ISSN 2237-6011 9
Agostinho e o processo formativo:
análise do conceito de educação em Santo
Agostinho
Enivaldo Ferreira NUNES 1
Resumo: Este artigo busca elucidar o conceito de educação em Santo Agostinho.
A metodologia utilizada foi a revisão bibliográfica. Foram pesquisados alguns dos
seus livros, entre eles Confissões, De Magistro, Solilóquios, e ainda, artigos de
autores contemporâneos que refletem sua perspectiva educacional. Sua biografia
é descrita considerando sua crise existencial como pano de fundo subjetivo de
sua produção literária. Na tessitura do pensamento educacional desse filósofo-
teólogo, o estudo analisou algumas das suas proposições peculiares sobre Deus,
alma, conhecimento e iluminação. Assim, foi possível verificar que a proposta
educativa de Agostinho visa uma abordagem que promova sentido, esperança e
autoconhecimento. O cerne do seu conceito de educação diz respeito à formação
de um alunado que consiste no novo homem cristão, e ao ser humano de todos
os séculos, visto que, para o bispo de Hipona, a crise existencial captura a pessoa
onde quer que ela se situe.
Palavras-chave: Educação. Iluminação. Razão. Conhecimento.
1
Enivaldo Ferreira Nunes. Especialista em Leitura e Produção de Texto pela UNICESUMAR.
Especializando em Educação Socioemocional e Projeto de Vida pelo Claretiano – Centro Universitário.
Bacharel em Teologia pela Faculdade Unida de Vitória e pelo Seminário Presbiteriano do Rio de
Janeiro. Licenciado em Filosofia pelo Claretiano – Centro Universitário. E-mail: revenivaldonunes@
gmail.com.
Revista Educação, Batatais, v. 13, n. 1, p. 9-23, jan./jul. 2023
10 ISSN 2237-6011
Augustine and the formative process:
analysis of the concept of education in Saint
Augustine
Enivaldo Ferreira NUNES
Abstract: This article seeks to elucidate the concept of education in St. Augustine.
The methodology used was a bibliographic review. Some of your books were
researched, between them The Confessions, De Magistro, Soliloquies, and
articles by contemporary authors that reflect their educational perspective.
Describe your biography considering your existential crisis as the subjective
background of your literary production. In the tessitura of the educational
thought of this philosopher-theologian, the study analyzed some of his peculiar
propositions about God, soul, knowledge and enlightenment. Thus, it was
possible to verify that the Augustine’s educational proposal aims at an approach
that promotes meaning, hope and self-knowledge. The core of his concept of
education concerns the formation of a student body that consists of the new man
Christian, and to the human being of all centuries, since for the bishop of Hippo
the existential crisis captures the person wherever he is.
Keywords: Education. Enlightenment. Reason. Knowledge.
Revista Educação, Batatais, v. 13, n. 1, p. 9-23, jan./jul. 2023
ISSN 2237-6011 11
1. INTRODUÇÃO
Pesquisar o pensamento de Agostinho quanto à educação é
uma tarefa necessária e relevante para a prática pedagógica. Sabe-
se que a educação é laica e que o posicionamento sobre educação
de Santo Agostinho reflete sua experiência de fé, bem como sua
confissão religiosa, o cristianismo. Entretanto, o pensamento desse
filósofo do limiar da Idade Média – demonstrado em estudos
realizados pelos autores José Melo (2015) e Evaniel Santos (2018)
– possibilita uma reflexão e discussão férteis, com novos conceitos
e abordagens educativas.
Este estudo encontra sua justificativa na crescente valorização
de um modo de ver o educando como um ser humano portador de
necessidades e habilidades que ultrapassam os limites cognitivos
e técnicos, penetrando outras instâncias como emoção, afetos e
sentidos, conforme sinaliza a Base Nacional Comum Curricular
(BRASIL, 2017, p. 9-10). Agostinho, no limiar do século V,
defendia uma forma de participação do educando em seu ato de
aprender, bem como uma defesa de sua capacidade intelectual para
analisar – mediante o exercício da racionalidade – o ensino que
lhe estava sendo comunicado. Nessa perspectiva, o pensamento do
bispo de Hipona reflete nos dias atuais, principalmente ao se pensar
que a educação implica num contínuo processo de autoaprendizado
e diálogo com novos conceitos.
