.
Quando pedi que fosse menos “colecionador de carros luxuosos”, apareceu à
minha porta com um modelo popular. Simples, prático e compacto.
Ao mínimo de desinteresse, Vini compensa com presentes.
Dados fora de época, ultrapassando a linha aceitável quando falamos de
linguagem de amor.
— Não posso suportar que pense que só seremos amigos contanto que me dê
todas as coisas que quero e todas as coisas que nem sei que quero, Vinícius.
— Cutuco sua barriga com o dedo. — Estou na sua vida porque te amo, cara.
O modelo vacila, apertando o roupão entre os dedos.
— Adoro as meninas — diz, envergonhado. — Mas você é a minha única
amiga.
— Você também é o meu único amigo — confesso. — Mas em comparação
há cinco meses, isso quer dizer que evoluí 100%.
Vini olha para os lados, tentando procurar uma forma de fugir da conversa,
ou se certificar que ninguém mais está olhando para cá.
Agora entendo a atração repentina que teve por Lilian, como Vini saltou de
possibilidade em possibilidade, só para se sentir desejável. Ou interessante.
Se soubesse que não precisa de nada disso...
— Pensei que você não fosse gostar de mim se eu não te mantivesse
entretida. E a maneira que encontrei foi com os presentes.
— E eu pensei que poderia resolver todos os problemas de quem eu amo me
colocando à frente de tudo.
Ele abre um sorriso lindo; a prova concreta de que merece todos os frutos
com a sua profissão.
— Merecemos sair hoje à noite, né? — Vini me abraça apertado pelo
pescoço. — Preciso beber e conhecer gente nova.
— E eu quero beber e relaxar. — O abraço de novo, deixando a cesta de
lado. — Combinado?
— Combinado!
— Então, me desculpa?
— Não precisa pedir desculpa. É como você disse... — Belisco sua barriga,
interrompendo o abraço para fugir dele. — Estou falando como amiga!
Vini não avança em mim, porque sabe que conseguiria me imobilizar para
me beliscar o quanto quisesse. Pelo contrário, decide pegar a caixa com o
par de botas do chão.
— Então posso devolver essas gracinhas aqui?
— Não! — urro, rápida. — Você comprou para mim. Seria um desperdício
sair hoje e não usar nenhuma!
— Assim que se fala.
Pelo alto da cabeça, Vini me puxa de novo para um abraço.
Só que, diferente das outras vezes, é um gesto silencioso, onde nossos medos
bobos são colocados para fora, mas acalentados e cuidados pelo poder de ter
um amigo de verdade por perto.
E é uma sorte tremenda ter conhecido Vini.
Espero que sinta o mesmo — pois sei que sente.
36
“Busco zelo, elo e lar Preciso de tudo o que encontrar Pelo longo e bonito
caminho do mar..”
Entre Arames – Canção de Liz Salles Estico as pernas para ostentar as
novas botas da Cover Girl, sacudindo-as.
Delineio cada centímetro dos calçados, um tanto quanto encantada. É em um
estilo padrão, alá Daphne Blake, de Scooby Doo, com saltos de plataforma.
De igual às outras que eu tinha, apenas a cor se assemelha: preta com
variações holográficas de vermelho. De resto, Vini apenas quis me comprar
um presente e ponto final.
— Vamos? — Me levanto de imediato do sofá e cutuco sua barriga, me
aproximando. Vini ainda se mantém de frente para o espelho, arrumando o
brinco na orelha. — Ou ainda temos que esperar você?
Ainda estamos no quarto de hotel da sessão de fotos. Sem câmeras, sem
fundos brancos, sem modelos de roupões e sem tubos de produto, o ambiente
revela-se ser apenas mais um quarto especial de um hotel chique.
Depois que nos resolvemos, fiquei o tempo todo por perto, gravando Vini e
sendo uma melhor amiga enxerida o suficiente para chamar a atenção. Meia-
hora depois do fim dos ensaios, Clarissa apareceu, se convidando para ir
com a gente até o Soho, a boate nova.
Não me cumprimentou quando chegou e desde então está sentada em um
sofá azul, mexendo no celular sem parar, com o rosto fechado, pensando em
desistir de sair conosco. É engraçado de certa forma, porque quero ver até
onde seu teatro falso de “Não ligo mais para você, Ária” vai. Não é divertido
até o literal da palavra, mas é interessante de se assistir, eu diria.
— Só mais um pouco — Vini avisa, me expulsando do banheiro. — E já
vamos!
— É melhor, mesmo. Não quero pegar a chuva!
Vejo seu rosto se concentrar em uma careta, pelo reflexo do espelho.
— Moramos aqui, Ária — argumenta, segurando a porta e ameaçando fechá-
la na minha cara se não recuar alguns passos. — É claro que vamos pegar
chuva. Se prepare para estrear suas botas novas.
E com um baque nada convidativo, Vini tranca-se, especialmente para
terminar de se arrumar sem a minha presença.
No quarto, Clarissa e eu somos as únicas arrumadas. Eu, porque peguei
emprestado as roupas de vitrine do ensaio, Clarissa porque vive arrumada.
O tempo todo.
De relance, fito-a de onde estou, pensando em ir até lá e usar do tempo hábil
para conversarmos, porém a herdeira não parece tão aberta assim. Sua
paciência se esgotou e é provável que voe no meu pescoço a qualquer
segundo.
Mas como gosto de irritá-la e ser motivo de seu pequeno estresse diário,
desfilo até ela, chamando atenção para o som das plataformas da bota contra
o piso e amaciando o tecido revelador da saia jeans que uso. Tudo dentro de
um estilo anos 70 que Liz Salles usaria também.
— E aí — cumprimento simplesmente, sentando-me ao seu lado. Clarissa
cheira a flores do campo e o perfume sofisticado é uma de suas fortes
marcas. O piercing no septo brilha contra a luz, bonito. — Tudo bem?
— Estou ocupada — rebate.
— Ocupada, é? — zombo. — Com o quê, exatamente?
— Combinei de encontrar uma pessoa hoje e ela quer saber se vou me
atrasar.
Tudo na frase é dito muito rápido, e nem Rissa acredita no que diz. Pelo o
que a conheço, detesta encontros rápidos e sem sentido, não dá confiança
para todas as pessoas, não importa quão bonitas sejam. É reservada, por isso
uma boate no bairro de Ponta Espada não é a melhor pedida para um
encontro com essa...
pessoa. Vai chover em breve, o que é apenas a cereja do bolo para finalizar
seu péssimo humor.
— Provavelmente vai. — Me recosto no sofá, tranquila. — Se depender da
demora do Vinícius, chegaremos amanhã.
— Possível — implica.
— E essa pessoa, conheceu onde?
— Te interessa?
— Pelo rumo da nossa conversa, vamos ficar brigando até parecer que
estamos em alguma novela adolescente? — provoco, inclinando a cabeça em
sua direção. — Porque se sim, saiba que eu sempre fui a Mia. Você pode ser
a Roberta se quiser.
— Não — resmunga, me levando a sério. — Eu quero ser a Mia.
— Que diferença faz? — critico, abrindo os braços. — Ok, eu posso ser a
Roberta, mas só se for a versão dela quando tinha aquele cabelo ondulado
por baby-liss e vermelho.
— E eu quero ser a Mia com a estrela na testa.
— E qual mais seria?
Finalmente consigo fazer Clarissa despencar com o meu charme de
piadinhas sem sentido e fora de hora e consigo fazê-la sorrir e largar o
telefone. Seu sorriso tímido e retraído colore todo o seu rosto que, antes de
eu aparecer, estava fechado e nebuloso.
Porém, quando percebe a minha tática — cada um trabalha com o que tem
—, logo desmancha o riso fraco, acusando-me com o olhar.
— Enfim. — Limpa a garganta. — Já entendi que você não quer mais me
ver.
— Quem disse isso?
— Hum... não precisa dizer, né, Ária. Sei ler as entrelinhas.
— Tá precisando de óculos.
— É sério. — Se ajeita no sofá, procurando uma boa posição.
— Já entendi que depois daquele dia, nós...
— Depois daquele dia o quê?
Com tédio e um pouco enfurecida por eu não estar entendendo nada, Rissa
me fita com as sobrancelhas erguidas.
— Você não falou mais comigo — diz, envergonhada.
Tudo parece tão roteirizado e comicamente indiscreto, que preciso me
segurar muito para não rir. É até fofo vê-la tão sem graça.
— Nem você. — Esbarro meu ombro no seu. Espantada com a minha
resposta, pois provavelmente não tinha pensado por este lado, Clarissa
inspira com força. — Nem por isso significa que terminamos ou... paramos
de ser... quem éramos. Foi apenas um desentendimento e te dei espaço para
pensarmos melhor sobre uma futura conversa. Isso não quer dizer que deixei
de gostar de você ou que te odeio.
— Não me odeia?
— Às vezes sim — confesso, ouvindo sua risada alta me contagiar o
suficiente para rir também. — Mas não hoje e nem amanhã. E
possivelmente, nem semana que vem.
Clarissa de La Plume pisca, fungando baixo. Há lágrimas descendo de suas
pálpebras, mas há um sorriso brilhante na boca decorada com batom
vermelho e matte.
— Eu gosto tanto de você, Ária — revela, entre choros e risos.
— E por que tá chorando? — Me aconchego para perto, acariciando suas
costas.
— Sei lá. — Funga outra vez, revirando os olhos. — Não é de tristeza.
— Ah, Rissa. — Beijo a lateral da sua testa. — Acho que você tá
emocionada!
— Nem brinca com uma coisa dessas. — Se levanta de supetão, abrindo as
gavetas dos móveis próximos. Encontra um pacote de lenço umedecido e
retira um, levando até a altura dos olhos. — Só... enfim...
Espero um tempinho para perguntar o que a minha curiosidade tanto me
desafia, até entender um pouco.
— Você pensou que... que eu... estava te ignorando e que não queria mais te
ver nem pintada de ouro?
Em resposta, dá de ombros, emburrada.
— Pintada de ouro, provavelmente sim, mas é que... — Sem jeito, ela encara
as próprias mãos, brincando com o pacote e o lenço.
— Acho que já deu para perceber que não sei lidar com... outras pessoas na
minha vida. E às vezes sinto demais, mas não sei expressar. Só pensei que...
tínhamos terminado.
— E quis sair por cima — completo, suave. Clarissa arqueia as
sobrancelhas, séria. — Com a pessoa que você supostamente encontraria
hoje à noite.
— Ah, sim. — Revira os olhos outra vez. — Ela não existe, a pessoa, no
caso. Inventei para... isso mesmo o que você disse, sair por cima. Não deixar
que você soubesse que eu estava mais chateada do que aparentava estar.
Com calma, segurando a minha vontade de rir, não porque acho ridículo ou
fútil, e sim porque é engraçado, me levanto do sofá.
Me sinto uma modelo da Semana da Moda, porque com as botas estou mais
alta e bem mais gostosa do que diariamente, e consigo fazer Clarissa me
analisar silenciosamente, talvez pensando a mesma coisa.
E como não poderia pensar nada dela também?
— Eu amo adorar você, Clarissa. Mesmo você escrevendo o O mais estranho
de todo o mundo!
— Meu O não é tão ruim assim.
— Aprendi a gostar dele!
O perfume me inebria, o pescoço em evidência implora para ser beijado, seu
corpo é bem mais simpático colado ao meu, dentro de um abraço forte.
Somos bem melhores amigas do que inimigas.
Todo mundo sabe disso.
Retiro com cuidado o pacote de lenço de suas mãos e entrelaço minha mão
na sua, sentindo o calor beijar as pontas gélidas dos meus próprios dedos.
— Vamos fazer assim — decido. — Se eu fizer algo que te irrite, me fale o
quanto antes.
— Detesto o som que você faz enquanto mastiga — retruca tão rápido, sem
nem ao menos pensar, que fico confusa. — Ué, você que disse.
— Tô falando caso brigarmos — elucido.
— Ah, sim. — Pisca as pálpebras, expulsando as lágrimas intrusas. — Pode
continuar, então.
— Você acabou com o meu discurso motivador! — acuso.
— Não quero ouvir discurso motivador — declara, irritada. — Quero saber
se você me desculpa! — fala alto. — Eu não quis mesmo dizer aquilo, me
expressei mal. Quis dizer que, quando se trata de você, nenhum preço é caro
demais para que eu pague ou arque com as consequências. Você é minha
amiga, uma das melhores que conheci nos últimos tempos. E, além de
amiga, é uma confidente que entende as coisas que eu falo e compreende o
meu silêncio. Fora todos os adjetivos de lealdade, é possível que seja a
minha...
Envergonhada como sempre, Rissa para de falar.
— Sua? — Curvo o meu rosto, seguindo o seu olhar, intrometida. — Sua o
quê?
— Amiga.
— Você já disse isso.
— Preciso falar mesmo?
— Não. — Sorrio, já entendi. — Pode continuar.
Clarissa suspira, forte.
— Só me desculpa, tá? — entoa. — Não soube como agir.
Não é sempre que uma pessoa raspa a conta inteira apenas para me proteger,
normalmente a pessoa venderia as fotos e ainda ficaria com o troco.
— Não sei que tipo de pessoas odiosas você namorou ou confiou, mas não
sou nenhuma delas. Mas entendo que seja difícil acreditar em alguém
fielmente de novo, por isso... — Coloco uma mecha de seu cabelo volumoso
para de trás da orelha. — Me desculpe por ter demorado tanto para uma
conversa. Pensei que fosse entender que eu precisava de mais tempo, e não
que estava te ignorando.
Clarissa aperta sua mão contra a minha, saltitante.
— Vocês já se resolveram? — grita Vini, do banheiro.
— Não! — berra Clarissa, de volta. — Ainda falta o beijo.
Contente pela conversa, Clarissa se aninha para perto de mim e fica na ponta
dos pés para me beijar, uma vez que a bota que uso nos diferencia em
questão de altura.
Sugo seus lábios com o gosto salgado das lágrimas e livro-a de qualquer
intenção de vê-la liberar um choro ressentido novamente. Talvez não fosse
por mim e, sim, por ela, mas Clarissa Plume aprenderá que não pode me
reprimir com os mesmos truques de sempre.
Truques estes que sempre usou para se defender, trancafiar os sentimentos
em uma jaula com cadeado após esconder a chave em um cofre.
Não sou essas pessoas e nunca serei, porque não preciso ser repelida.
Estarei bem aqui.
Por ela.
De todo o jeito, estamos atrasados.
O horário que marcamos para chegar à boate sem pagar a entrada já
terminou. Faz mais de três horas que o carro de Vini está preso no trânsito e
na chuva. Os carros ao lado são apenas pontos escuros com lâmpadas
grudadas na frente e na lateral da lataria.
Com os vidros abafados e embaçados, e pelo tempo em que estamos
confinados aqui, não dá para ver muita coisa.
Os refletores da avenida continuam ligados. Consigo escutar pessoas, as
mais corajosas, do lado de fora, aflitas, conversando entre si, com as janelas
abertas. Mesmo com a chuva acirrada, nenhuma delas se importa com a
quantidade de água que entrará em seus carros.
O sinal do meu celular morreu há pouco mais de uma hora e meia.
— O negócio tá feio — Vini é quem diz, apertando o volante entre os dedos,
pronto para avançar míseros centímetros se o veículo da frente conseguir
andar. — A gente tá aqui há quase três horas, e não andamos nada há mais
de uma.
— Nunca vi chover tanto — Clarissa comenta, impressionada.
Ela se aproxima da janela, tentando enxergar algo, mas é apenas água e
água. As gotas violentas se acumulando umas nas outras, amontoadas em
cada canto do carro. — Acho melhor voltarmos pra casa. Não tem clima
para festa.
— Nem isso consigo fazer. — Aponta Vini. Ele indica o GPS
com o dedo.
O caminho no visor está grifado em vermelho-escuro, alertando para o alto
risco de tempestade. A mensagem local é que as pessoas continuem em casa,
mas as outras que toparam com o azar ainda precisam enfrentar um tráfego
terrível de caminhões, ônibus, motos e carros.
Atrás de nós, consigo identificar a silhueta de um ônibus lotado de
passageiros, ansiosos para chegar em casa o quanto antes.
— Como tá aí? — pergunto, me apoiando no meio do banco deles. Sinalizo
para o guia do GPS. — Diz que sairemos daqui ou...?
Vini toca na tela, deslizando pelo mapa virtual, seguindo o trajeto marcado
pela linha vermelha. Toda a Avenida Constelação Leste está interditada, e
não há mudança significativa no trânsito.
— Nada — define, preocupado. — Agora tá começando a ficar estranho.
— Agora? — debocha Clarissa, mas é uma provocação leve.
— Tá tudo muito estranho, V.
— E o aplicativo? — quero saber. — Deveria tá funcionando, né.
Um aplicativo em testes foi disponibilizado em todas as lojas digitais quando
passamos por um período turbulento como este, há seis anos. Nunca passou
dos testes, nunca. E se estivesse funcionando, a tecnologia nos mostraria em
quais pontos da cidade o segmento das inundações continuaria crítico.
— Piada, né? — Vini ri sem humor. — Meu pai nem tentou fazer o
aplicativo funcionar, é nós por nós.
Levo isto como a resposta final.
Aproximo-me das janelas do banco traseiro, estico a manga do suéter até o
pulso, escondendo a mão. Repasso pelo vidro por inteiro, expulsando a
congestão da janela. O carro ao lado contém duas crianças com as mãos
esticadas na janela, pulando e dançando, mantendo-se entretidas em uma
situação tão delicada.
Mas logo o vidro embaça novamente, e preciso repetir o ritual três vezes até
enxergar a movimentação ao nosso redor.
Perto dos postes de luz, há uma vasta distribuição de água que resvale dos
bueiros, seguindo um fluxo anormal. Das grades do subsolo, a água encontra
caminho por entre os carros, encontrando-se em uma enxurrada que vem ao
contrário.
A força da água contra o carro de Vini é um verdadeiro baque, e somos
forçados para a frente, assustados. O alarme de um dos veículos é acionado,
os motoristas que conversam entram em total alerta, e o som da correnteza é
alarmante.
— Porra. — Vini se agita, da frente. Solta o volante com calma e abaixa o
vidro, não dando a mínima para as gotas violentas de chuva que salpicam o
rosto. — Tá enchendo aqui...
— Nem fodendo — sopra Clarissa.
É perda de esperança total, se o trânsito se movesse um pouquinho mais,
todos chegariam em casa a tempo de ficar quentinhos e seguros. Porém, não
queremos continuar aqui, não quando as recomendações são intensas quanto
a subestimar uma enchente.
Olho para o lado, o carro das crianças já se prepara para ser abandonado. O
ônibus atrás de nós se aproxima com o movimento poderoso do refluxo de
empurra-empurra. É questão de tempo para estarmos encurralados.
Não tem mais o que fazer ou pensar. É hora de agir com toda a calma que
ainda resta. Retiro as botas às pressas, enquanto Vini e Clarissa traçam o
melhor caminho para seguir em frente. Não é apenas o nosso compartimento
que se encontra em total desespero, todos ao nosso redor pensam rápido
antes que o pior aconteça.
