FAMILIAS E POLITICAS PÚBLICAS: TEMPOS ATUAIS VELHOS DESAFIOS DA
PRATICA PROFISSIONAL
Andreza Mendes Fachina1
Tatiana Freire da Silva2
RESUMO: Se perguntarmos o que é família, certamente muitos se arriscariam a responder
e com freqüência nos vêm à imagem de pai, mãe e filhos (família nuclear). Mas o que é
família? Qual seu papel? Até metade do século XIX o modelo de família conhecido era o
patriarcal, onde a mulher era subalterna ao marido. Com as transformações da sociedade,
vão surgindo novas composições familiares, como famílias constituídas de um segundo
casamento, assim não podemos afirmar que existe um modelo de família considerado
“melhor”, embora ainda a forma mais conhecida e valorizada é a família nuclear. Com base
em Carvalho (2003) a maior expectativa é que a família produza cuidados, proteção,
aprendizado dos afetos, construção de identidade e vínculos, entre outros. No entanto estas
expectativas são possibilidades e não garantias. A família vive num dado contexto que pode
ser fortalecedor ou dificultador de suas possibilidades e potencialidades. A família tem a
função de cuidar de seus membros, e com freqüência acontece uma culpabilização das
mesmas quando isto não ocorre, sem que seja analisado o contexto. A família para cuidar
de seus membros, precisa ser cuidada, ou seja, precisa da proteção do Estado, caso
contrário ocorrem inúmeras violações de direitos. É preciso acabar com a falsa idéia, de que
a família é a única responsável pelo bem-estar de seus membros, pois sem que o Estado e
a sociedade contribuam com a elaboração e execução de políticas públicas, torna-se
impossível que a família sozinha assegure condições dignas de vida, visto que vivemos em
uma sociedade capitalista de produção. A prática do Serviço Social cada vez mais deve
estar voltada para o trabalho com as famílias, com um exercício profissional crítico para não
cair na armadilha de culpabilizar à família, sem compreender que a situação ou condição da
família é reflexo da questão social.
Palavras Chaves: Família, Serviço Social, Prática Profissional.
1 INTRODUÇÃO
A família sempre teve um importante papel na vida de seus membros e na
construção da sociedade em que vivemos, ora como manutenção da propriedade privada,
com casamentos realizados por interesse e obediência total da mulher ao seu marido e
1
Assistente Social, docente no Instituto Municipal de Ensino Superior de Bebedouro "Victório Cardassi" (IMESB).
Mestranda no Programa de Pós Graduação em Serviço Social na Universidade Estadual Paulista “Júlio de
Mesquita Filho” – UNESP, Campus de Franca/SP. Membro pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre
Família “Padre José Mario Filho”, do Centro Universitário da Fundação Educacional de Barretos. Membro do
Grupo de Estudos e Pesquisa Práticas de Pesquisa: práticas contemporâneas (PRAPES). E-mail:
[email protected].
2
Assistente Social da Prefeitura Municipal de Cravinhos/SP, Doutoranda do Programa de Pós-graduandos em Serviço Social
pela Pontifícia Universidade Católica - PUC de São Paulo. Residente à Rua Ceára, 3206, bairro Jardim Paulistano, Cidade de
Ribeirão Preto/SP, contato: (16) 992259880 email: [email protected] .
patriarca da família, (família patriarcal vigente até metade do século XIX), ora com menos
rigidez, com o “chefe” da família podendo ser tanto o homem como a mulher dependendo de
sua composição.
A família passou por várias transformações ao longo da história, mudanças pautadas
no desenvolvimento de globalização da economia capitalista, que certamente determinam à
organização familiar e os novos modos de vida provocando as heterogeneidades das
relações.
