DAVID HUME
A sua obra maior é o Tratado da Natureza Humana, publicado em 1748. Publica ainda
Investigação sobre o Entendimento Humano e Investigação sobre os Princípios da Moral,
sendo ambas reelaborações de partes do Tratado.
Tal como Locke, opõe-se ao racionalismo e inatismo racionalista, impondo limites à razão e ao
próprio conhecimento.
Interroga-se não apenas sobre a origem, mas também sobre a possibilidade do
conhecimento.
Assume uma posição empirista em relação à origem do conhecimento (o conhecimento
provém dos sentidos) e uma posição cética quanto à possibilidade do conhecimento (não é
possível conhecer a realidade com certeza absoluta).
Para o empirismo a fonte do conhecimento é a experiência.
O primeiro filósofo empirista britânico foi John Locke, que defendeu que, no momento do
nascimento, o espírito é como uma folha em branco onde nada foi escrito. Esta ideia fica
conhecida pela expressão ‘tabulla rasa’: a mente é uma tábua rasa onde são inscritos os
dados dos sentidos. Defende ainda que não há ideias inatas, que todo o conhecimento
começa da experiência e só conhecemos dentro dos limites que esta nos impõe, e que as
ideias se dividem em simples e complexas.
David Hume dá continuidade à teoria de John Locke, aperfeiçoando alguns aspetos.
O projeto de Hume
O impacto das ideias de Descartes e daqueles que com ele fizeram a revolução científica do
século XVII — Galileu, Kepler, Newton — foi tão profundo, que no começo do século XVIII a
visão escolástica do mundo tinha sido definitivamente abandonada, substituída pelas novas
filosofia e ciência mecanicistas.
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Mas, por muito radical que o pensamento cartesiano fosse, em alguns aspetos manteve-se
semelhante ao pensamento de inspiração medieval que substituiu - pode ser visto como uma
tentativa de conciliar a religião e a metafísica tradicional com a nova ciência (a alma, Deus e a
afirmação do mundo).
Hume tem pouca simpatia por este género de filosofia, que pretende não haver limites para
as capacidades cognitivas da razão quando corretamente utilizada, e ser possível ter
conhecimento mesmo dos assuntos mais complexos e difíceis.
Objetivo de Hume: estudo da natureza humana, de modo a determinar os princípios mais
gerais da mente permitindo assim estabelecer as capacidades e os limites do entendimento
humano. O estudo da natureza humana constitui, segundo Hume, a ciência fundamental,
uma vez que todas as outras ciências, como são o resultado do raciocínio humano, de uma
forma ou de outra, dependem dela.
A teoria das ideias
A análise da mente revela que os seus conteúdos são de dois tipos: impressões e ideias, a que
Hume chama indistintamente perceções.
As impressões distinguem-se das ideias pelo grau de força e de vivacidade com que as
apreendemos. As impressões são mais fortes, intensas e vivas do que as ideias. Por
“impressões”, Hume entende as sensações, as emoções e as paixões, como quando vemos,
ouvimos, desejamos, queremos, amamos ou odiamos. (internas e externas). Correspondem à
experiência atual, tida no momento.
As ideias têm menos força e vivacidade que as respetivas impressões. São representações
enfraquecidas das impressões. São cópias das impressões.
Impressões e ideias simples e complexas: as impressões e as ideias podem ser simples ou
complexas. Simples: indivisíveis, isto é, não podem ser decompostas em mais simples e são,
por isso, as unidades cognitivas mais básicas com que a mente trabalha. São as propriedades
primárias como a cor, forma, etc.
Complexas: podem ser decompostas em impressões e em ideias simples. Assim, a impressão
de uma maçã é complexa, uma vez que pode ser decomposta em impressões e ideias
simples.
A origem das ideias / Princípio da cópia
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Todas as ideias têm origem em impressões. Não existem ideias que não tenham por base
impressões que lhes correspondam. Todo o conhecimento começa e acaba na experiência
(na medida em que não podemos conhecer ideias para as quais não existem impressões).
Argumento apresentado por Hume: nenhum homem privado de um sentido desde o
nascimento poderá formar ideias que correspondam às impressões fornecidas por esses
sentidos – um cego não poderá ter a ideia de cor, como um surdo não poderá ter a ideia de
som.
Para Hume, devemos perguntar que impressão está na origem da ideia que o termo refere.
