Parasitoses
As parasitoses são doenças causadas por parasitas que afetam a população,
especialmente em áreas com saneamento básico precário. No interior de São Paulo e em
diversas regiões do Brasil, algumas parasitoses são mais prevalentes devido a fatores
ambientais, socioeconômicos e climáticos. A seguir, serão descritas três parasitoses
comuns, destacando sua fonte de alimentação, ciclo de vida, reprodução, sinais e sintomas,
diagnóstico clínico e laboratorial, tratamento, profilaxia e morfologia.
1. Ascaridíase (Ascaris lumbricoides)
Fonte de Alimentação:
O Ascaris lumbricoides se alimenta dos nutrientes presentes no intestino delgado do
hospedeiro humano, competindo pela absorção de substâncias essenciais, como glicose,
aminoácidos e lipídios. Esse consumo de nutrientes pode levar a quadros de desnutrição e
deficiência de vitaminas nos indivíduos infectados.
Ciclo de Vida e Reprodução:
1. Ovo embrionado (fase infectante): Ovos são eliminados nas fezes e precisam de
10 a 30 dias no solo para amadurecer.
2. Larva L1 → L2 (desenvolvimento no ovo): No ambiente, os ovos desenvolvem
larvas dentro da casca protetora.
3. Larva L3 (fase infectante): Humanos ingerem alimentos ou água contaminada com
ovos contendo larvas maduras.
4. Eclosão e migração: No intestino delgado, as larvas eclodem e perfuram a parede
intestinal, entrando na corrente sanguínea.
5. Ciclo pulmonar: As larvas migram para o fígado, coração e pulmões, onde
amadurecem por 10 a 14 dias, atravessando os alvéolos e subindo até a faringe,
sendo engolidas novamente.
6. Vermes adultos no intestino: No intestino, as larvas amadurecem em vermes
adultos.
7. Reprodução sexuada: Os vermes adultos copulam no intestino delgado. A fêmea
pode depositar até 200.000 ovos por dia.
8. Eliminação dos ovos: Ovos são eliminados nas fezes, completando o ciclo.
Sinais e Sintomas:
● Dor abdominal
● Náuseas e vômitos
● Diarreia intermitente
● Perda de peso
● Retardo no crescimento em crianças
● Em infestações maciças, pode ocorrer obstrução intestinal
Diagnóstico Clínico e Laboratorial:
● Clínico: História de contato com ambientes contaminados, sintomas
gastrointestinais e sinais de desnutrição.
● Laboratorial:
○ Exame parasitológico de fezes (método de sedimentação espontânea ou
flutuação) para identificação de ovos.
○ Hemograma pode indicar eosinofilia.
○ Exames de imagem (radiografia, ultrassonografia) em casos de grande
infestação para detectar massas de vermes.
Tratamento:
● Fármacos: Albendazol ou mebendazol (antiparasitários eficazes contra helmintos).
● Suporte: Tratamento sintomático para desnutrição e complicações intestinais.
● Cirurgia: Em casos graves de obstrução intestinal.
Profilaxia:
● Saneamento básico adequado.
● Higiene pessoal, como lavar as mãos antes das refeições.
● Lavar bem alimentos crus.
● Evitar consumo de água não tratada.
Morfologia:
● Vermes adultos cilíndricos, medindo de 15 a 40 cm de comprimento.
● Extremidades afiladas e coloração esbranquiçada.
● Machos possuem extremidade posterior curva.
2. Esquistossomose (Schistosoma mansoni)
Fonte de Alimentação:
O Schistosoma mansoni se alimenta do sangue do hospedeiro, nutrindo-se de hemoglobina
e outros componentes sanguíneos essenciais para sua sobrevivência e reprodução. Esse
consumo pode causar anemia e inflamação nos vasos intestinais e hepáticos.
Ciclo de Vida e Reprodução:
1. Ovos nas fezes: Eliminados pelo hospedeiro humano e chegam até a água.
2. Miracídio: Eclode na água e nada em busca do caramujo do gênero Biomphalaria.
3. Esporocistos dentro do caramujo: Os miracídios penetram no caramujo e se
transformam em esporocistos, multiplicando-se assexuadamente.
4. Cercárias (fase infectante): São liberadas do caramujo para a água, onde podem
penetrar na pele humana.
5. Migração pelo organismo: As cercárias entram na corrente sanguínea e chegam
ao fígado, onde amadurecem.
6. Vermes adultos: Migram para os vasos sanguíneos intestinais e copulam.
7. Deposição de ovos: Os ovos atravessam a parede do intestino e são eliminados
nas fezes, reiniciando o ciclo.
