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Multiparentalidade e Direito de Família

Este estudo analisa a relação multiparental no ordenamento jurídico brasileiro e seus efeitos legais, com foco na filiação e na família socioafetiva. A pesquisa revela que a multiparentalidade, reconhecida doutrinariamente e judicialmente, gera direitos como alimentos e herança, refletindo a evolução das relações familiares contemporâneas. O trabalho busca elucidar a importância do reconhecimento jurídico da multiparentalidade e suas implicações no registro civil.

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Multiparentalidade e Direito de Família

Este estudo analisa a relação multiparental no ordenamento jurídico brasileiro e seus efeitos legais, com foco na filiação e na família socioafetiva. A pesquisa revela que a multiparentalidade, reconhecida doutrinariamente e judicialmente, gera direitos como alimentos e herança, refletindo a evolução das relações familiares contemporâneas. O trabalho busca elucidar a importância do reconhecimento jurídico da multiparentalidade e suas implicações no registro civil.

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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA

AUGUSTO RAYMUNDO ALBINO

ANÁLISE ACERCA DO CONCEITO DE FAMÍLIA SOB A ÓPTICA DA RELAÇÃO


MULTIPARENTAL E SEUS EFEITOS PERANTE O ORDENAMENTO JURÍDICO

Tubarão
2021
AUGUSTO RAYMUNDO ALBINO

ANÁLISE ACERCA DO CONCEITO DE FAMÍLIA SOB A ÓPTICA DA RELAÇÃO


MULTIPARENTAL E SEUS EFEITOS PERANTE O ORDENAMENTO JURÍDICO

Monografia apresentada ao Curso de Direito da


Universidade do Sul de Santa Catarina como
requisito parcial à obtenção do título de
Bacharel em Direito.

Linha de pesquisa: Justiça e Sociedade.

Orientadora: Camila Damasceno de Andrade, Prof. MSc

Tubarão
2021
AUGUSTO RAYMUNDO ALBINO

ANÁLISE ACERCA DO CONCEITO DE FAMÍLIA SOB A ÓPTICA DA RELAÇÃO


MULTIPARENTAL E SEUS EFEITOS PERANTE O ORDENAMENTO JURÍDICO

Esta Monografia foi julgada adequada à


obtenção do título de Bacharel em Direito e
aprovada em sua forma final pelo Curso de
Direito da Universidade do Sul de Santa
Catarina.

Tubarão, 07 de dezembro de 2021.

______________________________________________________
Camila Damasceno de Andrade, Prof. MSc.
Universidade do Sul de Santa Catarina

______________________________________________________
Agenor de Lima Bento, Prof. Esp.
Universidade do Sul de Santa Catarina

______________________________________________________
Terezinha Damian Antonio, Prof. MSc.
Universidade do Sul de Santa Catarina
Este trabalho é dedicado a todos que de alguma
forma me ajudaram ao longo desta caminhada.
AGRADECIMENTOS

Em primeiro lugar, a Deus, por ter permitido que eu tivesse saúde e determinação
para ultrapassar os obstáculos encontrados ao longo desta jornada.
Aos meus pais, Lucimar e Juliana, junto a minhas irmãs Isadora e Julia, pelo apoio,
força e amor incondicional. Sem vocês nada disso seria possível.
Agradeço a minha namorada Ana Paula, que jamais me negou apoio, carinho e
incentivo. Obrigado, amor da minha vida, por aguentar tantas crises existenciais.
Aos amigos, que sempre estiveram ao meu lado, pela amizade incondicional e o
apoio demonstrado ao longo de todo o período de tempo em que me dediquei a este trabalho.
A professora Camila, por ter sido minha orientadora e ter desempenhado tal função
com dedicação, compreensão e amizade.
E a todos que direta ou indiretamente fizeram parte de minha formação, o meu
muito obrigado.
“Família não é uma coisa importante. É tudo.”
(Michael J. Fox)
RESUMO

O presente estudo tem como objetivo analisar os aspectos inerentes à relação multiparental no
ordenamento jurídico brasileiro, bem como seus efeitos jurídicos. Para tanto, a pesquisa utiliza
para investigação o método exploratório, a abordagem qualitativa e o procedimento
bibliográfico. Os resultados foram obtidos a partir do estudo de institutos importantes para o
direito de família, como o parentesco e, principalmente a filiação. Com a pesquisa, constatou-
se que a filiação estabelece vínculos muito além da mera relação genética, encontrando alicerce
também nos ideais de afeto e na busca pela felicidade, caracterizando a relação socioafetiva.
Ainda, verificou-se que, por meio do conceito de filiação, surgiria no mundo jurídico a ideia de
família multiparental, formada a partir da combinação de diferentes critérios de filiação. Com
isso foi possível observar que, acompanhando a evolução da sociedade, a multiparentalidade
passou a ser admitida em âmbito doutrinário e jurisprudencial, gerando, com seu
reconhecimento, efeitos jurídicos, como o direito a alimentos, de guarda, e até mesmo o de
herança.

Palavras-chave: Direito de família. Legislação. Registros familiares.


ABSTRACT

This study aims to analyze the aspects inherent to the multiparental relationship in the Brazilian
legal system, as well as its legal effects. Therefore, the research uses the exploratory method,
the qualitative approach and the bibliographic procedure for investigation. The results were
obtained from the study of important institutes for the family law, such as kinship and, mainly,
filiation. With the research, it was found that affiliation establishes bonds that go far beyond
the mere genetic relationship, finding a foundation also in the ideals of affection and in the
search for happiness, characterizing the socio-affective relationship. Furthermore, it was found
that through the concept of affiliation, the idea of a multiparental family would appear in the
legal world, formed from the combination of different criteria of affiliation. Thus, it was
possible to observe that, following the evolution of society, multiparenthood began to be
admitted in a doctrinal and jurisprudential scope, generating, with its recognition, legal effects,
such as the right to food, custody, and even inheritance.

Keywords: Family right. Legislation. Family records.


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 9
1.1 DESCRIÇÃO DA SITUAÇÃO PROBLEMA ............................................................... 9
1.2 PROBLEMA DE PESQUISA ...................................................................................... 10
1.3 JUSTIFICATIVA ........................................................................................................ 10
1.4 OBJETIVOS................................................................................................................ 11
1.4.1 Objetivo geral .......................................................................................................... 11
1.4.2 Objetivos específicos ............................................................................................... 11
1.5 DELINEAMENTO DA PESQUISA ............................................................................ 11
1.6 ESTRUTURA DOS CAPÍTULOS ............................................................................... 12
2 FAMÍLIA NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO .................................. 13
2.1 BREVE HISTÓRICO .................................................................................................. 13
2.2 CONCEITO................................................................................................................. 17
2.3 PODER FAMILIAR .................................................................................................... 19
2.4 PARENTESCO ........................................................................................................... 22
3 FILIAÇÃO ................................................................................................................... 26
3.1 CONCEITO E CONTEXTO HISTÓRICO .................................................................. 26
3.2 ESPÉCIES DE FILIAÇÃO .......................................................................................... 28
4 MULTIPARENTALIDADE ........................................................................................ 34
4.1 CONCEITO E ORIGEM DA MULTIPARENTALIDADE.......................................... 34
4.2 PRINCÍPIOS NORTEADORES .................................................................................. 36
4.3 ASPECTOS E EFEITOS JURÍDICOS DO RECONHECIMENTO DA
MULTIPARENTALIDADE ................................................................................................ 40
4.3.1 Cumulação da filiação socioafetiva e biológica no registro de nascimento ........... 43
5 CONCLUSÃO .............................................................................................................. 45
REFERÊNCIAS ................................................................................................................. 47
9

1 INTRODUÇÃO

A presente pesquisa aborda como tema o conceito de família sob a óptica da relação
multiparental e seus efeitos perante o ordenamento jurídica. Assim, inicialmente, como método
de ingresso no estudo, far-se-á, neste capítulo, a apresentação da descrição da situação problema
que envolve o tema, assim como da justificativa deste. Também, serão listados os objetivos
gerais e específicos, além dos procedimentos metodológicos da investigação. Ao final,
apresentar-se-á a estrutura dos capítulos que compõem o desenvolvimento deste trabalho.

1.1 DESCRIÇÃO DA SITUAÇÃO PROBLEMA

A família, certamente, desempenha, desde os primórdios da humanidade, papel de suma


importância na vida do ser humano, uma vez que transmite em seu seio não somente padrões
de comportamento, mas também de sentimento, representando, assim, a forma pela qual o ser
se relaciona com o meio em que vive.
Não obstante seja um termo difícil de se definir, é certo que a ideia de família veio
sofrendo modificações ao longo do tempo, principalmente no período contemporâneo. Isso
porque teve de se habituar a relações muito complexas, para além da ideia de mera filiação
relacionada com a genética, isto é, ligação entre pais e filhos pela consanguinidade.
Chama atenção, sem dúvida, o surgimento da ideia de filiação socioafetiva, baseada nos
alicerces do afeto e da busca pela felicidade, pois abrange um outro nível de família, acima dos
laços biológicos. O reconhecimento do afeto, no mundo atual, é inegável, pois sem dúvida,
exprime o sentimento inerente à vida psíquica e moral do ser humano. Como exemplo de
relação socioafetiva, tem-se a adoção.
Dentro dessa ideia de parentalidade socioafetiva, o período moderno trouxe consignado
em seu bojo a possibilidade da multiparentalidade, caracterizada pela pluralidade de relações
parentais, isto é, de mais de um pai ou de mais de uma mãe à uma mesma pessoa, com origem
em diferentes situações.
No Estado Brasileiro, durante muito tempo, a relação multiparental foi uma
interpretação admitida somente pela doutrina, porém, aos poucos veio sendo reconhecida
também em âmbito judicial. Certamente, seu reconhecimento é de grande importância, pois
passa a abranger relações mais complexas que as previstas em Lei. Porém, é certo que seu
reconhecimento não apenas estabelece o vínculo, como também deve gerar efeitos diante do
ordenamento jurídico brasileiro.
10

Assim, a presente pesquisa se limita a estudar o conceito de família, em especial da


família multiparental, buscando analisar os efeitos jurídicos decorrentes do reconhecimento
deste tipo familiar perante o ordenamento jurídico brasileiro.

1.2 PROBLEMA DE PESQUISA

Diante da situação problema apresentada, surge o seguinte problema de pesquisa: quais


os efeitos jurídicos da relação multiparental perante o ordenamento jurídico brasileiro, em
especial no que diz respeito ao registro civil?

1.3 JUSTIFICATIVA

Certamente, a definição de família vem se tornando algo cada vez mais difícil. Isso
porque as relações familiares estão mais complexas e os conceitos em torno do sentimento e
comportamento que a família representa estão cada vez mais amplos.
Veja-se, com o passar do tempo, que a ideia e o conceito de família socioafetiva abriram
espaço para inclusão de múltiplas relações parentais, não explicadas meramente por laços
biológicos. Uma delas, sem dúvida, foi e ainda vem sendo a relação multiparental.
Caracterizada como uma família com dois pais ou duas mães para a mesma criança,
durante muito tempo a multiparentalidade não recebeu a atenção que lhe era devida. Ora, não
há como negar que relações deste tipo existem há muito tempo, porém, por longo período,
sequer se pensava na relação multiparental como uma ramificação da família.
Aos poucos, contudo, houve o reconhecimento doutrinário e jurisprudencial acerca do
tema. E, sem dúvida, tal reconhecimento já confere certa garantia jurídica àqueles que vivem
nessa condição de multiparentalidade. Contudo, é certo que a ausência de previsão legal
específica deixa a desejar no que tange ao resguardo de todos os direitos daqueles que mantêm
a relação multiparental.
De fato, a situação abre margem às mais diversas especulações quanto aos direitos e
deveres decorrentes da multiparentalidade, em especial pela falta de regulamentação específica
por intermédio de lei. Assim, a pesquisa se revela de suma importância, a fim de elucidar como
vem sendo interpretado os direitos daqueles que vivem sob a forma da relação multiparental.
Destarte, a pesquisa contribui de forma significativa para a elucidação do atual entendimento
em relação a esse ponto.
11

É, assim, nessa perspectiva, que se busca com o presente estudo analisar o conceito de
família, tendo como base a relação multiparental e seus efeitos perante o ordenamento jurídico,
especialmente no tangente ao registro civil da criança, filha/filho de dois pais ou duas mães.

1.4 OBJETIVOS

Neste tópico, far-se-á a apresentação do objetivo geral, bem como dos objetivos
específicos que norteiam esta pesquisa.

1.4.1 Objetivo geral

A presente pesquisa apresenta como objetivo geral analisar quais os efeitos jurídicos
decorrentes do reconhecimento da relação multiparental no ordenamento jurídico brasileiro, em
especial no que diz respeito ao registro civil.