Se não existir qualquer impressão, o termo não tem qualquer significado. O Princípio da Cópia
é, assim, também um critério de significado: permite, remontando às impressões, determinar
o significado efetivo dos termos e até se têm algum significado. Hume vai aplicar este
princípio a algumas das ideias mais importantes da metafísica, em particular, a ideia de
substância e de conexão necessária.
Este é também o critério para determinar a verdade da ideias: se não existir uma impressão
correspondente, então a ideia não poderá ser verdadeira.
Para Hume os primeiros dados do conhecimento são impressões sensíveis. No entanto não é
possível confirmar, a partir destas perceções, a existência dos objetos que elas representam.
Todo o conhecimento se pode reduzir a impressões, ideias e às associações que se podem
estabelecer entre elas. Neste ponto David Hume distingue entre o conhecimento que deriva
da relação de ideias, baseado no princípio da não contradição (matemática e lógica), e o que
deriva do conhecimento dos factos, cuja justificação se encontra na experiência sensível.
Princípios de associação de ideias
Existem princípios que regulam a forma como as nossas ideias se unem entre si. Estes
princípios são três: semelhança, contiguidade no tempo e no espaço e a relação de causa e
efeito.
Semelhança (um retrato faz-nos lembrar o original);
Contiguidade no tempo e espaço (perante um elemento de um casal, lembramo-nos do
outro; perante um comboio podemos pensar na estação ou nos passageiros, etc.);
Causalidade (perante um efeito pensa-se na causa e vice versa);
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Tipos de conhecimento/ objetos de investigação humana: questões de facto e relações entre
ideias
Questões de facto: proposições relativas ao mundo; Fazem afirmações sobre a forma como o
mundo é; São a posteriori; A sua negação não implica uma contradição; São conhecidas com
base na experiência; são contingentes (são de um modo, mas poderiam ter sido de outro);
são proposições que acrescentam conhecimento.
(A verdade das proposições sobre questões de facto pode apenas ser estabelecida a
posteriori, pelo recurso à experiência. O contrário de uma questão de facto é sempre possível
e a negação de uma proposição sobre questões de facto não implica uma contradição, pelo
que não é possível estar absolutamente certo da sua verdade, como no caso das proposições
sobre relações de ideias. Dada a forma como o mundo é, a negação da proposição “O Sol vai
nascer amanhã” é falsa, mas não implica uma contradição, uma vez que é perfeitamente
possível que o Sol não nasça amanhã.)
Relações de ideias: Estabelecem apenas relações entre as ideias que as constituem; São a
priori; A sua negação implica uma contradição; São conhecidas por intuição e por
demonstração; São constringentes; são verdadeiras (a sua negação implica uma contradição
lógica); não dependem do confronto com a experiência; são conhecimentos da lógica,
geometria e matemática; não acrescentam conhecimento (o predicado já está contido no
sujeito). Ex: Teorema de Pitágoras; 3 x 5 = 1/2 x 30; Todos os solteiros são não casados.
(As relações de ideias são conhecidas apenas pelo pensamento, analisando a relação
existente entre as ideias que as constituem. A verdade das proposições que expressam
relações de ideias não depende de qualquer estado de coisas existente no universo e a sua
negação dá origem a uma contradição. São verdades a priori, isto é, independentes da
experiência, conhecidas por intuição e por demonstração. É possível, por isso, conhecer estas
verdades com total certeza.)
A matemática e a lógica dão-nos verdades necessárias, mas não nos dão conhecimentos
sobre o mundo. Por isso, o problema da possibilidade do conhecimento é o de saber se
podemos conhecer os factos do mundo. O nosso conhecimento do mundo consiste –
esquecendo as observações simples como ver o Sol nascer – em explicações, generalizações e
previsões. As explicações implicam o recurso à ideia de relação entre causa e efeito. As
generalizações e as previsões são formas de raciocínio indutivo. Assim, o nosso conhecimento
do mundo baseia-se essencialmente na relação causa e efeito e em inferências indutivas.
Como os argumentos dedutivos se limitam às relações entre ideias, não servem para
conhecer factos.
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O problema da relação de causa e efeito
Todos os raciocínios relativos a questões de facto parecem assentar na relação
de causa e efeito. Somente por meio dessa relação podemos ir além da evidência da nossa
memória e dos nossos sentidos.
Segundo Hume acreditamos na verdade de certas proposições sobre factos inobservados
porque estabelecemos uma relação de causa e efeito entre esses factos (estabelecemos uma
inferência causal).
