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Semiótica Aplicada Ao Design: Aula 1

A disciplina de Semiótica aplicada ao Design, ministrada pela professora Suzie Ferreira do Nascimento, visa explorar a relação entre Semiótica e Design, enfatizando a importância da significação na prática do designer. O curso aborda a história da Semiótica, sua interdisciplinaridade e ferramentas práticas que ajudam os designers a compreender e aplicar conceitos semióticos em seus projetos. Através de exemplos de cores, formas e representações gráficas, os alunos aprenderão a significar emoções e necessidades dos clientes por meio do design.

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Semiótica Aplicada Ao Design: Aula 1

A disciplina de Semiótica aplicada ao Design, ministrada pela professora Suzie Ferreira do Nascimento, visa explorar a relação entre Semiótica e Design, enfatizando a importância da significação na prática do designer. O curso aborda a história da Semiótica, sua interdisciplinaridade e ferramentas práticas que ajudam os designers a compreender e aplicar conceitos semióticos em seus projetos. Através de exemplos de cores, formas e representações gráficas, os alunos aprenderão a significar emoções e necessidades dos clientes por meio do design.

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SEMIÓTICA APLICADA AO

DESIGN
AULA 1

Prof.ª Suzie Ferreira do Nascimento


CONVERSA INICIAL

Olá, estudante, seja bem-vindo à disciplina de Semiótica aplicada ao


Design! Eu sou a professora Suzie e reuni, nesta disciplina, alguns tópicos
selecionados de Semiótica, que a minha prática demonstrou serem úteis no dia
a dia do designer. Afinal, é disso que se trata, não? Com a infinidade de tarefas
que temos que desempenhar, é preciso ser muito criterioso no uso do tempo.
Por isso, meu objetivo é fazer com que cada página contribua para a qualificação
do seu trabalho. Claro, toda seleção requer incluir alguns assuntos, e abdicar de
outros. Então, fique atento: este não é um conteúdo que ambiciona ser profundo
na complexa ciência da Semiótica, mas sim utilizar alguns dos seus preceitos na
prática do Design. Agora, se você se apaixonar pelo tema (como eu espero que
aconteça), então precisará procurar outros livros, alguns deles citados inclusive
neste conteúdo, combinado? Então, vamos lá.

CONTEXTUALIZANDO

No século 17, John Locke (1632-1704), um importante filósofo britânico,


utilizou a palavra Semeiotiké para se referir aos seus estudos sobre Semiótica.
E por que ele teria escolhido essa palavra? Veja, trata-se de uma palavra grega
que pode ser muito útil à aproximação entre Semiótica e Design. Ela designa a
atitude de interpretar determinado sinal, e sua origem está na Medicina. No
passado, se um paciente ia ao médico com manchas amarelas no corpo, o
doutor precisava interpretar aquele sinal, ou seja, precisava deduzir o que estava
errado no corpo do paciente com base em uma indicação puramente visual.
Pense que você deverá se utilizar da Semiótica para fazer o trajeto
inverso, ou seja, ela pode ajudá-lo a encontrar o sinal, a tal mancha amarela,
que deve significar alguma coisa demanda do projeto que o seu cliente (ou seja,
quem o contrata para desenvolver o projeto) leva expressa interiormente. O
objetivo do designer, seja qual for a sua especialidade, à luz da Semiótica, é
justamente oferecer o produto que encontre ressonância nas necessidades
emocionais do cliente/usuário/público. Em outras palavras, cabe ao designer
significar aquela necessidade.

2
Saiba mais

Além de Locke, Aristóteles e São Tomás de Aquino são outros dois nomes
importantes para o desenvolvimento da Ciência da Semiótica. Saiba mais lendo
as páginas 21 e 22 do livro Semiótica e produção de sentido: comunicação,
cultura e arte, de Max Costa e André Dias, da Intersaberes. Disponível na
Biblioteca Virtual Pearson.

TEMA 1 – A INTERDISCIPLINARIDADE DA SEMIÓTICA – POR QUE


SEMIÓTICA É FUNDAMENTAL AO DESIGN

Os conhecimentos produzidos pela Semiótica, ou seja, pelo estudo das


maneiras com as quais é possível significar alguma coisa, são de grande
utilidade para inúmeros outros campos. Quem estuda o desenvolvimento da
linguagem humana, tendo interesse em mecanismos de comunicação, recorrerá
à Semiótica para compreender como uma coisa indefinida e abstrata é
substituída por outra, representada ou concreta. Assim, certamente você já
encontrou, ou encontrará, disciplinas no seu curso e situações no seu cotidiano
em que é possível sentir o aroma da Semiótica.

Se liga

A ciência da Semiótica se ocupa do estudo das maneiras com as quais é


possível significar alguma coisa.

Mencionarei alguns possíveis exemplos a seguir.


O estudo das cores geralmente reserva uma boa parcela da sua teoria
para o significado. Alguns deles são baseados em convenção1 (como o vermelho
da paixão), outros em reações fisiológicas (como o amarelo do perigo), outros
ainda em semelhança (como o verde da natureza), e assim por diante.
Quase sempre a cor está no lugar de ou significa outra coisa. Um clássico
da análise Semiótica das cores é o livro Homem, comunicação e cor, publicado
no ano 2000, por Irene T. Tiski-Franckoviak. Nesse livro de influência freudiana,
a autora se aprofunda nos aspectos subjetivos da nossa reação às cores, e isso
tem tudo a ver com as escolhas que o designer deve fazer se quiser produzir
artefatos e representações significativas.

1 Convenção é um acordo, explícito ou implícito, sobre quais sinais significam quais coisas.

3
Figura 1 – Figura ilustrativa de designer selecionando cores

Créditos: Beautrium/Shutterstock.

Qualquer disciplina que se ocupe de representações gráficas terá,


também, que tangenciar os estudos da Semiótica. Uma linha, para quem a vê,
dificilmente será só uma linha. Ela está ali significando alguma coisa, desde uma
estrada até trajetória de uma seta, ou mesmo o contorno definido para alguma
coisa que não o tem naturalmente. Além disso, uma linha reta causa impressões
diferentes das causadas por uma linha curva e, assim, significa alguma coisa
diferente. E mesmo linhas de um mesmo tipo podem significar coisas diferentes.
Veja, por exemplo, as Figuras 2 e 3. Nos dois casos, a representação é composta
de linhas curvas em preto. No entanto, na Figura 2, as linhas estão no lugar de
ondas e, na Figura 3, no lugar de uma rede.

Figura 2 – Linhas curvas formando ondas, em preto e branco

Créditos: Mastak80/Shutterstock.

4
Figura 3 – Grade em linhas pretas sobre superfície curva branca

Créditos: savva_25/Shutterstock.

Com as formas não é diferente: quem quer que olhe para um círculo
saberá que ele é capaz de rolar, enquanto um quadrado, e um triângulo
assentado em sua base, não se movem, exceto se forem arrastados. Mas onde
fica a significação, nesse caso? Justamente no fato de um círculo significar a
capacidade de rolar, ou entrar em movimento, mesmo estando parado e em uma
representação plana. Quem utiliza o círculo para significar alguma coisa em
movimento não precisa mover, realmente, nada, basta representar o círculo.

