Silénio Elves Mainga
Implementação do Currículo
Licenciatura em Ciências da Educação (L)
3° ano
Universidade Pedagógica de Maputo
Maputo
2024
Silénio Elves Mainga
Implementação do Currículo
Universidade Pedagógica de Maputo
Maputo
2024
Implementação do Currículo
A implementação curricular na Escola Primária Completa do Alto Mãe é uma
prova viva de como o trabalho dos professores pode transformar desafios diários em
oportunidades de aprendizado significativo. Os professores Lurdes, Inês e Frederico
enfrentam situações que exigem não apenas criatividade, mas também uma
compreensão profunda dos fundamentos educacionais que orientam suas práticas. Eles
trabalham em um contexto de limitações estruturais e sociais, mas conseguem, com
dedicação e estratégias adaptativas, traduzir o currículo em experiências relevantes para
os alunos.
A professora Lurdes, que ensina crianças da 1ª e 2ª classes, lida com o desafio de
atender turmas numerosas e heterogêneas. Ela descreveu como precisa adaptar
atividades básicas de alfabetização e matemática para alcançar alunos com níveis de
aprendizado muito distintos. Uma de suas práticas é o uso de jogos educativos, que
ajudam a engajar tanto as crianças que já dominam certos conteúdos quanto aquelas que
ainda estão no início do processo. Contudo, ela enfrenta a dificuldade de oferecer
atenção individualizada, algo que considera essencial para o desenvolvimento dessas
turmas. Para compensar, promove atividades em grupo que incentivam a colaboração
entre os próprios alunos, permitindo que aprendam uns com os outros. Essa prática
reflete como os fundamentos filosóficos da educação, centrados no aluno, ganham vida
em sua sala de aula, mesmo diante de obstáculos. A professora Inês, responsável por
Ciências Sociais, trouxe uma perspectiva que integra os fundamentos sociais e culturais
do currículo. Ela relatou que prefere contextualizar os temas com a realidade dos
alunos, usando situações como a poluição na vizinhança da escola para discutir
problemas ambientais e cidadania. Uma de suas aulas mais impactantes, segundo ela,
foi quando os alunos mapearam áreas próximas onde havia lixo acumulado e sugeriram
soluções que pudessem ser aplicadas em suas comunidades. No entanto, Inês
mencionou a frustração de não ter recursos suficientes, como materiais visuais e tempo,
para aprofundar essas discussões. Apesar disso, a capacidade de relacionar o conteúdo
ao cotidiano dos alunos fez com que suas aulas se tornassem mais do que uma
obrigação curricular – elas se tornaram ferramentas de reflexão sobre a realidade em
que vivem.
Já o professor Frederico, que ensina Educação Física, utiliza o esporte e os jogos
como meios para promover valores como cooperação, disciplina e respeito. Ele contou
que, em uma aula de jogos tradicionais, incentivou os alunos a compartilharem
brincadeiras típicas de suas comunidades, criando um ambiente de troca cultural que
transcendeu o objetivo técnico da disciplina. Para ele, a Educação Física é mais do que
preparar os alunos fisicamente; é uma oportunidade de ensinar valores sociais e
culturais que os acompanham fora da escola. Frederico reconhece, no entanto, que a
falta de infraestrutura adequada, como campos e equipamentos, limita o potencial das
aulas. Mesmo assim, ele improvisa com o que está disponível, mostrando que o
comprometimento do professor muitas vezes compensa as falhas do sistema.
Os desafios ideológicos também são parte do cotidiano desses professores. Inês
relatou que abordar temas como igualdade de gênero gera reações mistas, com alguns
alunos questionando os conteúdos por influência de suas famílias. Ela mencionou que,
ao tratar desses temas, precisa encontrar um equilíbrio entre cumprir os objetivos do
currículo e respeitar as sensibilidades culturais da comunidade. Em uma aula, optou por
usar histórias e exemplos históricos neutros para ilustrar a importância do respeito e da
igualdade, evitando confrontos diretos e incentivando uma discussão aberta. Essa
habilidade de adaptação mostra como os professores não apenas implementam o
currículo, mas também negociam suas práticas dentro de um contexto sociocultural
complexo.
Essas histórias mostram que os professores não são apenas transmissores de
conhecimento, mas agentes transformadores dentro da sala de aula. Eles lidam
diariamente com dilemas que exigem mais do que criatividade – exigem coragem para
adaptar, insistir e buscar formas de fazer o currículo funcionar, mesmo em condições
adversas. Contudo, não se pode ignorar que esses esforços precisam ser apoiados por
um sistema que ofereça melhores condições de trabalho, recursos adequados e formação
continuada. Sem isso, a carga de adaptação recai exclusivamente sobre os professores, o
que pode limitar o alcance de suas iniciativas.
O trabalho de Lurdes, Inês e Frederico é um exemplo de como a implementação
curricular, quando bem conduzida, pode ultrapassar as barreiras da falta de recursos e
engajar os alunos em um aprendizado significativo. Eles não apenas ensinam, mas
mostram aos alunos que a escola pode ser um espaço de descoberta, reflexão e
transformação. No entanto, para que esse impacto se amplie, é essencial que haja um
maior investimento na infraestrutura, na formação docente e em materiais que deem
suporte a essas práticas. O compromisso dos professores já está evidente; agora, é
preciso que o sistema educacional os fortaleça para que possam continuar
transformando vidas.