Visto meus tênis, separo a minha bolsa e bato no vidro, para chamar a
atenção deles.
— Vamos — digo. — Não tem mais o que fazer aqui, não.
Os irmãos concordam entre si, prontos para ir.
Desfivelam o cinto e tentam abrir a porta. A força da água do lado de fora
me impede de sair, forte o suficiente para me manter no mesmo lugar. E não
é uma boa ideia forçar mais. Se a correnteza entrar de algum jeito no carro,
seremos prensados e levados o quanto antes. É o jeito mais fácil de
desaparecer no caos.
— Janela. — Mudo de ideia.
Abaixo o vidro o máximo que consigo; as gotículas impedem a minha visão,
e o poder da temperatura já adentra pelas roupas. A chuva é certeira ao
molhar todo o meu cabelo em poucos segundos do lado de fora.
Vini desliga tudo dentro do carro; o GPS, o motor e o ar-condicionado.
Com a janela totalmente aberta, me apoio nas aberturas laterais, conseguindo
sentar no parapeito. Com ajuda da mão, protejo meus olhos, verificando a
região. Há gritos, berros e ditados de proteção sendo declarados. A maioria
mantém a calma, mas a outra parcela é responsável por instalar o medo. E
não os culpo.
Uso a força dos braços para me apoiar na lataria e no teto, impulsionando o
resto do meu corpo para cima. A altura do fluxo constante já ultrapassa as
maçanetas do carro. Seguro a minha respiração, jogando-me com força no
teto. A respiração fria me presenteia com inúmeras pontadas no peito.
Ajudo Clarissa a ficar perto de mim, abraçando-a com toda a força que
tenho.
— Você tá bem? — Seguro seu rosto extremamente molhado.
— Tô sim — responde, ofegante. — E você?
— Sim, eu...
Nem o movimento de escorregar pelo vidro e pelo capô anima — e como
animaria? —, não quando sinto todo o carro deslizar por baixo de mim. O
lugar mais seguro que consigo avistar é uma concessionária de palmo alto
com extensões de apoio e contenção de água. Perto dela, na rua seguinte,
mais especificamente na esquina, um bar mantém a música alta conjunto ao
boteco.
Vai ter que servir.
Mantenho meus pertences dentro da bolsa, abraçada ao meu peito, porque a
água gelada, congestionada e suja já adentra cada poro do meu corpo. Ouço
Clarissa gemer e contorcer o rosto, prendendo-se ao meu corpo para
conseguirmos atravessar. Os demais motoristas fazem o mesmo e um a um,
nos conectamos com ombros e mãos, para reunirmos força até chegar ao
outro lado.
— Se tiver algum rato aqui ou pedaço de rato, você vai ver...
— E você vai fazer o quê, Clarissa? — grito por cima da barulheira. —
Processar o prefeito? Tenho uma notícia para te dar!
— O fato de ser filha dele pode facilitar o homicídio.
Não sei se é mórbido rir, então não rio, apenas seguro muito bem sua mão na
minha, porque o boteco ou a concessionária serão nossos centros seguros até
segunda ordem.
Alguns ilhados conseguem ficar onde dá; como perto do boteco. Já os mais
desenvoltos e ousados, conseguem ficar perto da rampa e da escadaria da
concessionária. Ao menos o toldo facilita a enxergar melhor. É alto o
suficiente para vermos a avenida pela metade.
— Tá tudo bem? — pergunto de novo para Clarissa, que está sentada abaixo
da tela de proteção, sentada.
A falsa sensação de estar quente é momentânea. Precisamos tirar essas
roupas o quanto antes e o clima de desespero que começa a se generalizar,
não é nada agradável.
Nada.
— Sim. — Tosse alto. — Cadê o Vinícius?
Quero apontar para a pessoa logo atrás de mim, mas não é ele. Não é Vini.
Mesmo que eu tenha jurado que Vinícius estava logo atrás de mim, não é ele.
Arrumo meus ombros de pronto, procurando pelas extensões de pessoas que
ainda estão lá, tentando aproximar-se de nós. De relance, ajudo uma
sequência de cinco pessoas que conseguem acessar a rampa, mas Vini? Não
há sinal dele por aqui.
Por cima dos ombros, tento procurar Vini, que não está em lugar algum.
Não tem como me aproximar mais da beirada da avenida, mas consigo ver
seu corpo esticado e em pé, no meio da inundação que se aproxima de seu
auge. Penso em gritar um palavrão, mas desisto ao perceber que Vinícius
segura uma das crianças do carro ao lado do que deixamos. Ajuda a mãe e as
garotinhas a saírem.
A pressão da correnteza faz com que os dois carros se interliguem pelo capô,
o nosso com o Jeep. O lugar mais alto é também o mais seguro. Porém, não
é certeza que deveremos ficar por aqui. Nada é realmente seguro agora. Nem
as sinalizações de segurança que andei aprendendo.
Manter a calma, desligar o carro, encontrar o local mais seguro e, em
hipótese alguma, ficar perto de postes ou árvores.
Vini as escolta para a rampa, encharcado.
— Vini — Clarissa segue até o irmão. Fico um pouco afastada deles, mas
ainda perto. — Não faz isso de novo. Que susto!
Ela também se agacha para se certificar que as crianças e a mãe estão bem.
— Calma, Rissa. — Ele a puxa para um abraço, sem se importar com nada.
— Tô aqui.
Vini me puxa para perto também; tanto pelo poder de um abraço em um
momento como esse quanto pela temperatura corporal que vamos precisar
agora. E muito.
Mesmo entrelaçada neles, observo tudo.
Os passageiros saindo às pressas do ônibus, o choro das crianças, os adultos
gritando que há desaparecidos e que o rio central da cidade transbordou há
três quilômetros daqui.
O limite não para de crescer, e os carros de se mover, aproximando-se cada
vez mais um do outro.
É uma boa situação para ajudar quem precisa; fechar os olhos, aguardar, agir
e pedir.
Ao menos para que acabe logo.
37
“Nós imploramos,
Nós fizemos acontecer.
Mas não foi o suficiente.”
Resultado Final – Canção de Liz Salles ÀS VÉSPERAS DO FIM DO
ANO, SÃO PALOMANE
AFUNDA!
A cidade da região metropolitana do estado passa por episódios de chuvas
violentas há anos. Autoridades afirmam que obras e melhorias foram feitas
ao longo das estadias de diferentes governos, mas que nenhum foi tão
descabido quanto o mandato de Batista de La Plume , que não apenas
faltou em algumas reuniões importantes sobre a Temporada de Tempestades,
como não ofereceu fundos tributários para a finalização das demais obras.
Postado por PalomaneReal Em 2003, nós perdemos uma Kombi em uma
inundação.
Era o carro da família.
O único meio de transporte particular que tivemos em anos.
O seguro cobriu o prejuízo, mas só as dores de cabeça que obtivemos com o
passar do tempo, dinheiro nenhum poderia ser ressarcido. São Palomane
sofre com temporais há anos, e é uma pena que tenhamos nos acostumado
com um algo que não deveria ser digerido com tanta facilidade.
Na escola, aprendemos regras básicas de sobrevivência, algo que nos
preparasse para o dia infortuno que poderíamos acabar ficando presos nas
pancadas de chuva.
Geralmente, quando a cidade é alagada, a prefeitura encaminha os cidadãos
mais afetados para um ginásio dentro do Estádio Internacional São Petras,
longe do tumulto central.
É onde a maioria recebe assistência médica e financeira, onde podem
encontrar um local seguro para entrar em contato com as famílias, fazer
reconhecimento de automóveis e procurar entes queridos que desapareceram
no pé-d’água.
Foi para onde fomos levados ontem à noite; ganhamos um cobertor em
nossas costas e um café expresso quente o bastante para energizar os ossos.
Nos deram alguns medicamentos simples, como aspirinas para a coriza e
xarope para tosse.
Fomos liberados antes do amanhecer. Meus pais nos buscaram com o acesso
por entre as vias exteriores, e o cenário que encontramos na volta para casa
foi quase apocalíptico.
Agora de manhã, que é quando conseguimos ver tudo melhor, que notamos
as árvores caídas, os galhos pontudos desmembramos e as folhas espalhadas
por toda a parte. Lama nos escanteios das calçadas e asfaltos desbotados de
barro. Tetos caíram e muros desabaram, bairros inteiros foram retirados às
pressas de suas casas. Comunidades foram evacuadas, e a cidade está em
alerta desde então.
— Ele não vai fazer nada.
Clarissa é muito pragmática no que diz, aninhada em um cobertor quentinho,
usando as minhas roupas casuais de ficar em casa. Seus olhos não se
esquivam da TV ligada nem por um segundo. Meus pais, na minha cozinha,
preparam um almoço reforçado e Vini, adormecido no sofá, respira
profundamente, aproveitando um sono dos deuses.
Ele foi a pessoa que mais se destacou entre o trio; ajudou mesmo cansado,
correu atrás de encontrar feridos na multidão e não deixou de ficar do nosso
lado, mesmo que precisasse de vez em quando. Vini merece dormir por
horas a fio.
— Tem certeza? — Eu, sentada na minha poltrona favorita, analiso-a. — É
diferente, não é? Foi a chuva mais violenta dos últimos dez anos.
— Ele não vai fazer nada — continua, cada vez mais séria. — Acredite em
mim.
Na televisão em um volume acima de quinze, o prefeito Batista dá uma
coletiva de imprensa neste exato momento. É em um palanque na frente de
sua casa, um dos poucos lugares que parece intacto na cidade inteira.
— Foi uma tragédia, foi isso o que aconteceu ontem à noite — diz, afetado
e com o semblante choroso. A pele branca do prefeito está envelhecida de
uma forma triste e enrugada, os lábios secos e grandes olheiras na pele
pálida. — É uma lástima que São Palomane esteja enfrentando um momento
como este. O número de desaparecidos não para de crescer e os hospitais
estão cheios.
Alguns pontos continuam com água até as bordas...
— Por que ele não fala uma coisa decente, hein? — Minha mãe, da cozinha,
briga com a TV. — Todo mundo sabe o que aconteceu! Nós queremos ação.
Mudança, seu babac...
— Farei o que for preciso para conter novas catástrofes...
— Quero só ver — desafia Bete. — Sem ofensa, Clarissa, meu amor. Mas
esse cara sabe muito bem como mentir. Impossível ficar só se lamentando
para cima e para baixo.
— Não ofende — decide a herdeira. — Me ofenderia se eu parecesse com
ele, isso sim.
Sei o que Rissa quer dizer.
Há dez anos, quando a cidade passou por um problema parecido, o governo
da época iniciou obras de contenção para inundações e outras escalas. O
projeto consistia em ampliar arenas de esgoto, a construção de piscinões em
táticas urbanas e reformular todo o lixo que a cidade produzia. Isso quer
dizer que lixos públicos foram instalados e uma campanha iniciada, mas as
obras duraram seis meses ou menos.
Desde então, seguem paralisadas.
É bem improvável que Batista Plume retorne com elas, não quando todas as
urgências reaparecerem com força.
— Se tiver reeleição, esse cara não tem o meu voto. — Meu pai serve
Clarissa com uma sopa de frango e cenoura cozida. — Aqui, Clarissa. Coma
algo, precisa se esquentar o máximo possível!
Ontem, ficamos mais de meia hora esperando. Esperando exatamente o quê,
é essa a parte dolorosa de se dizer. Com tantas pessoas juntas e quase
amontoadas, não sabíamos mais o que esperar daquele momento tão crítico.
O temporal não parou magicamente, e só conseguimos um caminho menos
arriscado quando a água baixou e pudemos caminhar pelos picos mais altos
da região. O Corpo de Bombeiros nos guiou até o ginásio, onde passamos a
madrugada até sermos liberados. Havia postos e trailers improvisados, assim
como ambulâncias, viaturas e prontos-socorros.
— Aqui, Superestrela. — Reinaldo retorna para a sala, me dando uma tigela
de sopa também. — E o garoto? Vai comer?
— Deixa ele dormir, pai — peço, me esticando até o corpo estirado de Vini
no sofá. Pouso minha mão em sua testa, conferindo a temperatura. — É
febre — conto. — Temos que ficar de olho.
Nossas roupas e outros pertences foram pro saco, não conseguimos
recuperar e, para falar bem a verdade, nem queremos.
Clarissa, à minha direita, aproxima-se ainda mais do leito do irmão,
preocupada. Ainda com os olhos fixos à TV, sem sentir vontade de fazer
nada além de assistir o pai desferir promessas em rede regional, almoça em
silêncio.
— São Palomane é a minha cidade, e podem gravar o que digo, não ficará
assim para sempre!
É um gesto egocêntrico demais para se assistir por inteiro, então Rissa se
curva até o controle remoto e muda de canal drasticamente, preferindo
afundar sua mente em Simpsons do que ver o pai.
Troco um olhar descrente com o meu, que apenas beija a minha testa, dá de
ombros e me manda comer tudo da sopa.
Termino de assinar o meu nome na linha pontilhada, a única parte em branco
que faltava preencher. Retiro a prova com cuidado da carteira, recolho a
minha ecobag do chão e caminho em direção ao prof. Paulo, que digita no
computador, sem parar.
— Aqui — anuncio. — Prova extra feita. Posso ir?
Paulo faz um sinal com o dedo anelar, pedindo calma e tempo.
A cidade, nas últimas horas, está inebriada por um semblante de luto
pecaminoso. É contagiante também, porque as pessoas não estão mais tão
alegres quanto em semanas comuns. Aliás, não tem motivo para rir quando
os números de mortos aumentam com o passar das horas e as histórias tristes
começam a chegar a público.
É o mínimo a se fazer, sentir e ter empatia pelo próximo.
Especialmente porque não sabemos o dia de amanhã, e o que assistimos nos
noticiários pode ser um de nós a qualquer instante. É
um discurso pessimista, emocional e sombrio, eu sei.
Mas é a verdade, e nem sempre se trata de fatos açucarados.
— Pode, sim — decide. — Como você está?
É uma novidade o prof. Paulo puxar assunto, mas entendo diretamente o que
significa.
— Bem, e você? — devolvo. — Sua família foi afetada? — Ao escutar a
minha pergunta, ele nega com a cabeça, de olho na minha prova. — Nem a
minha, mas...
— É... — pondera. — Compreendo.
O teto do teatro do campus principal desabou; há uma professora que está
morando em uma das classes, porque a casa foi consumida pela água e pela
latrina. E alguns alunos faltaram por eventuais acontecimentos sórdidos.
— Enfim, você pode ir, Ária — salienta, arfando. — Sua nota vai estar
disponível na Área do Aluno o mais breve possível.
— Valeu — gratifico com um acenar de cabeça. — E
professor, se você tiver como ajudar, a base foi construída lá no ginásio de
São Petras. Precisamos de suprimentos, curativos e roupas quentes. Se puder
doar alguma coisa, eu super agradeceria.
— Entro em contato com você?
— Algumas pessoas estão comigo, mas pode ser eu, sim, por favor.
— Está bem. — Sorri, de lábios lacrados. — Pode deixar.
Me despeço com outro gesto com o queixo e marcho em direção à porta.
Bom, um problema a menos com o que me preocupar.
A Base precisa do nosso apoio, se você conseguir doar ou se voluntariar em
São Petras, estaremos esperando por você.
Alimentos não perecíveis, roupas íntimas, produtos de higiene básica é o que
mais mantemos em foco.
Postado por Ária Campos — Trouxe comida e deixei na ala da cozinha —
Diana conta, carregando uma caixa de brinquedos de plástico. Algumas
crianças da base de apoio andam entediadas e precisam de recreação. — O
próximo lanche é daqui a quinze minutos, dá tempo de arrumar todos os
brinquedos e distribuir antes que voltem para cá.
A Base continua sendo um dos lugares mais delicados em que já estive. Os
voluntários são identificados por um crachá verde-neon, levando o logo da
prefeitura e apresentando-se com seus nomes, mas as pessoas que são
obrigadas a residir aqui não possuem documentos aparentes.
Fora que é uma situação sensível, não há motivo para tratar este lugar como
pura diversão ou preenchimento de horas complementares da faculdade. É
um assunto bem mais importante do que qualquer outro.
— Os agasalhos estão ali. — Indico para Majuri, que traz outro punhado de
caixas. — E as sacolas para os brinquedos, naquela mesa no centro.
As duas seguem as minhas coordenadas, mas esperam por demais ordens de
nossos superiores ou das pessoas que estão aqui há bem mais tempo do que
nós.
— Oi. — Rissa toca o meu ombro, caminhando em direção às tendas de
assistência social. Carrega reposições de fichas técnicas e de identificação
para dentro do espaço. Sigo-a, pontuando seus acertos na minha prancheta.
— Você vai lá pra casa hoje?
— Depende. — Ajudo-a retirar grampos e grampeadores novos da caixa. —
Eu vou largar às seis.
— Se for, preciso avisar que os meus pais estarão lá — assegura, impaciente.
— Em fases tensas como essas, eles meio que... se refugiam comigo. Como
moro em um prédio, é mais difícil de alguém tentar algo. Sei lá. Tem
problema?
— Não...
— Pra mim tem. — Clarissa termina de descarregar a caixa e começa a
organizar as fichas em cada mesa exposta na tenda. — Ele é a pessoa que
deveria estar colocando a mão na massa, não deveria abrigá-lo nem que isso
fosse a última coisa que eu fizesse.
— Pelo visto, ele não tentou mais buscar o seu perdão ao esquecer seu
aniversário.
Rissa ri sem humor algum, áspera.
— Isso sempre dura duas ou três semanas, depois desiste. Já me acostumei,
Ária.
— Então, eu vou. — Me aproximo dela com cautela, lendo os sinais exatos
para poder me ajeitar ao seu corpo. Abraço-a por trás, sentindo seu cheiro
doce. — Se for te acalmar e não te deixar sozinha com o tio dos Irmãos
Baudelaire, eu vou.
— Tio dos Irmãos...?
— O Conde Olaf — Pisco.
Ao menos, Clarissa consegue rir um pouquinho, fraco o suficiente para saber
que adorou a minha iniciativa, e rápido o bastante para mostrar respeito ao
lugar em que estamos.
— Vou voltar — aviso, conseguindo pescar um selinho de seus lábios. —
Preciso ajudar a Lilian a separar as roupas boas.
— Lilian e você... são amigas agora?
— Nem em sonho. — Ando de costas, sorrindo. — Mas estamos tentando.
— Boa sorte — deseja com honestidade, mas não sendo venenosa.
— Valeu!
Refaço o caminho de volta, sentindo o peito queimar de emoção.
— Você viu? — Majuri me abraça de lado assim que saio da tenda. Mais
alguns segundos e ela teria me visto ao lado de Clarissa.
— Tão falando de você!
— De mim?
— É. O anúncio que você fez ajudou bastante. — Majuri conta, descendo o
feed do meu Instagram para a foto que publiquei ontem à noite. É um pedido
para que a comunidade ao redor do ginásio se anime em doar o que puder,
visto que não temos tantos recursos quanto gostaríamos. — Tem pessoas
vindo e avisando que se voluntariou por sua causa.