Figura 4 – Formas geométricas

Créditos: Wolf_139/Shutterstock.

Veja este outro exemplo, agora vindo da moda: suponha que um produtor
tenha o desafio de apresentar um vestido fluido em uma foto, que é uma imagem
parada representada bidimensionalmente, ou seja, ele precisa significar a
5
fluidez, que é um atributo que geralmente as pessoas percebem com o tato, e
em movimento.

Figura 5 – Vestido em movimento

Créditos: Inara Prusakova/Shutterstock.

Se você observar bem, concluirá que a imagem representada na Figura 5


não permite saber se todo aquele movimento aconteceu, de fato, no estúdio, ou
se é um efeito gráfico. O que conta é que o olho do observador entende, sem
necessitar do auxílio do tato, que o tecido é leve, ou seja, quem produziu a foto
encontrou uma maneira eficiente de significar a fluidez.
Quem trabalha com interiores faz significação o tempo todo. Mas fique
atento: para entender a significação, você precisa sempre perguntar o que
aquelas cores e materiais estão substituindo. A Figura 6, por exemplo, tem cores
diversas, metal, madeira, e uma cadeira de plástico. O que essas coisas
substituem? O metal e o plástico não existem sem tecnologia, por isso é possível
dizer que eles estão significando a tecnologia e a modernidade. As cores
vibrantes e justapostas são comuns em brinquedos, ou seja, elas estão
significando atributos comuns na infância, como despreocupação e expectativa
de futuro. Já os pufes coloridos, que parecem ser manufaturados, estão
significando o valor de coisas feitas à mão, eventualmente a lembrança de uma
avó. Claro que nada disso é obrigatório. Você verá ao longo deste conteúdo que
tudo é um jogo, e que o designer precisa da Semiótica para ter maiores chances
de ganhar, ou seja, acertar na significação.

6
Figura 6 – Ambiente moderno, com sofá cinza e almofadas coloridas

Créditos: Ground Picture/Shutterstock.

A Arquitetura é repleta de sinais que substituem inquietações humanas.


Um observador atencioso poderá compreender a alma humana observando as
espaçosas casas do interior, os barracos nas beiradas dos morros, os prédios
das metrópoles. Um ensaio muito sensível a respeito da Arquitetura das cidades
de Berlim e Viena no fim do século 19, foi escrito por Georg Simmel em 1903, e
leva o título, em português, de “As Grandes Cidades e a Vida do Espírito”
(Nascimento, 2016).
Mas talvez não seja equivocado dizer que a Arte que mais investe em
Semiótica é o Cinema. A chamada Sétima Arte é feita, basicamente, de coisas
que significam outras coisas. Em um filme, o cineasta tem que oferecer, pelo
olho, informações como cheiros, sensações de frio e calor, emoções de amor e
ódio, e isso exige ser muito bom na arte da substituição. Se você se interessa
pelo tema, sugiro filmes de Steven Shainberg e de Wes Anderson. Assistindo
algumas vezes A Pele, que Shainberg produziu em 2006, o espectador é forçado
a admitir que quase todas as imagens são ricas em significado.

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Figura 7 – Cena do filme A pele, de Steven Shainberg

Crédito: Rotten Tomatoes Classic Trailers.

Conhecendo a trama, compreende-se com base na Figura 7 que o vestido


abotoado até o pescoço está no lugar da opressão que a personagem está
sentindo; que a pele sobre os ombros está no lugar do peso que ela carrega,
sobretudo considerando a relação com a mãe modista; que os dois
liquidificadores estão ali para dizer que, para aquele grupo social, o lugar dela é
na cozinha, e não junto aos convidados. Tudo isso dito em uma única cena, pela
correta significação. Portanto, recorrendo à Semiótica, o cineasta está
multiplicando a capacidade comunicacional do filme. Em uma Arte cara como o
Cinema, isso é muito importante.
O Cinema também retira proveitos comunicacionais da Arquitetura.
Portas, janelas, transparências, dimensões e materiais, se utilizados com
critério, emitem discursos e narrativas complexas, que fascinam o espectador.
Um excelente exemplo, nesse caso, é o filme iraniano A Separação, de Asghar
Farhadi (Nascimento, 2017), e I am love, que Luca Guadagnino produziu em
2011.
Até aqui você conheceu algumas aplicabilidades da Semiótica, em várias
áreas. No tema seguinte, apresentarei um resumo geral da disciplina e dos
temas 3, 4 e 5 desta aula.

TEMA 2 – VISÃO GERAL

2.1 Visão geral da disciplina semiótica aplicada ao design

Neste novo tema, apresento a você uma prévia do que será tratado
disciplina de Semiótica Aplicada. Assim, você já fica sabendo quais
8
conhecimentos adquirirá estudando este conteúdo e de que maneira ele será útil
para a sua vida profissional.
Na Rota 1, meu propósito é fazer com que você reconheça que a
Semiótica é muito importante para a vida e para a sua atividade profissional.
Você aprenderá que se trata de uma Ciência que estuda uma característica
humana vital à nossa sobrevivência, que é a significação, ou seja, a Arte de
trocar uma coisa por outra.

Se liga

Significar é trocar uma coisa por outra.

Na Rota 2, quero convencê-lo de que é muito importante investir em um


bom repertório de significações, ou seja, gostaria de que você entendesse que
precisa ter uma reserva qualificada de experiências se quiser ter sucesso na
utilização dos signos. Sem isso, não terá segurança ao decidir o que deve ser
trocado pelo quê. Esse repertório é necessário porque trabalhar com signos é
também trabalhar com as sensações, emoções e desejos, seus e do cliente. Isso
quer dizer que o cliente se relacionará com seu produto de maneira muito
pessoal, e por isso você precisa compreender, ainda que de modo breve, o que
é a subjetividade humana.
Na Rota 3, apresentarei o primeiro ferramental objetivo para que você
saiba como utilizar a Semiótica a seu favor. Farei a introdução ao sistema triádico
(de três partes) no qual o seu produto deverá ser inserido como signo. Você
aprenderá que o seu produto deve significar, ou seja, estar no lugar das
emoções, sentimentos e desejos da pessoa que vai adquiri-lo.
Eu apresento o segundo ferramental importante na Rota 4. Você
conhecerá três categorias que servem para qualificar as maneiras com as quais
o seu cliente poderá encontrar suas próprias emoções significadas no seu
produto. Essas categorias priorizam as relações estimuladas por semelhança
(ícone), por alusão (índice) e convenções (símbolo).
Na Rota 5, você terá a oportunidade de conhecer ainda uma terceira
ferramenta de grande utilidade para nós, designers. Nesse caso, são outras três
categorias que ajudam a organizar seu produto em três dimensões. Com essa
separação, você conhecerá melhor as suas produções, e seus projetos ficarão
mais organizados.