O objetivo deste artigo é compreender o conceito de educação
em Agostinho. Assim, busca-se definir a responsabilidade do
educando em seu aprendizado, bem como responder à questão
sobre qual é a função do professor em seu ato de ensinar. Outro
objetivo almejado é identificar o alvo e a finalidade da educação
na perspectiva agostiniana; em seu pensamento, qual seria o tipo
de cidadão, de ser humano, que a educação deveria proporcionar.
2. METODOLOGIA
A metodologia utilizada foi a revisão bibliográfica. Gil (2009,
p. 44), afirma que esse tipo de pesquisa é desenvolvido “[...] com
Revista Educação, Batatais, v. 13, n. 1, p. 9-23, jan./jul. 2023
12 ISSN 2237-6011
base em material já elaborado, constituído principalmente de livros
e artigos científicos”. Desse modo, foram privilegiadas algumas
obras de Agostinho como Solilóquios (1998) – texto que ele simula
um diálogo com ele mesmo, no qual o educador é a razão, e ele
é o discípulo provocado pela sabedoria da razão. Esse material
foi importante para a pesquisa, visto que ele aborda a “teoria da
iluminação”, doutrina ensinada por Agostinho de fundamental
importância para elucidar seu pensamento educacional.
Outro material analisado foi Confissões (1984), que apesar
de não discutir de maneira específica a educação, fez-se necessário,
tendo em vista que nele são identificados aspectos importantes da
subjetividade de Santo Agostinho, como sua experiência religiosa
e sua relação com o conhecimento, seja filosófico, seja teológico.
Por fim, a obra De Magistro (1973), diálogo entre Agostinho
e seu filho Adeodato, com o qual ele estabelece uma exaustiva
discussão sobre a comunicação, mais especificamente, o papel
da linguagem na comunicação. Esse livro permite introduzir o
pensamento de Santo Agostinho em alguns pontos relativos à
educação, especialmente na função da linguagem, bem como
demonstrar a responsabilidade do mestre no ato de ensinar.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para entender o pensamento pedagógico de Santo Agostinho,
é necessário – conforme estudos de Redondo e Laspalas – considerar
não apenas sua obra, mas também sua própria vida (1997, apud
MELO, 2010, p. 411). Assim, abordar aspectos da biografia
desse “mestre da igreja” contribui para esclarecer seu conceito de
educação.
Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste, localizada na atual
Argélia, em 354. Sua mãe, cristã piedosa, chamava-se Mônica, e
seu pai, que viria a professar o cristianismo apenas em 371, pouco
antes de sua morte, era um africano romanizado e se chamava
Patrício. Patrício projetara para o filho uma carreira de professor de
Retórica, na época uma profissão bastante rentável e reconhecida.
Enviado à cidade de Madaura, o pequeno Agostinho dedica-se, em
Revista Educação, Batatais, v. 13, n. 1, p. 9-23, jan./jul. 2023
ISSN 2237-6011 13
seus primeiros anos de estudos, ao aprofundamento dos clássicos
latinos. Entretanto, foi em Cartago, localizada na atual Tunísia,
onde avançou nos estudos das disciplinas ensinadas nas academias,
como Geometria, Música, Dialética, Matemática e Retórica
(MONDIN, 1981).
Ainda na adolescência, Agostinho se entrega à vida sensual
e ao teatro, alternativa comum escolhida pelos jovens cheios de
vida daquela época. Nesse momento, ele mergulha profundamente
nas experiências que, posteriormente, denominaria “carnais”; seu
envolvimento com esses prazeres foi tão intenso que sua mãe o
expulsa de casa. Jovem, Agostinho conhece uma mulher, com a qual
conviverá dez anos e terá um filho, Adeodato. Houve tentativas, por
parte de sua mãe, em introduzi-lo entre os catecúmenos da igreja,
mas o jovem julgava a doutrina da igreja irracional. Em 373, com
a leitura de Hortênsio, livro de Cícero – que hoje não se tem mais
notícias –, Agostinho (1984, p. 63) se encanta pela Filosofia.
