SEMIÓTICA APLICADA AO
DESIGN
AULA 5
Prof.ª Suzie Ferreira do Nascimento
CONVERSA INICIAL
Nas rotas anteriores, ressaltei que seres humanos têm a extraordinária
habilidade de encontrar coisas concretas que substituem abstrações. Somos
capazes de substituir o perigo por placas, o amor por um presente, e até nosso
mau humor por uma expressão facial pouco amistosa. Você agora sabe que a
Semiótica é a ciência que estuda e tenta compreender esse precioso mecanismo
de substituição.
Busquei convencê-lo de que aprender princípios básicos de Semiótica
pode ser muito útil para sua vida profissional, pois eles o capacitarão a fazer as
coisas de uma maneira diferente do concorrente. Quanto mais criativo você for
em matéria de substituições, maiores as suas chances de ser notado. Insisto:
esta não é uma sabedoria moderna, nem mesmo algum conhecimento produzido
pela Semiótica para fins exclusivos de utilização no Design. Moisés, personagem
importante da tradição hebraica, foi pródigo em matéria de substituições no
projeto do Altar e do Tabernáculo em tempos imemoriais. Aristóteles, grande
pensador grego, já sabia que a capacidade de encontrar as semelhanças era o
que tornava o poeta “fértil” em metáforas, ou seja, em maneiras inovadoras de
expressão.
As “relações” que você estudou nas rotas anteriores são maneiras de
encontrar semelhanças. Você já está em condições de identificar as relações
icônicas, indiciais e simbólicas que permitirão ao seu produto “substituir”
concretamente os desejos dos seus clientes. Mas há aspectos do seu produto
que não são suficientemente estudados por meio dessas relações, por isso você
precisa de mais ferramentas. Nesta rota, você aprenderá a descrever o seu
produto, qualquer que seja ele, por meio de suas “dimensões”. Vamos lá?
CONTEXTUALIZANDO
O princípio que rege as “dimensões” de alguma coisa é bastante simples.
Quando você procura um notebook, um celular, uma geladeira ou mesmo uma
casa, sempre precisará da largura, da altura e da profundidade, pois com essas
medidas poderá imaginar o produto no espaço. Assim entendidas, as medidas
são uma categoria por meio da qual se pode informar sobre determinada coisa.
Mas há outras. Por exemplo, assim como uma caixa pode ser descrita em termos
de largura, altura e profundidade, e um computador pode ser descrito em termos
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de hardware e software, o ser humano pode ser descrito em termos de corpo,
alma e espírito, e um projeto de Arquitetura pode ser descrito em termos de
hidráulica, elétrica e estrutura.
No contexto desta rota, você deve pensar em dimensões como categorias
que buscam permitir a descrição do seu produto do modo mais detalhado
possível. O desafio é descobrir os detalhes que costumam ficar ocultos em uma
descrição mais abrangente. O exercício é muito importante para que você tenha
segurança quanto ao que está fazendo.
As dimensões são particularmente úteis para organizar um projeto ou
portfólio, porque com elas você organiza as informações descritivas. Quando o
aluno se esforça para organizar um trabalho em dimensões tripartites (ou seja,
em três partes), sempre descobre aspectos do seu projeto nos quais não havia
pensado, ou zonas de pouca clareza que precisam ser melhoradas.
Portanto, tenha em mente que o conteúdo desta rota tem o objetivo de
fornecer uma ferramenta a mais de trabalho, um instrumento para que a sua
produção acadêmica e profissional tenha mais qualidade. Assim como nas rotas
anteriores, meu objetivo é mostrar a você que a Ciência da Semiótica tem
aplicabilidade na sua vida profissional prática.
TEMA 1 – O QUE SÃO E PARA QUE SERVEM AS DIMENSÕES E AS FUNÇÕES
DE UM PRODUTO
Neste início de aula, você precisa se convencer de que não há uma
maneira única de tratar as dimensões de um produto. A Semiótica que deriva
dos estudos da linguagem tem um sistema; quando é aplicada ao Design,
assume outro, assim como a Informática terá o seu, a Medicina o seu, a
Arquitetura o seu, e assim por diante.
Dica
A palavra dimensões, além de designar altura, largura e profundidade, é
utilizada para distinguir categorias de uma mesma coisa, geralmente com a
finalidade de organizar informações.
Para não aumentar a dificuldade, será necessário passar rapidamente por
algumas delas antes de tratarmos especificamente da prática em Design.
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As pessoas criam sistemas descritivos de acordo com as características
do que querem descrever. As “dimensões” da Semiótica foram concebidas com
base nos interesses da Linguística, e entraram no Design por meio da
Comunicação Visual. Por isso, ficará mais fácil diferenciar as dimensões
apresentadas nesta rota se souber como elas foram concebidas primeiramente
na Linguística.
Se liga
Linguística é a Ciência que estuda o uso concreto da língua pelos seus
falantes, e a Comunicação se ocupa da transmissão das mensagens entre o
emissor e o receptor. Ambas se utilizam de signos.
1.1 As dimensões da Semiótica
Um nome importante nesse novo cenário é o filósofo americano Charles
William Morris (1901-1979), autor do Fundation of a Theory of Signs
(Fundamento para uma Teoria dos Signos). De acordo com a clássica definição
de Morris:
• A dimensão sintática estuda e descreve as relações entre os signos;
• A dimensão semântica estuda a relação entre esses signos e seus
objetos;
• A dimensão pragmática estuda o modo como os usuários interpretam e
empregam os signos (Marcondes, 2005).
Não é de hoje que os estudiosos tentam encontrar pontos de tangência
entre os sistemas adequados à Linguística e à Comunicação, e os interesses do
Design. O semiólogo francês Roland Barthes (1915-1980) publicou, em 1967, o
livro Sistema de Moda, no qual ambicionou parear as imagens de moda
reproduzidas nas revistas especializadas com o sistema linguístico. Essa obra
explora o fato de a língua e a moda impressa terem em comum sistemas de
signos gerados e mantidos pela cultura. Barthes reconheceu na indumentária
vestida e descrita uma linguagem, e buscou entender o que as roupas diziam,
ou o que as pessoas diziam por meio delas.
A autora Alison Lurie, que escreveu A Linguagem das Roupas em 1981,
levou essa relação ao extremo, e tentou criar uma espécie de alfabeto capaz de
decifrar o que as roupas comunicam, propondo associações entre cores fortes e
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virilidade, entre a ausência de gravata nos padres e a castração, entre a
quantidade de peças que alguém utiliza para vestir-se e um vocabulário mais ou
menos rico (Nascimento, 2014). Esses foram empreendimentos arriscados, mas
tiveram seu valor.