1.4.2 Objetivos específicos

Traçar o histórico do benefício de família, bem como expor seu conceito;


Analisar o conceito de parentesco;
Elucidar o que vem a ser filiação, seu histórico, bem como espécies previstas;
Explicar acerca da relação multiparental, em especial seu conceito e origem;
Sintetizar os princípios norteadores da multiparentalidade.
Avaliar os aspectos jurídicos inerentes ao reconhecimento da relação multiparental, em
especial no que tange ao registro civil da criança que se encontra inserida neste tipo de relação
familiar.

1.5 DELINEAMENTO DA PESQUISA

Para a pesquisa, utilizou-se o método de natureza exploratória, possui o propósito de


esclarecer e desenvolver o assunto para maior compreensão e familiaridade com a problemática
do objeto da investigação (GIL, 2010).
Em relação à abordagem utilizada, esta é qualitativa, uma vez que preza pela descrição
detalhada dos elementos que envolvem a ideia de multiparentalidade (VIEIRA; ZOUAIN, 2013
apud AUGUSTO et al., 2013).
12

Por fim, quanto ao procedimento empregado para a coleta de dados, tem-se a utilização
da pesquisa bibliográfica, na medida em que o pesquisa se desenvolve mediante análise das
teorias já publicadas em doutrinas e artigos (GIL, 2010).

1.6 ESTRUTURA DOS CAPÍTULOS

A presente monografia se encontra estruturada em cinco capítulos, sendo o primeiro


composto por esta introdução. O segundo capítulo inicia o desenvolvimento da pesquisa e
aborda o histórico da família sob uma óptica geral e no Brasil, bem como traz os aspectos
inerentes ao seu conceito e ao instituto do parentesco. O terceiro capítulo, por sua vez, apresenta
um estudo acerca da filiação, em suas variadas formas admitidas pelo ordenamento jurídico
brasileiro, bem como suas espécies. O quarto capítulo expõe a análise acerca do ideal de
multiparentalidade, os princípios norteadores, bem como seus efeitos diante do universo
jurídico. Ao final, o quinto capítulo traz a conclusão do presente estudo.
13

2 FAMÍLIA NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO

Como forma de início do estudo, no presente capítulo, tem-se por finalidade discorrer
acerca da origem e da evolução histórica da família, como as antigas, gregas e romanas,
contemporânea e a família após a Constituição Federal de 1988, mostrando-se de suma
importância a compreensão do instituto de um modo geral para assim formar um embasamento
teórico e legal sólido até o tema central deste trabalho.

2.1 BREVE HISTÓRICO

Apesar da dificuldade de se definir “família”, traços de sua definição já eram presentes


na época do direito romano (BITTAR, 1993). Com o início das civilizações, em seu estado
primordial, o grupo familiar consistia em relações entre os membros de um mesmo clã e, em
alguns povos, as relações não eram individuais, considerando que as relações sexuais ocorriam
entre todos os membros desse clã. A evolução jurídica da família sucedeu-se a partir de Roma,
tendo o direito romano fornecido estrutura bastante característica, tornando-a unidade jurídica,
religiosa e econômica com a figura da autoridade soberana de um chefe. (PEREIRA, R., 2011).
O alicerce da família no direito romano e grego, pelo longo período da Idade Antiga e
da Idade Média, não encontrava supedâneo no afeto natural. Assim, a religião foi o principal
elemento característico da família antiga, sendo considerada mais associação religiosa do que
uma associação natural. (GONÇALVES, 2014).
Com efeito, a Grécia Antiga teve sua primeira etapa de formação nos clãs, compostos
pela união de indivíduos baseada no parentesco, além de que os clãs propiciaram a formação
das polis, que eram conhecidas como cidades-Estados. Estas apresentavam mecanismos de
organização política diversos, sendo independente umas das outras. Entretanto, existia uma
certa união no aspecto cultural, especialmente quanto à língua e aos costumes. (ACKER, 1994).
Doravante, já em Roma, a família era organizada sob o princípio da autoridade e
abrangia quantos a ela estavam submetidos. Nesse sentido, o pater era chefe político, sacerdote
e juiz. Comandava, oficiava o culto dos deuses domésticos e distribuía justiça. Além disso,
exercia sobre os filhos direito de vida e de morte, podendo impor-lhes pena corporal, vendê-los
e tirar-lhes a vida. Por fim, somente o pater adquiria bens, exercendo o poder sobre o patrimônio
familiar. (ACKER, 1994).
14

Também, nessa época, a mulher vivia totalmente subordinada à autoridade marital,


inexistindo autonomia de vontade, pois passava da condição de filha à de esposa, sem alteração
na sua capacidade e sem possuir direitos próprios (PEREIRA, R., 2011).
Ao longo do tempo, com a civilização mais evoluída surgiu-se a religião doméstica, em
que as famílias viviam em torno dos cultos domésticos que se transmitiam de linha masculina
à linha masculina. Em relação à mulher, ainda ocupava o lugar de submissa ao patriarca da
família, só participando dos cultos por intermédio de seu pai ou de seu marido. (PERNOUD,
1997).
Diante desses pressupostos fáticos antigos, observa-se que, na origem da família não
valia o afeto, pois o que unia os membros da família antiga eram os cultos religiosos, tratando-
se a família como associação religiosa (COULANGES, 2004).
Importante frisar que a primeira instituição formada para a religião doméstica foi o
casamento. Como filha, a mulher assistia aos cultos religiosos do seu pai, e depois de casada
assistia aos do seu marido. Se a família do marido possuía deuses diferentes, a mulher acabava
seguindo o culto de seu marido e deixava o culto do pai, passando a adorar outros deuses,
praticar outros ritos e a recitar outras orações. Ademais, a cerimônia do casamento era realizada
em casa no templo do deus doméstico de quem presidia ao ato. (SIQUEIRA, 2010).
O casamento romano assemelhava-se com o casamento grego, pois após a cerimônia, a
mulher não entrava por si mesma em sua nova habitação, sendo carregada pelo próprio marido,
abandonando totalmente o lar paterno, além de deixar de cultuar os mortos de seus
antepassados, pois não tinha mais esse direito, agora a mulher oferecia sacrifícios aos
antepassados de seu marido. O casamento proporcionava um segundo nascimento à mulher.
(ARRUDA; PILETTI, 1999).
Em caso de adoção, precisava iniciar o filho no culto doméstico para aproximá-lo de
seus ancestrais. Com efeito, o filho adotivo jamais voltava a entrar na família em que nasceu,
uma vez que a adoção correspondia como correlativo à emancipação. Para que um filho pudesse
fazer parte de uma nova família, era necessário estar apto a sair da antiga, logo, devia ter-se
libertado previamente de sua religião originária. (CAMPOS, 1988).
Na Idade Média, especificamente depois da reforma religiosa, o matrimônio passou a
ser compreendido como um contrato estabelecido entre o casal, dando voz à mulher e aos filhos
que nasceram dessa união, tornando-se as relações sociais melhor definidas, nas quais a posição
ocupada pela mulher passou a ser alvo de muitas discussões, mas ela continuou ocupando o
lugar de submissa ao patriarca da família, com a obrigação de cuidar da casa e de seus filhos.
(COULANGES, 2004).
15

Doravante, na Idade Contemporânea, a família moderna se diverge das formas antigas


no que se refere as suas aplicações, formação, papel e desempenho dos pais e dos filhos. Nesse
sentido, a família se volta mais aos laços afetivos, baseando-se na fraternidade, na igualdade,
no companheirismo e no amor. Já em relação à evolução pós-romana, a família recebeu reforço
do direito germânico, buscando a espiritualidade cristã, reduzindo-se o grupo familiar aos pais
e filhos, além de assumir cunho sacramental. (GONÇALVES, 2014).
Ressalta-se que em grande parte das legislações existe a igualdade de direitos entre o
marido, mulher e os filhos. Os conflitos sociais gerados pela nova posição social dos cônjuges,
as pressões econômicas e o desgaste religioso são alguns dos motivos que aumentaram o
número de divórcios. Outrossim, as uniões livres passaram a ser aceitas mais pela sociedade e
foram regulamentadas. A unidade familiar, tanto pelo aspecto jurídico quanto pelo social, não
é traçada mormente pelo casamento. (GONÇALVES, 2014).
Nos dias atuais, a escola e outras instituições de educação, esportes e recreação
preenchem ofícios dos filhos que eram de responsabilidade dos pais. Os ofícios não são
transmitidos de pais para filhos dentro dos lares e das corporações de ofício. Diante disso, a
educação cabe ao Estado ou às instituições privadas supervisionadas por ele. A religião não é
mais ensinada em casa e a multiplicidade de seitas e crenças, desvinculados da fé originais,
algumas vezes oportunistas, não mais permite uma definição homogênea. Tem-se também que
as funções de auxílio e amparo a crianças, adolescentes, necessitados e idosos têm sido
assumidas pelo Estado. (VENOSA, 2015).
Com as constantes mudanças sociais, a família moderna adquiriu um novo modelo,
acolhido por sua nova identidade, cujos valores se modificaram. A realidade das famílias
modernas delineou uma revolução em sua organização, dado que a autoridade do pai
enfraqueceu ao tempo em que a mãe deixou de ser do lar para concorrer com os homens no
mercado de trabalho. Por via de consequência, a sociedade transformou-se novamente, uma vez
que a mulher, com sua habilidade, influenciou positivamente o mercado de trabalho, a
educação, a política e o próprio homem. (VENOSA, 2015).
No Brasil, a evolução da ideia de família teve, durante muito tempo, influência da
família romana, principalmente em relação ao conceito de patriarcado, aplicado durante o
período do Brasil Colonial e Brasil Império, como na ideia de família constituída sob a base
religiosa. A título de exemplo, a legislação brasileira (Ordenações Filipinas) previa a
necessidade de consentimento paterno para o casamento. O Código Civil de 1916 traria algumas
inovações inerentes à família, porém, ainda mantinha o pensamento estabelecido ao longo dos
anos. (MALUF, C.; MALUF, A., 2021). Contudo, conforme explicam Gagliano e Pamplona
16

Filho (2021, p. 24), “a evolução da sociedade e, com ela, da própria visão da família acabou
forçando sucessivas modificações nessa disciplina normativa”.
Após o Código de 1916, merece destaque a evolução da família nas Constituições que
o sucederem. A Constituição de 1934, precursora em relação à defesa da instituição da família,
trouxe em seu texto a obrigação do Estado brasileiro em amparar as famílias de prole numerosa,
bem como estimulou a indissolubilidade do casamento. (MALUF, C.; MALUF, A., 2021).
Por seu turno, a Constituição de 1937 igualou filhos naturais e legítimos e conferiu
proteção à infância e à juventude pelo Estado. Por sua vez, a Constituição de 1946 manteve a
ideia de que o casamento é indissolúvel, porém, inovou ao equiparar o casamento civil ao
religioso, situação que foi mantida com a Constituição de 1967. (MALUF, C.; MALUF, A.,
2021).
Certamente, merece destaque a Emenda n. 1/1969, pois apesar de manter a ideia de
casamento indissolúvel, estabeleceu a possibilidade de dissolução após prévia separação
judicial por três anos. Logo mais tarde, pela Emenda n. 2/1977, seria admitido o divórcio direto,
para separações de fato por mais de cinco anos. Aliás, com esta, se fez surgir no ordenamento
jurídico brasileiro grande inovação, que foi a Lei do Divórcio, instituída em 26 de dezembro de
1977 (Lei n. 6.515). (MALUF, C.; MALUF, A., 2021).
Por sua vez, a Carta Federal de 1988 introduziu um novo panorama de família, baseado
na experiência europeia. Certamente, trouxe inúmeras transformações, diante da nova realidade
social no mundo contemporâneo, alcançando o centro familiar, por meio de regulamentação de
novas concepções de unidade familiar, da instauração da igualdade entre homem e mulher.
(BRASIL, 1988). A pluralidade das relações familiares rompeu com o aprisionamento da
família nos padrões restritos do casamento. (PEREIRA, R., 2011).
Advém dessa pluralidade a família contemporânea e seus variados núcleos, como o
tradicional familiar que é formado por um homem e uma mulher, com um ou dois filhos, tendo
uma relação matrimonial ou não, ou o matrimônio informal, que é formado por um casal em
uma união estável. Na família homoafetiva, em que o centro é formado por pessoas do mesmo
sexo, unindo-se para a constituição de uma família, como também o núcleo adotivo que passa
a ser formada sem a presença de um ascendente, e a família monoparental é a instituição
formada por um dos pais. (PEREIRA, R., 2011).
Na esteira dos valores constitucionais da Carta Federal, também se destaca, como
evolução familiar, o advento do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069), de 13 de
julho de 1990, conferindo ao filho, antes tratado como objeto diante do poder paterno, o caráter
de protagonista do processo educacional. Destaca-se que esta Lei também passou a regular a
17

adoção no país, também com o olhar à Constituição, deixando de lado a ideia de atribuir uma
família aos menores desamparados, para assegurar o pleno desenvolvimento da criança, seja na
família natural, seja na família substituta. (TEPEDINO; TEIXEIRA, 2020).
Com as mudanças supracitadas, tem-se, por consequência, o aumento de uniões estáveis,
a diminuição de casamentos religiosos, a maior inclusão da mulher no mercado de trabalho e
na participação econômica no núcleo familiar, caminhando para um processo complexo de
remodelagem de diversos padrões estabelecidos pela sociedade ao longo do tempo.

