O processo reescriturístico da Amazônia sob o olhar de Alfredo no Ciclo do Extremo Norte de Dalcídio Jurandir
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Hélen Suzandrey Maia Sousa (UC/UFPA)
Amazônia dalcidiana
A fortuna crítica que envolve a literatura dalcidiana merece destaque dentro do cenário de pesquisas em torno da Literatura Brasileira de Expressão
Amazônica, assunto que causou a defesa de opiniões díspares no que diz respeito à compreensão e às diferenças entre a “Literatura Amazônica” e a de “Expressão
Amazônica”. Dalcídio Jurandir retrata em suas narrativas a vida de personagens que constroem um enredo para a vida de Alfredo. Com uma peculiar forma de
descrever a Amazônia, fornece uma enciclopédia linguística que caracteriza o povo daquela região: sons, narrativas, personagens que só existem nesse território
brasileiro, tão pouco explorado pela literatura mundial.
Considerando os objetivos delineados para esta comunicação, procederemos à leitura analítica das obras Chove nos Campos de Cachoeira, Três Casas e
um Rio, Belém do Grão-Pará, Primeira Manhã e Ribanceira (obra que encerra o Ciclo do Extremo Norte), tendo em vista a investigação da trajetória de Alfredo,
personagem principal das tramas, que será o foco central deste estudo, para isto é imprescindível a análise das bibliografias especializadas sobre os conceitos de
transtextualidade, discursividade, sobrevida das personagens e a relação que há entre o texto literário e, para além disso, a concepção de espaço como vetor
estruturante da condição e davivência da personagem.
Para fundamentar tais parâmetros, tomaremos por base o conceito de transtextualidade de Gérard Genette em Palimpsestes. La littérature au second
degré. Haja vista que esses estudos nos fornecerão as coordenadas teóricas e os instrumentos de análise necessários para balizar e fundamentar a abordagem
escolhida sobre os aspectos ligados aos romances.
Alfredo diante da Amazônia
Considerando a importância da compreensão dos elementos que norteiam a construção das narrativas dalcidianas, é importante destacar a abundância de
personagens que constituem cada uma das narrativas do Ciclo do Extremo Norte, cabe, por conseguinte, caracterizar e conceituar a ideia de figuração que, em uma
análise mais profunda, Reis (2018) afirma ser um conjunto de entidades ficcionais de feição antropomórfica, que conduz individualmente a personagem em um
universo específico, com o qual esse personagem interage. Nesse caso, sabemos que Alfredo cumpre esse papel nos romances.
Todavia é importante salientar que a personagem se ocupa de um papel fundamental para construção de uma patente ficcional (ROSENFELD, 1976),
isto porque é através dela que conhecemos a narrativa, e é a partir dela que há uma concretização de elementos narratológicos, os quais, de modo mais profundo,
vão se conectar no emaranhado de histórias que fortalecem o imaginário e constroem no leitor uma relação afetuosa com a narrativa, e, consequentemente, com as
personagens, é o caso de Alfredo, no Ciclo do Extremo Norte. Esse, que é fonte fundamental para compreendermos o objetivo do autor, e que para além de meras
engrenagens textuais, a personagem está ligada ao enredo por meio de seus diálogos, formas de se expressar, ou mesmo por meio de suas características emotivas,
físicas e psicológicas etc., estas que são importantes para o entendimento do texto. Isto se deve, segundo Vieira, porque:
Definimos, pois a descrição como a caracterização directa, isto é, explícita, da personagem narrativa implantada pelo autor através de lexemas
na tessitura textual, conseguindo criar na mente do receptor um ser com figurações variáveis não só de leitor para leitor mas também no leitor
que faça releituras da mesma personagem devido a circunstancialismos vários. (VIEIRA, 2014, p. 127).
A primeira impressão que temos sobre Alfredo é ainda em Chove nos Campos de Cachoeira, e é exatamente nas páginas inicais que nos deparamos com
as primeiras inquietações de Alfredo: “– Alfredo não queria ser moreno mas se ofendia quando o chamavam de branco.” Nesse instante, o próprio leitor começa a
fazer breves indagações a respeito desse questionamento de Alfredo. Para Carlos Reis, o autor pouco sabe das suas personagens e reconhece mesmo que elas têm
um futuro que ele não controla; sabe “pouquíssimo do que virão a ser”, sendo certo que esses que estão nos livros são, “em suma, nós” (REIS, 2018, p. 120).