Por exemplo, no século XVII a mulher era considerada incapaz de tomar decisões,
prevalecendo à soberania do marido, este modelo, conhecido como patriarcal, desenvolvia
diversas funções, uma delas era a reprodução, tornando-se uma regra a identificação de
pai, pois é através do sobrenome paterno que se determina a qual grupo familiar pertence
cada indivíduo. A educação dos filhos era realizada de forma diferenciada conforme o sexo,
as meninas criadas para o casamento como uma forma de inserção social, e os meninos
educados para ter uma profissão, a fim de garantir o sustento de sua família.
Após metade do século XIX, a família patriarcal cede espaço a família nuclear, ainda
composta de pai, mãe e filhos, mas neste caso o casamento se dá por escolhas dos
parceiros, tendo como perspectiva a superação da dicotomia entre amor e sexo e novas
formulações para os papéis do homem e da mulher no casamento. (GUEIROS, 2002,
p.107).
Diferente desta época, hoje não podemos mais falar em um único modelo de família,
já que suas composições variam muito, embora a família nuclear ainda esteja presente no
imaginário das pessoas como o tipo de família ideal, ou por ser esteticamente mais aceita,
ou por acreditarmos que a família só pode ser completa tendo a figura masculina (pai) e
feminina (mãe) dentro da mesma casa, ou mesmo por acreditarmos que o elo mais forte
entre seus membros ainda é o consanguíneo.
Para os autores Kaloustian e Ferrari (1998, p. 15), a família é o espaço indispensável
para a garantia da sobrevivência e da proteção integral dos filhos e demais membros,
independentemente do arranjo familiar ou da forma como vêm se estruturando. É a família
que propicia os aportes afetivos e, sobretudo, materiais necessários ao desenvolvimento e
bem-estar dos seus componentes. Ela desempenha um papel decisivo na educação formal
e informal; é em seu espaço que são absorvidos os valores éticos e morais, e onde se
aprofundam os laços de solidariedade. É também em seu interior que se constroem as
marcas entre as gerações e são observados valores culturais.
A família é uma das principais responsáveis pela socialização, importante para a
integração dos filhos com o mundo adulto, aprendendo a canalizar seus afetos, avaliar e
selecionar suas relações.
Com as transformações da sociedade as funções da família ficam cada vez mais
complexas. Acredita–se que não é a composição familiar que determina as relações
familiares, ou se a família está apta ou não ao exercício de suas atribuições.
A maior expectativa e de que ela produza cuidados, proteção, aprendizado dos
afetos, construção de identidade e vínculos relacionais de pertencimento, capazes
de promover melhor qualidade de vida de seus membros e efetiva inclusão social na
comunidade e sociedade em que vivem. No entanto estas expectativas são
possibilidades e não garantias. A família vive num dado contexto que pode ser
fortalecedor ou esfalecedor de suas possibilidades e potencialidades. (CARVALHO,
2003, p. 15).
Desta maneira, é preciso ter clareza de que a família é vulnerável às mudanças da
sociedade a qual pertence. Acompanhar estas mudanças torna-se crucial para entendermos
a organização familiar e seu papel perante a sociedade.
2 POBREZA NO BRASIL – DIREITOS IGUAIS A TODOS?
Faz-se necessário destacar que o modelo socioeconômico ao qual vivenciamos na
atualidade (capitalismo) gera e reforça a desigualdade social dificultando o convívio
saudável da família.
O capitalismo que tem como principal característica a geração e acúmulo de capital,
acontecendo uma nítida separação entre os detentores dos meios de produção (capitalistas)
e os que só possuem sua capacidade de trabalho. Segundo Antunes (1999, p. 24) o sistema
capitalista é alicerçado nas desigualdades entre as classes sociais: a burguesia é a
detentora dos meios de produção e a classe que vive do trabalho fica cada vez mais
exposta às intempéries do mundo do trabalho, o que gera uma permanente insegurança na
vida dos trabalhadores e por conseqüência uma precariedade em sua sobrevivência e
manutenção.
