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Propriedades de Resistência em Ensaios de Carga

O artigo discute a avaliação das propriedades de resistência ao cisalhamento de solos a partir de ensaios de carga em superfícies, focando na retro-análise de testes em uma sapata circular de concreto armado. Os ensaios foram realizados sob condições controladas, com instrumentação diversificada para monitorar assentamentos e deslocamentos. Os resultados visam inferir parâmetros de resistência do solo, considerando as dificuldades na definição de cargas últimas em condições de ruptura.

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Propriedades de Resistência em Ensaios de Carga

O artigo discute a avaliação das propriedades de resistência ao cisalhamento de solos a partir de ensaios de carga em superfícies, focando na retro-análise de testes em uma sapata circular de concreto armado. Os ensaios foram realizados sob condições controladas, com instrumentação diversificada para monitorar assentamentos e deslocamentos. Os resultados visam inferir parâmetros de resistência do solo, considerando as dificuldades na definição de cargas últimas em condições de ruptura.

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SOBRE A DETERMINAÇÃO DAS PROPRIEDADES DE RESISTÊNCIA A PARTIR DE

CARGAS ÚLTIMAS DE ENSAIOS DE CARGA

ON THE EVALUATION OF SHEAR RESISTANCE PROPERTIES FROM THE ULTIMATE


LOADS ON LOADING TESTS

Viana da Fonseca, António - Doutor em Engenharia Civil, Professor Auxiliar da FEUP

RESUMO

Os ensaios de carga em superfícies são meios preferenciais para a avaliação do comportamento de


maciços sujeitos a estados de tensão induzidos por fundações superficiais, desde que contornados os
efeitos de escala e de contorno que lhes estão associados. A retro-análise de dois ou mais ensaios
significativos em áreas de implantação distintas, permite obter os parâmetros de resistência de um solo
(maciço), desde que forem contornadas as dificuldades em definir as cargas últimas em condições de
rotura do tipo punçuante. Neste artigo descrevem-se estes critérios e analisam-se os resultados
conjuntos de ensaios à rotura de uma sapata circular de betão armado (D=1,20m), que envolveu
cuidadosos critérios de carregamento e de tempos de estabilização das deformações, bem como
instrumentação diversificada, e em placas de menores dimensões (com diâmetros de 0,30 m e 0,60 m).

ABSTRACT

Surface Loading tests are preferential ways for the evaluation of ground behaviour subjected to stress
paths induced by shallow foundations, as far as scale and border effects are taken into account. The
back-analysis of two or more significant tests in distinct loading areas, allows to infer the shear
resistance parameters of a soil (or ground), if the difficulties in defining the ultimate loads (pressures),
in punching failure occurs, are solved. In this article these approaches are described and the results
from a group of tests are analysed together. These load tests were made on a circular concrete footing
(D=1.20m), under carefully controlled conditions and with extensive monitoring, and on smaller plates
(with diameters of 0.30 m and 0.60 m).

1. INTRODUÇÃO

A selecção de um perfil típico de solo residual do granito do Porto (saprolítico, grau de alteração W5
da classificação da ISRM), para o estudo aprofundado das particularidades destes solos, foi premissa
de um trabalho de fundo realizado por Viana da Fonseca (1996). A “mancha” seleccionada
apresentava possança e características mecânicas compatíveis com a possibilidade de, em estruturas
correntes, serem adoptadas fundações directas. A realização de um número substancial de ensaios com
um penetrómetro dinâmico (ligeiro) em pontos dispostos numa malha em planta relativamente densa,
permitiu definir uma zona de características mecânicas razoavelmente homogéneas e com um grau de
alteração desejável, ou seja representativo destes solos saprolíticos (Viana da Fonseca et al., 1997a,
1997b, 1998, Viana da Fonseca e Gomes Correia, 1999).
Definido o local, procedeu-se à realização do ensaio em escala natural de uma sapata com diâmetro de
1,20 m. Tal ensaio foi acompanhado de um cuidadoso esquema de instrumentação que incluiu a
medição de assentamentos em vários pontos e dos deslocamentos horizontais em diversos perfis
verticais. A discussão e a análise desses resultados é feita noutro sítio (Viana da Fonseca, 1996; Viana
da Fonseca et al., 1997).
Em associação com o ensaio em escala natural foi realizado um profundo e diversificado trabalho de
caracterização geológica e geotécnica (ver Figura 1) que incluiu:
- prospecção mecânica em poços e valas, e sondagens com trados e de percussão;