Aos vinte e nove anos, Agostinho já havia aberto uma escola
de Retórica em Cartago, recebe honras em concurso literário
e publica seu primeiro livro, Do belo e do conveniente. Nesse
período, movido por seu coração inquieto, Agostinho se envolve
com os maniqueus, a astrologia, o ceticismo acadêmico e com o
neoplatonismo. Na cidade de Milão, Roma, Agostinho ouve sermões
do bispo Ambrósio, cuja exposição traz-lhe novas compreensões
das Escrituras, vindo a receber o batismo no ano 386.
Ordenado bispo na cidade de Hipona em 395, tendo substituído
o bispo dessa cidade um ano depois. Aurélio Agostinho polemizará
com diversos líderes e movimentos que ameaçavam o pensamento
doutrinário da Igreja na época como Pelágio, os donatistas e os
maniqueístas. Em 430, com Roma sucumbida às invasões bárbaras,
Agostinho falece aos setenta e seis anos. Quanto ao seu valor para
o desenvolvimento do conhecimento e da cultura, Mondin (1981, p.
137) diz que ele foi “[...] um dos maiores gênios de todos os tempos
[...]”, e que “[...] o seu pensamento, merece, pois, um estudo amplo
e profundo”.
De todas as experiências vividas por Agostinho, a sua
conversão é a mais relevante para compreender o escopo do
Revista Educação, Batatais, v. 13, n. 1, p. 9-23, jan./jul. 2023
14 ISSN 2237-6011
seu pensamento. Ao render-se ao cristianismo, Agostinho dará
continuidade ao projeto da patrística – a exemplo de Clemente de
Roma –, que consiste em procurar um diálogo entre filosofia e o
pensamento cristão fundamentado nos textos sagrados do judaísmo
e cristianismo. As Escrituras serão, assim, a fonte principal, sob a
qual Agostinho submeterá suas reflexões. Ele enaltece as Escrituras,
e relativiza o valor de outras obras literárias: “Qualquer escrito que
se apresentasse a mim sem esse nome, por mais literário, burilado
e verdadeiro que fosse, não conseguia conquistar-me totalmente”
(AGOSTINHO, 1984, p. 64).
Entretanto, sua relação intelectual com a Escritura não ocorreu
sem crise, sendo que, em um primeiro momento, por causa de seu
orgulho, Agostinho (1984, p. 65) julgou o texto bíblico indigno, se
comparado com a qualidade literária das obras de Cícero. Ele conta
que se lançou ao estudo das Escrituras e, finalmente, as dificuldades
que tivera foram, então, dissipadas (AGOSTINHO, 1984).
Portanto, o pensamento pedagógico de Agostinho é fruto de
suas reflexões filosóficas, bem como de sua experiência individual
e de sua fé no propósito doutrinário do cristianismo (MORECHINI;
NORELLI, 2000 apud MELO, 2010, p. 440). Assim, Agostinho
organiza seu pensamento levando em conta todo o arcabouço
filosófico refletido ao longo de sua vida, mas também em diálogo
com seu universo existencial, experimentado em um contexto
histórico marcado por rupturas que fariam ruir o Império Romano.
Tendo em vista essas especificidades, é necessário
compreender o pensamento de Agostinho a partir de sua concepção
de Deus, alma e conhecimento. Em Solilóquio, depois de feita
uma prece introdutória, a razão pergunta o que ele deseja saber e
a resposta foi: “Desejo conhecer a Deus e a alma” (AGOSTINHO,
1998, p. 21).