Para Hume, como para os outros filósofos e cientistas do seu tempo — e como para nós, hoje
—, a ideia de causalidade está associada à ideia de conexão necessária. Pensamos que as
relações causais estabelecem relações de necessidade entre a causa e o seu efeito, de tal
modo que quando a causa ocorre o efeito tem de seguir-se. É o conhecimento da conexão
necessária entre uma causa e o seu efeito que nos permite fazer previsões de
acontecimentos futuros. Sabemos que um dado acontecimento causa sempre um outro. Ao
vermos o primeiro acontecimento ocorrer numa nova ocasião, prevemos a ocorrência do
segundo.
A pergunta de Hume pode, então, ser entendida assim: como conhecemos as conexões
necessárias entre diferentes acontecimentos? Haverá justificação para a causalidade?
Há duas resposta possíveis a esta questão: pela razão, isto é, a priori, ou pela experiência.
Hume discorda tanto dos racionalistas como dos empiristas que o precederam. Nega que
sejamos capazes de conhecer, seja apenas pela razão, a priori, como pretendiam os
racionalistas, seja pela razão com o auxílio da experiência, como pretendiam os empiristas,
conexões necessárias entre acontecimentos.
Para Hume a conexão necessária não tem justificação a priori. Para isso seria preciso que as
relações causais fossem relações de ideias, logo a mera análise da ideia da causa revelaria
todos os seus efeitos. Assim, para sabermos que uma coisa causa outra bastaria refletir nela,
da mesma maneira que refletir, por exemplo, na noção de quadrado é suficiente para que
saibamos que é uma figura geométrica com quatro lados e quatro ângulos iguais. No entanto,
a análise pela razão de uma coisa não permite saber que efeitos resultam dela. Só a
experiência o pode fazer. Para tornar isto claro, Hume usa Adão como exemplo:
“Adão, ainda que supuséssemos que as suas faculdades racionais fossem inteiramente
perfeitas desde o início, seria incapaz de inferir da fluidez e transparência da água que ela o
sufocaria, nem da luminosidade e calor do fogo que este o poderia consumir. Nenhum objeto
jamais revela, pelas qualidades que aparecem aos sentidos, nem as causas que o produziram
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nem os efeitos que dele provirão; e tampouco a nossa razão é capaz, sem a ajuda da
experiência, de fazer qualquer inferência a respeito de questões de facto e existência real.”
Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, p. 43.
Adão — o primeiro homem bíblico — não teve ainda experiências e, por isso, afirma Hume,
não pode meramente refletindo no conceito de água, isto é, a priori, saber que esta o pode
afogar. Só a experiência permite a Adão saber isso. O raciocínio a priori não pode ser a
origem da conexão entre as nossas ideias de causa e efeito, isto é, as nossas inferências
causais não constituem relações de ideias, mas questões de facto. Hume conclui, por isso,
que as causas e os efeitos não podem ser descobertos a priori, mas apenas pela experiência.
Esta é a primeira conclusão cética de Hume. Como vimos, os filósofos, em particular os da
tradição racionalista, como Descartes, acreditavam que as relações causais eram conhecidas
usando exclusivamente a razão. A análise de Hume revela que não é pela razão que
conhecemos as relações causais entre acontecimentos.
“Da primeira vez que um homem viu a comunicação de movimento por impulso, ou pelo
choque de duas bolas de bilhar, ele não poderia afirmar que um evento estava conectado,
mas apenas que estava conjugado com o outro. Depois de ter observado vários casos desta
natureza, passa a declarar que eles estão conectados.”
D. Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, Lisboa
No entanto também não é através da experiência que se pode justificar a noção de
causalidade, visto não termos a experiência de conexão necessária. Aquilo que de facto
vemos é uma relação de contiguidade, de prioridade e sequência no tempo e/ou no espaço,
uma sucessão constante – uma conjunção entre dois fenómenos, a partir da qual assumimos
uma implicação.
Então como explicar a noção de causalidade?
«Talvez um exemplo concreto possa ajudar a compreender o modo como David Hume
abordou o problema da causalidade.