— Minha causa? — Ainda sem palavras, junto as sobrancelhas no centro da
testa.
— É. — Diana inicia os preparativos. — É isso o que significa influenciar.
Revejo de novo a foto que produzi em dois segundos em um editor de
imagem. O layout é feio e preguiçoso, porém serviu de alerta para quem me
acompanha. E “É bom ser vista” pode ser a minha frase favorita no mundo
todo.
Majuri e Diana sorriem para mim, seguindo um trajeto diferente do meu. Me
aproximo da ala reservada para o próximo evento e aceno para Vini.
Vinícius está ocupado separando livros infantis para a recreação daqui a
pouco, e os suprimentos básicos não param de chegar, de caminhões e de
vans que estacionam no centro do ginásio, que também serve de dormitório
coletivo à noite.
— Olha só quem chegou — ironiza, erguendo uma sobrancelha e apontando
para alguém atrás de mim.
Antes de ficar estressada com razão, reparo como ele ainda está fraco
demais. A febre passou e os exames vieram zerados. Em tempos como este,
é irrecusável identificar o começo de uma hipotermia ou tuberculose, porém
Vini e eu estamos um pouco gripados. Efeitos de horas e horas à deriva da
chuva.
Devagar, me viro em direção à entrada.
Natália, a primeira-dama, dispensa apresentações, e usa roupas leves e
simples, pronta para ajudar. Porque em três segundos presente, decide que
ficará na cozinha. Reúne os cabelos dentro de uma touca protetora e
desaparece no recinto seguinte.
Li hoje de manhã que a Tulipe Tulipe doeu uma quantia generosa, sem
fundos de volta, para desabrigados, algumas ONGs e fundações.
Entretanto, o que chama a atenção é a comitiva que segue Batista de perto.
Há jornalistas, fotógrafos e especialistas em imagem ao seu redor, além de
uma leva consagrada de políticos interesseiros que adoram tirar uma
casquinha de desastres como estes para usar em campanhas seguintes.
Inclusive, o governador do Estado, o ex-comediante chamado Cachaça.
Até sei como isso vai terminar: vários takes de Batista ajudando, servindo
comida, cumprimentando habitantes do bairro e indo embora em menos de
cinco minutos, sem sequer gravar um nome ou sentir-se tocado pelo o que
houve.
Aqui, somos apenas histórias que serão esquecidas até a próxima reeleição.
— Quatro minutos. — Vini toca o meu tornozelo. — Até ele ir embora.
— Pela cena que seu pai vai fazer, aposto dez.
— É muito tempo. — Clarissa aparece de repente, mas inteirada na
conversa. — Sete minutos.
Nós três olhamos para o prefeito, a verdadeira pessoa que deveria usar os
fundos reais para ajudar, mas que está ocupado demais brincando de reality
show.
Em suma, finalizamos a aposta em oito minutos.
38
“Pode parecer mentira Ou verdade Mas não gosto nada, nada, nada de
você.”
Não se Aproxime Tanto – Canção de Liz Salles OLHOS VOLTADOS À
CIDADE!
Todo o país parou para presenciar o que anda acontecendo com São
Palomane , habitantes afirmam que o descaso do prefeito culminou em
prejuízos demais. Fontes próximas do prefeito afirmam que Batista encara
os recentes episódios como uma breve chuvinha.
Nada a se preocupar a grande prazo.
Postado por PalomaneReal As tempestades deram lugar a um clima frio, de
muita garoa.
Os destroços foram deixados para trás, e durante boa parte de uma semana, o
que mais fiz foi ir para faculdade, da faculdade para casa e de casa para a
Base.
Ajudei na ala da cozinha, preparo de suprimentos e separação de conteúdo,
além de incentivar a doação consciente e sem alimentar o lado egoísta de
ninguém, e não apenas eu, eu, eu ou eu.
Clarissa, Vinícius, Lilian e Majuri foram os mais centrados também.
Fizemos um grupo on-line com atualizações dos casos, tanto no Facebook
quanto no Telegram. Fizemos uma limpa em praças e viadutos, além de
termos participado do último mutirão alimentício, que serviu uma
macarronada dignamente italiana para os voluntários, os oficiais e os
residentes da Base.
Meus pais ajudaram no que puderam, especialmente com as sobremesas.
— Ainda tá vendendo docinhos? — Rissa pergunta, puxando uma sacola
imensa de roupas usadas que doará na semana que vem.
Precisamos separá-las primeiro, para lavar e etiquetar. É um longo processo,
porém, é o certo a se fazer.
— Só na faculdade. — Dobro um blazer bege-escuro, doação da minha mãe,
e o coloco na caixa que sairá daqui pela manhã. — Por quê?
— Sinto fome de madrugada. — Enruga o nariz. — Se você quiser me fazer
um bolo. Ou uns biscoitinhos, não vou me opor!
— O Natal tá chegando, hora de fazer um pedido para o Papai Noel!
— Quem sabe ele me escute, mesmo.
Aos finais de semana, ainda com os shows suspensos na Corações &
Flechas, vou para o apartamento de Clarissa quase sempre. Os pais da
modelo vivem trancados em quartos separados, trabalhando em projetos
diferentes. Batista, em seus vídeos falsamente proativos, e Natália, talvez
evitando o marido a todo custo.
Com o aumento das falhas governamentais e regionais de São Palomane, os
protestos aumentaram consideravelmente na frente da prefeitura e na frente
da mansão Plume. Aqui, talvez, seja o refúgio da família.
Com tanto trabalho no ginásio, nós, Rissa e eu, voltamos juntas às vezes.
Seu quarto é nosso lugar favorito. Assistimos filmes até dormir ou ficamos a
madrugada toda separando documentos, roupas, brinquedos e crachás para
os próximos voluntários.
— Biscoito de quê? — questiono, ajudando-a com a sacola.
Apoiamos o saco em cima da cama bagunçada ao mesmo tempo.
— Eu vi esses dias uma receita de biscoito de red-velvet.
— Parece uma boa ideia?
— Não precisa fazer, podemos pedir — salienta, sentando-se na cama,
pronta para abrir o próximo saco e a começar a organizar as peças
escolhidas. — Uma atriz, aquela lá que você gosta, a Georgia Pessoa, sabe?
— Todo mundo gosta dela — argumento. — Inclusive você.
— Sim, verdade. Mas o que eu quero dizer, é que ela abriu uma franquia da
Amora Mio aqui no bairro. Podemos pedir um delivery.
Retiro peças íntimas e novas do saco, peças que jamais foram usadas e que
contém etiquetas de troca enroladas nas alças. O que é um bom sinal; nas
doações, o que mais encontramos são roupas violadas, em péssimo estado.
— Boa ideia, mas... — Faço uma careta, apertando os olhos.
— Tem um pessoal da imprensa lá embaixo. Nenhum motoqueiro merece
ultrapassá-los.
— Verdade, ninguém merece — comenta, pensativa. — Os vizinhos do
prédio estão muito putos que meu pai tá aqui. A minha mãe até que não, eles
sabem que a Natália vai pra Base quase todo o dia.
— Sua mãe doou produtos de higiene, sabia? — conto, mesmo não sendo
novidade. — Não que fará alguma cócega na empresa dela, mas todo dia tem
produto novo lá. É importante.
— É o mínimo que se tem a fazer quando há uma empresa milionária no
nome, Ária — rebate, insatisfeita. — Mas eu sei que ela tá ajudando. O que
não ajuda em nada é que ela ainda quer fazer uma festa de um milhão de
seguidores para você.
De algum jeito, a primeira-dama pensou que seria uma boa ideia oferecer
uma festa cheia de fartura, decoração extravagante e orçamento cavernoso
em homenagem aos meus seguidores. Quero dizer, há três semanas, quando
deu a ideia, parecia uma boa alternativa. O evento me jogaria na alta
sociedade e colocaria meu nome em foco mais do que nunca.
Contudo, atualmente, é uma péssima tática. Não quando a cidade inteira
implora por donativos.
— A convenci a mudar os convites — falo a novidade, analisando seu rosto
ganhar conhecimento de algo que, até então, não havia falado. — Disse que
ela poderia fazer a festa, com a condição de ser um evento aberto ao público,
e que se as pessoas quisessem me dar um presente, que fosse um valor
destinado à Base de apoio.
— Tá brincando? — Segurando um suéter horrendo de lã, Clarissa indaga,
boquiaberta. — Vai mesmo fazer isso?
— Só se sua mãe acatar mesmo as minhas condições — repito, firme. — Um
milhão de seguidores beneficente ou nada feito.
Termino de dobrar as calcinhas etiquetadas uma em cima da outra, vou na
direção da minha mochila aos pés da cama de casal de Clarissa e pego a
amostra do convite que Natália me enviou hoje cedo. Ofereço-o para Rissa,
que o analisa de ponta a ponta, antes de rir nervosamente.
— Você tá fazendo mais por esta cidade do que o prefeito.
A piada me faz rir, mesmo sabendo que não deveria. Uma pessoa comum, de
apenas vinte e um anos, faz mais do que uma que foi escolhida a dedo em
uma democracia?
É de se estranhar.
— Você vai? — Retorno para a minha tarefa, encontrando alguns sutiãs. O
que me lembra que preciso dar uma olhadinha na minha conta corrente, o
ginásio precisa de absorventes o quanto antes.
— Não perderia isso por nada — define, guardando o convite perto de seu
abajur.
Na TV plugada no painel próximo à parede, estamos tentando assistir “Tudo
o que uma Garota Quer”, com Amanda Bynes. Um dos melhores filmes já
feitos sobre a relação caótica de pai e filha.
Clarissa também gosta e, de vez em quando, percebo que declara as falas
baixinho.
Há um conjunto de suas polaroids favoritas em um dos murais, é um
emaranhado de rostos que são nossos. Sorridentes, vivos, cheios de
lembranças que ficarão eternizadas neste ou em qualquer lugar que Clarissa
resolva pendurar.
— Sabe... — Puxa assunto. — Andei pensando em uma coisa.
— Em girafas de saia?
— Por que eu pensaria em girafas de saia?
— Porque não sei como elas vestiriam a peça. Ficaria perto do pescoço ou
seriam usuais na cintura?
— Na cintura, com certeza! — defende sua tese. — E você?
— Perto do pescoço.
Ela ri de novo, negando com a cabeça.
— Por mais importante que isso seja, não estava pensando em girafas ou
qualquer animal de saia — esclarece. — E sim, em me mudar para São
Paulo.
Subo o olhar.
— Sério?
— Depois que meu semestre acabar, posso pedir transferência para o campus
de lá. Não gosto dessa cidade e não gosto de como meu pai leva tudo na
brincadeira. Oferecer refúgio a uma pessoa que não deveria não é o que eu
quero fazer toda a semana.
— E... vou poder te visitar?
— Se você se comportar bem, pode até morar comigo.
Clarissa tem uma característica bem pontuada. Quando está pensando em me
beijar, esbanjando leveza, é como se ronronasse.
Feito um gato. Seu sorriso se estica, seus olhos acendem e seus dedos sabem
exatamente qual trilha traçar para me conquistar.
Ela contorna a cama, sem retirar os orbes de mim, poderosamente fantástica
em uma camiseta que é minha. Edição limitada de um show da Miley Cyrus,
raridade genuína.
A modelo me abraça com força e beija a minha bochecha antes de alcançar a
minha boca com os lábios calorosos e esfregar os seios desnudos de sutiã em
mim.
— Boa ideia — sussurro, dentro de sua boca. — Mas se ainda quer os
biscoitos, é melhor me deixar ir.
— Pipoca — manda. — É mais fácil de fazer, e você vai voltar mais rápido
da cozinha.
— Fechado.
Demoro-me ainda mais tempo do que gostaria beijando-a, desbravando o
sabor e o aroma da pessoa que invadiu meus pensamentos sem convite
algum. Não ver Clarissa durante a semana é o mesmo que me oferecer um
punhado de mau-humor embalado em fitas de cetim.
Separo-me dela, prometendo voltar em seis minutos — o tempo que uma
pipoca de micro-ondas leva para ser feita. Antes de destrancar a porta de seu
quarto, confiro o horário no relógio pregado à parede.
São duas e meia da madrugada.
Então saio confiante que não encontrarei ninguém pelos corredores. Vini
está ficando na casa de Majuri, que é mais perto da Base, e se recusa a
aparecer por aqui, a não ser para falar conosco e com a mãe.
Vejo Natália apenas de dia, porque à noite, gosta de reclusar-se no quarto de
hóspedes, sem fazer barulho. E o prefeito, é um grande mistério.
Está um pouco gelado pelo apartamento, sinto pelas minhas pernas expostas
da camiseta grande que uso. Cobre apenas a minha virilha e a polpa das
nádegas, o auge de intimidade que posso oferecer a Rissa.
Na cozinha, não acendo a luz, porque a janela grande e ampla da sala de
estar faz todo o trabalho de iluminar os utensílios, os eletrodomésticos e a
bancada. Me estico para pegar os saquinhos de pipoca na última prateleira
que encontro e os abro, rasgando a ponta. Sigo as instruções e ligo o micro-
ondas, esperando pelo lanchinho da madrugada.
O som do aparelho esquentando acompanha o ruído da descarga sendo
acionada no banheiro do primeiro andar. Analiso o corredor seguinte ser
iluminado e passos pesados completando o cenário pacífico.
A silhueta do prefeito Batista aparece, curioso com quem está cozinhando
uma hora dessas. Me mantenho atrás do balcão, porque estar de camiseta e
calcinha na sua frente já é estranho o suficiente para me retrair toda. Vê-lo
caminhar lentamente na minha direção, também.
— Ária?
— É — sibilo.
— Boa noite — resmunga. É um chiado de cansaço e não é nada pessoal
comigo. — Nem te vi aí.
— Só fico aqui aos finais de semana.
Posso imaginar que o prefeito sorri, porque sua respiração pesa. Perto do
mezanino, Batista aponta para um papel quadriculado.
— Eu vi o convite da sua festa. Minha esposa é engenhosa, mas preciso
dizer que a ideia é... — continua. — É interessante.
— Interessante?
— Parece que você está mais preocupada com essa cidade do que eu.
Talvez esteja.
Talvez qualquer pessoa com um pingo de sensibilidade também.
— É uma boa ideia, mas ainda não supre metade do que precisamos —
respondo, empinando o nariz. — Há pessoas que perderam as casas e isso,
infelizmente, uma festa beneficente não pode arcar. Concorda?
— Eu concordo que podem pensar que não estou fazendo nada e perdendo
para uma adolescente.
— Tenho mais de vinte anos.
— Não muda a minha teoria.
Por cima dos ombros, checo quanto tempo falta para a pipoca ficar pronta.
Receber sermão não é o melhor jeito de finalizar a minha noite.
Esperava comer um lanchinho, assistir Amanda Bynes em um dos seus
melhores trabalhos, beijar Clarissa até os meus lábios doerem e terminar de
separar todos os donativos que temos lá em cima. E, com sorte, transar.
Transar muito.
— Quando eu te vi pela primeira vez, nem imaginava que seria tão presente
assim na minha rotina. A minha esposa te adora e os meus filhos são
apaixonados por você, entenda como quiser — emenda, gesticulando. — Me
diga, senhorita Ária, o que eu deveria ter feito para ter evitado tudo isso?
Olho para os lados.
— Espera — sentencio. — Está bravo comigo... porque estou ajudando?
— Não disse sobre estar ou não estar, mas... há...
consequências.
— Ajudar é ruim?
— Se meter em um caminho tortuoso, sim.
O micro-ondas apita, escandaloso. Não é uma conversa comum, porque há o
mesmo tom de ameaça que pessoas mais velhas usam quando não estão
felizes em serem deixados de lado. É
o mais puro e singelo lado inseguro de adultos detestáveis.
— Você pode pensar o que as pessoas sentirão quando você faz isso e eu
não?
— Não é o meu trabalho — declaro. — É o seu.
— Não é tão fácil quanto pensa.
Procuro por uma tigela o mais rápido possível, piscando as pálpebras sem
parar. Encontro uma no seca-louças, ao lado da pia.
Abro o aparelho sem me importar com o vapor quente e espesso que jorra na
minha cara. Queimo dois dedos abrindo o saco sem seguir as recomendações
de segurança, mas despejo toda a pipoca na travessa, em menos de trinta
segundos.
— Se quer resultados — defino —, faça algo.
Passo para fora da bancada, apertando o passo, tendo ciência de que estou
sendo observada por Batista. Subo as escadas com muita pressa, sentindo o
meu coração escalar até a boca.
Mas não tão rápida assim, porque ainda consigo escutar sua resposta, sendo
entoada em alto e bom som: — Sim, Ária, farei. Espero que entenda.
39
“Ele até que tentou, Mas veja só Continuo sem medo.”
Querido Diário – Canção de Liz Salles Talvez o segredo para se ter uma
vida longa e saudável é aceitar que você não pode resolver tudo por conta
própria.
Pelo menos, não quando o prefeito da sua cidade visivelmente não gosta de
você.
— Ele disse isso mesmo?
Natália de La Plume me ouviu com extrema atenção enquanto despejei cada
mínimo detalhe de ontem à noite, sobre a conversa duvidosa que tive com
seu marido, Batista.
— Disse — confirmo, me mantendo perto da janela.
A primeira-dama de São Palomane concordou em dar uma passada na
faculdade para conversarmos a sós. Vai saber como o prefeito descobriria
que falei com sua esposa primeiro.
— Falei com a Rissa e com o Vini — acrescento, esperando por uma
resposta. Pelo modo que um vinco profundo forma-se em sua testa, a
empresária continua desgostosa. — Eles acham que o prefeito fará algo
contra a minha imagem, não diretamente comigo.
— Tipo?
— Muitas pessoas estão descontentes com a gestão dele, ainda mais nesse
momento crítico. É um alerta nacional, entende?
Mobilizou o país inteiro, mas apenas eu... sou o alvo.
— Não é apenas você. Acho que Batista está enfurecido porque gostaria de
fazer tudo e acaba não fazendo nada. — Natália arfa, olhando para o lado de
fora. Conseguimos encontrar uma sala vazia em um dos prédios de medicina
para conversarmos. Na área de convivência, conseguimos ver Clarissa rindo
ao lado de Vinícius, enquanto comem um biscoito de red-velvet que eu
mesma fiz. — Não tô defendendo ele, Ária. Só tô pensando.
Faço um sinal com a cabeça, que significa que Natália pode pensar o quanto
quiser. Até mesmo relutei em lhe contar sobre a conversa assustadora da
madrugada, mas Vini insistiu que fossemos falar com a única pessoa que
poderia dar uma direção concreta sobre o que fazer e o que não.
— Acha que agora é a hora que vão colocar um detetive na minha cola?
A seriedade dela cai por terra, liberando um riso desacreditado ao rir em uma
situação desta.
— Não... claro que não — garante, engasgando com a própria risada. — Ele
pode ser adulto, mas age feito adolescente. E obrigada por me contar —
especifica. — Realmente, não podemos deixar margem para nada.
Nós duas nos calamos de novo, porque Clarissa e Vini se levantam do banco
que ocupavam, seguindo para lados iguais do campus, até sumirem por trás
das árvores e dos prédios.
