Tese (FINAL)
Tese (FINAL)
julho de 2024
Ana Carolina Teixeira Pereira
***
Coimbra, 2024
AGRADECIMENTOS
1
RESUMO
2
ABSTRACT
3
LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS
4
ÍNDICE
INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 7
CAPÍTULO I - O PERCURSO DA GESTAÇÃO DE SUBSTITUIÇÃO EM PORTUGAL:
A EVOLUÇÃO DA LEI DA PROCRIAÇÃO MEDICAMENTE ASSISTIDA (LPMA)
1. O panorama anterior à Lei n.º 32/2006, de 26 de julho ................................................. 8
2. Versão original da LPMA ............................................................................................ 10
3. Alterações importantes
3.1. A Lei n.º 25/2016, de 22 de Agosto e o Decreto Regulamentar n.º6/2017, de 31
de julho ........................................................................................................................ 12
3.2. A Lei n.º 90/2021, de 16 de Dezembro e a sua (falta de) regulamentação ........... 17
CAPÍTULO II – A GESTAÇÃO DE SUBSTITUIÇÃO NO PLANO INTERNACIONAL
1. Enquadramento geral ................................................................................................... 24
2. Estados Unidos da América ......................................................................................... 25
3. Reino Unido ................................................................................................................. 28
4. Grécia ........................................................................................................................... 30
5. A Jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem................................. 32
CAPÍTULO III — O CONTRATO DE GESTAÇÃO DE SUBSTITUIÇÃO NO DIREITO
PORTUGUÊS
1. Conceito e pressupostos de admissibilidade ................................................................ 36
2. Caracterização .............................................................................................................. 39
2.1. Natureza Jurídica .................................................................................................. 39
2.2. Forma e conteúdo ................................................................................................. 42
3. A sanção da nulidade face às particularidades do contrato de gestação de substituição
......................................................................................................................................... 43
CAPÍTULO IV – OS DIREITOS E OS DEVERES DA GESTANTE DE
SUBSTITUIÇÃO NO ÂMBITO DO CONTRATO
1. Os deveres
1.1. Dever de prestação de informação ........................................................................ 46
1.2. Dever de observância das prescrições médicas e dos cuidados considerados
normais durante uma gravidez ..................................................................................... 47
2. Os direitos
2.1. Direito a uma assistência médica digna durante a PMA, gestação e parto ........... 48
2.2. O direito ao arrependimento ................................................................................. 49
2.2.1. Consentimento informado e capacidade da gestante ..................................... 49
2.2.2. A problemática da revogação do consentimento da gestante e o Acórdão do
TC n.º 225/2018 ....................................................................................................... 52
2.2.3. As consequências do arrependimento em termos indemnizatórios ............... 63
2.3 Direitos laborais ..................................................................................................... 67
CONCLUSÃO ..................................................................................................................... 69
5
BIBLIOGRAFIA ................................................................................................................. 72
JURISPRUDÊNCIA ............................................................................................................ 82
6
INTRODUÇÃO
Proibida em vários países e permitida noutros, a gestação de substituição é ainda
objeto de discórdia, trazendo à superfície questões de índole social, ética e jurídica, as
quais estão longe de obter uma resposta pacífica e consensual.
Neste enquadramento, a consideração de direitos fundamentais relacionados com a
saúde reprodutiva, como o direito a constituir família, constitucionalmente consagrado,
debate-se com a proteção dos direitos da mulher gestante e da criança nascida, entre os
quais o direito à dignidade da pessoa humana. Este direito é, na perspetiva dos
proibicionistas, ofendido pela instrumentalização do corpo da gestante, e pela coisificação
da criança.
Perante esta acesa discussão, Portugal manteve-se firme quanto ao afastamento da
gestação de substituição do nosso ordenamento jurídico, acabando, contudo, por ceder em
2016, decidindo pela sua admissibilidade, embora num modelo estrito e condicionado, o
qual passou por admitir apenas a gestação de substituição altruísta, com vista à
concretização solidária do projeto parental de outrem (os beneficiários).
Assim, vislumbrou-se com a lei n.º 25/2016, de 22 de agosto, um futuro mais
esperançoso no que toca a esta prática, concretizando-se o desejo de muitos casais e
mulheres que aguardavam há anos pela sua chegada. Tal sentimento veio a manifestar-se,
oficialmente, em 7 de agosto de 2017, quando, apenas um mês após a regulamentação, deu
entrada no CNPMA o primeiro requerimento para celebração de um contrato de gestação
de substituição.
Ainda assim, o percurso da gestação de substituição em Portugal manteve-se
irregular, tecendo-se críticas a certos aspetos da referida lei, bem como suscitando-se a
inconstitucionalidade de determinadas normas, o que veio a culminar em novas alterações,
impulsionadas pela lei n.º 90/2021, de 16 de dezembro.
Hoje, não obstante o reconhecido mérito atribuído ao atual regime de gestação de
substituição - o qual procurou colmatar problemas levantados previamente -, permanecem
questões às quais urge responder, e aspetos sobre os quais é necessário debruçar, sobretudo
na perspetiva dos direitos e deveres da gestante de substituição, esta que, até ao nascimento
da criança, será a parte mais fragilizada no contrato, porquanto é ela que suporta a
gravidez, sujeitando-se às alterações físicas e psicológicas decorrentes da gestação em
favor de outrem, verificando-se uma limitação nos seus direitos de personalidade.
7
CAPÍTULO I - O PERCURSO DA GESTAÇÃO DE SUBSTITUIÇÃO EM
PORTUGAL: A EVOLUÇÃO DA LEI DA PROCRIAÇÃO MEDICAMENTE
ASSISTIDA (LPMA)
1
O caso Baby M remonta a 1985, quando o casal William Stern e Elizabeth Stern, devido a preocupações a
nível da saúde de Elizabeth, que sofria de esclerose múltipla, decidiram celebrar um contrato com Mary Beth
Whitehead, no qual, mediante o pagamento de 10.000 dólares, esta se obrigava a gerar um filho a favor do
casal, sendo que, para o efeito, recorrer-se-ia à inseminação artificial de Mary utilizando o sémen de William.
No final da gravidez, o bebé seria entregue ao casal beneficiário. Em 1986, após o nascimento do bebé (uma
menina), Mary Whitehead, não obstante apresentar sinais de não querer separar-se do recém-nascido,
entregou a criança a William e a Elizabeth, tal como havia sido contratado. Contudo, não demorou muito até
que Mary procurasse a criança de volta, o que, posteriormente, causou tal conflito que o casal Stern teve de
recorrer ao tribunal. Primeiramente, o New Jersey Superior Court, julgou o contrato que tinha sido celebrado
entre as partes, válido, ordenando que os poderes paternais fossem retirados a Mary Whitehead, devendo esta
entregar a criança ao casal, confiando, o tribunal, a guarda do bebé a William e Elizabeth Stern, com a
possibilidade desta última adotar a criança, para que, dessa forma, fosse dado cumprimento ao disposto no
contrato. Esta decisão foi, contudo, contrariada pelo Supremo Tribunal de New Jersey, o qual veio
desvalorizar o contrato celebrado e considerar William Stern e Mary Whitehead como os pais da bebé M,
caducando a adoção por Elizabeth Stern. No final, a criança foi entregue a William, por se entender que este
reunia melhores condições para cuidar e educar a criança, tendo sido concedida a Mary um direito de visita.
Cfr. [Link] (consultado a
30/12/2023); Oliveira, Guilherme de (1992), Mãe há só uma duas! O contrato de gestação, Coimbra,
Coimbra Editora, pp.87 e ss..
8
Na doutrina, GUILHERME DE OLIVEIRA, em 1992, aludia à invalidade dos
contratos de gestação a favor de outrem, quer onerosos, porque, ao estabelecerem um
preço, afetariam a dignidade humana da mulher gestante e da criança2, quer gratuitos,
porquanto contrários “aos princípios de ordem pública em matéria de direito da família”3.
Por sua vez, o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV)
também se pronunciou sobre a questão. Em 1993, no relatório 3/CNE/93, sobre reprodução
medicamente assistida, esta entidade abordou, ainda que brevemente, a gestação de
substituição, referindo-se especificamente às “mães de substituição”, manifestando um
ponto de vista contrário a esta figura, por estar em causa uma “instrumentalização da
mulher”, a qual, nesse entendimento, ficaria “como que reduzida a uma máquina de
gestação”4.
Em sentido diverso, VERA LÚCIA RAPOSO argumentava, sobre a maternidade de
substituição, “que a sociedade não deve proibir, mas sim regular de forma a conferir
adequada proteção às partes envolvidas, particularmente à mais frágil, o feto”5.
Antes da entrada em vigor da Lei n.º 32/2006, ainda surgiram alguns projetos e
propostas de lei6 que, entre outras medidas, pretendiam pôr fim ao silêncio legislativo que
se fazia sentir sobre a figura da gestação de substituição, mas estes acabaram sempre por se
revelar infrutíferos.
2
Oliveira, Guilherme de, Mãe há só..., op. cit., p. 45.
3
Ibidem, cit. p. 64.
4
CNECV, Relatório-Parecer sobre a Reprodução Medicamente Assistida (3/CNE/93), in
DOCUMENTAÇÃO, CNECV, vol. I, (1991-1993), p. 75-103. Disponível em:
[Link]
93?download_document=3058&token=fc35825d4935423ef6fd13af76b8a22a [consultado a: 05/01/2024].
5
Raposo, Vera Lúcia (2005), De Mãe para Mãe – Questões Legais e Éticas Suscitadas pela Maternidade de
Substituição, Coimbra Editora, cit. p. 141.
6
Aqui é de referir, em específico, o Projeto de Lei n.º 371/IX, sobre procriação medicamente assistida,
apresentado, em 2003, à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda. Trata-se de um projeto que, na
época, surgia como inovador, já que permitia a maternidade de substituição, desde que verificados certos
requisitos: a autorização do CNPMA; que a mulher beneficiária tivesse nascido sem útero ou com
malformação uterina que a impedisse de levar a termo uma gravidez, ou que esta tivesse sofrido
histerectomia ou qualquer outra doença que tornasse impossível uma gravidez de sucesso; e que o negócio da
maternidade de substituição fosse celebrado a título gratuito, proibindo-se qualquer pagamento. Disponível
em:
[Link]
526c6379394a5745786c5a79394562324e31625756756447397a5357357059326c6864476c32595338794d7a
5a6a5954566a5a433079597a56684c5451345a4451744f5755774e53316d596d526d4e4467314d6a5a6a4e446
7755a47396a&fich=[Link]&Inline=true [Consultado a: 05/01/2024].
9
2. Versão original da LPMA
Só em 2006, com a Lei n.º 32/2006, de 26 de julho, dita Lei da Procriação
Medicamente assistida (LPMA), é que se preencheu o vazio legislativo de até então, no
que concerne à gestação de substituição.
Este diploma previa, na sua versão original, a figura da maternidade de
substituição, estabelecendo, desde logo, no seu artigo 8.º, n.º 1, a nulidade destes negócios,
onerosos ou gratuitos.
Quer isto dizer que, desde 2006, e até à alteração da LPMA em 2016, era
expressamente proibido o recurso a esta via, pelo que, quem o fizesse, veria o negócio ser
nulo, e, consequentemente, este não produziria quaisquer efeitos.
Foi também neste artigo, no n.º 2, que se conceituou a maternidade de substituição,
entendida, assim, como “qualquer situação em que a mulher se disponha a suportar uma
gravidez por conta de outrem e a entregar a criança após o parto, renunciando aos
poderes e deveres próprios da maternidade”.
E para que dúvidas não restassem sobre o estabelecimento da maternidade, o n.º 3
do art. 8.º fazia questão de esclarecer que a mãe da criança que viesse a nascer no âmbito
de uma gravidez de substituição seria, para todos os efeitos legais, a gestante. Desta forma,
a primeira versão da LPMA procurava concretizar a regra geral que consta do n.º1 do art.
1796º do CC, no qual “relativamente à mãe, a filiação resulta do facto do nascimento”,
seguindo a máxima Mater Semper Certa Est.
A versão original da LPMA referia-se ainda à maternidade de substituição no seu
art. 39.º, no sentido de sancionar criminalmente o recurso à maternidade de substituição a
título oneroso, prevendo, desta forma, uma pena de prisão até 2 anos ou uma pena de multa
até 240 dias para quem concretizasse (n.º 1) e promovesse, por qualquer meio (n.º 2), tais
contratos. Esta solução legal revelava, assim, uma especial censura do legislador em
relação aos contratos de maternidade de substituição onerosos, punindo criminalmente a
sua concretização e promoção, ao passo que, para os contratos gratuitos, a sanção seria
somente a nulidade do negócio, não se extravasando o plano do direito civil.
Reconhece-se que o legislador tenha procurado, com a criminalização, “reprimir a
profissionalização das ‹‹mães hospedeiras››”7, aderindo às críticas lançadas à gestação de
7
Vale e Reis, Rafael (2022), Procriação medicamente assistida, Gestação de substituição, anonimato do
dador e outros problemas, 1ª edição, GESTLEGAL, cit. p. 222.
10
substituição comercial, as quais sempre passaram, de uma forma ou de outra, pela
comercialização e instrumentalização do corpo da mulher, pela violação da sua dignidade
humana, pela coisificação do bebé, e pelo perigo do turismo procriativo8, no entanto,
parece-nos uma opção um tanto excessiva a aplicação do direito penal nesta matéria,
criminalizando-se uma prática que, por muito moralmente cinzenta que possa ser, não
necessariamente há de merecer censura penal. Relembrando as palavras de MARIA JOÃO
ANTUNES, “ao direito penal cabe a tutela de bens jurídicos dotados de dignidade penal,
não a decisão de controvérsias morais, o reforço de normas morais ou, em suma, a tutela
de qualquer moral”9.
Objeto de crítica era também a ambiguidade da expressão “concretizar contratos de
maternidade de substituição”, a qual não se entendia se haveria de corresponder à simples
celebração do contrato ou à execução do mesmo10.
Em 2009, o Tribunal Constitucional veio pronunciar-se sobre a questão da
criminalização, a pedido de um grupo de Deputados da Assembleia da República11. Por
estes, era posta em causa a criminalização dos contratos de maternidade de substituição a
título oneroso, sem o mesmo se aplicar aos contratos gratuitos, o que, no entender dos
requerentes, revelava “permissividade relativamente ao negócio da maternidade de
substituição” e representava “um risco para a dignidade e outros direitos do ser humano”,
constituindo “fraude à lei, por ir contra o estabelecido no artigo 8.º” do diploma.
Apreciada a questão, o TC aludiu para a menor censurabilidade da maternidade de
substituição gratuita, porque reveladora de “altruísmo e solidariedade da mãe gestadora
em relação à mulher infértil”, não havendo qualquer “instrumentalização de uma pessoa
economicamente carenciada”, precisamente porque nestes negócios, a gestação a favor de
outrem não é levada a cabo mediante a fixação de uma contrapartida, como sucede nos
negócios onerosos. De resto, apontou o TC que a decisão do legislador de punir
8
Para uma leitura mais aprofundada sobre os argumentos frequentemente apontados contra a gestação de
substituição, sobretudo comercial, vide Pereira, Maria Margarida Silva (2017), Uma gestação
inconstitucional: o descaminho da Lei da Gestação de Substituição, Revista JULGAR, pp. 7-9. Disponível
em [Link]
[Consultado a: 05/01/2024]; Oliveira, Guilherme de, Mãe há..., op. cit., pp. 17-46.
9
Antunes, Maria João (2009-2010), Procriação medicamente assistida: questões novas ou questões renovadas
para o direito penal?, in Estudos em homenagem ao Professor Doutor Jorge de Figueiredo Dias, org. Manuel
da Costa Andrade, Maria João Antunes e Susana Aires de Sousa, vol. III, Coimbra Editora, Coimbra, cit.
p.81.
10
Sobre este ponto vide Vale e Reis, Rafael, Procriação medicamente..., op. cit., p. 222 e 223.
11
Acórdão do TC n.º 101/2009, de 3 de março de 2009, processo n.º 963/06, relator Carlos Fernandes
Cadilha.
11
criminalmente apenas os contratos de maternidade de substituição a título oneroso, era tão
só uma opção sua, a qual cabia ainda no âmbito da sua livre deliberação, não sendo o
legislador obrigado a penalizar todas as condutas “que embora tenham resultados
indesejáveis do ponto de vista social, se situam em contextos pessoais e emocionais de tal
forma complexos que se torna difícil formular um juízo global de censura, nos termos em
que tal juízo vai pressuposto em toda a sanção penal”.
3. Alterações importantes
3.1. A Lei n.º 25/2016, de 22 de Agosto e o Decreto Regulamentar n.º6/2017, de 31 de
julho
Cerca de dez anos volvidos desde a primeira versão da Lei n. º32/2006, eis que é
aprovada a Lei n.º 25/2016, de 22 de Agosto, a qual veio proceder à terceira alteração à
LPMA.
No que à gestação de substituição diz respeito, a mudança deu-se, desde logo, pela
modificação da terminologia utilizada, passando a figura da maternidade de substituição a
designar-se “gestação de substituição”. Tal alteração seguiu aquilo que o CNECV já tinha
proposto em 2012, no parecer n.º 63, ao aludir para o facto de que “a semântica nunca é
indiferente em Bioética”, aprofundando que a expressão “maternidade de substituição”
poderia ser “indiciadora de equívocos e ambiguidades éticas e antropológicas, por supor
como tacitamente aceite a fragmentação da maternidade biológica (genética e uterina),
social e jurídica”, optando, assim, pelo uso da expressão “gestação de substituição”12.
A Lei n.º 25/2016 veio pôr fim à proibição que vigorava até então, passando a
admitir os negócios de gestação de substituição, embora num modelo estrito e
condicionado. De facto, a celebração destes negócios não era livre, estando sujeita à
verificação de determinados requisitos, delineados no art. 8.º, os quais, não se verificando,
resultariam na nulidade do negócio (n.º 12 do art. 8.º).
A gestação de substituição seria excecional, só tendo lugar perante a “ausência de
útero, de lesão ou de doença deste órgão que impeça de forma absoluta e definitiva a
12
CNECV, Parecer n.º 63 do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida - Procriação
medicamente assistida e gestação de substituição (63/CNECV/2012), Lisboa, março de 2012, cit. pp. 7-8.
Disponível em: [Link]
assistida-e-gestacao-de-sub?download_document=3126&token=c903995e3e86bc6166351ab23658cf6f
[Consultado a 07/01/2024].
12
gravidez da mulher ou em situações clínicas que o justifiquem” (2ª parte do n.º2 do
art.8.º)13.
Apenas eram admitidos negócios de gestação de substituição com natureza gratuita
(1ª parte do n. º2 do art. 8.º), pelo que os negócios onerosos mantinham-se absolutamente
proibidos. Como tal, não era permitido qualquer tipo de pagamento ou doação de bens à
gestante, sendo apenas admissível o pagamento das despesas próprias da gravidez (n.º 5 do
art.º 8.º). Ademais, a gestação de substituição só poderia ter lugar se não existisse uma
qualquer relação de subordinação económica entre as partes intervenientes no contrato (n.º
6 do art. 8.º).
O legislador fazia depender a validade destes contratos da inexistência de uma
ligação genética entre a gestante e o bebé, pelo que, a gestação de substituição só seria
autorizada com recurso a uma técnica de procriação medicamente assistida que utilizasse
gâmetas de pelo menos um dos beneficiários, não podendo a gestante ser dadora de
ovócitos (n. º3 do art. 8.º).
A celebração de negócios jurídicos de gestação de substituição dependia, sempre,
de autorização prévia do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida, o qual
supervisionaria todo o processo (n. º4 do art. 8.º), e o contrato celebrado tinha de ter forma
escrita (n.º 10 do art. 8.º).
Cumprido o disposto na lei, teríamos, por fim, um contrato de gestação de
substituição válido, pelo que, nascida a criança, a filiação estabelecer-se-ia em relação aos
beneficiários (n. º7 do art. 8.º).