Desigualdade que é expressa na questão social, neste sentido, Iamamoto (2000,
p.27) coloca que:
Questão social apreendida como o conjunto das expressões das desigualdades da
sociedade capitalista madura, que tem uma raiz comum: a produção social é cada
vez mais coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a
apropriação de seus frutos mantém-se privada, monopolizada por uma parte da
sociedade.
No capitalismo a força de trabalho é considerada como mercadoria e o trabalhador
vê-se obrigado a vender sua capacidade de trabalho a qualquer preço, para sustentar sua
família. As mudanças no mundo do trabalho transformam a vida da população, as indústrias
cada vez mais automatizadas investem menos em força de trabalho, cresce o trabalho
informal, gerando insegurança por parte dos trabalhadores, e com a renda cada vez menor
as mulheres passam a trabalhar fora de casa, muitas vezes desempenhando as mesmas
funções que o homem, mas completamente desvalorizadas, com uma diferença salarial
injusta e dupla jornada de trabalho, pois ainda precisam dar conta do trabalho doméstico.
Reconhecer estas questões nos leva a analisar a realidade das famílias como um
todo, pertencente a uma sociedade que não é justa, e que pode influenciar na maneira como
cada membro age nesta mesma sociedade.
O ser humano é complexo e contraditório, ambivalente em seus sentimentos e
condutas, capaz de construir e de destruir. [...] Na medida em que a vida à qual está
submetido não o trata enquanto homem, suas respostas tendem à rudeza da sua
mera defesa da sobrevivência. (VICENTE, 1998 p.55).
A Constituição Federal define, em seu artigo 226 § 8º “O Estado assegurará
assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para
coibir a violência no âmbito de suas relações”. (BRASIL, 1988, p. 148).
Por estar previsto na Constituição Federal, não quer dizer que toda pessoa da família
tem assistência garantida, pois vemos que entre os anos de 2009 e 2011 estima-se que no
Brasil ocorreram, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano,
472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma a cada hora e meia. As regiões Nordeste,
Centro-Oeste e Norte apresentaram as taxas de feminicídios mais elevadas,
respectivamente, 6,90, 6,86 e 6,42 óbitos por 100 mil mulheres, segundo dados do Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Ainda a Constituição Federal também prevê em seu capítulo I, art. 5º: “Todos são
iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade”. (BRASIL, 1988, p. 5). E em seu capitulo II, artigo VI, caracteriza
os direitos sociais: “[...] são direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o
lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a
assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”. (BRASIL, 1988, p. 12)
Segundo dados da Folha do Estado de São Paulo de 27 de setembro de 2013, a
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD, afirma que em 2012 no Brasil a
concentração maior de renda indica que o rendimento dos que estão no topo da pirâmide
(1% mais ricos) cresceu 10,8% numa velocidade superior à média e ao das faixas de menor
remuneração, a renda dos 10% mais pobres cresceu 6,6%. Isto considerando apenas o
rendimento do trabalho, cujo rendimento médio foi de 5,8% de 2011 para 2012, isto significa
que a faixa dos 1% mais ricos aumentou sua participação no rendimento total de 12% para
12,5% enquanto quem esta na base da pirâmide se manteve em 1,4%.
Desta maneira, como ter direitos iguais se a grande maioria da população sobrevive
com uma renda mínima ou nem mesmo a têm?
Isto se torna um desafio, pois embora a Constituição Federal garanta direitos iguais a
todos, podemos observar que na realidade nem todos conseguem ter acesso a serviços de
qualidade como saúde, educação, habitação, lazer, cultura, alimentação, trabalho, entre
outros, já que para serem acessíveis, primeiro seria preciso ter dinheiro para comprar.
As desigualdades de renda impõem sacrifícios e renúncias para toda família, sua
“desestruturação” é resultado da falta de apoio para o enfrentamento de seus problemas e
adversidades.