685
VII Congresso Nacional de Geotecnia

- amostragem a partir de trados e de ensaios SPT, blocos ou tubos recolhidos em poços e valas;
- ensaios in situ de carga em placa (diâmetros de 0,30 e 0,60 m), de penetração dinâmica (SPT, DPL
e DPSH) e estática (CPT), pressiométricos (Ménard - PMT e autoperfurador - SBPT), “cross-hole”
(CH) e com o dilatómetro de Marchetti (DMT); na Figura 1 apresenta-se a localização desses
ensaios; para se construir uma imagem das características do campo experimental, bem como
mostra-se os resultados dos ensaios SPT e CPT anexos aos ensaios de carga; os resultados dos
restantes ensaios referidos são apresentados e analisados em detalhe em Viana da Fonseca (1996);
- ensaios de laboratório de caracterização química, mineralógica e física (teor em água, pesos
específicos, densidade das partículas,...), de identificação (granulometria e limites de Atterberg), de
consolidação, de corte directo e simples e em câmara triaxial (convencional e de trajectórias de
tensão impostas).
Tensão vertical efectiva de repouso, σ’v0 (kPa)

N60(SPT)

CH3
N

3.00
Profundidade (m)

PLD2 PDL1 CPT DPSH


5.00 CH2
DMT

3.00

CH1 6.00 1.00 1.00


Resistência de ponta do CPT, qc (MPa)

6.00
b) CH; DMT; CPT; PDL
Ulterior campaign
15,0 m distance
1.50 1.50
SBPT1
1.50 1.50
SPT3
CPT31 CPT32

0.90 6.00
DPSH1 PMT1
3.60
PLT30 PMT2 1.00
FOOTING 1.60 2.00
1.00

CPT21 SPT2 CPT22 1.50


1.60
PLT60
3.00
3.60 DPSH2

0.90
DPSH3 SBPT2
N
CPT41 CPT42
SPT4
9.00

a)

CPT11 SPT1 CPT12

13.00
3.00 3.00 10.00 3.00 3.00

Figura 1 - Planta esquemática da localização dos ensaios in situ realizados (a), com inclusão dos
resultados dos ensaio SPT e CPT na adjacência dos ensaios de carga em placa (b)

686
Fundações

A realização de ensaios usados na prática geotécnica perseguiu dois objectivos fundamentais (Viana
da Fonseca, 1996):
(i) em primeiro lugar, testar as correlações paramétricas que se encontraram na bibliografia da
especialidade, adaptadas aos materiais saprolíticos que, em muito, se distinguem dos que
geralmente serviram de base às propostas mais correntes (solos sedimentares);
(ii) em segundo lugar, avaliar a aplicabilidade dos critérios existentes para o dimensionamento de
fundações superficiais, servindo-se dos parâmetros deduzidos de ensaios como os realizados.
No presente trabalho apresentar-se-á exclusivamente os resultados dos ensaios de carga, sobre uma
sapata de betão armado em verdadeira grandeza (D=1,20m) e em duas placas (de D=0,60m e
D=0,30m), com o objectivo exclusivo de, através da retro-análise conjunta dos valores das cargas
últimas, inferir os parâmetros de resistência ao corte.

2. ENSAIO DE CARGA DA SAPATA EM DIMENSÃO REAL

2.1 – Preparação e sequência do ensaio

Após a selecção do local seguindo os trâmites e os critérios enunciados no primeiro parágrafo, passou-
se à preparação do terreno e dos meios necessários à execução do ensaio de carga de uma sapata à
escala natural, embora de dimensões relativamente pequenas.
Optou-se por uma sapata de planta circular com 1,20m de diâmetro, por forma a induzir ao maciço de
fundação um equilíbrio axissimétrico, que se integra melhor nas formulações elásticas de distribuição
de tensões e deformações, evitando assim problemas de bordo de difícil aferição. Em abono desta
opção foi também considerado o facto de aos ensaios triaxiais corresponder uma situação de equilíbrio
equivalente.
Após a preparação da plataforma, com o máximo cuidado para evitar descompressões do maciço, a
sapata foi betonada sobre o terreno (Figura 2). A escavação limitou-se, de início, ao cabouco para a
betonagem da sapata só sendo posteriormente escavada a área adjacente. Esta escavação foi realizada
tendo em conta a necessidade de implantação dos apoios das vigas de suporte da estrutura de reacção -
à frente que se descreve - a uma distância considerada suficiente para não haver interferência no
maciço subjacente à sapata.

Figura 2 - Panorâmica da plataforma de ensaio da sapata protótipo.

