I.5.
A moral e a formação da consciência
Os moralistas desde os primeiros séculos consideraram a consciência como uma das
principais faculdades morais do homem, pelo facto de estar na base do juízo emitido no
intimo do indivíduo, sobre situações que esperam por uma corporização; pode ser chamada
'faculdade' ou 'órgão' do homem somente de forma analógica, porque ela não se coloca
num lugar específico, mas afunda as suas raízes no centro da unidade do mesmo homem,
na percepção de sí próprio com "eu". Com a liberdade e com o conhecimento dos valores, a
consciência constitui-se, do ponto de vista do sujeito, a fonte fundamental. do bem. É o
arauto que conduz a mente e o pensamento humano a construírem um ambiente interno
que conduza ao bem.
Pensa-se que do ponto de vista do sentir comum da humanidade, ou no senso comum dos
povos, todos os homens são possuidores de um órgão com o qual podem contar para tomar
decisões certas para os seus actos, tanto internos como externos. Essa não é somente uma
voz interior, mas uma faculdade da alma capaz de levar o indivíduo a ter maior atenção aos
seus deveres, sem pressões externas.
O termo consciência, vem da expressão latina ' cum-scire', que indica o tipo de saber pelo
qual de uma certa maneira o homem faz um autodiagnóstico de sí mesmo. É um saber e
manifestar do saber reflexo do Eu, sobre sí mesmo. Quem tem consciência fará todo o
esforço de não ser alheio a sí próprio. Assim, o tema da consciência pode ser tratado em
várias perspetivas. Por exemplo, fala-se da consciência psicológica em relação a intuição e
a percepção mais ou menos completa e esclarecida, que o espírito possui da sua situação
interior e dos seus actos, isto é, da própria.
Fala-se de consciência moral em relação ao saber que a pessoa tem de si como "eu
responsável", chamado a responder ao apelo do bem e a evitar o mal. É uma forma de
conhecimento que o homem não pode não experimentar quando deve decidir fazer ou não
fazer algo, havendo como critério de acção, apesar de confusamente, os valores morais.
Assim, a consciência pode ser considerada fenómeno estritamente humano, e logo,
complexo.
Segundo a moral clássica os primeiros movimentos da consciência estão centralizados
sobre a mesmidade da pessoa, isto é, sobre o "eu", sem isso significar que sejam
egoísticos; a motivação é que o "eu" que se sente ameaçado clama por uma intervenção do
seu sensor, reabrindo-se improvisamente à sede dos valores presente no indivíduo.
Pressionada pelo primeiro remorso aplicado pela consciência, não é somente a ferida da
imoralidade que dói, mas a totalidade da pessoa, ganhando vontade de retornar à sede e
evitar tal dor! assim funciona o primeiro movimento. Ouvindo antecipadamente a sentença
de um acto que pretende dar corpo, o eu que projecta a rebelião aos valores apela-se à
consciência e essa reorienta-lo a procurar o bem. O valor em jogo, certamente convida o eu
dizendo que pode servir-se dele para buscar a corporização de um acto bom; este
movimento, por nós personificado, diz respeito a uma consciência moral má.
Diferente é a situação de uma consciência moral sã. O indivíduo inteiramente guiado pelos
valores no seu agir quotidiano, estará constantemente a pensar e a reflectir em actos bons
querendo-os e se alegra com o bem e procura fazê-lo intimamente, tendo uma estrutura
interior e exterior envolvida no bem. Daqui pode-se concluir que a consciência exercita uma
função legítima que coloca toda a sua atenção no "eu" do indivíduo.
Na experiência actual, a consciência é vista por "quase todos" como um fenómeno moral,
porque é considerado, por muitos, um dos poucos espaços onde o 'homo religiosus' e
aqueles que não se interessam com o fenómeno religioso ainda se encontram. Quanto mais
profundamente desenvolve-se no indivíduo a dimensão moral, mais se revela a sua base
religiosa. Para os cultores da transcendência, têm-na como garante do bem comporlar-se;
por isso todos procuram fazer apelos à ela e à moralidade para o reencontro
comportamental dos integrantes da sociedade. A consciência é um fenómeno moral e
religioso!
● A consciência como fenómeno moral - mostra-se no facto do seu núcleo essencia:
ou conteúdo existencial identificar-se com o fendereno moral. E isto é compreensível
dado o facto de existir no sujeito moral uma experiência interior, como dado
espontânco, não provocado, que brota da mais íntima experiência de sí próprio, feita
de impulsos e estímulos. O sujcito reconhece-se necessariamente não como
liberdade originária absoluta, mas como liberdade que deve, isto é, como liberdade
relativa-condicionada, impulsionada a responder ao apelo do bem. Trata-se de uma
experiência primária e elementar). É a experiência interior da obrigação moral.
Assim, o indivíduo descobre-se como ser moral, independentemente das suas
crenças.