A lei n.º 25/2016 manteve a criminalização dos contratos de gestação a título
oneroso14, estabelecendo, contudo, uma distinção entre a sanção prevista para os
beneficiários (pena de prisão até 2 anos ou pena de multa até 240 dias)15 e a sanção
prevista para a gestante de substituição (pena de multa até 240 dias)16 quando estes
intervenientes concretizassem contratos de gestação de substituição a título oneroso.
Se a decisão do legislador em criminalizar a concretização de contratos de gestação
onerosos já era objeto de crítica, pelo seu exagero e dubiedade, nada fazia prever que o
13
A expressão “situações clínicas que o justifiquem” foi objeto de críticas, pela incerteza e ambiguidade que
suscitava. Neste sentido vide Raposo, Vera Lúcia (2017), Tudo aquilo que você sempre quis saber sobre
contratos de gestação (mas o legislador teve medo de responder), in Revista do Ministério Público, 149,
Janeiro: Março 2017, pp. 27-28.
14
Cfr. art. 39.º da LPMA (alterada pela Lei n.º 25/2016).
15
Cfr. n.º1 do Art. 39.º da LPMA (alterada pela Lei n.º 25/2016).
16
Cfr. n.º 2 do Art. 39.º, da LPMA (alterada pela Lei n.º 25/2016).
13
próximo passo seria alargar esta criminalização também aos contratos gratuitos, mas foi o
que sucedeu. Assim, o art. 39.º da LPMA passou a sancionar criminalmente quem,
enquanto beneficiário, concretizasse contratos de gestação de substituição a título gratuito,
fora dos casos previstos nos n.ºs 2 a 6 do art. 8.º da mesma lei, com uma pena de prisão até
1 ano ou pena de multa até 120 dias (n.º 3 do art. 39.º); e quem, enquanto gestante de
substituição, concretizasse, nos mesmos termos, tais contratos, punindo-a com uma pena
de multa até 120 dias (n.º4 do art. 39.º).
Ora, a punição da gestante e dos beneficiários pela concretização de contratos de
gestação a título gratuito que não cumpram certas normas do artigo 8.º não pode
considerar-se um avanço na direção certa, mas antes um excesso por parte do legislador,
este que ignora as críticas que já se apontavam à solução consagrada anteriormente no que
toca aos contratos onerosos, e as agrava, ao determinar um alargamento que “vai
totalmente contra a razão de ser do direito criminal e a ideia nuclear de última ratio da
intervenção penal”17.
A lei n.º 25/2016 foi objeto de regulamentação, encetada pelo Decreto
Regulamentar n.º 6/2017, de 31 de julho.
No preâmbulo deste decreto, estabeleceram-se objetivos no sentido da definição do
procedimento de autorização prévia, bem como do conteúdo do próprio contrato de
gestação de substituição, visando-se garantir a prevalência dos interesses da criança e a
devida consideração dos interesses da gestante de substituição.
Destacou-se “a importância de privilegiar a ligação da mãe genética com a
criança, ao longo do processo de gestação, designadamente no âmbito da celebração e da
execução do próprio contrato, circunscrevendo-se a relação da gestante de substituição
com a criança nascida ao mínimo indispensável, pelos potenciais riscos psicológicos e
afetivos que essa relação comporta”. O legislador ressalvou, contudo, as situações em que
a gestante será uma familiar próxima, como sucede muitas das vezes numa gestação de
substituição altruísta, podendo, nestes casos, existir uma relação de proximidade entre a
gestante e a criança nascida. Esta observação remete a um parecer do CNECV sobre o
projeto de decreto regulamentar da lei n.º 25/201618, no qual se tinha alertado para a
17
Raposo, Vera Lúcia, Tudo aquilo que você..., [Link]., cit. p. 29
18
CNECV, Relatório e Parecer sobre o Projeto de Decreto Regulamentar referente à regulamentação da
Lei n.º25/2016, de 22 de agosto, que regula o acesso à gestação de substituição (92/CNECV/2017), Lisboa,
Janeiro de 2017. Disponível em: [Link]
14
possibilidade de a gestante de substituição ser, por exemplo, a mãe ou irmã da beneficiária,
o que poderia inviabilizar a hipótese da manutenção de uma relação mínima entre a
gestante e a criança19.
Procurou-se ainda, com o referido decreto, “assegurar a máxima segurança médica
possível, acautelando o envolvimento de todas as partes, numa decisão alicerçada na
tutela de interesses comuns e, em especial, dos interesses da criança”, e garantir à gestante
um acompanhamento psicológico antes e após o parto, assim procurando corrigir o que já
havia sido notado no parecer do CNECV sobre a anterior regulamentação proposta20.
O CNPMA, na deliberação n.º18-II/2017 de 8 de setembro21, veio estabelecer as
fases correspondentes à autorização prévia da gestação de substituição, fundando-se, entre
outros, nas disposições do decreto regulamentar n.º 6/2017, de 31 de julho.
Nesse sentido, este Conselho delimitou o procedimento em três grandes fases: a
fase liminar; a fase instrutória/decisória; a fase executória.
A fase liminar22 teria início com a apresentação do pedido de autorização prévia,
dirigido ao Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA), através de
formulário criado e disponibilizado pelo mesmo Conselho, o qual deveria ser subscrito
pelos beneficiários e pela gestante de substituição23. Um tal pedido teria de ser
acompanhado pelos elementos e documentação previstos no n.º2 do art.º 2.º do DR n.º
6/2017.
Após a receção do pedido, caberia ao CNPMA deliberar, no prazo máximo de 60
dias, sobre a sua admissão ou rejeição24, sendo certo que, durante este prazo, o CNPMA
poderia, excecionalmente, solicitar aos requerentes outras informações ou documentos,
suspendendo-se, nesse caso, o referido prazo até à receção da documentação/informação25.
sobre-o-projeto-de-decreto-
regulamenta?download_document=3218&token=eaa15604c3e7c41fdc7dc365b64166fc [Consultado a:
23/03/2024].
19
CNECV, Parecer 92/CNECV/2017, p.7
20
Ibidem.
21
CNPMA, Deliberação n.º 18-II/2017 de 8 de setembro - Procedimento de autorização prévia para a
celebração de contratos de gestação de substituição, Porto, 8 de setembro de 2017. Disponível em:
[Link] [Consultado a:
24/03/2024].
22
Ibidem, pp. 5-8.
23
Cfr. n.º 1 do art. 2.º do DR n.º 6/2017, de 31 de julho.
24
Cfr. primeira parte do n.º3 do art. 2.º do DR n.º6/2017, de 31 de julho.
25
Cfr. n.º4 do art. 2.º do DR n.º6/2017, de 31 de julho.
15
Em caso de admissão do pedido, iniciar-se-ia a segunda etapa do procedimento,
correspondente à fase instrutória/decisória26, remetendo-se para a Ordem dos Médicos a
documentação médica exigida aquando da apresentação do pedido, para efeito de aferição
das condições estabelecidas nos n.ºs 2 e 3 do artigo 8.º da LPMA (2016), solicitando-se a
esta entidade o seu parecer27, o qual deveria ser emitido no prazo de 60 dias a contar da
receção da referida documentação28, sob pena de o procedimento prosseguir e ser decidido
sem esse parecer29.
Decorrido esse prazo, com ou sem parecer da ordem dos médicos, o CNPMA teria
de decidir, no prazo de 60 dias, no sentido da autorização ou rejeição da celebração do
contrato de gestação de substituição30, podendo efetuar, nesse âmbito, todas as diligências
consideradas adequadas e necessárias à tomada da sua decisão, designadamente, “a
realização de uma reunião com a gestante de substituição e o casal beneficiário, e a
realização de uma avaliação completa e independente do casal beneficiário e da gestante
de substituição, por uma equipa técnica e multidisciplinar designadamente na área da
saúde materna e da saúde mental” (n.º 9, art. 2.º do DR n.º6/2017, de 31 de julho).
Sendo autorizada a celebração do contrato de gestação de substituição, teria lugar a
última fase do procedimento: a fase executória31. Esta corresponderia, portanto, à
assinatura do contrato e à aposição da declaração de autorização do CNPMA, e terminaria
quando verificada alguma forma de extinção do mesmo (cumprimento, não cumprimento,
caducidade, revogação, resolução ou denúncia).
Relativamente ao contrato de gestação de substituição, o art.º 3.º do DR n.º6/2017,
previa a disponibilização, pelo CNPMA, de um contrato-tipo de gestação de substituição, o
qual deveria conter os elementos essenciais do contrato (n.º1), dele constando cláusulas
que tivessem por objeto as matérias previstas nas alíneas a) a m) do n.º3, podendo as
partes, por acordo entre elas, aditarem outras cláusulas ao contrato-tipo (n.º2).
O art. 4.º do DR n.º6/2017 mencionava a revogabilidade das declarações negociais
das partes, as quais, ao tempo, só poderiam revogar o seu consentimento até ao início dos
processos terapêuticos de PMA.
26
CNPMA, Deliberação n.º18-II/2017 de 8 de setembro, pp.8-10.
27
Cfr. segunda parte do n.º3 do art. 2.º do DR n.º6/2017, de 31 de julho.
28
Cfr. n.º5 do art. 2.º do DR n.º6/2017, de 31 de julho.
29
Cfr. n.º7 do art. 2.º do DR n.º6/2017, de 31 de julho
30
Cfr. n.º8 do art. 2.º do DR n.º6/2017, de 31 de julho
31
CNPMA, Deliberação n.º18-II/2017 de 8 de setembro, pp. 10 e 11.
16
Por sua vez, o artigo 5.º do decreto regulamentar garantia a igualdade no recurso a
técnicas de PMA no serviço nacional de saúde, devendo o acesso a essas técnicas ser igual
quer para o casal beneficiário e para a gestante de substituição, quer para os beneficiários
das técnicas de PMA ao abrigo da LPMA.
Por fim, consagrava-se no artigo 6.º do DR n.º6/2017, o regime de proteção de
parentalidade, estabelecendo-se os termos da licença parental prevista para o casal
beneficiário, e do regime previsto para a gestante de substituição durante a gestação e no
pós-parto. Podem tecer-se críticas à opção do legislador no que toca ao regime aplicável à
gestante no pós-parto, as quais veremos aquando dos direitos da gestante, mas que, desde
já, se entende que não se coadunam com a intenção de atender devidamente aos interesses
da gestante, como tinha sido delineado no preâmbulo deste decreto-regulamentar.
A regulamentação final acolheu, assim, algumas das críticas dirigidas pelo CNECV
ao projeto de regulamentação apresentado previamente, como as referentes aos elementos
essenciais do contrato-tipo, no qual algumas questões fundamentais ficavam por
disciplinar, assim como no que respeita à existência de condições de exclusão de
candidatas a gestantes de substituição, o que se considerava inaceitável32, corrigindo-se
estes aspetos. Outras observações não foram, contudo, consideradas na regulamentação
final, designadamente, a “questão da existência de um eventual parceiro da gestante de
substituição, nomeadamente no que respeita a obrigações que lhe serão extensíveis”33.
32
CNECV, Parecer 92/CNECV/2017, p. 9.
33
Ibidem, cit. pp. 7 e 8.
17
casos de ausência de útero, de lesão ou de doença deste órgão ou outra situação clínica
que impeça de forma absoluta e definitiva a gravidez da mulher”.
O n.º 3 do art. 8.º introduz uma novidade, ao determinar que a gestante de
substituição deve ser, preferencialmente, uma mulher que já tenha sido mãe. Esta sugestão
do legislador parece fundar-se numa tentativa de contornar a fragilidade destes negócios e
os conflitos que daí possam advir quando a gestante é uma mulher que leva a cabo, pela
primeira vez, uma gravidez, o que poderá fazer surgir nesta uma intensa ligação afetiva
com a criança, aumentando a probabilidade de arrependimento da gestante34.
A celebração de negócios de gestação de substituição continua a ter de ser
autorizada previamente pelo Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida, o
qual deverá supervisionar todo o processo, no entanto, para que tal autorização possa ser
concedida, passou a exigir-se, além da audição da Ordem dos Médicos, também a audição
da Ordem dos Psicólogos (n.º 5 do art. 8.º). Este acrescento não surpreende, e podemos,
aliás, considerá-lo uma mais-valia, sobretudo do ponto de vista da gestante.
O Parecer da Ordem dos Psicólogos, sobre o Anteprojeto do Diploma
Regulamentar da Lei n.º 90/2021, de 16 de dezembro35, ajuda-nos a perceber o impacto
psicológico da gestação de substituição, quer para a gestante, quer para os beneficiários.
De facto, estamos a falar de uma prática que, como o nome indica, envolve uma
gestação, a qual, por sua vez, “implica um enorme conjunto de alterações bioquímicas e
hormonais na mulher, cuja ligação à criança se vai construindo ao longo da gestação”36.
Como tal, há o risco de, após o nascimento da criança, a gestante não se querer separar da
mesma, ou fazendo-o, de que isso cause nela graves perturbações psicológicas.
No que toca aos beneficiários, estes, até chegarem à gestação de substituição,
muitas vezes já percorreram um caminho tumultuoso com a procriação medicamente
assistida, a que agora se acrescenta o facto de, durante 9 meses, terem de viver com
incertezas em relação à gestação de substituição, nomeadamente, no que diz respeito ao
34
Neste sentido vide Coutinho, Diana Sofia Araújo (2022), As Problemáticas e os Desafios Contemporâneos
em torno da Gestação de Substituição, Coimbra, Almedina, p. 619.
35
Parecer Ordem dos Psicólogos, Gestação de Substituição-Anteprojecto de diploma regulamentar da Lei n.º
90/2021, de 16 de Dezembro, Lisboa, 02 de junho de 2022. Disponível em:
[Link]
esta____o_de_substitui____o_.pdf [Consultado em 15/01/2024].
36
Ibidem, cit. p.4.
18
arrependimento da gestante e à sua conexão com o bebé, o que poderá originar um forte
impacto negativo no seu psicológico37.
Assim, é fundamental que, antes da autorização da gestação de substituição, seja
realizada uma rigorosa avaliação psicológica da candidata a gestante de substituição e dos
beneficiários, levada a cabo por profissionais de saúde com formação para tal (psicólogos),
a fim de se perceber até que ponto é que os intervenientes estão mentalmente preparados
para embarcar naquele processo, tendo em conta as complexidades, riscos e incertezas que
ele comporta. Tal há de culminar num parecer emitido pela Ordem dos Psicólogos, à qual
competirá assegurar que todos os procedimentos recomendados durante a avaliação foram
cumpridos.
O rigor do legislador, ao exigir a audição da ordem dos psicólogos e ao sugerir que
seja escolhida uma gestante que já tenha sido mãe, prende-se, assim, com uma tentativa de
mitigar os casos de arrependimento da gestante, sobretudo face às alterações que a Lei n.º
90/2021 veio introduzir no que toca ao consentimento desta. O n.º 10 do art. 8.º, na sua
redação atual, manda aplicar à validade e eficácia do consentimento das parte, no âmbito
da gestação de substituição, o disposto no artigo 14.º da LPMA, com exceção do n.º 4,
estabelecendo que, no caso da gestante de substituição, esta poderá revogar o seu
consentimento até ao registo da criança nascida, consagrando-se como que um “direito ao
arrependimento” da gestante que se estende para lá do parto.
A Lei n.º 90/2021, de 16 de dezembro continua, hoje, sem regulamentação, muito
embora tenha já decorrido o prazo máximo previsto para a mesma38.
Em 2022, o CNECV pronunciou-se sobre o anteprojeto de diploma regulamentar da
lei n.º 90/202139, destacando alguns aspetos que poderiam merecer uma maior reflexão
quanto: ao processo de autorização prévia40; aos deveres dos beneficiários em caso de
revogação do consentimento da gestante e no que toca à questão do estabelecimento da
paternidade41; à imposição de deveres à gestante de substituição42; à proteção da
37
Parecer Ordem dos Psicólogos, Gestação de substituição- Anteprojecto de diploma regulamentar..., [Link].,
p. 5.
38
Cfr. art. 48.º da Lei n.º 90/2021, de 16 de dezembro.
39
CNECV, 115/CNECV/2022, Parecer sobre o anteprojeto de diploma regulamentar da lei n.º 90/2021, de 16
de dezembro em matéria de gestação de substituição (115/CNECV/2022), Lisboa, maio de 2022. Disponível
em:
[Link]
71d [Consultado a: 05/05/2024].
40
Ibidem, pp. 6 e 7.
41
Ibidem, pp. 7-9.
19
parentalidade, relativamente ao início da licença parental dos beneficiários43; à forma de
renúncia da revogação do consentimento da gestante e prazo para exercer o direito de
arrependimento44; e à possibilidade de aposição de cláusulas indemnizatórias no contrato
de gestação de substituição45.
Em 2023, o CNEV foi novamente chamado a emitir o seu parecer relativamente ao
projeto de decreto-lei de regulamentação da lei n.º 90/202146.
Este Conselho comentou sobre algumas normas do referido projeto, as quais
poderiam ser objeto de melhoria, alertando, desde logo, para a necessidade de “reforço de
meios humanos e de capacitação funcional” do CNPMA47.
Destacamos, do parecer do CNECV, as anotações relativamente aos Pareceres da
Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos, os quais, de acordo com o estabelecido no
projeto, poderiam não ser considerados na tomada da decisão final, apesar de tal solução
ter sido criticada previamente. O CNECV insistiu na sua objeção a esta norma, apontando
para um desrespeito para com aquelas entidades públicas, fugindo tal disposição ao
previsto na Lei n.º 90/2021, pelo que tais pareceres deveriam, em todo o caso, ser
obrigatórios48. Concordamos com esta posição, porquanto dificilmente se pode entender
que a lei exija, previamente à autorização da celebração do contrato de gestação de
substituição, a audição da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos49, para
posteriormente, a sua regulamentação decidir pela não obrigatoriedade, podendo o
procedimento prosseguir sem estes pareceres, os quais, ademais, consideramos
absolutamente importantes na tomada da decisão final, visto que a gestação de substituição
corresponde a um processo complexo, que requer uma correta e completa avaliação de
cada caso, o que só é possível com o recurso a entidades competentes e especializadas.
Outro aspeto deste projeto de decreto-lei, que mereceu reflexão do CNECV, é
referente à falta de previsão de um prazo razoável para a gestante tomar uma decisão livre
42
Ibidem, pp. 9 e 10.
43
Ibidem, p. 10.
44
Ibidem, pp. 10 e 11.
45
Ibidem, pp. 11 e 12.
46
CNECV, Parecer sobre o projeto de Decreto-Lei que procede à regulamentação da Lei n.º 90/2021, de 16
de dezembro, que altera o regime aplicável à gestação de substituição (122/CNECV/2023), Lisboa, abril de
2023. Disponível em: [Link]
2023?download_document=10894&token=a250ad40c83f7d5a644e720e6f4d50dd (Consultado a:
06/05/2024).
47
Ibidem, p. 3.
48
Ibidem.
49
Cfr. n.º 5 do art. 8.º da Lei n.º 90/2021, de 16 de dezembro.
20
e consciente no que toca ao arrependimento (ou não arrependimento), defendendo-se a
delimitação de um período de reflexão, de forma a acautelar o direito de revogação do
consentimento da mulher gestante50, um ponto de vista que subscrevemos, e que
aprofundaremos posteriormente.
Relevante é também a questão que foi levantada pelo CNECV no que respeita ao
procedimento a adotar perante a revogação do consentimento da gestante a admitir-se um
prazo de reflexão, designadamente, o local ou entidade onde deve ser entregue a
declaração de revogação de consentimento, quem deve proceder à entrega da criança à
gestante, como deve ser feita essa entrega, em quanto tempo deverá acontecer, e a revisão
do registo51.