O conteúdo das rotas anteriores já o habilita a compreender que não é
possível aplicar às relações sígneas construídas pelas roupas, as mesmas
restrições que se aplicam à língua, que é basicamente convenção arbitrária.
Todos nós temos que respeitar as convenções da língua em alguma medida, do
contrário, ninguém nos entenderá. Mas, se ninguém entender a nossa roupa, as
consequências não serão tão graves. Se aponto para a pedra e digo “é água”,
meu interlocutor me olhará com desconfiança. Mas, na cultura ocidental atual,
se minhas roupas dizem “eu sou importante”, quando na verdade não sou, as
pessoas tenderão a não levar isso em muita consideração. Eu posso, como
indivíduo, desrespeitar convenções de vestimenta, mas não devo fazer o mesmo
com as convenções da língua.
Mas preste atenção: para os sentidos do observador, existe, sim, um
discurso sendo emitido pelas cores, formas e texturas da indumentária, e o
cérebro toma essas informações como verdadeiras, porque os sentidos não
mentem naquilo que capturam. Pense comigo naquele artista americano famoso
que costuma se vestir como mendigo. Todos os que o conhecem sabem que
aquilo é excentricidade deliberada. Mas, se esse mesmo ator, vestido como
mendigo, for passar férias em um país no qual não é conhecido e onde a
mendicância é crime, poderá ir para a cadeia, porque os sentidos daquelas
pessoas afirmarão que ele é, de fato, um mendigo. Ou, ainda, pense naquele dia
que você sai de casa com a primeira roupa que encontra no armário porque ficou
estudando Semiótica Aplicada até 2h da manhã. Os sentidos do seu observador
não terão interesse nos seus motivos, o que eles sentirão é uma maior
dificuldade em organizar o que captam, causando ao observador uma
desagradável sensação de confusão.
Iniciativas como a de Barthes e Lurie permitem reconhecer que,
considerando a grande flexibilidade atual de atuação do Design, a classificação
de Morris é a que mais se adequa, porque trata as dimensões a partir do signo,
extrapolando os limites da convenção. As rotas anteriores forneceram
informações suficientes para que você possa analisar o caráter sígneo de uma
gama razoável de situações profissionais.
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Mas é preciso ampliar a análise porque o profissional do Design tem
preocupações que antecedem a existência do seu produto no mundo e, além
disso, seu produto ou serviço precisa estar ancorado no uso racional. Nem tudo
em um produto ou serviço pode ser deixado sob responsabilidade da
“interpretação” de cada um. A bola Wilson, em algum momento, foi pensada em
termos de forma e material, e de uso como ferramenta desportiva, e esses
aspectos não são diretamente abordados pela análise do signo. Foi preciso
pensá-la em termos técnicos, encontrar meios de produzi-la, pensar na sua
usabilidade e assim por diante. As ferramentas que você conheceu da Semiótica
não são tão aplicáveis nestes casos.
Alguns estudiosos já trilharam esse caminho em busca do ferramental
teórico mais adequado para analisar os produtos do Design, a exemplo de
Niemeyer (2007, p.49) e seu livro Elementos de semiótica aplicados ao
Design. A autora, que é doutora em Comunicação e tem uma longa história na
ESDI (escola de Design mais antiga do Brasil), recorreu ao filósofo germânico
Max Bense para ajustar a classificação da Linguística à prática do Design,
assumindo que o produto (nesse caso, ela tem em vista produtos industriais)
poderia ser dividido em quatro diferentes dimensões:
• dimensão material (hílico);
• dimensão técnica ou construtiva (semelhante à sintática de Morris);
• dimensão da forma (semelhante à semântica de Morris);
• dimensão do uso (semelhante à pragmática de Morris);
Perceba que há uma mudança significativa no entendimento do que são
as dimensões propostas por Niemeyer, considerando a classificação de Morris,
embora os nomes continuem os mesmos. Niemeyer introduz vários aspectos que
são do interesse produtivo do Design industrial. Esse ajuste, no entanto, traz
consequências. Você já aprendeu que há várias relações (dimensão semântica
na qualificação de Morris) que podem se efetivar entre o signo e o objeto
independentemente da sua forma (qualificação de Niemeyer). O mesmo se
poderia dizer da correspondência entre “uso” e interpretação. No filme O
Náufrago, a “interpretação” (dimensão pragmática na classificação de Morris)
que o náufrago dá à bola Wilson estabelece um “uso” (classificação de
Niemeyer) completamente distinto daquele levado em consideração no projeto
da bola.
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É importante registrar que Niemeyer tem plena percepção da dificuldade
dessa aproximação. Ela sabe bem que a prática do designer, particularmente o
que atua na indústria de artefatos, prioriza certos aspectos, e a Semiótica, outros:
Um produto, como o telefone, pode não ser definido só por aspectos
técnicos ou mesmo ergonômicos, nem por suas funções práticas ou
ambientais, mas por uma evocação que ele provoque, como um
personagem de história em quadrinhos ou uma garrafa de refrigerante.
Parece claro, assim, que a dimensão pragmática, com o apoio das
dimensões material e sintática, não será suficiente para a descrição e
explicação de um produto. (Niemeyer, 2007, p. 52)
Essa “evocação” tem de ser trabalhada na dimensão semântica em um
sentido amplo, não pode ficar restrita aos efeitos causados na visão como
prefere a Comunicação Visual, tampouco se limita à forma.
Até aqui, mostrei as dificuldades que os teóricos estão enfrentando na
aproximação entre a Semiótica que se volta para a linguagem e comunicação, e
um sistema descritivo que pretende ser aplicável ao Design. Some-se a isso o
modo como o Design penetrou em outras áreas, para além da produção
industrial de artefatos, e você pode concluir que há muito trabalho a ser feito.
Estrategicamente, o que farei nos próximos tópicos é retomar as “funções”
do Design, elencadas por Löbach, um autor dedicado ao Design Industrial,
complementando-as com aquilo que os autores da Linguística chamaram
dimensões. Ao final, dedicarei um tópico mais longo à dimensão sintática
(estrutura), porque creio ser importante para a nossa atividade profissional.
1.2 Löbach e as funções do Design
As funções dos produtos de Design são tema de vários livros, mas um dos
mais populares no Brasil é Design Industrial, escrito por Bernd Löbach em 1976
e publicado em português no ano 2000. Segundo esse autor, um produto pode
ser descrito com base em suas funções prática, estética e simbólica. Um bom
produto de Design deveria atender as três funções com a mesma excelência:
deveria ser correto sob o ponto de vista prático, causar uma agradável
experiência estética, e permitir ao usuário fazer conexões emocionais por meio
dele.
