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Favelas e Remodelação Urbana no RJ

Este artigo analisa a relação entre as políticas de remodelação urbana no Rio de Janeiro e os programas para favelas entre 1930 e 1964, focando nas remoções e reassentamentos de moradores. Destaca como as ações governamentais contribuíram para a formação de grandes complexos de favelas, especialmente na zona da Leopoldina, e a interação entre a administração pública e a Igreja Católica na gestão desses assentamentos. A pesquisa utiliza documentação histórica para entender os processos de segregação e a evolução das favelas na cidade.
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Favelas e Remodelação Urbana no RJ

Este artigo analisa a relação entre as políticas de remodelação urbana no Rio de Janeiro e os programas para favelas entre 1930 e 1964, focando nas remoções e reassentamentos de moradores. Destaca como as ações governamentais contribuíram para a formação de grandes complexos de favelas, especialmente na zona da Leopoldina, e a interação entre a administração pública e a Igreja Católica na gestão desses assentamentos. A pesquisa utiliza documentação histórica para entender os processos de segregação e a evolução das favelas na cidade.
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1

Entre o estatal
e o filantrópico:
reconstruindo a história das
favelas e parques proletários
do Rio de Janeiro

Rute Imanishi Rodrigues*

Resumo Este trabalho discute a relação entre os planos e normas de remodelação urbana da cidade do Rio
de Janeiro e os programas para as favelas, sobretudo no que diz respeito às ações governamentais de remoção e
reassentamento, no período 1930-1964. Focaliza-se a transferência de moradores de favelas para assentamentos
criados pela administração pública, notadamente em terrenos estatais nos subúrbios da cidade, que deveriam ser
administrados através de parcerias entre a prefeitura e a igreja católica. O artigo evidencia a relação das remoções para
tais assentamentos com a consolidação de alguns dos maiores complexos de favelas da cidade, tais como: Complexos
da Penha, da Maré, Manguinhos e Vigário Geral.

Palavras-chave: favelas, parques proletários, Rio de Janeiro.

Entre lo estatal y lo filantrópico: recons- Between the state and the philanthropic:
truyendo la historia de las políticas para las fave- reconsidering the political history of the favelas
las de Rio de Janeiro of Rio de Janeiro
Resumen Este artículo aborda la relación de los planes y nor- Abstract This paper discusses the relationship between
mas de remodelación urbana en Río de Janeiro con los progra- plans and norms for urban remodeling in the city of Rio de
mas para las vilas misérias, principalmente a las acciones de Janeiro and programs for the favelas, especially regarding
desalojo y reasentamiento, en el período 1930-1964. Se centra government actions of removal and resettlement in the pe-
en los traslados de habitantes de vilas misérias para asenta- riod 1930-1964. It focuses on the transfer of slum dwellers
mientos definidos por la administración pública, especialmen- to settlements created by the public administration, notably
te en terrenos estatales a las afueras de la ciudad, que debe- on state land in the suburbs, which should be administered
rían ser administrados a través de acciones conjuntas entre el through partnerships between the city hall and the Catho-
Ayuntamiento y la Iglesia Católica. El artículo muestra la rela- lic Church. The article evidences that the removals to such
ción de los desalojos para los asentamientos con la consolida- settlements are related to the consolidation of some of the
ción de algunos de los mayores complejos de vilas misérias a biggest complexes of Rio de Janeiro´s favelas, such as: Com-
las afueras de la zona de Leopoldina, tales como: Complejos plexes of Penha, Maré, Manguinhos and Vigário Geral.
de la Penha, de la Maré, Manguinhos y Vigário Geral.
Keywords: slums, favelas history, Rio de Janeiro.
Palabras clave: vilas misérias, historia de las vilas misérias, Rio
de Janeiro.

v18_20 revista de pesquisa em arquitetura e urbanismo iau-usp


Entre o estatal e o filantrópico: reconstruindo a história das favelas e parques proletários do Rio de Janeiro 2

_A entrada do Rio de Janeiro, na zona norte, tem como paisagem os bairros que
acompanham a linha férrea até o centro e formam o chamado “subúrbio da Leopoldina”.
Em meio à cadeia montanhosa da Serra da Misericórdia, situam-se alguns dos maiores
complexos de favelas da cidade. Aí se projeta a igreja da Penha, construída no século
XVIII no alto de uma colina de pedra, entre milhares de casinhas esparramadas sobre
os morros ao redor. Os morros são rodeados por bairros populares tradicionais,
como Penha, Ramos, Olaria e Bonsucesso. Todavia, nas margens da Avenida Brasil,
construídas sobre aterros, vê-se um mar de favelas entre conjuntos habitacionais,
galpões e fábricas desativadas, povoando o caminho até o centro.

Boa parte desses aglomerados de favelas já tinha população significativa nas décadas
de 1950 e 1960, como mostram os primeiros censos das favelas do IBGE. Mas, como
se formaram essas favelas? Esta questão relaciona-se aos processos mais gerais de
segregação espacial na cidade que, embora tenham como fundamento econômico
a busca por terrenos baratos pela população de baixa renda, foram condicionados
por outros fatores também relevantes. Entres estes, ressalta-se o papel dos planos
e programas governamentais para as habitações populares, assim como as práticas
sociais e políticas que concorreram para a formação das favelas. Assim, a reconstrução
da história destas favelas contribui para a compreensão dos processos que levaram
à separação da população e à diferenciação no espaço urbano habitado, tal como
vemos hoje.

De acordo com o mapa produzido por Maria Laís Pereira da Silva (2005), até a década de
1930 as favelas mais populosas da cidade do Rio de Janeiro não estavam nos subúrbios,
mas concentravam-se nas áreas que hoje correspondem à zona central, zona sul e
início da zona norte (Tijuca e Engenho Novo). Baseada em ampla documentação, esta
autora mostrou que muitas das favelas mais antigas da cidade não se originaram de
“invasões”, e sim de práticas de aluguel de barracos ou mesmo “aluguel de chão”,
assim como autorizações para construção por parte dos proprietários de terrenos.
As narrativas de “invasões” teriam se generalizado, através da imprensa, apenas
nos anos 1950. Silva mostrou também que houve tentativas de remoção de muitas
destas favelas que, no entanto, resistiram através de movimentos organizados e
permaneceram onde estavam.

Entre as décadas de 1930 e 1960, a distribuição da população no espaço urbano do


Rio de Janeiro se alterou, assim como a população em favelas. Embora muitas favelas
tenham permanecido nas áreas de povoamento mais antigo, o subúrbio passou a
abrigar a maior parte da população em favelas do município, sobretudo na zona da
Leopoldina. Segundo Maurício de Abreu (2008), o aumento da população na zona
* Rute Imanishi Rodrigues é Eco-
nomista, técnica de planejamento da Leopoldina esteve relacionado com o desenvolvimento da indústria, e o aumento
e pesquisa do Instituto de Pesquisa mais que proporcional da população em favelas nesta zona da cidade teve, além disso,
Econômica Aplicada - IPEA, ORCID
<https://orcid.org/0000-0003-
relação com os aterros realizados para a construção da Avenida Brasil, na década de
0076-9314>. 1940. Lucien Parisse (1969), também relacionou o forte crescimento da população

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em favelas nesta zona da cidade entre 1950 e 1960, à disponibilidade de terrenos e


à localização da indústria. Estes fatores teriam favorecido as práticas de “invasão” de
terrenos e formação de favelas.