Este Conselho advertiu ainda para a necessidade de aperfeiçoamento da norma que
previa a possibilidade de os beneficiários que contribuíram com gâmetas exigirem à
gestante que um dos seus nomes viesse a constar do assento de nascimento como
progenitor(a) da criança, devendo esta norma ser mais clara no que respeita ao
“estabelecimento de vínculos de filiação também face aos progenitores genéticos”, numa
“filiação dupla: com a mãe gestante e com a(s) pessoa(s) que forneceu/ou forneceram o
material genético”, cabendo, posteriormente, ao tribunal, regular as responsabilidades
parentais52.
Uma outra entidade que também apresentou o seu parecer sobre o projeto de
decreto-lei que temos vindo a analisar foi o CNPMA53, o qual evidenciou a imprecisão de
certas normas, sobre as quais caberiam algumas retificações, de forma a tornar o texto da
lei o mais claro e rigoroso possível, gerando, assim, menos incerteza para o intérprete e
aplicador da lei54.
O Conselho pronunciou-se ainda pela insuficiência da regulamentação apresentada,
fundando o seu entendimento nos interesses e direitos da criança, os quais considerou não
terem sido devidamente acautelados no referido projeto. Este, ao focar-se quase
50
CNECV, 122/CNECV/2023, p. 4.
51
CNECV, 122/CNECV/2023, p. 5.
52
Ibidem, p. 6.
53
CNPMA, Parecer referente ao projeto de decreto-lei que procede à regulamentação da Lei n.º 90/2021,
de 16 de dezembro, que altera o regime jurídico aplicável à gestação de substituição, Lisboa, maio de 2023.
Disponível em:
[Link]
3%a7%c3%a3o%20GS_5%20de%20Maio%20de%[Link] (Consultado a: 06/05/2024).
54
Ibidem, p. 3.
21
exclusivamente nos beneficiários e na gestante, ignorava o direito da criança nascida a ter
uma relação com os beneficiários em caso de revogação do consentimento da gestante55.
Neste sentido, o CNPMA mencionou uma norma que tinha sido já evidenciada pelo
CNECV, relativamente ao direito de exigir que um dos nomes dos beneficiários que
contribuíram com material genético constasse do assento de nascimento como progenitor
da criança nascida, criticando, todavia, o facto de não se prever os termos desta exigência,
nem a forma de estipulação das responsabilidades parentais56.
O parecer termina com uma manifestação no sentido da necessidade de encontrar
uma solução que permitisse “dotar o CNPMA das condições imprescindíveis para o
cumprimento imediato das suas atribuições, sob pena de inaplicabilidade ou
incumprimento da lei”57, o que também tinha sido indicado pelo CNECV face às
obrigações e responsabilidades acrescidas daquele conselho.
Mais recentemente, em setembro de 2023, o CNPMA voltou a pronunciar-se sobre
o projeto de regulamentação58, ora alterado, denotando, mais uma vez, a presença de
insuficiências que não permitiam acautelar eficientemente o interesse das partes e o
superior interesse da criança, não prevenindo potenciais conflitos, nem regulando o modo
de resolução dos mesmos59.
Reiterando logo de início a sua posição, no que respeita à falta de condições do
Conselho para concretizar as competências e responsabilidades que lhe são atribuídas, as
quais deveriam ser supridas antes da entrada em vigor do Decreto-Lei60, o CNPMA
censurou também a exclusão, do novo projeto, de certas normas, previstas anteriormente,
as quais foram substituídas por conceitos vagos ou desapareceram por completo, dando
lugar a um vazio legislativo em relação a certas matérias. Salientou-se ainda o facto de o
legislador ter ignorado, no projeto de decreto-lei, certos assuntos, que seriam importantes
considerar, nomeadamente no que respeita ao estabelecimento da filiação em relação ao
beneficiário que tenha contribuído com gâmetas seus, no caso de revogação do
55
CNPMA, Parecer referente ao projeto de decreto-lei..., [Link]., p. 3.
56
Ibidem, pp. 6 e 7.
57
Ibidem, pp. 8 e 9.
58
CNPMA, Parecer do CNPMA relativo ao projeto de Decreto-Lei que procede à regulamentação da Lei n.º
90/2021, de 16 de dezembro, emitido em 7 de setembro de 2023, Lisboa, 7 de setembro de 2023. Disponível
em: [Link]
(Consultado a: 07/05/2024).
59
Ibidem, p. 1.
60
Ibidem, p. 2.
22
consentimento da gestante, bem como o facto de todos os prazos terem sido encurtados, o
que tornaria impossível a execução do diploma61.
A respeito deste novo projeto, o CNECV emitiu o seu terceiro parecer referente à
regulamentação da Lei n.º 90/202162, detetando irregularidades e deficiências normativas
que deveriam ser sanadas, e que remontam a preocupações que tinham já sido
identificadas, acrescentando outras novas.
Neste sentido, o Conselho voltou a insistir no estabelecimento de um prazo
razoável para o exercício do direito de arrependimento da gestante, o qual deverá estar em
conformidade com os interesses da criança e as legítimas expectativas dos beneficiários,
bem como, na necessidade de regulação da relação jurídica familiar em caso de revogação
do consentimento da gestante63.
O CNECV apontou para um recuo do novo projeto de Decreto-Lei em relação à
anterior proposta, ao deixar de prever expressamente que, no caso da gestante ser uma
mulher casada, o seu marido não será considerado o pai da criança, assim aplicando-se a
presunção de paternidade em relação a este, o qual nunca consentiu no projeto parental,
nem para tal contribuiu com o seu material genético64.
Em suma, entendeu o CNECV que a regulamentação proposta mostrava-se
insuficiente à concretização dos objetivos de proteção da criança nascida por gestação de
substituição; da “cabal e inequívoca clarificação dos direitos e deveres das partes
envolvidas”; da “promoção da justiça, integridade e transparência dos procedimentos”; e
da “eliminação ou minimização das áreas de potencial conflito entre as partes envolvidas,
ocasionadoras de eventual litigância”65.
Desta forma, no início do ano de 2024, o Presidente da República, atendendo aos
pareceres acima analisados, devolveu ao Governo o diploma regulamentar da Lei n.º
61
Ibidem, pp. 3 e 4.
62
CNECV, Parecer sobre o projeto de Decreto-Lei que procede à regulamentação da Lei n.º 90/2021, de 16
de dezembro, que altera o regime aplicável à gestação de substituição (126/CNECV/2023), Lisboa,
setembro de 2023. Disponível em: [Link]
2023?download_document=11521&token=6a3f99ed0f150e8d2d1274cedfa566f3 (Consultado a:
07/05/2024).
63
Ibidem, p. 8.
64
Ibidem, pp. 6 e 7.
65
Ibidem, p. 8.
23
90/2021, sem promulgação, por considerar não estarem reunidas as condições para a eficaz
regulamentação da matéria de gestação de substituição66.
1. Enquadramento geral
A gestação de substituição convoca matérias de grande sensibilidade, radicadas na
dignidade da mulher gestante e no superior interesse da criança, que originam decisões e
leis substancialmente diferentes, e que dificilmente encontrarão consenso.
Se certos países manifestam já uma abertura à gestação de substituição, mais ou
menos condicionada, outros mantém-se cautelosos quanto à admissão de uma tal figura e
tudo o que ela implica.
Na Europa, para além de Portugal, também o Reino Unido, a Grécia, a Holanda, a
Rússia e a Ucrânia decidiram acolher no seu ordenamento jurídico a gestação de
substituição. Outros, como a França, Espanha, Alemanha, e Itália, proíbem expressamente
o recurso a tal prática.
Fora deste continente, e atravessando o atlântico, é nos Estados Unidos da América
que podemos assistir a uma realidade edificada entre Estados que apresentam, a respeito da
gestação de substituição, uma legislação liberal (como é o caso da Califórnia), e outros que
optam por uma lei mais conservadora, condicionando o acesso a esta prática à verificação
de um apertado conjunto de requisitos (é o caso da Flórida e do Louisiana).
Configura-se, pois, como relevante, para o desenvolvimento do nosso trabalho, uma
abordagem aos diferentes modelos de gestação de substituição pensados por alguns
ordenamentos jurídicos onde ela é admitida, assim como a apresentação de dois
importantes casos que originaram jurisprudência do TEDH sobre esta matéria,
construindo-se o caminho para o modelo Português da gestação de substituição.
66
Sítio oficial de informação da Presidência da República Portuguesa, Presidente da República devolve
regulamentação da PMA, 13 de janeiro de 2024. Disponível em: [Link]
a-atualidade/2024/01/presidente-da-republica-devolve-regulamentacao-da-pma/ (Consultado a: 10/05/2024).
24
2. Estados Unidos da América
Nos Estados Unidos da América, a gestação de substituição não é tratada de forma
uniforme, inexistindo uma legislação única sobre esta temática, que seja aplicável a todos
os Estados. Como tal, cabe a cada Estado decidir se, e em que termos, é permitido o acesso
à gestação de substituição, e como se processa o estabelecimento da filiação.
Neste sentido, entre os Estados que procuram ativamente preencher o vazio
legislativo no que toca à gestação de substituição, adotando uma posição sobre a prática e
os termos em que esta é admitida, outros há que optam por não legislar sobre esta matéria
67
, configurando uma abertura que possibilita o recurso à gestação de substituição, embora
sem regulamentação, pelo que poderão decorrer, posteriormente, litígios, os quais terão de
ser resolvidos em instância competente. Assim, em alguns Estados, é a jurisprudência dos
tribunais que estabelece uma precedência quanto ao tratamento dado à problemática
decorrente do vácuo detetado na lei sobre a gestação de substituição, permitindo extrair
uma resposta sobre a sua forma de regular o recurso a esta técnica. Noutros, contudo, não
existe qualquer jurisprudência a respeito desta temática, sendo incerta a posição adotada
quanto à resolução dos conflitos emergentes da gestação de substituição68.
Entre os Estados que admitem expressamente a gestação de substituição, a
Califórnia é aquele que apresenta uma legislação mais permissiva, sendo, por isso,
considerado “surrogacy friendly”69. A lei prevê e regula somente os casos de Gestational
Surrogacy7071, em que a gestante não contribui com os seus gâmetas para a técnica de
procriação medicamente assistida anterior à transferência embrionária72, apenas levando a
67
É o caso do Alabama, do Minnesota, da Carolina do Norte e do Sul, do Havai, entre outros.
68
Snyder, Steven H. (2016), Reproductive Surrogacy in the United States of America - trajectories and
trends, in Handbook of Gestational Surrogacy-International Clinical Practice and Policy Issues, Editado por
E. Scott Sills, Cambridge University Press, p. 281. Disponível em:
[Link]
ents/surrogacy/trajectories_and_trends_ch._37_shs.pdf (Consultado a: 07/06/2024).
69
Vale e Reis, Procriação medicamente..., op. cit., cit. p. 262.
70
California Code, Family Code, FAM 7962.
71
De notar, no entanto, que a lei também não estabelece qualquer proibição relativamente à Traditional
Surrogacy, originando uma lacuna que permite o recurso a esta modalidade, embora sujeito a alguma
insegurança jurídica em virtude da falta de regulamentação.
72
Dentro da Gestação de Substituição, tem-se distinguido entre uma substituição genética (traditional
surrogacy) e uma substituição meramente gestacional (gestational surrogacy). Numa substituição genética, a
gestante é inseminada artificialmente com o sémen do beneficiário, pelo que, não só leva a cabo a gravidez,
como também é dadora do óvulo fecundado. Numa substituição meramente gestacional, recorre-se à
fertilização in vitro, sendo o óvulo fecundado com o espermatozóide, e, posteriormente, transferido o
embrião para o útero da gestante, não tendo esta contribuído com quaisquer ovócitos seus no procedimento
realizado. Sobre esta matéria vide Pinheiro, Jorge Duarte, Mãe portadora – a problemática da maternidade de
25
cabo a gravidez, podendo o material genético ser proveniente do casal beneficiário
(intended parents) ou de dador de gâmetas.
Na Califórnia, a Gestação de Substituição de natureza comercial é permitida, e não
existem restrições no acesso a esta técnica, à qual podem recorrer inclusive casais de
pessoas do mesmo sexo. Formalizado o acordo de gestação de substituição, e cumpridos
todos os requisitos exigidos para a sua celebração, a lei Californiana admite que os
beneficiários possam obter uma “pre-birth parentage order”, isto é, uma decisão judicial
pré-parto que reconheça o estabelecimento dos vínculos de filiação em relação ao casal
beneficiário73, determinando, consequentemente, que a gestante de substituição não é a
mãe, não tendo, por isso, quaisquer direitos ou deveres sobre a criança que venha a
nascer74.
Na Flórida, à semelhança do que acontece no Estado da Califórnia, não é
expressamente proibida a Traditional Surrogacy, no entanto, a lei apenas prevê os
contratos respeitantes à Gestational Surrogacy, os quais, por sua vez, são objeto de uma
apertada regulação.
A lei determina que o casal beneficiário deve estar casado75, excluindo
liminarmente do âmbito de beneficiários, pessoas solteiras, e o recurso à gestação de
substituição apenas é admitido em caso de situação médica que impossibilite a gravidez,
ou que comporte um risco para a saúde da mulher beneficiária ou do feto76.
O contrato não pode ter natureza onerosa, admitindo-se somente o pagamento, à
gestante, das despesas que estejam diretamente relacionadas com a implantação
embrionária, a gravidez, o parto e o pós-parto77. No contrato, a gestante de substituição
deverá prestar o seu consentimento no sentido da renúncia à maternidade e consequentes
direitos que daí advenham em relação à criança78, no entanto, caso se prove que não existe
ligação genética entre a criança e pelo menos um dos membros do casal beneficiário, a
gestante terá que assumir os direitos e deveres parentais relativamente aquela79. Por sua
substituição, in Estudos de Direito da Bioética, Volume II, Almedina, 2008, pp. 327-328; Raposo, Vera
Lúcia, De mãe para..., [Link]., pp. 31-32.
73
Vale e Reis, Procriação medicamente..., op. cit., p. 263, nota de rodapé 26.
74
California Code, Family Code, FAM 7962, f., 2.
75
2023 Florida Statutes, 742.15, 1.
76
2023 Florida Statutes, 742.15, 2.
77
2023 Florida Statutes, 742.15, 4.
78
2023 Florida Statutes, 742.15, 3, c).
79
2023 Florida Statutes, 742.15, 3, e).
26
vez, o casal beneficiário terá de declarar, no contrato, que aceita assumir a guarda da
criança, e as responsabilidades parentais, imediatamente após o nascimento da mesma80.
Dentro de três dias após o nascimento da criança, o casal beneficiário deverá
peticionar ao tribunal a afirmação do seu “parental status”81, presumindo-se que estes são
os pais naturais da criança se tiver sido usado gâmetas de pelo menos um dos
beneficiários82. Reconhecido o parental status, é depois emitida uma certidão de
nascimento a indicar o nome dos beneficiários como pais da criança83.
Em Nova Iorque, a gestação de substituição comercial era, até há poucos anos,
absolutamente proibida, e os negócios de gestação de substituição gratuitos não tinham
força jurídica. Todavia, tudo mudou em 2021, assistindo-se oficialmente à mudança da lei
no que respeita à gestação de substituição, tornando-se esta prática expressamente admitida
naquele Estado, em qualquer das suas modalidades84.
Mais recentemente, em 2024, o Estado do Michigan, onde a celebração de negócios
de gestação de substituição era proibida e sancionada criminalmente (se celebrados a título
oneroso), decidiu também legalizar a prática85.
Verifica-se, assim, neste país, uma tendência no sentido da expressa
admissibilidade dos negócios de gestação de substituição, motivada pelo recurso cada vez
mais acentuado a esta prática por pessoas com problemas em conceber naturalmente ou
através das tradicionais técnicas de procriação medicamente assistida, assim como por
casais homossexuais, relativamente aos quais é já reconhecido, de forma (mais ou menos)
uniforme, uma série de direitos de natureza pessoal, principalmente o direito a constituir
matrimónio.
80
2023 Florida Statutes, 742.15, 3, d).
81
2023 Florida Statutes, 742.16, 1.
82
2023 Florida Statutes, 742.16, 7.
83
2023 Florida Statutes, 742.16, 8.
84
New York State - Department of Financial Services (2021, 16 de fevereiro), Governor Cuomo announces
gestational surrogacy now legal in New York State. Disponível em:
[Link] [Consultado a: 08/07/2024].
85
Vitali, Ali (2024, 1 de abril), Michigan ends ban on surrogacy contracts. Disponível em:
[Link]
[Consultado a: 08/07/2024].
27
3. Reino Unido
O Reino Unido tem uma longa história associada à Procriação Medicamente
assistida, que remete ao século anterior.
Em 25 de julho de 1978, na Inglaterra, nascia Louise Joy Brown, a primeira pessoa
do mundo a ser concebida por fertilização in vitro, tendo ficado conhecida como a primeira
“bebé-proveta”86.
Quase uma década depois, em 1985, nasceu a Bebé Cotton, o apelido derivado da
gestante de substituição que, nos anos 80, contactou com uma agência sediada nos EUA,
aceitando, mediante contrapartida pecuniária, gerar o filho de um casal norte-americano,
tornando-se, desta forma, na primeira mulher Britânica a participar numa gestação de
substituição comercial.
O casal beneficiário, que previamente tinha celebrado um contrato com a referida
agência, procurava uma pessoa disposta a levar a cabo uma gravidez a seu favor, uma vez
que a mulher beneficiária estava impossibilitada de o fazer devido a uma anomalia
congénita. Após o nascimento da criança, os serviços sociais intervieram, atuando em
nome de uma ordem denominada “place of safety”, a qual visava a proteção da criança. A
decisão sobre o futuro da bebé Cotton foi, assim, delegada ao tribunal, o qual acabou por
decidir que deveria ser o casal beneficiário a ficar com a guarda da criança, dando-lhes
permissão para saírem do Reino Unido, o que fizeram87.
O caso não foi bem recebido pelo público, tendo sido alvo de intensas críticas
devido à sua onerosidade, e, eventualmente, o sentimento de desaprovação transpareceu
para o plano legislativo, culminando no Surrogacy Arrangements Act 19858889, o qual
tornou ilegal qualquer acordo de gestação de substituição de natureza comercial, assim
como a publicidade e promoção destes negócios por pessoas individuais ou agências com
fins comerciais, excetuando-se as organizações sem fins lucrativos.
86
Diário de notícias (2018, 24 de julho), Primeira bebé-proveta do mundo faz 40 anos. Disponível em:
[Link] [Consultado a:
08/06/2024].
87
Sobre o caso da bebé Cotton, vide Brahams, Diana (1987), The Hasty British Ban on Commercial
Surrogacy, in The Hastings Center Report, Vol. 17, No.1, pp. 16-19.
88
Surrogacy Arrangements Act 1985. Disponível em: [Link]
89
O Surrogacy Arrangements Act 1985 mantém-se em vigor até hoje, embora tenha, entretanto, sido objeto
de alterações, sobretudo impulsionadas pelo Human Fertilisation and Embryology Act 1990 e,
posteriormente, pelo Human Fertilisation and Embryology Act 2008.
28
Assim, a celebração de negócios jurídicos que tenham por objeto uma gestação de
substituição, é permitida no Reino Unido, mas somente a título gratuito, isto é, apenas se
admite que possa vir a ter lugar uma gestação de substituição altruísta, sem prejuízo da
gestante obter, dos beneficiários, o reembolso das despesas que são consideradas
razoáveis, porque decorrentes da própria gestação90.
Desde as alterações levadas a cabo pelo Human Fertilisation and Embryology Act
1990, que o Surrogacy Arrangements Act 1985 prevê que os acordos de gestação de
substituição não podem ser objeto de execução forçada91, o que, na prática, significa que
nenhuma das partes (nem o casal beneficiário, nem a gestante de substituição) poderão
reagir judicialmente de forma a exigir da outra, o cumprimento das suas obrigações
contratuais, nomeadamente, face ao arrependimento da gestante ou dos próprios
beneficiários92.