● A consciência, como noção primária, apresenta-se, no indivíduo, como o meio pelo
qual se estabelece a relação ao valor moral, porque possui a intuição do mesmo
bem, e exige o seu cumprimento. Nesta necessária relação com o bem coloca-se o
elo entre lei moral e consciência moral: a lei moral, com efeito, identifica-se com a
mesma imperatividade do bem. A consciência tem a missão inalienável de
impulsionar para o bem; é por isso que ela existe. Daqui a norma moral fundamental:
' bonum faciendum', o que quer dizer, o bem exige que seja feito; em consequência,
vale dizer, ' o mal deve ser evitado'.
1.5.1. Origem e formação da consciência
A consciência é um elemento constitutivo da pessoalidade do indivíduo, por isso
participante da complexidade e da história do mesmo. A sua origem e desenvolvimento
seguirá o processo de desenvolvimento da pessoa humana nas diferentes fases
apresentadas sobretudo pela psicologia.
Na Infância - a força do imperativo da consciência associa-se a mesma ordem dos pais ou
educadores, reforçada pelas ameaças e castigos e pela implícita chantagem afectiva
presente em muitas intervenções educativas. E a pedagogia da lei e da autoridade que,
apesar de, muitas vezes, resultar inútil ou contraproducente, que tem uma função
insubstituível no início do percurso do indivíduo; há quem diga mesmo que nessa fase o
individuo deve ter mais obrigações e menos direitos, para criar uma consciência
consistente. Esta fase, apesar de ser considerada pré-moral, deve ser percorrida para
chegar a uma maturidade moral.
Na Adolescência - É o de desenvolvimento humano mais importante e decisivo no
desenvolvimento do imperativo moral. Nesta idade o adolescente recusa a dependência
passiva da vontade dos pais e dos educadores, para elaborar activamente uma
sensibilidade moral mais personalizada, ainda que menos exigente.
Na fase adulta - nota-se um aprofundamento progressivo do projecto de vida e dos valores
sobre os quais ela está alicerçada, assim como a capacidade adquirida de dar, nas
diferentes situações, não só respostas de reacções mas sim construtivas, e o domínio
crescente das próprias pulsões elementares, leva a pessoa, aos poucos, para a maturidade
moral verdadeiramente adulta.
A maturidade moral é feita de liberdade interior e de dedicação incondicionada ao bem,
percebida como valor e amada com plenitude e responsabilidade. Em última análise quando
se fala da formação da consciência moral, o aspecto importante, primário, recai sobre a
consciência fundamental. Pouco serve retificar e educar o juízo moral da consciência sobre
actos particular (consciência actual), se não for antes educada a sensibilidade moral da
consciência no seu conjunto.
1.5.2. TIPOS DE CONSCIÊNCIA: No estudo da base do comportamento do homem
encontra-se uma célula nuclear que se chama consciência. Essa pode-se distinguir em
diversas tipologias que, do ponto de vista sistemático, recebem uma nomenclatura própria.
Assim os principais tipos de consciências basicamente estudados em moral são:
a) CONSCIÊNCIA FUNDAMENTAL- é a sensibilidade moral duma pessoa ou seja o
conhecimento adquirido dos valores morais, diante dos quais o indivíduo se sente
responsável. É o saber moral geral da pessoa, isto é, os conhecimentos e os critérios
morais gerais de comportamento que o sujeito normalmente possui; é também conhecida
como consciência habitual porque é usada no julgamento das situações correntes, do ponto
de vista estrutural. E a sede sensibilidade moral no homem. Em relação ao modo habitual
de julgar, a consciência fundamental pode ser:
● delicada - quando julga rectamente também nas situações de pouca
importância moral; é uma faculdade intacta que tem um olhar claro e
vigilante para o bem em 10g encunstâncias. →> Ums pessoa com uma
boa tonscien cio/ Saidovel 1 mes
● rígida - quando fica demasiado agarrada ao critério exterior da norma objectiva;
● laxa, significa uma decadência constitucional, um gradual atrofiar-se da faculdade da
consciência, seja pela facilidade que passa para hábito em formar um juízo
culpavelmente errôneo para furtar-se às obrigações morais. O indivíduo com uma
consciência laxa geralmente pouco se importa com a norma moral. Perde a
capacidade de ver a gravidade do mal que comete. O contrário da consciência laxa
é a consciência delicada. Consciência estragado, normaliza e mol
• farisaica, se toma grandes as coisas pequenas, e pequenas as grandes. Em outras
palavras seria como considerar montes barros, montanhas.
pessoos daltos
● escrupulosa, o individuo tem tendência de ver o mal onde não há e, quando é
exagerada pode transformar-se numa actitude psíquica doentia; geralmente o
indivíduo pode desenvolver comportamentos neuróticos que se revelam em
mecanismos de defesa como a ânsia, contrição e a obsessão.