9
Finalizando, na Rota 6, vamos recapitular os principais conceitos
aprendidos, de maneira aplicada a projetos de Design, apresentando e
analisando vários exemplos práticos. Veja o programa completo no diagrama a
seguir.

Se liga

ROTA 1. SIGNIFICAÇÃO, UMA PECULIARIDADE HUMANA


Aqui você compreenderá por que a Semiótica é tão importante. Entenderá que se trata de uma
Ciência que estuda uma característica humana vital à nossa sobrevivência, que é a
significação, a Arte de trocar uma coisa por outra.

ROTA 2: REPERTÓRIO, SUBJETIVIDADE


Aqui você reconhecerá a importância de ter um bom repertório de signos e deverá entender
que esses signos são produzidos por subjetividades bastante complexas.

ROTA 3. INTRODUÇÃO À TRÍADE DA SIGNIFICAÇÃO


Depois de compreender a ideia geral, é a hora de reconhecer que os produtos dos designers
devem ter significação, ou seja, eles devem substituir sensações, emoções e desejos, para seu
cliente em potencial.

ROTA 4. RELAÇÕES ICÔNICAS, INDICIAIS E SIMBÓLICAS


Nesta rota, você conhecerá uma ferramenta importante para conseguir produzir um design
significativo: as relações icônicas, indiciais e simbólicas.

ROTA 5. ORGANIZANDO O PRODUTO EM DIMENSÕES


Aqui você conhecerá outro ferramental útil, que são as dimensões sintática, semântica e
pragmática. Com elas, você estuda a produção de outros profissionais e também organiza a
sua própria, porque conseguirá dividir o seu produto em três dimensões.

ROTA 6. A INTERDISCIPLINARIDADE DA SEMIÓTICA.


Nesta rota serão apresentados vários exemplos da aplicabilidade da semiótica em diversos
segmentos do Design.

Até aqui apresentei um panorama geral das rotas da disciplina. A seguir,


apresento alguns conceitos introdutórios. O objetivo é que você se familiarize
com um contexto mais amplo no que se refere à significação, preparando-se
para o que vem nas rotas seguintes. Vamos lá?

10
2.2 Visão geral dos Temas 3, 4 e 5 desta rota

2.2.1 Significar é trocar uma coisa por outra

Um dos princípios que você não deve esquecer, nem perder de vista ao
estudar este conteúdo, é que o que importa para os sistemas de signos são as
substituições. Trata-se de compreender como nós, humanos, substituímos
algumas coisas por outras, e com que finalidade.
Sob o ponto de vista prático, essa compreensão interessa porque você,
como designer, precisará encontrar substitutos eficazes na sua área. Conforme
exemplifiquei no tema anterior, quase todas as atividades do design trabalham
com substituições, pois não é possível colocar sentimentos e sensações de
modo concreto em uma imagem, ou mesmo em um ambiente.
Se o que você faz será percebido somente pela visão, então todas as
informações têm de ser substituídas por imagem. Suponha que você fará uma
foto de comida e nessa imagem não pode haver pessoas, ou ambientação, o
que impede razoavelmente o uso da memória. Que recursos você utilizaria para
convencer o observador de que ela é saborosa? Como, por meio de uma
informação visual, poderá fazer com que esse observador sinta “água na boca”?

Figura 8 – Foto de comida com ênfase no enquadramento

Créditos: Timolina/Shutterstock.

11
Figura 9 – Foto de comida com ênfase nas cores e no brilho

Créditos: Kritchai7752/Shutterstock.

Figura 10 – Foto de comida com ênfase na elegância

Créditos: Pietruszka/Shutterstock.

Analise comigo os exemplos nas Figuras 8, 9 e 10.


A Figura 8 explora mais a questão do enquadramento, colocando os
elementos em diagonal e aproximando o recheio da câmera, e a tábua de
madeira ajuda a dar realidade à medida que a foto favorece sua textura. Na
Figura 9, a ênfase está no brilho e nas cores, que são evidenciados pelo
contraste com o branco do prato e a palha fosca do suporte. E, finalmente, na
Figura 10, o produtor parece querer transmitir a ideia de sofisticação pela cor e
12
pelo fino fio de molho que cai. Perceba que todos esses recursos estão nas fotos
em substituição ao paladar saboroso. E o mais incrível é que funciona, ou seja,
nós, humanos, conseguimos assimilar esse sistema de trocas. Mais que isso,
fazemos uso dele constantemente.

2.2.2 Sistemas organizados de substituição

Mas será que só humanos significam? Provavelmente não. Onde há


comunicação entre animais da mesma espécie, é porque existe algum tipo de
significação. Veja o exemplo das baleias: elas emitem sons e vibrações que
significam alguma coisa para outras baleias; embora não seja possível dizer
exatamente como isso acontece, o fato é que determinados sons para as baleias
significam perigo.
E, entre os humanos, será que toda a significação depende de um acordo
prévio, ou fazemos isso naturalmente, como as baleias? Você pode responder a
essa pergunta imaginando que precisa pegar um ônibus em um lugar cujo idioma
não conhece. Como irá fazer com que seu interlocutor entenda o que precisa?
Como fará para ser compreendido? Fará gestos? Apontará? Imitará algum som?
Dramatizará? Enquanto você se esforça por encontrar o recurso mais adequado
para colocar no lugar do ônibus, provavelmente seu interlocutor estará
buscando, nas suas experiências, algo que possa equivaler àquilo que ele vê
você fazendo. Eventualmente, ele encontrará, na sua própria mente, a figura do
ônibus correspondente aos signos que você estava produzindo. Conforme
Nietzsche explica, o olho do observador “conclui” o estado emocional que produz
os gestos (Nietzsche, 2005, p.43). Se o nosso olho é capaz de “concluir” alguma
coisa, isso demonstra que nossa capacidade de significação não está limitada
ao que já está convencionado.
Mas, com esse simples e exótico exemplo, você já pode ter uma ideia de
como seria difícil a nossa vida se a todo o momento tivéssemos de ficar
experimentando significações. Por isso é vital recorrer às convenções. É preciso
que diferentes tribos saibam o que significa um sinal de fumaça, que muitas
pessoas saibam o significado das letras SOS, que todos os que dirigem saibam
os significados das placas de trânsito, e assim por diante.

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Figura 11 – Homem de negócios utilizando computador

Créditos: Deemerwha studio/Shutterstock.

Em termos mais atuais, pense na quantidade de sinais que aparecem no


seu celular e na maneira quase instintiva com a qual você os compreende. No
exemplo da Figura 11, se a pessoa não souber o significado de todos aqueles
ícones, terá que ler um manual, o que hoje é quase impraticável. Exemplos como
esse mostram a importância das convenções que regem os sistemas mais
comuns de significação. Mas você concluirá, ao longo desta disciplina, que o
designer precisa ir além daquilo que já está convencionado. Nesse sentido, ele
desempenha papel de artista.