687
VII Congresso Nacional de Geotecnia

Para estimativa da distância dos apoios das vigas em relação à sapata, bem como para o
estabelecimento da área a escavar à cota da base desta, recorreu-se às soluções para avaliação da
extensão em planta da zona plastificada (cunha de rotura) em solos não coesivos (Meyerhof, 1963),
usando os valores previamente estimados do ângulo de atrito (Viana da Fonseca, 1996). Na Figura 3
apresenta-se um esquema da disposição dos apoios da estrutura de reacção com as dimensões finais
das plataformas dos ensaio. Para apoio das vigas de suporte da estrutura de carga da sapata de
D=1,20m foram construídos uns maciços de brita compactada e betão simples, regularizados.

1.00

4.00 1.20 4.00

Plataforma escavada
previamente à instalação
da sapata (cota=66,00)

Plataforma escavada
previamente a instalação 5.00 apoio das vigas
da sapata (cota=65,00) de suporte
vigas de apoio HEB360

HEB450

(D 1.20)
4.00 4.00
SAP HEB450

HEB360

Estrutura de
reacção
(p/150ton) 5.00

Figura 3. Sapata experimetal: a) esquema da disposição dos pontos de apoio da estrutura de reacção;
b) estrutura de reacção: vista geral da estrutura depois de pronta.

688
Fundações

Na cofragem dos mesmos deixou-se um rasgo para passagem em vão livre da viga de referência dos
deflectómetros que seriam colocados para observação dos assentamentos da sapata. O apoio desta viga
(INP12) fez-se em pontos situados para além da zona dos apoios das vigas de suporte e a uma
distância do eixo da sapata de cerca de 6,0m (ver Figura 3b). A estrutura, de reacção era composta por
um depósito cilíndrico que foi cheio com terra por forma a, em conjunto com o peso próprio da
estrutura, garantir uma reacção de cerca de 130 tf.

A instrumentação da sapata e do terreno envolvente foi feita com os seguintes elementos (ver esquema
na Figura 4):
(i) 3 deflectómetros de 50mm de curso e precisão de 0,01mm apoiados na viga de referência e em
placas lisas (de vidro polido) colocadas no topo da sapata; estes aparelhos permitiram observar os
assentamentos da sapata bem como eventuais rotações da mesma;
(ii) 9 marcas de referência para observação topográfica dos deslocamentos verticais de pontos da
superfície adjacente à sapata; estas marcas consistiram em pequenos tubos verticais encastrados
no terreno (por pequenos bolbos de argamassa), nos quais se rebitaram fitas metálicas graduadas
em milímetros; as leituras foram feitas com um nível óptico de 0,1mm de precisão, montado
sobre uma plataforma rebaixada e afastada cerca de 7,0m da sapata, estando o nível do óculo a
cerca da meia altura dessas marcas de referência; foram ainda colocadas duas marcas a mais de
10,0m da sapata, em pontos não influenciados pelo carregamento, que serviram para referência
das leituras de base sempre que foi necessário deslocar o aparelho (o ensaio prolongou-se durante
cerca de 2 semanas, havendo necessidade de recolher o equipamento durante alguns períodos);
(iii) 4 tubos inclinométricos de 6,0m de comprimento e diâmetro interior de 56,0mm; para a sua
montagem utilizou-se um trado mecânico de diâmetro de 75,0mm (diâmetro exterior dos tubos,
de 67,0mm); os tubos foram convenientemente selados às paredes dos furos com uma calda de
cimento e areia previamente colocada no seu interior;
(iv) os 4 tubos inclinométricos serviriam também como piezómetros abertos.

T1
50
20 1 3 15
I1
50 2
20 10
4
T2
50
I2
50

SAP
T4 T5 T6
ø120
T7 T8 T9 ⊗ - deflectómetros
1 3 (comparadores) mecânicos
100 70 30 2 30 70 100
(50,00 mm);
× - marcas topográficas
50 (nível óptico);
I3 ‰ - inclinómetros;
50
~ 700 o - marcas de referência
T3
topográfica;
50
NÍVEL
Nota: distâncias em cm.
I4
ÓPTICO

R2 ~ 1000 Figura 4 – Esquema da


R1
instrumentação usada na
sapata experimental.

689
VII Congresso Nacional de Geotecnia

Tendo em conta a bibliografia da especialidade (ASTM D1194-72, 1989 e GOST 20276, 1985),
optou-se pela sequência de carregamento identificada, constituída por 35 escalões de carga. Esta
sequência incluiu 4 ciclos de carga e descarga que se definem em Viana da Fonseca (1996).
Os valores do tempo de estabilização correspondem ao critério descrito na norma soviética (GOST
20276, traduzida em Sousa Coutinho, 1990), bem adaptada aos solos residuais saprolíticos. Esse
critério baseia-se que, pelo seu nível de exigência, pareceu ser a que melhor se ajustaria ao caso em
apreço. Assim, nos escalões de carga, exigiu-se que o acréscimo de assentamento - definido como o
valor médio dos registos nos três deflectómetros colocados sobre a sapata - fosse menor do que
0,1 mm num intervalo de tempo de quatro horas (valor indicado para saprólitos).