2.2 CONCEITO

A Carta Magna de 1988 estabeleceu para as pessoas a dignidade da pessoa humana e a


afirmação dos direitos fundamentais como valores indispensáveis para se construir uma
sociedade livre, justa e solidária, afirmando que a base da sociedade é a família e merece
especial proteção do Estado (BRASIL, 1988).
O Código Civil, por sua vez, trouxe uma nova compreensão de família, mais adequada
com os dias atuais e em harmonia com a Constituição Federal, que estabelece a igualdade entre
os cônjuges e os companheiros, a igualdade entre os filhos e que também instituiu o poder
familiar, com igualdade de ambos os progenitores, estendendo o conceito de família e
abrangendo a união estável. (GONÇALVES, 2014). Sobre as disposições contidas no Código
Civil, Dias (2015) leciona que grande parte do Direito Civil está na Constituição, que acabou
enlaçando os temas sociais juridicamente relevantes para garantir-lhes efetividade,
demonstrando que a intervenção do Estado nas relações de direito privado permite o
revigoramento das instituições de direito civil e, diante do novo texto constitucional, forçoso
ao intérprete redesenhar as camadas do Direito Civil à luz da nova Constituição.
Nessa senda, surgiu uma nova fase do direito de família e, por conseguinte, do
casamento, baseada na aceitação de diferentes formas familiares, em que arranjos peculiares
são igualmente aptos a constituir esse núcleo doméstico chamado família, recebendo todos eles
a proteção do Estado (FREITAS, 2014). Nesse sentido, discorre Azeredo (2018, p. 32):

A promulgação da Constituição Federal do Brasil de 1988 começou a desconstituir a


ideologia patriarcal, edificada em uma família monogâmica, parental, centralizada na
figura paterna e patrimonial, e trouxe em seu texto princípios importantes
relacionados à família, como a dignidade da pessoa humana, bem como o valor
jurídico dado à afetividade e à solidariedade familiar. Somado a isso, cuidou de
capítulos específicos relacionados à família, à criança, ao adolescente, além da
igualdade entre homens e mulheres em direitos e deveres.
18

Com efeito, não houve uma recepção constitucional do conceito histórico de casamento,
sempre considerado como a única forma de constituição de família, sendo um ambiente de
alteração dos princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana. Com o advento da
Carta Magna de 1988, a concepção constitucional do casamento, diferentemente do que ocorria
com os diplomas superados, deve ser necessariamente plural, porque plurais também são as
famílias e, ademais, não é o casamento o destinatário final da proteção do Estado, mas tão
somente o intermediário de um propósito maior, que é a proteção da pessoa humana em sua
inalienável dignidade. (BRASIL, 2011).
A Lei Maior, que reconheceu a união estável como instituto familiar, não foi por si só
capaz de conceder direito sucessório aos companheiros. Assim, foi necessária a criação de lei
integrativa, essencial à plenitude de sua eficácia, tendo a jurisprudência, à época, insistido em
conceder a herança do parceiro aos parentes, apenas admitindo a partilha do patrimônio
adquirido por esforço comum. (GONÇALVES, 2014).
O modelo igualitário da família constitucionalizada, segundo Lôbo (2018), contrapõe-
se ao modelo autoritário do Código Civil de 1916, pois o consenso, a solidariedade, o respeito
à dignidade das pessoas que a integram são as bases da transformação paradigmática que
inspiram o marco regulatório estampado na Constituição de 1988.
Doravante, a característica socioafetiva da filiação transforma-se em gênero,
abrangendo tanto as espécies biológicas quanto as não biológicas. A igualdade entre os gêneros
e os filhos são consumadas, reafirmando a liberdade de constituir, manter e extinguir a entidade
familiar e a liberdade de planejamento da família, sem intervenção do Estado. Portanto, a
família configura-se no espaço de realização pessoal e da dignidade humana de seus membros.
(LOBO, 2018).
No que diz respeito às Constituições passadas, a Constituição de 1946 tinha como foco
o casamento, já na Constituição de 1967, com a Emenda Constitucional de 1969, o casamento
obteve a proteção do Estado e a Constituição da República de 1988 passou a proteger tanto o
casamento, como a união estável, a família monoparental e as outras organizações familiares
(CASTANHO, 2012).
Em suma, tem-se que a Constituição Federal de 1988 instituiu a afirmação dos direitos
fundamentais e a dignidade da pessoa humana como princípios supremos e determinantes para
se construir uma sociedade livre, justa e solidária (BRASIL, 1988). Por conseguinte, o Código
Civil de 2002 fornece a mais nova compreensão da entidade familiar adaptada ao novo século,
com a igualdade dos familiares, dos filhos, adaptando o poder familiar como aquele que é
19

exercido como um poder-dever em igualdade de condições por ambos os progenitores


(BRASIL, 2002).
Por fim, neste mosaico da diversidade, o único objetivo é a realização pessoal de cada
um de seus membros, o respeito ao outro e a proteção de suas individualidades, por isso o afeto
passou a ser a regra das relações familiares, não sendo mais o biológico que impera
(AZEREDO, 2018).

2.3 PODER FAMILIAR

Conforme a Constituição Federal, especificamente em seus artigos 5º, inciso I, e 226,


§5º, o poder familiar pode ser exercido pelo pai e pela mãe, em regime de igualdade,
descaracterizando, dessa maneira, o antigo direito absoluto, autoritário e discricionário exercido
pelo pai (BRASIL, 1988). Frisa-se, ainda, o poder familiar como um instituto destinado à
proteção e guarda dos interesses do filho menor e não mais a autoridade do patriarca sobre todos
os membros do núcleo familiar (SANTOS NETO, 1994).
Com o Código Civil de 2002, surgiu o poder familiar com base na ideia de que este
poder deve ser exercido por ambos os pais, ou seja, tanto o pai quanto a mãe têm direitos e
deveres no tocante aos filhos menores (BRASIL, 2002). Nessa senda, o poder familiar consiste
num conjunto de direitos e deveres designados aos pais, no que tange à figura da pessoa e dos
bens dos filhos não emancipados, visando à proteção deles e sobretudo garantindo seu bem-
estar (RODRIGUES, 2002).
Em complemento, o poder familiar pode ser elucidado como sendo um agrupamento de
direitos e obrigações no que concerne à pessoa e aos bens do filho menor não emancipado,
desempenhado por ambos os genitores, em igualdade de condições, para que possam executar
as incumbências que a norma jurídica lhes impõe, intentando-se para o interesse e o cuidado do
filho (DINIZ, 2015).
Em síntese, Tartuce (2016, p. 1.408) aduz que o poder familiar “é uma decorrência do
vínculo jurídico de filiação, constituindo o poder exercido pelos pais em relação aos filhos,
dentro da ideia de família democrática, do regime de colaboração familiar e de relações
baseadas, sobre tudo, no afeto”.
Dentro de um casamento civil válido, existe uma série de direitos e deveres incumbidos
aos pais, como proporcionar o sustento, a educação, a guarda e a proteção aos filhos,
concedendo-lhes também, os meios necessários e indispensáveis para o desenvolvimento
psicológico e orgânico. Deve-se ressaltar que o exercício do poder familiar não depende da
20

existência de casamento civil, mas somente da filiação. Dessa feita, os filhos derivados de
famílias provenientes de união estável e da monoparental devem estar sob custódia do poder
familiar exercido pelos seus respectivos pais. (LISBOA, 2004).
Ademais, é notório que o Estado possui interesse em garantir a proteção e segurança
adequada para as novas gerações, tendo em vista que constituem a futura sociedade do país.
Portanto, o aludido instituto retrata um múnus público, pois o Estado impõe aos genitores o
poder familiar, com o objetivo de cuidar e garantir o futuro de seus filhos. (RODRIGUES,
2002). Nesse sentido, Ishida (2003, p. 50) ensina:

O pátrio poder apresenta características bem marcantes: a) é um munus público, uma


espécie de função correspondente a um cargo privado (poder-dever); b) é
irrenunciável: dele os pais não podem abrir mão; c) é inalienável: não poder ser
transferido pelos pais a outrem, a título gratuito ou oneroso; todavia, os respectivos
atributos podem, em casos expressamente contemplados na lei, ser confiados a outra
pessoa (ou seja, na adoção e na suspensão do poder dos pais); d) é imprescritível: dele
não decai o genitor pelo simples fato de deixar de exercê-lo; somente poderá o genitor
perde-lo nos casos previstos em lei; e) é incompatível com a tutela, o que é bem
demonstrado pela norma do parágrafo único do artigo 36 do Estatuto da Criança e do
Adolescente.

A imposição de deveres pela lei aos pais, com o objetivo de resguardar os filhos,
enaltece o caráter de múnus público do poder familiar, tornando-o irrenunciável indiretamente,
considerando que os pais não podem renunciá-lo pelo simples acordo de vontades entre as
partes (RODRIGUES, 2002).
Seja filho sob pátrio poder, seja órfão ou interdito, toda pessoa que não exercer os atos
da vida civil por si mesma é um incapaz, total ou parcialmente. Para tornar efetiva e concreta a
proteção a que todos eles fazem jus, a legislação prescreve procedimentos adequados. A criança
e o adolescente que, embora submetidos ao pátrio poder, não tenham seus direitos respeitados,
poderão se desvencilhar do mau exercício do múnus paterno por meio de intervenção do
Ministério Público ou de quem tenha legítimo interesse, consoante artigo 155 da Lei n.
8.069/90. (CARVALHO, 1995).
No que concerne às características do poder familiar, entende-se por múnus público a
ideia de função correspondente a um cargo privado, tratando-se de direito-função e de um
poder-dever, pois estaria numa posição intermediária entre o poder e o direito subjetivo. Assim,
o instituto supracitado é irrenunciável já que os genitores não podem abrir mão dele, é
inalienável ou indisponível, em virtude de que não pode ser investido a outras pessoas. (DINIZ,
2015).
21

Ainda, outra característica do poder familiar é a de ser imprescritível, logo, dele não
decaem os pais em virtude de não o exercer. Poderão, contudo, perdê-lo nas situações previstas
na legislação e em decorrência da incompatibilidade da tutela, pois veda-se a nomeação de tutor
a menor, cujo pai ou mãe não sofreram a suspensão ou destituição do poder familiar. (DINIZ,
2003). Ademais, apesar do múnus do poder familiar ser considerado irrenunciável, pode ocorrer
por meio da suspensão e destituição. Além das características supramencionadas, o poder
familiar é alienável e, a princípio, intransferível e indisponível. (LISBOA, 2004).
A partir do Código Civil de 2002, houveram mudanças significativas no cenário
familiar, sendo concedido o exercício do poder familiar de forma simultânea para ambos os
pais e secundariamente, propiciou-se, em situações de discordâncias entre os mesmos, a via
judicial (COMEL, 2003).
O fato da Constituição Federal de 1988 trazer em seu texto, mormente no artigo 226,
§5º, que durante a sociedade conjugal os direitos e deveres serão efetuados em igualdade de
condições por ambos os cônjuges, é que tal prosseguimento passou a não ser mais aceito
(BRASIL, 1988). Ademais, o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069/90) infirma
que o poder familiar será exercido tanto pelo pai quanto pela mãe, não se baseando, portanto,
no sexo para definir as atribuições destinadas aos pais, à medida que agirem conforme a forma
disposta na legislação civil (BRASIL, 1990).
O Código Civil de 2002 dispõe que os filhos estão subordinados ao poder familiar
enquanto menores, compreendendo-se que os genitores são os únicos titulares ativos e os filhos
os sujeitos passivos dele (BRASIL, 2002). Nesse sentido, o cumprimento dos deveres derivados
do poder familiar só é possível a partir da titularidade dos filhos quanto aos direitos
correspectivos. Assim, o poder familiar é constituído por titulares mútuos de direitos. (DIAS,
2003).
O exercício do poder familiar segue as regras do artigo 1.634 do Código Civil atual, que
preceitua em seu bojo a ideia de que compete a figura dos genitores em relação à pessoa dos
filhos menores: a) dirigir-lhes a criação e a educação, o devendo os pais matricularem seus
filhos na rede regular de ensino, consonante o artigo 55 do Estatuto da criança e do adolescente;
b) os manter em sua companhia e guarda, proporcionando-lhes a segurança devida; c) conceder
ou negar-lhes consentimento e permissão para casarem, assim ambos os pais devem concordar,
pois o casamento emancipa e, portanto, interfere na situação jurídica de ambos; d) nomear-lhes
tutor por meio de testamento ou documento autêntico e válido, se caso um dos pais não
sobreviver ou na hipótese em que o sobrevivente não puder exercer o poder familiar; e) os
representar, até os dezesseis anos, nos atos da vida civil, e assisti-los após essa idade, nos atos
22

em que os mesmos forem partes, suprindo-lhes o consentimento quando necessário; f) na


circunstância em que o poder familiar foi violado, reclamá-los de quem ilegalmente os detenha;
g) exigir que lhes prestem obediência, o devido respeito e as atividades próprias de sua idade e
condição (BRASIL, 2002).
O Estatuto da Criança e do Adolescente, quando cuida do poder familiar, em seu artigo
22, prescreve que incumbe aos pais “o dever de sustento, guarda e educação dos filhos menores”
e sempre no interesse destes, o dever de cumprir as determinações judiciais (BRASIL, 1990).
Tal regra permanece aplicável, pois aos poderes assegurados pelo Código Civil somam-se os
deveres fixados na legislação especial e na própria Constituição. O dever de guarda não é
inerente ao poder familiar, pois pode ser atribuído a outrem (PEREIRA, C., 2012).