● cauterizada, ou insensível, quando não se preocupa pelos males maiores...
● b) CONSCIÊNCIA ACTUAL- é o segundo aspecto da consciência mora, intimamente
ligado ao primeiro. Enquanto a consciência fundamental é a sede da sensibilidade
moral, a consciência actual, ou consciência em acto, é a concretização da
sensibilidade moral numa situação particular.
● No dia e die sebe-se que homem não pode iscia a sua decisão particular da
sensibilidade moral geral que orienta a sua vida. O juizo da razão prática sobre o
comportamento moral concreto realiza-se sempre na união existencial entre
experiência moral fundamental e autoconsciência moral actual. Experiência moral
pessoa e juízo moral actual são sempre relacionados e implicados. Assim, a
consciência actual manifesta-se como discernimento moral no concreto. Daqui a sua
importância singular porque dela brota a capacidade de discernir entre situações
diferentes, de chegar a um juízo moral, de escolher o bem ou o mal dizendo sim ou
não, assumir responsabilidade, de orientar-se positiva ou negativamente na vida,
para conseguir ou não o seu fim último.
● Em relação ao seu funcionamento, a consciência actual é um impulso para o bem
descoberto dentro de si. Daqui se inicia um processo que se desenvolve como
discernimento, formulando juízo sobre a moralidade de uma acção concreta. Este
juízo será a luz que orienta responsavelmente a decisão da vontade. A consciência
não é criadora de valores ou normas, mas é o lugar onde os valores morais se
manifestam à pessoa e empenham o seu discernimento para que sejam realizados
na situação concreta.
● O juízo de consciência não estabelece a lei, mas atesta a autoridade da lei natural e
da razão prática perante o bem supremo, pelo qual a pessoa humana se sente
atraída intrinsecamente. A consciência não é uma fonte autónoma e exclusiva para
decidir o que é bom ou o que é mau; pelo contrário, nela está inscrito profundamente
um princípio de obediência relacionado com a norma objectiva, que fundamenta e
condiciona a conformidade das suas decisões com os mandamentos e a proibições
em que se baseia o comportamento humano.
● É neste sentido que a consciência mora actual é a necessária mediação subjectiva
da moralidade. Pelo discemimento ela exerce uma função mediadora, instrumental,
plenamente responsável, entre os valores adquiridos (consciência fundamental), a
intuição actual da moralidade da acção, o empenho para o bem, a situação pessoal
● concreta, etc. Por isso ela não é autónoma, no sentido de independente, mas possui
a função de mediação, fundamenta-se nos valores conhecidos ou descobertos no
seu interier (GS 16,1).
● No actual texto do CIC, n° 1777, ao se referir à missão da consciência no agir do
indivíduo é expresso que" presente no coração da pessoa, a consciência moral
obriga-o no momento oportuno a fazer o bem e a tugir o mal. E também julga as
opções concretas, aprovando as boas e denunciando as más. Ela atesta a
autoridade da verdade em relação ao Bem supremo, de Quem a pessoa recebe o
atractivo e acolhe os mandamentos. Quando presta atenção à consciência moral, o
homem prudente pode ouvir Deus que fala". Em outras palavras esse número do
CIC nos quer dizer que o juízo de consciência é um juízo prático, ou seja um juízo
que dita aquilo que o homem deve fazer ou evitar, ou avalia um acto já realizado por
ele. E um juízo que aplica a uma situação concreta a convicção racional de que se
deve amar e fazer o bem e evitar o mal. Este primeiro princípio da razão prática
pertence à lei natural; mais ainda, constitui o seu próprio fundamento, enquanto
exprime a luz originária sobre o bem e o mal, reflexo da sabedoria criadora do
Transcendente.
● Enquanto a lei natural põe em evidência as exigências objectivas e universais do
bem moral, a consciência é a aplicação da lei ao caso particular, a qual, deste modo,
se torna para o homem em ditame interior, uma chamada a realizar o bem na
realidade concreta da situação. A consciência formula assim a obrigação moral à luz
da lei natural: é a obrigação de fazer o que o homem, mediante o acto da sua
consciência, conhece como um bem que lhe é assinalado aqui e agora. O carácter
universal da lei e da obrigação moral não é anulado, antes fica reconhecido quando
a razão determina as suas aplicações na realidade concreta. O juízo da consciência
afirma em última instância a conformidade de um certo comportamento concreto
com a lei; formula a norma próxima da moralidade de um acto voluntário, realizando
a aplicação da lei objectiva a um caso particular.
● O discernimento constitui-se numa actividade global da consciência que abrange um
grande número de actividades intelectivas, da razão e da vontade, dentro do
complexo contexto do psiquismo humano. É uma actividade que envolve também o
juízo de consciência.