— Eu... não estou com medo, mas quero saber se deveria ter.
— Não, não. É como você disse, ele pode mexer na sua reputação, mas não
na sua integridade física. Seria tolice — assegura. — E maldade pura.
— Então?
— Rissa e Vini conhecem o modus operandi do pai, provavelmente...
envolverá política. Veja... — Tensa, retira o celular de um dos bolsos do
blazer. — Eu aposto que Batista falará que você é um dos apoiadores do
mandato dele. Isso tiraria o foco das doações e focaria inteiramente em um
furo de reportagem.
— E ele... pode fazer isso?
Natália, ainda muito distante emocionalmente deste diálogo, dá de ombros,
sutil.
— Bom, você anda sendo a sensação dos últimos meses e sempre é vista
conosco. Ligar seu nome com o nosso é praticamente automático, meu bem.
— Sem querer ofender, mas eu não votaria nele.
Natália sorri de novo.
— Nem eu... — Ela me mostra as minhas redes sociais e a barra de pesquisa
do Google quando procuram pelo meu nome. Há centenas de links falsos e
verdadeiros, quase sempre com um dos Plume envolvidos. — Se você quer
se proteger, tá na hora de desvincular seu nome do nosso. E sermos mais
rápidas do que o Batista.
— Sermos?
— Não há motivo para colocar toda a responsabilidade nas costas de uma
garota de vinte e um anos — emenda. — E eu entendo que meu marido pode
ser... teimoso.
— Teimoso é um adjetivo bem leve, né.
— É. — Meneia a cabeça. — Mas ainda é meu marido.
Ela faz outra pausa, tão reflexiva e taciturna que nem se parece com a
Natália que conheci há algum tempo. A empresária falante, engenhosa e
divertida que não para um segundo de tagarelar.
— Então, acabamos por aqui?
— Melhor — decide. — Vou ajudar você no que precisar, é uma promessa
sem fundo de garantia. Já percebi que você se tornou tão amiga de Clarissa
que irá protegê-la.
Há uma pequena provocação na fala, sobre todos os momentos que pude lhe
dar todas as respostas que buscava. E nem sequer tentei sanar suas dúvidas.
— Se quer saber o que a Rissa faz no tempo livre dela, é melhor perguntar
— aconselho. Natália finalmente me olha, intrigada.
— Você quer tanto se aproximar da sua filha, que mal tenta. Passou mais
tempo comigo, brincando de boneca, que nem ao menos reservou um tempo
para ela.
— Pensei que você e eu éramos amigas.
— Acho que somos — confidencio, um pouco confusa. — Porém, é a
verdade. Acho que conversamos mais do que você conversa com ela.
— Eu... eu... já perdi muito tempo, não sei mais... como... me aproximar.
Clarissa parece outra pessoa, eu sou outra pessoa.
Entende?
— Um pouco, mas não custa tentar — admito, sentando-me em cima de uma
carteira vazia. — Sei que tomamos medidas desesperadas para alcançarmos
fins satisfatórios.
— Acho que é o fim para mim, Ária — lamenta. — Depois que esqueci o
aniversário dela de novo, não sei se consigo me perdoar.
— Tem que saber se a Rissa consegue te perdoar, não ao contrário —
completo de imediato, sem nem ao menos pensar. — No final, é ela que
importa, sabe disso.
— É tão mais fácil conversar com o Vini!
— Você se identifica mais com ele, ok, mas... hum... perceba, tudo o que
você sabe sobre ela é ultrapassado. — Ergo o meu queixo. — Você sabia que
a Clarissa toca bateria muito bem?
Natália suspende as sobrancelhas.
— Bateria?! — repete, indignada. — Como aprendeu isso?
— Você sabe que tem uma bateria na sua casa, né?
— Tem?
É pior do que eu pensava.
— Pois é, tem.
— Pensei que ela gostasse de violino.
— E gosta. Mas de bateria também.
Natália curva os lábios, impressionada e admirada com as informações.
— Você tem razão, então — declara por fim. — Se está me dizendo, eu
acredito.
— Ótimo — sentencio. — Porque voltando ao assunto inicial, eu tive uma
ideia! — discorro, alto. — E envolve instrumentos.
Ao fim da pequena reunião com Natália de La Plume, consegui mapear
todos os pontos que podem falhar no plano.
Estamos à deriva do tempo; se o prefeito for mais rápido em manchar tudo o
que já não tenho, será complicado demais dar a volta por cima.
Ainda mais com a cidade inteira de olho em seus passos.
— Ainda podemos passar um tempo juntas, se quiser — falo, acompanhando
Natália até o estacionamento, onde seu carro lhe espera. — Não tem
problema.
— Que ótimo, porque ainda quero uma campanha com você e Clarissa
juntas. Agora que se dão bem, as fotos ficarão incríveis!
Reviro os olhos ao rir, porque ela tem razão, afinal. As imagens ficariam
sensacionais.
Acompanho Natália até o estacionamento, apenas para agradecer o tempo
que reservou para me ouvir. Perto do carro da primeira-dama, no entanto, há
uma figura de terno, falando ao telefone. É uma típica mulher de negócios,
com postura impecável e semblante estável, com um relógio caríssimo no
pulso, sempre ocupada, sempre em ligação com alguém.
— Fora isso, acho que chegou a hora de cumprir o que prometi. — Natália
sobe e desce as sobrancelhas, animada. — Helena! — Acena com os dedos,
chamando a atenção da mulher misteriosa.
Que, por sinal, de misteriosa não tem nada.
É a mesma pessoa tendenciosa de quase todos os shows da Corações &
Flechas, a mulher que me pagou uma água e que assistiu às minhas
apresentações da primeira fileira sempre que possível. Não se mistura com a
multidão, mas sempre está lá.
Não sei como me portar ou como me mover à sua aproximação,
principalmente porque não faço ideia se Natália desconfia da banda ou se
Helena já deu com a língua nos dentes.
— Helena! — Agracia Natália, abraçando a suposta amiga. — Demorei?
— Que nada, eu que me atrasei! — Helena sorri, correspondendo ao toque.
Sua pele negra-retinta brilha contra o sol e pelo pouco suor que há na testa
curvilínea, e o sorriso é educado, com dentes brancos e alinhados.
— Ária. — Natália toca o meu pulso. — Esta é a Helena, representante de
uma multinacional fashion e principal olheira da Gravadora Farol. — diz.
Gravadora. Farol. — E Helena, esta é a Ária, a cantora que te falei.
— Muito prazer, Ária! — Helena finge que não me conhece. — Ouvi falar
muito bem de você!
— Sério? — Entro na personagem. É assim que funciona. — Fico feliz,
espero que apenas coisas boas.
— Não só boas, como acompanho seu trabalho de perto antes da Nat ter me
contatado.
Há dois significados; para mim, já entendi que assistia aos meus shows; para
Nat, deve pensar que foram apenas os vídeos amadores disponíveis na
internet.
— A Helena vai se tornar empresária de uma banda — conta Natália para
mim, travessa. — É quase certo.
— Ainda não assinei a papelada! — A olheira ri, charmosa.
— Mikael Devante seria um babaca se não assinasse com você!
— Espera! — Peço com a mão. — Mikael? O Mikael? Da banda Desvio?
Um dos meus cantores favoritos?
— O próprio! — Natália sacode os meus ombros de leve. — Ele vai estrelar
uma campanha ao lado de toda a banda. Comentei sobre Helena e estão em
negociações desde então.
Decaio em êxtase puro, nem consigo imaginar estar perto dos membros da
Desvio. Ouço a banda há anos e Lili e eu fomos a, pelo menos, três shows do
grupo. O meu integrante favorito é o Pedro, mas também curto o Gael. Sem
falar nas tatuagens do Bernardo. Ok, todos eles são os meus prediletos.
— Enfim. — Helena arfa, e o som me traz de volta à realidade.
A mais pura e doce realidade. — Estou em busca de outro contrato, Ária.
Vamos conversar?
— Como você descreveria a Majuri Mahar?
Helena, sentada em uma cadeira de frente para mim, batuca um lápis preto
contra uma folha de papel detalhada com linhas azuis.
O Corações & Flechas está vazio, fora do horário comum de funcionamento.
Alguns funcionários limpam o balcão e outros trocam as decorações. Com o
palco livre de instrumentos, consigo ver daqui a toalha em forma de toldo da
banda.
— Acho que ela é a líder de nós — comento, sendo bem franca. — Ela sabe
o que faz, gosta de estar em cima do palco de comandar a nossa vivacidade,
sabe? Tenho certeza que não seríamos uma banda sem ela.
— E acha que, se for substituída, as pessoas vão gostar?
— De jeito nenhum! — Arregalo, de fraco, os olhos. — É como se Majuri
fosse a pilastra.
— Certo, certo...
Helena e eu conversamos bastante até chegarmos aqui — não fomos
acompanhadas por Natália — e iniciamos um assunto que seria nítido. A
banda, que no caso, não é uma banda.
— E a antiga vocalista? Rafaela Keller?
— Perfeita. — Suspiro. — As pessoas ainda pedem a volta dela. Às vezes,
ouço os gritos implorando por Rafaela, apesar de gostarem de mim. Quando
cantava, ela entregava tudo de si, se misturava com a música e se tornava
uma só. Me comparar com ela chega a ser inevitável.
Helena anota tudo o que eu digo, sem retirar a expressão séria do rosto. É
bom finalmente saber quem ela é. Há um espelho perto de mim e, enquanto
não a respondo, gosto de me ver nele.
Definitivamente o piercing na sobrancelha combina comigo. Nem parece
que está aqui o tempo todo. Acentua meu rosto — e é meu mais novo
charme.
— E quanto a Diana Pinhal?
— Ela entende a ironia do nome da banda como ninguém — resumo. — É
calorosa, divertida e sabe que pode ser uma celebridade da música se quiser.
De todas, a mais descontraída, certamente. Para ela não faz diferença tocar
aqui ou em um estádio lotado.
— Certo, certo. E Clarissa de La Plume?
Escondo o favoritismo fingindo pensar, como se falar da modelo fosse
complexo.
— Assim como Rafa, entrega sangue e suor. É a que mais sente a energia do
público... entrando de cara no personagem. Acho que Clarissa tem um pouco
de todas as outras. Assim como elas...
hum... parece confuso, eu sei.
— Não, tá ótimo. — Sorri. — É uma bela explicação.
— Valeu.
— Mas... — diz, de olho na folha. — Pelo o que você andou me falando,
nenhuma delas querem... seguir carreira. Apenas você?
— Rafa vai se mudar e as outras... não pensam nisso tanto quanto eu penso
— revelo. — Mas... — pontuo, trazendo sua total atenção de volta para mim.
— Desconfio que a Majuri seja a que mais tope... participar de uma banda
fora daqui. Sinto que pode mudar de ideia, no caso.
— Ária, preciso dizer... — começa. — O conjunto da obra é emocionante e,
apesar de querer você no meu time, não seria má ideia tê-las por perto.
— Não, não seria.
Helena assente com a cabeça, ainda focada em suas anotações distintas. Faz
algumas linhas baseadas no que disse e, provavelmente, no que pensa. Mas
consegue finalizar: — Mas fico feliz com a nossa conversa, é bom que você
saia desse anonimato secreto o quanto antes.
40
“Não está na cara?
Preciso dizer mais vezes?
Quero-te, desejo-te sempre que posso, mulher.”
Vícios e Antídotos – Canção de Liz Salles Após a pequena reunião,
encontro Clarissa de La Plume posicionada atrás de sua bateria, em seu
apartamento. Quando me vê, as baquetas escorregam e deslizam por entre
seus dedos, brincando sozinha, divertindo-se com as possibilidades de
trejeitos que um baterista pode ter.
De certa forma, pensei que estaria mais animada para o começo do fim ano,
mas com os últimos episódios, a cidade ainda não pode ser decorada
totalmente para o Natal. O que faz total sentido, na verdade.
— E aí — ela me cumprimenta, ajeitando os pratos e alinhando-os de novo.
— Como foi lá? Com a minha mãe?
Passei a tarde toda no meu turno na Base, depois de almoçar ao lado de
Helena em uma conversa que não pensei que teria tão cedo. Ainda caminho
nas nuvens só de saber que estive na mira dela, bem antes de Natália fazer
alguma coisa. De certa forma, foi mérito próprio.
Sendo assim, meu humor também é um dos melhores, apesar das
preocupações externas que interferem diretamente na minha vida.
— Ela vai nos ajudar. — Entro na sala de ensaio e fecho a porta. Ainda
estamos correndo o risco de sermos interrompidas por seus pais ou demais
hóspedes. — Contei todo o plano para ela. Não foi difícil explicar, porque
não é muito longo.
Marcho em direção à Clarissa, retirando meus sapatos e meu casaco pelo
caminho. Deixo a minha ecobag no chão e começo a desabotoar a minha
calça. Passo o tecido pelas minhas pernas e fico apenas de calcinha e
camiseta, me sentindo inteiramente livre. Até mesmo me desfaço do sutiã
por debaixo dos panos.
Rissa assiste tudo com uma expressão atenta demais.
Bem mais confortável, sentindo meus seios e pernas livres, dou um jeito de
me sentar em seu colo, deixando as minhas costas apoiadas na extensão da
bateria.
— Então, olá? — Clarissa me abraça pelas costas, deixando uma mão
escorregar até a altura da minha coxa esquerda. — E ela disse mais alguma
coisa?
— Concordou que seu pai pode agir contra a minha reputação — intercalo,
acariciando seus ombros. — Mandar uma pessoa de volta ao anonimato é
bem mais fácil do que pensam.
— E o que mais?
— Disse que seguirá o que pedimos, sem discussões.
— Uau — salienta, arqueando as sobrancelhas. — Você consegue milagres.
— Nem tanto, ela tá disposta a ajudar mesmo.
Sua mão vaga inicia uma sequência de carícias circulares nas minhas costas.
— Só isso? — surpreende-se. — Foi tão fácil assim convencer a minha mãe
a agir contra o meu pai?
— Mais do que pensa! — Toco seu nariz com a ponta do dedo. — E outra
coisa, uma olheira entrou em contato comigo. Quer dizer, sua mãe fez a
ponte, mas a mulher já tinha me visto tocando com a Era de Heras. Lembra?
Aquela mulher misteriosa que você morreu de ciúme? — É muita
informação para Rissa, então, escolhe absorver uma pauta de cada vez. Seus
ombros tensionam um pouco e, prestes a abrir a boca para perguntar o que
sei que quer, continuo: — Relaxa, Helena não tem pretensão alguma de dizer
uma palavra pra sua mãe sobre sua carreira como baterista. Ela tá interessada
apenas em mim.
— Sério? — indaga, contente, mudando completamente o semblante. Sua
preocupação evapora. — Só em você?
— Mais ou menos, mas até onde falamos... só.
— Ária — vibra. — Isso é... foda pra caralho. É o que você queria!
— Sim! — cantarolo. — Nós almoçamos juntas, aliás. Ela disse que estava
esperando a oportunidade certa para falar comigo.
Obviamente, não me oferecerá um contrato milionário, mas quer que
possamos trabalhar em imagem de carreira, plano de sucesso, músicas e
apresentações estratégicas. Ainda disse que posso abrir os shows da Desvio e
da Allura Guispe!
— Agora você tá debochando da minha cara!
— Não tô! — Pulo em seu colo, me aproximando ainda mais.
— Ela disse tudo isso mesmo! Posso estar sendo ingênua? Posso!
Mas faço questão de ler e reler o contrato diversas vezes antes de assinar
qualquer coisa. Bom, isso se Helena quiser me ter na gravadora.
— Seria babaca se não quisesse.
— Sim, mas vou ser humilde dessa vez.
Clarissa molha a boca, conectada a mim.
— E eu imagino que você esteja delirando só com a possibilidade de
trabalhar com o Mika.
— Clarissa, céus! — Reviro os olhos, maravilhada. — Eu preciso trabalhar
com o Mika. Ele tem que perceber o quão legal eu sou para me apresentar
pra namorada dele, a Georgia.
— Ela é legal mesmo — comenta, brincando com as pontas do meu cabelo.
— Você o conhece?
Risonha, mas escondendo alguns fatos de mim, Rissa oscila os ombros.
— Conheço a namorada dele — ressalta.
— Sério? Como?
— Já tive um rolinho com a Georgia — conta, sorrindo de lado, totalmente
sugestiva. — Quando tive a chance de ficar com o Mika, desisti pra poder
ficar com ela.
— Tá me zoando?
— Não! — brada, confiante. — Simplesmente aconteceu. Eu frequentava
muitas festas, no passado. Conheci toda a banda, fui apresentada pra tanta
gente... Enfim, Georgia é bem legal. Viramos amigas depois disso. Ela até
me segue no Instagram!
— Ela tem cara de legal, mesmo — reforço. — E que pena que não ficou
com o Mika. Será que eu posso?
— Não quer estragar o casal sensação do país — provoca.
— Não, é claro que não! Mas se eu e você tivéssemos nos conhecido na
época em que os dois eram solteiros, quem sabe...
— É, quem sabe... — desafia. — Por enquanto, que fique apenas na sua
imaginação. Porque eles são um casal e você é a minha namorada, então...
Recuo a cabeça, sentindo todo o meu corpo pulsar.
— Sou?!
Ao perceber o que disse, Rissa pigarreia: — Não, não é. Pelo menos, ainda
não.
— Não?! — Faço beicinho. — Precisa se decidir, sabia disso?
— É... mas... — Faz uma pausa longa. — Podemos resolver isso. Antes, só
quero... tentar uma coisa.
— O quê?
— Um encontro — oferece.
— Outro?
— Como assim outro?
— Aquela vez no parque, foi um encontro.
— Não! — resmunga ao negar. — Claro que não foi. Você nem ao menos
me conseguiu uma pelúcia na barraquinha de tiro ao alvo, aquilo não pode
ser considerado um encontro.
— Você é a pessoa mais mesquinha que eu conheço. — Belisco seu ombro.
— Claro que foi!
— Há controvérsias — rebate. — E apesar de ter sido um dia bem divertido,
estou me referindo... ao fato de nos arrumarmos.
Sairmos para jantar em um restaurante legal, pedir o que quisermos.
Bebida, comida. Sobremesa. Passar a noite... você sabe, em um lugar... sei
lá, legal?!
— É possível... — discorro.
— Nós podemos... sei lá, jantar. Almoçar. Tanto faz. Também podemos nos
beijar no estacionamento e...
— Beijar no estacionamento?
Envergonhada, vejo que é possível que seu rosto esteja queimando.
— É — murmura, quase gaguejando. — Beijos no estacionamento. Quando
você e a pessoa estão indo embora, gargalhando alto e vocês não querem se
despedir. Sempre rola um beijo dentro ou fora do carro... é romântico, tá?
— Você é bem mais emocional do que pensei. — Toco sua bochecha,
fazendo graça.
Há muito esforço de Clarissa para demonstrar que quer estar comigo apesar
de todos seus conceitos de relacionamento, então é um gesto que admiro
imediatamente.
— Mas falando sério, eu adoraria sair com você. — Abraço-a pelo pescoço.