Imagine um bebé a quem os pais sempre tenham dado brinquedos macios e moles para se
entreter. Esse bebé atira frequentemente os brinquedos para fora do berço, e eles caem no
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chão com um baque surdo. Um dia, o tio dá-lhe uma bola de borracha. O bebé examina-a de
todos os ângulos, cheira-a, mete-a na boca, apalpa-a, depois deixa-a cair. Não obstante o
exame cuidadoso a que submeteu a bola, o menino não tem maneira de saber que, em vez
de cair suavemente no chão como os outros brinquedos, ela salta. Só pelo exame de uma
coisa, diz-nos Hume constantemente, não poderemos dizer quais os efeitos que ela pode
produzir. Só podemos determinar as suas consequências em resultado da experiência.
Imagine agora que o tio do menino ficou à espera de ver como brincaria ele com o seu
presente. Quando o tio vê a bola cair, espera que ela salte. Se você lhe perguntar o que fez a
bola saltar, ele responderá: “O meu sobrinho deixou-a cair”; ou ainda: “Há uma conexão
necessária entre deixar cair uma bola e ela saltar”.
Mas Hume faz uma pergunta mais profunda. Qual é a experiência que o tio tem e que falta à
criança? O tio faz uso de conceitos como “causa” e “conexão necessária”. Se não se tratar
apenas de palavras vazias, têm de se reportar de algum modo à experiência. Mas qual é, no
caso presente, a experiência? A experiência do tio difere da experiência do sobrinho em quê?
A diferença consiste, para Hume, num facto simples. Ao contrário do sobrinho, o tio pôde
observar, num grande número de casos, primeiro uma bola de borracha cair ao chão e,
depois, o salto que ela dá. Na verdade, nunca na sua experiência houve um só caso em que
uma bola de borracha tenha sido deixada cair numa superfície dura sem saltar, ou uma bola
de borracha tenha começado a saltar sem primeiro ter caído ou ter sido atirada. Segundo
Hume, há uma “conjunção constante” entre a queda da bola e o salto que dá.
Mas como é que essa diferença de experiências entre o tio e o sobrinho engendra conceitos
como “causa” e “conexão necessária”? O tio viu uma bola de borracha cair ao chão e saltar
em muitas ocasiões, enquanto o sobrinho só viu isso acontecer uma vez. Todavia, o tio não
viu nada que o sobrinho não tivesse visto também, apenas teve mais vezes a mesma
sequência de experiências. Ambos observam que uma bola cai e depois salta – nada mais. O
tio, porém, acredita que há uma conexão necessária entre a bola cair e saltar. E isto não é
alguma coisa que ele encontre na sua experiência; a sua experiência é a mesma que a do
sobrinho, só que se repetiu muitas vezes. Então, donde vem a ideia de uma conexão
necessária, de uma ligação causal, se nunca foi diretamente observada?
A ideia de que existem conexões causais entre os acontecimentos tem um papel importante
no modo como compreendemos o mundo. Mas, quando vamos atrás desta ideia com
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seriedade, descobrimos que a conexão causal não é uma coisa que tenhamos alguma vez
observado concretamente. Podemos dizer que o acontecimento A causa o acontecimento B,
mas, quando examinamos a situação, descobrimos que é o acontecimento A seguido do
acontecimento B aquilo que de facto observámos. Não existe uma terceira entidade, uma
ligação causal, que também seja observada. Donde vem então essa ideia?»
Bryan Magee, Os Grandes Filósofos, Lisboa, Editorial Presença, 1989, pp. 141-143 (adaptado).
[Link] blogspot. pt/2009/05/o-problema-da-causalidade. html
A justificação para a causalidade vem do hábito ou costume de ver dois fenómenos
sucederem-se (conjunção), que nos leva a projetar no futuro essa sucessão como sendo uma
conexão necessária (implicação), levando-nos à crença de que aquela relação sempre se
verificará.
Não podendo ser inferida logicamente nem verificada empiricamente, Hume considera que a
conexão necessária é uma crença psicológica assente no hábito ou costume de ver a natureza
comportar-se sempre da mesma maneira.
O hábito não é um raciocínio ou uma operação da razão, mas um princípio da natureza
humana, um mecanismo psicológico, cuja operação e resultados não dependem nem da
nossa vontade nem da nossa razão. É o hábito, e não a razão, que está na base de todas as
inferências a partir da experiência. Hume vai ao ponto de afirmar que sem o hábito a nossa
vida seria impossível:
O hábito é, portanto, o grande guia da vida humana. É o único princípio que torna a nossa
experiência útil para nós, e nos faz esperar, no futuro, um curso de eventos similar aos que
ocorreram no passado. Sem a influência do hábito seríamos inteiramente ignorantes de todas
as questões de facto que ultrapassem o que está imediatamente presente à memória e aos
sentidos. Nunca saberíamos como adaptar os meios aos fins, nem como empregar os nossos
poderes naturais para produzir qualquer efeito. Acabaria imediatamente toda e qualquer
ação, bem como a maior parte da especulação. (Hume)
O problema da causalidade está relacionado com o problema da indução.