Sinais e Sintomas:
● Febre
● Fadiga
● Aumento do fígado e baço (hepatosplenomegalia)
● Dor abdominal
● Sangue nas fezes
● Coceira na pele na fase inicial da infecção
Diagnóstico Clínico e Laboratorial:
● Clínico: História de contato com águas contaminadas e sintomas hepatoesplênicos.
● Laboratorial:
○ Exame parasitológico de fezes (método Kato-Katz) para pesquisa de ovos.
○ Testes imunológicos e sorológicos para detecção de anticorpos.
○ Ultrassonografia para avaliar fibrose hepática e hipertensão portal.
Tratamento:
● Fármacos: Praziquantel, medicamento antiparasitário específico.
● Controle Ambiental: Redução da população de caramujos vetores.
Profilaxia:
● Evitar contato com águas contaminadas.
● Controle de caramujos vetores.
● Saneamento básico adequado.
Morfologia:
● Vermes achatados e alongados, medindo de 6 a 20 mm.
● Dimorfismo sexual: machos são mais curtos e robustos, enquanto fêmeas são mais
longas e delgadas.
● Macho possui canal ginecóforo onde abriga a fêmea.
3. Doença de Chagas (Trypanosoma cruzi)
Fonte de Alimentação:
O Trypanosoma cruzi é um protozoário transmitido por insetos triatomíneos (barbeiros), que
se alimentam de sangue humano e de outros mamíferos.
Ciclo de Vida e Reprodução:
1. Tripomastigotas metacíclicos: O barbeiro defeca ao se alimentar de sangue,
liberando tripomastigotas metacíclicos.
2. Penetração no hospedeiro: O protozoário entra no corpo por feridas na pele,
mucosas ou conjuntivas.
3. Invasão celular: No interior das células musculares e do sistema nervoso, os
tripomastigotas se transformam em amastigotas.
4. Multiplicação intracelular: Os amastigotas se multiplicam por divisão binária,
rompem a célula hospedeira e se transformam novamente em tripomastigotas.
5. Disseminação no corpo: Os tripomastigotas invadem novas células ou são
ingeridos por outro barbeiro ao sugar sangue.
6. No inseto vetor: Os tripomastigotas se transformam em epimastigotas no intestino
do barbeiro e se multiplicam.
7. Transformação final: Os epimastigotas migram para a porção final do intestino do
inseto e se transformam em tripomastigotas metacíclicos, prontos para infectar um
novo hospedeiro.
Sinais e Sintomas:
● Fase Aguda:
○ Febre prolongada
○ Edema palpebral unilateral (sinal de Romaña)
○ Inflamação local no ponto de entrada do parasita
○ Mal-estar e fadiga
● Fase Crônica:
○ Cardiomiopatia chagásica (arritmias, insuficiência cardíaca)
○ Megaesôfago e megacólon
Diagnóstico Clínico e Laboratorial:
● Clínico: História de exposição a áreas endêmicas e sintomas cardíacos ou
digestivos.
● Laboratorial:
○ Exame de sangue para pesquisa direta do protozoário (fase aguda).
○ Testes sorológicos (ELISA, IFI) para identificação de anticorpos (fase
crônica).
○ Eletrocardiograma e ecocardiograma para avaliar complicações cardíacas.
Tratamento:
● Fármacos: Benzonidazol e nifurtimox são os fármacos indicados na fase aguda.
● Tratamento sintomático: Suporte para complicações cardíacas e digestivas na fase
crônica.
Profilaxia:
● Controle de insetos vetores.
● Melhoria das condições de moradia.
● Triagem de sangue doado.
Morfologia:
● Tripomastigota: Forma fusiforme, com núcleo central e flagelo.
● Amastigota: Forma arredondada, sem flagelo, presente no interior das células
infectadas.
● Epimastigota: Forma replicativa no tubo digestivo do barbeiro.
Referências
● NEVES, D. P. Parasitologia Humana. 13ª ed. São Paulo: Atheneu, 2016.
● REY, L. Bases da Parasitologia Médica. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,
2019.
● BRASIL, Ministério da Saúde. Manual de Diagnóstico e Tratamento das Doenças
Parasitárias. Brasília, 2021.
● WHO (World Health Organization). Schistosomiasis Fact Sheet. Disponível em:
[Link] Acesso em: 2024.
● CDC (Centers for Disease Control and Prevention). Chagas Disease. Disponível
em: [Link] Acesso em: 2024.