— Mas já aviso que estou sem dinheiro. Sem um tostão furado... terminei de
vender os biscoitos hoje na faculdade e já depositei tudo pros meus pais.
— Eu que tô te convidando — alega. — Eu pago.
— Sendo assim... vou deixar que você me paparique.
— Depois que resolvermos essa pendência com o prefeito — afirma. — Aí
sairemos, ok?
— Combinado.
Seus olhos se semicerram, em uma linha fina de sedução que é escancarado
o que quer. Por isso, antes de passarmos a tarde toda fazendo com que as
janelas de seu estúdio fiquem embaçadas, pouso a mão em seu busto,
interrompendo-a.
— Outra coisa que aconteceu hoje — completo. — Sua mãe parece disposta
a tentar se reaproximar.
Clarissa grunhe, sem intenção alguma de levar a conversa adiante.
— Você é tão inocente quando quer — reclama. — Isso vai durar dois dias,
você vai ver.
— Eu sei, mas... não quero que finja que você não quer nada parecido —
elucido. Ao perceber o que digo, seus olhos retornam para os meus. — Não
precisa ter vergonha em admitir que, dessa vez, deseja que tudo seja
diferente. Sei que você já desistiu do seu pai, mas sua mãe parece ser...
menos pior.
— O prefeito não me causa mais nada além de gratidão por pagar tudo o que
eu quero. — Rissa é mimada em sua fala de propósito. — Porém, posso
admitir que... com a Natália seja diferente. Um pouco, só.
— E se não quiser tentar, tudo bem — cito. — Minha família gosta muito de
você.
— E eu gosto muito de você.
Sem tempo para o decorrer da pauta, Clarissa beija-me com todo o fervor
guardado de saudade das últimas horas. A língua é invasiva, nem um pouco
delicada, fazendo a minha pele arrepiar-se por inteiro e meu ventre inflar.
A ansiedade de beijá-la refoga todas as malditas borboletas no estômago e
me fazem recordar do primeiro beijo. Do segundo e do terceiro, até pararmos
neste que deve ser o centésimo. Ou mais que isso.
Com certeza, é mais que isso.
Arrumo minhas mãos em seu ombro, apertando o tecido de sua camiseta que
parece tão pesada quanto a minha. Não perco tanto tempo, me afasto dela
por apenas alguns segundos, usados para retirar a peça por seus ombros e
jogá-la em um dos apoios de guitarra que Majuri usa quando está por aqui.
Clarissa se desfaz da minha também, suspirando um agradecimento ao sentir
sua pele em contato com a minha. Também sem sutiã, o vale de nossos seios
se completa, roçando um no outro, na fricção acalorada que tanto estamos
acostumadas.
A necessidade do ápice do prazer cresce, me guiando em sintonia até segurá-
la pelo rosto, com força o bastante para oferecermos um beijo explícito uma
para outra. Sugo sua língua e seus lábios, brinco com a ponta de sua orelha, e
não prendo o gemido eloquente que escapa por entre os meus dentes quando
Clarissa alcança um dos meus seios.
Tê-la é tudo o que mais quero. Não penso tanto quando sento-me mais
próxima de seu joelho, dedilhando a mão pelo caminho delicioso de sua
calcinha. É uma combinação de “calcinha velha” com “calcinha de ficar em
casa”, porque há um urso marrom estampado na frente que com certeza
acabaria com todo o meu tesão se eu sequer me importasse com isso.
É apenas um mero detalhe.
Ajudo-a a se livrar da peça íntima, ajustando dois dos meus dedos em sua
boca. Afundo-os com precisão, assistindo Clarissa chupá-los por alguns
segundos. Úmidos com sua saliva, ordenados por uma aura transparente,
retorno para sua virilha, brincando com todas as possibilidades que poderei
seguir.
A herdeira abre as pernas com calma e muita paciência para mim. Ao
contrário dos beijos, nosso corpo age com toda a tranquilidade do mundo,
sabendo que temos muito o que aproveitar.
Determinada a fazê-la ter uma ótima tarde, encontro o centro estreito e
necessário. Clarissa morde os lábios, beijando os meus ombros e permitindo
a passagem de meus dedos pela cavidade que clama por mim.
Por nós.
Não há porque fingir que quero terminar logo, não insisto em uma
performance que fará com que encerremos em cinco minutos.
Invisto nela. Em suas giradas de cabeça, os lábios secos por mantê-los tanto
tempo abertos, as pálpebras fechadas e espremidas.
Os dedos dos pés se contorcendo, o apoio do banco apertando e
provavelmente machucando sua mão ao tentar fixar-se em uma só posição.
É tudo uma grande obra prima, que merece ser admirada de perto, sem
qualquer intenção de acabar tão cedo.
Busco sua boca com a minha, mas continuo com os olhos abertos sem a
intenção de perder um segundo de sua devoção.
Inicio um caminho deliciosamente úmido com a minha língua por sua boca,
ressaltando os gemidos célebres que escapam de mim como a nossa mais
nova sinfonia.
Sem os beijos, satisfeita por ter experimentado seu gosto, me concentro em
presenteá-la com uma boa dedada, segurando-a pelas costas. Se Clarissa se
desfizer na minha mão mais uma vez, é capaz que role para o chão a
qualquer segundo.
Só paro de refazer os movimentos quando o barulho inquietante de seu
celular nos prega um susto. Mas logo volto ao que estava fazendo, sem
tempo ou paciência para dar ouvidos à uma ligação. Quem quer que seja,
terá que ligar mais tarde.
Entregando-se cada vez mais para mim, Clarissa me beija sem pudor algum,
mordendo meus lábios, suplicando dentro da minha boca e repassando os
dentes pelos meus ombros desnudos.
Mas o toque do celular volta, e volta, e volta, até nos irritar o suficiente para
perdermos a paciência em conjunto.
— Espera aí — pede, colando sua testa na minha. — Ninguém goza assim
com o tema de “As Visões da Raven” tocando por aí.
— Seu toque de celular é “As Visões da Raven”?
— Você teria reconhecido se não estivesse ocupada.
— Eu quero estar ocupada.
Clarissa me arranca um selinho, prometendo que atenderá a pessoa insistente
e voltará para perto de mim o quanto antes. Retiro meus dedos de seu centro
bem devagar, torturando-a. Me levanto primeiro, permitindo sua passagem.
É em pé que noto como a minha calcinha está úmida e pesada. Se eu juntar
as coxas, percebo o quão intensas estão as coisas lá embaixo.
Espero pacientemente Clarissa atrás da bateria, vamos continuar exatamente
aqui.
A herdeira busca o celular dentro da bolsa, em cima de uma mesa de apoio
do pequeno estúdio. Ele volta a tocar em sua mão, tremendo e cantando uma
das melhores aberturas de séries de todos os tempos — reconheço agora.
— Porra... — Clarissa xinga, contorcendo o rosto em incredibilidade. — É a
minha mãe!
— Atende!
— Depois eu retorno...
— Se ela tá ligando tanto...
Ela me fita, entediada. Tem todos os motivos do mundo para ignorá-la e
voltar para perto de mim, mas por alguma razão, decide escutar Natália. Ao
menos, se Clarissa ficar irritada ou estressada com o telefonema, teremos um
sexo ainda mais preciso.
Um pouco indecisa, demora até ceder.
— Alô? — Atende, levando o celular para a orelha. — Oi, mãe — diz.
Observo seu rosto fechar-se. — Não, não tô ocupada — mente. Pisco em sua
direção, abrindo um sorrisinho malicioso. — Hum... tem que ser agora?
Não? Pode ser mais tarde? Ah... sério?
Ok, né. Não, não. Não tenho planos. Vou ficar na Base no turno da
madrugada... antes disso? Ok... tá bom... ok... hum... certo, tchau.
Beijo.
Clarissa desliga, ainda fascinada de um modo sem jeito com que acabara de
escutar.
— E então? — Coloco as mãos para trás do corpo, inofensiva.
Preciso dela agora mesmo.
— Acredite ou não, minha mãe me convidou para fazermos compras juntas
— revela, ainda sem palavras. — Faz muito tempo que não saímos só... nós
duas.
— E você vai?
— Parece... interessante. Disse que vai me buscar.
— Eu acho que você deveria ir, sim — opino, sendo franca. — E se for
terrível, estarei bem aqui. Você sabe.
— Esse é o problema, Ária. — Morde os lábios, reflexiva. — Eu quero ir.
— Então vá!
Ela assente mais vezes do que o necessário, talvez procurando falhas no
convite ou desculpas para recusar. Mas não deixo que pense demais, não
quando fomos interrompidas.
— Vem. — Busco-a, abraçando e beijando-a muito. — Temos assuntos
pendentes aqui.
Seguro seu rosto com as mãos, beijando-a de olhos fechados.
Há todos os milhares de fogos de artifício bem ali no meu estômago, mais
calma e renovada, Clarissa deixa-se ser conduzida para a mesa mais perto. É
uma pena que não utilizaremos a bateria de novo, mas posso pensar em
outras grandes alternativas. Senta-se, obediente à minha frente e, sem eu
pedir, retira a calcinha por entre as pernas, deixando a peça despencar
graciosamente até o chão.
Ansiosa para me sentir viva de novo, demoro-me em beijá-la, sentindo suas
pernas me prenderem com força diante do móvel.
Agora, tudo é um pouco mais calmo, mais acentuado, romântico, sem
desespero algum. Nossas cabeças não trocam de lado com força, é suave,
límpido, cálido.
Ouço seu corpo estremecer ao suspirar, de volta ao clima em que fomos
interrompidas. Da boca, beijo sua bochecha, repassando para o pescoço e
ombros. No busto livre de tecido, afago meu rosto no vale de seus seios,
inspirando novamente o cheiro adocicado de seu corpo.
Inebriada, trilho um caminho estratégico de volta para a sua intimidade,
assistindo sua boca entreabrir à perspectiva de onde está meu dedo.
Agacho-me um pouquinho para beijar sua coxa, sem ter coragem de olhar
para outro lado que não seja seu rosto. De um, uso outro dedo, acariciando o
centro inchado que já revela o que acontecerá.
Admiro o tempo prolongado que Clarissa leva para atingir o auge de sua
devoção a nós, apertando meus ombros entre as unhas e resfolgando um
grunhido mais alto que o normal, entre os lábios torneados.
Ligeiramente desnorteada, Clarissa agarra-me de volta, dedicando-se em
uma tarde muito bem proveitosa.
41
“Pegue uma cadeira, Aproxime-se, vibre!
O show já vai começar.”
Cinema e Seus Dramas – Canção de Liz Salles ÁRIA CAMPOS LHE
CONVIDA, Para fazer parte de uma extensão fenomenal de apoio e ajuda
à cidade. Embarque em uma noite cheia de vida e cor, com maravilhas
encantadas para refletirmos sobre o alento ao próximo.
Em uma sexta-feira sem nuvens no céu, Natália de La Plume montou uma
festa inteira para mim.
A marca de um milhão de seguidores me ensinou que esta quantidade não é
“nada” hoje em dia. “Qualquer” pessoa poderia atingir a casa do milhão e,
ainda assim, não teria sua vida completamente bagunçada. Eu tive, aliás,
mas outras pessoas que conheço que possuem os mesmos seguidores são
apenas usuários das redes sociais e só. Ponto final. Acabou.
Reflito nisso enquanto estou dentro de um vestido de uma marca que
Vinícius escolheu a dedo, sem maiores consultas a mim.
Levemente
contente,
passo
pelo
salão
da
festa
cumprimentando os convidados, que fazem bem mais sentido no ponto de
vista de Natália do que no meu. Não faço ideia de quem sejam todas estas
pessoas, mas a maioria me reconhece.
A mansão foi enfeitada com fotos minhas pela entrada e pela saída, com o
tema de fotos vintage e cabines de fotografias instantâneas. No fundo,
lembra uma festa de quinze anos, a diferença é que meu vestido não se
parece com um bolo de confeitos.
— Você tá bem fofa — Majuri me elogia, desviando das pessoas e me
entregando uma taça de suco de laranja.
Aceito a bebida, sorrindo.
Usa uma porção de pulseiras no braço e anéis coloridos nos dedos. As contas
que colorem suas vestimentas são em vários tons de coral. Para variar, está
linda.
— Fofa? — Olho para o vestido escolhido e para ela, conferindo o que diz.
Em comparação à sua roupa, pareço mesmo uma debutante, já que Majuri
Mahar usa uma saia longa de crochê e deixa suas tatuagens bem aparentes,
sendo um acessório único. — Não é bem isso que eu estava pensando.
Chique, talvez?
— Você se considera uma pessoa chique?
— Não tanto, mas definitivamente não estou fofa.
— Você tá linda, Ária. Mas fofa também.
— Acho que piorou.
Ela dá de ombros, bebericando sua bebida. O que deve ser uma mistura
deliciosa de suco de manga com amora. Olho para o lado, procurando por
rostos conhecidos. E não é que a festa esteja um saco, mas também não está
legal.
— Tá com saudade de tocar? — Majuri muda rapidamente de assunto,
aproximando-se de mim para que ninguém mais escute. — Porque eu estou
quase delirando... essa noite sonhei que uma guitarra me perseguia em um
museu de cera!
Rio alto, concordando sem parar.
— Estou, sim e... andei pensando em você.
— Em mim? — Junta as sobrancelhas. — Sem querer ofender mesmo, Ária,
mas não quero me meter em confusão com você e com a Clarissa. Tá na cara
que vocês tão juntas.
— Primeiro — reforço. — Obrigada. Segundo, nós teríamos que disputar
pela Clarissa, não o contrário. — Ao me ouvir, Majuri sorri. — E terceiro, só
me escuta, ok?
— Ok!
— E outra coisa! — acrescento. — Já superei você!
— Ah, é?
— Sim!
Majuri faz um sinal com sua taça de suco, como se quisesse brindar com a
minha.
— Bom saber.
— Andei refletindo que você não precisa mais apenas se divertir com a
banda e não levar nada para frente — sussurro de volta. Majuri e o resto das
meninas sabem sobre o interesse de Helena e da Gravadora Farol em mim,
se eu puder arrastar ao menos uma delas comigo, me sentirei vitoriosa. —
Ainda não fechei nada, o contrato é longo... Nada é certo, mas... você seria
uma ótima guitarrista. Nós seríamos uma boa dupla caso queira me
acompanhar na realização do meu maior sonho!
A pele marrom-escuro de Majuri tem poucas gotículas de suor concentradas.
Ela toca no nariz gracioso e acentuado e respira fundo.
— Pensei que seu maior sonho fosse estrelar um musical.
— Faz diferença? — resmungo. — Não muda o fato de que quero você por
perto.
— Não quero servir de apoio.
— E nem quer mais uma carreira secreta — completo, casual.
— Eu sei que não. Clarissa e as outras, sim... ou talvez. Mas eu vejo a forma
como você é apaixonada pelo que faz, Majuri. E não precisa ignorar sua
paixão pela música. Tô aqui, pode vir comigo se quiser!
A garota pressiona os lábios com força, coçando a sobrancelha direita,
borrando alguns centímetros da maquiagem impecável. Ao todo, nós somos
um grupo de planos extremamente sólidos. Diana deseja mudar de estado,
Rafa embarcará para outro país assim que a Baby J nascer, Clarissa vai para
São Paulo quando o semestre na Torritieli Torres terminar — e é possível
que eu esteja prestes a trocar de ares também se assim assinar com a Farol.
— Se... — Ela arqueia o dedo anelar, receosa. — Se você assinar com eles e
ainda quiser minha companhia, posso pensar. Até lá, continuarei membro da
Era de Heras.
O destino da banda ainda é muito incerto. Pelo o que eu sei, as garotas estão
juntas há mais de um ano e meio. É muita história para contar, uma vez que
estou dentro da banda há menos de quatro meses. E o público da Rafa é
exigente, quero conquistar o meu.
Além de que, sou carne fresca e recente, mais fácil de se despedir.
— Combinado. — Encosto sua taça na minha, brindando.
— Vem cá, Ária — define, dividindo o peso entre os pés. — Posso te fazer
uma pergunta?
— Não faço ideia de qual seja a marca do meu vestido — adianto-me,
abrindo os braços. — Vini que escolheu e ele... bem, me conhece bastante.
— Interessante, mas não é isso, não. — Majuri sorri, mostrando os dentinhos
pequenos da frente. — Sou um pouco fofoqueira, então quero saber... se
você e a Clarissa... andam...
juntas, mesmo. Ou se é apenas fofoca mal contada da Diana.
— Na verdade, não estamos juntas — confesso. — Matamos uma pessoa e
enterramos o corpo no quintal da frente. Desde então, preciso aturá-la. —
Respiro fundo, lamentando falsamente sobre a minha aproximação repentina
com a herdeira Plume. — É o que dizem, duas pessoas não podem guardar o
mesmo segredo.
— Por mais que seja provável imaginar um cenário como esse, ainda é
desanimador pensar que vocês só estão juntas por causa de um crime cruel.
— Tem razão. — Dou-me por convencida. — Rissa e eu...
Estamos saindo. É o que posso dizer.
Majuri me analisa de cima a baixo, abrindo um sorrisinho gentil nos lábios
carnudos.
— Que bom! — deseja sinceramente. — Fico feliz que tenham se resolvido.
Vocês não são muito boas disfarçando, os olhares começaram a ficar óbvios
demais.
— Ela não é tão boa atriz quanto eu — insisto, provocativa. — Sou bem
melhor.
Majuri gargalha fraco, sinalizando com a cabeça que concorda.
Por falar em Clarissa, ela é a primeira pessoa em quem reparo ao adentrar o
salão da festa, sendo acompanhada por Lilian e Diana. Rafa é a única de nós
que se mantém sentada, sendo paparicada pelo namorado Bruno e alguns
outros convidados fascinados pela gestação.
Sinto os olhos de Majuri em mim, porque sabe perfeitamente que a minha
garganta está meramente fechada e meus dedos inquietos ao redor da taça.
Arrumo a postura de imediato, querendo chamar a atenção da modelo custe
o que custar. Felizmente, sou a primeira pessoa que Clarissa também procura
pelo olhar, atenta a todos os rostos, até reconhecer o meu. Nós não sorrimos
ou nos animamos, apenas acenamos com o queixo.
Sutis.
Bem mais sutis do que Majuri pensa.
— Tá tudo pronto? — Lili, que também sabe sobre o plano, questiona,
caminhando para cá. — Vini está lá no fundo.
— Acho que sim — respondo, procurando outras alternativas em Rissa, que
apenas sinaliza que podemos começar com o plano o quanto antes. — Cadê
o Batista?
É automático todas nós procurarmos pela figura de poder mais importante da
festa; perto do palco, ao lado da orquestra sinfônica que representa um dos
ensaios clássicos mais famosos do mundo.
Há um mar de pessoas entre o prefeito e eu, é impossível que me veja, mas
lhe escaneio com maestria. Natália, do outro lado do salão, conversa
animadamente com Helena, entrosadas em uma conversa cheia de risadas e
gestos.
Quando o último violino soar, o prefeito fará um discurso e usará do
momento para evidenciar que o meu presente — após ganhar um milhão de
seguidores — é continuar doando para as vítimas das inundações recentes.