Deste modo, não podemos falar em direitos sociais iguais para todos, já que os
índices mostram que a realidade é bem diferente do que está previsto na Constituição
Federal e que vivemos em um país onde a estrutura de poder vigente é centrada em um
modelo que gera crescente riqueza para poucos e pobreza para muitos, e que garante e
privilegia o crescimento da economia, sem uma política de renda justa e de atendimento às
necessidades básicas da maioria da população.
Vale ressaltar que um dos mecanismos que conformam à proteção integral a criança
e adolescente é o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Lei Federal n° 8.069 de
13/07/90, em seu artigo 4° prevê que:
É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral, e do Poder Público
assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, á
saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, á
cultura, à dignidade, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. (BRASIL
1990, p. 34).
Contudo, na educação, por exemplo, 15,9% da população de 15 a 17 anos estavam
fora da escola no ano de 2012, o que corresponde a 1,65 milhão dos 10,4 milhões de jovens
desta idade, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD.
A Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) – Lei Federal nº 8.742, de 7 de
dezembro de 1993, em seu artigo 2º traz os objetivos da assistência social, e dentre eles
coloca em seu § I, a proteção à família, à maternidade, à infância, a adolescência e à
velhice.
Uma vez que a família não tem suas mínimas condições socioeconômicas
satisfeitas, ela sofre o processo de exclusão social. A injustiça social dificulta o convívio
saudável da família, favorecendo o desequilíbrio das relações e a desagregação familiar. O
que não significa que somente as famílias pobres precisam de políticas públicas. (GOMES,
2005, p. 360).
Portanto, a família não pode ser vista como a única responsável pela criação e
cuidados para com seus membros, o Estado quando é omisso em suas responsabilidades
deixa a população sem condições satisfatórias para sua sobrevivência, e a comunidade
quando fecha aos olhos aos problemas que as famílias enfrentam, deixando a cargo de
cada um cuidar de sua vida ao invés de unir forças, também colaboram para uma piora
destas condições de vida.
Devemos reconhecer que embora exista uma distância entre os instrumentos legais
e a realidade, as leis podem ser instrumentos na luta por direitos, embora vivamos numa
conjuntura que dificulta tal realização.
3 POLÍTICA PÚBLICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL NO BRASIL: Tempos atuais e velhos
desafios.
A Política Nacional de Assistência Social aprovada em 2004 reconhece as fortes
pressões que os processos de exclusão sócio–cultural geram sobre as famílias brasileiras,
reforçando suas fragilidades e contradições, deste modo, tem entre seus objetivos a
centralidade na família, assegurando que os benefícios, programas e projetos sejam
concebidos e executados pautados nas necessidades das famílias, seus membros e
indivíduos. (MDS, 2004, p.41).
Em 2003 ocorreu a IV Conferência Nacional de Assistência Social, na qual aprovou-
se a implantação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) em todo território nacional,
cujo modelo de gestão é descentralizado e participativo. Para Paula (2007, p.11) “no
sistema passamos a fazer a gestão de viabilização de direitos e não apenas de viabilização
de acesso a programas específicos, isolados e fragmentados”. Ou seja, os trabalhadores do
SUAS devem ter claro que são profissionais pertencentes a um sistema que deve ser
organizado a partir da necessidade dos usuários, pautado no reconhecimento do território
onde estas ações estão sendo executadas e romper com a visão da assistência social como
filantropia ou favor, reconhecendo a população como possuidora de direitos, e como tal,
quando estes direitos não são acessados, devem reivindicá-los.
Além disso, a assistência social deve estar articulada com outras políticas sociais,
como as públicas de saúde, educação, cultura, esporte, emprego, habitação, entre outras,
para que suas ações não sejam fragmentadas e se mantenha o acesso e a qualidade dos
serviços para todas as famílias.
O SUAS considera a família o eixo matricial porque é o elo na reconstrução de
vínculos, reconhecendo ai não só a família, o grupo formado pelos pais, como
também as diferentes combinações de agregados que se forma por relações
afetivas, consanguíneas, de gênero, e que assumem a função de desenvolver
afetos, cuidados e reprodução social. A família que deve ser entendida, portanto, é
que existe, a que é vivenciada concretamente. (CHIACHIO, 2007, p. 33).