2.4 PARENTESCO

O parentesco consiste num vínculo jurídico estabelecido entre pessoas que têm mesma
origem biológica, entre cônjuge ou companheiro e os parentes do outro e entre as pessoas que
têm entre si um vínculo civil (TARTUCE, 2016). Aduz Rizzardo (2006, p. 393) que “a
regulamentação das relações entre pessoas, e que tem como fonte obrigatória, em todas as
ordens, o casamento, constitui o direito parental, de grande significação no direito de família
pelas inúmeras situações que disciplina”.
As espécies de parentesco estão previstas no artigo 1.593 do Código Civil, o qual dispõe
que “o parentesco é natural ou civil, conforme resulte de consangüinidade ou outra origem”.
Portanto, divide-se em três espécies de parentesco: natural, por afinidade e civil. (BRASIL,
2002).
O parentesco natural, também denominado consangüíneo, é aquele que vincula as
pessoas, umas às outras, que descendem de um mesmo tronco ancestral. Divide-se o parentesco
natural em matrimonial, quando proveniente do casamento, ou extrapatrimonial quando surge
de união estável ou relações sexuais eventuais ou concubinárias. (PEREIRA, R., 2011).
Ademais, tem-se o parentesco por afinidade ou parente afim, estabelecido no artigo
1.595, caput, do Código Civil, dispondo que “cada cônjuge ou companheiro é aliado aos
parentes do outro pelo vínculo da afinidade” (BRASIL, 2002). Em outras palavras, quanto à
afinidade, trata-se de vínculo que se estabelece entre um cônjuge ou companheiro e os parentes
do outro consorte (MONTEIRO; SILVA, 2011).
23

Importante salientar que deve ser observado que somente gera afinidade o matrimônio
válido e a união estável, limitando-se aos ascendentes, e aos irmãos do cônjuge ou companheiro,
conforme dicção do artigo 1.595, §1°, do Código Civil (BRASIL, 2002).
Doravante, na linha reta, o parentesco por afinidade não se extingue com a dissolução
do casamento, conforme o §2° do artigo 1.595 do Código Civil (BRASIL, 2002). Portanto,
sogro e sogra, genro ou nora continuam ligados pelo parentesco por afinidade quando dissolvido
o casamento, ou seja, continua vigorando as proibições matrimoniais (FIUZA, 2003).
Por sua vez, o parentesco civil é aquele decorrente da adoção, conforme lições de
Rodrigues (2002, p. 317-318):

Parentesco civil é o decorrente da adoção [...]. A lei é que denomina parentesco o


vínculo que se estabelece entre adotante e adotado. [...] Pelo novo Código, também
nesse caso, “a adoção atribui a situação de filho ao adotado, desligando-o de qualquer
vínculo com os pais e parentes consangüíneos, salvo quanto aos impedimentos
matrimoniais” (art. 1.626).

Complementa Venosa (2004) que a adoção é o vínculo legal que se cria à semelhança
da filiação consangüínea, mas independe de laços consangíneos, tratando-se, portanto, de uma
filiação artificial.
Além destas espécies de parentesco o artigo 1.593 do Código Civil, ainda estabelece a
denominação outra origem, abrindo margem ao reconhecimento da paternidade desbiologizada
ou socioafetiva em que, embora não existam elos de sangue, há laços de afetividade, que é mais
importante perante a sociedade do que o vínculo sanguíneo. (MONTEIRO; SILVA, 2011).
Nesse sentido, consoante escólio de Venosa (2004, p. 236):

[...] A outra origem citada diz respeito ao vínculo da adoção e às uniões estáveis. Não
pode deixar de ser considerado, em todos os campos jurídicos, o parentesco derivado
das uniões estáveis, embora nem sempre seja simples evidenciá-lo nas situações que
surgirem no caso concreto. [...] Tratando-se de uma relação de fato, a união de estável
sem casamento torna muitas situações de parentesco dúbias e confusas, pois, na
maioria das vezes, sua evidência somente decorrerá da própria declaração das partes
envolvidas.

A doutrina ainda distingue o parentesco em legítimo do ilegítimo. Classifica-se, segundo


a doutrina, o parentesco legítimo, quando originado do casamento, e o ilegítimo, quando
advindo de adultério, concubinato e incesto, conforme leciona Fiúza (2003, p. 826):

Na verdade, hoje em dia, a distinção é antes de tudo histórica. A constituição de 1988


proibiu qualquer distinção entre filhos, sejam eles legítimos ou ilegítimos. Aliás, o
legislador foi radical a ponto de proibir seja feita adjetivação à palavra filho. Não se
24

pode usar em documentos oficiais expressões tais como “filho ilegítimo”, “filho
adulterino”, “filho natural” (proveniente de união extra-matrimonial não adulterina),
ou “filho incestuoso”. Em documentos particulares, se encontrada alguma dessas
expressões, simplesmente não será levada em conta. Independentemente da espécie
de parentesco importante ressaltar que é vedada qualquer distinção, entre os filhos,
devendo estes serem tratados em pé de igualdade mesmo que provenientes de relações
diversas do casamento.

Importante ressaltar que a relação conjugal entre marido e mulher não traz parentesco
entre ambos, sendo simplesmente afins (RIZARDO, 2006).
Cabe registrar, Venosa (2015) ensina que a Igreja considera ainda o parentesco
espiritual, entre padrinho e madrinha e afilhados, que até mesmo constituía impedimento
matrimonial, porém, para o Direito, tal fato é irrelevante.
Portanto, denomina-se linha de parentesco ao vínculo que coloca as pessoas umas em
relação às outras em função de um tronco comum (RIZARDO, 2006).
O Código Civil tratou de duas linhas de parentesco, a reta e a colateral ou transversal.
Conforme o artigo 1.591, “são parentes em linha reta as pessoas que estão umas com para com
as outras na relação de ascendentes e descendentes”. (BRASIL, 2002). Sobre o assunto, ensina
Diniz (2002, p. 368) que a linha reta poderá ser ascendente ou descendente, “conforme se encare
o parentesco, subindo-se da pessoa a seu antepassado ou descendo- se, sem qualquer limitação;
por mais afastadas que estejam as gerações, serão sempre parentes entre si pessoas que
descendem umas das outras”.
A ascendência ainda têm duas linhas de parentesco: a linha paterna e a linha materna,
bifurcando-se sucessivamente, sendo, por isso, denominada de árvore genealógica
(GONÇALVES, 2014).
A linha colateral ou transversal, por sua vez, encontra-se definida no artigo 1.592 do
Código Civil, o qual dispõe que “são parentes em linha colateral ou transversal, até o quarto
grau, as pessoas de um só tronco, sem descenderem uma da outra” (BRASIL, 2002).
Consideram parentes em linha colateral os tios, sobrinhos, primos e irmãos, que vão apenas até
o quarto grau, pois além disso o afastamento é tão grande que a solidariedade e o afeto não
servem mais para a relação de direito (MONTEIRO; SILVA, 2011).
A linha colateral pode ser igual (como no caso de irmãos, tendo em vista a distância que
os separa do tronco comum, em número de gerações, é a mesma) ou desigual (como no caso de
tio e sobrinho, porque este se encontra separado do tronco comum por duas gerações e aquele
por apenas uma). Além disso, pode ser também dúplice ou duplicada, como no caso de dois
irmãos que se casam com duas irmãs. In casu, os filhos que nascerem dos dois casais serão
parentes colaterais em linha duplicada. (GONÇALVES, 2014).
25

Doravante, o artigo 1.594 do Código Civil prescreve: “Contam-se, em linha reta, os


graus de parentesco pelo número de gerações, e, na colateral, também, pelo número delas,
subindo de um dos parentes até o ascendente comum, e descendo até encontrar o outro parente”
(BRASIL, 2002).
O grau de parentesco estabelece a distância entre os parentes, considerando o número
de gerações entre eles (FIUZA, 2003).
A forma como se contam os graus de parentesco em linha reta e em linha colateral
diferem um do outro, conforme ensinam Monteiro e Silva (2011, p. 296-297):

Na linha reta, é muito simples: contam-se pelo número de gerações; cada geração
representa um grau. Entre pai e filho medeia uma geração; serão assim parentes em
primeiro grau; entre avô e neto medeiam duas gerações (do avô para o filho e do filho
para o neo; serão assim parentes em segundo grau. [...]. Na linha colateral, na
contagem dos graus, computa-se igualmente o número de gerações; [...].

Já na afinidade, o cônjuge é inserido na família da mesma forma que seu consorte,


contando-se os graus do mesmo nível. Trata-se, pois, de contagem derivada. (VENOSA, 2015).
Ensina Diniz (2002, p. 375-376):

Em segundo grau, na linha reta, o cônjuge, ou companheiro, será afim com os avós
do outro e este com os avós daquele, porque na linha reta não há limite de grau. Na
linha colateral, o parentesco por afinidade não vai além do segundo grau, existindo
tão-somente com os irmãos do cônjuge ou companheiro; [...].

Deve-se observar por fim, que o parentesco por afinidade não gera vínculo entre os
parentes dos cônjuges, não sendo um afim do outro (DINIZ, 2015).
26

3 FILIAÇÃO

Neste capítulo será explanado acerca da forma em que ocorreu a evolução da filiação
no direito brasileiro. Dessa forma, facilita-se a compreensão do contexto e dos motivos que
levaram ao reconhecimento dos tipos de filiação reconhecidos hoje em dia, o que, direta e
indiretamente, viabilizou o surgimento de outras formações de famílias.

3.1 CONCEITO E CONTEXTO HISTÓRICO

A Constituição de 1988 e o Código Civil atual não tratam de uma definição expressa a
respeito da filiação. A doutrina tradicional tem a filiação como uma correlação de parentesco
consanguíneo, em primeiro grau e em linha reta, que liga uma pessoa às que a geraram, ou às
receberam como se a tivessem gerado, tratando-se da relação jurídica que liga pais aos filhos.
(GONÇALVES, 2014).
Doravante, tem-se que a filiação é a ligação/conexão existente entre pais e filhos, sendo
a vinculação de parentesco consanguíneo em linha reta de primeiro grau entre uma pessoa e
aqueles que lhe deram a vida, podendo, ainda, ser uma relação socioafetiva entre pais adotivos
e filhos adotivos ou provenientes de inseminação artificial heteróloga (GONÇALVES, 2014).
O artigo 227, §6°, da Constituição Federal de 1988, prescreve a igualdade absoluta entre
todos os filhos, não aceitando distinção entre filiação (BRASIL, 1988). Com efeito, a filiação
é um estado. Ademais, todos os feitos que buscam a sua modificação, reconhecimento ou
negação, são ações de estado. O termo filiação retrata a relação entre os pais e filhos, seja em
caso de adoção ou de consanguinidade. (VENOSA, 2015). A adoção passa a ganhar a mesma
importância para a sociedade do que teve no Direito Romano 1 (MALUF, C.; MALUF, A.,
2021).
Rodrigues (2002, p. 321) leciona acerca do conceito:

Filiação é a relação de parentes consanguíneo, em primeiro grau e em linha reta, que


liga uma pessoa àquelas que a geraram, ou a receberam como se as tivessem gerado.
Essa relação de parentesco, dada proximidade de grau, cria efeitos no campo do
direito, daí levando a importância de sua verificação.