Para a definição do fim do carregamento - especificação da rotura - foi seguida a norma ASTMD1194
(1989), a qual sugere um dos dois seguintes critérios:
(i) ultrapassagem de uma carga claramente definidora da rotura de pico;
(ii) no caso de roturas por punçoamento, um assentamento limite de 10% do diâmetro da placa.
Outros autores (Vésic, 1975) referem que em solos especialmente compressíveis a rotura global só se
atingirá, muitas das vezes, para assentamentos de 25 a 50% do diâmetro referido.
No caso presente, atingiu-se praticamente a condição limite (ii) da norma ASTM, tendo-se limitado a
carga a cerca de 116tf já que a possível instabilidade do depósito cilíndrico apoiado exclusivamente no
macaco hidráulico causava alguma preocupação. Considera-se contudo que, ainda que não tenha
havido clara manifestação de rotura global (este ponto será analisado em pormenor mais à frente), se
atingiram níveis de deformação claramente acima dos geralmente associados à rotura parcial ou
localizada. Conseguiu-se, aparentemente, uma melhor definição da rotura nos ensaios de placa, como
adiante se verá.
A geometria da rotura ou, pelo menos, da rotura parcial (potenciada pela observação dos vários
instrumentos de medição), é analisada com mais pormenor em Viana da Fonseca (1996), mas foi
genericamente do tipo punçoante, com acentuada deformação por compressão no solo imediatamente
subjacente à sapata em contraste claro com a superfície adjacente.
Durante o carregamento e em cada passo de carga foram lidas as profundidades do nível freático nos 4
tubos inclinométricos, tendo aquelas oscilado entre 0,76 e 1,11m, pelo que na análise dos resultados se
considerará o nível freático a 1,0m da base da sapata.

2.2 – Resultados obtidos

A questão da evolução dos assentamentos


merece um estudo detalhado que é feito em
Viana da Fonseca (1996). No presente mostra-
se apenas o aspecto típico dessa evolução,
apresentando a Figura 5 as curvas tempo-
assentamento correspondentes aos escalões aí
referenciados.
Na Figura 6a apresenta-se a curva carga-
assentamento do ensaio da sapata, correspondendo
os valores de assentamento à média aritmética dos
registos obtidos nos três deflectómetros colocados
no topo daquela. A correcção da deformação
imputável à descompressão do terreno,
previamente escavado, verificada nos primeiros
escalões de carga, foi feita por meio da translação Figura 5 - Curvas tempo - assentamento dos
do eixo das ordenadas. escalões q = 98 e 550 kPa.

Considerou-se a inclinação inicial idêntica à do escalão de carga de 49 para 76 kPa, dado se ter
constatado que este era sensivelmente paralelo ao ramo de descarga e recarga levado a efeito após se

690
Fundações

atingir os 98 kPa. Na Figura 6b apresenta-se a curva corrigida nos termos descritos. Nesta é
perceptível uma aparente tensão de cedência, definida pelo ponto de intersecção de dois troços
aproximadamente rectilíneos que, para ser mais claro, se representam na Figura 7, onde se incluem
apenas os primeiros escalões de carga (até 398 kPa). Como se vê nesta figura, essa tensão tem um
valor de cerca de 150 kPa.

Figura 6 - Curva tensão-assentamento do ensaio da sapata - curva: a) não corrigida; b) corrigida;