Os autores citados no parágrafo anterior revelaram aspectos importantes da expansão


das favelas para os subúrbios entre 1940 e início dos anos 1960, mas não exploraram
de forma suficiente a relação entre as intervenções urbanas fora das áreas dos
subúrbios e seus efeitos sobre o deslocamento relativo das favelas. Com efeito, as
obras viárias, as remodelações urbanas, e outras não diretamente relacionadas aos
subúrbios acarretaram, frequentemente, a remoção de favelas e seu reassentamento
em outro local, tanto neste como em outros períodos. Para o período pós-1964, as
remoções de favelas da zona sul para os subúrbios foram documentadas, mas tais
estudos referiram-se, principalmente, a reassentamentos para conjuntos habitacionais
(Valladares, 1978).

Neste trabalho pretende-se discutir a relação dos planos de remodelação urbana da


cidade do Rio de Janeiro com os programas para as favelas, sobretudo no que diz
respeito às ações governamentais de remoção e reassentamento, no período 1930-1964.
Mais especificamente, pretende-se discutir em que medida o aumento das favelas nos
subúrbios da cidade, notadamente na zona da Leopoldina, pode ser compreendido
como um resultado esperado dos programas governamentais para as favelas, e qual
o grau de sintonia destes programas com os planos urbanísticos da cidade.

Como será mostrado ao longo deste artigo, as ações governamentais de remoção e


reassentamento foram fundamentais para a formação ou expansão de determinados
núcleos de favelas nos subúrbios. O governo local, por um lado, removia favelas de
terrenos que passariam por reformas urbanas e, por outro lado, alojava as pessoas
removidas em terrenos estatais, muitas vezes criados através de aterros na zona da
Leopoldina, onde também estava localizada parte da indústria.

Este estudo refere-se ao período entre 1930 e 1964, delimitado por anos de ruptura
política, que pode ser considerado como uma fase do desenvolvimento institucional do
país, na qual foram ampliadas as funções do Estado dando origem às políticas sociais,
entre as quais a política de habitação (Bonduki, 1999). As favelas, embora fizessem
parte da questão da habitação, receberam atenção principalmente dos governos locais
de algumas cidades onde eram numerosas. No Rio de Janeiro, o Plano Agache, de
1930, o Código de Obras, de 1937, e o programa dos Parques Proletários Provisórios,
da década de 1940, referiram-se às favelas e balizaram as ações do governo relativas
a este tipo de habitação na maior parte do período considerado.

A pesquisa para a realização deste artigo concentrou-se na história das favelas dos
subúrbios da Leopoldina, por dois motivos principais. Em primeiro lugar, porque esta
foi a região da cidade onde as favelas mais cresceram no período em estudo (Abreu,
2008). Em segundo lugar, porque já existe um conjunto de trabalhos aprofundados
sobre a história de favelas desta região, tais como nos casos de Vigário Geral (Araújo
e Salles, 2008), Manguinhos (Fernandes e Costa, 2009), Jacarezinho (Pino, 2001),
Complexo da Maré (Silva, 2006) e Complexo do Alemão (IPEA, 2012), que permitem
estender a análise para alguns dos maiores complexos de favelas da região.

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Além da bibliografia especializada, foram consultadas fontes primárias tais como


o Plano Agache, o Código de Obras de 1937, e o acervo de Victor Tavares Moura,
sobre o programa dos Parques Proletários Provisórios, organizado pela Fundação
Casa de Oswaldo Cruz. Também foram consultados atos governamentais publicados
no Diário Oficial da União (DOU); o histórico fundiário das favelas de Vigário Geral,
Complexo da Penha e Complexo do Alemão, organizados pela Gerência de Terras e
Reassentamentos da Secretaria Municipal de Habitação da Prefeitura do Rio de Janeiro.
Além disso, realizou-se uma pesquisa sobre remoções/reassentamentos de favelas em
periódicos do acervo da Biblioteca Nacional.

Este artigo está organizado nas seguintes seções, além desta introdução. Na seção 2
busca-se identificar o papel das políticas para as favelas no Plano Agache e no Código
de Obras da cidade, e discutir em que medida este arcabouço urbanístico-institucional
delimitou as práticas observadas na execução do programa dos Parques Proletários
Provisórios. Na seção 3, documentam-se as ações governamentais de remoções de
favelas para “parques ou vilas proletárias”, ou mesmo terrenos estatais nos subúrbios
sem esta denominação, grosso modo, de acordo com cada gestão de governo local,
a partir de 1947 até 1964. Na seção 4, tecem-se algumas considerações finais.

Planos, normas e programas para as favelas

Plano Agache:
No âmbito da prefeitura do Distrito Federal, a questão da provisão de habitações para a
população em favelas foi tratada nos planos urbanísticos já na década de 1930. O plano
de remodelação urbana da cidade do Rio de Janeiro foi encomendado pelo prefeito
Antônio Prado Júnior, e elaborado por uma equipe dirigida pelo arquiteto francês Alfred
1 Segundo Valladares (2005), o Agache, entre 1928 e 1930.1 Neste plano, considerado o primeiro plano diretor da
Plano Agache reuniu um con-
junto de projetos já existentes e
cidade, as favelas foram apresentadas como um problema cuja solução dependia da
elaborados por técnicos locais. disponibilidade de terrenos baratos para a construção de “imóveis salubres a preços
módicos”, que tornariam viável a oferta de habitações para a “classe operária”.

A obra sugeria, então, a construção de “vilas jardins operárias” nos subúrbios do Rio
de Janeiro, inspiradas no modelo criado pelo urbanista inglês Ebenezer Howard, que
havia influenciado a construção de habitações nos subúrbios em diversas cidades da
Europa. O Plano Agache, entretanto, não tratou do desenho de tais “vilas jardins
operárias”, pois considerou o “preparo dos subúrbios operários” uma tarefa que só
poderia ser executada através de “leis sociais” que ainda não existiam. Esta legislação
foi tratada no apêndice da obra, onde foram sugeridos “projetos de leis sociais”.
Aí, argumentava-se que, em diversas cidades europeias, os governos locais tinham
adotado “políticas territoriais” que significaram a aquisição de grande proporção de
seus respectivos territórios, permitindo “estabilizar o mercado de terras” para produzir
casas baratas. Propunha-se, então, para o Rio de Janeiro, a constituição de um estoque
de terras públicas e estímulos à formação de sociedades para a construção de casas
para operários. Estas poderiam ser sociedades cooperativas ou “semi filantrópicas”
de “habitações módicas”, porém, argumentava-se que a melhor forma de conseguir
produzir habitações econômicas era através de empresas públicas, como as “Offices
d´habitation a bon marché”, que haviam se desenvolvido na França.