À luz da lei, a criança gerada é, para todos os efeitos legais, considerada filha da
gestante, ainda que não haja qualquer ligação genética entre esta e a criança, em virtude do
estatuto de “mãe” ser atribuído à mulher que leva a cabo a gravidez93, situação que se
mantém até que seja pedida uma “parental order” pelo casal beneficiário. Por outras
palavras, a criança que venha a nascer é tida como filha da gestante de substituição, até que
seja peticionado, pelo casal beneficiário, o reconhecimento dos vínculos de filiação a seu
favor, e até que esta pretensão seja confirmada por decisão judicial. Esta iniciativa dos
beneficiários deve ter lugar nos seis meses subsequentes ao nascimento da criança94, e o
sucesso da pretensão depende da verificação de determinados requisitos, nomeadamente,
quanto à proveniência dos gâmetas usados na técnica de procriação medicamente assistida
a que se recorreu no âmbito da gestação de substituição, sendo que deverá ter sido
utilizado material genético de pelo menos um dos membros do casal95; quanto ao tipo de
90
Lamm, Eleonora (2013), Gestación por substitución - Ni maternidad subrogada ni alquiler de vientres,
Barcelona, Observatori de Bioética i Dret, Edicions de la Universitat de Barcelona, p. 132.
91
Surrogacy Arrangements Act 1985, S. 1A.
92
Vilar González, Silvia (2017), Gestación por substitución en España - Un estudio con apoyo en el Derecho
comparado y especial referencia a California (EEUU) y Portugal, Tesis Doctoral, Departamento de Derecho
Privado, Facultad de Ciencias Jurídicas y Económicas, Universidad Jaume I de Castellón de La Plana, pp.
150 e 151. Disponível em:
[Link]
1&isAllowed=y .
93
Human Fertilisation and Embryology Act 2008, S. 33 (1).
94
Human Fertilisation and Embryology Act 2008, S. 54 (3
95
Human Fertilisation and Embryology Act 2008, S. 54 (1) (b).
29
união em que se insere o casal de beneficiários96, a qual tem de corresponder a uma das
seguintes condições: casamento, civil partnership, ou vida conjunta, constituindo uma
relação familiar duradoura97; e quanto à natureza do negócio celebrado, tendo este de ser
gratuito (com exceção do reembolso de despesas razoáveis)98;
A lei faz ainda depender a parental order do consentimento “incondicional” da
gestante relativamente à sua emissão, o qual, por sua vez, só será válido se prestado pela
gestante pelo menos seis semanas após o nascimento da criança99. Paralelamente, exige-se
que os beneficiários, quer no momento do pedido, quer no momento da emissão da
parental order, residam com a criança, devendo o domicílio de um dos/de ambos os
beneficiários ser no Reino Unido, nas ilhas do Canal, ou na ilha de Man100.
Uma tal solução implica, portanto, que a criança seja entregue aos beneficiários
pela gestante de substituição, mantendo-a em sua guarda sem, contudo, serem legalmente
responsáveis por ela, não tendo, aliás, qualquer direito nem poder de decisão em relação à
vida dela até que seja decretada a parental order101.
4. Grécia
Na Grécia, onde a gestação de substituição altruísta é permitida desde 2002, são
duas as leis que revestem grande importância no âmbito desta matéria: a Lei n.º 3089/2002
(Lei da Procriação Medicamente Assistida), a qual veio alterar diversos artigos do Código
Civil Grego e do seu Código de Processo Civil, sobretudo relacionados com o direito da
família; e a Lei n.º 3305/2005, a qual veio regular aspetos específicos da procriação
medicamente assistida e da gestação de substituição102.
96
Note-se que não é feita qualquer menção ao género dos membros do casal beneficiário, uma vez que o
Human Fertilisation and Embryology Act 2008 revogou o disposto no Human Fertilisation and Embryology
Act 1990 (S.30), o qual previa a concessão da parental order apenas a casais de beneficiários que fossem
marido e mulher, assim alargando o âmbito de acesso a este procedimento também aos casais do mesmo
sexo.
97
Human Fertilisation and Embryology Act 2008, S. 54 (2).
98
Human Fertilisation and Embryology Act 2008, S.54 (8).
99
Human Fertilisation and Embryology Act 2008, S.54, n.º 6 e 7.
100
Human Fertilisation and Embryology Act 2008, S.54, n.º4.
101
Horsey, Kirsty (2016), Not withered on the vine: The need for surrogacy law reform, in Journal of
Medical Law and Ethics, vol. 4, n.º 3, 181-196, Paris Legal Publishers, p. 193. Disponível em:
[Link]
2/publication/312405239_Not_withered_on_the_vine_The_need_for_surrogacy_law_reform/links/5b17b38f
a6fdcca67b5d84ab/[Link] (Consultado a:
10/05/2024).
102
Vilar González, Silvia, Gestación por substitución..., op. cit., pp. 138 e 139.
30
Neste ordenamento jurídico, a gestação de substituição tem, obrigatoriamente, de
ser antecedida de autorização judicial, a qual terá, portanto, que ser obtida antes da
implantação embrionária no útero da mulher gestante103.
A autorização do tribunal fica dependente da verificação de uma série de
pressupostos. Só poderão recorrer à gestação de substituição casais heterossexuais ou
mulheres solteiras104, sendo vedado o acesso a casais do mesmo sexo105, bem como a
homens solteiros. A mulher beneficiária deverá ser portadora de condição médica que a
impossibilite de levar a gravidez ao seu termo, enquanto a gestante de substituição deverá
fazer prova de que se encontra física e psicologicamente apta a concretizar a gestação de
substituição106. Na técnica de procriação medicamente assistida que antecede a
transferência embrionária, exige-se o recurso aos gâmetas de pelo menos um dos
beneficiários, e não poderá ser utilizado nenhum ovócito da gestante, sendo, por isso,
proibida a gestação de substituição Tradicional/substituição genética107.
O acordo, redigido por escrito e assinado por todos os intervenientes, só poderá
versar sobre a gestação de substituição altruísta, sendo, contudo, de admitir o pagamento, à
gestante, das despesas inerentes à gravidez, e que esta tenha, efetivamente, de suportar108.
A celebração de contratos onerosos de gestação de substituição é, pois, proibida, existindo
sanções penais para aqueles que contrariem essa proibição legal109.
A não obtenção de autorização judicial prévia obsta à produção de efeitos legais
dos negócios de gestação de substituição que tenham sido celebrados, aplicando-se a regra
geral segundo a qual a mãe é quem dá à luz, estabelecendo-se a filiação relativamente à
gestante.
103
Art. 1458º do Código Civil Grego, alterado pela Lei n.º 3089/2002.
104
Vale e Reis, Rafael, Procriação medicamente..., op. cit., p. 258.
105
No início de 2024, a lei Grega passou a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, admitindo a
adoção de crianças por estes casais, e reconhecendo iguais poderes parentais aos que já têm filhos. O recurso
à gestação de substituição por casais do mesmo sexo foi, contudo, excluído deste elenco, uma solução que é
criticada por especialistas na área do Direito, por ser, em princípio, discriminatória. Vide Versendaal, H. v.
(2024, 19 de fevereiro), Greek same-sex marriage law could face court challenges over surrogacy exclusion,
experts warn, [Link]. Disponível em: [Link]
same-sex-marriage-law-could-face-court-challenges-over-surrogacy-exclusion-experts-warn/ (Consultado a:
10/06/2024).
106
Art. 1458.º do Código Civil Grego, alterado pela Lei n.º 3089/2002.
107
Acórdão do TC n.º 225/2018, de 24 de abril de 2018, ponto 18.
108
Art. 13.º, n.º 4 da Lei n.º 3305/2005.
109
Estas sanções encontram-se previstas no artigo 26.º, n.º 8 da Lei n.º 3305/2005.
31
Cumpridos os pressupostos, e autorizada a gestação de substituição, a maternidade
presume-se em relação à mulher beneficiária, sem prejuízo de a gestante de substituição
(ou até mesmo a beneficiária) poder ilidir tal presunção no prazo de 6 meses a contar do
nascimento, fazendo prova de que foi utilizado material genético seu. Neste caso,
confirmada a existência de ligação genética entre a gestante e a criança, será aquela
reconhecida como mãe desta110.
110
Art. 1464.º do Código Civil Grego, alterado pela Lei n.º 3089/2002.
111
Disponível em: [Link]
32
de existirem dúvidas quanto à sua progenitura, o casal Mennesson conseguiu, por fim,
registar as crianças em França.
Apesar disso, em 2003, o Ministério Público Francês promoveu a anulação do
registo, e o caso foi a tribunal. Chegando à Court de Cassation em 2011, este tribunal
entendeu que, à luz da lei doméstica, o contrato de gestação de substituição deveria ser
nulo porque, apesar de ter sido celebrado em território onde a figura é acolhida, violava
princípios fundamentais da lei Francesa, nomeadamente, o da indisponibilidade do estado
civil. Todavia, a consequente anulação do registo, em nada prejudicaria o vínculo materno
e paterno de filiação reconhecido pelo tribunal californiano, e nem impediria as gémeas de
viverem com o casal Mennesson em França. Da mesma forma, a Court de Cassation
realçou que a decisão não violava o artigo 8.º da Convenção Europeia dos Direitos
Humanos, referente ao direito das crianças ao respeito pela sua vida privada e familiar,
nem o princípio do seu superior interesse, também previsto na convenção.
Confrontado com o caso em análise, O TEDH reconheceu, relativamente aos
requerentes, uma interferência no seu direito ao respeito pela vida privada e familiar, no
entanto, considerou tal ingerência justificada. Para este tribunal, a decisão da Court de
Cassation seguiu aquilo que decorria já da sua lei doméstica, a qual considerava nulos os
contratos de gestação de substituição, baseando, ademais, a sua decisão em jurisprudência
própria, na qual já tinha sido determinado o não reconhecimento legal dos vínculos de
filiação entre a criança e os beneficiários, em virtude da celebração de negócios de
gestação de substituição. Na perspetiva do tribunal, a França, ao recusar reconhecer
legalmente a relação de filiação entre a criança e os beneficiários em resultado de um
acordo de gestação de substituição celebrado internacionalmente, visou desencorajar os
cidadãos franceses a recorrerem a países estrangeiros para acederem a uma prática que é
proibida em território Francês, procurando, dessa forma, a proteção da criança e da
gestante de substituição. Como tal, para o TEDH, a atuação da França, no caso concreto,
centrou-se em dois interesses legítimos: a proteção da saúde e a proteção dos direitos e
liberdades de terceiros, previstos no n.º 2 do artigo 8.º da CEDH, tornando a sua
interferência no referido direito, legítima, concluindo o tribunal que “as decisões dos
tribunais franceses não tinham excedido os limites da margem de apreciação dos Estados,
33
tendo aqueles procedido a uma ponderação adequada entre os interesses dos requerentes
e os interesses de ordem pública estadual”112.
Por outro lado, no que respeita ao direito ao respeito pela vida privada e familiar
das crianças, o TEDH reconheceu dificuldades e consequências práticas decorrentes da
falta de registo, nomeadamente, quanto à sua nacionalidade e direitos hereditários, as quais
poderiam ter repercussões negativas na sua vida e identidade pessoal, deixando-as,
inclusive, numa situação de indefinição jurídica, pelo que, neste caso, o direito previsto no
artigo 8.º teria sido violado.
Outro caso de uma gestação de substituição internacional, sobre o qual o TEDH se
pronunciou, ficou conhecido como Paradiso e Campanelli c. Itália (n.º 25358/12)113.
Em causa estava um casal italiano, o qual, devido a dificuldades em conceberem
um filho (naturalmente ou por procriação medicamente assistida), e em adotarem uma
criança (já que tinham obtido previamente autorização para adoção internacional, dentro
dos termos da lei italiana), recorreram à gestação de substituição, celebrando, para tal, um
contrato com uma agência Russa, mediante pagamento de uma determinada quantia
monetária.
No procedimento de fertilização in vitro anterior à transferência embrionária, teria
sido utilizado material genético do homem beneficiário e ovócitos de uma dadora. Em
fevereiro de 2011, a criança nasceu, tendo sido registada, nos termos da lei Russa, como
filha do casal beneficiário, sem qualquer menção à gestação de substituição.
Sucede que, quando o casal tentou registar a certidão de nascimento da criança em
Itália, o pedido foi rejeitado, e foi aberta investigação por suspeitas de deturpação do
estado civil e violação da legislação relativa à adoção internacional. Posteriormente,
realizados exames ao DNA da criança, foi revelado que não existia qualquer ligação
genética entre os beneficiários e a criança, e em específico, entre o homem beneficiário e a
criança, ao contrário do que tinha sido alegado pelo casal. Como tal, em Outubro de 2011,
o tribunal decidiu que a criança deveria ser retirada ao casal, com proibição de qualquer
contacto entre eles, sendo a criança colocada em instituição de acolhimento.
112
Acórdão do TC, n.º 225/2018, de 24 de abril de 2018, cit. ponto 11.
113
Disponível em: [Link] e em:
[Link] .
34
Em abril de 2013, o tribunal pronunciou-se no sentido da legitimidade da rejeição
do pedido de registo da certidão de nascimento lavrada na Rússia, e ordenou que fosse
emitida nova certidão de nascimento, com indicação de que a criança tinha nascido de pais
desconhecidos, devendo receber um novo nome.
Numa primeira análise do caso, levada a cabo em janeiro de 2015, o TEDH, à
semelhança daquele que já tinha sido o seu entendimento no caso Mennesson c. França,
considerou haver uma interferência no direito ao respeito da vida familiar e privada dos
requerentes, contudo, a mesma teria sido justificada, tendo as autoridades italianas atuado
conforme a lei. Fundamentou o tribunal que as autoridades italianas, ao agirem daquela
forma, prosseguiram interesses legítimos, nomeadamente, o interesse público e a proteção
dos direitos e liberdades da criança, que se entendeu estar em estado de abandono face à
conduta dos requerentes, os quais, não só recorreram a uma prática que era proibida pela
lei italiana, como teriam violado leis aplicáveis à adoção internacional.
O mesmo não se pode dizer relativamente aos interesses da criança, que o TEDH
considerou não terem sido objeto de adequada ponderação pelas autoridades italianas.
Estas, ao retirarem a criança do seio familiar em que esta se considerava integrada,
enquanto decorria ainda o procedimento para apurar a responsabilidade criminal dos
requerentes, falharam em considerar, adequadamente, o superior interesse da criança, e
violaram o seu direito ao respeito pela vida familiar e privada, plasmado no artigo 8.º da
CEDH. Contudo, entendeu o tribunal que esta decisão não deveria determinar o retorno da
criança aos requerentes, uma vez que esta já teria criado uma ligação próxima com a
família que a acolheu, e com quem a criança vivia desde o início de 2013.
Em 2017, o TEDH voltou a pronunciar-se sobre o caso, alterando substancialmente
o seu entendimento sobre os factos que tinham sido analisados anteriormente.
Neste sentido, entendeu o tribunal que as autoridades italianas tinham atuado de
forma urgente, com vista a pôr fim à situação de ilegalidade criada pela conduta dos
requerentes, a qual correspondia a uma violação de importantes leis do ordenamento
jurídico italiano, referentes à adoção internacional e à proibição de negócios de gestação de
substituição, leis que, por sua vez, existiam para proteger interesses legítimos de ordem
pública. Relativamente aos interesses da criança, as autoridades italianas, ao adotarem
certas medidas, retirando a criança da vida dos requerentes, tiveram em mente não só
aqueles importantes interesses, mas também a consideração de que inexistia qualquer
35
ligação genética entre a criança e os requerentes, bem como o facto de que a criança tinha
permanecido com o casal durante um curto período de tempo, pelo que, no seu parecer, a
separação da criança relativamente ao casal não comportaria danos irreparáveis para
aquela.
Confrontados com uma difícil decisão, os tribunais italianos optaram por não dar
continuidade à situação de ilegalidade iniciada pelos requerentes, aos quais, aliás,
atribuíram pouco peso no que respeita ao seu interesse pessoal em manterem uma relação
com a criança, mas antes providenciar à criança uma relação familiar que estivesse
conforme a lei.
Como tal, numa segunda apreciação do caso, entendeu o TEDH, que os interesses
da criança tinham sido devidamente ponderados pelos tribunais italianos, não havendo
violação do artigo 8.º da CEDH.
114
Vide Pinheiro, Jorge Duarte, O Direito da Família Contemporâneo, Coimbra, GESTLEGAL, 2020, 7ª Ed.,
p. 220.
115
Oliveira, Guilherme de, Mãe há... op. cit., cit. p. 9.
36
uma idade mínima para os beneficiários da gestação de substituição em específico, pelo
que, aplicando-se analogicamente o disposto naquele art. 6.º também à gestação de
substituição, ficará esta estabelecida nos 18 anos. Quanto à gestante, a questão da idade
assume maior relevância, porquanto é esta que se compromete a levar a cabo a gravidez,
ou seja, é ela que está sujeita aos riscos associados à gestação, os quais se tornam mais
gravosos quanto mais avançada a idade for. Neste sentido, apesar da omissão do legislador
quanto à limitação etária da gestante, podemos socorrer-nos do disposto numa deliberação
do CNPMA116, a qual veio recomendar que a gestante de substituição não tenha idade
superior a 44 anos e 364 dias (ou 365 dias em ano bissexto), salvo se esta for mãe ou irmã
de algum dos membros do casal beneficiário, caso em que o limite de idade deverá ficar
nos 49 anos e 364 dias (365 dias em ano bissexto).
Como vimos, um tal negócio jurídico apenas poderá ter lugar em situações
excecionais, perante a ausência de útero, de lesão ou de doença deste órgão ou outra
situação clínica que impeça de forma absoluta e definitiva a gravidez da mulher, ou seja,
apenas se estiverem em causa questões de saúde que tornem impossível a gravidez da
mulher beneficiária.
Na senda das limitações no acesso à gestação de substituição, importante será
também notar que este é um procedimento que é vedado a casais homossexuais masculinos
e a homens singulares, embora não o seja para casais de mulheres ou para mulheres
singulares117, uma restrição que é criticada por VERA LÚCIA RAPOSO, uma vez que, na
opinião da autora, é para aqueles casais e homens que “o uso de tal procedimento é
particularmente importante”, já que “têm na gestação de substituição a única forma
possível de ter filhos”118. Por sua vez, RAFAEL VALE E REIS aponta para os problemas
de constitucionalidade que a manutenção desta solução poderá colocar, ao pôr em causa o
princípio da igualdade e não discriminação119 120.
116
CNPMA Deliberação n.º 21-II/2017, de 24 de Novembro, disponível em
[Link] (Consultado a:
19/02/2024).
117
O artigo 8, n.º2 da LPMA, não permite uma interpretação diferente, ao delimitar o recurso à gestação de
substituição a mulheres com situações clínicas que impossibilitem a sua gravidez, excluindo, liminarmente, o
recurso a este procedimento por homens singulares ou por casais do sexo masculino. Mesmo que assim não
fosse, o acesso à gestação de substituição sempre lhes seria vedado por força do artigo 6º, n.º1 da LPMA, o
qual apenas admite o recurso às técnicas de procriação medicamente assistida por casais de sexo diferente ou
casais de mulheres, casados ou unidos de facto, e por todas as mulheres, independentemente do estado civil e
da orientação sexual.
118
Raposo, Vera Lúcia, Tudo aquilo que você..., [Link]., cit. p. 26.
119
Vale e Reis, Rafael, Procriação medicamente..., op. cit., p. 241.
37
Entre nós, a gestação de substituição é acolhida apenas na modalidade de
substituição meramente gestacional (Gestational Surrogacy), já que o material genético
utilizado na gestação de substituição não pode, em caso algum, provir de doação de
ovócitos da gestante121. Simultaneamente, a lei exige que o procedimento seja realizado
com recurso aos gâmetas de pelo menos um dos beneficiários, precisamente para cimentar
a existência de uma ligação genética entre estes e a criança que venha a nascer.
