Português 12ano
Fernando Pessoas- O & H
2024/2025
Fernando Pessoa – ortónimo O leitor não sente a dor real, pois essa
pertence ao poeta; não sente a imaginada,
O fingimento artístico pois pertence ao criador; não sente as duas
dores do poeta nem a dor que ele tem;
apenas sente o que o objeto artístico lhe
Sinceridade / fingimento desperta.
(“Autopsicografia”, “Isto”)
O fingimento não impede a sinceridade,
apenas implica o trabalho de representar,
A poesia de Fernando Pessoa é um de exprimir intelectualmente as emoções
fingimento, pois não está na expressão ou o que quer representar.
imediata, espontânea, direta das emoções,
mas sim na elaboração mental, na Dor de pensar - Consciência /
transfiguração artística que o poeta faz
Inconsciência - (“Ela canta Pobre Ceifeira”;
dessas emoções, de modo a elevá-las ao
plano da arte. “Gato que Brincas no Telhado”)
Pessoa considera que a arte “é o resultado Fernando Pessoa sente-se condenado a
da colaboração entre o sentir e o pensar”. ser lúcido, a ter de pensar, isto é,
Daí ser a sensibilidade a fornecer à considera que o pensamento provoca a
inteligência as emoções para a produção do dor, teoria que assenta na temática da “dor
poema. de pensar”. Na sequência da mesma, o
poeta inveja aqueles que são
Para exprimir a arte, o autor criativo precisa inconscientes e que não se despertam
de intelectualizar o sentimento, o que pode para a atividade de pensar, como uma
levar a confundir a elaboração estética com “pobre ceifeira” ou como “gato que brincas
um ato de “fingimento”. O poeta parte da na rua”.
realidade, mas só consegue, com autêntica
sinceridade, representar com palavras ou Assim, o poeta inveja a felicidade alheia,
outros signos o “fingimento”, que não é porque esta é inatingível para ele, uma vez
mais do que uma realidade nova. que é baseada em princípios que sente
nunca poder alcançar, a inconsciência. O
Para Fernando Pessoa, um poema “é poeta deseja ser inconsciente, mas não
produto intelectual”, e por isso, não abdica da sua consciência, deste modo,
acontece “no momento da emoção”, mas manifesta a sua vontade de conciliar ideias
resulta da sua recordação. A emoção inconciliáveis.
precisa de “existir intelectualmente”, o que
só na recordação é possível. Em suma, a “dor de pensar” que o autor diz
sentir, provém de uma intelectualização
A arte nasce da realidade, a dor deveras das sensações à qual o poeta não pode
sentida; a poesia consiste no fingimento escapar, como ser consciente e lúcido que
dessa realidade: a dor fingida; a é.
intelectualização da realidade tem de ser
objetivada em texto; o fingimento é tão
perfeito que se confunde com a realidade.
1 Inês velez
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A nostalgia da infância de inquietação e absurdo perante esta
Uma das temáticas de Fernando Pessoa é a divisão do “ser” que o faz sentir-se estranho
nostalgia da infância. O poeta procura de si mesmo.
recordar a sua infância e sente nostalgia.
Um profundo desencanto e angústia Linguagem, estilo e estrutura:
acompanham o sentido da brevidade da • Uso de formas da lírica tradicional
vida e da sua fragilidade. Ao mesmo tempo portuguesa: quadras e quintilhas e versos
que gostava de ter a infância das crianças em redondilha menor e maior;
que brincam, sente a saudade de uma • Regularidade estrófica, métrica e
ternura que lhe passou ao lado. rimática;
• Musicaliddade: presença de rima e
De facto, no poema “Pobre e velha música”, aliterações;
Pessoa imagina ter sido algúem diferente • Vocabulário simples, mas pleno de
na infância, “outro”, não sabendo sequer se símbolos;
fora feliz: “E eu era feliz? Não: Fuio outrora • Simplicidade na construção sintática;
agora”. Estas dicotomias, sempre • Uso de pontuação expressiva;
presentes na sua obra, mostram a • Recursos expressivvos abundantes –
dualidade de pensamento do poeta. metáfora, antítese, comparação, repetição,
interrogação retórica,...