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Dica
Quando Löbach publicou a obra Design Industrial, só existiam duas
especialidades em Design: Design de Produto (físico e industrial – larga escala
de produção) e Comunicação Visual ou Design Gráfico. Todavia, ele apresenta
funções que são aplicáveis aos produtos digitais e aos não seriados – produção
única –, como ambientes, roupas sob medida e customização.
Como todo sistema classificatório, o de Löbach também tem seus limites.
É preciso boa vontade para não ver o quão sobrepostas estão as funções
estética e simbólica. É um sistema que funciona bem se forem feitas as
perguntas certas, e por isso mesmo pode ajudá-lo em várias situações de
projeto. A classificação em dimensões da Semiótica, a seu turno, é mais
abrangente, mas dificulta a aplicabilidade imediata. Você já deve ter concluído
que a análise Semiótica, ainda que aplicada, exige uma boa dose de
pensamento abstrato.
Se liga
A qualificação de Löbach é bastante utilizada nos estudos para o Design,
no entanto, a sua terminologia não coincide com a utilizada pela Semiótica de
Peirce.
Saiba mais
Para saber mais sobre as funções adotadas por Löbach, leia o capítulo
Funções dos produtos industriais no livro Design Industrial, disponível na
biblioteca on-line Pearson.
Dica
No início desta rota, escrevi que as medidas de uma coisa são uma
categoria que busca dar informações que permitam localizá-la no espaço. Mas
descrever uma coisa por meio de categorias triplas não é exclusividade da
geometria. A Filosofia, por exemplo, busca descobrir o que uma coisa é com
base em três perguntas fundamentais: o que, como, e por quê. Arnheim (2000)
adaptou essas perguntas filosóficas ao estudo da imagem e estabeleceu que a
sua função poderia ser descrita nas categorias: epistêmica (o que é), estética
(como é) e simbólica (por quê é). Com essa tríade, ele pode descrever a
imagem como informação sobre o mundo (o que), como algo capaz de dar
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satisfação (como) e, finalmente, como símbolo (por quê). Assim, não há nada
de extraordinário na tentativa de qualificar um produto ou serviço de acordo com
a sua funcionalidade.
Conforme adiantei há pouco, o que farei nos próximos temas desta aula
é resumir as funções de Löbach, complementando-as com as dimensões da
Semiótica sempre que isso for do interesse de uma melhor prática.
TEMA 2 – FUNÇÃO PRÁTICA
De acordo com a definição de Löbach, a função prática de um produto
reúne seus aspectos que atendem diretamente necessidades humanas
fisiológicas, como facilidade, conforto, segurança etc. Entram aqui aspectos
voltados a ergonomia, funcionalidade e todas as questões que podem ameaçar
a segurança. Carros, equipamentos eletrônicos, brinquedos, roupas, todos
esses produtos podem causar lesões ao usuário, e uma maneira de evitar que
isso aconteça é, no projeto, prestar muita atenção à sua função prática.
Conforme você já sabe, à época, Löbach tinha em vista apenas algumas áreas
de aplicação do Design. Hoje, a gama é muito maior, e é preciso encontrar a
função prática em todas elas.
Para localizar a função prática na sua atividade, concentre-se no conceito:
o quê, no seu trabalho, envolve o uso pelo cliente. Uma fonte tipográfica
inadequada, a falta ou mau funcionamento de um link, a opção incorreta de cores
justapostas, enfim, as possibilidades são muitas e variam conforme a
especialidade.
O aluno ou profissional que se dedica a isolar esse aspecto do seu projeto
e estudá-lo separadamente terá muito a ganhar. É uma ilusão pressupor que
tudo está resolvido quando a parte estética é convincente. Após a pandemia, por
exemplo, muitas pessoas passaram a trabalhar em casa, e isso está
demandando uma nova abordagem no mobiliário. Aquela cadeira bonita que
costumava entrar em harmonia com a decoração do quarto e da sala, agora
precisa atender às exigências ergonômicas de uma rotina pesada de trabalho. A
pandemia fez com que a sua função prática ganhasse relevância frente à sua
função estética.
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Figura 1 – Foto genérica de ambiente Home Office
Créditos: SeventyFour/Shutterstock.
Na maioria dos casos, você não encontrará grandes dificuldades em
identificar a função prática de uma coisa. O mais difícil é se disciplinar a separar
essa função das demais. No Design de Moda, essa dificuldade é notória. O aluno
resiste a dar verdadeira atenção às facilidades requeridas pelo vestir, porque
está empolgado com a função estética. A rigor, o designer deveria fazer sempre
uma experiência com seu produto ou serviço sem nenhum apelo estético, ou
seja, sem despertar qualquer interesse nos sentidos que não seja aquele que se
volta exclusivamente para o conforto e segurança. Separar as funções do seu
produto ajuda a adquirir este hábito.
Ainda assim, saber identificar a função prática não esgota o problema.
Esse será um procedimento relativamente simples sempre que a função prática
coincidir com bons princípios para a utilidade: uma calça serve para proteger, um
celular para comunicação, uma casa para morar etc. Nesses casos, a “correta”
função prática coincide com os benefícios do uso da ergonomia e da segurança.
Agora analise comigo a coroa da Figura 2. O que seria “correto” em termos
práticos, considerando a função deste artefato? Uma coroa correta, é aquela que
identifica o Rei e sua majestade, ou seja, seu uso se justifica apenas pelo
simbolismo que carrega. A sua verdadeira função não se submete aos critérios
de correção de Löbach para a função prática.
No contexto que esse autor analisa os produtos industrializados, o artefato
deve ser estar correto sob o ponto de vista da usabilidade, ou seja, conforto e
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segurança. Mas seria um grave erro, no caso da coroa, colocar tais
características acima da significação. Afinal, um Rei deve ser capaz de suportar
o desconforto e carregar o peso da sua realeza. Sob o ponto de vista da
classificação de Löbach, a maioria das coroas e tronos seria deficitária na
função prática, porque sacrifica o conforto e a segurança em favor da função
simbólica. Pelo mesmo motivo, autores ortodoxos teriam dificuldade em
classificar sapatos de salto muito alto como “bons” produtos de Design. Eles
podem ser considerados corretos sob o ponto de vista da utilidade, pois são úteis
para dar às mulheres determinadas sensações, mas, sob o ponto de vista do
sentido que Löbach prescreve à função prática (usabilidade, ergonomia etc.), a
maioria não seria aprovada.