1
A adoção teve grande importância no direito romano, sendo vista como uma função social e baseada no dever de
preservação do culto religioso doméstico, do nome e do patrimônio da família. Em suma, o objetivo era evitar a
extinção da família estéril, provendo um herdeiro a quem não tinha ou assegurar um sucessor. Sua importância era
tamanha, que uma vez introduzido na religião da nova família, dever-se-ia romper todo e qualquer vínculo com a
família originária. (MALUF, C.; MALUF, A., 2021).
27

A filiação pode ser classificada em matrimonial, que surge da união de pessoas ligadas
por casamento válido, anulado ou nulo, estando ou não de boa-fé os cônjuges, ou após o
nascimento do filho, vierem a convolar núpcias, ou pode ser classificada em não matrimonial
ou que decorre de relações extramatrimoniais, advindo de pessoas que estão impedidas de casar
ou pessoas que não querem contrair matrimônio (DINIZ, 2015).
Nas lições de Dias (2015, p. 389):

Todas essas mudanças refletem-se na identificação dos vínculos de parentalidade,


levando ao surgimento de novos conceitos e de uma nova linguagem que melhor trata
a realidade atual: filiação social, filiação socioafetiva, estado de filho afetivo etc. Tal
como aconteceu com a entidade familiar, a filiação começou a ser identificada pela
presença do vínculo afetivo paterno-filial.

Ao longo do tempo, os filhos ilegítimos possuíam uma admissão restritiva que


prejudicava a condecoração da filiação, o que era capaz de gerar uma supressão de seus efeitos.
Era consabido que os filhos ilegítimos não partilhavam dos mesmos direitos concedidos aos
filhos legítimos. Embora não esteja válida no ordenamento jurídico atual, tal classificação
discriminatória possui grande relevância histórica, visto que permite averiguar os progressos
ocorridos na filiação. (PEREIRA, C., 2012).
O Código Civil de 1916 anuía que para a família ser considerada legítima, somente seria
possível se fosse constituída por intermédio do matrimônio. Ainda, a referida legislação
determinava que os filhos adulterinos e incestuosos não poderiam ser reconhecidos. (BRASIL,
1916).
À época, filhos legítimos eram os nascidos de casal unido pelos laços do casamento e
quando os filhos não procedessem do referido instituto entre os genitores, consideravam-se
ilegítimos. Nessa senda, os filhos ilegítimos se classificavam em naturais e espúrios. Eram
reconhecidos como naturais quando nascidos de homem e de mulher entre os quais não existisse
impedimento matrimonial, mas espúrios, quando nascidos de homem e mulher impedidos de se
casarem na época da concepção. (MONTEIRO; SILVA, 2011).
Portanto, a família era relacionada ao conceito de casamento, considerando-se a única
forma de legalização. Tal formação somente começou a ser quebrada com a chegada da nova
Constituição, de 1988, tendo em conta a Lei do Divórcio (Lei n. 6.515/1977) como uma
predisposição e facilidade ao desfazimento do casamento e, em consequência, a composição de
novas estruturas familiares, estes dois institutos contribuíram de forma significativa tanto para
28

o desenvolvimento do conceito de família quanto para o de filiação. (RODRIGUES;


TEIXEIRA, 2009).
Doravante, o Código Civil atual apresentou uma lei mais moderna e apropriada com as
mudanças ocorridas na sociedade, permitindo que o instituto familiar ganhasse mais espaço e
recebesse um tratamento com maior relevância, aduzindo a todos os integrantes da família um
amparo em relação aos seus direitos individuais e coletivos (OTONI, 2010).
Percebe-se que o conceito de filiação se amplia cada vez mais e cria relações jurídicas
e obrigações dele decorrentes de acordo com a história de vida própria de cada indivíduo, no
âmago de suas mais variadas visões familiares. Nesse sentido, a família deixa de ser formada
com base nos laços consanguíneos, em que a relação é baseada apenas na genética e começa a
ceder espaço ao perfil socioafetivo, no que tange ao acolhimento e ao afeto. (TEIXEIRA;
RIBEIRO, 2008).
Por fim, verifica-se que a filiação sofreu uma profunda mudança. O afeto, elemento
identificador das entidades familiares, passou a servir de régua para a definição dos vínculos
parentais, tratando-se de uma nova visão dada aos novos conceitos de família que têm surgido,
mostrando que a família passa por processo evolutivo quanto a sua forma de enxergá-la na
sociedade. Ressalta-se, por oportuno, que a filiação percorreu difícil caminho até chegar à
configuração atual, cuja trajetória foi marcada por discriminações, preconceitos e sofrimento
(DIAS, 2015).

3.2 ESPÉCIES DE FILIAÇÃO

Atualmente, a doutrina tem discorrido sobre diversos tipos de filiação, contudo, sem
desviar o foco do tema central deste estudo, destacam-se duas espécies de filiação que são
unanimidade praticamente, quais sejam a filiação socioafetiva e a filiação biológica.
Quanto à filiação socioafetiva, o atual Código Civil passou a admitir o parentesco de
uma outra forma em comparação com o antigo código, pois, além do parentesco resultante da
consanguinidade, introduziram o conceito de socioafetividade, abrindo, assim, espaço para
outras situações que afirmam a complexidade das relações familiares (DIAS, 2015).
A filiação socioafetiva é um fato que não pode ser ignorado, eis que decorre da
estabilidade dos laços familiares construídos ao longo da vida de cada indivíduo e que constitui
o fundamento essencial da atribuição da paternidade ou maternidade. A filiação é um conceito
relacional, em que a relação de parentesco se estabelece entre duas pessoas, onde é atribuído
mutuamente os direitos e deveres de cada. (LOBO, 2018).
29

Não é mais o científico e o definido em laboratório que predomina nas relações. A


formação de uma pessoa, as decisões que ela toma, as suas relações interpessoais não
pormenorizam de acordo com verdades racionais e científicas, mas constroem-se com o
parâmetro nas suas verdades emocionais. (DIAS, 2015).
A socioafetividade é um gênero do qual faz parte a comprovação do estado de filho
afetivo, a famosa “posse de estado de filho‟, a admissão voluntária ou judicial da paternidade
ou maternidade, a adoção dos filhos de criação, bem como a “adoção à brasileira” (WELTER,
2003).
Estado de filho afetivo (ou posse de estado de filho) se trata de uma situação em que um
indivíduo desfruta do estado de filho em relação a uma outra pessoa em virtude da convivência
prolongada geradora de solidariedade, do envolvimento mútuo e de laços de afetividade. É uma
situação que independe da veracidade biológica ou jurídica preexistentes. (LOBO, 2018).
A doutrina classifica três elementos configuradores do estado de filho afetivo, quais
sejam o trato, o nome e a fama. O trato diz respeito ao tratamento e educação como filho, já o
nome em relação ao uso do sobrenome do pai ou da mãe e a fama é o reconhecimento do filho
como tal perante a família e a sociedade. (LOBO, 2018).
Discernida a presença do estado de filho afetivo (posse de estado de filho) com mais de
duas pessoas, todos devem assumir as obrigações decorrentes do poder familiar. Não há outra
forma de resguardar o seu melhor interesse e assegurar proteção integral, consoante no
Enunciado n. 9 do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), dispondo que a
multiparentalidade gera efeitos jurídicos. (DIAS, 2015).
Outra hipótese de filiação socioafetiva bastante importante é a adoção judicial,
consistente na manifestação de vontade por meio de ato jurídico em sentido estrito válido e é
determinada por meio de uma sentença judicial, a qual confirma eficácia e cria um vínculo
parental fictício, produtor dos mesmos efeitos jurídicos, em termos de direitos e obrigações,
decorrentes da filiação natural (VENOSA, 2015).
Venosa (2015, p. 273) discorre mais:

A adoção é modalidade artificial de filiação que busca imitar a filiação natural. Daí
ser também conhecida também como filiação civil, pois não resulta de uma relação
biológica, mas de manifestação de vontade [...]. A filiação natural ou biológica
repousa sobre o vínculo de sangue, genético ou biológico; a adoção é uma filiação
exclusivamente jurídica que se sustenta sobre a pressuposição de uma relação não
biológica, mas afetiva. A adoção contemporânea é, portanto, um ato ou negócio
jurídico que cria relações de paternidade e de filiação entre duas pessoas. O ato da
adoção faz com que uma pessoa passe a gozar do estado de filho de outra pessoa,
independentemente do vínculo biológico.
30

A chamada “adoção à brasileira” também constituiu um vínculo de filiação socioafetiva.


Com efeito, ainda que registrar filho alheio como próprio configure, de acordo com o artigo
242 do Código Penal, um delito contra o estado de filiação, não podendo gerar
irresponsabilidade ou impunidade, registra-se que o envolvimento afetivo que gerou a posse de
estado de filho indica que o rompimento da convivência não apaga o vínculo de filiação, eis
que não pode ser desconstituído. Assim, depois do registro, mesmo com a separação dos pais,
o vínculo de parentalidade não acaba. (DIAS, 2015).
Os filhos adotivos são aqueles que, embora não sendo gerados pelos adotantes,
adquirem, por concessão de lei, a condição de filho legítimo, para determinados efeitos legais.
Essa era a definição usual, reconhecida anteriormente ao advento da Constituição Federal de
1988. (SILVA JÚNIOR, 1997).
Doravante, o critério socioafetivo tem como supedâneo o melhor interesse da criança e
do adolescente e na dignidade da pessoa humana. A socioafetividade é gerada sobre um vínculo
de parentesco e os mesmos direitos já mencionados. Portanto, pai e mãe é quem exerce tal
função, mesmo que não exista vínculo de sangue, devendo a criação ser reconhecida também.
(BARBOZA, 1998 apud DIAS, 2015).
Os filhos podem provir de origem genética conhecida ou não, de escolha efetiva do
casamento, de união estável, de entidade monoparental ou de outra entidade familiar
implicitamente constitucionalizada (LOBO, 2018). Em complemento, o mesmo autor (2018, p.
71) salienta também que o afeto não se confunde com afetividade, in verbis:

A afetividade. Como princípio jurídico, não se confunde com o afeto, como fato
psicológico ou anímico, porquanto pode ser presumida quando este faltar na realidade
das relações; assim, a afetividade é um dever imposto aos pais em relação aos filhos
e destes em relação àqueles, ainda que haja desamor ou desafeição entre eles.

O vínculo de filiação socioafetiva possui legitimidade com base no interesse do filho,


gerando, pois, o parentesco socioafetivo para todos os fins de direito nos limites da lei civil.
Caso a pessoa for menor, será fundamentado com base no princípio do melhor interesse da
criança e do adolescente, já se ela for maior, será fundamentada com base no princípio da
dignidade da pessoa humana, princípio este que não admite um parentesco restrito. Impende
ressaltar que o princípio da solidariedade tem aplicação tanto à criança menor de idade quanto
à maior de idade. (DIAS, 2015).
No que tange à filiação biológica, trata-se de um dos três critérios para o estabelecimento
do vínculo parental, em que é o preferido, especialmente em face da popularização do exame
31

de DNA, o que desencadeou uma grande busca da verdade real em substituição da verdade
jurídica, que era muitas vezes constituída por presunções legais (DIAS, 2015).
A filiação biológica ou natural é aquela vinculada à biologia, ou seja, é aquela
determinada pela origem genética. É consabido, até pouco tempo atrás, que o vínculo de
consanguinidade era considerado a mais importante forma determinante da filiação (GAMA,
2008).
Nesse sentido, a filiação é denominada biológica quando, como o próprio nome indica,
advém das relações sexuais dos pais, logo, o filho tem o sangue dos pais, daí ser filho
consanguíneo (RIZZARDO, 2006).
Ainda na sociedade atual, o reconhecimento de filho, quando se fala em filiação, tem
como referência a verdade genética. Ela sempre foi buscada em juízo, pois a filiação era
considerada em virtude do vínculo consanguíneo. Entretanto, dois fenômenos interromperam
com o princípio da origem biológica dos vínculos de parentalidade, em que a jurisprudência
acolhia, a lei sancionava e a doutrina sempre sustentava. (DIAS, 2015).
Constata-se com isso que a atual realidade não é só baseada no vínculo consanguíneo,
uma vez que o estado de filiação se desvinculou da verdade genética, sendo considerado único
e de natureza socioafetiva, desenvolvido na convivência familiar (LOBO, 2018).
No momento em que se admitiram entidades familiares não constituídas pelo
matrimônio, passou a ser reconhecida a afetividade como elemento constitutivo da família, e
tal transformação não se limitou ao âmbito das relações familiares, mas refletiu também nas
relações de filiação (DIAS, 2015).
O artigo 227, §6°, da Lei Maior, dispõe do acolhimento da pluralidade filiatória,
conferindo aos filhos uma total igualdade de direitos e proibindo quaisquer discriminações,
dando fim e desvinculando a filiação do casamento (BRASIL, 1988).
Por um longo período, o único método possível para conferir paternidade a alguém era
por meio da presunção, a partir do critério da verdade legal. Entretanto, com os grandes avanços
ocorridos no campo da ciência, mormente na área da genética, houve a descoberta do exame de
DNA. Tal exame teve ampla repercussão no mundo jurídico, tornando-se um importante meio
de prova, pois permitiu definir com precisão a existência ou não de vínculo consanguíneo.
(CANEZIN, 2012).
A filiação biológica se trata da herança de material genético que os filhos adquirem de
seus genitores. Portanto, em razão da alta precisão oferecida pelo exame, conforme explica Dias
(2015), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) editou a Súmula n. 301 que dispõe que em ação de
32

investigação de paternidade, a recusa do suposto pai acerca da realização do exame de DNA,


gerará presunção relativa de paternidade.
Destarte, mesmo que o exame de DNA se trate de um bom método para identificar a
origem genética da pessoa e diante dos seus inúmeros avanços, ele não pode e não deve ser
considerado isoladamente no momento de definir a paternidade, uma vez que esta deve levar
em conta o vínculo afetivo, com relação ao acolhimento da criança e os afetos recíprocos
(LOBO, 2018). Nessa toada, o exame DNA passou a ter importância relativa, uma vez que só
prova a paternidade biológica.
Ainda, conforme explica Nader (2016, p. 279), a doutrina informa três critérios de
aferição de paternidade: a biológica, a jurídica e a socioafetiva:

Pelo primeiro critério, pai e mãe são os que fecundaram, com seus gametas, o embrião;
por ele, a paternidade decorre de consanguinidade. Pelo segundo, define-se por
presunções legais [...], correspondendo ou não à realidade. O critério socioafetivo
dimana de uma situação fática, que nasce da educação, amparo, proteção, afetividade,
aplicados na criação de uma pessoa e por quem não é pai ou mãe biológica.

Ademais, a legitimidade dos filhos estava diretamente ligada ao casamento dos


genitores quando da concepção. Desse modo, à época, os filhos legítimos eram os concebidos
na constância de relações matrimoniais válidas ou putativas, ou seja, ainda que posteriormente
fossem estas anuladas ou declaradas nulas. Ilegítimos, por sua vez, eram os havidos fora do
matrimônio. Tal classificação foi mantida pelo Código Civil de 1916, tendo como fundamento
o discurso moralista da época. (VENOSA, 2015).
Durante todo esse período, a classificação discriminatória do filho era expressa no
registro civil, de forma que tal fato desonroso o acompanhava durante toda a vida (WELTER,
2003). Com o Decreto-Lei n. 3.200/1941 foi proibida essa qualificação nas certidões de
nascimento e a menção a esta passou a ser exceção, sendo permitida em casos de decisão
judicial ou reivindicação do interessado (BRASIL, 1941). Dois anos depois, o Decreto-Lei n.
5.213/1943 concedia ao pai de filho natural reconhecido a ter a guarda deste (BRASIL, 1943).
A filiação na Constituição de 1988 esclareceu sobre as novas transformações que a
instituição familiar estava passando no decorrer do século XX, época que passou a ser
inadmissível que os filhos sofressem, tanto preconceituosamente como discriminatoriamente.
Em tempo, a sociedade almejava um olhar mais democrático, laico e igualitário à filiação, com
base nos valores humanizados da afetividade, da busca pela felicidade e pela realização pessoal.
(DIAS, 2015).
33

Em adição, tem-se que as mudanças na legislação fizeram muito mais do que proclamar
a isonomia no reconhecimento de direitos patrimoniais e sucessórios, elas traduziram um novo
cenário axiológico, com eficácia imediata para todo o ordenamento, cuja compreensão faz-se
indispensável para a correta exegese da normativa aplicável às relações de família (TEPEDINO,
1997).
Diante disso, os termos “pai” e “genitor” podem corresponder à mesma pessoa, mas
deixam de ser sinônimos, eis que o genitor é aquele que fornece o material genético, enquanto
pai é aquele que detém a filiação, em que a origem da relação conjugal independe da praticada
pelos genitores e que todos os filhos possuem iguais direitos e obrigações e podem ser
reconhecidos, voluntária ou judicialmente. (WELTER, 2003).
Acerca dos deveres dos pais, conforme previsto no Código Civil, extrai-se:

Art. 1634. Compete a ambos os pais, qualquer que seja a sua situação conjugal, o
pleno exercício do poder familiar, que consiste em, quanto aos filhos:
I - dirigir-lhes a criação e a educação;
II - exercer a guarda unilateral ou compartilhada nos termos do art. 1.584;
III - conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para casarem;
IV - conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para viajarem ao exterior;
V - conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para mudarem sua residência
permanente para outro Município;
VI - nomear-lhes tutor por testamento ou documento autêntico, se o outro dos pais
não lhe sobreviver, ou o sobrevivo não puder exercer o poder familiar;
VII - representá-los judicial e extrajudicialmente até os 16 (dezesseis) anos, nos atos
da vida civil, e assisti-los, após essa idade, nos atos em que forem partes, suprindo-
lhes o consentimento;
VIII - reclamá-los de quem ilegalmente os detenha;
IX - exigir que lhes prestem obediência, respeito e os serviços próprios de sua idade
e condição. (BRASIL, 2002).

Nessa toada, é fato que a possibilidade de identificar a filiação biológica por meio de
exame de DNA desencadeou percurso ao Judiciário, na busca da verdade real. Nunca foi tão
fácil descobrir a verdade biológica, mas tal verdade passou a ter pouca valia em frente à verdade
afetiva. (DIAS, 2015).
34

4 MULTIPARENTALIDADE

O primeiro capitulo versou acerca das mudanças histórias do instituto da família,


analisando toda a sua origem. Por sua vez, o segundo capitulo ilustrou acerca dos aspectos
gerais da filiação juntamente com um breve relato de sua evolução, conceito e as espécies no
ordenamento jurídico brasileiro. Já o presente capitulo irá explanar e analisar acerca da
multiparentalidade em si, demonstrando seu conceito e fundamentos, a sua cumulação, seus
efeitos legais, seus princípios norteadores.

4.1 CONCEITO E ORIGEM DA MULTIPARENTALIDADE

A família contemporânea eudemonista é caracterizada pelo afeto e pela busca incessante


da felicidade pessoal e solidária de todos e cada um dos indivíduos. Do mesmo modo, a filiação
tem seu alicerce no afeto, abrindo portas para que ela não seja considerada somente a filiação
genética, mas a do amor e convivência, que se traduz na filiação socioafetiva. (BARRETO,
2013).
O afeto é um fato social e psicológico, conquanto, o que interessa ao direito são as
relações que engendram condutas suscetíveis de merecerem a incidência de normas jurídicas.
Afetividade, como dever jurídico, não se confunde com afeto, pois quando este faltar, aquela
pode ser presumida. O dever jurídico da afetividade entre pais e filhos só se extingue com a
perda do poder familiar ou com a morte de algum dos envolvidos. (LÔBO, 2014).
A família multiparental é caracterizada por uma pluralidade de relações parentais, em
razão da combinação de diferentes critérios de filiação, que podem ter origem em diferentes
situações, eis que ela surge, muitas vezes, no contexto de recomposição afetiva de um casal, em
que um ou ambos possuem filhos provenientes de casamentos ou uniões anteriores, formando
uma nova entidade familiar da qual nascem novos vínculos afetivos (DIAS, 2015). Assim, tem
como características principais “ser portadora de múltiplos vínculos, ambiguidade de
compromissos e interdependência” (MALUF, C; MALUF, A., 2021, p. 41).
Trata-se de um fenômeno jurisprudencial e doutrinário, advindo de uma interpretação
conforme, integrativa e expansiva, que permite o reconhecimento de mais de um pai ou mãe a
uma mesma pessoa, de modo que conste em seu registro de nascimento as consequências desse
reconhecimento, alteração de nome, inclusão de outro pai ou mãe, inclusão de outros avós
(PAIANO, 2017).
35

A multiparentalidade pode ser paterna, quando o indivíduo dispõe de três ou mais


pessoas como genitores, sendo dois ou mais do gênero masculino; e/ou materna, hipótese de
existência de três ou mais pessoas como genitores, sendo dois ou mais do gênero feminino, os
quais expressam o conceito pessoal e subjetivo como o indivíduo se reconhece perante a
sociedade, sendo elas as possibilidades de multiparentalidade (CASSETARI, 2015).
Como forma de ilustrar a multiparentalidade, Maluf, C. e Maluf, A. (2021, p. 530)
trazem o seguinte exemplo:

[...] determinada pessoa é registrada por um pai e convive com ele, por anos, como
filho biológico, até que, certo dia, a mãe confessa que este não era o seu verdadeiro
pai biológico. O filho em questão tem o direito personalíssimo do conhecimento de
sua origem biológica; logo, tem o direito de buscar o reconhecimento legal de seu pai
biológico. Por outro lado, não se pode negar o papel assumido pelo pai socioafetivo,
uma vez que se estabeleceu um liame de afetividade entre as partes, fruto da
convivência paterno-filial.

As demais relações parentais, em que apresentam dois ou menos genitores envolvidos,


configuram arranjos distintos da pluriparentalidade. Assim, a relação parental formada por um
casal, sendo um do gênero masculino e outro do gênero feminino, é chamada biparentalidade.
(CASSETARI, 2015).
Outra situação fática diferente é a biparentalidade homoafetiva, ou seja, quando a pessoa
desfruta de apenas dois pais do gênero masculino (bipaternidade) ou apenas duas mães do
gênero feminino (bimaternidade) em seu registro de nascimento, do mesmo modo que ocorre
na adoção por casal homoafetivo. A situação não configura multiparentalidade, eis que, para
que, esta ocorra é necessário haver, pelo menos, três relações parentais distintas.
(RODRIGUES; TEIXEIRA, 2009).
Existe, ainda, a possibilidade de outros arranjos familiares configurados pela
monoparentalidade, em que a família dispõe somente de um dos genitores e seus descendentes
e pela anaparentalidade, em que o arranjo familiar é desprovido de genitores, por exemplo, o
existente entre irmãos (DIAS, 2015).
A paternidade e a filiação socioafetiva são fundamentalmente jurídicas,
independentemente da origem biológica. Pode-se afirmar que toda paternidade é
necessariamente socioafetiva, podendo ter origem biológica ou não, ou seja, a paternidade
socioafetiva é gênero do qual são espécies a paternidade biológica e paternidade não biológica.
(LOBO, 2018).
A multiparentalidade muitas vezes surge na recomposição afetiva de um casal, em que
os mesmos possuem filhos provenientes de uniões anteriores e constituem uma nova entidade
36

familiar, na qual surgem novos vínculos afetivos. Embora seja uma realidade cada vez mais
presente na sociedade atual, a multiparentalidade não possui regulamentação legal específica
que fixe direitos e deveres aos seus integrantes, sendo seu reconhecimento apenas
jurisprudencial e doutrinário e, assim, pode-se dizer, introdutório. (DIAS, 2015).
Com a facilitação do divórcio, após o advento da Lei do Divórcio em 1977 (Lei n. 6.515)
e, principalmente, após a Emenda Constitucional n. 66/2010, foram crescendo
significativamente os casos de pessoas que se divorciam e casam novamente, levando consigo
filhos advindos do relacionamento anterior que, inevitavelmente, passam a ser criados também
por eventuais padrastos e/ou madrastas, no contexto dessas denominadas famílias recompostas
(PAIANO, 2017).
O reconhecimento da multiparentalidade é possível com base em uma interpretação dos
princípios constitucionais do melhor interesse da criança e do adolescente, da liberdade de
desconstituição, da solidariedade familiar e da fraternidade e, por conseguinte, dos demais
princípios embasadores da multiparentalidade e filiação (ARAUJO; PENNA, 2017).
Considerando que a Constituição autorizou a livre (des)constituição de todos os tipos
de famílias possíveis, não há dúvidas de que as famílias reconstituídas representam a
possibilidade de múltiplas vinculações parentais de pessoas, sejam elas crianças, adolescentes
etc., que vivenciem a realidade fática cotidiana desses novos arranjos familiares, assimilando a
figura do pai e mãe afins (padrasto e/ou madrasta) como novas figuras parentais socioafetivas,
sem, contudo, perder o vínculo com seu pai/mãe biológico e/ou registral (RODRIGUES;
TEIXEIRA, 2009).