Deste modo, pensar a família de acordo com que ela nos apresenta e não como a
idealizamos se faz necessário, assim como nos apresenta Rezende et al. (2013, p. 147),
observa-se então que a sociedade esta sendo chamada diariamente a se despir de pré-
conceitos e respeitar as opiniões e escolhas de cada ser humano e a compreender os novos
arranjos familiares.
A família está em constante processo de construção e modificação a partir de
elementos da realidade.
Precisamos perceber que o Brasil não é um país pobre e sim um país desigual, visto
que um país tem pobreza quando existe escassez de recursos, aqui apesar de haver um
volume aceitável de riquezas, elas são mal distribuídas.
Entretanto, não podemos pensar que apenas a má distribuição de renda gera a
desigualdade, pois a educação, por exemplo, também contribui para uma sociedade mais
pobre, pois ela tem impacto de perpetuação do ciclo de pobreza entre as gerações, uma vez
que os pais com baixa escolaridade têm dificuldade em garantir um maior nível de
escolaridade para seus filhos, e nos dias atuais ter um bom nível escolar significa ter
melhores chances no mercado de trabalho.
Segundo Kaloustian e Ferrari (1998, p.15), por detrás da criança excluída da escola,
nas favelas, no trabalho precoce urbano e rural e em situação de risco, está a família
desassistida ou inatingida pela política oficial. Quando esta existe, é inadequada, pois não
corresponde às suas necessidades e demandas para oferecer o suporte básico para que a
família cumpra, de forma integral, suas funções, enquanto principal agente de socialização
dos seus membros em específico das crianças e adolescentes.
Trabalhar a família exige que o profissional tenha um olhar crítico da realidade, que
conheça o território destas famílias, segundo Chiachio (2007, p.34).
A categoria território, no trabalho social com as famílias, supõe entendermos que ele
não é o lugar, um chão, é sim um lugar de vida, de relações de conflitos e onde se
estabelece a necessidade, mas também se desenvolve a sua potencialidade de
território, considerando a população que nele vive e que tem, ao mesmo tempo, a
vivência da violência, da dificuldade de superações.
Conhecer o território de maneira a ter clareza das vulnerabilidades e compreender
que é neste território que se estabelece os conflitos, mas também a oportunidade de
desenvolver as potencialidades do mesmo faz com que o profissional tenha condições de
acompanhar as mudanças locais, e trabalhar com o que as famílias dispõem para
sobreviver, de modo a entender suas aflições, trabalhando com os recursos da rede de bens
e serviços locais da melhor maneira possível.
Além de trabalhar com a localidade o profissional deve atuar de modo interdisciplinar
e intersetorial articulando as políticas como educação e saúde, entre outras, de modo a
abarcar todas as vulnerabilidades da família, e é claro entender que cada família é única,
têm suas peculiaridades, conflitos, sua forma de proteger, de amar, seus costumes, valores
e cultura, que devem ser analisados como parte da totalidade em que vivem pertencentes a
uma sociedade complexa e desigual, que está em constante transformação assim como
atuam sobre elas.
Buscar o fortalecimento destas famílias perpassa por atendê-las de forma a respeitar
suas particularidades focando questões que lhe são próprias como à educação dos filhos,
convívio entre seus membros e a maneira como enfrentam o dia a dia, além de buscar o que
é coletivo entre as famílias atendidas de modo a possibilitar a reflexão de seus problemas e
ajuda mútua.