E na tentativa de amalgamar as perspectivas teóricas sobre transtextualidade e personagens de ficção é que trataremos neste capítulo sobre esses
conceitos que para nós indicam um caminho relevante no que tange à permanência efetiva de Alfredo, que atua como um fio condutor de outras narrativas e
romances do mesmo autor, isto é, estamos aqui nos reportando ao que nos parece mais eficaz para explicar o fenômeno de sua presença ao longo dos romances
amazônicos, uma vez que nos parece oportuno tratarmos sobre o conceito de sobrevida da personagem que diante da afirmação de Reis (2018), se estabelece por
uma dimensão de transcendência que ultrapassa os limites da ficção.
O romancista expressa em seus textos uma profunda inquietação , o que, de alguma forma, reflete na formação das personagens, e na composição dos
dramas humanos e existenciais que constitui um estilo próprio e que transmite em grande parte sua própria origem, mas que deságua na construção e na formação
de Alfredo. Diante disso, compreende-se que as obras dalcidianas são importantes para o enriquecimento do que conhecemos como Amazônia, no sentido de
reformular uma nova identidade literária, segundo Junior: “A memória em Dalcídio Jurandir é construtiva. Ela age tecendo fios entre personagens, lugares, tempos
e acontecimentos, tornando uns mais densos que outros” (JUNIOR, 2018, p. 225) .
É importante estabelecer alguns parâmetros que nos parecem relevantes: o primeiro é que Dalcídio enfoca, em certa medida, questões relacionadas ao
processo histórico desde a colonização até os tempos áureos da borracha, bem como sua decadência, nessa via ainda temos a busca pela afirmação de sua
identidade. A economia da borracha na Amazônia, embora seja propagada como um período áureo, na verdade não enriqueceu a região, apenas concentrou-se em
Belém, inicialmente ,e Manaus, posteriormente. Esse contexto é extremamente importante para compreender vários momentos das narrativas, além da condição de
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Doutoranda em Literatura de Língua Portuguesa na Universidade de Coimbra (UC), com cotutela da Universidade Federal do Pará (UFPA), Mestre em Ciência das Religiões pela Universidade
do Estado do Pará (UEPA), Especialista em Estudos Linguísticos e Análise Literária pela Universidade do Estado do Pará (UEPA), Graduada em Letras na Universidade da Amazônia
(UNAMA).
que alguns personagens que se encontram na história, como é o caso da família dos Alcântaras em Belém do Grão-Pará, que viveu esta época da borracha, e que
no romance relata a falência e não sabem como lidar com talfalência da família.
O segundo parâmetro é que os romances são bons argumentos para descrever a realidade da Amazônia, o cotidiano, fazendo com que as histórias de
todos os personagens tenham um valor agregado, de luta pela conscientização, projeção daqueles que vivem, literalmente, à margem da sociedade. E o terceiro, e
ao que tudo indica o mais relevante, que é quando Dalcídio se “refaz” em Alfredo, numa espécie de alter ego. Nele, as narrativas são supostamente descritas a
partir de sua própria experiência, que decorre, sobretudo, de uma obra que se comporta como um conjunto de informações e testemunhos de episódios que
transcende o imaginário, e passa a ter um valor documental. Nunes (2004) relembra: “Personagem central do Ciclo, alter ego, do narrador, Alfredo, só não está
presente em Marajó. É ele, ainda criança ,transferido para Belém a fim de prosseguir os estudos, que faz do conjunto um ciclo biográfico e geográfico”.
Nesse sentido, Dalcídio ingressou em um grupo seleto de autores que têm o espaço amazônico como referência para suas narrativas, no entanto a
discussão vai muito além destas questões relacionadas à ambientação das narrativas, alcança uma compreensão do fazer literário dentro do cenário da literatura
brasileira, é a forma da literatura ler e dialogar com a história amazônica (ASSMAR, 2002). Mas para que se compreenda de forma mais ampla essa relação, é
importante salientar que a realidade que configura a vida de quem vive na Amazônia busca ultrapassar as margens do preconceito, da marginalização e do
distanciamento das outras regiões do país, consideradas potencialmente literárias. Nessa ordem crítica, e com os conceitos e metodologias apresentados, é que foi
desenvolvida uma interpretação do corpus de narrativas sobre as “Amazônias”, considerando os elementos que as unem e as diferenciam entre si.