2.2.3 Arte: onde tudo começa

É preciso estabelecer, desde já e com clareza, o que é Arte no contexto


dos estudos da comunicação. O filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900),
profundo conhecedor do tema, certa vez anotou em um fragmento a seguinte
frase: “prazer comunicado é Arte” (Nietzsche, 2005, p.43). Tal definição nos
ajuda bastante, porque determina que Arte é uma atividade que comunica uma
sensação (Nascimento, 2014). É importante compreender esse princípio, porque
existem outros conceitos de Arte, e nem todos são condicionados à
comunicação. Um artista contemporâneo pode muito bem expressar a si mesmo
em alguma Arte e não ser compreendido. Para a atividade do Design, no entanto,
a comunicabilidade é fundamental.
Nietzsche, principalmente nos primeiros anos da sua produção filosófica,
entendeu que o artista era um criador de signos. E com criador, nesse caso, ele
queria dizer alguém que apresenta ao mundo a representação de algo até então
14
não representado. Pode parecer estranha a ideia de que nós, em pleno século
21, ainda necessitemos de novos signos. Você provavelmente acha que tudo já
está significado, mas isso não é verdade. Um ser humano que nunca passou
pela experiência de perder uma pessoa querida desconhece a sensação, e não
tem, ainda, para ela um signo, algo para pôr em seu lugar. É verdade que há
inúmeras músicas, imagens, poemas falando de morte, mas não é seguro que
algum desses recursos consiga significar aquela dor individual. Voltando ao
exemplo das tecnologias atuais, imagine quantas novas angústias o ser humano
contemporâneo está experimentando, sem que nenhum artista tenha criado
ainda um signo para elas. O fato de as pessoas começarem atividades adultas
muito cedo, por exemplo, gera um problema de significação. Um adolescente de
12 anos não tem a mesma sensação, no que diz respeito à paixão, de um adulto
de 30. Os signos que ele terá de utilizar, muito provavelmente, serão tão
inadequados quanto os signos infantis são para um adulto.
Retornando à prática do Design, o desafio no mundo competitivo de hoje,
é encontrar esses nichos, sensações e sentimentos para os quais ainda não haja
significação ou, pelo menos, encontrar novas maneiras de significar o que já foi
significado. A maioria de nós manipula signos existentes, repete imagens,
palavras e sons de rápida assimilação. O estudo da Semiótica pode ajudá-lo a
fazer diferente.
Até aqui apresentei os conceitos mais fundamentais da disciplina. Nos próximos
temas, escreverei mais pausadamente sobre cada um deles.

TEMA 3 – SIGNIFICAR É SUBSTITUIR UMA COISA POR OUTRA

No tema anterior, apresentei as principais ideias que serão desenvolvidas


nos Temas 3, 4 e 5. Você já sabe, então, que aqui me aprofundarei no
entendimento de que aplicar Semiótica tem a ver com saber como substituir
coisas.
Existem vários motivos pelos quais um designer precisa saber substituir.
O mais comum é a impossibilidade técnica. Você não pode trazer para o seu
produto o mar, o céu, uma árvore, um pet etc. Nada disso pode estar,
concretamente, no seu produto, por isso precisa ser substituído por outra coisa.
Compare comigo as Figuras 12 e 13.

15
Figura 12 – Mulher carregando sacola de tecido

Créditos: Roman Zaiets/Shutterstock.

Figura 13 – Ilustração de bolsa com apetrechos de praia

Créditos: Stokkete/Shutterstock.

O que você vê na sacola da Figura 12 é uma sacola que pretende


substituir, ou estar no lugar, de uma atitude mais ecológica, posto que parece
ser feita de algodão, em um modelo muito simples, ou seja, algo que a pessoa
mesma pode fazer em casa se desejar. Assim, o observador é levado a pensar
que aquela sacola é ecologicamente amigável, e a sacola ecologicamente
amigável estará no lugar do desejo que essa suposta pessoa tem, de não agredir
a natureza.

16
A sacola da Figura 13 apresenta outro tipo de substituição. A alça feita em
corda e as listras horizontais azuis são elementos comuns em barcos, ou seja,
eles estão ali em substituição ao barco, que não pode estar na sacola. Quem
produziu a sacola da Figura 13 trouxe elementos concretos, ainda que frações,
ou seja, pequenas partes de um barco de verdade. A pessoa que compra a
sacola estará, na verdade, comprando um artefato que está no lugar do seu
desejo de tirar férias em um barco, ou coisa semelhante. A imagem, no entanto,
demonstra que o fotógrafo achou que esses pequenos detalhes não eram
suficientes, e acrescentou uma série de outros objetos mais óbvios, como a
estrela-do-mar, apetrechos de férias, e ainda a praia ao fundo. Fotos como essa
são produzidas para consumo rápido, e pretendem não deixar margens à dúvida.
O observador deve compreender de modo imediato do que se trata, deve ser
convencido, “a todo o custo”, de que as férias que ele deseja estão
representadas por aquela sacola. Alguns programas televisivos são produzidos
nesta mesma chave. Você os identifica pela extenuante repetição das falas e
pelo exagero emocional que, geralmente, vem acompanhado do exagero de
cores e sons. Compare esse excesso de informações com a Figura 14.

Figura 14 – Tigela de pipoca com controle remoto

Créditos: PitukTV/Shutterstock.

O que os dois controles da Figura 14 substituem? Obviamente, uma


televisão ou aparelho similar. Indo além, a imagem toda substitui o momento de
relax, que é o desejo do observador. E isso com economia de informação. Você

17
provavelmente concordará, com base no comparativo entre as Figuras 13 e 14,
que excesso não é garantia de melhor comunicação.
Agora, vamos ao terceiro exemplo de sacolas. Observe com atenção as
Figuras 15 e 16.

Figura 15 – Mochila amarela

Créditos: maximmmmum/Shutterstock.

Figura 16 – Foto de ônibus escolar

Créditos: Prostock-studio/Shutterstock.

O objetivo do designer, nesse caso, foi apresentar ao cliente uma mochila


que pudesse substituir o ônibus que leva as crianças para a escola. O que
importa no exemplo são as maneiras com as quais o nosso companheiro de

18
profissão trouxe elementos do ônibus, atendo-se unicamente à forma e às cores.
Isso faz com que parte do trabalho fique acargo do observador, pois é ele quem
tem que fazer todas as demais associações. Um produto como esse requer um
repertório específico, ou seja, não será atrativo para todo mundo. Seu grande
apelo está na substituição do ônibus, que nem todos conhecem, e mesmo quem
conhece pode não completar o trabalho de significação mentalmente, como o
artefato exige.