Depois de ter aprendido algo acerca dos efeitos da água, Adão poderia ter previsto que a
água se comportaria sempre do mesmo modo. Este tipo de raciocínio acerca do futuro
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baseado em regularidades passadas é designado por indução. Causas semelhantes produzem
efeitos semelhantes, e torna-se inevitável não pressupor que, a este respeito, o futuro será
como o passado. Contudo, é neste ponto que o assim designado problema da indução se
torna evidente. A justificação dada para presumir que o futuro será como o passado é frágil.
Contudo, constitui a base de todo o pensamento humano.
Nigel Warburton, Grandes Livros de Filosofia, Lisboa, Edições 70, pp. 134-136 (adaptado).
Mesmo que os nossos raciocínios acerca de acontecimentos futuros tenham por ponto de
partida premissas empíricas, nunca é possível justificar racionalmente as conclusões a que
chegamos por seu intermédio.
É frequente chamar-se à premissa de que se parte Princípio da Uniformidade da Natureza.
Este princípio expressa a ideia de que a natureza é uniforme ou que o futuro será como o
passado, isto é, que, em circunstâncias idênticas, os acontecimentos de que não temos
experiência serão como os acontecimentos de que temos experiência.
Contudo, segundo Hume, esta premissa não está em condições de permitir à razão fazer a
inferência de acontecimentos passados para ocorrências futuras porque ela própria não é
justificável, isto é, não é possível provar que é verdadeira. Para o mostrar, Hume recorre à
distinção entre relações de ideias e questões de facto e aos dois tipos de raciocínios que lhes
estão associados, os raciocínios demonstrativos e os raciocínios morais ou prováveis.
É o princípio de que a natureza é uniforme uma relação de ideias que possamos provar por
intermédio de uma demonstração, como o Teorema de Pitágoras? Nesse caso, a negação de
a “Natureza é uniforme” teria de implicar uma contradição. Mas, diz Hume, não há qualquer
contradição em supor que a natureza não é uniforme ou, para dar o exemplo do argumento,
que da próxima vez que comer pão ele não me alimentará. Isto é, nada impede que a
premissa seja verdadeira e a conclusão falsa. O Princípio da Uniformidade da Natureza não é,
portanto, uma relação de ideias e, por isso, não pode ser provado a priori, pela razão apenas.
O princípio é, então, uma questão de facto. Nesse caso, a sua verdade terá de ser provada
por um raciocínio a que Hume chama provável, isto é, com base na experiência. Mas,
podemos provar a sua verdade com base na experiência?
Para provar este princípio com base na experiência temos de fazer um argumento como o
seguinte:
No passado, a natureza tem sido sempre regular. / Portanto, a natureza é regular.
A premissa expressa a nossa experiência da regularidade da natureza. A conclusão é o próprio
Princípio da Uniformidade da Natureza. Passa-se, no entanto, com este argumento o mesmo
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que acontecia com o anterior. Não é possível inferir a conclusão da premissa, porque a
premissa é sobre o passado ao passo que a conclusão é sobre o futuro.
Se não é possível justificar o Princípio da Uniformidade da Natureza também não temos razão
para pensar que as nossas crenças acerca de acontecimentos futuros são verdadeiras. Este é
o famoso problema da indução, de que Hume foi o primeiro a dar conta.
«Segundo Hume, efetuamos inferências causais baseando-nos no que considerámos ter sido
verdadeiro no passado. É verdade que até agora sempre que a mão de uma pessoa comum
entra em contacto com o fogo se queima. Mas como sabemos que isto será verdade no
futuro?
Podemos construir o seguinte argumento:
1. Até agora, sempre que as pessoas tocaram em fogo sentiram dor.
2. As leis da natureza continuarão a ser no futuro o que têm sido até agora (A natureza
comporta-se de modo uniforme).
3. Logo, se eu tocar no fogo irei sentir dor.
Vamos assumir que a premissa 1 é aceitável. Assim sendo, o único problema antes de
eventualmente aceitarmos a conclusão é o valor de verdade da segunda premissa. Podemos
dizer que sabemos que a premissa 2 é verdadeira?