Desta forma, nossa análise irá além dos romances, que serão o principal corpus de nossa pesquisa, e, por isso, faz-se necessário um debate em torno da
importância da Literatura Brasileira de Expressão Amazônica. Essa que antes era conhecida como Literatura Amazônica, isto porque todo debate decorre entre a
ideia do que seria regional e universal. Nessa direção, Fernandes (2014) faz um longo debate em sua pesquisa “Literatura Brasileira de Expressão Amazônica,
Literatura da Amazônica ou Literatura Amazônica?”, publicado na revista de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba, em 2004, na qual
ressalta que o caráter nacional ou regional da produção amazônica, ou amazônida, é menos uma questão conceitual e mais exercício metodológico, de fato, o
pesquisador tem razão quando se trata de uma ideia epistemológica do conceito literal da Amazônia. E ainda reitera:
Em primeiro lugar, a fricção e a ficção entre Universal e o local (aqui entende-se entre o nacional e o regional) descortina um fato mais reticular
que é a IDENTIDADE, e na querela aqui tratada tem a ver com a relação entre o estético e o político, e porque não dizer o patético do
sentimento de pertença a uma nação (compreendo nação como o sentimento de identidade, história e destino comuns entre os usuários de uma
dada cultura). (FERNANDES, 2004, p. 113).
A literatura de Jurandir é por si uma dimensão da experiência ordinária. Por isso, nest a seção, será possível identificar essas possíveis pistas para a
compreensão do modo de vida daqueles que assistem na Amazônia, do mesmo modo que sua representação como produto identitário e a formação de uma
cultura nitidamente pouco divulgada no resto do Brasil. Dito isso, o estudo de seus romances são fundamentais para que possamos compreender a sociedade
amazônica da primeira metade do século XX, já que o autor presentificou esse espaço e construiu nos seus textos uma interpretação da sua experiência
testemunhal que de fato é a fonte de sua inspiração.
O romance Chove nos campos de Cachoeira, primeiro romance do Ciclo, será determinante, pois é neleque se conhece boa parte das personagens que
irão frequentar os romances da fase que tem como espaço a Vila de Cachoeira do Arari. Ao longo de aproximadamente quarenta anos , Dalcídio escreve o que
seriam as obras de sua vida. Chove nos campos de Cachoeira é obra que traz, de fato, o retrato da escória social, refaz o caminho da dor, da morte, do pessimismo,
da miséria humana em sua mais íntima e cruel realidade. Para isso, Dalcídio estabelece de maneira dialógica uma discussão interna, certa introspecção diante da
própria realidade da família do Eutanázio. Essa obra inaugura, em detalhes, uma gestação, que em meio a uma narrativa cheia de outras narrativas
interdependentes, nos traz o surgimento, ou melhor, o nascimento do menino Alfredo que, em meio a tantas histórias tristes e de mortes, concorre inevitavelmente
o “sonho” de um menino que alimenta a utopia de estudar na Capital.
O texto revela um projeto ousado de Dalcídio, um texto embrião, que seria o primeiro de uma série até então inédita na literatura brasileira, uma série de
romances que têm o mesmo personagem , Alfredo, que, em grande parte deles, se estabelece como protagonista ( comexceção do romance Marajó), ainda em meio
às inquietações e às dificuldades de aceitar sua condição de mestiço: “Alfredo não queria ser moreno, mas se ofendia quando o chamavam de branco”
(JURANDIR, 2019, p. 27).
No texto literário, o narrador decide o momento em que determinada informação entra e de que maneira isso será feito . Existem vários fatores que
interferem no espaço e no tempo vivido pelos personagens, e existe um espaço narrativo que antecede e o que se coloca após o olhar do leitor. Por isso, a
narrativa, enquanto discurso, pode ser analisada como forma de descrever a realidade narrada ou abordar particularidades do contexto narrativo, ou seja, a mesma
história pode ser narrada de diferentes formas. Essa relação pode ser considerada de duas ordens, uma de caráter hipertextual e a outra transtextual. Esse diálogo
entre os textos nos fornece um movimento que faz coexistir entre si, desde o título (paratexto) até a própria estrutura da narrativa (hipertexto) que nos apresenta o
caminho transtexto discursivo, evidenciando o aspecto reescriturístico do texto. Diante disso, podemos compreender quem é Alfredo, de que modo ele sobrevive
ao longo das narrativas e como as questões sociais atuam determinando sua personalidade.