● Juízo de consciência, é o mesmo que o juízo da razão prática. O intelecto exprime-
se julgando da conformidade ou não conformidade de uma escolha concreta com a
norma moral. É um juízo de valor, ao qual seguirá a livre escolha da vontade.
● A passagem da consciência fundamental à consciência actual foi sempre
representada e interpretada como a aplicação de um silogismo que representa uma
categoria básica do pensamento humano: ex. roubar e mal (norma); tirar este
dinheiro alheio é roubar (aplicação da norma ao caso concreto): por conseguinte tirar
este dinheiro é mal juizo moral útimo prático). Em suma é preciso dizer que o juízo
de consciência não se limita à esfera especulativa, mas envolve globalmente toda a
personalidade do homem.
● A consciência actual, quando estiver em relação ao momento do acto divide-se
● em: • Consciência actual antecedente - guando precede a realização do acto;
assim, a consciência não só olha para o passado mas também coloca-se ao serviço da
construção do futuro. Nesta perspectiva ela o imperativo moral pergunta ao individuo o que
é que o ambiente de valores espera de si, o que é lícito, o que é bom, o que pode e deve
fazer, na situação concreta que tem por diante. Ela exprime a função de importantes.
discemimento e de juízo sobre a acção a realizar. É uma das suas funções mais
acto;
● Consciência actual Concomitante - quando acompanha a realização do
Consciência actual consequente - quando se refere a um acto já realizado; é a
função de autojulgamento e acentua o sentido de testemunho acerca do bem e do
mal; o testemunho do bem é uma boa consciência, enquanto que o testemunho do
mal é uma má consciência. É uma consciência retrospectiva e avalia geralmente o
passado.
● quando estiver em relação à conformidade com a norma moral (aspecto objectivo)
pode tomar o nome de:
norma moral,
Consciência actual verdadeira - quando coincide objetivamente com a
Consciência actual errónea, quando não corresponde à norma moral; é
errónea porque elabora um juízo baseado num erro motivado por uma ignorância
invencível. Essa consciência pode ser:
Consciência actual errônea vencível - quando é possível dissipar
о егго;
Consciência actual errônea invencível, quando a consciência emite juízos errados baseados
numa ignorância dificil ou
impossível de colmatar.
● quando estiver em relação à honestidade interior pode ser:
Consciência actual recta (boa, pura, irrepreensível,
agradável a Deus);
Consciência actual não recta (má, contaminada, não agradável a
Deus); por sua vez consciência recta pode significar duas realidades diferentes:
● quando estiver em relação ao tipo de consentimento (aspecto subjectivo, segurança
no juízo):
● Consciência certa e duvidosa - Se alguém estiver intimamente convecido de que
uma coisa, em si indiferente ou mesmo boa, for má, esta é-o de facto: " nada é
impuro em si mesmo, a não ser por quem considera urna coisa impura: para esse a
coisa torna-se mesmo impura". Isto quer dizer que a convicção intima que cada um
tem em si mesmo e diante dos outros, isto é, o juizo de consciência certa, dá à
consciência um direito inviolável, torna-a vinculante (seja ela verdadeira ou errónea).
Daqui surge o princípio de que é preciso agir sempre com consciência certa. Pelo
contrário não é lícito agir com consciência duvidosa. Em caso de se encontrar na
dúvida, se agir, estará condenado, porque a acção é feita sem convicção. Todos
estão chamados a buscar uma atitude de consciência certa e permanecer-lhe fiéis;
em outras palavras é duvidosa - quando o juízo sobre a moralidade do acto
permanece, suspenso, quando oscila sobre a liceidade ou iliceidade do mesmo (não
é lícito agir);
● lícita ou ilícita (é lícito agir);
● •
● provável - quando o juízo sobre a liceidade ou não da acção está
● fundado sobre razões prováveis( é lícito agir);
● perplexa - é uma forma específica de consciência errônca que deriva de
● um turbamento transitório e veemente da capacidade de julgar. Nas decisões a
serem tomadas, só aparecem possibilidades de fazer o mal. Em outras palavras ao
sujeito parece que pecar (ou cometer o mal) é a única via, seja qual for a solução
escolhida.
● C) CONSCIÊNCIA AUTÓNOMA
● Diz-se que uma moral é autónoma quando os seus princípios e preceitos, ou melhor,
a sua obrigação moral nasce do interior do próprio homem; ao contrário diz-se moral
heterónima quando o sistema moral resulta de uma imposição que provém de um
outro sujeito que manda que as coisas sejam feitas de um modo e não do outro.
Quando os preceitos são ditados por uma divindade, então diz-se que estamos
diante de uma moral teónoma.