Para o teólogo-filósofo de Hipona, Deus somente poderia
ser conhecido pela atividade da alma, mediante a iluminação,
pois Ele é o criador de todo o universo, e tudo que existe, existe
porque Ele existe. Mas, conforme o pensamento agostiniano, e o
conjunto da reflexão teológico-filosófica que dele sobressai, Deus é
considerado um ser pessoal, ou seja, o Deus da fé cristã se dispõe a
Revista Educação, Batatais, v. 13, n. 1, p. 9-23, jan./jul. 2023
ISSN 2237-6011 15
entrar em íntima e profunda relação com o ser humano. Assim, não
obstante a influência de Platão e do neoplatonismo no pensamento
de Agostinho, é notório seu afastamento das noções clássicas de
filosofia sobre Deus, conforme asseverou Santos (2018, [n.p.]).
No que tange à educação, tal noção de Deus ensejará uma
dimensão relacional entre discípulo e aluno, marcada por afetos
e a valorização da subjetividade. Nesse sentido, Mondin (1981)
compara o pensamento de Agostinho sobre Deus e as ponderações
da filosofia anterior:
Em conformidade com esse princípio, Agostinho não
procura a solução dos problemas filosóficos no estudo da
realidade externa, como fizera Aristóteles, e em geral,
toda filosofia grega, mas no estudo do mundo interior,
da alma. Pode-se dizer que, de modo geral, Agostinho
especula sobre a verdade não fora, como se tratasse de
coisa estranha, mas dentro, examinando a própria alma
(MONDIN, 1981, p. 140).
Além do conceito de Deus, a busca pelo que significa “alma”
ocupará a jornada reflexiva de Santo Agostinho. Para esse pensador,
a alma é o homem em sua grandeza; ela é entendida como superior
ao corpo e se serve dele; a alma é ainda espiritual, pois a ela é
dada a condição de conhecer a si mesma sem a colaboração do
corpo e de objetos sensíveis. Na medida em que se conhece, a alma
é percebida como uma substância que vive, que é imortal e entra
em relação com a verdade. Marcada pela condição de criatura e
inquieta espiritualmente, a alma deseja viver eternamente, buscar a
verdade e a felicidade, encontradas somente em sua entrega a Deus:
Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais
eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te
procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre
as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas
eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas
criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me
chamaste e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e
brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste
tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te
saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e
agora estou ardendo no desejo de tua paz (AGOSTINHO,
1984, p. 277).
Revista Educação, Batatais, v. 13, n. 1, p. 9-23, jan./jul. 2023
16 ISSN 2237-6011
Desse modo, para Agostinho, o ser humano – portanto, a alma
–, é um mistério (visto que é portador de uma condição sagrada,
fruto de amor e compaixão, resultado de um projeto infinito de
um Deus inteligente e sábio) e um grande milagre. Comentando o
pensamento de Agostinho acerca do ser humano em sua caminhada
formativa, Melo (2010, p. 417) ressalta que: “A insatisfação
natural do homem consigo o levaria a buscar, mas nem sempre,
o melhoramento pessoal, a realização da caminhada educativa”.
Logo, a educação deve estar a serviço da alma, de sua descoberta e
compreensão.
Outra reflexão que vai ocupar a mente inquieta de Agostinho,
é o conceito de “conhecimento”, sendo esta uma questão filosófica
com a qual Agostinho se deparou nos seus dias. Ele se opõe ao
ceticismo do seu tempo, procurando responder, filosoficamente,
que a verdade existe e que é possível conhecê-la. Sua inquietação
com esse tema fica demonstrada em seu livro De Magistro, no qual,
em diálogo com seu filho Adeodato, Agostinho (1973) procura
estabelecer o papel da linguagem no ato de conhecer.
Em sua concepção de conhecimento, Agostinho faz distinção
de modos operativos do ato de conhecer. Ele fala do conhecimento
obtido por meio dos sentidos, da razão inferior e da razão superior.