Figura 2 – Coroa
Créditos: tomertu/Shutterstock.
Outro exemplo dúbio pode ser visto em alguns carros, motos e similares.
Embora sob o ponto de vista da função prática seus projetistas devessem
priorizar o conforto, alguns modelos têm como característica certa dificuldade
que o piloto deseja enfrentar. Seus consumidores desejam “usá-los” com certa
dificuldade.
Dica
A Ferrari F40 é considerada um dos carros mais icônicos da história
automotiva. Criado para o 40º aniversário da marca Ferrari, o F40 foi o design
automóvel final do fundador Enzo Ferrari. Seu desejo de criar o melhor carro
para motorista foi recebido com fortes elogios e críticas quando foi lançado ao
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público em 1987. Em uma época em que a tecnologia automotiva estava
avançando em direção à assistência de direção digital e analógica, que tornavam
os carros potentes mais gerenciáveis para um conjunto mais amplo de pilotos,
Enzo Ferrari se afastou desse conceito e desenvolveu um carro que exigia um
piloto competente. O carro resultante se tornou um dos mais procurados pelos
colecionadores de Ferrari (Hicks, 1994; Cela, [S.d.]).
Se liga
Na classificação de Löbach, a prioridade na função prática são questões
de conforto e segurança de modo mais objetivo, quase sempre levadas em
consideração no projeto, antes do lançamento do produto ou serviço no
mercado, ou seja, relativizando os usos mais diretamente demandados por
questões de significação. O exemplo da Ferrari mostra que separar a função
prática da simbólica pode ajudar a desenvolver ambas as funções com mais
qualidade, sem que uma prejudique a outra, ou seja, há questões de significado
que não são vistas no estudo da função prática, e vice-versa.
A Figura 3 exemplifica satisfatoriamente os benefícios de identificar a
função prática no seu produto.
Figura 3 – Copo sem detalhes visuais
Créditos: PrimeMockup/Shutterstock.
O copo limpo, sem as informações que serão impressas, permite que o
designer preste atenção ao manuseio, à junção do copo com a tampa, aos
materiais e assim por diante.
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O mesmo para roupas, como na Figura 4. Toda a peça de roupa precisa
ser analisada cuidadosamente em sua funcionalidade e ergonomia e, nesse
momento, é preciso retirar todas as demais influências sobre os sentidos.
Figura 4 – Camisetas brancas
Créditos: airdone/Shutterstock.
Com a identificação do que pertence exclusivamente ao uso, os sentidos
do projetista ficarão mais atentos às costuras, ao caimento, ao colarinho, à
textura do tecido, ou seja, à sua função prática.
A depender da sua área de atuação, será mais fácil ou difícil separar todos
os elementos da função prática. Um arquiteto poderá separar, em maquete ou
em tamanho real, a parte estrutural dos divisores de espaço e dos elementos
decorativos. Um designer de interiores deveria experimentar o espaço, o
ambiente vazio, sem qualquer influência visual, para reconhecer os fluxos, as
sensações térmicas, a entrada de luz. Quem projeta bancos de carro, deve poder
descrever sua função prática em detalhes.
Saiba mais
Veja como Löbach descreve o assento de um automóvel, na página 58 do
livro Desing Design Industrial, que você encontra na Biblioteca Virtual Pearson.
Há mercados nos quais a função prática é dominante, a exemplo do que
ocorre com os aparelhos de TV e celulares. Com raras exceções, uma TV
considerada cara não difere da outra, mais em conta, no que concerne à função
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estética. Celulares de última geração são visivelmente semelhantes aos da
versão anterior, embora possam ser muito diferentes no funcionamento. Em
mercados como esses, o que conta é a inovação tecnológica que está dirigida
essencialmente ao uso.
Agora, assumir que em determinado segmento a função prática é
dominante, não significa assumir que nele a parte ergonômica ou a
funcionalidade devem ser resolvidas a partir de um único critério.
Exemplarmente, há alguns meses assisti uma série asiática na qual um
personagem extraordinariamente rico manuseava um aparelho celular. O que
realmente me impactou não foram os detalhes em ouro e a forma diferenciada,
mas sim o fato de ser um aparelho pequeno, estreito, cuja utilidade,
presumivelmente, estava limitada a fazer e receber ligações: o inusitado luxo de
poder ter um aparelho celular que não dá acesso à internet, não recebe nem
envia mensagens, o luxo de não ser encontrado, exceto por pessoas muito
selecionadas. Esse exemplo, assim como o caso do carro esportivo, comprova
que a correção na função prática, em alguns casos, não é determinada pelo
que há de mais tecnológico ou mais ergonômico. Em alguns casos, há motivos
fortes o suficiente para estabelecer que certos confortos e facilidades sejam
deliberadamente negados.
Dica
Como designer, você precisa conhecer bem as diversas dimensões e
funções que atravessam o seu produto para poder estabelecer uma clara
hierarquia entre elas e saber, assim, justificar com convicção suas escolhas
projetuais.
Até aqui, discorri sobre como Löbach entendia a função prática. Agora,
vejamos como a classificação proposta por Bense e Niemeyer pode
complementá-la.
Na classificação de Niemeyer, a dimensão pragmática pretende
incorporar as funções práticas e ampliar esse entendimento para o que ocorre
com o produto depois da sua inserção no mercado, incluindo, assim, os
significados que a ele aderem por meio do seu interpretante. Seria relativamente
fácil separar para a função prática o “durante o projeto” e diretamente
construtivo e, para a dimensão pragmática, o “depois do projeto” e a
significação.
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Mas, infelizmente, prático e pragmático no terreno das teorizações que
envolvem o Design, se sobrepõem. Niemeyer mesmo é do entendimento de que
a dimensão pragmática absorve outros aspectos pós-produção, como
descarte, e há uma distância considerável entre descarte e significação. A ideia
básica é separar como parte da dimensão pragmática tudo, ou quase tudo, do
seu produto que dependerá da ação de terceiros, depois de pronto.
Particularmente, acho problemático incluir questões interpretativas (acontecem
depois) nos mesmos critérios necessários para estabelecer a função prática.
Mas penso que é bastante útil incluir no projeto questões que dizem respeito ao
meio ambiente, esforços repetitivos, usos indevidos. Sempre haverá aspectos
pertinentes ao seu produto que não aparecem claramente na sua concepção e
produção, mas que terão relevância na interação com o usuário e a sociedade
em geral. Nisso, a dimensão pragmática amplia consideravelmente a função
prática.