Dica

Um exemplo educativo de substituição complexa você encontra na


coleção de moda criada pelo estilista brasileiro Oskar Metsavaht, para a Osklen,
em 2015/16. O estilista esteve por algum tempo convivendo com o povo
Ashaninka, na Amazônia peruana. Metsavaht fez um trabalho sério de análise
das cores e formas, e de valores, daquele grupo social, e levou-os para sua
coleção. O que esse trabalho tem de especial é a não obviedade. Na ocasião,
discutia-se muito a questão da apropriação cultural, que é o que geralmente
acontece quando designers negligenciam a Semiótica, partindo para uma
substituição óbvia.
Sobre o trabalho de Metsavaht, sugiro que você procure imagens da
SPFW (São Paulo Fashion week) de 2016, na internet. Certamente concluirá que
não há nada de óbvio no trabalho do estilista brasileiro. Ao invés de substituir a
Arte do povo Ashaninka pela sua representação imagética, direta e simples, ele
foi em busca da compreensão dos seus elementos, transformando-os em outras
informações, estas sim presentes na sua coleção. Novamente, boa parte do
trabalho intelectual de compreensão fica para o observador. Reserve essa
informação para os conteúdos futuros. Haverá um momento em que
apresentarei alguma coisa sobre a análise estética de Kant, e como esse filósofo
argumentou que a beleza tem a ver com a sensação de prazer intelectual, ou
seja, o prazer que o observador sente ao decifrar um enigma. Esse prazer é
negado nas substituições excessivamente óbvias.

Se liga

Decifrar um enigma pode ser tão prazeroso quanto observar uma coisa
bela.

19
Os primeiros exemplos que apresentei enfatizam a substituição de alguma
coisa concreta por imagens fictícias ou indícios, ou seja, a sua representação.
Mas veja, isso é o comum, o que o seu concorrente também faz. Um passo
adiante é trabalhar para colocar em seu produto a sensação que o cliente tem
quando está no mar, quando contribui para salvar o planeta, quando retorna à
escola, e assim por diante. O que é, de fato, desafiador é encontrar a
representação concreta para sentimentos abstratos. Talvez possamos até
assumir que Metsavaht, na sua coleção, ambicionou que seus clientes
sentissem, ainda que por um momento, o que é pertencer ao povo Ashaninka.
Isso porque, muito embora o observador saiba que está diante de algo
representado, a sensação que ele tem, é real. Você já deve ter experimentado
isso no cinema, ou assistindo uma série que gosta. Mesmo sabendo que aquilo
é uma fantasia, as suas sensações e emoções são reais, e essa é a conexão
que importa. É isso que faz com que aquela série ou cena fique gravada na sua
memória, e você se sinta tentado a assisti-la novamente, várias vezes.
Como pode perceber, criar uma conexão emocional entre um artefato e o
cliente é um grande desafio. Mas fique tranquilo, se seguir com atenção os
conteúdos, ao final da disciplina estará mais preparado para alcançar esse
objetivo, que não é fácil, pois requer conhecer minimamente como funciona a
subjetividade humana. Vamos começar devagar, conhecendo os sistemas de
substituição mais diretos e simples.

TEMA 4 – SISTEMAS DE SUBSTITUIÇÃO CONVENCIONAIS, SIGNOS


ARBITRÁRIOS E NÃO ARBITRÁRIOS

Há pouco, mencionei que a vida humana sem convenções de


comunicação seria um caos. Como essas convenções acontecem é algo que
remonta tempos longínquos, inacessíveis. Você já se perguntou, por exemplo,
como é que a língua portuguesa chegou aos portugueses? Talvez saiba que o
português é uma das línguas latinas, ou seja, deriva do latim. Mas de onde teria
vindo, afinal, o latim falado e escrito? Nos próximos parágrafos, você irá
conhecer um pouco sobre como certas convenções e sinais de comunicação
tomam forma.

20
4.1 Sistemas convencionais de substituição

Alguns achados arqueológicos sugerem que, por volta de 30 mil anos


antes de Cristo, já havia algum sistema rudimentar de sinais utilizados para
contar. Registros de língua organizada, com sinais convencionais, podem ter
surgido por volta de 9 mil anos antes de Cristo. Para você ter um parâmetro, os
cristãos costumam situar o rei Salomão por volta do ano mil, ou seja, haveria
pelo menos 8 mil anos de escrita organizada antes de Salomão (Crystal, 2012,
105).

Saiba mais

Você pode conhecer alguma coisa sobre as origens da escrita lendo todo
o Capítulo 16 de: CRYSTAL, D. Pequeno tratado sobre a linguagem humana.
1. ed. [S.l.]: Editora Saraiva, 2012. Disponível na Minha Biblioteca.

Há segmentos específicos da Semiótica que se dedicam ao estudo dos


sinais adotados na escrita. Talvez um dos estudiosos mais citados, nesse
sentido, seja Ferdinand Saussure, cujo trabalho Santaella assim descreve:

Nesse sentido, a linguística saussureana não é meramente uma teoria


para a descrição de línguas particulares, tais como a francesa, inglesa
ou ameríndia, mas uma teoria que tem por objeto os mecanismos
linguísticos gerais, quer dizer, o conjunto das regras e dos princípios
de funcionamento que são comuns a todas as línguas. (Santaella,
1983, p. 16)

Como Santaella mesmo adverte, Saussure representa uma corrente,


notadamente a europeia, enquanto Charles Peirce representa a corrente
americana. Mas veja, os estudos de Semiótica, representados em Saussure ou
Peirce, são relativamente recentes, por isso a Semiótica pode ser classificada
como uma Ciência nova. Já o ato de significar, de substituir coisas por sinais, é
tão antigo quanto o ser humano. Isso quer dizer que não é a Semiótica que
estabelece as convenções, ela apenas estuda como essas convenções se
organizam.
Você verá, ao longo da disciplina, que uma maneira de introduzir
significado no seu trabalho é justamente utilizando as convenções ou as leis que
todo mundo já reconhece. Estamos cercados por elas, quer ver? Todos os
números são convenções, as placas de trânsito, sinais de acessibilidade, sinais
tecnológicos utilizados na linguagem virtual etc. O artefato que você comprou
por internet não chegaria à sua casa se não houvesse uma convenção
21
garantindo alguma lógica à disposição das casas nas ruas. Para isso, é preciso
números, na sequência para maior ou para menor, e com números
convencionados à direita e à esquerda.
A maioria dos sinais convencionados é visual, mas existem convenções
para sinais sonoros. Já imaginou o que seria um jogo de futebol se o juiz ficasse
apitando aleatoriamente sem respeitar as convenções? Evidentemente, nós
somos alfabetizados para compreender os números, e os atletas estudam para
conhecer a convenção dos sinais do juiz. Mas há convenções que não precisam
ser estudadas. Quem não sabe que o chiado de uma chaleira substitui o aviso
verbal de que a água ferveu? Quanto menos arbitrário for o sinal utilizado na
convenção, menos restrito, menos exclusivo e, portanto, mais universal.

Dica

Dizer que alguma coisa é universal significa assumir que ela vale para
todos, em todo o tempo.

Reserve essas informações sobre convenções para quando, em rota


específica, eu apresentar a você a categoria simbólica de relações, pois nessa
categoria só entram as relações sustentadas por convenções.