● Da introdução anterior a volta dos conceitos pode-se tirar a indicação de que, se a
função própria da consciência é o discernimento, então diga-se que a consciência
moral ou é autónoma ou não é consciência. Porque ela se define pelo trabalho
interior do discernimento moral, provocado pelo impacto do Transcendente, dos
valores, da lei, no homem singular. Do exterior podem chegar ao indivíduo
mensagens sob a forma de preceitos, proibições, indicações, mas nenhuma pode
impor-se moralmente duma maneira imediata e absoluta, quase que determinista
(como acontece com os seres infra-humanos).
● O valor moral do agir humano não é determinado por uma conformidade
simplesmente exterior do bem (se assim fosse estaríamos diante de uma obediência
cega - que é imoral). A dignidade da pessoa exige que a conformidade duma acção
com a norma seja reconhecida por meio dum juizo pessoal (de consciência) que
justifique a escolha livre.
● É a pessoa que descobre "a verdade' dum comportamento.
● Em outras palavras, a passagem do "'u deves!" de um preceito que provém do
exterior, ao "eu devo" da auto-obrigação, é indispensável para a constituição de uma
moralidade autêntica, e esta passagem só pode nascer no interior do homem. O
preceito concreto é sempre o produto dum trabalho interior (sejam quais forem os
moldes concretos, pessoais e únicos) da pessoa singular. Ele nasce do trabalho
interior do discernimento moral. A forma constitutiva da moralidade deriva da
promulgação interior de uma norma enquanto obrigante. Por isso se diz que a
consciência é a norma próxima da moralidade.
● Será que existe mesmo uma consciência autónoma, se a nível social temos de fazer
aquilo que se conforma com as nomas extemas (lei civil, mandamentos, princípios
familiares, hábitos e costumes)?
● Sim existe, porque a consciência moral parte do interior e não do exterior...
● A experiência da obrigação moral (fenómeno moral) provém do interior, isto é, não
depende de uma vontade que se manifesta do exterior, mas sim da verdade que,
interiormente, fundamenta a própria lei e que a torna compreensível como "verdade
acerca do bem" do homem. A própria experiência da auto-obrigação revela a
presença de um momento objectivo de conhecimento da verdade do qual a
consciência não é árbitro, mas depende.
● A autoridade e o valor da corsciência derivam de seu ser expressão de verdade.
● A consciência, ou o juízo de consciência, obriga por si mesma, a partir do interior,
em nome da verdade que ela reconhece. Por conseguinte a consciência é mesmo
● "autónoma"
● , na medida em que a obrigação moral surge no momento em que 'a lei, os
● mandamentos, os princípios, os hábitos e costumes' vêm pessoalmente
reconhecidos válidos pelo sujeito agente; é verdade a nascente da obrigação não é
o próprio sujeito, mas a verdade que por ele é reconhecida e que se apresenta como
o fundamento da lei, dos mandamentos, dos princípios, hábitos e costumes.
● Ha! eu não como carne de... porque está escrito em ... Obediência a um preceito
divino revelado não se identifica com uma simples dedução: Deus me ordena isto,
por conseguinte, é mesmo isto que eu devo fazer. Isso corresponde à moral
heterónoma...pode também ser obediência cega... tipo disciplina militar... Nesse
caso faltará qualquer trabalho interior de discernimento. A obediência a um preceito
divino requer um reconhecimento pessoal, que é uma actividade moral fundamental
que manifesta a orientação global da própria vida, e é a condição do acolhimento do
preceito. Por conseguinte, o preceito não pode ser assumido passivamente, mas
deve ser feito próprio, assimilado... a consciência moral actual recusa a passividade,
não atribuindo-se, por isso, a criatividade da lei, mas participando subjetivamente no
acolhimento da verdade moral através do
● amadurecimento das suas disposições intrínsecas. Assim, é escusado dizer que a
actividade interior de discernimento nem sempre, é perfeitamente clara ao sujeito
moral, reflexa, profunda. Muitas vezes ela é genérica, não reflexa, implícita,
superficial. Contudo está presente no sujeito moral, e é a nascente da
responsabilidade moral.
●
● 1.5.3. Preservação da consciência como faculdade de alma
● É certamente um mal se o veredito da consciência erra. Mas é uma desgraça
incomparavelmente mais grave quando a faculdade da consciência, for
particularmente triste e obtusa. Neste caso, a tristeza da consciência pode
apresentar algumas formas como:
1. Unidade da pessoa, e logo o dinamismo da consciência é particularmente ameaçado
quando o indivíduo for débil, aquele que considera o bem somente do ponto de vista
teórico, mas que mantém longe de praticá-lo. Para cultivar uma consciência integral
não basta considerar somente o bem em geral, no seu valor intrínseco, mas torna-se
também necessário aceitar os apelos que o bem faz ao indivíduo de vivê-lo. E aqui
torna-se necessário que o sujeito moral oriente a própria vida afectiva, porque os
afetos fazem, de tal modo, surgir a cintila entre o intelecto e a vontade.