Meu conselho é que você, ao invés de se angustiar com teorias, escolha
as dimensões ou funções que melhor apresentam o seu produto ou serviço como
um todo. Estabeleça os critérios, deixando-os muito claros para você e para
quem for interagir com o seu projeto. Se tiver que errar, que seja pelo excesso
de zelo.
Figura 5 – Ilustração de pessoa com dúvida
Créditos: Roman Samborskyi/Shutterstock.
Por exemplo, se o que acontece depois com seu produto ou serviço
precisa ser cuidadosamente analisado, inclua os dois fatores, mas não os
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misture: trate separadamente as questões que envolvem descarte, lesões por
repetição, usos indevidos etc., e as que envolvem ações interpretativas, ainda
que ambos os fatores possam ser classificados como parte da dimensão
pragmática.
Figura 6 – Mouse
Créditos: Dimedrol68/Shutterstock.
Se você está projetando um mouse, no que concerne à interpretação, há
diversos elementos sob os quais deverá estar seguro, e que dizem respeito ao
usuário. Na Figura 6, a cor e forma foram escolhidos em função da interpretação
que o artefato receberá posteriormente, do seu interpretante. Por outro lado, o
uso repetitivo, o descarte, a fragilidade das conexões, são problemas que
também aparecerão depois, no uso. A dimensão pragmática tem a vantagem
de nos lembrar que tudo o que fazemos em termos de Design tem uma vida
posterior, mas você precisa separar seus aspectos e estudá-los
independentemente para poder encontrar a melhor solução para o conjunto.
É possível incluir ainda na função prática alguma coisa das dimensões
material e da sintaxe. Isso ocorre porque, conforme a metodologia proposta por
Löbach, quando você retira do produto tudo o que concerne ao estético e ao
simbólico, o que sobra, em geral, é material e estrutura, sem os quais as coisas
não têm sua função prática.
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TEMA 3 – FUNÇÃO ESTÉTICA
Há pelo menos dois conceitos teóricos vinculados à palavra Estética, e
você precisa aprender a diferenciá-los. Você encontrará autores e segmentos de
estudo que tratam a Estética como sendo o estudo da aparência, ou seja, de
todos os fenômenos. Nesse sentido, você e eu somos “fenômenos” estéticos
porque as pessoas no vêm e sabem que existimos. Há, porém, outro
entendimento que vincula Estética aos estudos do belo, tentando definir o que é
o belo, e por quê. Eu e você, embora certamente sejamos fenômenos estéticos,
para a Estética que se ocupa do belo, talvez sejamos de pouco interesse.
Löbach (2001, p. 59-60) esclarece que está considerando como
pertencente à função estética no seu livro aquilo do produto que os sentidos
humanos percebem e que se desdobra em questões psicológicas, o que indica
que ele está mais voltado para o primeiro sentido, no qual tudo que é percebido,
principalmente pelo sentido da visão, é um fenômeno estético.
Essa definição, no entanto, é muito ampla, e dificulta sua localização nos
produtos e serviços. Mas, entendendo a motivação do livro do Löbach, ficará
mais fácil identificar a função estética. O que o autor está propondo é que, para
estudar em detalhes um projeto, produto ou serviço, você precisa separá-lo em
partes. Se na função prática você concentrou tudo que é indispensável ao
funcionamento, deverá haver uma função que receba aquilo que não está
discriminado na função prática.
Com isso, você irá, automaticamente, identificar elementos que
pertencem à função estética, porque ela incorpora tudo o que concretamente
precisa estar no seu produto para que ele seja percebido, mas não é fundamental
ao seu funcionamento. É quase como dizer que tudo o que é concreto e foi
retirado do produto na identificação da função prática, seja agrupado
novamente na função estética.
Löbach se insere em uma tradição. Ele, assim como alguns dos seus
antecessores notáveis, investiram bastante no discurso de que “a forma segue
a função”. Assim pensada, a função estética – à qual pertence a forma –, foi
vista, por alguns, como algo acessório, que deveria sempre estar submetido às
exigências da funcionalidade.
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Experiência valiosa
Louis Sullivan, o "Pai dos Arranha-céus" de Chicago, inovou ao utilizar
estilos ornamentais para enfatizar a verticalidade de suas obras. Foi esse
princípio que o levou a proclamar a sentença "a forma segue a função", embora
ele próprio conceda os créditos da frase a Vitrúvio.
Você pode conhecer o trabalho de Sullivan acessando a página disponível
em: <https://www.archdaily.com.br/br/626678/em-foco-louis-sullivan>. Acesso
em: 12 jul. 2024.
É comum hoje em dia as pessoas resistirem fortemente a qualquer
metodologia que separe forma e função, aparência e conteúdo, e assim por
diante, justamente porque essas são dicotomias tipicamente industriais,
modernas e, de certa maneira, mecânicas. Mas, como designers, precisamos
superar essa resistência. Sobretudo porque, para efeitos de projeto, saber
identificar as diferentes categorias, dimensões ou funções de alguma coisa foi,
e continua sendo, uma ferramenta muito útil. Como argumentei logo no início,
saber identificar as diversas categorias que estão presentes naquilo que você
produz irá ajudá-lo a conhecer todos os detalhes da sua própria produção, e as
funções de Löbach, nesse sentido, são uma ferramenta de fácil assimilação. Mas
é preciso atenção para não ser induzido a erros.
Observe comigo as chaleiras das Figuras 7 e 8. Na função prática, elas
seriam muito semelhantes, porque ambas são úteis para ferver água e isso
determinada seus componentes básicos. Agora, o que fica para a função
estética é bem distinto. Perceba que a forma do bico, do pegador e a cor são
itens diferenciados com base em seu apelo estético, e não da funcionalidade.
Figura 7 – Chaleira vermelha
Créditos: monticello/Shutterstock.
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Figura 8 – Chaleira dourada
Créditos: Kanurism/Shutterstock.
Para nós, designers, não é um detalhe menor o fato de a compra de
muitos produtos ser decidida em função daqueles itens que são analisados na
função estética. Há mercados tão concorridos, que todos os agentes já
alcançaram a excelência na função prática, e precisam se distinguir na
estética. No exemplo das chaleiras, é relativamente fácil concluir que as
diferenças entre os dois artefatos estão na função estética. Mas quanto mais
você pratica, mais percebe as sutilezas.