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Na proposta de zoneamento da cidade pelo Plano Agache, as zonas residenciais eram


divididas de acordo com as classes sociais. A zona da Leopoldina era a principal área
reservada aos bairros operários, pois era vizinha da zona industrial, planejada para ser
erguida sobre os aterros da área de Manguinhos. De acordo com o plano, os subúrbios
operários seriam formados pelos bairros atravessados pela linha de ferro da Leopoldina
(área principal), pela linha de ferro central do Brasil, como também o bairro de São
Cristóvão, aos pés do morro do Telégrafo, e as várzeas dos rios Jacaré, Faria e Timbó,
que deveriam ser saneadas (Distrito Federal, 1930, p. 188). Embora sem apresentar
projetos detalhados para a remodelação dos subúrbios, o Plano Agache esboçou as
linhas gerais do sistema viário e do saneamento dos bairros operários e sugeriu que
houvesse reservas de áreas verdes e de lazer no seu entorno.

O plano, por outro lado, tratou em detalhes a remodelação dos bairros centrais, onde
projetava-se um novo centro administrativo e comercial, e das zonas residenciais das
classes “abastadas”, para os quais foram sugeridos projetos específicos. Este era o
caso, por exemplo, da lagoa Rodrigo de Freitas, e dos bairros da orla sul. Nestes casos,
as favelas eram apresentadas como uma “lepra [que] suja a vizinhança das praias e
os bairros mais graciosamente dotados pela natureza” e deveriam ser derrubadas. A
remodelação urbana destas áreas era prioritária e, por isso, seria necessário transferir
os favelados para habitações provisórias, o que permitiria a liberação dos terrenos até
então ocupados por favelas (Distrito Federal, 1930, p. 189-190).

O Plano Agache esboçou também a reorganização da rede viária da cidade, e propôs


um conjunto de novas “artérias” viárias que posteriormente seriam desenvolvidas,
como as avenidas Brasil e Presidente Vargas, além de túneis conectando a zona sul
ao centro. Estas obras também acarretariam a remoção de habitações populares,
como cortiços e favelas.

Assim, na lógica da remodelação urbana proposta no Plano Agache, a solução


“definitiva” do problema das favelas era postergada para “após o preparo dos
subúrbios operários”, que por sua vez dependia da adoção de “leis sociais”. As leis
sociais referiam-se ao acúmulo de um estoque de terras pela prefeitura e a constituição
de organizações, seja na forma de cooperativas privadas, ou filantrópicas, seja através
de empresas públicas, para a construção de casas baratas. Estava subentendido que
tais organizações deveriam gerir o estoque de habitação social. Porém, como não
havia nem estoque de terras, nem organizações voltadas para a construção e gestão
das habitações, admitia-se uma solução imediata, ainda que “provisória”, apenas
para as comunidades que estavam situadas em locais que passariam por reforma. A
questão habitacional da favela, portanto, não era prioritária, e sim a questão da sua
localização, pois era prioritário remover as favelas dos locais considerados inadequados,
e era secundário detalhar os projetos habitacionais para os bairros operários. Por isso
o reassentamento era “provisório”, pois o plano não chegava a detalhar a solução
definitiva.

O Plano Agache foi elaborado como um Plano Diretor, e teve influência sobre a legislação
urbanística criada a partir de 1937 para o Distrito Federal e, embora tenha previsto, no
caso das remoções de favelas, apenas assentamentos provisórios, o código de obras
da cidade estabeleceu normas que permitiam a remoção de favelas e a transferência
dos moradores para assentamentos permanentes, como veremos a seguir.

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Código de Obras
O Código de Obras da cidade (Decreto no 6.000/1937) definiu o zoneamento e as
normas de construção do Distrito Federal seguindo, em muitos aspectos, as sugestões
2 Foram delimitadas as seguintes do Plano Agache.2 Para as favelas, o Código de Obras estabeleceu um regulamento à
zonas: comercial (ZC), portuária
parte que previa intervenção estatal no mercado de terras, ainda que marginal. Dois
(ZP), industrial (ZI), residencial (ZR)
e agrícola (ZA). A ZR era subdivi- artigos deste código merecem destaque, pois definiram a formação de “núcleos de
dida em três áreas: ZR1 (aproxi- habitações de tipo mínimo” (Artigo 347) e a “extinção das habitações anti-higiênicas
madamente, os bairros da atual
zona sul, exceto Ipanema, Leblon – Seção II - Favelas” (Artigo 349). Esses dois artigos eram complementares e tratavam
e Gávea, mais parte da Tijuca e da proibição tanto de novas favelas como da ampliação daquelas já existentes (Artigo
Vila Isabel), ZR2 (aproximadamen-
349), assim como da transformação das favelas em áreas especiais quanto ao padrão
te, o restante da região da Tijuca,
mais Ipanema, Leblon e Gávea) e de urbanização e à propriedade fundiária (Artigo 347).
ZR3 (aproximadamente, a região
da Barra da Tijuca, Jacarepaguá
e bairros da zona norte, exceto
O Artigo 347 estabeleceu que a prefeitura providenciasse a “formação de núcleos
os bairros acima da Penha). A ZA de habitações baratas, de tipo mínimo, em substituição às favelas, à medida que
compreendia, aproximadamente, essas forem sendo extintas”. Este artigo definiu o que seriam os “núcleos de
os bairros da zona oeste, mais
os bairros da zona norte não habitações de tipo mínimo”. Estes deveriam ter habitações “dispostas em arruamentos
compreendidos na ZR3 (Brandão, convenientemente traçados” e com “boas condições de higiene”. O artigo detalhava
1959; Borges, 2007).
os padrões mínimos de urbanização e as normas edilícias nos núcleos habitacionais,
3 Por exemplo, enquanto nos que eram menos exigentes que os adotados para as demais zonas da cidade.3 Os
loteamentos proletários o lote mí- núcleos de tipo mínimo poderiam ser construídos tanto em áreas já ocupadas por
nimo era de 225m2, nos núcleos
habitacionais de tipo mínimo favelas quanto em terrenos vazios. Ou seja, a redação do código não distinguia ações
o lote era de 41m2 (Brandão, de “reassentamento” de ações de “urbanização” de favelas, tratando ambas como
1959).
criação de “núcleos habitacionais de tipo mínimo”.