A ciência das cores, dos cheiros, é obtida mediante os sentidos,
porém, tal conhecimento necessita passar pela alma, a qual recebe
as imagens e sensações, que lhe são comunicadas pelo corpo. O
conhecimento científico é adquirido por meio da razão inferior, a
qual cabe a busca pelas leis universais, pela atividade por meio do
processo de abstração. Por fim, o conhecimento da razão superior é
aquele relativo às verdades eternas, o qual é alcançado por meio da
iluminação (MONDIN, 1981).
Assim, o conhecimento não é adquirido pelos sentidos,
nem pela razão independente, mas por meio da iluminação, cujo
conceito difere da clássica noção platônica de reminiscência.2 Essa
doutrina agostiniana consiste numa luz interior especial vinda
2
Para Platão (429-347 a. C.), reminiscência, ou anamnese, é o conhecimento obtido muito provavelmente
em estado pré-natal. Agostinho teve muita dificuldade com esse pensamento, pois acreditava que a alma
passava a existir a partir da concepção.
Revista Educação, Batatais, v. 13, n. 1, p. 9-23, jan./jul. 2023
ISSN 2237-6011 17
do próprio Deus, por meio da qual Ele torna as verdades eternas
compreensíveis no coração humano (MONDIN, 1981).
Contudo, a doutrina da iluminação não implica em inércia
por parte do discípulo em seu processo de aprendizado:
[...] a iluminação não pressupunha a passividade da mente
no exercício intelectivo, a exemplo de uma total concessão
do conhecimento por parte de Deus. A necessidade do ato
intelectivo explicava-se pelo fato de que iluminação divina
não liquidava a ação da vontade humana, nem o exercício
de sua condição, como causa segunda nesse processo
(MELO, 2010, p. 427).
As concepções sobre Deus, alma, conhecimento e sua relação
com a iluminação operam, juntamente com outras noções apontadas
como chaves-hermenêuticas na compreensão do pensamento do
bispo de Hipona, para tecer seu conceito de educação. Considerando
esse aspecto, já é possível indagar qual é a motivação que subjaz no
ato de aprender.
Agostinho (1984) entendia que a busca pela felicidade
é desejo de todo ser humano, pois todos querem ser felizes.
Inicialmente, ainda refletindo com base nos textos estoicos, ele
asseverava que o caminho da filosofia era a estrada a trilhar para
alcançar a felicidade. O sábio era quem, definitivamente, desfrutava
da felicidade. Posteriormente, tendo avançado e aprofundado o
tema da felicidade à luz do pensamento cristão, sobretudo a partir
dos textos do apóstolo Paulo de Tarso, Agostinho (1998) concluiu
que a felicidade plena não é possível neste mundo, mas apenas no
encontro definitivo com Deus, na posse de Deus, no gozo de Deus.
A projeção da felicidade para um por vir escatológico não
significa dizer que ao ser humano, e especialmente o cristão, lhe
é restringida toda felicidade no presente. Em relação a Deus,
fim último e posse da felicidade, Agostinho (1984, p. 278), diz:
“Quando estiver unido a ti com todo o meu ser, não mais sentirei
dor ou cansaço. Minha vida será verdadeiramente vida, toda plena
de ti”. Por essa afirmação, Santo Agostinho tem a percepção de
estar unido a Deus, assim, ainda que em parte, desfruta, agora, de
felicidade. Logo, subjaz em seu pensamento, a ideia de que aqueles
Revista Educação, Batatais, v. 13, n. 1, p. 9-23, jan./jul. 2023
18 ISSN 2237-6011
que desfrutarão da bem-aventurança eterna, já gozam, em certa
medida, de felicidade.
Portanto, sua concepção de felicidade está relacionada ao
seu conceito da própria condição humana: “E esta é a felicidade:
alegrar-nos em ti, de ti e por ti, é esta a felicidade e não outra. Quem
acredita que exista outra felicidade, persegue uma alegria que não
é a verdadeira. Não estando ainda repleto de ti, sou um peso para
mim mesmo” (AGOSTINHO, 1984, p. 278). Logo, a noção de
felicidade em Agostinho deve ser observada em relação ao seu
entendimento da condição humana, mergulhada no pecado, pois
estando a alma unida a um corpo corrompido, lhe era impossível
desfrutar da felicidade plena.