4.2 Signos arbitrários e não arbitrários

Aproveitando o exemplo anterior do juiz, você deve saber que uma


maneira de se referir a ele é chamando-o de árbitro. Então, arbitrário e árbitro
são palavras que compartilham a mesma raiz. O árbitro é aquele que diz como
as coisas devem ser. Assim, de maneira simples, considere que um signo
arbitrário é aquele que é assim, porque é assim. Um metro tem cem centímetros,
porque um grupo de pessoas concordou que seria assim. A direita não é
esquerda, porque um grupo de pessoas decidiu que essa era a melhor maneira
de distinguir sentidos. A luz que dá passagem aos carros e pedestre é verde,
porque assim foi convencionado. Afinal, o que há de diferente na cor verde, para
que todos entendam que podem avançar? Pense, por exemplo, no número 2. O
que é que há de duplo no número 2? Ou por que não chamar o som “ah”, de
ípsilon? Talvez você se lembre que, na sua alfabetização, os livros procuravam
fazer associações entre letras e coisas. Por exemplo, desenhava-se a letra “g”
na silhueta de um gato, ou se substituía a letra “o”, na palavra Sol, pela

22
representação de um Sol. Esses são artifícios sustentados pela Semiótica que
buscam diminuir a arbitrariedade daqueles signos para a criança.
Com isso, quero dizer que existem convenções assentadas em signos
arbitrários. Trata-se daqueles sinais cuja relação com aquilo que substituem não
parece ter a menor lógica. A verdade é que, na maioria das vezes, eles têm.
Algumas línguas representam suas letras com traços que aludem a coisas, como
casa, cabana, tumba etc., Mas em geral essa conexão se perde no tempo e os
sinais, e as convenções nas quais eles são encontrados parecem, para nós,
como arbitrárias. Eu, por exemplo, somente muito recentemente descobri que a
saudação do vulcano Spock, de Star Trek, não era um sinal arbitrário. Foi quando
soube que o ator Leonard Nimoy (1931-2015) a trouxe dos ritos sacerdotais e da
letra hebraica ‫"( ש‬Shin"). E, ainda, como eu era criança, sempre achei que o sinal
V tinha alguma coisa a ver com Vida, considerando que a saudação vulcana, em
português, era “vida longa e próspera”. Perceba que os sinais costumam sofrer
esse tipo de flexibilização, passando de arbitrários para não arbitrários à medida
que os estudamos.

Figura 17 – Saudação vulcana: o astronauta da Nasa Terry W. Virts fazendo a


saudação vulcana direto da Estação Espacial Internacional, em 27 de fevereiro
de 2015

Crédito: Terry W. Virts-NASA/CC/PD.

Até aqui você viu o que são sinais ou signos arbitrários, e de que maneira
eles são utilizados em algumas convenções. Vamos agora ver o que são signos
não arbitrários. Trata-se, justamente, daqueles que têm seu fundamento na
relação com aquilo que substituem.
Quanto mais antigo, maior a chance de a relação entre o signo e aquilo
que ele substitui não ser arbitrária. Embora provavelmente haja signos dessa
23
espécie mais antigos, o exemplo mais didático, e sobre o qual se tem mais
detalhes, vem da Torá hebraica (livro sagrado para os judeus, como a Bíblia é
para os cristãos), precisamente das narrativas do livro de Gênesis.
Certa vez, ouvi alguém fazer a seguinte distinção, e acho que ela nos
serve: os antigos, quando queriam dizer o que uma coisa é, apontavam para
essa coisa; os gregos, a descreviam. Assim, o que ocorre na narrativa do
Gênesis, é exatamente isso: apontar para uma coisa, cujos atributos
correspondem àquilo para o qual não se tem, ou não se pode ter, uma imagem.
Quando Moisés, o patriarca, quis ensinar ao povo quem era Deus, ele escolheu
a pedra. E por quê? Porque a pedra tem atributos que correspondem aos
atributos da divindade hebraica. Para enfatizar ainda mais a diferença, Moisés
colocou, lado a lado, o Tabernáculo e o Altar. Assim, o Tabernáculo substituía
os atributos humanos da transitoriedade, do movimento, do desenvolvimento
horizontal, enquanto a pedra do altar substituía os atributos de Deus, quais
sejam, a eternidade, a não movimentação, a direção vertical.
Outro exemplo bem didático, vindo também dos antigos, são as pirâmides.
Para além de tudo aquilo que já se disse e sabe sobre as pirâmides construídas
pelo povo egípcio, há um aspecto pouco trabalhado, que é justamente seu teor
de substituição, seu caráter sígneo. O monumento em forma piramidal substitui
a ambição humana de ficar fora do tempo, de ser eterno, e para isso utiliza todos
os sentidos humanos que estão envolvidos no deslocamento. Quer saber como?
Como suas faces são iguais e ela é muito grande, uma pessoa pode, em
condições normais, andar quilômetros olhando para aquela forma sem que nada
mude, nem forma nem tamanho. Isso dará ao observador a impressão de que
ele está se deslocando sem sofrer a influência do tempo, e isso é eternidade.
Fantástico, não?
Perceba que o altar hebraico e a pirâmide são coisas concretas que estão
substituindo a relação com o tempo, que é algo abstrato, e isso é exatamente o
que o designer deverá aprender a fazer. Para isso, precisa conhecer os atributos
dos materiais e seu poder de substituição.
Falei anteriormente do Cinema, e aqui a Sétima Arte volta a ser um bom
exemplo. A água é um elemento da natureza que tem certos atributos: ela molha,
penetra, aparece em nossos olhos quando estamos tristes ou sentimos dor.
Emergir da água significa, entre outras coisas, renascer. Da mesma maneira
como Moisés colocou a pedra no lugar do Deus para o qual não há imagem, os

24
cineastas colocam a água em situações estratégicas, em substituição a vários
sentimentos abstratos. Observe a Figura 18, que mostra mais uma cena do filme
A Pele (2016), de Steve Shainberg.

Figura 18 – Cena de A pele (2016)

Crédito: Rotten Tomatoes Classic Trailers.

A personagem vivida por Nicole Kidman está de avental e luvas de


plástico. O avental é transparente, e as luvas, amarelas. Tudo isso são atributos
materiais que o cineasta utiliza para fazer um discurso: a personagem está se
protegendo da água, ela não quer se deixar levar pelo sentimento; nesse caso,
daquilo que vem pela tubulação, que são os pelos do morador do andar superior.
O amarelo alerta o espectador, que ainda não sabe nada disso, de que há algo
perigoso naquele contato, e a transparência do avental denuncia que a
personagem, muito embora se defenda com roupas escuras e fechadas, tem o
seu peito vulnerável. Veja que o cineasta faz questão de enfatizar o efeito da
transparência do avental com a cortina de bolas que aparece ao fundo. Se você
reparou bem, a água nem precisa estar presente para que seus atributos sejam
reconhecidos. A cena leva à compreensão de que água e emoção são a mesma
coisa. Resumindo, o item mais arbitrário, na cena, é a cor amarela, que substitui
o perigo. O plástico transparente, a água, a tubulação, a roupa fechada, estão
ali em função dos seus atributos e não são, portanto, arbitrários.