Analise comigo agora a garrafa e a taça apresentadas na Figura 9. O que,
nesses dois objetos, pertenceria realmente à função estética? Sem pensar
muito, você poderia concluir que a forma da garrafa e da taça são elementos
tipicamente estéticos, afinal, há uma variedade considerável de formas de
garrafa para vinho e para taças que permite diferenciá-las no mercado.
Porém, se você for um especialista da área, saberá que a forma da garrafa
para vinho e a forma da taça têm características que são determinadas pela sua
função prática. O vinho precisa ser armazenado em determinada posição,
fechado à rolha, o bico da garrafa deve ser mais estreito. No caso da taça, a
haste deve ser de forma tal que o contato mais demorado com a mão não aqueça
o líquido, a boca da taça deve ser mais estreita par manter os aromas e assim
por diante.
Ou seja, dentro da categoria “forma” você encontrará elementos da
função prática e da função estética. Em outros termos, quando você está
analisando a função prática, não pode simplesmente ignorar a forma. Você
precisa aprender a diferenciar, dentro da categoria forma, aquilo que é da função
prática do que é da função estética. Isso vale para os exemplos das chaleiras
e do mouse, tanto quanto para a garrafa.
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Figura 9 – Garrafa e taça
Créditos: Stokkete/Shutterstock.
Dica
Quando o seu interesse está voltado para a função estética, você deve
se esforçar para não incluir as questões que são mais bem estudadas na função
prática, ainda que, para isso, precise tratar a forma em duas funções.
Além da íntima relação que existe entre a forma e a funcionalidade, há
certa dificuldade em separar o que fica mais bem exposto como função estética
daquilo que irá para a função simbólica, porque em geral as duas funções se
manifestam na forma.
Citei em rotas anteriores que as séries asiáticas não costumam trabalhar
as cores pelo seu significado, e sim pelo seu apelo estético. Penso que esse é
um bom exemplo de como é necessário distinguir o que é da função estética e
o que é da função simbólica.
Diferentemente do que ocorre nas produções ocidentais, nas asiáticas o
amarelo, o azul e o vermelho são, geralmente, escolhidos em função do efeito
visual que causam como cor, e não porque significam alguma coisa. O amarelo
estará ali para aumentar a luz e causar efeito nas outras cores, mas dificilmente
para alertar quanto a algum perigo. Na Figura 10, não é porque o observador
não consegue decifrar o significado das opções feitas para as cores que elas
não precisam ser analisadas, afinal, causam impressões no observador e, em
certa medida, afetam a forma da construção, e para isso serve a função
estética.
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Figura 10 – Parede colorida
Créditos: Bule Sky Studio/Shutterstock.
A Figura 11 complementa o raciocínio. Caso deseje, você poderá extrair
alguns signos do frasco, sobretudo considerando os conteúdos que já estudou.
Mas a análise da função estética demanda que repare no contraste entre o
vidro e a madeira, entre a linha reta e a curva, na posição inclinada, na
transparência do vidro. Todas essas informações são “estéticas”, afetam o
observador, e podem ser analisadas em separado à sua função simbólica.
Figura 11 – Frasco de perfume
Créditos: Constantinos Loumakis/Shutterstock.
Isso significa que boa parte da análise que você aprende a fazer nessa
disciplina está ancorada em conhecimentos que são estudados em disciplinas
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que se dedicam à Estética. É preciso saber o que é uma linha, o que é direção,
o que é ritmo, o que é equilíbrio. Sem esses conceitos, você ficará “preso” à
análise dos signos.
Sim, ser capaz de identificar o que algo significa e, principalmente, ser
capaz de incutir significado no seu produto, é fundamental. Mas você precisa ser
igualmente capaz de analisar e compreender a sua produção sem essa
influência. Isso é necessário porque a análise da significância tem por
características a fluidez e a liberdade interpretativa, e isso abre para o aluno uma
rota de escape perigosa, porque tudo “remete” a alguma coisa e, com isso, se
dá tudo por explicado. Na vida prática, não é assim.
Quando você separa a função estética da simbólica, essa dificuldade
emerge, e precisa enfrentá-la. Profissionalmente, deverá estar capacitado a
descrever e nominar os detalhes daquilo que produz. Precisa saber “como” o seu
produto “remete” ao conforto, ao luxo, ao street, ao moderno, enfim, todas essas
palavras que costumamos utilizar para facilitar o processo. Geralmente, quando
utilizamos a palavra moderno para descrever alguma coisa, tomamos como certo
que o interlocutor, ou cliente, resolverá tudo por sua própria conta. Não raro,
utilizamos as palavras para “compensar” certas deficiências do nosso produto.
Como designer, você deve aprender a evitar esse recurso. Desenvolva o hábito
de manter ao seu lado diuturnamente um cliente fictício que sempre pergunta
“mas por que assim e não de outro jeito?”, e evite recorrer à função simbólica
como resposta. Justifique a cor, a forma, a textura, tudo, sem recorrer ao
simbolismo. Você concluirá que a dificuldade aumenta bastante, mas os
benefícios são igualmente grandes.
Vamos exercitar com a mochila da Figura 12. Na Rota 3, ela foi explorada
pelo potencial sígneo. Agora, vamos descrevê-la conforme a sua função estética.
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Figura 12 – Mochila
Créditos: maximmmmum/Shutterstock.
O que mais se destaca é a cor amarela, que tem a capacidade de iluminar,
chamar a atenção para si. Seu contorno é definido por linhas pretas cuja
característica mais marcante é que a parte reta é bem definida verticalmente e
as curvas são suaves. As linhas de contorno ajudam a combater o efeito da
profundidade que também é negada pela opacidade do material. Todas essas
características fazem com que o olho do observador perceba uma forma
geométrica plana, estruturada, definida, que chama a atenção pela cor. Uma
forma que não deixa dúvidas, nem instiga o olho a procurar por outras
informações. A pressa em encontrar o simbólico, muitas vezes, impede o aluno
de praticar esse tipo de descrição.
TEMA 4 – FUNÇÃO SIMBÓLICA
Se você compreendeu os limites da função estética, já deve ter concluído
que, para descrever o seu produto, precisa de uma categoria onde colocar e
analisar as relações sígneas que estudou nas rotas anteriores. Você já sabe que
há aspectos do produto que, para serem analisados, precisam levar em conta a
ação interpretativa do cliente ou do observador. Na separação em funções de
Löbach, o lugar mais adequado para isso é a função simbólica, na qual ficam
as “associações de ideias” (Löbach, 2001, p.65).