Posto isso, no pensamento educacional de Santo Agostinho,
o ser humano, ao assumir diante de Deus sua condição de humilde
criatura alienada, mergulha numa permanente tarefa educativa
com vistas a integrar e harmonizar todo o seu ser em Deus. Melo
(2010, p. 418) sintetizou bem esse processo: “Portanto, a educação
proposta por Santo Agostinho destinava-se aos que respaldados na
certeza de que desfrutariam do descanso em Deus, ousavam e não
tinham medo de buscar a felicidade completa”.
Todavia, se a felicidade deve ser o motivo da educação em
Santo Agostinho, há de se perguntar pelo objetivo, pelo resultado
que a educação, em seus moldes, poderia proporcionar. A partir
de sua pesquisa baseada nos estudos de H. A. Wolfson e W. W.
Jaeger, Santos (2018, [n.p.]) concluiu que o esforço da patrística,
especialmente de Agostinho, incorpora “[...] além de uma noção
de filosofia, uma noção de educação entendida como a formação
integral do ser humano”. Para esse autor, Agostinho, no rastro da
educação patrística de dialogar com a Filosofia, buscou aquilo que
ele chama de maturidade racional (SANTOS, 2018, [n.p.]).
Tal maturidade racional implica em refletir textos filosóficos
mediante operatividade da razão natural. Assim, à educação – em
seu nível mais desenvolvido –, caberia preparar o cristão para
leituras que se relacionassem com a vida, bem como a análise das
teorias assumidas e ensinadas pelos filósofos. A partir desse dado,
é exigido ao educando investigar textos filósoficos de maneira
Revista Educação, Batatais, v. 13, n. 1, p. 9-23, jan./jul. 2023
ISSN 2237-6011 19
racional, aprofundá-los e refutá-los, se fosse o caso (SANTOS,
2010, [n.p.]). Nessa mesma direção reflexiva, Melo (2010, p. 419-
420) esclarece: “Por isso, Santo Agostinho defendia a necessidade
de assumir a razão e a fé, não como frentes opostas, mas como
colaboradoras, como duas vias que levavam ao conhecimento da
verdade: a autoridade –Teologia – e a razão – Filosofia”.
Outra questão levantada para melhor compreender o conceito
de “educação” em Agostinho é qual seria a atividade do professor na
prática educativa. Seria o mestre mero comunicador de verdades?
Responder a essa pergunta é de suma importância, pois a própria
história da Pedagogia atesta uma constante inquietação nesse
sentido.
Para Agostinho (1989), o mestre é como um jardineiro, que
tem o poder de preparar o terreno, escolher a semente, plantar a
semente, regar, cuidar, mas não pode fazer germinar a semente que
plantou e acompanhou. Quem verdadeiramente ensina, é Cristo,
o mestre interior. Tal ensinamento fica claro não apenas em De
Magistro, mas também em seu comentário da primeira epístola de
João:
Vede aqui, um grande mistério (magnum sacramentum).
O som de nossas palavras chega aos vossos ouvidos, mas
o verdadeiro Mestre está dentro. Não penseis que alguém
pode ser ensinado por outro homem. Podemos admoestar-
vos pelo som de nossa voz, mas se não está dentro de vós
aquele que ensina, são vãs as nossas palavras [...]. O ensino
exterior é uma ajuda, uma exortação [...] (AGOSTINHO,
1989, p. 86-87, destaques do autor).
Ao ensinar pelas palavras, a tarefa do mestre, ou do professor,
ou de quem assume a tarefa de ensinar, consiste em ajudar, em exortar.
Se o Mestre interior, Cristo, não educar no coração, as palavras
e ensinos que ressoam da parte de fora serão vãs (AGOSTINHO,
1989). Em outros termos, as palavras são signos que farão sentido
desde que, no coração, as almas recebam a devida iluminação e
sentido. Assim, ao mestre restava a atividade pedagógica de
estimular, de encorajar o discípulo a buscar o conhecimento com
todo o coração e alma.