A norma previa que a propriedade dos terrenos nos núcleos habitacionais seria do
governo, seja por meio da desapropriação de terrenos privados, seja pela utilização
de terrenos da União e da prefeitura (ocupados ou não por favelas). Em outras
palavras, o Artigo 347 previa a “estatização” de algumas das favelas existentes para
fins de urbanização, assim como a incorporação de novos terrenos, da União e da
prefeitura, para criar novos núcleos habitacionais. As casas dos núcleos habitacionais
seriam vendidas pela prefeitura a “pessoas reconhecidamente pobres”, que pagariam
prestações mensais em valores módicos com base no valor da construção da casa
(excetuando o valor do terreno e das benfeitorias urbanas) e teriam um estatuto especial
de propriedade, pois não poderiam ser negociadas no mercado. O artigo estabelecia
ainda que os compradores poderiam devolver as casas à prefeitura, recebendo de
volta uma indenização pelos valores pagos, mas as casas não poderiam ser vendidas
a terceiros.

O Artigo 347 estabelecia também que instituições particulares sem fins lucrativos
4 Na ZR2, ficavam ainda proibidas
poderiam “ajudar” com donativos e auxiliar os trabalhos de construção e administração
as casas de madeira nos morros dos núcleos de habitações de tipo mínimo, sob a fiscalização da prefeitura. Ou seja, o
de Santa Teresa, do Pasmado, regulamento deixava aberta a possibilidade de tais núcleos serem administrados por
da Babilônia, e nas vertentes do
lado do mar dos morros de São
instituições de caridade e/ou assistência social.
João, da Saudade, dos Cabritos e
do Cantagalo. No Plano Agache, Além desses dois artigos direcionados às favelas, o Artigo 292 permitia a construção
havia uma sugestão muito similar
nos ‘projetos de leis e regulamen- de “casas expeditas de madeira” na Zona Agrícola (ZR) e nos morros das Zonas
tos’, seção VI. Residenciais (ZRs) mais afastadas do centro e da orla sul (ZR2 e ZR3).4

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Assim, o código de obras da cidade trazia para a realidade local, através dos “núcleos
habitacionais de tipo mínimo”, a proposta da criação de “habitações salubres a preços
módicos”, construídos em terrenos estatais, porém abandonava qualquer alusão às
“vilas jardins operárias” sugeridas no plano Agache como solução para as favelas.
Pelo contrário, previa-se para estes núcleos um padrão habitacional inferior ao aceito
em qualquer outro bairro da cidade. Saliente-se que a norma previa a urbanização de
determinadas favelas, que então passariam a ser consideradas “núcleos habitacionais
de tipo mínimo”. Os imóveis destes núcleos seriam estatais e por isso era preciso fazer
a gestão dos mesmos, mas não estava claro como a prefeitura se organizaria para
este fim. Ao mesmo tempo, sugeria-se que a gestão dos núcleos poderia ser feita
por entidades filantrópicas.

Está além do escopo deste artigo examinar todas as ações governamentais para as
favelas no período em estudo. Porém, a literatura mostra que prefeitura atuou em
diversas favelas, inclusive com obras pontuais de melhorias como bicas de água,
cabines de luz, construção de escadarias e etc., que envolveram entidades filantrópicas
e, sobretudo parcerias com a igreja católica, através de arranjos institucionais diver-
sos que se sucederam ao longo do período. Ao mesmo tempo, sabe-se que a prefei-
tura desapropriou terrenos de diversas favelas que passavam por conflitos fundiários
(Silva, 2005; Gonçalves, 2006).

Neste trabalho, a despeito das limitações de seu escopo, trabalha-se com a hipótese
de que, exceto no caso do programa dos parques proletários provisórios, o caráter
filantrópico prevaleceu na implementação da política para as favelas, sobretudo no
que diz respeito à gestão dos “núcleos de tipo mínimo”, e desta forma, as áreas de
intervenção não se diferenciaram das áreas não cobertas por tais ações, não sendo
possível distinguir tais núcleos de outras favelas. Como analisou Cunha (2005), a
atuação da igreja católica nas favelas pautava-se pela utilização da mão de obra dos
moradores para a realização das obras de infraestrutura, e dos recursos dos mesmos
para a manutenção dos serviços básicos. A atuação governamental, nestes termos,
pode ser entendida mais como apoio institucional à igreja católica para que esta
realizasse ações filantrópicas nas favelas, do que como um programa de habitação
popular estatal.

O Decreto no 6.000/1937, e suas modificações, vigorou na cidade do Rio de Janeiro


até 1967, quando foi substituído pela Lei no 1.574/1967, que estabeleceu regras
urbanas para o estado da Guanabara (Borges, 2007).

O programa dos Parques Proletários Provisórios


Na gestão de Henrique Dodsworth como prefeito do Distrito Federal (1937-1945) foi
reativada a comissão do Plano da Cidade, e diversas intervenções urbanas previstas
no Plano Agache foram realizadas. Entre elas, a demolição de vários quarteirões no
centro e a construção da Avenida Presidente Vargas, os aterros e a construção da
Avenida Brasil, a retificação das margens da lagoa Rodrigo de Freitas, o saneamento
das várzeas dos Rios Faria-timbó, entre outras (Abreu, 2008). Todas essas ações
implicaram em grande número de desabrigados, seja de cortiços seja de favelas, que
demandavam uma nova moradia.

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O programa dos Parques Proletários Provisórios, conhecido como a primeira política


governamental para as favelas da cidade, serviu ao propósito de viabilizar tais remoções.
Em linhas gerais, o programa visava à transferência de moradores de favelas para
alojamentos provisórios, onde receberiam assistência social, enquanto habitações
definitivas seriam viabilizadas. O programa tinha forte componente de controle social
(Leeds & Leeds, 1978) e foi dirigido pelo médico sanitarista Victor Tavares Moura,
que acompanhara a campanha contra os mocambos no Recife, e no Rio de Janeiro
coordenava o Albergue da Boa Vontade (Acervo da Casa de Oswaldo Cruz , 2005).

O desenho do programa tinha a mesma lógica do Plano Agache, pois contava com duas
etapas para a solução do problema das favelas. Além da etapa “provisória”, previa-
se a desapropriação de terrenos ocupados por favelas para sua urbanização, assim
como a utilização de terrenos estatais para a construção de habitações (Moura, 1940,
p. 8). Disponibilizados os terrenos, o plano de ação previa que “casas provisórias e se
possível definitivas, pelo menos do tipo mínimo permitido pela lei, serão imediatamente
construídas e para elas transferidos os moradores dos casebres” (Moura, 1941, p. 2,
grifo da autora).

