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Descartes e Galileu: o desenvolvimento da
ciência moderna – racionalismo – Parte II
Descartes e o método científico
René Descartes foi praticamente contemporâneo de Galileu e acompanhou de perto as re‑
percussões de sua obra, tendo inclusive retirado do prelo o seu Tratado do Mundo quando
soube da condenação de Galileu.
Descartes foi não apenas um dos mais importantes filósofos da Modernidade, considerado
mesmo um dos que a inaugura, mas também um grande cientista, tendo um lugar de desta‑
que na Matemática por sua contribuição sobretudo com o método das coordenadas e o pro‑
duto cartesiano. Dedicou‑se a várias pesquisas científicas nos campos da Matemática, da
Física e da Medicina sendo um dos formuladores da visão mecanicista do corpo humano.
De um ponto de vista filosófico, sua crítica à tradição, principalmente a Aristóteles e sua pre‑
ocupação com um método que fundamente a ciência e permita defender a ciência moderna
como estando no caminho certo, deram a sua obra a importância e a influência que teve.
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É nesse sentido que se pode considerar que Descartes é o ponto de partida da epistemolo‑
gia moderna pela maneira como articula princípios metodológicos com sua aplicação nas
diferentes áreas do saber.
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René Descartes.
O Discurso do Método, publicado em 1637 e escrito originariamente em francês, o que
mostra sua preocupação com um público amplo, foi uma das obras de maior repercussão
de Descartes, sendo seu título completo Discurso do Método para Bem Conduzir a Razão
e Buscar a Verdade nas Ciências. Inicialmente esse texto foi previsto como introdução
metodológica a três obras científicas que se seguiam, publicadas conjuntamente, com o
título geral de Ensaios do Método, ou seja, aplicações deste método a determinados domí‑
nios científicos: Dióptrica, Meteoros e Geometria. Sobretudo as regras, ou princípios,1
formulados na parte II, que apresentamos em seguida, consistem na preocupação em de‑
finir os procedimentos segundo os quais a ciência moderna pode chegar a resultados bem
fundamentados, evitando os erros dos antigos, tais como o modelo geocêntrico de
Ptolomeu.
Primeira regra, ou regra da evidência: “jamais aceitar alguma coisa como verdadeira que
não soubesse ser evidentemente como tal, isto é, evitar cuidadosamente a precipitação e a
prevenção e nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente
a meu espírito que eu não tivesse nenhuma chance de colocar em dúvida.”
Mesma data da formulação dos princípios de Galileu mencionados anteriormente.
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Segunda regra, ou regra da análise: “dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse
em tantas partes quantas possíveis e quantas necessárias fossem, como que por degraus,
até o conhecimento para melhor resolvê‑las.”
Terceira regra, ou regra da síntese: “conduzir por ordem meus pensamentos, a começar pe‑
los objetos mais simples e mais fáceis de serem conhecidos para galgar pouco a pouco,
como que por degraus, até o conhecimento dos mais complexos e, inclusive, pressupondo
uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros.”
Quarta e última, regra da revisão: “fazer em toda parte enumerações tão completas e revi‑
sões tão gerais que eu tivesse a certeza de nada ter omitido.”
A primeira regra funciona como um pressuposto das demais. Se não começarmos com
base em certezas que funcionam como estacas para a construção da ciência esse edifício
desmoronará. A exigência de Descartes é rigorosa, como mostram as formulações “jamais
aceitar” e “nada incluir”, o que levou a questionamentos de seus adversários na época se
isso seria possível.
A segunda regra descreve o procedimento de análise, a decomposição de um todo em suas
partes constituintes e a contribuição de cada parte para o funcionamento do todo. A ter‑
ceira regra, a da síntese, complementa a análise. Uma vez feita a decomposição, as partes
devem ser recompostas para formar novamente o todo. Desta forma compreendemos o
funcionamento de algo na concepção mecanicista. Veremos em seguida como o exemplo
do relógio ilustra bem essa concepção.
Em Os Princípios da Filosofia (1644), Descartes reformula de certa forma essas exigências,
mostrando que, entre os fundamentos metafísicos da ciência em primeiros princípios e as
explicações dos fenômenos particulares, são necessárias hipóteses que façam a interme‑
diação sem que tenhamos certeza sobre elas. A passagem em que emprega a metáfora do
relógio é um bom exemplo disso. Vemos o mostrador, a face externa (equivalente aos fe‑
nômenos), mas apenas podemos inferir o mecanismo interno sem acesso às engrenagens
que o fazem funcionar, sendo possível que seja construído de diferentes maneiras, todas
compatíveis com os fenômenos. O mundo físico seria assim como um grande mecanismo
cujo funcionamento interno só podemos conjecturar. O relojoeiro é com frequência nessa
tradição uma metáfora do Deus Criador. A analogia com o relógio é constante no mecani‑
cismo e pode ser encontrada até em Kant no século XVIII.
“Embora eu possa ter imaginado causas capazes de produzir efeitos semelhantes aos
que vemos, não devemos concluir em razão disso que os que vemos sejam produzi‑
dos por essas causas; pois assim como um laborioso relojoeiro pode fabricar dois re‑
lógios que mostram as horas de modo igualmente preciso e sem nenhuma diferença
quanto à sua face externa, contudo sem nenhuma semelhança na composição de suas
engrenagens, do mesmo modo é certo que Deus age em uma infinidade de maneiras
diferentes, cada uma das quais permite com que faça que as coisas apareçam de um
determinado modo no mundo sem que seja possível à mente humana saber qual des‑
sas diferentes maneiras Ele decidiu empregar. E creio que terei feito o suficiente se as
causas que elenquei são tais que os efeitos que podem produzir são semelhantes aos
que vemos no mundo, sem termos a informação sobre se há outras maneiras pelas
quais podem ser produzidos.”
Sugestões de leituras
COTTINGHAM, John. Dicionário Descartes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo, Brasília: Ática/UnB, 1989.
______. Obra escolhida. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.
Tópicos para debate ou exercícios
1. Que relações podem ser estabelecidas entre Descartes e Galileu quanto à ciência mo‑
derna?
2. Qual a importância das regras, ou princípios do método para Descartes? Compare‑as
com as de Galileu.
3. Qual o papel da ciência, segundo os textos acima?
Gabarito na próxima página
Gabarito
1. Galileu, Descartes e a ciência moderna: defesa do heliocentrismo de Copérnico.
Defesa da ciência moderna em oposição à tradição. Preocupação com o método.
2. Importância das regras: regras definem o método. Procedimentos segundo os quais a
ciência moderna pode chegar a resultados bem fundamentados, evitando os erros dos
antigos.
3. Papel da ciência: explicação do funcionamento da natureza. Formulação de hipóteses
e de leis. Desenvolvimento de conhecimento bem fundamentado.