O modelo português da gestação de substituição assenta na gratuitidade destes
negócios, não podendo a gestante de substituição receber, por parte dos beneficiários,
qualquer pagamento ou doação pela gestação da criança, daqui excetuando-se apenas o
pagamento das despesas médicas que a gestante tenha de suportar ao longo da gestação,
incluindo despesas com transportes, desde que estas estejam devidamente tituladas122 123
,
também não podendo celebrar-se contrato de gestação de substituição se existir uma
qualquer relação de subordinação económica entre as partes contratantes124.
Nestes moldes, a gestação de substituição será, pois, altruísta, fundada na boa
vontade e solidariedade da pessoa que assume o papel de gestante de substituição, em prol
da concretização do projeto parental de outrem (os beneficiários)125 126
. Por essa razão, a
120
Posicionámo-nos do lado dos autores, ao considerarmos injustificada a manutenção desta discriminação
da lei relativamente ao acesso à gestação de substituição por homens singulares e por casais homossexuais do
sexo masculino (e sobretudo por estes), quando bem se sabe que estes não possuem as condições biológicas
necessárias para levar a cabo uma gravidez, nomeadamente por falta de útero, tornando, por isso, a gestação
absoluta e definitivamente impossível.
121
Compreende-se a intenção do legislador ao estabelecer esta proibição, tendo em conta que a doação de
gâmetas pela gestante criaria entre esta e a criança que venha a nascer, um vínculo biológico, o qual, não só
provocaria controvérsia e incerteza quanto ao estabelecimento da maternidade, como poderia ser também um
fator propício ao arrependimento da gestante, o que, com razão, se procura evitar que tenha lugar.
122
Cfr. n.º7 do art. 8.º da LPMA (2021).
123
Sobre a possibilidade de a gestante de substituição receber uma compensação pelas despesas relativas ao
processo da gestação, e o que isto implica no âmbito de um contrato celebrado a título gratuito (altruísta),
vide Coutinho, Diana Sofia Araújo, As problemáticas e os desafios..., op. cit., pp. 139-142.
124
Cfr. n.º8 do art. 8.º da LPMA (2021).
125
Relativamente aos contratos de gestação de substituição gratuitos, alguns autores apontam para a
dificuldade em controlar a gratuitidade destes negócios, alertando para a possibilidade de pagamentos
ocultos, ou outras formas de obtenção de vantagens patrimoniais (por exemplo, a celebração de um contrato
de trabalho com a gestante depois da gestação de substituição; ou a doação de bens depois da entrega da
criança). Vide Vilar Gonzalez Sílvia, Gestación de substitución en España – Un estudo..., [Link]., p. 78.;
Pereira, Maria Margarida Silva, Uma gestação inconstitucional..., op. cit., pp. 21 e 22. Diana Araújo
Coutinho entende, contudo, que tal argumentação, apesar de real, não poderá entender-se no sentido de dever
ser admitida a gestação de substituição onerosa, mas sim que deverão ser criados mecanismos de controlo da
celebração dos contratos gratuitos, de forma a garantir que estão a ser respeitadas as disposições legais
relativas à celebração destes negócios, nomeadamente, no que toca à sua gratuitidade, cabendo ainda ao
legislador a definição clara das consequências jurídicas que advirão da violação das normas legais. Coutinho,
Diana Sofia Araújo, As problemáticas e os desafios..., op. cit., p. 153.
126
Ainda sobre os contratos de gestação de substituição altruístas, João Loureiro aponta para uma cautela
relativamente ao modelo do “dom” subjacente a estes contratos, o qual não deverá fazer esquecer as
38
gestante de substituição será, a mais das vezes, uma familiar dos beneficiários, existindo,
como tal, uma relação de proximidade entre as partes.
A celebração de negócios de gestação de substituição onerosos é, pois, afastada
pelo legislador, e, mais do que isso, é sancionada criminalmente, estabelecendo-se, como
vimos, uma pena de prisão até 2 anos ou uma pena de multa até 240 dias para quem,
enquanto beneficiário, concretizar contratos de gestação de substituição a título oneroso
(Art. 39.º, n.º1 LPMA) e uma pena de multa até 240 dias para quem o fizer enquanto
gestante de substituição (Art. 39º, n.º 2 LPMA).
2. Caracterização
2.1. Natureza Jurídica
A gestação de substituição configura-se como um negócio jurídico bilateral,
porquanto corresponde a um acordo onde existem “duas ou mais declarações de vontade,
de conteúdo oposto, mas convergente, ajustando-se na sua comum pretensão de produzir
resultado jurídico unitário”127 128
. De facto, num contrato de gestação de substituição
temos duas partes contratuais: a gestante, de um lado, e os beneficiários, do outro. A
gestante obriga-se a suportar a gravidez em favor de outrem e, posteriormente, a entregar a
criança aos beneficiários, enquanto estes comprometem-se a “receber a criança que
querem ver reconhecida como filha, bem como se comprometem pagamento de uma
retribuição ou compensação”129.
Apesar da gratuitidade deste negócio (porque não há contrapartida a prestar pelos
beneficiários à gestante de substituição pelas obrigações que esta assume), o contrato de
gestação de substituição não é um contrato unilateral. Se num primeiro momento há apenas
implicações e riscos que poderão associar-se ao mesmo, nomeadamente, de ordem familiar. Loureiro, João
Carlos (2013), Outro útero é possível: civilização (da técnica), corpo e procriação: tópicos de um roteiro em
torno da maternidade de substituição, in Direito Penal: fundamentos dogmáticos e político-criminais:
Homenagem ao Prof. Peter Hunerfel, org. Manuel da Costa Andrade.. (et al), 1ª edição, Coimbra, Coimbra
Editora, pp. 1400 e 1401.
127
Mota Pinto, Carlos, Teoria Geral do Direito Civil, 4.ª edição por Pinto Monteiro, António e Mota Pinto,
Paulo, Coimbra Editora, Coimbra, 2005, cit. p. 385.
128
No sentido da recondução da gestação de substituição a um negócio jurídico bilateral, vide Araújo
Coutinho, Diana Sofia, As Problemáticas e os Desafios..., op. cit., pp. 468 e 469; Guimarães, Maria Raquel
(2017), Subitamente no Verão Passado: A contratualização da gestação humana e os problemas relativos ao
consentimento, in Debatendo a procriação medicamente assistida, FDUP/CIJE, Porto, 16 e 17 de março de
2017, p. 109.
129
Araújo Coutinho, Diana, As Problemáticas e os Desafios…, op. cit., cit. p 469.
39
obrigações do lado da gestante, certo é que, posteriormente, no decurso do cumprimento
daquelas, surgirá também para os beneficiários, a obrigação de reembolsar a gestante das
despesas inerentes ao acompanhamento da gravidez130. Todavia, esta obrigação não é tida
como contraprestação dos beneficiários face às obrigações assumidas pela gestante,
nascendo apenas durante o contrato131, e por causa do cumprimento das obrigações
principais que dele decorrem. Este será, pois, um contrato bilateral imperfeito, “em que
não existe um nexo de correspectividade entre as prestações das partes, um sinalagma,
uma vez que o reembolso das referidas despesas não constitui contrapartida da atividade
desenvolvida pela gestante (...)”132.
Enquadrada a gestação de substituição no plano contratual133, importa saber de que
tipo de contrato é que temos vindo a falar, ou seja, qual a sua natureza jurídica.
Neste sentido, é comum distinguir-se entre contratos típicos (ou nominados) e
contratos atípicos (ou inominados)134, na medida em que os primeiros resultam da lei,
encontrando-se devidamente tipificados e regulados no nosso código civil, e os segundos
consubstanciam uma manifestação do princípio da autonomia privada, ao nível da
liberdade contratual, da qual resulta a possibilidade de as partes celebrarem contratos
diferentes dos previstos no CC, dentro dos limites da lei135.
Atentemos então aos contratos típicos que conhecemos, dos quais podemos
destacar a compra e venda, a doação, a locação, o comodato, e a prestação de serviços.
Pode o contrato de gestação de substituição reconduzir-se a algum destes tipos?
Começando pelo contrato de compra e venda136, este implica a transmissão da
propriedade de uma coisa ou de um direito, mediante o pagamento de um preço, tendo
como consequente obrigação a entrega da coisa. Daqui podemos retirar, desde logo, que
um contrato de gestação de substituição não pode, de forma alguma, qualificar-se como um
contrato de compra e venda, já que nestes negócios exige-se o pagamento de um preço, e,
130
Guimarães, Maria Raquel, “Subitamente, no Verão..., op. cit., p. 115.
131
Coutinho, Diana Sofia Araújo, As problemáticas e os desafios..., [Link]., p. 471, nota de rodapé 1640.
132
Guimarães, Maria Raquel, Subitamente, no Verão..., op. cit., cit. p. 115.
133
Se bem que atenta a sua especificidade, tendo em conta que estamos perante um contrato que convoca
questões de ordem familiar e pessoal, as quais exigem uma regulamentação específica destes contratos, que
pode, em certa medida, afastar-se do direito contratual como o conhecemos.
134
Sobre os contratos típicos e atípicos, vide Varela, João Antunes (2000), Das Obrigações em Geral, Vol.1,
10.ª Edição revista e atualizada, Almedina, Coimbra, pp. 272 e ss.; Vasconcelos, Pedro Pais de (1995),
Contratos atípicos, Almedina, Coimbra.
135
Cfr. Art. 405.º CC.
136
Art. 874.º e ss. CC.
40
como bem sabemos, a gestação de substituição é um contrato gratuito, onde não pode
estabelecer-se qualquer contrapartida.
Por sua vez, na doação137 dispõe-se de uma coisa ou de um direito a favor de
outrem, o que se faz a título gratuito, surgindo como obrigação principal a entrega da coisa.
Ora, o enquadramento da gestação de substituição em qualquer um destes tipos
contratuais, os quais têm “como efeitos essenciais comuns a transmissão da propriedade de
uma coisa e a obrigação de entrega da mesma”138, levaria à coisificação da criança, o que
jamais pode acontecer. A gestante de substituição obriga-se à entrega de uma criança (de
uma pessoa) e não de uma coisa139, aceitar o contrário seria desumanizar a criança,
violando a sua dignidade humana, e, consequentemente, tornar real um dos principais
argumentos contra a gestação de substituição.
O contrato de gestação de substituição distancia-se, igualmente, dos contratos de
locação140 e de comodato141, porquanto estes versam sobre coisas, as quais, de forma
gratuita (comodato) ou mediante retribuição (locação) são disponibilizadas a outrem para
seu uso ou gozo temporário. Ora, o útero da gestante não é uma coisa142, pelo que, logo aí,
excluir-se-ia a recondução da gestação de substituição a estes contratos, mas mesmo a
aceitar-se tal qualificação, “a verdade é que a maternidade de substituição não se reduz a
uma disponibilização do útero para uma gestação em benefício de terceiro”143. De facto, a
gestante de substituição não se limita a gerar, no seu útero, o filho de outrem, ela
compromete-se ainda a “um vasto leque de obrigações de conduta especialmente dirigidas
à proteção do feto”144, e assume a obrigação de entregar a criança aos beneficiários após o
parto e de reconhecer a filiação jurídica em relação a estes145.
Seguimos a tese propugnada por VERA LÚCIA RAPOSO, a qual defende estarmos
perante uma prestação de serviços, embora “sui generis e atípica face ao contrato de
prestação de serviços previsto no Código Civil”146. O que está em causa é, segundo a
137
Art. 940.º e ss. CC.
138
Pinheiro, Jorge Duarte, O Direito da Família... [Link], cit. p. 221.
139
Ibidem.
140
Art. 1129.º do CC.
141
Art. 1022.º do CC.
142
Coutinho, Diana Sofia Araújo, As problemáticas e os desafios..., [Link]., p. 484;
143
Pinheiro, Jorge Duarte, O Direito da Família... [Link]., cit. p. 221.
144
Raposo, Vera Lúcia, De mãe..., op. cit., cit. p. 41.
145
Pinheiro, Jorge Duarte, O direito da Família..., [Link]., p. 221.
146
Raposo, Vera Lúcia (2017), A parte gestante está proibida de pintar as unhas, in Debatendo a procriação
medicamente assistida”, FDUP/CIJE, Porto, 16 e 17 de março de 2017, cit. p. 171.
41
autora, a “contratação de um serviço (no caso, um serviço reprodutivo), mediante um
contrato livremente celebrado, à luz de um regime jurídico que acautele as pretensões e as
necessidades das partes (...)”147.
JORGE DUARTE PINHEIRO acompanha também este entendimento, da
subsunção da gestação de substituição a um contrato de prestação de serviços atípico,
estabelecendo uma linha de comparação entre o disposto no artigo 1154.º do Código Civil,
o qual define o contrato de prestação de serviços como aquele em que uma das partes se
obriga a proporcionar à outra certo resultado do seu trabalho, e a gestação de substituição,
na medida em que “a mãe de gestação compromete-se a entregar, de facto e de direito, à
mãe de recepção o fruto da sua actividade de gestação”, tratando-se, pois, de “um contrato
em que o serviço prestado consiste numa gestação por conta de outrem”148.
Ora, é certo que o contrato de gestação de substituição tem as suas especificidades,
e não pode igualar-se por completo ao contrato de prestação de serviços como o
conhecemos tradicionalmente, todavia, reconhecemos que é a este que aquele mais se
assemelha. Como expõe DIANA ARAÚJO COUTINHO “A gestante de substituição
presta um serviço gestativo ou reprodutivo que não é equiparável a um trabalho manual
ou intelectual, mas que não deixa de ser uma prestação de serviços e inclusivamente tem
uma vertente física e psicológica muito importante”149.
147
Raposo, Vera Lúcia (2012), Maternidade de substituição - Quando a cegonha chega por contrato, in
Boletim da Ordem dos Advogados, n.º 88, Março 2012, p. 26.
148
Pinheiro, Jorge Duarte, O Direito da Família..., [Link]., cit. p. 182.
149
Coutinho, Diana Sofia Araújo, As problemáticas e os desafios..., op. cit., cit. p. 491.
150
Cfr. n.º 13 do art. 8.º da LPMA (2021).
151
Cfr. alíneas a) e ss. do n.º13 do art. 8.º da LPMA (2021).
42
estas comportem, bem como, sobre o significado e as consequências do estilo de vida da
gestante no desenvolvimento do bebé; as disposições a observar em caso de interrupção
voluntária da gravidez ou quaisquer irregularidades no estado de saúde da gestante ou do
feto; a forma de resolução de conflitos escolhida pelas partes em caso de divergência; entre
outras.
Em todo o caso, e tal como estabelece expressamente o artigo 14.º da LPMA, o
contrato de gestação de substituição “não pode impor à gestante de substituição normas
que atentem contra os seus direitos, nomeadamente os expressos no artigo 13.º-A”.
Esta solução afasta-se, assim, do previsto anteriormente no artigo 10.º da LPMA,
alterada pela Lei n.º 25/2016, o qual dispunha que o contrato de gestação de substituição
não poderia impor restrições de comportamentos à gestante, nem normas que violassem os
seus direitos, liberdade e dignidade.
Ora, é certo que os beneficiários devem poder acordar com a gestante a
consagração de normas limitadoras do seu comportamento e estilo de vida, justificadas
pela salvaguarda do bem-estar e segurança do feto, que, por ser uma vida em
desenvolvimento, requer uma atenção e cuidados especiais. O problema não reside aí, mas
sim nos excessos cometidos pelos beneficiários, ao exigirem da gestante um estilo de vida
insuportável, ou ao intrometerem-se na sua vida íntima e privada, de uma tal forma que
ultrapassa a esfera do razoável e do adequado e consubstancia um abuso e uma violação
dos direitos da gestante. Nestes casos, certamente que o limite imposto por aquele artigo
10.º configuraria “um limite perfeitamente razoável, que visa evitar abusos por parte dos
pais contratantes, aos quais já se tem assistido noutros quadrantes”152, no entanto, a sua
formulação deixava margem para dúvidas, pelo que a mudança promovida pela Lei n.º
90/2021 foi adequada.
152
Raposo, Vera Lúcia, A parte gestante está..., [Link]., cit. p. 173.
43
A nulidade tem um efeito retroativo, tornando exigível a restituição de tudo o que
tiver sido prestado153, pelo que, no contrato de gestação de substituição, a nulidade do
negócio culminaria no estabelecimento da filiação da criança nascida em relação à gestante
de substituição, seguindo a regra geral segundo a qual, em relação à mãe, a filiação resulta
do facto do nascimento.
Sucede que, na versão original do Projeto do Decreto Regulamentar n.º 6/2017, de
31 de Julho, constava do art. 3.º, n.º 5 que, em todos os casos, mesmo perante um contrato
de gestação de substituição nulo, a criança nascida por recurso à gestação de substituição
seria sempre tida como filha dos beneficiários. Desta forma, o contrato de gestação de
substituição, ainda que fosse declarado nulo, teria os mesmos efeitos que um contrato
válido, estabelecendo-se a filiação relativamente aos beneficiários, uma solução que só
poderia ser inadmissível. Tal como sublinhou, e bem, o Parecer 92/CNEV/2017, de janeiro
de 2017, “não é aceitável, do ponto de vista ético, que alguém possa obter, através de um
contrato de gestação em violação da lei, os mesmos efeitos que alcançaria com a
celebração de um contrato que observasse as prescrições legais”154. De qualquer forma, a
versão final do Decreto Regulamentar n.º6/2017 abandonou este preceito, que, assim,
nunca chegou a ter efeito na prática.
Por sua vez, uma das alterações impulsionadas pela lei n.º 90/2021, passou por
eliminar do artigo 8.º da LPMA, o disposto anteriormente quanto à nulidade dos negócios
de gestação de substituição que não cumpram com as normas previstas na lei para a
celebração de contratos dessa natureza, mantendo, contudo, a criminalização.
Ora, não nos parece que a total preterição da sanção da nulidade, com o
consequente vazio legislativo que isso origina, seja o caminho que o legislador deva seguir,
já que tal levará a incertezas e, possivelmente, a situações onde a celebração de contratos
que se desviem da lei, é, de certa forma, recompensada, pois ainda que estes sejam
celebrados em clara violação de certas normas, não existe um preceito legal que faça
prever a sua nulidade, sendo assim possível obter o mesmo resultado que se obteria se o
contrato fosse válido, aceitando-se o “benefício do infrator”155.
153
Cfr. Art. 289.º do CC.
154
CNECV, Parecer 92/CNEV/2017, cit. p. 10.
155
Vale e Reis, Rafael, Procriação medicamente..., op. cit., cit. p. 252.
44
Na verdade, é no plano do direito civil que a celebração de contratos de gestação de
substituição ilegais deve ser sancionada, dispensando-se a intervenção do direito penal, a
qual é, no mínimo, duvidosa.
Por outro lado, o modelo de nulidade que deve vingar entre nós no âmbito dos
contratos de gestação de substituição, não deve assentar num molde de rigidez e excesso,
mas sim adaptar-se às particularidades desta figura, que, por natureza, envolve relações
familiares, a criação de laços afetivos, e princípios tão importantes como o do superior
interesse da criança.
É que vejamos:
Dita a nossa lei, no art. 286.º do CC., que a nulidade pode ser invocada a todo o
tempo, e por qualquer interessado, podendo ainda ser declarada oficiosamente pelo
tribunal. Tomando isto em consideração, e aplicando-o aos negócios de gestação de
substituição, imaginemos um cenário em que é celebrado um contrato onde não foram
cumpridas todas as formalidades e burocracias a que a lei obriga. Uma nulidade cega, que
não olhe às circunstâncias que determinam a aplicação dessa sanção, nem à concreta
situação das partes e da criança, tornaria possível a arguição da nulidade desse contrato
após cinco, dez, ou quinze anos desde a entrega da criança aos beneficiários, em prejuízo
da relação de filiação entretanto consolidada, numa altura em que já se terá construído uma
família.