Os resultados dessa política não seriam imediatos, mas esperados para o prazo de
dez a quinze anos. Segundo Moura,

A solução é complexa, mas pode encontrar-se começando por não destruir os ca-
sebres sem lhes dar substituto. Derrubem-se os barracões, mas imediatamente se
localizem o faveleiro em um meio que não lhe seja chocante (...). Deem-lhe o parque,
onde possa pouco a pouco ir obtendo os benefícios de uma terapêutica espiritual
(...). Atendendo ainda que a população aumenta, e os fatores que predominam para
a existência do “processus” favelas continuam, o Estado cuidará de achar um meio
de construção de grande escala de casas populares, principalmente nas zonas inter-
mediárias das estações das estradas de ferro (...). Tudo isso levaria tempo (...) creio,
porém, que ao termo de dez a quinze anos os resultados obtidos seriam extrema-
mente favoráveis. (Folha carioca, 1/7/1944 apud Parisse, 1969)

A ideia de Moura para o financiamento da construção de casas populares foi explicitada


em um texto de 1957, que faz um retrospecto do programa dos parques proletários,
no qual ele afirma ter defendido a construção de casas para aluguel para a população
favelada no início dos anos 1940 (Moura, 1957). A construção dessas casas, imaginava
Moura, seria financiada pelos Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPs), ou então
com recursos da venda de terrenos da prefeitura em áreas valorizadas.

O programa, tal como consta nos registros de Moura, no entanto, restringiu-se à


construção e gestão de quatro parques provisórios. Dezessete favelas, na Lagoa e no
Centro da cidade, foram extintas na gestão de Victor Tavares Moura no programa
dos Parques Proletários (Acervo da Casa de Oswaldo Cruz, 2005). A primeira ação
do programa foi a remoção de algumas favelas das margens da Lagoa Rodrigo de
Freitas, sendo seus moradores removidos para o Parque Proletário Provisório nú-
mero 1. Além do Parque Proletário número 1, na Gávea, a prefeitura construiu dois
outros parques: Parque número 2, no Caju, e Parque número 3, no Leblon (ao lado da
5 Os parques proletários da Gávea
e do Leblon (Praia do Pinto) foram favela da Praia do Pinto, na Lagoa), entre 1941 e 1943.5 Nos três casos, a prefeitura
extintos até a década de 1970. alocou terrenos para alojar pessoas removidas de favelas, onde foram construídos

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barracões de madeira como alojamento provisório. Os moradores deveriam pagar


aluguel, ainda que em valores módicos, à administração dos parques. Nos três parques
os terrenos eram de propriedade de órgãos públicos, ou arrendados pela prefeitura.

Os parques eram administrados pela secretaria de assistência social da prefeitura,


até 1945, e contavam com os recursos dos aluguéis para sua manutenção. Os
documentos do acervo de Victor Tavares Moura dão conta da precariedade das
instalações e infraestrutura dos três parques com o passar dos anos (Acervo da
Casa Oswaldo Cruz, 1943). Assim, eles acabaram sendo reconhecidos como favelas
já nos censos realizados em 1948 (prefeitura) e 1950 (IBGE). Eram, entretanto,
“favelas oficiais”, pois a prefeitura destinava funcionários e verbas esporádicas para
a reforma das instalações dos parques, até meados da década de 1950, de acordo
com registros do DOU.

Entre 1946 e 1947 foi criado mais um parque proletário provisório, o de número 4,
localizado em Manguinhos: o Parque Amorim. Em 1947, a comissão encarregada
do programa de extinção das favelas decidiu remover os moradores da favela do
Jockey Club, localizada entre a Lagoa Rodrigo de Freitas e o muro da pista de corridas
do Jockey, que, de acordo com o censo apurado pela comissão, contava com 521
casebres e 1.648 moradores (Acervo da Casa de Oswaldo Cruz, 1947a). Os moradores
desta favela seriam removidos para o Parque Proletário Provisório número 4, onde a
prefeitura construiria barracões provisórios. O parque possuía instalações coletivas,
dois barracões de triagem com capacidade para sessenta famílias, além de 130 casas
(Acervo da Casa de Oswaldo Cruz, 1947b).

As ações de remoções, entretanto, não se restringiram ao programa dos parques


proletários dirigido por Moura. Na gestão do prefeito Henrique Dodsworth, a prefeitura
acumulou um determinado estoque de terras, reunindo terrenos que já possuía ou
foram adquiridos, e possivelmente terrenos arrendados ou cedidos, e organizou
assentamentos permanentes. Artigos de periódicos da época relatam essa iniciativa.
Em outubro de 1942, o diretor do departamento de construções proletárias da
prefeitura, Duque Estrada, declarava que, seguindo ordens do prefeito, daria início
à “nova fase” do programa dos parques proletários, e estava em busca de áreas
devolutas (A Noite, 1/10/1942).

O próprio Henrique Dodsworth, fazendo um balanço de sua gestão na área das favelas,
afirmou, em 1956, que o programa havia avançado com a aquisição de terrenos:

O que importava fazer, e de fato foi feito, consistia na adoção de medidas provi-
sórias, mas de cunho imediato, isto é, a extinção das favelas, pela remoção dos
moradores para os Parques Proletários, e na adoção das providências para a solução
definitiva, isto é, a construção ulterior de grandes conjuntos residenciais destinados
a abrigar pessoas de trabalho certo, de família constituída, de boa conduta social, e
de saúde devidamente atestada. Para esse efeito foi adquirido o imenso terreno do
antigo Jardim Zoológico, em Vila Isabel, a Prefeitura recebeu terreno doado
pela Benemérita Irmandade da Penha, e foram considerados para a mesma
utilização terrenos da União, da Prefeitura e dos Institutos de Previdência.
(Correio da Manhã, 28/3/1956, grifo nosso)

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O ex-prefeito, entretanto, não comentou que alguns destes terrenos foram utilizados
para criar novos assentamentos na cidade, mesmo sem a construção dos aludidos
conjuntos habitacionais.

Este é o caso da favela Vila Proletária Nossa Senhora da Penha. Reportagens da época
relatam que a prefeitura “inaugurou” uma “vila proletária” no local onde já existia a
6A origem da Vila Cruzeiro é “favelinha da Penha” (provavelmente Vila Cruzeiro).6 Nesta área seriam construídas
anterior a 1940, pois em 1933 já
duas mil casas para abrigar “de oito a dez mil pobres” (A Noite, 1/4/1943; Diário da
estavam registrados 140 casebres
nas ruas que dão acesso à favela Noite, 2/4/1943; A Noite, 3/4/1943). A vila seria construída com material de demolição,
(Silva M. L., 2005). e havia planos de serem cobrados aluguéis dos moradores. O terreno fora cedido
para a prefeitura pela Irmandade Nossa Senhora da Penha alguns anos antes para a
construção de um cemitério, obra que nunca ocorreu. A prefeitura realizou obras no
terreno para o seu arruamento e instalação de infraestrutura, por meio do departamento
de construções proletárias, da secretaria da viação e obras do Distrito Federal, que era
também responsável pela construção dos parques proletários provisórios (Gazeta de
Notícias, 12/4/1946). Segundo o engenheiro Duque Estrada, responsável pela obra:

Dentro do Estado Nacional, em 5 anos de administração (...) o prefeito Henrique


Dodsworth fez mais pela pobreza da cidade do que foi feito em 50 anos de Repúbli-
ca. Estes terrenos, que por sua ordem receberão, até julho, 2000 casinhas proletárias
que abrigarão com relativo conforto e higiene de 8 a 10 mil pessoas pobres, são mais
uma prova disso. Trata-se de magnífico terreno, local salubre, situado no entronca-
mento de várias linhas de bondes, ônibus e servido por duas estradas de ferro. (...)
foi prevista para este local uma grande vila proletária, composta de 2 mil unidades
residenciais, além das praças, avenidas e ruas e das casas destinadas ao comércio de
primeira necessidade, um posto de polícia municipal e um ambulatório. (A Noite,
2/4/1943)

Em 1943 o prefeito inaugurou o primeiro núcleo de 400 casas, batizado de Cecy


Dodsworth (a primeira-dama). Deveriam ser entregues mais 1.600 casas. As declarações
do prefeito na ocasião sugerem que a obra ainda não estava concluída, mas, a partir
de então, seria conduzida pela Irmandade Nossa Senhora da Penha e não mais pela
prefeitura (A Noite, 1/4/1943). Assim como no caso dos parques proletários, a Vila
Proletária da Penha foi utilizada para abrigar os moradores removidos de outras favelas
(O Estado de S. Paulo, 13/4/1960; Última Hora, 13/10/1954).

Assim, na gestão de Henrique Dodsworth, à medida que se dava a realização do


plano de remodelação urbana, várias favelas eram removidas para parques proletários
provisórios, ou vilas/parques que podemos chamar de definitivos. No primeiro caso, a
prefeitura pretendia gerir os parques e controlar sua população, e mantinha registros
sobre os mesmos. No segundo caso, o governo aparentemente transferia a instituições
filantrópicas ou de assistência social, a gestão dos parques ou vilas, como no caso da
Vila Proletária da Penha. Ambos os tipos de assentamentos perderiam, nas décadas
seguintes, este vínculo direto ou indireto com a prefeitura, e seriam considerados
simplesmente como favelas.

Neste sentido, as políticas governamentais para as favelas, embora mantivessem o


espírito original do Plano Agache, ao prever duas etapas para a solução do problema
(provisória e definitiva), na prática, assim como permitido pelo código de obras,

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criavam (ou ajudava a criar) assentamentos definitivos nos subúrbios com padrões de
urbanização muito semelhantes às favelas. O que não estava previsto na norma é que
estes assentamentos permaneceriam distantes do controle urbanístico governamental
e que, a partir de determinado momento não seria sequer lembrado que fizeram parte
de um programa governamental.

A prática das remoções

1947-1951
Como foi tratado acima, o programa dos parques proletários provisórios permaneceu
sob a direção de Victor Tavares Moura durante a gestão do ex-prefeito Hildebrando de
Araújo Goes (fevereiro de 1946 a junho de 1947), quando foi criado o quarto parque
proletário, em Manguinhos. Nesta gestão, as ações sociais do programa passaram
a ser de responsabilidade da recém-criada Fundação Leão XIII, instituição da igreja
católica, e abrangeram não apenas os parques proletários provisórios, mas também
um conjunto de favelas.

Na gestão de Mendes de Moraes como prefeito da cidade (1947-1951), Victor Tavares


Moura foi substituído do posto que ocupava no departamento de assistência social
e, ao que parece, o programa dos parques proletários provisórios começou a ser
esquecido. As remoções para assentamentos, entretanto, prosseguiram. Em 1948,
a prefeitura divulgou um plano para a solução do problema das favelas que tinha
como base a remoção de favelados para novos núcleos habitacionais em terrenos
públicos. Diferentemente do plano de Victor Moura, entretanto, Mendes de Moraes
pretendia atingir um grande número de favelas em tempo mínimo e, além disso, não
fazia publicidade de onde seriam esses novos núcleos.

Redigido com linguagem militar, o plano teria a data de início no dia “D” e realizaria um
“expurgo” de pessoas, assim como demoliria casebres, de acordo com determinados
critérios (DOU, 15/7/1948). Os moradores remanescentes nas favelas, finalmente,
seriam encaminhados para os novos “núcleos habitacionais” ou “parques proletários”
a serem construídos pela prefeitura. As três primeiras favelas a serem extintas seriam
o Cantagalo, a Praia do Pinto – que deveriam ser removidas – e a Mangueira, que
deveria permanecer no local, sendo urbanizada.

Estudo sobre as favelas do Complexo de Manguinhos revelou que a implantação


das comunidades atualmente situadas no terreno do Parque Amorim, ou em áreas
contíguas, conhecidas como Parque João Goulart, Conjunto Habitacional Provisório 2
(CHP2) e Vila Turismo, ocorreu, sobretudo, a partir de remoções de favelas de outras
áreas da cidade promovidas pela prefeitura, em parceria com a Fundação Leão XIII, a
partir dos anos 1950 (Fernandes e Costa, 2009).

1951-1954
A primeira metade da década de 1950 foi bastante conturbada no Distrito Federal,
devido à instabilidade política do governo Vargas, que assumiu em janeiro de 1951,
e terminou com o suicídio do presidente em agosto de 1954. Entre 1951 e 1955, o
Distrito Federal teve quatro prefeitos.

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No plano local, em 1952, o prefeito João Carlos Vital criou o Serviço de Recuperação
das Favelas, que adotou uma política de remoções de determinadas favelas e melhorias
em algumas outras e tinha semelhanças com algumas ações praticadas na gestão
anterior. Com efeito, a nova administração manteve a “seleção” prévia dos moradores
das favelas, separando aqueles que poderiam ter algum auxílio dos que deveriam ser
expurgados, além de prever obras de melhorias em algumas favelas e remoção de outras
para locais “apropriados” (Diário de Notícias, 4/3/1952). Posteriormente, o prefeito
encaminhou à Câmara um pedido de verba adicional para “melhorar as condições
de vida, remoções e criação de parques de triagem” (Diário de Notícias, 10/9/1952).

A atuação do Serviço de Recuperação das Favelas prosseguiu com a remoção de


determinadas favelas da cidade, transferindo os moradores para alguns dos antigos
parques proletários e também para o conjunto habitacional Areal do IAPC, em Coelho
Neto, além de outras favelas, como o Grotão da Penha (Diário de Notícias, 29/4/1952;
1/5/1952; 6/5/1952; 4/6/1952; 6/12/1952).

Em janeiro de 1953, o novo prefeito Dulcídio Cardoso criou uma nova comissão de
favelas que deveria propor um plano de execução para a solução do problema e
afirmando que nenhuma favela poderia ser removida até que se providenciasse sua
instalação em outro local (Diário de Notícias, 31/1/1953).

1955-1960
As políticas governamentais para as favelas do Distrito Federal, na segunda metade da
década de 1950, foram marcadas pela atuação da Cruzada São Sebastião, criada em
1955, e do Serviço Especial de Recuperação das Favelas e Habitações Anti-Higiênicas
(SERFHA), criado em 1956.