Dali em diante, sei que haverá um bote.
Como? Não faço ideia.
Aguardamos, em silêncio, a música terminar, recebendo uma salva de
palmas dos convidados que se mantiveram interessados na apresentação.
Também aplaudo, porque os holofotes, querendo ou não, estão em mim.
Como o esperado, o prefeito Batista troca um aperto de mão com um de seus
fiéis apoiadores e ajeita a gola da camisa social, indicando que caminhará até
o palco. É o mesmo segundo que uso para me locomover entre todos; quanto
mais perto estiver dele, melhor.
Clarissa e Diana ficam para trás de propósito, e Lilian segue comigo.
Com muita calma, assistimos o prefeito subir, degrau por degrau, com um
sorriso imenso no rosto. Há uma foto minha em um banner vergonhoso
perto de um letreiro enorme, exibindo meu nome em pisca-pisca.
Tudo aqui grita o último nível de cafonice.
— Sabe... — Lilian começa. — Eu bateria em alguns fotógrafos por você.
Viro o rosto.
— Mesmo?
— Depende do que eles fizessem — cochicha. — Por exemplo, hoje mesmo
eu bateria neste prefeito com as minhas próprias mãos.
— Possível que aconteça!
Nós rimos ao mesmo tempo e Lilian Campos faz algo que deixou de fazer há
anos; segura a minha mão, buscando passagem por entre meus dedos, para
que os seus se aninhem na minha palma, de uma forma protetora e fraterna,
que causa uma intensidade de superpoderes crescendo em mim.
Talvez agora eu possa fazer qualquer coisa.
Qualquer.
Batista recebe aplausos muito antes de se aproximar do microfone, o que
pode revelar que metade dos convidados foi uma lista comprada de
figurantes. Ou apenas pessoas que não foram afetadas pela chuva.
— Boa noite, pessoal! — diz, todo alegre perto do microfone.
— Que prazer imenso é tê-los aqui. Uma festa que deveria ser descontraída,
meio bobinha, servindo para uma causa tão especial.
Fico feliz que Ária Campos tenha aprendido alguns bons costumes comigo...
Começou. Claro.
Batista de La Plume não ficou furioso comigo por ajudar, assumiu um papel
desafiador contra mim porque não lhe ofereci créditos nos últimos tempos.
Não agi como uma garotinha movida por agradecimento pelas
“oportunidades” que pensa que me presenteou ou me ofereceu tudo de
bandeja.
Mesmo fazendo parte de sua família de um jeito ou de outro — da forma
mais superficial possível —, em seu ponto de vista ainda sou a mesma garota
de um bairro comum e afastado, que ganhou na “loteria” ao ter a chance de
conviver com ricaços da zona sul.
Nada além de números em uma porcentagem.
Por cima dos ombros, olho para Clarissa, afirmando que pode seguir com a
distração perfeita para que Natália consiga o microfone de volta. Se
continuar com o discurso, é capaz que a minha “chance”, como bem gosta de
imaginar, seja esmagada para sempre.
Clarissa confirma e, com a precisão de uma atriz dramática, arrasta-se na
direção de um garçom, pegando duas taças. Com cinismo, as derruba ao
chão, causando uma explosão de vidro, suco de laranja e suco de morango,
espatifados bem ali.
O susto generalizado faz o prefeito calar-se, preocupado com a situação. Os
demais convidados olham para a herdeira imediatamente, sem esperar um
segundo de raciocínio. Aos poucos, os que entendem que se tratava de um
acidente retornam à atenção para o prefeito, mas o vozerio aumenta e a
fixação é dispersa.
— Desculpe — Clarissa pede, sacudindo os dedos. — Foi um acidente! —
fala alto.
No lado esquerdo do palco, Natália já está caminhando, sorrindo para os
poucos curiosos que continuam de olho no palco.
Com um toque muito bem educado, a primeira-dama passa o marido para o
lado e segura o microfone pelo tripé.
— A equipe de limpeza pode cuidar disso, meu bem. — Natália sorri, sem a
intenção de repassar a fala para o marido. O
prefeito não deixa de parecer animado, embora seu semblante mostre
confusão pura. — E parafraseando o que meu amado e querido marido disse,
estamos felizes que Ária seguiu os passos que resolvemos trilhar para ela.
Mas... como a festa é dela, que tal a chamarmos, hein? — oferece, sendo
ovacionada. — Ária Campos, a palavra é sua!
Natália segura o microfone com força, sem coragem de olhar para o prefeito
que busca apenas uma oportunidade de completar seu discurso horrendo e
moralista.
Subo ao palco ao lado de Lilian, ainda de mãos dadas com a minha irmã
mais velha. Troco um sorriso encantado com Batista, ignorando seus avisos
por meio de olhares sórdidos.
— Obrigada, Natália! — falo perto do aparelho, me familiarizando com
tantas pessoas me encarando. Há sorrisos e expressões positivas, mas ainda é
assustador. — E obrigada, Batista, pelas sábias palavras — provoco. —
Antes de tudo, preciso falar que esta família me acolheu tanto, mas tanto,
que posso até mudar meu nome para Plume. — A piada faz com que uma
grande parcela ria, contagiada por mim.
Solto a mão de Lili discretamente, sabendo que se afastará para perto das
coxias primeiro.
— E também gostaria de dizer que Vinícius e Clarissa são ótimos amigos,
sério. Os primeiros-filhos são a minha parte favorita deste governo, não tem
como negar — continuo, conquistando cada vez mais risadas. — Porém,
todos sabemos que há alguns dias, fomos surpreendidos por um desastre sem
precedentes e os números não param de crescer. E há famílias que ainda
buscam por desaparecidos de bairro em bairro. É injusto festejar por uma
marca hipotética quando tantos precisam de nós.
Faço uma pausa, procurando pelo apoio de Clarissa. Ela faz um sinal
positivo com o polegar, o que significa que já tenho a atenção de todas as
pessoas do salão.
— Então, decidi que as doações seriam feitas como presente.
— Sorrio, abertamente. — Mas as surpresas ainda não acabaram! —
prometo, arregalando meus olhos de animação. Retiro o microfone do tripé,
abrindo meus braços. — Com o apoio do prefeito Batista, que
carinhosamente doou tudo, anuncio que está aberto o leilão!
Os murmúrios surpresos não são páreos para os aplausos em clima de festa
que se iniciam como pólvora na festa. Os convidados mais desatentos são
sacudidos entre si, alegres.
— O leilão começa agora! — reforço. — Todos os instrumentos herdados da
Família Plume estão em jogo. Além de quadros centenários, joias nobres e...
o gran-finale!
Olho para o prefeito, extasiada com sua reação; ele não sabe como reagir,
deseja terminar com esse teatro de pronto, mas não sabe como fazer isso sem
ser gravado ou desmascarado. Sua pele branca está mais pálida do que
nunca.
Todos mantêm seus celulares em mãos e os flashes pipocam sem parar,
vidrados nos próximos acontecimentos.
Seria tolice me barrar, todos veriam.
— Prefeito Batista — chamo-o, com a voz doce feito mel. — Quer anunciar
o gran-finale?
Sua reação é tossir, desesperado por uma salvação. Batista nega com as
mãos, rindo sem jeito ao afirmar que posso continuar.
— Ele tá tímido, pessoal! — brinco com a plateia. — Antes de revelar o que
será leiloado por último, gostaria de relembrar que todo o dinheiro
arrecadado pelo leilão será doado, em prestação de serviço comprovada por
lei. Até o último centavo será destinado à Base e às pessoas que ainda
precisam de assistência especializada, principalmente em melhorias para
suas casas e reconstruções de lares.
A comemoração vem em peso, sedentos.
— Suspense, por favor — peço ao baterista da banda atrás de mim. Mãos
são erguidas, sacudidas para todos os lados, pedindo por mais. —
Cuidadosamente, a Família Plume, por inteiro, leiloará a mansão!
O caos é instalado com sucesso; deputados buscam saber o início da
confusão, apoiadores boquiabertos não sabem se vibram ou se perguntam se
a família está bem. O resto é uma grande harmonia de esperança, uma vez
que a mansão deve custar mais dinheiro do que consigo contar.
Aprecio cada reação, desde as mais exageradas até as mais sinceras.
— Vamos começar? — falo, alto. — O primeiro item do leilão é um violino,
herança da família francesa. Em ótimo estado!
Vini aparece da coxia, empurrando um pedestal feito de acrílico, onde o
violino está confeccionado. Nós demos uma geral na maioria dos
instrumentos pela internet e sabemos que valem bem mais hoje em dia.
Batista, já não muito preocupado com a sua reputação, analisa tudo, sério,
chocado com a presença do filho, da esposa e da filha. Lilian retira o
microfone da minha mão, começando a recitar as vantagens do violino e
atiçando os primeiros lances.
Dou alguns passos para trás, ficando ao lado de Natália, entre ela e Batista.
O prefeito pigarreia, virando um pouco na minha direção. O sorriso falso é
para enganar a imprensa, mas o tom de voz é acusatório.
— O que pensa que tá fazendo?
— Um leilão. É beneficente.
— Que porra é essa, Ária?
Sorrio em sua direção, para conseguirem captar a foto perfeita.
— Você não pode negar nada a eles — continuo. — Não quando ficarão de
olho neste leilão. Cada item merece estar com seu comprador ao final da
noite. Até mesmo a casa. Cada vacilo seu foi e ainda será computado. É
melhor sorrir e acenar, prefeito.
— E outra coisa. — Natália me abraça de lado, carinhosa, fingindo pousar
para um fotógrafo perto. — A casa é minha, Batista.
Eu decido o que faço com ela.
A pele alva e pálida de Batista torna-se vermelha, como um pimentão.
Pavor e repulsa trilham seu rosto; há uma escolha de poder que precisará
definir. Brigar conosco na frente de todos e ainda assim ser criticado, ou ao
menos aceitar a derrota que sua casa perfeita, sua família exemplar, sua
decoração melhor ainda e sua herança “nobre” ruíram de uma vez por todas.
Sem chances de volta.
42
“Em uma noite especial, Não consigo pensar em mais nada Ah, dance
comigo Ah, viva comigo!”
Sorria, Sorria, Sorria – Canção de Liz Salles — À Noite de Hollywood!
— grita meu pai.
— À Noite de Hollywood!
Viro todo o shot, colocando a língua para fora e me concentrando para não
morrer.
Depois do leilão, decidimos finalizar a verdadeira noite com uma passada no
Clube 148; já que a maioria de nós está vestida como se estivesse prestes a
conquistar uma estatueta do Oscar, meus pais foram visionários em oferecer
mais um dia temático com bastante karaokê.
Finalmente o piercing acima da minha sobrancelha cicatrizou, posso
conviver em paz com cerveja e chocolate.
— Acho que isso é o divórcio. — Clarissa pousa a mão na minha perna,
ocupando um lugar comigo no bar.
Muitos dos convidados do leilão toparam nos seguir até o clube e festejam
na pista de dança, felizes com suas aquisições. A maioria dos instrumentos
foi vendida e taxada; os objetos de herança foram os que mais saíram. Aliás,
a senadora Anili comprou um candelabro de prata que fez com que o
prefeito passasse mal e fosse atendido por ambulância e tudo.
A casa, lógico, ainda não foi arrematada, mas Vinícius me garantiu que
continuaria à venda, até que alguém se interesse. O
que, no meu ponto de vista, não demorará muito. A notícia que a mansão
está disponível correrá pela cidade freneticamente, até atingir os empresários
de São Paulo e das outras regiões.
— Tem certeza? — Passo a ela um drinque de super-herói que meu pai
inventou.
Nós olhamos ao mesmo tempo para sua mãe, Natália, tentando se concentrar
em uma conversa com a minha. Bete é falante, escandalosa e gosta de
cutucar os ombros das pessoas ao rir, o completo oposto da futura ex-
primeira-dama, que mal sacode-se no ritmo da música.
— Tomara que sim. — Suspira, voltando-se para mim. — Ela me disse que
quer.
Clarissa e a mãe andam passando muito tempo juntas. Indo às compras,
ajudando no ginásio, cozinhando, saindo com Vini e até mesmo telefonando
apenas para fofocarem. É óbvio que há dias melhores que outros e fases em
que Clarissa pensa que tudo dará errado outra vez, porém, as duas estão na
mesma frequência. Bom, espero que sim. E espero que a frequência esteja de
acordo.
Que estejam tentando.
— Mas, às vezes sinto que pode tudo ruir, sabe? — questiona.
E eu assinto. — É engraçado como pode parecer fácil, então... se ela falhar...
— Estaremos aqui — completo. — Beberemos e falaremos mal dela.
— Só isso não vai adiantar, mas é uma boa opção.
— Ei, você também não precisa se aproximar dela apenas porque sente que
sim, sabe? Não é seu dever consertar tudo.
Rissa a encara, ao longe. Ainda falando com a minha mãe, Natália está um
pouco mais solta na conversa. Um pouco.
— Não quero consertar nada — define. — Quero ser paparicada.
— Então é isso! — Ergo minha bebida. — A ser paparicada.
— A ser paparicada!
Espero um pouco mais para entender se Clarissa falará mais alguma coisa,
porém não diz. Estudo seu rosto para entender que, agora, quer apenas beber
e curtir uma noite de Hollywood.
Antes de eu conseguir responder ou fazer mais uma piada, aceno para seu
irmão, que se aconchega entre nós.
— Ei... — Vini nos abraça. — Posso vazar?
— E pra onde? — reclama a irmã, chocada. — Pensei que cantaríamos uma
das músicas de Crepúsculo. Tá me dizendo que vou ter que fazer o vocal de
“Supermassive Blackhole” sozinha?
— Exatamente. — Vini beija sua testa, me fazendo rir. — Uns caras me
chamaram para jogar basquete, é uma madrugada inteira bebendo e jogando.
E eu... pensei em ir!
— Vai lá. — Dou tapas nas suas costas. — Você merece fazer amigos novos.
— Queria comemorar com vocês a queda do papai, mas isso podemos fazer
todo dia a partir de hoje, né?
Clarissa entende o quão importante é para Vini estabelecer seus próprios
laços, engolindo sua vontade própria para si.
— Vai lá! — encoraja. — Te espero pra tomar café, então.
— Beleza, maninha.
Ele nos beija na bochecha de novo, todo carinhoso.
Retorna para o grupo de amigos, desfazendo os nós nas gravatas e rindo
bastante de uma piada interna que contaram em menos de dois segundos de
conversa.
— Vai passar o Natal comigo?
Me surpreendo com a pergunta.
— O Natal? — repito. — Isso é daqui a... um mês e meio.
— Tá perto pra caramba — defende-se. — Gosto de fazer planos!
— Então, sim. Claro que sim. Passo o Natal com você.
— Isso aí — provoca de leve. — Vamos passar o Natal com todo mundo?
Com seus pais? A minha mãe? E o namorado da Lilian?
— Acho que sim...
— E o que você achou dele?
Rissa toca os meus ombros, apontando para o cara que ajuda Lili a servir as
mesas. Resumidamente, se trata de seu namorado, Caio.
— Não nos falamos muito, mas em três segundos, ele defendeu ideais bem
estranhos. O que combina perfeitamente com a Lilian.
A modelo ri.
— Então, um brinde aos amores! — declara.
— Um brinde aos amores!
43
“Sem chances Você é a minha garota Nada mais disso importa, Porque você
é minha, garota.”
Então Foi Assim – Canção de Liz Salles Envio o último pagamento que
consegui arrecadar essa semana para os meus pais, enfiando o celular na
bolsa de mão que carrego sem saber exatamente para onde ir.
Lilian me ajudou a escolher uma roupa que transparecesse elegância e que
deixasse meu estilo em destaque. Disse que para uma Superestrela, preciso
começar a reivindicar a minha marca e a minha identidade visual.
— Boa noite, pois não?
Paro de andar ao sair do elevador principal, dando de cara com um hall
principal, junto a uma recepcionista solitária. Atrás de uma pequena mesinha
alta, a mulher me saúda com simpatia.
— Hum... reserva de... Clarissa Plume?!
— Ah, sim! — A mulher sorri. — A senhorita Clarissa. Pode seguir em
frente até o próximo elevador, é o nono andar.
Não deixo transparecer que estou confusa. Para entrar no prédio, precisei
subir dois lances de escada, entrei em um elevador até o décimo andar e
preciso pegar outro para subir, até o nono. É a arquitetura e as coordenadas
mais confusas que já vi na vida.
— Obrigada — é o que eu respondo, seguindo pelo caminho indicado.
Dentro do novo elevador, checo o meu visual pela décima quinta vez desde
que saí de casa. Ouvi todos os conselhos de Vini e Lilian quanto à moda;
uma calça de alfaiataria, saltos novos, uma camiseta de uma das minhas
bandas favoritas e um blazer despojado por cima. Maquiagem e batom
vermelho, cabelo solto, mas bem penteado.
Estou ótima, mas ainda assim, nervosa.
É meu primeiro encontro em, sei lá, meses?
Embora tenha saído com Clarissa algumas vezes, é oficialmente nosso
primeiro encontro.
O elevador estaciona no andar demarcado, e suas portas deslizam para lados
opostos. O lob do restaurante Eclair me recebe com ares frescos de aroma de
frutos do mar. Os garçons passam para todos os lados, sutis e delicados, ao
suspenderem bandejas perto do ombro.
Todo o restaurante fica no topo do prédio mais alto de São Palomane, que
não é lá muita coisa, mas o suficiente para conseguirmos ver boa parte da
cidade. O estádio, o parque no centro, as montanhas que interligam os outros
municípios e a rodovia.
Com o clima de fim de ano, a decoração de Natal é repleta e minimalista,
não há Papai Noel de espuma nos vidros, mas as cores usuais estão lá.
Ainda mais perdida, tento não parar no meio do salão para procurar por
Clarissa, mas é inevitável. Todas as pessoas estão ocupadas, música clássica
e refinada vem diretamente de um pianista, em um mirrado palco — pois é
pequeno de propósito.
Cada vez mais que eu olho, em busca dela, me sinto sozinha e ansiosa.
Ela ainda não chegou?
Como vou saber que mesa sentar?
No entanto, lá está ela, sentada em uma das últimas mesas, ao lado de uma
janela enorme com vista para o Vale Palomane e a Catedral de Madre
Esperança. Porém, entendo como não a encontrei antes.
A Clarissa que eu esperava ver hoje seria a versão com os cabelos de duas
texturas pela transição capilar, mas a que está a poucos metros de mim, tem
os fios cortados acima das orelhas. Com os cachinhos pequenos e fechados,
brilhando pela umidade de algum creme finalizador. O piercing no septo de
Clarissa termina de conduzir sua postura imbatível de sempre.
Fico espantada e, ao mesmo tempo, admirada com a coragem de cortar tanto
de seu cabelo original. Não é algo que a torne irreconhecível, está
igualmente bonita. Quem dirá, mais.
Ajeito a postura e pigarreio fraco, desfilando até ela.
Preciso desviar de algumas mesas pelo caminho, porém Clarissa está
ocupada demais analisando a paisagem, com a mente fluindo.
— Demorei? — Sento-me na cadeira de frente pra ela, na intenção de lhe dar
um susto.