Motivo pelo qual grande parte das histórias são estabelecidas a partir de uma relação de poder, logo nos primeiros romances de Dalcídio já se pode
perceber, primeiro com relação ao próprio pai de Alfredo, que apesar de ser chamado de Major, não tem essa patente militar. No romance subsequente, temos a
relação que Missunga estabelece com outras pessoas, principalmente as mulheres, essas relações de poder que grande parte das personagens se submetem e que
nem sempre são de fato, como as que temos no romance Belém do Grão-Pará, na família dos Alcântaras que, apesar de falidos, exercem uma certa governança
sobre essas relações de poder , masnem sempre se estabelecem pelo exercício de fato dessa relação, na maioria das vezes estão mais relacionados a “status” social
do que propriamente à condição financeira.
Desse modo, essas tramas se desenrolam a partir da consciência gerada por Jurandir na formação da sociedade, e na consciência de que só é possível
estabelecer a compreensão do dever social, se de alguma maneira exercer um determinado poder nesta sociedade, um exemplo disso, é o desejo de Alfredo de
estudar na capital, pois, desta forma , a adquiriria o estatuto de superioridade. Para Assmar, Dalcídio Jurandir analisa o destino dos pobres contrapondo ao dos
ricos e remediados que tem seu caráter desnudado. Mostra quem são, como vivem, como se relacionam em família e com os outros (2002). Destacamos , ainda, no
romance Primeira manhã, o debate mental e as inquietações de Alfredo que vão além de sua imaginação. É a partir de sua preocupação com o atraso no caminho
da escola que partilhamos de suas reflexões sobre os oito dias em que ficou em casa sem ir à escola, pois não tinha uniforme e nem material; também sobre de que
maneira isso poderia impactar no desenvolvimento intelectual dele, não só atrasado emoito dias do início das aulas, mas também o atrasado na série, pois tinha
dezesseis anos e iniciara o primeiro ano ginasial, o que corresponde ao quinto ano atualmente.
Alfredo entra na sala e vai para o fundo da sala, aula de química. Ele começa a pensar em muitas coisas, aqui observamos muitas digressões, pouco no
estudo ministrado. No final da aula, é cercado pelos alunos da terceira série e, na sequência, é expulso da sala e entregue à inspetora que lhe chamou atenção pelo
erro, pois assistira a aula na turma do terceiro ano. Já na turma do primeiro ano, Alfredo era bem maior que o restante dos alunos, o que lhe provocava mais uma
vez uma certa aflição. Aqui temos a relação de poder intelectual que muitas vezes é debatida por Dalcídio Jurandir em suas narrativas e de que também nos
ocuparemos neste capítulo.
O romance Ribanceira será analisado nest a seção. Ele nos oferece uma construção textual ambivalente, já que o texto nos apresenta um período
antropológico e, outro, deliberadamente poético. Es se é o último dos romances em que Alfredo aparece, e é através dele que teremos a oportunidade de reescrever,
analisar, compreender todas as mudanças que ocorreram no protagonista. Desta forma, podemos identificar as possíveis mudanças de seu comportamento ao longo
da Saga. Destacamos, ainda, a descrição da cidade a partir do olhar de Alfredo, sua rotina, festas, costumes, sons e imagens que fazem parte da cultura dos
habitantes desta região.
O caminho reescriturístico da Amazônia
Diante disso faz-se necessário validar a importância dada ao próprio texto que nos revela, a relação “trans” dos textos, devemos mergulhar em seus
próprios enigmas, haja vista que esta compreensão nos aponta para um caminho que, inevitavelmente, se estabelece a partir da compreensão de transtextualidade
de Gérard Genette, descrita em sua obra Palimpsestes. La littérature au second degré (1982), pois esta tem sido de grande valia para o entendimento do universo
literário dalcidiano, na condição hipertextual que subjaz às narrativas.
Na busca por um caminho teórico, destacamos seus estudos na intenção de propor uma maneira de analisar textos, partindo do conceito de palimpsesto,
que de forma mais simples é um pergaminho cuja primeira inscrição foi raspada para se traçar outra, que não se esconde de fato, de modo que se pode lê-la por
transparência, o antigo sob o novo (GENETTE, 2010). Assim, quem ler por último lerá melhor, já que o texto pode ler outro, até que se chegue ao fim dos textos,
que seria aqui conhecida como a literatura de segunda mão. Apropriando-se desta assertiva, verifica-se que os romances de Dalcídio Jurandir constituem-se de
novas leituras a partir de seus próprios textos, além da copresença de outros textos da literatura universal e, por conseguinte, sua relação hipertextual. Mas, para
além disso, fomenta a possibilidade de transformação dos textos, e que se acrescentam a partir da leitura, compreensão e da interpretação das narrativas, pois,
segundo Genette, “Não é preciso dizer que dois intérpretes ou grupo de intérpretes, suponho que disponham dos mesmos instrumentos, nunca executam de modo
idêntico a mesma partitura, e aqui novamente a capacidade de transformação é multiplicada por um fator virtualmente infinito” (GENETTE, 2010, p. 132).