Durante a realização do 36o Congresso Eucarístico Internacional, em 1955, foi lançada


a ideia de doar a madeira utilizada para as instalações do congresso para construir
casas para os favelados (Diário de Notícias, 23/4/1955). A Cruzada São Sebastião foi
uma instituição liderada pelo então bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro,
Dom Helder Câmara, e começou a ser organizada ao final daquele congresso.
Segundo reportagens da época, o presidente da República, Café Filho, ofereceu uma
verba à Cruzada para promover ações visando às favelas. Dom Helder pretendia a
solução do problema das favelas em um prazo de doze anos, que coincidiria com o
quarto centenário da cidade, quando todas as favelas deveriam estar urbanizadas.
O programa de urbanização começaria pela favela da Praia do Pinto, sendo seus
moradores transferidos para um novo conjunto habitacional (Cruzada São Sebastião,
no Leblon), que seria construído em tempo recorde, como um exemplo da campanha.

Além disso, o discurso da Cruzada focava o êxodo rural como o problema de fundo da
questão das favelas e propunha medidas para contê-lo. Dom Helder também enfatizava
as questões fundiárias das favelas e buscava terrenos para novos assentamentos. Dom
Helder se reuniu com “todos os presidentes dos IAPs” para a formação de “convênios
a serem assinados entre as referidas instituições e a Cruzada São Sebastião no tocante
à cessão de terrenos de propriedade dos IAPs”, sendo na ocasião assinado convênio
para a cessão de terreno no Morro Azul, em Botafogo, onde a Cruzada construiria
um bloco de apartamentos (Diário de Notícias, 10/4/1956).

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Ainda em 1956, na gestão de Negrão de Lima, a prefeitura do Distrito Federal instituiu


o Serviço para a Recuperação das Favelas e Habitações Anti-Higiênicas (SERFHA), que
teria atribuições compatíveis com o plano geral estabelecido pela Cruzada São Sebastião
(Decreto no 13.304, 28 de agosto de 1956). No mês seguinte à criação do SERFHA
foi promulgada pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek a chamada “Lei das Favelas”
(Lei no 2.875, de 19 de setembro de 1956), que destinava verba de Cr$ 50 milhões à
Cruzada São Sebastião para promover a urbanização das favelas do Distrito Federal,
assim como verbas com o mesmo fim para as cidades de Recife, Vitória e São Paulo.
No caso do Distrito Federal, proibia-se remoções de favelas por um período de dois
anos, assim como a destruição de casas de pessoas que não fossem contempladas
pelos projetos habitacionais apoiados por essa mesma lei.

Durante a vigência da proibição das remoções e despejos parece ter havido um aumento
do número de invasões, assim como uma mudança na forma de invadir novas áreas
(Correio da Manhã, 8/9/1957). Em carta publicada no Correio da Manhã (8/9/1957),
o prefeito da cidade, Negrão de Lima, afirmava que:

Ultimamente tem assumido extraordinária rapidez o método de construção de fa-


velas. Escolhido o local, os favelados levam seus móveis para ali e em torno destes
constroem o barraco, tudo isso, geralmente, em grupos, em menos de duas horas
e especialmente à noite ou de madrugada. Isto feito, o que acontece é sempre a
mesma coisa. Se o Serviço toma uma atitude e manda demolir o barraco, toda a
imprensa clama com violência. Mas se não remove esse mesmo barraco, a imprensa
clama igualmente.

O prefeito afirmava que a prefeitura estava apoiando a Cruzada São Sebastião e a


Fundação Leão XIII em ações de remoções de favelas e transferência dos moradores
para novos assentamentos.

Quanto a remover as favelas e instalá-las num terreno próprio, sendo que neste ter-
reno, já arruado, os favelados devem encontrar escola, assistência social, segurança
e orientação, é realmente a solução, e o governo, com este propósito, vem auxilian-
do e prestigiando a Cruzada São Sebastião e a Fundação Leão XIII (...). (Correio da
Manhã, 8/9/1957)

De fato, as ações do SERFHA, em conjunto com a Cruzada e/ou a Fundação Leão


XIII, naqueles anos, foram tanto no sentido de criar novos assentamentos ou parques
proletários nos subúrbios para alojar moradores de favelas removidas quanto realizar
acordos em determinadas áreas ocupadas estimulando a organização de comissões
para melhoramentos das favelas, com o apoio da Fundação Leão XIII.

No caso do Parque Proletário de Vigário Geral, o livro de Araújo e Salles (2008) revela
que a origem da favela foi a remoção de moradores das favelas Cidade Alta, Aterro
da Glória e Morro de Santo Antônio, pela prefeitura, para Vigário Geral na década
de 1950. Os moradores foram transferidos para a área de Vigário Geral e a prefeitura
forneceu madeira para a construção dos barracos e designou esta área como parque
proletário. Segundo relatos de moradores, havia um “guarda da prefeitura” que
tomava conta da área, loteava os terrenos e “autorizava” a construção de barracos.
Alguns moradores guardaram o documento emitido pelo SERFHA autorizando sua

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mudança da favela do Morro de Santo Antônio e a construção de um barraco em


Vigário Geral, em 1958. A maior parte da favela está situada em aterros da marinha
e terrenos do extinto Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Empregados em
Transportes de Cargas (IAPETEC).

A imprensa da época noticiou também a transferência de favelas de Santa Teresa


para o subúrbio, nos bairros de Ramos e Engenho de Dentro, onde o SERFHA havia
construído habitações provisórias, de madeira, para alojar os removidos (Correio da
Manhã, 28/10/1958; Diário de Notícias, 9/12/1958).

No caso da favela de Nova Brasília, no Complexo do Alemão, a imprensa local noticiou


a ocupação de um terreno de propriedade do IAPC, em 1957 (Correio da Manhã,
25/8/1957). O primeiro presidente da associação de moradores daquela favela, que
participou da ocupação, relata que o SERFHA esteve na favela na ocasião e fez um acordo
com os moradores, criando uma “comissão pró-melhoramentos”, que posteriormente
se converteria na Associação de Moradores de Nova Brasília (IPEA, 2012).

1961-1964
A gestão de Carlos Lacerda como primeiro governador do estado da Guanabara
inaugurou um período de remoções de favelas e transferência dos moradores para
conjuntos habitacionais construídos pelo governo, através da companhia estadual de
habitação (Cehab-GB), em grande escala, sendo os primeiros Vila Kennedy e Vila Aliança,
nos bairros de Bangu e Senador Camará, respectivamente. Não obstante, durante
seu governo, também foram criados “Conjuntos Habitacionais Provisórios” (CHPs),
ou unidades de triagem, onde os moradores de favelas removidas eram abrigados
provisoriamente em casas de madeira. Entre estes, destacam-se o de Manguinhos,
que já tinha sido criado como parque proletário número 4 e então mudou de nome
para CHP2 (Fernandes e Costa, 2009), e o de Nova Holanda, na favela da Maré.