Para Fernando Pessoa, o passado é um
sonho inútil, pois nada se concretizou,
antes se traduziu numa desilusão. Por isso,
Fernando Pessoa - Heterónimos
a constante dúvida perante a vida real e de
sonho. Daí, também, uma nostalgia do bem Bernardo Soares – semi-heterónimo
perdido, do mundo fantástico da infância,
único momento possível de felicidade. Bernardo Soares → Mutação* da sua
personalidade
Sonho e realidade
Sonho e realidade é uma das temáticas que 1. Perceção e transfiguração poética do
percorre a poesia ortónima e retrata a real:
multiplicidade do “eu” que faz introspeção. •Supremacia do ato de sonhar: “Eu nunca fiz
O sonho é muitas vezes, para o poeta, uma senão sonhar”
forma de escapar a uma realidade amarga, •Focalização de pormenores banais do
dececionante, onde a angústia quotidiano e seu desdobramento
experimentada o leva a uma fragmentação
do interior. O sonho surge como uma 2. O quotidiano:
dimensão de evasão para um mundo de •A massa humana, a azáfama das ruas da
fantasia, refúgio de uma realidade que cidade de Lisboa
desencadeia nele uma angústia •Ruas da cidade de Lisboa como uma
existencial. extensão do próprio Bernardo Soares que
surge como uma materialização daquilo que
Pessoa sente-se separado de si próprio, sente
distante do passado e do futuro. Assim,
Pessoa exprime nos seus poemas um misto
2 Inês velez
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3. Deambulação e sonho, observador Temáticas:
acidental: Está presente a dicotomia sentir/ pensar
•Facilidade de entrega ao devaneio
•Focalização dos pormenores da realidade
que o circunda 1. O fingimento artístico: o poeta
•Deambulação
“bucólico”
Alberto Caeiro – O Guardador de • Deambulação e contemplação da
Rebanhos Natureza
Alberto Caeiro apresenta-se como um •Integração, comunhão e harmonia com os
poeta bucólico, um poeta do real objetivo, elementos naturais e afastamento social
pensa vendo e ouvindo, recusa o
•Simplicidade e felicidade primordiais
pensamento metafísico.
•Vivência tranquila no tempo presente/ O
Ao assumir-se metaforicamente como um presente é encarado como uma dádiva
“guardador de rebanhos”, o poeta exprime o
•Bucolismo como máscara poética 2.
seu desejo de viver de forma simples e
tranquila, procurando estar em comunhão
e harmonia com a natureza. 2.Reflexão existencial: o primado das
sensações
Caeiro é o poeta do olhar, faz o primado
das sensações e atribui maior importância •Sensacionismo: sensação sobrepõe-se ao
à visão. Assim, ele recusa o pensamento, pensamento
pois “pensar é estar doente dos olhos”. O
poeta deambula e surpeende-se com a •Importância do olhar
renovação e novidade do mundo que •Observação objetiva da realidade
observa.
•Rejeição do pensamento abstrato e da
Ele escreve sobre a ordem natural do intelectualização “Filosofia” da
mundo, a simplicidade da vida rural e a antifilosofia
objetividade, valorizando as sensações e
recusando o pensamento.
3.Linguagem, estilo e estrutura
Concluindo, a natureza constitui o maior •Simples , familiar, objetiva (ex.: pouca
exemplo de vida para Alberto Caeiro.
adjetivação)
•Tom oralizante
•Vocabulário concreto
•Predomínio do presente do indicativo
Verso livre (por norma longos)
•Versos soltos (ausência de rima)
3 Inês velez
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•Recursos expressivos predominantes: •Irregularidade estrófica, rítmica e métrica
comparação, metáfora, anáfora, repetição
•Predomínio de construções sintáticas
coordenadas e subordinadas adverbiais
Ricardo Reis – o poeta “clássico”
O fingimento artístico: o poeta “clássico”
1. Influências filosóficas
Epicurismo o Efemeridade da vida/ inevitabilidade da morte
o Ataraxia: busca da ausência de sofrimento
o Relativização da felicidade e prazer
o Altivez e indiferença perante as emoções excessivas –
egoísmo epicurista
o Perceção direta da realidade e do ciclo da Natureza
Estoicismo o Aceitação das leis do Destino e do Tempo
o Supressão do desejo, do prazer, da angústia e do
lamento
o O acaso* inabilita a providência (felicidade)
o Autodisciplina e despojamento
Neopaganismo/ o Renascimento da essência pagã, pela eliminação da
Neoclassicismo racionalidade abstrata e pela rejeição da metafísica
ocidental
o Cosmovisão (conceção do mundo) hierárquica
ascendente – animais, homens, deuses e Fado
o (Re)aparecimento dos antigos deuses na arte ou na
literatura, a partir do século XVIII
Horacianismo o Visão estoico-epicurista da existência
o Transitoriedade temporal +
o Inutilidade do esforço e da averiguação sobre o futuro
o Apelo à entrega moderada ao prazer o Mínimo de dor ou
gozo
o Locus amoenus: lugar ameno, tranquilo, bucólico
Classicismo como máscara poético
4 Inês velez
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2.Reflexão existencial: a consciência e a Anástrofe – inversão direta dos elementos
encenação da realidade da frase
• Tragicidade da vida humana
• A vida como “encenação” da hora fatal Aliteração – repetição da mesma
(previsão e preparação da morte): consoante Ex.: “Mais possuirei a existência
despojamento de bens materiais, negação total do universo, / Mais completo serei
de sentimentos excessivos e de pelo espaço inteiro fora…” Hipérbato –
compromissos
• Intelectualização de emoções Apóstrofe – chamamento de alguém
• Contenção de impulsos Ex.: “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira
• Vivência moderada do momento do rio”
3. Linguagem, estilo e estrutura Gramática – Valor aspetual
• Culta, latinizante - Valor perfetivo – representa situações
• Estilo e forma complexos concluídas O pretérito perfeito simples está
• Tom didático e moralista – uso do associado a este valor, assim como os
imperativo e conjuntivo com valor verbos auxiliares acabar de, deixar de, parar
exortativo (que ) de.