Mas fique atento: na função simbólica Löbach (2001, p.64) coloca
questões “espirituais, psíquicas e sociais” e emocionais. Se você estudou com
atenção nas rotas anteriores, lembrará que na Semiótica de Peirce símbolo tem
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a ver especificamente com relações baseadas em “convenções”. Löbach se
refere a símbolo em um sentido bem mais amplo.
Dica
A função simbólica de Löbach não se limita às relações simbólicas que
se pode extrair de Peirce. Ela pretende englobar o signo como um todo, e não
somente aquilo que nele se estabelece por convenções.
Para não tornar este conteúdo repetitivo, considere que o que você
estudou nas rotas anteriores sobre a Semiótica de Peirce é suficiente para
analisar aquilo do seu produto que estaria na função simbólica de Löbach.
Saiba mais
Para saber como Löbach trabalha a função simbólica, recomendo o
tópico 4.3 do livro Design Industrial, disponível na biblioteca virtual. Você
concluirá que a linguagem que ele utiliza é diferente, e conhecê-la aumentará o
seu acervo de palavras e ideias.
No que concerne à prática, é plausível tratar o estético e o simbólico (no
sentido amplo) em uma única dimensão semântica, como sugeri no meu
esquema da Figura 13. Mas devo ressaltar que Niemeyer, no seu livro, não
entende assim. Ela separa um item específico para as características sígneas e
o denomina “referências”.
Saiba mais
Para saber como as relações sígneas aparecem nas “referências” de
Niemeyer, recomendo a leitura do tópico 8, do seu livro Elementos de semiótica
aplicados ao design.
Lendo o texto de Niemeyer, você notará que o contexto no qual ela coloca
as relações sígneas é, em algum sentido, “externo”, pensado depois do produto
acabado, e não na sua concepção, como você aprendeu na Rota 3. Além disso,
as características que são reservadas à dimensão semântica no texto de
Niemeyer (o que uma cadeira expressa, como propicia o ato de se sentar, o que
representa no seu ambiente etc.), aproximam-se da dimensão pragmática,
porque ambas englobariam consequências do produto ou serviço no mundo, e
com isso se entrecruzam com a função prática do Löbach. De fato, as
dimensões semântica e pragmática ampliam o horizonte da “função”, mas essa
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aproximação levanta uma série de outros campos dúbios que costumam
confundir o aluno.
Com base no que a prática tem me ensinado, eu insisto: faça um esforço
para separar o simbólico do estético (no sentido que esses conceitos adquirem
na proposta de Lobäch), treine seu olho para identificar o efeito do material e das
formas nos sentidos, sem o recurso ao simbólico, como sugeri no exemplo do
frasco de perfume e da parede colorida.
Agora, quando estiver analisando a função simbólica, nunca esqueça o
que aprendeu nas rotas anteriores: formas, material e cores são os recursos por
meio dos quais se estabelecem as relações sígneas entre o objeto (desejo do
cliente) e o interpretante (seu cliente). Deixe de lado o já desgastado recurso ao
“remete à”. Seja específico.
Se você assume para si e para o cliente uma das seguintes afirmações:
• A cadeira é bela.
• A cama é confortável.
• A coleção é consistente.
• O ambiente é moderno.
• O jogo é divertido.
Além de estar em condições de definir não somente com palavras, mas
com seu trabalho, o que são cadeira, cama, coleção, ambiente, jogo, precisa
também estar seguro de que introduziu no seu produto ou serviço a beleza, o
conforto, a consistência, a modernidade e a diversão, e isso, em produtos que
têm materialidade, acontece por meio de formas, cores, texturas etc. Lembre-se:
o diálogo que importa se estabelece entre o seu produto ou serviço e os
sentidos do usuário. Palavras, neste momento, valem pouco.
O frasco de perfume não “remete” a nada. Ele “significará” alguma coisa
para alguém por meio da sua forma, material e cor, assim como a parede
colorida, ou seja, o simbólico não prescinde do estético, mas o profissional do
Design deve saber separá-los. Nas rotas anteriores, minha intenção foi
convencê-lo(a) de que, com as ferramentas da Semiótica de Peirce, você terá
mais chances de persuadir seu cliente a entender o seu produto ou serviço com
a significância que você, designer, espera. Em outras palavras, um produto ou
serviço bem resolvido na sua significação dará ao designer maiores condições
de influenciar na vida posterior, no “estar no mundo” do seu produto ou serviço.
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Mas, para isso, precisa do respaldo da Estética, da colorimetria, do estudo dos
materiais e assim por diante.
Considerando o disposto até aqui, você pode assumir que, para esta rota,
vale o que apresento no quadro a seguir.
Quadro 1 – Sugestão para aproximação dos conceitos
Fonte: Nascimento, 2024.
Perceba que, com as setas coloridas, intencionei relacionar todas as
denominações que Bense e Niemeyer utilizaram no contexto das “dimensões” à
classificação de “funções” de Löbach, inclusive a sintaxe, que mantive como um
elemento separado em Löbach, porque penso que merece destaque.
A relação é aproximada, porque os conceitos não coincidem, os limites
das categorias são flexíveis e, principalmente, todas elas se sobrepõem em um
mesmo produto. Essa dificuldade é pertinente à aproximação teórica que se fez
entre a Linguística e a Comunicação Visual, derivando disso teorias que hoje são
aplicadas em uma ampla gama de atuações do Design.
Meu objetivo, neste conteúdo, é ajudá-lo a encontrar as ferramentas que
mais contribuem para o seu trabalho, para melhorar a qualidade daquilo que
você, designer, faz. Por isso separei um tema específico para a dimensão
sintática, porque me parece a menos estudada.
TEMA 5 – DIMENSÃO SINTÁTICA
Entendo que um acréscimo importante pode ser dado às funções do
Löbach pela observação da sintaxe.
A maneira mais rápida de entender para que serve a dimensão sintática
na sua atividade é entender a função da sintaxe na Linguística. Lembra que
mencionei há pouco o trabalho de Barthes e Lurie? O que esses estudiosos
fizeram foi parear signos linguísticos (palavras) aos signos da indumentária
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(roupas). Pretendo demonstrar que os mesmos erros que acontecem no uso das
palavras podem acontecer nos produtos de Design.
Observe este exemplo: "Maria fora lá brinca". Do ponto de vista da sintaxe,
essa é uma combinação incorreta, porque os signos linguísticos não estão
corretamente relacionados, pois a correta relação seria "Maria brinca lá fora"
(Marcondes, 2005). Então, existe uma maneira correta de dispor as palavras
dentro de uma frase para que a frase, ao final, faça sentido, e isso é sintaxe.