4.2 PRINCÍPIOS NORTEADORES

A Constituição de 1988 reconheceu a igualdade dos direitos dos homens e mulheres na


sociedade conjugal, a igualdade entre filhos, havidos ou não fora do casamento ou por adoção,
a total proteção às entidades familiares não fundadas no casamento e às famílias monoparentais
(BRASIL, 1988), entre outros em decorrência das transformações ocorridas e que estão a
ocorrer no direito de família, eis que alguns princípios emergem no sistema jurídico brasileiro,
podendo desfrutar de autonomia, pois elas são titulares de proteção legal (SCHEREIBER,
2018).
O princípio da dignidade da pessoa humana está expressamente previsto no inciso III,
do 1º artigo, da Constituição Federal de 1988, o qual dispõe: “Art. 1º - A República Federativa
do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal,
37

constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: [...]; III - a dignidade
da pessoa humana” (BRASIL, 1988).
A dignidade humana, conforme explica Barroso (2012, p. 9-10), é um conceito:

[...] axiológico, ligado à ideia de bom, justo, virtuoso. Nessa condição, ela se situa ao
lado de outros valores centrais para o Direito, como justiça, segurança e solidariedade
[...] tornando-se um conceito jurídico, deontológico – expressão de um dever-ser
normativo, e não apenas moral ou político.

Este princípio se encontra diretamente ligado à pessoa, de maneira que não se permite
discriminação de qualquer natureza, seja de raça, cor, etnia, classe social, religião etc. Por esse
motivo, o Estado Democrático de Direito Brasileiro utiliza a dignidade da pessoa humana como
base para interpretar os demais preceitos constitucionais, de modo que ele é considerado um
superprincípio. (SIMÃO; TARTUCE, 2010).
Trazida ao direito de família, a dignidade é um dever atribuído aos integrantes da
entidade familiar, que devem “promover o respeito e a igual consideração de todos os demais
familiares, de modo a propiciar uma existência digna para todos e de vida em comunhão de
cada familiar com os demais” (GAMA, 2008, p. 71).
Por fim, vale destacar que o princípio da dignidade da pessoa humana também encontra
previsão no preâmbulo e no artigo 1º da Declaração Universal de Direitos Humanos,
preceituando a máxima de que todos os seres humanos, desde o nascimento, são livres e iguais
em dignidade e também em direitos. Diante disso, é reconhecido que todos devem ser tratados
com equidade, uma vez que a dignidade da pessoa humana é um princípio geral do direito,
devendo ser atribuída de maneira universal a qualquer pessoa. (PEREIRA, C., 2012).
Decorrente da liberdade fundamental à constituição do núcleo familiar, o princípio do
pluralismo das entidades familiares é outro importante princípio a ser destacado (TEPEDINO;
TEIXEIRA, 2020). Sobre isso, o artigo 226 da Constituição Federal apresenta expressamente
três categorias de família: a matrimonial, presente nos §1º e §2º; a originada a partir da união
estável, que consta do §3º; e a monoparental, presente no §4º (BRASIL, 1988).
Ocorre que, “devido às inúmeras e diversificadas espécies de família existentes na
atualidade - tais como as famílias mosaico, as famílias recompostas, as famílias socioafetivas,
entre outras - não se deve compreender esse rol de famílias como taxativo” (NOGUEIRA, 2017,
p. 12).
Assim, o princípio do pluralismo das entidades familiares apresenta uma forte ligação
com o princípio do pluralismo democrático e possui exatamente a finalidade de deixar que cada
38

pessoa escolha livremente o modelo ou espécie de família que mais se assemelha com seu
íntimo, para então criar seus laços (GAMA, 2008).
Portanto, “o elo afetivo é um critério crucial para definir a formação de uma unidade
familiar, obtendo a partir daí a proteção constitucional” (NOGUEIRA, 2017, p. 13).
Doravante, o princípio do convívio familiar busca garantir ao indivíduo o direito da
convivência diária com aqueles que pertencem à sua família, uma vez que a família é o ponto
de sustentação para formação da criança, além de ser responsável por transmitir seus valores.
Dessa forma, a família, quando é bem estruturada, possui a capacidade de fornecer à criança ou
adolescente um ambiente adequado que propicie seu desenvolvimento pleno. (SOUZA, 2011).
Ainda, cabe destacar que eventual afastamento definitivo somente seria recomendado
diante de situações justificadas por interesse superior, “a exemplo da adoção, do
reconhecimento da paternidade socioafetiva ou da destituição do poder familiar por
descumprimento de dever legal” (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2021, p. 39).
Ressalta-se que a convivência familiar nada mais é que uma relação afetiva duradoura
entre seus membros, ocorrida em um ambiente comum (ASSUMPÇÃO, 2004). E, por ambiente
comum, entende-se o local em que a família estabelece seu domicílio. Assim sendo, a Carta
Magna determinou proteção legal para a residência, em seu artigo 5º, inciso XI, dispondo que
“a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do
morador [...]” (BRASIL, 1988).
Por fim, cumpre ressaltar que o princípio se encontra disposto expressamente no artigo
227 da Constituição Federal, que determina ser “dever da família, da sociedade e do Estado
assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à [...]
convivência familiar e comunitária [...]” (BRASIL, 1988).
O princípio do melhor interesse da criança e do adolescente visa que eles tenham seus
direitos priorizados tanto pelo Estado como pela sociedade. A criança deve ser encarada como
detentora de direito, ou seja, é necessário que o ordenamento jurídico exerça sobre ela tutela
prioritária em relação aos demais membros da família, objetivando assegurar seu
desenvolvimento integral. (LOBO, 2018).
Este princípio representa uma importante mudança nas relações paterno-filiais, em que
a criança e o adolescente deixam de ser vistos como objetos e passam a ser considerados sujeitos
de direito. Dessa forma, seus direitos devem ser priorizados desde a elaboração até a aplicação.
(GAMA, 2003).
Dessa forma, é possível notar que, com o passar dos tempos, ocorreu uma modificação
no direito no que diz respeito às suas prioridades. Antigamente, havia uma preocupação muito
39

maior relacionada ao interesse dos pais. Todavia, hoje, é o filho quem está no centro das relações
familiares e por possuir a condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, para ele deve
sempre ser garantido o que contempla seu melhor interesse. (DIAS, 2015).
É possível verificar que esse princípio busca minimizar os efeitos do divórcio dos pais
na vida do filho, impedindo que eventual culpa dos cônjuges seja capaz de influenciar na
determinação de sua guarda. Assim, com intuito de resguardar a criança de possíveis e futuros
traumas causados pela separação e objetivando proteger o desenvolvimento de sua
personalidade, o princípio do melhor interesse é aplicado visando amparar o menor, sendo que
perante essas relações ele é parte hipossuficiente. (LOBO, 2018).
Ainda, o princípio da afetividade fundamenta o direito de família na estabilidade das
relações socioafetivas e na comunhão de vida. Vale dizer, “a comunidade de existência formada
pelos membros de uma família é moldada pelo liame socioafetivo que os vincula, sem aniquilar
as suas individualidades” (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2021, p. 34, grifo dos autores).
O princípio em comento recebeu grande força dos valores consagrados na Constituição
Federal de 1988, resultando assim na evolução da família brasileira nos últimos tempos, e,
refletindo-se na doutrina e nas jurisprudências dos tribunais. Este princípio também entrelaça
com os princípios da convivência familiar e da igualdade do cônjuge, companheiros e filhos,
princípios estes ressaltam a natureza cultural e tão somente biológica da família. (LOBO, 2018).
Parece possível sustentar que o Direito deve laborar com a afetividade e que sua atual
consistência indica que se constitui em princípio no sistema jurídico brasileiro. A solidificação
da afetividade nas relações sociais é forte indicativo de que a análise jurídica não pode restar
alheia a este relevante aspecto dos relacionamentos. A afetividade é um dos princípios do direito
de família brasileiro, implícito na Constituição, explícito e implícito no Código Civil e nas
diversas outras regras do ordenamento. (CALDERON, 2011).
A afetividade é considerada um princípio implícito, podendo surgir por meio de
inúmeras interpretações que intentam adequar normas específicas e adaptá-las à recente
realidade, possibilitando chegar a decisões mais razoáveis e eficazes. Desta forma, a afetividade
alcança um novo nível no Direito, passando de valor a princípio, uma vez que, na atualidade, a
família pode e deve ser compreendida como um grande alicerce no afeto. (PEREIRA, C., 2001).
O que deve balizar o conceito de “família” é, sobretudo, o princípio da afetividade, que
fundamenta o direito de família na estabilidade das relações socioafetivas e na comunhão de
vida, com primazia sobre as considerações de caráter patrimonial ou biológico (BRASIL,
2009).
40

Atualmente o afeto tem sido apontado como o principal fundamento das relações
familiares, o que leva sua promoção ao status de princípio. Mesmo não constando a palavra no
Texto Maior como um direito fundamental, tem-se entendido que o afeto decorre da valorização
constante da dignidade humana e, por isso, tem sido reconhecido como fator principal nas
recentes decisões. (ALMEIDA, 2010).
Por fim, o princípio da igualdade de filiação está positivado no artigo 227, §6°, da
Constituição Federal de 1988 e no artigo 1.596 do Código Civil de 2002, impedindo que se faça
qualquer discriminação ou hierarquização entre as espécies de filiação, seja de origem
biológica, jurídica ou socioafetiva (BRASIL, 1988; BRASIL, 2002). Trata-se de uma conquista
resultante da mudança da concepção familiar, isto é, quando a família passa a ser instrumento
de realização pessoal dos seus integrantes e não mais o inverso, e do reconhecimento jurídico
de uma pluralidade de entidades familiares (PEREIRA, R., 2011).
O princípio da igualdade entre os filhos nada mais é do que medida efetivada do
princípio da dignidade da pessoa humana, determinação esta fundamental na interpretação das
relações familiares, elevado a valor nuclear da ordem constitucional. Ademais, outra não
poderia ser a finalidade diante do princípio do melhor interesse da criança e adolescente, sob
pena de absoluta incompatibilidade. (FARIAS; ROSENVALD, 2011).
O reconhecimento da igualdade de filiação pela Constituição Federal foi um grande
avanço social, eis que a subsistência desse viés diferenciando os filhos do casamento em
contraste com a prole extramatrimonial, em nada se equipara ao estigmatizante contexto das
filiações legítimas e ilegítimas vigentes até a edição da Constituição Federal de 1988.
(MADALENO, 2011).

4.3 ASPECTOS E EFEITOS JURÍDICOS DO RECONHECIMENTO DA


MULTIPARENTALIDADE

A multiparentalidade, ao ser reconhecida judicialmente, estabelece formalmente o


vínculo entre pai e filho e acaba por estender seus efeitos por todas as linhas de parentesco.
Assim, surge a vinculação do filho afetivo com toda a família do pai ou mãe afetivos, tanto em
relação ao parentesco colateral quanto em relação ao parentesco em linha reta. (PÓVOAS,
2012).
Portanto, uma vez que todos eles passarão a ser parentes, isto acaba por gerar todos os
direitos, deveres e impedimentos existentes entre familiares, que passam a vigorar a partir do
41

reconhecimento da multiparentalidade (CASSETARI, 2015). Sobre isso, comentam Tepedino e


Teixeira (2020, p. 231):

A realidade da pessoa que vivencia o exercício fático da autoridade parental por mais
de um pai e/ou mais de uma mãe deve ser acolhida e contemplada pelo Direito,
gerando todos os efeitos jurídicos dela decorrentes, o que deriva do princípio do
melhor interesse da criança e do adolescente (se o descendente for menor de idade) e
da dignidade da pessoa humana.