Esta premissa enuncia o chamado princípio da uniformidade da natureza. É um princípio
que formamos por indução: a experiência de milhões de pessoas leva-nos a acreditar que
sempre que as pessoas tocaram em fogo sentiram dor. Isto significa que a generalizamos e
acreditamos que a natureza se comporta sempre do mesmo modo. Este princípio não se
baseia em nenhuma dedução ou operação puramente racional. Não é logicamente impossível
supor que o fogo poderá mudar de propriedades e produzir um efeito refrescante em vez de
queimar. Sendo então um princípio com origem empírica ou indutiva será que podemos
através da experiência justifica-lo (provar que é verdadeiro), ou seja, transformar a crença na
uniformidade da natureza em saber?
Talvez o seguinte argumento possa justificar o princípio da uniformidade da natureza:
1. No passado observaram-se numerosos casos em que dois acontecimentos ocorreram
constantemente conjugados.
2. Sempre aconteceu até agora que o mesmo par de acontecimentos ocorreu conjugado.
3. Logo, as leis da natureza continuarão a operar no futuro como tem operado no passado.
Contudo, este argumento, assume o que tenta provar. Usa como prova o que pretende
provar. As premissas 1 e 2, dizem-nos simplesmente que no passado sempre se verificou que
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o futuro tem sido igual ao passado. Usa-se um argumento indutivo para justificar um princípio
obtido por meio de um argumento indutivo. Comete-se a falácia da circularidade. Não é,
portanto, possível provar que o princípio da uniformidade da natureza é verdadeiro.»
William E. Lawhead, The Voyage of Discovery – A History of Western Philosophy, Londres,
Wadsworth, p. 333 (traduzido e adaptado).
Estabelecemos relações causais entre acontecimentos e fazemos inferências acerca daquilo
de que não temos experiência. Estas operações podem não ter um fundamento racional, mas
é inquestionável que as fazemos. A questão a que é necessário responder, portanto, é esta:
como fazemos este tipo de operações? Por hábito ou costume. Tal como em relação à
causalidade, David Hume apresenta uma justificação psicológica para a indução.
«Hume tem uma resposta para a questão “Porque pensamos que o futuro será igual ou
semelhante ao passado?”, ou seja, porque confiamos nos nossos raciocínios causais/indutivos
acerca de factos futuros. A base desta confiança não é a razão mas o hábito ou o costume. A
repetida experiência de “relações causais “cria a expetativa de que um dado acontecimento
produzirá outro. Tendo obtido prazer em comer pastéis de nata, prevemos que obteremos
prazer quando, no futuro, comermos outros pastéis de nata. Não há nenhuma razão para que
muitas experiências deem mais peso às nossas expetativas do que uma única. Mas essas
numerosas experiências criam em nós o costume de esperar que as “relações causais” até
agora observadas se verificarão no futuro. Precisamos de observar várias repetições da
conjugação entre dois fenómenos ou acontecimentos para que tenhamos confiança nas
nossas previsões, expetativas ou antecipações. A conexão necessária – quando dizemos que
A causa B, estamos a inferir que A será sempre seguido por B e B sempre precedido por A – a
que associamos a relação causal não é uma conexão que esteja nas próprias coisas (por isso
dela não há experiência). É a nossa expetativa que estabelece a conexão entre algo que não
podemos saber que está ligado. Assim, dizer que A causa B, que há uma ligação necessária
entre estes dois factos, significa simplesmente que esperamos que acontecendo A sucederá
B porque nos habituámos a observá-los associados.
Paul Hurley e outros autores, History of Philosophy, Nova Iorque, Harper Collins College
Outline, 1993, pp. 218-219.