2. A faculdade da consciência é sobretudo ameaçada pela desobediência habitual e
consciente aos valores e também pelos males não detestados pelo indivíduo; diante
disto a reacção da consciência geralmente varia segundo as diversas
personalidades:
● Nas personalidades fortes e naturalmente sãs, a reacção manifesta-se numa
espécie de predomínio absoluto da vontade que se nega a submissão às normas do
bem, provocando um obscurecer do intelecto que depois já não é capaz de colher do
juízo da consciência os valores que a vontade, em geral, seria ainda capaz de
realizar. A tendência inata (também forte) da consciência em restaurar a unidade
através da conversão não consegue prevalecer; e isto é um contragolpe muito forte
para ela que reclama frequentemente a unidade. Sem dúvidas também assim se
estabelece uma harmonia entre a inteligência e a vontade, mas é uma harmonia
obscura e misera. A cisão entre a inteligência e a vontade, na mesma pessoa, é,
deste modo, compensada e aparentemente resolvida. Mesmo o íntimo da alma não
se rebela mais e, paulatinamente, os remorsos da consciência são silenciados.
Produz-se assim uma violenta fractura entre a alma e o mundo dos valores, o que
significa uma profunda rotura entre ela e a fonte originária donde se extraíam todas
as suas riquezas. Forma-se na alma um ambiente de total falsidade e a mentira
torna-se estrutural; a necessidade de fazer o bem já não inquieta o indivíduo.
● Nas personalidades menos fortes a atrofia da consciência revela-se numa
interioridade dividida. O intelecto e a vontade tornam-se estranhos um ao outro. A
luz do bem pode até brilhar no intelecto, mas perde a capacidade de penetrar na
vontade com a eficácia requerida na busca do bem. A alma do individuo caracteriza-
se pela superficialidade. Na sua profundidade, donde o intelecto e a vontade
deveriam encontrar a raiz da sua unidade e o conhecimento deveria alimentar-se
pelo amor e esse se iluminar pelo conhecimento, aparece numa letargia de morte.
Nesse indivíduo a personalidade revela-se praticamente doente e o seu núcleo
dividido. Essa situação pode ser superada com o recurso à humildade e ao propósito
de mudança.
● 1.5.4. Princípios da consciência recta
● A preocupação fundamental da moral é oferecer instrumentos e vias para que a nivel
social cresçam os ambientes capazes de alimentar o sujeito moral e um maior
número de concidadãos consigam participar do esforço de re-moralização da
sociedade.
● Se numa determinada comunidade os indivíduos colocarem-se essa preocupação,
então buscarão formas de viver sob orientação de uma recta consciência.
● Se bem que alguns defendam que quando nos apercebemos daquilo que é bem,
também o fazemos. Não é bem assim. Apesar de sabermos o que é bem, não segue
necessariamente que o iremos escolher e fazer. Somos dominados por impulsos
poderosos e fazemos o mal e traimos as vias de bem que estão em nós. Segundo
os indús, "na nossa condição presente somos humanos apenas em parte; a nossa
parte inferior é ainda agora anima;
● somente a submissão dos nossos instintos inferiores por parte do amor pode matar
o animal em nós. Através dum processo de tentativas e erros, de autocrítica e
austera disciplina, o ser humano procede com pena, passo após passo, ao longo do
caminho que leva à perfeição" (Gandhi, Antiche come le montagne, Milano,
Mondadori 1990,9). Isto ensina que, mais do que pelo conhecimento, é por meio da
vontade livre que se esclarece e afirma sempre mais a
● orientagao etica da pessoa. E e essa que iciemina a rectial ou nao da consciencia.
● Para se ter uma consciência recta é necessário a observação dos seguintes
● princípios:
● 1. A atitude ética fundamental da pessoa que deriva da estrutura própria do ser
humano: Cada individuo possui a inteligência para conhecer a verdade e a vontade
para querer o bem. Daqui deriva o facto de que a obrigação ética primária e
fundamental da pessoa, isto é, a de permanecer na busca da verdade e do bem, o
que se identifica com a recta intenção (deve ser constantemente renovada).
● Na vida prática o conhecimento da verdade até pode falhar, ser erróneo, em razão
de variados condicionalismos, e, neste caso, será a orientação da vontade a definir o
valor moral, positivo ou negativo, do comportamento.
● 2. Afirmar-se o primeiro princípio da moralidade: é preciso fazer o bem e, por
conseguinte, evitar o mal. Partindo da base antropológica e da realidade do
fenómeno moral todos os individuos, se são homens, chegam a esse que também é
o primeiro princípio da consciência recla. A ele há-de corresponder, na pessoa
consciente e responsável, a opção fundamental em favor do bem, como escolha e
projecto global de
● vida.