Não sendo de definição indiscutível, esse
ponto de transição revela, no entanto,
uma diferença de comportamentos
imputável ao início da plastificação de
zonas subjacentes à sapata, podendo, por
isso, ser representativo da transição de
um comportamento eminentemente
elástico (quasi-reversível) para regiões
claramente não reversíveis. Esta intuição
parece ser confirmada pela pequena
diferença das inclinações da curva
corrigida de primeira carga e dos ramos
de descarga e recarga, situação que se
perde muito claramente nos ciclos de
descarga-recarga realizados a partir de
Figura 7 - Tensão de cedência aparente. tensões elevadas.
Refira-se, por outro lado, que a fluência se faz sentir em especial após a ultrapassagem das tensões
limiares elásticas ou pseudo-elásticas, estando associada à quebra de ligações de cimentação estrutural
interparticular. Tal facto é posto em evidência pelo aumento sucessivo dos tempos de estabilização
após a tensão de 150 kPa.
Torna-se pertinente referir o critério prático de Décourt (1992) que estipula, para tensões admissíveis
de fundações superficiais sobre maciços do tipo residual, as relativas a assentamentos de 6,0mm em
placas normalizadas de 80cm (prática corrente no Brasil). Considerando que tal corresponde a um
assentamento relativo de cerca de 0,75% do diâmetro da área de carga, tem-se para o caso em análise:
s = 0,75%⋅ B ⇒ qadm ≅ 190 - 200 kPa
Se se reparar na curva corrigida (Figura 6b), tal corresponde sensivelmente ao ponto de início do
segundo troço rectilíneo, após o ramo curvilíneo de transição entre este e o primeiro troço rectilíneo. A
curva carga-assentamento obtida indicia uma resposta relativamente pouco não-linear, não sendo
evidenciadas zonas de curvatura acentuada que poderiam associar-se a níveis de cedência plástica do
maciço e, se bem definidas, a planos de rotura em progressão.
Nas análises que se seguem, os critérios limites a adoptar terão, assim, que contemplar sobretudo
condições de serviço, como seja a referida limitação do assentamento. Há, contudo, vantagem em
identificar pontos singulares da curva carga-assentamento, em particular os referentes a mudanças de

691
VII Congresso Nacional de Geotecnia

tendência (por exemplo, de inclinação de ramos aproximadamente lineares). Este trabalho, dado que
estes últimos pontos não revelaram marcada definição, foi potenciado pela observação simultânea das
respostas da instrumentação complementar (Viana da Fonseca, 1996).
3. ENSAIOS DE CARGA EM PLACA

3.1 – Introdução

Nos maciços residuais a capacidade de carga resulta de factores de resistência imputáveis às


componentes atrítica e coesiva da massa de solo envolvida, pelo que essas componentes só poderão ser
devidamente deduzidas de ensaios de carga superficiais se forem realizados dois ou mais, com
dimensões distintas, e sobre um mesmo maciço supostamente homogéneo, pelo menos na zona
envolvida pelos respectivos carregamentos.
Tendo-se, além disso, constatado que a curva do ensaio da sapata em verdadeira grandeza não permitia
definir claramente a rotura, mais se exigia complementá-lo com ensaios do mesmo tipo, mas sobre
áreas de mais reduzida dimensão que permitissem, com recurso a meios de reacção mais modestos,
atingir a rotura.
À necessidade de realização de mais do que um ensaio de carga para se poder definir a rotura, acresce
a vantagem de se poder fazer uma análise integrada das curvas de tensão-deslocamento dos diferentes
ensaios, de modo a estudar a importância do binómio “deformabilidade-profundidade de influência”.
Este estudo foi desenvolvido em Viana da Fonseca (1996).

3.2 - Sequência dos ensaios e resultados obtidos

Na mesma zona do ensaio de carga da sapata protótipo, foram preparadas duas superfícies para a
realização de dois ensaios de placa, uma com 30 cm de diâmetro e outra com 60 cm, à mesma cota da
base da sapata e afastadas da mesma (ver Figura 8) de 2,0 m e 3,0 m, respectivamente. Estas distâncias
foram consideradas suficientes para se garantir a independência dos maciços carregados nos
sucessivos ensaios. Para reacção foram utilizadas as vigas de suporte da estrutura cilíndrica usada no
ensaio da sapata após este concluído, tal como ilustra a Figura 8b para a placa de 60 cm. Houve
sempre o cuidado de regularizar convenientemente a plataforma de apoio da forma atrás descrita.

-2.70

placa
D0,30
HEB360

-2.00
HEB450

SAP
(D1.20)

HEB450

placa -2.30
D0,60
HEB360

-2.00

(m)

Figura 8 – Ensaios PLT: a) esquema de disposição das placas de 60 e 30 cm de diâmetro; b)


disposição e montagem da placa de 60 cm de diâmetro.

A instrumentação dos ensaios confinou-se à leitura do assentamento vertical resultante da carga


aplicada com um macaco hidráulico, sendo essa leitura feita em relação a uma viga de referência (viga
“Benkelmann”), também ilustrada na fotografia da Figura 8b.