• Tom coloquial (informal) na presença de Ex.: A Ana comeu…
um interlocutor Gostei muito de ti
• Regularidade estrófica, rítmica e métrica
(versos predominantemente decassilábicos - Valor imperfetivo – “ não concluída
e hexassilábicos) Pretérito imperfeito e os verbos auxiliares
• Versos soltos aspetuais estar a ou andar a
• Preferência pela composição poética em Ex.: Os alunos andavam quando…
ode Ando a ler um livro
• Recursos expressivos predominantes:
anástrofe, metáfora, aliteração, apóstrofe o - Situação genérica – situação descrita é
Influência da sintaxe latina (alteração da atemporal, atribui propriedade permanente
ordem padrão dos constituintes frásicos)
• Uso predominante do presente do
indicativo e da 1ª pessoa do plural
• Uso do gerúndio com valor aspetual
imperfetivo
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Fernando Pessoa (ortónimo) versus Alberto Caeiro (heterónimo)
Fernando Pessoa manifesta a dor de pensar que sente, causada pela excessiva
intelectualização das emoções (“tudo o que em mim sente está pensando”).
O desejo de evasão – desejo de ser inconsciente e feliz, é uma tentativa frustrada de pôr fim a
este sofrimento sentido pelo ortónimo. Alberto Caeiro revela ser a personificação do desejo de
evasão, pois este recusa a intelectualização e sobrepõe as sensações ao pensamento. É, talvez,
por isso que é considerado o mestre: é simples, vive em harmonia com a Natureza, encara o
presente como uma dádiva, deixando-se deslumbrar e acima de tudo é feliz.
Álvaro de Campos 1ª Fase – Decadentista
1.O fingimento artístico: o poeta da •sentimentos de tédio, cansaço,
modernidade abatimento e necessidade de novas
• Rutura com os cânones tradicionais; sensações
insubmisso e rebelde das vanguardas do
início do séc. XX 2ª Fase – Futurista e Sensacionista
• futurismo (de Marinetti) e sensacionismo
• Postura provocatória e transgressora da
(de Walt Whitman); Álvaro de Campos, para
moral --» propósito de escandalizar e
além de celebrar o triunfo da máquina, da
chocar
energia mecânica e da civilização moderna,
• Futurismo: apologia da civilização canta também os escândalos e corrupções
contemporânea moderna, industrial e da sociedade contemporânea; Esta fase
tecnológica está também marcada pela
intelectualização das sensações.
• Sensacionismo: sensação como método
cognitivo da realidade
3ª Fase – Intimista
• Apologia da “vertigem sensorial” (“sentir •O poeta vive rodeado pelo sono e pelo
tudo de todas as maneiras”) cansaço, revelando desilusão, revolta,
inadaptação, devido à incapacidade das
• Tensão, insatisfação e frustração perante
realizações.
a incapacidade de abarcar a totalidade das
sensações
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2. Exaltação do modernismo:
• Elogio do cosmopolitismo
•Exaltação eufórica da máquina, da
agressividade, velocidade e do excesso
• “Pujança da sensação” (poderio,
abundância) com pendor épico.
3.Temáticas
O imaginário épico:
Reflexão existencial (sujeito, consciência e tempo, nostalgia da infância):
Campos toma consciência profunda de si próprio, da falta de coincidência entre o que idealiza e
o que consegue concretizar e, ainda, da inevitabilidade da passagem do tempo. Diferentes
sentimentos disfóricos invadem a sua consciência: a abulia, o tédio, o cansaço e a solidão. Na
sua face intimista, verifica-se ainda o isolamento e o desejo de recuperação da infância,
encarada como paraíso perdido. E é aqui que, tal como Pessoa, experimenta a “nostalgia da
infância”, vivenciada como um tempo simbólico da inconsciência e de felicidade. Além disso, é
dominado por uma angústia existencial e pela “dor de pensar”.
Linguagem, estilo e estrutura:
• Verso livre e longo;
• Irregularidade estrófica, rítmica e métrica;
• Ausência de rima;
• Linguagem simples, objetiva;
• Inclusão de vários registos de língua;
• Privilégio do presente do indicativo;
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