Nesse sentido, e para evitar situações destas, RAFAEL VALE E REIS, propõe
“uma definição mais rigorosa, pelo legislador, das violações legais que determinam a
nulidade do contrato (porque nelas se ultrapassam linhas vermelhas), ou consagrar um
regime de invalidades sui generis ou de efeitos putativos que impeça, em certos casos, a
revogação dos vínculos de filiação entretanto consolidados relativamente ao casal
beneficiário, quando essa revogação seja exagerada ou ofenda o superior interesse da
criança gerada”156, solução a que aderimos.
156
Vale e Reis, Rafael, Procriação medicamente..., op. cit., cit. p. 254.
45
CAPÍTULO IV – OS DIREITOS E OS DEVERES DA GESTANTE DE
SUBSTITUIÇÃO NO ÂMBITO DO CONTRATO
1. Os deveres
1.1. Dever de prestação de informação
No decurso do cumprimento das obrigações decorrentes do contrato de gestação de
substituição, a gestante deve colaborar com a equipa médica que a assiste, bem como com
os beneficiários, prestando toda a informação que, porque relevante para o sucesso daquele
projeto, lhe seja solicitada, devendo ainda adotar uma atitude proativa no sentido da
comunicação de quaisquer ocorrências ou factos que sejam (ou possam ser) importantes.
Assim, logo no momento da transferência embrionária, é obrigação da gestante a
prestação de toda a informação que lhe seja solicitada pelos profissionais responsáveis pela
intervenção, assim como de outras informações que esta considere relevantes para o êxito
do procedimento157, não devendo omitir qualquer facto que possa condicionar o seu
resultado.
Também durante a gestação, a gestante deve informar o médico responsável pelo
acompanhamento da gravidez de tudo o que este necessite de saber158, nomeadamente
quanto a alterações na sua saúde, mudanças no estilo de vida, e hábitos de alimentação.
No que toca à relação entre a gestante e os beneficiários, a comunicação entre estes
assume um papel principal no desenlace da gestação de substituição, a qual visa
concretizar um projeto parental que, no fundo, “sem deixar de ser próprio dos
beneficiários, é também partilhado pela gestante: os beneficiários e a gestante querem
todos que os primeiros tenham uma criança que seja sua filha, não obstante ter sido dada
à luz pela segunda”159. Esta intenção de colaboração, que conduz à assunção, pela
gestante, do compromisso de gerar o filho de outrem, deve cultivar-se ao longo de todo o
processo, de forma a evitar conflitos desnecessários entre as partes, assim permitindo uma
relação harmoniosa e de mútuo respeito entre elas.
Como tal, a gestante deve informar os pais contratantes de todos os acontecimentos que
se verifiquem durante a gravidez, assim como de “qualquer facto impeditivo ou
modificativo do modo de cumprimento do contrato de gestação de substituição,
157
Cfr. al. a) do art. 13.º-B da LPMA (2021).
158
Cfr. primeira parte da al. c) do art. 13.º-B da LPMA (2021).
159
Acórdão TC n.º 225/2018, cit. ponto 24.
46
nomeadamente qualquer alteração no seu estado de saúde que possa comprometer a
viabilidade da gravidez”160.
160
Cfr. al. e) do art. 13.º-B da LPMA (2021).
161
Cfr. al. b) do art. 13.º-B da LPMA (2021).
162
Cfr. segunda parte da al. c) do art. 13.º-B da LPMA (2021).
47
2. Os direitos
2.1. Direito a uma assistência médica digna durante a PMA, gestação e parto
À gestante de substituição, porque diretamente sujeita aos riscos e implicações
médicas decorrentes da gravidez, é reconhecido um conjunto de direitos especialmente
versados sobre o acompanhamento e assistência médica que lhe é prestado durante cada
uma das fases do processo de gestação de substituição, direitos esses que se encontram
essencialmente plasmados no n.º1 do artigo 13.º-A da LPMA.
Na primeira fase, correspondente à transferência do embrião para o útero da
gestante, esta tem direito a que tal procedimento seja concretizado num centro de PMA
devidamente autorizado163, assim se garantindo a segurança da intervenção, a qual deve ser
levada a cabo em ambiente estéril e próprio, seguindo-se as devidas normas
procedimentais e de conduta, e assegurando-se a reunião de todas as condições necessárias
para o sucesso da transferência embrionária.
Durante a gestação, mantém-se o direito da gestante a uma assistência em ambiente
médico idóneo, com todas as condições materiais e humanas adequadas ao bom
acompanhamento da gestação164, devendo providenciar-se um ambiente confortável, que
proteja a privacidade da gestante, e que possibilite uma correta avaliação do estado de
saúde desta e do feto.
Neste âmbito, importa também fazer uma remissão para o art. 8.º da LPMA, no
sentido de evidenciar dois importantes direitos da gestante: (1) o direito a participar na
escolha do obstetra que acompanhará a sua gravidez, o tipo de parto e o local onde o
mesmo se realizará165; (2) o direito a recusar submeter-se a exames de diagnóstico, como a
amniocentese166167. Assim, podem as partes acordar, no contrato, a possibilidade de a
gestante recusar a realização de certos exames de diagnóstico, nomeadamente, por serem
invasivos ou por acarretarem riscos para a saúde da gestante e/ou do feto. Estes direitos,
163
Cfr. al. b) do n.º1 do art. 13.º-A da LPMA (2021).
164
Cfr. al. c) do n.º1 do art. 13.º-A da LPMA (2021).
165
Cfr. al. b) do n.º13 do art. 8.º da LPMA (2021).
166
Cfr. al. d) do n.º13 do art. 8.º da LPMA (2021).
167
A amniocentese corresponde a um exame de diagnóstico pré-natal, de natureza invasiva, que consiste na
recolha de uma amostra de líquido amniótico através da punção com uma agulha fina que atravessa a pele e a
parede do útero, permitindo diagnosticar anomalias congênitas. É um exame que comporta alguns riscos,
nomeadamente, de aborto espontâneo. Vide Hospital da Luz, Amniocentese: o que é?, 8 de maio de 2019.
Disponível em: [Link] [Consultado a:
29/04/2024].
48
que assistem à gestante, exigem uma colaboração entre as partes, devendo ambas estarem
dispostas a ouvir as sugestões, motivações e preocupações da outra parte, só assim se
cultivando uma relação estável e harmoniosa, tutelando-se os interesses de todos os
envolvidos.
A gestante tem ainda direito a um acompanhamento psicológico antes, durante e
após o parto168, uma solução que é de aplaudir tendo em conta os impactos que este
processo pode ter na saúde mental da gestante. A gravidez já é, naturalmente, um
fenómeno que provoca alterações físicas e psicológicas na mulher, contudo, uma gestação
a favor de outrem comporta desafios adicionais169, uma vez que a gestante gera dentro de
si um ser humano que, após o parto, irá entregar aos beneficiários, assim concretizando um
projeto parental que não é seu. Desta forma, os psicólogos, enquanto profissionais
equipados com os conhecimentos e ferramentas necessárias para acompanharem e
auxiliarem a gestante, assumem, neste âmbito, um papel importantíssimo, talvez até
determinante no sucesso da gestação de substituição. Como refere a própria Ordem dos
Psicólogos “Para a mulher gestante, o processo de gestação de substituição pode ser
emocionalmente complexo e muito desafiante (...)”, pelo que, “O apoio psicológico pode
ajudar a gestante a enfrentar esses desafios, fornecendo apoio emocional e recursos para
gerir emoções e expectativas ao logo de todas as etapas, nomeadamente, diminuindo a
probabilidade de arrependimento”170.
168
Cfr. al. d) do n.º1 do art. 13.º-A da LPMA.
169
Sobre os impactos e particularidades da gestação de substituição a nível psicológico, vide Ordem dos
psicólogos, Papel dos psicólogos - Processos de gestação de substituição, Lisboa, 05 de setembro de 2023.
Disponível em:
[Link]
[Link] (Consultado a: 12/05/2024).
170
Ibidem, cit. p.8.
49
livre e esclarecido, o qual deve sempre ser antecedido de uma informação cabal acerca dos
riscos e benefícios resultantes da gestação de substituição, bem como das suas implicações
éticas, sociais e jurídicas (art. 14.º, n.ºs 1 e 2 LPMA).
O consentimento informado em contexto clínico, funda-se no respeito pelos direitos
fundamentais da pessoa humana, correspondentes à sua autodeterminação e à sua
integridade física e moral171, existindo a necessidade e dever médico de obter este
consentimento porque, do outro lado, existe uma pessoa com autonomia, a qual, no
exercício dos seus direitos, deve ter a liberdade de tomar decisões sobre a “manutenção e
promoção da sua saúde”172, nomeadamente, consentindo em intervenções que, pela sua
natureza, lesam a sua integridade física.
Para que este consentimento seja válido, é necessário que se verifiquem três
grandes pressupostos: a capacidade para consentir; a disponibilização de informação
suficiente e adequada sobre o procedimento ou tratamento proposto; e a tomada de uma
decisão livre, sem coação ou vícios da vontade173.
No âmbito da gestação de substituição, embora exista o dever de obter o
consentimento informado dos beneficiários e da gestante de substituição, é relativamente a
esta que ele assume maior importância.
De facto, atendendo às especificidades do contrato de gestação de substituição, é a
gestante que sente os efeitos físicos e psicológicos resultantes da gravidez. Inicialmente, é
ela que se submete à intervenção médica correspondente à transferência embrionária.
Posteriormente, é ela que suporta as dores, a carga emocional, os exames médicos, e as
limitações que gerar uma vida implica. Como tal, naturalmente, o consentimento
informado assume aqui dimensões significativas, cabendo aos médicos responsáveis, o
ónus de providenciar à gestante, uma informação completa daquilo que uma gravidez
naquelas condições implica, nomeadamente quanto aos riscos, intervenções médicas,
171
Pereira, André Gonçalo (2003), O consentimento informado na relação médico-paciente - Estudo de
direito civil, Tese de Mestrado, Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, p. 55.
172
CNECV, O processo de consentimento informado em menores de idade: requisitos ético-jurídicos-
Recomendação n.º 3/2022 do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Lisboa, Julho de 2022,
cit. p. 3. Disponível em: [Link]
processo-de?download_document=9722&token=38a210ce406cffcefcf9d12a012cd4d8 (Consultado a:
02/07/2024).
173
Pereira, André Gonçalo, O consentimento informado..., [Link]., p. 72.
50
alterações físicas e psicológicas, e efeitos jurídicos e sociais que podem resultar da
gestação de substituição174.
A lei não é explícita quanto à idade que uma pessoa deve ter para poder ser gestante
de substituição, deixando em aberto a questão sobre a capacidade para consentir no
procedimento.
Não havendo qualquer disposição nesse sentido, seria de admitir a possibilidade de
uma menor de idade emancipada, dotada de capacidade de exercício, celebrar um negócio
jurídico de gestação de substituição, comprometendo-se a gerar o filho de outrem e,
posteriormente, a entregá-lo aos beneficiários, renunciando à maternidade.
Esta hipótese convoca uma abordagem à matéria sobre a capacidade para prestar
um consentimento informado, visto que estamos perante um caso de menoridade.
Trata-se de uma discussão que não gera consenso, embora a tendência seja a de
considerar que os menores com idade igual ou superior a 16 anos terão, em princípio,
capacidade para consentir nos atos médicos175, desde que, atendendo a cada caso concreto,
demonstrem possuir a maturidade e o discernimento necessários para compreenderem o
sentido e alcance da intervenção médica176. O direito penal Português parece aceitar a tese
de que os menores de 16 anos terão capacidade para prestar um consentimento válido, ao
prever no n.º3 do artigo 38.º do código penal que o consentimento será eficaz na exclusão
da ilicitude de certo facto, se prestado por quem tiver mais de 16 anos, e se este “possuir o
discernimento necessário para avaliar o seu sentido e alcance no momento em que o
presta”. Também no que toca à interrupção voluntária da gravidez, o legislador entendeu
que os menores com 16 anos poderão prestar o seu consentimento informado no sentido da
174
Por sua vez, a gestante tem o direito de ser corretamente informada sobre as implicações médicas,
psicológicas, sociais e jurídicas que podem resultar da celebração do contrato de gestação de substituição.
Cfr. al. a) do n.º1 do art. 13.º-A da LPMA (2021).
175
Vide a título exemplificativo, Raposo, Vera Lúcia, Do Regime das Intervenções Médico-Cirúrgicas
Arbitrárias no Código Penal Português. Disponível em:
[Link]
Cirurgicas_Arbitrarias_no_Codigo_Penal_Portugues_-[Link] , p. 9.
176
Pereira, André Gonçalo, O consentimento informado..., [Link]., p. 99. Embora o autor se refira, nos seus
estudos, à idade de consentimento de 14 anos, a qual era, na altura, a idade prevista pelo artigo 32.º do código
penal para a eficácia do consentimento excludente da ilicitude, mantém-se o entendimento de que, mesmo
fixando-se a idade de consentimento nos 16 anos, deve continuar a observar-se, em cada caso concreto, se o
menor tem a capacidade de discernimento necessária para entender o sentido, alcance e consequências do ato
médico em causa.
51
realização do procedimento, sem necessidade de intervenção dos seus representantes
legais177.
No concreto caso da gestação de substituição, entendemos que o teor sensível de
certas matérias inerentes a esta figura, assim como as reconhecidas dificuldades que podem
surgir no decorrer do processo (nomeadamente, em termos de arrependimento), sugerem
uma especial cautela quanto à idade mínima da gestante de substituição, a qual deverá
fixar-se, pelo menos, nos 18 anos178. Na nossa perspetiva, os menores de idade com idade
igual ou superior a 16 anos não terão a capacidade para verdadeiramente compreenderem e
avaliarem o sentido e alcance da decisão de aceitarem gerar um filho em favor de outrem,
pelo que o legislador deverá preocupar-se em estabelecer expressamente na lei o requisito
da maioridade.
177
Art. 142.º, n.º 5 do Código Penal.
178
Embora concordemos mais com a proposta de Diana Araújo Coutinho, no sentido de se fixar a idade
mínima da gestante em 25 anos, dado que as características próprias da gestação de substituição, e o facto de
se tratar de um negócio de natureza pessoal, sugerem uma maturidade (psicológica) acrescida e uma
capacidade de discernimento superior aquele que se exige para atos médicos mais simples e para a
participação “no tráfego jurídico de bens e serviços conferida pela maioridade”. V. Coutinho, Diana Sofia
Araújo, As problemáticas e os desafios..., op. cit., cit. pp. 619 e 620, nota de rodapé 2183.
179
Cfr. n.º4 do art. 14.º da LPMA (2021).
52
25/2016), uma solução que se manteve até 2021, altura em que o período de
arrependimento da gestante foi alargado até ao registo da criança nascida (artigo 14.º, n.º 5
da Lei n.º 90/2021).
Em 2018, no Acórdão n.º 225/2018, o TC, apesar de considerar que o modelo
Português da gestação de substituição não violava a dignidade humana da gestante180,
apontou, todavia, para a inconstitucionalidade suscitada por certos aspetos do regime
jurídico da gestação de substituição, um deles incidindo, precisamente, sobre a questão dos
limites impostos à revogabilidade do consentimento da gestante.
Nesse sentido, o tribunal assumiu uma posição com a qual tendemos a concordar,
fundada em argumentos que nos ajudam a construir a nossa própria perspetiva sobre este
tema que suscita tanta controvérsia.
Vimos já que o consentimento informado, sobretudo o da gestante, é pressuposto
fundamental da validade e eficácia do contrato de gestação de substituição. O TC, no
Acórdão n.º 225/2018, reconhece esta importância, introduzindo-nos à problemática da
revogação do consentimento da gestante num prisma que incide diretamente sobre a
dignidade da mesma.
Relembra-nos este tribunal que a gestante assume um compromisso para com os
beneficiários que se desdobra numa multiplicidade de operações, as quais visam,
ultimamente, que seja dada à luz uma criança que será reconhecida como filha daqueles,
assim concretizando a gestante o projeto parental de outrem. Um tal processo, formalizado
num contrato, porque comporta obrigações que afetam os direitos fundamentais da
gestante (entre os quais, o direito à integridade física e o direito à saúde), implica que esta
preste um consentimento livre e esclarecido em relação ao cumprimento de cada uma
180
O TC considerou que o modelo Português da gestação de substituição não viola a dignidade humana da
gestante, fundamentando a sua decisão sobretudo na gratuitidade destes contratos, afastando, por isso, o
argumento da exploração económica da mulher gestante; na participação ativa da gestante durante a gravidez,
não se resumindo a um instrumento à mercê dos interesses e vontade dos beneficiários, colocando de lado
uma visão da gravidez enquanto fenómeno incapacitante; no próprio direito ao livre desenvolvimento da
personalidade da gestante, esta que se compromete na concretização do projeto parental dos beneficiários
porque assim é a sua vontade, atuando de forma solidária para com a situação de outrem, mas obtendo
também vantagens ao nível da sua personalidade, nomeadamente, no que respeita à sua autorrealização
pessoal, e à forma como é determinada perante os outros; e na prestação, pela gestante, do seu consentimento
informado para a celebração do contrato e para a realização das técnicas de PMA. V. Acórdão do TC n.º
225/2018, pontos 24-29; Cortês, António, Gestação de Substituição e Dignidade da Pessoa Humana: A difícil
Saída de uma Encruzilhada – Anotação ao Acórdão n.º 225/2018 do Tribunal Constitucional em vista do
subsequente processo legislativo, in Revista Portuguesa de Direito Constitucional, n.º1, 2021, pp, 70 e 71;
Araújo Coutinho, Diana, A problemáticas e os desafios..., op. cit., pp. 652-657.
53
dessas obrigações, pois só assim é possível garantir a dignidade humana da gestante ao
longo de todas as fases da gestação181.
Como refere o TC, o consentimento prestado no âmbito da gestação de substituição
é mais complexo e mais abrangente. Mais complexo porque exige duas declarações de
consentimento (uma da gestante, outra dos beneficiários), as quais se dirigem não só ao
médico responsável mas também aos próprios interessados; mais abrangente porque o seu
objeto compreende todo o processo da gravidez, desde a técnica de PMA até ao parto182.
Por outro lado, é notável a assimetria entre o consentimento prestado pelas partes.
Os beneficiários prestam o seu consentimento no sentido de autorizar a recolha de gâmetas
e transferência embrionária para a gestante, sendo que quaisquer obrigações posteriores
serão resultado do cumprimento das obrigações essenciais do contrato, não se pondo em
causa, ao longo da gestação, os seus direitos fundamentais. É sobre a gestante que recai o
maior peso do contrato de gestação de substituição, porquanto é ela que assume as
obrigações principais decorrentes do mesmo. É ela que suporta a gravidez e o parto, e é a
sua saúde que corre mais riscos durante todo esse processo183. É ela que sente as dores, e as
alterações físicas, emocionais e psicológicas resultantes da gravidez. São, por isso, os
direitos fundamentais da gestante que sofrem uma limitação naquele período, razão pela
qual o seu consentimento assume aqui particular importância.
Como salienta o TC “Em termos funcionais, e como mencionado, a validade
jurídica de qualquer uma das obrigações essenciais do contrato de gestação pressupõe a
validade e eficácia do consentimento prévio da gestante, sob pena de a dignidade desta
ficar comprometida. Por isso mesmo, o seu consentimento traduz o exercício do seu direito
fundamental ao desenvolvimento da personalidade com referência a cada uma das fases
da gestação de substituição”184.
O TC alude ainda para a gestação enquanto “processo complexo, dinâmico e único,
em que se cria uma relação entre a grávida e o feto que se vai desenvolvendo no seu
seio”185, questionando se um consentimento que é prestado ex ante poderá ser, realmente,
um consentimento suficientemente informado e atual em relação a todo o processo da
gestação de substituição. Para moldar este argumento, o tribunal socorre-se das
181
Acórdão TC n.º 225/2018, ponto 39.
182
Acórdão TC n.º225/2018, ponto 40.
183
Acórdão TC n.º225/2018, ponto 42.
184
Acórdão TC n.º225/2018, cit. ponto 42.
185
Acórdão TC n.º225/2018, cit. ponto 43.
