Domicilio
I — Importância da noção. O ordenamento jurídico dá relevância, para
variados efeitos, à noção de domicílio, como ponto de conexão entre
a pessoa e um determinado lugar. Assim, por exemplo:
a) O foro geral, em matéria de competência territorial dos tribunais,
isto é, o tribunal competente para quaisquer acções, salvo disposição
especial, é o domicílio do réu (art. 85. ° do Cód. de
Processo Civil) (293);
b) A prestação debitaria deve ser efectuada no lugar do domicílio do
devedor (art. 772.° do Cód. Civil) e no caso de obrigações
pecuniárias, no lugar do domicílio que o credor tiver ao tempo do
cumprimento (art. 774.°): cfr., ainda, em matéria de cumprimento das
obrigações, os artigos 775. ° e 1039.0;
c) A sucessão por morte abre-se no lugar do último domicílio do seu
autor (art. 2031. °);
d) O elemento de conexão decisivo para a determinação, segundo o
direito internacional privado, da lei aplicável a relações conexionadas
com várias ordens jurídicas, é, em alguns casos, o domicílio (art. 32.)
(294).
É, igualmente, no domicílio da pessoa que devem ser praticadas as
diligências ou efectuadas as comunicações dirigidas a dar-lhe
conhecimento pessoal de um facto, quando esse conhecimento seja
pressuposto da produção de determinados efeitos. Se o destinatário
da comunicação ou da diligência (p. ex., uma declaração negocial de
denúncia de um contrato ou uma citação judicial) não se encontra no
seu domicílio nem com ele assegurou um contacto, os actos
respectivos não deixarão de vir a produzir, por esse facto, os efeitos
jurídicos a que tendem. Em suma, há uma presunção de presença da
pessoa no domicílio, com o que se visa impedir escapatórias.
O conceito de domicílio voluntário geral é-nos fornecido pelo artigo
82." e coincide com o lugar da residência habitual.
Não se trata do local onde a pessoa se encontra em cada momento,
isto é, não coincide com o paradeiro, a que se refere o artigo 225. ° e
cuja noção se pode descortinar no artigo 82.°, n.° 2. Não se confunde
também com a residência, com o local onde a pessoa está a viver
com alguma permanência. Sem dúvida que a residência habitual
onde a pessoa vive normalmente, onde costuma regressar após
ausências mais curtas ou mais longas, nos fornece o critério do
domicilio do artigo 82.° Mas a residência pode ser ocasional, se a
pessoa vive com alguma permanência, mas temporária ou
acidentalmente, num certo local. A residência ocasional não faz surgir
um domicílio, embora. Na falta de domicílio de uma pessoa, funcione
como seu equivalente.
Uma pessoa pode ter dois ou mais domicílios, se tem duas ou mais
residências habituais: um técnico tem uma habitação numa cidade e
outra habitação noutra localidade, passando alternadamente uma
semana, ou alguns dias, em cada uma delas, com habitualidade; ao
invés, quem costume passar algumas semanas por ano numa casa
arrendada ou de sua pertença, apesar de ali permanecer
temporariamente, não passa a ter aí um segundo domicílio.
Em regra, o estabelecimento do domicílio, bem como o seu termo,
resultam de um acto voluntário (de residir habitualmente num certo
local ou de aí exercer uma profissão). Este acto voluntário não é,
porém, um negócio jurídico, mas um simples acto jurídico,
verificando-se a produção, por força da lei, dos efeitos jurídicos
respectivos, mesmo que a pessoa em causa não os tivesse em mente
ou até os quisesse impedir.Ao lado do domicílio voluntário geral, a lei
reconhece um domicílio profissional (art. 83.°) e uni domicílio electivo
(266).
O domicílio profissional verifica-se para as pessoas que exercem uma
profissão e é relevante para as relações que a esta se referem,
localizando-se no lugar onde a profissão é exercida. Um comerciante
que reside habitualmente numa localidade e possui um
estabelecimento comercial, onde exerce a sua actividade, noutra
localidade próxima, tem dois domicílios: o domicílio voluntário geral
na primeira localidade e um domicílio, igualmente voluntário, especial
na segunda (296).
O domicílio electivo (art. 84.5 é uni domicilio particular, estipulado,
por escrito, para determinados negócios. As partes convencionam
que, para todos os efeitos jurídicos (=vime, comunicações recíprocas
surgidas no desenvolvimento da relação), se têm por domiciliadas (ou
uma delas se tem por domiciliada) em certo local, diferente do seu
domicílio geral ou profissional.
A fixação do domicílio voluntário, nestes casos, apesar de ser, salvo o
domicílio electivo, um acto não negociai (simples acto jurídico), exige
capacidade negociai de exercício de direitos (cfr. art. 85. °) (297).
O nosso direito conhece alguns casos de domicílio legal, isto é,
independente da vontade. É o que ocorre com o domicílio legal dos
menores e interditos (art. 85. °, que nos remete para o lugar de
residência da família ou do progenitor a cuja guarda o menor estiver
confiado, para o domicilio do tutor, etc.), com o dos empregados
públicos (art. 87. °) e com o dos agentes diplomáticos portugueses
(art. 88.°). São soluções ditadas pela ideia de comunidade de vida ou
por uma razão de ordem funcional.