Contudo, Clarissa apenas sorri na minha direção, suave.
— Não muito, ainda nem pedi o vinho.
— Vinho — repito, me ajeitando no assento. — Você vai ficar falando nessa
língua difícil? Sobre safra, tinto ou seco? Não faço ideia do que isso
signifique.
— Você pode pedir suco de laranja se quiser, Ária.
Concordo de imediato com a cabeça, porque é a melhor alternativa possível.
Levo alguns segundos aproveitando sua presença e sua aparência sofisticada.
Nos últimos dias, todo o ambiente midiático foi bem caótico para os Plume,
então nosso encontro teve que ser remarcado mais de cinco vezes. Apesar de
estar feliz ao lado da mãe redescobrindo uma vida sem um casamento vago
com o prefeito, o nome de Clarissa não saiu das manchetes nem um dia
sequer. Falam de sua aparência, seus planos, suas fotos. É como se tivessem
lembrado que possuem a it girl por perto.
E com a mudança para São Paulo, passamos mais tempo embalando seus
pertences e comendo macarrão na casa dos meus pais logo após a meia-
noite. Faz muito tempo que não saímos apenas nós duas.
— Você tá bonita — elogio de pronto, puxando o cardápio para mim.
E está mesmo.
Usa um vestido simples e vermelho, com alças finas que pouco sustentam os
seios fartos, mas acentuam a silhueta incorporada da modelo.
— Ah — pragueja. — Essa velharia? — debocha, brincando.
— Comprei há muito tempo!
— Tá muito bonita, mesmo assim.
— Você também. — Derrete-se, sorrindo bem mais agora. — Se fosse nosso
primeiro encontro, tipo... se fôssemos nos conhecer apenas agora, você teria
me conquistado no elogio.
— Só isso? É tão fácil assim? Alimentar seu ego e ganhar um beijo?
— Não me importo com mais nada. — Gesticula, abanando o ar. — Se a
pessoa entende que estou linda é isso o que importa.
— Mas é sério, Rissa — pontuo, agora bem mais intensa. — Você tá linda
com o seu novo corte. Fez hoje?
Agora consigo atingi-la em um ponto sensível. Delicada ao tocar no novo
corte, Clarissa toca com carinho as pontas cacheadas, sorrindo
minimamente.
— Você gostou? — quer saber. — Demorei para fazer, mas...
pensei em fazer logo. Eu gostei, mas quero me acostumar ainda.
— Eu amei! — Vibro, falando bem alto. — Combinou com o seu rosto! Tá
moderno, do jeito que você gosta. Não precisa mais usar rabo de cavalo
como se fosse comandar a Inglaterra a pulso firme.
— Não vou sentir falta das suas piadinhas.
— Eu vou — garanto. — Mas não se preocupe, Rissa, sempre encontrarei
algo pra te irritar. É o que me faz ser tão incrível!
Bem mais confortável perto dela, faço questão de sempre observar seu novo
corte com carinho, para que saiba que nada mudou entre nós. Que continuo a
achando a garota mais linda do mundo, com a boca mais torneada possível e
com os olhos mais cintilantes que já vi.
Consigo causar o efeito desejado, pois a herdeira fica sem graça em alguns
instantes, sorrindo de lado e escondendo o riso entre as mãos. Repouso a
minha bolsa de mão em cima de uma cadeira vaga à esquerda, chamando sua
atenção.
— Por que sua bolsa parece lotada? — questiona, curiosa demais.
— Porque está.
Não tenho tempo de explicar exatamente o que guardo nela, porque um
garçom gentil se aproxima de nós, perguntando o que pediremos.
A experiência do Eclair consiste em servir pratos diferenciados de acordo
com o que o cliente deseja, quase nenhuma invenção é a mesma, o que o
torna interessante. Peço um drinque de morango com gelo seco, salada de
entrada e um prato de carne com batatas rústicas, que garante que possui
lascas de banana da terra por cima.
Esperando nossos pedidos, aponto para a minha bolsa.
— Eu pensei em uma coisa. — Pego-a de volta, abrindo o zíper. — Você
disse que não gosta muito de conversar e passamos um ótimo momento no
parque, então... passei na banca de jornal e comprei dois romances água com
açúcar para lermos e debatermos.
Retiro os exemplares de “Fogo Cruzado”, ambos protegidos por um plástico,
especificando que são edições novas. Há uma mulher com os ombros à
mostra, dentro de um vestido de camponesa, com o semblante ocioso na
capa. Sendo abraçada por um lenhador de barba grande e ruiva, sussurrando
supostas aspirações carnais e sexuais.
— Mentira! — Clarissa retira da minha mão um dos livros, passando direto
para a contracapa para ler a sinopse. — Tudo bem que eu estava um pouco
tensa sobre como levar um encontro adiante, talvez não me ache interessante
o suficiente para isso...
— Você é uma modelo na frente de todo o mundo e uma baterista sexy nas
horas vagas. Você tem uma identidade secreta, Rissa. Claro que é
interessante!
— É — brinca com os lábios, movendo-os. — Talvez eu tenha!
— E aí? — Sacudo o livro para os dois lados. — Quer ler?
— Quero! — diz, com os olhinhos brilhantes. — Mas podemos ler apenas o
primeiro capítulo?
— Pode ser.
— Obrigada... pelo livro — arfa, encantada. — Mas hoje, por você... eu
quero, de verdade, conversar bastante.
Nós nem ao menos rasgamos o plástico do livro para começar a desvendá-
los. Simples assim, tagarelamos a noite toda.
Tivemos que cantar mais de cinco “Parabéns a Você” que começaram
abruptamente sempre que um cliente pedia por um bolo especial de
aniversário.
De sobremesa, pedimos um doce para adoçar o nosso paladar depois de
comermos. Estou satisfeita, mas ainda comeria um podrão lá na Praça dos
Três Sóis — uma ideia que é rapidamente apoiada por Clarissa.
E a sobremesa que escolhemos é um sorvete de menta e chocolate que pega
fogo na nossa frente.
— Bom, já que estamos comendo sorvete, posso falar que tenho uma
surpresa para você.
Alcanço a minha bolsa outra vez, sacudindo-a.
— Outro romance de banca que vamos ler em uma noite? — desafia Rissa,
levando a colher até a boca.
— Bem que podia, tinha várias opções por lá — comento. — Mas não é isso.
É algo... que você vai gostar de saber!
Reabro o zíper, procurando o que guardei, dobrado em dois, com todo o
cuidado do mundo. Guardei segredo por mais de uma semana, está na hora
de falar o que tanto quero. Retiro o documento com prática e o desdobro,
deslizando-o pela mesa, até Clarissa poder lê-lo com calma.
Com a colher suja de sorvete e os olhos atentos, aprecio cada esfera de seu
rosto mudar ao entender o que aquilo significa.
— Ária — chama-me, chocada. — Mentira?!
— Juro para você!
— Ária! — fala de novo. — Sério?!
Assinto diversas vezes com a cabeça, adorando a maneira que seu sorriso
sincero ainda é o mesmo para cada conquista minha — seja grande ou
pequena. Clarissa está de frente para o contrato da Gravadora Farol, mantido
e agenciado por Helena, que passou muito tempo me explicando cláusula por
cláusula, além de ter colocado meu pai e Natália para lerem todos os pontos
acordados. E
Lilian.
Tenho um contrato de seis anos, especificamente.
Começaremos com a produção de visual e planejamento certeiro entre
cantora e estilo. Se tudo der certo, abrirei os shows da banda Desvio em
maio do ano que vem, e os de Allura Guispe agora em dezembro.
— Sabe o que isso significa?
— Que a minha ficante gostosa vai ficar pertinho da banda favorita dela?
— Também! — comemoro. — Mas que posso me mudar para São Paulo.
Inclusive, Helena pediu que eu fizesse isso o quanto antes.
Rissa engasga, mas de uma forma positiva. Solta a colher, se aproximando
ainda mais da mesa, curvando-se sob a taça.
— Você vem morar comigo? — pergunta, estática. — Diz que sim! Não vou
implorar muito, não sou disso! — avisa. — Só que não quero que me visite
apenas no final de semana...
— Bom... se você quiser... que eu more com você.
Clarissa recosta-se na cadeira, sorrindo levemente.
— Ária, é tudo o que eu mais quero no mundo.
Como estamos em lados opostos, nenhuma de nós avança para colarmos
nossos lábios. Mas há vontade, tanta, que finalizamos a noite muito antes do
esperado.
Clarissa paga a conta com muita velocidade, ansiosa para comemorarmos do
nosso jeito. Apesar da noite agradável e de ter conhecido um lugar novo, o
melhor espaço sempre será abraçando-a com força.
Na saída, minha mão coça e formiga para segurar a sua, mas me contenho.
Muitos dos clientes nos reconheceram e acenam com praticidade, desejando
uma ótima noite. Até os funcionários pedem uma foto nossa, comovidos por
nos receber.
No elevador, pelas câmeras, nós não nos aproximamos muito.
Qualquer material vazado será uma enorme dor de cabeça, e entendo quando
agimos como se fôssemos apenas amigas.
No estacionamento, lembro de sua vontade. Quando casais apaixonados não
querem finalizar a noite e trocam um longo beijo de boa noite e despedida.
E, apesar de não termos intenção de acabar com o encontro aqui, penso mais
do que tudo em beijá-la.
No final do estacionamento, atrás de grades que seguranças impedem de se
aproximar, há uma leva considerável de paparazzi sedentos por nós. Eles
gritam nossos nomes, perguntam o que não deveriam e pedem para
acenarmos para as fotos. Os cliques não param nem quando nos
aproximamos do carro de Clarissa, já que ainda conseguem nos ver. Seja
pelo zoom das câmeras de alta potência, seja porque são enxeridos — e
pagos para isso.
— Se acostume com isso, Superestrela — Clarissa recomenda, com um tom
puxado para o deboche. — Só vai piorar quando descobrirem que você é
sensacional.
— Eles nunca descansam?
— Acho que se multiplicam. — Dá de ombros. — Enfim, quer ir para a
praça?
— Quero te beijar.
Outro engasgo.
— Agora?
— Quero te dar seu beijo no estacionamento.
Clarissa sorri, mas não sorri de forma maldosa ou para aparecer bem nas
fotos que são tiradas de nós a cada meio segundo. Ela sorri de verdade, sorri
por conforto, sorri porque gosta da ideia e sorri porque me adora. Ou mais
que isso.
Sorri quando segura a minha mão e me encosta em seu carro.
E sorri quando me abraça pela cintura, beijando-me sem maiores alardes.
Escuto os gritos deles, os insultos que os seguranças retumbam, pois um
tumulto generalizado começou.
Porém, cada ruído externo do mundo é silenciado quando os lábios de
Clarissa tocam e se fazem presentes no meu. Cada pessoa ali desaparece,
cada insegurança evapora por alguns segundos.
Em um estacionamento, são apenas duas garotas se beijando.
Apenas.
Nada mais e nada menos que isso.
Quando me separo dela, ainda estática pelo seu ato, rio sem jeito, espantada.
O que vamos fazer agora?
— Essas fotos vão estar na internet — relembro.
— Que estejam — rebate. — Quero que sejamos tipo “Clarissa and Ária
Aesthetic Couple” no Pinterest e foda-se.
— Por que seu nome aparece primeiro? — resmungo. — Prefiro “Ária and
Clarissa Aesthetic Couple”.
— Reclame com o Pinterest. — Ela dá um passo para trás, abrindo a porta.
— Vem, entra. Vamos arranjar um lugar mais calmo.
— Aqui. — Cutuco-a com o meu ombro. — Já estamos nas colunas de
fofoca.
— Em menos de uma hora!
Entrego seu cachorro-quente para ela, sentando ao seu lado no meio-fio, de
frente para a barraca da Arminda. Nós despistamos os paparazzis há algumas
horas. Estamos fascinadas com todas as notícias que saem aos montes,
confusos com o status do nosso relacionamento.
— Meus pais não vão ficar surpresos — conto.
— Espero que não, toda a oportunidade que tem eu apareço por lá... — fala,
de boca cheia.
Clarissa continua a mexer em seu telefone, com o olhar baixo.
— Tá tudo bem? — questiono. — Porque se você se arrependeu...
— Não! — brada, aflita. — Não é isso, é que... — Seu celular treme,
notificando uma nova atualização de e-mail. Rissa comemora baixo,
segurando-o. — Porra, finalmente chegou!
— Chegou o quê?
— Isso! — Ela abre um anexo no e-mail, é tão recente que o horário mostra
que foi enviado há poucos segundos. — Só cala a boca e assiste!
Me aproximo dela, olhando para a tela apagada de um vídeo que se inicia.
Alguns instantes depois, percebo que a pessoa do outro lado é Liz Salles.
Liz.
A minha cantora favorita.
Liz.
A pessoa que me inspira todos os dias.
A Liz!
— Oi, oi, Ária! Aqui é a Liz Salles... hum... acho que você sabe. Me perdoe
por parecer tão... velha?! Mas a idade chega até para os ícones pop! — Ela
ri alto, em uma risada congestionada e rouca. — Também não me arrumei,
porque estava lá atrás na minha horta. Quando puder dar uma passadinha
em Santiago, venha me visitar.
Meus olhos enchem de lágrimas automaticamente. Liz Salles sabe o meu
nome. Liz Salles quer que eu vá ao Chile. Liz Salles tem uma horta atrás de
sua casa. Liz Salles tem uma voz rouca de tanto fumar. Liz Salles gravou um
vídeo para mim.
— E não é sobre isso o que quero dizer, é sobre a Clarissa.
Garota maravilhosa, viu, Ária? Quando a equipe da mãe dela entrou em
contato comigo, pensei em não responder, mas foi por um bom motivo.
Assisti seus vídeos cantando a minha música, você é um serzinho talentoso,
feito de luz e ouro! Sucesso, minha querida!
Engasgo, travando um grito na garganta. As lágrimas descem pelas minhas
bochechas, levando pedacinhos de cílios e rímel.
— Ária Campos, minha grande fã número um, a Clarissa quer saber se você
aceita namorar com ela.
Me explodo em uma choradeira total, fungando e sentindo meu rosto inchar.
Ficará vermelho amanhã de manhã e terei dor de cabeça ainda hoje.
— Aguardo a resposta, meu bem! — Liz Salles canta. — Obrigada por todo
o apoio, espero que um dia possamos nos conhecer. Lembre-se que amor é
amor e que a perdição vive dentro das palavras. Um grande beijo, da sua
mais nova amiga, Liz!
O vídeo finaliza com Liz me enviando um beijo e um acenar de mãos. Seu
sorriso continua o mesmo e os olhos carregados de simpatia também.
— Liz quer saber se você quer namorar comigo, Ária.
Abraço Clarissa com tanta força que seu celular voa da mão e o lanche cai
dentro da cestinha ao lado da batata-frita extra que pedimos.
— Como conseguiu isso?!
— Contatos da minha mãe. — Me abraça de volta. — É fácil conseguir.
Choro que nem um bebê em seu colo. São lágrimas de felicidade, mas ainda
me aconchego em seu peito. Choro porque estou feliz, porque a amo, porque
adoro o trabalho de Liz desde pequena e porque finalmente consegui
alavancar passos gigantescos.
Choro por amor, uma vez que a demonstração não é exclusiva da tristeza.
Nunca foi.
— A resposta é sim! — fungo, saindo de seu abraço. — A resposta é mais
do que sim. É mil vezes sim!
— Ah, que bom. Porque eu menti, foi bem difícil de conseguir isso aí com a
Liz.
Rio feito uma tola; levanto do meio-fio e pulo no lugar, chamando a atenção
de Arminda e quem mais esteja presente.
— Ei, pessoal! — berro e danço. — Eu namoro com ela!
44
CLARISSA E ÁRIA?
Quando dissemos que elas estavam mais unidas do que nunca, não era bem
isso o que estávamos pensando.
De toda a forma, nós da equipe desejamos que as duas sejam muito felizes.
Postado por MinutoGossip CLIMA DE ROMANCE EM MEIO AO
DIVÓRCIO
A filha do prefeito Batista de La Plume parece não estar nem um pouco
interessada na catastrófica vida política do pai. Sofrendo a maior rejeição
entre os governos da cidade, Batista ainda enfrenta um divórcio amplamente
assistido com a empresária Natália, com quem foi casado por mais de trinta
anos.
Clarissa, estudante e modelo, atualizou seus seguidores que está em um
relacionamento sério com a cantora Ária Campos, a mesma que acabou
revelando ao compartilhar um vídeo.
Ao menos um dos Plume tem sorte no amor.
Postado por PalomaneReal
Á
ÁRIA CAMPOS & CLARISSA DE LA PLUME
Quando convidamos nossas queridas amigas, Ária e Clarissa, para estrelar a
capa de dezembro, dando boas-vindas ao Natal, nós tínhamos certeza que
seria a melhor edição em anos.
Somos grandes fãs do casal, antes mesmo de serem um.
Em toda e qualquer oportunidade, precisamos reconhecer o amor.
Ária e Clarissa são um dos nossos casais favoritos.
Postado por Louise Lou Brasil
epílogo
“A perdição vive dentro das palavras, Meu bem, isto é uma baita
maldição.”
Fim de Ano – Canção de Liz Salles É NATAL!
Que o espírito natalino lhe dê paz, serenidade e que seja um tempo de
recomeços e perdões!
Postado por Louise Lou — O que você tá fazendo aqui?
Termino de colocar a última peça dentro da caixa, completamente tranquila
na tarefa.
— Fazendo uma boa ação — respondo, dando a volta pela cama de Lilian e
fechando a caixa de papelão que coloquei em cima de sua colcha. — Esta
belezinha aqui vai direto para Base... ainda precisamos de roupas por lá!
— Tá pegando as minhas coisas? Sem me consultar?
Lilian cruza os braços, impedindo minha passagem no batente principal de
seu quarto. Se fosse em qualquer outro dia, ela voaria no meu pescoço para
impedir que eu saia com suas roupas, especialmente por não consultá-la
antes.
— Não preciso de consulta. — Dou de ombros, fechando a caixa e a
pegando. — Você vai doar tudo o que coloquei aqui.
— E o que colocou? — Arqueia uma sobrancelha.
— Roupas que jamais foram tiradas da embalagem, cachecóis, blusinhas,
shorts, saias, já que o verão tá chegando. — Sorrio. — Aqui também tem
meias novas com etiquetas, luvas, casaquinhos e claro... como ia me
esquecer? Seu casaco de pele sintético.
— Não. — Ri, com olhos esbugalhados e apenas um olho piscando. — Meu
casaco não.
— Tem três caixas parecidas com esta lá embaixo — informo.
— Esta é a última. E o seu casaco, querida irmã, já era. Já não tá mais aqui.
— Você...
— Não tô fazendo isso para te irritar. A Base precisa de roupas, também tô
mandando coisas minhas e novas pra lá — interrompo sua fala. — Mas... ok,
talvez o casaco eu tenha pego de propósito!
— Ária!
Coloco a caixa entre nós, querendo ou não, vou passar.