AS IDEIAS METAFÍSICAS DE DESCARTES DE DEUS, ALMA E MUNDO
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Assumindo que todas as ideias têm de ter por base impressões correspondentes, Hume vai
contestar as noções da unidade do ser pensante, da existência de Deus e da unidade do
Mundo. (e todas as ideias inatas aceites por Descartes)
«Uma crença que compartilhamos em larga medida, cotidianamente, é a ideia de sermos
um “eu”, ou seja, a crença na existência do “sujeito”. Acreditamos haver algo como um
“eu” individual que vive uma vida própria, um “eu” que pensa, que sabe, que sente, que quer,
que sofre, que é o agente por trás de cada ação sua e que, além de ser agente, sabe o que
está a fazer a cada momento porque racional e consciente. Faz o que “quer” porque assim o
“escolhe” e “sabe” exatamente o que quer fazer e o que faz. “Sabe”, então, muito bem
porque faz o que faz e porque não faz o que não faz, em suma, um agente racional,
consciente de suas ações, de seus motivos e objetivos. Uma espécie de núcleo imutável, que,
não importando quantas variações possamos sofrer com o passar do tempo e dos
acontecimentos que nos afetam, permanece o mesmo, “até à morte” dirão alguns ou “até
mesmo depois da morte” afirmarão alguns outros. Esta crença exerce uma inegável, e sem
dúvida alguma, poderosíssima influência sobre nossa visão de mundo, tanto no decorrer do
dia a dia, quanto em nossas reflexões e conceções históricas e filosóficas a respeito do
mundo e da vida.
No Tratado da Natureza Humana, Hume parece se dirigir-se diretamente a Descartes nesta
passagem:
“Há alguns filósofos que imaginam que estamos intimamente conscientes a todo momento
do que chamamos nosso “eu”, que sentimos a sua existência contínua, tendo certeza, para
além de qualquer evidência ou demonstração, de sua perfeita identidade e simplicidade “
E na sequência, critica: “Infelizmente, todas essas afirmações são contrárias à experiência que
se presume em favor delas, e não temos qualquer ideia do eu da maneira que explicamos
aqui” Ora, afinal, o que é que confere realidade ao tal “eu”? Haverá mesmo tal centro de
comando fixo e imutável que pensa, sente e quer? Como vimos, para Hume, as ideias devem
corresponder a impressões. Por isso, pergunta acerca do “eu”: “De que impressão poderia
essa ideia derivar?” E responde: “A esta questão é impossível responder sem absurdo e sem
uma contradição manifesta” Isto porque “eu ou pessoa não é uma impressão determinada,
mas aquilo que se supõe que as nossas várias impressões ou ideias têm como referência”.
Que impressão pode corresponder à ideia de “eu”? “Se alguma impressão dá origem à ideia
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de eu, esta impressão deve manter ‒ se invariavelmente a mesma, durante todo o curso de
nossas vidas, uma vez que se considera que o eu existe desta maneira”
No entanto, nenhuma impressão é fixa e imutável: “Dor e prazer, tristeza e alegria, paixões
e sensações sucedem -se umas às outras, e nunca existem todas ao mesmo tempo” Assim,
chegamos à seguinte conclusão: “Não podemos, então, derivar a ideia de eu de nenhuma
destas impressões e, por conseguinte, não existe esta ideia”
Não existe, então, alguma impressão que corresponda ao nosso “eu”. Existem impressões de
frio, calor, dor, medo, amor, mas não de “eu”. Mas, se estas impressões existem, não deve
haver um “eu” que as experimenta? Não, pois todas estas impressões “são diferentes,
distinguíveis e separáveis entre si e podem ser consideradas separadamente, podem existir
separadamente e não necessitam de nada para fundamentar sua existência”
Ou seja, não há necessidade de um “eu” como fundamento das impressões particulares.
As impressões não nos pertencem, não são “nossas”. Dessa maneira, o que chamamos
“eu”, não é um centro fixo subjacente às impressões passageiras. Pelo contrário, o máximo
que se pode chamar “eu” é “uma coleção ou feixe de diferentes perceções que se sucedem
umas às outras
com uma rapidez inconcebível e que se encontram em um fluxo e movimento perpétuo”.
Só há impressões particulares em constante movimento. Em nenhum momento deixamos de
experienciar alguma impressão como dor, calor ou alegria, para experienciar um “eu” puro,
que esteve o tempo todo fixo por trás das múltiplas perceções. “
O espírito é uma espécie de teatro onde várias perceções aparecem sucessivamente, passam,
voltam a passar, se deslizam e se misturam em uma infinita variedade de posições e
situações” e estas perceções não apresentam nenhuma “identidade” entre si. Portanto, “eu”
não é quem escreve a peça, não é o ator, nem o personagem, ele é a própria representação
da peça que se desenrola através do movimento contínuo e das combinações das diferentes
perceções a cada instante. Mais adiante, Hume deixa claro que “eu” não é nem mesmo o
palco de teatro vazio onde estas cenas são representadas: “A comparação do teatro não
deve nos enganar. Só as perceções sucessivas constituem o espírito e não possuímos a noção
mais remota do lugar onde estas cenas se representam”. Sendo assim, a identidade pessoal
é apenas uma ficção.