Se liga

Trabalhar com signos não arbitrários é sustentá-los por compartilhamento


de atributos.

25
Os exemplos cotidianos são vários. Um par de alianças de casamento,
compartilha com o ouro os atributos da durabilidade e da preciosidade, e com o
círculo sua continuidade. Um xampu, sem cor, compartilha com a água a
transparência da sua pureza. Artefatos de couro ou pele compartilham de todo o
valor simbólico que a vida daquele animal teve.
Lutar contra os atributos dos materiais, em termos de significação, é
desperdício de energia. Se uma empresa desenvolve um tecido tão agradável
ou mais, que o algodão, mas que tem a aparência de plástico, terá que gastar
muito em publicidade para superar a relação que o observador constrói de modo
quase instintivo entre aquilo que ele vê como plástico, e os atributos pouco
confortáveis do material plástico. É como dizer que a pedra não é pedra, e que
a água não é água. Por outro lado, é preciso ter cuidado em utilizar falsos
atributos. O brilho dourado, que é um atributo dos metais preciosos, muitas vezes
é encontrado em torneiras de banheiro, botões e bijuterias. Com isso, o designer
leva para artefatos simples, algo daquele valor que o ouro comporta. A indústria
tem se esmerado em produzir falsos mármores, falsos pisos amadeirados, falsas
pedras, falsos brilhos, muitos com boa qualidade e acessíveis, mas o mercado
do luxo tende a resistir. O designer precisa ser criterioso no seu uso, mas é
preciso admitir que há um segmento em pleno desenvolvimento, que são os
laminados decorativos que imitam qualquer outro material mais natural ou de
maior valor.

Dados e fatos

Os laminados decorativos têm causado uma revolução considerável no


design de interiores. Diferentemente do que acontecia com os antigos
laminados, e as antigas “fórmicas”, os materiais atuais resistem à abrasão,
resistem à humidade, não ficam amarelos, e podem ser colocados com colas
mais comuns. Isso para não falar nos novos acabamentos, que agora são feitos
à laser, reproduzindo com muita fidelidade a aparência de pedras e madeiras.

Fonte: Elaborado com base em Rudegon, 2022. Copyright © 2023, Gazeta do Povo 2.

Você aprenderá, nas próximas rotas, que alguns atributos materiais são
justamente o que permite ao seu produto criar uma conexão emocional com o

2 Disponível em: de: <[Link]


por-que-o-laminado-decorativo-revoluciona-o-mercado-de-revestimentos/>. Acesso em: 12 abr.
2024.
26
cliente. Se uma noiva, por exemplo, deseja que seu casamento seja puro, o
material da aliança deve ter esse atributo, ou seja, o ouro deve ter como uma de
suas características a pureza. É assim, por meio do seu atributo, que ele substitui
o desejo da cliente.
Embora a questão do material seja muito forte, a não arbitrariedade dos
signos nem sempre é uma questão de material. Frequentemente um signo não
arbitrário se sustenta pela semelhança. Essa é uma qualidade muito importante
para a comunicação à medida que aumenta significativamente sua eficácia.
Observe na Figura 19 a quantidade de representações que substituem coisas
em função da semelhança. Em certa medida, todos esses sinais são
convencionais. Mas não há nada de arbitrário em um sinal que mostra pessoas
caminhando, andando de bicicleta e assim por diante. Agora, para compreender
o que significa um sinal luminoso com três cores, o observador precisa estar
familiarizado com as convenções do trânsito, porque o significado das cores
pode, sim, ser arbitrário.

Figura 19 – Sinais de trânsito

Créditos: Tonktiti/Shutterstock.

Até aqui você aprendeu o que é convenção e o que são signos arbitrários
e não arbitrários. Você precisará desse conhecimento para toda a disciplina. O
próximo e último tema tem como objetivo um aprofundamento na compreensão
de para que serve esse sistema de signos, considerando o ser humano em geral.

27
TEMA 5 – COMO COMUNICAR O QUE AINDA NÃO FOI SIGNIFICADO?

Você já sabe que o objetivo deste conteúdo é ensinar a utilizar certos


conceitos da Semiótica, e não cabe aqui avançar para muito além do que é
essencialmente prático. Ainda assim, é preciso considerar que a boa prática se
assenta em certa sofisticação, e essa sofisticação depende de certos
conhecimentos extraordinários.
Normalmente, um estudante de Design não pensa na significação como
algo necessário, para além dos aspectos pragmáticos, ou seja, não vai além do
que está diretamente ligado ao uso. A maioria de nós associa necessidade a
utilidade. Mas o mundo não funciona assim. Deixe-me colocar de outra maneira:
se você e seu concorrente oferecem em uma vitrine produtos que, sob o ponto
de vista do uso e preço, são iguais, o que faria com que o cliente escolhesse o
seu? As respostas podem variar, mas uma coisa é certa: se o cliente escolheu o
seu, é porque você colocou no seu produto alguma coisa que ele quer, e vai
além do uso, que seu concorrente também atende. Supondo que o produto seja
uma cadeira, algo na sua cadeira supre uma necessidade que supera o simples
ato de se sentar. Descobrir que necessidade é essa, é que é a chave do sucesso.
Sob o ponto de vista da Semiótica, e particularmente da Semiótica de
Peirce que será o fio condutor desta disciplina, perguntar ao cliente o que ele
quer não ajuda muito, porque não é raro que ele não saiba. Como assim, o cliente
não sabe o que quer? Isso mesmo. O cliente pode não saber o que quer, ou não
saber sequer que quer alguma coisa. Considere que, em mercados competitivos,
é preciso adentrar esses terrenos de incertezas. Meu desafio, neste tema, é
convencê-lo de que isso é importante.
Nietzsche, novamente, pode ser útil. Em um dos seus escritos, ele
apresenta uma figura de linguagem muito bonita. O filósofo descreve a
necessidade humana de significar como um desejo profundo de colocar as
próprias emoções fora do peito, materializando, ou seja, tornando concretas, as
impressões dos sentidos. Quase como se fosse possível materializar o seu
coração e oferecê-lo à pessoa que ama (Nascimento, 2014, p. 114).
Vamos pensar, por uns momentos, no artista. Lembre-se que artista, para
o nosso contexto, é um inventor de signos. Isso quer dizer que cabe a ele
inventar uma maneira para que as pessoas possam tornar concretas as
impressões dos seus sentidos. Para esse artista, os seres humanos são como