Revista Educação, Batatais, v. 13, n. 1, p. 9-23, jan./jul. 2023
20 ISSN 2237-6011
Considerando que a atividade do mestre é de encorajar,
de auxilar o aluno em seu aprendizado, pergunta-se qual seria a
responsabilidade do aluno no ato de aprender. Seria o discípulo,
para usar um conceito empregado em seus escritos, passivo, tomado
por uma inatividade sem interagir com o conhecimento?
A noção do ser humano como um ser portador de
individualidade, de persona, assumida e desenvolvida por Agostinho,
demarca o importante lugar que o educando tem em relação à sua
própria educação. Visto dessa forma, o aluno, enquanto pessoa, se
torna corresponsável por seu desenvolvimento. Santos (2010, [n.p.],
destaques do autor) esclarece esse aspecto ao dizer que:
A persona possui, por um lado, uma temporalidade cósmica,
pois encontra-se no cosmo como as demais criaturas. Por
outro lado, a persona possui uma temporalidade própria,
uma duração na qual é necessário desenvolver todas as
suas potencialidades, desde a fase infantil até a velhice. A
duração própria da persona inicia-se com o nascimento e
termina com a morte, sendo ela absolutamente irrepetível.
Assim, no pensamento de Santo Agostinho, o homem
não apenas participa de seu processo educativo, mas também
é responsável por ele. Melo (2010, p. 425) assinala essa
responsabilidade individual quanto ao ato de aprender:
A ação humana livre tinha uma função importante a
desempenhar no fenômeno educativo agostiniano: em
última instância, consistia em aceitar, submeter-se e
potenciar as diferentes manifestações da graça e até mesmo
ocultar sua misteriosa presença no coração humano.
Logo, comprometido com seu processo de formação, o
discípulo/aluno peregrina em direção à pátria celestial. Melo (2010,
p. 414) esclarece o sentido dessa finalidade educativa em Santo
Agostinho: “Assim, a educação assumiu o papel de viabilizar/
facilitar o caminho do homem cristão rumo ao seu fim último, a
conquista e a posse da ‘cidadania celeste’ e a condição de ‘cidadão
do céu’”.
Não se deve pensar, porém, que a perspectiva da proposta
formativa agostiniana seja meramente adesão à religião. Tal
abordagem diz respeito a um imperativo ontológico, pois para
Revista Educação, Batatais, v. 13, n. 1, p. 9-23, jan./jul. 2023
ISSN 2237-6011 21
Santo Agostinho o ser humano, criado à imagem e semelhança de
Deus, encontra-se agora sem paz, sem repouso, numa condição de
desespero e infelicidade. Nessa perspectiva, o cor inquietum é o
que marca e distingue a natureza humana; essa inquietude de alma
encontra seu porto em Deus: “[...] fizeste-nos para ti, e inquieto
está o nosso coração, enquanto não repousa em ti” (AGOSTINHO,
1984, p. 15).
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O conceito de “educação” em Agostinho verificado neste
trabalho diz respeito a uma educação cujo alunado consiste no novo
homem cristão. As concepções de Deus, verdade, alma, a partir da
Revelação, em diálogo com a Filosofia, nortearam suas ponderações
sobre o ato de aprender e ensinar. Assim, foi possível levantar que,
para Agostinho, a educação está associada ao desenvolvimento de
um ser humano visto integralmente, em suas dimensões espirituais,
existenciais, afetivas e intelectuais, como demonstram os estudos
realizados por Santos (2018) e Melo (2010).
Agostinho pensou em uma educação tendo como foco o
homem cristão, e de maneira mais abrangente, o próprio ser humano
enquanto ser fragilizado e solitário no mundo. Seu intelecto visava
tão somente um homem novo, que ousasse renunciar a toda e
qualquer realidade que se erguesse como valor absoluto. Em sua
concepção, o homem cristão que santifica sua vida, haveria de ser
guiado no conhecimento daquilo que era mais importante, ou seja,
o conhecimento de Deus e da alma. Agostinho responde, assim,
com sua teologia-filosófica, ao homem de seu tempo, marcado
pela derrocada de um velho mundo e irrompimento de um novo
completamente desconhecido, mas também ao ser humano de todos
os séculos, visto que, para Agostinho, a crise o persegue onde quer
que ele esteja.