Ressaltamos que promover a participação ativa das famílias dentro dos programas,
projetos e serviços oferecidos na política pública e assistência social e demais políticas
públicas, assim como nos conselhos municipais, com o objetivo de ampliar a luta pela
efetivação dos direitos sociais, se faz tão importante quanto organizar os serviços a partir
das necessidades dos usuários, contribuindo para a redução das vulnerabilidades sociais e
desenvolvimento das potencialidades e capacidades das famílias.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após o exposto fica claro que a família não é a única responsável pela criação de
seus membros, mas que o Estado também não pode substituir a família, portanto a mesma
precisa ter suas necessidades atendidas através de Políticas públicas que assegurem
melhores condições de vida aos indivíduos.
Trabalhar a família em sua totalidade, como possuidora de direitos, capaz de agir em
sua própria história, pertencente a uma sociedade desigual, e que as más condições de vida
podem determinar como cada membro age nesta mesma sociedade, torna-se crucial.
Muito avançamos com a implantação do SUAS e com a Política Nacional da
Assistência Social, como por exemplo, pensar na política de forma abrangente executada de
acordo com que cada território apresenta, respeitando suas diferenças e diversidades, além
de romper com a visão de assistência social como caridade ou filantropia para passar a vê-
la como direito de todos, ultrapassando serviços baseados na fragmentação e segmentação
partindo para um ação em rede de proteção social, com divisões de acordo com o grau de
vulnerabilidade, no caso proteção básica e especial de média e alta complexidade, e claro, o
trabalho focado nas necessidades das famílias.
O caminho é longo, os avanços imprescindíveis, mas ainda há muito a ser feito para
que a efetivação de uma política que alcance as necessidades de seus usuários seja uma
realidade. A sociedade é complexa, as vulnerabilidades crescem a passos maiores que os
serviços oferecidos, a centralidade na família é um fato, mas ainda é um desafio também,
tanto para os profissionais como para a sociedade que precisam despir-se de pré-conceitos,
machismos, para respeitar as diferenças, as diversidades, opiniões, direitos, para que seja
possível termos uma sociedade a qual aspiramos.
Compreender que a sociedade não é imutável e, portanto a família e os indivíduos
também não são, é um desafio que exige do profissional uma permanente formação e
capacitação, não dá para paramos no tempo, a prática profissional precisa ser dinâmica,
propositiva, crítica, deve compreender a realidade muito além de como ela se apresenta, e
isto só é alcançado na medida em que pesquisamos, nos reciclamos, e estamos abertos a
novas formas de desempenhar velhos papéis.
É importante que o profissional saiba dominar as técnicas de trabalho, que
acompanhe as mudanças da profissão, das expressões da questão social e nas políticas
públicas, e enfatizamos que a educação permanente dos profissionais que atendem estas
famílias é primordial, de nada adianta um trabalho interdisciplinar e intersetorial quando os
profissionais envolvidos não estão dispostos a se capacitarem e principalmente a
compreender o que é a PNAS, o SUAS, e as formas de atuação de acordo com cada local
de trabalho.
Acreditamos que a capacitação permanente nos auxilia a ultrapassar a visão
rotineira, mecânica, muitas vezes engessada, para nos possibilitar entrever novas formas de
ação, e a transpor os limites institucionais postos a profissão como, por exemplo, a falta de
entendimento de outros profissionais, políticos, ou mesmo da população usuária sobre qual
é nosso papel e como ele deve ser desempenhado. Citamos ainda, a precariedade dos
locais de atendimento a família, com salas compartilhadas, sem privacidade, falta de
recursos materiais, como limitações institucionais.
Por mais difícil que tudo isto possa parecer, por mais que o cotidiano também nos
“engula” como trabalhadores que somos, portanto, sujeitos as mesmas transformações e
precariedades a que todos trabalhadores estão submetidos, ainda somos o profissional que
tem a possibilidade de conhecer seus usuários em seu íntimo, dentro de suas casas, que
conhece suas aflições, angústias e avanços, e, portanto temos que ter sempre em mente
que estamos lidando com vidas humanas como nenhum outro profissional e apenas isto é o
suficiente para que exista comprometimento profissional.
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