54
considerações de um parecer do CNECV186 relativamente ao ambiente uterino e à sua
influência determinante na pessoa humana, no sentido de evidenciar que a gravidez,
enquanto fenómeno intrinsecamente físico, concretizado no útero da mulher gestante,
produz uma série de efeitos que têm consequências a nível da própria biologia da gestante
e do embrião, sendo um processo único em cada caso.
Temos de concordar com a posição do TC. A nosso ver, ainda que a gestante de
substituição seja devidamente informada sobre os riscos e as implicações éticas,
psicológicas, jurídicas e sociais decorrentes da celebração de um contrato de gestação de
substituição, a complexidade e imprevisibilidade deste processo, condicionam a
possibilidade de um verdadeiro consentimento informado ab initio, com eficácia e validade
para todo o processo, porque não é possível antecipar todas as alterações físicas,
psicológicas e emocionais que decorrerão daquela gravidez em específico, nem é possível
prever aquilo que vai ocorrer durante essa fase187.
Por esta razão, pode acontecer que, durante o cumprimento das obrigações
emergentes do contrato, a gestante se depare com situações que não tinha considerado
quando prestou inicialmente o seu consentimento, ou com vicissitudes que alteram a sua
perspetiva, percebendo que o projeto parental com que inicialmente concordou, já não está
alinhado com aquela que é a sua vontade. Como tal, por muito bem informada e
esclarecida que a gestante possa ter sido, esta nunca conseguirá antever completamente
aquilo que irá sentir e aquilo pelo qual irá passar durante a gravidez, e, por isso, não deve
ficar, sem mais, vinculada ao consentimento que prestou num momento inicial, tendo este
consentimento de se manter atual ao longo de todo o processo, para que se possa
considerar assegurada a voluntariedade no cumprimento das obrigações contratuais. Dito
de outra forma, a revogabilidade do consentimento da gestante ao longo de toda a
gestação, e inclusive após o parto, garante a voluntariedade no cumprimento de qualquer
obrigação inerente à concretização do contrato de gestação de substituição, por isso
assegurando o respeito pelo direito ao livre desenvolvimento da personalidade da gestante,
186
CNECV, Relatório sobre Procriação Medicamente Assistida (PMA) e Gravidez de Substituição, Lisboa,
Março de 2012, disponível em: [Link]
gestacao-de-substituicao?download_document=3127&token=5c825458ee15e14753a758456d119f39
(Consultado a: 25/04/2024).
187
Araújo Coutinho, Diana Sofia, As problemáticas e os desafios..., op. cit., p. 671.
55
este que é um pilar fundamental para a admissibilidade da gestação de substituição em
Portugal188.
O arrependimento da gestante durante a gestação, consubstanciado numa alteração
de vontade relativamente à concretização do projeto parental dos beneficiários, pode
manifestar-se em duas vertentes: a realização de uma Interrupção Voluntária da Gravidez
(IVG), quando a gestante não pretende levar a gestação até ao fim, ou a assunção de um
projeto parental próprio, querendo a gestante continuar com a gravidez189.
Numa primeira análise, o regime atual da LPMA, alterado pela Lei n.º 90/2021, ao
impor a inclusão, no contrato, de uma cláusula relativa às disposições a observar em caso
de eventual interrupção voluntária da gravidez190, parece delegar às partes a decisão sobre
esta questão, as quais poderiam então acordar no sentido da não interrupção, vinculando a
gestante ao seu cumprimento, mesmo que posteriormente a continuação da gestação não
seja a sua vontade. Contudo, não nos parece que assim o seja. Primeiro, porque a
legislação em vigor reconhece a toda a mulher grávida a possibilidade de, até às 10
semanas de gestação, interromper voluntariamente a sua gravidez191. Segundo, porque
prevê-se atualmente que a gestante possa revogar o seu consentimento até ao registo da
criança nascida, sendo a IVG uma concretização deste preceito, quando a gestante não tem
a intenção de continuar com a gravidez.
Como vimos, a gravidez é um processo único, relativamente ao qual, embora seja
possível antever alguns riscos e complicações prováveis, é difícil prever com exatidão o
seu desenvolvimento e aquilo que, na prática, ocorrerá. Mais complexo ainda é antecipar a
reação da gestante quando deparada com essa realidade, já que os sentimentos e emoções
das pessoas raramente se podem conjeturar num momento anterior, onde o peso da
adversidade ainda não se faz sentir. Deste modo, pode acontecer que, durante a gestação,
se verifiquem situações que levam a uma modificação das circunstâncias que motivaram a
adesão da gestante ao projeto parental dos beneficiários, eventos que podem alterar a
188
Como bem refere o TC “Deste modo, atentas as aludidas características físicas, biológicas, psíquicas e
potencialmente afetivas da gravidez e do parto, a revogabilidade do consentimento inicialmente prestado é a
única garantia de que o cumprimento das obrigações específicas de cada fase daquele processo continua a
ser voluntário, e, por isso, a corresponder ao exercício de tal direito. A pura e simples autovinculação antes
do início do processo de gestação de substituição não permite acautelar suficientemente tal voluntariedade
ao longo de todo o processo”. Acórdão do TC n.º 225/2018, cit. ponto 43.
189
Acórdão do TC n.º 225/2018, ponto 44.
190
Cfr. al. h) do n.º13 do art. 8.º da LPMA (2021).
191
Cfr al. e) do n.º1 do art. 142.º do Código Penal.
56
vontade da gestante, que assim deixa de ser a concretização do projeto parental em curso e
a continuidade da gestação, conduzindo à revogação do consentimento inicialmente
prestado, e, consequentemente, à interrupção da gravidez.
Se é certo que esta decisão da gestante frustra as expectativas parentais dos
beneficiários, firmadas no contrato que celebraram com aquela, é também oportuno
revisitar a ideia da gestação de substituição enquanto projeto que é assumido pela gestante
de substituição em prol dos beneficiários, estes que recorrem a este meio de forma
subsidiária, quando já esgotaram as demais possibilidades no que toca às técnicas de
procriação medicamente assistida.
No modelo de gestação de substituição português, a gestante atua em solidariedade
para com a situação dos beneficiários, assumindo o cumprimento das obrigações
contratuais voluntariamente, isto é, a gestante consente na implantação embrionária no seu
útero, na gestação em si, e na entrega da criança que venha a nascer, porque assim é a sua
vontade, e porque tal cabe no âmbito do exercício do seu direito ao desenvolvimento da
sua personalidade192. É esta premissa de voluntariedade e de autodeterminação pessoal da
gestante que justifica a licitude da gestação de substituição em Portugal.
A gestação de substituição corresponde, assim, a um projeto parental dos
beneficiários, mas para o qual necessitam da intervenção de um terceiro, estando
dependentes do altruísmo e vontade de uma mulher que, perante a situação daqueles, aceite
suportar os riscos, as limitações, e os incómodos inerentes a uma gravidez.
Se esta voluntariedade desvanecer ao longo da gestação, alterando-se a vontade que
a gestante inicialmente demonstrou relativamente à concretização do projeto parental dos
beneficiários, já não se mostrando disponível para continuar com a gravidez,
evidentemente que esta tem de ter a possibilidade de, em conformidade com a lei,
interromper a gravidez, ainda que contra a vontade dos beneficiários193. Forçar a
continuidade da gravidez, por via de uma eventual execução do contrato, seria retirar da
192
O TC acentua o facto de ser a gestante que, ao comprometer-se, de forma altruísta, a suportar uma
gestação em favor de outrem, possibilita a concretização do projeto parental dos beneficiários, pelo que, estes
devem estar cientes de que a voluntariedade da gestante tem de estar presente no cumprimento de todas as
obrigações decorrentes do contrato celebrado. Acórdão do TC n.º 225/2018, ponto 46.
193
Neste sentido Maria Raquel Guimarães refere que o que está em causa numa interrupção voluntária da
gravidez é tão só a integridade físico-psíquica da gestante e o poder sobre o seu corpo, e não a carga genética
do feto, pelo que, ainda que não exista qualquer ligação genética entre esta e o feto, tal facto não pode
impedir a interrupção voluntária da gravidez, não podendo, por isso, admitir-se que o contrato de gestação de
substituição impeça o recurso da gestante a esta intervenção. Guimarães, Maria Raquel, Subitamente no
verão..., op. cit., pp. 119 e 120.
57
gestação de substituição o seu caráter solidário e voluntário, e impor à gestante o suporte
de uma obrigação com a qual já não consente, em detrimento da sua dignidade e da sua
autonomia pessoal, naquilo que seria uma verdadeira instrumentalização do seu corpo, não
se olhando aos meios (a gravidez forçada) para se atingir um fim (a proteção das
expectativas dos beneficiários)194.
Assim seguimos, neste tópico, o entendimento de VERA LÚCIA RAPOSO,
segundo o qual, a mencionada cláusula não tem “por finalidade atribuir qualquer poder de
decisão aos pais contratantes”195, mas antes assume outros contornos, nomeadamente
quanto à definição das expectativas das partes e à delimitação dos seus poderes de decisão,
assim revelando a sua importância na prevenção de litígios e, na ocasião dos mesmos,
auxiliando o juiz na determinação dos danos a indemnizar196.
A posição que temos vindo a perfilhar relativamente à revogação do consentimento
da gestante, há de transpor-se para os casos em que esta pretende continuar com a
gravidez, mas assumindo um projeto parental próprio, isto é, aqueles casos em que a
gestante não pretende entregar a criança aos beneficiários.
Na análise desta questão, convoca-se não só o direito da gestante ao livre
desenvolvimento da sua personalidade, mas também os interesses próprios das partes, os
quais entram em conflito, num verdadeiro concurso de pretensões parentais.
Os beneficiários visam, com o recurso à gestação de substituição, a concretização
de um projeto parental seu, assim contribuindo (um ou ambos) com o seu próprio material
genético, na expectativa de que, após o nascimento, a criança que venha a nascer lhes seja
entregue, sendo estes considerados, para todos os efeitos, os pais da mesma.
Por outro lado, a gestante, que inicialmente prestou o seu consentimento no sentido
de levar a cabo uma gestação em favor de outrem, em exercício do seu direito ao livre
desenvolvimento da personalidade, vê-se agora numa situação de arrependimento, em que
a sua vontade já não é a de entregar a criança, mas sim a de assumir um projeto parental
próprio.
194
Como reforça o TC “Nestas circunstâncias, forçar o cumprimento de tais obrigações – no caso ora
considerado, condicionar de algum modo o abandono do projeto parental que deixou de ser partilhado pela
gestante com o objetivo de que o mesmo seja levado até ao parto – implicaria instrumentalizar a gestante ao
mesmo projeto parental, interferindo gravemente com a sua capacidade de autodeterminação e, em última
análise, com a sua dignidade pessoal”. Acórdão do TC n.º 225/2018, ponto 46.
195
Raposo, Vera Lúcia, Tudo aquilo que você..., [Link]., cit. p.33.
196
Ibidem.
58
Ora, como já temos vindo a reiterar, numa gravidez a gestante passa por alterações
em diversos níveis, nomeadamente alterações físicas e psicológicas, com uma amplitude e
consequências difíceis de prever, tendo em conta o seu caráter subjetivo. A própria
natureza da gravidez cria, inevitavelmente, entre a gestante e o feto, uma ligação que,
sendo mais ou menos forte, mais ou menos significativa, mais ou menos ampla, não deixa
de ser aquilo que é: uma ligação que afeta não só a biologia da gestante, mas o próprio
desenvolvimento e epigenética do feto197198.
Contudo, mesmo fora do campo da ciência, há outras coisas que se podem dizer
relativamente à relação gestante-feto199: é a gestante que, ao alimentar-se, providencia ao
feto os nutrientes necessários para o seu crescimento e bom desenvolvimento, procurando
assim alimentos mais saudáveis e com mais qualidade nutricional; é a gestante que limita o
seu comportamento e estilo de vida, de forma a proteger o feto de perigos externos; é a
gestante que se dirige aos estabelecimentos de saúde e se submete aos exames médicos que
se revelam necessários durante a gravidez. E fá-lo porque tem a consciência de que está a
gerar, dentro dela, uma vida. Todos estes cuidados desdobram-se em pequenos gestos que,
naturalmente, poderão afetar a ligação afetiva que a gestante tem com o feto.
Fazendo nossas as palavras de DIANA ARAÚJO COUTINHO, “A gravidez não se
reduz à implantação do embrião no útero da gestante e a um processo meramente
mecânico de alterações físicas, desprovido de emoções e ignorando que se está a gerar
uma vida. A ligação entre o feto e a grávida simboliza a humanização da reprodução
humana”200.
197
Neste sentido, vide CNECV, Relatório sobre Procriação Medicamente Assistida (PMA) e gravidez de
substituição, Março de 2012, pp. 29-32. Nestas páginas evidencia-se que a gestação é um tempo de grandes
mudanças, não só para a gestante, dentro da qual circula DNA fetal, alterando a sua biologia, mas também
para o feto, cuja identidade epigenética é condicionada e definida pelo ambiente uterino no qual é gerado.
198
Há tambestudos que demonstram que a voz e batimentos cardíacos da mãe não só são reconhecidos pelo
feto enquanto este ainda está no útero, como também podem influenciar o processo de desenvolvimento do
bebé, nomeadamente, quando este nasce de forma prematura. V. ABC News, Babies Recognize Mom´s Voice
from the Womb, 20 de Maio de 2003. Disponível em:
[Link] (Consultado em: 07/07/2024); Eck, Allison,
Babies Rely on Mother´s Voice and Heartbeat To Develop Healthy Brains, PBS, 24 de fevereiro de 2015,
disponível em: [Link]
develop-healthy-brains/ (Consultado a: 07/07/2024).
199
E no fundo, no que ao arrependimento da gestante diz respeito, atribuímos mais relevância a estes factos
do que aos que estão diretamente relacionados com a biologia e genética, visto tratarem-se de considerações
que estão ao nível do plano psicológico e afetivo, podendo ser determinantes na relação que a gestante
desenvolve com o feto.
200
Coutinho, Diana Sofia Araújo, As problemáticas e os desafios..., [Link]., cit. pp. 669 e 670.
59
Estas características da gestação, que não se apagam pela inexistência de uma
concreta ligação genética entre a gestante e o feto, podem, naturalmente, originar
arrependimento, levando a gestante a passar por uma transformação psicológica que
assume uma dimensão tão significativa que esta se recusa a entregar a criança aos
beneficiários, por tal já não ser conforme aquela que era a sua vontade inicial aquando da
celebração do contrato de gestação de substituição, pretendendo agora assumir o estatuto
de mãe da criança que venha a dar à luz.
Nestas hipóteses, a gestante, no exercício do seu direito ao livre desenvolvimento
da personalidade, deve ter a liberdade de revogar o seu consentimento no que toca à
obrigação de entrega da criança aos beneficiários. A não existir esta possibilidade,
estaríamos a forçar a gestante a praticar um ato que não corresponde à sua vontade, e,
consequentemente, a admitir a negação dos seus próprios interesses em prol da
concretização única do projeto parental dos beneficiários.
Consagrando-se, atualmente, na LPMA, a revogação do consentimento da gestante
até ao registo da criança nascida, objeto de crítica é a inexistência de um prazo de reflexão
para a gestante exercer o direito ao arrependimento após o parto, limitando-se o legislador
a estabelecer que a gestante pode revogar o seu consentimento até ao registo da criança
nascida.
A lei Portuguesa prevê que o nascimento deve ser declarado no prazo de 20 dias a
contar da sua ocorrência, podendo esta declaração ser feita ou por via eletrónica ou
presencialmente, neste caso, em qualquer conservatória do registo civil ou em unidade de
saúde onde seja possível declarar o nascimento201.
Este prazo, de apenas 20 dias, é manifestamente desadequado à tomada de uma
decisão deste calibre, ainda mais se atendermos ao facto de que corresponde ao tempo
máximo previsto para o registo, podendo este ter lugar antes de se atingir esse limite. Se a
criança é registada poucos dias após o seu nascimento, num momento em que a gestante de
substituição ainda se encontra num estado de cansaço físico e mental, então esta não teve,
realmente, a oportunidade de ponderar sobre a entrega da criança. Acresce que, como nota
MARGARIDA SILVA PEREIRA, “o prazo para registar uma criança sustenta-se na fé
pública, na publicidade do nascimento e compatibiliza-se com o tempo adequado a dar
201
Cfr. Art. 96.º do Código do Registo Civil.
60
corpo na ordem externa a uma realidade conhecida, a parentalidade. Não é, portanto, o
critério adequado a refletir sobre algo tão importante como a renúncia à maternidade e
deveres correspetivos; nem tem qualquer sentido usá-lo como ponto de comparação”202.
A lógica subjacente a esta solução legal é irrefutável: quanto menos tempo de
reflexão a gestante tiver, menor será a probabilidade de arrependimento, assim se
conseguindo uma entrega pacífica e a proteção das expectativas dos beneficiários,
evitando-se litígios entre as partes. Sabemos, no entanto, que um tal raciocínio,
implementado na prática, adultera o cerne do direito ao arrependimento, entrando em
gritante conflito com o direito ao desenvolvimento da personalidade da gestante, assim
afastando-se do entendimento do TC.
Acreditamos que nesta matéria deveria atender-se, como critério de comparação, ao
prazo de reflexão previsto para a adoção, o qual se fixa nas 6 semanas203, só podendo a
mãe consentir na adoção decorrido esse período. Tratando-se, certamente, de figuras
distintas, a base que sustenta a consagração de um período de reflexão é a mesma: a
renúncia aos direitos e deveres inerentes à maternidade exige uma ponderação adequada204.
Feitas estas considerações, não se pode deixar de considerar natural a estranheza
sentida quando se fala na aceitação de um direito ao arrependimento da gestante nestes
termos, o qual arrepia quando se pensa na dor e transtorno sentidos pelos pais contratantes
face à rutura das suas expectativas parentais, estes que já terão percorrido, previamente à
gestação de substituição, um árduo caminho no que toca à procriação medicamente
assistida, encontrando-se numa situação de vulnerabilidade.
Também não é de desconsiderar o facto de os beneficiários terem contribuído com
material genético seu, existindo uma ligação genética direta entre eles (ou pelo menos um
deles) e a criança, ao contrário do que sucede com a gestante de substituição. No caso, tal
aspeto deverá ser tido em conta na ponderação judicial levada a cabo em caso de
arrependimento da gestante (e poderá fazer pender a balança para o lado dos beneficiários),
contudo, não poderá, por si só, inviabilizar a revogabilidade do consentimento da
202
Pereira, Margarida Silva (2023), “Ainda sem direito à identidade: as crianças na Gestação de Substituição
segundo a (incompleta) Lei n.º90/2021, de 16 de dezembro”, in Revista da Faculdade de Direito da
Universidade de Lisboa, Número 1, Tomo 3, cit. p.1566.
203
Cfr. n.º 3 do art. 1982 do CC.
204
Pereira, Margarida Silva, Uma gestação inconstitucional... op. cit., p. 20.
61
gestante205, visto também estarem em causa direitos fundamentais desta, os quais têm de
ser tomados em consideração ao longo de todo o processo de gestação de substituição, e no
cumprimento das obrigações daí decorrentes.
Ora, a revogação do consentimento da gestante após o parto não é, certamente,
desejável, nem é ideal, razão pela qual se deve procurar que a gestação de substituição
corresponda a um processo que promova o recurso às ferramentas necessárias para evitar
que o arrependimento da gestante venha a ter lugar, e, para isso, a exigência legal de que a
gestante seja uma mulher que já tenha sido mãe, assim como a obrigatoriedade de
acompanhamento psicológico da gestante durante a gravidez e após o parto, são
essenciais206.
Posto isto, embora a prevenção do arrependimento seja imprescindível, a adoção de
tais medidas não determina a resolução definitiva do problema, pelo que situações de
arrependimento da gestante poderão continuar a existir. Por sua vez, o direito ao
arrependimento da gestante não deve ser encarado como um direito absoluto, o qual se
sobrepõe, sem mais, à vontade e interesses próprios dos beneficiários.