692
Fundações

Os critérios de aplicação dos incrementos de carga seguiram termos semelhantes aos descritos antes,
referentes ao ensaio da sapata. Os escalões de carga adoptados procuraram seguir valores concorrentes
com os da sapata protótipo.
Os ciclos de descarga e recarga foram feitos sempre à carga inicial (peso próprio dos elementos de
carga) não tendo havido incrementos intermédios. Os valores dos módulos assim deduzidos devem,
por isso, ser assumidos como pseudo-elásticos pois incorporam factores de fluência, manifestos
quando os ciclos são de grande amplitude e em condições drenadas. É prática corrente realizá-los
assim, pelo que se optou por esta solução.
Na Figura 9 apresenta-se as curvas obtidas para os
dois ensaios. Constata-se desde logo que os
valores relativos dos assentamentos (s/B) da placa
mais pequena (de 30 cm de diâmetro) são
substancialmente maiores do que os da placa de
60 cm e da sapata. Estes valores claramente
exagerados indiciam que o ensaio com a placa de
30 cm poderá ter envolvido uma zona do maciço
de características mecânicas mais fracas do que as
envolvidas pelos outros ensaios. Além disso, a
dimensão desta placa é insuficiente para avaliação
do comportamento mecânico, em particular
deformacional, deestes maciços, não só com
matriz granulométrica média a grossa, mas
sobretudo possuidores de macroestruturação, o
que exige ensaios em maior escala. Figura 9– Curvas carga-assentamento dos ensaios
em placa com 30 e 60 cm de diâmetro
Refira-se em abono desta opinião as recomendações normativas indicam áreas mínimas de placas de
1000cm2 (recomendando-se mesmo 2500 a 5000cm2) para solos arenosos (Sousa Coutinho, 1990;
Décourt, 1992). Pode-se, assim, questionar a representatividade do ensaio a esta escala para estudo de
um saprólito de granito.
As curvas tensão-deformação dos dois ensaios apresentam alguma linearidade na resposta
deformacional, à excepção dos últimos valores de carregamento (para assentamentos pronunciados).
Note-se ainda que, da observação visual do desenvolvimento das deformações na zona de carga, se
constatou que as placas - como aliás se havia verificado na sapata e nos ensaios de placa englobados
na campanha preliminar - não apresentaram tendência para mobilização de cunhas de rotura global,
mas antes uma rotura típica de punçoamento, o que se reflecte em curvas carga-assentamento
crescentes e com curvaturas muito suaves.

4. INTERPRETAÇÃO PRELIMINAR DOS RESULTADOS DOS ENSAIOS DE CARGA EM


TERMOS DE RESISTÊNCIA

4.1 – Nota prévia

A interpretação mais geral (em termos de resistência e de deformabilidade) dos resultados dos ensaios
de carga é feita em Viana da Fonseca (1996). Aí se integra a informação paramétrica obtida a partir
dos ensaios in situ e dos ensaios de laboratório sobre amostras indeformadas. Neste artigo, só se
enfatizando a vertente da resistência, faz-se apenas uma referência breve à informação preliminar que
se pode deduzir das curvas obtidas.

4.2 – Definição dos pontos de “rotura” dos ensaios de carga

Como foi várias vezes salientado e confirmado pelos ensaios experimentais, o tipo de rotura dos
maciços resifuais jovens (saprolíticos) é punçuante, pelo que não há uma clara evidência de curvatura
na tensão limite (ver Figuras dos parágrafos anterior).

693
VII Congresso Nacional de Geotecnia

Sendo esta definição de rotura um dos aspectos mais sensíveis na interpretação destes ensaios,
apresentam-se alguns processos alternativos para definição dos pontos que indiciam o início do
processo generalizado de rotura. São assim os seguintes:
1. ponto de maior curvatura da linha de resposta de carga-assentamento numa representação
bilogarítmica;
2. carga correspondente a uma claro aumento da taxa de fluência, ou seja, um claro aumento do tempo
de estabilização de cada escalão de carga; é corrente, por exemplo, estipular como rotura a carga
para a qual há clara inflexão da curva de ∆s(30min) – correspondente ao assentamento relativo aos
30 minutos anteriores à mudança de escalão por cumprimento de um critério homogéneo de
estabilização – versus q – própria carga (ISSMFE, 1985);
3. carga correspondente ao um critério limite de assentamento (se algumas vezes e no nosso país é
usualmente associado a 10% do diâmetro de fundações indirectas, já o Eurocódigo 7 – Parte 3 –
associa a um assentamento igual a 15% do diâmetro ou largura da sapata).
Nas figura 10a, b e c apresenta-se em escala
bilogarítmica as curvas carga-assentamento das
placas com diâmetros de 0,30 e 0,60 m e da sapata,
respectivamente.
Como aí se mostra, obtêm-se os seguintes valores
para as tensões que definem “rotura” (no sentido
que vem sendo dado na presente tese):
B = 0,30 m ⇒ qrot = 700 kPa
B = 0,60 m ⇒ qrot = 821 kPa a)
B = 1,20 m ⇒ qrot = 950 kPa