Dezenas destas roupas Lili sequer usou; não tem como deixar tantas roupas
guardadas quando podemos dá-las para quem realmente precisa.
— Já estou indo pra Base, não adianta. — Aproximo-me um pouco,
forçando a caixa em sua barriga com delicadeza. — Ferre comigo ou com a
minha vida acadêmica, pessoal ou profissional de novo e perderá mais que
um casaco de pele falso, irmã — ameaço, sutil. — Ok, te perdoei, seguimos
em frente, fiz a prova e passei. Mas ainda foi fácil demais e isso, ter ficado
perto de você, não quer dizer que esqueci. — Abro ainda mais o sorriso. —
Então? Posso ir até lá e seguir para a Base?
Lilian arruma os ombros, ainda que esteja furiosa comigo, entende e respeita
meu ponto.
— Justo — ameniza a expressão, se recompondo. — Estamos quites?
— Veremos — defino. — Você é quem decide. Chega de trapaça?
— Vou ter meu casaco de volta?
— Nem ferrando.
— Chega de trapaça.
É possível que amanhã eu acorde com o cabelo azul ou rosa, mas não há
escolha a não ser sair daqui. De seu quarto e apartamento.
Dizem que o fim de ano é usado para perdoar e seguir uma nova vida, posso
começar uma nova política de tentar confiar na minha irmã mais velha e “ver
para crer”. Nunca se sabe quanto de munição terei no futuro.
- Feliz Natal, Lilica – cantarolo quando, finalmente, Lilian abre passagem.
Termino de preparar os biscoitos de red-velvet; o álbum natalino de Liz
Salles toca ao fundo, sendo a trilha sonora necessária para a noite. A
composição da ceia parece boa no meu ponto de vista.
Meu pai até tenta contar uma piada para Natália, enquanto mamãe reserva
uma travessa para o peru.
— Cadê o Vini? — Clarissa me abraça lentamente por trás, curiosa para
saber o que fiz de sobremesa. Ao perceber que se trata dos biscoitos, ergue a
sobrancelha, feliz. — Não me interessa, quero comer todos os biscoitos
possíveis!
— O Vini diz que chega depois da meia-noite, porque passou na casa de um
dos amigos dele.
— Mal vejo o Vini — repara Clarissa, soltando-me para abrir a geladeira.
Agacha-se um pouco para pegar o suco de morango, dentro de uma jarra.
Clarissa ajeita o piercing no septo ao falar.
— Com esses novos amigos, ele anda turistando pra cá.
— Não é isso o que queríamos?
— Sim, mas ele precisava sumir?
Coloco cautelosamente a fornada de biscoitos em cima de um pano de prato
e subo o olhar, para verificar se a mesa precisa de mais alguma decoração
específica para a noite de Natal. O antigo apartamento de Clarissa está
irreconhecível. Sem seus pertences e sua decoração pessoal, o lugar virou
um novo ambiente, já que sua mãe pretende ficar aqui o quanto antes.
Nossos pertences estão em caixas, empilhadas uma a uma no quarto dos
fundos. O caminhão de mudanças chegará depois do Ano Novo e
começaremos o próximo ciclo em São Paulo, morando juntas.
Juntíssimas.
— Gosto dos amigos dele — digo. — E quando nos mudarmos, vamos sentir
falta. Tenho certeza!
— Claro que sim, mais do que já sinto.
A minha conversa com a dela é interrompida por minha mãe, que adentra a
cozinha cantarolando ao ritmo da canção. O vinil é dela, a maior fã de Liz
Salles depois de mim.
Salvei aquele vídeo com a minha própria vida, e desde então, Bete e eu já o
assistimos mais de mil vezes. Corrigindo, pode ser que tenhamos visto um
milhão de vezes — decorei até os gestos de Liz, como se fosse aprender uma
coreografia.
— Vou levar o suco — avisa Rissa, dando-me um beijinho na bochecha e
saindo de perto.
Sozinha com a minha mãe, ela repousa a cabeça no meu ombro.
— Agora, você pode mesmo seguir em frente, Superestrela.
— Do que tá falando? — Preparo o chantilly para decorar os biscoitos. — É
porque estou me mudando?
Meu pai convida Lilian para dançar no meio da sala de estar, fazendo
reverência e tudo. Ela também vai se mudar, mas para outra cidade. Um
tempo longe de nós, com o namorado, talvez seja o que precise.
— Também — assegura. — Mas porque você se preocupava demais conosco
e acho que ainda não agradeci por tudo o que fez.
— Não quero que pense...
— Ária. — Me interrompe, calma. — Não era seu dever fazer nada do que
fez e, ainda assim, quase nunca reclamou. Então, por favor, quando você
estiver em São Paulo, estudando, cantando e tocando, não pense mais em
mim ou em seu pai!
— Credo! — reclamo, esbugalhando os olhos. — Sério?!
— Estou falando sério! — Aponta o dedo no meu rosto. É uma ordem. —
Não quero que olhe para trás, não quero que pense que precisamos de sua
ajuda. Porque o tanto que fez já é o suficiente.
Quero que cuide da sua música e volte a atuar, quero te ver em uma novela e
lotando estádios pelo Brasil. Quero sua felicidade, Superestrela, e quero que
cuide de si mesma, mais do que cuidou de nós! — Com muito mais
praticidade, Bete toca sua testa com a minha. — Minhas dívidas não são
suas dívidas. Viva a sua vida, não a nossa.
Cada vez que uma conta desaparece, outra surge horas depois. É cansativo e
agoniante, mas entendo o que mamãe quer dizer e sinalizar; se eu aparecer
de novo lá em casa com a solução de todos os seus problemas, é possível que
seja expulsa.
— Você me entendeu, Ária?
— Entendi. — Desgrudo dela, sorrindo. — Claro que entendi!
Me concentro de novo, ficando sozinha.
De relance, verifico se todos estão bem ou precisando de algo, a tempo de
encontrar Rissa e Natália rindo de uma piada interna. A relação delas
melhorou bastante. Em janeiro, vamos estrelar a campanha de verão da
Tulipe Tulipe e temos planos de fazer nossa primeira viagem internacional a
trabalho, a mando da marca.
Se estou empolgada? Muito.
Se pretendo desmaiar antes de colocar meus pés dentro de um avião?
Também.
O fato é que Natália também está se autodescobrindo e posso afirmar que
meus pais, como ótimos sogros, andam ajudando bastante. Não só com o
processo turbulento de um divórcio público, como lidar com os primeiros
dias extremamente sozinha e sem amigos.
O que lhe animou um pouco foi descobrir o meu namoro com Rissa. Preciso
afirmar que não ficou muito surpresa, mas ao menos não surtou como
pensamos que surtaria — menos um problema na conta.
Aliás, a recepção foi boa.
Claro que tivemos que ler comentários declaradamente violentos — e até
sexistas — sobre um relacionamento que não era da conta de ninguém. O
que me faz entender o porquê Zendaya e Tom Holland demoraram tanto
tempo para assumirem que estavam juntos.
Não que eu seja como os dois, mas...
Enfim.
Deu certo, na medida do possível. Nossa privacidade foi amplamente
prejudicada e confesso que devíamos ter pensado melhor em como anunciá-
lo. Entretanto, meu receio desfalece por completo quando beijo Clarissa em
público sem ter medo de vazar algo; quando seguro sua mão em um evento
ou quando conversamos em particular, apenas porque somos namoradas.
A nomenclatura é tão fabulosa e poderosa, que simplesmente sei que nada
mais importa.
Termino de decorar o último biscoito ainda pensando em Rissa — uma
pessoa que está no mesmo recinto que eu —, quando meu celular começa a
tocar. Penso em não atender ou fingir que estou ocupada, porque, na
verdade, estou.
Só decido entrar em ligação porque pode ser Vini ou Helena.
— Oi? — Desengonçada, coloco o celular entre o ombro e o rosto, falando
sem olhar o visor.
— Ei!
É Vini!
Meu melhor amigo começa a despejar tudo o que precisa, me dando como
presente de Natal a notícia mais cabulosa de todos os tempos. Nesta altura
do telefonema, todos já sabem que estou conversando com alguém e pausam
suas tarefas para prestar atenção em mim, cada um mais tenso que o outro.
Somente quando desligo é que falam algo.
— Que foi? — Lilian questiona, pensativa. — Algo aconteceu?
— É a Rafa — falo, perplexa. — A bebê tá nascendo!
Passar a noite de Natal em um hospital não estava dentro dos planos, mas ao
menos levei biscoitos para compensar.
— Ei... — Rissa senta-se do meu lado, na sala de recepções particular da
maternidade. — Tem aqui!
Ela segura a edição de dezembro da sua revista favorita, a Louise Lou. Na
capa, Clarissa está abraçada comigo, dentro de vestidos novos de uma grife
nova, de uma artista nordestina em ascensão. Nos convidaram para
participarmos da capa para celebrar o nosso relacionamento, que fora um
divisor de opiniões na imprensa. Opiniões essas que não pedimos, só para
deixar claro.
Fizeram uma entrevista enorme sobre como nos conhecemos e como
iniciamos o namoro; a entrevista tem sete páginas e o ensaio foi
maravilhoso.
Foi a minha primeira capa e vendeu feito água. A edição esgotou nas
primeiras cinco horas à venda, e o exemplar em e-book precisou ser
atualizado, porque os downloads congestionaram a plataforma.
— Você tem umas cinco dessas! — Vini, ao meu lado esquerdo, reclama.
— E daí? — Rissa devolve o embate. — É a minha primeira foto com a
minha namorada. É um marco, Vini. Você não entenderia!
— Eu acho brega! — Diana interfere.
— Isso porque você não tem uma namorada e não tem com quem estampar
uma cover da Louise Lou — Majuri também retruca.
— Hum... — Diana pensa. — Verdade!
A sala particular está cheia, há uma pequena mesa de comida com poucas
variedades, o suficiente que conseguimos trazer. Há gorros de Papai Noel
por toda a parte, assim como bengalas de açúcar pregadas na parede,
biscoitos de gengibre ilustrados em portas e uma música ambiente natalina
padrão e irritante.
Quando Vini me ligou para anunciar que Júlia, a filha de Bruno e Rafa,
estava chegando, ele já se encontrava no meio do caminho.
A mobilização foi geral, e meio que estamos arrumados demais para
ficarmos em uma maternidade. O que deixa tudo ainda mais fascinante.
Meus pais conversam com os pais de Majuri, conjuntamente com Natália,
bebendo um pouco de água. As únicas pessoas autorizadas a participar do
parto foram os familiares de Rafa e Bruno, respectivamente.
De leve, a porta é aberta, revelando um Bruno Pinhal totalmente
emocionado, usando uma roupinha médica e cirúrgica azul-bebê. Há uma
touca que esconde seus cabelos claros.
— Gente. — Bruno funga ao chorar. — Ela nasceu!
A explosão de gritos é silenciada por uma enfermeira-chefe, que pede
encarecidamente que fiquemos em silêncio. Mas já é tarde demais, porque já
me encontro em pé, ansiosa para ver a mais nova integrante da banda.
— E tá tudo bem? — Diana, ao meu lado, segura a minha mão por reflexo,
apenas para se manter firme. — Porque assim, gente. Vocês podem até ser
amigas da Rafa e tudo mais, mas eu sou irmã do Bruno, então a Júlia é a
minha sobrinha por direito.
— Cala a boca, Diana — Rissa e eu pedimos ao mesmo tempo.
— A Rafa tá dormindo, mas ela pediu que as meninas fossem as primeiras a
ver a neném. Pode ser?
Bruno é recebido por vaias, porém, não se importa, um pedido é um pedido e
será realizado. Majuri e Rissa são as primeiras a saírem correndo ao lado de
Bruno e eu sou a que fica, para pegar o presente especial que encomendei
assim que soube que Julia chegaria por esses dias.
Diana e eu, juntas e temerosas, seguimos pelo corredor onde Bruno e o resto
já desapareceram. Nós viramos na primeira esquina, encontrando o quarto
indicado. Bruno nos recebe como um porteiro, falando que precisamos lavar
as mãos e colocar máscaras cirúrgicas.
Acatamos as instruções e entramos no quarto ao mesmo tempo. A suíte, com
uma banheira de hidromassagem e uma cama enorme, foi decorada em tons
de verde e roxo. O silêncio é a primeira coisa que reparo. A calmaria e a
sutileza são elementos mágicos para manter o bebê calmo.
Rafa realmente está dormindo, com o rosto repousado em um travesseiro e
alguns eletrodos conectando-a a alguns aparelhos. Mas Júlia, sua filhinha,
está muito bem acordada dentro de um pequeno berço de acrílico e um
colchãozinho menor do que uma caixa.
— Ela é a coisinha mais linda do mundo! — Emocionada, Majuri curva-se
diante do berço. — Espero que puxe a Rafa.
— E acho que puxou.
Sonolenta, Rafaela desperta aos poucos, com os olhos marcados de cansaço.
— Não me importo se não parecer comigo — Bruno fala, admirado. — É a
nossa lindinha que nasceu.
Me aproximo do resto da banda, em um abraço conjunto, ficando próxima de
Rissa. A herdeira mantém suas mãos unidas com as minhas, fascinada por
Júlia; de olhos escuros, cabelo ralo e semblante desbravador.
— Trouxemos um presente — anuncio para Rafa, passando o embrulho para
Bruno. — Espero que goste.
Majuri ajuda Rafa a se sentar melhor, enquanto Bruno abre o presente na
frente da namorada. Em poucos instantes, o body infantil da Era de Heras
revela-se, fazendo Rafa chorar de imediato.
— Ela vai ficar tão linda! — E chora mais, se esgoelando. — E
esse negócio é tão pequeno!
— Uma vez Hera, sempre Hera — Diana confirma, ansiosa para segurar a
bebê.
Bruno ergue a logomarca da banda na frente de Júlia, como se apresentasse à
filha o seu destino irreparável; gostar de música e fazer parte de uma banda
maneira pra caralho.
Nós nos juntamos um pouquinho, o máximo que conseguimos juntar para
tirar mais uma nova foto novinha em folha para a coleção de polaroids de
Clarissa. Queremos que Júlia esteja nela.
Principalmente para crescer sabendo que tem um lugarzinho na banda.
— Ei. — Majuri toca o meu ombro de leve. E é lamentável deixar de olhar a
Baby J um segundo, mas presto atenção no que fala. — Ainda tem espaço
para mim na sua banda? Fiquei pensando no seu convite e ir pra São Paulo
não me parece nada mal.
Sorrio abertamente.
— Sempre, Majuri — declaro. — Helena disse que posso montar meu time
de peso. A Rissa topou fazer os arranjos de bateria enquanto não encontro
outra pessoa, e a Diana ficará no baixo.
Sua boca se franze.
— Espera aí. — Majuri abre um sorriso lento, olhando de mim para as
meninas. — A Diana não vai mais se mudar?
— Por enquanto não — a própria Diana responde. — Quero brincar de
rockstar por um tempo.
— Então — continua Majuri. — Quer dizer que todas vamos fazer parte da
banda da Ária?
— Exatamente — Rissa entoa. — Era de Heras não é mais secreta.
— Nunca mais — acrescenta Diana. — Ou pelo menos até a Ária encontrar
outra baixista, não pretendo ser famosa. Esse rostinho não nasceu para viver
de paparazzi.
Nós rimos alto o bastante para levarmos uma bronca de Rafa, pedindo que
sejamos cautelosas ao fazer barulho perto de Júlia.
Cinco minutos de silêncio absoluto depois, sinto uma mão pesada sobre o
meu ombro, até ouvir: — Que lindinha!
Viro o meu rosto, alarmada pela presença de uma pessoa que sequer vi
entrar. De máscara e de mãos lavadas, ele sorri como se estivesse lá faz
tempo.
— Vini? O que você tá fazendo aqui?
— Ah, ninguém reparou quando eu saí e vim ver a mais nova hera venenosa
do pedaço.
Júlia é comovente mesmo, porque não há um segundo que deixe de observá-
la sem babar. Só me afasto um pouco dela para dar chance de Vinícius
paparicá-la. Abraço Clarissa por trás, guiando-a até a janela mais próxima.
— Agora é oficial, passei nas provas finais, vamos para São Paulo, Júlia saiu
gloriosamente da barriga da Rafa e tenho uma carreira para cuidar. Mais do
que tudo, feliz Natal, Rissa — cantarolo.
— Feliz Natal, Ária.
Trocamos um beijo longo e casto, pontilhando a primeira data especial e
relevante que passamos juntas. E, ok, serei clichê agora, mas é a primeira
data de muitas.
De muitas, mesmo.
— E feliz Natal, Júlia — completamos em uníssono.
A bebê respira fundo, um pouco mal humorada e, por fim, choraminga,
arrastando o choro sentido para fora da pequena garganta.
É alto e escandaloso. Já mostrando que tem pulmão e cacife suficientes para
comandar a banda quando todas nós estivermos aposentadas.
Um dia.
agradecimentos:
Primeiro, antes de finalizar TUDO quero agradecer inteiramente aos meus
leitores. Sério. Sem vocês, nem teria forças para sentar na cadeira e
desenrolar um livro tão extenso. Obrigada por terem tanta paciência comigo.
Sinto que finalmente me encontrei.
As parcerias para este livro foram intensas e tão bonitas que sinto que
firmamos ainda mais um ciclo de amizade muito bonito.
Feliz que tenho pessoas tão especiais perto de mim.
Mesmo sem saber, preciso agradecer a Bibi Lendo (Bianca Jung) por ter
aberto a boca na minha frente ao contar uma história super interessante sobre
sua vida. Sem ela, o Vinícius não teria nascido, então que bom que veio.
Valeu, Bibi.
À Raíssa Selvaticci que sempre ficou no pé do meu ouvido para fazer outro
livro sáfico antes do ano terminar e que foi uma ótima apoiadora de sáficas
patricinhas quando apareci com a ideia.
À Andresa Rios que não apenas fez a capa, mas como me aguentou por
quase três semanas falando sobre ideias e descartando CAPAS PRONTAS
até chegarmos nesta de BM, prometo que nunca mais farei isso. Você é um
anjo, Andy!
Mary Dionisio é um achado e tanto neste mundo literário é um privilégio
dividir meu trampo e meu trabalho como alguém como ela.
É realmente encantador tê-la por perto! Você pode conferir o trabalho dela,
conjunto a Jade Reis, na novela sáfica “Entre Guirlandas e All-Stars”!
Raiane Viana, como sempre, fazendo um ótimo trabalho comigo e todos os
meus surtos e mudanças de última hora. Não sei o que seria sem você pra dar
pitaco! Aninha, que fez as artes da banda e das meninas, é um privilégio ter
te conhecido. Te adorei, já era!
Mariana Lucioli e Alycia Carvalho por terem lido o hot da Clarissa e da Ária
sem reclamar e ainda me deram um super conselho.
E, finalmente, para o Renato; sério, eu não queria ser você.
Da última vez que nos falamos (hoje mais cedo) você ainda precisava ler
todos os meus livros lançados em 2021! Imagina você vendo esse, saindo
fresquinho. Ai, ai. Obrigada por todo apoio, prometo que um dia escrevo
uma saga de robôs assassinos do jeito que você pediu!
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