● 3. O juízo de consciência é moralmente vinculante - por outras palavras, é preciso
agir sempre segundo o juizo de consciência (certa), tudo isso porque o homem será
sempre julgado pela sua coerência. O mal moral, a desordem moral, nascem da
fractura interior entre o juízo de consciência (convicção pessoal = consciência certa),
e a escolha contrária da vontade. E na consciência que se define, pela livre escolha
da vontade, a harmonia ou a desordem ética da pessoa. Agir segundo o juízo de
consciência significa guardar a integridade interior da pessoa naquilo que ela possui
de mais íntimo. E por isso que a consciência que procura a verdade e o bem (isto é,
a consciência recta, em boa fé), ainda que estivesse no erro, guarda o seu valor
moralmente positivo. Uma vez que o juízo de consciência estivesse
involuntariamente errado, será a rectidão da vontade a garantir à acção um valor
moralmente positivo. Daqui a afirmação que é preciso actuar segundo o juízo de
consciência, seja ele certo ou errado. Como se sabe, o homem não possui outro
meio, para aproximar-se do mundo dos valores, que as suas faculdades do intelecto
e da vontade livres. Este princípio é de extrema importância porque dele brota
directamente a moralidade formal (que nasce justamente da escolha interior da
vontade
*4. E necessário agir com consciência certa - o que quer dizer ser necessário ter a
convicção, a certeza (firmitas assensus), de que a acção é moralmente boa. Por
conseguinte, se houver dúvidas acerca da liceidade duma acção, será necessário
suspender a acção, a pessoa examinará melhor o problema, fará pesquisas e pedirá
conselhos. Doutra forma esse princípio poderia ser enunciado: não é lícito agir com uma
consciência praticamente duvidosa; tudo porque, de um lado, se o homem agisse na
dúvida, já não agiria de mancira propriamente humana-racional, mas segundo o influxo dos
evenios, das emoções, dos sentimenios, segundo um jogo de forças que ele não controia.
A pessoa humana já não seria a verdadeira atriz e construtora da sua vida; outras pessoas
ou factores decidiriam por ela; do outro agir com consciência certa requer-se, nos casos
normais, uma certeza moral. Trata-se de uma certeza à qual não se opõem motivos
fundados e sérios de dúvida. É aquela que as pessoas honestas e prudentes costumam
aplicar na solução dos casos da vida concreta. Muitas vezes não é possível obter um grau
de certeza maior. Portanto, não exclui totalmente a possibilidade de erro, não é absoluto, e
também não exclui a presença de dúvidas de entidade relativa. Tal grau de certeza é
necessário e suficiente para agir com consciência 'certa'. Para a solução de casos mais
importantes e graves requer-se, proporcionalmente, um grau de certeza maior.
5. A dúvida insolúvel - há dúvida insolúvel quando, depois de examinados os caminhos
possíveis de solução, a moralidade-liceidade duma acção ainda permanece duvidosa. A
pessoa encontra-se, interiormente, na situação concreta de dúvida. Neste caso o indivíduo
deve:
● Permanecendo na dúvida, a acção deve ser omitida, e adiada, até se encontrar uma
solução certa ou pelo menos seriamente provável.
● Se não for possível adiar a acção será preciso, depois de um adequado
discernimento, escolher a solução que confirma os valores mais importantes, com a
vontade de realizar todo o bem possível afastando-se de todo o mal.
● O que se queria dizer nos dois parágrafos anteriores é que numa situação de dúvida
insolúvel, uma pessoa virada para a verdade moral da existência decidirá para a
solução mais justa que os seus olhos conseguirem ver.
● 6. A consciência perplexa - mal menor - Na prática essa acontece quando o
indivíduo, pela complexidade real de uma situação concreta, encontra-se numa
situação de consciência não formada, numa encruzilhada confusa; chama-se
consciência Do ponto de vista objectivo a consciência perplexa corresponde a um
estado de consciência errónea. Com efeito, não é objectivamente possível que numa
situação concreta haja um conflito entre deveres graves e simultaneamente
obrigantes, com a consequência que a pessoa não possa, de maneira nenhuma,
evitar o mal. Reconheça-se, do ponto de vista moral que a capacidade dum correcto
discernimento pode ser limitada, e que por vezes a situação concreta é tão
complexa, que objectivamente não é possível fazer todo o bem e evitar todo o mal.
Diante de um QUID deste tipo, quando não se pode atender simultaneamente a
todos os valores-bens presentes na situação concreta, será necessário, antes de
mais, examinar e avaliar a hierarquia de valores. E não haverá outro remédio que
escolher um deles, o mais importante e preferencial, embora isto implique
● lamentavelmente o abandono do outro.
● Note-se que essa escolha entre os valores em jogo não pode nascer de interesses,
egoísmo ou capricho pessoal. A escolha do "mal menor" exige um motivo-valor
adequado», inoratacaio recto, que determine e oriente a possos para o maior bem
poscível.