Estudar essas combinações é fazer uma análise sintática.
Na Linguística, a sintaxe correta é buscada por meio do estudo das
estruturas de uma língua. Você deve estar lembrado das suas aulas de análise
sintática, com seu professor de português. Lá você aprendeu as regras que
determinam a correta construção da frase. Aprendeu que as palavras não podem
ser combinadas de qualquer jeito sem prejuízo da mensagem.
Profissionalmente, você terá muito a ganhar se pensar o seu produto ou
serviço com base no mesmo princípio. No que concerne à dimensão sintática,
é preciso que as partes que constituem aquilo que você faz sejam
harmonicamente conectadas, que a relação entre elas seja contínua. Tudo o que
é desnecessário deve ser retirado, pois atrai a atenção dos sentidos para o que
não é importante, e o que é importante deve vir primeiro, seguido do que é
complemento. A sintaxe de um produto pode ser procurada em vários níveis na
sua estrutura construtiva, passando pelos fluxos de movimentação do usuário
até a continuidade necessária para as coleções. Cada vertente do Design terá o
seu interesse em termos de dimensão sintática.
Citarei aqui exemplos vindos da moda, mas você pode aplicá-los a outros
interesses. A Figura 13 pode não ser um exemplo de solução ótima, mas nela é
possível identificar alguma coerência. As várias texturas se harmonizam porque
há apenas duas cores em tela: o vermelho e o branco (ainda que o vermelho
puro não apareça). Nesse caso, é esse par de cores que serve de estrutura.
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Figura 13 – Texturas em modelos
Créditos: Xeniia X/Shutterstock.
Agora, tente encontrar alguma coerência visual no conjunto da Figura 14.
Figura 14 – Mulheres
Créditos: Creative Lab/Shutterstock.
A dificuldade com a Figura 14 prova que há maneiras corretas e incorretas
de arranjar os elementos daquilo que você produz. O olho humano terá
dificuldade em encontrar um “caminho” para compreender a imagem, porque não
há uma “estrutura” facilmente perceptível que perpasse as três modelos. As
peças são diferentes, não há relação entre as cores, as texturas não parecem
ter sentido, e cada modelo tem um estilo. É como se várias palavras tivessem
sido grafadas em dados e esses dados jogados ao acaso.
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A analogia com frases ajuda, mas não esqueça de que a nossa língua tem
uma estrutura linear, uma coisa atrás da outra. Muitas atividades do Design têm
estruturas volumétricas, como a figura a seguir.
Figura 15 – Ilustração de estrutura volumétrica
Créditos: nasirkhan/Shutterstock.
Você precisará investir algum tempo analisando seu produto para
descobrir qual é a estrutura, nele, que realmente importa e determinará todo o
restante. O conceito de sintaxe, no entanto, permanece: as partes precisam ter
conexão, sentido e clareza; do contrário, o observador ou usuário não terá com
ele uma experiência agradável.
TROCANDO IDEIAS
Considerando a sua atividade como designer, identifique possíveis
estruturas (dimensão sintática) e aspectos mais marcantes que você possa
qualificar como função prática, estética e simbólica. Justifique suas escolhas e
peça a opinião dos colegas no fórum. Procure contato com alunos da sua área
e aproveite essa ferramenta de diálogo para confirmar suas ideias.
NA PRÁTICA
Sugiro a você o seguinte exercício prático: vá ao seu guarda-roupa,
separe diversas peças e tente organizá-las de maneira coerente, com uma
sintaxe correta. Observe o exemplo da Figura 16. Com facilidade, você
identificará:
1. Presente em todas as peças: babado e tecido de algodão.
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2. Presente em algumas peças: listras e bolas.
3. Tipo de peça: saia e blusa.
Figura 16 – Arara com roupas
Créditos: Creative Lab/Shutterstock.
Agora, imagine que cada uma dessas peças é uma palavra dentro de uma
frase. Para a frase ser agradável e a mensagem ser clara, você precisa saber
quem é o sujeito, qual o predicado, onde vai a vírgula, o ponto final etc. Na arara,
isso significa dizer que tem que decidir qual a primeira peça, onde estarão os
intervalos visuais, se as peças com listras estarão agrupadas ou intercaladas
com as de bolas e assim por diante, até encontrar a situação “ótima”, que nós,
geralmente, dizemos que é a mais “bonita”, ou pelo menos a que mais agrada.
A certeza de que aquele arranjo é o que exprime beleza você só tem quando
está convicto de que qualquer movimento a mais, estraga. Agora é sua vez!
FINALIZANDO
Nesta aula, você aprendeu que a análise detalhada de uma coisa,
qualquer que seja ela, será mais bem elaborada se as suas partes forem
separadas por categoria. Aprendeu que já existem diversas categorias
conhecidas, sendo funções e dimensões as mais citadas nos estudos do Design.
Meu intuito, com esta rota, foi fazer com que entendesse que a decisão sobre
qual grupo de categorias descreverá melhor o produto ou serviço cabe ao
projetista ou designer, pois cada situação demandará detalhar mais e melhor
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determinada parte do conjunto. Há aspectos da joalheria que são estranhos aos
games, e há aspectos importantes para games que não afetam a joalheria e
assim infinitamente. Quanto mais você acertar nas categorias, mais conhecerá
o seu produto a fundo e maiores as suas chances de acerto.
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REFERÊNCIAS
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Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2000.
AZAMBUJA, Cristina Splenger; MENDES, Giselly Santos; SILVA, Sílvia Cristina
da. Estética e semiótica aplicadas ao design. 1. ed. Curitiba: Intersaberes,
2021. E-book. Disponível em: https://plataforma.bvirtual.com.br. Acesso em: 16
fev. 2024.
CELA, M. A. Design Criticism: Ferrari F40. [S.d.]. Disponível em:
<https://www.markcelagraphics.com/design-criticism-ferrari-f40>. Acesso em: 23
abr. 2024.
LÖBACH, B. Design Industrial. São Paulo: Blucher, 2001.
MARCONDES, D. Em defesa de uma concepção pragmática de linguagem.
Gragoatá, Niterói, ano II, v. 18, p. 11-29, 1. sem. 2005.
NASCIMENTO, S. F. Moda e linguagem: Nietzsche e Arbus, uma aproximação.
Revista Dobras, 2014. Disponível em: <https://dobras.emnuvens.com.br/dobras/
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NIEMEYER, L. Elementos de semiótica aplicados ao design. 2. ed. Rio de
Janeiro: 2AB, 2007.
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