28
bebês. Eles sentem dores, insegurança, felicidade, saudade, mas não têm,
ainda, palavras para dizer o que sentem, e é provável que não saibam
exatamente o que sentem. A função do artista é criar as palavras que o bebê
poderá colocar no lugar dos seus sentimentos e sensações. Para isso, ele tem
de ter sido bebê um dia, ou estar muito familiarizado com eles. Você poderá
argumentar que seus clientes não são bebês, mas lembre-se de que todos nós
somos bebês para alguma coisa. Anteriormente, mencionei as novas angústias,
inventadas pelos meios eletrônicos e mídias sociais. Esses são apenas os
exemplos mais evidentes de que a atividade do inventor de signos é atual. Se
você tem, ou vier a ter, algum contato com assuntos de Psicologia, saberá que
encontrar a representação para um desejo, sensação ou sentimento, é um fator
determinante para a diminuição da angústia, pois não há nada pior para o ser
humano do que sentir alguma coisa e não saber defini-la, representá-la. Nós,
humanos, queremos entender a nós mesmos por meio das coisas que nos
cercam (Nascimento, 2014, p.113). E é aí que você, designer, deve entrar em
ação se quiser fazer a diferença.
Cito aqui exemplos que podem ajudar. Em 2013, uma marca de luxo
produziu um filme institucional no qual apresentava modelos famosas, em
roupas de dormir luxuosas, na rua, abordando carros, como se fossem
prostitutas. O experimento foi arriscado, e causou polêmica. Em termos
semióticos, o objetivo era claro: provocar o espectador, oferecer-lhe a
oportunidade de viver em alguns segundos uma emoção fora do padrão. Em
outra ocasião, uma revista de moda colocou na sua capa uma criança, vestida
em roupas de adulto, com poses sensuais. O objetivo, e o efeito, foram similares.
Lembre-se que o que está acontecendo, nesses exemplos, é uma substituição:
uma cena acessível no lugar de uma experiência real pouco provável. Por meio
de publicidades como essas, o observador tem a rara oportunidade de dialogar
e compreender um pouco mais do seu próprio eu (Nascimento, 2014, p. 113).
Para que o produto venda, o cliente deverá reconhecer nele mesmo um desejo
que ele não tem consciência, ou jamais admitiria que tem. Ousadias como essas
são prerrogativas de quem pode arriscar. Se os clientes não alimentam tais
fantasias, ou se estiverem determinados a negá-las, o produto não venderá.
Claro que a maioria de nós não está em condições de arriscar tanto, mas
o princípio é válido. Como artista criador de signo, o designer precisa encontrar

29
paixões, desejos, angústias, fantasias ainda não representadas, do contrário terá
dificuldade em se diferenciar da concorrência.

Se liga

Caberá a você, e somente a você, designer, encontrar as emoções e


sentimentos que ainda precisam ser representados ou, pelo menos, encontrar
novas maneiras de fazê-lo.

TROCANDO IDEIAS

Os signos têm a incrível capacidade de apresentar discursos, às vezes


bastante complexos, sem o uso de palavras. Citei vários exemplos vindos do
cinema, agora sugiro que analise comigo a Figura 20.

Figura 20 – Sinais convencionais de masculino, feminino, igual e diferente

Créditos: Dmitry Demidovich/Shutterstock.

Os três dados têm apenas sinais gráficos. A disposição, no entanto, faz


um forte discurso sobre a igualdade, ou desigualdade, entre homens e mulheres.
Para entender o discurso, o observador tem que conhecer os signos. Tem que
saber o que substitui o homem, a mulher, o igual e o diferente. Do contrário, não
compreenderá. Depois de ler esta rota, você já está em condições, também, de
analisar e identificar se algum dos sinais é arbitrário. Do meu ponto de vista, o
mais arbitrário é o da mulher. Você concorda? Compartilhe seus comentários
com seus colegas no Fórum da Aula 1.

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NA PRÁTICA

Procure, na internet, propagandas de produtos de luxo e tente identificar


quais os desejos aquelas fotos estão substituindo. Uma dica é buscar por
reportagens ou depoimentos que denunciam práticas pouco ortodoxas
(estranhas ao que é normalmente aceito) de substituição, e depois tente
encontrar a foto que deu origem à denúncia. Fotos de moda, por exemplo, têm
uma maneira própria de se comunicar com o observador por meio de poses,
direção do olhar da modelo, partes ocultadas e mostradas do corpo. Procure
também marcas famosas de qualquer objeto em peças publicitárias sem modelo.
Sapatos, bolsas, perfumes etc. Analise o que o produtor utilizou para comunicar
qualidades daquele produto, investigue os atributos! Tenha em mente que quem
mais arrisca, e com quem se pode aprender mais, são as marcas de luxo.

FINALIZANDO

Nesta rota, você fez seus primeiros contatos com a disciplina, que tem
como objetivo ensinar como utilizar princípios de Semiótica para alavancar sua
prática profissional. Agora você já sabe que o importante, aqui, são as
substituições. Sabe também que existem substituições convencionadas,
algumas delas baseadas em signos arbitrários, ou seja, sem uma relação óbvia
com o que substituem, e outras em signos não arbitrários, cuja relação é
baseada, normalmente, em compartilhamento de atributos. Quero reforçar, nesta
finalização, que o ponto chave é saber o que é que precisa ser substituído. Como
artista inventor de signos, você precisa encontrar a sua fonte, os desejos
conhecidos ou não, conscientes ou não, admitidos ou não, do seu potencial
cliente.
Sugiro uma série de filmes que são muito ricos em matéria de significação:
• Wes Anderson:
o Os excêntricos Tenembaums (2001);
o Moonrise Kingdom (2012).
• Steven Shainberg:
o A Pele (2006) – existem artigos da professora na internet!
(Dobras/Temática);
o Secretária (2002) – classificação indicativa: 18 anos.
• Outros diretores:

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o Minha vida em cor de rosa (1997);
o A separação (2011) – existem artigos da professora na internet!
(Semioses);
o Roda gigante (2017).

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REFERÊNCIAS

CRYSTAL, D. Pequeno tratado sobre a linguagem humana. 1. ed. [S.l.]:


Editora Saraiva, 2012.

KANT, I. Crítica da Faculdade do Juízo. Tradução de Valério Rodhen e António


Marques. 3. ed. Rio de Janeiro: Forence Universitária. 2012.

NASCIMENTO, S. F. Moda e linguagem: Nietzsche e Arbus, uma aproximação.


Revista Dobras, 2014. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 10 jul.
2024.

_____. O Estilo Modernista à luz da “necessidade” e da “inocência”. Trágica;


Edição temática Filosofia do Design, v. 9, n. 3, 2016. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 10 jul. 2024.

_____. El discurso de la arquitectura en A Separation, de Asghar Farhadi.


Semeiosis: semiótica e transdisciplinaridade em revista. 2º Sem., 2017.
Disponível em: <[Link] Acesso em: 10 jul. 2024.

NIETZSCHE, F. A Visão Dionisíaca do Mundo. Tradução de Marcos SP


Fernandes e Maria Cristina dos Santos de Souza. São Paulo: Martins Fontes,
2005.

SANTAELLA, L. O que é semiótica. Coleção Primeiros Passos. [S.l.]: Editora


Brasiliense: 1983.

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