Diogo Bógea, «Hume, Nietzsche e o sujeito como ficção», in Theoria, Revista Eletrônica de
Filosofia
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A nossa experiência de nós próprios não nos dá uma ideia una e permanente do eu, tornando
impossível afirmar que exista como substância independente.
A ideia de Deus corresponde a uma ideia complexa construída pela imaginação que não
corresponde a qualquer impressão e que, por isso, não tem qualquer garantia de existência
ou veracidade. Não nega necessariamente que exista, apenas que o possamos conhecer.
Quanto ao mundo, não temos experiência de uma realidade independente das nossas
impressões. Apenas a coerência e constância de certas perceções nos leva a acreditar nessa
existência.
Suponha que perante si e em cima da mesa da sala está uma caneta. Tem a impressão
sensível desse objeto através do tato e da visão. Imagine que fecha os olhos e deixa de pegar
na caneta. Tem agora, segundo Hume, uma ideia da caneta. Será essa ideia suficiente para
confirmar que a caneta continua a existir independentemente da sua perceção?
A resposta de Hume é não. Segundo Hume, a nossa mente conhece unicamente e as suas
próprias perceções, isto é, as impressões e ideias que derivam das impressões sensíveis. As
impressões são estados internos, subjetivos, e não podem constituir prova de que algo tem
uma existência contínua e independente fora de nós. É a aparente constância das coisas (as
coisas que vemos hoje são mais ou menos iguais às que vimos ontem) que nos leva a
acreditar que têm uma existência independente das nossas perceções. Esta crença não é para
Hume justificável. Mas o facto de não se poder justificar racionalmente a existência do
mundo externo não significa, para Hume, negar que este exista.
Não podemos conhecer a existência do mundo externo, mas podemos acreditar que este
existe. Trata-se de uma crença que até pode ser verdadeira e que, não sendo racionalmente
justificável, é, contudo, tão natural que, segundo Hume, devemos perguntar que razões nos
levam a acreditar que o mundo externo existe e não propriamente se ele existe.
O ceticismo de Hume
O ceticismo de Hume não é radical, mas moderado. Ele aceita a crença na regularidade dos
fenómenos e nas relações de causalidade, só considera que ela não é racionalmente
justificável.
Não podemos provar que conhecemos os factos do mundo, mas não podemos deixar de
acreditar que conhecemos. O conhecimento é uma crença em cuja verdade podemos
confiar mesmo que não a possamos justificar. Devemos deixar-nos guiar pelo hábito.
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Conclusões breves:
Não há ideias inatas: tudo começa e acaba na experiência (empirismo);
O conhecimento de relação entre ideias dá-nos verdades necessárias, mas não fornece
conteúdo acerca do mundo.
O conhecimento de questões de facto dá-nos verdades contingentes, mas está limitado às
impressões do presente e às ideias correspondentes.
Ideias que não tenha impressões que lhe sirvam de base não podem ser verdadeiras.
(empirismo)
Quando o conhecimento tenta ultrapassar a experiência projetando-se no futuro (seja
através da causalidade ou da indução) constitui uma crença (assente no hábito) e não
conhecimento racional.(ceticismo)
A causalidade assenta na ideia de conexão necessária que não tem fundamento a priori
(depende da experiência – argumento de Adão) nem a posteriori (a experiência apenas nos
dá a conjunção dos fenómenos, não a sua implicação);
A indução assenta no PUN (o princípio de que a natureza se comporta sempre da mesma
maneira), mas este assenta ele próprio numa indução (foi preciso ver que a natureza se
comportava sempre da mesma maneira; do futuro não há qualquer experiência, logo não
pode haver conhecimento. (ceticismo)
A dedução não nos dá conhecimento factual (dá apenas relações de ideias – a priori), a
indução só nos dá crenças. (ceticismo)
A crença (baseada no hábito) explica a causalidade, a indução e o PUN. É absolutamente
necessária, apesar de não nos dar conhecimento racionalmente justificado (ceticismo
moderado).
A metafísica é vazia de conteúdo (deus, alma e mundo), uma vez que nenhuma dessas ideias
têm por base impressões e não podemos ter a certeza da existência dos objetos reais.
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