Genette destaca sua preocupação em estabelecer critérios para a construção do conceito mais eficaz para as categorias transcendentais, por isso
classificou em cinco as categorias específicas de transcendência textual, enumeradas de maneira crescente de abstração e implicação, são elas: intertextualidade,
paratextualidade, metatextualidade, hipertextualidade e a arquitextualidade. E sobre isso, ainda enfatiza que
O objetivo da poética, como de certa forma eu já disse, não é o texto, considerado na sua singularidade (este é antes, tarefa da crítica), mas
arquitexto, ou se preferirmos, a arquitextualidade do texto (como se diz, em certa medida, é quase o mesmo que a “literariedade da
literatura), isto é, o conjunto das categorias gerais ou transcendentes – tipos de discurso, modos de enunciação, gêneros literários, etc. do
qual se destaca cada texto singular. Eu diria hoje, mais amplamente, que este objeto é a transtextualidade, ou transcendência textual do
texto, que definiria já, grosso modo, como “tudo que o coloca em relação, manifesta ou secreta com outros textos” (GENETTE, 2010, p.
4).
A partir dessas premissas, iniciaremos por definir o conceito de intertextualidade que nos será útil para compreender e analisar os romances do Ciclo do
Extremo Norte. Segundo as considerações de Genette, que seria a relação de copresença entre dois ou vários textos, isto é, essencialmente, e o mais
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frequentemente, como presença efetiva de um texto em outro . Éevidente esta relação nos textos de Dalcídio, pois reiteradas vezes ele se apropria de momentos
baseados em fatos históricos para compor as narrativas. É o caso de Belém do Grão- Pará: “Recordava Farias Brito, o filósofo que frequentava a casa, na 22, ao
tempo do lemismo.” (JURANDIR, 1960, p. 3).
Genette, ressalta ainda que esse tipo de transtextualidade corresponde a uma relação restrita, pois segundo o intertexto se define como um “traço”, ou
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seja, uma alusão, uma figura pontual, um detalhe, que implica em uma relação micro-textual . Apesar de destacar a importância do intertexto, a hipertextualidade
2
GENETTE, Gérard. Palimpsestes. La littératureau second degré, p. 8, 2010.
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é a principal maneira de se estabelecer relações entre texto, espaço, personagens, momentos e a própria concepção de sobrevida de Alfredo ao longo da obra de
Jurandir.
Considerações finais
Desse modo, basta conferir à obra dalcidiana um olhar minucioso para verificar o quão transtextual se fazem os romances que a compõem, conferindo a
Alfredo a condição de sobrevida que ele adquire ao longo dessas narrativas. Suspeitamos, inclusive, que Dalcídio Jurandir também reconhecia, de alguma
forma, a importância desses elementos na cultura, não se sabe ao certo se, conscientemente ou não, e a relação existente entre o universo discursivo que o
mesmo enfatiza (Amazônia). As interpretações aqui feitas acerca dos diversos aspectos referentes aos elementos narrativos conferem ao texto dalcidiano
maiores possibilidades de compreensão de suas obras e de análise de textos. Como já foi dito, não terminam e nem devem terminar por aqui, pois reconhecemos
que ainda ficarão diversos elementos vinculados à Literatura Brasileira de Expressão Amazônica fora das análises feitas, o que abre precedente para um espaço
de futuras pesquisas a serem realizadas por aqueles que se interessem por adentrar o universo amazônico.
REFERÊNCIAS
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JURANDIR, Dalcídio. Chão dos Lobos. Rio de Janeiro: Record, 1976.
JURANDIR, Dalcídio. Ponte do Galo. São Paulo: Martins; Rio de Janeiro: INL, 1971.
NUNES, Benedito. Dalcídio Jurandir oscilação romanesca. Asas da palavra, Universidade da Amazônia, v.9, n.01, 2004.
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