Assim, pensar diferente disso seria como “[...] negar a existência tridimensional do ser
humano, que é reflexo da condição e da dignidade humana, na medida em que a filiação
socioafetiva é tão irrevogável quanto a biológica” (WELTER, 2009, p. 122 apud MALUF, C.;
MALUF, A., 2021, p. 532).
Dessa forma, ao parentesco socioafetivo serão aplicadas as mesmas regras previstas para
o parentesco natural, uma vez que a expressão “outra origem” prevista no artigo 1.593 do
Código Civil é o que equipara as duas paternidades (CASSETARI, 2015).
Em relação à multiparentalidade e ao direito de alimentos, é importante frisar que o
artigo 1.694 do Código Civil estabelece que podem os parentes pedir uns aos outros os
alimentos de que necessitem, ou seja, no caso da multiparentalidade, poderão ser exigidos
alimentos de toda a família socioafetiva, como avós, irmãos, tios, etc. Da mesma forma que a
família afetiva também pode pleitear alimentos para o filho afetivo (BRASIL, 2002).
Ao reconhecer a paternidade socioafetiva, além de reconhecer o direito ao afeto, é
necessário assegurar à criança todos os direitos que a permitam desenvolver-se de forma plena
e adequada, como o direito à educação, saúde, segurança, alimentação, lazer, entre tantos outros
(BARBOZA, 1999). Assim, aos pais socioafetivos também recai o dever de prestar alimentos
aos filhos (NOGUEIRA, 2017).
Os alimentos são prestações periódicas que buscam atender as necessidades vitais de
quem não possui meios de provê-los por conta própria. Seu objetivo é proporcionar a um
parente o indispensável à sua subsistência (GOMES, 2002).
Em sentido jurídico, eles podem apresentar um entendimento muito mais extenso do
que o exibido na linguagem comum, podendo compreender, além dos alimentos propriamente
ditos, tudo que for essencial para a saúde, educação, vestimenta e moradia. Dessa forma,
percebe-se que os alimentos não compreendem apenas o imprescindível ao sustento, mas
também o fundamental para a conservação da condição social do alimentado. (VENOSA,
2015).
42

Nesse sentido, com fundamento na assistência e solidariedade econômica existente entre


os membros da família, os parentes possuem o dever de prestar alimentos. Sobre essa obrigação,
sempre deverá ser verificado o binômio necessidade-possibilidade, em que se analisam as
necessidades de quem pleiteia e as possibilidades daquele que deve prover. Uma vez que os
alimentos são prestados em razão do parentesco, a filiação fincada no vínculo socioafetivo que
não estiver devidamente registrada, deve provar o parentesco com base na existência da
paternidade socioafetiva, de forma a gerar os efeitos naturais de qualquer outra espécie de
filiação comum. (MUNIZ, 2011).
Ademais, com a leitura do artigo 1.696 do Código Civil, extrai-se que “a prestação de
alimentos é recíproca entre pais e filhos, e extensivo a todos os ascendentes, recaindo a
obrigação nos mais próximos em grau, uns em falta de outros” (BRASIL, 2002). Assim, veja-
se que os pais socioafetivos também podem pedir alimentos a seus filhos, uma vez que se trata
de um direito recíproco.
A fixação da guarda da criança deve sempre resguardar o seu melhor interesse, ou seja,
deve-se buscar quem possui uma maior afinidade com a criança e boas condições para criá-la.
Alguns tribunais já têm decidido a favor da guarda para aquele com quem a criança apresenta
se sentir mais segura e com quem ela demonstra ter uma maior afetividade. (PÓVOAS, 2012).
A guarda pode ser compartilhada ou unilateral. Nos casos em que a guarda
compartilhada é concedida, deve haver harmonia no relacionamento dos pais para garantir o
crescimento saudável da criança, caso contrário, deve-se determinar a guarda unilateral para
aquele que apresentar maior aptidão em desempenhá-la, nos moldes supracitados de
afetividade, confiança e condições. (CASSETARI, 2015).
Em relação ao direito de visitas, este deve ser aplicado da mesma forma que ocorre nos
casos de biparentalidade, respeitando sempre o melhor interesse da criança, uma vez que todos
os pais têm direito à visita, sem distinção entre biológicos e afetivos, como preceitua o artigo
1.589 do Código Civil quando diz que “o pai ou a mãe, em cuja guarda não estejam os filhos,
poderá visitá-los e tê-los em sua companhia, segundo o que acordar com o outro cônjuge, ou
for fixado pelo juiz, bem como fiscalizar sua manutenção e educação” (BRASIL, 2002).
Assim, Guimarães (2000) defende que, mesmo quando o pai socioafetivo não estiver
devidamente declarado por sentença, ele possui o direito de visitação, apesar de tal
entendimento não se encontrar expresso no ordenamento jurídico brasileiro. Desta forma,
inexistindo legislação inerente à paternidade socioafetiva, deverão ser utilizados, além dos
princípios constitucionais fundamentais, a analogia, os costumes e os princípios gerais de
43

direito, conforme determina a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (BRASIL,


1942).
Com o reconhecimento da multiparentalidade, o filho socioafetivo adquire a qualidade
de herdeiro, tendo assegurado seu direito de pleitear a herança, além de poder propor ação de
nulidade de partilha. É necessário ressaltar que ele também se sujeita à indignidade e
deserdação. Nesta perspectiva, tem-se que as linhas sucessórias devem ser estabelecidas em
conformidade com o número de genitores existentes. Assim, postula Dias (2015) que os filhos
concorrem na herança de todos os pais, não devendo existir prevalência entre filhos biológicos
e afetivos, motivo pelo qual a criança concorre com todos os irmãos em igualdade de condições
e é considerada herdeira necessária.
Seriam estabelecidas tantas linhas sucessórias quantos fossem os genitores. Se morresse
o pai/mãe afetivo, a criança seria herdeira em concorrência com os irmãos, mesmo que
unilaterais. Se morresse o pai/mãe biológico, aquele menor seria sucessor. Se morresse a
criança, seus genitores seriam herdeiros. (PÓVOAS, 2012).

4.3.1 Cumulação da filiação socioafetiva e biológica no registro de nascimento

A admissão da multiparentalidade pressupõe o reconhecimento da possibilidade de


cumulação entre as filiações biológicas e afetivas, ambas com igualdades. Desta forma,
reconhecimento da filiação socioafetiva e biológica no registro de nascimento é, além de um
direito dos envolvidos, também uma obrigação constitucional, em decorrência dos princípios
norteadores tanto da filiação como da multiparentalidade, como o princípio da dignidade da
pessoa humana e o princípio da afetividade. (DIAS, 2015).
Para Welter (2003), os direitos e deveres aplicáveis à filiação biológica devem ser
observados e estabelecidos para a filiação socioafetiva. O mesmo autor entende que não é
correto afirmar, como o faz a atual doutrina e jurisprudência do mundo ocidental, que a
paternidade socioafetiva se sobrepõe à paternidade biológica ou, ainda, que a paternidade
biológica se sobrepõe à paternidade socioafetiva, pois ambas as paternidades são iguais, não
havendo prevalência de nenhuma delas, exatamente porque fazem parte da condição humana
tridimensional, a qual é genética, afetiva e ontológica.
Entretanto, tal entendimento não é irrefutável na doutrina, havendo doutrinadores como
Farias e Rosenvald (2011) que atestam que o reconhecimento da paternidade socioafetiva
implica no afastamento do vínculo biológico, não podendo este exercer o poder familiar ou que
44

requeiram, contra este, alimentos ou direito à herança, por exemplo. Defendem assim, que a
filiação socioafetiva produzirá efeitos patrimoniais e extrapatrimoniais.
Destarte, a possibilidade de coexistência de filiações biológica e socioafetiva vem sendo
admitida pela doutrina e também pela jurisprudência, entendendo-se não serem elas excludentes
entre si, como destaca Paiano (2017), a qual aduz também que, ao mesmo tempo que pode se
ter o vínculo biológico com o pai ou mãe, também é possível o vínculo socioafetivo com o pai
ou mãe de criação, adotivos ou padrastos e madrastas, sendo demonstrado o que se denomina
multiparentalidade.
A propósito, cabe destacar o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal, no Recurso
Extraordinário n. 898.060, em regime de repercussão geral (Tema n. 622). Nesta oportunidade,
discutia-se sobre eventual prevalência da paternidade socioafetiva sobre a biológica, porém, a
decisão abarcou também a multiparentalidade. Com efeito, em seu voto, o Relator Ministro
Luiz Fux proferiu entendimento de que cabe ao filho, conforme seu próprio interesse, decidir
se mantém em seu registro apenas o pai socioafetivo ou este e o pai biológico. (BRASIL, 2016).
A partir do Recurso Extraordinário n. 898.060, foi fixada a seguinte tese: “A paternidade
socioafetiva, declarada ou não em registro público, não impede o reconhecimento do vínculo
de filiação concomitante baseado na origem biológica, com os efeitos jurídicos próprios”
(BRASIL, 2016).
A possibilidade de dupla filiação registral consagra documentalmente o registro da
multiparentalidade, devendo os atos judiciais e extrajudiciais que declararem e reconhecerem a
filiação ser averbados em registro público, como dispõe o artigo 10, inciso II, do Código Civil,
que fundamenta a necessidade de averbação de dupla filiação reconhecida (BRASIL, 2002).
Mediante o registro civil, deve-se refletir a realidade fática para que se tenha segurança
jurídica quanto às informações nele constantes, eis que não teria sentido ter a admissibilidade
da sociafetividade sem a possibilidade de sua alteração registral, que nada mais é do que ter
registrada documentalmente uma filiação já reconhecida. Portanto, com o reconhecimento da
filiação socioafetiva, bem como seu respectivo registro, nada mais razoável do que a averbação
no registro civil de tal realidade também no caso da multiparentalidade. (CASSETARI, 2015).
A admissibilidade de uma paternidade socioafetiva somente é um acréscimo no registro
civil e não uma mera substituição do sobrenome anterior, de forma a não existir dúvidas quanto
à identidade da pessoa ou desobrigar eventuais responsabilidades do genitor, eis que não há
motivos existentes para o Estado coibir o desejo do filho em acrescentar ao seu nome o
sobrenome daquele que efetivamente o criou, sendo possível a utilização do nome socioafetivo
e biológico ao mesmo tempo. (LOBO, 2018).
45

5 CONCLUSÃO

No decorrer da presente investigação, vislumbra-se o enfoque sobre a


multiparentalidade, isto é, a pluralidade de relações parentais. Neste contexto, em um primeiro
momento, abordou-se brevemente a evolução história e legislativa da família no mundo e no
Brasil, desde a ideia de família composta, com o casamento, por homem, mulher e filhos,
pautada no patriarcado, em que a figura da autoridade familiar recaía sobre o genitor, até a
família da contemporaneidade, moderna, baseada em laços afetivos e em novas concepções de
unidade familiar, para além dos padrões restritos do matrimônio e da ideia de homem e mulher,
com um ou mais filhos.
A partir da ideia de família, começa a surgir o estudo de alguns institutos importantes.
O primeiro deles, certamente, é o de parentesco, que é um vínculo jurídico estabelecido,
podendo ser natural, por afinidade, ou civil, a depender se tal vínculo resulta da
consanguinidade, da relação entre cônjuge ou companheiro e os parentes do outro, ou de outra
origem.
Outro instituto, tratado em capítulo próprio devido a tamanha importância, é o da
filiação, consistindo na ligação existente entre pais e filhos. Viu-se que esta pode se dar pela
relação biológica, também dita, de consanguinidade, mas também pela relação socioafetiva,
entre pais adotivos e filhos adotivos ou provenientes de inseminação artificial heteróloga. Sem
dúvidas, a filiação socioafetiva transmite a complexidade das relações familiares, por vezes
muito ignorada. A filiação mostra-se de suma importância, pois é a partir dela que ficarão
atribuídos os direitos e deveres de cada indivíduo.
A filiação, então, com alicerce no afeto, encontra fundamento na busca da felicidade.
Com isso, abriu portas para que não fosse considerada somente do ponto de vista genético, mas
sim, também, do amor e da convivência, pautada na relação socioafetiva. Nesse prisma,
destacou-se a ideia de família multiparental.
A família multiparental, caracterizada pela pluralidade de relações parentais, se justifica
na combinação de diferentes critérios de filiação, originados de diferentes situações. Bem
verdade, a multiparentalidade se pauta na ideia de reconhecimento jurídico de mais de um pai
ou de mais de uma mãe à uma mesma pessoa.
Durante muito tempo, a relação multiparental foi uma interpretação admitida somente
pela doutrina, porém, aos poucos veio sendo reconhecida em âmbito judicial, até ser
consolidada, recentemente, mais especificamente no ano de 2016, pelo Supremo Tribunal
Federal, no julgamento do Recurso Extraordinário n. 898.060, ao ser proferido o entendimento
46

de que cabe ao filho, conforme seu próprio interesse, decidir se mantém em seu registro apenas
o pai socioafetivo ou este e o pai biológico.
O reconhecimento jurídico acerca da multiparentalidade, por certo, não somente
estabelece o vínculo, como também passa a gerar todos os direitos, deveres e impedimentos
existentes entre familiares. Em outras palavras, admite-se a aplicação das mesmas regras
previstas para o parentesco natural. Assim, abriu-se abre margem para efeitos jurídicos
decorrentes de seu reconhecimento, como o direito a alimentos, de guarda, e até mesmo o de
herança.
De fato, a multiparentalidade abre a mente do legislador brasileiro, abrangendo relações
mais complexas que àquela prevista em Lei. E, considerando que o direito deve acompanhar a
evolução da sociedade, eventualmente, diante da inércia legislativa, era certo seu
reconhecimento tanto em âmbito doutrinário como em âmbito jurisdicional. Porém, em que
pese hoje já exista consenso em relação ao tema, frisa-se pela necessidade de previsão legal
para resguardar ainda mais os direitos daqueles que mantêm a relação multiparental.
47

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49

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