A situação de revogação do consentimento da gestante originará um conflito
positivo de interesses, de pretensões parentais, o qual é necessário dirimir, convocando,
caso a caso, uma intervenção judicial207208. O juiz, na tomada da decisão sobre o
estabelecimento dos vínculos de filiação e das responsabilidades parentais em relação à
criança, deverá ponderar as motivações e a concreta situação de vida de ambas as partes,
205
É, aliás, de notar, que atualmente se pode dizer que a genética, embora importante, já não é tudo. De facto,
a consagração da adoção, bem como os avanços legislativos no que respeita às técnicas de procriação
medicamente assistida, demonstram uma cedência do critério biológico na determinação da parentalidade.
Ademais, na própria gestação de substituição, um dos beneficiários pode não ter qualquer ligação genética
com a criança, desde que o outro beneficiário tenha contribuído com material genético seu. Tal facto, não
impossibilita que se reconheça como pai/mãe da criança, o beneficiário que não tem esse vínculo biológico
com aquela. Sobre os desvios que se podem apontar ao princípio da verdade biológica vide Oliveira,
Guilherme de (2020). Novas manifestações da vontade no casamento e na parentalidade, in Lex Familiae –
Revista Portuguesa de Direito da Família, n.º34, ano 17, Centro de Direito da Família, pp. 10 e ss.
206
Silvestre, Margarida, Que futuro para a gestação... [Link]., pp. 47 e 48.
207
O mesmo resulta do ponto 48 do Acórdão do TC n.º 225/2018, no qual o tribunal admite que o
arrependimento da gestante origina um concurso positivo de pretensões parentais, convocando uma
ponderação judicial sobre os interesses de cada uma das partes (e não só da gestante), devendo a decisão final
do tribunal considerar sobretudo o interesse superior da criança.
208
Sobre a intervenção judicial na resolução do litígio decorrente do arrependimento da gestante vide
Oliveira, Guilherme de, “Gestação de substituição em Portugal”, in Gestación subrogada: Principales
cuestiones civiles, penales, registrales y médicas: su evolución y consideración, 2019, pp. 810-811.
62
sendo, contudo, pertinente observar que, uma vez que estamos a falar de uma criança já
nascida e cuja entrega se discute, é o seu interesse que deve sempre prevalecer209.
209
Resulta do artigo 3.º da Convenção sobre os Direitos da Criança, que toda e qualquer decisão tomada por
instituição pública ou privada de proteção social, por tribunais, por autoridades administrativas, ou por
órgãos legislativos, e que incida sobre um menor de idade (uma criança), deve assegurar a primazia do seu
superior interesse.
210
Vale e Reis, Rafael, Procriação Medicamente..., [Link]., cit. pp. 288 e 289.
63
pretensão indemnizatória a nível de danos morais, devendo a gestante “reembolsar os pais
contratantes de eventuais despesas já feitas, mas apenas isso e não mais do que isso”211.
No que respeita ao arrependimento da gestante depois da transferência uterina, e
durante a gestação, o problema densifica-se, colocando-se a questão de saber se, nos casos
em que a gestante opte pela interrupção voluntária da gravidez, nos termos da alínea e) do
artigo 142.º do Código Penal, deve esta indemnizar os beneficiários.
Ora, não há dúvidas de que, neste momento, já os beneficiários criaram, num maior
ou menor grau, legítimas expectativas em relação ao sucesso da gestação de substituição,
pelo que, a revogação do consentimento da gestante, por recurso à interrupção voluntária
da gravidez, irá frustrar essas expectativas.
Aceitamos, neste âmbito, que as partes acordem no contrato que, em caso de
interrupção da gravidez, por opção da gestante, esta tenha de indemnizar os beneficiários,
estabelecendo-se um “critério razoável de indemnização dos beneficiários, por danos em
que estes tenham comprovadamente incorrido”212.
A razoabilidade deve, por isso, ser central na delimitação da indemnização, não
podendo admitir-se um valor que, por ser excessivamente alto, condicione o exercício do
direito de revogação do consentimento da gestante.
Por fim, e no que toca, ao arrependimento da gestante após o parto, a situação
agrava-se, visto que, os beneficiários, nessa altura, já investiram plenamente na
concretização daquele projeto, não só financeiramente, mas também emocionalmente. De
facto, foram eles que ao longo da gestação procederam ao pagamento das despesas de
saúde da gestante (consultas médicas, exames, medicamentos, tratamentos), bem como
reembolsaram outras (por exemplo, o transporte da gestante), envolvendo-se mentalmente
e emocionalmente no processo durante 9 meses, no qual acompanharam os acontecimentos
da gravidez, e confiaram na verificação do resultado pretendido: que a criança nascida
daquela gestação lhes seria entregue, reconhecendo-os como pais dessa criança.
A gestante, ao revogar o seu consentimento após o nascimento da criança, frustra
essas legítimas expectativas, colocando os beneficiários numa situação litigiosa, da qual
pode resultar o estabelecimento da filiação da criança em relação a outra pessoa que não
211
Raposo, Vera Lúcia, Tudo o que você..., [Link]., cit., p.22.
212
Vale e Reis, Rafael, Procriação medicamente..., [Link]., p. 286.
64
eles. Caberá aqui, portanto, um direito de indemnização dos beneficiários, o qual, aliás,
deverá ser mais alargado, visto o momento em que ocorre a revogação do consentimento.
No âmbito desta temática importa ainda abordar a questão do arrependimento dos
beneficiários, e as consequências que advém do mesmo nas diversas fases da gestação de
substituição, no sentido de se ponderar um eventual direito indemnizatório da gestante.
Sabemos que, no caso dos beneficiários, estes têm a possibilidade de revogarem
livremente o seu consentimento até ao início dos processos terapêuticos de PMA. Nestas
circunstâncias, os beneficiários terão de reembolsar a gestante de eventuais despesas que
esta tenha tido até então213, à partida não cabendo aqui qualquer direito indemnizatório da
gestante no que respeita a danos não patrimoniais, uma vez que, dado o momento temporal
do arrependimento daqueles, a implantação embrionária nunca se efetivou, pelo que a
gestação nunca teve lugar, não se encontrando justificação para uma tal compensação.
O caso muda, contudo, de figura, após a transferência do embrião para o útero da
gestante, isto é, iniciando-se a gestação, sendo que, a partir desse momento, a lei já não
prevê a possibilidade de revogação do consentimento dos beneficiários. Desta forma, se os
beneficiários perderem o interesse na concretização daquele projeto parental, e se se
afastarem do cumprimento das suas obrigações contratuais, nomeadamente, do pagamento
das despesas médicas da gestante, e, posteriormente, se recusarem a receber a criança,
incorrerão em incumprimento contratual, e poderão ser responsabilizados por tal, daqui
prevendo-se a possibilidade de a gestante obter uma compensação indemnizatória pelos
danos decorrentes desse incumprimento214. Afinal de contas, a gestante assumiu,
altruisticamente, o compromisso de concretizar o projeto parental de outrem, tendo sido,
para o efeito, submetida a técnicas de procriação medicamente assistida, transferindo-se
para o seu útero o embrião, o qual continuou, voluntariamente, a gerar, com a consciência
de que, no final da gravidez, a criança seria entregue aos beneficiários, estabelecendo-se a
filiação em relação a estes. Se os pais contratantes, durante a gestação, desistirem do
projeto parental, a gestante terá, à partida, duas hipóteses: a interrupção voluntária da
gravidez, se ainda estiver dentro do prazo legalmente admissível para o recurso a esse meio
e assim o quiser fazer, ou, não estando (ou não pretendendo abortar), dar continuidade à
213
Raposo, Vera Lúcia, Tudo aquilo que você..., [Link]., p 19.
214
Ibidem.
65
gestação, sendo depois a criança encaminhada para a adoção (uma vez que os beneficiários
não poderão ser obrigados a ficar com a criança).
Na fixação da indemnização à gestante, deve, pois, atender-se a este âmbito, tendo
em conta que a “mudança de ideias” dos beneficiários desfaz o propósito da gestação de
substituição e coloca, inevitavelmente, a gestante numa encruzilhada, exigindo dela uma
decisão que poderá ser muito difícil de tomar, afetando o próprio psicológico da gestante.
Neste contexto, questão relevante é a de saber se, em caso de desistência dos
beneficiários face ao seu projeto parental, se poderia admitir uma cláusula que previsse a
possibilidade de estes serem indemnizados pela gestante, caso esta não acedesse ao pedido
daqueles no sentido da interrupção da gravidez.
Ora, a interrupção voluntária da gravidez é uma opção que cabe só e
exclusivamente à mulher grávida, não podendo ser substituída nesta decisão por qualquer
outra pessoa. Ainda que possa admitir-se que os beneficiários peçam à gestante a
interrupção da gravidez, por já não pretenderem a concretização daquele projeto parental
(ou seja, por mero arrependimento), há que ter em conta que a palavra final será sempre a
da gestante, pelo que, optando esta pela não interrupção, não poderá dessa decisão extrair-
se um direito indemnizatório dos beneficiários, tratando-se o comportamento da gestante
como um incumprimento, quando é o contrário que se verifica – os beneficiários, ao
desistirem do projeto parental, incorrem em incumprimento contratual, visto não lhes ser
permitido revogar o seu consentimento após os processos terapêuticos de PMA.
Não obstante este direito indemnizatório, que se reconhece quer à gestante, quer
aos beneficiários, a fixação do montante a indemnizar deve atender a critérios especiais,
dada a natureza da gestação de substituição. Neste sentido, atendemos à proposta
formulada por RAFAEL VALE E REIS, o qual estabelece os fatores a que o juiz deverá
atender no ajuste dos montantes indemnizatórios, designadamente: (1) As condições
económicas das partes, sobretudo as do obrigado a indemnizar; (2) o grau de frustração das
legítimas expectativas da parte a ser indemnizada, e, no caso de arrependimento da
gestante, o momento em que este teve lugar, sendo que, no caso de interrupção voluntária
da gravidez por opção da gestante, o montante deverá ser especialmente atenuado; (3)e a
concreta situação em que se encontram as partes, bem como os motivos determinantes do
arrependimento215.
215
Vale e Reis, Rafael, Procriação medicamente..., [Link]., p. 291.
66
2.3 Direitos laborais
O Decreto Regulamentar n.º 6/2017 veio aplicar à gestante de substituição o regime de
faltas e dispensas previstas no Código do Trabalho para a concretização da proteção na
parentalidade216. Assim, a gestante usufruiria, durante a gestação, de um conjunto de
direitos, previstos no artigo 35.º do CT, nomeadamente, da licença em situação de risco
clínico durante a gravidez (alínea a)); da dispensa da prestação de trabalho por motivo de
sua segurança e saúde (alínea h)); da dispensa para consulta pré-natal (alínea i)); e da
dispensa de prestação de trabalho no período noturno (alínea t)).
Esta é uma solução que consideramos acertada, a qual deverá manter-se na
regulamentação da Lei n.º 90/2021. De facto, não poderia ser de outra forma, tendo em
conta que, não obstante a natureza específica da gestação de substituição, não deixamos de
estar perante uma gravidez, a qual requer uma atenção e cuidados redobrados.
Posto isto, já não poderemos concordar com a opção do legislador, ao prever, para a
gestante, um período de licença pós-parto equivalente à licença por interrupção da
gravidez217, esta que tem uma duração entre 14 e 30 dias218. Este tempo, concedido à
gestante para recuperação após o parto, é excessivamente curto, e ignora o desgaste físico e
mental de uma gestação durante 9 meses, no decurso da qual o corpo da mulher é sujeito a
profundas alterações, em vários níveis. O momento do parto, corresponde, por si só, a um
processo extenuante, que pode perdurar por horas (ou até dias), exigindo da gestante um
grande esforço físico e psicológico. Por tudo isto, não é de estranhar que, no puerpério, a
mulher se encontre num estado de enorme fadiga, à medida que o seu corpo tenta regressar
à normalidade219, o qual é acompanhado de alterações hormonais que podem causar
instabilidade emocional e levar ao desenvolvimento de doenças do foro mental220.
216
Cfr. n.º3 do art. 6.º do Decreto Regulamentar n.º 6/2017, de 31 de julho.
217
Cfr. n.º2 do art. 6.º do Decreto Regulamentar n.º 6/2017, de 31 de Julho.
218
Cfr. n.º1 do art. 38.º do Código do Trabalho.
219
Sobre as alterações físicas e fisiológicas sentidas pela mulher no pós-parto, vide CUF, Alterações físicas
após o parto. Disponível em: [Link]
o-parto [Consultado a 30/04/2024].
220
As alterações hormonais, sobretudo a súbita diminuição de estrogénio e progesterona, são uma das causas
prováveis dos chamados “baby blues”, termo utilizado para descrever um período de grande instabilidade
emocional sentido pela mulher após o parto. Sobre este fenómeno vide Hackensack Meridian Health (2022,
17 de Agosto), What Causes the Baby Blues? How to Reset Your Brain. Disponível em:
[Link]
your-brain [Consultado a 30/04/2024]. Também dentro do âmbito da saúde mental no pós-parto, alerta-se
para a possibilidade de desenvolvimento de depressão pós-parto, uma doença preocupante, e que afeta um
número considerável de mulheres. Vide Teixeira, Sofia (2023, 10 de junho), O que é a depressão pós-parto?
8 respostas para entender uma doença que afeta 10 a 20% das recém-mães, Observador. Disponível em:
67
Assim, verifica-se que o período que sucede à gestação deverá ser um tempo de
recuperação não só física, mas também mental, que permita à gestante absorver tudo aquilo
que aconteceu e refletir sobre aquilo que sente, sempre com o devido acompanhamento
psicológico.
Uma norma que atribua à gestante uma licença pós-parto de 14 a 30 dias, não
permite atingir o objetivo da recuperação plena, e denota uma despreocupação para com a
saúde física e mental da mulher que, altruisticamente, gerou o filho de outrem, não se
coadunando, certamente, com a dignidade humana que se exige que esteja presente durante
todo o processo de gestação de substituição, e inclusive após o parto. Este prazo é ainda
mais incompreensível se atendermos ao facto de que a licença parental inicial para mães e
pais, por nascimento de filho, é de 120 ou 150 dias consecutivos221, dos quais, a mãe é
obrigada a gozar 42 dias consecutivos a seguir ao parto222, reconhecendo-se o estado de
debilidade em que se encontra depois de uma gravidez.
Como tal, espera-se que o legislador, na próxima regulamentação, tenha em atenção
as implicações decorrentes da gravidez, manifestadas no corpo, saúde, e estado emocional
da gestante, de forma que seja aplicável à gestante uma licença parental mais extensa,
equivalente à licença parental exclusiva da mãe, prevista no CT.
[Link]
que-afeta-10-a-20-das-recem-maes/ [Consultado a: 05/07/2024].
221
Cfr. n.º1 do art. 40.º do CT.
222
Cfr. n.º2 do art. 41.º do CT.
68
CONCLUSÃO
Esta dissertação dedicou-se à análise criteriosa dos diversos aspetos que densificam
a figura da gestação de substituição, recorrendo, para tal, a uma desconstrução estratégica,
que passou por analisar a trajetória cautelosa do ordenamento jurídico português em
relação a estes negócios, sobretudo numa perspetiva focada na gestante, na medida em que
os seus direitos merecem uma especial tutela e consideração, percorrendo-se o antes, o
depois, e o agora; mas também pelo estudo da legislação e jurisprudência internacional no
que respeita a esta matéria.
Reconhecendo-se o devido mérito à atual regulação da gestação de substituição, na
qual se procurou corrigir aspetos dúbios anteriores e incluir normas que visam acautelar os
direitos e interesses das partes, não pôde deixar de se observar, contudo, uma inércia do
legislador no tratamento e abordagem a certas matérias, as quais merecem sensível
reflexão e ponderação.
Ao analisar o modelo de gestação de substituição português, verifica-se a
manutenção de soluções que não têm lugar no atual contexto legal e social: falamos da
exclusão implícita de homens individuais e de casais homossexuais do sexo masculino, do
âmbito de acesso à gestação de substituição.
Nas diversas tentativas de regulamentação da lei n.º 90/2021, de 16 de dezembro, o
legislador falhou em corrigir e aprimorar determinados tópicos, não obstante os vários
pareceres do CNECV e do CNPMA a alertar nesse sentido, nomeadamente, quanto à
fixação de um prazo de reflexão para a gestante exercer o seu direito de arrependimento, e
no que toca ao estabelecimento da filiação, caso a gestante revogue o seu consentimento.
Em consequência, a lei n.º 90/2021 continua, hoje, sem regulamentação, muito para além
do prazo previsto para a mesma (30 dias após publicação da lei).
No que concerne especificamente aos direitos e deveres da gestante, o estudo desta
temática transparece que aqueles são objeto de maior ponderação e crítica do que estes. De
facto, trata-se de deveres que, embora exijam alguns esclarecimentos, são tendencialmente
pacíficos, não extravasando aquilo que são obrigações legítimas e justificadas da gestante,
parecendo, pois, que a lei delega às partes, na elaboração do contrato, a decisão sobre
aqueles que devem ser concretamente os deveres da gestante (sendo certo que não podem
ser consagradas normas que atentem contra os seus direitos, nomeadamente os do artigo
13.º-A da LPMA).
69
Relativamente aos direitos da gestante, destacou-se, sobretudo, a alteração
legislativa que veio permitir que a gestante revogue o seu consentimento até ao registo da
criança, ou seja, para lá do nascimento, consagrando-se como que um direito ao
arrependimento da gestante, relativamente ao qual se manifesta um ponto de vista
favorável, embora admitindo a complexidade que um tal entendimento acarreta, tendo em
conta os interesses e sentimentos dos próprios beneficiários.
De facto, embora o arrependimento da gestante não seja desejável (sobretudo após
o parto), sabe-se que ele pode acontecer, pelo que, nessa eventualidade, é necessário
acautelar também os interesses da gestante, esta que assumiu o projeto parental de outrem
de forma altruísta, suportando, na própria pessoa, todos os desafios físicos e mentais
decorrentes da gestação. Ignorar os interesses e/ou vontades próprias da gestante, e forçá-la
a levar a cabo um ato com a qual ela não concorda (e já não consente) em prol da
concretização única do projeto parental dos beneficiários, seria desumanizá-la, correndo o
risco de se estar a violar direitos fundamentais desta.
Em todo o caso, os litígios decorrentes da revogação do consentimento da gestante
após o parto, deverão ser resolvidos em instância competente, atendendo-se aos interesses
de ambas as partes, mas decidindo consoante o superior interesse da criança.
Objeto de reflexão foi também a matéria dos direitos laborais da gestante.
Observando as disposições do Decreto-Regulamentar n.º 6/2017 acerca destes
direitos, criticou-se o facto de à gestante de substituição ser atribuída uma licença pós-
parto equivalente à licença obtida por interrupção da gravidez, isto é, um prazo de 14 a 30
dias. Este prazo, para além de respeitar a um procedimento que é completamente diferente
daquilo que é uma gestação, não especifica exatamente os dias de licença a que a gestante
tem direito, e denota ser um prazo exageradamente curto para a plena recuperação física e
mental da gestante.
Assim, revela-se extremamente importante que, na próxima regulamentação legal,
o legislador, ao determinar a licença pós-parto a que a gestante deve ter direito, tenha em
atenção estes fatores, considerando, para efeitos comparativos, a licença parental exclusiva
da mãe, correspondente a 42 dias de licença obrigatórios após o parto.
Posto isto, conclui-se que a gestação de substituição em Portugal (e no mundo)
continua a ser um campo de desafios ético-jurídico-legais, os quais convocam uma
consideração ampla, mas equilibrada, dos direitos e interesses das partes envolvidas, sendo
70
certo que a natureza e particularidades inerentes à gestação de substituição, implicam uma
abordagem mais cautelosa relativamente à gestante, de forma a não se incorrer numa
gritante violação dos seus direitos fundamentais.
71
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