Sua proposta educativa visa uma abordagem que promova
sentido, esperança e autoconhecimento. No bojo do conceito de
educação de Agostinho, há uma teia de relações envolvendo razão,
felicidade, crises, dores, fracassos, dúvidas, certezas, anelos,
Revista Educação, Batatais, v. 13, n. 1, p. 9-23, jan./jul. 2023
22 ISSN 2237-6011
esperança, relações, racionalidade e aspectos que envolvem noções
ainda inconscientes para o homem que aprende. Essa proposta
educativa multifacetada, elucida por que a cultura ocidental foi
profundamente afetada pelos escritos de Santo Agostinho. Isso
explica por que o Ocidente a partir de então até o século XII,
passará por um processo de agostinização. Sua influência não se
restringe apenas a esse período histórico, mas alcançará também
a modernidade, adentrando no tempo que muitos chamam de pós-
modernidade.
Algumas proposições de Santo Agostinho carecem de maior
aprofundamento para ampliar o propósito desta pesquisa. A noção
de “mestre interior”, a tese da iluminação e sua concepção da
função da linguagem no processo formativo são algumas delas.
Por fim, outra questão que também pode ser melhor investigada é
como o pensamento pedagógico de Agostinho pode ser refletido na
Educação Básica, considerando novos eixos e diretrizes educacionais
que buscam pensar as especificidades socioemocionais do aluno
em um mundo marcado por rupturas das diversas instâncias,
consideradas até então, como estruturadoras da organização social
e das identidades individuais.
REFERÊNCIAS
AGOSTINHO (Santo). Confissões. 4. ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1984.
AGOSTINHO (Santo). Solilóquios e a vida feliz. São Paulo: Paulus, 1998.
AGOSTINHO (Santo). De Magistro. Confissões. São Paulo: Abril, 1973. (Col.
Os pensadores).
AGOSTINHO (Santo). Comentário da primeira epístola de João. São Paulo:
Edições Paulinas, 1989.
BLACKBURN, S. Dicionário Oxford de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília:
MEC, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/documento/
bncc2versaõ.revista.pdf. Acesso em: 17 jul. 2021.
CHAUI, M. Convite à filosofia. Boenos Aires: 6. ed. Ática, 1997.
Revista Educação, Batatais, v. 13, n. 1, p. 9-23, jan./jul. 2023
ISSN 2237-6011 23
GIL, A. C. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2009.
GILSON, E. Introdução ao Estudo de Santo Agostinho. São Paulo: Discurso
Editoral/Paulus, 2006.
MELO, J. J. P. Santo Agostinho e o problema da aprendizagem humana. Imagens
da Educação. v. 5, n. 1, p. 82-94, 2015. Disponível em: https://periodicos.uem.
br/ojs/index.php/ImagensEduc/article/view/23787. Acesso em: 20 jul. 2021.
MELO, J. J. P. Santo Agostinho e a educação como um fenômeno divino. Revista
Educação e Filosofia, Uberlândia, v. 24, n.48, p. 409-434, 2010. Disponível em:
http://www.seer.ufu.br/index.php/EducacaoFilosofia/article/view/7975. Acesso
em: 10 jul. 2019.
MONDIN, B. Curso de Filosofia. v. 1. São Paulo: Paulus, 1981.
SANTOS, E. B. A noção de Educação para a mestria filosófica na patrística e
escolástica. Revista Educação e Filosofia. v.32, n. 65, mai/ago-2018. Disponível
em: https://doi.org/10.14393/REVEDFIL.issn.0102-6801.v32n65a2018-08.
Acesso em: 15 set. 2019.
Revista Educação, Batatais, v. 13, n. 1, p. 9-23, jan./jul. 2023