Nesse processo de erradicação de favelas, os Centros de Habitação Provisória tiveram


um papel fundamental. Na verdade, ao longo do desenvolvimento da política de
Lacerda, esses centros foram desvirtuados de sua função original, para se tornarem
verdadeiros depósitos de favelados removidos. O maior dos CHP foi construído justa-
mente na Maré, e foi batizado com o nome de Nova Holanda. O Projeto Nova Holan-
da consistiu na realização de aterros de uma grande área da Marinha, na erradicação
de palafitas e na construção de casas de madeira, para abrigar provisoriamente os
moradores de favelas de outras áreas da cidade em processo de remoção: Favela
do Esqueleto, da Praia do Pinto, do Morro do Querosene e de Macedo Sobrinho.
(Silva, 2006, p. 92)

Carlos Lacerda também apoiou a ocupação de terrenos dos IAPs por favelados, como
pode ser constatado no trecho abaixo.

Convido as pessoas ou firmas que têm terrenos invadidos por favelas para entrarem
imediatamente em acordo com o Estado, a fim de recuperar uma parte e entregar
outra parte; assim evitaremos ter de desapropriar a totalidade do terreno. Quanto
aos terrenos federais, especialmente os dos Institutos de Previdência, se não
nos forem cedidos, serão ocupados pelos favelados, sob a orientação e a

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proteção do Estado, sempre que pudermos fazer projetos de urbanização e


utilização adequada desses terrenos que a Previdência Social conserva sem qual-
quer utilização. (Lacerda, 1964, p. 110, grifo nosso)

Embora os anos de 1961 a 1964 tenham representado um momento de mudança


na orientação dos programas para as favelas, ainda não havia um novo arcabouço
urbanístico-institucional, o que apenas ocorreu após o golpe militar de 1964. Assim,
pode se dizer que o governo Lacerda, foi um período de transição entre uma era
Figura 1: Localização das Fa-
velas e Parques Proletários no marcada pela remoção de favelas e seu reassentamento em terrenos estatais, para uma
município do Rio de Janeiro em nova fase da política para as favelas, em que o foco das ações estava na remoção de
1960. Fonte: Parrisse (1969),
apud Abreu (2008). Adaptação favelas para conjuntos habitacionais, que se consolidaria após 1964, com a instituição
da autora. do Banco Nacional de Habitação e o sistema de Companhias estaduais de habitação.

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zonas e circunscrições censitárias População Proporção zonas e circunscrições censitárias População Proporção

Zona do Litoral 54783 16,4% Zona do Meier 43294 12,9%

Copacabana 7093 2,1% Encantado 1101 0,3%


Gávea 8531 2,5% Engenho da Rainha 1768 0,5%
Ipanema 3228 1,0% Engenho Novo 8014 2,4%
Lagoa 5723 1,7% Inhaúma 303 0,1%
Leblon 9263 2,8% jacarezinho 22714 6,8%
Leme 3437 1,0% Lins de Vasconcelos 9394 2,8%
Niemeyer 17508 5,2%

Zona da Tijuca 63525 19,0% Zona de Madureira 6492 1,9%

Alto da Boa Vista 688 0,2% Bento Ribeiro 1464 0,4%


Andaraí 7437 2,2% Madureira 2451 0,7%
Grajaú 535 0,2% Osvaldo Cruz 385 0,1%
Maracanã 10703 3,2% Quintino Bocaiuva 747 0,2%
Rio Comprido 22484 6,7% Rocha Miranda 1445 0,4%
Tijuca 16748 5,0%
Vila Isabel 4930 1,5%

Zona da Baia de Guanabara 134388 40,1% Zona de Campo Grande 14277 4,3%

Centro 11920 3,6% Bangu 1965 0,6%


Gamboa 4883 1,5% Cosmos 1665 0,5%
Santa Teresa 7037 2,1% Magalhães Bastos 1614 0,5%
Realengo 9033 2,7%
Sul 11127 3,3%
Botafogo 9087 2,7%
Catete 494 0,1% Zona de Irajá 8869 2,6%
Laranjeiras 1546 0,5%
Coelho Neto 3860 1,2%
Norte 111341 33,2% Vicente de Carvalho 5009 1,5%
Benfica 5580 1,7%
Bonsucesso 29457 8,8% Zona de Anchieta 3072 0,9%
Brás de Pina 7304 2,2%
Caju 9105 2,7% Barros Filho 3072 0,9%
Cordovil 2499 0,7%
Higienópolis 2196 0,7% Ilhas 6363 1,9%
Olaria 395 0,1%
Penha 15575 4,6% Governador 6363 1,9%
Ramos 12342 3,7%
São Cristovão 17688 5,3%
Vigário Geral 9200 2,7% Total Rio de Janeiro 335063 100,0%

Tabela 1: População em Favelas


por Zonas e Bairros, 1960. Fonte:
IBGE Censo 1960 – Favelas do
Estado da Guanabara.

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Considerações gerais
No período de 1930 a 1964, as transformações na forma urbana do Rio de Janeiro
capitaneadas pela administração pública acarretaram diversas remoções de favelas e
seu reassentamento em outro local. Este artigo reuniu evidências de que, a partir da
década de 1940 e até meados da década de 1960, a administração da prefeitura do
Rio de Janeiro (ou estado da Guanabara) tomou a iniciativa de reassentar os favelados
removidos em terrenos estatais, principalmente nos subúrbios, amparada pela legislação
urbanística então vigente. Tudo indica que as ações de remoção e reassentamento
contribuíram para o crescimento e consolidação de alguns dos maiores complexos de
favelas da zona da Leopoldina.

Ao contrário do previsto nas normas urbanísticas, entretanto, a ação governamental


não foi capaz de regular o processo de ocupação, tampouco garantir os padrões,
ainda que mínimos, de urbanização nos assentamentos criados. Tais assentamentos
funcionaram, praticamente, como depósitos favelados. Os moradores de favelas eram
removidos de áreas que passariam por reforma e valorização, e eram esquecidos (ou
escondidos) em locais para os quais não havia projeto urbanístico algum, e sim a
mera disposição de recursos mínimos de sobrevivência como bicas de água e cabines
de luz. Em parte, este resultado relaciona-se à indefinição quanto aos direitos dos
moradores lá fixados e às características filantrópicas do aparato institucional que
tinha a incumbência de gerir os assentamentos e promover ações de urbanização.
Por outro lado, a própria administração municipal promoveu forte adensamento
populacional destes locais. Além disso, o êxodo rural no período de 1940 a 1960
trouxe milhares de novos moradores para a cidade e para as favelas, exercendo forte
pressão populacional sobre estas áreas.

A reconstituição do histórico fundiário de algumas das maiores favelas do Rio de


Janeiro indica que as práticas de ocupação de terrenos urbanos, que permanecem
até os dias atuais, ao contrário de terem se formado a partir de decisões isoladas de
grupos de “invasores”, se proliferaram dentro de um quadro institucional onde a
própria administração pública, através de suas práticas, contribuiu para sedimentar o
caminho em direção à favela.

Referências bibliográficas

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