Saliente-se que se optou pela designação de qrot


pelo facto de se tratar de rotura por punçoamento de
cariz manifestamente distinto da que formalmente
se obtém pelas hipóteses que consideram o
equilíbrio de três zonas de plastificação para um
material rígido-plástico (expressões clássicas de
determinação da capacidade de carga, qult - ver
parágrafo seguinte). b)
Por outro lado, no que diz respeito à sapata
instrumentada, importa referir que possíveis
indicadores tendenciais de rotura são as mudanças
das respostas das marcas topográficas e das
medições inclinométricas. Nesta perspectiva,
verifica-se que (viana da Fonseca, 1996):
i. há inflexão do sentido do movimento de marcas
superficiais (assentamento para levantamento),
para q = 700 e 850 kPa;
ii. a inflexão do sentido do movimento dos c)
inclinómetros para q = 700 e 800 kPa. Figura 10– Definição da rotura em ensaios
PLT: a) B=0,30m; b) B=0,60 m; c) B=1,20m.
Estes valores de inflexão são sintomáticos do aparecimento de bandas de corte e, consequentemente,
de importantes zonas em cedência, estando contudo aquém do início do desenvolvimento do processo
de colapso global.
Em resumo, há uma consistência geral entre os indicadores apontados pelas medições topográficas e
inclinométricas e o valor retirado da curva carga-assentamento da sapata. Por isso, o que segue baseia-
se nos valores da “rotura” acima indicados para os três ensaios de carga em análise.

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Fundações

Não obstante o acima discutido, é importante salientar que os pontos assim definidos não são nunca
produto de mobilização uniforme de parâmetros de resistência (Tatsuoka et al., 1991).

4.3 – Avaliação dos parâmetros de resistência a partir da “rotura” dos ensaios de carga

Considerando que os métodos mais usados para determinação da capacidade de carga são do tipo
equilíbrio limite, que se baseiam em prévio estabelecimento da geometria da superfície de rotura, a
expressão da capacidade de carga de uma sapata colocada à superfície do terreno e carregada por uma
força vertical pode ser formulada pelas hipóteses clássicas de Meyerhof (1963), Brinch-Hansen
(1970) e Vésic (1975).
Estas formulações consideram o material rígido-plástico, três zonas de plastificação e condições
geométricas de desenvolvimento linear infinito. Se estas condições estiverem devidamente controladas
ou puderem ser ignoradas, caso de uma sapata rígida de razão de dimensões fixas (por exemplo B = L
ou circular), colocada à superfície horizontal e carregada verticalmente, a expressão da capacidade de
carga reduz-se a:
1
qult = c ⋅ N c ⋅ sc + γ ⋅ B ⋅ N γ ⋅ sγ (1)
2
sendo γ o peso volúmico do solo, B a dimensão efectiva mais pequena da fundação, Nc e Nγ os factores
de capacidade de carga para cada parcela de equilíbrio (c’, q e γ) e sc e sγ os coeficientes correctivos
para ter em conta a forma da fundação. Sendo γ constante (solo uniforme) a variação de B acarretará
variação de qult e de um sistema simples de duas equações (dois ensaios de carga) a duas incógnitas
pode-se determinar c' e φ'.

Os factores de capacidade de carga e os factores correctivos para atender à forma da fundação que
entram naquela expressão são, segundo o Eurocódigo 7 (1994), definidos pelas seguintes equações:
N c = ( N q − 1) ⋅ cotg φ ′ (2)

N q = eπ ⋅tg φ ′ ⋅ tg 2 (45o + φ ′ / 2) (3)


N γ = 2 ⋅ ( N q − 1) ⋅ tg φ ′ (base rugosa) (4)
sc = ( sq ⋅ N q − 1) / ( N q − 1) (5)
sq = 1 + ( B / L) ⋅ sen φ ′ = 1 + sen φ ′ (para sapatas circulares) (6)
sγ = 1 − 0,3 ⋅ ( B / L) = 0,7 (para sapatas circulares) (7)
sendo c’ e φ' os parâmetros de resistência, γ o peso volúmico do terreno subjacente à sapata atendendo
à posição do nível freático, B a dimensão transversal da fundação e L a dimensão longitudinal da
mesma (B e L coincidentes com o diâmetro da fundação em sapatas circulares).
Sendo zw a posição do nível freático em relação à superfície, o peso volúmico a considerar na
expressão da capacidade de carga pode ser avaliado do seguinte modo:

19 kN/ m3 ( zw > 1,5 ⋅ B)



γ = 19 ⋅ zw + 9,2 ⋅ (1,5 ⋅ B − zw ) (8)
 kN/ m3 ( zw < 1,5 ⋅ B)
 1,5 ⋅ B
Aplicando a expressão da capacidade de carga (1) a cada um dos três ensaios de carga em apreço,
tomando para q ult o valor da carga de “rotura” ( qrot ) definido a partir de cada curva de ensaio,
tomando ainda o diâmetro da área carregada e o peso volúmico de acordo com a equação (8), obtem-se
as seguintes três expressões, uma para cada caso em análise:
700 − 2,85 ⋅ sγ ⋅ Nγ
B = 0,30 m ⇒ c′ = (9)
sc ⋅ N c

695
VII Congresso Nacional de Geotecnia

821 − 5,70 ⋅ sγ ⋅ N γ
B = 0,60 m ⇒ c′ = (10)
sc ⋅ N c
950 − 8,79 ⋅ sγ ⋅ Nγ
B = 1,20 m ⇒ c′ = (11)
sc ⋅ N c
Partindo destas expressões e admitindo sucessivos valores para o ângulo de atrito, procurou-se aquele
a que corresponderia um valor único para a coesão. O processo é ilustrado no Quadro 1 para os quatro
valores de φ ′ mais próximos da convergência dos valores de c ′ . Importa realçar que a associação da
rotura em cada um destes ensaios, que como foi referido é do tipo punçoante, às hipóteses clássicas
que enformam a expressão (1), é discutível. No entanto, esta opção conduz a valores dos parâmetros
de resistência pelo lado da segurança, legitimando este tipo de abordagem.

Quadro 1 - Determinação de c’ e φ' a partir das cargas de rotura dos ensaios de carga em placa e na
sapata protótipo, admitindo a validade da expressão clássica da capacidade de carga.
c’ (kPa)
φ' sγ . N γ sc . N c
B=0,30 m B=0,60 m B=1,20 m

36° 37,38 81,13 7,3 7,5 7,7


36,5° 40,65 85,38 6,8 6,9 6,9
37° 44,22 89,91 6,4 6,3 6,3
37,5° 48,14 94,74 5,9 5,8 5,6

Conclui-se, então, que a interpretação global dos resultados em termos de rotura conduz aos seguintes
valores dos parâmetros de resistência do solo envolvido pelos ensaios de carga realizados:
c' = 6,3 - 6,9 kPa; φ' = 36,5° - 37°
Note-se que a boa concordância dos valores obtidos pelos três ensaios aponta no sentido de que as
interpretações feitas anteriormente são consistentes e, muito provavelmente, captam os aspectos mais
relevantes da questão em apreço. A interpretação integrada dos ensaios de placa e da sapata
confirmou os valores de φ' e c' obtidos a partir da extensa gama de ensaios em laboratório,
parcialmente apresentados em artigos a este Congresso (Viana da Fonseca, 2000a, b e c).

5 –CONCLUSÕES

No presente artigo, para além de se discutir as particularidades da resposta constitutiva de solos


residuais sujeitos a carregamentos à superfície, procurou integrar-se a informação recolhida de cargas
últimas obtidas em ensaios de carga realizados sobre superfícies de distintas dimensões em planta,
para a dedução de parâmetros de resistência ao corte.
A interpretação integrada dos ensaios de carga em placa e sobre uma sapata em verdadeira grandeza,
confirmou os valores de φ' e c' obtidos a partir da extensa gama de ensaios triaxiais (Viana da Fonseca,
1996, Viana da Fonseca, 2000a, b e c), o que aconselha a, sempre que possível, realizar ensaios
triaxiais sobre amostras indeformadas de dimensão significativa por serem as metodologias que mais
consistentemente, e de forma directa, permitem avaliar com rigor o ângulo de atrito e, muito
particularmente, a componente de coesão efectiva, cujo efeito em termos de capacidade de carga de
fundações superficiais está longe de ser negligenciável. Já os valores deduzidos dos ensaios in situ
(SPT, CPT, PMT, SBPT e DMT) e tendo em conta as propostas mais envolventes aplicáveis a estes
ensaios quando realizados em areias, denotaram uma discrepância grande entre estas propostas, sendo,
assim, ensaios com credibilidade discutível para estimar o par φ' e c' exibido pelos solos estudados, em
particular, por dificilmente se indexarem a níveis de tensão baixos onde a parcela coesiva tem efeitos
importantes.

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Fundações

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