● O critério de discernimento há-de ser a vontade de se orientar para o bem. Desta
forma, o acto concreto escolhido poderá ser, infelizmente, uma desordem, contudo
tolerada e não querida como tal, e assumida só como o mal menor, e portanto não
culpável (por exemplo o uso de constraceptivos é um mal, mas um mal menor em
relação à doença que se poderia contrair no caso do seu não uso).
● 1.5.5. Consciência psicológica e consciência Moral
● (Cf. A. Posileno, 66-92 - visão dos filósofos De Sarlo, F, Tarozzi G., Orestano F.,
Kruger F., Calò
● G. e Sacheli A.C.)
● Em sentido geral, a psicologia contemporânea dá ao termo consciência o significado
de percepção de... e distingue a consciência reflexa da consciência biológica.
● A biológica é espontânea e acompanha os processos da vida do dia-a-dia, assinala
a capacidade de receptividade das impressões e representa o seu critério de
validade; está ligada ao tempo e é, ao mesmo tempo, fundamentalmente uma
consciência do mundo exterior.
● A consciência reflexa, do outro lado, é fundamentalmente espiritual, e, recorrendo à
lembrança, eleva-se da temporalidade e tem a capacidade de apoderar-se dele e
compreende-lo e, ao mesmo tempo, também tem consciência de si mesmo;
distingue-se do mundo exterior e com o seu "Eu" e consegue, em relação ao eu,
uma própria autonomia crítica. A consciência psicológica reflexa, dada a sua
etimologia "Cum scientia", é a faculdade capaz de reconhecer como próprios, factos,
estados e os actos do indivíduo.
● A consciência moral é um acto da vida interior com o qual o "Eu" consciente põe a
própria acção e todo o seu ser numa relação privilegiada com a verdade e a
bondade das coisas, isto é, com a moralidade. Isto significa que os actos do "Eu"
passam por meio da consciência moral e não podem ser atribuidos, como última
causa, nem às circunstâncias extemas, nem tão pouco às disposições ocasionais do
individio, nem ainda simplesmente is leis e normas vigentes. Tais leis univerais, de
facto, pré-existem e são imediatamente conhecidas e passam a fazer parte da
consciência moral - com carácter de obrigatoriedade.
● O acto próprio da consciência moral é o juízo imediato prático do carácter moral das
acções dos indivíduos, isto é, o acto com o qual se aplicam às acções particulares
as avaliações segundo os preceitos, normas morais gemais e conhecidas, contando
com a sua força obrigante.
● A consciência fundamenta-se, de facto, nos princípios gerais evidentes e
necessários: os princípios da "Sinderesi" que Tomás de Aquino definiu como a
faculdade da alma capaz de reconhecer os primeiros princípios da acção moral,
análoga à outra faculdade da alma reservada a recolher os primeiros princípios
especulativos.
● S. Boaventura, filósofo e teólogo franciscano da idade média, concebe a
● "sindéresi" como um hábito da vontade, uma faculdade, uma potência da razão,
enquanto capacidade de reconhecer o valor moral dos princípios universais e o seu
carácter normativo, e atribuíu ao livre arbítrio, a responsabilidade da sua execução.
Com a
● "sinderesi" o homem recebe espontancamente o bem e o mal e enriquece essa
capacidade com a ciência moral aprendida com a experiência de vida; mas a
sindérese só actua plenamente na consciência quando se transforma em decisão
moral correcta, que conclui e traduz praticamente a percepção das exigências
axiológicas da consciência originária.
● Os princípios morais pré-existem. Quando ouço dizer "não matar", não significca que
esse princípio moral só começa a existir quando a minha consciência o considerar
válido, mas é válido porque corresponde à exigência do respeito pela vida dos
outros e da própria. Quando esse princípio é reconhecido e aceite pelo indivíduo,
começa a ter valor para ele, mas não se torna bom porque eu o reconheço como
válido; devo reconhecê-lo bom, porque, de facto, é-lo. Se a intrínseca bondade do
princípio moral "não matar" dependesse exclusivamente da avaliação subjectiva do
indivíduo, em momentos de nervosismo puro, poderia achar válido o princípio
contrário, criando assim um ambiente de autêntico massacre.
● A consciência regula o acto moral, mas, ao mesmo tempo, é uma "regra regulada"
pela "sinderese", que tem uma enorme responsabilidade de controlar o juizo que a
própria consciência emite. Mais do que criar princípios, a consciência deve
reconhecê-los e suscitar no indivíduo a necessidade de recorrer a eles na
planificação e execução dos seus actos particulares.
● Em suma, a teoria sobre a gênese psicológica dos valores é importante porque
chama a atenção a volta dos processos do acto moral e a sua intima articulação;
mas deveria também abrir se à recepção dos princípios que constituem o
fundamento do agir
● moral .